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HIDE
 Front Cover
 Half Title
 Title Page
 Excertos do 1 volume
 Dedication
 Alvara
 Onde se fala da sua epoca
 Depois da chegada a Sofala
 Do 2 volume
 Back Cover














Title: missionario quinhentista Fr. Joao dos Santos e o seu livro Etiopia oriental
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 Material Information
Title: missionario quinhentista Fr. Joao dos Santos e o seu livro Etiopia oriental
Physical Description: Book
Creator: Santos, Victor,
Publisher: Divisao de Publicacoes e Biblioteca, Agencia Geral das Colonias,
Publication Date: 1951
Copyright Date: 1951
 Record Information
Bibliographic ID: UF00076566
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Holding Location: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: 03062656 - OCLC

Table of Contents
    Front Cover
        Front Cover
    Half Title
        Half Title
    Title Page
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    Excertos do 1 volume
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    Dedication
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    Alvara
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    Onde se fala da sua epoca
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    Depois da chegada a Sofala
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    Do 2 volume
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Full Text

IM P E R I 0


N.0 123


O missionrio quinhentista

FR. JOAO DOS SANTOS
e o seu livro

ETIOPIA ORIENTAL

PELO

DR. VICTOR SANTOS


LISB0 A / 1 951


I I II I II I I
1 --------~--


P E L





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0 missionbrio quinhentista
FR. JOAO DOS SANTOS
e o seu livro
ETIOPIA ORIENTAL


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/ \A. ' **" Y,







REPOBLICA PORTUGUESA
MINISTIRIO DAS COLONIAS
COLECCAO PELO IMPIRIO

N.o 123


O missionario quinhentista

FR. JOAO DOS SANTOS
e o seu livro

ETIOPIA ORIENTAL

pelo Dr. VICTOR SANTOS








DIVISAO DE PUBLICACOES E BIBLIOTECA
AGiNCIA GERAL DAS COLONIES
1 9 5 1









'i


/- ;


AMCA


Esta publicagdo foi superiormente autorizada
por despacho de 5 de Fevereiro de 1951














EXCERTOS DO 1.0 VOLUME














DEDICATORIA:


AO EXCELENTISSIMO SENHOR D. DUARTE,
MARQUIS DE FRECHILLA, E DE MALAGON, ETC.

t condigdo t&o propria de principles, e senkores acei-
tar a boa vontade, que seus servos Ihe mostram e ainda
nos pequenos servigos que Ihe fazem, que ndo e possivel
faltar esta em v. excelencia cuja nobreza, e descenden-
cia, que traz dos reis de Portugal seus progenitores, 4
tMo conhecida, ndo somente em today a Europa, na qual
cor todos os reis e principles ter alianga, e parentesco
mui chegado, mas tambem nas mais parties do mundo,
que se me quizera deter em tratar della, corn muita ra-
z~o se me podia dizer o que Antaleides rei dos lacedemo-
nios disse a um sophista que diante delle se poz a louvar
Hercules, tdo conhecido e venerado de todos. EQUIS
ILLUM ACCUSAT?
E Aristoteles nos ensina que as cousas que sdo noto-
rias, 4 escusado provdi-las. Sendo pois isto assim, e
conhecendo eu o nobre e generoso animo de v. excellen-
cia herdado cor o real sangue do invictissimo rei D. Ma-
nuel de gloriosa memorial seu bisav6, e conquistador das



















parties orientaes, de que esta minha obra trata, me pa-
receu estava obrigado a dedical-a a v. excellencia, e por
esta razjo tomei atrevimento de lhe fazer este pequeno
servipo, e offerecer-lhe esta obra, primeiro fructo meu,
posto que de pouco artificio, mas acompanhado da boa
vontade cor que a offerego, espero seja bern recebida
de v. excellencia lembrando-me o que se conta de Arta-
xerxes, o qual fazendo um caminho, trazendo-lhe seus
vassallos alguns presents, cada um segundo sua possi-
bilidade, um pobre rustico ndo tendo que lhe offerecer,
se foi a um rio, e Ihe levou em as mdos um pouco de
agua, e o rei a estimou tanto, que a mandou guard
em vaso de ouro, dizendo que nenhum serviqo Ihe fora
tdo aceito como este, estimando mais nelle a vontade
que a obra: e assim fez muitas merces ao rustico. Mo-
veu-me tambem a offerecer esta obra a v. excellencia a
particular affeicdo que tern d nossa sagrada religido dos
Pregadores, como a cousa propria, pois e fundada pelo
glorioso patriarcha S. Domingos muito parent de v. ex-
cellencia por cujo respeito todos os filkos della achamos
sempre em v. excellencia muito favor e amparo.


















E por estas raz6es confiadamente espero que esta
minka obra debaixo da protecqdo de v. excellencia seja
amparada e honrada.
Nella verd v. excellencia muitas cousas notaveis do
Oriente, e particularmente da Ethiopia Oriental, ouja
cabega 6 a fortaleza de Mogambique, que o grande
D. Constantino, tio de v. excellencia, mandou principiar
sendo vice-rei da India, cujas obras heroicas (que sem-
pre viverdo na memorial dos homes) mostram o grande
valor com que governor, aquelle estado. E ainda que esta
obra ndo tivera mais bem que fallar nelle, s6 isso lhe
bastava para ser de todos bem recebido. Por tanto ponha
v. excellencia os olhos nella, e ficard cor o valor e prego
que sem o favor de tal principle ndo pode ter, cuja vida,
saude e estado o Senhor prospere e conserve por muitos
annos. D'este convento de S. Domingos de Evora a vinte
de margo de 1608.- De V. excellencia servo e orador
frei Jodo dos Santos.

















ALVARA


Eu el-rei fago saber aos que este alvard virem, que havendo
respeito ao que na pe'tigdo atraz escrita diz o P. Fr. Joao dos
Santos da ordem de S. Domingos, hei por bem e me apraz por
lhe fazer merc6, que por t6mpo de dez annos, zem impressor nem
livreiro, nemr vender nestes reinos e senhorios de Portugal, nem
trazer de fora delles o livro de que na dita petigdo fas mencgo,
salvo aquellas pessoas que para isso tiverem seu poder e licenga:
e qualquer impressor, livreiro ou pessoa que imprimir ou vender
o dito livro, ou de fora o trouxer impresso sem licenga do dite
P. Fr. Jodo dos Santos, perderd para elle todos os volumes que
lhe forem achados, e encorrerd em pena de cincoenta cruzados,
metade para minha camera, e outra metade para quem o accusar:
e mando ds justigas, officials e pessoas a que o conhecimento per-
tenoer, cumpram e guwrdem este alvard, como se nelle contem, o
qual se transladard em cada um volume dos ditos livros, no prin-
cipio, para se saber como assim o houve por bem, que valerd como
carta, sem embargo da ordenagao do 2.' livro, tit. 20." que o con-
trario disp5e. Jodo Pereira Castello Branco a fez em Lisboa a
trinta de maio de 1609. --REY QUE SE POSSA VENDER
ESTE LIVRO A 320 R&1S. EM LISBOA A 23 DE MAIO DE
1609. -BRAGANCA. MAGALHAES.

















< pioneiros da colonizacgo portuguesa encontrar nestes velhos do-
cumentos uma ocasido para renovar os seus elos com o glorioso
passado! Possam eles encontrar de novo a inspiragdo religiosa
desses primeiros testemunhos do Cristo na Africa Oriental, afim
de que seja estabelecida, nas linhas da political indigena actual,
uma civilizagdo lusitana digna da grande tradi 5o do tempo dos
desoobrimentos: uma civilizacgo latina, feita de compreensdo e in-
teliggncia, sem preconceito de cores; uma political indigena que
resume bem a ordem dada por D. Sebastido aos seus enviados a
Africa:
TIRAI CUBICA DOS HOMES E FAVORECEI OS QUE
POR LA JAZEM.

HENRI PHILIPPE JUNOD

(In < XVI e comeCo do XVII> Separata dos
n.0" 17 a 19 do documentirio trimestral
Imprensa Nacional de
Lourengo Marques 1939).

















...... algumas cousas do que digo, sdo tdo prodigiosas que
quasi sdo incrediveis, e contadas aos que tem alcangado poucas
muitas nmaravilhas, que ha pello mundo, corre muito perigo seu
credito para com elles.
......Mas como meu intent ndo 4 satisfazer a estes, nem
contar fabulas afectadas con palavras exquisitas, e hem com-
postas uzando para isso de alto estyllo de fallar, e linguagem
polida, sendo contar na verdade as cousas que vi, notei e ouvi a
pessoas de credit, por isso nao quiz desistir do intent comegado,
vzando desta singella narrazc o, porque a verdade ndo tem ne-
cessidade de palavras rhetoricas, para se declarar; e som ente esta
aceite de mim o leitor, e nao o grosseiro modo que tenho de a
relatar.

Fr. JOAO DOS SANTOS

In tPrologo da primeira parte da Ethiopia
Oriental















Onde se fala da sua epoca..















O PERIODO aureo das Artes, das Ciencias e das
Letras que 6 para n6s o s6c. XVI, dar-nos-ia, e
ao Mundo, novos mundos...
Sopravam brisas novas, ateadas nio s6 pelas reali-
zag5es nacionais, como pelas correntes externas; a Es-
cola de Sagres dava os seus frutos, e destes e dum largo
cortejo de factors e possibilidades, em que forcosamente
se deve incluir a nossa situacgo atlintica, nasceu, natu-
ralmente, <>.
Portugal crescia, desenvolvia-se, e iam passadas as
etapas do sentido hist6rico da nacionalidade para Cas-
tela segundo FernAo Lopes e para o mar, mas para
a Africa-Norte como pensava Zurara.
Corn o movimento renascentista e o consequente
alargamento de horizontes, um JoAo de Barros como
criador da Historiografia Ultramarina-apresentaria um
novo conceito: a expansdo natural da nacionalidade
para o mar, sim, mas para Oriente.
E as viagens nesse sentido iniciaram-se, realizaram-
-se; os descobrimentos atingem, ou orientam-se nas
vArias parties do globo; as conquistas, o dominio, a colo-
nizagdo e o com6rcio efectivam-se; as actuacges no
sentido civilizador e cristianizante ensaiam os passes
primeiros.









Ao lado do navegador e do descobridor vai, na mes-
ma nau, o missionArio, ou, pelo menos, o padre, que se
houve cor afadigosa tarefa ndo poucas vezes, a comegar
pelos que acompanhava em naufrdgios, complicadas tra-
vessias ou dramdticas peregrinagces forgadas por terras
africanas. SAo do facto irrefutivel testemunho quantas
cr6nicas e odisseias nos descrevem Barros, Jer6nimo
Corte Real, Francisco de Andrade, Damiao de Gois, An-
t6nio GalvAo, BrAs de Albuquerque, Couto ou Castanhe-
da, Gaspar Correia, JoAo Baptista Lavanha, Melchior
Estkcio do Amaral, Bernardo Gomes de Brito ou Ma-
nuel Godinho Cardoso (1).
SA media que confirmavamos o nosso dominion no
ultramar e nos expandiamos para o interior; e ao pass
que alastrava a nossa acco para Oriente, mais se fazia
sentir a necessidade do missionario, do pastor, do evan-
gelizador, daquele que havia de ser o brago direito e
executor spiritual da acco levada a efeito pelo c4rebro
e ciencia do Infante e seus colaboradores, ao mesmo
tempo que da ousadia dos capit2es. E as solicitag~es che-

(1) Declarada a perda fatal do navio, era um angustioso ala-
rido por todo ele. Os navegantes precipitavam-se desordenadamente
sobre os religiosos para serem ouvidos de confissio. Todos que-
riam salvar as almas, no derradeiro moment da vida. Entio, nesse
torpel clamoroso, davam-se, cenas estupendas, como a daquele ho-
mem da nau < que, sobre o borborinho geral, comegou a
vociferar os seus pecados, tio grandes e medonhos, que um dos
padres Ihe foi com a mAo a boca, pedindo-lhe que se calasse e
confessando-o logo.









gavam A Metr6pole, para que se enviassem padres que
cultivassem e sustentassem aquela cristandade que Ia ti-
nhamos A nossa conta.
Foi numa dessas < que Frei Jodo dos
Santos, dominicano natural de Evora, onde professor
em 5 de Novembro de 1584, embarcou a missionar na
Africa Oriental e na Asia, sobre que escreveu ETI6PIA
ORIENTAL (1), obra acerca da qual um ilustre escritor
ingles observa ser melhor que a do classico registo de
Modie (2).
Esta obra, que consta de nove livros, em dois volu-
mes na <, de que
era director literario Luciano Cordeiro e editor Melo
de Azevedo, foi por n6s consultada na edicgo de 1891;
ap6s a Advertencia do editor, traz, na Advertencia Pre-
liminar da autoria de Luciano Cordeiro, a indicatgO de
que foi traduzida em vArias linguas, corn duas edic5es
em frances, de 1684 e 1688 (3).
Na edigio original de 1609, um primeiro frontespi-
cio, em portada gravada por Bras Nunes, diz assim:

(1) t hoje um livro extremamente raro (a edigEo de 1609),
citandorse em Lisboa poucos exemplares. O da Sociedade de Geo-
grafia foi adquirido no leil2o da biblioteca do conde de Lavradio,
que o comprara em Londres na venda dos Livros de Lord Stuart
de Rothesay. 0 cap. final, XV, foi copiado A mao. Existem exem-
plares nas Bibliotecas Nacional e da Ajuda.
(2) Sutherl. Mem. respect, the Kaffers, 1845.
(3) Histoire de 1'Ethiopie Orientale traduit du portugais de
Jean dos Santos P. Gaetan Charpy.










ETHIOPIA ORIENTAL
E VARIA HISTORIC DE COUSAS
NOTAVEIS DO ORIENTED,
COMPOSTA POLLO PADRE FR. IOAO
DOS SANTOS DA ORDEM DOS PREGADORES.
NATURAL DA CIDADE DE EVORA.
DIRIGIDA AO EXCELLENTISSIMO SENHOR
DOM DUARTE MARQUES DE FRECHILLA,
& MALAGON, &. C.,
IMPRESSA NO CONUENTO DE S. DOMINGOS
DE EUORA
COM LICENCA DO S. OFFICIO, & ORDINARIO,
& PRIUILEGIO REAL. ANNO 1609
POR MANUEL DE LIRA IMPRESSOR

Um segundo frontispicio, apenas no alto e em baixo
decorado, acrescenta (1):

(1) As aprovag6es e licengas de publica~:io estio respectiva-
mente datadas e assinadas conm segue: APROVACAO DO P. M.
FR. ANTONIO FREIRE Em Nossa Senhora da Graga de Lis-
boa a 23 de maio de 1608 FREI ANTONIO FREIRE. LICENCA
DA S. INQUISICAO Em Lisboa em 24 de maio de 1608 Ber-
tholomeu da Fonseca Ruy Pires da Veiga. LICENCA DA MESA
DO PACO- Em Lisboa a 2 de junho de 1608- Machado An-
t6nio da Cunha. LICENCA DO ORDINARIO Evora, e de agos-
to 10 de 1608. 0 bispo de Nicomedia. LICENQA DO P. PROVIN-
CIAL Dada neste convento de S. Domingos de Evora a 15 de
outubro de 1607- Fr. Martinho Ecay, Prior Provincial. APRO-
VACAO DO P. M. Fr. Vicente Pereira prior de S. Domingos de
Evora dada em Evora no convento de S. Domingos em 15 de









PRIMEIRA
PARTE
DA ETHIOPIA 'ORI-
ENTAL; EM QUE SE DA RELAQAO DOS PRIN-
CIPAES REYNOS DESTA LARGA REGIAO, DOS
COSTUMES, RITOS & ABUSOS DE SEUS HABI-
TADORES, DOS ANIMAES, BICHOS & FERAS,
QUE NELLES SE CRIAO, DE SUAS MINAS, &
COUSAS NOTAVEIS, QUE TEM ASSIM NO MAR,
COMO NA TERRA, DE VARIAS GUERRAS, &
VICTORIAS INSIGNES QUE HOUVE EH NOSSO
TEMPO NESTAS PARTIES ENTIRE CHRISTAOS,
MOUROS & GENTIOS. REPARTIDA EM CINCO
LIVROS.



E agora o pr6prio Fr. Joao dos Santos quem nos vai
falar da sua partida para o ultramar:

e cinco, sabendo o bispo de Malaca, que entdo era
D. Joao Gayo Ribeiro, o grande nfunero de christAos
que os religiosos da ordem dos Pregadores tinham
feito, e faziam cada dia nas ilhas de Solor e Timor

abril de 1607--Fr. Vicente Pereira. APROVACAO DO P. M.
Fr. Thomas de Brito- Em Evora no nosso convento de S. Do-
mingos a 14 de abril de 1608- Fr. Thomas de Brito.









(como pastor que era daquellas parties, desejanto que
fosse de bem em melhor, o aumento e conservagdo
da sua christandade) escreveu algumas cartas ao ar-
chiduque de Austria, Alberto, que n'esse tempo era
cardeal, e governava este reyno de Portugal, e ou-
tras ao nosso padre provincial, que entHo era o pa-
dre-mestre frei Jeronimo Correa, nas quaes pedia
com muita instancia Ihe mandassem padres d'esta
sagrada religiAo, para cultivarem e sustentarem
aquella christandade, que la tinhamos a nossa conta.
Lidas estas cartas foram logo manifestadas aos re-
ligiosos desta nossa provincia, e muitos d'elles se
offereceram logo para ir a esta nova empreza, entire
os quaes eu tambem me offereci para os ajudar na
conversZo das almas, porque assim pudesse merecer
e alcangar a salvacgo da minha.
Tanto que as naos estiveram aviadas, nos embar-
camos todos, e partimos da barra de Lisboa aos treze
dias do mez de abril do anno do Senhor de mil qui-
nhentos e oitenta e seis. Dobramos o cabo da Boa
Esperanga a dois de Julho, e chegamos a MoCam-
bique a treze de agosto, onde a obediencia me dei-
xou, para dali passar a Sofala, e residir na sua
christandade>.


Ei-lo, embarcado e desembarcado, em missdo de cha-
mamento cristianizante, como ele pr6prio nos afirma,
langado igualmente na aventura, como tantos outros -










Mendes Pinto (1), Ant6nio Tenreiro (2), Francisco Al-
vares (3), Fr. PantaleHo de Aveiro (4), Joao de Luce-
na (5), Fernao Cardim (6), Frei Gaspar da Cruz (7) e
Duarte Barbosa (8) cada um em seu sentido, cami-
nho, orientagdo e fins, proporcionando A literature de
quinhentos, e vindoura, um rico esp6lio informative de
narratives de viagens, que havia de ser uma das grandes
pedras demonstrativas da nossa acgco e garantes do
edificio imperial construido, defendido e consolidado
atrav6s de tantos s6culos.
Joao dos Santos foi, como outros mais- e por ve-
zes acusado de certos exageros e atW de invengces-
Fernao Mendes Pinto ndo deixou de o ser tambem!
Por6m, depois de percorrermos as suas p6ginas e
lermos tratadistas e estudiosos que depois dele e at6 re-
centemente, estancearam pelas mesmas paragens, che-
gamos A conclusdo de que os exageros estao exactamente
da banda de quem lhos atribuiu. Os pr6prios comenta-


(1) Peregrinagdo.
(2) Itinerario em que se contem como na India veio por
terra... a Portugal.
(3) Verdadeira informado das Terras do Preste Joao das
Indias.
(4) Itinerario da Terra Santa.
(5) Hist6ria da vida do padre Francisco Xavier.
(6) Narrativa de uma viagem em missio jesuftica.
(7) Tratado das coisas da China e de Ormuz.
(8) (Aventurosas peregrinag6es) Col. de Not. para a Hist. e
Geog. das Nag~es Ultramarinas.









ristas de ha vinte anos para ca, foram honestos nas
suas afirmagSes porque percorreram os mesmos locals,
observaram as mesmas coisas, viram ainda, em certos
casos, os mesmos costumes, os trajos, as tradig5es; o
modo de vida, os objects de uso, as manifestag~es fd-
nebres ou festival dos indigenas; o casamento, o parto,
o exorcismo, a pr6pria linguagem, chegam A conclusio
de que, porventura, apenas os factors ignorancia ou
desconfianga fizeram com que a Fr. Joao dos Santos se
Ihe atribuissem exageros neste ou naquele pass e
comentdrio (ha que salvaguardar o que diz terem-lhe
contado...).
O que ndo constitui, por certo, exagero, 6 que o do-
minicano eborense possuia um agudo espirito de obser-
vagdo, nada condicente cor o quase esquecimento a que
foi, entire n6s, votado; apenas num ou noutro tratado
de hist6ria literaria se Ihe alude em tipo 6 ou 8 ao
nome e ao titulo da obra, na reduzida proporgAo duma
meia linha perdida no meio de setecentas e mais p&-
ginas.
Nao figure nas antologias esse Joao dos Santos, es-
critor classico de bom e correct dizer, que, sem favor,
deve emparceirar e enfileirar, pela acgao e valor da obra,
ao lado das primeiras figures da nossa 6poca de qui-
nhentos.
Ainda recentemente, numa publicagCo do estudioso
Filipe de Almeida de Ega, intitulada bibliografia de Mogambique>, Ihe 6 prestada justiga,
pela posigdo saliente de uma NOTA 183 inserta na










pigina 54, letra H, edigio da AgAncia Geral das Col6-
nias 1949 (1).
Comega-se assim corn estas a trazer
A luz dos nossos dias, algumas figures de valor, esqueci-
das ou ainda n&o postas no lugar que indiscutivelmente
merecem (2).


(1) HISTOIRE DE L'ETHIOIPE ORIENTALE, traduite en
frangais par le R. P. Don Gaetan Charpy- Paris, chez Andr6
Cramoysy, 1684 In 12.o de XII 240 Pigs. HA outra edigao,
Paris, de Luynes, 1688, tamb6m in 12.o, e, ao que parece, uma
outra do mesmo ano, tamb6m in 12.0. Outrosim encontrei uma cita-
gao desta traduqao reduzida, corn o seguinte titulo: HISTOIRE
DE L'ETHIOPIE ORIENTALE; TRADUITE DU PORTUGAIS
DE JEAN DOS SANTOS. Charpy era cl6rigo teatino. Este curioso
trabalho nao escapou ao Cap. MArio Costa, que a ele se refere em
nota a pAgs. 162 da sua < para register duas tradug6es inglesas da c6lebre obra de Frei
Joao dos Santos, e que Luciano Cordeiro parecia desconhecer quan-
do em 1891 prefaciou a segunda ediago da :
uma de Samuel Purchas, no seu livro London, 1625, 2. volume, e outra pelo escoces John Pinkerton, no
16.* volume da Freire Joao dos aSntos apenas escreveu a Ethiopia Oriental; no
entanto, o belga A. J. Wanteurs, em , afirma existir
um trabalho in6dito intitulado de Cuama> (XIX e' XXVII A).
(2) Portugal oferece esta singularidade triste: de ser um
pais onde os seus clAssicos, onde os seus grandes escritores anti-
gos, andam quase inteiramente sequestrados ao conhecimento, &
leitura, por conseguinte ao amor e A instrugao geral. (Introdugao,
1891) Luciano Cordeiro.









Tamb6m este nosso trabalho nao tern outra preten-
sdo, al6m da de modesto contribute para que nova ou re-
novada projecgao seja atribuida e incida sobre quem,
como Joao dos Santos, tem jus a libertar-se das leis
da morte...















Depois da chegada a Sofala














Das terras e das genes


A P6s a descrigSo da fortaleza de Sofala, fundada
em 1505 por Pedro de Nhaya, por mandado
de D. Manuel, a qual estA situada na costa da
Eti6pia Oriental, perto do mar e junto a um rio que tem
pouco mais ou menos uma legua, Jodo dos Santos fala-nos
das terras e das gentes, corn minicia de resto sempre
encontrada nas suas declarag6es e com o poder de
observacdo que Ihe 6 peculiar. Aqui se refere, em lingua-
gem simples e natural, aos hbbitos e ocupag~es dos na-
tivos; ali a existencia de uma ermida, a quando da sua
chegada, e a criagdo de duas outras, pouco tempo ap6s
o desembarque; a primeira cor o nome de Espirito San-
to,a segunda de Nossa Senhora do Rosario e a terceira
de invoca o a Madre de Deus, num palmar nosso, que 6
o melhor posto e said que tem Sofala.
Curiosa 6 a alusAo que faz A traigdo e guerra dos
mouros contra a dita fortaleza; nela < da terra e os portugueses senhores dela>.
Na larga descricgo que desta regido faz, o domini-
cano eborense, dando relevo A exist&ncia de certos pro-
dutos horticolas e de pomar, similares aos metropolita-








nos, afirma ter encontrado ainda em 1586- ano em
que ali chegou alguns mouros velhos e algumas mu-
Iheres cristds que haviam sido mouras, naturais da mes-
ma terra, que se lembravam muito bern da luta havida
contra a fortaleza de Sofala-- e iam passados mais de
oitenta anos!
Entre as curiosidades que aponta, porque de tudo
fala, tudo observa e relata (do pAo aos bolos, das gali-
nhas As cabras e dos veados aos porcos), o ilustrado re-
ligioso cita esta:
que significa o esterco do home, e a causa de Ihe porem
este nome 6 porque tem o mesmo ruim cheiro, tAo no-
gento que ndo ha pessoa que o possa sofrer. Na India
tambem hA deste pau, sua arvore 6 como espinheiro, di-
zem os cafres e a gente da India, que tern grande virtu-
de contra o ar, e por este respeito o trazem muitas pes-
soas enfiado como contas e atado no brago, junto da
care e particularmente os meninos de tenra edade>>.
Joao dos Santos, que passou por Sofala em Novem-
bro do ano que desembarcou em Mogambique, tendo ido
depois ao Zambeze e a Tete, daqui foi a Sena donde re-
gressou a Mocambique, tendo em 1593 feito nova via-
gem a Sofala, e, de novo em Mogambique, daqui partiu
para a India em 1597, onde voltaria de novo, depois da
vinda a Portugal em 1600, falecendo em Goa em 1622.
O seu trabalho represent s6ria contribuicgo para o
estudo da antropologia contemporanea, e dificil 6 es-
colher os passes mais tipicos relatives ao que afirma-








mos; seria um nunca acabar. Com efeito, o frei domini-
cano dd-nos uma descriCgo minuciosa da vida e costumes
dos sfbditos do rei Quiteve (1).
Sedanda e Chicanga representam ainda os grupos
principals da tribo Ndau de hoje: Teve, Danda e
Changa.
Parece, todavia, que os Changa, hoje estabelecidos
no litoral, viviam no interior das terras.
E do rei Quiteve, assim nos fala o narrador quinhen-
tista:
Sofala, cafre de cabello revolto, gentio, nao adora cousa
alguma, nem tem conhecimento de Deus, antes diz que
elle o 6 de suas terras e por tal 6 tido e reverenciado de
seus vassalos (...). A este rei chamam Quiteve, nome
commum a todos os reis deste reino e assim perdem o
nome proprio que tinham antes que fossem reis, nem
sao mais nomeados por elle.
Este Quiteve ter mais de cem mulheres, todas de
portas a dentro, entire as quaes ha uma ou duas, que sao
mulheres grandes, como rainhas; e as mais sao suas
mancebas e muitas destas sao suas proprias irmas e fi-
lhas, das quaes todas usa (...) >.
Sucede que esta lei ou costume apenas pode ser usa-
do pelos reis, porque qualquer outro cafre, ainda que
seja grande senhor, nao pode casar cor irmas ou filhas,

(1) In > Henri Junod,









sob pena de morte, sendo curioso salientar que ainda
hoje em certas tribes se mant6m este da
familiar real, conquanto se note, nos outros, um instin-
tivo horror pelo incesto.
Nas largas referencias que faz A vida e costumes dos
cafres, de citar sio ainda as que concerned As leis da
etiqueta, ao culto dos antepassados, a varias cerim6nias,
A dificuldade de conversio, As pr6prias ideias.
Vejamos alguma coisa sobre a etiqueta real:
da porta se deitam no chao e deitados entram para den-
tro da casa arrastando-se atd onde o rei estd, e dalli
deitados de ilharga Ihe fallam sem olharem para elle, e
enquanto Ihe vao fallando, juntamente vao batendo as
palmas (que 6 a principal cortezia que uzam os cafres)
e depois de concluido o seu negocio a que foram, do mes-
mo lugar se tornam para fora do mod.o que entraram,
de maneira que nenhum cafre pode entrar em p6 e fallar
ao rei, nem mesmo olhar para elle quando Ihe falla, salvo
se sao familliares ou particullares amigos d'el-rei, ou
quando em conversagAo cor elles>.
'Os portugueses, muito embora ndo precisassem de
se deitar no chao, tinham de conformar-se corn as outras
leis desta etiqueta.
Uma praxe curiosa era a do preglio que se fazia por
todo o reino quando caia algum dente ao rei, e outra,
tamb6m obrigat6ria, de ser enterrado < onde se enterram todos os reis>, e de o acompanharem,
, as , que,









para o seguirem nesta desumana lei, tomavam pegonha
(a que chamavam lucasse).
Acerca do culto dos antepassados, relata:
< quando apparece a lua nova, sobe a uma serra muito
alta perto da cidade em que mora, chamada Zimbanhe,
e em cima della faz grandes exequias pelos reis seus
antepassados, que todos alli estio sepultados: e para
este efeito leva muita gente consigo, assim da sua cida-
de, como doutras muitas parties do seu reino, que manda
chamar>.
As cerim6nias comegam por grande libagao e dan-
gas, particularmente aquela que os negros, segundo Joao
dos Santos, chamam pemberar>:
<<...a principal de que el-rei uza (...), correndo de
uma parte para outra, do modo que em Portugal uzam
o jogo das canas. Para estas festas se veste o rei, e mais
grandes do seu reino dos melhores pannos de seda que
ter, ou de algoddo, e atam pela testa uma fita larga
com muitos cadilhos tecidos nella, como franja de alca-
tifas, os quais Ihe ficam pendurados sobre os olhos e
rosto, como topete de cavallo, e divididos tantos de uma
parte como de outra, e todos a p6, remetem uns contra
os outros, com arcos e frechas nas mhos fazendo que
atiram, e pelejam, despedindo todas as frechas por alto,
de modo que se ndo firam, e desta maneira dAo mil car-
reiras e voltas com muitos momos, at6 que cansam e se
nao podem bulir e aquelles que mais aturam no campo
esses sao os mais exforpados e valentes, e ganham o pre-









mio que esta posto em jogo. Depois que o rei ter feste-
jado oito dias, entdo se p6e em feiqgo de chorar os
defuntos, que ali estao enterrados, no qual pranto jun-
tamente quantos ali estao continuam dois dias ou trez,
at6 que se mete o diabo em um cafre daquelle ajunta-
mento, dizendo que 6 a alma do rei defunto, pai do rei
vivo que ali estA fazendo aquellas exequias.
.... .... ... ....... .... ... ......... ... ......
...... o rei que ali esta fazendo exequias, vem logo acom-
panhado, de todos os grandes do logar onde esta o en-
demoinhado (1) e postam-se todos diante delle, fazendo-
-Ihe grandes cortezias, e logo se apartam todos para uma
banda, e fica o rei s6 corn o endemoninhado, fallando
amigavelmente como quem falla cor seu pae, que 6 de-
funto, e alli Ihe pergunta se ha de ter guerras, e se
vencera nellas seus inimrigos, se havers, fomes, ou tra-
balhos no seu reino, e o mais que delle quer saber, e o
diabo Ihe responded a todas estas perguntas, e Ihe acon-
selha o que ha-de fazer mentindo-lhe ordinariamente,
no mais do que Ihe diz, como also, e inimigo que 6 do
genero human, e nem isto basta para estes cegos dei-
xarem de Ihe dar credit, vindo cada anno consulta-lo
damaneira que tenho dito. Depois desta pratica, sae-se
o diabo daquelle corpo deixando o negro endemoninha-
do muito cansado, moido, e sempre mal assombrado>.
Outra informacIo ainda sobre as ideas da gente de

(1) Um curioso livro a consultar sobre este assunto: logia dos indigenas de Mogambique>> de J, Gongalves Cota,









Quiteve: < mundo, nem que Deus fez o home, nem que ha inferno
para os maus, e gloria para os bons, mas corn tudo sa-
bem que a alma do home 6 imortal e que vive eterna-
mente no outro mundo.
Perguntando eu algumas vezes a cafres honrados e
bem entendidos, em que lugar estavam seus reis defun-
tos, e os mais a que tinham por santos, se Ihe parecia
que estavam no ceo, me responderam que no ceo nao
estava mais que Deus, a quem chamavam Mulungo.
Nao se podem deixar no olvido as informagSes que
Frei Jodo de Santos nos da sobre casamento e sepultura
dos indigenas:
< que casam a seus paes ou mdes, e por ellas Ihe dao
vaccas, pannos, contas ou enxadas, cada um segundo
sua possibilidade e segundo a mulher 6. Pela qual razio
os cafres que ter muitas filhas para casar, sdo ricos e
vivem muito contents comr ellas porque ter muito que
vender>...
Elucida-nos mais adiante que quando algum cafre
se descontenta da mulher, pode entrega-la ao pai; rece-
bida por este, considera-se descasada, e fica a
ser vendida a outro. Ela, por6m, enquanto casada, nao
se pode apartar do marido, visto ser sua cativa, Ihe custou dinheiro.
Descreve igualmente os costumes do casamento, dos
parts, e, por fim, os dos funerals, elucidando-nos, en-
tre outras coisas, que os parents e amigos choram o









defunto oito dias, pela manha, ao neio-dia e ao sol posto.
Passado este pranto, todos se sentam em roda e come
e bebem < que choram.
No capitulo VIII do livro III descreve-nos a ilha de
S. Lourengo e fala-nos das condig~es em que se deu a
morte de Frei Joao de S. Tomas, As maos dos mouros, que
tiveram castigo leve, motivado pela bondade do capitio
D. Jorge de Meneses.
Seguidamente, alude A ilha de Comoro e a uma te maravilhosa> ali existente, bem como A catequese de
um mouro, no convento de S. Domingos, e ao qual de-
ram o nome de Joho Baptista, e veio a ser cristLo>.
A primeira cristA da Eti6pia, segundo o erudito
dominicano, foi Candaces, rainha de Aquaxumo, que
depois mandou edificar uma sumptuosa igreja, onde
mandou baptizar todo o seu reino, incluindo Buno, Coma
e Bono.
Finalmente, no filtimo livro o quinto deste
primeiro volume, Frei Joao dos Santos di-nos a relagso
da costa de Melinde e suas ilhas e de toda a mais costa
at6 o Mar Roxo, e terras>, aproveitando para relatar algumas coisas not6-
veis que nelas aconteceram no seu tempo, terminando
com o relate veiu 6 ilha de Sacotora, e da christandade que n'ella fez,
e dos costumes que hoje ter os naturais d'ella>,:
pello Esppirito Sarito a pregar o Santo Evangelho pello









mundo, repartindo entire si as pronvincias a que cada
um havia d'ir, coube ao glorioso Sdo Tom6 apostolo esta
parte Oriental, onde ha muitas diversas nag6es e castas
de gentios, os mais d'elles barbaros e edolatras. Partin-
do pois de Jerusalem com esta empreza, veiu ter (se-
gundo parece) ao Mar Roxo que 6 distancia quasi de
oitenta legoas), onde se embarcou para ir A India, e
saindo pello estreito fora, veiu tomar a ilha de Sacotora,
onde a nao deu A costa com uma grande tormenta que
Ihe sobreveiu, estando surta no porto da mesma linha.
0 que nao careceu de myst6rio e misericordia que Deus
quiz uzar corn os naturals desta ilha, porque vendo-se o
apostolo sem nao para seguir sua viagem, ficou-se na
ilha, pregou o Santo Evangelho, e converted e baptizou
os moradores d'ella, e juntamente fez algumas egrejas,
ajudando-se para isso da madeira da sua nao, que tinha
dado A costa, das quaes dizem que ainda hoje se conser-
va uma egreja que esta em p6 por memorial do apostolo
que a fez. Depois que este glorioso santo teve a gente de
esta ilha convertida, ordenou-lhe ministros, que culti-
vassem e sustentassem esta christandade, e embarcou-se
para a India, indo correndo a costa da Arabia, foi ter
ao estreito da Persia, onde se deixou ficar alguns annos,
e pregou por aquellas parties entire os persas, medos e
parthos, convertendo alguns gentios a f6 de Jesus Chris-
to. E dalli se tornou a embarcar para a India, onde che-
gou a salvamento, e n'ella fez a christandade que hoje
esta nas serras do Malabar, de que adiante fallarei al-
guma cousa.









Os christaos que ficaram em Sacotora foram conti-
nuando, e perseverando muitos annos na doutrina que
SAo Tom6 Ihe tinha ensinado, at6 que o patriarcha da
Babylonia veiu ter conhecimento d'elles, e tomou posse
d'esta christandade mandando-lhes bispos que a reges-
sem e cultivassem; o que fizeram muitos annos cor
grande augmento da verdadeira lei e fe de Cristo Nosso
Senhor; mas depois que estes bispos acceitaram a falsa
doutrina de Nestor, essa mesma foram ensinando aos
moradores de Sacotora, atW o tempo em que foram domi-
nados pelos mouros arabios de Caxem, que os opprimi-
ram e tyranizaram de maneira, que Ihe nio deixaram
vir mais bispos de Babylonia; e por esta falta que tive-
ram *de pastores, que os apascentassem no christianismo,
foram pouco e pouco perdendo a doutrina, e cerimonias
christds. Alem d'isso com a allianga que tiveram por
via do casamento cor os mouros arabios, foram to-
mando muitos costumes e ceremonies suas, e tAo esque-
cidos estdo ji do christianismo, que nem o nome ter de
christios, nem menos sdo mouros, nem gentios, mas de
cada lei tern seu pouco. Porque como christaos tem egre-
jas como as nossas, jejuam, e vdo fazer orag6o a cruz,
que ter em cima do altar, a que adoram. Como mouros
circuncidam os filhos, e nao uzam de baptismo, e fazem
grande festa o dia que apparece a lua nova. Como gen-
tios adoram a lua, tendo-a por Deus, que Ihe da as novi-
dades e a creacAo dos gados, e por esse respeito Ihe
fazem sacrifficios do mesmo gado em certo tempo do
anno, comr grandissimas festas, musicas e bailes. Cha-









mani as suas egrejas d&mos>. As mulheres todas se chamam Marias, nome
certo que parece Ihe ficou commum a todas do tempo
que eram christds, posto pelo glorioso apostolo S. Tho-
m6, em memorial da Virgem Maria Nossa Senhora, da
qual estes barbaros hoje ndo tem noticia, nem conheci-
mento de Jesus Christo Nosso Senhor, nem de sua sa-
cratissima paixdo e morte; nem menos os misterios da
cruz que veneram e adoram sem saberem o porque Ihe
fazem a tal adoragdo nem o que significa. E sendo per-
guntados por isso, responded, que adoram aquella cruz
ou aquelles dois paos armados naquella figure, por que
seus antepassados a adoraram, e Ihe deixaram lei que
a adorassem e venerassem como cousa divina, o que
fazem sem haver falta nisso e nenhuma outra figure
ter, nem imagem que adorem nas suas egrejas. Queira
Nosso Senhor abrir caminho a esta christandade, que o
apostolo S. Thomr principiou, e cultivou para que se tor-
ne a reduzir a seu principio santo, e ao verdadeiro chris-
tianismo, que ter perdido>.























DO 2.0 VOLUME

(Relagdo dos primeiros religiosos da or-
dem dos dominicanos que foram prlga/r
o Sagrado Evangelho a muitas parties
do Oriente, onde Frei Jodo dos Santos
tambem foi).















ESCLARECE-NOS este segundo volume que a Eti6pia
Oriental ndo trata sbmente da Eti6pia ou da Afri-
ca: trata das coisas do Oriente, e, mais prbpria-
mente, de varia hist6ria>.
Abre este volume por um frontispicio diferente dos
primeiros, luxuosamente decorado por uma gravura
central representando a Virgem com o Menino, visi-
tando S. Domingos, e por outras duas, laterals, de vul-
tos femininos.
Encima-o, em quadro, a seguinte legend:

Efites in mundfi vni-
uersum, proedicate EuA-
gelium omni creauoe
Marc. 16.

Seguindo-se esta:

OPUS FAC EUANGELISTOE, MINISTERIUM
TUUM IMPLE. 2. TIMOTH. 4.

E ladeando a gravura, lIem-se ainda estas duas:

PUGNAT VERBO, & MIRACULIS, MISSIS
PER ORBEM FRATIBUS,









Vem depois o titulo:


VARIA HISTO
RIA DE COUSAS NO
TAVEIS DO ORIENTED.
E DA CHRISTANDADE QUE OS RELIGIOSOS DA
ORDE DOS PREGADORES NELL FIZERAO.
SEGUNDA PARTE.
COMPOSTA POLLO P. FR. IOAM
DOS SANTOS DA MESMA ORDEM,
NATURAL DA CIDADE DE EUORA.
DIRIGIDA AO EXCELLENTISSIMO
SENHOR DOM DUARTE, MARQUES DE
FRECHILLA, & MALAGON, & C.
IMPRESSA NO CONUENTO DE S. DOMINGOS DE
EUORA & PRIVILEGIO REAL.
POR MANOEL DE LYRA. ANNO DE 1609

Uma nova citagAo fecha o trabalhado frontispicio:

SUPER MONTEM EXELSUM, ASCENDE
TU, QUI EUANGELIZAS SION. ISA. 40.

Como se v6, nesta segunda parte trata-se da relagio
e obra dos primeiros religiosos da ordem dos dominica-
nos que foram pregar a muitas parties do Oriente, onde
Frei JoAo dos Santos foi tambem, seguindo as pisadas
no trato e na ajuda da conversao das almas, ele como
todos, em sua missbo, zeloso e virtuoso vardo; e isto na








Arm6nia, india, Eti6pia Oriental e terras do Abexim,
onde tiveram morte gldriosa alguns dos que pela f6 de
Cristo pregavam cor zelo e fervor, como sucedeu ao
dominicano eborense, que nestes quatro livros alude:
No primeiro, aos religiosos eminentes em virtudes e
letras que pregaram a fM naquelas terras antes que fos-
sem descobertas pelos Portugueses; no segundo, dos que
foram a elas depois de conquistadas por eles; no ter-
ceiro, na viagem que os religiosos fizeram de Portugal
para a Eti6pia Oriental; e finalmente no quarto, de al-
gumas coisas notaveis que ha nas terras de Goa, Chaul
e Cochim, por serem as principals que os portugueses
possuem na India; dos costumes dos BrAmanes e Jogues
que nelas habitam e dos primeiros descobridores da In-
dia e vice-reis que nela houve atW ao ano de seiscentos
e oito. Dos capuchos e jap5es que foram crucificados
em Japdo por pregarem a f6 de Cristo. De duas vit6rias
insignes que os portugueses alcancaram dos mouros em
nossos tempos. Da cristandade de S. Tom6. E, final-
mente, das coisas not6veis que sucederam na viagem da
india ate A metr6pole.




Antes que o Serenissimo Rei Dom Manuel, de glo-
riosa mem6ria, mandasse descobrir as parties Orientais,
foram as terras descobertas e pisadas pelos religiosos
dos patriarcas S. Domingos e S. Francisco, como clara-









mente consta do itinerario de Marco Paulo Veneto, se-
gudo refere Diogo do Couto:
ticia confusamente o Padre Anselmo (Frei) da ordem
de SHo Domingos, e o Padre Frei Odorico de Frivoli,
da ordem dos menores, os quaes na era de 1247 o papa
Inoc&ncio IV mandou por embaixadores ao grao Cdo
senhor do Cathayo, que era cristio ()>>.
Isto passou-se, portanto, 251 anos antes da descober-
ta pelos Portugueses das indias Orientais, ou seja, pre-
cedendo 337 a ida de Frei Joao dos Santos e de outros
religiosos lusitanos.
Naquela 6poca de tresentos, floresceram figures
como o padre Bartolomeu de Parma, de Bolonha, e um
seu companheiro, igualmente de grandes virtudes, o le-
trado Frei Pedro de Aragdo, que foram martirizados e
sacrificados em dia de Nossa Senhora da Assungdo, cor
varios outros, que de boa vontade se ofereceram ao mar-
tirio pela f6 de Jesus Cristo.
Segue-se um period de acalmia, ate que de novo os
turcos, segundo Joao dos Santos relata, por informagCo
colhida do Arcebispo de Arm6nia, investem aquelas ter-
ras e martirizam o Arcebispo de Narzivan, Dom Frei
Nicolau Fridonix, o prior do convento de S. Joao, cha-
mado Frei Rafael, o padre Frei Matias e outros religio-
sos, bem como alguns cris'tos seculares do mesmo ar-
cebispado, o que motivou dispersdo e at6 abandon, por

(1) Dec. IV da India, liv. 7, C. I,









parte destas falanges, dos conventos, jd repovoados, re-
postos e ampliados na 6poca de quinhentos, quando da
viagem e demora por aquelas paragens, de Joao dos
Santos e seus companheiros.
Refere-se, depois, em outro capitulo, a um epis6dio
passado em 1603, manifestando o seu grande regozijo
pelo facto de nao encontrar impedimentos de maior < que fazem cristandade e de ver e espalhar a fM de Cris'
to no meio da Turquia, e de ter obser-
vado < de glorioso ap6stolo Sao Judas Tadeu, que na P6rsia foi
martirizado, bem como o ferro da langa que passou o
lado de Cristo Redentor>; e de tudo deu nota e fez rela-
gdo para Dom Frei Aleixo de Meneses, arcebispo de Goa.
Joao dos Santos cita em seguida as perseguig~es de
que ele e outros dominicanos foram alvo, por andarem
pregando a palavra de Deus, oferecidos a muitos traba-
Ihos e perseguig~es entire os bdrbaros e infieis que vi-
viam nas parties do Oriente, do Norte e do Sul, e que
edificaram conventos em Valachia, Tiro ou Tropisonda
e outras parties remotissimas do mundo.
E, para confirmar quanto diz, aponta o testemunho
de Frei Elias Petit Gallo, entire o de outros, acrescen-
tando -a relagao dos que foram inquisidores-mores na-
quelas distantes terras, todos sucessores do primeiro,
padre S. Domingos. Fala-nos depois da vida do bemaven-
turado Frei Filipe, inquisidor geral e martir, dando-nos
em seguida largo relato da vida de Frei Elsa, morto aos
74 anos, com 40 de priorado.









Freis Samuel, Tlacavareth, Andr6 e Joao sdo-nos
descritos com interessantes pormenores de actuacgo,
bem como Gaspar da Cruz, Jorge de S. Luzia, Joao Gayo
Ribeiro e Belchior. E surgem, em seguida, descritas com
a mesma simplicidade, as vidas dos Freis Ant6nio Pes-
tana, Simio das Montanhas, Francisco Calassa, Louren-
co Gongalves, Joao Travacos, Jer6nimo da Cruz, Silves-
tre Figueiredo, Lopo Cardoso, Ant6nio Caldeira, Luis
da Fonseca, Jorge da Mota, muitos deles sacrificados
pela religido que pregavam e defendiam.
Refere-se Joao dos Santos em seguida A fundagio
da casa de S. Domingos de Mocambique:
< plantaram a f6 de Cristo em algumas parties da India,
desejosos de a dilatar pelas mais parties do Oriente, pas-
saram As da Eti6pia Oriental para nelas cultivarem o
mato da inculta e agreste gentilidade; estes foram os
padres Jer6nimo do Couto e Pedro Usus Maris; os quaes
fundaram uma casa na ilha de Mogambique, em que
morassem seis ou sete religiosos. Isto foi no tempo que
veio ter a esta ilha o conde de Atouguia Dom Luis de
Ataide, quando foi a segunda vez por vice-rei da India,
que foi no anno de 1577.

Pelo que o dito conde vice-rei deixou os padres em
Mogambique, escolhendo elle em pessoa o sitio para se
fazer o convento.

Desta casa de Mocambique foram algumas vezes reli-









giosos da dita ordem visitar toda esta costa, assim de
Sofala e rios de Cuama, como das ilhas de Quirimba e
costa de Melinde>.
A refer&ncia que em seguida faz A morte dos Freis
Nicolau do Rosario, Joao de Sdo TomAs e Joao da Pie-
dade 6 das mais interessantes descrig6es do classico
Joao dos Santos, que afirma serem mortes ordinariamente offerecidos aos nossos religiosos,
que na cristandade se occupam por a aumentar e di-
latar.
Em outros capitulos alude A fundaqdo de novas ca-
sas e conventos em Malaca e Mogambique, alargando-se
em curiosas descrig6es da acdo dos padres que foram
mandados pregar a f6 pelos reinos de Solor, Timor,
Ende, Camboja e Eti6pia, e ainda Maim, Tarapor, Goa
e Diu.
Ao referir-se ao bispo de Malaca, conta muitos fei-
tos, de entire os quais um merece ser citado:
cerco grande, e sabendo um dia que o vice-rei Dom Luis
de Atayde estava mui enfadado e opprimido pela infi-
nidade dos mouros que o Idalcao tinha juntos para en-
trar na ilha de Goa (com cuja comparaqgo o numero de
portugueses era muito pequeno para Ihe poderem resis-
tir) saiu-se de sua casa e foi visitar o vice-rei e disse-
-Ihe as palavras seguintes:
inimigos contra si, antes se alegre, e de muitas gragas a
Nosso Senhor, porque amanha tera uma gloriosa vit6ria









contra todos eles, de modo que larguem o cerco, com
muita confused e vergonha sua, e se recolham para suas
terras, deixando muita parte de seus companheiros mor-
tos na batalha, que ha-de custar muito pouco sangue de
portugueses>.
Com estas palavras ficou o vice-rei mui animado e
confiado porque bem conhecia que um tal prelado a
quem elle e todos tinham por santo, ndo afirmava se-
melhantes coisas sem espirito de Deus e que por suas
orag~es alcangaria victoria de seus inimigos, como de
feito alcancou, porque aquella noute cometeram os mou-
ros a entrada da ilha de Goa por um pass seco, e lan-
gando muitos mouros em uma linha (que de entdo at6
agora se chama dos mortos pelos muitos infi6is que os
portugueses nella mataram) quiz Nosso Senhor que to-
dos fossem vencidos ou mortos A espada de modo que
o inimigo, vendo a melhor da sua gente morta e sua for-
ga destruida, levantou o cerco e fugiu vergonhosa-
mente>.
< vernar o seu bispado, Ihe fez Nosso Senhor mui notaveis
merces em muitas occasioes. Uma .dellas foi amaldigoar
os reym6es (que 6 uma especie de feras muito mais
crueis e carniceiras e de muito mais medonha e espan-
tosa catadura que os tigres) os quais eram tantos na-
quelles matos de Malaca, que ninguem ousava sair da
cidade a buscar lenha, porque sahiam do mato estas
feras e matavam e comiam muita gente. E tAo crueis
eram, que dentro a cidade vinham de noute apanhar









gente que apanhavam descuidada. Mas tanto que este
santo vardo entrou em Malaca e soube o estrago que os
reym6es faziam nella, foi-se a entrada do mato cor cruz
levantada e agua benta e benzeu todos os matos e amal-
dicoou os reym6es, mandando-lhe da parte de Deus que
nao viessem alli mais, e de entio at6 agora nunca se
mais viram no termo e confins de Malaca>.
Estari porventura aqui, na descrigdo deste epis6dio,
em semelhantes terms, um dos apontados exageros de
Frei Joao dos Santos?
Dando de barato que assim fosse, perdoe-se-lhe pela
inten go, que era, evidentmente, das melhores, e re-
conhega-se que os seus coevos e sucedineos, nio deixa-
vam, por vezes (com fins e inteng~es menos elevadas),
em cr6nicas ou descrigSes, de ampliar> um pouco o fru-
to das suas observag~es e as pr6prias fontes informati-
vas. Isto tal attitude 6 muito diferente do apodo de
, com que o
por vezes.
E voltando ao bispo de Goa:
*de Deus porque Ihe tolhia certos tratos ilicitos que tinha.
E para isso fez um manjar de leite e agucar, a que na
India chamam Siricaya (que 6 um comer muito exce-
lente e deitou-lhe dentro pegonha, e ordenou por ter-
ceira pessoa que esta iguaria fosse presentada na mesa
do bispo, quando jantasse; mas elle tanto que a viu dian-
te de si, disse que a tomassem e langassem no rio ou a
enterrassem, e que ninguem comesse della; nao querendo









contudo dizer que tinha pegonha, por nao infamar quem
tanto mal tinha ordenado.
O que vendo o dispenseiro do bispo mandou tirar a
iguaria da mesa, dizendo que lha guardassem para elle
mesmo por em effeito o que o bispo mandava; e depois
disso comeu della; parecendo-lhe deixara de a comer por
estar muito delliciosa, e que ndo teria outro mal.
Mas tanto que comeu, logo sentiu em si os effeitos
da peconha da qual inchou, e morreu em breve tempo>>.
Outro sucesso digno de registo, passado cor o mes-
mo bispo, foi o das naus; uma nova e outra velha, na
filtima das quais o bispo preferiu embarcar, visto que
todos queriam viajar na nova. Esta perdeu-se na via-
gem, e a velha, cor o bispo, chegou a porto de salva-
mento, sem mal algum no percurso.
Nos capitulos finals dos segundo, terceiro e quarto
livros do segundo volume, faz Frei Joio dos Santos a
descrig~o do que foi a viagem dos vinte e quatro reli-
giosos que cor ele foram is cristandades da Eti6pia
Oriental no citado ano de 1586, das dificuldades desse
minist6rio, em que eram poucos os obreiros e grande a
obra e a sementeira; e cita os nomes:
Freis Tomas de Brito, Francisco de Matos, Luis de
Brito, Francisco da Cunha, Gaspar Teixeira, Jer6nimo
de Sao Tomas. Joao da Piedade, Jer6nimo de SHo Do-
mingos da Visitag~o, Serafim de Cristo; Cosmo Car-
reira, Joao Lopes, Joao de Sao Paulo, Joao Frausto,
PantaleHo da Silva e outros irmqos, incluindo o pr6prio
Joao dos Santos, que declara ter feito tal roteiro








lembranca das muitas e grandes merces que Deus fez
em tao larga peregrinago,.
Joao dos Santos embarcou na nau <, sen-
do nela seus companheiros os padres Domingos Gomes,
Francisco da Silva, Diogo Barreira, Jer6nimo Lopes,
Miguel dos Anjos e Ant6nio de Sio Jorge (leigo).
< (Sao Tom6, Caranja, Sao Filipe e Salvador), que partiu
de Lisboa a 13 de Abril, sendo a chegada de tres delas
a Mocambique a 13 de Agosto e das duas outras no dia
seguinte; ap6s a chegada, relata cenas de naufragio e
perdiCgo que emparceiram, sem favor, pelo descritivo e
dramaticismo que Ihes empresta, ao lado das melhores
da nossa <, acrescidas de
fino espirito de observacgo, decerto treinada e agucada
naquelas andangas dos largos anos que por lh mis-
sionou:
< de Sofala pelos matos de que a fortaleza estA toda cer-
cada onde ha muitos elefantes, bufaras bravas e outros
bichos; dos quais muitas vezes encontrei alguns a caso
e pela misericordia de Deus nunca me fizeram mal al-
gum, e assim me livrou sempre dos perigos do mar e da
terra; pelo que Ihe dou muitas gragas.
Apontei aqui estes casos para que se veja a quantos
perigos andam os nossos religiosos offerecidos nestas
parties pelo augmento desta christandade.
Uma que outra vez JoHo dos Santos vai descrevendo,
sempre cor a mesma simplicidade e clareza, aliadas ao









seu cong6nito poder de observagdo, os naufr6gios a que
assistiu ou de que teve conhecimento, as lutas, as vicissi-
tudes, as dificuldades e os cuidados, as notiveis coisas
que viu, incluindo o desterro das feiticeiras que por 1
encontrou; o auto de f6 de uma mesquita feita a um
mouro rico que era venerado como santo; as medidas
para acabar com abuses dos habitantes da ilha de Qui-
rimba; a perdicgo da nau e de outra,
, que os ingleses queimaram; o seu encontro
cor os cafres que roubaram e maltrataram Manuel de
Sousa e sua mulher Dona Leonor (1); sua viagem de
Mogambique para a india e a nota dos primeiros con-
quistadores da india Oriental, das primeiras armadas
que a ela foram e dos vice-reis do tempo de Dom Ma-
nuel, Dom Jodo III e Dom Sebastiao at6 o ano de 1608
- sem esquecer, evidentemente, a Dom Francisco Cou-
tinho, conde de Redondo, que para 16 partiu em 1561 e
16 morreu em 1564.
E digno de transcrigSo o apontamento em que refere
a < < (1604), vice-rei, se soube de um home que havia no
reino de Bengala que era de 380 anos. 0 bispo de
Cochim, que ora 6 Dom Frei Andr6 de Santa Maria
mandou tirar uma larga inquiricio delle, e de sua eda-
de, pelos religiosos, e clerigos, que andam naquelle rei-

(1) In <, de Bernardo Gomes de
Brito (Naufragio de Sepfilveda).









no, os quais neste caso fizeram grande exame e acharam
que este home era Bengala de nacgo e havia 380 anos
que vivia. Lembrava-se de dezanove reis que reinaram
duzentos e cincoenta annos no reino de Horond, sua
patria. Nasceu de paes gentios e elle o foi muitos annos
e depois se fez mouro como ainda era neste tempo. Foi
casado oito vezes e teve filhos, netos, bisnetos e tresne-
tos, e alguns morreram velhos. Depois que Ihe morreu
a oitava mother esteve quarenta annos viuvo, at6 o anno
de 605, no qual tornou a casar e tinha a mother prenhe
de oito mezes. Nunca foi doente nem sangrado nem sen-
tiu falta de visit. Os dentes Ihe cairam trez vezes e
outras trez Ihe tornaram a nascer>.
Depois desta curiosa citag~o, fala-nos Jodo dos San-
tos dos costumes dos brAmanes, sacrificios e pagodes,
iniciando, no capitulo XVIII.0, a narrative do regresso
de Goa para Cochim, vindo jA de viagem para Portugal,
como capeldo da nau Sao Simdo, por mandado do vice-
-rei Dom Francisco da Gama, e que teve inicio em 8 de
Dezembro de 1599.
Aproveita o dominicano esta viagem para fazer no-
vas e valiosas descrig~es de locais, homes, costumes,
faunas e floras, bem assim de alguns percalgos que du-
rante a mesma advieram, como a luta com holandeses
na ilha de Santa Helena, o desembarque na mesma e na
da Ascencgo, terminando deste modo o seu elucidativo
e precise livro:
cencao, que esta em oito graus da banda do Sul, duzen-









tas legoas da ilha de Santa Helena e outras tantas da
linha equinocial. E de sete ou oito legoas de comprido,
terra mui baixa, e quasi toda de areia solta. Nao tem
arvoredo nem agoa doce para beber. P deshabitada mas
nao de pissaros, porque sHo infinitos os que nella criam.
Defronte desta ilha foi necessario abrirem-se os escuti-
lh6es da nao todos at6 o porao; e por desastre cahiu um
home de cima do convez em baixo sobre o lastro, que
sao mais de trinta palmos de altura; e quiz Deus por
intercessao da Virgem Nossa Senhora do Rosario que
nao perigasse, porque elle me disse, que quando cahiu
andava rezando o seu rosario, que indo pelo ar, se en-
comendou a Ella de todo o seu corago, e que sem falta
Ihe parecia, que Nossa Senhora fizera milagre por elle.
Aos dezoito de junho passamos a linha do Sul para
o Norte, onde tivemos muitas calmarias e grandes tro-
voadas e chuveiros; e com elles andamos at6 vinte seis
do dito mez; no qual dia encontramos uma caravella em
altura de sete graos, da banda do Norte, a qual vinha
do Brazil carregada de assucar, da Bahia de todos os
Santos, e fazia sua viagem para Portugal e vinha ji
meia destrogada das trovoadas, corn algumas velas rotas
e mastareos quebrados. Mas tanto que chegou a n6s logo
foi remediada do que Ihe faltava, porque tudo se Ihe deu
das nossas naos, e veio em nossa companhia atW Lisboa.
Aos II de julho comecamos a entrar por um mar a
que os mareantes chamam Volta do Sargago; e a cousa
6 porque todo 6 cheio de sargago, o qual anda solto sobre
a agoa de uma parte para outra ao som do vento.









Este sargago comegamos achar em altura de vinte
e quatro graos da banda do Norte, e foi continuando atW
trinta e seis graos que sao duzentas e trinta legoas de
mar, pouco mais ou menos. Nesta volta tivemos muitas
calmarias, quasi um mez, onde passaram todas as naos
muitos trabalhos, e enfadamentos, e em todas houve
muitas doengas, particularmente uma a que chamam
mal de Loando, que ordinariamente da nos escravos,
da ilha de Santa Helena at6 Portugal e tambem 6 mul
commum em Angola.
Esta tanto que da em uma pessoa, faz-lhe inchar a
barriga, e vai-lhe subindo esta inchagdo at6 os peitos,
e como da no coragdo mata. Desta doenga e de febres
morreram em a nao capitaina passante de cem pessoas;
entire as quaes falleceu um padre Sao Domingos, cha-
mado Frei Luiz de Brito, que vinha por capelao da nao.
Na nossa nao duas na briga dos hollandezes, e uma que cahiu ao mar,
e quatro de doenga, da qual eu tambem tive minha parte
nesta viagem, por duas ou trez vezes.
Depois que passamos esta Volta do Sargago, ou para
melhor dizer de nossos trabalhos, doengas e mortes, vie-
mos continuando nossa viagem para fora da ilha do Cor-
vo, ate altura de quarenta e dois graos da banda do
Norte. Donde fizemos volta para Portugal aos nove de
agosto, navegando sempre a Leste com vento tao rijo,
que parecia de tormenta, e tao frio, como se fora em
janeiro. Chegamos a vista de Portugal, que foram as
ilhas das berlengas, oito legoas de Cascaes, aos vinte e









dois do dito mez e no mesmo dia, ji cor duas horas de
noute, vieram todas as cinco naos juntamente lancar
ancora em Cascaes, onde estivemos o dia seguinte; e aos
vinte e quatro, dia de Sio Bartolomeu, entramos pelo
rio de Lisboa cor muita alegria, e langamos ancora de-
fronte dos pagos d'E1-Rei, a salvamento.
Pelo que dou muitas gragas a Deus, e Elle seja lou-
vado para todo sempre. Amen.>

FINIS LAUS DEO

















































Este livro realizado pela Atica,
Limitada, Rua das Chagas, 23 a
27, Lisboa, foi composto e impres-
so durante o mes de Junho de 1951




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