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HIDE
 Front Cover
 Half Title
 Title Page
 Explicando
 A riqueza de motivos folcloricos...
 Lendas do vale caririense
 Lapinha e pastoris
 Tracoma e folclore
 O aboio em versos
 Louvacao ao cariri - ainda a presenca...
 Maneiro-pau
 Bandas cabacais do cariri
 Outros motivos folcloricos
 Conclusao
 Table of Contents
 Back Matter
 Back Cover














Title: O folclore no Cariri
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00075954/00001
 Material Information
Title: O folclore no Cariri
Physical Description: 112 p. : illus., music. ; 23 cm.
Language: Spanish
Creator: Figueiredo, Josâe Alves de, 1904-
Publisher: Imprensa Universitâaria do Cearâa
Place of Publication: Fortaleza
Publication Date: 1962
 Subjects
Subject: Folklore -- Brazil -- Cearâa (State)   ( lcsh )
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: por J. de Figueiredo Filho.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00075954
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 01936425
lccn - 68035937

Table of Contents
    Front Cover
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    Half Title
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    Explicando
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    A riqueza de motivos folcloricos do cariri
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    Lendas do vale caririense
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    Lapinha e pastoris
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    Tracoma e folclore
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    O aboio em versos
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    Louvacao ao cariri - ainda a presenca da bahia
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    Maneiro-pau
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    Bandas cabacais do cariri
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    Outros motivos folcloricos
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    Conclusao
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Full Text












-IM


























































.i.



























__ __ __ __ __ __ __E

-A d











J. DE FIGUEIREDO FILHO repre-
senta a figure tipica do intellectual
provinciano, voltado inteiramente
para a vida e para os problems
de sua terra.
A paisagem caririense ter
sido um marco constant em todos
os seus trabalhos, constituindo
esse fato uma nota de singular
importdncia em t6da a sua tra-
jet6ria como home de letras.
Tendo iniciado as suas ativi-
dades jornalisticas no decenio
1920-1930, period em que milita-
ram na imprensa cratense nomes
como Manuel Nobre, Santino
Gomes de Matos, Martins Filho,
Martins d'Alvarez e Pedro Felicio,
somente em 1941 fazia J. de
Figueiredo Filho a sua estrdia na
literature, jd como escritor, pu-
blicando pela Livraria Edit6ra
Odeon, de Sdo Paulo, o romance
de costumes sociais "Renovagdo"
(escrito em 1937).
"Meu Mundo e uma Farmdcia"
(mem6rias de um farmacdutico)
foi o segundo livro de J. de Figuei-
redo Filho, dessa feita langado
pelo Instituto Progresso Editorial
S.A. (IP), de Sdo Paulo, em 1948.
Aspecto interessante dessa obra e
a descrigdo da antiga Farmdcia
Central, quando seu pai, Josd Alves
de Figueiredo, atraia para dsse es-
tabelecimento commercial todos os
intelectuais do seu tempo.
Alem dos misteres de jorna-
lista, escritor e professor em vd-
rios educanddrios da cidade do
Crato, outra atividade veio jun-
tar-se aos afazeres de J. de Fi-
gueiredo Filho, a partir de 1953.




















O FOLCLORE NO CARIRI






J. DE FIGUEIREDO FILHO


0

FOLCLORE

NO CARIRI




LATIN AMERICAN COLLECTION
U.NIV',.r-T OF FLORID- .
O ", .. ,r ,"

L_



I*T


IMPRENSA UNIVERSITARIA DO CEARA

































A minha esp6sa Zuleika, companheira
dedicada de trinta e tres anos de vida,
em perfeita comunhao de dores, so-
frimento e alegria.

Aos filhos, amigos de t6das as horas:

Regina
Eneida
Caubi
J6sio













EXPLICANDO


Por intermedio da Imprensa Universitdria do Ceard, que
estd fazendo o movimento cultural de maior grandeza, em exten-
sdo e profundidade, que jd houve em plagas alencarinas, lanfo
"0 Folclore no Cariri". 0 Cariri n;o poderia ficar isolado dessa
ebulifao de inteligoncia que se process no organismo cearense,
tendo como principal propulsionador essa figure incontestdvel
de lider, que e o Magnifico Reitor Ant6nio Martins Filho.
Desde outubro de 1953, por ocasiao das empolgantes festi-
vidades, em comemorafio ao centendrio de elevafeo do Crato d
categoria de cidade, que o folclore caririense apareceu, cor t6da
a sua pujanfa. Para figurar naqueles festejos, foi precise muito
esf6rfo do grupo intellectual, que depois fundou o Instituto
Cultural do Cariri. Ainda existia certo ranfo de prevenfao contra
os folguedos que nasceram da vida an6nima do povo simples,
dos brejos e pes-de-serra. Mas, tudo foi contornado e vencido
pela gente que lia e escrevia, na traditional e progressista cidade
do Crato.
0 efeito das exibif6es folcldricas no recinto da Feira de
Amostras, maior centro de atrafio das festividades centendrias,
foi dos mais brilhantes e surpreendeu os pr6prios filhos da terra.
0 folclore regional assim criou alento e n;o ficou mais escondido
nos sitios caririenses.
Fundado o Instituto Cultural do Cariri, congregando a elite
intellectual da zona, procurou logo animd-lo e incentivd-lo.
Pouco, no entanto, se ter escrito s6bre o folclore caririense.
Apenas alguns artigos esparsos, em jornais e revistas do Ceard
e de fora. Impunha-se, portanto, um trabalho de concatenagao
de tantos motives que enchem a regiao e que nos vieram de urn
passado bem remote. E isso me propus a fazer, embora me faltem
qualidades essenciais, corn muito excess de boa vontade. Desde








crianfa, atravds dos sitios onde more, venho tendo contact corn
o povo bom e acolhedor da zona rural de minha terra. Ainda
hoje, tenho boas amizades cor aquela gente simples porque, por
vdrios anos, trabalhei no interior de uma farmdcia, tendo con-
tato direto cor a populafao interiorana de extensa zona.
Nesta monografia procuro, outrossim, desenvolver e corn-
provar a tese de que a colonizaplo do Cariri, de ac6rdo com o seu
folclore, se procedeu de maneira diverse do restante do Ceard.
Tambdm nao descreverei minuciosamente todos os motives exis-
tentes na regiao, pois muitos ddles tem carter national e atd
international, jd estando sobejamente debatidos em livros, revis-
tas e jornais.
Nao pararei aqui, nesta inica monografia. Se Deus me der
fdrfas, prosseguirei na jornada, pois o campo e vastissimo a pes-
quisar, neste vale prodigioso de encantos e de mil motives. Nao
pretend tambdm ficar s6zinho neste setor, que, sendo tMo extenso,
e eterno convite aos estudiosos para desvendar-lhe as belezas
ainda encobertas aos olhos de muitos.
Neste trabalho, alim do esfdrco pr6prio, encontrei a ajuda
sincera de muitos amigos, cons6cios do Instituto Cultural do
Cariri, entire os quais, o Pe. Antonio Gomes de Arazijo, capitao
Otacilio Anselmo, F. S. Nascimento, deputado Ant6nio de
Alencar Araripe, Antdnio Correia Coelho, Lindemberg Aquino
e Herm6genes Martins.
Nao me limited a servir-me nicamente da prata de casa.
Citei mestres do folclore national e international. Mas, quando
os fatos locais, observados lealmente por mim, me permitiam
discordar de abalizadas opini6es, nao tive medo de contrarid-los,
sem qualquer pretensao exibicionista.
"O Folclore no Cariri" 6 a modest contribuifao de um
observador interiorano, para a cidncia folcldrica, hoje integrada
d cultural geral, e 4, tambdm, produto da feliz e dindmica
atuafao da Universidade do Ceard no meio caririense.

J. DE FIGUEIREDO FILHO


Crato, marco de 1960.















CAPITULO I


A RIQUEZA DE MOTIVOS FOLCLORICOS DO
CARIRI


Mesmo cor o progress que comegou a penetrar no
Cariri, e ap6s long period de menosprezo pelas elites,
por tudo quanto era genuinamente nosso, o folclore
d6ste pedago important da terra cearense continue bem
vivo, sendo at6 mesmo dos mais caracteristicos do Nor-
deste brasileiro. Pelo milagre da pertinAcia do caboclo
dos p6s-de-serra, brejos e bairros citadinos, conserva-
ram-se, mais ou menos puras, muitas das tradic~es que
o tempo ndo conseguiu destruir. Folclore, conforme diz o
mestre dos mestres no assunto, o escritor norte-rio-gran-
dense Luis da CAmara Cascudo (1), "6 a ci6ncia da psico-
logia coletiva, observada atrav6s de pesquisas a t6das as
manifestag6es espirituais, materials e culturais do povo.
Nenhuma ci6ncia como o folclore possui maior espago de
pesquisa e aproximacgo humana. Cultura do geral no
home, da tradigio e do mil6nio na atualidade, do her6ico
no cotidiano, 6 uma verdadeira hist6ria normal do povo.
Seu nascimento nominal f oi a proposta de William
Thors (1803-1885), na revista londrina Ateneu, em 22
de ag6sto de 1846, dando a vocabulo folclore a expressed
abrangedora da literature oral, substituindo o popular
Antiquities. Thors era arque6logo e o nascente folclore
(1) Dicionkrio do Folclore Brasileiro Minist6rio da EducagAo e Cultura
1954.








subordinava-se A arqueologia e A hist6ria. Cem anos de-
pois, com o Riche et Mouvante Complexit6 do objeto fol-
cl6rico, como escreveu George Henri Rivibre, a defini-
gdo e campo de estudos constituem debate ainda aberto.
A estreita interdependencia com a etnografia, sociologia,
novelistica, psicologia experimental, antropologia cultu-
ral, justifica a frase de A. Marinus: il ne faut pas s'inque-
ter de savoir se commence, of s'arrete le folklore. Para
n6s, compreende o canto, danga, mrsica e etnografia,
desde que a participagio popular mantenha as caracteris-
ticas do fato folcl6rico, antigiiidade, persistincia, orali-
dade e permanencia" (2).
Quando comecei a ter conhecimento do mundo, o
Cariri vivia o period de apogeu de seu folclore. A festa
mAxima de Crato, a da Padroeira, Nossa Senhora da
Penha, coincidia com o primeiro de janeiro. Todos os
festejos de origem popular desfilavam pelas ruas e pra-
gas da cidade. Meus olhos de crianga deslumbravam-se
com a multiplicidade de c6res do reisado, cor os passes
dos figurantes do bumba-meu-boi, com a mlisica-de-couro,
com elements fardados, tendo na cabega casquete com
froco, chamado por todos de bolota, o qual, superposto na
parte dianteira, se balangava ao menor movimento.
Imitavam assim a policia do tempo de Aci6li. Presenciei,
embasbacado, a danga do reisado, com cavaleiros de c6res
berrantes, predominando o encarnado, e capacetes enfei-
tados de espelhinhos e lantejoulas. Manejavam espadas
de pau prateadas, tdo solenemente compenetrados, que
pareciam autenticos guerreiros medievais em refregas
ou torneios. Via, embevecido, o lengo de chita vermelha,
verde ou azul, a ser langado A assist&ncia, a fim de colh6r
os niqueis e cobres, moedas divisionArias daquele tempo,
quando a gente atW ignorava o significado do trrmo in-
flagdo. Mas ndo me cansava daquelas festas, cantadas
e dangadas ao som do fole, ou da viola dedilhada com
habilidade, para os meus ouvidos, um tanto incipientes,

(2) Idem, ibidem, pigs. 268 e 269.








de entio. Ndo tinha vontade de sair mais do ambiente,
onde imperava a fung&o. O medo da surra de meu pai, ou
das repreens6es de minha mae, pela demora em voltar h
casa, forgava-me a interromper, constrangido, a diversao.
Depois, la vinha o bumba-meu-boi. Para esse fol-
guedo, ia sempre acompanhado de meus pais. Havia a
figure que metia medo aos meninos e, por isso, tinha de
ir acompanhando a familiar. O Mateus, encaretado, pin-
tado de carvdo, munido de chicote a zinir no ar, repre-
sentava o mesmo papel do careta, no carnaval de outrora.
Chicoteava, sem que nem pra que. Falava grosso, dizia
pilh6ria aos presents e amedrontava as criangas, nota-
damente os moleques da rua. E havia o c6lebre e temi-
vel clister no boi. Quem nio tinha horror de servir de
clister para levantar o boi, depois que morria, no meio
da cena pat6tica dos Mateus! Contavam, em Crato, que
s6 o major Jos6 Gongalves, quando pequeno, nunca se
arreceara de servir de rem6dio nos traseiros do boi.
Munia-se de alfinkte e quando o aproximavam do bicho,
com sua armadura de pano, metia-lhe a alfinetada, sem
d6 nem piedade. O boi esperneava, vivinho da silva e, em
vez de mugir, como todo o bovino, gritava em tom dorido,
cor voz inteiramente humana. Mas, nem todo o menino
tinha artimanhas de Pedro Malazarte ou Cancdo de Fogo,
como o traquinas Jos6 Gongalves, depois pacato e hon-
rado cidaddo, padrdo de vida exemplar para todo o
Crato.
O figurante mais simpatico da fungdo era a Zabeli-
nha. Entrava faceira, com sua indumentAria de burri-
nha. As a (?) unAnimes se voltavam para ela. O Mateus
entoava:


Zabelinha foi A missa
Num cavalo sem espora,
O cavalo deu um pulo,
Zabelinha saltou fora.








Aquilo era a graca do folguedo e seus versos e toada
perduravam, de b6ca em b6ca, em meio da criangada.
Ficava tVo popularizado quanto os do "meu boi morreu".
Era a cantilena chorosa ap6s a morte simulada do boi.
Mas aquela funcgo quase passou da paisagem folcl6rica
caririense. Sobrevive bem mutilada. Havia families que
se dedicavam ao folguedo, transmitindo-o de pais a fi-
Ihos e de filhos a netos. A tradicgo ficava oralmente ou
em manuscrito bem manuseado e sujo. Tive ocasiAo de
ver um deles. Nada copiei porque se confundia com
quase todos os que j~ foram pesquisados, na brincadeira
do bumba-meu-boi, pelo Brasil afora.
Mas, falemos um pouco de mfisica-de-couro, antes
de nos embrenharmos em certas particularidades, em
capitulo especial. O major Jos6 Gongalves, cujo titulo
nada tem de relacgo com a carreira military, tinha predi-
legio especial pelos conjuntos de banda-de-couro ou
cabagal. Organizava-os e supervisionava-os com cari-
nho. Constituiu-se uma esp6cie de lider dos pifeiros e
zabumbeiros. Na visit que D. Manuel, bispo do Ceard,
fez ao Crato, em 1909, organizou uma trintena de caba-
gais, com os components todos fardados. Usaram farda
por muito tempo, at6 que foram se reduzindo com o pro-
gresso e refugiando-se inicamente nos sitios. Em certo
tempo, passaram a ser autenticos representantes do car-
rancismo, ja dignos de serem eliminados das cidades mais
pr6speras.
Da mesma forma que testemunhei o period Aureo
das mfisicas-de-couro, tamb6m assist a sua decadencia.
A luta se travou, em nome da civilizaglo que penetrava
no vale, contra as velharias que nos prendiam ao passado.
O zabumba tinha de desaparecer, para que o forasteiro
litorAneo ndo o surpreendesse a tocar em instruments
tao bisonhos e primitivos, em pleno centro citadino de
Crato, que comecava a instalar col6gios, iluminar-se A
eletricidade, ter jornais e cinemas. Meu pai, Jos6 Alves
de Figueiredo, prefeito naquela 6poca, foi dos que, mais
denodadamente, travaram luta contra o conjunto musi-







cal, tido como arcaico. Combatia-o em nome das coisas
novas. Proibiu a exibigio das cabagais em dias comuns,
e at6 nas feiras, a desfilarem pelas ruas. Os progressistas
de entio o aplaudiram, mas o bom vigario Mons.
Francisco de Assis Feitosa seu parent e compare,
zangou-se. Contava cor elas para ajudar-lhes nas festas
da Padroeira. Andou de cara virada para o seu compare
Zuza da Botica, at& que o tempo e o relaxamento da me-
dida proibitiva sanaram definitivamente aquelas turras
de pouca monta.
Naquele tempo, de grande renovagio da cidade, per-
maneci indiferente A sorte das bandas-de-couro, com seus
pifeiros, zabumbeiros, ou simplesmente musgueiros. Uma
delas me provocara, quando crianga, s6rio acidente, que
me magoou bastante e defeituou-me por certo tempo.
EstAvamos em plena feira. Brincava eu, descuidosamente,
no interior de casa, A Rua Formosa, hoje Santos Dumont,
quando ouvi a cabagal tocar nas proximidades. Corri, a
mais depressa possivel, para a rua, a fim de v6-la e ouvi-la
melhor. Ao sair de casa, dei terrivel encontrio em um
transeunte apressado, indo esborrachar-me na calgada,
quebrando, de uma s6 vez, todos os incisivos superiores.
Foi uma calamidade para a familiar, com minha mae a
chorar e a tentar consolar-me, infrutiferamente. Meu
pai, que f6ra chamado na farmAcia para o curative de
urgencia, por forga queria saber qual o protagonista
daquele encontrio. Nem eu mesmo o conhecia. Ao sair,
s6 tinha ouvidos e olhos para a cabagal que passava, com
o porta-bandeira, de casa em casa, a tirar esmolas para
o santo, empunhando uma bandeja a mao direita.
Mas, nao fiquei infenso aos pifeiros e zabumbeiros.
Se aprovei depois, ja rapazinho, o ato proibitivo de meu
pai, foi exclusivamente por amor ao progress, em luta
para desalojar de Crato um arcaismo que ja estava na
6poca de ser eliminado do cenArio citadino.
Outra festa que fazia parte integrante do ciclo de
Natal e Ano Bom era a lapinha, com suas pastorinhas,
ainda nao sofisticadas pelas radioemissoras. Cantavam ao








som de maracas, visitando, em conjunto, os presepios da
cidade, ou saiam de duas em duas, pedindo esmolas nas
resid6ncias, bancas de feira, bodega e loias:

Dai-me uma esmola,
Pelo amor de Deus,
Que nao 6 pra mim,
Mas pro Menino Deus!

No dia 6 de janeiro, processava-se a cerim6nia de
queima da lapinha. Retiravam-se os santos e objetos de
valor e tocava-se fogo nas palhas e pap6is de enfeite, sob
canticos apropriados das pastorinhas e curiosidade da me-
ninada, sempre alegre e traquina. Aquela fogueira era
como se queimasse tamb6m um pedago do coragdo da
gente. Ficava uma sensacgo esquisita dentro de n6s.
E a mesma que sentimos agora, ao relembrarmos a sin-
geleza das festinhas de outrora, de nosso tempo de
crianga. FicAvamos como a sentir um vdcuo bem no
Amago de nossa alma. Era a perda de uma coisa boa
que custava a voltar. Tinhamos de esperar outro ano para
o pres6pio retornar, com todo o seu encantamento: o
Menino Deus na manjedoura, o cheiro bom do mato ver-
de, as pastorinhas a cantarem, ao compasso do maracA de
flandres! A sensacgo de hoje 6 maior ainda. Nao temos
mais esperanga da volta de nossa lapinha. Mesmo que
vejamos ou ougamos os pastoris, na RAdio ou outras, a
tentarem imitar os de nosso tempo de meninice, nao
podemos deixar de sentir o corag~o a pungir de saudades,
porque jA nZo veremos t6das aquelas coisas, com o sabor
inocente de crianga.
Vivi, alguns anos, em sitio dos p6s-de-serra cariri-
enses. Presenciei moagens. Montei em almanjarras e em
bois mansos de engenho. Ouvi anedotas de cambiteiros e
as mais extravagantes adivinhaSges. Pela primeira vez,
tive ali contact com cantadores de p6-de-viela. Teste-
munhei o baido primitive, tocado e dangado pelos cabo-
clos, com trejeitos muiltiplos. Tudo aquilo tinha sabor








especial para mim. Hoje, revejo aquelas cenas, bem vivas
ainda, na mem6ria. Quando se reproduzem agora, em
minha presenga, com outras personagens e noutro cena-
rio, sinto-me frio, cor alma cansada, como se f6sse outra
pessoa, com outros pensamentos, cor diferente modo de
viver.
O folclore caririense, apesar de todos os empecilhos,
conseguiu sobreviver. Ao period de menosprezo das eli-
tes, houve outro de ressurgimento. Conv6m frisar o
papel relevant do Instituto Cultural do Cariri, em reani-
mn-lo e igualmente o da par6quia de Nossa Senhora da
Penha, tendo A frente o infatigAvel e compreensivel cura
da Se pe. Rubens Gondim L6ssio. Ja nao se esconde
no mato e pode aparecer, em plena cidade, aos olhos
avidos do visitante de fora. O litorAneo nao o despreza.
Antes o aprecia e, quando intellectual, se contamina do
mais sadio entusiasmo. Fez parte, com galhardia, do
program de festividades, em 1953, do centenArio de ele-
vagdo de Crato A categoria de cidade, conseguindo atrair
maior curiosidade do que as comemorag6es de natureza
artistic, dado o ineditismo para os visitantes vindos do
litoral.
O folclore do Cariri, conservado quase puro ainda,
apesar dos abrolhos surgidos em seu caminho, ainda 6
outra grande prova de que a colonizag~o do vale foi reali-
zada por elements que nao procederam do norte cearen-
se. Em Fortaleza e arredores nao se conhece o zabumba-
-de-couro. f quase desconhecido ali o maneiro-pau.
Nunca se dangou o milindo nas praias cearenses e circun-
vizinhanga.
Todos os folguedos difundidos no sul do CearA, en-
contram, no entanto, similares em Alagoas, Sergipe, Per-
nambuco e Bahia, e isso com raizes multisseculares. E
mais uma prova da versdo vitoriosa, defendida pelo his- i
toriador pe. Antonio Gomes de Araijo, que demonstrou .
matemAticamente tal influencia, cor a presenga, no
Cariri, de mais de quatrocentas families de origem baiana
e duzentas e tantas sergipanas. Alem disso, ha o entre-








lagamento secular entire caririenses e sertanejos pernam-
bucanos.
A Bahia esta present na vida do Cariri, apesar dos
anos que o separam do contact civilizador da terra
mater do Brasil. Disse-me o mesmo pe. Ant6nio Gomes
que, nas ribeiras do riacho dos Porcos, quando sopra o
vento sul, o povo chama-o simplesmente de baiano. HA
raga de peru, aclimatada na zona caririense, a qual 6 cha-
mada de "baiano". E o motivo musical o baiao, onde
teria nascido? Desde tempos antigos que 6 conhecido,
nestas regi6es e vizinhanga, entire tocadores de fole, can-
tadores, violeiros, zabumbeiros e pifeiros. Pstes ainda
executam o bailo primitive e o saracoteiam, com multi-
plicidade de passes, conservado por tradigio mais do que
secular. O termo baiao nao 6 mais do que corrutela da
palavra baiano.
Conheci familiar, ate minha aparentada, cujo sobre-
nome para os conhecidos era inicamente baiio. Proce-
dia da Bahia e com aquele apelido generalizado esque-
cia-lhe ate o verdadeiro sobrenome. Aquilo lembrava
o estado de origem, ou melhor a provincia, pois vieram
seus troncos para o Cariri, ainda no Imp6rio. A lingua-
gem do povo tornara "baiano" mais aportuguesado, com
o til, tao caracteristico do Brasil e de Portugal. O motivo
e a danga, tfo divulgados, no Pais e at6 no mundo, por
interferencia de dois nordestinos: Luis Gonzaga e Hum-
berto Teixeira, com toda a certeza, originaram-se da tra-
dicional e brasileirissima Bahia.
Em Morais, distrito de Araripina, no Estado de Per-
nambuco, tive conhecimento com certo rapaz vindo em
f&rias, de Sio Paulo. Nascera ali e chamava-se Nl6son.
Por6m, naquelas paragens, nunca Ihe ouvi o nome, a nao
ser totalmente aportuguesado, com a marca bem de casa
- o til. Pai, mde e irmAos, conhecidos e demais parents,
chamavam-no inicamente de Nelsio.
"Baiano danga viva, cor coreografia individual,
permitindo improvisac6es e habilidade de p6 e velocidade
de movimentos de corpo, consagradores na apreciacgo






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Miusica do balio CABORE


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e musica das mais difundidas no interior, tendo penetrado
at6 nos sales, em 6poca de grandes preconceitos de casta,
quando tudo tinha de vir manipulado da velha Europa.
Seria de origem africana? A sua aceitagio por parte da
chamada alta sociedade prova o contrario. Luis Gonzaga,
nascido no municipio pernambucano de Ex6, que 6 quase
subuirbio de Crato, disse-se pessoalmente que o bai~o
ndo ter origem entire negros. O nome indica-nos a pro-
cedencia da Boa Terra, e chegou at6 n6s, pelo mesmo
roteiro das entradas baianas, no tempo da chamada
civilizag~o do ciclo-do-couro.
Ha outras marcas do alem-S. Francisco. Em Brejo
Santo, atW ha bem pouco, havia seis esp6cimes de coco
dende. Outras dessas palmeiras, cujo fruto faz parte
integrante da cozinha baiana, existiam em Mauriti, Mi-
lagres e em Pogo, no municipio brejo-santense. TOda essa
region 6 bem pr6xima do "mais brasileiro dos rios".
O t6rmo rapadura, produto que 6 a riqueza bAsica
da agriculture caririense, veio-nos do Rec6ncavo, pois
esta bem gravado em "Cultura e Opulencia do Brasil",
de Andr6 Jodo Antonil, quando escreveu, magistral-
mente, com a perspicacia jesuitica, o movimentado En-
genho Sergipe, da Bahia.
E tudo que importamos da terra baiana, de Ser-
gipe, Alagoas e Pernambuco, e que ficou na tradigco
do povo, chegou-nos antes da imigracgo provocada pelo
Spe. Cicero Romeo Batista, em JuAzeiro do Norte. S6
Sagora 6 que essa contribuicgo dos romeiros esta sendo,
pouco a pouco, absorvida pelo meio.
O baiao tomou alma nova no Cariri. t o principal
motivo das composig6es musicals dos zabumbeiros e pi-
feiros. E dangado tambem com passes multiformes, e
dedilhado na viola, constituindo a toada dos cantadores
de improvise. Encontra agora outro grande concorrente.
t o baiao sofisticado, criado ou readaptado nos grandes
centros urbanos, inundando assim amplificadoras, radios,
eletrolas e ate o pr6prio repert6rio musical do tocador de
sanfona ou do zabumba-de-couro.








O baigo acompanha muitos dos motives folcl6ricos
nordestinos. P bom documentario do passado, nao s6 na
parte coreogrdfica, phlidamente imitada nas dangas de
saldo, como na parte musical, que sobrevive. Mostra
igualmente todo o sentiment do brasileiro do Nordeste,
produto da miscigenagio de tr6s ragas, em proporgces, um
tanto diferentes, do restante do Brasil.
O folclore nao 6 s6 motive diversional. 2 o term6-
metro de aptid6es diversas de um grupo e a prova da
intelig6ncia criadora de povos, tidos at6 por inferiores,
conforme a err6nea afirmagao das chamadas ragas que
se proclamam superiores ao comum dos mortais.
"Se, de outro lado escreve Thales de Azevedo
(6), procuramos verificar o que significa para uma socie-
dade o seu folclore, verificamos que 6ste nao subsiste sem
determinada funcgo, em outros termos, sem lugar e papel
na ccnfiguragdo cultural respective. As hist6rias, as len-
das, as fabulas, os contos, os prov6rbios, as cang6es, as
adivinhas, a poesia, os mitos e crengas populares t6m ne-
cessAriamente um objetivo Hldico, teol6gico, educational,
normativo, quaisquer que sejam as teorias explicativas,
e origem da sabedoria vulgar. O folclore, sem divida
alguma, incorpora e comunica valores que ddo consisten-
cia e coer6ncia ao sistema s6cio-cultural em que tem seu
lugar e ainda quando servisse simplesmente para oferecer
satisfagdo emotional intima aos individuos, teria a sua
parte na estrutura das personalidades que a cultural sele-
ciona. Nio sbmente entire os "primitivos" mas nas so-
ciedades "civilizadas", ensina Malinowski, o conto, a
lenda, o mito, em suma o folclore, vivem no context cul-
tural e nao exclusivamente na narrative."
Ha urg6ncia na divulgacgo do folclore caririense,
antes que a vida trepidante do progress, com a energia
de Paulo Afonso, as portas de casa, venha quase a elimi-
nA-lo. Embora muitos dos motives desta parte impor-
tante do Nordeste sejam id6nticos aos de outras regi6es,
(6) Ensalos de Antropologia Social, Publicaq6es da Universidade da Bahia,
1959, pAgs. 21 e 22.








ha, entretanto, particularidades que se modificaram cor
o meio e ddo-lhe caracteristicas pr6prias.
Precisamos tambem corrigir certos enganos, filhos
da falta de contact cor a vida caririense, cometidos por
ilustres e em6ritos conhecedores do folclore. Conhecem,
em profundidade, o assunto ndo s6 no Brasil, como em
todos os continents e, As vezes, desconhecem folguedos
regionais do interior, afastados da zona litorAnea. De
quem a culpa? Inteiramente nossa, que fechamos a sete
chaves o tesouro escondido, nao o disseminando, atrav6s
de seus estudiosos.














CAPITULO II


LENDAS DO VALE CARIRIENSE


Diz Aires da Mata Machado Filho (7): "Verdadeira-
mente, a mais important conquista da etnografia e do
folclore na esfera literAria nestes dltimos anos consistiu
em trazer a luz o seguinte fato: a chamada produgdo lite-
rAria popular 6 uma atividade fitil, necessiria a conser-
vag5o e ao funcionamento da organizagdo social, como
conseqiiUncia de sua vinculacgo com outras atividades,
estas l6timas de ordem material. Sobretudo em seus
comegos, 6 um element orgAnico, e nao como se acredi-
tava, "uma atividade est6tica sup6rflua, um luxo."
Nao passemos adiante antes de contarmos a hist6ria
da palavra lenda. S6bre elucidativa, conduz a caminhos
perdidos, mostrando que, A semelhanga do que se dA no
dominio das lendas, a semente de beleza que ha no senti-
do etnol6gico transfigura-se em floracgo magnificent
que a palavra 6 poesia em estado natural. Para a viagem
semAntica, sempre nas pegadas dos mestres, neste traba-
Iho de simples divulgagio, temos a companhia de Afonso
Arinos, que ensina em "Lendas e Tradig~es Brasileiras",
um dos livros mais belos da literature national: "Lenda
vem de ler, como legend vem do latim legere: 6 o que
deve ser lido". O sentido "contos" e narrativas maravi-
Ihosas de fatos ou ages de deuses e her6is ou anteriores


(7) Curso de Folclore, Rio, 1951, ptgs. 84 e 85.








ou estranhos ao Cristianismo result de extensgo. E
conclui: "A lenda era, pois, a biografia dos santos e bem-
-aventurados, feita, ouvida e criada piedosamente. Como
f6ssem diArias as leituras e pudessem faltar as biografias,
foram elas sendo compostas ou acrescentadas com acges
que a fM ardente dos autores atribuia a seus her6is. NAo
pode haver lenda sem sinceridade e simpleza de coracgo.
Em todos os casos, ainda quando reconhecida depois como
fabulosa, a lenda foi sempre da sua origem e ndo podia
deixar de s&-lo a expressed de uma crenga viva: o
home jamais acreditava senio naquilo que Mle since-
ramente a verdade."
No vale caririense hA vArias lendas, contadas em
rodas, nas casas de palhas dos sitios, na bagaceira, nos
mocambos dos subdrbios citadinos e, mesmo, em muita
casa grande. Na realidade, 6 tradicgo que vai desapare-
cendo. HA delas de carAter universal, como acontece com
o lobisomem, outras nacionais, a exemplo da caipora,
mas perduram algumas, de cunho regional, embora com
certas semelhangas com as de outras paragens.
O lobisomem esta totalmente desmoralizado no sul
do CearA. Quase que pertence ao passado, e nem ao
menos mete mais mido a criangada. Essa entidade, de
dupla vida, de dia home comum e, de noite, bicho, figure
em t6das as 6pocas e latitudes. Faz parte da literature
mundial e foi focalizado no cinema, em temas aterroriza-
dores.
Os antigos falam nessas assombrag~es que se espo-
javam nas encruzilhadas dos caminhos, deixavam rastros,
sustentavam lutas com homes ou cachorros e, ao ama-
nhecer, transformavam-se em ser human, as vezes atW
em bons e pacatos cidaddos. Ao serem feridos, em lutas
noturnas, conservavam as cicatrizes ou feridas. Nos filti-
mos tempos, o lobisomem, em Crato, transformou-se em
mero cagador, a desoras, de amores ilicitos. O extrava-
gante Don Juan vestia capa, saia depois de meia-noite,
a mastigar bolacha skca, assim aparentando estar a roer
osso de defunto, para melhor afugentar os curiosos. O







aparecimento de tal espantalho correspondia sempre a
vinda de future bastardo. Isso mesmo sucedia na casa
onde houvesse assombragdo noturna, com almas a atira-
rem pedras ou a movimentarem m6veis.
Fulano de tal estA virando lobisomem dizem
alguns quando qualquer ricago da para conquistar mu-
Iheres fora de hora.
A caipora (8), como chamamos no Cariri, existindo
at6 figurante com esse nome no bumba-meu-boi, e abu-
sdo indigena, difundida no Pais inteiro, com variantes
regionais. No Cariri, superpovoado, com matas quase
totalmente extintas, nao resta mais lugar para aquele
caboclinho azucrinador de cagador, a pedir-lhe cachaga
e fumo, agoitando-o, no caso de uma negative. Mios
invisiveis ja nao agoitam mais o devassador do mato
brabo. O cachorro ainda sofre pelas mdos encantadas
da caipora. Rola no chdo a grunir, como se apanhasse
tremenda surra.
A caipora quase que matava meu cachorro, l1 na
serra, noite passada diz o cagador em tom bem s6rio.
JA e tempo de entrarmos na historia de algumas len-
das caririenses. A primeira contada, vem em mistura de
assunto indigena com motivo cristdo, como sucede comu-
mente no Brasil, teatro de aculturagdo de tr6s ragas. Em
Crato, na S6 Catedral, ha velha imagem de Nossa Senhora
da Penha, trazida de Pernambuco em 6poca desconhe-
cida, ao tempo talvez da Missio do Miranda. i Nossa
Senhora do Belo Amor, que 6 a virgem a amamentar o
Menino Jesus. Ainda sai em procissdo pela zona rural,
nas festividades da Padroeira e debaixo da veneragao
piiblica.
Conta o povo mais antigo, com a convicgco de estar
afirmando verdade indiscutivel, que foram os indios que
receberam a imagem dos capuchinhos, catequistas da
Missao do Miranda, que deu origem a vila, depois cidade
(8) A caipora do Ceari escreveu Capistrano de Abreu exigindo fumo
de quem penetrava em seus dominos, 6 talvez reminiscencia dos
carirls. (Cf. Revista do Instituto do Ceara, 1904, pig. 67.)








de Crato. Os indigenas ergueram-lhe modest capelinha
de palha, no local onde fica a atual Se. Cercaram-na de
t6da a venerago possivel e aclamaram-na sua protetora.
Mais tarde, conta a lenda, o vigario manda erigir igreja
melhor, de pedra e cal, noutro ponto da Missio. Trans-
feriu entio a image da santa para o novo temple, com
o regozijo dos colonos e a tristeza dos indios. Mas, A noi-
tinha deu-se um prodigio. Apesar das portas trancadas,
a imagem desapareceu da igreja e transportou-se para
o seu nicho antigo, na capelinha dos aborigenes. O fato
repetiu-se debaixo da admiragdo de todos, at6 que o capu-
chinho-vigArio, vendo naquilo aviso dos c6us, resolve
construir outro temple no local da capelinha indigena.
Mas a lenda ndo se encerra ai. Tomou feig~o mais elas-
tica. Os colonos brancos e mestigos, tornados fortes e
proprietirios de terras, comegaram a fazer pressdo s6bre
os pobres silvicolas, outrora donos de tudo. Houve mo-
mento em que as perseguig6es foram tamanhas, que re-
solveram abandonar aquela esp6cie de paraiso terreal,
protegido pela majestosa serra do Araripe, e banhado
perenemente pelo Itaytera e pelo Granjeiro, ja com a
denominaglo dos brancos.
O home 6 assim. Para l8e, ha um rden no passado
e outro Canad nos tempos porvindouros. Tivemos idade
de ouro no preterito, vivemos mal no present e espera-
mos sempre a redencgo terrestre no future.
A lenda caririense tamb6m faz refer&ncias ao pas-
sado de rosas, quando o vale possuia mais nascentes do
que hoje, brotadas abundantemente da serra. E haverA
Canaa future, com a vinda e libertag~o da raca aut6ctone
e castigos dos que Ihe tomaram as terras dadivosas dos
brejos cratenses. O indigena, antes de abandonar o Iden,
tapou as principals nascentes dos p6s-de-serra. E qual
o material que empregou para sustar grande parte da
agua que se derramava pelo vale? A lenda sempre tem
alguma coisa de ingenuidade, porque emana da simplici-
dade da alma do povo. Os indios vedaram as nascentes
simplesmente corn cera de abelha e troncos de angico.








Mais tarde, o kiriri, escondido por sortil6gio de algum
paj6, voltara triunfalmente para retomar suas antigas
posses, devassadas e roubadas pela ganancia do branco.
As nascentes serio destapadas e as aguas impetuosas
inundardo sitios e cidades. A imagem de Nossa Senhora
do Belo Amor, a mesma da antiga Missio do Miranda,
boiara s6bre as aguas, na cama de uma baleia, que dizem
existir debaixo do altar da Virgem, na antiga matriz, hoje
Catedral. Os indios dela se apossardo e, quando a inun-
dagio amainar, por milagre da Santa, tomardo conta da
terra e nunca mais a cederio a outros conquistadores.
Erigirio outra capela A imagem querida e a paz reinara,
ininterruptamente, s6bre o vale.
Quando caem chuvas pesadas em Crato, certas pes-
soas mais velhas demonstram inquietude, cor a pers-
pectiva da possivel inundagao, anunciada pela lenda dos
indios. Essa crenga, no entanto, esta condenada a desa-
parecer, em breve. Algu6m, para confirmar que a profe-
cia se rcalizara, diz que no lado pernambucano da serra
foram encontradas diversas nascentes obstruidas com
cera e troncos de angico.
A verdade, entretanto, e que a lenda tem cunho re-
gional e universal, simultaneamente, e resume, pitores-
camente, epis6dios biblicos: os tempos ed6nicos perdi-
dos pelo ser human, que 6 a vida boa do indio, no vale
caririense, e a terra da promissdo que ha de vir com a sua
retomada pelo antigo possuidor.
Ha lenda muito terna a da Lagoa Encantada.
Existe, um tanto modificada, noutras paragens do Brasil.
Todavia, 6 inteiramente diverse da do Lago Encantado
de Grongoz6, de Sdo Bento, no Estado de Pernambuco,
citada por Luis da CAmara Cascudo. Descreve-o o pre-
claro folclorista brasileiro no seu ja t~o conhecido Dicio-
nario Folcl6rico. Ali, o lago aparece e desaparece por
encantamento. Quem o v6 uma vez, nao pode mais rev&-
-lo, sob pena de morrer.
A lenda da Lagoa Encantada, do municipio do Crato,
6 bem po6tica. Vou conta-la, em versdo do livro de minha







autoria "Engenhos de Rapadura do Cariri", editado
no Rio, em 1958, pelo Servigo de Informag~o Agricola,
do Ministerio da Agricultura, n6mero 13, da serie -
Documentario da Vida Rural:
"Agora uma visit a engenho que rompeu com pas-
sado de rotinas. Lagoa Encantada, a poucos quilome-
tros de Crato, e de propriedade do Dr. Joaquim Fernan-
des Teles. E dos melhores sitios do Cariri. Seu nome
prende-se a lenda assaz pitoresca. Durante a estacgo in-
vernosa, a parte baixa do sitio fica completamente inun-
dada, formando verdadeira lagoa. Quando baixam as
aguas no verdo, ficam traigoeiros sumidouros, em diversos
pontos, que constituem ainda hoje verdadeiros perigos
para qualquer pessoa ou animal que passe descuidado
naqueles brejos.
Ainda nos principios da colonizagao caririense, atra-
vessava certo dia aquelas paragens um carreiro a entoar
cantiga de aboiar, enquanto espicagava, com a vara de
ferrio, a junta de bois. Gemia o carro dolentemente,
cortando a vereda dos brejos. Mas o guia, engolfado em
seus cantares e cismares, alheou-se por complete do meio.
E os bois, a pouco e pouco, foram abandonando a rota
certa. Ainda Ihe ouviram os moradores mais de perto, a
iltima estrofe, naquela noite de luar claro. No outro dia
foram procurar o carretAo e nenhum vestigio encontra-
ram, nem do t6sco veiculo, nem dos bois e seu condutor.
Tudo desapareecu como por encantamento. Por muito
tempo tiveram medo de passar por aqueles brejos, cheios
de assombrago, com o vento a levar sempre a toada do
carreiro e o rangir constant do carro. O lugar foi bati-
zado assim por Lagoa Encantada."
Nessa lenda nio ha qualquer interferencia de moti-
vos indigenas ou religiosos. Apenas denuncia certo temor
coletivo, que os sumidouros inspiram aos habitantes dos
brejos, os quais tem atraido e levado A morte atW ani-
mais de grande porte, a exemplo de cavalos e bois.
Em Barbalha, existe lenda de criagdo mais recent.
Gira em torno do Ap6stolo do Nordeste pe; Jos6 An-

26








t6nio Pereira de Maria Ibiapina e da nascente do Cal-
das, local hoje transformado em balneArio muito procu-
rado por visitantes. Fica ao sope da serra do Araripe,
naquele pr6spero municipio caririense.
Quando, em 1864, esteve no Cariri o grande evange-
lizador e precursor das obras de assistencia social em pla-
gas nordestinas, foi procurado por doente que consultou
rem6dio para doenga da pele, que o atacava. Talvez
visasse at6 um milagre, a ser realizado por aquele sacer-
dote de vida tao santa. O Padre Mestre preferiu ser ape-
nas o mestre do corpo, tratando-o pela hidroterapia, entao
em voga. Aconselhou-lhe Aguas cAlidas. O paciente en-
tendeu Caldas, e procurou logo dirigir-se A nascente que
fica nos p6s-de-serra barbalhenses. Tomou vArios ba-
nhos tepidos em Caldas e, com pouco tempo, curou-se
definitivamente de suas mazelas. Recebeu aquilo como
autintico milagre do pe. Ibiapina. Espalhou a nova.
Outras curas se deram ali e a nascente converteu-se em
local de atrag~o para enfermos da redondeza.
Um dia, por6m, conta o povo, a fonte perdeu seu
poder miraculoso. Pobre meretriz, coberta de feridas pelo
pecado da care, banhou-se naquelas Aguas puras. Desde
entao, a nascente perdeu suas virtudes. Ndo fez mais
qualquer milagre, ficando apenas com poder terapeutico
para certas doengas da pele e do figado. Ja nio era outra
Lourdes e, simplesmente, pequena Caxambu, perdida nos
pes-de-serra caririenses.
A lenda de Caldas 6 bem modern, mas estA vincu-
lada A religiao. O pecado da infeliz prostitute impurificou
o liquid da fonte miraculosa, transformando-a em me-
dicamento de efeito circunscrito a determinadas mol6s-
tias. Mas assim mesmo criou fama e tende a constituir-se
dos grandes atrativos para o turismo regional, em future
pr6ximo.
As lendas caririenses, cor seu pitoresco sdo, as vezes,
narradas pelos contadores de hist6rias de Trancoso ou da
Carochinha, durante os series do terreiro da choupana
humilde de palha, na debulha do feijAo, ou na alpendrada







da casa grande. Meninos ouvem-nas embevecidos e pes-
soas mais velhas relembram saudosas o passado. Ningu6m
as conta de dia, porque quem conta hist6ria de dia cria
rabo de cotia. As criangas ficam atarantadas pela des-
culpa de quem quer aproveitar a luz do sol para o traba-
Iho cotidiano e esquecem que cotia 6 bicho que ndo ter
cauda. O contador de hist6rias pode saber centenas de
contos, aprendidos na tradicao oral, nos livros lidos em
casa dos ricos, ou na divulgadissima literature de cordel.
Decora-as e transmite-as com certas adulteragoes.
tema demasiadamente debatido, para nos alongarmos em
estudo de carter t~o regional. Silvio Romero deixou obra
mortal nesse sentido, tendo sido 6le o faiscador seguro
desse fildo inesgotAvel que mostra o espirito de retengao
e mesmo de criagio da fecunda intelig6ncia do mestigo
brasileiro.















CAPITULO III


LAPINHA E PASTORIS

Quando comecei a ter conhecimento das coisas do
mundo, a lapinha, no Cariri, estava no auge. Pobres e
ricos, na media do possivel, primavam em erguer pres6-
pio na sala principal da casa e isso, no ciclo das festas
natalinas, de Ano Bom e Reis. As pastorinhas, vestidas
a cigana, percorriam, A noitinha, as lapinhas da cidade
e dos bairros, entoando canticos, acompanhadas de mara-
cas, todas primando por louvag6es ao Menino Deus, Nossa
Senhora e a Sagrada Familia. Mas o progress, de pouco
a pouco, foi reduzindo aquele bom costume, encanto da
meninada de outros tempos. Papai Noel e a Arvore de
Natal, transplantados de fora, quase que conquistaram
todo o terreno da lapinha, suplantando velhas tradig6es
de origem portuguesa, de mistura cor outras afro-indi-
genas. As pastorinhas reduziram-se a cantar na velha
lapinha da Casa de Caridade, fundada em 1864 pelo pa-
dre Ibiapina e agora transformada no maior conjunto de
assistencia social do Nordeste, ou na residencia de d.
Hortinha Peixoto, genitora do padre Peixoto de Alencar.
Deixaram at6 de percorrer ruas e feiras, em busca das
clAssicas esmolas para o Menino Deus, aos cAnticos e
maracas de flandres.
Recentemente, ressurgiram, mas jd inteiramente
modificadas, cor roupagem de fora, embora bem orga-
nizadas e compostas de mocinhas bonitas e elegantes. As
radioemissoras introduziram-nas em seus programs de








cantos e dangas, dividindo-as em dois partidos, o encar-
nado e o azul, a fim de melhor atrair o puiblico. A moci-
nha bonitinha passou a substituir a menina simples de
outrora. O partidarismo da assistencia exacerbou-se em
frente a elegancia da mogoila e seus trejeitos, de passes
carnavalescos.
Houve, por6m, salutar reacgo e a lapinha ressurgiu,
nao com sua opulincia dos tempos de antanho. Algumas
residencias adotaram-na e, nas igrejas, tornam-se indis-
pensAveis, no fim do ano para o comego do outro. O senso
de arte voltou e as pastorinhas, com seu encanto, nao se
encastelam mais nas radioemissoras. Saem a rua, vi-
sitam presepios diversos e presidem a queima da lapi-
nha, no dia 6 de janeiro.
Pres6pio vivo apareceu, em Crato, no ano de 1959
para 1960. Foi o reporter Jodo Lindemberg de Aquino
quem o divulgou, na imprensa e radioemissoras do
CearA. Todos os figurantes da lapinha original eram
pessoas vivas, se bolindo e falando, ou chorando, como
o caso do Menino Deus. Os Reis Magos estavam bem
caracterizados e foi o sucesso da temporada de Natal.
Realizou-se na residencia do barbeiro Jose Galdino Filho
e contou com o desvlo de sua esposa, Dona Maria Siebra
Galdino que transformou sua casa em ponto de atrativo
de muitos, entire Natal e Dia de Reis.
Ja visitei muitas lapinhas, mesmo depois de adulto.
A mais bonita e suntuosa que ja vi foi em Januaria, em
Minas Gerais. Pertencia a telegrafista sobralense. Es-
tava eu ali, de passage, aguardando o navio fluvial
para a cidade de JuAzeiro da Bahia, em 1929. Fui ao
tel6grafo e, ao entregar a formula telegrAfica, cor o
lugar de destiny CRATO-CEARA, o encarregado,
mostrando satisfagdo, disse-me ser de Sobral, iniciando
palestra amistosa comigo. Ao terminar a conversa. com
sua hospitalidade caracteristica de cearense, convidou-
-me a comparecer a sua casa, A noite daquele dia, a fim
de ver lapinha, armada na sala principal. Nao faltei ao
convite. Fiquei surpreso cor a arte e luxo do presepio,








que tomava a metade do salgo. Havia, com verdadeira
disposigdo artistic, variedade estonteante de c6res, ilu-
minadas feericamente. Cascatas, em miniaturas, derra-
mavam Agua de pequenos rochedos artificiais. Santos,
Reis Magos, pastures se disseminavam em posicgo de
adoragao ao Menino Deus, deitado em manjedoura, tudo
em complete harmonia, tamanho e disposig~o. Pres6pio,
nas condig5es daquele, bate, de muito, as mais ricas
arvores de Natal, mesmo das mais opulentas.
No rio de S. Francisco e naquela mesma viagem,
em Bom Jesus da Lapa, foi onde me deparei com a
maior quantidade de lapinhas, deste mundo que conhego.
Cada habitagdo, por mais modest, possuia a sua, ergui-
da na sala de frente, adornada de f6lhas verdes e de fl6-
res. Isso era durante o mes de dezembro.
O mais original, por6m, dos pres6pios, de meu
conhecimento, foi um, do sitio Lameiro, propriedade do
Sr. Jos6 Vicente. Era organizado pela esp6sa D. Isabel
de Alencar Peixoto, mais conhecida pelo apelido ca-
seiro de Beleza. Herdara o g6sto, por aquela tradigdo
que se repetia anualmente, de sua genitora, jA citada
nesta monografia D. Hortinha. Residia ela em Crato,
no local onde agora se levanta o Abrigo da Velhice, di-
rigido e mantido pelas Filhas de Santa Teresa de Jesus.
Ocupar-me-ei, apenas, em descrever o AUTO da la-
pinha de Dona Beleza, mantida ininterruptamente, du-
rante vArios anos, e cuja tradicgo foi conservada por sua
mee Dona Hortinha, trazida do s6culo anterior. Ha
14 anos, deixou de funcionar aquele pres6pio do La-
meiro, mas todos os seus cAnticos foram coletados em
manuscrito, bem feito e bem conservado, copiados pela
professor Dandinha Vilar, ora diretora das Escolas Reu-
nidas ROTARY CLUBE, daquele pr6spero distrito
cratense.
Fui testemunha de muitas fung6es realizadas dian-
te do pres6pio de Dona Beleza. A lapinha erguia-se no
fundo da sala, ficando o recinto desocupado para a danga
das pastorinhas. A iluminaqdo a querosene chegava bem








para todo o saldo. Imagens de santos, estatuetas de pas-
t6res e animals ficavam de frente ao Menino Deus, na
manjedoura. Enfeites diversos disseminavam-se em
todos os recantos, recortados em papel, f6lhas de pal-
meira, flares e at6 fotografias de revistas, com at6res
de cinema. A casa, cor parte descoberta A frente, entire
duas puxadas, fica as margens da carrogAvel que liga
Crato A hidrel6trica do Batateiras, fornecedora de ener-
gia a cidade. A assist6ncia se derramava em torno do
local das exibig6es, sentada ou de p6, enquanto muitas
pessoas ficavam do lado de fora, por falta de espago,
dentro da sala.
O auto desenrolava-se ate dez ou onze da noite,
com versos, recitativos e misicas, vindos, pela tradicgo
da familiar, acrescidos de outros, produzidos pela pr6-
pria dirigente da fungdo Dona Beleza.
Ao auto, de proced6ncia lusitana, foi acrescentada
muita cousa de fonte indigena ou africana, como os
caboclos, a cancgo da formosa tapuia, ou temas intei-
ramente abrasileirados. O pr6prio cigano aparecia ali
e as f6rgas da natureza se personificavam, para a lou-
vaggo ao Deus Menino. Nenhuma lapinha existia mais
original do que aquela, e de nimeros tVo variados. Havia
at6 programacgo tragada para cada noite, pouco repetida,
e suas pastorinhas, sobrecarregadas de trabalho, ndo vi-
sitavam outros pres6pios. Fincavam p6 ali mesmo e s6
tinham direito de sair quando iam colher esmolas nas
casas, ao som dos maracas a acompanharem-lhe o canto.
Logo ao anoitecer, comegavam os festejos da lapi-
nha. A primeira figure a aparecer era o Anjo, com trajes
pr6prios, de asas, como esses que fazem a coroacgo da
Virgem Maria, a 31 de maio, ou acompanham os andores
nas prociss6es. Entrava solene e exclamava, em latim
bem decorado:

G16ria in excelsis Deo (secundado logo em
portugues)
Paz aos homes de boa vontade!








As pastorinhas seguiam-lhe, entoando:


Menino Jesus nasceu,
Os anjos vieram adorar
O grande rec6m-nascido
Que se acha neste altar.

R do fruto
E do venture purissimo,
O Deus Menino!

O Anjo permanecia em cena por algum tempo.
A visit que se seguia era a do pastorzinho, com cha-
p6u de palha, calgas curtas, blusa, cajado A mao direita
e cabaga pendurada A cintura, puxando ovelhinha com
a mao esquerda. Reverenciava o Menino Deus, beija-
va-lhe os pkzinhos. T6da a terra tinha de reverenciar
o presepio, no sitio Lameiro: animals, indios, baianas,
japon&sas, o vento, o sol, a lua, al6m dos Reis Magos
e dos pastures. O pastorzinho, menina travestida em
menino, canta sua louvagdo:
O galo cantou,
Cristo nasceu,
O boi perguntou:
"AONDE"? E a ovelha
Logo responded:
"Foi em Bel6m"
Para o nosso bem.
Diz o povo, na sua simplicidade e fM, que a lingua-
gem daqueles bichos traduz a anunciagio do nasci-
mento do Menino Jesus, da mesma forma da estrofe
acima. Desde crianga, que ouvi isso e a crenga nao e
regional e, sim, de todos os recantos, onde se fale a lin-
gua portugu6sa.
Depois de cada louvacdo, o figurante beija o Deus
Menino, no pres6pio. Cada parte 6 bem longa e apenas
estou a dar pequena amostra dos cAnticos e recitativos.








O mendigo tamb6m faz parte da lapinha e figure
cor roupas esfarrapadas e bordio:

Deus 6 o astro que a luzir vigora
Em sua corola jA pendida ao chio,
Deus que perpassa rindo,
Eu sou infindo caminhante em vao!

Exalta Deus, humilha-se, mas nao se queixa da vida
miserAvel em que vive, em frente A Onipotencia que
tudo pode dar.

O Padre-Nosso 6 recitado em versos e musicado:

Pai nosso de todos n6s
Que todos somos irmdos,
A ti erguemos as mdos
E levantamos a voz.

A ti que estas no C6u
E nos langas, com clemencia,
Do vasto estrelado v6u
Os olhos da provid6ncia.

E assim continue, versificado ate o fim, a inica
oragio ensinada por Jesus Cristo aos Ap6stolos e Dis-
cipulos.
Figurinha de asa, tenue, surgia diante do pres6pio
- a borboleta. Entrava fazendo ruido na b6ca, a imi-
tar a mariposa a voejar pelo jardim:

Pequenina plantinha vigosa
Nela splto minhas castanhetas,
Boto os olhos nas lindas folhinhas,
Ngo avisto uma s6 violeta!

Conv6m lembrar que a violeta 6 a flor da humil-
dade e candura e aquela referencia dos versos nao pas-








sava de critical as mocinhas sapecas. que ja pululavam,
naquela 6poca, de tanta novidade, importada dos gran-
des centros.
A mulata, endinheirada e faceira, flor vigosa dos
p6s-de-serra, figurava na lapinha de dona Beleza. Era
a Dona Du6. A mulata, cantada e decantada nos sam-
bas, nao poderia faltar. As pastorinhas entoavam loas
e mais loas A Sia Dona Du6. Creio que o nome procede
da denominagdo dada A Virgem da Expectagio, Pa-
droeira da freguesia do Ic6, antiga capital economic
de todo o sertdo cearense. E originirio da multiplici-
dade de exclamativos Oh! existentes no hino de lou-
vor Aquela Nossa Senhora.
A mulata, important, era reverenciada pelas pas-
torinhas:

Daremos uma boa r&de,
Toda de fios de prata,
Quando nela te sentares
Nao pareces com mulata.

Daremos uma bodega,
Sortida de miudezas,
Um espelho cristalino
Para mirar tua beleza.

Mas as promessas mascaravam o pedit6rio que vinha
logo depois da louvaglo:

Nos d6 um conf6rto,
Sia Dona Du6,
Voc& toda a vida
De n6s teve d6.
Muito agradecida,
Mulata faceira,
Se assim nao fizeres








Ngo tem quem te queira.
A mulata, por6m, nao gostava de elogios, cuja fina-
lidade esconde pedido, e respondia:
Sou correta no agrado
Para isso tenho jeito,
Bem me disse a Senhora
Que eu nao tirava proveito.
Eu arrenego de t6das,
Nao me fizeram feliz,
S6 me deram agua nos olhos
E catarro no nariz.

Os dois versinhos do fim, apesar de o iltimo ser um
tanto repelente, escondem os sintomas cldssicos do ch6ro.
O tapuia saia das selvas e ia adorar o Deus que nas-
cera. Na lapinha nao sao sbmente os pastures e os Reis
Magos os adoradores do Menino Jesus. Caboclos em
magotes tamb6m O reverenciavam, com cAnticos e ofe-
rendas do mato. Mas o tapuia vinha isolado, com cinta
de penas s6bre o vestido curto, cocar A cabeca e com arco
e flechas As mdos. Cantava a modinha antiga, bem
conhecida no s6culo passado, e cheia de encanto e senti-
mentalismo:

Formosa tapuia,
Que fazes perdida
Nas matas sombrias
Do agreste sertao?
As matas sao feias,
Sao frias e tristes,
Nao temes tdo moga,
Morrer de sezdo?

A modinha gira em t6rno de convite que faz um cita-
dino para a indiazinha abandonar o mato e recolher-se a
sedugdo da cidade. Mas a caboclinha tem resposta segura
para todas as palavras de fascinio:








Nao quero carinhos,
Nas matas nasci,
Se delas nao gostas,
Nao fiques aqui.

Na lapinha ha miscelAnea de ritmos e de outros
motives. O passado se une ao present. Os Reis Magos
e as figures do carneiro e bois ficam ao lado de recor-
tes recentes de revistas coloridas.
No Lameiro, havia nota c6mica no meio de mil re-
verencias e louvores ao Infantezinho, nascido em Bel6m.
O papagaio, representado por menina vestida de verde,
mancando e falando pelo canto da b6ca, entrava, sob risa-
da geral. O bicho caxingava porque se queimara ante-
riormente e contava as lamentag~es do acidente:

Fui gemer a minha dor
Na porta de seu Vigario,
Me fingindo ser da classes
Dos que nao usam rosario.

Me acuda, Vigario,
Com a Extrema-Ungdo,
N~o quero morrer
Sem absolvigdo.
O senhor tem dever
De ouvir meus pecados,
Me acuda, VigArio,
Que eu morro queimado!

Viu que eu nao era gente,
Nao me deu Extrema-Ungio.
Pois aqui eu volto a porta
Do malvado Capitdo.

O papagaio entoa sua cantilena, quanto mais triste,
tanto mais c6mica. Andou de seca-e-meca, mas s6 encon-
trou cons6lo aos p6s do Menino Deus. Para chamar a








atengio do vigario, mostrou-se irreverente como um
herege, que nio usava rosario, sem dar-lhe o tratamento
de "SEU".
Outros bichos desfilavam diante do pres6pio: o beija-
-flor, o boi e ate os ratinhos, tdo detestados por todos n6s,
mas que sao tamb6m criaturas de Deus.
As f6rgas da natureza compareciam diante do Deus
Menino, na lapinha. Iam reverenciar o Criador de t6das
as coisas tangiveis ou intangiveis. A menina que repre-
sentava o rei dos astros vestia-se de encarnado, cor
estrela rubra a encimar-lhe a cabega:

Eu sou o sol
Com mil raios de luz,
Que venho visitar
O Menino Jesus.

O coro das pastorinhas respondia:

Vem lindo sol, 1l do c6u,
Visitar Deus, em Belem,
Terds um grande repouso
Junto a Deus, nosso bem.

Depois vinha a voz da lua, com trajar prateado e
meia-lua A cabega:

Eu sou a lua,
Eu sou a lua,
Serena e pura, venho resfriar,
Serena e pura, venho resfriar,
Este mormago que esta de matar.

Um dos moments mais sensacionais do audit6rio
era a visit dos Reis Magos, com ofertas para o Rec6m-
-Nascido. Trajavam indumentaria vistosa, de coroas as
cabegas, e com certo aparato.








Do Oriente vimos a estr1la
Em nossa frente, como o dia,
Quando chegamos em Jerusalem,
Faltoui a estrela, a nossa guia.

A cerim6nia se complicava, mais do que as outras,
pelas oferendas repetidas, cAnticos mais variados e reci-
tativos.
O vaqueiro, representante do Brasil sertanejo, tinha
o seu lugar na fungdo, de vinculagio religiosa. Na reali-
dade, nio 6 ele o verdadeiro pastor do Nordeste?
Surgia, cantando, em tom de aboio:

Vaca Florinda,
Vaca Mansinha,
Va ao curral
Da grande Rainha,
D& muito leite,
Mais do que dava,
Pra ser de todos
Mais estimada.

Os caboclos surgiam, de cocar, cinto de pena e arco
e ofereciam ao Infantezinho cabagos de mel em vez de
incenso e mirra dos Magos do Oriente.
Nio se pode, nem de long, dar id6ia exata da anima-
cio da lapinha do sitio Lameiro e de sua variedade em
cenas e cantorias. Aparecia, naquela fungdo, hist6ria
em versos em t6rno de uma garricha, que 6 o rouxinol,
sem cantico bonito, destas zonas de cA, do Brasil. Era bas-
tante comprida e por isso a resumirei, mostrando apenas
a segunda estrofe da hist6ria, passada no sertio pernam-
bucano:

Vou contar esta hist6ria
Que achei muito engragada,
De um pobre agricultor,
Dono de duas moradas,







Uma 6 no Cariri,
A outra l1 nos sert6es.
Digo assim por que la t6m
Umas tantas criag6es.

O agricultor citado nao 6 mais do que o Sr. Jose
Vicente, marido de Dona Beleza. Possui propriedade no
Lameiro e outra no municipio pernambucano de Exu.
Os proprietarios rurais caririenses, na maioria das vezes,
sdo donos de fazenda de criar, no outro lado da serra.
E costume ligado ao antigo engenho de rapadura, no
tempo que eram acionados A f6rga bovina, quando pre-
cisavam despastar, em fazendas sertanejas, os bois man-
sos e os burros de cambito. Jos6 Vicente costuma passar
semanas em seu terreno, de Pernambuco, ao sop6 do Ara-
ripe, na descida da ladeira do Bocu. Atravessa o grande
plateau da serra, em cavalo, marchador ou esquipador,
ensinando por 6le mesmo, e de uma assentada s6. Certa
vez, ao chegar A fazenda, ap6s a travessia tirou o palet6,
dependurando-o em armador da sala. Em seguida, desar-
mou o cavalo e foi deix--lo na manga. Logo depois, tratou
de cuidar dos cercados, das rogas e da criag~o.
Os dias se escoaram, sem necessidade de vestir mais
o palet6, reservado para seu ret6rno ao Lameiro. Em
belo dia, ao chegar do trabalho, encontrou vArios cigar-
ros, da marca que fumava, no monturo vizinho A habita-
gdo. Lembrou-se entio da pega de sua roupa, dependu-
rada na sala. Meteu a mdo no b6lso e grande foi a sur-
presa, ao deparar-se com ninho de ave, todo arrumadinho,
feito de cisco. No fundo do b6lso ainda encontrou tr6s
cigarros. Reconheceu logo os autores daquele irreverente
ninho, em indumentAria masculina casal de garricha,
ou garrincha, como 6 chamada no interior. Espreitou a
chegada dos bichinhos para dar-lhes liqgo em regra. O
casal nao tardou. Um d6les, despreocupadamente, sem
adivinhar a trag6dia que o aguardava, penetrou no b6lso
do palet6. Nao esperava a presenga sorrateira do orgu-
Ihoso representante do rei da natureza. Jos6 Vicente saiu








do esconderijo, tapou o bolso, o mais que depressa, e tanto
o apertou que acabou por matar a garrincha inocente.
O outro bichinho, espantado, escafedeu-se.
Dona Beleza decantou em versos essa matanga e
exprobrou, em palavras candentes, o procedimento cruel
do marido e todos os anos aquela hist6ria triste passa a
ser recitada para os assistentes da lapinha.
Depois de revista tao demorada, em tao original pre-
s6pio, ja desaparecido, urge ponto final nesta digressio
s6bre os tempos que ja se foram. Veremos agora o hino
saudoso da queima da lapinha:

Por 6ste ano acabou-se
A festa do Infantezinho,
Vamo-nos t6das voltar
Para o mesmo cantinho.

Chorando vamos queimar
As palhinhas da lapinha
Que sombrearam Jesus,
Deitado em sua caminha.

T8das voltamos para casa,
Sem mais encontrar guarida,
Adeus, at6 para o ano,
Se Deus nos conceder vida!

E a fungdo deixava mesmo muitas saudades. Na zona
rural sao poucos os divertimentos e aquele folguedo, bro-
tado da simplicidade de alma do povo, durante vArias
noites, prendia a aten9go de numerosas pessoas. A ceri-
monia da queima da lapinha tamb6m tostava muitos cora-
g6es que ficavam a sangrar. A tristeza anuviava a alma
da mocinha que cantava, dangava e era aplaudida, em
noitadas alegres e confortantes. Tamb6m os assistentes
sentiam nostalgia daquelas noites. O mato 6 tao triste
ao anoitecer! S6 o zunzum da natureza, dos grilos, do








sibilar do vento nas f16has e ramos, ou a sinfonia ou caco-
fonia do coaxar dos sapos! A lapinha festival quebrava
a monotonia. Trazia animagdo ao distrito. Os rapazes
iniciavam namoros que terminavam ao p6 do altar. Impe-
dia tamb6m outras divers6es perigosas, do samba do ter-
reiro, com suas brigas, namoros acochados e a cachaga a
correr pelas guelas de cabras arruaceiros! A lapinha era
a festinha singela, sem artificialismo. Todos n6s senti-
mos saudade bem viva daquele folguedo. O vazio impera
em nossos corag6es, mesmo que estejamos em frente A
bem enfeitada Arvore de Natal, ouvindo mdsicas interna-
cionalmente admirAveis, ou em presenga de vistoso Papai
Noel. P que todos sao plants ex6ticas que transplantA-
mos para estas plagas bem nordestinas.
NOTAS: (a) 0 capitao Otacilio Anselmo e Silva
forneceu-me a descrig~o rApida de uma lapinha antiga,
conforme Ihe informaram pessoas de sua familiar:
Local: MacapA (Jati) .poca: 1818 Organizado-
ras: IrmAs Filisminas (Maria, Clara e Carolina) Ce-
nArio: Um altar, tendo ao centro o Menino Deus; em der-
redor estatuetas de varios animals (boi, galo, jumento,
carneiros, etc.), pastures; anjos, pendurados por linha.
Altar armado de palhas de coqueiro. Reis Magos.
Figurantes: 12 past6ras, certo n6mero de caboclos
(com arco e flecha, cabaga e enfeites de pena), cigana e
doutor.
Trajes das pastoras: vestido branco, sapatos da
mesma c6r, grinaldas, faixa vermelha e maracas com
fitas encarnadas. As pastorinhas cantavam em despe-
dida:

Past6ras vamos embora,
Que a madrugada jA vem.
Vamos ver nossas cabanas,
Que 18 ndo ficou ningu6m.
Ai que me you!
Viva Jesus!









Que &le 6 nosso amor.
Viva Jesus! Viva Maria!
At6 para o ano
Neste mesmo dia!

(b) Quanto A origem dos Pastoris, transcrevo os
dados colhidos pelo jornalista S. Nascimento, no livro
"Presenga da Espanha", de Pinto do Carmo Grafica
Olimpio Edit6ra, 2a. edicio, 1959:
"Al6m dessas composiSges, outras nos vieram por
influ6ncia castelhana, tais como: os Bailes Pastoris, pri-
meiramente denominados Villancicos, de Vilano, campo-
n6s, depois Bailes de los Pastores. Eram autos vazados
s6bre a origem de Jesus Cristo. Corn o Renascimento,
tomaram forma trAgica e, as vezes, comica. Fiel, porem,
as tradig~es, o povo passou a representA-los sbmente em
pres6pios e lapinhas. Em Franga, sob o nome de Noels;
Christmas carols, entire os ingl6ses; Weihnachts, na Ale-
manha; Villanicos, entire os espanh6is e Bailes Pastoris,
em Portugal e no Brasil onde, em alguns Estados, evolui-
ram com a denominagio simples de Pastorinhas.
A fonte original de tais peas 6 a Espanha quatrocen-
tista, e Gil Vicente, que nos inspirou, influenciou-se no
poeta castelhano Juan de la Encina, o qual nao foi desco-
nhecido dos benemeritos catequistas que aqui se radica-
ram.
Folclorista e romancista de bom quilate, D. Martins
de Oliveira, aludindo em sua obra Baile Pastoril as
fontes espanholas de sia inspiragao, as tem como legiti-
mas e, em abono, reproduz, de Garcia Rezende, (...) ver-
sos nos quais se justifica aquela providencia.

Chegancas, igualmente denominadas Janeiras e, pos-
tpriormente, Reisados, sio de origem luso-espanhola."













CAPITULO IV


TRACOMA E FOLCLORE


O tracoma 6 doenga multissecular no vale caririen-
se. ProvAvelmente foi introduzida na regiao pela pro-
miscuidade da vida n6made dos ciganos. R tdo velha
quanto a civilizacgo. O papiro Eberth, do Egito fara6nico,
a 6le se refere. Penetrou no Cariri e nunca mais saiu,
veiculado por esse mosquitinho impertinente que azu-
crina os nossos olhos, em tempos de chuvas. S6 agora
encontra meios de combates, que tendem a elimin--lo,
gragas ao trabalho do Centro de Pesquisas Oftalmol6gi-
cas, sob a supervisor do Dr. Herminio de Brito Conde.
Conta, outrossim, cor denodada e eficiente equipe de
m6dicos especializados e o apoio mais decidido do clero
diocesano, movimentado pela clarivid&ncia do antigo bis-
po D. Francisco de Assis Pires, de saudosa mem6ria, e seu
auxiliar D. Vicente Matos, agora vigArio capitular e
ec6nomo da Diocese. Nao poderemos esquecer a figu-
ra de um dos maiores sanitaristas do Brasil o Ministro
Mario Pinotti. Sem a sua valiosa contribuicgo e boa
vontade, t6da a luta contra o tracoma seria em vao.
Agora jA poderemos antever a total erradicagdo do
flagelo, no vale, pelo emprego generalizado da eletro-
coagulagco, alimentada a bacteria, cuja disseminagdo
no Cariri, com aparelhos construidos nas oficinas do
Ex6rcito, tornou Crato centro de servigo padrdo para
todo o Pais.








A doenga, que tanto afeava o caririense e ate servia
de motejo, nos sert6es vizinhos, para as beldades desta
zona, esta bem integrada no folclore. Mas, e sempre ri-
dicularizada, e nao por motivo de piedade, pelos estra-
gos que faz num dos preciosos sentidos do ser human.
JA 6 antiga e corriqueira a quadrinha, recitada outrora
pelos vizinhos, nao acometidos pelo mal:

La vem o carro cantando
Cheio de olhos de cana,
As mogas do Cariri
T&m olhos, nao tem pestanas.

Agora o panorama mudou e tende a transformar-se
por complete. As sulfas e o tratamento local dos olhos
diminuiram sensivelmente o pesadelo. Poucas pessoas
se apresentam com os olhos roidos ou com a conhecida
sapiranga. A doenca esta em vias de ser totalmente extir-
pada do panorama caririense, pelo tratamento da eletro-
-coagulacgo, ou pelos h.bitos de asseio da classes m6dia,
imitados, de pouco a pouco, pela populacgo mais desfa-
vorecida.
O Brejao, em Barbalha, como toda zona imida cari-
riense, foi campo vastissimo do tracoma. Foi dos primei-
ros lugares a ser beneficiado pelo servigo do P6sto de
Tracoma, sediado naquela cidade caririense. O trabalho
iniciara-se com os recursos terapeuticos de entdo. A noti-
cia do tratamento dado pelo gov6rno espalhou-se pela re-
dondeza. A doenga no Brejao era tdo arraigada que nin-
gu6m acreditava que os m6dicos pudessem desalojd-la.
Conta-nos a "Lira Sertaneja", de Jos6 Aires Filho, de
JuAzeiro do Norte, que, certa vez, atiraram mote ao poeta
repentista cego, Jos6 Pinto, natural de Missdo Velha,
residindo no sitio jukzeirense de Brejo da Roga. Faleceu
em 1928. Transcrevamos o mote e a glosa, baseados em
c6pia fornecida pelo Sr. Herm6genes Martins, infatiga-
vel colecionador de motives folcl6ricos regionais:








MOTE:


Nao tem posto que d6 jeito
Sapiranga no Brej&o.

GLOSA:

Falar muito 6 meu defeito
Aprendi desde pequeno,
Neste meu dizer sereno,
Nao tem p6sto que d& jeito,
Sustento e bato no peito,
Naquele alegre rincio,
Previno a todo cristao
Que ande com muito cuidado
Sendo toma no costado
Sapiranga no Brejao.

Jos6 de Matos, o poeta repentista, Bocage matuto,
tamb6m atirou remoques contra os portadores de traco-
ma. Em fins do s6culo passado, vivia o Cariri em pleno
period dos BOR6S, que eram vales assinados por comer-
ciantes, com valores diversos, circulando A guisa de papel-
-moeda. O Brasil, ap6s a proclamagao da Repiblica, pas-
sou por excessive fase de liberalism economic. Foi na
epoca do chamado ENSILHAMENTO. Seu reflexo no
interior foi a emissgo, sem qualquer contrble official, do
vale circulante o bor6. Qualquer comerciante tinha
o direito de emiti-lo ao bel-prazer. Mas, no meio da gente
honest, que militava no comercio, apareciam casos espe-
ciais de negociantes sem cr6dito. No nimero dresses esta-
va o Ramalho. Seus vales nada valiam, pois faltavam-lhes
funds de garantia. S6 os bestas, matutos inexperientes,
aceitavam bor6s daquela firma cratense, em complete
descredito.
Nao sei corn que artes do diabo, o poeta Jose de Ma-
tos veio a adquirir um bor6 do Ramalho. Dado ao vicio
da cachaga, quando se tornava ate mais inspirado, sen-








tindo as guelas bem secas, dirigiu-se A loja do Sr. Jeco-
nias Bezerra, especie de bazar arabe, daqueles tempos,
onde havia de tudo e mais alguma coisa. Entrou, e depa-
rando-se com empregadinho muito esperto, pediu-lhe bom
trago de pinga. O menino, com a press necessaria, distor-
ceu a torneira da parte lateral inferior da ancoreta, dis-
posta em posicgo vertical, e cheia de cachaga velha do
Lameiro ou dos brejos. Encheu o copo oitavado com li-
quido amarelado e o alj6fre fechou-se na parte superior.
O cheiro contagiou o ambiente e atigou ainda mais o ape-
tite do poeta. Quando o caixeirinho ia entregar ao fre-
gues, que se apoiava pachorramente no balcao, notou que
&le exibia, A mdo direita, um conhecido e suspeito bor6
do Ramalho. Suspendeu imediatamente a entrega do
cop~zio de cana, exigindo-lhe dinheiro, ou vale de outra
firma. Z6 de Matos como que ficou petrificado por alguns
moments. Calou-se. Depois, sacudiu em versos a sua
vindicta que ainda hoje vive, entire n6s, e que me foi re-
centemente recitada pelo coronel do Ex6rcito, Dr. Pi-
nheiro Monteiro, cratense, neto do capitdo Zeco, tamb6m
figurando no improvise:

Se a mente ndo me engana,
Se nfo me nega o espirito,
Pelos olhos eu conhego
E da familiar dos Brito,
Sua mae Rosa Carvalho,
Seu av6 Ioi6 de Brito.
Menino me d6 um vale
Nem que seja do Ramalho,
S6 nao quero de Jeconias,
Que da familiar dos Currais
Tira-se o capitao Zeco,
Este mesmo nio e certo,
DA pra frente e da pra tris.

Jos6 de Matos, o bardo matuto, ao referir-se aos olhos
do empregadinho, mangou da velha doenga caririense que








os roera, tao comum nos brejos e terrenos imidos. Sendo
a familiar Brito nitidamente ruralista, naquela 6poca,
pagava forte tribute ao tracoma. Agora o mal esti quase
extinto. Seus membros possuem os olhos tao sadios
quanto os de qualquer outra familiar. Entre os combaten-
tes daquela doenga secular, em plena linha de frente,
encontra-se um de seus ilustres representantes, o Dr.
Humberto de Brito. O Sr. Jeconias Bezerra, falecido em
1903, em Juhzeiro do Norte, foi ascendente de ilustre
familiar caririense. O cel. Zeco, agricultor da velha tem-
pera, cujo nome verdadeiro era Jos6 Pinheiro Bezerra de
Menezes, constituia-se em padrio de vida exemplar, tendo
deixado numerosa descendencia. 0 poeta Z6 de Matos 6
que primava pela irreverencia a tudo e a todos e ai de
quem bulisse com 6le!















CAPITULO V


O ABOIO EM VERSOS


O Cariri nao 4 s6 uma regido agricola. Ate mesmo
sua principal lavoura, a da cana-de-agicar, estava, ha bem
pouco tempo, estreitamente vinculada a criagdo bovina.
Eram bois mansos, escolhidos entire os mais fortes do
rebanho, os movimentadores da engrenagem de madeira,
a qual, por sua vez, acionava as moendas do engenho. As
juntas de bois, atreladas A almanjarra, eram animadas
pelo aboio do tangedor e espicagadas com afiadas varas
de ferrdo. O nome das reses entrava na toada plangente
do aboiar.
O motor passou depois a mover o maquinismo. O
gado vacum foi despedido do engenho de rapadura. Con-
tinua, entretanto, a pastar na bagaceira, na moagem, do-
mina os currais caririenses ou espraia-se nos campos aber-
tos da serra do Araripe. A pecuaria tem melhorado e
aumentado, nos iltimos anos, com a selego de gado de
origem holandesa ou indiana, gragas ao incentive das
exposig~es anuais agropecuArias de Crato. Naquela in-
tensa feira de gado, com representantes bovinos de quase
todo o Nordeste, o vaqueiro 6 element indispensavel.
O aboio e ouvido no recinto da Exposicgo do Parque Per-
manente, de manha ate A noitinha. E hA o encontro de
vaqueiros de t6das as regi6es. O baiano de Jacobina e de
Mundo Novo aboia diferente. E meio mastigado, entre-
cortado, ao contrArio do pernambucano e cearense, que








soltam a voz no mundo a encher o espago corn esse can-
tar que produz verdadeira magia no gado que o escuta,
ou na pr6pria pessoa que nao deixa de ficar embevecida,
por mais insensivel que seja.
Os mestres do folclore international, atraves de inii-
meras pesquisas, sao de opinido de que o aboio nasceu na
Africa ou na Asia, quando surgiram os primeiros pasto-
res de gado. O aboio de tanto poder de sugestio, entire as
reses, 6 onomatopdico. Foi a voz do home que imitou o
dolente e saudoso mugir dos bois, em t6das as latitudes.
Os primeiros pastures aboiaram, tentando imitar o choro
ou a alegria das reses. Nao ouviram o vaqueiro a aboiar
na porteira do curral, ou quando tange o rebanho pelas
estradas afora? A vaca soluga de dor quando o bezerrinho
dela se afasta e todo o curral chora ao ver um compa-
nheiro de raga morto, em qualquer circunst&ncia. E a
alegria que os bois traduzem, ao cair da primeira chuva
do inverno? O home copiou mentalmente aquela voz
de alegria e de tristeza, reproduziu-a na b6ca e aperfei-
coou-a. Acrescentou-lhe outras modulag~es.
Fechem-se homes e gado, isolados do mundo, sem
o menor contato cor a civilizag~o, e ao cabo de algum
tempo, se quebrarmos a prisio, encontraremos os repre-
sentantes da esp6cie, a cantarem o aboio, sem terem
aprendido cor qualquer outro.
Dentre todos os aboiadores que aparecem, em Crato,
sobressai-se, pela voz bonita, segura e cheia, o cego Bir-
r~o. Seu aboio nao tern rival, entire vaqueiros E canto
mavioso e sentido que nos prende a alma, comunicando-
-nos nostalgia da vida rural. t entremeado de versos,
cantado na mesma toada, desmentindo assim a version
quase universal de que o aboio nao ter letra. At6 especie
de dueto ha naquele canto. BirrAo canta dispute entire
vaqueiro do sertdo e proprietArio do Cariri. Deixemos
que o aboiador cego prepare a entrada r6sea ao Amago do
assunto:








Nunca vi caririzeiro
Que nao f6sse aventureiro,
Deixa as vaca de leite,
Leve o gado solteiro
26 6 boi
Se 6e boid
Bora, peid!

Quero vaca de leite
Pra tired um leitim,
Pra leva pro sertio
Pra alimentA meus fiim.
2 C 6, etc.

O patrao fala ao vaqueiro:
Ajunte boi e novilhote
Que das vaquinha de leite
Eu s6 Ihe cedo as de garrote,
De quatro voc6 tem um
E sera a sua sorte.
Ee e, etc.

O vaqueiro baixa a cabega,
Ali comega a magina,
Nfo responded mA ao patrao,
Pra 6le nao se zanga,
Leite de vaca de garrote
Nfo paga o trabaio de arriA.
6e e boi, etc.

Ber caracterizada estA a posicgo dos dois elements
humans nesse aboio em versos. O patrao dono do sitio,
no period normal de s6ca traz o gado para o Cariri, onde
sobram olhos e palhas de cana para o regalo dos animals.
Em Crato, baixa sempre o prego do leite, em 6poca de
estio, e aumenta quando o inverno pega de verdade, que
corresponde a retirada das reses para as pastagens ser-
tanejas do Piaui, Pernambuco e mesmo do CearA. O









senhor de engenho, desde o tempo colonial, possui fazenda
de engorda no sertio e agora disp6e ate de terceira pro-
priedade na serra do Araripe.
Nfo s6 de Birrao ouvi aboio em versos. Em Russas,
no baixo Jaguaribe, boiadeiro, ja bem velho, soltou-me
aboio bem alto. Isso foi na residencia do m6dico Dr.
Daltro Holanda onde eu estava regiamente hospedado.
Disse-me o director do Hospital de Russas, o cirurgido da
zona, que certa vez vinha de jipe nas vArzeas jaguariba-
nas, quando ouviu aboio cor o seu nome, a ser entoado.
Era de improvise e referia-se ao Dr. Daltro, como arma-
dor de tripa e de bofes. O bom velhinho, nascido e criado
no aboiar, sempre vivia a conduzir rebanhos bovinos, de
Jaguaribe para o matadouro piblico de Fortaleza (9).
O nome complete de Birrao 6 Jodo Teixeira da Sil-
va. Nasceu, em Assar6, em 1914 e, com dois anos de
idade, cegou por complete. Diz que foi de constipagdo,
doenga que encore muitas outras e atacando diversidade
de 6rgdos. Atualmente, mora no lugar onde eu nasci, na
Serra do JuA, municipio de Crato, em sitio pertencente
ao Sr. Ramiro Monteiro. Monta em burro brabo para
amansa-lo, mas isso no descampado. i perito, e dos me-
lhores, em trabalhar em entrangado de couro, fazendo
arreios de selas e cabegadas. Tira leite de vaca melhor do
que muita gente de vista boa. Seu burro de sela 6 do-
mesticado e pode pegA-lo, em cercado onde haja dezenas
ou centenas de animals. Vive sem ser pesado a ningu6m.
S6 outro cego eu conheci, a irradiar tanto otimismo, como
se a falta do sentido da visio pouco Ihes importasse, foi
o jornalista e professor Jos6 de Alencar Bezerra, natu-
ral de Pio Nono, no Estado do Piaui e agora no Instituto
Benjamin Constant, do Rio.
Birrao ter estatura regular, robusto, branco, quei-
mado pelo sol e com feig5es bem regulars. JA chegou atW
(9) Para confirmar a minha observago s6bre o abolo em versos, tomel
conhecimento de que na ExposigLo AgropecuAria de Jaguaribe, reali-'
zada em ag6sto de 1960, dois vaqueiros irmdos, oriundos da Paralba,
cantaram o aboio em versos, constituindo a nota de maior atragto
daquela festa regional.







a matar onga de verdade. Nao e mentira. NMo. E hist6ria
veridica, contada em todo o Assar6. Ainda conserve cica-
triz em uma das mios. Isso sucedeu em Sao Domingos.
Cagadores meteram-se corn le no meio da caatinga.
Birrdo estava acompanhado de bons e amestrados ca-
chorros de caga, tipo p6-duro, que 6 o cdo cagador melhor
que existe. No melhor da excursio depararam-se cor
onga magaroca do lombo pr6to. O pAnico dominou os
companheiros da orgulhosa esp6cie humana, enquanto os
representantes caninos mostraram-se A altura do momen-
to. Acuaram o bicho, encurralando-o em local confinado.
O uinico home que ficara diante do perigo nio tinha
vista, embora guiado pela intuigdo, verdadeiro radar de
quem cega ainda cedo. Protegido pelos cdes, aproximou-
-se da onga.
Meti-lhe a jardineira na costela mindim e o bicho
s6 teve tempo de rasgar minha mao, caindo estrebuchan-
do, disse-me 61e, mostrando-me a cicatriz.
Vamos ainda sentir os versos emanados do aboio de
Birrao. R pena a mdsica nao poder traduzi-la para estas
pAginas. Nem tampouco a palavra escrita, quando se
chega aos monossilabos exclamativos! Sao silabas enig-
mAticas intraduziveis, como o balbuciar dos povos que
nasceram na aurora do mundo. O vaqueiro cego assegu-
rou-me que se inspira melhor, quando se trepa na por-
tera do currA. Vamos tomar conhecimento corn o aboio
- ALEGRIA DO VAQUEIRO:

Alegria do vaqueiro
A ouvir o ronco do trovdo,
Ve o c6u se enubra
E a chuva cair no chio,
Bota a sela no cavalo
Vou A casa do patrAo.
Bom dia, senhores todos,
Como vai, meu cidadao?
Vim dizer ao senhor








Que choveu la no sertio,
Vamo junta o gado
Pra faze apartacgo.
2 6 e, etc.

A estrofe ainda descreve a relagdo do vaqueiro cor
o patrdo caririense. Para que bota ele a sela no cavalo?
Simplesmente porque o dono da fazenda reside em sitio
de Crato, Barbalha, JuAzeiro ou Jardim. Vamos, outros-
sim, atrav6s daqueles versos, com tanta simplicidade de
alma, que nao ha luta de classes entire o vaqueiro e seu
chefe, apesar de o primeiro ser freqilentemente espoliado
em seus direitos. A pr6pria sorte, descrita em versos
atras, que era lei antiga, estritamente cumprida, embora
nao escrita em qualquer tratado, presentemente 6 letra
morta. O pobre vaqueiro nao fica mais com o garrote
dos quatro que nasceram, em seu poder. Agora os bichos
sao raciados e valem muito mais do que um p6-duro
comum. O vaqueiro tem de se contentar com a paga em
dinheiro. E nio protest. Mesmo a exist6ncia do cam-
peador das caatingas esta com os tempos contados. O
cercado de arame, ou de pau-a-pique, de pouco a pouco,
elimina-o do cenario nordestino. Mais tarde, ficara rele-
gado ao passado, ou mudara de roupagem, pelo menos
na indumentaria, transformando-se em cow-boy, tipo
cinema norte-americano.
Ao referir-se ao ABOIO, no ja mencionado DICIO-
NARIO DO FOLCLORE BRASILEIRO, as pags. 2, 3 e
4, transcrito tamb6m no livro de sua autoria TRADI-
COES POPULARES DA PECUARIA NORDESTINA,
do Servigo de Informagio Agricola, diz o emerito fol-
clorista national Chmara Cascudo:
"Canto sem palavras, marcado exclusivamente em
vogais, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado.
Dentro dresses limits tradicionais, o aboio e de livre
improvisag~o, e sio apontados os que se salientam como
bons no aboio."
E mais adiante:








"Carlos M. Santos traduziu as interjeig6es do boiei-
ro como vestigios indiscutiveis da neuma. Informa a
impossibilidade da notagdo musical exata. S6 a grava-
gio mecanica seria fiel. k identicamente ao caso brasi-
leiro. O aboio nao ter letra, frases, versos sendo o exci-
tamento final e 6ste mesmo ja falado e nao cantado."
E nao ficou ai o Autor:
"A origem oriental do aboio parece-me fora de dd-
vida. Amigos que tem ouvido cantos melopaicos na Africa
mugulmana, na Costa do Marfim, afirmam a impressio-
nante semelhanga disses gemidos mel6dicos intermina-
veis e assombrosos de sugestio, se trained sur les trois
ternelles memes notes, como anotou o general Baratier,
(AU GONGO, 50)."
Ha algum tempo, ao ouvir program de radioemis-
sora carioca, antes de o locutor apresentar aboio de Luis
Gonzaga, em disco, disse que aquele grande divulgador do
baido nordestino, em todo o Brasil, f6ra o introdutor de
versos no aboiar. Birrio, em outubro de 1953, por oca-
sjio do Primeiro Centenario de Elevagdo de Crato A
cidade, no recinto da Feira de Amostras, A Praga da Se,
ao microfone da Radio Araripe, associada, cantou o
aboio, cor versos LUA BRANCA. E, desde hA muito,
aboiava 6le, com palavras versificadas, na porteira do
curral ou, ao acompanhar boiadas em march, pelas
estradas, mesmo sendo cego. Em Russas, conheci velho
aboiador que usava palavras no aboio. E o tangedor de
bois mansos dos engenhos, nio aboiava tamb6m cor
palavras?
O aboio com versos 6 cantado na mesma toada "desse
gemido mel6dico", de Pernambuco, CearA e Piaui. S6
6 diferente do de Jacobina e adjac6ncias, na Bahia, region
mais aproximada de Minas, e com id6ntica criagdo de
zebus. Foi de la do sertdo baiano que nos chegaram os
primeiros reprodutores indianos, ha vArios anos.
O aboio, portanto, sobrevive no Cariri, com versos
e muitas vezes improvisados. Terminemos 6ste capitulo,
com chave de ouro, bonito aboio do cego Birrao, sertanejo







de t6mpera bem rija, que, privado de um dos mais pre-
ciosos sentidos, possui alma cheia de sensibilidade e que
sabe comunica-la a todos n6s, atrav6s de estrofes sim-
ples e tocantes:

6, mamde, quando eu morrer
Me enterre 1 no currA,
Com quinze dia deu morto
Inda fago gado chorA,
Vaca urrA na porteira,
Bezerro berra e qu6 mama.
2 e 6 boi, etc.

Com o aboio o gado amansa e torna-se disciplinado.
f o melhor preventive contra o arranco da boiada. O
vaqueiro compreende a r6s e sabe doma-la pelo senti-
mento. O amor 6 tdo grande ao gado, que quer at6 ser
enterrado na porteira do curral para vigid-lo e para que
chore, ao lembrar-se do aboio saudoso, o cantar mais
bonito que ecoa pelas quebradas das serras nordestinas.














CAPITULO VI


LOUVACAO AO CARIRI AINDA A PRESENCE
DA BAHIA

O vale caririense, com sua natureza bonita, e eterno
convite ao home para decantA-lo. Os versos populares
estdo cheios de louvagdo A terra dadivosa, plena de tanto
encantamento. O mesmo faz o poeta erudito nos jornais
de Crato, como igualmente o autor de livrinhos de cordel,
abundantes em Juazeiro do Norte.
Iniciemos cor o bardo LOBO MANSO, que 6 JoHo
L6bo da Mata, cujas poesias foram publicadas por Pio
Carvalho, grande contador de anedotas e perito imitador
de voz, irmdo do escritor Jos6 Carvalho. Foram copia-
das pelo Sr. Herm6genes Martins. L6bo Manso, ao
deixar Crato a fim de transferir-se para Humaita, hoje
Senador Pompeu, produziu asses versos de despedida:

Adeus sitio dos "ROMEIROS",
Adeus campos, adeus flares,
Adeus amigos e parents,
Adeus Crato, velho de ambres.
GLOSA:
Eu me despego de ti
Com uma dor no coracgo,
Eu pego um real perdgo
A todos quanto ofendi.







Adeus, Adeus Cariri,
Adeus lugares feiticeiros,
Adeus meu amor primeiro,
Aperta a mao deste ingrato,
Adeus, cidade do Crato,
Adeus, sitio dos "Romeiros".
Adeus, oh fontes douradas
Deste Araripe frondoso,
Adeus, pais majestoso,
Adeus, mangueiras copadas,
Adeus, Arvores floradas
Recreio dos meus am6res
Onde gozei os primores,
No tempo da mocidade,
Adeus, oh brisa da tarde,
Adeus, campos, adeus, flares!
Adeus, Emilia e IaiA,
Adeus, Zeca e Adeltrudes
Deus Ihes d6 muita sadde,
Que eu parto para HumaitA,
Adeus, Jos6 e MundA,
Adeus, Pedro, adeus, Vicente,
Euclides fica ciente
Que te levo na mem6ria,
Digo adeus que eu vou embora.
Adeus, amigos e parents.
Adeus, madrinha Rosinha,
Compadre Jos6 seu irmio
D6 um aperto de mao
Em Donana e Zabelinha,
Adeus, comadre Belinha,
Adeus, frio, adeus, calories,
Adeus, todos moradores,
Adeus, Toinho e Marica,
Adeus, povinho que fica,
Adeus, Crato, velho de am6res!








O poeta Jose de Matos, beberrAo inveterado, o poeta
popular mais conhecido e aplaudido do Cariri, nunca
perdia ocasido de improvisar versos. Parece at6 que,
quanto mais bebia, mais ficava inspirado. Nao foi insen-
sivel as belezas da serra do Araripe, mde carinhosa de
toda a fertilidade do vale:

O verso na minha b6ca
Nao ha na terra quem conte:
R Agua limpa que brota
Em borbot6es de uma fonte!

A minha serra Araripe
E eu vivemos cantando:
Ela cantando nas fontes,
E Z6 de Matos rimando!

A serra, rica princess,
De manto azul revestida,
O pobre de Z6 de Matos
Nem tem camisa na vida!

A serra eterna, imortal,
A gl6ria do CearA,
E o pobre de Z6 de Matos,
Quem dele se lembrara?

A serra brota do seio
Cascata de diamante;
Ze de Matos, pobre e feio,
Nao teve amor nem amante!

A serra do Araripe,
Serra minha predileta,
Manda tuas fontes cantar
O nome de teu poeta.

0 vate saiu, por complete, de seu ritmo de boemia.
Sua alma extasiou-se diante do sortil6gio de belezas da







serra e das riquezas que dela brotam. Das Aguas crista-
linas das nascentes! De azul infindo que a envolve! Ndo se
contentou s6mente em exaltd-la, diante da majestade
prenhe de atrativos. Humilhou-se. Cantou-a em estro-
fes maravilhosas, como poucos poetas poderiam faz&-lo,
nessa tdo maviosa lingua portuguesa.
Mas nio ficou ai, em materia de louvaggo a sua
terra:

BOA TERRA E 0 CARIRI

e terra de agriculture,
Tudo que se plant, cria,
Jerimum, melio, melancia,
Muita laranja madura.
E em cima desta fartura
Mora na serra o pequi,
Tem mangaba e cajui,
Corre a agua na levada,
Grande nascenga no Caldas,
Boa terra 6 o Cariri.

E terra que coadjuva
Quem ao trabalho se entrega,
Planta-se em Agua de rega,
Nasce legume sem chuva.
Muitos t6m botado luva.
Por saber se dirigir,
Pois isso vem para aqui
Cego, aleijado e doente,
Bebe-se muita aguardente,
Boa terra e o Cariri.

E terra da promissio,
Terra de muita virtude;
Mesmo sem fresco de agude
Planta-se cana em leirdo.
Ha muito home de acao





































POWJ ----- r ,f



















COCO-GAVIAO, danoa que se encontra ligada as raizes ktnicas do Cariri








Que sabe bem reagir;
Dentro at6 o Piaui,
S6 vejo o povo diz6:
Boa terra 6 o Cariri.

O vale ter mandinga. Prende os seus filhos por
magia estranha. Os poetas populares ou eruditos nunca
Ihe esquecem os variados encantos, dessa natureza por-
tentosa que fica perenemente gravada no coracgo da
gente. Z6 de Matos, sempre "truviscado" pela cana, irre-
verente como Bocage, transmudava-se quando tinha de
decantar o Cariri. Revestia-se entdo de t6da a esponta-
neidade poetica que o caracterizou, em sua trajet6ria
sobre a terra.
Agora passemos a outro genero de louvagio, atrav6s
do COCO. Nio me demorarei muito nesse motivo fol-
cl6rico, espalhado em todo o norte e centro do Pais e com
variantes no sul. t cAntico e danga. Invadiu radios e
amplificadoras e forgosamente teria de ser deturpado. No
Cariri e sempre dangado por homes, em folguedos fora
de casa. No terreiro ou na sala, ha a presenga dos dois
sexos.
Vejamos o c6co BINGOLE cuja letra colhi de Paulo
Gernol, sertanejo de Taboca, em Pernambuco, nas vizi-
nhangas de Crato, mas ligado tamb6m ao Cariri e aos
Inhamuns, por longa permanencia e lagos de familiar. E
velho, de cabelos brancos, mas esperto. Danga ao siste-
ma antigo e canta uma diversidade de toadas. Reside,
presentemente, no Lameiro, municipio de Crato. Can-
tou-me o BINGOLE, palavra que denuncia sua origem
africana:

Viva a serra de Sdo Pedo
E o Baixio do Cards,
Quero bem ao Cariri
Que la 6 o meu nature.
Bingole, Bingole.








Menina da saia curta,
Saltadeira de riacho
Te sobe no p6 de c6co
Pra bota c6co pra baixo.

Na primeira quadra a rima esta forgada, caso que
pouco acontece entire improvisadores, notadamente corn
palavras terminadas em io e a.
A TOEIRA 6 canto triste, long, dolente. Ja foi
muito cantada em terras caririenses e agora apenas Ihe
restam vestigios. HA poucos anos, na Amplificadora Cra-
tense, est6ve um cantador que a entoou, provocando a
atengdo de muitas pessoas.
Paulo Gernol conhece algumas delas. P, sempre
acompanhada de viola, para dar-lhe sabor mais dolente
e tocar o coracgo dos enamorados. Em noites de luar a
Toeira e de melhor efeito.

6 Maria, olhos vadios,
Atravessa o rio
Pra vila de Juazeiro.

6 Maria, olhos vadios,
Amanhi eu vou me embora
Que aqui nao posso moral,
Todo mundo fala aqui,
S6 eu nao posso fala.

O Juazeiro falado, na toeira, nio 6 o do padre Cicero
e, sim, o da Bahia. O rio que Maria tem de atravessar 6
o de Sdo Francisco, pois, na cidade hom6nima cearense
ha apenas c6rregos que nao empatam alguem passar,
como sempre sucede no Cariri. A modinha e bem velha,
quando Juazeiro nao havia passado a categoria de cidade.
Sempre encontramos a presenga da terra mater do Brasil,
nas menores coisas caririenses, notadamente nas que
possuem raizes bem antigas.








Tomemos conhecimento de uma velha CHULA que
f&z epoca no Brasil, a qual nao desapareceu de todo no
vale caririense. Recolhi-a de Paulo Gernol, mas a ouvi
cantar em meu tempo de crianga. Vem cor a marca bem
baiana o azeite de dende. O farmac6utico Jos6 Gon-
galves de Sousa Rolim, de respeitdvel mem6ria, quando
chegou a Crato, rec6m-formado em Salvador, isso no ano
de 1903, mais ou menos, cantou-a em serenatas. O fato
foi-me relatado pelo saudoso Juiz de Direito, Dr. Alvaro
Garrido da N6brega que, em mogo, tocava bem violio e
cantava com certa alma. A chula que veremos jd era
conhecida pelos seresteiros da cidade:

LA no Rio de Janeiro
Se deu uma politana
Vi uma veia engasgada
Com carogo de banana.

Bola em balacho,
Bola em riba,
Bola embaixo.
Quem percebe da castanha
NAo se lembra do caju,
Quem percebe do caju
Nao se esquece do fuba.

Mulata, minha mulata,
Meu azeite de dende,
Fico todo xique-toque
Quando dango com voc6.

Em 1903, Paulo Gernol presenciou em Taboca, dis-
trito exuense, que faz parte da 6rbita de Crato, mesmo
sendo pernambucano, a danga indigena do "Tor6". Os
caboclos dangavam em duas filas e aos pares. Os passes
assemelhavam-se a pessoas que mancam e o canto era
em lingua portuguesa, porque desde ha muito estavam
domesticados. O indio vestia calga curta e tuinica encar-








nada, enquanto o element feminine trajava saiote, cor
calgas de home por baixo. Ambos usavam capacete,
arrodiado de penas, talvez modificacgo do cocar. As
filas de 12 pares ao se encontrarem dobravam na extre-
midade uma da outra e trocavam de lugar.
Meu papagaio amarelo
Que come na chd da serra,
Batam palmas e digam viva,
O cab6co ta na terra.

Meu cavalo, peito e anca,
Da cab6ca se month
Daqui l1 pra Bahia,
Pra caboca debochA.

Boi brabo,
Boi manso,
Rio cheio
t que faz remanso.
A Bahia ainda aparece em toada abaixo, cantada no
Condado, propriedade do deputado Antonio de Alencar
Araripe, com moradores exclusivos da zona caririense.
EstA encravado no municipio de Pio Nono, municipio de
acentuada influencia cratense, cuja familiar dominant 6
a Alencar, de troncos caririenses e do sertdo pernambu-
cano.
Eu sou do lirio
E trago pra vend&,
Eu trago da Bahia
Um namorado pra voc6.

N&o podemos fechar o capitulo sem incluir outra pre-
ciosidade de Jos6 de Matos. louvacgo diretamente A
cidade de Crato. Nela trai seu espirito que se aproxima
do vate lusitano Bocage, o Elmano irreverente, tfo
conhecido em qualquer lugar onde se fala a lingua por-
tuguesa:







Adeus, cidade do Crato,
Quereres de minha vida,
Levo saudade de ti,
Rapadura e rapariga!

Se eu long ndo me acabA
Te juro por Z6 de Mato
Que ainda hei de te ver,
Minha cidade do Crato!

Quando cover no sertao,
JA chove no Cariri:
Havendo muito feijao,
Na serra muito pequi.
Quando a cana apenduA,
Quando o arroz fulord,
Quando o milho der espigas,
Eu volto pra esta fartura,
Para mexer rapadura
E mexer com as raparigas.
Se tais versos f6ssem feitos em Portugal, passariam
como inocentes, no vale caririense, por6m, t6m sua gravi-
dade. Rapariga 6 sin6nimo de meretriz. Crato tem
essa triste fama, desde o passado. E grande emp6rio do
meretricio, agora agravado com o progress. Bairros in-
teiros sdo dominados pela prostituigdo, agora ja em zona
central, envolvidos pela cidade que cresceu. P problema
alarmante, tanto no ponto de vista social e moral, como
sanitArio e econ6mico. E o pior, 6 que o lenocinio, con-
denado pela lei, impera assustadoramente, com essa torpe
exploragdo do mais "sabido", no reprovavel comercio da
care humana.
O bardo Z6 Matos, repentista sem par, f6z aquelas
estrofes, no alto da Matanga Velha, hoje alto da Inde-
pendencia, ao despedir-se de Crato, para ir talvez para
o outro lado da serra, em Pernambuco. A nostalgia do
Cariri e crucial quando a gente se muda dos p6s-de-serra








para o sertao de caatinga rasa. A alma emotiva ter de
cantar, corn saudade a cruciar-lhe e a poesia nasce espon-
tinea. Nio precisa ser possuidor de lastro de cultural
para sentir e cantar a natureza. A poesia brota direta-
mente do coragio. T o caso de Dona Maria Arnaldina
de Alencar. Nascida entire fruteirais e canaviais dos sitios
cratenses, teve de mudar-se, ainda moga, para o sertio
pernambucano de Exu. Jamais pode esquecer a terra
que Ihe serviu de bergo. Os canaviais, o engenho a moer
nao Ihe saiam da mem6ria. A fim de acalmar sua emo-
tividade deu para decantar a terra, encoberta pela serra,
em estrofes singelas. Tinha apenas instrugio de primei-
ras letras e nunca ouviu falar nem em escolas literArias,
nem lera qualquer tratado de metrificagio. Mas tinha a
alma repleta de sentiment. E assim comp6s "SAU-
DADES DO CARIRI", poesia que saiu no quinto nfimero
da revista "ITAYTERA", editada em Crato, em 1959.
Foi recolhido pelo filho, farmaceutico, em Exu, Meton
Soares de Alencar. Tomemos contato com algumas
estrofes, tio cheias de espontaneidade:

Eu tenho imensa saudade
De todo meu Cariri,
Das serras, montes e vales,
Onde canta a juriti,
Das belas inspirag~es
Que sempre senti ali,
Quantas vezes delirante
Procuro e nao acho aqui!

Tenho saudade do rio
De seu murmuirio queixoso,
Das aguas limpas e puras
Como cristal primoroso,
Fertilizando o solo
De um manto luxuoso,
Vegetagdo encantada,
Que torna um povo ditoso.







Da brisa entire coqueiros
Provocando a poesia,
Murmura quanta beleza
Junto a doce harmonia,
Trinada pelo canario,
Ao primeiro albor do dia,
Que saudade sinto agora
Dessas horas de alegria!

Saudade da Bebida Nova
De tdo lindo palmeiral,
Do ar da brisa da tarde,
Do banheiro do quintal,
Do jardim bem cultivado
Por mdo de fada mortal!
Tanta beleza parece
Um paraiso terreal!

A mulher tinha tamb6m de aparecer nesta monogra-
fia. A gente para melhor sentir todas essas belezas, tra-
duzidas em estrofes, emanadas do coracio, 6 precise que
conhega de perto um recanto encantador dos p6s-de-ser-
ra caririenses. A Bebida Nova, por exemplo, decantada
pela poetisa Dona Maria Arnaldina de Alencar, jd fale-
cida, na outra banda da serra e que, ao atingir a idade de
87 anos, ainda produziu versos, cor t6da a espontanei-
dade de sua alma simples!
A casa grande do engenho 6 como ela descreve. Pos-
sui seu banheiro de bica no quintal, de Agua bem crista-
lina, jardinzinho bem cultivado ao lado, com jasmins,
pacaviras, borboletas de cheiro inebriante, rosas de diver-
sos matizes, cravos vermelhos e brancos, margaridas,
acucenas e, sobretudo, jardineira bem bonita, que se con-
funde entire as flores. Pela manhA os passarinhos enchem
aquilo tudo com sua orquestracgo maravilhosa. O Cariri
6 assim. Ningu6m o esquecerd jamais. Tem chamariz,
ter sortil6gio!














CAPITULO VII


MANEIRO-PAU


Mais uma vez damos a palavra ao maior dos folclo-
ristas brasileiros da atualidade, o norte-rio-grandense
Luis da CAmara Cascudo (10), para sentirmos a sua aba-
lizada opiniio s6bre o maneiro-pau, o qual escreveu l6e:
"MINEIRO PAU Antiga danga de roda cantada
e ritmada cor palmas. Os dangarinos viravam-se para a
direita e para a esquerda, com um leve cumprimento ao
companheiro d6ste lado, ou fazendo mengdo de dar umbi-
gada. Cantavam quadrinhas, intercalando o estribilho
MINEIRO PAU! MINEIRO PAU!
O folguedo 6 bem velho no Cariri e permanece no
cenArio dos sitios e subdirbios de Crato. F6z parte das
festividades de seu centenArio de elevagdo A cidade, em
outubro de 1953. Foi muito apreciado pela nota in6dita
que imprimiu a muitos visitantes, especialmente aos
filhos de Fortaleza, que o desconheciam.
A brincadeira, cor cAnticos e danga, e conhecida
no vale caririense, desde tempos imemorAveis e nao tern
acompanhamento de qualquer instrument. E privativo
de homes e, na regido, 6 chamada maneiro-pau. S6
as pessoas letradas denominam-na de mineiro-pau, como
se tivesse origem mineira. Por onde veio at6 n6s, se ter
aquela origem? S6 se foi atrav6s da Bahia que se limita


(10) Dicion-rio do Folclore Brasileiro, cit., pig. 400.






























































MANEIRO-PAU, danqa mascula realizada ao ritmo de versos
estribilados, ante o entrechoque continue de porretes


a~l~l~ET 'C lld








e tem com6rcio intense de gado com Minas Gerais. Ha
alguem que acha ser a palavra MANEIRO apenas detur-
paaio do t6rmo MANEIO. A verdade e que, no Cariri,
ningu6m chama o folguedo cor qualquer das duas varia-
g5es. S6 eventualmente, premidos seus components,
pela falta de espago, transforma-se em danga de roda. No
comum e formado por filas. Os homes munem-se de
cac6tes, bem torneados, quase sempre jucas, por serem
os mais resistentes.
Em tempos mais recuados, os jogadores do maneiro-
-pau estavam vinculados, de corpo e alma, ao esporte
arriscado dos jogadores de cacete. Eram caboclos, ou
cabras como antigamente os chamavam, dos engenhos
caririenses, da bagaceira, peritos manejadores de cac6te,
como arma defensive e ofensiva. A pericia era tal, na-
quele perigoso j6go, que se expunha a defender-se, espor-
tivamente, cor seu porrete, os golpes de facas-de-ponta,
hAbilmente empunhadas por perfeitos esfaqueadores.
Foi isso no tempo do cangago, quando o morador cariri-
ense era tropa mobilizAvel do senhor de engenho, pronta
para qualquer emergencia. Hoje aquela luta entire cace-
tes, ou entire jucas e faca-de-ponta, passou do panorama
caririense, eliminada pelo progress. O cabra de enge-
nho ja nao 6 mais guarda-costa do patrAo. Continue a
fazer parte ainda do rebanho eleitoral, mas ja anseia por
normas melhores de vida e mais igualdade corn o seu
senhor.
O porrete agora s6 6 utilizado no maneiro-pau, fol-
guedo que continue a medrar nos sitios e suburbios, ape-
sar do progress que penetra aceleradamente na region.
t nas noites enluaradas que o morador do sitio gosta
de jogar o maneiro-pau. Caboclos, cuja designacgo
abrange nao s6 os descendentes dos aborigens, mas os
pobres em geral, quer sejam brancos, pretos ou mestigos,
refinem-se aos magotes. Sio dez, quinze, vinte ou mais,
predominando rapazes e meninotes e todos da mesma zona
rural. No sitio Lameiro, por exemplo, ha ajuntamento
apenas de moradores dali, enquanto em Belmonte, nas








vizinhangas, ha outro grupo de manejadores de cacete.
O acompanhamento 6 apenas o ritmo do troar dos cac&-
tes, uns nos outros. Os components do apreciado folgue-
do ficam em fila indiana, cada qual munido de seu por-
rete. Em festas p6blicas, podem trajar harm6nicamente,
com camisa de meia listrada, calgas comuns e alpercatas.
Nos sitios nao ha indumentAria especial. Ha sempre um
tirador de versos, que faz o solo, improvisando, ou corn
produgfo de outrem, sabida de cor. Pode haver tamb6m
varios solistas, cantando de per si, no grupo. Nao s6 sio
cantadas quadras, como igualmente martelos, ou outro
genero.
Os versos sao entremeados do coro MANEIRO
PAU! MANEIRO PAU!, correspondendo A pancada do
cacete um no outro. Ha deles que batem no chao tam-
b6m. A toada 6 dolente, mon6tona, com a rmisica do
baifo primitive, alias publicado, nestas paginas, copiado
pelo Mestre Azul, dirigente da Banda Municipal de Crato.
N~o deixa o folguedo de ter seu encanto especial, com o
c6ro de vozes de home e o troar dos cacetes, sincroni-
zadamente, a encherem o espago, ecoando em morros e
serras. O espetaculo 6 impressionante, em noites enlua-
radas e chama a atengao de todos os moradores por onde
desfila. A danga invariAvel nao passa de volteio do corpo
e na pancada, em sincronia, dos cacetes empunhados A
mao direita de cada um, mais ou menos erguida, para que
nao atinja a cabega do companheiro.
Contou-me o Sr. Paulo Gernol, ja citado, que, nou-
tros tempos, o dangador daquela brincadeira, alem de
bater com o porrete no de seu vizinho, dava ainda pan-
cada no chao, no volteio do corpo. Atualmente estA mais
simplificada. O cantador pode improvisar motives da
terra ou canta-los, aprendidos de outra pessoa, ou conhe-
cidos pela tradigdo. Ha estrofes classicas que correm de
b6ca em b6ca em todo o interior. Vejamos algumas qua-
drinhas improvisadas, no sitio Lameiro, com marca bem
de casa:































-I-
A#



















------------






fr--riF 19~f I





vI









II ___ ___ ___ __ ___ ___ ___ __ ___ ___ ___ ___ __ ___ ___ ___ __


MANEIRO-PAU, 9sica de la das mais tradicionais dangas do Cariri


-- ----
----I
---L------







O caminho do Lameiro
Maneiro pau!
Vou manda ladria
Maneiro pau! Maneiro pau!
Corn pedra de diamante
Maneiro pau! Maneiro pau!
Pro meu amor pass.
Maneiro pau! Maneiro pau!

Dispensemos, dagora em diante, o estribilho que, ao
ser cantado no folguedo, 6 muito bonito, mas que se torna
cansativo, escrito ou recitado. Prossigamos:

Sim sinho, seu Aderson,
Eu nHo quero seu dinheiro,
Quero que me de licenga
Pra brinca no seu tereiro.

Rapaz que que cash,
Case logo no Lameiro,
Moga la do Belo Monte?
e mi6 fica solteiro.

Sgo bonita pra dandy
As moga do meu Lameiro,
Nao caso no Belo Monte,
Prefiro fica solteiro!

Ha velha rivalidade entire os moradores do Lameiro
e do povoado de Belmonte, ao sope do Araripe. Nas duas
localidades, tanto ha moga bonita e ajeitadinha, como
feia e marmotosa. E quando um rapaz quer mesmo casar,
nao pergunta se sua escolhida 6 de um outro distrito.
Todo dangador de maneiro-pau conhece, de cor, a
clAssica quadrinha que acompanha o folguedo, em todo
o Norte ou noutros pontos do interior brasileiro:







Vou-me embora, you-me embora,
Segunda-feira que vem,
Quem nao me conhece chora
0 que fara quem me quer bem?

Todo verso de sete silabas adapta-se ao maneiro-pau.
Ouvi-o algumas v6zes com as bem conhecidas coplas
sertanejas:

Me atrepei na bananeira,
Me enrolei corn o mangarA,
Comi banana madura
At6 a gata mid.

Assubi de pau a riba,
Fui descansar na forquia,
Peguei na perna da v6ia,
Pensando que era da fia.

Me adesculpe, SiA dona v6ia,
Era de noite eu nao via,
Perna de v6ia 6 cascuda,
Perna de moga 6 macia!

Os components do maneiro-pau, que fizeram parte
dos festejos centenarios de Crato, cantaram versos im-
provisados ou aprendidos na literature de cordel ou na
tradigdo oral.

Viva a cidade do Crato,
Princesa do Cariri
Hoje f6z seu centenArio,
Nao quero sair daqui.

No maneiro-pau gostam muito de motives que se
referee a duas, tr6s ou quatro coisas do mundo, que sdo
de estimagFo, fazem arrenega ou arripuna. Em Fortaleza,
quando estudava, ouvi rapaz de Pernambuco, recem-







-chegado da Amaz6nia, cantar algumas delas, com a
mesma toada e o mesmo estribilho, que eu conhecera, em
Crato, desde crianga.

HA quatro coisas no mundo
Que me p5e em confus&o:
O vap6 anda nos trio
Sem p6, sem junta e sem mao,
Anda em linha reta
E esbarra na estagdo.

Ha quatro coisa no mundo
Que me faz arripuna:
O vap6 anda nos trio
E as carroga acompanha,
O telegra da aviso,
Antes do bruto chega!

Ha tr6s coisa neste mundo
Que me faz arrenega:
Noite escura, mui6 feia,
Cachorrada no quinta!

O maneiro-pau do Cariri ja foi transplantado para
outras terras, com real sucesso. A profess6ra Flosceli
Viana Ulisses, diretora do Grupo Escolar Rural Luisa
Guerra, do Cabo, em Pernambuco, filha de Exu e tendo
residido muitos anos em Crato, onde tem parents, intro-
duziu-o em CAVALEIRO, perto do Recife, em festa do
GRUPO RURAL MODRLO MURILO BRAGA. Prepa-
rou grupo de alunos, ensinou-lhe a danga, o manejo dos
paus e os versos e Mles exibiram-se, em presenga do Se-
cretArio da Educagio e outras autoridades. O sucesso foi
total e os presents desconheciam, por complete, o fol-
guedo, embora conhecido, noutros pontos do interior
pernambucano.
O poeta e jornalista cego prof. Jos6 de Alencar Be-
zerra, natural de Pio Nono, tamb6m o introduziu em fes-







tinha no Instituto Benjamin Constant, do Rio, em dezem-
bro de 1958, entire alunos e profess6ras estagiArias. Can-
taram e dangaram o maneiro-pau, com toadas e versos
caririenses, bebidos em livro de minha autoria ENGE-
NHOS DE RAPADURA DO CARIRI, edig~o do Servigo
de Informacgo Agricola, do Minist&rio da Agricultura,
1958.
Joao Bernardo 6 moreno de c6r fechada. Desempe-
nado, sacudido, vivo, traja direitinho: calgas de fazenda
boa, silaque de linho, usa alpercata de rabicho e rel6gio
de pulso. Aprendeu a ler suficientemente para ser eleitor.
Negocia com pequenas coisas. Compra aqui, vende acolA.
Apesar de traquejado, fala errado como qualquer outro
caboclo. Mas, 6 inteligente. Ficou, entretanto, com a
alma arraigadamente presa aos habitantes dos bairros
pobres cratenses. Nasceu mesmo na mocidade. P impro-
visador de versos, joga maneiro-pau, brinca o c6co e a
danga de palmas-de-mdo.
Ao perguntar-lhe como aprendera aquilo tudo, res-
pondeu-me dando espontAnea definigco da tradicao oral,
que nio pude deixar de copia-la:
A gente vai se acabando, vdo outros ficando e
aprendendo, e assim vai pra diante.
Referia-se aos versos e dangas do povo. E bem ani-
mado solista do maneiro-pau. Improvisa conforme as
circunstAncias. Diante da igreja, faz estrofes de cunho
piedoso e em sambas de terreiro, muda por complete de
motivo. Sdo dele:

Das horas de Deus Am6m,
Agora v6 comegA
A minha brincadeira,
Maneiro pau v6 joga.

E mestre Joao Bernardo,
Aprecia a brincadeira
Dou palmas de fineza,
Quando pego a vadid.













A



IV


C6co-gaviLo peneirador, motive folcl6rico alagoano
vinculado a tradigio cultural do Cariri








Pela primeira vez, ouvi quadra sem rima, em can-
tador de improvise. Seria o comego de uma escola, ou
simplesmente falta de vocago para o repente?
Tanto l1e, como seus companheiros que pousaram,
dangando, para o fot6grafo, conhecem e executam bem a
danga de palmas-de-mio, muito difundida em tempos que
jA se foram. Perguntei ao mestre Joao Bernardo se havia
qualquer semelhanga entire a danga-de-palmas e o manei-
ro-pau. Respondeu-me sem titubear:
Ninhor, nao! Nao ter nem parenga uma corn 6uta.
I tudo adeferente. Sapateou no soalho e acompanhando
corn palmas, cantou-se:

Avoa, avoa borboleta!
Cant6 moleta
Que cair nas minhas mdos,
Apanha, fica pisunho,
Fica mais do que bakta.
Quem nao pode, nao se meta,
Pra vadiA no cerrado,
Cria moc6 no teiado,
Avoa, avoa borboleta!

A mdsica aproxima-se da embolada e o pinoteado 6
como o baiio e sempre acompanhado cor palmas de cada
um d6les, em perfeita sintonia. Nao ha acompanhamento
musical. Podem dangar home cor home, ou os dois
sexos.
Joao Bernardo 6 eximio dangador de c6co, cor estilo
primitive, nao deturpado pela influincia litorAnea. Ouvi-
-Ihe o Gavido. Disse-me que e dangado em roda, ou em
fila, pelos sexos isolados, ou juntos. O acompanhamento
6 o ganzA e as filas cruzam, uma corn outra.

Gaviao, peneira a pena.
Peneira a pena, peneirad6,
Gaviao, peneira a pena,
Peneira a pena de novo, peneirad6!








O jovem escritor e jornalista F. S. Nascimento, bom
pesquisador, forjado no Instituto Cultural do Cariri, ora
residindo em Fortaleza, onde se projeta firmemente nos
meios culturais, enviou-me as notas:
"Felicitas, em "DANCAS DO BRASIL", diz o seguin-
te s6bre o maneiro-pau: "Coreografia: mogas e rapazes
formam um circulo de mios dadas. No centro, um solista
ivioleiro ou violinist) que canta acompanhando a miisica
cor seu instrument a fim de animar o folguedo. Os dan-
cadores voltam-se ora para a direita, ora para a esquerda.
Assim ficam de frente para o seu par vizinho. Entremen-
tes sapateiam acompanhando o ritmo e o comparso da
melodia.
O mineiro-pau 6 uma danga animada, viva e rica
em movimentos."
No Cariri, s6mente o element masculine brinca o
maneiro-pau, com danga e canto. Nao 6 acompanhado
de instrument, a nao ser o ritmo da pancada dos cacetes,
um no outro.
Felicitas, no preAmbulo da nota, diz:
"Mineiro-pau 6 uma danga singela, de origem indi-
gena, sendo mais dangada em Pernambuco. e mais um
divertimento dos jovens."
Em todo o decorrer da nota, o autor de "DANCAS DO
BRASIL" nio se referiu ao manejo dos cac6tes, ou dos
paus, caracteristica essencial do folguedo e justificativa
de sua denominagio. Quanto A origem indigena pode ser
problemAtica, pois, hA, em Portugal, muitas dangas tipi-
cas, cor o emprego de cacetes.
Em conclusao, o maneiro-pau, autentico, 6 o brin-
quedo ainda no Cariri, ou noutra regido que o imite, pois
do contrArio nao se justificaria o acr6scimo do termo
"pau" a palavra "mineiro" ou "maneiro".
































































Tocador de zabumba, ou zabumbeiro, ao bater em seu rfstico instrument,
sentado num t6sco banco dos pds de serras caririenses.















CAPITULO VIII


BANDAS CABAQAIS DO CARIRI


Em seu livro "VIAGENS DO BRASIL", Gardner
descreve a banda de couro como a encontrou, em Crato,
no ano de 1838:
"No terrago em frente ao temple, ondulava grande
massa humana e meia ddzia de soldados disparavam, a
espagos, seus mosquetes. A pouca distAncia tocava uma
banda de musica, dois pifaros e dois tambores, misica de
pior categoria, a correr parelhas corn os fogos de artificio
entfo exibidos."
A impressio de Martins Braunwieser, de Sio Paulo,
a respeito da banda-de-couro e publicada no "BOLETIM
LATINO-AMERICANO DE MIfSICA", Rio, abril de
1946, foi completamente diverse da que tiveram os ouvi-
dos britAnicos, horrorizados, do viajante Gardner:
"Ndo ha coisa mais linda do que uma cabagal no ser-
tao. Durante a viagem a Taracatu (Pernambuco), vi uma
cabagal tocando em frente a uma pequena capela, no cam-
po. Poucas casinhas havia ao redor; era de manhf, c6u
do sertio, o ar vibrando, calor... De long ouvia-se o
ritmo marcial dos zabumbas, convidando e chamando o
povo para ir A capela; mais pr6ximos soavam os sons
finos, agudos, melanc6licos dos pifes, que tocavam com
uma melodia alegre; parecia-me um verdadeiro do-
mingo."
E mais adiante, continue Martins Braunweiser;








"O pife e um instrument de s6pro feito de madeira,
cilindrico, tal qual a nossa flauta primitive, sem chave;
o timbre 6 tambem o mesmo. Um som todo especial, um
tanto agudo, melanc6lico, amoroso, lembrando pela altu-
ra o nosso flautim, produzem os pifes de pequeno tama-
nho. A extensdo 6, de mais ou menos, duas e meia oita-
vas. Sdo mais usados a regido m6dia e os sons agudos;
raramente as notas graves."
Desde o period de minha meninice, que ougo a toada
da misica-de-couro no Crato. Uns a chamam de banda-
-de-mdsica-de-couro, outros de zabumba-de-couro e final-
mente o nome de cabagal que ji pegou quase defi-
nitivamente. Na realidade, 6 o conjunto musical mais
ex6tico e mais caracteristico do interior nordestino. Para
escutA-lo, mais de perto, e ver tocadores de pifaros e za-
bumba, a desfilarem pela minha rua, quando crianga, dei
tamanho encontrAo num transeunte, que arrebentei, na
calgada, todos os incisivos superiores.
Ainda hoje, apesar do progress, nio foram elimina-
das da vida rural caririense. De vez em quando, percor-
rem os pifeiros as ruas mais movimentadas de Crato a
tocarem march e baiao, sempre com o porta-bandeira na
vanguard, a tirar esmolas, com uma bandeja, para o
Santo, cuja festa se comemora na ocasido.
Nas festas comemorativas do Centenario de Eleva-
cdo de Crato A Categoria de Cidade, a 17 de outubro de
1953, foi a cabagal o principal atrativo dos folguedos fol-
cl6ricos. Cinco ou seis bandas desfilaram pelas ruas, a
tocarem baiao, sambas, marchas e valsinhas dolentes.
Dentro de pouco tempo cada conjunto se fazia acompa-
nhar de numerosas pessoas de fora, que nunca tinha visto
nem ouvido semelhante e original banda de muisica, em
qualquer outra paragem. Organizaram-se verdadeiros
grupos carnavalescos a fazerem o pass, acompanhando
a caminhada dos pifeiros e zabumbeiros. Naquele dia,
beberam 6les A vontade e ainda chegaram em casa com os
bolsos recheados de dinheiro, com as inimeras dAdivas
dos visitantes de Crato.

























































































Pifeiros cor pes entrelagados dangam um baiio caracteristicamente cearense


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Fora de minha cidade, s6 ouvi essas bandas sui-gene-
ris em Juazeiro do Norte e Exu. Soube que, tempos
atras, muitos daqueles conjuntos tocavam em festas dos
sub6rbios de Recife. Eliminou-as ali a civilizagdo como
o f&z com os cantadores de COCO, que transportavam
pianos pelas ruas centrais da capital pernambucana.
Afirmou-me o amigo prof. Ant6nio Teodorico Barbosa,
natural de Alagoas, que, naquele Estado, sao muito co-
muns as cabagais, tais quais se encontram em Crato.
Uma delas chegou atW a visitar o Cariri, ha poucos anos.
Era bonito e bem apetrechado conjunto que, al6m dos
instruments usuais, usava pratos identicos aos das ban-
das de misica comuns. Alias, essa novidade foi introdu-
zida em Juazeiro do Norte pelo Dr. Tomaz Pompeu Filho
e assim obteve melhor efeito na tocata do zabumba-de-
-couro, isso ha circa de 30 anos. A moda, entretanto, nio
parece ter medrado.
Na mesma reportagem que citei atras, de Martins
Braunweiser, publicada sob o titulo: "O CABACAL", no
BOLETIM LATINO-AMERICANO DE MOSICA, ha
fotografia de uma banda-de-couro da vila de Sao Miguel,
no Sao Francisco, com pifaro de palheta, como clarineta,
acrescido tambem de um reco-reco. O autor de "O CA-
BACAL", acima citado, encontrou diversos conjuntos,
cor dois pifeiros, um zabumba e uma caixa, no interior
do Estado da Paraiba.
No municipio piauiense de Pio Nono, na fazenda Con-
dado, de propriedade do deputado Antonio de Alencar
Araripe, havia zabumba de couro, por6m, transplantado
do Cariri. Ninguem o conhece nas zonas criadoras do
CearA e do litoral, tudo assim comprovando que tivemos
colonizagio inteiramente diverse da de outras regi6es
cearenses.
Nfo resta a menor d6vida de que as cabagais tive-
ram origem em meio dos escravos africanos. Apesar da
pouca contribuigio do negro na formagdo do Cariri,
seus costumes, que perduram no Brasil, muito mais do







que os do amerfndio, vieram-nos atrav6s da imigragio da
Bahia, ou de Pernambuco.
Koster, em seu livro VIAGENS DO NORDESTE
DO BRASIL, A pAgina 273, escreve:
"F6z-nos ouvir a mfsica que se usa, nessa parte do
Pais, tres negros com gaita de fole comegaram a tocar
pequenas toadas enquanto estAvamos jantando mas pare-
ciam tocar em tons diversos uns dos outros e as vezes
supunha que um d6les executava pega de sua pr6pria
composigdo.
Imagine que algu6m jamais tentou produzir harmo-
nias sonoras cor tdo maus resultados como 6sses chara-
meleiros. A posse de uma dessas bandas empresta um
certo grau de superioridade, e conseqiientemente, os ricos
plantadores t6m orgulho pelos seus mdsicos."
Mais adiante, A pAg. 317:
"Um deles 6 uma esp6cie de tambor formado de uma
pele de carneiro, estendido s6bre um tronco 6co de
arvore."
Parece atW que -descreveu o pr6prio zabumba da
cabagal do interior nordestino, pois 6 formado de tronco
6co, coberto de pele de carneiro.
No mesmo livro, hA uma nota do conhecido pesqui-
sador de nossa hist6ria e do folclore national, o escritor
CAmara Cascudo, e que diz nunca ter encontrado meng~o
de gaita-de-fole tocada no Brasil.
Creio que houve 6rro de observagio do autor estran-
geiro, ou por outra, empr6go de palavra ndo traduzindo
bem o pifaro cor bocal e palh6ta, ou mesmo simplesmente
o de bocal lateral. O primeiro tipo e ainda hoje chamado
gaita, no sertao, nome que o sertanejo nio dd ao realejo
de boca.
Parece que Koster, em principios do s6culo passado,
nao f6z mais do que descrever o embriao da m6sica-de-
-couro, organizada depois cor a fusio do zabumba, pifaros
e a caixa.
Na estrondosa festa de recepcgo, em Crato, ao Bispo
de Fortaleza, D. Manuel Lopes, em 1909, o major Jose




































































A CACHORRA, miisica que ocupa o primeiro piano
no repert6rio das cabagais caririenses








Gongalves, encarregado, por muitos anos, da festa da
Padroeira, chegou a juntar mais de trinta bandas-caba-
cais, todos os seus components fardados e com suas ban-
deiras bem novinhas. Foi a nota mais atraente para a
meninada daquele tempo. Mais, at6, do que a competicgo
das bandas de misicas verdadeiras, de Crato e de Bar-
balha.
Cor a morte daquele cratense, misto de comerciante
e agricultor, as cabagais passaram a declinar, embora
seu irm~o major Jodo Evangelista Gongalves, tamb6m ja
falecido, tenha tentado reorganiza-las. Mas a luta do pro-
gresso contra o passado 6 bem ardua. Meu pai, Jos6 Alves
de Figueiredo, tentou proibi-las na cidade. Naquele tem-
po, tudo que nao vinha de fora, nio estava de ac6rdo com
a civilizacgo que comegava a penetrar no interior. No''
podiamos, de forma alguma, apresentar-nos ao visitante.'
vindo do litoral, com mfsicos tio bisonhos e primitivos.
O estudo do folclore estava bem em seu inicio. A tradicgo
apresentava-se como inimiga ndmero um do progress.
A mentalidade atual mudou. O que 6 bom, que nas-
ceu com o povo, deve ficar e ser incorporado ao patrimB-
nio do Brasil. Se nio f6ssem as bandas de mdsica-de-
-couro, as sanfonas dos p6s-de-serra e dos sert6es, as vio-
las lAngiiidas e mon6tonas, nao teriamos doado ao Pais
o popularissimo baido que comegou a invadir at6 as ter-
ras estranhas. RIsse genero musical existia ha mais de um
s6culo, conservado na tradigdo do povo que nunca co-
nheceu as sete notas de escrita da mdsica. Hoje o ritmo
do baiao derrama-se pelo Brasil e comega a extravasar-se
pelo mundo afora.
A cabagal tamb6m nao estA mais circunscrita A
mdsica de carter regional. Executa marchas e sambas
carnavalescos, que seus components ouvem e aprendem
de ouvido nas amplificadoras de som, que pululam em
vilas, povoados e cidades do interior. HA pifeiros que
tocam dobrados bem marciais. O Sr. Vicente Silva tocou
em frente de minha casa, cor sua banda, march de sua








composigio que ficaria bem em qualquer banda de musica
do Ex6reito ou da Policia.
Dio os pifeiros modulag6es varias, em seus instru-
mentos de taboca, que mais parecem flautas de 12 chaves.
Acredito que fazem isso porque um d6les faz o solo, en-
quanto o outro o acompanha, empregando a maior tec-
nica que aprendeu, de ouvido, ou inventa de cabega.
A cabaga ja evoluiu, em seu ritmo musical, depois
que os anglo-saxonios Koster e Gardner a ouviram, na
primeira metade do s6culo pret6rito. Tanto assim que os
ouvidos do paulista Martins Braunweiser, de sangue ger-
manico, bom musicista e familiarizado cor a verdadeira
mdsica do continent europeu, entenderam-na, cor o
maior carinho e simpatias, quase no meado do present
s6culo.
Executam os components da banda-de-couro mfisi-
cas onomatopaicas de compositores locais, que sao bem
apreciadas pelos caboclos dos campos e dos bairros das
cidades caririenses. O baiao 6 o genero de que mais gos-
tam. PIPOCA 6 um baiao que imita o milho pipocando no
fogo. MARIBONDO 6 tio agressivo em notas agudas
quanto aqu6les insetos tao valentes e de ferroada tio
causticante. CACHORRA e como se f6sse a cadela a
gritar com o agoite. Notei que cabagais diferentes tocam
CACHORRA de maneiras diversas umas das outras.
Parece-me que sendo motivo, embora originArio do bafio,
jA possui certo grau de independ6ncia. Isso s6 podera ser
identificado por algu6m que entenda bem de mdsica.
Pifeiros e zabumbeiros nao sio tocadores s6mente.
Dangam, ao mesmo tempo que tocam, aqueles muisicos
matutos. Saracoteiam o baiao, tal qual se danga, ha mais
de cem anos. Ha passes diversos. Alguns d6les podem
confundir-se cor o frevo pernambucano. JA vi tocador
de zabumba com um p6 s6, pulando vara deitada, a tocar
no seu volumoso instrument, sem perder o compasso da
musica e da danga. HA trejeitos diversos, muitas v6zes
exigindo verdadeiras proezas acrobaticas. HA tanta ri-
queza coreografica no baiao traditional, dangado pelos































































Pifeiro, ou tocador de pifaro, principal figure das bandas de couro do Cariri







pifeiros do Cariri, que pode superar ate o frevo de Per-
nambuco. Ha caboclos que dangam tao bem, ao som do
popular ritmo sertanejo, que conseguiu dominar o Brasil,
de norte a sul, que nao tnm m6do de munir-se de duas
facas de pontas e saem inc6lumes, depois de saracotearem
passes diversos e arriscados.
Mesmo cor o declinio do prestigio da cabagal, nos
iltimos anos, ainda podemos ver conjuntos bem apetre-
chados, como o que existe no sitio Francisco Gomes, mu-
nicipio de Crato. Zabumbas e caixa sao bem acabados e
pintados esmeradamente. Os pifaros sao de metal e re-
luzentes. Mas isso 6 excegdo apenas. O comum 6 vermos
zabumba e caixas t6scamente trabalhados e os pifaros de
taboca cor os sete buracos furados a esp6to quente.
A cabagal nfo morreu no Cariri. Seus components,
trabalhadores dos sitios e dos engenhos, alguns d6les jh
morando na cidade, ainda tocam e dangam, arrancando
melodies dos risticos instruments. Possuem tambem
seu ritual de tocatas e cerimonias para o noven6rio de
maio. Reverenciam santos, com cerimonial bem compli-
cado, de passes e trejeitos que mostram muita prAtica
anterior.
O progress nao deve elimin--las da paisagem pi-
toresca da terra caririense. As festas do Padroeiro e as
comemorag6es do Dia do Municipio de cada localidade
devem trazer para ruas e pragas as bandas-de-couro de
seus respectivos sitios e subdrbios. Nao 6 prova de matu-
tice e de atraso. R o Brasil do interior que precisa ser
conhecido, com seu rico folclore, forjado nesse caldea-
mento de tr6s ragas diversas, cada qual com seus costu-
mes e hdbitos, que se fundiram aqui tVo harm6nicamente.
A banda cabagal 6 a expressed da arte do povo. Mos-
tra que a nossa gente tem sua mrisica, nascida desde os
prim6rdios da colonizacgo. A banda de couro 6 tamb6m
trabalho em equipe. O individuo se dilui naquele conjun-
to, comprovando que o sertanejo tem o espirito into de
cooperagdo. A cabagal precisa ser estudada principal-
mente por algum musicista que queira pesquisar as ver-








dadeiras raizes da musica popular. Mais tarde, o zabum-
ba, embora caracteristicamente regional, tende a perder
sua feicgo pr6pria, absorvida pela musica que nos vem
de fora. Ate o baiio jA nos chega despersonificado, dos
morros e das avenidas do Rio, despojado da singeleza em
que nasceu, nos sert6es, pes-de-serra e brejos do Nor-
deste.
Ate ai foi a cronica que escrevi, em 1955, no pri-
meiro ndmero da revista "ITAYTERA", 6rgdo official do
Institute Cultural do Cariri, editado em Crato. Tenho de
acrescentar-lhe outros pormenores.
S8bre as cabagais, fala o capitio Otacilio Anselmo,
escritor caririense, dos grandes propulsionadores do Ins-
tituto Cultural do Cariri, em notas de seu livro em elabo-
rago, "A HISTORIC DO PADRE CICERO", a sair, nes-
tes dias, no Rio, em edicgo PONGETTI:
"Trata-se de traditional banda-de-muisica-cabagal,
tamb6m denominada m6sica-de-couro ou simplesmente
zabumba ou cabagal. Conjunto musical primitive, a
cabagal se comp6e de dois instruments sonoros (pifano
de taquara com seis orificios) e dois de percussao: zabum-
ba (bumba) e caixa (tarela), ambos formados de tronco
de arvore e pele de carneiro. Pstes asseguram o ritmo
com batidas fortes, que ecoam de long.
Tendo um diapasdo semelhante ao do flautim, e
devido A sua forma rudimentar, o pifano s6 emite notas
intermediArias ao agudo e ao grave, nos limits da escala
tonal. Dai a monotonia da melodia zabumba, geralmente
fundadas em frases de quatro compassos, sob a cadencia
ternAria e, algumas vezes, binaria. As composig6es sdo
executadas em perfeito dueto, apesar da incultura musi-
cal dos instrumentistas.
Foi Goianinha (Jamacaru) que possuiu a mais famosa
cabagal do Cariri, modernizada com a introducgo de pra-
tos a bacteria e execucio das mfisicas entao difundidas
pelo gramofone. E que seu dirigente, o mulato FMlix
Base, num prodigio de tecnica, conseguia tirar semitons
do pifano, reduzindo o abafamento dos buracos, o que









~L'5') fewC
41







AA
Al






























agachados, imitando o sapo







Ihe permitia executar qualquer musica gravada pela Casa
Edson, do Rio de Janeiro, ou tocada pelas bandas de mi-
sica. Falecido Felix, substituindo-o um de seus filhos,
cuja banda, em setembro de 1958, executou o Hino Na-
cional em homenagem ao general Severino Sombra, em
excursdo cor o autor Aquele povoado. Mais surpreenden-
te foi a execucgo da famosa "Serenata Oriental" pelo
pifeiro Mamede, de Salgueiro (Pe.), ouvido por Luis
R6seo, em 1927, na cidade de Jardim.
Como a misica negra norte-americana, a cabagal
surgiu nos campos de escravos, parecendo uma forma de
exaltagdo religiosa dos povos africanos. Com efeito, atW
hoje, ela se restringe aos novendrios sertanejos."
As bandas-de-couro tnm cerimonial especial para a
louvagdo dos Santos. Podem homenaged-los, em 6poca
de novenario, em casas de senhor de engenho, do mora-
dor ou do pequeno proprietario. A mesma cerimonia
executa na Entronizaglo, Renovacgo do Sagrado Coracgo
de Jesus, ou mesmo diante do Menino Deus, na lapinha.
A banda executa, nesses casos, mdsicas correspondents
aos benditos populares da Igreja: QUEREMOS DEUS,
NO CEU, COM MINHA MAE ESTAREI e outros. A
cabagal entra, formada, na sala e logo depois seus mem-
bros se destacam para a louvagio e sem prejuizo da tocata
que prossegue. Um a um faz a reverencia com a cabega,
quase um salamaleque e logo ap6s, em genuflexio, beija
o altar ou os p6s do santo homenageado. Quando chega
a vez do zabumbeiro, reverencia o orago com a inclinagdo
de cabega e ap6s isso, coloca o zabumba ao chdo, ajoelha-
-se, apoiando a mio esquerda s6bre o instrument. Ap6s
a homenagem individual, ha outra de dois em dois, o
mesmo cerimonial, com a misica sempre a vibrar, mais
zoadenta ainda por ser no interior de casa. Em seguida
ao ato de louvacgo, o conjunto aboleta-se no terreiro, onde
executa verdadeiro concerto, com variado repert6rio.
No zabumba ha desenhos vArios, com essa arte pri-
mitiva que muito se aproxima, embora t6scamente, das
escolas de pintura modern. O bom pintor Floriano








Teixeira, modernista, ao desenhar flagrantes dos figu-
rantes da cabaqal e seus respectivos instruments, inte-
ressou-se pela colheita daqueles bisonhos desenhos, apro-
ximados da xilogravura das capas dos livrinhos
da literature de cordel. Foi 6le tambem portador, para
estudos, de gravaqdo em fita magn6tica de audig~es de
cabagal, realizada na residencia do Dr. Jefferson de Al-
buquerque e Sousa e na Radio Araripe de Crato, a qual
constava das tocatas populares "Cabor6", "Pipoca", "Sapo
Cururu" e "Cachorra", alEm do Hino Nacional. A audicgo
foi promovida pelo Instituto Cultural do Cariri, a entidade
de cultural cratense que se constituiu na maior defensora
do folclore caririense.
Outro fato que se tem verificado agora e amiudada-
mente, 6 que o pifaro de taquara, ou pifes, na linguagem
do povo, estao sendo substituidos por metal, reforqados
por tr6s an6is nas parties superior, m6dia e inferior. Ao
indagar de um pifeiro o motivo dessa mudanga, respon-
deu-me em cima da bucha:
O pife de taboca 6 fraco, lasca com o vento. A
gente da um s6pro grande e l6e lasca.
O escritor alagoano F6lix Lima Jdnior relata-nos A
pig. 60, da revista do Instituto Cultural do Cariri,
"ITAYTERA", quinto n6mero, do ano de 1959, em sua
colaboragSo PRESIDENT EPITACIO:
"Encontrei a Paraiba num festao danado: ruas enfei-
tadas; bandas de muisica, s6 do interior contei quarenta,
afora os "esquenta-mulher", ou bandas-cabagais como
chamam no Cariri..."
E mais justificavel o nome de esquenta-mulher, da
Faraiba, do que o de cabagal, s6 recentemente empregado
no vale caririense. No meu tempo de crianga, ningu6m
a chamava de cabagal. Os mais antigos disseram-
-me a mesma coisa. S6 por -iltimo apareceu tal designa-
g0o, que pegou. Esquenta-mulher tem certa razAo de ser,
pois a banda-de-couro ao passar no mato ou nos distritos,
deixa o belo sexo afogueado, alegre com a passage da
m6sica que quebra a monotonia do campo.

86


































































Tocador de caixa em posi-o characteristic, num desenho de Floriano.
Tocador de caixa em posigko caracteristica, num desenho de Floriano.







O nome cabacal tem origem pejorativa e foi empre-
gado porque caixa, zabumba e pifaros fazem tal zoada
que s6 podem ter semelhanga com cabagas secas a bate-
rem umas nas outras.
Disse-me o vereador cratense Jose de Paula Baritim,
cuja meninice foi passada em Santana do Cariri, que,
outrora, durante o transport do pau da bandeira, na festa
da Padroeira local, os zabumbeiros e pifeiros trepavam-se
na comprida haste, transportada da mata para a praga da
Matriz, conduzida por grande multiddo de devotos. Ali
mesmo, bem aboletados e equilibrados, tocavam marchas
e bai~o, ao espocar do foguet6rio.
Por duas v6zes, bandas-de-couro do Cariri transpor-
taram-se a Fortaleza, onde se exibiram atW em radioemis-
soras, conduzidas pelo Sr. Luis da Livraria, assim cha-
mado porque 6 proprietario da Livraria Sio Vicente
Ferrer. O sucesso foi enorme. Uma das cabagais de
Crato foi contratada, atrav6s do Instituto Cultural do
Cariri, a fim de fazer parte dos festejos folcl6ricos, reali-
zados, em Sao Paulo, por ocasiao das comemorag5es de
seu quarto centenArio. Medidas de economic cortaram
muitas representagSes do Norte, entire as quais a cabagal.
Foi pena, porque dariam nota bem original Aquelas fes-
tividades de carter popular.
O zabumba-de-couro, ou cabagal, continue no Vale e
a velha tradigio nio deve ser eliminada. O Instituto Cul-
tural do Cariri, as festas do Padroeiro e as comemoragdes
do Dia do Municipio de cada comuna devem esforgar-se
para conservar essa 6tima tradigio, que demonstra nio
ser o home do interior infenso A misica, assim sintoni-
zando com os mais adiantados povos do universe.

NOTAS (a) Para comprovar o desconhecimen-
to, em Fortaleza, de MIJSICA DE COURO, iremos ler
trechos de carta que o histori6grafo cearense, Dr. Joio
Nogueira, dirigiu ao Dr. Flor6ncio de Alencar, a 17 de
margo de 1934 e agora no arquivo do deputado Antonio
de Alencar Araripe:







"Ndo sei se o meu parent sabe, que eu sou um grande
amoroso das nossas velhas tradig6es, cr6nicas e costumes.
For 6ste motivo 6 que, de quando em quando, meto-me a
escrever algumas linhas, s6bre- assuntos puramente cea-
renses, recolhendo da tradigio oral os elements dos
meus apagados escritos.
Eu desejo dar uma noticia s6bre essa orquestra ori-
ginal a que, ai pelo Cariri, chamam a muisica-de-pife.
O meu distinto colega Urbano de Almeida, a meu
pedido, obteve no Crato e me ofereceu, uma fotografia
de quatro mfisicos, com os respectivos instrumentss"
Seguem-se alguns trechos, para terminar, formulan-
do o questionario que deveria ser respondido pelo Dr.
Florencio de Alencar:

"1 ) A misica de PIFE 6 tamb6m chamada misica
de COURO?
2 ) Por que?
3 ) Toca mfisica modern ou prefer melodies
antigas?
4 ) Sabe o nome de alguma mfsica, que os PIFES
tocam?
5 ) Tocam nas igrejas, nos casamentos, batizados
e festas em geral?
6 ) Sabe-se quando e por quem foram essas mfisi-
sicas introduzidas, ou criadas, no Cariri?

Dr. Florencio de Alencar nunca chegou a responder-
-Ihe e por isso dirigiu-se depois ao Dr. Ant6nio de Alen-
car Araripe, repetindo os mesmos itens. A resposta foi
pronta e seguiu a 10 de novembro de 1940. EstA em mis-
celAnea daquele parlamentar e me foi gentilmente
cedida:

"Par. e amo. Dr. Jodo Nogueira
Sadde








Estou de posse de sua carta de 13 do m6s passado,
cujos dados muito me interessam."
Pulemos o trecho que se prende a informag6es genea-
16gicas e entremos nas respostas do questiondrio:

"1) A mdsica de pife 6 realmente tamb6m chamada
de "couro", ou, ainda, "cabagal"; 2) Chamam-na de "cou-
ro" porque os principals instruments constam de um
bombo, ou zabumba de couro, e uma caixa ou tarol, de
pancadaria com dois macktes, ou bilros; ignora-se porque
a denominam de "cabagal"; 3) Tanto toca m6sicas antigas,
como as modernas, da misica local, mdsicas carnavales-
cas, etc.; 4) Entre as m6sicas antigas, cito: "raposa ma-
gra" (polca), "saudade de minha terra" (dobrado), "vas-
sourinha" marchha; quanto as modernas, todas que o
radio ou a mdsica da cidade toca, os pifeiros arremedam;
5) Tocam nas capelas, fora da sede da cidade, nas festas
joaninas, nas renovag6es do Corago de Jesus, e nas no-
venas dos "matos". Nos casamentos do interior do muni-
cipio, as v6zes tocam nas dangas e festejos em geral.
Aqui 6 tradicgo antiga, que ainda se mant6m, tocar
a mesma mdsica, rua afora, durante os festejos da pa-
droeira, que eram em dezembro, mas de certos anos para
cA, passou a ser em setembro, visando tirar dinheiro para
os mesmos festejos. Anda A frente um individuo com um
estandarte da Padroeira (bandeira) e uma bandeja arre-
cadadora de cobres dos fi6is, enquanto Ihe seguem, sem-
pre, o bombeiro (do bombo) e tocador de caixa, e, quase
sempre, dois pifeiros, e um com pratos, as v6zes tamb6m
consta outra figure modern, com um triAngulo de ferro.
Percorrem sempre a cidade e, depois, saem pelos sopes
de serra e brejos, visando os sitios, a pedir esmolas."
Creio que essa inovagdo dos pratos e do triAngulo
foi A que me referi, e introduzida no Cariri pelo m6dico
Dr. Tomaz Pompeu, moda essa que ndo pegou.








b) No arquivo do Dr. Joao Nogueira, agora em
poder do deputado Ant6nio de Alencar Araripe, foi en-
contrada a seguinte nota, sem indicar a fonte de onde
foi extraida:

"GAITEIROS Duas gaitas de foles, um bombo
e um tambor. Tocam nas festas, especialmente no arraial
em leildo de prendas que se faz no dia 15 de agosto (Con-
ceigdo) e no dia seguinte (16) de Sao Roque. Saem pela
vila ou cidade, de casa em casa, arrecadando esmolas e
donativos, acompanhados do juiz da festa e membros da
mesa regedora da festa. Os melhores gaiteiros sao os
espanh6is, melhores e preferidos aos portugu6ses, no
norte de Portugal. At6 certo tempo os gaiteiros toma-
vam parte na missa solene de Sao Roque mas atualmente
s6 acompanham esta solenidade, misicos tocando instru-
mentos modernos."
Respondendo ao sexto item do Dr. Joio Nogueira,
o Dr. Ant6nio de Alencar Araripe diz que, conforme a
tradigdo, a cabagal 6 de origem indigena. Na nota (b)
parece vir de Portugal, embora substituindo os pifaros
por gaitas de fole. Ndo esquegamos que a mnsica 6 uni-
versal e pifaros, como bombas, sao instruments bem pri-
mitivos. O negro, entretanto, 6 indissolivelmente ligado
ao zabumba e a influencia africana na misica das Ame-
ricas 6 fato indiscutivel.
c) O zabumba 6 tocado com maganeta empunhada
com a mio direita, enquanto a esquerda vibra cip6 na
parte traseira do instrument que tamb6m 6 cortado
transversalmente por dois barbantes paralelos, com dis-
tAncia de um ou dois centimetros um do outro. Servem
para dar ao bombo maior vibracgo.




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