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Correio (Portuguese)
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 Material Information
Title: Correio (Portuguese)
Physical Description: Serial
Language: English
French
Portuguese
Spanish
Publisher: Hegel Goutier
Place of Publication: Brussels, Belgium
Publication Date: 03-2010
 Subjects
Genre: serial   ( sobekcm )
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Holding Location: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
System ID: UF00095067:00080

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N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010


6 ^^K I 0
I uerreio
A revista bimestral das relagoes e cooperagdo entre Africa-Caraibas-Pacifico e a Uniho Europeia

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A juventude pelo desenvolvimento


Austria- 0 surpreendente Tirol


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Cerreio



Comite Editorial
Co-Presidentes
Mohamed Ibn Chambas, Secretario-Geral
Secretariado do Grupo dos paises de Africa, Caraibas e Pacifico
www.acp.int
Stefano Manservisi, Director-Geral da DG Desenvolvimento
Comissao Europeia
ec.europa.eu/development/
Equipa Editorial
Editor-Chefe
Hegel Goutier
Jornalistas
Marie-Martine Buckens (Editor-chefe adjunto)
Debra Percival
Editor Assistente
Okechukwu Romano Umelo
Assistente de Produgao
Telm Borras
Colaboraram nesta edigio
Elisabetta Degli Esposti Merli, Sandra Federici, Catherine Haenlein, Francis Kokutse,
Laufaleaina Lesa, Souleymane Maadou, Joshua Massarenti, Anne-Marie Mouradian,
Andrea Marchesini Reggiani, Alfred Sayila, Francesca Theosmy, Charles Visser
Gerente do projecto
Gerda Van Biervliet
Coordenagao artistica, paginagao
Gregorie Desmons
Paginagao
Lodc Gaume
Distribuigao
Viva Xpress Logistics ww.vxlnet.be
Agencia Fotografica
Reporters ww.reporters.be
Capa
Programa de Futebol em Alexandra Township,
Joanesburgo, Africa do Sul.
Xavier Rouchaud





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45, Rue de Treves
1040 Bruxelas
Belgica (UE)
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Hegel Goutier Visite o nosso sitio web!
Parceiros Encontrara ai os artigos desta
Gopa-Cartermill Grand Angle Lai-momo edi o, as timas noticias ACP-
A opiniao expressa e dos autores e nao representa o ponto de vista oficial da Uniao Europeia nem UE e informagdes sobre o nosso
dos paises ACP.


Os parceiros e a equipa editorial transferem toda a responsabilidade dos artigos escritos para os
colaboradores externos.


o srucnoc de fotografial



















As politicas de desenvolvimento.


Entre pontes e paradoxos


No exterior, a Uniao Europeia
e frequentemente vista como
o exemplo de um grupo de
paises que conseguiu trans-
cender os atavismos da hist6ria e rea-
lizar uma revoluogo inica: a criago
de uma uniio forte sem coergo. Esta
Europa, confrontada com ameagado-
ras apreens6es politicas, entre as quais
o conflito entre o seu reforgo e os
interesses especificos de cada Estado,
pos na calha uma verdadeira politica
estrangeira comum, que e uma das suas
realizay6es mais importantes.

Tragamos, nesta edigio, o perfil de um
dos principais artes6es desta construogo,
Catherine Ashton, Alta Representante
da Uniio Europeia para os Neg6cios
Estrangeiros e a Politica de Seguranga.
Mas tambem as dificuldades que jun-
cam o seu caminho, sendo uma delas a
nomeagio de embaixadores em cerca de
130 delega96es, que nao serao oriundos
tao-somente da Comissio Europeia,
mas tambem das administrac6es dos
Estados-Membros. Sera necessirio
muito tacto para harmonizar os inte-
resses do conjunto com os das suas
diferentes componentes.

0 dossier especial deste n6mero e consa-
grado a juventude. E um dos benjamins
do Parlamento Europeu, a francesa
Karima Delli, que fala sem rodeios.
Esta jovem, originiria do Sul, insiste
naquilo que ela pensa ser capaz de
construir -pontes de contacto -tendo
um pe no movimento social de onde
vem e outro nas instituig6es. Sublinha
o paradoxo entre uma taxa elevada de
abstengco dos jovens nas eleig6es euro-
peias, porque se sentem is vezes fora do
sistema devido a sua situagio econ6mi-
ca precaria, e uma relagio natural que
tem com a Europa, porque nasceram
"no seu interior".

Descobrimos tambem o quio e grande
a desesperanga dos jovens em muitos


paises em desenvolvimento e como, ao
mesmo tempo, sao estes mesmos jovens
os mais engenhosos em criar os seus
pr6prios empregos, sobretudo nos sec-
tores inovadores das novas tecnologias.
Quanto aos jovens do Haiti, o sismo
arrasou os seus sonhos. A conferencia
"Para um novo futuro para o Haiti"
deveria celebrar-se em 31 de Margo e
a Sra. Ashton, representante da Uniio
Europeia, nao iria com as mios vazias.
A UE instaurou uma verdadeira poli-
tica haitiana devido, provavelmente,
aos novos instrumentos da sua politi-
ca externa. Um outro pais tem tam-
bem uma verdadeira politica haitiana,
a Rep6blica Dominicana que, numa
geopolitica de placas tect6nicas, celebra
com a sua generosidade a reaproxima-
9o com o seu vizinho.

A realizagio da construgco das duas
maiores revolug6es pacificas do seculo
XX, a UE e a Africa do Sul, parece
ter embraiado uma velocidade superior
num momento inesperado. A entrada
em vigor do Tratado de Lisboa ocorreu
ap6s um periodo de grande morosi-
dade para a Europa. E houve quem
pressentisse a chegada de Jacob Zuma
ao poder na Africa do Sul como a de
algo incontornivel. Ora, e o inverso que
parece mostrar a grande reportagem
de O Correio. 0 novo governo atribui
muita importancia a contestagio e o
Presidente joga colectivamente ao dar
uma grande margem de manobra aos
seus colaboradores. O que corrobora a
existencia de um "laborat6rio (social)
sul-africano", apesar das feridas ainda
nao curadas, e de muitos outros labora-
t6rios, entre os quais o da criatividade.
Isto tudo, em despeito do desencanto
despertado pela imprensa em relagio a
este pais.



Hegel Goutier
Editor-chefe


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010












Indice

0 CORREIO, NO 16 NOVA EDIQAO (N.E)





EDITORIAL

PERFIL


Mabousso Thiam, Director do Centro de Desenvolvimento Empresarial

Catherine Ashton, Alta Representante da Uniao Europeia para os
Neg6cios Estrangeiros e a Politica de Seguranga


EM DIRECTO


Karima Delli, jovem militante no terreno e deputada europeia


PERSPECTIVA


DOSSIER

Juventude

SerA que o tema da juventude deveria ser antecipado na agenda
para o desenvolvimento?

Um futuro no fundo de uma objectiva -Escola de Cinema de Kibera
Haiti: 0 terremoto destrutor de sonhos dos jovens
A forga de sobreviver
Uma mente brilhante
O mundo em cima da secretiria
Jovens criam os seus empregos


8






13

14
16
18
19
20
21


A SOCIEDADE CIVIL EM AQQAO


Amnistia Internacional: "A saide e um direito fundamental"
Sociedade civil do Haiti: No centro das solug6es, a margem dos recursos


COMERCIO

Tanganica: uma plataforma central de comercio


DESCOBERTA DA EUROPA

Tirol (Austria)

No centro e totalmente a parte
Uma das economias mais estiveis da Europa:
Entrevista com Eugen Sprenger, presidente interino de Innsbruck
"Stidwind" e "Light for the World" face a redugao da ajuda
Innsbruck: Zonas de sombra mais brilhantes do que a luz
A alma do Tirol
Africanos-Tiroleses chamados "lobos brancos"


xKrinu oD.
PMMn enfw wr wrno
6"O -FeI
&lam


P.6-7


P. 16-17

Wma


Correio





















EM FOCO

"SAN" ou o homem universal de Vincent Mantsoe 34


NOSSA TERRA

Novas acy6es para acabar com o comercio de marfim 36 P.34-35
Proibicgo da pesca do atum, assunto adiado 37


INTERACQ ES

Consenso sobre a revisio do Acordo de Cotonu 38
AccGo da UE relativa a igualdade de genero e capacitagco das mulheres 39
Qual a direcGo futura da politica de comercio ACP? 40
Momento de reencontro: Haiti -Rep6blica Dominicana 41 i
A Belgica aposta nas pequenas empresas da Africa 42
Novo impulso da UE aos ODM 42
Langamento da nova Facilidade para a Agua destinada aos ACP 43
O exito de Capacity4dev.eu 43


REPORTAGEM

Africa do Sul

Africa do Sul: um laborat6rio extraordinirio 44 P.44-45
Dos Khoisan a Nacao Arco-iris 45
Entrevista a Lodewijk Briet, Embaixador da Uniao Europeia na Africa do Sul 47
Ura democracia que se abre a contestagao 49
A oposioao politica esta a mudar na Africa do Sul, devagar mas seguramente 50
Terra de esperanga 51
Futuros campe6es de futebol treinam-se em Alexandra 52
Os "Diamantes Negros" 53 *
Uma incubadora de ourives 54 u
VIH/Sida: uma cooperacao responsivel 55
Reabilitar as zonas rurais 57
As negociac6es climiticas deslocam-se para o Sul 58


CRIATIVIDADE

A prop6sito de uma Mulher Poderosa 59
Projecto "Khatirsis" em Cabo Verde 60
Pronto-a-vestir africano 61
HIFA 2010: Festival Internacional de Belas-Artes em Harare 62
A banda desenhada africana em destaque no Museu Quai Branly 62


PARA JOVENS LEITORES

Haiti a preto e branco e a cores 63


CORREIO DO LEITOR/AGENDA 64


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010



























Mabousso Thiam
Director do Centro de Desenvolvimento Empresarial





0 elo forte entre



empresas da UE e ACP


Hegel Goutier


Thiam chegou
a direcGo
do Centro
de Desenvolvimento
Empresarial (CDE)* em
Margo de 2009. Em menos
de um ano, marcou com o
seu cunho este organismo
da cooperagio entre a Uniio
Europeia e o grupo dos
paises da Africa, Caraibas
e Pacifico, destinado a
reforgar o sector privado.

A assinatura da convengco
ATHENA em 2 de
Fevereiro transacto, um
instrumento financeiro para
financiamento de muito
pequenas empresas nos
paises ACP, que constitui
a base de um acordo entre
o CDE e a sociedade belga
de investimento para os
paises em desenvolvimento,
BIO, e um simbolo do
dinamismo de Mabousso
Thiam. O Ministro belga
da Cooperagio, Charles
Michel, que considera
a BIO como "o brago


armado do governo belga"
na cooperagio para o
desenvolvimento de
empresas, fez questio de
apadrinhar esta cerim6nia
de assinatura. A BIO e uma
empresa comum (Joint
Venture) entre o Estado
belga e sociedades privadas,
que investe em empresas de
paises em desenvolvimento,
sobretudo na Africa, onde
o organismo tern parceiros
em 16 paises considerados
prioritarios. No total, a BIO
esta presente em mais de
uma centena de paises, entre
os quais 23 sao prioritarios.
Mabousso Thiam tinha
investido toda a sua energia
na finalizacao da convencao
ATHENA, que beneficiary
uma serie especifica de
empresas ACP, ou seja
as empresas demasiado
pequenas para atrairem
os grandes investidores
estrangeiros e as demasiado
grandes para beneficiarem
da microfinanga.

Percurso

Jurista e Economista,
formado respectivamente
no seu pais, o Senegal, na


Faculdade de Direito de
Dacar, e em Chipre, no
Instituto Internacional
de Banca e Economia,
Mabousso Thiam iniciou a
sua carreira em Paris, numa
sociedade internacional
de neg6cio de produtos
do mar, de onde partiu
um ano depois, em 1980,
para o Banco Central
dos Estados da Africa
Ocidental (BCEAO), onde
foi responsivel durante oito
anos de diferentes sectores,
desde as relag6es p6blicas
ate i regulamentagco
banciria ou a inspecGo dos
bancos comerciais, antes de
assumir a responsabilidade
da reestruturago de todo o
sistema bancirio da region.

Ap6s o sector p6blico,
Thiam assumiu a direcGo
de empresas de sucesso
no Senegal, no sector da
alimentaogo, durante uma
decada, mas ao mesmo
tempo, atraves do seu
gabinete de consulta,
ocupava-se de estudos de
projectos comerciais ou
p6blicos, de negociac6es
com mutuantes de fundos,
de recrutamento de


pessoal ou de procura de
instrumentos de gestio. Em
1997, iniciou uma decada
de consultoria internacional,
a cabega da sua pr6pria
sociedade "Assistencia
e Aconselhamento is
Empresas", onde efectuou
misses para um n6mero
incalculivel de importantes
comanditirios, entre os
quais, o Banco Mundial, a
USAID e alguns governos,
como o da Franga ou do
Canada, nos mais variados
dominios, geralmente
ligados ao sector privado.
O iltimo projecto de que se
ocupou antes de assumir,
em 3 de Margo de 2009,
a direcGo do CDE foi
uma iniciativa do governo
senegales, apoiada pelo
Banco Mundial, em prol do
sector privado. Um percurso
todo indicado para chegar
ao CDE.







* www.cde.int
www.proinvest-eu.org


Correio








































Baronesa Catherine Ashton. OEC


Catherine Ashton
Alta Representante da Uniao Europeia para os Neg6cios
Estrangeiros e a Politica de Seguranga



Recorrendo a reservas



diplomaticas


Debra Percival


Respeitada


Catherine Ashton
e primeira
nomeada para
o posto de Alto
Representante da Uniio
Europeia para os Neg6cios
Estrangeiros e a Politica de
Seguranga. Na sequencia
dessa nomeagio, muito mais
tem sido escrito sobre ela,
ate a data, do que sobre
qualquer outro Comissirio
da Comissio Barroso II
(2010-2015).

Nesta Primavera, a sua
tarefa consiste em criar o
projecto para o novo Servigo
Europeu para a AcGyo
Externa (SEAE) para que a
UE fale de politica externa a
uma so voz.

"Estamos unidos como
nunca antes estivemos.
Tecnologias, ideias, doengas,
dinheiro... tudo circula. No
centro de todas as coisas
permanece uma verdade
simples: para proteger os
nossos interesses e promover
os nossos valores, temos
de estar comprometidos
com o exterior", afirmou
aos Eurodeputados em
Estrasburgo, em 10 de
Margo.


Para criar este novo servigo,
tera de langar mio da
discreta diplomacia que
Ihe granjeou considerivel
respeito na qualidade
de Comissiria Europeia
do Comercio, um posto
que recebeu de Peter
Mandelson, em 2008. Em
entrevista ao O Correio, em
Samoa, no ano passado,
Joachim Keil, o negociador
para o Comercio no
Pacifico, explicou como
Ashton havia relangado
as conversagoes entre a
UE e aquela regiio sobre
um Acordo de Parceria
Econ6mica. "No final de
2007, havia um mal-estar
-ninguem quis falar com
os outros durante cerca
de um ano." E afirmou
que Catherine Ashton
"compreendeu de onde
vinhamos".
Cidadi britanica, Catherine
Ashton nasceu na cidade de
Upholland no Lancashire,
de onde Ihe vem o titulo
de Baronesa Ashton de
Upholland. Exerceu fung6es
nos sectores p6blico,
privado e voluntirio no
Reino Unido, tendo sido
Presidente do Servigo de
Saide de Hertfordshire de
1998 a 2001, bem como
vice-presidente do Conselho


Nacional de Familias
Monoparentais. Ocupou
pelouros ministeriais no
Governo Britanico, quer no
pelouro da Justiga, quer da
Educagyo e foi Presidente
da Camara dos Lordes.
Porem, nos primeiros
meses enquanto autoridade
"suprema" da politica
externa da UE, teve de
enfrentar ventos contririos
ao levantar a bandeira do
Servigo Europeu para a
AcGyo Externa (SEAE), cujo
organograma organizacional
devera ser aprovado pelos
Ministros da UE em Abril
de 2010.

Combatendo

Sinais de luta emergem ji,
por um lado, entre Estados-
Membros e, por outro,
entre Estados-Membros
e a Comissio Europeia,
a medida que surgem os
nomes para preencher os
lugares de Embaixador em
cerca de 130 delegag6es
da UE em todo o mundo.
Actualmente, a maioria
destes lugares encontra-
se ocupada por pessoal
de carreira da Comissio
Europeia de virias
nacionalidades, mas e
provivel que ocorram
mudangas, na medida em
que as capitais da Uniio


procuram colocar nacionais
seus em delegag6es da
UE. Os Embaixadores
administrario programas
UE ao mesmo tempo que
implementam as politicas
delineadas pela chefe da
politica externa. O piano
contempla que um tergo
das delegag6es seja ocupado
por pessoal da Comissao,
um tergo por pessoal do
Secretariado do Conselho e
um tergo por nacionais dos
Estados-Membros.

Outro dos assuntos
em debate e o de como
ira a Baronesa Ashton
partilhar as suas fung6es
com os Comissirios do
Desenvolvimento, Andris
Piebalgs, encarregado dos
Estados de Africa, Caraibas
e Pacifico (ACP), e Kristina
Georgieva, que trata da
Cooperagyo Internacional
e Assistencia Humanitaria.
A Baronesa Ashton foi
mandatada por Ministros
da UE a 22 de Margo para
representar a Uniio na
"Conferencia Internacional
de Doadores para um novo
futuro para o Haiti" em
Nova torque a 31 de Margo,
onde devera anunciar uma
garantia suplementar de mil
milh6es de euros a atribuir
ao Haiti nos pr6ximos tries
anos.


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010






































Parlamento Europeu Unidade de Audiovisuais.


Karima Delli,


jovem militante no terreno


e deputada europeia


Anne-Marie Mouradian


filha de pais argelinos imigra-
dos, Karima Delli suscitou
grande surpresa, em 2009,
ao ser eleita deputada europeia pela lista
Europa-Ecologia de Daniel Cohn Bendit
e Eva Joly.
Antiga estudante de Ciencias Politicas,
ex-secretiria-geral dos Jovens Verdes,


co-fundadora de associag6es colectivas,
esta militante politica destacou-se pela
sua determinagio e pelo seu activismo na
luta contra a exclusio social. Ao tornar-
se num dos benjamins do Parlamento
Europeu, afirma querer manter "um
p& no movimento social e um pr nas
instituig6es". Ganhou a aposta. Karima
Delli cria pontes para fazer progredir a
democracia solidiria e colabora ha 10
meses nas Comiss6es do Emprego e do
Desenvolvimento Regional. "Nio entrei
no Parlamento Europeu para fazer car-
reira, mas para cumprir uma mission ,


eCrreio














clarifica. "Tenho 5 anos para o conse-
guir. Empenhei-me a fundo com um sor-
riso, porque o sorriso gera a esperanga."

O Correio Consegue conciliar a sua
vida de militante no terreno corn a de
Eurodeputada?

Sim, porque isso e indispensivel. Todo o
meu contributo a nivel europeu recebo-o
no terreno, e pretendo que o movimento
social chegue ao Parlamento Europeu. A
Europa conta 80 milh6es de pobres. 2010
So Ano Europeu de Luta contra a Pobreza
e a Exclusio Social, e devemos aproveiti-
lo para fazer as coisas progredir.

Fui nomeada coordenadora desta ques-
tio pelo Grupo dos Verdes/ Alianga
Livre Europeia. Lutamos para que no
seio das empresas, os assalariados pos-
sam ser ouvidos no referente as politi-
cas de remuneraoio. Exigimos igualda-
de salarial entre homens e mulheres, o
fim dos paraisos fiscais, a aplicago de
impostos sobre b6nus... A Comissio do
Emprego acaba de aprovar dois relat6rios
que contem avangos significativos nestas
materias.

Sou tambem vice-presidente do intergru-
po URBAN, que trata de assuntos rela-
cionados corn as politicas de urbanismo.
Luto para que os problemas de habitagio
se tornem uma prioridade, corn particu-
lar enfase nas quest6es de insuficiencia
energetica. Cada vez mais familias na
Europa deixam de conseguir pagar, nio
s6 as rendas da habitaco, mas tambem
os custos de aquecimento, porque as
casas sao muito mal isoladas.

Queremos associar os cidadios, espe-
cialmente os residentes de bairros popu-
lares, aos nossos debates. Consegui que
uma delegagio de eurodeputados da
Comissio do Desenvolvimento Regional
me acompanhasse ao terreno, na Ile-de-
France, para os fazer sair um pouco do
"sonho" bruxelense e os confrontar com
a realidade.

A juventude estd muito preocupada
corn estas questdes. Serd ela a cons-
truir a Europa de amanhd?

Nas iltimas eleig6es europeias, as taxas
de abstengco na Franga foram de 57%
e chegaram aos 80% na faixa etiria
dos 18 aos 34 anos! Apesar disso, os
jovens tern uma relagio natural cor a
Europa, porque ja nasceram "dentro".
Mas nao veem qualquer necessidade de
votar enquanto a Europa nio apresen-
tar respostas para os seus problemas,
a saber, o desemprego, a precariedade,
a penuria de habita6ges, a escalada
das rendas... os jovens nao gozam de
protecGo social mas um em cada cinco
vive abaixo do limiar da pobreza na
Europa! Mesmo os superdiplomados
acumulam part-times.


Franga, Nantes, Manifestagio de estudantes contra o primeiro contrato de trabalho (CPE). a Reporters


Seria necessirio instituir um rendimento
minimo europeu que abrangesse os estu-
dantes e os estagiirios, criar um estatuto
europeu do estudante e promover mais a
mobilidade. O Erasmus e um programa
genial, mas seria necessirio alargi-lo a
todos os jovens, independentemente do
seu estatuto social. Ninguem pode viver
com os 400 euros por mes do Erasmus,
se nao for ajudado pelos respectivos
pais.

Como e que se pode, concretamen-
te, "reconciliar os jovens cor a
Europa"?

Ha um arduo trabalho pedag6gico a
executar. Sou membro do Intergrupo
para a Juventude do Parlamento e recebo
jovens dos bairros desfavorecidos a quem
explico o que e a Europa.

Ja e tempo de renovar a politica. Os
sindicatos sao menos aliciantes do que
dantes. Cabe aos jovens inventar novas
formas de luta. Estiveram presentes em
Copenhaga na Cimeira sobre Alterag6es
Climiticas. Criam associag6es como, em
Franga, "Geragao Precaria", "Salvemos
os Ricos"... Existem associacges nos
diferentes Estados-Membros que consti-
tuem uma rede europeia da juventude.

Em vez de criarem resolug6es para os
jovens, os decisores deveriam construir
corn os jovens, a partir de situag6es con-
cretas vivenciadas por eles.

Em Margo, o grupo dos Verdes partici-
pou em Barcelona numa reuniao euro-
peia juntamente corn representantes das
organiza6ges de juventude para debater
o acesso ao emprego, os riscos de exclu-
sao e de precariedade. As conclus6es
dessa reuniao serao incluidas num futuro
relat6rio parlamentar. Devemos avangar
passo a passo, utilizando todos os instru-
mentos a nossa disposico na UE.


Foi tambem nomeada relatorapara o
Ano Europeu do Voluntariado 2011.

Sim, o relat6rio foi aprovado. O volun-
tariado permite aos jovens dedicar seis
meses da sua vida a um trabalho de
interesse geral. Trata-se de um instru-
mento para os encorajar a redescobrir a
Europa e a promover uma economia de
solidariedade social. O que nao deve ser
confundido com o voluntariado tradi-
cional. Este novo voluntariado deve ser
remunerado e reconhecido como uma
mais-valia profissional.

A sua militdncia estende-se as ques-
tdes de solidariedade corn o Sul e e
membro da delegado do Parlamento
para as relacdes cor a India.

Trabalhei corn o movimento de cam-
poneses sem terra, que e um movimen-
to popular nao violento, de inspirago
gandista, criado por Rajagopal. Todos
os anos, suicidam-se milhares de cam-
poneses indianos, por nao conseguirem
sustentar as suas familias, vitimas de
empresas multinacionais como e o caso
da Monsanto. Em 2006, 25.000 campo-
neses sem terra marcharam sobre Nova
Deli para reivindicarem os seus direitos.
Foi criada uma plataforma internacional
para organizar uma nova marcha em
2012. La estarei.

A 6nica coisa que conseguimos ver na
India e o aspecto da "economia emer-
gente". No entanto, ha tambem imensa
pobreza. Em Fevereiro, levei uma dele-
gagio do Parlamento Europeu a Bophal.
25 anos volvidos sobre a catastrofe, o
local da fabrica da Uniio Carbide nao foi
ainda descontaminado, os camponeses
vivem a 100 metros e as cabras pastam
amianto. E intoleravel. Entregamos uma
resolugco no Parlamento Europeu para
promover a descontaminagio do local.
E urgente.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010


IEm irect

















































Politicas paradoxais


A cooperacao para o desenvolvimento
esta em crise. Eficacia, apropriacao
pelos Estados beneficiaries e novas
sinergias sao todos desafios aos quais
os agentes de desenvolvimento devem
responder. Quem serao os lideres
desta nova politica? Um seminario
organizado pela cooperacao t6cnica
belga (CTB), em 25 de Janeiro de
2010, que reuniu altos responsaveis
da Comissao Europeia e das ag6ncias
de cooperacao dinamarquesa,
britanica e alemao, tentou fazer o
ponto.


Marie-Martine Buckens



zambiana Dambisa Moyo foi
um tema de debate bem como
a crise mundial. Por iltimo,
aproximam-se algumas datas importan-
tes: a cimeira das Nag6es Unidas que
avaliari, em Setembro, os progresses
registados na realizagco dos Objectivos
de Desenvolvimento do Milenio (ODM)
e, em 2011 em Seul, o f6rum mundial
sobre a eficicia da ajuda.


"Temos que prestar contas de ac6ces
e expectativas frequentemente contra-
dit6rias", explicou na sua introdugco
Marcus Leroy, ministro-conselheiro
belga, coordenador especial dos ODM, e
acrescentou: "O mesmo se verifica com
a propria nocgo de desenvolvimento,
que esta ligada a nooo de progresso.
O que e o progresso? Se o objective
final e proporcionar melhor qualidade
de vida, entao como quantifici-la? E
indispensivel, dado termos de a avaliar
segundo indicadores." Defendendo uma
causa impossivel, Marcus Leroy prosse-
gue: "Ha tambem um enorme paradoxo:
todos sabemos que a ajuda e mais eficaz
onde e menos necessiria e inversamente,
o que nos coloca numa situacgo inc6mo-
da. Por iltimo, e comummente admitido
que a acGo e melhor do que a inacogo.
Quando agimos, damo-nos a impressao
de controlar. Ora, e ilus6rio crer que os
resultados sao necessariamente fruto das
nossas acc6es."

Flexibilidade

"Ate ha pouco tempo, a contribuigo era
a referencia", sublinhou por sua vez Koos
Richelle, Director-Geral de EuropeAid
na Comissao Europeia, e acrescentou:
"A referencia final eram os famosos 0,7%
do PIB, objectivo que cada pais deveria
alcangar em materia de ajuda p6blica ao
desenvolvimento. Hoje, temos que nos
convencer que a cooperagco continua a


Reporters


ser itil. E necessirio apresentar resulta-
dos, isto e os resultados que sao exigidos
pelo Parlamento e pelos contribuintes. O
pior e que nao existe sistema uniformi-
zado que permita quantifici-los. Neste
aspecto, somos vulneriveis."

O Sr. Richelle prossegue: "Antes, a ajuda
era condicional e hoje fala-se de apro-
priaogo. Devemos convencer as popula-
96es a fazerem suas as nossas ideias: nds
fazemos isto e voces fazem aquilo. Esta
abordagem mais profissional e uma boa
coisa, dado conduzir as ONG a reverem
as suas politicas num angulo mais econd-
mico e mais tecnico. E uma abordagem
que responsabiliza o beneficiirio."

SerB que, neste contexto, preparamos
bem as pessoas? "A assistencia tecnica
cada vez mais criticada -deve ser objecto
de um reexame perpetuo. A questao da
gestao e cada vez mais premente dado a
ajuda assumir cada vez mais a forma de
apoio ornamental. E isso ja nao pode-
mos fazer sozinhos. A coordenagco entre
organizag6es de ajuda torna-se central.
Assim como a formagao, como testemu-
nha o programa Train4dev*."



* Train4dev e uma rede de mais de 25 agencias
de cooperagao e de organizagoes multilaterais. O
seu objectivo consiste em promover a eficicia da
ajuda atraves da formao inclusive para o pes-
soal local -de intercambio de competencia. Para
informagoes, consultar: www.train4dev.net


C*rreio





.ersJpmw


A Europa tera de abandonar os seus habitos confortaveis


A politica de desenvolvimento da UE de-
vera sair do quadro estreito em que era
desenvolvida e inscrever-se plenamente
na politica de cooperacgo internacional,
recentemente criada pelo Tratado de
Lisboa, consideram quatro importantes
circulos de reflexao europeus. Num me-
morando entregue em Fevereiro passado
a nova Comissao Europeia, o ECDPM, o
ODI, o DIEe a FRIDE* insistem que a Co-
missao deve dar provas de nova lideranga
na reflexao sobre a maneira como a co-
operacgo para o desenvolvimento pode
ajudar a enfrentar os problemas mundiais
comuns.

"Ha apenas dois anos, a cooperacgo para
o desenvolvimento podia ser vista como
um dominio politico especifico, com limi-
tes bem definidos, capaz de responder
a objectivos claros, formulados nos Ob-


jectivos de Desenvolvimento do Milenio",
relembra Paul Engel, Director do ECDPM.
"O mundo em crise alterou as perspecti-
vas e criou bruscamente uma nova agen-
da de trabalho. Para reforgar a sua dimen-
sao mundial, a Europa tera de abandonar
os seus habitos confortaveis e dar provas
de lideranga em prol de uma cooperacgo
internacional que apoie o desenvolvimen-
to sustentavel."

No seu relat6rio, os quatro circulos de re-
flexao pedem a UE que "utilize com maior
proficuidade os seus consideraveis re-
cursos e os valores comuns inscritos no
Tratado de Lisboa para fomentar um novo
impulso". Ao insistir que se utilize o saldo
de 20 mil milh6es de euros no financia-
mento do desenvolvimento, este relat6rio
sublinha que a ajuda em si nao e suficien-
te: as politicas em materia de comercio,


de alterab9es climaticas, de seguranga e
migrao6es devem ter em conta o imperati-
vo da luta contra a pobreza no mundo.




* 0 relatorio "Nouveaux challenges, nouve-
aux departs" (Novos desafios, novas partidas)
(www.ecdpm.org/eumemo) surgiu da colabo-
ra~go pontual entre quatro circulos de reflexao
europeus sobre o desenvolvimento internacio-
nal: o ODI (Britannique Overseas Development
Institute Institute de Desenvolvimento Ultra-
marino Britanico), o DIE (Deutsches Institut fOr
Entwicklungspolitik Instituto de Desenvolvi-
mento Alemao), a FRIDE (Fundacion para las
Relaciones Internacionales y el Dialogo Exte-
rior- Fundagao para as Relaqao Internacionais
e o Dialogo Externo) de Madrid, e o ECDPM
(Centro Europeu de Gestao das Politicas de
Desenvolvimento) dos Paises Baixos.


Despesa dos

Estados-Membros

da UE consagrada

ao desenvolvimento:

aquem dos

objectivos


Debra Percival


O s Estados-Membros da Uniio
Europeia (UE) nio vio atin-
gir o objectivo de ate 2010 gas-
tar em media 0,51 por cento
do Rendimento Nacional Bruto (RNB)
em Ajuda Pfblica ao Desenvolvimento
(APD), refere-se numa nova anilise
da Organizagio para a Cooperagio e
Desenvolvimento Econ6mico (OCDE),
sedeada em Paris. Este objectivo foi
estabelecido em 2005 por 15 Estados-
Membros da UE como um valor de
referencia provis6rio para se chegar a
uma despesa em APD de 0,7 por cento
do RNB ate 2015.*

A anilise da OCDE indica os Estados-
Membros da UE cuja despesa em APD
nio atinge o objectivo de 2010: Franga
(0,46%); Alemanha (0,40%); Austria
(0,37%); Portugal (0,34%); Grecia
(0,21%) e Italia (0,20%).

Os Estados-Membros da UE que vio
respeitar em 2010 as garantias dadas em
2005 em termos de APD sao: Suecia,
que e lider mundial em termos de
percentagem do RNB gasto em APD
(1,3%); Luxemburgo (1%); Dinamarca
(0,83%); Paises Baixos (0,8%); Belgica
(0,7%); RU (0,56%); Finlandia (0,55%);
Irlanda (0,52%) e Espanha (0,51%).

A Confederagio Europeia de ONG
de Ajuda e Desenvolvimento,
CONCORD, receia que os Objectivos


de Desenvolvimento do Milenio (ODM)
para 2015, que incluem a erradicago
da fome e da extrema pobreza, fiquem
seriamente comprometidos pela incapa-
cidade de alguns Estados-Membros res-
peitarem as suas promessas e recomen-
da a UE que estabelega novos objectivos
de financiamento intermedios.

"A ajuda da UE esta ameagada. Muitos
governos desculparam-se corn a crise
financeira para reduzir os orgamentos
para a ajuda, afectando os paises em
desenvolvimento que sao ja dos afecta-
dos", refere um membro do Conselho
de Administrago da CONCORD, Rilli
Lappalainen.

Numa nota mais positiva, a ajuda inter-
nacional global aos paises em desen-
volvimento atingira niveis mrximos em
d6lares em 2010, tendo aumentado 35
por cento desde 2004, o que represen-
ta um acrescimo de ajuda de 27 mil
milh6es de d6lares para 2004-2010,
mas que fica 21 mil milh6es de d6lares
aquem dos compromissos totais assumi-
dos em 2005 nas cimeiras de Gleneagles
e do Milenio +5.

* Aplicam-se objectivos diferentes aos Estados
que aderiram recentemente A UE: despesa em
APD de 0,17% do RNB ate 2010, aumentando
para 0,33 por cento ate 2015.
www.concordeurope.org
www.oecd.org/dac/stats


SReporters


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010





Perspect


)Pov/Lai Momo


0 quebra-cabegas do


baby-boom africano




De todos os paises em desenvolvimento, sao os da Africa que deverao ter
o maior crescimento demografico nos pr6ximos 40 anos. Como enquadrar
este crescimento para que nao se traduza numa pobreza ainda maior? Foram
avangadas algumas pistas numa reuniao organizada em 27 de Janeiro em
Bruxelas pela Comissao Europeia, pelo Secretariado ACP, pelo Centro Tecnico
Agricola (CTA) e por ONG da area do desenvolvimento.


Marie-Martine Buckens


O continente africano, que
contava mil milh6es de habi-
tantes em 2009, deve ultra-
passar a barreira dos 2 mil
milh6es em 2050 e dos 4 mil milh6es
em 2100. Valores que devem ser colo-
cados em perspectiva, sabendo-se que
actualmente a Africa e quatro vezes
menos povoada que a Europa (que conta
30 habitantes por km2). Com disparida-
des not6rias, como a Nigeria (mais de
155 habitantes por km2), nas pr6ximas
decadas a Africa serai o nico continen-
te a registar taxas de fecundidade que
ultrapassam em media os 2,1 filhos por
mulher, assegurando a renovagio da
populagio. Outra caracteristica: uma
populagio essencialmente jovem, mas
confrontada com desafios tremendos,
uma vez que as guerras e as epidemias
hipotecam as economias agricolas fra-
gilizadas.


0 papel central da mulher

Para os participantes na conferencia de
Bruxelas, o enquadramento do cres-
cimento demogrifico passa, nomea-
damente, por um maior controlo das
taxas de fertilidade das mulheres (que
conhecem taxas miximas no Niger e
na Eti6pia). "A melhor solugo pare-
ce passar pela educago das mulhe-
res", explicou Wolfgang Lutz do IIASA
("International Institute for Applied
Systems Analysis"), apoiando-se num
estudo realizado na Eti6pia que mostra
que as mulheres privadas de educago
formal tem em media mais de seis
filhos, enquanto as que concluiram pelo
menos o ensino secundirio tem apenas
dois. "O capital humano populagio x
educago x saude -que esta na origem
de quase todos os progresses deve ser
colocado no centro de todos os esfor-
gos de desenvolvimento internacionais",
concluiu Wolfgang Lutz.


A Europa "oca"
"O crescimento demografico foi
a chave do progresso da Euro-
pa Ocidental entre os s6culos X e
XIII. Pelo contrario, os periodos de
retrocesso ou de obscurecimento
correspondem a fases de regressao
demografica. Que tema de medita-
9ao e ao mesmo tempo de inquie-
tagco! A Europa 6 actualmente um
mundo oco rodeado de mundos ple-
nos, tal como ja foi um mundo supe-
rabundante que dominava mundos
vazios. As quest6es sobre o futuro
do nosso continente nao se podem
separar das quest6es sobre a sua
demografia", salienta por seu lado o
historiador Rend Remond.


Em 2009, a populagco mundial
atingiu 6,8 mil milh6es de pessoas.
Apesar do abrandamento do ritmo
de crescimento da populagco mun-
dial, a ONU prev& um aumento total
da populagco de 6,8 para aproxima-
damente 9,1 mil milh6es em 2050.
Este crescimento verificar-se-a
quase exclusivamente nos paises
em desenvolvimento. O envelheci-
mento da populagco dos paises de-
senvolvidos deve-se a diminuigco
da fertilidade e ao enorme aumento
do periodo de vida. Estas socieda-
des envelhecidas representam cer-
ca de 70% do PIB mundial.


Correio













































Antes do inicio da Exposicao de Xangai de 2010, na China (1 de Maio a 31 de
Outubro de 2010), que sera uma vitrina de todos os paises do mundo, nome-
adamente os do continente africano (ver caixa), perguntamos ao Professor lan
Taylor, especialista em relac es sino-africanas na Universidade de St. Andrews,
Esc6cia*, se a Europa tem algumas lic es a tirar da expansao das ligac es da
China com Africa.


Debra Percival


Mural promovendo o continente africano e a Cimeira
China-Africa, de 3 a 5 de Novembro. Reporters/AP


Equatorial, Congo-Brazzaville, Angola rias-primas, como minerais, e Africa
e Sudio. importa produtos manufacturados.


entre a China e um pais
africano?

Os acordos econ6micos (os
mais importantes tern por objecto mine-
rais) sao normalmente negociados pela
empresa chinesa que tem a responsa-
bilidade por Africa. Nalguns casos ha
indica6Ses de que as empresas chinesas
obtem vantagens gragas a apoio politico
do governo. Num acordo em que even-
tualmente uma empresa chinesa benefi-
cia de um contrato [de minerais], podem
ser oferecidos, por exemplo, projectos
de infra-estruturas. Mas isto tambem ja
foi referido ate a exaustio nos meios de
comunicago [ocidentais].

Onde e que a China estd mais pre-
sente no continente africano?

Se olharmos para os 10 principais par-
ceiros comerciais da China no conti-
nente africano, com excepgio da Africa
do Sul (cujo comercio com a China
tem caricter mais geral), sao produto-
res de minerais ou de petr6leo: Guine


Tern urn valor aproximativo do
comercio da China corn Africa?

O comercio bilateral da China com
Africa passou de 5 mil milh6es de d6la-
res em 1997 para 106,8 mil milh6es
no ano passado, aumentando 45% em
relagio ao ano anterior.

Entdo as rela(des econ6micas
Africa-China ndo foram afectadas
pela crise econ6mica?

Quando a recessio comegou, toda a
gente dizia que os chineses iam sair de
Africa, mas na realidade nao o fizeram
e ate intensificaram a sua actividade.
Africa e extremamente importante para
a China, porque actualmente a legitimi-
dade do governo chines baseia-se unica-
mente no crescimento econ6mico e nao
na ideologia. Muito desse crescimento
depende de materias-primas, especial-
mente petr6leo e outros minerais, para
impulsionar a economia. Um dos pro-
blemas e que o tipo de relacionamento
e identico ao que Africa teve com a
Europa ou os EUA: e neocolonialista, na
acepgio de que a China importa mate-


Outra critica feita d China e que ao
contrdrio da cooperagdo da UE, a
sua politica ndo se baseia muito em
principios, faltando-lhe a atengdo
nos direitos humanos e na erradica-
ado da pobreza.

A posigio chinesa e simples: o desenvol-
vimento esta antes dos direitos huma-
nos individuais. As autoridades chinesas
alegam que fornecendo infra-estruturas
estabelecem os alicerces do desenvolvi-
mento. A questio dos direitos humanos
e um dos pontos fracos da politica chi-
nesa em relagio a Africa. Argumentam
que os direitos humanos tern a ver
com o desenvolvimento, mas em mui-
tos paises africanos, como o Sudio e
o Zimbabue, foram os governos que
debilitaram o desenvolvimento dos seus
pr6prios povos, por isso a posigio chi-
nesa nio e coerente, porque alegam que
estio empenhados no desenvolvimento,
mas tambem estio envolvidos com algu-
mas autoridades que conduzem politicas
contra o desenvolvimento. Contudo, a
China tem uma abordagem diferente do
Ocidente em relagio aos direitos huma-
nos, o que e preciso compreender.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010





























Ve a presenca da China em Africa
como positiva ou negativa?

Globalmente, e positiva. Estio a pre-
parar o terreno para projectos de infra-
estruturas. Fizeram subir os precos dos
minerais e e evidente que isto pode
aumentar a dependencia de Africa das
mercadorias primrrias, mas isso nao
e um problema da China, mas sim da
Africa. Ha pontos negativos, mas penso
que todos os paises, quer seja a UE ou
os EUA, tern aspectos negativos nas
suas politicas.

Quais sdo os pontos negativos da
presenca da China em Africa?

Varia de pais para pais; trata-se de espa-
go em principio aberto a autocratas para
encontrarem uma nova fonte de apoio
politico que os liberte de terem de cum-
prir os condicionalismos do governo.
Mas a presenca chinesa voltou a chamar
a atencao dos responsiveis politicos
para Africa. O continente aparece como
a grande questio das relacSes interna-
cionais. Na Europa estamos habituados
a uma Africa dependente e na nossa
esfera de influencia, mas talvez o apa-
recimento da China e de outros paises
no continente, como a India, o Brasil, a
Turquia e Israel, seja bom para Africa,
ja que se volta a dar atencao ao conti-
nente e faz-nos [no Ocidente] repensar
as nossas politicas.

Os responsaveis politicos
europeus vao ter de se habituar
c ideia de que Africa ja nao
esta na sua esfera de influencia
exclusiva e que existem novos
actores

A UE tern alguma coisa a aprender
cor aforma como a China conduz a
sua politica em relacdo a Africa?

Os chineses dirio que deram respos-
ta aos pedidos de infra-estruturas dos
governos africanos, enquanto os euro-
peus se concentraram mais em coisas
que vem a seguir ao desenvolvimento,
como os direitos humanos individuais.
A principal desvantagem da UE e que
nao aparece unida quando se trata de
politica. Existem documentos estrate-


gicos da UE sobre Africa, mas o que
acontece realmente no terreno e que
a Franga faz isto e o Reino Unido faz
aquilo, o que prejudica a coerencia de
uma politica europeia.

Hd alguna possibilidade de rela(des
triangulares UE-China-Africa?

Tem corrido muita tinta sobre o con-
ceito de conversagces tripartidas entre
os tries intervenientes, mas nao estou a
ver os outros dois concordarem. E uma
question muito orientada pela Europa.


Os responsiveis politicos europeus vao
ter de se habituar a ideia de que Africa
ja nio esta na sua esfera de influencia
exclusiva e que existem novos actores.
A China e o primeiro, mas ha outros:
India, Brasil, Malisia e, especialmente
nos dois 61timos anos, o Irao.

Onde e que estas reladoes vdo con-
duzir?

O comercio continuara a aumentar,
mas o perigo reside no facto de nao ser
sustentivel, uma vez que se baseia nos
minerais e nao existe uma verdadeira
demonstraco de industrializacio em
Africa como parte deste relacionamen-
to. E o que tem acontecido em Africa
desde a independencia. Existe o peri-
go de a China reforgar aquilo que o
Ocidente fez nos 61timos 40 anos. Mas
enquanto a economia chinesa continuar
a crescer e precisar de materias-primas e
enquanto Africa as tiver, penso que esta
relaoo ira continuar.




* A publicagao mais recente do Professor Taylor
intitula-se: "China's New Role in Africa" ["0
Novo Papel da China em Africa"], publicado
por Boulder, CO: Lynne Rienner, 2010.

O Professor Taylor e tambem Professor
Associado na Universidade de Renmin, China,
Professor Honorario na Universidade Normal
de Zhejiang, China, e Professor Extraordinario
na Universidade de Stellenbosch, Africa do Sul.


C*rreio


Os ACP em Xangai

Sao esperadas 53 na6bes africa-
nas, 42 das quais partilharao urn
pavilhao com a Uniao Africana (UA),
na Exposigdo de Xangai de 2010. O
pavilhao da Comunidade das Cara-
ibas tem um trio do Haiti com uma
exposicgo da sua capital, Port-au-
Prince, antes e depois do terramo-
to para chamar a atengco para a
reconstrugco do pais. O pavilhao
conjunto de 14 na96es do Oceano
Pacifico ira promover a regiao como
um paraiso turistico: "Oceano Paci-
fico Fonte de inspiracgo".


































SReporters


Sera que o tema da juventude


deveria ser antecipado na agenda


para o desenvolvimento?


Debra Percival


Nao existe nenhum Objectivo
de Desenvolvimento do
Milenio especifico para
a Juventude, mas todos os
ODM desde a erradicago da pobreza
(ODM1) a parceria global para o desen-
volvimento (ODM 8) sao importantes
para as faixas etarias entre os 15 e os
30 anos.

Ao longo das 61timas duas decadas rea-
lizaram-se varias iniciativas regionais
e internacionais para antecipar o tema
da juventude na agenda para o desen-
volvimento, incluindo a Cimeira de
Juventude Africa-Europa de 2007. Este
ano, o Governo mexicano vai realizar
mais uma iniciativa ao ser o anfitriao da
Cimeira de Juventude Global na Cidade
do Mexico, de 24 a 27 de Agosto.

Ira estabelecer prioridades para
os objectivos da juventude, alem da
agenda ODM que sera apresentada a
Assembleia-Geral das Nag6es Unidas.
Neste evento terio voz governos, socie-
dades civis, instituig6es academicas,
fundag6es p6blicas e privadas e orga-
nizag6es internacionais. A juventude
actual e mais numerosa, mais culta e
mais saudavel do que as gerag6es ante-
riores e tem menos filhos do que os
seus antecessores. Uma nota da cimeira
indica que as politicas correctas podem
impulsionar o crescimento econ6mico e
aumentar a poupanga.


A Uniao Europeia nao possui uma
"politica de juventude para o desenvol-
vimento", mas os funcionirios da UE
explicam que a "integragco da juventu-
de" se encontra nas suas politicas para
as Nag6es dos Estados de Africa, das
Caraibas e do Pacifico (ACP). O finan-
ciamento ao abrigo do Fundo Europeu
de Desenvolvimento (FED) para os
paises ACP abrange o apoio ao orga-
mento para a educago e a construgco
de escolas assim como pequenos pro-
jectos como "O Silencio e Violencia"
no Botsuana que e gerido por uma
organizacgo nao governamental, Women
against Rape (Mulheres contra a viola-
c)o) e esta a ensinar os jovens sobre as
raz6es que estao na base dos casos de
assedio, assalto e violaogo.

"A Juventude em Acyio"

O "Programa Juventude em Acoo",
de 885 milh6es de euros, dirigido pela
DG Educacao e Cultura da Comissao
Europeia (2007-2013) financia inter-
cambios culturais, projectos de volun-
tariado e outros tipos de actividades
nao academicas por toda a Europa,
mas tambem refne organizag6es juvenis
europeias com os seus hom6logos das
Nag6es dos Estados ACP.

Os projectos que incluem a juventu-
de dos Paises dos Estados ACP vao
desde a realizacgo de um Parlamento da
Juventude, em Montevideu, no Uruguai,
de 5 a 11 de Julho de 2010, uma inicia-
tiva do Goethe Institute, no Uruguai, a
criaogo de um projecto para uma melhor
integragco na sociedade dos jovens com


incapacidades intelectuais atraves do
desporto. Neste projecto estao envolvi-
dos jovens da Nigeria, do Botsuana, do
Ruanda, da Tanzania, do Quenia, do
Malavi, da Africa do Sul e do Uganda.*

A medida que os orgamentos em material
de ajuda de alguns Estados-Membros da
UE comegam a diminuir, um documen-
to de trabalho recente da UE, "Mais
e Melhor Educago para os Paises em
Desenvolvimento", transmite assertiva-
mente a mensagem de que a educago
desempenha um "papel significativo
na capacitagco do crescimento a longo
prazo e na melhoria da produtividade,
na erradicago da pobreza, na melhoria
do estatuto sanitirio, na emancipagco
das mulheres, na diminuicgo da desi-
gualdade e na contribuicgo para a con-
solidagco do Estado".

Longe das disc6rdias sobre como se
deve usar essa ajuda, na educago ou em
qualquer outra area, nas paginas que se
seguem o nosso processo transmite de
forma bem clara a tenacidade e a ambi-
Oo dos jovens das regi6es ACP, desde
os sonhos destruidos dos haitianos, mas
que ainda sobrevivem ate a formagco
de realizadores de cinema nos bairros
pobres do Quenia, Kibera, e do con-
curso pioneiro para "Miss Samoa" no
Pacifico, que esta a abrir caminho para
os jovens engenheiros.

*Para mais informagoes visite o sitio Internet:
http://ec.europa.eu/youth/youth-in-action-
programme/doc74_en.htm
**http://ec.europa.eu/development/icenter/
repository/SEC2010_0121_EN.pdf


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010





IDOSi -Ju o-ud


Kibera, nos arredores de Nairobi, capital do Quenia, e o maior bairro de lata da
Africa Oriental e ai habitam mais de meio milhao de pessoas. A Fundagao "Hot
Sun" e uma sucursal sem fins lucrativos da "Hot Sun Films", que comecou a
fazer filmes em Kibera em 2005, com o filme Kibera Kid, que obteve um premio
internacional. A Escola de Cinema de Kibera e o maior projecto da Fundacao e
quer fazer com que os jovens de Kibera consigam realizar a sua ambicao de
serem realizadores e produtores de cinema, estando a desenvolver um nOcleo de
realizadores para darem formacao a outros. Para a auto-estima dos jovens deste
bairro de lata foi excelente e encheu de orgulho a sua comunidade.


Debra Percival


E stamos a trabalhar para
fazer de Kibera o cen-
tro da ind6stria cine-
matogrifica no Quenia,
onde possamos realizar projectos de
videos que irio apoiar financeiramente
a Fundagio Hot Sun", afirma Pamela
Collett, responsivel pela comunica-
cao global da Fundagio. A Escola de
Cinema e apenas um dos muitos pro-
jectos da Fundagio Hot Sun, que tam-
bem incluem seminirios e exibigio de
filmes na comunidade, teatro de rua e
formagio em materia de representagio
e de tecnicas narrativas.


A associagco cultural belga "Africalia",
que concedeu uma subvengco de tries
anos a Fundaogo, e actualmente a
sua principal financiadora, embora a
Fundaoo tambem tenha recebido apoio
do Alto Comissariado Australiano e
da Embaixada dos Paises Baixos em
Nairobi. O projecto gera igualmente
as suas pr6prias receitas com a venda
de DVD, especialmente do Kibera Kid,
bem como outros pequenos projectos
comerciais. Pamela Collett diz que a
Fundagco tambem recebe donativos
em linha atraves do sitio www.globalgi-
ving.org/3632 e da Europa e dos EUA
vieram doag6es de miquinas digitais de
video e de imagens fixas. Virios esta-
giBrios e voluntirios, internacionais e


locais, deram igualmente assistencia
tecnica. Mas para desenvolver as com-
petencias e a experiencia necessirias
para ser comercialmente viivel ainda
levara mais tries a cinco anos, diz
Collett.

"Togetherness Supreme"

Togetherness Supreme e a longa-metra-
gem que vai estrear brevemente e que
foi rodada na Escola de Cinema de
Kibera juntamente com a organizago
gemea Hot Sun Films. 0 seu elenco
e todo de Kibera e os estagiirios da
Escola de Cinema de Kibera traba-
lham ao lado dos profissionais na equi-
pa de filmagem. Todos os estudantes


Correio





- o.t- I er


que entrevistimos, que recebem uma
pequena bolsa na escola de cinema, tem
a ambigao de arranjar um emprego per-
manente na ind6stria cinematogrifica
internacional.

Faith Wavinya, 23 anos

Era vendedora de antenas parab6licas
de televisao por satelite antes de entrar
no projecto. "Quando me deram opor-
tunidade de trabalhar como estagiaria
em filmes digitais com a miquina de
filmar Red One em Kibera (durante
as filmagens de Togetherness Supreme),
isso despertou o meu interesse na rea-
lizacgo e montagem de filmes e cons-
tituiu uma viragem na minha vida",
diz ela. "Agora sinto prazer na vida
todos os dias. Levanto-me e estou feliz.
Posso filmar e montar um video -algo
que nao podia fazer antes. Tenciono
utilizar os conhecimentos que tenho


para apoiar a minha mie e melhorar
a sua vida. Contar hist6rias sobre a
comunidade deu-me uma perspectiva
mais positiva da vida", acrescenta ela.
Wavinya quer ser uma boa dirigente
e realizadora de cinema e oferecer fil-
mes a sua comunidade, facilitando ao
mesmo tempo a sua ambigio de traba-
lhar como produtora ou realizadora na
Hot Sun Films.

"Antes, a minha vida limitava-se
c obreviv6ncia; agora tenho uma
vida criativa"
Victor Oluoch

Gabriela Operre, 22 anos

A concluir os estudos secundirios e
& actriz. "Quero continuar a ser uma
activista, tentando fazer de Kibera
um bom sitio, especialmente para a
emancipaaio das raparigas", afirma.
"Estou a trabalhar com virios grupos
comunitarios, nomeadamente: Amani
Communities Africa, como actriz pela
paz; secretiria do KCODA, o grupo
que partilha informag6es com a comu-
nidade, e com Power of Hope, um grupo
de teatro que aborda diferentes temas
da comunidade. Quero ser uma acti-
vista, actriz, realizadora de cinema e
formadora", diz ela. O facto de estar na
escola alargou as suas actividades alum
de participar na montagem, t&cnicas de
produgyo e de escrita de argumentos.

Victor Oluoch, 22 anos

Tambem obteve novas competencias
de enorme valor na Escola de Cinema.
"Antes de entrar na Fundagyo Hot Sun
nunca tinha utilizado qualquer tipo de
camara de video." Para sobreviver cos-
tumava vender sapatos e vestuirio na
economia paralela. "Aprendi as com-
petincias gerais de realizagco de fil-
mes, nomeadamente a escrita de argu-
mentos, trabalho com actores, camara,
som, produogo, direcgyo e montagem."
Os seus novos pontos fortes sao a filma-
gem e montagem. "Imagino diferentes
angulos criativos ngulos loucos -em
que as pessoas podem nao estar a pen-
sar. Sempre que estou a filmar sinto-me
igualmente como realizador. Trabalho
com paixao e dedicaogo, que & o que
mais me motiva. S6 espero conseguir
exito na ind6stria cinematogrifica e
quero alterar a maneira de fazer filmes
no nosso pais; para contar hist6rias do
meu pais e da minha comunidade",
diz ele. Aprendeu a escrever guides e
a trabalhar com actores, a filmar, as
t&cnicas de som, producgo, realizagco
e montagem e o curso alterou por com-


pleto a sua maneira de pensar e deu-
Ihe um novo rumo. "Antes, a minha
vida limitava-se a sobrevivencia; agora
tenho uma vida criativa", continua. "S6
quero que o meu mundo seja um lugar
melhor para pessoas como eu. Se vir a
minha hist6ria, eu nio tinha futuro. A
Fundayao Hot Sun deu-me um futuro.
Foi um renascimento. Tenho um sonho
e quero construir o meu futuro. Quero
ser um grande realizador de filmes e
ajudar as pessoas a realizarem os seus
sonhos."

Josphat Keya, 23 anos

Fazia instalay6es el&ctricas com o pai
antes de entrar na escola e nio sabia
nada da realizaaio de filmes. "Eu gos-
tava de escrever hist6rias, por isso
pensei que podia vir para a Escola de
Cinema de Kibera e aprofundar essas
competencias de narraaio de hist6-
rias", disse-nos ele. "Mas a realizaaio
de filmes nio e apenas a narraaio de
hist6rias; tem a ver com a filmagem e a
montagem. Quero aparecer com hist6-
rias que ainda nio foram contadas, que
possam em especial educar os jovens e
as pessoas que estio esquecidas", refe-
re. Tem ambiy6es de realizacio: "Creio
que um realizador devia conhecer a
escrita de guides, a fotografia, os acto-
res, toda a gente. Quero ser um reali-
zador que conheca todos os sectores da
actividade cinematogrifica."

Em Maryo, a Escola de Cinema espera-
va concluir um pequeno documentirio
autobiogrifico, Jewel in the Dust, em
DVD, bem como uma s&rie de docu-
mentirios curtos sobre outras orga-
nizag6es da comunidade no bairro de
lata. Podem comprar-se seis curtas-
metragens de Kibera no sitio: www.
buykiberakid.com.











Para saber mais:
info@hotsunfoundation.org
www.hotsunfoundation.org/
www.togethernesssupreme.com/
kiberakid.blogspot.com/
kiberafilmschool.blogspot.com/
twitter.com/hotsunfilms/
Veja em antestreia Togetherness Supreme no
sitio: http://vimeo.com/9824685


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010





IDOe- -Juen -d


Haiti: 0 terremoto destrutor


de sonhos dos jovens



De magnitude 7,02 na escala de Richter, o terremoto de 12 de Janeiro de 2010
nao so tirou a vida a 200.000 pessoas e destruiu 250.000 habitagoes, entre as
quais varias escolas, como tambem conseguiu abalar a esperanca e os sonhos
da juventude haitiana, que vive agora com a ideia de que e necessario recomecar
tudo de zero.


Francesca Theosmy


de Richter, o terremoto de
12 de Janeiro de 2010 nio
s6 tirou a vida a 200.000
pessoas e destruiu 250.000 habitag6es,
entre as quais virias escolas, como tam-
bem conseguiu abalar a esperanga e os
sonhos da juventude haitiana, que vive
agora com a ideia de que & necessirio
recomecar tudo de zero.

Fendy Morency, 27 anos, ficou sozinho
em Port-au-Prince, de onde partiu toda
a sua familia. Estudante universitirio
finalista de estudos sociais na Faculdade
de Ciencias Humanas da Universidade
de Estado, Fendy dava aulas no ciclo
primirio antes da catistrofe.

"Antes de 12 de Janeiro, apesar das con-
dig6es dificeis, muitas pessoas tinham
alguma estabilidade no piano socioecon6-
mico. Agora, ap6s esta data, a realidade
socioecon6mica que se nos depara & total-
mente diferente. Sera doravante necessi-
rio repartir de zero em todos os sectores
da vida nacional. Alguns universitirios
pensam que & o fim da nossa esperanga."

Fren&se Larose, 23 anos, & uma mne
jovem, solteira. Na manhi do 12 de
Janeiro pagou 7500 Gurdes (1 euro) de
despesas de escolaridade do seu filho,
quer dizer tudo o que possuia. A tarde,
toda a sua vida vacilou. 0 seu filho de 4
anos sofreu virias fracturas, obrigando-
a a conffi-lo a sua mie que mora em
J&rnmie.

"Como todos sabem, estamos a viver
momentos muito dificeis, sobretudo
quando se tem um filho nos bragos.
Ouvi dizer que distribuiram kits, gene-
ros alimenticios e toldos, mas eu nio
recebi nada. O meu filho esta em tra-
tamento e a minha mie esta sempre a


telefonar para me pedir dinheiro. Se
eu nio fosse desenrascada nunca con-
seguiria ter o que comer. Eu tinha um
trabalho antes do tremor de terra, mas
o meu patrio morreu no sismo", explica
Fren&se Larose.

Depois do sismo, Frne&se Larose aban-
donou a casa onde morava, que ficou


muito danificada, e vive num centro de
alojamento na capital.

Mais da metade da populagio haitiana
tem menos de 21 anos e 36,5% das pes-
soas tem menos de 15 anos. Antes do
sismo, esta populagio jovem lutava con-
tra o desemprego e contra dificuldades
de escolarizagio. Actualmente, tem que


Jovens que procuram, no meio do entulho de um edificio que ruiu, qualquer coisa que possam usar ou
vender, na sequencia do terramoto do Haiti, em Porto Principe, terga-feira, 9 de Fevereiro de 2010.
AP Foto/Rodrigo Abd


C*rreio





Juvend- Do- sie


Uma rapariga observa uma fila de mulheres que aguardam a distribuigio de viveres, durante um Programa
de Distribuigio de Alimentos da ONU, em Porto Principe, sabado, 6 de Margo de 2010. AP Foto/Esteban Felix


enfrentar condig6es de vida ainda mais
austeras, a dos campos de alojamento.

O Programa Alimentar Mundial (PAM)
responsivel pela coordenaaio do apoio
alimentar internacional explicou que
nio seria possivel distribuir a ajuda
alimentar a toda a gente. Ora, num


contexto em que e dificil definir as
prioridades os cup6es alimentares sao
vendidos ou trocados -a frustragio e o
desespero instalam-se rapidamente.

Alguns puderam sobreviver nos pri-
meiros dias gragas ao apoio da dias-
pora haitiana. As estimativas apontam
um aumento, no mes de Janeiro, de
aproximadamente 10% das transfe-
rencias, em relagio a Janeiro de 2009.
Mas a maioria s6 pode contar consigo
mesma, tanto mais que a ajuda nio
pode durar sempre. Entretanto, o pro-
cesso parece ser muito longo. Uma
visio de Port-au-Prince confirma-o.
Tem-se a impressio de que os tra-
balhos de remogio dos escombros,
que e o primeiro passo a dar para a
reconstrucao, acabam apenas de ini-
ciar, quando, na verdade, ja comega-
ram ha quase dois meses.

"Por enquanto, nao vejo nenhuma
mudanga. Se esperarmos que se recons-
trua o pais, as escolas s6 funcionario
daqui a cinco anos", duvida Frenese
Larose.

Escola destruida, esperanga
perdida!

Associando incessantemente a escola ao
seu futuro, os jovens interrogados nio
escondem que para eles a pior coisa e o
risco de perderem anos a fio que deve-
riam ser consagrados a preparaaio do
seu futuro ora malogrado.

"Eu nao acredito que a escola possa
recomecar a funcionar. As coisas vio de
mal a pior e os pr6ximos tempos serio
ainda mais dificeis", lanya, convencido,
Delgado Remy, 15 anos.

Mais ou menos dois teryos das escolas
da capital sofreram danos com o tremor
de terra.


Os tractores ja ha algumas semanas que
trabalham sem parar nas escolas, o que
augura a reabertura das aulas. Mas esta
reabertura, que e o desejo expresso pelo
governo, parece-nos ser mais que pro-
blemdtica. Alguns estabelecimentos de
ensino foram transformados em locais de
alojamento e o realojamento dos sinistra-
dos continua a ser, sem d6vida, um dos
maiores desafios. Entre os deslocados,
encontram-se tambem alunos, professo-
res e pessoal administrative das escolas.

O tremor de terra destruiu igualmente
as possibilidades de lazer, cujo acesso
ja antes de 12 de Janeiro era reservado
a quem tinha posses para isso. Hoje,
os campos de futebol, entre os quais o
tnico estidio nacional, Sylvio Cator,
estao transformados em campos de refu-
giados. As salas de cinema que, antes de
12 de Janeiro, fecharam devido a falta de
verbas e cuja reabertura estava prevista,
com o Rex Teatro e o Triomphe, foram
gravemente danificadas ou destruidas.
O parque de estacionamento do "Cine
Imperial", o 6ltimo a fechar, acolhe hoje
sinistrados.

"Vivemos com receio de novas replicas.
Nunca tinhamos vivido uma situayao
destas e nao sabemos se poderemos
reviver um tal acontecimento", exprime
o jovem Remy, que vai precisar de pelo
menos dois anos para reencontrar a
calma e a esperanya.

O processo de reconstrugco langado
em Fevereiro passado pelo Primeiro-
Ministro Jean Max Bellerive atraves da
PDNA (Post Disaster Need Assessment
-Avaliagyo das Necessidades P6s-
Catistrofe), documento que deve defi-
nir as orientag6es da reconstruyao, e
visto pelos jovens abordados como uma
vasta confusao dos politicos.

"Os nossos jovens devem mostrar-se
positivos e acreditar que tem respon-
sabilidades na reconstrucgo. A recons-
trucgo precisa do empenho dos jovens.
Alguns ja tem este espirito positivo, mas
sao poucos. Em 12 de Janeiro foi o fim
de tudo", exprime Fendy Morency.

Na sua opiniao, a satde, a educaogo e a
agricultura sao tries sectores que mere-
cem ter prioridade na reconstrucgo.

"Alguns jovens estao convencidos de
que, para haver mudanya e necessirio
o esforgo internacional. Ora o que eles
ignoram e que a mudanga deve ressur-
gir, essencialmente, das forgas e capa-
cidades locais, e s6 entao aparecera a
ajuda internacional."


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010





DSI er -Juen-d


A forga de sobreviver


Criangas-soldado da Frente de Libertagao do Congo (FLC-MCL). o Reporters/Wim Van Cappellen Crianga-soldado Ishmael Beah, da antiga Serra Leoa,
autor do livro: Uma Longa Caminhada: Memorias de
uma Crianga-Soldado. e Reporters/Redux


Marie-Martine Buckens



; ueremos dizer ao
mundo que nao somos
a geraaio perdida, que
a causa das crianyas-
soldado nao e deses-
perada e que podemos
sair desta situayao." Convencidos disso,
seis ex-crianyas-soldado ou crianyas
vitimas da guerra fundaram a rede de
jovens afectados pela guerra (Network
of Young people affected by war Nypaw),
em 2008.

Sinai dos tempos perturbados por que
passa a Africa, cinco destes seis funda-
dores da Nypaw (www.nypaw.org) sao
cidadaos do continente africano: dois
do Sudao, duas mulheres do Uganda e
um da Serra Leoa. Sao regi6es onde as
guerras civis perduram ainda. A sexta
integrante do grupo e Zlata FilipoviN,
cognominada a "Anne Franck de
Sarajevo".

Grace Akallo, hoje com 29 anos, contou
em Abril passado no Conselho de
Seguranya das Nay6es Unidas a manei-
ra como foi raptada sob a ameaya das
armas pelo Exercito de Resistencia do


Senhor, em 1996, a caminho do liceu,
no Norte do Uganda, juntamente com
muitas outras alunas e como foram
agredidas sexualmente e depois obri-
gadas a tornarem-se soldados. Depois
combateu com o Exercito Popular de
Liberayio do Sudio. Foi obrigada a
matar as outras raparigas do seu grupo
que tentavam fugir ou recusavam os
seus maridos. Ap6s virios meses de
cativeiro, conseguiu fugir. Foi acolhida
por alde6es do Sul-Sudio antes de ser
entregue aos seus pais. Voltou ao cole-
gio e teve a possibilidade de entrar
na Universidade e obter um diploma,
uma oportunidade que as outras jovens
raptadas com ela nio tiveram. "Contei-
vos a minha hist6ria, mas ha milhares
de outras experiencias que voces nio
ouviram contar", lanyou a rapariga ao
Conselho de Seguranya.

ResistEncia

Grace Akallo nao e a tnica que teve uma
tal forya e capacidade de ressurgir.
Ishmael Beah tinha doze anos quan-
do a guerra deflagrou na Serra Leoa.
Obrigado a assentar praya no exercito,
conta-nos num livro o inferno em que
viveu e luta hoje para p6r fim a utili-
zaaio de crianyas na guerra. Ishmael
Beah: "O exercito era tambem a sobre-


vivencia: alistar-se ou ser morto. Mas
a situagio inverteu-se. Tentei primeiro
sobreviver para fugir a guerra, mas
finalmente sobrevivi com a inica fina-
lidade de fazer a guerra, de fazer mal."
Em 1998, com 18 anos de idade, conse-
guiu, por milagre, fugir para os Estados
Unidos, gragas a uma contadora ameri-
cana que o acolheu sob a sua protecgio.
Terminou os estudos secundirios antes
de iniciar estudos universitarios bril-
hantes. O Sudanes, Emmanuel Jal,
escolheu a cangyo para exorcizar a sua
dor e divulgar uma mensagem de paz.
Cantor hip-hop de reputayao, fundou a
ONG "Gua Africa" para educar as ex-
criangas-soldado.

John Kon Kelei e tambem originirio do
Sul-Sudio. John ja terminou os estudos
de Direito Europeu e Internacional na
Universidade de Nijmegen e, sobretudo,
criou uma ONG (www.cmsf.nl) a fim de
colectar fundos para a criagio de escolas
secundirias no Sul-Sudio. John Kon
Kelei esta convencido que "a educaygo
-e nao apenas os estudos primirios, que
sao insuficientes -permite as criangas
dos paises pobres evoluir, construir um
futuro de progresso e nao de estagnagio
ou de retrocesso".


Correio





Juvend- Do- sie


Miss Samoa. Laufa Lealna El-Lesa


Uma mente brilhante


A tiara da "Miss Samoa" abriu muitas portas oferecendo novas oportunidades para
muitas das vencedoras. Tavalea e uma delas.


Laufa Leaina Lesa



T avalea Nilon nao e uma bel-
dade comum. A rapariga de 24
anos e a actual "Miss Samoa".
Esta e uma grande honra para
as jovens de Samoa, na Ilha do Pacifico.
E um titulo que concede a sua detentora
muita influencia e autoridade sobre os
seus pares.

"Decidi participar no concurso de Miss
Samoa, porque e um desafio impar e
atraves deste esforgo espero tornar-me
numa boa embaixadora do nosso pais",
comentou Tavalea.

Mas antes de se tornar na "Miss Samoa",
Tavalea era ja uma inspiragyo para
muitos jovens, especialmente para as
raparigas que queriam enveredar na car-



N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010


reira de engenharia. Tavalea formou-se
na Australia National University, tendo
tirado um bacharelato em Engenharia
Mecanica e um bacharelato em
Ciencias.

Foi coroada "Miss Samoa" enquanto
simultaneamente prosseguia a sua for-
maaio academica para tirar o mestrado
em Engenharia Mecanica na Australia,
no entanto, teve de adiar os estudos
devido aos compromissos exigidos a
"Miss Samoa".

Engenheira profissional

Um dos compromissos inclui trabalhar
a tempo inteiro para a Samoa Tourism
Authority como o rosto de Samoa em
eventos regionais e internacionais para
promover a Samoa como destino turis-
tico. Apesar da sua juventude, Tavalea e
muito respeitada no seio da Instituiaio


dos Engenheiros Profissionais de Samoa
(IPES), da qual e membro.

"A engenharia e uma 6ptima carreira,
pois possui muitas areas por onde enver-
edar. A engenharia e o que esta a fazer
girar o mundo. Muitas vezes, quando as
pessoas pensam na engenharia, s6 veem
a engenharia mecanica, mas e mais do
que isso", afirma Tavalea. Prosseguiu
dizendo: "E uma carreira especialmente
boa para a populagyo de Samoa, pois
existe muito desenvolvimento a decorrer
actualmente no nosso pais."

A engenharia 6 o que esta a
fazer girar o mundo

Os seus pares na IPES honraram o
seu feito inico. "Tavalea e um 6ptimo
modelo para a IPES quando abordamos
as escolas para encorajar os jovens estu-
dantes a pensar na engenharia como
uma carreira na qual precisam de tra-
balhar a matemitica e a ciencia", afir-
mou Fonoti Perelini, presidente da insti-
tuiyao. Acrescentou ainda: "Ela sera um
6ptimo modelo para as jovens raparigas
que querem enveredar por uma carreira
profissional."

A favor das energias
renovaveis

Ela e um dos 12 membros femininos da
IPES, uma instituiyao predominante-
mente masculina. A sua nomeaygo como
"Miss Samoa" aumentou o interesse na
adopgao da engenharia como carreira.
"O titulo de Miss Samoa e uma plata-
forma a partir da qual Tavalea pode
ajudar na sensibilizagco para areas como
as catastrofes naturais, tal como os
maremotos, os ciclones, os terramotos e
problemas como o aquecimento global
que afectam as ilhas baixas do Pacifico",
afirmou Fonoti.

"A engenharia dara um grande contrib-
uto na procura de solug6es para atenuar
os impactos destas catastrofes naturais.
Durante o seu reinado, Tavalea ira
promover a sensibilizagco e aumentar o
perfil dos engenheiros em Samoa e na
regiao." Tavalea tambem esteve envolv-
ida em actividades de voluntariado. E
membro do Rotaract, Programa Juvenil
Rotary International, dedicado a ajudar a
comunidade.

A outra paixio de Tavalea e ver que mais
projectos centrados nas energias ren-
ovaveis irio utilizar os virios recursos
naturais de Samoa. Tavalea continua a
causar um impacto positivo nos jovens,
para que possam aspirar a alcangar o
seu melhor.





IDOSi -Ju o-ud


SReporters


0 mundo


em cima da


secretaria



Nos tempos em que a utilizagio do
telefone era limitada, o correio era
a Unica forma de comunicar com os
amigos e a familia. Um posto de cor-
reios era um trunfo importante. A ger-
agao mais antiga tambem se lembra
das longas filas na central telef6nica
na capital do Gana, Acra, para fazer
chamadas para o estrangeiro. Para
a geracao mais jovem, ate o fax e o
telex sao agora dinossauros, tendo
sido substituidos pelos telem6veis e
pelos computadores.


Francis Kokutse



S" io preciso de ir a
casa dos meus ami-
gos para saber qual-
N quer coisa simples;
basta-me telefonar-lhes ou enviar um
SMS para obter a resposta. Poupo
dinheiro ou o esforgo fisico a percor-
rer a distancia", diz Issaka Awudu, 25
anos. Desempregado, como e que con-
segue manter o credito no seu telefone?
"Normalmente fico com um pequeno
credito e 'flash' os meus amigos. Os
que tern credito para fazerem chamadas
respondem." ("Flash" e uma forma de
fazer uma chamada terminando-a ap6s
alguns toques e alertando a pessoa a
quem se telefonou para telefonar ou
enviar um SMS, nao tendo assim de
pagar a chamada.)

Ha menos de uma decada, as instalag6es
do que eram entio os centros de comu-
nicagyo no Gana estavam sempre api-
nhadas de jovens que queriam telefonar
para os amigos e para a familia. Agora
todos tern os seus pr6prios telefones.
Anabertha Owusu-Bempah, 24 anos,
licenciada pela Universidade de Ciencias
e Tecnologia Kwame Nkrumah, em
Kumasi, a segunda cidade do pais, afir-
ma: "Uso todos os dias o computador
para comunicar com os meus amigos


em todo o mundo. O mundo tornou-
se um local muito pequeno que existe
numa caixa que esta em cima de uma
secretiria."

Anabertha utiliza o e-mail e o Facebook
para comunicar com os amigos e con-
versar no Yahoo Messenger. "Sio novas
formas de comunicar com os amigos
que nos colocam assim mais perto deles
e isto ajudou a melhorar a nossa com-
preensio do mundo, porque sabemos as
coisas muito rapidamente", diz Owusu-
Bempah. Mas ha um lado mau: "E que
ficamos dependentes disto e gastamos
demasiado tempo. Com o telem6vel nao
e possivel interromper um amigo que
nos telefonou para conversar."

Resultados da Primeira Liga

Desmond Masoperh, 26 anos, que pos-
sui um Diploma Nacional Superior em
contabilidade, diz o seguinte: "Tenho
sempre o telem6vel comigo, porque me
permite estar em contacto com os meus
amigos. Estou sempre em linha, quer
para discutir com amigos, quer para uti-
lizar o Skype para conversar com o meu
primo em Londres." Navega na Internet
para estar ao corrente dos 61timos acon-
tecimentos da Primeira Liga de futebol
no Reino Unido. No entanto, o recurso
as mensagens de texto tem dado azo a
fortes criticas por parte das pessoas mais
velhas, que afirmam que os jovens ja
nio sabem escrever.

"Esforcei-me bastante para que os meus
filhos acabassem com as mensagens de
texto com os amigos, porque destruia
a sua capacidade de escrever correc-
tamente. Tive alunos na minha turma
que escreveram numa redacGyo i9 para
dizerem inove"*, diz Anthony Quarshie,
52 anos, professor do ensino secundirio
em Acra.

Para Anita Pinto, 23 anos, estudante
de software no IPMC -instituto de
ensino de Tecnologias da Informagao
e Comunicagyo (TIC) em Acra o
computador "e apenas um instrumen-
to que gosto de ter comigo porque e a
minha principal ligagio com os amigos.
Recebo todos os dias as minhas mensa-
gens e isso poupa-me a dificil tarefa de
ir ao correio enviar a minha correspon-
dencia".

Anita Pinto costuma conversar pelo
computador e navegar na Internet para
ver o que outros jovens estio a fazer em
todo o mundo. Tal como muitos outros
jovens da sua geragio que nao tem com-
putador pr6prio, recorre aos cibercafes,
que brotaram em todo o pais, mas nave-
gar ao minuto e caro.


* Original ingles: 9nt para dizerem night


Correio





- o.- Dose


Jovens


criam


os seus


empregos


Jovem pescaaor, em Niamey, no Niger, 5 i ae Juino ae zuua. AP Foto/RebeccaBlackwell


Souleymane Mahzou


licenciados e desemprega-
dos criam as suas pr6prias
empresas. Os casos de
Fatimata Hassane e de Issaka Oumarou
sao exemplos de sucesso.

"Com a ajuda do meu tio que vive em
Franga, abri este telecentro", conta Fatima
Hassane, 26 anos. Esta jovem com ar
calmo, oriunda de uma familia modes-
ta e possuidora de uma licenciatura em
Sociologia esta hoje a frente de uma peque-
na empresa que vai de vento em popa.

No inicio, em 2006, ela tinha apenas
uma linha telef6nica na sua pequena
loja, nao longe do grande mercado de
Niamey. "Trabalho 10 horas por dia.
A minha receita diaria anda a volta de
20.000 FCFA (30 euros)", explica ela.
"Este trabalho nao tem nada a ver com
a minha formagao de soci6loga. A saida
da universidade e dificil arranjar traba-
lho e nao sabemos quanto tempo vamos
ficar no desemprego. E preciso pensar
em criar o pr6prio emprego", diz ela.

Actualmente, com as suas pequenas
economias, Fatima Hassane aumentou


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010


a empresa. Abriu um cibercafe com
uma dezena de computadores. Depois
de contrair um emprestimo junto de
um banco local, alargou as suas activi-
dades. "As minhas actividades iniciais
vieram juntar-se a venda de cart6es pre-
pagos, de telem6veis e de vestuirio para
senhoras, homens e criangas", confia ela
muito contente.

A jovem recorreu a alguns dos seus
colegas -raparigas e rapazes -da facul-
dade para trabalharem juntos. Sao treze
a trabalharem a tempo inteiro neste
telecentro, que num espayo de 4 anos se
transformou num "centro de neg6cios".
E os lucros da empresa permitem-lhes
viver adequadamente.

"Vamos trabalhar ainda mais para
podermos crescer", prometeu a jovem
Fatima Hassane.

0 rapaz com dedos magicos

Ao contririo de Fatima Hassane, o
jovem Issaka Oumarou, 25 anos, criou
a sua empresa na sua area de forma-
yao inicial. Titular de um Diploma de
Tecnico Superior (BTS) em manuten-
yao informitica, em 2007 abriu uma
pequena empresa de manutenogo e
assistencia p6s-venda de material infor-
mitico.


Cansado de estar sem fazer nada duran-
te dias, Issaka Oumarou abandonou o
Niger. A sua viagem levou-o ao Benim.
Ai, um amigo do seu irmro mais velho
aconselhou-o a langar-se no sector pri-
vado e emprestou-lhe dinheiro. "Foi
com isso que abri este estabelecimento",
conta Issaka Oumarou, o rapaz dos
dedos mrgicos, como gostam de lhe
chamar os seus amigos e a sua clientela,
muito satisfeita com a sua prestagio de
servings.

"A minha clientela e constituida por
empresas e sociedades estatais que em
geral nao discutem as despesas com
mro-de-obra. E rapidamente os ganhos
se multiplicaram, permitindo-me pas-
sar a comprar e vender consumiveis de
informitica", resume ele.

Este jovem deixou de pertencer ao grupo
de diplomados que andam de empresa
em empresa a deixar os seus CV e cartas
de motivayao. "Criei o meu 's&samo',
que me abriu todas as portas. E eu pr6-
prio sou empregador", brinca ele com
uma voz segura.

Emprega seis jovens, dos quais tries sao
diplomados do ensino superior. No
entanto continua muito discreto sobre o
nivel de rendimentos que obtem da sua
empresa.













































"A saude e um direito fundamental"


Conhecida pela sua accao a favor dos presos politicos, a Amnistia Internacional alarga cada vez mais o seu campo de
accao e, prioritariamente, a saude que, sublinha a ONG num documento destinado a Comissao Europeia, deve ser con-
siderada como "relevante dos direitos humanos".


Marie-Martine Buckens


E m Setembro proximo, em
Nova torque, os lideres mun-
diais reunir-se-ao para fazer
o ponto sobre a situagio dos
Objectivos de Desenvolvimento do
Milenio (ODM), definidos ja la vio
dez anos pelas Nag6es Unidas. Sera a
ocasiao de todas as partes interessadas
fazerem o balango e posicionarem-se.
Os ODM tornaram-se efectivamente
na referencia em materia de politica
de ajuda ao desenvolvimento, dado os
grandes doadores ajustarem os seus
financiamentos em fungo dos oito
objectivos determinados. E, por con-
seguinte, um enorme desafio para as
ONG cujas actividades dependem em
parte destas instituig6es multilaterais e
da Uniao Europeia. A UE acaba, alias,
de adoptar a sua posigco sobre alguns
destes objectivos com vista a Cimeira
de Nova torque.

A saide figura entre as grandes prio-
ridades pois cobre tries destes objec-
tivos, a saber: reduzir a mortalidade
infantil; melhorar a saide materna;
e combater as doengas transmissiveis.


Ora, sublinha a Amnistia Internacional
em resposta a consulta efectuada pela
Comissio Europeia antes de adoptar a
sua comunicago sobre o papel da UE
no campo da saide global na perspec-
tiva da cimeira (ler artigo separado), "a
saide e um direito humano fundamen-
tal protegido por uma serie de tratados
regionais e internacionais".

Papel basico

A Amnistia Internacional vai ainda
mais longe. Sublinha que o conjunto
dos ODM e da competencia do respeito
dos direitos humanos e a UE deveria
aproveitar a ocasiao desta consulta para
o afirmar alto e bem. A UE posiciona-
se: "Os defensores dos direitos huma-
nos, conhecedores da universalidade
e indivisibilidade dos direitos, podem
estabelecer a relaco entre o direito a
saide e outros direitos civis, politicos,
sociais e econ6micos." Estes mesmos
defensores, acrescenta a ONG, "podem
constituir um valor acrescentado ao
verificarem a aplicago das politicas,
podem introduzir novas ideias e p6r em
causa conceitos susceptiveis de obstar
a realizagio do direito a saide". Em
conclusio, indica a ONG, a Comissio
devera "reconhecer o papel desempe-


nhado pelas organizag6es da sociedade
civil e pelos defensores dos direitos
humanos para a promogio do direito a
saide (...) e tomar medidas que permi-
tam aos defensores dos direitos huma-
nos efectuarem as suas actividades sem
entraves ou medo de represalias".


Uma caravana no Burquina Faso

Em fins de Janeiro, uma caravana
da Amnistia Internacional deixou
Uagadugu, capital do Burquina
Faso, para difundir informag6es
sobre a saide materna nos princi-
pais centros do pais. Esta caravana
de sensibilizagao e a sequdncia de
uma campanha similar efectuada
na Serra Leoa. Paralelamente, a
ONG entregou um relat6rio as au-
toridades do pais "Dar a vida, ar-
riscar a morte", no qual considera
que ha cerca de 2000 mulheres que
morrem todos os anos no Burquina
Faso devido a complicag6es ligadas
a gravidez e ao parto.


C*rreio





I I~ I


Sociedade civil do Haiti




No centro das solugoes,


a margem dos recursos


Hegel Goutier


A sociedade civil haitiana teve
um papel fundamental nos
primeiros dois ou tres dias
fatidicos ap6s o terramoto
de 12 de Janeiro, salvando vitimas
e ajudando a reorganizar a vida. A
estrutura mais comum desta socie-
dade civil nas cidades & o comit& de
bairro. A partir do momento em que
chegaram as ONG estrangeiras, com
meios adequados, as interveng6es da
sociedade civil do Haiti passaram a ser
subsidiirias, nro possuindo recursos
nem equipamentos. O que podia ser
feito simplesmente a mro ja tinha sido
feito.

Os comites de bairro passaram entio
a desempenhar outras fung6es, de
6rgaos de reivindicagco e de interlo-
cutores perante organiza96es estatais
e ONG estrangeiras. De modo que
virios desses comites foram solicita-
dos por estas l6timas para servirem
de intermediirios. Mas ao chamarem
os grupos pr6-Aristides, comegaram


por suscitar uma reacgco de descon-
fianga, tanto mais que se verificaram
desvios por parte de alguns dos seus
membros.

A imprensa, bravo activo da
sociedade civil

Em 12 de Janeiro, a coordenagco dos
socorros foi assegurada essencialmen-
te pelas esta96es de radio, que indica-
vam os locais onde era preciso inter-
vir. Alem da radio, toda a imprensa
do Haiti teve uma notivel acgao de
cidadania. Alias, dois grandes jornais
franceses, Le Courrier International e
Le Monde, prestaram-lhe homenagem,
consagrando-lhe um n6mero completo
cada um.

O ponto focal

A organizagao da sociedade civil do
Haiti mais conhecida & a Fundagco
FOKAL, acr6nimo crioulo de
"Fundacao para o Conhecimento e a
Liberdade", que & por um lado uma
organizacao independente ligada ao
Open Society Institute de George Soros
e que intervem em diversos dominios


e, por outro, funciona como organi-
zaogo de acolhimento de muitas asso-
ciac6es haitianas e como uma esp&cie
de escola de formagao da sociedade
civil. A FOKAL tanto & um centro de
investigation como um grupo de acGo
e de realizay6es no terreno, desde a
construgco de escolas e de bibliotecas
por todo o pais at& a luta pelos direitos
das mulheres.

A FOKAL aconselha numerosas ONG
e instituig6es estrangeiras.

A descoberto

Desde fins de Janeiro que as associa-
96es haitianas e o governo do Haiti
tinham alertado os financiadores para
a chegada das chuvas torrenciais de
Margo e para a necessidade absoluta de
tendas. No final de Fevereiro tinham
sido instaladas 40.000 tendas, quando
eram precisas pelo menos 200.000.
Muitos se interrogavam sobre o que
tinha sido feito com os milh6es de
euros recolhidos em todo o mundo por
artistas como Angelina Jolie e Georges
Clooney. A Ministra da Comunicagco
do Haiti, Marie-Laurence Josselyn
Lass&gue, entio de passagem por
Bruxelas, explicou recentemente que
o dinheiro obtido das recolhas de fun-
dos e disponivel rapidamente ia para
as ONG apadrinhadas pelos artistas e
que estas organizac6es tinham investi-
do prioritariamente nos seus sectores
de especializaogo. As tendas nro foram
uma prioridade para todas.

Um apelo da sociedade civil europeia*
retira li96es da situacgo e langa um
apelo a Uniao Europeia para que a
sociedade civil haitiana esteja no cen-
tro de qualquer solucgo e nio fique a
descoberto. Porque s6 ela pode ajudar
as ONG europeias a darem o mrximo
que lhes & possivel.








* Assinado por CoEH (Coordenayao Europa
Haiti), Prisma Association, Paises Baixos, e
ZOA Refugee Care, Paises Baixos.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010

















































Lago langanica. ,istock

Lago Tanganica:


uma plataforma central de comercio


Alfred Sayila*


Apos mais de 700 anos a assegurar
o modo de vida e a subsistincia das
pessoas que vivem ao longo das
suas margens, o lago Tanganica e
actualmente uma plataforma central
de comercio para varios paises da
Regiao dos Grandes Lagos (RGL) da
Africa Austral.


De acordo com a Conferencia
Internacional sobre a Regiio
dos Grandes Lagos (CIRGL),
o Tanganica, situado na parte
oriental do continente, nao s6 e impor-
tante para a paz e seguranga da regiio,
mas e igualmente uma tibua de sal-
vagio economic para os paises vizi-
nhos. O comercio que por aqui passa
anualmente ascende a mais de 5,8 mil
milh6es de d6lares em importag6es e
exportay6es. Os beneficiirios nao sao
apenas os paises a volta do lago, como
a Tanzania, a Zambia, a Rep6blica


Democritica do Congo, o Ruanda e
o Burundi, mas a totalidade da Africa
Austral. Recentemente o Presidente
Rupiah Banda da Zambia, Presidente
da CIRGL, apelou para a realizacgo de
uma cimeira da Uniao Africana (UA) em
Adis-Abeba, em Fevereiro de 2010, para
trabalharem em conjunto no interesse do
desenvolvimento do lago Tanganica.
E provivel que este apoio politico da
RGL de mais impeto e valor ao comer-
cio no lago Tanganica, que tem aumen-
tado nos ltimos dez anos, passando de
uns magros 900 milh6es de d6lares em
1999 para o seu elevado valor actual.
As estatisticas revelam que o comercio
entre a Regiio dos Grandes Lagos e o


Correio













Sindiso Ngwenya, disse esperar que o
comercio no lago Tanganica aumen-
te ainda mais por causa do acresci-
mo do comercio intra-regional, que
esta a beneficiar substancialmente os
paises membros situados na RGL, a
Comunidade de Desenvolvimento da
Africa Austral (SADC), a Comunidade
da Africa Oriental (EAC) e a pr6pria
COMESA. "Nio posso deixar de salien-
tar a importancia do lago para o comer-
cio na regiio. Trata-se efectivamente de
uma importante via para a economia e
para o comercio", referiu. Acrescentou
ainda que a criagio da ZCLtinha ajuda-
do a aumentar o comercio regional, que
por sua vez aumentou o nivel de vida de
muitas pessoas e os lucros das empresas
que beneficiam dos recursos do lago.
"Estamos concentrados na estrategia,
no comercio e no investimento", afir-
mou.

"0 lago 6 uma importante
via para a economia e para o
comercio"

Sindiso Ngwenya



As estatisticas da COMESA mostram
que o comercio entre os paises da RGL
e a Africa Austral atingiu em 2000 cerca
de 3 mil milh6es de d6lares e aumen-
tou para quase 8,6 mil milh6es em
2007, antes de voltar a cerca de 6,2 mil
milh6es em 2008/2009, na sequencia da
crise financeira mundial. 0 comercio no
lago Tanganica traduziu mais ou menos
esta tendencia. Tanto a Exploitation du
Port de Bujumbura (EPB) como a Agence
Maritime Internationale (AMI), que ope-
ram no lago, acham que nos iltimos
cinco anos o transporte de mercadorias
na lago aumentou entre 25 e 30 por
cento.

O corredor de Mpulungu


250.000 a 300.000 contentores cruza
o lago Tanganica, desde os portos
principals at& dep6sitos no interior.
"Temos muito trifego maritimo desde
Rupiah Banda um porto de entrada at& um terminal
OReporters de recepgio ao longo da costa", disse
um funcionirio da AMI. Referiu ainda
resto da Africa Austral que transitou que muito do trifego do lago e entre
pelo lago em 2005/2006 foi de cerca de Kigoma, Tanzania, na Africa Oriental, e
3,1 mil milh6es de d6lares. Preveem-se Bujumbura, Burundi, na Africa Central.
aumentos anuais do comercio de 4,8% Reiterou que nao foram s6 os movimen-
ap6s a reabilitagio de alguns portos, tos de navios que aumentaram no lago,
a instalagio de novos equipamentos, a mas tambem o comercio!
construgyo de novos portos e a criagio
de uma Zona de Comercio Livre (ZCL) Por exemplo, os portos no lago estio
e de uma Uniio Aduaneira do Mercado ligados a virias rotas rodoviarias e fer-
Comum da Africa Oriental e Austral roviarias. 0 porto de Mpulungu, na
(COMESA). Zambia, esta interligado a uma impor-
tante auto-estrada que serve os famosos
Numa entrevista concedida a 0 Correio, Caminhos-de-Ferro Tanzania-Zambia
o Secretirio-Geral da COMESA, (TAZARA). Isto fez do corredor de


Mpulungu, que comega no porto exis-
tente na ponta sul do lago, uma rota
comercial florescente por onde passam
entre 50.000 e 60.000 toneladas de
todos os tipos de carga de importagio/
exportagio, nomeadamente cimento,
combustiveis, outros produtos petrolife-
ros, produtos quimicos e farmaceuticos,
ago, ay6car e cafe.

Outras rotas que ligam as partes cen-
tral e setentrional do porto congo-
les de Kalemie, antes de se ligarem a
Bujumbura e Kigoma, deram origem a
criaogo de um triangulo comercial para
os Estados da Africa Oriental e Central
na Regiao dos Grandes Lagos. Este tri-
angulo trata mais de 100.000 toneladas
de carga todos os meses.

O trifego maritimo do lago parte em
todas as direcc6es da regiao da Africa
Austral, embora a maior parte das
vezes as importagoes sejam superiores
as exportag6es, numa ricio de 1:3. No
periodo 2008/2009, o valor das impor-
tag6es que passaram pelo lago ascendeu
a cerca de 4,8 mil milh6es de d6lares,
em comparagyo com mil milh6es de
d6lares de exportag6es. Nao se espera
uma alteragyo desta tendencia a curto
prazo, apesar do aumento do comercio
interno. Com base nestas estatisticas
surpreendentes, o trifego comercial no
lago Tanganica revelou um aumento
exponencial, apesar de virias deficien-
cias. Isto pode ser observado a partir do
desenvolvimento das infra-estruturas
que se esta a verificar nalguns dos pai-
ses da RGL. Veja-se, por exemplo, o
caso da Zambia, que iniciou juntamente
com alguns parceiros a construgyo de
um terminal para exportagco de com-
bustiveis no porto de Mpulungu e esta
a desenvolver o porto de Nsumbu como
um porto aut6nomo num futuro pr6xi-
mo. Estao em curso progresses seme-
lhantes noutros paises da region.

Manter a biodiversidade

Para alem do comercio de carga a gra-
nel, o lago Tanganica e uma importante
atracoGo turistica, que gera mais de
3 mil milh6es de d6lares e um suple-
mento de 2,5 mil milh6es de d6lares
resultantes da pesca comercial. A pesca
tem sido de facto a base econ6mica de
muitas pessoas e empresas localizadas
no lago Tanganica. Este lago africano
possui das especies mais raras de agua
doce e diversas variedades de peixe que
nao se encontram noutras partes do
mundo. E por isso um local ideal para
o desenvolvimento de uma actividade
regional de pesca. Gragas ao Projecto
de Biodiversidade do Tanganica e a
Facilidade Ambiental Global, a poluiygo
industrial no lago e reduzida ao minimo,
ao mesmo tempo que se preservam o seu
ecossistema e a sua biodiversidade.


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010


I fio







































0 Tirol austriaco


No centro e totalmente


a parte


Hegel Goutier


(Lander) da Austria, perten-
ce-lhe desde o meio do seculo
XIV. E, no entanto, preser-
vou sempre ciosamente as suas parti-
cularidades. A sua geografia -vales
cativos de altas montanhas em gran-
de parte responsivel por isso, ja que fez
dele mais um local de passagem do que
de fixago. Mas que lhe permitiu tirar
proveito dos viajantes, dos exercitos e
dos soberanos em passeio protegendo-se
de qualquer cosmopolitismo e ser uma
regiio florescente apesar da modestia
dos recursos naturais.

Pelo menos durante seis seculos, desde
o fim do seculo XIII ate ao termo da
I Grande Guerra, sob a dinastia dos
Habsburgos, a Austria ocupou o centro
do poder na Europa. Quando Carlos V
declarava que o sol jamais se punha no
seu imperio, a Austria estava no centro
desta gigantesca potencia.

O Tirol no centro do imperio

No seculo I, Roma estendia a sua influ-
encia ao longo do Dan6bio na sua
marcha para Oriente (ostarrichi). E no


seculo II, este pais comegava a ganhar
importancia, passando a fronteira seten-
trional do Imperio Romano. No seculo
III, "Marchia Orientalis" (Ostarrichi)
tornou-se oficialmente o nome da
Austria de hoje. A partir do seculo X,
a unidade do pais sera realizada pela
familia Babenberg ate a sua derrota
pelos Magiares e a monopolizagio do
poder pelos reis da Boemia que serio,
por sua vez, suplantados por Rudolfo
de Habsburgo, que se tornou impera-
dor em 1273. Entretanto, em 1027, os
imperadores alemies tinham decidido
instaurar um governo especial para o
"territ6rio no meio da montanha", nome
que designava o Tirol. Em 1180, foi
construida a primeira ponte sobre o rio
Inn (Innsbruck). Em 1420, o duque
Frederico II transfere a residencia dos
Habsburgos para Innsbruck. Ate ao
meio do seculo XVII os Habsburgos
mantem esta residencia.


A Austria e entao o motor da hist6ria.
Expande-se, a sua administrago inter-
na reforga-se. Frederico II afirma entio
sem rodeios "A terra inteira pertence
a Austria" (Alles Erdreich ist Osterreich
untertan) resumido pelas letras AEIOU.
E isto, gragas a guerras mas sobretudo
a uma rede de aliangas por casamento,
de que nascera Carlos Quinto, que


reinara sobre o Santo Imperio Romano-
Germanico, a Espanha, Nipoles, a
Sicilia, a Sardenha e os territ6rios da
America. O Imperio existira ate ao fim
do seculo XVIII.

A epopeia do campon&s tirols

Na guerra contra a Franca de 1792 a
1815 o Imperador da Austria registara
derrotas e devera renunciar aos titulos
de imperador dos Romanos e de chefe
do Santo Imperio Romano-Germanico.

E entio que o Tirol entra em cena e
escreve uma pigina de hist6ria consoli-
dando a sua situacio de territ6rio espe-
cial ou mesmo a parte. Em 1809, um
simples campones, Andreas Hofer com
os seus companheiros tiroleses fazem
estremecer a forca de intervencao de
Napoleao durante quase dois anos. Este
acaba por ganhar e Andreas Hofer,
embora aprisionado na sequencia de
uma traicio e executado, entra na lenda
do Tirol. Ainda hoje e evocado a cada
passo. Napoleao casa com a filha do
Imperador que derrotou. E a Austria,
depois de vergar as costas, recomp6e-
se gragas entre outros ao seu famoso
diplomata, o principe de Metternich
que permitiu que as tropas do seu pais
entrassem em Paris em 1814, recuperan-
do uma posigio de forga no Congresso


C*rreio








































Zonas de sombra e luz da hist6ria do Tirol


Catedral de Insbruque.
Hegel Goutier


de Viena de 1814 e dominando de novo
a Europa. Mas tambem confrontou-se
com revoltas como a de Itilia que expul-
sou Metternich em 1848.

Sucede-lhe Francisco Jose. Durante 68
ans. Ate a I Grande Guerra. Tornou-
se rei da Hungria, criando assim o
Imperio Austro-H6ngaro. Crescimento
econdmico e dinamismo artistico refor-
gam internamente o Estado. Mas nio
impedem o seu recuo no piano inter-
nacional.

A I Grande Guerra comegara pelo assas-
sinato do sobrinho de Francisco Jose, o
arquiduque Francisco Ferdinando em
Sarajevo em 1914. A monarquia aus-
tro-htingara arrastada para a tormenta
perdera mais de um milhio e meio de
pessoas. Desaparecera. Entre as duas
grandes guerras, Hitler procedera ao
Anschluss, a anexayao da Austria. Ap6s a
guerra, voltara rapidamente a ser pros-
pera. Em 1995, o pais acede a Uniio
Europeia.

Hoje em dia, a Austria e uma das regi6es
mais pr6speras da Uniio Europeia e o
Tirol uma das mais pr6speras da Austria,
com uma economia centrada no turismo
a grande distancia da ind6stria.


Horst Schreiber: "0 Tirol sempre se considerou
uma democracia... mas durante o periodo Nazi,
agiu como o resto da Austria". eHegel Goutier



Horst Schreiber e professor de Hist6-
ria ContemporAnea na Universidade
de Innsbruck. No momento da repor-
tagem de O Correio, apresentava "Von
Bauer& Schwarz zum Kaufhaus Tirol",
uma analise da politica do Tirol desde
o meio do seculo XIX ate aos nossos
dias com as suas zonas de sombra e
luz, atraves da evolug5o de um grande
armazem pertencente a uma familia
judia e que ia mudar varias vezes de
nome e de mao a sombra de um anti-
semitismo subrepticio. Entrevista.


"Conto a hist6ria de uma minoria de ju-
deus no Tirol e da reacq5o da maioria
a este grupo. O Tirol caracterizou-se


no seculo XIX por uma oposigao ma-
nifesta a industrializa9ao quando pre-
cisava de trabalhadores migrantes de
outros territ6rios do Imperio Austro-
HQngaro. Entre estes contavam-se
judeus que traziam as ideias do mo-
dernismo. Os nobres e camponeses
locais muito cat6licos rejeitavam estas
mudangas e temiam esta migragao e
consequentemente outras religi6es
que nao o catolicismo. Dai assistir-se
a emergdncia de um anti-semitismo.


O Tirol sempre se considerou demo-
cratico porque lutara pela sua liberda-
de contra os Bavaros e os Franceses
sob a direc95o do seu her6i, Andreas
Hofer.


No entanto, na epoca nazi, o Tirol
comportara-se como o resto da Aus-
tria. Ap6s a guerra, 'externalizou' o
nacional para Viena. Desde os anos
80, verifica-se um discreto aggiorna-
mento. Mas, nem por isso, os poderes
no Tirol irao apoiar os historiadores
em investigaQ6es de grande alcance
sobre a colabora9ao. A CAmara Muni-
cipal deu, por exemplo, um apoio pon-
tual para a impressao do meu livro."


* Andrea Sommer e Habbes Schlosserauer
colaboraram em dois capitulos.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010












Tirol: Uma das economias


mais estaveis da Europa


Entrevista corn Eugen Sprenger, presidente interino de Innsbruck


Eugen Sprenger e o primeiro vice-
presidente de Innsbruck encarregue,
entre outras coisas, dos assuntos
sociais. Quando a revista 0 Correio
visitou o Tirol, Eugen Sprenger era
presidente interino. Os assuntos
sociais sao de maxima prioridade na j
Austria e, em particular, na regiao do
Tirol. Sprenger tem a reputacao de ser
muito ligado a sua comunidade.




Hegel Goutier .


E ugen Sprenger -Estou muito
ligado a populacao. Cuidamos
de 400 criangas que nao
podem receber esses cuidados
dos pr6prios pais. Cerca de 5000 pes-
soas recebem subsidios sociais e 1300
pessoas idosas vivem em lares da tercei-
ra idade ou em residencias protegidas.
Existem ainda 1200 pessoas idosas que
podem viver nas suas casas e que rece-
bem assistencia. Nao s6 lhes pagamos o
subsidio de subsistencia, como tambem
lhes pagamos a renda. Neste aspecto,
comparamo-nos de forma favorivel a
outros paises.

O Correio -Como se estd a aguentar
a economia do Tirol?

Julgo que temos uma situagio econdmi-
ca bastante estivel devido a nossa estru-
tura economic em comparagao com a
Austria e ate mesmo com a Alemanha.
Cerca de um tergo da populagio sobre-
vive do turismo, um tergo depende do
sector industrial e outro tergo obtem o
seu rendimento nas pequenas e medias
empresas. Isto di-nos uma certa esta-
bilidade. E claro que tambem temos
alguns despedimentos e desemprego.
A crise econdmica nio provocou uma
quebra no sector turistico. Os valores
dos registos gerais de dormidas revelam
que ate aumentou.

Temos problemas no sector industrial
dado que s6 temos quatro ou cinco
grandes ind6strias. Os problemas mais
graves foram com Swarovski (fabricante
de cristais) e Metalwerkt (metalurgia).
Tambem houve algum abrandamento,


iiinu In uul. negei uounter


Eugen Springer. Hegel Goutier


mas nao significativo, nas pequenas e
medias empresas.

Qual e a compara(do que se pode
fazer corn a Austria no seu todo?

Acho que a situacgo na Austria oriental


e ainda mais dramatica do que aqui,
em especial nas regi6es onde existe
muita ind6stria; como em Viena ou em
Linz. Possuem estruturas econ6micas
diferentes e menos turismo, excepto na
region dos Alpes. E por esse motivo que
sofreram mais com o desemprego e ao


Cerreio

















































Pega de Cristal por Swarovski.


SHegel Goutier


longo dos pr6ximos dois ou tres anos
irio sentir de forma mais violenta o
aperto econ6mico.

0 que atrai os visitantes a
Innsbruck?

Innsbruck & o coragio dos Alpes. Temos
paisagens lindissimas e o nosso turismo
esta muito desenvolvido, tanto para os
visitantes no Inverno como no Verio.
Anualmente, a regiao do Tirol regista
43 milh6es de dormidas, mais do que a
Gr&cia inteira ou a Suiga.

Innsbruck & o coragio da ind6stria
turistica do Tirol. Os seus centros his-
t6ricos sao da &poca do Renascimento
e estio a apenas meia hora de Itilia ou
da Alemanha. Possui edificios bonitos
e interessantes. O centro da cidade &
Patrim6nio Mundial da Organizaio das
Nag6es Unidas para a Educago, Ciencia
e Cultura (UNESCO). Organizamos
um festival cultural de alta qualidade
e temos oito teatros que vio apresentar
peas, dangas e operetas.

Innsbruck tambrm & rotulada como
a cidade do desporto. Possuimos o
segundo maior centro de congressos da
Austria. Em 2002, em Melbourne, na
Australia, fomos condecorados com o
titulo de "Melhor Centro de Congressos
do Mundo". O nosso hospital universiti-


0 Rio Inn, em Insbruque -o coraao da cidade. Hegel Goutier


rio e universidade, com os seus 350 anos
de tradigio, sao ambos muito conheci-
dos. Tambrm dispomos de um grande
n6mero de museus.

Como explica o facto de a Austria
ndo conseguir alcancar o seu objec-
tivo de 0,59% do PIB a ser gasto no
desenvolvimento ate 2010?

Essa questio nio nos diz respeito, mas
sim ao governo federal da Austria. E
claro que seria 6ptimo manter o nivel
de ajuda ao desenvolvimento de Africa
e de outros paises em desenvolvimento,
ou at& mesmo aumenti-lo, mas u uma
questio de decis6es orgamentais nesta
conjuntura econ6mica conturbada.

Como descreveria a alma de um
tiroles?

Nio & assim tio ficil descrever a alma
de um tiroles, devido a colonizacio de
diferentes populag6es nesta region e dai
as diversas mentalidades das pessoas.
Falando de uma forma geral, o povo
tiroles possui uma mente muito finan-
ceira mas, simultaneamente, aberta a
outras influencias. A populaoio r muito
apegada a sua zona e a paisagem, a sua
terra, ao pedago de terra onde vivem. 0
povo tiroles r muito trabalhador, inteli-
gente e eficaz.


Cooperagqo


Bern estruturada, mas
ainda ha caminho a
percorrer

A politica de cooperacao da Austria
e definida pelo Ministerio Federal dos
Assuntos Europeus e Internacionais
(MFA) que elabora programas com a
duracao de tres anos, sendo a sua
implementacgo confiada a Agen-
cia de Desenvolvimento Austriaca
(ADA). A agnncia funciona em coo-
peracao com outros ministerios fe-
derais, os estados federais (Lander),
as camaras municipais, os bancos
de desenvolvimento austriacos, as
ONG e as empresas.

E importante realgar que o governo
e responsavel pela cooperacao ten-
do em conta o seu character colegial
especial. Nao existe nenhum che-
fe efectivo, o primeiro-ministro age
apenas como primus inter pares, ou
no maximo como um coordenador
que nem decide pessoalmente so-
bre a pasta de cada ministro, pois
e decidido no parlamento. Quando
necessario, o primeiro-ministro deve
convocar o parlamento, enquanto
o ministro em questao permanece
sem pasta a espera de uma lei ad
hoc. Os principais paises parceiros
da politica de cooperacao austriaca,
incluindo os Estados do ACP, a Eti6-
pia, o Uganda, Mogambique, Burqui-
na Faso e Cabo Verde.

Actualmente, existe tensao entre o
governo e as ONG, pois estas ulti-
mas nao foram consultadas sobre
o pr6ximo programa de cooperacao
com duracao de tres anos. Outro
motivo e a diminuicgo da ajuda aus-
triaca de 0,5% do PIB em 2007 para
0,43% em 2008, fora do intervalo dos
0,59% com o qual o pais se compro-
meteu como condicgo indispensavel
para a reuniao dos Objectivos de De-
senvolvimento do Milenio (ODM).


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010




















As ONG da Austria e do Tirol



"Sudwind" e "Light for


the World" face a reducgo


da ajuda


Ines Zanella, Directora regional do Sudwind:
"Estamos muito apreensivos com os cortes
nas ajudas ao desenvolvimento, por parte do
Estado austriaco". Hegel Gouter
Hegel Goutier




S ~idwind", uma ONG aus-
triaca bem implantada no
Tirol. Intervem constan-
temente tanto nas ruas e
nos mercados p6blicos como nas uni-
versidades, escolas de todos os niveis ou
perante as instancias politicas para aler-
tar e consciencializar para os problemas
dos paises pobres perante o fen6meno
da globalizago. Esta preocupada com a
diminuicgo da ajuda ao desenvolvimen-
to na Austria. A semelhanga de outras
organizag6es da sociedade civil.

Ines Zanella, a sua directora regional
no Tirol, explica a 0 Correio: "Como as
demais ONG de desenvolvimento, rece-
bemos um apoio financeiro da adminis-
tracao p6blica. No caso da nossa sec-


cao no Tirol, representa 89% do nosso
orgamento, provindo o resto da Uniio
Europeia.

Organizamos seminirios sobre o comer-
cio mundial para professores de todos
os niveis, desde o jardim infantil a
universidade. A nossa colaboragio com
universidades permite-nos dispor de
quadros suficientes para os organizar.
A nossa biblioteca sobre certos assun-
tos e frequentemente mais rica do que
as de certas universidades, dai o seu
nivel de frequencia muito elevado. A
Sadwind langa regularmente grandes
campanhas, como, por exemplo, sobre
o comercio equitativo, cujo teatro de
acGo pode ser a rua, o supermercado
ou outro lugar."

Falta de compromisso

A organizagio debate-se com proble-
mas na sequencia da diminuigio da
ajuda p6blica ao desenvolvimento na
Austria, apontada, alias, pela OCDE.
"Os poderes p6blicos estio a abandonar
o tema do desenvolvimento", critica
Ines Zanella, "sob o pretexto, segundo
as autoridades tirolesas, de que nao e
uma prioridade para a populagio. E
sob o da situagio econdmica mundial
segundo o governo nacional".

As ONG deveriam ter mais
poder de voto nas estrat6gias
de desenvolvimento
Johannes Trimmel

Johannes Trimmel de "Light for the
World", uma ONG activa em virios
paises em desenvolvimento em favor
dos deficientes e sobretudo dos defi-
cientes visuais, faz uma outra critica ao
governo austriaco. Confia a 0 Correio:


"Dialogamos com o Ministerio dos
Neg6cios Estrangeiros e com a ADA no
que se refere aos programas destinados
aos deficientes. Somos, como muitos
outros, partes contratantes nos progra-
mas. Mas quando se trata das estrate-
gias e das principais decis6es, como a
preparagio do pr6ximo programa trie-
nal da politica de cooperagco para o
desenvolvimento do pais que deve ser
submetido ao parlamento, as ONG nao
sao envolvidas. Pese embora o facto de
o documento de revisio do iltimo pro-
grama ter estipulado que o deviam ser.
Instamos, pois, o governo a honrar os
seus compromissos."

"Light for the World" intervem sobre-
tudo nos seguintes paises ACP: Eti6pia,
Mogambique, Burquina Faso e Sudao
e, em menor medida, no Ruanda e
na Rep6blica Democritica do Congo.
No Sudao trabalha na integrago dos
deficientes visuais na sociedade em que
vivem. Ocupa-se, nomeadamente, da
prevengco da cegueira, do seu tratamen-
to, da reabilitacio dos deficientes e da
sua participagio na vida activa.


C*rreio

















































) Hegel Goutier


Hegel Goutier


L onge da imagem de austerida-
de rural que, por vezes, acom-
panha o Tirol no estrangeiro,
Innsbruck, a sua capital, & um
lugar destacado de cultura, um convite
a ociosidade, a meditagio, a boemia e
ao romantismo. Ha Invernos bem mais
quentes e mais caprichosos do que um
Verio.

No Inverno, no momento em que a cin-
tura de montanhas em torno de cada vale
& mais cerrada, & quando os habitantes
do que & uma metr6pole cultural, apesar
dos seus modos de pequena cidade, dio-
se asas nio s6 durante o fim-de-semana
mas tambem todos os dias no inicio do
creptsculo para escalar as colinas dos
bairros e aldeias que circundam a cida-
de como para ver o longe. Formigueiro
activo. Antes de encher os restaurantes
e as tabernas r6sticas de todos os bairros
subindo do centro da cidade e agarrados
aos seus recessos.

E destas pastagens cobertas de neve,
alguns podem esquiar directamente
para regressar a penates. Se nio for para
deambular ao longo da MariaTheresien
Strafe, a art&ria louca, ela pr6pria uma
enciclopedia do dinamismo arquitec-
t6nico dos austriacos aliando a mais
moderna arquitectura de vidro ao clas-


sicismo mais rigoroso, passando pelas
fantasias do Jugendstyle cujos vitrais e
grafitos sao pura maravilha.

Uma fuga brilhante

No fim-de-semana, a alta montanha
torna-se uma obsessao. O ponto mais
apreciado e um dos mais cativantes &
o Hafelekar, facilmente acessivel por
um novo telef&rico ultra-ripido, uma
obra futurista, por si s6, da arquitecta
Zaha Hadid, ligado a Hungerburg por
telecabinas para uma primeira estaygo
de onde o panorama sobre a cidade jai
soberbo e para uma outra em direccgo
ao destino final a mais de 2300 metros
com uma vista sobre os macigos alpinos
mais distantes. A descida pode fazer-se
por pistas desde as mais seguras as mais
arriscadas.

Outros preferirao ir a aldeira pitoresca
de St Sigmund para deslizar pregui-
gosamente, ao sol de Inverno, num
tren6 tiroles e partilhar a distracyao
preferida das criangas. Este desvio nao
Ihes custa nada mais do que o prego do
passe de transporte colectivo da cidade
e aos turistas uma parte do custo do
"Innsbruck City Card" que da acesso a
todos os museus, monumentos hist6ri-
cos e locais turisticos da cidade e arre-
dores. O recinto dos Jogos Olimpicos
de Bergisel oferece nao s6 uma evasao
ficil, para alem do mais deslumbrante
trampolim de saltos de esqui, mas tam-


bem um belo panorama de Innsbruck e
dos arredores.

Para os mais preguigosos sera suficien-
te ficar em Innsbruck e passear pelas
margens do Inn. A baixa da cidade
abre-se a uma visita. Desde o Telhado


) Hegel Goutier


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010











Dourado (Goldenes Dachl) ate o palacio
dos Habsburgos, e os muitos museus.
Nio perca o Tiroler Volkskuntmuseum
(Museu Tiroles da Arte Popular), mesmo
que abomine este tipo de local. Aqui nio
ha lugar a pretensio decorativa ou a con-
descendencia estetica. E a arte atraves
dos seculos, o saber-fazer refinado dos
artesaos dos vales. Ou a Hofkirche com o
pomposo Mausoleu de Maximiliano I.

Delirio de emoqao

O visitante pode ter a sorte de estar
em Innsbruck no momento de um belo
festival. Desde o mais eclectico pela
sua programaago, o Osterfestival Tirol
www.osterfestival.at, ao mais especiali-
zado, o Tanzsommer www.tanzsommer.
at, todos apresentam programas muito
atraentes. As galerias de arte sao de qua-
lidade e em quantidade para uma popu-


lagio de pouco mais de cem mil habitan-
tes. E muito ousadas. Uma galeria como
a Taxispalais www.galerieimtaxispalais.
at, dirigida por Beate Ermacora, honra-
ria as grandes metr6poles.

As aptidoes refinadas dos
artesaos do vale estao evidentes
em todo o lado
Durante a visita de O Correio, exibia
aquela que era provavelmente uma das
exposig6es mais originais da estagio
na Europa "Illuminating shadows" de
Kirstine Roepstorff, apresentagio de
obras individuais em que cada grupo
pinturas, esculturas, jogos de luzes -
uma instalagio. A artista incorporou
no seu conjunto certas obras de arte
tradicionais africanas numa uniio ou
num face a face em que o amador nao se
apercebe da origem destas 61timas de tal


forma o di.logo e intenso. A transparen-
cia entre filtros gasosos reais ou virtuais
que cobrem os seus quadros, as sombras
arrastadas de uma pega para outra, os
mecanismos de luz em que o artificio
se faz esquecer, participam de uma
admirayio e suscitam uma sensualidade
do olhar e um delirio de emoo6es. Uma
obra quiog testemunho de um romantis-
mo do futuro.


A alma do Tirol

Hegel Goutier


D esde a Idade Media, foi
preciso esperar os anos 60

D esde a Idade Media, fS i
para ver alguem instalar-se
no Tirol devido ao desen-
volvimento do turismo e da ind6stria,
explica o historiador Horst Schreiber a
O Correio. Pela forga das coisas, a socie-
dade tirolesa s6 teve por referencia ela
pr6pria.

Paradoxalmente, muitos agentes do
mundo cultural consideram que a arte
contemporanea da regi o nio tern nenhu-
ma filiagio com a sua arte tradicional.
E o caso da galerista Beate Ermacora
da "Galeria im Taxispalais", de Maria
Rauch, galerista, e de Lucas Drexel,
artista plistico. Mas Astrid Gostner,
antiga galerista, pensa que esta negagio
insistente revela uma ambiguidade
orgulho e complexo ao mesmo tempo
dos Tiroleses. Isabella Mangold, artista
de ceramica, tem a mesma opiniio,
embora a verdade seja dita, ela & uma
tirolesa de segunda geraoio.

Zugereister? Segundo Emmanuel
Rukundo, tiroles-africano, esta questio Tradiqgo tirolesa; avangando para a modernidade. 0 Hegel Goutier
ea resposta a uma outra. Seri possivel a
alguem tornar-se tiroles? A que respon-
de o genuino Tiroles: Zugereister? E pos-
sivel entrar num comboio em andamen- proximidades. Sinto-me tambem uma correncia com um vienense ou um outro
to? E uma palavra que entrou no voca- parte deste pais e adoro-o. A minha europeu? "Com competencias iguais, o
bulirio. "E uma palavra discriminat6ria mulher e os meus filhos sio tiroleses. O Tiroles escolher-me-ia a mim, porque
utilizada de maneira elegante. Aplica-se que eu sei & que o Tiroles & uma pessoa estou mais perto dele."
mesmo para alguem da aldeia vizinha." franca at& a rudeza."
E acrescenta: "Para o Tiroles, conta em E simples e claro.
primeiro lugar a familia, depois a aldeia, O que faria um patrio tiroles se eu me
o partido e, em seguida, as gentes das apresentasse para um emprego em con-


Correio
























Africanos-Tiroleses



chamados "lobos brancos"


Hegel Goutier


mmanuel Rukundo, ruandes
de origem e tiroles por adop-
cao, langou as malhas da sua
rede entre a Austria e a Africa,
dois p6los dos seus neg6cios e do seu
coraoio. A sua empresa de consultoria
tem actividades no Ruanda, no Quenia
e na Europa.

Emmanuel Rukundo chegou ao Tirol ha
18 anos nas tormentas do genocidio. Da
sua base principal, Innsbruck, ausenta-
se agora regularmente para os diferen-
tes p6los de desenvolvimento dos seus
neg6cios. Aproveitando a experiencia
adquirida na Europa, comegou por
criar um gabinete de consultoria para
empresas europeias e africanas desejo-
sas de diversificar as suas actividades
noutros continentes e escolheu como
parceiro o seu comanditario tiroles E2M
GMBH Austria, que trouxe consigo
o seu hom6logo italiano E2M SUCH
Itilia. E associou-se a uma empresa
de consultoria ruandesa ja com nome
na praga. Ao todo, quatro accionistas,
dois europeus e dois africanos, para esta
empresa: a E2M East Africa. Mas nao e
o inico elo de uniio que Rukundo teceu
entre os dois continentes. Ele conta a 0
Correio o seu interessante percurso.

Triangulo de desenvolvimento: empre-
sas-universidades-agencias internacio-
nais

Uma carreira diversificada

"Eu exercia ha muito tempo duas acti-
vidades principais. Por um lado, sou
assalariado da Camara de Comercio e
da Camara dos Trabalhadores, como
conselheiro para os seus projectos de
formayao empresas-escolas, destinados
aos jovens. Alem disso, tenho um gabi-
nete de consultoria de neg6cios em
materia de investimento e financiamen-
to, aqui em Innsbruck, desde 2003.


Pouco depois, instalei-me na Africa
Oriental para estabelecer relag6es de
neg6cios entre empresas da Africa
Oriental, Ruanda e Quenia, comegando
pela Austria, Alemanha e Alto Adige
(Tirol-Sul italiano). Estou a chegar da
Africa para outro projecto que estou a
desenvolver, uma sinergia empresas-
universidades-agencias de desenvol-
vimento, para o qual tenho o apoio
da Universidade de Lichtenstein e da
Associagyo do sector privado do Tirol-
Sul, e contactarei dentro em breve as
empresas austriacas que operam na
China.

Cada vez mais investimento
africano na Europa

Ate agora, as empresas europeias em
Africa pensavam raramente em inter-
cambios de tecnologias e de capitais.
Estou a negociar para empresas afri-
canas que desejam investir na Europa.
Havera cada vez mais.

O meu percurso? Foram estudos secun-
dirios, n6cleo latim-ciencias. Depois
obtive um diploma de Filosofia e Letras
e uma agregagyo para o ensino secun-
dirio no Congo (RDC). Obtive depois
uma Licenciatura em Teologia na
Universidade Jesuita de Roma e um
Mestrado em Teologia na Universidade
Leopold Franz Jozef, em Innsbruck.
Renunciei ao sacerd6cio e segui uma
formaogo em consultoria para financia-
mento e investimento, sancionado por
um exame de Estado, que me da acesso
as profiss6es liberais."

Entre os outros tiroleses-africanos cha-
mados "lobos brancos" de Innsbruck
esta no topo da lista Bella Bello Bitugu,
de origem ganesa, "professor convi-
dado" de Educagyo e Sociologia na
Universidade de Innsbruck, que nao
e nada menos, entre as suas numero-
sas elevadas ocupag6es, do que a voz
da Austria para as suas iniciativas de
Futebol e Desenvolvimento.


Emmanuel Rukundo, Tiroles africano. o Hegel Gouoer


Poster do Festival Africano de DJ's em Insbruque.
SHegel Gouter


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010





















"SAN" ou

o homem

universal

de Vincent

Mantsoe









Marie-Martine Buckens

A poiado numa m6sica, ora
subjugante ora ritmada, com-
passada pelos versos do poeta
sufi Rumi, o core6grafo sul-
africano Vincent Mantsoe, com outros
quatro dangarinos, encanta a assisten-
cia durante uma hora com os SAN, os
Bochimans, testemunhas vivas desta
longa caminhada humana iniciada ha
mais de 2500 anos.
Sao quase 22 horas. Vincent Mantsoe
toma um 61timo copo corn os seus dan-
garinos numa esplanada do "Market
Theatre", que alberga algumas salas
de espect~culo e um magnifico restau-
rante, ali perto da "Dance Factory",
onde ele acabou de actuar. Antes de
regressar a Newtown, o bairro cultu-


Correio



























ral de Joanesburgo, Vincent Mantsoe
reconduziu a Soweto os seus pais que
vierem assistir ao seu especticulo. "No
fim do especticulo, a minha mie cho-
rava", diz-nos ele, comovido e feliz. "Os
meus pais ajudaram-se muito", conti-
nuou. "Quando eu era jovem, o meu pai
queria que eu fosse jogador de futebol,
que era entio a inica maneira de um
negro singrar na vida nesse tempo do
Apartheid. A minha mae era, e continua
a ser, sangoma, uma curandeira tradi-
cional. Foi com ela e atraves dos seus
ritos que eu aprendi o ritmo e a danga, e
tambem com a minha av6, que me dizia
sempre: 'procura manter-te cultural-
mente aberto'. Ela pretendia que era a
melhor maneira de me conhecer a mim
pr6prio. Foi dificil para mim, que tinha
tantas coisas na cabega."

Actuar permanece um desafio

Mas Vincent Mantsoe prossegue o
caminho que trayou e esboyou as pri-
meiras coreografias com cinco jovens


dangarinos no grupo "Joy Dancers".
"Tive imensa sorte de poder frequentar
o curso de Sylvia Glasser em 1990. Foi
ela a minha professora. Nessa altura era
dificil a um negro dangar num estidio
com brancos. No entanto, eu penso que
nascemos todos de misturas e o que me
interessava era a espiritualidade que eu
pressentia em cada pessoa, porque foi
assim que eu fui educado." Vincent
Mantsoe contactou esta espiritualidade
universal nas suas numerosas viagens.
Alguns lugares influenciaram-no mais
do que outros: "Em primeiro lugar esta a
Africa, mas tambem os paises da Asia. Na
Coreia do Sul, e sobretudo no Japao, sur-
preenderam-me muito os tragos comuns
entre as suas dangas e as nossas, essa
espiritualidade tio identica a nossa."

"Vimos da mesma estirpe e
vivemos o mesmo combate"

Em 1996 -primeiro sucesso o jovem
core6grafo de 25 anos foi premiado na
Franga. Esta Franga onde mais tarde ele
encontraria a sua esposa, tambem ela
dangarina, e onde se instalou ha dois
anos com os seus dois filhos, uma meni-
na de sete anos e meio e um menino de
17 meses, relembra ele com orgulho.
Mas isto no o impede de actuar regu-
larmente no seu pais natal e noutros pai-
ses africanos, como sera o caso dentro
em breve em Angola e em Novembro
no Benim. O jovem core6grafo pensa,
porem, que a danga nio tem sido valo-
rizada em Africa. "Aqui, na Africa do
Sul, ha poucos festivais dedicados a
danga. As pessoas nao foram educadas
para ir ao teatro ou assistir a um espec-
ticulo de danga." O core6grafo e tam-
bem critico: "Alem disso, nao vejo nada
inovador e ja nio sinto a mesma chama
da paixio; nao sinto inspiragio e, o mais
das vezes, as expresses aparentam-se-
me muito perifericas." E preciso assistir
a um especticulo com o "SAN" para
compreender o que Vincent Mantsoe
entende por inspiragio, mas tambem
por forga e beleza de movimento, apoia-
do por uma m6sica que nos penetra,
tal e a sua autenticidade coreogrifica.
O core6grafo sul-africano reconhece,
no entanto, que actuar e um autentico
desafio, em qualquer parte do mundo,
mesmo se ele tem muita sorte em estar
em contacto com companhias e com o
privado e poder ensinar.


Voltemos ao especticulo desta noite, a
segunda e 61tima representagio em ter-
rit6rio sul-africano antes do regresso do
grupo a Franga e uma representagio em
solo no dia seguinte. "SAN? Para criar
esta coreografia, foi impelido por uma
motivagio tanto politica como cultural
muito importante. Eu sou negro, mas os
outros dangarinos nio. Nio era essa a
minha ideia. Eu falo da sobrevivencia dos
San (os Bochimans, NDR -Ler igual-
mente o caderno consagrado a Africa do
Sul). Sao todos negros, mas n6s tambem,
temos origem na mesma estirpe. Todos,
como os San, sofremos agress6es, e, de
uma maneira ou de outra, fomos todos
decimados. Vimos da mesma estirpe e
vivemos o mesmo combate".

Conexfo cultural

Sao cinco em cena. No inicio com a
cabega suspensa por cordas, que sao a
inica decoraogo. Partem do tecto, atra-
vessam a sala de lado a lado, como se
caminhos houvesse -como song lines,
essas rotas de cantos dos Aborigenes
da Australia -e uma corda a separar
o palco da sala. Pouco a pouco, estes
corpos comecam a mover-se, as vezes
tremulos, entusiastas, interrogadores, e
as vezes lassos. Comeca assim uma hora
de viagem, a nossa viagem, a caminhada
da humanidade.

A misica de Shahram Nazeri acom-
panha-a, sustem-na, transporta-a
mesmo atraves de longos eclipses e de
versos do grande poeta Rumi. A Africa
une-se assim a Asia. "Esta m6sica e
muito importante. Esta imbuida de
sentido e estabelece uma harmonia
cultural", acrescenta, com entusiasmo,
Vincent Mantsoe. "Os instrumentos
tambem. O tipo de violino utilizado e
muito semelhante ao que se ve actual-
mente na Africa do Oeste. E um violino
que partiu da Africa e que agora se reen-
contra, sempre alterado, no Cazaquistio
e no Japao."

Comeca a ser tarde. Vincent Mantsoe
deixa-nos ap6s um 1ltimo e resplan-
decente sorriso, feliz por ter podido
partilhar a sua paixao. A sua silhueta,
surpreendentemente frigil e fina, esfu-
ma-se ao longe na rua. Em cena, e um
gigante robusto, com um olhar por vezes
penetrante que nos fala.


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010


E foco


































Guardas da Vida Selvagem Quenianos observam defesas de elefante confiscadas,
no posto da vida selvagem queniana em Nairobi, Quenia. (2009). a Reporters/AP


Uma Coligacao pelo Elefante Africano
apela a Uniao Europeia para se
opor a qualquer accao no quadro
da Convencao sobre o Comercio
Internacional das Especies Selvagens
Ameacadas de Extincao (CITES)
que permita exportac es de marfim
africano, o que, refere, iria p6r ainda
mais em perigo o elefante africano.
Prev6-se que a reuniao ministerial da
CITES no Qatar, de 13 a 25 de Margo,
analise os pedidos da Tanzania e da
Zambia para permitir exportac es
"excepcionais". Este pedido reabriu
o "debate altamente divis6rio" sobre
a conservacao das populac es de
elefantes do continente, afirma Shelley
Waterland, gestora de programas da
organizacao de protecgao da vida
selvagem sedeada no Reino Unido,
Fundacao "Born Free".


proibicgo teve exito. A caga furtiva do
elefante foi reduzida significativamente
e os pregos do marfim no mercado negro
cairam bruscamente", refere Waterland.

Desde entao os paises tern minado a
proibicgo, diz ela. As populag6es de
elefantes em quatro paises da Africa
Austral (Zimbabue, Botsuana, Africa
do Sul e Namibia) foram transferidas
para o Anexo II da CITES, o que per-
mite o comercio de marfim se as partes
na CITES aprovarem. Em 1999 foram
expedidas quase 50 toneladas de mar-
fim da Africa Austral para o Japao e em
2009 foram exportadas 105 toneladas da
Africa Austral para o Japao e a China.
O Zimbabue pode exportar esculturas
de marfim para fins "nao comerciais"
e a Namibia pode exportar "ekipas"
(esculturas tradicionais) de marfim,
tambem para fins nao comerciais. Em
2007 foi imposta uma morat6ria de nove
anos para pedidos de desclassificago a
CITES, dando assim tempo a comunida-
de internacional para analisar os efeitos
da morat6ria e para a incentivar a finan-
ciar medidas contra a caga furtiva, como
o equipamento e a formacgo de guardas
florestais.


Extintos na Serra Leoa


Debra Percival


E m 1989, na sequencia de uma
d&cada de matanca descontro-
lada, que reduziu a populagio
de elefantes em Africa de 1,3
milh6es para apenas 600.000, foi impos-
ta uma proibigio internacional do comer-
cio de marfim, sendo o elefante africano
colocado na categoria I da CITES. "A


Para alem de se opor aos pedidos da
Tanzania e da Zambia para exporta-
rem respectivamente 90 e 22 tonela-
das de marfim, a coligagio de Estados
da Africa Oriental, Ocidental e Central
(Gana, Liberia, Mali, Serra Leoa, Togo,
Rep6blica do Congo e Ruanda) pretende
agora que tambem seja imposta no Qatar
uma morat6ria de 20 anos. A Fundagio
"Born Free" diz que qualquer quantidade
de marfim que entre no mercado levara
ao ressurgimento da caga furtiva, que no
Quenia esta nos piores niveis desde que
foi aplicada pela primeira vez em 1989
uma proibigio internacional. "Para a


Serra Leoa pode ser ja demasiado tarde",
afirma Waterland. A Fundaio receia que
os l6timos elefantes que existiam tenham
sido cacados furtivamente nos Estados da
Africa Ocidental em Setembro-Outubro
de 2009. Catherine Bearder (deputada
inglesa do Grupo Liberal do Parlamento
Europeu), que participa na Assembleia
Parlamentar Paritiria do PE com os
Estados de Africa, Caraibas e Pacifico
(ACP), esta a solicitar o apoio dos cida-
dios da UE para apoiar a morat6ria.

No seu pedido a CITES, a Tanzania diz
que a sua populagio de elefantes e bem
gerida e esta a recuperar firmemente,
tendo passado de 55.000 em 1989 para
136.753 em 2006. A Zambia tambem
diz que aplica "importantes priticas de
conservacao".

"A entrada no mercado de marfim legal
proporciona aos sindicatos do crime orga-
nizado a abertura de canais para bran-
quear marfim ilegal", refere Waterland.
Ela quer que a UE de o seu apoio politico
a uma morat6ria na CITES e financie
medidas para conservar as populag6es
de elefantes, especialmente na Africa
Ocidental e Central.




Actualidades: Em Doha, a CITES re-
jeitou tanto o pedido da Tanzania e
da Zambia para venderem reservas
quanto o pedido da < fante> para o alargamento da proibi-
95o do comercio de marfim.


Para saber mais:
www.bornfree.org.uk
www.cites.org
www.bearder.eu


C*rreio

















Proibigao da pesca do


atum, assunto adiado


NO uceano Inaico, a caprura annual ae ouu uuu ronelaaas exceae em 4quo
o nivel necessario para permitir a reproduQao das speciess. oReporters/AP


Hegel Goutier



AConvenyao sobre o Comercio
Internacional das Especies
da Fauna e Flora Selvagens
Ameayadas de Extinyao
(CITES), reunida em Doha, no Qatar,
de 13 a 25 de Margo de 2010, nao deci-
diu a proibigio da pesca do atum rabilho
do Atlantico a partir de 2011, como o
tinha reclamado a Uniio Europeia que
considera que a sobrepesca do atum do
Atlantico ja ultrapassou largamente os
limites de sobrevivencia da especie. Por
outro lado, comegam tambem a fazer-se
ouvir preocupay6es quanto a pesca do
atum no oceano Indico, em que partici-
pam virios Estados da UE e que cons-
titui um sector importante da economia
dos paises ACP da regiio.


Antes da reuniio, Janez PotoNnik,
Comissirio da UE encarregado do
Ambiente, afirmou que a proibigio da
pesca era a inica medida, de acordo
com os dados cientificos, capaz de evitar
o desaparecimento total dos tunideos
do Atlantico, ameagados pela explora-
yao excessiva. E isto apesar das medi-
das de protecGyo adoptadas nos dois
iltimos anos pela ICCAT (Comissio
Internacional para a Conservagio dos
Tunideos do Atlantico), como a impo-
sigio de quotas aos navios de pesca ou
o controlo dos seus movimentos por
satelite. E apesar igualmente de um sis-
tema de vigilancia ainda mais rigoroso
implantado pela Comissio Europeia.

Estes pareceres cientificos formulados
nio oferecem qualquer d6vida. Em 60
anos, a populagio do atum em causa
esta reduzida a 15% do que seria sem


a pesca. E a sua possibilidade de sobre-
vivencia e mais do que improvivel. O
atum rabilho deve ser inscrito no Anexo
I da CITES, o das especies ameagadas
de extingyo e cuja captura e absoluta-
mente necessirio proibir. Uma proi-
bigio temporaria seria suficiente, mas
deve ser total. E a posigio da Comissio
Europeia.

E das organizag6es nao governamen-
tais de protecGyo do ambiente, como
o WWF, com uma pequena nuance
importante. Estas iltimas criticam o
prazo de um ano da entrada em vigor
da proibigio, proposto pela CITES e
pela Comissio e por certos Estados-
Membros da UE, como a Franga. Estas
ONG pedem mais convicgio. Tanto
mais que nao sao muitos os membros da
UE que mudaram de atitude, depois de
terem manifestado durante muito tempo
uma alergia a qualquer proibigio.

Ainda que o atum (albacora) do oceano
Indico esteja um pouco menos ameaga-
do do que o seu congenere do Atlantico,
os cientistas reclamam medidas dristi-
cas para assegurar a sua sobrevivencia.
Na Conferencia intitulada "Balanyo
para uma pesca sustentivel do atum
no futuro", realizada em Victoria, nas
Seicheles e que terminou em 10 de
Fevereiro de 2010, os peritos, entre os
quais o conceituado cientista frances
Alain Fonteneau, consideraram que o
nivel de pesca anual de 500.000 tonela-
das ultrapassa em 40% o nivel de equili-
brio para a reprodugyo deste peixe.

O governo das Seicheles, pela voz do
Ministro do Ambiente, dos Recursos
Naturais e dos Transportes, Joel
Morgan, apelou para os paises cujos
barcos de pesca operam no oceano
Indico para adoptarem priticas sis,
como as Seicheles, e que sejam acti-
vos na Comissio do Atum do Oceano
Indico (IOTC). Por seu lado, Orlando
Fachada, da DirecGco-Geral da Pesca
da Comissio Europeia, lamentou que
a acGyo da IOTC nio esteja a altura do
mandato que lhe foi confiado.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010


Nosa terra






































Consenso sobre a revisao


do Acordo de Cotonu


Anne-Marie Mouradian


Europeia puseram de lado
as suas divergencias e con-
cluiram em 19 de Margo a
segunda revisao do Acordo de Cotonu.
O texto sera assinado oficialmente em
Junho, em Uagadugu, durante o pr6xi-
mo Conselho de Ministros conjunto.

O acordo revisto coloca a t6nica na
integragyo regional dos paises ACP e
na estrategia UE-Africa. Reforga a coo-
peraogo para fazer face aos desafios dos
Objectivos do Milenio, das altera6ses
climiticas, da seguranga alimentar e da
pesca sustentivel. Aproveitando as liy6es
das recentes crises econ6mica e finan-
ceira, o acordo salienta a necessidade de
melhorar a capacidade de resistencia dos
paises ACP aos choques ex6genos e de
os ajudar por todos os meios, incluindo o
mecanismo Vulnerabilidade FLEX.

As novas disposig6es permitirao que a
UE e os paises ACP combatam mais
eficazmente a pobreza e reforcem
as suas relag6es politicas, congratu-
lou-se o Comissirio Europeu para o
Desenvolvimento, Andris Piebalgs.

Perante o novo Secretirio-Geral do
grupo ACP, Mohamed Ibn Chambas, o
Ministro encarregado da Economia, do
Comercio, da Ind6stria e do Turismo
do Gabao, Paul Bunduku-Latha, e a


Secretiria de Estado espanhola para
a Cooperaogo, Soraya Rodriguez, co-
Presidentes do Conselho conjunto, feli-
citaram-se pelos progressos alcangados
e pelos compromissos obtidos.

Assuntos que suscitaram fricyio

A UE pretendia, de acordo cor um
pedido do Parlamento Europeu, que
os principios da nio discriminagio ins-
critos no Acordo de Cotonu fossem
alargados a orientagio sexual. Numa
resolugyo de Dezembro de 2009, os
deputados europeus lembraram que a
homossexualidade s6 era considerada
legal em 13 paises africanos, consti-
tuindo um delito noutros 38 paises, e
inquietaram-se corn o eventual efeito
domino de um projecto de lei ugandes
contra a homossexualidade.

O grupo ACP, por seu lado, recusava
qualquer referencia explicita aos direi-
tos dos homossexuais. O compromisso
que acabou finalmente por ser adopta-
do e vago, limitando-se a mencionar a
Declaragyo Universal dos Direitos do
Homem que defende, no artigo 2.0, a
liberdade "sem distingyo alguma, nome-
adamente de raga, de cor, de sexo, de
lingua, de religiio, de opiniio politica
ou outra, de origem nacional ou social,
de fortuna, de nascimento ou de qualquer
outra situawao".

A questao da readmissao dos migrantes
clandestinos no pais de origem consti-
tuiu outro assunto de fricogo. O artigo


13. do Acordo de Cotonu ja refere o
principio do retorno dos migrantes ile-
gais, mas nao permite, consideram os
europeus, uma actuaygo operacional.
Os Vinte e Sete pretendem especificar
as modalidades deste retorno, enquanto
os paises ACP preferem que o assunto
seja discutido no quadro de acordos
bilaterais entre a UE e cada um deles.
Os trabalhos sobre este assunto prosse-
guirao ate a assinatura oficial do acordo,
em Junho.

Aguardava-se, por outro lado, uma
declaragco comum relativamente ao
futuro financiamento da cooperagio
UE-ACP, depois de terminar o 10.0
FED, em 2013. A UE propunha-se
reafirmar os seus compromissos finan-
ceiros para lutar contra a pobreza e fazer
face aos desafios identificados no acor-
do. Os Estados ACP queriam garantias
mais precisas e que fosse tida em conta
uma serie de factores, como o aumento
do n6mero de Estados-Membros da
UE, a adaptaogo as alteray6es climiticas
e os custos de ajustamento associados
aos Acordos de Parceria Econ6mica. A
UE nao podia subscrever esta exigencia
-"ainda nao discutimos estes criterios
a nivel interno", explicou um diplomata
europeu -e por fim nao foi adoptada
qualquer declaracao.

Note-se que a terceira revisao do
Acordo de Cotonu coincidira em 2015
corn a data estabelecida para a realiza-
9o dos Objectivos do Milenio para o
Desenvolvimento.


Correio





elMs intelrIes


Acgao da UE relativa a igualdade de

genero e capacitagao das mulheres


Um "Plano de accao da UE relativo a igualdade de genero e capacitacao das
mulheres no quadro do desenvolvimento, 2010-2015" pretende acelerar os
progressos da UE e dos seus 27 Estados-Membros quanto aos Objectivos de
Desenvolvimento do Milenio (ODM) no que se refere a igualdade e a saode
materna, que apresentam algum atraso.


Debra Percival


Comunicago da UE de 2007
sobre a igualdade de genero, que
recomenda a organizaio de reu-
ni6es regulares a nivel politico para avaliar
os progresses, a criagio de bases de dados
e de anilises em materia de genero a
nivel da UE e um maior envolvimento da
sociedade civil em projectos especificos
relacionados com o genero e financiados
pela UE.

"Melhorar a vida diiria das mulheres no
mundo sera uma das minhas prioridades",
declarou Andris Piebalgs, Comissirio
Europeu para o Desenvolvimento, no
langamento do Piano de acGo em 8 de
Margo, Dia Internacional da Mulher.

Atrasos na sauide materna


capacidade de dar assistencia aos paises
para realizarem os seus compromissos em
materia de genero e apoiar os esforgos de
grupos e redes de mulheres no combate
para uma maior igualdade de g6nero."

O menor progresso verificou-se com o
ODM 5, relative a sauide materna. O
"Piano de acGo da UE" chama igual-
mente a atencgo para actos de violencia
baseados no genero que continuam a ser
correntes em todo o mundo, especial-
mente contra as mulheres e raparigas (ver
caixa).




Para saber mais:
Ver o n6mero especial de 0 Correio sobre questoes
de genero (Dezembro de 2009).
http://ec.europa.eu/development/policies/cross-
cutting/genderequ


E acrescentou: "A UE & o maior doador http://www.acp-eucourier.info/fileadmin,
mundial. Temos de aumentar a nossa issues/2009/X04/TheCourier-2009-X04.pdf


Goma, Republica Democratica do Congo, 8 de Margo de 2009. Marcha do dia Internacional da Mulher na cidade de
Goma no destrogado pela guerra Leste do Congo. Reporters/TeunVoeten


Concurso de desenhos sobre
o g6nero para criangas entre
os oito e dez anos
Criangas com idades compreendidas
entre os oito e os dez anos, da Africa,
Asia, Caraibas, Pacifico, America La-
tina, MediterrAneo, Medio Oriente e
outros paises europeus, incluindo os
vizinhos orientais da UE, foram con-
vidadas a enviar os seus desenhos
para um concurso internacional so-
bre o tema da igualdade de genero. O
tema especifico 6 como as raparigas
e rapazes, mulheres e homens, po-
dem em conjunto melhorar o mundo.
Os vencedores de cada regiao rece-
bem um premio de 1000 euros cada
um, a utilizar na compra de livros,
computadores e outros materiais
educativos.
Para mais informagoes consultar: http://
ec.europa.eu/europeaid/what/gender/
drawing-competition_en.htm


A violagao como arma de guerra

Aviolncia baseada no genero ainda 6
pratica corrente na Republica Demo-
cratica do Congo. No 10.0 aniversario
da Resolug5o 1325 do Conselho de
Seguranga das Nac6es Unidas, rela-
tiva a violncia contra as mulheres no
conflito armado, realizou-se uma ex-
posigao de instantaneos fotograficos
captados pela fotojornalista Cornelia
Suhan e subordinada ao tema "A vio-
lag o como arma de guerra: as mu-
Iheres na Republica Democratica do
Congo", organizada em 3 de Margo
no Parlamento Europeu, em Bruxe-
las, conjuntamente pela Deputada
europeia alema dos Verdes Barbara
Lochbilhler e pela ONG alema "Me-
dica Mondiale". Sao ai abordados os
projectos da ONG para reconstruir
a vida das vitimas. "Nao se trata de
um conflito entre etnias, mas sim de
multinacionais que exploram o Con-
go. As vitimas nao se encontram em
Kinshasa, mas sim nas zonas rurais e
sao as mulheres que pagam o prego",
disse Jeannine Tshimpambu Muka-
nirwa, coordenadora de projectos
de construgco da paz para a ONG
"Promog o e Apoio as Iniciativas Fe-
mininas no Congo", uma das poucas
organizagces que se ocupa de viti-
mas de violag o na RDC e que esta
a trabalhar no terreno com a "Medica
Mondiale".


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010

































ca de comercio ACP?


ridaiidYu Ut L di lid InUuuillUd utlIIlu idLiud uU IlliyU,
Africa Central (antigo Zaire). Reporters/ Eureka Slide


A reprodugao da desglobalizagao dos
anos 1930 ou o crescimento rapido
dos anos 1990 e do inicio do ultimo
decenio? Que cenario se antev6 para o
mundo posteriormente a crise?


Debra Percival


M uito provavelmente serai
o regresso aos anos 1970
e principio de 1980: um
crescimento moroso no
Ocidente, um crescimento elevado nos
mercados emergentes embora mais
lento do que antes da crise -e um cres-
cimento negativo nos paises de baixos
rendimentos e em desenvolvimento. A
advertincia partiu do Dr. Razeen Sally,
co-director do Centro Europeu para
a Economia Politica Internacional na
conferencia sobre "A politica comercial
da UE e os paises em desenvolvimento",
organizada pela Comissio Europeia, em
Bruxelas, em 16 de Margo.

Os responsiveis politicos devem evitar
repetir erros passados erigindo novas
barreiras nio pautais que distorcem a
concorrencia. Segundo a Organizagio
Mundial do Com&rcio (OMC), havia
indicios de priticas comerciais discrimi-
nat6rias e de restrig6es aos emprestimos
transfronteirigos no iltimo trimestre
de 2009.

Nas palavras do Dr. Razeen Sally, nio
ha maior estimulo ao comrrcio mundial
do que concretizar o mercado inico
da Uniao Europeia, especificamente
mediante a abertura dos mercados de
energia e de servigos. "Quando nos
anos 1980 o mercado interno da UE flo-
rescia, o comercio externo progredia",
disse o Dr. Razeen Sally. E acrescentou
que a ronda de negociag6es de Doha da


OMC devia estar circunscrita a aboligio
dos subsidios as exportag6es agrico-
las para que o mundo pudesse langar
uma nova estrategia p6s-Doha e encetar
negociag6es multinacionais de servigos,
energia, acordos sobre contratos p6bli-
cos e supressio de barreiras nio pautais
ao com&rcio.

A "complexa realidade" dos
APE

O que pensa dos acordos de parceria
econ6mica (APE) corn as seis regi6es
ACP (Africa, Caraibas e Pacifico)? Dada
a actual "complexa realidade" das nego-
ciac6es, duvida da sua concretizaoio. A
regiao das Caraibas, a CARICOM, foi
at& a data a inica a concluir um acordo
regional que ultrapassa o com&rcio de
bens.

Outras regi6es ACP -ou partes de regi-
6es -celebraram acordos provis6rios
relativos exclusivamente a mercadorias
e muitos paises menos desenvolvidos
(PMD) dos 79 Estados do Grupo ACP
em vez de aderirem a um APE optaram
por beneficiar de livre acesso ao merca-
do da UE ao abrigo da iniciativa de 2001
da UE "Tudo Menos Armas" (TMA)
para os PMD. Preve-se que a TMA
seja revista antes do fim de 2011 para-
lelamente ao Sistema de Preferencias
Generalizadas (SPG) da UE para todos
os paises em desenvolvimento, declarou
Karel De Gucht, Comissirio Europeu
do Comrrcio, na referida conferencia.

"Os APE contribuirio para tornar os
paises ACP mais competitivos redu-


zindo os custos de importagio e ofere-
cendo acesso a servigos de qualidade a
prego moderado. Ajudario a criar um
enquadramento empresarial transpa-
rente e previsivel e assistirio os paises
ACP a mobilizar o investimento de
que carecem, disse Karel De Gucht.
Formulando um ponto de vista diver-
gente, muitos grupos da sociedade civil
continuam a atacar a "agenda comercial
corporativa" da UE.

O Professor Festus Fajana da Uniao
Africana disse que & essencial que os
APE tenham uma "componente de
desenvolvimento" como fundos infra-
estruturais e regras de origem mais
favoriveis. A UE e os seus 27 Estados-
Membros comprometeram-se a afectar
2 mil milh6es de euros anuais a assistin-
cia relacionada com o comercio.



China: o segundo parceiro
comercial da UE
"O com6rcio da UE com a China o
seu segundo maior parceiro comer-
cial ascende a 300 mil milh6es de
euros por ano e 50 mil milh6es de
euros do investimento multilateral da
UE estao na China. O com6rcio da
UE com os paises ACP 6 apenas de
100 mil milh6es de euros e somente
3,5 por cento do investimento exter-
no da UE vai para os paises ACP",
lembrou o Dr. Razeen Sally.


C*rreio





SaRti' I s


Geopolitica das placas tect6nicas



Momento de reencontro:


Haiti Repdblica Dominicana


Hegel Goutier




de 2010 suscitou um movi-
mento de generosidade em
todo o mundo. E em primeiro
lugar do vizinho pr6ximo do Haiti, a
Rep6blica Dominicana. Foi talvez o efei-
to colateral positivo mais importante da
catistrofe. Pelo menos para o Haiti, para
a Rep6blica Dominicana e para a regiio.

Apenas alguns dias parece que puseram
termo a mais de setenta anos de relativa
frieza entre as duas nag6es vizinhas
da ilha das Caraibas. Dos dois lados
da fronteira ha uma forte emogio em
relagio ao que alguns comentadores
designam por milagre ou fraternidade
reencontrada ou ainda metamorfose de
relag6es, que acabou com uma suspeigio
latente das classes politicas destes paises
vizinhos umas em relagio is outras.

A Rep6blica Dominicana mobilizou
desde o primeiro momento que se
seguiu ao terramoto meios incalculiveis
tendo em conta a reduzida dimensio da
sua economia. Os seus socorristas foram
os primeiros a chegar. Depois vieram os
seus tecnicos, em n6mero considerivel,
de todos os sectores, desde os cuida-
dos medicos e cirtrgicos at&e ajuda
alimentar e ao abastecimento de agua.
Colocou a disposigio os seus hospitais
e aeroportos, mobilizou os seus avi6es,
helic6pteros e embarcag6es e os seus
transportes terrestres. Preparou e trans-
portou para os sitios mais reconditos do
Haiti cami6es-dispensirio, autocarros-
escola e cami6es-restaurante. Partilhou
os seus recursos hidricos, electricos ou
de comunicagyo com este pais.

A situagio pode resumir-se num n6me-
ro. Todos os dias, desde 12 de Janeiro,
a Rep6blica Dominicana gasta cerca de
85.000 d6lares para ajudar o Haiti. Em


pouco mais de um mes, s6 a ajuda ali-
mentar que forneceu e avaliada em 2,5
milh6es de d6lares.

Para alem da ajuda e mesmo da recons-
trugyo do Haiti, a Rep6blica Dominicana
assumiu a lideranga de uma serie de
iniciativas diplomiticas, como a que se
destina a conseguir uma votagio ripida
pelos Estados Unidos da "Lei relativa is
oportunidades econ6micas" a favor do
Haiti. No piano econ6mico, os meios
empresariais dos dois paises estio a pla-
near a instalagio de "aglomerados" para
reforgar a sua competitividade conjunta
no mercado internacional em relagio
a um certo n6mero de produtos. Esta
acoGo foi objecto em 5 de Fevereiro
l6timo de uma importante reuniio de
homens de neg6cios, organizada por ini-
ciativa nomeadamente dos directores-
gerais de duas instituig6es fundamen-
tais dos dois paises, os "centros para a
captagio de investimentos", respectiva-
mente Guy Lamothe pelo Haiti e o seu
hom6logo dominicano, Eddy Martinez
Manzueta. Esta iniciativa foi seguida de
perto pelos dois governos.

Um comentirio subjacente aparece na
andlise de muitos comentadores expe-


rientes. O governo dominicano con-
siderou provisoriamente caduco um
conjunto de leis, decretos e disposig6es
que limitavam ou controlavam rigoro-
samente a entrada de haitianos no seu
territ6rio, permitindo que entrassem
livremente os feridos, para os quais em
menos de tries semanas foram autori-
zados, sem quaisquer formalidades de
visto, mais de trezentos voos medicos;
e permitiu a passagem de um grande
n6mero de pessoas sem abrigo sem pro-
ceder a grandes controlos. Toda a gente
considera isto fundamental.

E verdade que houve uma certa hesita-
yao do governo do Haiti em aceitar um
contingente militar dominicano nas tro-
pas das Nag6es Unidas, mas nao houve
uma recusa declarada. E ha quem diga
que os dominicanos nao agiram apenas
por altruismo e que tem interesse num
desenvolvimento do Haiti, quanto mais
nio seja para evitar uma vaga migra-
t6ria. Mas este comenturio parece nao
ter origem na ilha. "E mesmo que fosse
verdade, fazer bem para se proteger
continua a ser altruismo... diplomiti-
co", comentou-nos um funcionirio do
Haiti.


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010





net7a e 3 gi.* -m. .a ODM


A BBlgica aposta nas pequenas empresas da Africa


Hegel Goutier


Belga de Investimentos para os
Paises em Desenvolvimento,
BIO, cooperagio entre o
governo belga e sociedades privadas,
criou com a colaborago do Centro de
Desenvolvimento Empresarial (CDE)
um novo instrumento financeiro desti-
nado a apoiar as muito pequenas empre-
sas do Sul, nomeadamente da Africa. A
ATHENA foi langada oficialmente em 4
de Fevereiro passado pelo Ministro fede-
ral belga do Desenvolvimento, Charles
Michel, juntamente com os principais
responsiveis da BIO e o Director-Geral
do CDE, Mabousso Thiam. Estio reser-
vados para esta iniciativa mais de 3
milh6es de euros.


de apoio as empresas do Sul, demasiado
grandes para beneficiarem da microfi-
nanga e demasiado pequenas para finan-
ciamento bancirio de tipo a medio prazo.
Nesse sentido, o instrumento ATHENA
ocupa um eixo relativamente novo na
cooperago financeira internacional, o
da "mesofinanga". Com o seu novo par-
ceiro, o CDE, a Sociedade Belga de
Investimento, empresa comum (Joint
Venture) entre o Estado belga e socie-
dades privadas, enriqueceu a sua expe-
riencia com o saber-fazer de uma orga-
nizagio da cooperagio entre os paises
ACP e a Uniio Europeia especializada
nas especificidades dos diferentes tipos
de empresas dos paises em desenvolvi-
mento, com conhecimento especifico dos
actores no terreno. Os seus especialistas
podem garantir a credibilidade e a solva-
bilidade destas iltimas empresas e ajudar
a BIO a tomar riscos calculados.


ATHENA representa, para os seus ini- A BIO, criada em 2001, esta presen-
ciadores, o elo que faltava em termos te em mais de cem paises em desen-




Novo impulso da UE aos ODM

Debra Percival


volvimento, entre os quais 18 parcei-
ros privilegiados e entre estes 14 paises
africanos, dos quais 11 pertencem ao
grupo de Estados ACP (Mali, Senegal,
Niger, Benim, Rep6blica Democritica
do Congo, Ruanda, Burundi, Uganda,
Tanzania, Mogambique e Africa do Sul).
A facilidade ATHENA disp6e de um
orgamento de 3.300.000 euros para o
ano 2010, dos quais 300.000 euros serio
destinados ao reforgo tecnico das empre-
sas beneficiirias. O orgamento da BIO
para financiamento de empresas de pai-
ses em desenvolvimento aumentou consi-
deravelmente em 2009, (um total de 138
milh6es de euros em 2009) gragas a um
aumento de 97 milh6es da participagio
do governo belga.

O piano estrategico da BIO para os tries
pr6ximos anos preve um posicionamento
ainda mais importante na Africa subsa-
riana e uma atengco especial a transfor-
magio dos produtos agro-alimentares.


A caminho da Conferencia de
Revisao de Setembro em Nova
Iorque sobre os Objectivos de
Desenvolvimento do Milenio
(ODM), a Comissao Europeia elabo-
rou um documento de trabalho sobre
o tema "Mais e melhor educago nos
paises em desenvolvimento" (http://
ec.europa.eu/development/icenter/repo-
sitory/SEC2010 0121_EN.pdf) e esta
a elaborar outros documentos temi-
ticos sobre saide, seguranga alimen-
tar, genero e governagco ornamental. A
linha de partida e que a Ajuda P6blica
ao Desenvolvimento (APD) nao basta
por si s6 para se atingirem os ODM (ver
neste n6mero outro artigo sobre os 61ti-
mos dados da APD). Juntamente com
um aguardado "pacote da Primavera
sobre o desenvolvimento", que inclui
outros documentos de trabalho da
Comissao sobre os ODM, os progres-
sos sobre o Consenso de Monterrey e a
Declarago de Doha sobre o financia-
mento, a eficicia da ajuda e a ajuda ao
comercio, espera-se que seja dado um
novo impulso nos progresses para se
atingirem os ODM.

"A UE deve esforgar-se para promover
uma visao, uma voz comum e uma acgao
fortes em materia de sa6de global e deve
promover um quadro inclusivo sob a
lideranga da ONU", disse o Comissirio
da UE para o Desenvolvimento, Andris
Piebalgs, numa reuniao subordinada


ao tema "Assegurar o direito a saide
com os ODM no dominio da saide",
realizada em 2 de Margo de 2010 no
Parlamento Europeu. Piebalgs instou a
comunidade internacional a centrar-se
especialmente na mortalidade de crian-
gas com menos de cinco anos (ODM
4), mortalidade maternal (ODM 5) e
principais pandemias, como o VIH/
SIDA e a malaria (ODM 6). Apelou
igualmente para que se atente mais na
"coerencia das politicas". O comercio,
referiu, influenciou o acesso aos medi-
camentos e as politicas de migrago tive-


ram implicay6es directas na capacidade
dos paises parceiros para manterem os
seus pr6prios profissionais de saude.
A Politica Externa e de Seguranga da
UE, disse ele, precisa de ter em conta
as ameagas de saude globais. A segu-
ranga alimentar, referiu igualmente,
esta estreitamente ligada a nutrigio e as
alterag6es climiticas afectaram a saude
a uma escala global. Piebalgs apelou
para um aumento do financiamento da
investigation e desenvolvimento e para
a procura de "fontes de financiamento
inovadoras e originais".


Correio





ACP-UE Interaffiwe s


Langamento da nova Facilidade


para a Agua destinada aos ACP


Debra Percival


Anova Facilidade da UE para
a Agua, num montante de
200 milh6es de euros, des-
tinada aos paises da Africa,
Caraibas e Pacifico (ACP) e financiada
no quadro do 10. Fundo Europeu de
Desenvolvimento (FED), foi langada
em Bruxelas em 9 de Fevereiro. O seu
objective e a meta dos Objectivos de
Desenvolvimento do Milenio (ODM)
de diminuir para metade ate 2015 a
proporgio de pessoas sem acesso sus-
tentivel e seguro a agua potivel e ao
saneamento, bem como os ODM cone-
xos de reduzir a mortalidade infantil e
materna (ODM 4 e 5) e de combater as
doengas (ODM 6). Esta nova facilidade
da continuidade ao sucesso da primeira
facilidade, no montante de 500 milh6es
de euros (2004-2006) no quadro do
9. FED, e da enfase a participayio de
parceiros e ONG locais em projectos
co-financiados com a UE.

Do orgamento global, 110 milh6es de
euros sao atribuidos para "Promover a
agua, o saneamento e a higiene no qua-
dro dos ODM". Os convites para apre-
sentagio de propostas encerram em 2 de


Junho de 2010. Neste caso e dada enfa-
se ao fornecimento de infra-estruturas
basicas em zonas rurais e perifericas.
Foi igualmente orgamentada uma verba
de 40 milh6es de euros para propos-
tas destinadas a criar "Parcerias para
desenvolvimento de capacidades no sec-
tor da agua e saneamento nos paises
ACP" (Norte-Sul e Sul-Sul), a fim de
transferir experiencias e conhecimentos
de empresas de abastecimento de agua
e de saneamento, de autoridades locais
e de outros intervenientes do sector
da agua para os seus hom6logos dos
ACP. Um "mecanismo comum", de um
montante de 40 milh6es de euros, ira
co-financiar infra-estruturas de agua e
saneamento de media dimensio.

Luis Riera Figueras, Director na DirecoGo-
Geral do Desenvolvimento da Comissio
Europeia, referiu que a primeira facilida-
de assegurou o abastecimento seguro de
igua a 14 milh6es de pessoas; 2-3 milh6es
de pessoas beneficiaram da melhoria do
saneamento e 11 milh6es de uma maior
sensibilizagio para a higiene. A primeira
facilidade permitiu igualmente a realiza-
yao de 9 projectos de infra-estruturas de
bacias fluviais.


SReporters


dade Riccardo Petrella, analista politico
e autor do "Manifesto da Agua".

Para saber mais sobre os convites para apresen-


tagao de propostas, consulte: http://ec.europa.
"A igua constitui um direito humano eu/europeaid/where/acp/regional-cooperation
basico", disse no langamento da facili- water/index pt.htm


0 xito de Capacity4dev.eu


Estabelecida em Outubro de 2009, Capacity4dev (capacity4dev.eu), uma
plataforma interactiva criada pelo Servico EuropeAid para "partilhar ideias e
conhecimentos", tem tido ate agora um enorme exito. Os visitantes ja sao quase
25.000 e a plataforma acaba de obter o assinante n.o 1000.


Andrea Marchesini Reggiani




coordenadora da estrategia
de base para a reforma da
cooperaogo tecnica, fala-nos
da ideia que esta por detras deste sitio
web: "O que pensa da nossa assisten-
cia tecnica? Coloquei esta question ao
dirigente de uma associagio de agri-
cultores africanos ha algum tempo e a
resposta foi tio preciosa e interessante
que imaginei a Capacity4dev como um
espago para partilhar estas opini6es.
Trabalho na reforma da assistencia
tecnica da UE, com o objectivo de
lhe permitir dar resposta as exigencias
locais e necessidades efectivas. Esta
reforma e um jogo que envolve muitos
intervenientes. Precisamos de coopera-
cao e de contributos do Sul para fazer



N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010


com que funcione. De um modo geral,
precisamos das opini6es do Sul para
melhorar a forma como trabalhamos.
Agora, quando todas as manhis abro
a plataforma, e como abrir uma janela.
Quando insiro novos materiais no sitio,
fico feliz por pensar que uma tio gran-
de diversidade de pessoas tera acesso a
esses materiais."

Participe

Mas parece que o sitio web alargou os
seus horizontes para alem dos opera-
dores inicialmente visados no dominio
da cooperayio tecnica. Actualmente
acolhe cerca de 30 grupos de trabalho
(alguns sao abertos, enquanto outros
sao restritos) que se centram em ques-
t6es como o desenvolvimento rural e a
agricultura (o grupo mais conhecido,
com 46 participantes) e cultura e desen-
volvimento (com 36 participantes).


O gestor da Capacity4dev, Christoforos
Korakas, considera que o sitio e "o
primeiro espago aberto oferecido por
um doador para parceiros criarem os
seus pr6prios grupos de trabalhos e
f6runs. Quem quer que aparega trara
assuntos, ideias e material e junta-se a
uma comunidade de profissionais em
crescimento".

"E bom ver o nimero e a diversidade
de utilizadores externos a crescer",
conclui Manzitti. "Muitos pertencem
a sociedade civil e ao sector privado.
E incentivador ver que o nosso convite
para virem ver o que fazemos foi aceite.
Agora queremos desenvolver mais
intercambios e mais dialogo em linha.
E um processo de aprendizagem."


















































um laboratorio extraordinario




Marie-Martine Buckens


11 de Fevereiro de 2010. Toda
a Naaio Arco-iris comemora o 20.0
aniversirio da libertaaio de Nelson
Mandela, o icone mundial da luta
contra o Apartheid. A sua eleiyio,
como primeiro presidente negro da
Africa do Sul em 1994, abriu uma
nova era para todos os marginalizados,
maioritariamentenegros, dasociedade.
Hoje, no concerto das nay6es, a Africa
do Sul ocupa um lugar invejivel, como
o testemunha a Parceria Estrategica
assinadaem2007 comaUniaoEuropeia.

Apesar disso, os Sul-Africanos sao os
primeiros a apontar as suas feridas
ainda nio curadas. Em primeiro
lugar, a criminalidade mesmo se esta
afecta essencialmente as camadas
desfavorecidas. E nio foi por acaso
que a nova classe media de negros, que
beneficiou da politica de discriminaaio
positiva (Black Economic
Empowerment), adoptou a mesma
politica que os brancos, protegendo
as suas casas com fios electrificados.
"Este medo da violencia e subjacente,


mesmo se toda a gente aparenta uma
grande afabilidade", confessa-nos
um Sul-Africano branco. Como se
a populagio receasse constantemente
que a faganha realizada por Mandela e
os seus sucessores de evitar um banho
de sangue e o exilio em massa dos
brancos termine abruptamente. E e
sem d6vida esse mesmo receio que a
invade face a afluencia de refugiados
oriundos dos paises vizinhos, quando
o Bispo Paul Verryn exorta o seu pais
a abrir-lhes as fronteiras, da mesma
maneira, diz ele, como a Africa do Sul
abriu um dia as suas fronteiras internas.

Mas este desafio, a Africa do Sul
conseguira sem d6vida superar,
provando mais uma vez que continua
a ser um laborat6rio extraordinirio
onde se forjam as novas mestigagens.

Ha, no entanto, outros desafios
importantes. O acesso aos servings de
base para quase metade da populagio
e um deles. Outro e a questio racial:
subsistem barreiras invisiveis e todos


nos sabemos que "as cores do arco-iris
nao se tocam". Mas a mestigagem vai
progredindo passo a passo. E todos,
negros, mestigos, brancos ou indios -
categorias sempreexistentesnumregime
de discriminagio positiva -afirmam
com orgulho que sao "Sul-Africanos".

E um pais de belas gentes e de paisagens
diversificadas. Uma economia
emergente que, para alem das suas
pedras preciosas, vende com sucesso
os seus vinhos e outros nectares. "Este
pais permite a cada um encontrar e
exprimir o seu objectivo, dado haver
tanta coisa a construir", acrescenta
o nosso Sul-Africano branco.

11 de Junho de 2010. A equipa sul-
africana Bafana-Bafana enfrentara
os Mexicanos no jogo de abertura do
Campeonato do Mundo de Futebol no
estidio Soccer City perto de Soweto.
E todo um simbolo...


Correio






































Dos Khoisan a


Nagio Arco-iris


Foram sem dOvida os primeiros a
percorrer o territorio da Africa Austral
ha mais de 30.000 anos. Os San
- a quem os colonos holandeses
chamaram muito mais tarde os
Bosjesmans (os Homens da Savana
ou Bochimans) viviam de colheita
e da caca. Ha cerca de 2500 anos,
uma parte destes cacadores tornou-
se criadores de gado. Estes Khoikhoi,
deslocaram-se para o Sul, ate ao
Cabo da Boa Esperanca. Partilham
a lingua comum com os Bochimans,
isto e o khoisan. Era devido aos
estalidos caracteristicos da lingua
que os Khoikhoi eram referidos como
Hottentots (gagos) pelos colonos.


Marie-Martine Buckens


eram agricultores e criadores
de gado vindos do delta do
rio Niger, comegaram a
instalar-se a leste, na actual provincia
KwaZulu-Natal e, mais tarde, na
provincia do Cabo Oriental. Foi nesta
tela de fundo humana que os primeiros
Europeus desembarcam na ponta sul
do que viria a ser a Africa do Sul.

A Terra Prometida

Houve primeiro curtas incurs6es dos
Portugueses, que acabaram por preferir
os portos seguros de Mocambique.
Foi o neerlandes Jan Van Riebeeck,
comanditado pela entio toda-poderosa
Companhia Neerlandesa das Indias
Orientais, quem primeiro se instalou,
em 1652 com uma centena de homens,
junto a Montanha da Mesa, no Cabo.
Tinha por missio criar uma estagio
de abastecimento de produtos frescos
para os marinheiros enfraquecidos
pelo escorbuto ap6s virios meses de
navegaoio. A pequena col6nia acabou
por se instalar ai. A procura de terras
de pasto, os camponeses holandeses, os
Boers, entraram em concorrencia com os
Khoikhoi. Foram importados escravos
da Africa e igualmente da Malisia e
da Indonesia, cujos descendentes


constituirao o grupo etnico "Malaios
do Cabo". A sociedade dos Boers impos
assim uma primeira e dupla segregaogo.
O 6nico ponto comum era o Afrikaans, a
lingua holandesa simplificada. Em 1685,
os Huguenotes escorragados da Franga
pela revogaogo do Edito de Nantes,
juntaram-se aos Boers e desenvolveram
as vinhas que hoje rivalizam com as
dos seus antepassados franceses.

No final do seculo XVIII, os
acontecimentos comegaram a acelerar.
Os Britanicos decidiram apossar-se da


Gravura Khoikhois Museu do Apartheid, Joanesburgo.
Marie Marine Buckens


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010












Col6nia do Cabo com o objectivo de
impedir a Franga, que acabava de invadir
os Paises Baixos, de controlar este ponto
de passagem obrigat6rio do caminho
para a India. Os Boers -que passaram
a chamar-se Afrikaners, convencidos de
terem encontrado a Terra Prometida de
que fala a Biblia, convicgio inabalivel
que os guiara durante toda a sua
hist6ria -entraram em conflito cor os
Britanicos, que acabaram por dominar
a politica e a economia, relegando os
Boers para as explorag6es agricolas.
Em 1835, a aboligio da escravidio, as
fracas compensag6es dos agricultores e
a arrogancia das autoridades britanicas
incitaram milhares de Boers a
emanciparem-se do poder colonial. Foi o
inicio de uma longa viagem para o Norte:
a Grande "Trek" (A grande viagem).

A Guerra dos Boers

Os Boers instalaram-se no norte e
criaram as Rep6blicas do Transvaal e
de Orange. Os Britanicos, por sua vez,
instalaram-se entre o Cabo e Natal,
para leste, matando a sua passagem
milhares de Xhosas. A tregua entre
os dois povos colonos foi curta. A
descoberta de diamantes em Kimberley,
em 1867, atigou a inveja dos Britanicos
que, chefiados pelo insaciivel Cecil
Rhodes, Primeiro-Ministro do Cabo,
que acedeu rapidamente aos comandos
da potente companhia mineira De
Beers, apoderaram-se dos territ6rios at&
ao norte, que mais tarde constituiram o
territ6rio da Rodesia. Mas foi sobretudo
o filio aurifero, situado nas terras dos
Afrikaners em Joanesburgo que, em
1886, instigou Londres a anexar o
Transvaal, desencadeando a primeira
guerra entre a Inglaterra e os Boers, que
estes iltimos ganharam, conduzidos
pelo seu chefe lendirio Paul Kruger.
Os Britanicos langaram um novo
ultimato reclamando a igualdade de
direitos para os ingleses que residiam no
Transvaal (onde numerosos estrangeiros
sobretudo indianos, mas tambbm
negros -trabalhavam nas minas de
ouro). Os Afrikaners resistiram, mas
Londres replicou. Os civis Boers foram
enviados para campos de concentragio,
os seus empregados negros para outros
campos, e as explorag6es agricolas
foram incendiadas. Os Afrikaners
capitularam, mas as dezenas de milhares
de civis mortos nos campos alimentario
ainda por muito tempo o 6dio dos
Afrikaners contra o Reino Unido.

Da Unido nacional ao
Apartheid

Com o Tratado de Vereeniging, assinado
em 31 de Maio de 1902, o Transvaal e
o Estado Livre de Orange tornaram-se
col6nias britanicas. Em compensagio,
o governo britanico concedeu aos Boers
um governo aut6nomo. Em 1910, foi
criada a Uniao Sul-Africana. O antigo
comandante do ex&rcito Boer, Louis


Botha, assumiu as fung6es de Primeiro-
Ministro e de chefe do Partido Sul-
Africano. Foram criadas as primeiras
"reservas" para os negros (bantust6es) e
pouco depois, as elites negras juntamente
com os mestigos fundaram o partido
que se tornaria, em 1923, o Congresso
Nacional Africano (African National
Congress ANC), ao qual aderira mais
tarde Nelson Mandela. Em 1913, o
Parlamento branco adoptou a"Leisobre a
propriedade fundiiria indigena" (Native
Lands Act), que reservava a minoria
branca 93% dos territ6rios da Uniio.

Para seduzir um eleitorado angl6fono
conservador, Daniel Malan, vencedor
das eleig6es em 1948, erigiu em sistema a
segregagio racial que prevalecia desde a
fundagio da Uniao e retirou aos mestigos
do Cabo o direito de voto. Em 1950, foi
instaurada uma classificagio racial que
dividia os Sul-africanos em categorias:
Brancos, Mestigos, Negros e Indianos.
Em 1953, a lei Separate Amenities Act
consagrou a separagio dos espagos
p6blicos. Os negros eram obrigados
a terem consigo o salvo-conduto (o
famoso pass). Em 1961, a Uniao Sul-
Africana tornou-se na Rep6blica da
Africa do Sul. Em Junho de 1964,
o Conselho de Seguranga da ONU
condenou o Apartheid e ordenou um
estudo das sany6es contra a Rep6blica.

Do Apartheid a NaAoo Arco-iris

Os partidos de luta contra o Apartheid
comeearam a radicalizar-se. Em 1961,
Nelson Mandela criou a Umkhonto
We Siswe ("a Langa da Naoo"), "o
brago armado" do Congresso Nacional
Africano. Mandela foi preso em Agosto
de 1963 e condenado a reclusio perp&tua
em 1964. Em 1984, uma vastacampanha
de manifesta6ges alastrou por todo o pais
e o Arcebispo Anglicano, Monsenhor
Desmond Tutu, um negro, recebeu o
premio Nobel da Paz. Em Fevereiro
de 1990, as organizag6es antiapartheid
foram finalmente autorizadas. O ANC
renunciou a luta armada e Nelson
Mandela foi libertado, ap6s 27 anos
de reclusio. Em Maio de 1994, ap6s a
vit6ria do ANC nas primeiras eleig6es
multirraciais, Nelson Mandela tornou-
se o primeiro Presidente negro da Africa
do Sul. A nova Constituigio instaura
uma federagio de nove provincias e
reconhece onze linguas oficiais.

a- rI b


"Justiga sob uma arvore", log6tipo do Tribunal
Constitucional Sul-africano, Joanesburgo. XavierRouchaud


Comissao da Verdade e da
Reconciliagao

Presidida por Monsenhor Desmond
Tutu, a Comissao da Verdade e da
Reconciliagao tem a funcgo de in-
ventariar os anos de Apartheid, re-
censeando todos os crimes e delitos
politicos cometidos, nao somente por
conta do governo sul-africano mas
tambem por conta dos diferentes
movimentosantiapartheid, no periodo
de 1 de Margo de 1960 (massacre de
Sharpeville) a 10 de Maio de 1994. Os
seus trabalhos duraram dois anos.



A ascensao de Jacob Zuma

As eleic6es de 1999 confirmaram o
dominio do ANC sobre a politica sul-
africana. Nelson Mandela cedeu o
lugar a Thabo Mbeki. Durante os dois
mandatos (ate a 2008) do seu gover-
no, o pais teve um crescimento eco-
n6mico anual de 5% e foi sensivel a
melhoria das condig6es de vida nas
comunas. Mas nem tudo foi positivo:
a manutengao de 10% da popula9go
numa miseria extrema, o aumento do
desemprego em praticamente 40%,
uma forte progressao da criminalida-
de, a expansao da pandemia da SIDA
e a degrada9go dos lugares p0blicos.

Em 2008, a grave penuria de electrici-
dade p6s termo ao balango econ6mi-
co do Presidente que teve, alem disso,
de enfrentar, em Maio, uma vaga de
violdncia assassinatos e pilhagens
- contra imigrantes provenientes so-
bretudo do Zimbabue. Thabo Mbeki foi
obrigado a demitir-se. Esta demissao
vai de par com um autdntico cisma no
ANC e com a criagao do Congresso
do Povo (COPE) pelos partidarios do
antigo presidente. Em Maio de 2009,
Jacob Zuma foi eleito Presidente
da Rep0blica ap6s a vit6ria do ANC
(65,90%), nas eleig6es gerais, face
nomeadamente a alianga democratic
(16,96%) de Helen Zille, que ganhou a
provincia do Cabo-Ocidental, e diante
do Congresso do Povo (7,42%) de Mo-
siuao Lekota.

Neste ano, 15 anos ap6s ter organi-
zado com grande sucesso o Campe-
onato do Mundo de Raguebi, marcado
pela vit6ria final da sua equipa nacio-
nal, os Springboks, a Africa do Sul
acolhera o Campeonato do Mundo de
Futebol, a "Soccer World Cup".


eCrreio


*.eD g AfrcadoSu





Africa do Sul D wae'


"A Africa


do Sul


representa um


importancia


estrategica


para a Europa"



Entrevista a Lodewijk Briet,
Embaixador da Uniao Europeia na
Africa do Sul


Lodewijk Bri6t, Embaixador da Uniao Europeia na Africa do Sul.
SXavier Rouchaud


Marie-Martine Buckens


de desenvolvimento, a
Africa do Sul ocupa urn
lugar especial na politica
de cooperacdo da Europa. Como
definiria esse lugar?

O nosso interesse neste pais e antes de
mais geopolitico. A Africa do Sul e a
maior economia deste continente. A
estabilidade do pais e tambem de pri-
mordial importancia para a sub-regiio
na sua globalidade. A Africa do Sul e
considerada o "grande irmio" no seio
da Comunidade de Desenvolvimento da
Africa Austral (SADC). Porem, os nos-
sos interesses econ6micos globais sao
reduzidos, se os avaliarmos apenas de
um posto de vista estatistico: a Africa do
Sul representa somente entre 1% e 2%
do nosso comercio total com paises ter-
ceiros. Nio posso deixar de evidenciar
este facto, porquanto subsiste um mal-
entendido relativamente a esta question:
somos demasiadas vezes acusados de
aqui virmos com uma "agenda oculta",
o que, simplesmente, nao e verdade.

Entdo, a politica estd antes da coo-
perado?

Efectivamente, estamos aqui em pri-
meiro lugar por raz6es politicas, muito
mais do que por raz6es relacionadas
com a ajuda ao desenvolvimento. Nio


obstante, temos levado a cabo impor-
tantes acy6es no ambito do auxilio.
Esta visio politica das nossas relacges
tomou forma concreta em 2007 corn
uma Parceria Estrategica. Tres anos
depois, onde nos situamos? Criimos
uma dizia de fora de di.logo e, sobre-
tudo, avangimos da relagio de doador-
receptor, que prevalecia desde o inicio
da decada de 90, para uma parceria no
seio da qual discutimos materias em pe
de igualdade. Esquecemo-nos dema-
siadas vezes que temos muito a apren-
der com o nosso parceiro. No caso da
Africa do Sul, podemos aprender sobre
o processo de reconciliagio, e sobre
igualdade de genero -penso concreta-
mente na minha instituigio, a Comissio
Europeia, onde poucas mulheres ainda
chegam aos lugares de topo. A atracgio
deste pais reside na sua populagio.

Uma populado que permanece pro-
fundamente dividida e desigual...

Ha que lembrar que o limiar da pobreza
se situa em 50 euros por mes e que 50%
da populagio sul-africana vive abaixo
desse nivel. A populagio de 48 milh6es
e composta por negros (quase 80%,
metade dos quais vivendo na pobreza),
mestigos (cerca de 10%), brancos (tam-
bem cerca de 10%, mais de metade dos
quais tern ascendencia africander) e
asiiticos (um pouco mais de 2%, maio-
ritariamente de ascendencia indiana).
Desta populagio total, cerca de 7%
paga a maioria dos impostos. Por outro
lado, existe pouquissima socializagio


entre os diversos grupos. As cores
do arco-iris ainda nio se tocam, com
uma relevante excepgio: na educaogo,
nas escolas e universidades. A redugyo
da pobreza e o maior desafio que o
governo enfrenta.

Qual e a sua opinido sobre as medi-
das tomadas pelo governo, como
forma de combate a pobreza?

As medidas apresentadas, a 17 de
Fevereiro, pelo Ministro das Finangas,
Pravin Gordhan, no discurso do orga-
mento para 2010, representam um
esforgo considerivel no combate as
desigualdades e p pobreza. Trata-se de
um exercicio extremamente complexo
e dificil, mas que & essencial, tanto
a nivel moral, como politico. Para o
melhor o para o pior, a Africa do Sul
e um pais unipartidirio e, ap6s 16
anos no poder, o ANC nio tem mar-
gem para mais demora. A promessa de
uma vida melhor para todos, feita por
Thabo Mbeki, permanece letra morta
para muitas pessoas. Neste contexto, o
legado do sistema de educagyo Bantu
(contaminado pela politica discrimi-
nat6ria de educagco introduzida pelo
apartheid, nota do editor) continua a ser
um desafio muito particular. Porem, 16
anos volvidos, esta na hora de parar de
culpar o passado. Pessoalmente, estou
muito bem impressionado com muitos
daqueles com quem tenho tid o privile-
gio de trabalhar, a maioria dos quais sao
negros. Lamentavelmente, a populagio
negra sul-africana e bastante menos


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010





*.eDDtae Afric do


universicdade deFretoria. oMarie-Martine Buckens


adepta dos seus brancos do que as popu-
lag6es negras dos paises vizinhos.

Em que consiste o contributo da UE
para esta "vida melhor para todos"?

Apesar de sermos o principal doador
de auxilio (70% dos fundos externos
para assistencia), o nosso contributo e
inferior a 2% do PIB da Africa do Sul
e 0,1% do seu Orgamento de Estado.
Apesar disto, a soma e substancial: 980
milh6es de euros ao longo de 7 anos.
Os sectores prioritarios sao o emprego e
os servings basicos. Existem programas
que representam exemplos de sucesso
e que se centraram nos sectores mais
desfavorecidos da populagio, especial-
mente aqueles que vivem em munici-
pios, muitas vezes localizados em areas
longinquas dos centros industriais ou
de actividades econ6mica, mas tam-


bem os habitantes das zonas rurais que
albergam 45% dos sul-africanos. Uma
significativa soma de 122 milhdes de
euros foi tambem atribuida a educagyo
basica. Levara ainda uma geraaio para
garantir que toda e qualquer crianga
saiba ler, escrever e contar a saida da
escola. Trabalhamos tambem nas areas
da justiga e da governagio, incluindo
a seguranga. Uma vez que a Africa do
Sul, em variados aspectos, pode ser vista
como uma sociedade unipartidaria, e
de particular relevancia que a socie-
dade civil esteja habilitada para dar o
seu contributo. Aparte disto, o nosso
contributo estende-se muito para la dos
aspectos da assistencia ao desenvolvi-
mento, como seja o caso dos assuntos
relacionados com energia e alterag6es
climaticas.

A Cooperacdo Regional e uma das


vossas prioridades, especialmente
o aspecto relacionado corn o comer-
cio. Como vao as negociadoes sobre
o Acordo de Parceria Econ6nica
(APE) entre a SADC e a UE?

A Africa do Sul e vista como o "grande
irmio" pelos seus parceiros regionais e
um pouco "por defeito" que estes paises
estio cooperando.
Quanto as negociagSes EPA, talvez ten-
hamos feito alguns erros, mas ao mesmo
tempo fizemos muitas concess6es que,
ate a data, ainda nro receberam respos-
tas construtivas por parte do Governo
Sul-africano (Actualmente, quatro pai-
ses da SADC ja assinaram um Acordo
Provis6rio de Parceria Econ6mica).
Respeitamos a importancia que o desen-
volvimento de uma agenda pr6pria tera
para a regiao e acreditamos que o Acordo
representara uma ajuda a esta agenda.


Frente ao Edificio da Uniao, onde se situam a Presid6ncia e o Governo Sul-africanos. xavier Rouchaud


Correio





Africa do Sul Reportagem


Uma democracia que


se abre a contestagao


Desde o fim do apartheid, o
Congresso Nacional Africano (ANC)
domina o cenario politico na Africa
do Sul. Apos os 'anos Mandela',
marcados pela reconciliacao, seguidos
por dez anos de presidencia de Thabo
Mbeki, um pan-africanista convicto,
a Africa do Sul tem vivido, desde
Maio de 2009, a era Jacob Zuma.
Uma presidencia que bem poderia ser
assinalada, segundo os observadores,
por um reforco da democracia, ao
conferir a oposicao um papel mais
marcante no cenario nacional.


Marie-Martine Buckens


S e o novo Chefe de Estado jai
suscitou d6vidas no plano inter-
nacional -as suas divergencias
com Thabo Mbeki forgaram
este iltimo e os seus apoiantes a funda-
rem um novo partido (COPE), a juntar
aos conflitos que teve com a justiga a
populagco sul-africana, por sua vez,
espera tudo do seu novo lider: criago
de emprego, a prestagco de cuidados
bisicos a todos os estratos sociais da
populacgo e, finalmente, a redugco da
criminalidade endemica. < Ele faz o que
pode , confidencia-nos um funcionirio
europeu e, na verdade, dez meses ap6s
a sua tomada de posse, ele surpreende
pelo seu pragmatismo e pela sua habili-
dade. Ao contririo dos seus predecesso-
res, Jacob Zuma nao & um Xhosa, mas
um Zulu, uma distingco relevante, num


0 Presidente da Africa do Sul, Jacob Zuma, da um pontape a partir da linha de grande penalidade, no decurso de uma
visita ao Estadio de Wembley, em Londres, a 4 de Margo de 2010, a quatro meses do Campeonato Mundial de Futebol.
AP Foto/Sang Tan


pais onde as diferengas nao se resumem a
< brancos e negros >. Se Jacob Zuma nao
Sum intelectual, mas sim um autodi-
dacta, e pai poligamo de um cortejo de
filhos, o seu activismo politico no seio
do ANC & tambem precoce, valendo-
lhe, de resto, uma visita de 10 anos a
Nelson Mandela na prisao de Robben
Island e o apoio do eleitorado de esquer-
da do ANC.

Franqueza

O novo presidente surpreende tambem
pela franqueza. Numa das raras entre-
vistas concedidas a imprensa internacio-
nal, Jacob Zuma declarou, em Dezembro
iltimo, a revista americana Time que os
desafios -criminalidade, Sida, fractura
social no seio da populacio negra, com
a emergencia de milionirios negros,
corrupio com que a Africa do Sul
se confronta, < sao reais. E s6 quando
reconhecermos que houve fraquezas e
deficiencias & que teremos eco junto do
povo (...). Ap6s 15 anos, a populacio
pergunta: quais sao os resultados?" E
o Time coloca em titulo: < Zuma, repre-
senta aquilo de que a Africa do Sul
precisa? ,>

Ao contririo do seu antecessor, subli-
nha um observador sul-africano, Jacob
Zuma, uma vez escolhidos os seus
ministros, deixa-lhes uma larga mar-
gem de manobra. Da mesma forma,
o seu governo abriu-se aos partidos
minoritirios como & o caso do Partido
Comunista, mas tambem, e pela pri-
meira vez desde 1994, a Frente da
Liberdade [Freedom Front (FF+), a
direita africander]. Este partido, que
abandonou a ideia de criar uma d&cima
provincia 'independente' (ideia defen-
dida na &poca pelo ANC), conseguiu
uma faganha em Maio de 2008, ao
realizar a integragco dos Africanderes
na Organizaco das Nac6es e dos Povos
nao Representados (UNPO).

No piano econ6mico, o Presidente tem
agora de lidar com as exigencias cada vez
mais prementes de Julius Malema, feroz
e muitas vezes provocador Presidente da
Liga da Juventude do ANC, de naciona-
lizar a politica do governo. Uma exigin-
cia que & apoiada pela poderosa central
sindical -A Cosatu.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010





R*.De Dt Afric o


A oposigao politica esta


a mudar na Africa do Sul,


devagar mas seguramente


Charles Visser


C om o advento da democra-
cia na Africa do Sul, em1994,
reinou a euforia. A "Nagio
Arco-iris" do Premio Nobel
da Paz, Desmond Tutu, parecia estar
firme nesse caminho mas depressa o
"arco-iris" tornou-se monocromitico per-
turbando a politica de oposigio no pais
desde entio.

Os obsticulos enfrentados pelos par-
tidos da oposigio na Africa do Sul sao
muitos e complexos de abordar. Desde
logo o conceito de "oposigio leal" & um
conceito novo na Africa do Sul assim
como frequentemente muito pouco
compreendido. Isto & vilido sobretudo
nas zonas rurais onde os lideres tradicio-
nais tern dominado durante centenas de
anos. Outros problemas incluem aquilo
a que podemos chamar de movimen-
to "Atracgio pela Libertagio" e uma
crenga forte nos antepassados. Estes
dois problemas caminham lado a lado
de mios dadas. A questio resume-se na
seguinte linha de pensamento: "Tenho
de votar no movimento de libertagio,
porque os meus antepassados lutaram e
morreram por ele e ficariam furiosos se
eu votasse em qualquer outro partido."


Mosiuoa Lekota, Lider do COPE.
Reporters / Jock Fistick


Depois ha um problema de percepgio
que 6nico na Africa do Sul. A oposigio
oficial, a Alianca Democrdtica ("DA" do
seu nome ingles Democratic Alliance ),
& vista como um partido que promove os
interesses "brancos". Se isto tem qualquer
fundo de verdade & discutivel e bastante
contestado, mas o facto & que existe. O
Congresso Nacional Africano ("ANC" do
seu nome ingles African National Congress)
que se encontra no poder sabe isto dema-
siado bem e nao hesita em tirar total
proveito disso.

Isto acontecia particularmente no governo
do anterior presidente, Thabo Mbeki, que
manchou o legado de Nelson Mandela
tornando a questio racial o centro de toda
a sua politica. Assim tornou-se ficil para
ele rotular todas as criticas ao seu governo
de "racistas", e dessa forma, nio mere-
cedoras de debate. E quando as criticas
chegavam da parte dos negros os criticos
eram derrogatoriamente apelidados de
"cocos" significando pessoas negras por
fora mas brancas por dentro.

O aparecimento do COPE

Permanece agora a questio: Estes obs-
ticulos sao realmente intransponiveis?
Os partidos da oposigio sul-africanos
parecem nio pensar assim. A DA esta
especialmente optimista, acreditando que


os politicos da Africa do Sul estio a
libertar-se do "casaco apertado de raga
e etnicidade" nas palavras do membro
do parlamento da DA, James Lorimer.
Surpreendentemente, Lorimer congratu-
la-se com o aparecimento do Congresso
do Povo ("COPE" do seu nome ingles
Congress of the People ), um partido
resultante do ANC, que vi como o ini-
cio de uma grande alteragyo na politica
de oposigio na Africa do Sul. Afirma
que o COPE, apesar das suas lacunas
organizacionais, abriu o primeiro debate
nio-racial sobre a oposigio no pais e isso
beneficiou enormemente o partido.

Subitamente parecia certo alguem votar
noutro partido diferente do ANC. Nas
eleiy6es de 2009, a DA conseguiu um
ganho liquido de 20 lugares contra uma
perda liquida de 33 lugares para o ANC.
Nio obstante a maioria permanece fir-
memente a favor do ANC. Ocupam 264
lugares no Parlamento contra 67 da DA,
30 do COPEe 18 do Partido da Liberdade
Inkatha ("IFP" do ingles Inkatha Freedom
Party).

Os restantes 27 lugares estio divididos
entre os partidos mais pequenos como
os Democratas Independentes ("ID" do
ingles Independent Democrats) com quatro
lugares e a Frente da Liberdade + ("FF+"
do ingles Freedom Front +) com quatro
lugares tambbm. O problema que estes
partidos enfrentam r novamente contra a
percepgio, no caso deles mais exacta, que
servem os interesses de grupos pequenos
ou ntnicos. Assim o ID & visto como um
partido sobretudo "colorido" (raga mista)
do Western Cape, o IFP como um partido
&tnico Zulo e o FF+ como um partido ao
servigo das necessidades dos afrikaners
conservadores. O sentimento geral & que
esses partidos irio possivelmente desapa-
recer gradualmente a medida que a demo-
cracia se consolida na Africa do Sul.


Lider da Alianga Democratica, Helen Zille.
AP Foto/Denis Farrell


Correio





Africa do S #~ul R w'r


Terra de


esperanga






Sao centenas de milhares a
pedirem todos os anos asilo na
Patria de Mandela. Fugindo dos
paises vizinhos, em guerra ou em
degeneracao, chocam-se por vezes
com os seus homologos sul-africanos
dos subOrbios. Situacao as vezes
explosiva.


Marie-Martine Buckens


A situaao em perspectiva. t6ria da Africa do Sul sempre
foi definida pelas migrag6es,
regionais ou mundiais,>, salien-
ta de imediato Tara Polzer, coordenado-
ra do programa de estudo das migrag6es
da Universidade do Witwatersrand em
Joanesburgo. E prossegue: "Muitas pes-
soas, em especial os brancos, tim a ideia
de que esta migragio & nova e data de
1994, o que & falso. Ela & simplesmente
diferente. Nio representa necessaria-
mente um afluxo macigo de populagio
em volume, mas sim em 'qualidade"'. E
os novos migrantes representam apenas
uma pequena percentagem da popula-
cao: 1,2 a 1,6 milh6es numa populacao
de perto de 47 milh6es. os reformados alemies>.

No final do apartheid, a Africa do Sul
atraiu muita gente, por raz6es politicas
e nao unicamente econ6micas. "Estes
movimentos da populagio, prossegue
Tara Polzer, nio eram tio controlados
como antes, quando as pessoas eram
recrutadas para trabalhar nas minas e
depois reenviadas para o seu pais no
final do contrato, pelo menos teorica-
mente". Alem disso, "a Africa do Sul
tem uma politica verdadeiramente libe-
ral em mat&ria de direito de asilo, que
se encontra em muito poucos outros


paises do mundo". Assim, um refugia-
do, enquanto espera que decidam a sua
sorte, tem acesso durante dois anos a
todos os servigos p6blicos e ao direito
ao trabalho. Ainda que na realidade as
coisas nio sejam tio ficeis. Depois dos
tumultos que ocorreram nos subtrbios
em 2008, o governo adoptou medidas;
"o governo ficou muito embaragado
cor a violencia que rebentou; o gran-


de problema & que faltam capacidades
t&cnicas e pianos a longo prazo para
Ihe fazer face". Tara Polzer adverte
igualmente para as acy6es de violencia
'espontaneas' contra novos imigrantes:
"muitas vezes essas acy6es sao instiga-
das por grupos especificos que mobi-
lizam a populagio para defender os
seus pr6prios interesses, comerciais ou
politicos".


0 bispo que incomoda


"Posso dizer-vos o que se passa no
Zimbabue sem ler uma linha do jornal",
explica-nos de entrada o Bispo Paul
Verryn, responsavel da Igreja Meto-
dista de Joanesburgo, acrescentando:
"que se pode passar nesse pais se uma
crianga de oito anos, sozinha, aqui che-
ga"? Uma igreja que se assumiu como
um verdadeiro campo de refugiados,
onde afluem, desde ha cinco anos,
centenas de clandestinos. No essencial
zimbabuenses, mas tambem refugiados
do Malavi ou da RDC. Actualmente sao
mais de 2 000 a ocuparem, em condi-


9oes precarias, o local de culto. Em Ja-
neiro Oltimo a policia entrou nas instala-
9oes. Pouco tempo depois, o bispo foi
suspenso pelas autoridades religiosas.
< mobilizar as pessoas e o governo, que
decidiu adoptar medidas>>. A igreja tem
uma escola e um centro de informatica,
mas Paul Verryn considera que "este
local de culto nao foi feito para receber
2 000 pessoas". E acrescenta: "existem
actualmente mais de 700 im6veis aban-
donados em Joanesburgo..."


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010










Futuros campebes de

futebol treinam-se em

Alexandra



Alexandra, o suburbio mais povoado
e turbulento e por vezes violento,
basta lembrar os tumultos de 2008
- de Joanesburgo. Duas tardes por
semana cerca de 250 criancas
vem treinar no campo de futebol
da 13.a Avenida. E os treinadores?
Jovens voluntarios recrutados nas
escolas vizinhas. Gracas a bola de
futebol estas criancas aprendem a
ser resistentes e disciplinadas, a ter
regras de higiene e... sao felizes por
jogarem juntos.


Marie-Martine Buckens




tos jovens dos subtrbios e o
sonho de um futuro melhor.
E a algumas semanas do
Campeonato do Mundo, a motiva-
yao aumentou extraordinariamente.
"Utilizamos o Campeonato do Mundo
para dar destaque ao nosso projecto
'Desporto para o desenvolvimento'",
explica Sibu Sibaca, directora do agen-
cia sul-africana da ONG 'Play Soccer'
["Jogar Futebol"]. Em Alexandra
('Alex', como lhe chama a populagio de
Joanesburgo), o programa foi langado
em Agosto 61timo. A ideia principal
e completar a educaogo, no sentido
global, dos jovens dos bairros desfavo-
recidos, muitas vezes entregues a si pr6-
prios, gragas ao seu amor pelo futebol>,
explica por seu lado Gerald Guskowski,
da Cooperaogo Tecnica Alemr (GTZ),
que gere conjuntamente o programa,
com o apoio da Uniio Europeia.


Quinta-feira, fim de tarde. As criangas
-entre 4 e 15 anos, raparigas e rapazes
-treinam-se por grupos de uma dezena
sob o olhar complacente dos seus treina-
dores. Os exercicios sao entrecortados
de sess6es de informarao. "Sao quest6es
relacionadas com a Sida, a malaria e
outras doengas, corn a imunizagio, agua
limpa e higiene, e tambem se Ihes explica
que um corpo forte permite ser melhor
atleta", explica Sibu Sibaca. Depois do
Campeonato do Mundo, em Outubro,
as equipas participario em torneios. E
alguns deles terio talvez oportunidade
de serem notados por um seleccionador
de uma equipa profissional ...

Aprender algo sobre os outros

"Quando se trata de trabalho comunita-
rio e de projectos de futebol, toda a gene
vai a Soweto. Alex foi posta de lado. E
por isso que viemos para aqui. E uma
comunidade muito populosa, dinamica
e que nos coloca um desafio", acrescen-
ta a jovem directora da 'Play Soccer'.
A GTZ, por seu lado, sempre atraves
do seu programa 'Desenvolvimento da
Juventude gragas ao Futebol', apoia um
programa de duas outras comunidades
no campo de refugiados de Klerksoord,
perto de Pret6ria, onde se encontram
maioritariamente zimbabuenses, viti-
mas em 2008 de ataques xen6fobos. Da
ementa de actividades fazem parte fute-
bol, rugby e voleibol, mas igualmente


cursos que permitem as criangas abrir-
se a outras culturas e paises de Africa.



Vuvuzela e seguranga
Numa altura em que o Presidente Ja-
cob Zuma apelou a toda a populag o
para apoiar a equipa sul-africana Ba-
fana-Bafana, os preparativos para o
Campeonato do Mundo seguem a
bom ritmo no pais. Paralelamente
a produgco em grande escala de
'vuvuzelas' ('fazer brulho' em zulu),
cornetas que acompanham os adep-
tos, o governo acelera as obras para
terminar estadios, estradas e outras
infra-estruturas destinadas a acolher
o Campeonato. Outro imperativo: a
seguranga, num pais onde a crimi-
nalidade bate recordes, e a luta con-
tra o trafico de seres humanos. A UE
apoia activamente (108,8 milh6es de
euros para o periodo 2007/2013) as
medidas adoptadas pelo governo,
nomeadamente a moderniza9ao da
policia e o aperfeigoamento da jus-
tiga penal.


> S


Ingles da Africa do Sul e calAo geral


Existem 11 linguas oficiais na Africa do
Sul, sendo o ingles a lingua franca.

Ao longo dos seculos, estas linguas
influenciaram-se umas as outras e
algumas palavras tornaram-se comuns
na maior parte delas. A seguir encontra-
se um pequeno glossario com algumas
destas palavras que podem ser ouvidas
por um visitante a Africa do Sul... corn
enfase nos termos culinirios.

Para ver o glossario completo compilado
por Mary Alexander visite o sitio:
http://www.mediaclubsouthafrica.


co.za/index.php?option=com_
content&view=article&id= 423
http://www.mediaclubsouthafrica.
co.za/index.php?option=com_
content&view=article&id= 423

babbelas (bub-buh-luss) -substantivo,
informal Ressaca.
biltong (bill-tong) -substantive -Carne
curada e seca.
boerewors (boor-uh-vors) -substantivo
-salsicha picante desenvolvida pelos
b6eres, os antepassados dos actuais
Afrikaners. Tambem conhecida por
(salsicha).
braai (br-eye) -substantive -Churrasco


ao ar livre e uma determinada
instituigio sul-africana.
bunny chow -substantive -Caril
servido num pedago de pio sem miolo.

chiskop, chizkop, substantivo, informal
-pessoa careca, em especial corn a
cabega rapada.

dagga (dach-ah) -substantivo, informal
-Marijuana.
droewors (droo-uh-vors) -substantive
-Salsicha picante seca, semelhante a
carne curada e seca.

Eish (aysh) -interjeiVao e adjectivo,
informal Ai! ou Oh!


C*rreio





Africa doSul RepD wrge'


Os "Diamantes Negros"



Fala-se de "Soweto" e a maior parte das pessoas pensa imediatamente numa
extensao sem fim de barracas improvisadas construidas durante o apartheid. As
pessoas que ja la estiveram pensariam talvez nas mans6es que se destacam de
forma contrastante, aqui e ali, entre as barracas. Outros poderio pensar na vida
vibrante das ruas e nas famosas, talvez infames, festas da rua Soweto e nas
cervejarias animadas chamadas "shebeens" mas muito poucos pensariam em
vinho e em vinicultores.


Charles Visser



Nao obstante, uma das indtis-
trias mais fortes, historica-
mente dominada pelos bran-
cos, esti, de forma lenta mas
seguramente, a provocar uma transforma-
yao e o vinho esta a ganhar importancia
em Soweto. Prova disso e o crescimento
fenomenal do Festival de Vinho de Soweto
que deve acolher a sua 6.0 ediygo anual em
Setembro deste ano. (Sim, continuara a
existir vida na Africa do Sul depois do
Campeonato Mundial de Futebol!)

Entao, quem sao as pessoas que estao
por tris deste movimento ligado ao
vinho num mercado de bebidas domi-
nado pela cerveja? A resposta curta seria
os chamados "Diamantes Negros"...
principalmente como consumidores de
vinho. Sao a classe emergente de empre-
endedores e empresirios negros que
estao a tirar o maior partido possivel
das suas oportunidades p6s-apartheid.
Sao sobretudo, mas nao exclusivamen-
te, jovens, confiantes e activos... e vao
apenas numa direcogo: o topo!

Joe Chakela (55) e cinco outros proprie-
tirios de garrafeiras (estabelecimentos
licenciados de bebidas alco6licas licen-
ciadas como sao chamadas localmente)
envolveram-se na ind6stria do vinho
logo ap6s as primeiras eleiy6es demo-
criticas na Africa do Sul em 1994. No
verdadeiro sentido da palavra, Joe e
os seus amigos sao demasiado velhos
para serem chamados de "Diamantes


Negros"; eles merecem uma mengyo
porque se consideram a si mesmos como
uma das principais forgas motrizes que
trouxeram a cultura do vinho para os
bairros (termo original "township" que
na Africa do Sul se refere aos antigos
"guetos" criados neste pais durante o
apartheid) de Africa do Sul, sobretudo
para Soweto. O seu piano inicial era
langar um brandy novo nos bairros. Joe
parou de beber cerveja passando para o
vinho... e hoje ele e seus colegas sao os
orgulhosos proprietirios de 55 por cento
da herdade de vinhos Tukulu situada na
famosa regiao vinicola de Stellenbosch.
O accionista minoritario da Tukulu e a
famosa fabricante de vinhos sul-africa-
na Distell, sendo a parceria considerada
como um exemplo de transformagio
bem-sucedida na ind6stria do vinho.

Um exemplo perfeito

Ntsiki Bayela, colaboradora da Stellekaya,
propriedade pr6xima de Stellenbosch e
um exemplo perfeito dos "Diamantes
Negros"... E, a avaliar pelo n6mero de
premios obtidos pelos vinhos produzidos
pela Stellekaya desde que se juntou a ela,
ha seis anos, e uma produtora notivel!

O caminho percorrido por Ntsiki para
se tornar uma vinicultora de topo nao
foi ficil. Cresceu como 6rfA na zona
rural de KwaZulu-Natal e foi criada
pela sua av6 ja idosa. Mas como e
que uma mulher negra de uma zona
rural se transforma numa vinicultora,
numa ind6stria dominada pelos homens
brancos? A resposta simples e traba-
lho irduo na escola, o que lhe valeu


NtSIKI bayela na sua proprleaace 5tellaKaya,
em Stellenbosch. Stellakaya


uma bolsa de estudos da companhia
area sul-africana. A bolsa destinava-se
especificamente a incentivar jovens da
raga negra a participarem na produgyo
de vinho como parte do processo de
selecogo de vinhos da companhia area.
Ntsiki diz que assim que entrou para
a Universidade de Stellenbosch soube
logo que tinha encontrado a sua verda-
deira vocaygo na vida. E isso apesar de
ser a inica pessoa de raga negra na sua
turma e uma das poucas mulheres.

O vinho preferido de Ntsiki de momento
So Orion Stellekaya, uma mistura do
estilo Bordeaux de Cabernet Sauvignon,
Merlot e Cabernet Franc. Foi-lhe atri-
buido nada menos do que quatro estre-
las e meia de um miximo de cinco, pelo
principal critico de vinhos sul-africano,
John Platter.


> > > a


frikkadel (frik-kuh-dell) -substantiv -
Almondega.

jol (jawl ou jorl) -substantivo, verbo
e adjectivo, informal Celebraogo,
divertimento, festa (substantivo);
celebrar, divertir-se, festejar, dangar e
beber (verbo).

kwaito (kw-eye-toe) substantiv -
M6sica da juventude urbana negra da
Africa do Sul, que emergiu inicialmente
nos anos 90.
kwela (kw-eh-la) -substantiv -
Variaogo popular da mtisica dos bairros
dos anos 50, baseada na flauta irlandesa
um instrumento barato e simples
adoptado pelos artistas de rua.


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010


laduma! (la-doo-mah) -exclamacao
Aclamagio popular ao celebrar os golos
marcados num jogo de futebol.
lekker (lek-irr) -adjective e adverbio,
informal Bonito, bom, 6ptimo, porreiro
ou saboroso.

makarapa (mak-ah-rah-pah)
- substantive -Um chapeu bem
confeccionado e decorado usado
habitualmente pelos fas do futebol na
Africa do Sul.

pap (pup) -substantive -Papas feitas a
partir de farinha de milho cozinhadas
em agua e sal.

robot -substantiv Semiforos.


samoosa (suh-moo-suh) -substantive
-Pequena empada picante, em forma
triangular frita em 6leo. Criada
originalmente pelas comunidades da
India e da Malisia.
slap chips (slup chips) -substantive
-Batatas fritas, normalmente macias,
oleosas e envinagradas.


tokoloshe -substantive -Dem6nio ou
espirito maligno, que se pensa ser mais
activo durante a noite.
tsotsi -substantivo -Gangster ou rufia.

zol substantivo, informal Cigarro de
enrolar ou charro de marijuana.





*.eDD Afric o


Uma incubadora de ourives


Marie-Martine Buckens


V 7irios projects sao lanyados na
Africa do Sul para libertar as
comunidades rurais -dema-
siadas -que se encontram pre-
sas na espiral da pobreza. O lema: dar-
lhes as ferramentas necessirias tendo em
vista a valorizagio das suas potencialida-
des. E o mercado local, regional e mesmo
internacional, responde.

Sob virios aspectos, a Africa do Sul
continua a ser um pais produtor de
materias-primas. Comercializar produ-
tos mais rentiveis continua a ser, muitas
vezes, um desafio dado serem muitos os
obsticulos: politicas fiscais e industriais
inadequadas e falta de mio-de-obra qua-
lificada. E o que se passa, nomeadamente
no caso do sector da ourivesaria.

"Qualquer sistema implementado nao
favorece o mercado local", explica-nos
Demos Takoulas, que se encontra a fren-
te da SEDA Limpopo Jewellery Incubator
(SLJI), uma incubadora de joalhei-
ros, instalada desde Julho de 2009, em
Polokwane, a capital do Limpopo, pro-
vincia setentrional da Africa do Sul.


"E o caso", prossegue Demos Takoulas,
"do diamante cuja parte mais importante
vai para o estrangeiro; neste caso, a De
Beers (produtor de diamantes, NDLR)
e o governo trabalham em conjunto".
E acrescenta: "A Africa do Sul e um
dos principais produtores mundiais de
metais preciosos e o mais importante em
platina, especialmente nesta provincia.
E tambem o quinto maior produtor de
diamantes. No entanto a ind6stria de
joalharia representa apenas 2% do mer-
cado mundial da ourivesaria. O que nos
falta essencialmente e o saber-fazer e um
ambiente adequado." Apesar de tudo. A
SEDA, departamento do Ministerio do
Comercio para as Pequenas e Medias
Empresas, decidiu financiar "incuba-
doras" naquelas que na Africa do Sul
designamos por ind6strias historicamen-
te desfavorecidas. No caso da joalha-
ria, a SEDA baseou-se num estudo do
Conselho sul-africano de joalharia esti-
mando que a ind6stria precisava de 3804
ourives nos pr6ximos cinco anos. Ao lado
da SEDA, a UE & o principal doador (7
milh6es de euros).

O principio da SLJI: oferecer aos ouri-
ves aprendizes so actualmente 30,
incluindo cinco surdos os conheci-
mentos tecnicos, comerciais, adminis-


trativos e informiticos que Ihes permi-
tam criar pequenas empresas. "Muitos
nao possuem qualquer formagio em
informitica e e necessirio tambem ensi-
ni-los a gerir os riscos comerciais, ate
mesmo a fazer uma factura, contactar os
clientes", explica Demos Katoulas. Em
contrapartida, muitos -especialmente
os surdos -tem talentos garantidos na
area da ourivesaria. Resultado: num
intervalo de poucos meses apenas, a
empresa deste sul-africano de origem
grega regista resultados financeiros mais
que respeitiveis.

E afirma que desde que esta a frente
desta empresa e "cada vez mais feliz.
E a lembranga da minha mie que sor-
ria para todos que me ensinou a olhar
apenas para o essencial". Desde a sua
fundagio, a empresa possibilitou o lan-
gamento de alguns joalheiros. "Partindo
de um salirio de 2000 rands (cerca de
200 euros) por mes, a nossa actividade
no seio da incubadora SLJI permitiu-
nos registar um volume de neg6cios
de 100.000 rands em Dezembro de
2009, incluindo 70.000 rands de lucro",
explicam-nos Vukani Sibanda e Tebogo
Tau Lee.


Correio





Africa do Sul 0 Reportag


VIH/Sida:


uma cooperagao


responsavel


A saude em particular, a luta
contra o VIH/Sida representa uma
das grandes prioridades do governo
sul-africano, ao lado da educagao,
do emprego e da luta contra a
pobreza. A luta contra a epidemia da
Sida passa nomeadamente por um
melhor conhecimento dos grupos
mais atingidos e pela sua integragao
nos projectos de desenvolvimento.
Dois aspectos que mereceram a
contribuigao da UE.


Marie-Martine Buckens


AAfrica Austral e, em particular
a Africa do Sul regista uma
das mais elevadas taxas de pre-
alencia do mundo do virus
da imunodeficiencia humana (VIH),
afectando especialmente as mulheres
de grupos socioecon6micos desfavore-
cidos, sobretudo africanas. "Estima-
se, nomeadamente, que cerca de 50%
das mulheres grividas sao portadoras
do VIH", explica-nos Jean-Frangois
Aguilera, responsivel pela Task Force
HIV, criada em 2008 pela Comissio
Europeia. Jean-Frangois Aguilera pros-
segue, dizendo: "A Task Force, esta sede-
ada em Johannesburg nas instalag6es
do centro regional da ONUSIDA; o
nosso trabalho devera estar concluido
no final deste ano." O seu objectivo:
oferecer as delegac6es europeias dos dez
paises da Africa Austral (alem da Africa
do Sul, Lesoto, Suazilandia, Namibia,
Botsuana, Zimbabue, Zambia, Malavi,
Mogambique e Angola) conselhos para
prevenir a extensio da epidemia nos pro-
jectos de desenvolvimento financiados
pela Uniio Europeia. Os conhecimentos
medicos da Task Force -Jean-Francois
Aguilera e medico com uma licencia-
tura em Saude p6blica -suprem a falta
de conhecimentos encontrada em certas
delegag6es em materia de saide. 0 res-
ponsivel prossegue, dizendo: "Essas, por
seu turno, podem aconselhar os governos
dos paises onde se encontram."

Um guia de "boas praticas"
Sao tambem realizados estudos desti-
nados a avaliar os recursos humanos
em materia de saude o caso da
Suazilandia e da Africa do Sul -assim
como a implementagio de politicas de
saide nos locais de trabalho. "Na maio-
ria dos casos, os recursos humanos sao
claramente insuficientes", explica o res-
ponsivel da Task Force.


Desenhei o virus no meu retrato- e o pequeno ponto azul. Os circulos vermelhos sao os anti-retrovirais a comer o
virus. 0 branco e o meu sangue. Vejam o que escrevi sob a minha mao direita: Aceita o teu Virus HIV, fica em paz com
ele, mantem uma mente limpa para o combateres". Nondumiso Hlwele- Colecgio de Arte do Tribunal Constitucional,
em Joanesburgo. a Marie-Martine Buckens


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010











Mas uma das prioridades consiste no
desenvolvimento de um guia de "boas
priticas" no terreno. "Tomemos como
exemplo o caso do Malavi", explica Jean-
Frangois Aguilera, "onde a UE financia
projectos de construcgo de estradas. A
mobilidade dos trabalhadores envolvi-
dos nessas construg6es representa um
factor de risco de disseminagco do VIH.
Assim um condutor de mrquinas tera
relag6es sexuais, frequentemente corn
prostitutas, no seu local de trabalho,
afastado da sua familia. Se pelo contri-
rio dermos formagao as mulheres para
substituirem esses homens, estaremos a
diminuir esse risco. Sao tomadas outras
medidas como a realizacgo de campa-
nhas de prevengco junto da populagco
local; se houver prostitutas, acompanhar
o seu estado de saude, eventualmente
trati-las, distribuir preservativos".

O mesmo acontece nos projectos de
desenvolvimento rural. "As mulheres,
em particular as trabalhadoras rurais,
frequentemente vitimas de violag6es,


sao as maiores vitimas do VIH. Esta
vulnerabilidade particular das mulheres
deve ser necessariamente tida em conta;
no caso dos projectos agricolas isso pode
ser feito providenciando-se, nomeada-
mente, locais separados e latrinas que
nao estejam a 500 metros na floresta.
Um outro exemplo, o dos condutores de
veiculos pesados. Em vez de se atribuir a
uma pessoa s6 um trajecto grande como
Joanesburgo- Cidade do Cabo, podemos
imaginar que concluida a metade do tra-
jecto, o condutor assuma a direcGo de
outro camir o fazendo o caminho em
sentido inverse, permitindo-lhe assim
regressar a casa e evitando dessa forma
o recurso a uma especie de 'segundo lar'
onde a mulher tem outros clientes."

Este guia foi igualmente adaptado para
os projectos desenvolvidos directamente
pelos governos, nos quais a ajuda assu-
me essencialmente a forma de um apoio
ornamental, sendo esse o caso da Africa
do Sul. "Temos indicadores que condi-
cionam este apoio ornamental, poden-


do acrescentar, que estio directamente
associados a tomada em considerago da
problemitica do VIH."

Para o responsivel da Task Force esse
trabalho e indispensivel sobre o piano
etico: "Estou convencido que este traba-
lho e fundamental e que nao e assim tao
caro; e esquecer, alem disso, que colocar
de lado este aspecto pode revelar-se con-
traproducente. Convem nao esquecer
que morrem todos os dias 1000 pessoas,
vitimas da Sida na Africa Austral." Jean-
Frangois Aguilera reconhece que sao
tomadas medidas nos paises afectados,
mas essas estao longe de atingir o nivel
necessirio. "Elaboramos nomeadamen-
te um documento que deveria permitir
a Comissao Europeia demonstrar que
os fundos atribuidos ao Fundo Mundial
de Luta contra a Sida em materia de
prevenogo sao insuficientes."


Universitarios relativamente protegidos


Os jovens, a seguir as mulheres, sao o
grupo mais afectado pelo VIH na Africa
do Sul. Um programa, langado pelo De-
partamento do Ensino Superior do Mi-
nisterio da Educacqo sul-africano com
o apoio financeiro da Uniao Europeia,
tem-se concentrado em definir as acq6es
a implementar nos campus de 23 univer-
sidades do pais. Primeira surpresa: a pre-
valencia do VIH e ai claramente inferior
comparativamente com o resto do pais.

"Ainda que a distribuig5o do VIH siga o
esquema nacional em termos de raga
(a populacgo negra e a mais atingida),
sexo (atinge sobretudo as mulheres),
idade (os jovens sao os mais afectados)
e o grupo de educagao (os que possuem
menos formanao), o resultado distancia-
se em termos de percentagem", explica-
nos o Dr. Gail Andrews, da Universidade
de Pretoria (UNIDA) e a frente do grupo
que coordenou o programa. Claramente,
a percentagem de estudantes universi-
tarios que se submeteram aos testes -
portadores do VIH e de 3,4% contra 6,5%,
ou 10,2% segundo os estudos realizados
na populacgo global com a mesma faixa
etaria (dos 18 aos 24 anos). Uma percen-
tagem global que esconde disparidades
enormes entre as diferentes categorias
raciais existentes na Africa do Sul: 5,6%
para os africanos (raga negra), 0,3% para


os estudantes de raga branca, 0,8% para
os mestigos e 0,3% para os Indianos.

Os resultados revelam, tambem, que
quanto mais baixo for o nivel de habilita-
96es literarias no seio das universidades,
maior e a prevalencia do VIH. Assim, os
professores registam uma prevalencia
mais baixa que os estudantes (1,5 %), en-
quanto que o pessoal administrativo re-
gista uma prevalencia de 4,4% (superior
aos estudantes) e a taxa relativa ao pes-
soal afecto aos servigos basicos ascende
a 12,2%. "Este estudo", sublinha Gail
Andrews, "diz-nos que devemos trabal-
har sobretudo com esses trabalhadores,
que provdm, alem disso, de meios desfa-
vorecidos". O mesmo devera ser feito no
caso dos estudantes africanos, os quais,
muitas vezes, sao tambem oriundos de
familias relativamente pobres.

Alem deste recenseamento "que nem
sempre foi facil, uma vez que os estudan-
tes tinham medo de ser estigmatizados"
- o programa recomendou igualmente
aos docentes que incluissem nas suas
aulas elementos de prevencgo. "A nossa
ateng5o centrou-se sobretudo nas facul-
dades de educacao, mas tambem nas
de cidncias da saude e nas faculdades
de economia e de comercio", acrescenta
Gal Andrews, que prossegue, dizendo:


"Procuramos tornar os estudantes por-
tadores do VIH 'embaixadores' junto dos
seus congeneres." O relat6rio, que foi
oficialmente enviado para o governo em
Abril, recomenda a este ultimo reforgar os
centros de saude existentes nos campus:
"muitos estudantes queixam-se de serem
obrigados a deslocarem-se ate aos cen-
tros governamentais, o que representa
uma grande perda de tempo", e de colo-
car a sua disposicgo uma grande quan-
tidade de medicamentos antiretrovirais.
Outras quest6es continuam por resolver,
nomeadamente a decisao do governo
de provavelmente aumentar o limiar do
numero de VIH presente no sangue dos
doentes susceptiveis de beneficiardestes
medicamentos em virtude do seu custo.

"O financiamento europeu permitiu-nos,
nomeadamente, assegurar toda a parte
educativa do programa. Ela vai poder per-
petuar-se, mesmo depois do programa
que termina no final deste ano porque o
pessoal recebeu formanao e podera, por
sua vez, dar formanao aos estudantes",
precisa a coordenadora. "Alem disso",
acrescenta, "faremos novos inqueritos
daqui a dois anos a fim de avaliarmos a
evolug5o das taxas de prevalencia nos
campus, o que nos permitira estudar o
impacto destas novas medidas".


C*rreio





Africa do Sul ReporDge


Reabilitar as



zonas rurais


Muyexe, aldeia afastada e pobre,
situada na orla do parque Kruger, foi
a primeira aldeia-piloto do Programa
de Desenvolvimento Rural, lancado
em Agosto de 2009 pelo Presidente
Jacob Zuma.


IViuya l. -AavIer rIoucnauu


Marie-Martine Buckens


problemas que enfrentam os
agricultores das zonas rurais
da Africa do Sul. Situada na
orla do parque Kruger (do tamanho
da B&lgica), esta aldeia & regularmente
invadida por elefantes ou b6falos que
destrogam as cercas que separam o par-
que do resto do pais. O gado mantem-se
distancia do parque, pastando exces-
sivamente as terras mais pr6ximas da
aldeia. A igua & escassa uma regiio
muito distante das vertentes f&rteis do
Sul desta provincia do Limpopo, onde
sao plantados em grande escala bana-
neiros, mangueiras ou pinheiros desti-
nados is ind6strias do papel. As casas
sao raramente equipadas com instala-
c5es sanitarias elementares. Por 61timo,
o acesso a terra continua a ser um pro-
blema espinhoso num pais cuja reforma
agriria foi um autentico malogro.

Langado, o programa de desenvolvi-
mento debrugou-se imediatamente
sobre as quest6es mais urgentes: cons-
trugco de uma segunda cerca de veda-
gio do parque e de uma terceira para
criar uma zona de seguranga entre o
gado afectado pela febre aftosa, a vaci-
nar, e o gado sao, e proteger as novas
hortas. Foram construidas mais de 150
casas em quatro meses e 100 instalag6es
sanitirias. Foram instalados tanques
junto is casas para recolher a agua das
chuvas, e sistemas de reciclagem da
agua, e foram celebrados acordos com
as grandes superficies para distribuigio
de sementes e, ulteriormente, distribui-
rem o cafe, melancias e outros produtos
dos pomares e hortas municipais. Por
61timo, procedeu-se a distribuigio de
terras com a colaboragio dos chefes das
aldeias. O programa & gerido essencial-
mente pelo departamento agricola da
provincia e o orgamento & alimentado,


tanto pelo governo nacional como pela
provincia e municipio. "Quanto is nos-
sas relag6es cor o parque Kruger, ten-
cionamos criar um grupo de discussion
para tentarmos encontrar uma solugco
institucional. A questio continua pen-
dente", explica um funcionirio encarre-
gado do departamento rural.



0 quebra-cabegas da
redistribuipgo das terras
Em 1994, logo a seguir ao fim do Apar-
theid, o governo tinha fixado como ob-
jectivo redistribuir, ate 2014, 30% (ou
seja 82 milh6es de hectares) de terras
agricolas, das quais 90% tinham sido
atribuidas aos agricultores brancos
em 1913. Era um objectivo irrealizavel,
como o exprimiu, em 2 de Margo de
passado, Gugile Nkwinti, Ministro do
Desenvolvimento Rural e da Reforma
Agraria. Hoje em dia, s6 foram redis-
tribuidas 5% das explorab9es agri-
colas. Sao mrltiplas as raz6es desta
dificuldade: custo do resgate das ter-
ras, mas tambem e sobretudo a falta
de experidncia dos agricultores ne-
gros, habituados que estao a praticar
agriculturas de sobrevivencia. Assim,
a maioria das explorab9es agricolas
dos vales ferteis do Limpopo redun-
dou num autdntico desastre, por falta
de assistdncia tecnica e financeira.
Escarmentado com a experiencia do
Zimbabue, o governo sul-africano de-
cidiu reorientar a sua politica, dando
prioridade as infra-estruturas existen-
tes (modernizagao, mecanizagao e
formagao).


Vedagao entre o Parque Kruger e a aldeia Muyexe. xavier Rouchaud


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010


"'~
c





*eDD Afric d


As negociaq6es climaticas



deslocam-se para o Sul


Ao propor Marthinus Van Schalkwyk,
Ministro do Turismo, como Alto
Responsavel das Na6ges Unidas
para o clima, a Africa do Sul entende
desempenhar o papel de lider dos
paises emergentes nas negociagoes
em curso sobre o ap6s-Quioto.



Marie-Martine Buckens




0 Correio para impressao,
Jacob Zuma anunciava ofi-
cialmente a candidatura do
seu Ministro do Turismo para o posto
de Secretirio Executivo da Convengco
sobre o Clima, vago desde a demis-
sao do neerlandes Yvo de Boer, em
Fevereiro. Famoso pelo seu talento de
negociador na Convengco quando ainda
era Ministro do Ambiente, Marthinus
Van Schalkwyk & o preferido de algumas
grandes ONG ecologistas, e de alguns
paises desenvolvidos e em desenvolvi-
mento. Pret6ria, como os seus parcei-
ros do grupo dos paises emergentes
reunidos no "Basic" (Brasil, Africa do
Sul, India e China), assinou o acordo
controverso de Copenhaga que preve
uma limitagyo dos gases com efeito de
estufa no horizonte de 2020. Este acor-
do, nao vinculativo, permite aos paises
emergentes influenciar as negociac6es
tendentes a substituir o protocolo de
Quioto (reservado aos paises industria-
lizados) que expira em 2012. Ora, a
Cimeira da Convengco de 2011, que
devera tomar uma decisao para o ap6s-
Quioto, sera realizada na Africa do Sul.

A Africa do Sul & menos temida pelos
seus parceiros do Norte do que os
dois paises energivoros, a India e a
China. Sobretudo hoje, por ser obriga-
da a recorrer ao exterior para superar
o seu sub-investimento cr6nico no seu
parque energ&tico. A oposigyo marcada
pelos Estados Unidos e o Reino Unido
a um emprestimo de 3,75 mil milh6es
de d6lares (2,75 mil milh6es de euros),
ou seja um d6cimo dos investimentos
previstos, mostra bem os interesses que
estao em jogo. As ONG ambientais
anglo-saxas denunciam um empr&stimo
que seria atribuido a novas centrais
poluentes a carvao, que & o recurso
principal do pais para produgyo da sua
electricidade. Outros veem nessa recusa


llsusidus uu OuLU.. xavier Houcnaua


uma luta entre construtores americanos
e franceses interessados em aumentar o
parque nuclear, que & o inico no conti-
nente africano. Alem disso, as empresas


Alguns numeros
Africa do Sul


Superficie: 1,2 milh6es de km2
Populagao: 48,7 milhoes
Capitals: Pret6ria (administrativa),
Bloemfontein (judiciaria), Cabo (legislativa)
Crescimentodemografico: + 1,15%
PIB (MUSD): 277,1 (2008)
Taxa de crescimento real: 3,1% (2008)
Inflag o: 11,5% (2008)
Exportaq es de bens (MdsUSD): 80,20
(metais preciosos 23%, ferro e ago 13%)
Importagoes de bens (Mds USD): 91,05
(combustiveis, aparelhos e maquinas)

UE-Africa do Sul
Acordo sobre o Comercio, o Desen-
volvimento e a Cooperagio (ACDC)
(assinado em 1999), que prev& nomea-
damente uma zona de comercio livre en-
tre a Africa do Sul e a UE num periodo de
doze anos, abrangendo 90% do comer-


sul-africanas, aliadas aos seus parceiros
da UE, preferem as novas t&cnicas de
armazenamento de carbono e de tecno-
logias limpas.


cio bilateral. A cooperaqgo em materia
de investigag9o e desenvolvimento e ob-
jecto de um acordo distinto para a cidncia
e a tecnologia (cf. O Correio n. 14)
Documento de Estrategia por Pais
(DSP) para a cooperaqgo para o desen-
volvimento no periodo 2007-2013. O seu
principal objectivo e reduzir a pobreza
e a desigualdade, incentivando a esta-
bilidade social e a sustentabilidade am-
biental e concentrando-se na criagao
de empregos e no desenvolvimento das
capacidades em termos de prestag9o de
servigos e de coesao social. O orgamen-
to indicativo de 980 milhbes de euros e
essencialmente dotado sob a forma de
apoio ornamental.
Banco Europeu de Desenvolvimento.
No total, as actividades de emprestimos
do BEI ascendem a 1,5 mil milhbes de
Euros. Os financiamentos previstos para
o periodo 2008-2013 serao da ordem de
900 milhbes de euros.


C*rreio


































SHegel Gouter


A prop6sito de uma Mulher Poderosa


Hegel Goutier


T eria simplesmente dito, num
tom monocordico, "Ah sim,
ganhei o Goncourt?". O que
reflecte, para alem da distan-
ciagyo e da forga de caricter, uma econo-
mia de linguagem. Marie Ndiaye, filha
de pai Senegales e de mae Francesa e,
em primeiro lugar, a lingua, a precisao
de um estilo onde nenhuma palavra,
nenhuma pontuaygo e desnecessiria, ou
pode ser substituida por outra, ou por
um sin6nimo.

Nada que nao seja essencial. O ponto
nao era para o seu primeiro romance
"Quanto ao Futuro Rico", e ela nao o usa.
Um livro, uma frase, um longo suspiro.
Como um voo de albatroz envolvendo o
leitor nas suas asas ao longo de todos os
seus outros livros. Este romance, escrito
quando tinha apenas 17 anos, surpreen-
deu o mundo literirio, levando na epoca
a prestigiada revista Quinzaine Litteraire
a afirmar que ela era ja uma grande escri-
tora. Ndiaye escrevia, e certo, desde os
doze anos de idade.

A primeira estrofe dos tres cantos -as
tres hist6rias -que compoem < Tres


Mulheres Poderosas > deixam o leitor em
suspense. Quem matou a bela e jovem
amante do pai de Norah: o irmao, que
em crianga ela tanto amava, mas que se
tornou brando, insipido, quase artificial
e que e agora acusado do crime ap6s
uma relagyo incestuosa com a madrasta?
Ou o pai, calculista, que a havia retirado
a familia em Franga para a levar para
Africa e depois formatO-la, ap6s ter aban-
donado a privagyo a sua mae, Norah da
qual ele mal se lembra e a sua irma?

Este pai. "Estava li, iluminado de um
brilho frio, caido provavelmente a entra-
da da sua sumptuosa casa do ramo de
uma flamboaia plantada em todo o jar-
dim, porque, pensa Norah... este homem
irradiante e decrepito que um monstruo-
so golpe de marreta no cranio parecia ter
destruido as proporg6es harmoniosas...
E este homem que podia transformar
qualquer adjuragyo da sua parte em
beneficio pr6prio..."

Descriaio das sensaV9es

Um pouco de tensao e certamente nao a
de um thriller. E, como nenhuma outra,
a fina descriygo das sensag6es -medo,
aversao, revolta, frustraogo, vergonha,
humilhao que desperta ao de leve no
leitor e que e a arma fatal da poderosa


escritora. Tres Mulheres Poderosas, antes
de ser premio Goncourt do ano, foi um
sucesso de vendas em apenas algumas
semanas.

No segundo canto, Fanta, chegada do
Senegal, o seu pais, onde, professora de
literatura, havia sucumbido ao charme
de Rudi Descas, um Frances, torna-
se empregada domestica na Gironde,
Franga. Vinda de baixo, ai ira voltar.
"Ela nao pode, todavia, impedir que ele
se lembre e recorda-lhe num tom supli-
cante os bons anos passados, nao tio
distantes, em que um dos seus melhores
prazeres era, na penumbra do seu quar-
to, estarem sentados na cama, cotovelo
contra cotovelo, como dois amigos..."

O iltimo canto do romance faz-nos
entrar na vida de humilhagco de Khady
Demba no seu pais natal, o Senegal.
A dignidade e o reconhecimento desta
humilhagco e de si mesma, que a torna
dona desta vida desafortunada. Sobe
o pano. "Quando os pais e as irmas do
marido lhe disseram o que esperavam
dela, lhe disseram o que ela seria obri-
gada a fazer, Khady ja o sabia...". Fim.
"Sou eu, Khady Demba, pensava ela
ainda no precise momento em que o seu
cranio bateu no chao e onde, com os
olhos arregalados..."


N. 16 N.E. MARCO ABRIL DE 2010


MAHIE NHIJATE


TROIS FEM1MES

Pt ISSATES








Uf















Projecto "Khatarsis"


em Cabo Verde


Mudanca em movimento na cultura contemporAnea de Cabo Verde.
Jovens artistas empenhados em activar as coisas.




Sandra Federici


U m bom exemplo & o Projecto
"Khatirsis", uma instala-
Ogo artistica multidiscipli-
nar apresentada na Casa
da Imprensa na Praia, em Dezembro
de 2009. O projecto nasceu da vontade
de explorar os debates sobre o antigo
campo de concentraogo do Tarrafal e a
vida dos presos politicos ai encarcerados
durante o dominio colonial portugues.
O campo de concentracgo foi criado
pelo regime de Salazar perto da bela
praia do Tarrafal, na ilha de Santiago.
Foi organizada uma conferencia come-
morativa pela Fundagco Amilcar Cabral
no ano passado. O principal objectivo
desta instituigo & promover a mem6-
ria deste famoso her6i guineense-cabo-
verdiano. Recentemente, sob a direcgo
de Samira Pereira, a Fundagao este-
ve tambem envolvida na organiza~go
de actividades culturais destinadas aos
jovens, disponibilizando os meios que
permitem aos artistas Cesar Schofield
Cardoso e Joao Paradela realizar o
Projecto "Khatirsis".
Vitimas femininas
A instalaogo baseia-se num video, reali-
zado por Cesar Schofield Cardoso, que
apresenta de maneira universal e simb6-
lica as violag6es dos direitos humanos
perpetradas no campo de concentragao
do Tarrafal, mostrando uma mulher
a ser violentada, com o seu pequeno
esqueleto sem defesa envolvido no seu
vestido branco. Enquanto os homens
estavam encarcerados e eram torturados
no campo do Tarrafal, os seus filhos e
esposas em liberdade nada mais eram
do que outras vitimas do regime tota-
litario.
A vitima & representada pela artista
Soizic Larcher, que no final do video se
langa numa acogo de pintura, cuja acgao
fisica representa a "Kathirsis" (Catarse)
a 6nica soluogo para enfrentar a vio-
lencia eterna e inevitivel do homem.


Cesar Schofield Cardoso. Katharsis


Correio


Critivida





CriSEti#vid


Pronto-a-vestir


africano



Nos l1timos anos, a organizacao de um grande nimero de festivais, eventos e
concursos de moda deu maior visibilidade aos estilistas africanos. Mostrou a
necessidade de promover a ind0stria da moda africana numa escala mais vasta.


Elisabetta Degli Esposti Merli


nalidades mais influentes da
ind6stria da moda, escreveu
recentemente um artigo no The
New York Times intitulado "Paragem
seguinte: Africa"*, no qual previa que as
tendencias futuras serao inspiradas pela
moda africana.

Esta guru das passerelles afirmou: "Pode
ser que o politicamente correcto tenha
levado os estilistas a hesitarem at& agora;
pode ser que tenham tido d6vidas since-
ras sobre a reciclagem de imagens de
uma parte do mundo que foi assolada e
explorada pelo colonialismo."

Ou pode ser que o conceito de "moda
africana" tenha estado escondido por
causa de estere6tipos herdados da lite-
ratura etno-antropol6gica e do colonia-
lismo, que viam as sociedades africanas
como tendo c6digos de vestuirio asso-
ciados ao rigido funcionalismo do vestu-
irio de rituais e como sendo resistente a
pr6pria ideia de moda.

Chegou a hora da Africa

Menkes interroga-se se "nao seria mara-
vilhoso pensar que depois de tantos anos
est&reis & chegado o tempo de Africa".
E as coisas estio a mudar. O interesse
internacional na moda africana tem
vindo a aumentar, ajudado por eventos
como as Semanas da Moda da Cidade
do Cabo, de Durban e de Joanesburgo
e, desde 2005, a Semana da Moda da
Tunisia. O Festival Internacional de
Moda Africana (FIMA) tem-se reali-
zado anualmente no Niger e ganhou
fama devido a energia do seu fundador,
Seidnaly Sidhamed Alphadi.

"Africa esta na moda!" ("Africa is in
fashion!") & um concurso organizado
pela "Culturesfrance", no ambito da


FIMA. Este concurso visa aumentar o
acesso dos jovens ao mercado interna-
cional da moda. Destina-se a estilistas
independentes corn idades entre os 18
e os 35 anos e que vivam e trabalhem
na Africa Subsariana e na regiao do
oceano Indico (excepto na Reuniao) e
nos paises do Magrebe (Argelia, Egipto,
Libia, Marrocos e Tunisia). O concurso
de 2009 foi ganho pelo sul-africano
Thokozani Freedom Mbatha.

TransiAio

Este estilista disse que a sua interpreta-
yao de transigao (o tema do concurso) se
baseia na sua filosofia pessoal, "em que
o passado, o presente e o futuro cor-
rem e se misturam numa determinada
direcgio, tendo cada uma das cidades
o seu pr6prio caricter, que & antigo e
moderno. Esta combinagio da uma nova
dimensio, aumenta e alarga o horizonte
e a perspectiva de cada cultura e a nossa
pr6pria interpretagio de cultura".

Outros vencedores foram Salah Barka
da Tunisia e Charlotte Mbatsogo dos
Camar6es.

Para Salah Barka, "Africa esta realmente
na moda e em breve vai vestir o mundo
(...). As minhas criag6es transmitem o
caricter do continente que as produziu
-um continente que se transforma, tra-
balha e danga".

Charlotte Mbatsogo, 25 anos, tambem
tem pianos claros: quer reinventar os
cortes clissicos a fim de os adaptar a
diferentes &pocas e tendencias.

Das colecc6es apresentadas no concurso
ressalta que a moda africana & feita de
uma s&rie de transformag6es de identi-
dades, de trocas, de negociag6es e rene-
gociag6es. E esta pronta para inspirar
novas tendencias.

* http://travel.nytimes.com/2005/03/20/travel/
tmagazine/20TMENKES.html


Barkah Salah. Passagem de Modelos, Foto de Bill Akwa Betote.


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010





Criaivi, .


HIFA 2010:


Festival


Internacional de


Belas-Artes em


Harare



Neste ano, a 11a edicao do Festival
Internacional de Belas-Artes de
Harare tera lugar entre 27 de Abril e
2 de Maio. Este festival e programa
de seminarios anual de seis dias
apresenta o que ha de melhor na
arte do Zimbabue, paralelamente ao
trabalho de artistas internacionais.


Sandra Federici


O festival focaliza-se em virias
disciplinas: teatro, danga,
m6sica, circo, representagio
de rua e artes audiovisuais.
Desde a sua primeira edigio em 1999,
este festival atrai uma ampla audiencia e
tem vindo a ser um importante simbolo
do espirito positivo do Zimbabue, gragas
a tentativa de unificar, social e cultural-
mente, grupos diferentes numa altura de
conflitos ideol6gicos e de incerteza poli-
tica. O HIFA e realmente considerado o
maior evento cultural do Zimbabue. Em
2006, a UNESCO-Harare apoiou a par-
ticipagio de grupos de danga tradicional
no festival, inclusive os marginaliza-
dos Chigombela Venda Dancers. Foram
tambem financiados seminirios sobre
diferentes temas: promoyao das artes
e Internet, desenvolvimento e comer-
cializayao dos produtos (trabalhadores
artesanais) e arte e desenvolvimento
(encorajando um debate aberto sobre o
tema VIH).

"Mudanga de Opinido"

Neste ano, o fundador e director artis-
tico, Manuel Bagorro, e o Conselho
de DirecGco (presidido por Angelina
Kamba) escolheram o tema About Face
uma expressio aberta a interpretay6es.
Como o declararam os organizadores
no sitio web, "o dicionirio define About


Face como a acgio de voltar a cara em
direcGyo oposta", sendo nessa acep-
9o que a expressio era utilizada nos
Estados Unidos primeiro como uma
ordem militar. Significa tambem uma
mudanga radical de opiniio ou de ati-
tude".

Os Zimbabuenses sao incentivados a
abrir o espirito e a passarem do pessi-
mismo ao optimismo, a fim de fomentar
uma mudanga e crescimento positivos,
desenvolver novas atitudes e mudar as
suas vidas. E de esperar que este tema
inspire uma emocionante edigio de
2010 do HIFA.


A banda desenhada africana em destaque no Museu Quai Branly


Em Fevereiro de 2010, varios autores
e alguns especialistas de banda
desenhada africana reuniram-se em
Paris numa conferencia de tris dias
para examinar o estado actual deste
sector artistico.






Catherine Haenlein



E m 1960, a obra Le cure de
Pyssaro do togoles Pyabelo
Chaold tornou-se a primeira
banda desenhada publicada em
Africa. Mas nem tudo o que luz e ouro.
O 50. aniversirio da banda desenhada
africana revelou que o sector ainda se
defronta com uma serie de obsticulos.
Organizada por Christophe Cassiau-
Haurie, um especialista em banda dese-


nhada de Africa, das Caraibas e do oce-
ano Indico, a conferencia destinou-se
a examinar os progresses desta "nona
arte" em Africa e o seu futuro desen-
volvimento.

Entre 4 e 6 de Fevereiro, autores, edi-
tores, jornalistas, professores e curado-
res de museus de banda desenhada de
toda a Europa e Africa reuniram-se no
museu, no "Salio de Leitura Jacques


Kerchache", para ouvir as interveny6es
dos peritos, ver o filme Resistentes da
9." Arte (The undiminished 9th art) e
apreciar uma demonstrayao ao vivo do
autor de banda desenhada congoles Pat
Masioni. Realizaram-se debates vivos
sobre os recursos para o sector e sobre
outras quest6es, por exemplo a escassez
de financiamento dos argumentistas, a
falta de festivais europeus dedicados a
banda desenhada africana e a saturayao
do mercado europeu por "Manga", as
bandas desenhadas japonesas.

Para alem de procurar ver onde estao
as dificuldades actuais, a conferencia
constituiu uma oportunidade para reu-
nir um grande conjunto de autores,
editores e peritos, que trocaram ideias
e discutiram as perspectivas futuras nos
respectivos dominios. Foram estabele-
cidos contactos e elaboradas propostas
priticas, como colaborag6es futuras e
actividades de estabelecimento de con-
tactos, que irio impulsionar esta forma
inica de expression artistica quando
entra nos segundos 50 anos da sua
existencia.


Didier Kassai, cortesia do Museu du quai Branly e do
artista.


Correio


















m Sim, e isso mesmo. Os temas
i um concurso fotografico
F..n ............ i sao a tradi~ao, a inovagao, a
langado pela revista The cultura, a comercio e a
Courier- especialmente para alteraooes
jovens. climteis.ra
joes clim~ticas. 4 w


Um dia ...


*1*


N. 16 N.E. MARQO ABRIL DE 2010


^Para jo vens leitiores











Concurso

Fotogratfico

A revista The Courier esta a realizar
um concurso para jovens fot6grafos do
ACP!

Os temas sao a ciencia e a tecnologia, a
cultura (arte e tradigio), o comercio e as
alteray6es climiticas.

Premio: 1 000 euros

Visite o nosso sitio Internet no final de
Abril para consultar o regulamento e
votar!



Comentdrios dos leitores

A revista The Courier gostaria de abrir
o dialogo nesta edigio do dossier
. Convidamos os nossos lei-
tores a enviarem-nos feedback sobre os
virios temas abrangidos. Podem enviar
um e-mail para info@acp-eucourier.
info ou fax para +32 2 2801406.


CONTACTO: 0 CORREIO 45, RUE DE TREVES 1040 BRUXELAS (BELGICA)
CORREIO-E: INFO@ACP-EUCOURIER.INFO WEBSITIO: WWW.ACP-EUCOURIER.INFO


Agenda MAIO-JULHO2010


Maio de 2010

18 20/5
Iluminar a Africa 2010
Nair6bi, Quenia
Para mais informac6es visite
o sitio Internet:
http://www.lightingafrica.org/node/414

18- 19/5
6.' Cimeira UE-America Latina
e Caraibas
Madrid, Espanha
Para mais informac6es visite
o sitio Internet:
http://www.eu2010.es/en/agenda/
cumbrestercerospaises/evento01.html

18-21/5
Parceria UE-Africa sobre a Ciencia,
a Sociedade da Informagio e o
Espago: Reuniao conjunta de grupo
de peritos
Durban, Africa do Sul

19-21/5
Conferencia e Exposigio IST-Africa
2010
Durban, Africa do Sul
Para mais informay6es visite
o sitio Internet:
http://www.ist-africa.org/
Conference2010/default.asp


24-28/5
Workshop regional para a Melhor
Formagao na Seguranga dos
Alimentos
Bamako, Mali

26-28/5
eLearning Africa 2010
Lusaka, Zambia
Para mais informay6es visite
o sitio Internet:
http://www.elearning-africa.com/

31/5-3/6
91.' Sessao do Conselho de Ministros
dos paises ACP
Uagadugu, Burquina Faso


Junho de 2010

2-3/6
2' Reuniao de Neg6cios
Africa-Franga
Bordeus, Franga
Para mais informay6es visite
o sitio Internet:
http://www.africa-france-business.
com 2010/index.php

4/6
35.' Sessio do Conselho de
Ministros ACP-CE


Uagadugu, Burquina Faso

4/6
3.' Reuniao do Grupo de Trabalho
Regional sobre a Cultura
Bruxelas, B&lgica

9/6
Reuniao Colegio a Colegio
UA-UE (tbc)
Adis-Abeba, Eti6pia (tbc)


Julho de 2010

7-9/7
Seminirio regional do CESE
dos Meios Econ6micos e Sociais
ACP-UE
Adis-Abeba, Eti6pia

15-16/7
Workshop: Sociedade Civil e
a Estrategia Africa-UE
Adis-Abeba, Eti6pia

18-23/7
Conferencia de 2010 sobre a SIDA
Viena, Austria
Para mais informac6es visite o sitio
Internet:
http: //www.aids2010.org/


C*rreio


Fotografias do livro Petits d'Hommes>> a exposigyo

ja estd disponivel


Slivro Petits d'hommes com fotografias
de Pierre-Jean Rey, publicado por Albin
Michel, Franya, Novembro de 2009.

O livro de 220 piginas apresenta retra-
tos de crian4as de todo o mundo, sendo a
maioria criandas que resistiram a dificul-
dades econ6micas, guerra, a injustiyas
da mifia e a outras insanidades. O fot6-
grafo pediu a cada crianya para retratar
atrav&s da expresso facial aquilo que
queriam dizer, em especial s crianyas
de outros paises. A compilay8o de fotos
que dai resultou & a representagio de
crianyas que sofreram e cujo sofrimento
ainda perdura. As fotografias de Pierre
Jean-Rey que representam a vida trans-
mitem acima de tudo orgulho, digni-
dade e coragem. As fotografias foram
expostas recentemente no Parlamento
Europeu para assinalar o 40.0 ani-
versirio da < de la Francophonie, (Organizay8o
Internacional da Francofonia).







AFRICA CARAIBAS PACIFICO

e UNIAO EUROPEIA


As listas dos pauses publicadas pelo Correio nao prejulgam o estatuto dos mesmos e dos seus territ6rios, actualmente ou no futuro. 0 Correio utiliza mapas de in0meras fontes.
O seu uso nao implica o reconhecimento de nenhuma fronteira em particular e tampouco prejudica o estatuto do Estado ou territ6rio.


"t " 1 < 1
,. ,,*- .^


f









CARAIBAS
Antigua e Barbuda Baamas Barbados Belize Cuba Dominica Granada Guiana Haiti
Jamaica Rep0blica Dominicana Sao Crist6vao e Nevis Santa Lucia Sao Vicente e
Granadinas Suriname Trindade e Tobago


AFRICA
Africa do Sul Angola Benim Botsuana Burquina Faso Burundi Cabo Verde Camaroes
Chade Comores Congo (Repiblica Democritica) Congo (Brazzaville) Costa do
Marfim Djibouti Eritreia Etiopia Gabao Gambia Gana Guind Guind-Bissau Guind
Equatorial Lesoto Libdria Madagascar Malawi Mali Mauritania Mauricia (llha)
Mogambique Namibia Niger Nigdria Quinia Rep0blica Centro-Africana Ruanda Sao
Tomd e Principe Senegal Seicheles Serra Leoa Somalia Suazilandia Sudao Tanzania
Togo Uganda Zambia Zimbabud
'^i^^ ^Y



















Togo Uganda Zambia Zimbabue


UNIAO EUROPEIA
Alemanha Austria Belgica Bulgaria Chipre Dinamarca Eslovaquia Eslovenia Espanha
Est6nia Finlandia Franga Grecia Hungria Irlanda Italia Let6nia Lituania Luxemburgo
Malta Paises Baixos Pol6nia Portugal Reino Unido Rep0blica Checa Romenia Suecia


-


-



























































































































































I,