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Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio ( editor )
Place of Publication:
Belém, Pará
Publisher:
publisher not identified
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

Full Text






jomal


Pessoal


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIC FLAVIO PINTO - No 506 � Ia QUINZENA/FEVEREIRO DE 2012 * ANO XWV � R$ 3,00


MENOR


Lidiane Ia e "de malor"

0 escandalo teve repercussdo internacional: uma menor estava presa na mesma cela com 26 homens na delegacia de Abaetetuba. Mas isso jd 6 coisa do passado. Lidiane atingiu a maioridade - e continua na senda do crime. Quem ainda se interessa por ela?


L S. P ji pode ser tratada por seu nome
completo: Lidiane Silva Prestes. Ela deixou de ser menor de idade. Completou 20 anos. A partir de agora, talvez j~i ndo interesse mais senao a uma nicrosc6pica parcela da multiddo de gente que se chocou com a situado dela quatro anos atras.
Seu caso se tornou escandalo - nacional e internacional - no dia 20 de novembro de 2007. Ela foi descoberta numa cela coletiva


corn 26 homens em Abaetetuba, onde permaneceu presa durante 26 dias. Queixou-se de ter sido submetida a viol6ncia sexual, abuso sexual, ameaqas, agress6es fisicas, maus tratos e fome. Seus cabelos foram cortados, os pes queimados.
A jufza da 3 vara criminal de Abaetetuba, responsivel pelo processo da menor, Clarice Maria de Andrade Rocha, entao com 50 anos, foi absolvida pelo Tribunal dejus-


1mesmo a pior empresa do mundo?


avana bre o rio






tia do Estado, que nao acatou o parecer do Corregedor Geral, Constantino Guerreiro, pela punigio da magistrada. Mas ela acabou sofrendo a aplicagio da pena mais rigorosa da carreira da magistratura, a dernissao compuls6ria, corn vencimentos proporcionais ao tempo de servigo (de nove anos), pelo Conselho Nacional deJustiga, que avocou para si o processo.
0 diretor de secretaria da vara de Abaetetuba, Graciliano Chaves da Mota, disse na sindicincia instaurada para apurar a responsabilidade da juiza: ao inv~s de atender de imediato o pedido do delegado de policia, ela guardou o oficio na gaveta e s6 tomou uma provid~ncia depois que a noticia foi divulgada e virou escindalo.
Para ocultar seu erro, obrigou Graciliano a expedir uma certid~o falsa e adulterou a data do expediente, atravs do qual cientificava a Corregedoria do pedido da policia e solicitava autorizagio para a remoc~o da presa. No seu depoirnento, Graciliano assumiu a sua parte de culpa na trama. Explicando que agiu dessa maneira por pressdo da magistrada.
Ao se defender na sindic.ncia, a juiza revelou que a Policia Federal investigava na mesma 6poca a afro do narcotrifico em Abaetetuba, inclusive com a protec~o de autoridades locais. Um dos visados seria justamente o diretor de secretaria da vara. Clarice disse que, "obviamente", nada ficou provado contra o diretor de secretaria, "mas nio poderia ser diferente em razao de ter tido ele conhecimento da quebra do sigilo". Ou por ser realmente inocente, ji que a investiga9do da PF n~o avanqou sobre ele.
A reag o de Graciliano, ao saber que a juiza autorizara a quebra do seu sigilo telef6nico, a pedido da PF, "foi de revolta". Na presenga da pr6pria juiza e da secret~ria do gabinete, "ameagou todos que tinham contribuido para isso, citando o nome do promotor", declarou a magistrada. A denfincia sobre a falsificaqio do documento para a corregedoria, corn data anterior, seria a forma de vinganga que Graciliano adotou.
A comiss~o de sindicncia da Corregedoria deJustiqa do Interior, no entanto, deu mais cr6dito ao depoimento dele do que ao da juiza na reconstituigo dos


acontecimentos. Entendeu que a magistrada nao percebeu a gravidade da situasao da presa em dois momentos nos quais se manifestouno processo: ao manter o flagrante da pris~o e ao receber o pedido de transferncia. Por isso, redamou de Graciliano nao a ter alertado sobre a urg~ncia do pedido e foi surpreendida pela repercussdo da noticia.
S6 entao teria preparado o ofcio t Corregedoria, solicitando autorizaqio para a transferancia da menor. Para preparar o documento, recebeu ajuda da sua assessora Ana Dias. Apesar de ter participado da fraude, Ana referendou a versao de Graciliano. Segundo a juiza, por ser amiga do diretor. 0 dinico fato incontroverso nessa hist6ria 6 que a comunicaq;o s6 foi recebida em Bd6m no dia 23 de novembro de 2007, quando o escindalo ji se tomara incontornvel.
Por 15 a 7 (com urna abstengio e seis aus~ncias, pelo menos duas delas inexplicfveis), por6m, a maioria dos desembargadores do TJE decidiu rejeitar a abertura do processo administrativo disciplinar contra a juiza, arquivando os autos da sindicncia. A decisao provocou revolta e indignalo, no Pari e fora do Estado, levando o CNJ a intervir no caso. Menos de urn ano depois da aposentadoria de Clarice, determinada pelo Conselho em abril de 2010, o Tribunal de Jusda do Parr a nomeou para o cargo em comissdo de assessora de juiz junto ao gabinete da 6a vara civel de Belem.
Independentemente do dolo ou culpa individual no epis6dio, que pode revelar os erros cometidos pela juiza, quando da prisao da menor, Clarice acumulava a diregao do f6rum, a execugdo penal e o juizado civel e criminal, al6m de realizar o tribunal do jiiri. Uma estrutura que pode induzir a erros, como acontece em quase todos os 6rgios do govemo no interior do Estado. E que acaba transferindo o prego dos erros para a parte mais fraca, que paga a conta. A da juiza nao foi a maior, muito pelo contraio.
0 processo disciplinar, que contra ela nio foi adiante na justiga estadual, instaurado pelo Estado em 19 de dezembro de 2007, resultou no indiciamento dos delegados Ant6nio Fernando Botelho da Cunha, Celso Iran Cordovil Viana, Flivia Ver6nica Monteiro Pereira e Rodolfo Fernando Valle Gonqalves, embora a


condusio da comissdo, formada por tr~s delegadas, nio tenha sido un ime.
A Consultoria Geral do Estado concluiu seu parecer, em agosto de 2010, e endossou as recomendag6es do PAD para a demissao de todos por justa causa. S6 os investigadores S~rgio Teixeira da Silva e Adilson Pires de Lima foram inocentados. Tambdm a promotora da comarca foi absolvida pelo Conselho do Minist~rio PNiblico. Mas a hist6ria nao foi contada por inteiro. Nern terminou.
Retirada do Parr depois de muitas manifestag6es de protesto e indignasdo pelo fato, Lidiane entrou, no final de 2007, para o Programa de Protegao a Crianqas e Adolescentes Ameagados de Morte da Secretaria de Direitos Humanos da Presidncia da Repfiblica. Mas fugiu vifiias vezes da clinica Mansio Vida, em Brasilia, onde tinha tratamento especial, quase luxuoso, sob a premissa de que era uma pessoa plenamente recuperivel.


U ma vez na rua, se Jprosituia e praticava pequenos furtos para comprar crack, droga da qual se tornou dependente. Pelos furtos, acabou sendo presa e condenada, aos 17 anos, por tentar matar uma jovem com uma faca.
Passou pela unidade de intemago para menores infratores do Distrito Federal e, depois, por uma comunidade terap~utica mais simples, a 35 km de Brasilia, onde flcou durante 18 meses, at6 completar a maioridade.
Outras tentativas forar ainda feitas para reajusti-la, mas n~o parecem ter dado certo. Ela ganhou o mundo, sumiu. Entrou de vez na delinqii~ncia. Talvez no volte mais. Deixou de ser iniciais, recuperou seu nome, mas, por ironia, se tornou an6nima. Como milhares de jovens que atravessarn o limite da menoridade e ingressarn na senda do crime.
L.S.P. se tornou famosa no final de 2007, mas nesse mesmo ano por 13 vezes ela foi autuada pela delegacia de Abaetetuba, sendo quatro em flagrante. Uma vez como autora do fato, uma como infrato-


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ra, cinco como indiciada e seis como suspeita. Ndo era noviga no crime. Ficou por tr&s vezes presa na delegacia. S6 na iltima
6 que foi descoberta.
A primeira prisao de 2007 foi em 24 de junho, feita pelo delegado Rodolfo Gongalves. Foi liberada com o pagamento de fianga. A segunda prisao, por tentativa de furto, umrn ms depois (em 21 de julho), pela delegada Flvia Pereira. A menor foi liberada pelo Conselho Tutelar. A terceira prisio aconteceu dois meses depois (em. 14 de setembro), pelo delegado Celso Viana. A menor foi solta pelo mutirio da justiga. Todas as tr&s pris6es foram em flagrante. Mas ela nio era caso isolado de violkncia carceriria.
Em 26 de fevereiro de 2007, Antonio Fernando Botelho da Cunha, superintendente regional do Baixo Tocantins, corn sede em Abaetetuba, solicitou i juiza Clarice Andrade a transfer~ncia, "corn a maxima urg~ncia", da presa de justi~a Hilma Carla Oliveira Brabo, para o Centro de Recuperago Feminino, em Bel&n.
No dia 4 de marco a policia prendeu Sandra Branddo Bahia, que foi colocada na mesma cela de Hilma, "encontrandose ambas no corredor do xadrez" da delegacia, "expostas ao risco de serem vitimas de todo tipo e qualquer tipo de viol~ncia, uma vez que se encontram juntamente corn presos do sexo masculino", conforme outro oflcio do superintendente. No dia seguinte o delegado reiterou o pedido da semana anterior.
No dia 9 voltou a pedir a transfer~ncia urgente de Sandra Bahia, "uma vez estar dividindo cela corn outros presos do sexo masculino, em situa~io vexat6ria e de risco". Em 10 de abril pediu que fosse transferida pelo menos a metade dos 43 presos da delegacia "para as outras casas penais da Susipe [Superintenatnda do Sistema Penal, especialmente o Centro de Recuperaqo Regional de Abaet6". Uma mulher, Adriana Lopes Andrade, "divide espago junto a outros presos deJustiga". S6 depois do escfndalo 6 que 22 presos foram transferidos, restabelecendo-se a lotaao prevista.
No dia 3 de mao Fernando Cunha fez o mesmo pedido em relago a Adriana e outra mulher, Raimunda Socorro Lobato, que tamb6m estava presa, "ura vez inexistir dependencia especial para mulheres nesta Depol, permanecendo as


mesmas misturadas com os presos masculinos no corredor do xadrez".
Em 5 de novembro o superintendente pediu a juiza a transfer~ncia, "em cariter de urg~ncia", de Lidiane Silva Prestes, para ficar sob cust6dia do Centro de Recuperagio Feminino de Ananindeua, "uma vez que n~o possuimos cela para o abrigo de mulheres, estando a mesma custodiada corn outros detentos, correndo risco de sofrer todo e qualquer tipo de violkncia por parte dos demais". 0 oficio foi protocolado na secretaria da Yvara penal dois dias depois.
A juiza Clarice havia concedido liberdade provis6ria para Lidiane durante mutirio de audi~ncias da 3a vara em 18 de setembro de 2007. A promotora Rosana Parente Souza concordou corn o pedido da defensora piiblica. A detenta foi tratada pelo nome completo e nao pelas iniciais, como manda o Estatuto da Crianga e do Adolescente, porque foi considerada como tendo 19 anos. filha de Joicecleia de Nazar6 da Silva e Aluizio Alberto da Silva Prestes, residente em Abaetetuba. Ela foi presa em flagrante.
Uma certidlo de um cart6rio de Agildo da Costa Campos, de Barcarena, de outubro de 2001, a declara como nascida em 10 de dezembro de 1991, corn o nome de Lidiany Alves Brasil, filha de Roberly Silva Brasil eJoised6a F61ix Alves. Mas s6 foi registrada em agosto de 1997.
Ji a certidio do cart6rio do Aicarai, na mesma comarca de Barcarena, de Waldomiro da Costa Campos, de maio de 2008, declara que o nome dela 6 Michelle de Nazar6 Alves Brasil, nascida em 29 de outubro de 1991. Os nomes dos pals sio os mesmos (s6 a mae que tern o nome ligeiramente modificado para Francicla). Mas ela seria registrada em 7 de dezembro de 1995. Depois que ela foi retirada da cela, laudo do IML lhe atribuiu entre 15 e 17 anos.
A responsabilidade pela carceragem era da Superintend~ncia do Sistema Penal, atrav6s dos seus agentes prisionais, encarregados exelusivos da guarda de presos. Os agentes prisionais Benedito Amaral de LimaJoio de Deus de Oliveira e Marcos Serio Pureza 6 que ficavam corn as chaves-ca carceragem; Eram os responsiveis pelo recolhimento dos presos e ofomecimento da alimentago. Em Abaetetuba a transfer~ncia da carceragem passou para


a Susipe no final de 2006. A superintend~ncia foi criada em 2004.
Eliane Bel6m Pinheiro ingressou no sistema penal em 1993. Doze anos depois, em 2005, assumiu a direqqo do Centro de Recuperag~o Regional de Abaetetuba. No depoimento que prestou a comissio processante, em margo de 2008, a advogada, residente em Abaetetuba, mas nascida em Bel6m em 1967, disse que, durante sua gest~o A frente da Casa Penal de Abaetetuba, "nunca recebeu informagao por parte dos agentes [prisionais] no que diz respeito a agressio fisica ou viol~ncia sexual praticada contra mulheres dentro da Delegacia de Policia de Abaetetuba". Admitiu que a guarda dos detentos "6 de responsabilidade dos agentes prisionais". Que quem promovia a transfer~ncia de presos era o sistema penal e n o o judicdirio ou a policia.

L a quando FeMando Cunha 1 sumiu a superlntendencia de policia da regiao, o relaclonamento entre a delegacia e a casa penal ficou "mals distante". Cunha adotou essa atitude porque "questionava a responsabilidade sobre a carceragem",
considerando-a de inteira responsabilidade do sistema penal. Por isso, a partir de agosto de 2007, os alvaris de soltura, que eram encaminhados para o delegado, ficando arquivados no cart6rio da delegacia, passaram a ser entregues diretamente aos agentes pisionais.
Antes, "os alvaris de soltura eram entregues na delegacia para os policiais e estes entio apresentavam para os agentes prisionais, que retiravam o preso da carceragem, tanto que os alvaris de soltura eram dirigidos aos delegados". Corn a mudanga feita pelo novo superintendente, embora os alvaris de soltura fossem enderegados i Casa Penal, eram encaminhados pela justiga "diretamente ao agente prisional, pois o F6rum sabia onde os presos estavam recolhidos".
Corn essa nova situaqio, Eliane consultou atrav6s de oficio o superintendente da Susipe, "a fim de que fosse definido a quem pertencia a responsabilidade pela carceragem de Abaetetuba". Nio recebeu qualquer resposta.
Mas no ano anterior a direqao N[A da Susipe lhe havia pedido "ven-


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Parai: a divis o nao foi desfeita


O efeito do plebiscito de 11 de dezembro, quando mais de dois tercos do eleitorado paraense se recusaram a aceitar a divisao do Estado para a criaqdo de mais duas unidades federativas, de Carajfis e do Tapaj6s, deveni se refletir nas eleig6es municipais deste ano. Mesmo se tratando de disputas em mbito territorial restrito, que permite aos candidatos atuar apenas em uma base de votos, o suficiente para sua eleigdo, um dos seus efeitos poderA ser o de especializar a representacao politica.
O Para saiu polarizado da votagao do ano passado. As posic6es postas em questao pela consulta plebiscitiria segmentaram espacialmente o eleitorado em territ6rios conflagrados. Essa tensdo e esse Lii'mo conflitantes ficaram obscurecidos pelo resultado da votagao, na qual a esmagadora maioria da populacio se op6s aos projetos de emancipagio. Nio faltayam s6lidos argumentos contrfrios a essa aspiragio, e, em especial, forma corn que ela se expressou. Mas, ao se manifestar de maneira tdo vigorosa contra os separatistas, a regido metropolitana de Bel6m se isolou.
Seri uma vit6ria de Pirro se os vitoriosos nio perceberem a situago em


que ficaram e ndo tratarem de compensar os derrotados. Nem 6 o caso de compensagio, jd que a expresso se desgastou nas tentativas de camuflar as perdas causadas por iniciativas de impacto. Ao inv6s de compensar, o reequilibrio politico e territorial do Estado exige uma nova divisao de poder e a descentralizagdo administrativa. Sem isso ndo haverA o necess6,rio desarmamento dos espiritos, mobilizados por uma campanha aventureira e oportunista dos lideres dos projetos dos dois Estados.
Eles sabiam que as evidncias demogrfificas impossibilitavam a vit6ria. A derrota se tomou ainda maior por causa de uma campanha de marketing desastrada. Ao inv6s de tentar convencer a maioria dos paraenses sobre as vantagens da divisdo, atacou-os com a pretensdo de intimi&i-los ou diminuf-los, fazendoos assim incorporar o papel de algozes, de responsiveis pelos problemas das regi6es agora empenhadas em se libertar desse jugo. Ao inv6s disso, a campanha por Carajis e Tapaj6s suscitou o orguIho nativo e engendrou o receio de comprometer o futuro pela perda de suas riquezas naturais.


Uno ou tripartido, o ParA ja esti corn esse futuro ameagado pelas pr~ticas em curso de exploragao dessas riquezas, que seriam mantidas pelos defensores da redivisao. Mas des conseguiram convencer (ou iludir) as populag6es do Oeste e Sul do Estado de que os novos Estados s6 nio sairam pelo egoismo e tirania dos que controlam as engrenagens do poder decis6rio e querem manter a situagao atual, raiz das injustigas e desigualdades. A polaridade extremada poderi acabar corn o livre ir-e-vir de politicos que se destacaram na campanha do plebiscito.
Corn uma diferengx desfeita a ameaga da separagao da maior parte do territ6rio paraense, os que se poscionaram contra deixario de formar uma unidade, como a que persistiri nas fireas de Carajis e Tapaj6s. E que persistiio como campo de manobra para os lideres dos dois movimentos. Se des sabiam que a vit6ria era quase impossivel no plebiscito, agora as possibilidades de vit6ria pessoal se tornaram factiveis. Suas carreiras poderAo prosseguit
At6 agora a administragdoJatene nada fez para reverter essa situagao e restabelecer o entendimento politico entre as tr~s partes do Estado. Ao endossar o nome do deputado Zenaldo Coutinho, lider da frente contra as emancipa 6es, como candidato do PSDB a prefeitura de Be16m, parece indicar que continuari a agir assim, contra o sentido da hist6ria. Mesmo que nio haja candidato capaz de se harmonizar com a dificil e conflituosa hist6ria do Pari.


balmente" (como era feito boa parte dos pedidos e orientag6es) que ela "fiscalizasse aquela carceragem, bern como a de Vila dos Cabanos". Por esse motivo - e diante do novo procedimento do delegado Fernando Cunha
- Ellen decidiu "por planejar nurn tipo de cadastramento dos presos que estayam na delegacia, por6m, como saiu de f6nias, nio pode dar inicio aos trabalhos". Soube do escndalo atrav6s de um telefonema que urn agente prisional lhe deu. Disse que at6 esse momento nada soubera sobre a menor. Nada lhe fora comunicado a respeito.
Muitas das normas e ordens seguidas rotineiramente pelos integrantes do sistema penal em Abaetetuba n~o consta-


vam de qualquer documento escrito: eram dadas verbalmente. Os agentes prisionais, por exemplo, nio finham nenhuma orientagio por escrito sobre o recolhimento de mulheres A carceragem, admite Ellen, ressalvando: "os agentes regionais participaram de virios cursos e palestras relativos ao tratamento do homem encarcerado, e corn relagio A prisdo das mulheres, des sabiam verbalmente que o procedimento a ser adotado era ligar para a direglo da casa penal para a transfer~ncia imediata".
Inexistia igualmente norma escrita de orientacfo sobre como proceder "em caso de n~o haver condig6es de receber determinado preso". Mais uma vez os agentes deviam lanar rnio do que apren-


deram "atrav6s de cursos e palestras realizados pela Susipe". Como "nao havia condigao de se negar o recebimento de urn preso, o que acontecia era que quando a carceragern estava superlotada, os agentes e tamb6m os delegados telefonavam solicitando vagas" na casa penal.
A conclusio desses fatos 6 de que os maiores respons~veis pelos erros, que continuam a ser praticados, encontraram nos personagens de linha de frente o escudo para se proteger, ou bodes expiat6rios para imolar no altar da opinion piiblica. Dramas como o vivido pela menor continuam a se repetir. 0 esc.ndalo 6 quest~o de oportunidade. Ou acidente. Lidiane parece carta fora do baralho. Perdeu sua hist6ria.


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A Vale merece mesmo ser a pior empresa do mundo?


No dia 26 do m&s passado a mineradora brasileira Vale foi eleita a pior corporaqio do mundono PublicEyeAwards, corn sede em Zurique, na Suf9a, criada pelo Greenpeace suigo e a Declaragdo de Berna, que se apresenta como "o Pr~mio Nobel da vergonha corporativa mundial". Desde 2000, o PublicEye 6 concedido anualmente i empresa vencedora, escoIhida por voto popular, em fungao de problemas ambientais, sociais e trabalhistas, durante o F6rurn Econ6mico Mundial, na cidade suifa de Davos.
A antiga estatal Companhia Vale do Rio Doce foi indicada junto corn mais cinco empresas intemacionais: Barclays, Freeport, Samsung, Syngenta e Tepco. Das 88 mil pessoas que votaram, atrav&s da internet, 25 mil escolheram a Vale. As entidades que liderararn a campanha contra a mineradora a apresentararn como urna multinacional tipica, presente em 38 paises e corn impactos espalhados pelo mundo, o que serviria para atrair o interesse de moradores dessas nag6es.
Os organizadores do pr~mio levaram em consideragdo a particpaqao societaria que a Vale passou a ter, em meados de 2010, no Cons6rcio Norte Energia, responsfivel pela construgo da hidrel& trica de Belo Monte, no rio Xingu, "fator determinante para a sua inclusdo na lista das seis finalistas" do pr~mio.
Na nota que distribuirarn a respeito, as entidades que pedirarn votos contra a mineradora disserarn que a vit6ria da Vale foi comemorada em nome das "milhares de pessoas, no Brasil e no mundo, que sofrem corn os desmandos desta multinacional, que foram desalojadas, perderam casas e terras, que tiveram amigos e parentes mortos nos trilhos da ferrovia Carajfis, que sofreram perseguiq~o politica, que foram ameagadas por capangas e pistoleiros, que ficaram doentes, tiverarn filhos e filhas explorados/ as, foram demitidas, sofrem corn p~ssimas condiq6es de trabalho e remuneragao, e tantos outros impactos, conceder Ai Vale o titulo de pior corporagao do


mundo 6 muito mais que vencer urn premio. It a chance de expor aos olhos do planeta seus sofrimentos, e trazer centenas de novos atores e forgas para a luta pelos seus direitos e contra os desmandos cometidos pela empresa".


Em urn hotsite criado especialmente para divulgar a candidatura da Vale foram listados alguns dos principais problemas de empreendimentos da empresa no Brasil e no exterior. JA sabendo disso, a empresa criou seu pr6prio site corn o objetivo de contestar cada urn desses itens. A relacio das acusaq6es (ern negrito) e do sumirio das respostas (em itlico) constitui uma agenda do contencioso da empresa, segundo a vis~o dos seus criticos, que merece servir de guia:


Compra recente de A aquisifopela Vak de
grande parte do artpcaipio noprojeto de Belo
mplexo da Usina Monte (9%) 6 consistente corn a Hidrel6ica de Belo Monte estratgia de cresdmento da empresa, garanindo o suptimento departe de suas
necesidadesfuturas no Brasil

Abuso repetido dos direitos A Vale respeita epromove os direitos hunanos e condi46es de trabalho humanos em todas as suas atividades dentro desumanas de sua esfera de influinda

Deslocamento for(ado de pessoas Todas asfamlias envolvidasparticiaram em Mozambique totalmente do processo de reassentamento

Danos ambientais para os povos A Vale e as comunidades locais na Nova indigenas da Nova Caled6nia Caletknia assinaram umpacto de esenvolvumento sustentdvelpara a regido sul

Graves problemas de safide entre as A acusafiofoiprovada semfundamento, apds comunidades vizinhas A UPR de pesquisa detalhada reazadapelaATAM Monte IUbano nos arredores da UPR Monte Libano

Problemas corn a legislaco 0 SiID [para duplicaraproducto te ambiental relacionados corn o minrino deferro de Caratis] estd de acordo projeto SlD corn oprocedimento legalpadrdopara a obtenfdo da sua licenca ambiental

Greves de longa duraco no A Vale tern o maior respetopelos sinicatos Canadfi e enfraquecimento sindical trabalhistas e acredita na resolufdopaifica na Col6mbia das questies

A responsabilidade por 4% do total A Vale ndo 6responsivelpor4% das das emiss6es de C02 do Brasil emissies totais de C02 do Brasil e i, neste momento, a finica empresa latino-americana
no Indice de Lideranfa em Divulgafdo de
Emissdo de Carbono (CDLI)

0 despejo de 114 milh6es de A Vale cumpre ngorosamente a g'sla*cdo metros c6bicos de efluentes em ambiental em relafdo ao tratamento e descarte rios e oceanos de efluentes

Esti enfrentando 111 processos A Vale i transparente em rekzfdo aos seus legais e 151 investigag6es criminais processos legais e os relata em seu Relatdrio Anualde Sustentabiidade


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Corn essas respostas, a empresa
pode achar que desfaz os argumentos dos que a combatem, mas sua iniciativa nio 6 suficiente para mudar sua imagem negativa. Ficou claro que ela s6 foi a vencedora nessa sondagem intemacional por causa dos votos dos brasileiros. Podese alegar que o universo eleitoral foi muito pequeno, nio era representativo e sofreu de um mal de origem, com a tendenciosidade da maioria dos votantes.
No entanto, des representaram de fato a posigdo que parte da opiniio ptibica assumiu em relaqlo A Vale. Pelos mesmos motivos ou por outros, sob a mesma linha de raciocfnio ou segundo outros tipos de abordagens, eles consideram negativo o balango dos pr6s e contras da Vale.
t impossivel ndo entender a situagao pol~mica, e As vezes inc6moda da empresa, a contrastar com seu enorme sucesso financeiro, sem voltar privatizaao da Vale, feita pelo governo Femando Henrique Cardoso, em abril de 1997. Nem 6 preciso tratar do baixissimo valor de venda do controle acion6rio da maior produtora de min&rio de ferro do mundo, por 3,3 bilh6es de d6lares.
Esse valor continua a ser (e se torna cada vez mais, na medida do major esclarecimento) um esc ndalo. Mas hA urna consequ~ncia que s6 fez crescer desde entao: o papel do Estado na maior e mais valiosa das empresas que foram privatizadas no Brasil.
De forma direta ou indireta, o governo federal det~m mais de 60% do capital votante da Vale. A quase o dobro das a 6es que possui na Petrobr~s (32%). Nao se fala da privatizagio da estatal do petr6leo, como se outros acionistas que se reunissem tivessem mais peso do que Brasilia.
No caso da Vale, o poder piiblico ainda ficou com um tipo de agio especial, ago/den share, que Ihe permite corrigir os rumos da companhia se ela se desviar dos termos do edital de leil~o e da sua configuraglo de entio, que era estatal. Como o governo n~o usou o seu poder de controlador para impedir que a Vale caminhasse numa diregio contr~ria ao desejo do seu principal dono?
Lula esbravejou corn Roger Agnelli, o presidente que mais durou no comando da companhia, por 10 dos seus (agora)


70 anos. A rusga comeqou em 2008, levando A demissdo de Agnelli quase tr&s anos depois. Por que tanto tempo e celeuma se o governo podia ser mais eficiente sem precisar ser boquirroto, agindo?
A diverg~ncia de fundo entre os dois se baseava na demissao de 1.800 fimcionirios da Vale durante a primeira crise financeira internacional deste s&culo e na exig&ncia do presidente da repiiblica para que a Vale tamb&m atuasse na siderurgia e nao apenas na minera~ao, conforme Lula achava ser a estrat~gia de Agnelli.
O executivo, originArio do Bradesco, maior s6cio privado, caiu, e Murilo Ferreira assumiu. Tudo aparentemente mudou e tudo, em substincia, permaneceu o mesmo.

N a verdade, ou a empresa
esta fazendo o que, no untlmo, o govemo quer, ou endo o 0governo nAo sabe, de fato, fazer diferente, dar efeito concreto A sua ret6rica de mudanca.
Talvez porque a Vale se tenha tornado grande demais para a pr6pria envergadura do Estado nacional brasileiro.
A Vale 6 a maior empresa privada da Amr&ica Latina. t a segunda mineradora do mundo, atris apenas da BHP/BiIliton. Tem 500 mil acionistas espalhados pelos cinco continentes, nos quais atua, em 38 paises, com 126 mil funcion~rios. t responsivel por metade das exportaq6es brasileiras corn o produto que esti no topo do ranking, o min&io de ferro.
No ano passado bateu o recorde hist6rico de produgdo: 308 milh6es de toneladas. Entre 65% e 70% desse min&io vai para a Asia, em especial para a China (80% do mercado asiatico), o pais que mais se expande no mundo. Proporciona 10% do saldo liquido de divisas do Brasil, que nunca faturou tanto.
0 balango da empresa, prometido para divulgago no pr6ximo dia 15, dever. registrar um lucro liquido recorde, de 30,1 bilh6es de reais, dos quais 6 bilh6es de d6lares (ou R$ 11 bilh6es) serlo distribuidos como dividendos aos acionistas, 50% a mais do que em 2010, algo sem equiparagio no mercado brasileiro. Em 2010 a Vale ultrapassou momentaneamente a Petrobris. Seu valor de mercado passava de 300 bilh6es de reais.


Neste ano pretende investir US$ 21,4 bilh6es, 69% no Brasil. Sua capacidade de investimento 6 bern superior a do governo brasileiro, que, para fazer obras num ano eleitoral, promete que fazer o que menos gosta: cortar seus gastos de custeio.
A modelagem do leildo, feita pelo Bradesco, visou privatizar a Vale ser tirar-lhe a estrutura de estatal. A busca pelo crescimento acelerado e o lucro multiplicado incrementou essa estrutura de governo, dando a nova Vale uma fisionomia bifronte: ora de empresa privada, ora de governo.
Por isso, 6 mais do que uma multinacional. Que multinacional opera oito portos, sendo que dois deles (Ponta da Madeira, em Sio Luiz do Maranh~o, e Tubar~o, em Vit6ria do Espirito Santo) estio entre os maiores do mundo? E que multinacional ainda ganharia mais concess6es para interligar entre si essas duas vias expressas de exportaqdo, uma delas (Carajis) com o maior trem de cargas do mundo? Que multinacional manteria sob seu controle monopolistico 9 mil quil6metros de linhas f~rreas? E teria direitos minerifios sobre 280 mil quil6metros quadrados em um dinico pais?
tB coisa demais para caber na agenda de uma empresa privada, por mais poderosa que ela seja. A Vale tinha, at6 ser privatizada, outra gl6ria: a maior frota de navios graneleiros do mundo. Toda essa frota foi alienada na gestio Agnelli, sem qualquer reagio por parte da opiniAo pdblica e do governo.
Quando o faturamento do frete, sobretudo para China, adquiriu tamanho lucrativo fascinante, o percurso foi invertido: de uma s6 vez Agneli encomendou a estaleiros da China e da Coreia do Sul 18 dos maiores navios de transporte de min6rios de todos os oceanos, cada um deles corn capacidade para 400 rnil toneladas. Na divisio, a Cor~ia recebeu sete navios e US$ 748 milh6es, enquanto A China foram pedidos 12 navios, ao custo de US$ 1,6 bilhao.
No dia 19 do m&s passado o primeiro desses gigantes, o Vale Rio dejaneiro, completou a primeira viagem completa do novo ciclo e chegou ao mais movimentado porto do mundo, o de Rotterdam, na Holanda. Foi recebido com admiragio e espanto mesmo por olhos acostumados a esses mastodontes flutuantes.


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A grande voz


S6 nio chegou com a carga completa por causa do lastro: para entrar no canal do porto teve que deixar no Brasil 14 mil toneladas. Viajou corn 386 mil. Ainda assim, a maior carga de min6rio de todos os tempos a circular pelos mares.
Mas onde pode aportar esse monstro de aqo carregado de sua mat6ria prima? Mesmo com a encomenda de parte dessa frota, que deveri ser concluida no pr6ximo ano, a China esti criando problemas para receber os cargueiros da Vale nos seus portos. Nao 6 problema insolivel, claro.
Nada que um acerto de pre~os e uma composiqo de fretes nio resolvam. Mas 6 problema surgido depois da decision de reconstituir a frota, que foi vendida a preqo de sucata, quando a Docenave estava em plenas condiq6es de continuar a transportar o min6rio, como vinha fazendo corn 6xito at6 entao.
Hfi outro problema. 0 primeiro dos cargueiros trazidos da Cor6ia do Sul (mas foi batizada como Vale Beijing, em homenagem capital do pals que 6 o major ciente de todos), em sua operaqo inaugural, rachou ao embarcar min6rio no porto de Sao Lufs. Por pouco nio foi a pique na baia de Sao Marcos, uma amea~a ecol6gica, ambiental e econ6mica.


Agora sua carga estAi sendo retirada corn cuidado, depois do esgotamento do combustivel, para que ele volte ao ponto de origem e se restabelega. E os outros? E qual o montante do prejuizo que a empresa e o pals sofreram pela decisio de acabar corn a frota da Docenave e, s6 anos depois, reconstruf-la em estaleiros estrangeiros?
Esta nio 6 apenas uma questio de defender os estaleiros nacionais, j~i que um navio corn bandeira brasileira tamb6m se deu mal na primeira viagem. 1 uma questio de maior transcend~ncia: o Brasil estA se beneficiando o quanto seria possivel da explorago das suas riquezas pela Vale? Devia mesmo estar exportando tanto? Os acionistas estao A frente de todos na colheita dos resultados, tirando para si o que devia set mais bern distribuido, inclusive aos que participam diretamente do processo produtivo?
Se o titulo negativo concedido A Vale, mesmo que A custa de argumentos inconsistentes, iver o efeito de chamar a atengo da sociedade brasileira para uma hist6ria que se desenrola aos seus olhos sem atrair a sua participago, teri valido a pena a votado.


EttaJames, que morreu no ms passado, foi muito mais longe na vida do que se podia prever: a leucemia a abateu cinco dias antes de completar 74 anos. Ela sofria tamb6m do mal de Alzheimer e problema nos tins. Abusou da droga. Teve incidentes sem fim. Sofreu muito, no corpo e na alma. Chegou a pesar 200 quilos. Uma cirurgia tirou metade desse tamanho. Mas nio as angdistias que deviam estar por tris desse gigantismo, tipico de quem ji ndo tern malor apre~o pelo pr6prio corpo.
Sem dilvida foi uma das maiores cantoras de todos os tempos. No entanto, s6 recebeu o major pr~mio da canqio do seu pals, o Grammy, 39 anos depois de gravar o primeiro disco, que Ihe deu famainstantnea: At Last. J era grande. Ficou sublime ao prestar sua homenagem a sua equivalente na vida e na msica: Billie Holiday. Ningu6m cantou Billie igual Perfeita, ser set c6pia, imitago. Etta tinha melancolia pr6pria para acrescentar A de Billie.
Talvez ndo tanta carga, mas quem sabe? Nio era filha apenas de negros, como a Lady, cuja autodestruicio Ihe permitiu chegar apenas aos 44 anos, numa decad~ncia que resplandeceu no disco terminal, Lady in satin, de 1959. E estranho que Etta s6 tenha gravado Billie 35 anos depois, num r6bum de tributo com lugar garantido entre os maiores discos da muisica popular dos Estados, Unidos na companhia da acetinada gravago derradeira de Billie.
0 pai de Etta era branco, mas nao queria a assodagio i filha. Pagou-Lhe pensdo para ser ignorado. Uns compram carinho. Este adquiriu silncio. Nio se faz isso com ningu6m. Etta foi em frente como se sempre caminhasse para tris.

Djalma, o bom
Pouco conheci o Djalma Chaves esportista, que era a sua face mais pdblica. Nossos encontros aconteciam nos corredores forenses. Ele sempre tinha uma piada ou uma palavra amiga para o meu padecimento judicial. Era urn homem alegre, cheio de energia, bom, comoJeremias, personagem de Ziraldo. Foi-se em paz, mesmo sob o cancer que o vitimou. Foi brincar com Gileno, seu primo, nos campos de al6m-vida.


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mem6ria

DO COTIDIANO


CHIC
O Caf6 Carioca, o "ponto chic" da avenida 15 de Agosto (nossa Presidente Vargas), se preparou para o Cirio de Nazar6 de 1953. Tinha urn "sortimento notivel de biscoitos finos e bombons, lanches deliciosos e aperitivos sem igual", aldm dos "melhores sorvetes da cidade, a qualquer hora". E um requinte de iltima hora: queijos "de cuia". Sem falar "na prontidao com que atende aqueles que lhe do a preferencia da sua visita".

ASFALTO
O secretio municipal de obras, Manoel Cavaleiro de Macedo, anunciou, em 1954, o resultado da concorr~ncia p-iblica para a execucdo dos servigos de "tratamento superficial asffltico" das traves-


PROPAGANDA Boate da Assembleia
AAssembkia Paraense inaugurou JJl sua nova boate (ou boite, como entdo se grafava, sob a inspirafdo francesa) & em novembro de 1956. Ofereda aos assodados a apresentafdo da "soberba atrafao international", Claude Leroy, "cantorafran- M A AMS, cesa contratada di- A T retamentepelo c/ubepara essa noite" Mas quem quisesse ver o eipetdculo Yi- '" ' nha que comparecer com traje a rigor.


sas Lomas Valentinas, Humaitf e Mauriti, na parte compreendida entre as avenidas Almirante Barroso e Pedro Miranda (era o avango da urbanizagio pelo bairro do Marco). 0 vencedor foi Jonas Brito, seguindo-se Afonso Freire, Rui Almeida, Fortunato Gabay, Otivio Pires e Urbano Costa, que apresentou prego quatro vezes maior e o dobro do prazo do primeiro colocado.

ENERGIA
Em 1956, depois de ter instalado em Bel~m uma "modernissima unidade geradora de energia", a Forga e Luz do Pari (antecessora da Celpa) comegou a reforma, modemiza io e ampliagio da rede de iluminaio piiblica da cidade. A Philips do Brasil


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Aopiano, o maestro Guides de Barros acompanhaia Gerusa SouZa, aiim da convidada. Haveia servifo de restaurante.


ganhou a concorr~ncia para fomecer as luminarias incandescentes. Entusiasmada com o servigo, decidiu doar i capital toda a iluminagio da praga da Repfiblica. 0 gesto foi louvado pelo prefeito, Celso Malcher, e o presidente da Forluz, Dias Paes.
Mais de meio sculo depois, processo semelhante aconteceu, mas as rela 6es entre empresa privada e poder p-dblico ji nao sao mais daras como antes.

TELEVISION
Um dos principals acontecimentos de 1960 em Be16m foi a inauguraao da TV Marajoara, a primeira emissora de televisao do Pari e da Amaz6nia, e a s~tima do Brasil (depois de Sao Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Brasilia). Mas antes que a TV dos Diirios e Emissoras Associados (de Assis Chateaubriand) fosse inaugurada, a capital paraense jA dispunha de aparelhos de televis~o.
Depois de ter mandado seu filho, Afonso, fazer um curso de dois meses na fAbrica Semp, em Sao Paulo, Lauro Monteiro foi capital paulista para comprar os primeiros televisores. Trouxe-os consigo num v6o da Paraense Transportes Aereos e os colocou A venda nas suas Lojas Radiolux, na travessa 13 de Maio e na Galeria Comercial da Presidente Vargas, em junho
Os hoje mastodontes de vavulas se tornaram grande atragio jA ao serem desembarcados dos velhos DC-4 da PTA, no aeroporto. E atrairam curiosos aos montes quando instalados no salio de exposigao. Como a Marajoara ainda demorou a entrar no ar, se tornaram solene objeto decorativo. Com direito a to-


alha de mesa bordada e tudo mais, na sala nobre das residndas abastadas.

LOJA
A famosa Nilza Maranhao Pires Franco, neta do jornalista Paulo Maranhao e irmd do escritor Haroldo Maranhao, foi a anfitrid da abertura informal (soft open, como se diz hoje) da Loja Pires Franco, em dezembro de 1963. As portas foram simplesmente abertas e o pfiblico, muito curioso, comegou a entrar. Para animi-lo, estayam a postos os palhagos Nequinho e Alecrim.
Enquanto eles cuidavarn das criangas, os adultos circulavam pelos quatro andares daquela que devia ser a maior das lojas do circuitoJodo Alfredo/Santo Ant6nio, pr6ximo A esquina com a avenida Portugal (ao lado da famosa Lobr~is, ou 4 e 400).
A aus~ncia do dono da empresa, Victor Pires Franco Filho, se justificava: ele ainda estava no Rio de Janeiro adquirindo mercadorias para a inaugura�Ao oficial da loja, que seria logo em seguida. Ela era imponente.
O trreo abrigava artigos populares. Um supermercado foi instalado na sobreloja. No 10 andar, cal~ados e confec 6es, artigos de cama e mesa, mais uma boutique refinada, "originalidade em Bel6m", com artigos exciusivos. No 2' andar, linha de eletrodom~sdcos. Os dois primeiros andares dispunham de ventiladores. Os dois outros contavam com a novidade dos aparelhos de ar refrigerado, como entao se dizia.

INDUSTRIA
O Centro das Indiistrias do Pari, criado com a finalidade de "prestar assist~ncia t~cnico-administrativa As


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indfistrias do Estado, suas filiadas", foi instalado em junho de 1966, sob a presidncia do economista e empresfrio Armando Soares. Fundaram o CIP a Sio Bernardo Industrial (madeira),Jafi Indiistria e Comercio (confecg6es), Produtos Vit6ria (refrigerantes), Cata (fibras), Cibrasa (cimento), Fibrica Perseveranga (cordoaria), Sabino Oliveira (sabao), Alianna Industrial (produtos metlicos), Facepa (celulose), Paraense Transportes Aereos (aviago), Fibrica Vit6ria (alimentos), Cerpasa (bebidas), Ind&istrias Jorge Corr~a (alimentos), Brasil Extrativa, Tecejuta (fibras), Atinco (tinta), Ametal (metalurgia), Renda Priori (latas) e Agua Nossa Senhora de Nazar6. Dessas 16, apenas tres sobreviveram.


FOTOGRAFIA
Llvrarla boa
Era muito bomfazer lanfamento de lvro na Livraria DomQuixote, de Haroldo Maranhao. Suas instalacies eram tdo acanhadas que uma diz.ia depessoasjd a lotavam, dando ao escritor uma sensafdo de sucesso na jornada de autdgrafos. Como Cndido Marinho da Rocha, que autografou um dos seus hvros deficfdo, em 1960, na hvrana dagaleria do Cine Paki-o, pela travessa 0 deAlmeida (galena que continua a exisir, mas jd destituida do anigo bfilho). Detalhe da cena: todos ospresentes depakt, a major de cor brancta


ganhou da Crnara Municipal a concessdo para explorar o servigo de propaganda nas placas de sinaliza io da cidade. A empresa devia instalar 400 postes de concreto, corn a parte superior em acrilico e iluminagio a neon, com fios subterrineos.
A Pan ji tinha realizado servigo semelhante na avenida Almirante Barroso, na "estrada de Maracangalha" (atual Jilio Cezar) e no aeroporto. Apesar do acrilico e do neon, Belkm era mais bern sinalizada do que hoje. Muito mais.


SINALIZACAO
Em 1966, data dos 350 PALMEIRA
anos de Bel~m, ura empresa A Codern (Companhia privada de publicidade, a Pan, de Desenvolvimento da Area


Metropolitana de Belm), em nome da sua proprietiria, a prefeitura da capital, arrematou o "buraco da Palmeira" em abril de 2001. 0 lance foi de 1,92 milhio de reais, que correspondiam a 40% da avaliagio judicial do im6vel, de R$ 4,8 milh6es. Mas nos dois primeiros leil6es (pelo lance rnfnimo de 70% e 50% do bem), ndo houve interessados.
A irea pertencia A Enel, que sofreu execuqdo em 1965 por divida corn a previdncia social. 0 d6bito era de R$ 300 mil. 0 maior era com o IPTU, de R$ 6 milh6es. Por isso a prefeitura era a maior interessada e quem podia oferecer o maior lance.


No terreno funcionava a fibrica Palmeira, a maior ind&istria de panificagio e confeitaria que Bel~m jt teve. Al6m de ser tamb6m a melhor. 0 belo prddio foi criminosamente derrubado. Restou o terreno, que, escavado, se transformou em dep6sito de lixo, estacionamento precirio de veiculos, campo de futebol e esconderijo de ladr6es.
A administrator Edmilson Rodrigues, do PT, pretendia criar urn centro comercial, de lazer e cultura no local. Deixou, por~m, mais uma heranga maldita: urn buraco de concreto. 0 espaqo da Palmeira ainda procura um enredo decente.


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JORNAL DO LEITOR


BELtM
Um fato que se pode observar na andlise da realidade local: Bel(m, coma capital de um Estado riquissimo, ainda padece de coisas que hA muito deixaram de ocorrer em locals apoiadas por essa magonifica 'ferramenta- humana, coma e a ci~ncia, 'crescendo coma rabo de cavalo', ou seja, para baixo, numa expressao do jornalista LWcio Flivio Pinto?!
Ou serd que se pratica pseudociincia por estas bandas? Pois coma pode o mundo correr para se adequar ds "regras" da natureza enquanto Bel~m, ao contrdrio, busca um padrao arcaico de cidade, com o esgotamento das vias de transportes com o absurdo aumento de ve[culos circulando, com o escoamento das dguas pluviais e domiciliares em esgotos a c~u aberto sem o tratamento, para reaproveitamento do precioso liquido lanqado neles etc.?
Ou seja, encravada na regiao amazOnica, Bel~m poderia ser refer~ncia, para o mundo, de cidade mais adaptada A natureza num claro entendimento que ciencia sua linguagem refinada e, portanto, se comportaria como produtora e praticante de conhecimentos novos a partir dessa condicdo e posicao geografica - coisa que nao ocorre. E - o pior - a concepqdo que Bel~m " a terra do iA teve" tende a mant-la coma algo que nao se desenvolve (ou nd pretende tal coisa), pois tudo aquiIo que 6 tido como perdido sa coisa que nunca foram suas genuinamente, originais. SAo c6pias impostas de culturas que ndo se sustentam justamente porque a matriz (colonizadora) dissemina concomitante a isso, certamente de maneira proposital, tamb~m a fraqueza de personalidade alimentada por um tipo de carter que preza a sub-


serviencia, suficiente para fomentar a mentalidade saudosista, logo, escravista.
Assim, a ci~ncia que poderia ser a dliferen a para sanar problemas hist6ricos, se houver, tende a estar confinada em instituiq(es que as aplica para a formaqAo de ura mentalidade que tern por objetivo manter o status quo, fomentando uma cultura que desconhece as reals qualidades da regiao. Ou seja, nao hA pensamento crtico, o que produz uma pasmaceira, um estado de prostraqao bern observado pelo jornalista LOcio Fl&io Pinto (LFP).
Um excelente exemplo disso seria a realidade (cultura) que rende culto a Minotauro que nada mais 6 que a valorizacAo da pecuAria em detrimento da piscicultura em uma enorme bacia hidrogrAfica e riqufssima fauna aqudtica, que seria a base da producAo de alimentos dos belenenses, em particular, e paraenses, em geral. Esse tipo de cultura tao nocivo que, ao inv~s de haver a valorizaqao da produ Ao e, sobretudo. o consumo de pescado, o que se v 6 o aumento de areas para pecuaria bovina, com a alarmante rela:ao de cerca de 3 cabe as de gado para cada habitante do estado e onde rios sao aterrados para constru .o de pastos, numa profunda desconsideraAo com as caracteristicas amaz~nicas, as quais o belenense ceriamente 6 fiel depositArio caracteristica escamoteada por algo incorporado coma folclore da regido, coma o Boi BumbA, por exemplo, o mais destacado representante da "minotaurocultura", o que deveria ser observado (e ter seu impacto minorado, pelo mends) pelas cabeqas ditas pensantes e consideradas paraenses da gema, concentradas na capital, mas que, infelizmente, ndo acontece, fazendo com que Bel~m permaneqa resignadamente na faixa intermedidria, coma citado anteriormente, ao inv s de super-la e sugerindo tamb~m que todo conhecimento (cincia) 6 refem e estA a serviqo da


igreja e do capitalismo na divulgaqdo de suas ideologias.
l por isso que em Bel(rm, rumo aos 400 anas, se assiste a agressao e ameaqa de morte a quem torna prblico a verdade, ocorrido com LFP; onde criana com cerca de dez inocentes primaveras 6 acusada de seduzir e se aproveitar de adulto com idade superior cerca de cinco vezes A sua, com sclida carreira empresarial e formaAao superior, al~m de experiente poiftico profissional; onde logradouro prblico deixa de ser homenagem a personalidade da terrinha, coma no caso da ex-avenida Dalcidio jurandir, inaugurada no governo de Ana j0lia Carepa, para homenagear algo que vein de fora; onde a maior autoridade municipal, atualmente, foi um falso medico, sugerindo que ela (Belrm) se assemelha a um risfvel prot6tipo do nada, por se situar entre o c~u e o inferno, ainda que seus supostos frequentadores nao possuam discernimento suficiente para n.o se deixar dominar por tais ficqbes que servem a seus supostos Ifderes, cada qual caridosos com os seus. Caridade, que, alias, situa-se (e nutre-se) entre a mis~ria e a hipocrisia. Lulz MArlo de Melo e Sllva
- Icoaraci/PA


Livros
JA est O
avenda o
meu agora penffltimo livro, Tucurui -A barragem da ditadura, no qual recupero para a mem6ria hist6rica o intenso debate que se travou em torno do fechamento da represa e do enchimento do reservat6rio da usina, que viria a se tomar o segundo maior lago artificial do Brasil. Urn terna relevante para quem participa dos novos capitulos dessa hist6ria com Belo Monte,Jirau e Santo Ant6nio. Nas bancas e livrarias.
Mem6ia do Cotidiano, publicada pelo Jornal Pessoal desde 2002, atinge seu quarto volume, na expectativa de continuar ativando a refiexio, o saber e o prazer dos seus leitores. Esti disposiqao nas bancas e livrarias dos leitores que apreciam essa segao do JP e que queiram contribuir para sua continuidade adquirindo o livro.


Errata
Por problema t6cnico, a an6ise do ombudsman deste jornal, publicada na edi~ao anterior, saiu sem assinatura. Mas todos sabem que a grife 6 de Marion Arau'ijo.




Jornal Pessoal

Editor: LOcio Flvio Pinto
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Xingu: mais um rio que o homem invade


Mais urn grande rio da major bacia hidrogr~fica do planeta estA. sendo barrado pelo homem. No inicio do mis passado, uma barragern de terra comegou a avangar sobre o leito do rio Xingu, no Pari, dentre os maiores do mundo. A represa vai desviar o fluxo da igua para permitir que os construtores da barragem de concreto trabalhem em seco.
Em mais dois anos eles pretendern erguer ali a maior de todas as hidrel6tricas ji criadas pelo homem, corn capacidade nominal de gerar mais de 11 mil megawatts. A usina de Belo Monte acrescentaria entio mais 15% de energia ao sistema nacional, o major de origem hidrfulica dentre todos os paises. A igua ainda propicia a energia mais barata de que se disp6e na Terra. E, embora sob crescente ceticismo, tamb6m a mais limpa.
Contra criticos e opositores, o governo federal ji decidiu: extrairii da Amaz6nia toda energia que seus rios poderio fomecer. Tanto para transfei-la- por longas distncias - para as ireas de maior demanda como para atrair novos empreendimentos eletrointensivos de todas as partes. E uma investida tdo grandiosa quanto a que se empreende na regiio do Ciucaso, na antiga Uniio Sovi6ica (mas tangenciando a Russia, a mais poderosa das repfiblicas socialistas da URSS), com outro energ6ico: o petr6leo.
A interfer~ncia humana nos caudalosos rios amaz6nicos comegou no final dos anos 1960, durante o "milagre econ6mico" promovido pelo regime militar. Mas o alvo eram dois pequenos rios, o Curui-Una, no ParA, e o Araguari, no Amapi. Neles surgiram duas diminutas usinas, que funcionam corn 6igua corrente, sem formar reservat6rios para acumulA-la. Sao a fio d'igua, conforme a expresso dos engenheiros.
A primeira grande interveng~o humana comegou em 1975, sobre o leito do Tocantins, o 250 maior rio do mundo, corn mais de dois mil quil6metros de extensio. Foi uma epopeia, sob todos os


sentidos, bons e ruins. 0 momento mais dramAtico aconteceu em 1980.
A Eletronorte construiu uma ensecadeira de terra corn capacidade para suportar a pressio de 50 milh6es de litros de igua por segundo. Era o mirno que se imaginava que o riopodia vazar, com base em estirnativas cientificas. Mas a vazqo do Tocantins surpreendeu: foi a 68,5 milh6es de litros de Agua por segundo. Por pouco a ensecadeira nao foi arrastada - e corn ela, cinco anos de trabalho e centenas de milh6es de d6lares ji gastos.
O rio Xingu tern quase a grandeza do seu vizinho Tocantins, em extensio e em vazlo, embora sofra estiagern mais forte durante o verao, quando sobra urn fio d'igua entre pedras e ilhas. Esta 6 a fase em que ele cresce e extravasa, por causa das chuvas que caem nas suas cabeceiras e dos seus afluentes. t o inverno amaz6nico, caracterizado pelas enxurradas pesadas.
O nivel do rio esti bern acima do normal das cheias de janeiro. tB sinai de que as inundag6es poderao ser mais rigorosas. Algumas provid&ncias ji estao sendo tomadas para evitar maiores prejuizos. Uma das ameagas do rio
6 A ensecadeira.
Ela comegou a ser formada numa 6poca adversa, justamente quando comegam os "tor6s", verdadeiros dilivios. Mas o cons6rcio construtor de Belo Monte deve ter preferido enfrentar a natureza a correr o risco de nova paralisagao forgada ou de restrig~o As obras.
Para poder iniciar o desvio do rio, a Note Energia teve que derrubar uma medida judicial que a impedia de trabaIhar no leito do Xingu. Ela tinha que se limitar a operar nas margens, corn trabaIhos complementares e acess6rios. Mal a ordem foi suspensa, tratou de colocar uma grande frota de tratores em servigo, jogando terra nas iguas e abrindo estrada numa ilha situada no meio do rio, montando estruturas.
0 juiz federal que concedeu a liminar, colocando a construtora fora do Xingu, sob a alegagao de que as obras


iam acabar com a pesca ornamental no local, foi o mesmo que voltou atris, logo em seguida, j~i convencido de que nio hi essa atividade. Ou ao menos nao ao alcance da hidrel6trica.
Agora, se ele mais urea vez voltar atris, quando examinar o m6rito da agio dos declarados pescadores, dificilmente sua decisio poderi ter efeito prftico. 0 avango da obra humana sobre o vau de um rio como o Xingu constitui fato consumado. Revert8-lo 6 possivel e factivel, mas ndo 6 a regra. Muito pelo contrfirio. Os engenheiros que levantam barragens sabern muito bern disso.
0 governo tarnb6m. Pol~micas e incidentes como os que se registram em Belo Monte se repetirarn no rio Madeira, que 6 ainda maior. Mas a usina de Santo Ant6nio esti entrando em operago comercial quatro anos antes do cronograma original.
Jirau, corn o retardamento provocado pelo quebra-quebra no canteiro de obras no ano passado, ainda assim segue pelo mesmo caminho. As duas terdo quase metade da pot~ncia nominal de Belo Monte, mas irao gerar efetivamente mais durante o ano porque o Madeira tern uma vazao maior e mais regular (6 o mais importante tributifio do fantistico Amazonas).
Logo seri avez de outro grande afluente da margem direita do malor e mais volumoso rio do mundo. 0 Programa de Aceleragao do Crescimento (PAC-2) prev6 que seis hidrel6tricas no Tapaj6s, o ultirno grande rio no oeste do Parkr, fornecerao tanta energia quanto Tucuru, hoje a malor usina inteiramente nacional, que responde por 8% do crescente consumo brasileiro de energia. Ai entao viri o Araguaia - e qual mais em seguida?
Duas coisas surpreendern nessa corrida desabalada a grandes fontes de energia: o barulho que provocam quando sao anunciadas e o sil~ncio no qual seguem quando, consumados os fatos, Ins 6 morta e a obra vai em frente, sem lengo, sern documento e sern uma fita amarela.
Para consolidar a Amaz6nia como a maior provincia energ6ica da terra, o equivalente verde dos campos de petr6leo do Oriente. 0 verde da floresta, por6m, transformado em hulha branca - e em seus virios derivados multicoloridos. Quando nio, negros.


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Cr6nicas do dia a dia:


o primeiro jornalismo




Finalmente, saiu opimeiro /ivro do Elas Ribeiro Pinto. Emformato pequeno, bern cdmodo de ler, em lOlpaginas, integra a colefdo ParA de todos os versos, de todas as prosas, lanfada em boa horapelo Diirio do Part. Cr6nicas a sangue frio, corn o ttulo de evidente inipirafdo em Truman Capote, ojornalista que virou escritor (ou ti'e-vrsa), tern ogrande mrito de abir caminho para Elias seguir no rumo de um abrigo maisperenepara os seus textos, am oceano depalavras reprimidaspela ausnda de um vertedouro d altura.
A colefdo, da qualElas i o curador (em outra Ooca - e, ainda, parapessoas mais velhas- sera o editor), sejunta a inidativas dopr6p o Didtio e tambim de 0 I'beral na extensdo da imprensa peridica, que do /ivro, ou o quase-ivro. FekZmenteja sdoprodutos de melhor acabamento do que as tradionais edifes cafa-niqueis dos aniversdrios ou das datasgradas, como o Cro.
ReproduZo meu quase-prefio como um convite d laura do lir do Elas.


O autor esti estreando em livro, este aqui, mais de 35 anos depois de ter comegado a escrever para o pfiblico. Durante todo esse tempo tentou dar forma A vastidao de ideias, observa 6es, aprendizados, cultura e inventividade que acumulou. Faz seu debut As pressas, no afogadilho da hora, para dar conta de encomenda que ele pr6prio criou, mas da qual esperava ser usufrutuArio e nio autor: a colegdo de livros paraenses do jornal Didrio do Pard.
Pela quantidade de encomendas sucessivas de textos, Elias Ribeiro Pinto (que cortou o jdtnior do nome, sempre sujeito a trocadilhos) nAo produziu a grande obra da qual 6 capaz e pela qual ainda esperamos. Produziu milhares de textos para jomais, impressos num papel que nem sempre se adapta mesmo a serventias menos nobres, ndo tendo atendido, antes, as realmente nobres, que seriam sua finalidade.
0 jornalismo 6 absorvente e desgastante, quase incompativel com a criagao mais exigente, como a literatura. Virios grandes jornalistas ficararn devendo - a si pr6prios e ao distinto pfiblico - o livro que, frequentemente, at6 chegararn a anunciar. E que jamais se desvencilhou dos potins das colunas sociais - ou ditas literfrias.


O jornalista e cronista Carlinhos Oliveira foi urn desses entre n6s ("entre n6s", ura ova: entre os circunstantes do mirifico e mitol6gico "Sul Maravilha"m t~o pr6ximos de n6s quanto a China). Mas outros jornalistas, como Ant6nio Callado ou Herberto Salles, dentre tantos, atravessaram o deserto. E outros conseguirarn produzir tanto no dia a dia com uma qualidade tal que chegaram ao s6culo a s6culo, amn6m. Como Balzac. Ou Victor Hugo.


A situaqio, portanto, 6 bem complexa. Ndo cabe num verbete A Daniel Piza, desnatador da cultura. Elias escreveu muitissimo, boa parte dessa imensiddo de letras sendo de boa qualidade. 0 projeto de poesia evaporou. O de literatura ainda nao se materializou. E ambos estdo na ponta da lingua
- ou do dedo, melhor dizendo. Por que ndo desabrocharam?
A resposta requer alguma dose de jornalismo investigativo e muitas de sociologia, sem entrar nos meandros de Freud, Jung et caterva. Como irmdo e leitor, s6 tenho a lamentar por essa dispersao e imprecisao, que partilho. Eramos quatro irmaos no jornalismo. O Raimundo ji se foi, antes do tempo e das previs6es. Nao podera verificar que, de um jeito ou de outro, a superior produgdo do Elias agora esti em formato mais perene do que a das piginas de urn jornal. Talvez desencadeando por emulagio novos livros, A espera de capacidade de organizagio e execu~ao.
Mas por que o livro e, ainda por cima, em papel? Porque a cercadura da produqdo do Elias o limita. Seu valor s6 se revela por completo quando ele sai dos estreitos limites da provincia, que regride A selvageria, para entestar
nomes sagrados da grande imprensa nacional. Ora como jornalista ora como critico literirio. Ou, por fim, como o literato em processo ziguezagueante.
Espero que esse delineamento se confirme e, atrav6s do livro, em papel, mais exigente e mais pr6prio, Elias tenha acesso a urn universo ainda maior (ou mais qualificado), que, por tabela, o ponha a trabalhar com mais racionalidade e produtividade, burilando o que ji escreveu e materializando o que ainda se acha depositado no seu privilegiado arquivo natural. O resto se fari por efeito, se o valor de criadores como ele conseguir romper o circulo de ferro do colonialismo cultural, talvez mais forte at6 do que o
econ6mico.




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