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HIDE
 Front Cover
 Title Page
 Dedication
 Area de seca e astrologia
 Seca, fome, astucia e trabalho
 Seca, fome, e grosseria
 Trabalho maneiro
 Politica partidaria, prosperidade...
 Predestinacao, seca e fome
 Funambulismo e ambivalencia
 Rotina e aventura
 A psicologia do novo rico
 A psicologia do sabichao
 A psicologia do linguarudo
 Cearense - homem de sete instr...
 Seca, fome e fama
 Seca, fome e humor
 O boticario e a praca
 Praca do ferreira - coracao da...
 Um pioneiro
 Cafes e boemios
 Bancos da opiniao publica
 Tipos populares e molequismo
 Seu joao, do majestic
 Jose Levy
 Comicios
 O cajueiro botador
 Da intendencia ao abrigo centr...
 Bibliography
 Table of Contents
 Back Cover














Group Title: A Praca do Ferreira : tentative de intepretacao do Ceara-Moleque
Title: A Praðca do Ferreira
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00075952/00001
 Material Information
Title: A Praðca do Ferreira tentative de intepretaðcäao do Cearâa-Moleque
Physical Description: 79 p. : ; 23 cm.
Language: Portuguese
Creator: Montenegro, Abelardo Fernando, 1912-
Publisher: A. Batista Fontenele
Place of Publication: Fortaleza
Publication Date: 1959
 Subjects
Subject: Human geography -- Brazil -- Cearâa (State)   ( lcsh )
Civilization -- Cearâa (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre: bibliography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Bibliography: Includes bibliographical references.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00075952
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 19376892
lccn - 62049067

Table of Contents
    Front Cover
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    Title Page
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    Dedication
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    Area de seca e astrologia
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    Seca, fome, astucia e trabalho
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    Seca, fome, e grosseria
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    Trabalho maneiro
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    Politica partidaria, prosperidade e boa vida
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    Predestinacao, seca e fome
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    Funambulismo e ambivalencia
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    Rotina e aventura
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    A psicologia do novo rico
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    A psicologia do sabichao
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    A psicologia do linguarudo
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    Cearense - homem de sete instrumentos
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    Seca, fome e fama
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    Seca, fome e humor
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    O boticario e a praca
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    Praca do ferreira - coracao da cidade
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    Um pioneiro
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    Cafes e boemios
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    Bancos da opiniao publica
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    Tipos populares e molequismo
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    Seu joao, do majestic
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    Jose Levy
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    Comicios
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    O cajueiro botador
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    Da intendencia ao abrigo central
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    Bibliography
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ABELARDO F. MONTENEGRO
(Do Instituto Cearense de Ciancia Politica)














A PRACA DO FERREIRA

(Tentativa de interpretaqio do Ceard Moleque)












EDITOR A. BATISTA FONTENELE
FORTALEZA CEARA'
1959 -


















"Recebi o "Naclonalismo
Racional". Li. 6timo. Lem-
brei-me do "Maquiavel e o
Estado", que me deixou
forte impressAo". (Dr. M.
Paulo Filho, in 0 POVO,
6-1-1959)






"O estudo "Nacionalismo
Racional", publicado em
Fortaleza, 6 uma sintese
bem feita das idiias de de-
senvolvimento econ6mico,
pregando uma reform de
base em nos-as institui-
C6e'". (Dr. Raul Lima in
DTARIO DE NOTICIAS
(Rio), 14-12-1958)






"O livro do dr. Ab=lardo
Montenegro bem poderia
ser um sinal para os que
dpsejam melhorar a situa-
FCo geral na organizacAo
political e moral do Bra-
sil". (Dr. Luis Sucunira,
in O NORDESTE (Fortale.
za), 23-12-1958)






ABELARDO F. MONTENEGRO
(Do Institute Cearense de Ciencia Politia)


A PRA(A


DO FERREIRA


(Tentativa de interpretagio do Cear Moleque)


L Pr i t "-* '
t^ .;rp :\ i;: -.. k.* .; .; ,,:\


EDITOR A. BATISTA FONTENELZ
FORTALEZA CEARA'
1959 -A








OBRAS PUBLICADAS


Ruy Barbosa e a Revolu5io Industrial no Brasil, 1951 (esgotada)
Soriano de Albuquerque, um Pioneiro da Sociologia no Brail,
1952 (esgotada)
Parlamentarismo, Presidencialismo e Patriarcalismo, 1952 (es-
gotada)
Duas Teses, 1053 (esgotada)
0 Romance Cearense, 1953 (esgotada)
Ceara Tentativas de Interpretavgo, 1953 (esgotada)
Tobias Barreto e Machado de Assis, 1954 (esgotada)
Ant6nro ConsTlheiro, 1954
Cruz e Sousa e o Movimento Simbolista no Brasil, 1954
A Ansia de Gl6ria de Balzac e outros Estudos, 1954 (esgotada)
Hist6ria do Cangaceirismo no Ceari, 1955 (esgotada)
Introdug~o a Keyserling, 1955 (esgotada)
0 Messianismo Russo, 1955 (esgotada)
O Elogio do Patrono, 1955 (esgotada)
Mercantilismo, ComBrcio Internacional e B61sas, 1955 (esgotada)
VariacSes em t6rno da Democracia, 1956 (esgotada)
A Ciencia Politica no Brasil e outros Artigos, 1956 (esgotada)
Maquiavel e o Estado, 1957
Juarez TAvora e a Renovagco Nacional, 1957
A Fissgo do Economista no Brasil, 1957
Nacionalismo Racional, 1958 ('esgotada)
A Corrupvgo do Trabalhismo, 1958


A PUBLICAR

Democracia Viva
Hist6ria do Fanatismo religioso no Ceari
Estudos e Interpretacges
Teoria dos Fins do Estado


EM PREPA'O

Hist6ria dos Partados Politicos Cearenses
Nordeste e Sul: um confront
Com4rcio Exterior Cearense
Curso de Com6rcio Internacional e Cambios
Comercio como Instrumento de Dominacgo

"-Al i- .. -































A MEM6RIA DE
JOSE DE OLIVEIRA ROLLA















Area de Seca e Astrologia

Em nosso livro "O Romance Cearense", estudAmos o romance astrol6gico
que chamamos aqudle em que as personagens sio guiadas por boas ou
mAs estrelas. NAo adianta o esforgo individual, pois, se a estrela que guiar
nio f6r boa, estara o home fadado ao fracasso em sua emprAsa, ao ma-
16gro em seu projeto. Por outro lado, pode o home nao possuir quali-
dades positivas do carter e intelig&ncia. Desde, por6m, que tenha uma
boa estrela, concretizara facilmente as suas aspirag6es, conquistando
triunfo ap6s triunfo em seus cometimentos.
0 romance nao fez mais do que expressar uma idBia arraigada no
seio das massas rurais e urbanas engolfadas no mar da ignorfncia e da
superstigio.
HA, entretanto, fatores que concorrem para que o pensamento astro-
16gico venha a colorir tao intensamente a mentalidade do home cea-
rense.
0 regime econOmico e a semi-aridez da terra sujeita aos fen6menos
an6malos da meteorologia concorrem poderosamente para que o home
insciente explique inscientemente as ocorr&ncias.
"A cruise do com6rcio e da inddstria representam enormes forcas de
irresistivel poder que semeiam desastres espantosos como a c61era de
Deus cristao. Quando estas forcas se desencadeiam no mundo civilizado,
arruinam os burgueses aos milhares e destroem os produtos e os meios
de produgio aos centenares de milh6es (valor). Os economists regis-
tam, hA um s6culo, sua repeticao peri6dica sem poder emitir uma hip6-
tese a respeito das causes que original esta catistrofe. A impossibilidade
de descobrir estas causes na terra sugeriu a alguns economists ingleses
a id6ia de busca-las no sol, cujas manchas, dizem, destruindo por meio
da sAca as colheitas da India, diminuem seus meios de compra das mer-
cadorias europ6ias, determinando as crises. Estes sisudos sAbios trasla-
dam-nos cientificamente A astrologia da Idade MBdia, que subordinava A
eonjunCio dos astros os acontecimentos das sociedades humans e A cren-
ca dos selvagens na agio das estrelas errantes, dos cometas e dos eclipses
de lua s8bre seus destinos".
Outro estudioso do problema diz: "As grandes flutuac6es de precos
das materias primas destinadas A exportagio criam situavges de constan-
tes dificuldades aos produtores e aos consumidores, impedindo a previ-
sio, cerceando as iniciativas e encarecendo a producio; que as dificulda-
des de adaptaaio da producio ao consume, pelas condigSes de depend8n-
cia daquela a fatores incontrolaveis e pela relative inelasticidade destes,







-6-


tamb6m cria a instabilidade, fazendo alterar a escassez A existencia de
excedentes gravosos; que concorrem para essa instabilidade as flutuagaes
ciclicas das rendas nacionais dos grandes paises consumidores; que as
rendas dos produtores sofrem as consequencias dessa instabilidade, crian-
do situag6es reflexas de depressao dos paises de economic colonial e tra-
sendo aos mesmos graves crises socials".
A aus~neia de previsio no regime econ8mico dominant 6 agravada,
na area de saca, pela anormalidade dos fen6menos meteorol6gicos.
O home nio ter, portanto, o contr6le dos fen6menos econ6micos
ou meteorol6gicos. Nio sabendo explicar por que Ihe escapa 6sse contr6-
le, julga-se ao arbitrio de forcas sobrenaturais que prem e disp6em as
cousas a seu talante.
E', assim, que surge a crenCa astrol6gica. O sucesso e o fracasso sio
explicados em terms de boa ou de mi estrela. Cada um tem a sua. A
estrela guiara o home para o' bem ou para o mal, para a gl6ria on pa-
ra a misdria, para as delicias do prazer ou para as amarguras do sofri-
mento.
A massa ignara nio pode compreender de outra maneira a sorte de
alguns comerciantes que enriquecem na alta e na baixa do produto sem
que para isso conte cor o auxilio de outras forcas que nao a de sua in-
telignncia quase sempre sem o polimento da instrugio secundAria.
Numa area geogrAfica em que o com6rcio cor o exterior se faz na
base da exportaCao de poucos produtos, cujas cotacges sio estabelecidas
em b6lsas estrangeiras, o home que enriquece nesse mercado nao ven-
ce s6 cor a cabega. S6 pode haver uma forga estranha que abroquela o
home, impedindo que seja tragado no v6rtice das depresses on colhi-
do de surpresa no ponto mais baixo do ciclo.
Como se explica que o matuto comprador de couro e algodio se trans-
forme em exportador e venha a conhecer as oscilac5es das cotacges?
Como se explica que o sertanejo iletrado, depois de vencer na cidade
natal, emigre e se install na capital e continue a triunfar espetacularmen-
te no setor de atividade onde muitos malograram redondamente?
Como se explica que. o bodegueiro de ponta de rua se transmude em
importador e comerciante grossista, desfrutando, por,isso, de largo con-
ceito social e de amplo circulo de relag6es de amizade?..
Por que todos asses felizardos tiveram, na loteria da Aida, o bilhete
premiado, enquanto a maioria que marca passes nao sai do mesmo.lugar
ou.dec., para supreme desventura dos que sao arrastados na queda?
aiio. S6 uma explicagio plausivel pode haver para os altos e baixos,
para os dias de grandeza e mis6ria da vida. E' que a estrela do honiem
6 boa oun. .
Seria, entao possivel mudar a sorte, alterar o destiny, tornar boa a
mi estrAla? Por que,o home, depois de sofrer derrotas, espetaculares,
passa a conquistar triunfos surpreendentes? Nesse caso, a exemplo do jo-
gador que, depois de perder, pass a ganhar, nao se teria transformado
em boa a mA estrela?







-7-


A massa apedeuta e supersticiosa nio entra em detalhes na anilise
de suas crencas que se arraigam, no caso, pela forga da pr6pria ignorancia.
A massa rural e urbana iletrada e inconsciente nIo tem capacidade
intellectual para penetrar, a exemplo de Teseu, no labirinto e conhecer as
origens do monstro.
As concepg6es astrol6gicas sempre predon.inaram no seio das popu-
langes selvagens ou bArbaras. E continuam, sobreviventes, no seio das po-
pula~6es civilizadas, cuja mentalidade ainda nio se libertou das sobrevi-
vencias primitivas.
Cumpre observer que as concepc6es astrol6gicas sao mesmo alimen-
tadas e prestigiadas por aqudles que triunfaram e que teriam, assim, o
seu triunfo ligado a outros sistemas planetdrios anacessiveis ao bestunto
da maioria nio afortunada.
0 process de classificacio social seria, portanto, mais complex.
Seria de cima para baixo, da estrela para a terra. 0 misero bipede im-
plame s6 sq emplumaria ao brilho magico de sua boa estrela.
2 A propaganda de quiromantes, cartomantes e astr6logos des-
perta a ansia de poder que hi em todo ser human, a necessidade de su-
perar a situacio de inferioridade e veneer a condivgo de ;nsuficitncia.
HA uma sensagio de impotencia diante do destiny cruel. HA a incapacida-
de de, por meios naturais, ating.r melhor posigio social e concretizar
aspiraC6es melioristas.
0 home sempre andou As voltas cor o Amor, a Riqueza e o Poder.
Atravds do tempo, o esforgo human nesse sentido pode ser reconstituido.
Quanto mais se recua no tempo, mais as trevas da ignorancia envolvem
o cdrebro human e mais a mentalidade 6 dominada por f6rcas obscuras.
A Area das abuses, das superstig~es e das crendices A proporg~o que
o tempo decorre, vai diminuindo ou sendo coberta por outras formas de
crenias absurdas. 0 powder das feiticeiras cede lugar ao poder das quiro-
mantes e cartomantes.
A ignorfncia e a sede de melhoria material sao condig6es propicias
A. exploraaio realizada por espertalh6es ou espertalhonas que se servem
menos de formas'cabalisticas do que da pr6pria terminologia eientifica.
Nenhuma exploraglo t6m sido tao rendosa como a exploragto do mis-
trrio, do ifcognoscivel.
Nao hf, no home, apenas, o pavor c6smico, hi tamb6m, a sobrevi-
vAncia da crenga primitive na transformaCgo das cousas naturais pela acgo
das f6rcas sobrenaturais.
Nio sabendo elplicar a stia osifio na 'aciedade e na natureza, o ho-
mem cavalga o fogoso corcel de sua imaginaCio e cr.a series fantisticos
ou atribui a certas criaturas o poder de fazer ,o bem ou fazer o mal.
Como eplicar a crise econbmica? Como esclarecer o sucesso de uns
e o fracasso de outros? Como fazer luz s6bre o triunfo dos mAus .edos
bocais e a derrota dos bons e inteligentes? Como elucidar o 6 itou o
;nsucesso na conquista amorosa?
Nem todos sabem orientar-se cientificamente e isso por 'viros nibti-







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vos, sendo o mais comum a pr6pria impossibilidade de instruir-se. Nio
6 de admirar que essa gente procure na cartomancia, na quiromancia e
na astrologia a resposta para as suas verrumantes quest6es.
Atrav6s do tempo, o home t6m utilizado:outros elements para des-
vendar o future. Agromancia, hidromancia, aeromancia, piromancia, ne-
cromancia, digitomancia, clidomancia slo sistemas de adivinhagvo por
meio da terra, da agua, do ar, do fogo, dos mortos, dos dedos e da have
presa por um fio a Biblia, respectivamente.
Enquanto houver mist6rio na natureza e na sociedade, enquanto a
ciencia nio exp!Jcar satisfat6riamente os problems que provocam a per-
plexidade da mente humana, haverA campo f6rtil para as semeaduras do
fantastico e fantasmag6rico.
Enquanto o home permanecer em plena menoridade mental, esta-
ra sempre sujeito A tutela de quem manipula o maravilhoso, o extraordi-
nArio.
Nio sabendo explicar as f6rcas socials que agem s6bre l6e, o home
recorre a f6rcas extrassociais, numa infantil tentative de anular a acao
das primeiras por meio da miraculosa interfer6ncia das iltimas.
O home 6 sempre o mesmo. Da antiguidade a idade contemporAnea,
age ele impulsionado pelas mesmas causes. O desejo de triunfo social,
eson6mico ou politico, eis em que se resume a vida do home atrav6s da
Hist6ria.
Os charlaties, as bruxas, as feiticeiras, os alquimistas, os astr61ogos,
os adivinhos, todos Ales cada um no seu tempo, nao fizeram mais do que
explorer a ignorAncia humana e a propensio do home para o mist6rio,
impelido que 6 por sua situagio de inferioridade.
Todos Ales foram, antes de tudo, bons psic6logos, antes mesmo que a
psicologia ganhasse foros cientificos. Compreenderam admirfvelmente a
natureza humana, a vocaCio do home para o poder. E, assim agindj,
encontraram uma fAcil maneira de ganhar a vida.
A intimidade do mist6rio, a familiariedade cor as cousas extranatu-
rais, se, por um lado, transmitia prestigio ao home ou mulher que tinha
tal dom, por outro lado, fazia recair s6bre l6e ou ela,o 6dio e a inveja e
as f6rcas irracionais do grupo.
No curso da Hist6rda, deparamos cor essa ambivalencia de sentimen-
tos. Astr6logos gozam de protegLo real, enquanto feiticeiras slo queima-
das vivas por bandos enfurecidos.


Sca, Fome, Asticia e Trabalho

Joao Brigido, em 1917, recordava os bons tempos em que os neg6cios
nos serties cearenses se faziam cor Pernambuco em moeda sonante. 0
dinheiro era levado para Recife em saco de couro de ovelha posto As
costas do sertanejo. Nunca se teve noticia de roubo em can~,nho ou de
fuga d ?oondutor.







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Contrastando cor essa fase Aurea de honestidade, o velho jornalista
afirmava que nos dias em que escrevia, era raro encontrar-se home do
povo leal e honest. Responsabilizava, por isso, o mau exemplo das clas-
ses elevadas que concorriam para deturpaeio do carAter das classes infe-
riores. Atribuia, ainda, a transformacgo dos costumes ao luxo e bem es-
tar de um lado e A mis6ria e anarquia das mentes do outro.
Fortaleza, na observadgo do fundador de "Unitario", convertia-se em
viveiro de homes sem fM no trabalho licito. A indigencia levava-os a re-
correrem A astfcia para se manter. Dai ser precise cada um tomar cui-
dado para nao ser vitima dos expedientes da fome.
Numa Area de seca e de fome, de dura competigio, o home t6m.
que ser esperto, dguia. Ou ele se transform em ave de rapina ou sera
apresado e devorado.
0 home langa mio dos mais diversos expedientes. As campanhas
mais nobres e as causes mais sagradas slo, as vezes, utilizadas por aqu&-
les que precisam viver antes de tudo. Bandos precat6rios, cumprimentos
de promessas, rifas, fraude, mendicAncia, o legal e o ilicito, o bom e o
mau, a tudo o home recorre a fm de sobreviver.
O home chega mesmo a apelar para o poder da cicncia. Utiliza a
quiromancia, a cartomancia e o ocultismo. E 6 assim que surge, vez por
outra, professor que "fornece garantia para todo e qualquer trabalho que
o client solicitar", e promote remediar "os seus fracassos comerclais, in-
felicidades e preocupag5es amorosas, vicio de embriaguez e dificuldades
da vida".
O soci6logo Jader de Carvalho assinalou as seguintes causes para o
fen6meno da mendicAncia entire n6s: a) dxodo rural; b) desempr6go e
falta de trabalho; c) acelerado process de proletarizagIo da sub-classe
m6dia; d) pauperizagio do sub-proletariado; e) aumento do custo de vida.
HA, entretanto, a mendicAncia astuciosa. 0 home procura ganhar
a vida corn o menor esf6rgo. O rurigena, atraido pelas vantagens da civi-
lizaaio litoranea, nao pensa mais em retornar ao sertio ou engajar-se no
trabalho fabril da capital.
Surge, assim, o nosso mendigo fin6rio que nio precisa ler a obra de
Joracy Camargo para veneer. O instinto encarrega-se de adestra-lo, dan-
do-lhe m6todo pr6prio e selecionando-lhe os golpes.
Na nossa Area de sAca e de fome, de Ardua luta pela vida, nao se
compreende at.vidade sem remuneragco. Fazer forga sem ganhar nada 6
ser besta. Ora, o cearense faz questao de ser sabido.
Monsenhor Quinder6, virtuoso sacerdote e figure do maior respeito
do clero cearense, conta, em suas "ReminiscAncias", que o catraieiro "P6
de Braza", ao vA-lo a bordo, indagou se Mle vinha do sul corn o titulo de
C6nego. Diante da resposta afirmativa, perguntou se o emprego rendia
alguma cousa, aconselhando o sacerdote a deixA-lo quando este Ihe disse
que eram honrarias.
Quando fomos eleito membro da Academia Cearense de Letras, certa
pessoa parabenizou-nos, lamentando, a seguir, quando soube que nio ti-
nhamos qualquer remuneracio.







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Quem trabalha de graca 6 rel6gio; quem pesa de graca 6 balanga;
quem tira retrato de graca e espelho; quem canta de graga 6 galo quando
esta no terreiro. Eis alguns adAgios que cristalizam a sabedoria popular
numa regiao, onde todos tem que ganhar o pAo cor o suor do rosto e
onde todos s6 t&m valor em fungio de sua capacidade produtiva.
O cearense 6 um torturado pela fome fisica ou psicol6gica. A pri.
meira predomina no seio das camadas inferiores permanentemente, agra
vando-se nos tempos de seca. A segunda aflige as camadas superiores,
tortura os milionArios, observa conhecido advogado em opdsculo s6bre o
direito de seu constituinte.
Comentando essa observagio algu6m sob o pseud6nimo de Chico da
Barbalha, em 0 POVO, de 8-11-1929, afirma: "... quem vem ao mundo
num tal ambient, quem escuta essas hist6rias narradas pelos pais e av6s,
quem 1I essa literature em prosa e verso, certamente ha de crescer aco-
vardado ante o fantasma da fome".
Guerra Junqueiro nao esteve entire n6s e escreveu s6bre a fome no
Ceara.
O horror A fome 6 que preside As volic6es do home cearense. E'
6sse horror que o faz assumir certas attitudes estranhas e inexplicAveis
para aqubles que desconhecem a nossa formagio social.
O home age sempre como se estivesse As voltas cor uma sAca.
Esse comportamento acaba por se trnasformar num reflexo condicionado.
0 home ora e astucioso, ora nao trabalha de graga, ora nio tolera
que outros ganhem bastante A sua custa, mesmo quando o ganho de ou-
trom implica no pr6prio ganho.
O horror A fome 6 que condiciona a conduta do home na soceda.
de. A alma humana apresenta, entao, os mais diferentes e contradit6rios
sentiments. Todo um bovarismo por necessidade, t6da uma tatica na lu-
ta pela vida, surgem, a fir de garantir- a sobrevivznhca, a manutencao
.de posiC6es econSmicas e sociais conquistadas ou o Oxito das operagdes
realizadas no sentido da classificagAo social.
Deparamos, assim, corn patifes que procuram acobertar-se com'o man-
to da religilo, a fim de melhor passarem. Deparamos com espertalh5es
que cuidam do present e do future A custa da exploragao met6dica e
cientifica dos mais puros.sent;.mentos.
horror da fome 6 dominant E' Mle que ilude a pr6pria classes mB-
dia quando julga descobrir o amor no casamento, cor a filha do ricago.
Sob o seu influxo ayassalador, e que o home age, praticando o bem
e o mal, proclamando a verdade e a mentira, semeando o trigoe o jc.o.
O horror da fome gera ata o maquiavelismo. Todos. os meios sao
justos para sobreviver e para sair da miseria. Justifica-se o culto de
Deus e do Diabo. Acende-se uma vela a ambos, por via das ddvidas. O
home deve estar preparado em face da Instabilidade das cousas numa
brea onde se operam bruscas mutacSes.
0 home nao deve ter apenas duas caras como Juno. O bifrontismo
deve alongar-se em multifrontismo de acordo cor as circunstAncias.







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Sobe, encarapita-te no alto do poleiro e deixa os patos em baixo! Usa
de todos os meios para atingir a posicgo dominante! Quando l1 chegares,
verificaris que ningu6m ira analizar o process de ascensfo, pois todos es.
tarao empolgados cor o teu triunfo.
E' desse modo que o horror da fome impulsiona os homes. 0 mal,
por6m, nao desaparece. 0 home, a exemplo do rei Midas que transfor-
mava em ouro tudo o que tocava, o home, repetimos, senate, em todos
os seus atos, o horror da fome que satura a sua psique.


Seca, Fome e Grosseria

J. Matos Ibiarina, em artigo publicado em "0 Ceara", de 5-2-1926,
observava que o sentiment de independencia individual caracteriza o ho-
mem cearense que prefer a pobreza aut6noma A abastanga sob depen-
dencia.
O perspicaz jornalista observava, ainda, que Asse sentiment de in-,
depend6ncea atinge as raias da grosseria, pois ser prestativo e servical 6
ser escravo. A urbanidade torna-se, desse modo, uma qualidade negative
que o home joga fora por nio quer6-la em sua matalotagem.
A fome lanca o home nos campos de concentracao ou nas ruas das
cidades, onde exerce a mendicancia. A fome obriga o home a emigrar
e o boi passa a apanhar das vacas em terra alheia. Tudo isso gera no in-
timo do cearense just revolta.
0 home senate prazer em nao se rebaixar, em nao se curvar, em
nio ter alma de bandeja. Quer conservar a espinha sempre erecta, sem
curvaturas subservientes. Esboga um sorriso escarninho quando v0 al.
gu6m fazer salamaleques e zumbaias, ou ter certos gestos refinados.
0 escravo A que senate prazer em servir ao senior. Escravo 6 quem
ter amo. 0 cearense nAo se parece com Sainte-Beuve que, no dizer de
Dubois,-"sempre precisava de um senhor a quem:obedecer". 0 cearense
tem muito dpqu6le tipo de heroi das peas romanticas de Victor :Hugo
sempre em.continua revolta contra a autoridade, Dai o interAsse em-afir-
mar independAncia, de fazer o que quer, de nio obedecer ordens de;nin-
gu6mr.
Por outro lado, o home .forte nao se desfaz em mesuras, *nem se
preocupa, em afagar o p6lo de ningu6m. Quem alisa cara de macho 6 bar-
beiro.
0 home no trato diArio cor a natureza, no seu contact com a ter-
ra semi-Arida, acaba por adquirir a mesma dureza nos gestos. No rosto
do sertanejo, estampa-se a frmeza, E' a pr6pria terra cortada.de sulcos
profundos e s&cos, sem a alegria das ribanceiras das correntes potAmicas
perenes.
Na luta constant contra o meio ingrato, o home torna-se, em geral,
seco, contrastando corn a untuosidade ictiol6gica do mulato ou' a meli.
fluidade do boulevardier.







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0 meio nio permite as modas berrantes e afetadas, exigindo, ao con-
trArio, uma esp6cie de discrecio britAnica. Qualquer discrepAncia por
parte do petit maitre 6 motivo de ridiculo e surge logo a desconfianga
em tSrno do sexo do casquilho.
O home da Area sertaneja 6 cabra macho que quebra mas nio ver-
ga. HA a preocupacAo de nao ser maricas, tipo abemolado. O janota 6,
por isso, menosprezado pelo sertanejo.
A suavidade nos modos, a lhaneza no trato, a rigorosa obedi8ncia As
regras da civilidade e o respeto As convencges nao sao estimuladas.
O home, entretanto, um cactus. Espinho por fora, mas capaz de
dessedentar o retirante. Ouve-se dizer, por isso, frequentemente, que fu-
lano 6 cabra bruto mas de coragao de ouro.
Sob o bloco da brutalidade, o home esconde a sua bondade, a sua
capacidade de ajudar o pr6ximo, o seu espirito de solidariedade.
O sentiment de independencia individual e a grosseria sio, indubi-
tavelmente, manifestag6es temperamentais do cearense, variando, natu-
ralmente, de acordo corn a camada social a que pertence.
Esse sentiment de independencia vacinou-nos contra certos cultos
herolAtricos, aumentando, assim, a nossa resistencia a certas concepgces
titanisticas da Hist6ria.
A pobreza aut6noma tao frequent entire n6s 6 capaz dos maiores sa-
crificios. Reage nos miltiplos campos de atividade.
No setor politico, a pobreza aut6noma nao serve de escada para nin-
guam subir. No setor econ6mico, prefer o sofrimento, o fogao apagado,
a barriga vazia, a bajular o nouveau riche, a fazer certas concess6es ao
zicago, ao potentado.
Nio defender de ningu6m. NAo dar prova de fraqueza. Ser a ima-
gem da pr6pria terra que, vitima da calamidade climica, sofre heroica-
mente, mas As primeiras chuvas reverdece e devolve ao semeador o fruto
de seu labor.
As aparancias enganam; quem v0 cara nAo vA coragco; nio se con
nhece o pau pela casca, els ai alguns anexins que se aplicam ao cearense,
cactAcea humana exteriormente espinhenta, mas interiormente macia co.
mo o arminho.
Sio homes de fisionomia carrancuda, figures angulosas como que
talhadas a facio, tipos temperamentalmente rispidos, ouricos humans,
mas que escondem nos escan.nhos do coragao uma capacidade de sacri-
ficio surpreendente.
HA, no cearense, sob 6sse prisma, uma dupla personalidade. E' dr.
Jekyll e Mr. Hard. E' a delicadeza e a brutalidade. Mas, em qualquer
caso, sempre o home atestando a sua autonoinia, proclamando a sua in-
dependencia em gritos quase selvagens de Tarzan das caatingas.
A contribuicvo do element negro foi pequena na formaglo atnica
do cearense. A escravidio nao nos afetou tanto. Mas, o sentiment de
liberdade de uma Area pastoril concorreu para arraigar a ideia de que a







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dependencia servigal e famulicia peculiariza o escravo e nio o home
livre.
Levar a pr6pria vida, sem dar contas a ningu6m, sem ter patrio, sem
ter a quem dar sat.sfacAo, eis o ideal dos que vivem num tipo de econo-
mia nio industrial, mas predominantemente agro-pastoril.
Se hi o pobre astucioso, o que se langa descaradamente ou por ne.
cessidade na mendicAncia, hA o pobre envergonhado, o que prefer pas-
sar fome a estender a mao A caridade pfiblica..
A terra nao se coaduna cor gente muito frigil, cor homes de fala
fina ou de palet6 lascado atris. Constituem Ales objeto de censura e de
comentfrios ridentes.
A mulher sertaneja, em geral, aquela que pode ser encarnada em
Luzia-Homem, nao tolera o badaneco muito enfeitado ou o duvidoso chi-
bante. O eleitoi de seu coragvo e sempre o mestigo masculo e grosseiro,
mas cuja alma t6m a fertilidade das vazantes.
A rudeza dos modos, da maneira de tratar, sintoniza perfeitamente
cor a grosseria da terra seca, do torrio semi-arido e agreste, da caatin-
ga de pouca conversa. E' a adequacdo do home cor a paisagem fami-
liar.
O folclore canta a paixao da cabrocha atraente e cheirando a mato
pelo cabra valente e enxuto que enfrenta a onga ou a cascavel sem fra-
quejar e se adentra no mato em procura do tour bravo cor a agilidade
do felino.
Na nossa romancistica, um dos temas prediletos e a ridieularisaaio
do bonifrate. Tratam-no invariavelmente em tom galhofeiro. E' o eon-
traste entire o praciano e o citadino no romance de AntOnio Sales e de
Francisca Clotilde.
Somos, apesar de tudo, um povo delicado, A hospitalidade cearense
6 o maior desmentido da grosseria visceral e real. Ningu6m bate i ports
de um sertanejo que nio encontre calorosa recepSio.


Trabalho Maneiro

Numa vjagem de onibus, quando passavamos pela eatedral em cons
trucio, alguem cantava As 9 horas do dia diante de uma assistencia nu.
merosa de homes que ouviam extasiados.
Uma mulher de certa idade a nosso lado viu a aglomeraao e censu-
rou:
Vja, meu senhor, &sse pessoal nio quer trabalhar. Quer ganhar
dinheiro sem fazer f6rga. Dio gragas a Deus quando hA uma morte ou
um desastre, porque, entlo, fazem romance e vio vender. Outro dia, um
sujeito veio me vender um dAsses romances. Disse a gle que tivesse ver-
gonha e f6sse trabalhar.
As palavras da revoltada senhora contra a malandragem, contra a lei
do menor esfSrgo utilizada fin6riamente, fizeram-nos lembrar os versos







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do velho Cafe, cantador aposentado que conhecemos em Senador Pompeu,
mas, ainda, vez por outra, cantando para os'amigos.
Era o velho Caf6 que cantava as suas vantagens assim:

Eu me chamo Cafe,
No poco que eu me banho
Cabra ndo dd cangapd,
Os touros nao dao nas vacas,
Os homes ndo dao nas muid.

Lembramos A senhora, que viajava a nosso lado, estes versos do velho
Caf6:

Se me derem uma enzada sou bom enzadeiro,
Se me derem uma foice sou bom foiceiro,
Se me derem um machado sou bom machadeiro,
Mas gosto mais e de cantar porque o servigo e mais maneiro.

Soci6logos nordestinos jA estudaram muito bem a indol4ncia do eabo
clo, considerando-a nAo mal de raga, mas mal de fome. E' a legitima de-
fesa do organismo desnutrido. 0 home vai, entlo, fazendo cera, fazendo
que trabalha, remanchando. E' assim que age, muitas vezes, o trabalhador
bracal no sertgo.
Numa Area de fome e de seca, como jA ressaltamos em varios artigos
e em livros, o home, para sobreviver, arranja todo expediente possivel.
Opera-se uma seleg~o singular: os mais fortes slo os majs espertos e sio
estes que vencem A custa dos papalvos, dos trouxas, dos bestalhOes.
Que seria do sabido se nao houvesse gente besta? Teria, naturalmen
te, que fazer forga. :: ,
A imaginagco do home, em Area de seca e de fome, 6 muito rica.
A necessidade 4 a geratriz dessa fertilidade de recursos e de expedientes
usados na Ardua luta pela vida.
O home do povo ter, tamb6m, o direito de evadir-se de fugir da
realidade, de sonhar. Dai o prestigio dos contadores de hist6ria e dos
menestreis em outros tempos e outras sociedades, primitivas ou nio.
Conhecendo a psicologia do home, 6 que, numa Area como a nossa,
cor maior razio surgem os que, utilizando alto-falante, recitam hist6riaa
em versos para um audit6rio que justifica o seu esforgo. Muitos nio sa-
bem ler e outros nao disp6em de dinheiro para comprar livros. Preferem,
por isso, ouvir o cabra sabido que ganha no mole, pelo simples fato de
ter agido cor a cabega, de ter craniado.
HA a fascinag~o pelo home que fala. Temos'qualquer consa de
ofidio fascinado por tocador de flauta. Dai todo camelot contar' cor
bom audit6rio no nosso meio, onde hA grande ndmero de desoeupados.
Trabalho maneiro, nio fazer muita forca e tirar bom proveito; 6 ati-
tude que encontra estimulo de alto a baixo da administraclo, ,I'







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0 home do povo verifica que nao adianta quebrar a cabeca, esme-
rar-se no cumprimento de dever, amassar o poq corn bastante suor do
pr6prio rosto. A recompensa sera sempre menor do que a daqu6le que
sobe como foguete, A custa de golpes bem aplicados, a custa de traba-
Iho maneiro.
Homens que levam a vida inteira no com6rcio, na inddstria ou em
outra atividade produtiva e nao ganham e nio fazem a fortsna ripida
daquele que aproveita qualquer esp6cie de falsificagco rendosa ou usa
de expediente desse jaez.
SH6, naturalmente, o malandro, o que nio quer despender energia fi-
sica.de forma alguma e consegue ganhar dinheiro da maneira mais ines-
crupulosa possivel.
Que.diferenga ha entire o proxeneta e o ruflio e o que retira do te-
souro pdblico boas somas gragas A esperteza, direta ou indiretamente?
Para quem olha, apenas, o resultado prAtico, nio hA diferenca, poi3
o que vale 6 o dinheiro, pouco importando o process utilizado para ob.
tO-lo. Para quem olha o resultado prftico, o que Ihe chama a atenClo
6 a lei do menor esforco aplicada inteligentemente, ou seja, o trabalho
maneiro.
Estamos, assim, em pleno setor da malandragem national. As trans-
formag6es posteriores se operam em razio do "vil metal" extraido ou
subtraido. Se a soma 6 bem elevada, sobe a milh6es de cruzeiros, o ma.
landro adquire outro avatar. Metamorfoseia-se em multimilionario, em
"nouveau riche" e passa a integrar a melhor sociedade, chegando mesmo
a se dar ao luxo de orientar a opinion pdblica ou de salvar o pals das
garraq. dos malandros.
Se, entretanto, o "vil metal" extraido ou subtraido nio atinge soma
elevada e permit, apenas uma vida folgada, entlo o malandro contin6a
malandro recebendo as invectivas dos que labutam, duramente e inveja-
do pelos que aspiram uma vida ociosa e despreocupada, sem canseiras
e sem a torturante obrigagio do ganha-pio.
Eis ai o que nos fez pensar a senhora que viajou a nosso lado no
6nibus e, nordestinamente, se revoltou contra os homes que nio produ
zem. Revolta bem nordestina que se dirige at6 contra os pr6prios filhos
que nio atingiram a idade de ajudar os pais a manterem a familiar.


Political Partidaria, Prosperidade e Bba Vida

A prosperidade econ6mica de uma nacgo, de um Estado ou de uma
regiao depend indubitavelmente da solug~o de seus problems de base.
NSo 6 possivel progredir, ir para frente, se as questoes fundamentals de
sua economic nao estao resolvWdas.
Fazendo essa afirmagdo, estamos pensando no Ceara, onde alguns
problems bAsicos vem, hi dezenas de anos, desafiando a argdcia dos go.
vernantes e o patriotism das fac Ses politicos, I










O estudioso de nossa hist6ria political, ao examiner a perman&ncia dos
problems, alguns at6 mesmo equacionados, esbarra logo nas mituas re.
lagbes entire os governantes e os partidos.
Ha os governantes que tem, no espirito, o depois de mim o dilivio.
Na observagio de J.M. Ibiapina, nao fazem dles mais do que aumentar as
dificuldades para os que os sucederem. Acrescem as responsabilidades do
Tesouro desproporcionalmente aos recursos tributArios.
Esses governantes fazem political cem por cento partidAria, relegando
a administraCgo a segundoi piano e, cuidando, antes de tudo, dos interes-
ses meramente facciosos, favorecendo toda esp6cie de parasitismo ou aco-
Ihendo toda sugestio desde que venha a beneficiary o partido ou os parti-
dos que o guindaram ao poder. Nao interessa saber se os cofres pdblicos
poder o arcar cor as despesas. Os que vierem depois 6 que fechem a
porteira. O que importa, acima de tudo, 6 desfrutar as vantagens do
momento, tirando-se o mAximo proveito dos triunfos eletorais.
O procedimento do depois de mim o dilivio 6 predominante na agri-
cultura, onde o costume de arrebatar da terra toda fertilidade original
vem a oberar as gerag6es presents e futuras.
Ha, entretanto, os governantes que, a despeito de conquistarem o po-
der gragas a compromissos politicos assumidos, desejam administrar, pro-
eurando, ao menos, encaminhar a solugio de um problema fundamental
A. vezes cr6nico.
Poucas probabilidades de sucesso t6m esses governantes, pois estio
jungidos de tal modo ao carro partidario que mal podem mover uma
palha.
A opiniao pfblica reconhece a honestidade de prop6sitos de certos
governantes, mas sabe que os seus compromissos sao de tal ordem que
quase nada podem fazer.
O governante, al6m disso, gasta grande parte do tempo de seu perio-
do governmental a solucionar casos puramente partidArios. Ora slo cri-
ses que rebentam no seio de seu partido; ora sao choques entire os par-
tidos coligados que o elegeram; ora sIo as contra-ofensivas organizadas
no sentido de evitar que as oposicses penetrem nos basti5es, colocando
dentro d6les um cavalo de Troia. i I
As incompatibilidades entire as faccSes aprofundam-se de tal modo
nas c6lulas municipals que nao 6 possivel mobilizar o organismo esta-
dual em t6rno da solucio de problema do qual depend o bem estar geral.
Depois, como ji assinalAmos num de nossos livros, para 6sse proble-
ma a oposigio raramente concorda cor o esquema situacionista. Nio se
pensa nas vantagens resultantes da solugco do problema. O que preocupa
6 o fortalecimento das posicoes. Logo, a tftica 6 enfraquecer por todos
os meios possiveis o adversario, nunca Ihe "dando razio, estabelecendo
sempre a ddvida a respeito de seus esquemas.
Os partidos politicos que controlam o governante, que tolhem a sua
liberdade de aCgo, que nio o deixam administrar, sao responsaveis pelo
tstado er6nieo de nossos problems, em parte.


- IS -






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Aplicando ao Ceara, o que Ruy Barbosa disse do Brasil, podemos di-
zer que t6da a economic cearense, todos quantos lidam e produzem, ga-
rham e acumulam, todos comp6em a plebe tributAria desses formidiveis
desocupados os politicos.
Sao eles que, impatri6ticamente, colocam, quase sempre, os seus in-
ter6sses particulares acima dos inferesses estaduais. E nio 6 de surpreen-
der a sua rapacidade, pois' esta, na definicgo de Raul PompBia, 6 a peri.
cia prAtica do instinto.
O que esta em j6go, pr6xima ou remotamente, 6 o poder cor t6da
a magia de suas irresistiveis atracfes. E o pobre Dante, para gozar do
convivio de Beatriz, desce a todos os circulos do inferno.
Essa linha de conduta vai prejudicar as gerag~es porvindouras que
viio receber um Estado pobre, chelo de problems s6rios agravados cor
o lapso de tempo decorrido e com a inciria dos homes pfblicos.
No setor da vida privada observa-se o mesmo procedimento.
"Noventa por cento dos cearenses, diz J. Matos Ibiapina, em artigo
em "O Cearh", de 5-9-1925, vivem contraindo compromissos para serem
satfsfeitos Deus sabe quando. E' um eterno calotear dos coevos aos p6s-
teros".
O home que disp6e de certo capital e se estabelece no com6rcio nio
se content cor a vida compativel com os seus recursos. Quer logo cons-
truir "bungalow" e comprar autom6vel, levando vida folgada nos clubes
elegantes.
O Estado 6 pobre, a escassez de capital 6 grande. A camada social
superior faz, porem, questlo de manter o trem de vida de sua cong6nere
paulista ou carioca.
A litania da v-da Bustera nao convince. O home quer gozar a vida,
mesmo que seja A custa alheia. Slo os homess dos papagaios" que os.
tentam as vantagens da "bolsa" e do "peito". Sio eles que, cor audicia
e golpes baixos, gozam as delicias da vida, o conforto da civilizacIo, en.
quanto a maioria sem 'iniciativas criadoras", sob o contrOle de inc8modo
"super-ego", vegeta na honestidade.
Estamos. assim, a viver aqueles tempos de Vieira, em que o verbo
furtar se conjugava em todos os tempos e modos.
Numa area geogrifica como a nossa, com as dificuldades que Ihe sio
peculiares, o que 6 precise 6 aperfeicoar os processes de "sabedoria". E
questIo de imaginaclo.
Estamos, portanto, no terreno da pura malandragem. O hedomismo
6 a filosofia de vida dominant. Que importa que a alegria de viver
da uns result da tristeza de muitos!
Essa prosperidade, entretanto, ter pes de barro, 6 ficticia, artificial.
O castelo de cartas ruirA ao s6pro do p6 de vento mais forte.
As faltncias, as morat6rias. as quedas sociais e econniicas consti-
tuem as tempestades para aqules que souberam mais do que semear
ventos.
Cairam no abismo aqu6les que andavam sem tomar conhecimento do






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terreno que pisavam. Afundaram na misdria os que se perderam no 4x-
tase e no sonho mirabolante da fortune fAcil.
As geracges futuras, portanto, tergo que arcar corn o nus e as res-
ponsabilidades, consequencias da conduta desastrosa das geragves passa-
das.
E' essa a linha de conduta do pai que pouco se preocupa corn o fu-
luro do filho, chegando mesmo a criar-lhe dificuldade, quando, amanhi
tiver 6ste de pagar as dividas contraidas por seu irresponsAvel genitor.


Predestinaco, Seca e Fome

A sociedade admite que haja governantes e governados, comandantes
e comandados, chefes e subordinados. O que ela repele, diz Georges Bur-
deau, 6 que haja predestinagio political.
Na verdade, essa observaggo aplica-se a fortiori a uma Area de sca
e de fome, onde todos querem conquistar um lugar seguro, ao abrigo das
intemp6ries. Ningu6m, por6m, aceita o predestinado como algo imposto
A comunidade. :
Na Area de seca e de fome, a mentalidade astrol6gica 6 preponderan-
te. E' generalizada a crenca na boa estrela do individuo. Ale pode ser
um predestinado. Devemos, por4m, convir que, nesse caso, a predestina.
gIo vem do alto, de f6rga sobrenatural.
Numa Area de seca e de fome, aceita-se cor jfibilo a vit6ria dos ho.
mens pobres que, A custa de esf6rgo pr6prio ou da sorte, chegaram a ele-
vadas posic6es na esfera political ou no campo da inddstria ou do com6r-
cio.
Nao se aceita fAcilmente o dominio de um home ou de uma fami.
lia por smples predestinavgo humana, natural. Aceitar isso, seria con-
denar a mobilidade social.
Todos podem chegar ao alto, mas a custa de esfOrco ou de sorte. Mes-
mo que nao cheguem todos ao pinaculo da gl6ria, hA possibilidade de 1l
chegar.
Sob 8sse Angulo, a concepggo da Area de seca e de fome 6 a mesma
do Estado liberal. Parafraseando Burdeau, podemos dizer que nem todo
gazeteiro chega a ser president de uma grande Companhia, mas a es-
trutura social permit que isso seja possivel.
Indubitavelmente, numa Area de seca e de fome, dentro da escala
de valores, o valor politico o que deriva da participagIo no exercfcio
do Poder t6m a preval6ncia. Nessa Area, o valor politico, mais do que
qualquer outro, empresta ,mportAncia ao individuo. Os valores da hie-
rarquia social, como observa o notAvel politic6logo frances, s6 se imp5em
na media em que sao politicamente valorizados.
O intellectual, o home de letras, o cientista, s6 ganham prestigio
na Area quando ocupam um cargo no governo ou na direcio dos partidos.
A conquista do Poder significa a seguranga econ8mica numa terra







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em que a desgraga quando chega, se mede por arrobas. Ora viver afas-
tado do Poder, significa nao dispor de elements para ser ftil nem a si
mesmo quanto mais a parents e amigos.
S6 os politicos sao Arvores que dao sombras numa terra de sol caus-
ticante, porque s6 6les podem distribuir empr6gos, s~necuras.
Numa Area em que a competigfo 6 tAo intense, onde 6 proteica a eli-
minagio do concorrente, nao se poderia admitir, portanto, a predestina-
gao political.
A Area repele todo privil6gio, tudo que implique em favorecimento
de um com exclusao dos outros.
O carter oligarquico do poder provoca animosidade, porque cria ex-
ceCio em face da regra geral. O cla beneficiado estA sob o docel do Po-
der, enquanto os outros ficam ao desabrigo.
Georges Burdeau observa que a riqueza do pais autoriza cada indivi-
duo a manter esperanca de participar na prosperidade geral. A estrati-
ficagao social 6 flexivel, permitindo a ascensao dos menos favorecidos. A
amplitude dos recursos constitui, assim, fator da coesao social indispen-
sAvel a um regime liberal. Onde reina a abundAncia, o home nao t6m
necessidade do Poder.
Nos Estados Unidos at6 1929, nao tinham os individuos necessidade
do Estado. S6 depois da grande crise 6 que a id6ia de Estado, no dizer
de Burdeau, se revelou a consci6ncia polit4ca americana.
Nas regi5es de pauperismo, de seca e de fome, o home carece do
Poder. Nao pode viver sem a muleta do Estado.
No CearA, a pobreza do meio levou, no campo politico, ao unitarismo,
ao anti-federalismo. E que o Estado precisa da Uniao. NAo pode viver
sem o auxilMo dela.
As s6cas peri6dicas v6m testando a generosidade dos demais brasi.
leiros e a capacidade do Executivo Federal solicitado a minorar os efeitos
da calamidade.
Como admitir em tal regiao a predestinagao de uns em detriment da
imensa maioria?
Acredita-se na estrela do individuo. A sua estrela pode ser boa ou
mA, levando-o ao triunfo espetacular ou ao redondo fracasso. Af, pornm,
estA em jogo uma forga astrol6gica, extra-humana.
Quando isso ocorre, o felizardo e alvo de comentArios jocosos, cuja
critical ridente comprova o sentiment de admiravIo. Se o home tmr
o nome de um acidente geografico, diz-se que Nle conseguiu dar-lhe maior
relevo.
Os tipos "picaretas", os cavadores em6ritos, os que sabem lutar adap-
tados 6timamente ao meio, despertam at6 mesmo a inveja dos que nio
conseguem passar pelo crivo da selecgo.
Se 6sse home que triunfou na luta pela vida tentar levar ao Poder,
aos cargos mais polpudos, os membros de sua familiar, entao o sentiment
popular se transmuda. 2 a hostilidade ao criterio oligarquico.
Na Area, circula atW mesmo a mAxima que diz: Come, mas deixa os







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outros comerem! Nsse aforismo conselho elevado ao extreme amoral
quando se justifica o que rouba desde que deixe os outros roubarem.
Na Area, o que revolta 6 o monop6lio, o agambarcamento. Desde, po-
r6m, que a gamela alimente a muitos dos mais diversos clAs, entao tudo
estA azul. O important 6 a "muamba" beneficiary um grande nimero.
A moral sofre, assim, os reflexos do instinto de sobreviv6ncia. Tudo
gira em t6rno do sentiment de seguranga que 6 o mais forte na Area.
O home cresce ouvndo hist6rias de secas, casos dolorosos de emi-
gracAo forgada pelos repiquetes. Toma conhecimento, bem cedo, da ins-
tabilidade das fortunes. Ele mesmo chega a ser testemunha do que Ihe
contaram, porque nio hA cearense de vinte anos que nao conhega uma
seca.
O sentiment do m6do acaba por condicionar o seu mecanismo psico-
16gico. E 6, em fungao d&sse m6do, que o home passa a agir. Eis por
que se fala em fome psicol6gica, como algo que estA na massa do sangue
do cearense.
A natureza avara acaba por tornar o home avaro,- mesquinho. O
cearense, na quadra do inverno, 6 sob certo asp6cto, bem diferente do
cearense do tempo de s&ca.
O sentiment do m6do 6 que predisp6e o cearense contra a predesti-
nac5o de um clI. Agir de modo contrArio, no seu raciocinio, seria come-
ter suicidio.

Funambulismo e Ambivalencia

O transfugismo, a fuga de um partido para outro, a virada, nao. 6 fe-
n6meno tipicamente cearense. Verificou-se e verifica-se em t8da parte,
onde houve e hA partAdos politicos.
O poder exerce a maior atragvo s6bre o home, seja Mle um cofre
africano ou um cockney brat&nico. Nada mais delicioso do que o poder.
Ora, sendo o home um animal por excelencia hedonista, 6 natural que
fuja da dor e busque sempre o prazer, a nao ser que seja um masoquis
ta, o que nao 6 normal.
Apartado do poder, assemelha-se o home a um cabrito desmamado
que deixou de sorver, nao o leite da bondade humana, mas o liquido mA.
gico que tudo transform.
Hemoglobinicamente fAustico, o home s6 more de amores por Mar.
garida a political quando ela Ihe oferece as vantagensdo powder.
N6sse caso, Fausto faz qualquer neg6cio cor Mefist6felis. Vende-lhe at6
a alma.
Numa Area de seca e de fome, entretanto, o transfugismo adquire to-
nalidades mais berrantes. O horror A ms6ria, o-pavor da pobreza, o m6-
do da fome e de suas consequAncias dirigem as volicges dos homes, con-
?rolam seus sentiments e comandam suas id6ias.
A luta pelo poder municipal adquire, assim, as c6res carregadas das
nuvens que formam as tempestades.







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HA, no sertao, com a dolorosa experiencia das secas e a consequente
instabilidade econ8mica, uma alegria do inverno em face do dono da Pre-
feitura. E hA, tamb6m, por id6ntico motivo, a tristeza do rio seco, quan-
do nio se goza das boas gragas do home que ter as chaves do cofre
da municipalidade.
A maior infelicidade para um chefe politico 6 se ver apartado da turi-
na municipal que tern dbere farto e Ihe alimenta a familiar e as families
dos correligionartos.
Mamar nao 6 s6 um imperative biol6gico, nem apenas uma regressio
A fase oral da libido. Mamar 6 tamb6m uma imposigao de 6rdem econ8-
mica. Quem nao mama nao vive; quem nao mama nao goza; quem nio
mama desequilibra o orgamento dom6stico e vai bater na caixa prego.
Mamar, portanto, 6 um verbo transitivo, cuja conjugagao se imp5e
principalmente no tempo present, pois Aguas passadas nao movem moi-
nhos e as Aguas poderao nao passar por baixo da ponte. Um espirito de
porco podera desvia-las e, adeus, tempo bom.
Por que se rebelaram alguns anjos em nossa vida political? Jtistamen-
te por isso. A c6rte dos querubins, nao sendo uma autarquia, precisava
do Gov6rno. S6 Aste poderia abastecA-los em pleno v6o, ministrando re-
cursos para a sobrevivAncia. dos querubins.
Numa regiao semi-Arida, cujos fen6menos meteorol6gicos sao incer-
tos, a political nao pode deixar de ser campo propicio As espertezas, a
exemplo dos demais stores da vida pfblica e privada.
O home quer sobreviver. O instinto de conservagIo comanda, por-
tanto, os seus atos. Nas relaCges socials, nos neg6cios, nas demonstra-
c6es de f6 e amizade, na raiz das attitudes de qualquer esp6cie, estA o
lembr&te da subsist&ncia. 0 home, como que numa alucinacIo auditiva,
ouve uma voz misteriosa a Ihe dizer: Cuida da tua vWda! Escapa! Apro-
veita a oportunidade! Langa mIo do que esta A tua frente, antes que ou-
tro aventureiro dMle se apodere!
Ora, so surge o comerciante espertalhao, se aparece o sabidao em
todas as profissoes, por que nao irromperia o politico sagaz e rapozAceo.
A hist6ria political cearense oferece-nos exemplos convincentes de
que nAo somos refractArios A trampolinagem e que, como bons acroba,
tas, sabemos, quando necessArio, andar no arame ou pular na corda bamba-
HA todo um anedotArio e ha uma rica paremiologia consagradores do
politico matreiro, que seria capaz de enganar atW o Satanaz.
Mesmo sem conhecer a Maquiavel, o nosso politico fin6rio age ma-
quiav6licamente, na boa e na mA acepgAo da palavra.
Ser o fiel da balanca nas contends partidarias, abandonar o lado
mais fraco pelo mais forte no moment oportuno, trair os compromissos
assumidos quando inc8modos, agir sempre cor a cabega e friamente, eis
ai a linha de conduta dinAmica do nosso politico astuto, cuja perspicacia
constitui a quintessencia da experi&ncia de luta numa Area de dramA.
tica luta pela vida.
HA uma ambival6ncia de sentiments. Ama-se e odeia-se o politico







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manhoso que trai o amigo e abraga o inimigo, contanto que obtenha van-
tagens.
0 super-ego, a censura, de cada um repele a agio indigna do politico
que rasga um pacto sagrado para nio perder o regabofe na gamela do
adversArio. No sub-consciente de cada um, por6m, ha um n sto de in-
veja e admiracgo por aquile que, para viver bem, nio se senate peado por
importunas regras morals e movimenta o veiculo de sua consciencia sem
tomar conhecimento do posto de sinalizagAo, jA que tudo e mao e niio hA
contra-mao.
HA, inquestionfvelmente, um lamber de beigos quando se. vista um
sabidlo, assim como um guloso enche a b6ca dagua quando ve um bom
petisco ou uma tentadora guloseima. !
Depois, o bom artist, em qualquer ramo, desperta sempre a simpa-
tia popular. Ora, o politico hAbil e astucioso, a pregar continues peas,
nio pode deixar de atrair a ateng~o piblica. Dai a ambival6ncia de sen-
timentos que o funambulo provoca. Rf.conhece-se que a trampolinagem
oferece as a:as vantagens, embora riigu6m queir:a ser ?hamado de fu-
afimbbl ou ty mpolineiro


Rotina e Aventura

0 antagonismo entire o misoneismo e o filoneismo, entire a id6ia ve.
Iha e a Widia nova, entire a rotina e a aventura, nio 6 regional, 6 universal.
No espaCo e no tempo, a antitese entire as correntes ne6fobas e as
correntes ne6filas nao cessou de existir, encharcando, muitas vezes, a ter-
ra com o sangue de mArtires que slo aqueles que, elevando-se acima da
craveira comum, firmaram balisas inolvidiveis nos campos artistic, cien-
tifico e relgioso.
Todos os povos manifestaram e manitestam a aversio ao grande, o
que levou Victor Hugo a dizer que tudo o que 6 grande incute horror
sagrado.
As idBios velhas, os sistemas filos6ficos e politicos jA caducos, as
concepgves artisticas esclerosadas resistem A ag~o do tempo e vivem por
f6rga da in6rcia cultural. Essa inercia, por6m nIo 6 mais do que o com-
plexo de inter6sses humans que giram em t6rno das id6ias proclamadas
e defendidas intransigentemente. Sao posigves sociais e econ6micas ocu-
padas, cujo usufruto estaria ameagado diante das arremetidas dos que pre-
gam a renovagao.
Por todo o mundo civwlizado, o conflito entire D. Quixote e Sancho
Panga nao p6de ser disfargado. E' o velho choque entire a inquietagdo
criadora e a estagnag~o, entire a letargia do, tidio e as convulses da in-
quietude.
No campo cultural, no setor universitArio, o Professor Chips, perso-
nagem de um romance de James Hilton, imboliza bem o glosador da ro-
tina comum, do mestre que afundou "na pdtrida estagnaCio de certo mB-








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todo pedag6gico que 6 a supreme e mais traigoeira armadilha da profis-
no".
Nas Universidades, erguem-se barreiras intransponiveis aos que des
fraldam novas bandeiras. Todo pioneirismo choca-se cor a muralha da
oposiClo mais tenaz.
O orgarismo atacado de art6rio esclerose 6 infenso As transfus6es do
sangue novo. Seria assim6trico casar o vigor do efebo cor a impotencia
do anciao.
Todas as resistncias, entretanto, hoje ou amanhi, sao vencidas. O
csforgo de adaptagio aos tempos novos acaba por triunfar.
Bagehot afirma que a march do progress consiste na passage da
idade do combat para a da discussAo. Dai o process gen6tico da verda-
de cientifica ser uma integragFo critical, na assertive de Ingenieros.
E' a pol6mica, slo as justas da inteligencia que decide, no campo
te6rico, do triunfo dos contendores, embora o vitorioso permaneca neu-
tralizado no terreno prAtico. Polemos e Minerva dno-se as mlos nos re-
dondeis intelectuais.
Nessas pelejas, as peas do esqueleto fossil que 6 a rotina sao des-
mrontados pelos dissecadores e findargo por se pulverizarem.
E' o vigor individual que faz as nacSes robustas, declare Ruy Bar-
bosa. Sfo as intelig6ncias criadoras que enriquecem o patrim6nio nacio-
nal e que asinalam, cor o fulgor genial, a caminhada dos povos.
A Hist6ria nio 6 uma infindAvel noite, uma sequencia ininterrupta de
trevas, porque estA pontilhada de focos luminosos de variAvel magnitude,
mas suficientes para tornA-la clara como o dia. E os p6steros, s6 gragas
a 6sses feixes de luz, podem conhecer aqueles que, sem brilho, se con-
fundiam corn a pr6pria noite infecunda.
Os castrados mentais, os nulos, t6da a farandola de complexados po-
derio, temporariamente, refocilar-se na gamela de seus dessorados triun-
fos. Mais c6do ou mais tarde, as vitimas dos sadicos sentiments serio
recompensadas.
O conflito entire a rotina e a aventura ganha cambiAncias -mais vivas
numa Area de seca e de fome.
As bSas posic6es adquiridas, em todos os campos de atividade, sio
mantidas por aqu6les que as conquistaram a custa de Arduo esforgo, de
incessante pelejar.
Vencendo a terrivel competic5o, o home adquire habitos. Um dAles
6 a resist&ncia ao que 6 novo, diferente, incomum. Passa-se a temer a
aventura. De tantas incertezas, nos campos social, econ6mico e meteorol6-
gico, o home acaba no monodeismo do golpe certo e do neg6co seguro.
No setor intellectual, o hAbito da resistencia ao novo 6 tamb6m o re-
sultado de "repetiC6es de experi&ncias homogeneas". Levanta-se, por isso,
um dique que evita a invasio de Aguas que poderiam inundar as terras
cultivadas de ac6rdo cor velhos processes agricolas ou principios agron6-
micos jA superados.







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Os homes, psicol6gicamente, continuam a reagir como se estivessem
defendendo a pr6pria subsistencia, tal a impressed que Ihe deixa no es-
pirito a f6rga da terra semi-Arida sujeita aos fenOmenos anomalos da me-
teorologia.
Nao servir de escada para ningubm subir, nao deixar que ningu6m
Ihe faga sombra, eis a preocupaaIo de cada um na luta pela classificagIo
social.
Nessa luta impiedosa, os homes tornam-se egoistas e maus, chegan-
do ao extreme daquela firma commercial que despediu um caixeiro-viajan-
te pelo simples fato de ter Ale ganho algumas dezenas de contos de rbis
nas vendas efetuadas em pragas de varios Estados, ap6s meses de fatigan-
to labor e horrivel desconforto.
Nao ter remigios de guia, mas v6os rasteiros de galiniceos, eis o se.
gredo da mediocridade triunfante.
Nada, portantb, de pioneirismo, de vanguardismo. Nada de embarcar
em aventura. A voz da experiencia fala mais alto. Cuida da tua familiar
e deixa o barco correr! Dcixa que o barco deslize A fl6r das Aguas! JA 6
grande felicidade os mares bravios da vida terem serenade.
A vida do intellectual cearense 6, As vezes, uma constant luta entire
a rotina e a aventura, entire os padres estabelecidos e o sentiment de
uma nova experiencia.
Quase sempre, entretanto, e um ajustamento ao meio para a fruigao
mansa e pacifica das vantagens conquistadas. A prudencia aconselha-o
a nao procurar sarna para se cocar. E Ale, As vezes, acaba por dissimu-
lar a peitabilidade sob o bioco da respeitabilidade. E 6 assim que o ci-
dadlo respeitAvel, na definicgo de Arar4pe J6nior, nao passa de um ca-
nalha incognito.


A Psicologia do Novo Rico

Certo sacerdote estrangeiro, em palestra conosco, observou que, en-
tre n6s, havia maior exibicionismo do que em outras parties por onde
passara. Indagou, entgo, a causa desse exagerado desejo de salientar-se,
de chamar a atenglo sobre si mesmo, .
Improvisamos uma explicacAo. Dissemos que, salvo melhor juizo,
aquela ostentagCo resultava da mentalidade do nouveau riche dominant
no nosso meio. Era uma classes que subira espetacularmente gragas a gol-
pes de sorte tio comuns em Area de seca e de fome como a nossa, onde
as fortunes se fazem e desfazem com a maior facilidade.
As nossas fortunes nao deitam raizes como as Arvores ancias. Nio
tem tradiCgo. --"~:
Jolo Brigido, cor notAvel intuiggo, ter pagina indeslembrAvel a res-
peito da instabilidade das nossas fortunes.
A psicologia do novo rico tem sido tracada em obras de fiegio da en.
vergadura de "Babbit", de Sinclc.r Lewis. E' que o novo rico e um tipo







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que surge em t6das as nagSes civilizadas. Nao 6 prata de casa, manifes-
tag o exclusivamente native.
Certos traces dessa psicologia slo os mesmos em qualquer parte onde
o tipo social atue.
As demonstrates do novo rico, no campo social, estio sempre Uiga-
das a seu dinheiro que 6 o denominador comum de suas exibig6es.
0 dinheiro apareceu de modo tio repentino, faltava-lhe de tal modo
o prepare psicol6gico para receb&-lo que o novo rico, fascinado, quer sen-
ti-lo em todos os atos de sua vida. A exemplo de Midas, Ele v6 em tudo
que pega o dinheiro.
Para afirmar essa euforia, o novo rico passa a desfrutar o melhor pa-
drdo de vida. Constroi o palacete. Mobilia-o e decora-o principescamerite.
Compra autom6vel de model mais recent. Frequenta os melhores clu-
bes. Dedica-se aos esportes nobres. Nio consegue, por6m, libertar-se de
certos hdihttos que Ihe atestam a origem humilde e as defici6ncias de edu-
cag o e de cultural.
A despeito dessas insufici8ncias, o novo rico 6 capaz de estabelecer
records. Nao hA emulacio, apenas, no terreno cultural, entire os homes
de espirito. O novo rico prova que a rivalidade 6 criadora tamb6m no
campo da cultural ergol6gica.
Os novos ricos passam, assim, a rvalizar na aquisicgo dos mais cars
objetos. Cada um quer possuir a melhor casa, o mais luxuoso carro, a
mais rica baixela, a mais valiosa j6ia e oferecer a mais deslumbrante
festa.
Em tudo isso, o novo rico estA ostentando a sua riqueza e chamando
para ela a atengio dos outros.
Ele nao senate prbpr.amente o just orgulho, mas experiment, em
compensagLo, uma vaidade que o eleva aerosthticamente e que o faz cres-
cer gragas a uma nova esp6cie de aerotropismo.
Se entire os intelectuais a emulacio se estabelece em terms de me-
lhor obra em prosa ou em verso nos diversos g&neros literArios ou cien-
tificos, entire os novos ricos a rivalidade se estende As cousas materials e
dom6sticas. Se um realize determinado melhoramento em sua casa de
ac6rdo com a filtima moda, os outros procuram imita-lo imediatamente.
Essa mentalidade do novo rico seria predominante no nosso meio?
Por que a terra pobre e de escassez de capital para certos cometimentos
no campo industrial e commercial, disp6e de clube imponente, de resid6n-
cias r6gias e de carros luxuosos? Seria tudo isso pura ostentaglo de nou-
veau riche? Ou seria o esfOrco do trabalho, o fruto da iniciativa do ho-
mem, da tenacidade do cearense? Pensar em terms de exibigio, no caso
em tela, nao seria uma afronta A capacidade de trabalho do native que,
por &sse ou aquele meio, chegou aos galarins da fortune?
O exibicionismo 6 o precipitado da vaidade humana. E quem noo 6
vaidoso? Quem nao senate o impulse de mostrar aos demais o que possui
e o que ter de diferenciador, aquilo que estabelece a diferenga entire o
possmudor e os nao possuidores?







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Adler, psicanalista que divergiu de Freud, fundou a psicologia indivi-
dual, lobrigando no fundo da natureza humana, o sentiment de vaidade.
Assim sendo, todo home detem percentage maior ou menor de
vaidade, o que 6, portanto, normal. O m6rbido seria esse sentiment leva-
do ao climax, ao ponto mais alto.
A sabedoria popular diz que cada um da o que ter. Nada mais ver-
dadeiro. O sAbio dA sabedoria. O sujeito burro, asnices. O grosseirgo,
grosserias. O novo rico s6 poderA prodigalizar algo acorde cor a sua
mentalidade envolvida pelo acentuado sentiment de vaidade subjacente.
Nao deve, portanto, surpreender que o novo rico se express sempre
em terms de dinheiro e reduza tudo a dinheiro.
Um home de belas letras n5o se sentiria bem numa roda onde s6 se
discutisse acrca de letras de cAmbio. Porque nIo admitirmos que a re-
ciproca seja verdadeira e que s6 a literature sonante agrade ao novo
rico?
Conhecemos, no interior cearense, uma senhora de origem humilde
que chegou a desfrutar certa posicio na sociedade local. Falava errada-
mente a lingua. Mal sabia contar. Costumava, por6m, ao se referir aos
vestidos e j6ias que ostentava, dizer ,mediatamente o preco. Isto me cus-
tou tanto. E, ao pronunciar o valor, via-se o asp6cto radiante de sua fisio-
nomia, a satisfacAo que experimentava ao enunciar a importincia gasta.
HA d6sse modo, no novo rico, algo de diferente do esf6rco que des-
pende para subir econ6mica e socialmente. E' algo psicol6gico condiciona-
do, naturalmente, pela nova situaggo material de classes.
A exibiCAo 6 o atestado do triundo economic e social. O dinheiro
abriu todas as portas. O felizardo atravessa todos os umbrais. E, diante
das mesuras e demonstragSes de aprico, mais a vaidade se manifesta. E
o novo rico, entlo, passa a afagar outros sonhos. Aumenta-lhe a sAde de
dominion e ele pensa logo na political militant. Se ele 6 o indice de ca-
pacidade de veneer da sua gente, por que nao poderia representl-la numa
assembl6ia? Quem, diante de seu triunfo econ6mico, Ihe negaria a vit6ria
political?
Depois, se hA condiq6es propicias A vit6ria dos ousados, dos que tmr
peito e dos audaciosos,, que se nao poderA dizer dos que tmr dinheiro, dos
que podem ser generosos, dos que podem financial grandes iniciativas,
dos que slo capazes de dotar a sua terra de grandes melhoramentos?
O dinheiro 6 a mola mestra. Que importa saber a sua origem? Conhe-
cer os seus mananciais nao altera o valor real da moeda. O que altera
Csse valor 6 a situagdo cambial. Ora, o cambio nao 6 moral. Certas pati-
farias as vezes conseguem atW elevar as cotag5es.
Quem triunfa deseja exibir os louros e as aur6olas. A psicologia do
nova rico pode ser estudada alhures. O que ocorre 6 que, numa Area de
seca e de fome, as contradicoes sao mls vivas e chamam mais a atenglo.
0 sacerdote, guiado pelo sentiment de caridade cristA, sente-se cho-
frado pela conduta do novo rico que parece escarnecer da miseria circun-
dante ou afrontar a pobreza da maioria. Quando, por6m, aprofundar o







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exame do fen6meno social, verificari que isso 6 fruto da sociedade capi.
talista ou da sociedade humana.


A Psicologia do Sabichao

O sabichlo nao 6 o sAbio. NAo 6 o home que, naverdade, vive de-
brucado sobre os livros ou em proficuos trabalhos de campo, examinando
honest e meticulosamente se os fatos seguem as leis estabelecidas, ou for-
mulando novas leis.
O sabAcha5 tamb6m nao 6 o sabidao 100%, o espertalhlo que nAo ter
pejo de engazopar as criaturas de boa fB.
O sabichao 6 um misto de ci6ncia e de empirismo, um tipo anfibio
que navega corn dificuldade no mar dos conhecimentos filos6ficos e cien-
tificos e percorre aos trancos e barrancos as estradas, jA bem transitadas
por pr6gonos e epigonos.
O sabichao, para as massas incultas, semi-cultas e pouco letradas, 6 o
ponto alto da sabedoria, 6 o home que explica tudo e que se nao aper-
ta com cousa alguma.
As perguntas mais variadas podem ser fdtas ao sabichao. Mle as res-
pondera sem titubear, cor ar doutoral, em attitude professoral capaz de
impressionar o audit6rio pouco lido e corridor ou a assist6ncia apenas de-
sasnada.
Ningudm, entretanto, ter mais consciencia de suas insufici6ncias do
que o sabichio. Nao sendo paranoico, 6le, a exemplo do home de peito,
conhece bem as suas defici&ncias.
O sabichao 6 um home de peito especializado. O seu peito 6 domi-
nar o conhecOmento cientifico.
Cor a coragem do argonauta, penetra nos mares pouco navegados,
nos p6lagos dominados ainda por Adamastores, ou corn o destemor do
bandeirante se adentra na mata virgem.
Quem duvidarA de um home que disserta tranquilamente ou apa-
renta seguranga quando discorre s6bre as mais variadas questies? Quem
duvidarA dessa abelha humana que, num dado moment, fabric o mel da
ciencia ou da filosofia e lambusa com Nle a cara do curioso indagador?
S0 sabichao sabe o que estA fazendo. HA, na sua versatilidade mental,
uma grande porcentagem de esperteza.
Em terra de cego quem ter um olho 6 rei. Dai a sem ceriminia do
sabichao que, conhecendo perfeitamente o meco, sabe que da mata nio
saira co6lho algum que venha a mostrar o dente de sua desconfianca ou
de sua ddvida cartesianamente inc6moda.
Cultura de almanaque 6 a do sabichAo. NAo perde tempo no estudo
percuciente dos problems. Analisa tudo pela rama. Fica na epiderme.
Supre o resto corn o brilho de sua inte]ig6ncia arguta.
Num pais de grande maioria de analfabetos, proliferam os sabich5es.
Numa Area de s6ca e de fome, o sabichlo viceja. Trata-se de uma clas-







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sificaIAo social por meio da tapeavgo no campo da ciencia. E' uma ma-
nepra de adquirir consideracgo social estarrecendo os ignorantes e as po-
bres zebras humans que nao puderam instruir-se.
O sabichao possui a arte da encenagIo. E' artist atW na escolha de
seus temas para arguicgo ou dissertav5o. Se 6 professor, procura outro
setor do conhecimento, diferente do seu, para deitar sabedoria. Caso ve-
nha a ser observado o seu 6rro oi constatado o seu equivoco, entdo a sua
nao especializagao na mat6ria servwrA de desculpa e sera mesmo utiliza-
do o corajoso feito para propaganda da mentalidade enciclopedica.
Sendo um home de peito, o sabichao nao perde oportunidade para
dar o seu 'show". Eis por que, durante as conferencias, aproveita os pon-
tos controvertidos para apartear, o que Ihe da chance de discorrer,
penetrando no cipoal doutrinArio sob a protecgo de fil6sofos que sio in.
vocados pelo sabichao apenas para armar ao efeito, pois, na realidade,
nada tem a ver com o que defended o peitudo pant6logo.
Grande parte dos ouvintes, entretanto, nao conhecendo bem os sis-
temas filos6fcos, nao pode exercer acgo critical sabre as citac5es de ca-
rater cenico, o que redunda no prestigio do sabichao.
O sabichao, com suas attitudes fin6rias, nao estA mais do que realizan-
do populismo cientifico. E' um process de conquista de popularidade
por meio da exploragco do semi-cultismo.
Ningu6m se admire se o sabichao tiver veleidades politico-partidirias
e pensar em candidatar-se a algum cargo eletivo. Naturalmente que o
seu partido seria do tigo populista, onde a demagogia 4 mais acentuada.
O sabichao, como todo home de peito, gosta do sensacionalismo, da
indiscricgo, dos efeitos mirabolantes, dos fogos de artificio, das cSres
berrantes, de tudo o que chama a ateng~o e desperta a curiosidade po-
pular.
O sabichao gosta de star no cartaz. E l4e v0 sempre realizada a sua
aspiiragio, porque encontra colegas que o compreendem muito bem. Es-
tabelece-se, assim, a solidariedade entire os homes de peito, numa sAdica
desforra contra a verdadeira intelig&ncia e os verdadeiros valores intelec-
tuais que sao, por natureza, discretos e modestos e nao sentem a vollipia
de fascinar as turbas ignaras.


A Psicologia do Linguarudo

Que 4 o linguarudo? E' o sujeito que tern lingua comprida; que fala
de tudo e de todos; que se nao satisfaz cor cousa alguma. E' o home
que se julga puro no meio da impureza; que se consider honest no meio
da velhacaria; que se tem na conta de perfeito no meio da imperfeicgo.
O linguarudo dA a entender que sabe de tudo e que ningu6m esta
mais bem informado do que l4e.
0 campo predileto para o amanho "linguistico" do linguarudo 6 a
political. Ai Mle 6 o mestre consumado. Conhece t6das as attitudes dos che-







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fes de partidos. NAo ha para Mle ag~o patri6tica. O patriota nao pass de
um individuo fin6rio que esconde suas deslavadas ambig6es sob o disfar-
ce de salvador da pAtria.
A critical do linguarudo 6 exclus vamente destrutiva. Dai a sua pre-
dileco pelos pasquins, libelos e requisit6rios. Eis por que a linguagem
que aprecia 6 a virulenta.
Na ;mprensa, para o linguarudo, s0 ter valor o artigo que 6 escrito
cor a pena molhada em vitriolo.
O linguarudo 6 um element dissolvente por excelencia. Antes de
tudo, 8le nada produz de construtivo. Incapaz de trabalhar em prol de
qualquer causa nobre ou em favor da disseminagco de uma id6ia patri6-
tica, Mle s6 sabe por em ago a sua afiada tesoura, retalhar reputacies e
subestimar o valor de tudo e de todos.
No setor politico-partidArio, como dissemos, 6 onde atua o linguarudo
cor maior liberdade de movimento. Ai, desloca-se 6le livremente, pois 6
essa a atmosfera propicia a seu espirito.
A despeto de diAriamente emitir as mais desconcertantes opinioes
a respeito'de homes e fatos, ningu6m ve o linguarudo fazer a menor
f6rga, dar a minima contribuigco no sentido de melhorar os padres da
prAtica political e dos processes democraticos por Mle criticados tao crua-
mente.
Quem ja viu linguarudo integrar movimentos revolucionArios ou re-
formistas? Quer ja viu linguarudo tomar parte em campanha revolucio-
nAria? Quem jA viu linguarudo tomar qualquer iniciativa patri6tica?
Nio. O linguarudo apenas aguarda que tudo acontega para entao
meter a ripa e p6r a catana a trabalhar.
O linguarudo senate a volipia do retalhamento. E' mrn euf6r.co quan-
do maneja a tesoura e corn ela corta e recorta a vontade.
O linguarudo 6, assim, um tipo improdutivo e incapaz de enriquecer
a vida humana de atos nobres, de gestos generosos e de ages her6icas.
Heroismo nao 6 s6 rasgo espetacular que estarrece uma comur-dade
ou uma coletividade. HA uma forma de heroismo que 6 aquele praticado
diAriamente e silenciosamente, de modo anonimo, pelos que cum-
prem o seu dever e como modestas abelhas aumentam as reserves de mel
do cortigo.
O linguarudo nao procede de modo a enquadrar-se em qualquer des-
sas modalidades de herc.smo. A sua vida 6 profundamente negative.
O linguarudo 6, indubitavelmente, um element nocivo A pAtria. DB.
le, ela nada espera de fitil, que redunde em seu engrandecimento.
Ha uma faceta da personalidade do linguarudo que merece ser apre-
ciada. Trata-se da auto-valorizagao, da auto-exaltacgo implicita na critical
impiedosa que faz.
E' como se o linguarudo se colocasse no alto e deixasse IA na planicie
os pobres desgracados, os impuros, s6bre os quais pode cair o f6go sagra.
do igual ao que destruiu Sodoma e Gomorra.
Vergastando erros, vapulando de lidades de carAter, combatendo a







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fraude e a corrupcao e escalpelando a aus6ncia de espirito pdblico, o lin-
guarudo assume ares de doutrinador e situa-se no ponto alto de uma hie-
rarquia.
Essa auto-magnificagio tAcita constitui compensacgo de complex. O
l4nguarudo na sua idealizaggo, julga-se objeto de consideracio social. No
seu devaneio, confunde temor cor respeito. O receio de sua lingua fe-
rina quer dizer, no modo de interpreter dele, acatamento aos pronuncia-
mentos que faz a prop6sito de tudo.
Diante do exposto, nao se pode confiar no linguarudo. Ai do partido,
do movwmento ou da campanha que contar, apenas ou principalmente, cor
linguarudos! Ai dos revolucionArios ou reformistas que confiarem na aClo
do linguarudo!
Nos moments oportunos, na hora de agir, o linguarudo, faltara. A
sua coragem esth somente na ponta da lingua. Ile 6 incapaz de manejar
qualquer outra arma. Falta-lhe a necessaria coragem.
Assim sendo, o linguarudo constitui um tipo que deve ser apresen.
tado as gerag6es de jovens como element dos mais negatives, indigno,
portanto, dos que contribuem, positivamente, para a construego de uma
pAtria respeitivel e respeitada.
O linguarudo, na verdade; utilJza a lingua num mau sentido. Ningu6m
nega as vantagens da lingua no bor sentido. Transforma-se ela em arie-
te capaz de p6r abaixo bastilhas. Que nio ter feito, no espago e no tem-
po, o orador inflamado a mobilizar multid6es em prol da causa que de-
fende?!
O cearense ter tradig~o de gente linguaruda. O mestigo Fagundes,
personagem do romance de Araripe J6nior e a respeito do qual falamos
em nosso "O Romance Cearense", era uma tesoura terrivel. A lingua de
Fagundes, por6m, estava a serviCo do nativismo.
Os nossos linguarudos deviam, portanto, inspirar-se no exemplo de
Fagundes. As suas linguas deviam colocar-se a servi~o de um Brasil re-
novado.


Cearense --- Homem de Sete Instrumentos

A vida dificl na Area de s6ca e de fome 6 que obriga o home a to-
car sete instruments. Para sobreviver, ter n le que experimentar vArios
oficios e exercer diversas profiss6es.
O meio 6 pobre e o home se v0 forcado a mexer em muitas cousas,
a tentar tudo o que Ihe for possivel, a fim de ganhar o suficiente para
manter a famil a. i!
No sertgo, o home plant vArias vezes. Geralmente, plant e a es.
cassez das chuvas mata-lhe a plantagvo, dando-lhe a lagarta o golpe de
miseric6rdia. O home nao desanima e, enquanto disp6e de semente vai
plantando. A terra 6 b6a, o c6u 6 que nao presta. Pode ser, por6m, que
as cousas mudem e quem nIo se esforca Deus nio ajuda.






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Quando a s6ca expulsa o home de seu torrAo natal, 1A fora, em ou-
tras terras, nacionais ou estrangeiras, vence, as vezes, espetacularmente,
nos mais diferentes ramos de atividade. JA se tornou proverbial encon-
trar cearenses nos mais recuados recantos da terra.
Na luta desigual, o home 6 obrigado a se fazer por si mesmo, pois
poucos sao os que encontram a cama ja feita. O filho do campon6s, do
operArio ou da classes m6dia, compreende, bem c6do, a sua situagao numa
Area de pauperismo, onde quem nao produz nao vale nada.
Acicatado pela necessidade, o home se desdobra cavando a vida de
todo modo possivel. 0 mestigo, no esforgo dramitico de sobreviver, apren-
de as cousas cor espantosa facilidade, manifestando, dessa maneira, po-
derosa capacidde de assimilagao e chegando, por isso, a estarrecer o dol.
coc6falo louro. I 'I
Condicionado pelas duras necessidades da Area de s6ca e de fome, e
que o temperament do cearense 6 irrequieto e ardente, levando-o a mu-
dar de profissdo e tornando-o um inconstante, sem perseveranga. Eis por-
que J.D.V., em "UnitArio", de 12-12-1903, observava: Nao 6 raro, entire
n6s, ver-se um individuo ser sucessivamente barbeiro, alfaiate, negociante,
industrial, emigrar, voltar dentist, doutor, etc."
Um povo assim, nao pode deixar de ser realista, de desconfiar dos
v6os da imaginag5o que transportam a criatura para regimes irreais.
A inteligencia e a imaginag~o revestem-se de carAter prAtico. SIo
aplicadas na competigio. Devem ajudar o home a eliminar o concorren-
te. Destinam-se a assegurar ao home um lugar ao sol.
A literature cearense 6 realista e a sociedade desconfia de poetas e
fil6sofos.
A filosofia requer lazer, despreocupacAo de espirito, tranquilidade, e
isso s6 se obt6m quando estA garantida a subsist6ncia e nao se precisa
mais desdobrar-se na azAfama do ganha-pdo.
Em Amaurota, capital da ilha da Utopia, criacao cerebrina de Thomas
Morus, aquele que se dedicava aos estudos metafisicos estava isento
do trabalho manual.
Para Erasmo, assim como o pAssaro nasce para voar, o co para ca-
Car e o cavalo para correr, o home nasce para filosofar.
Numa Area de s6ca e de fome, entretanto, o home nao disp5e de
tempo para engolfar-se em cogitagoes metafisicas. A sua filosofia tern que
ser clara como o sol que o lumina, sem nebulosidades, portanto. E e a
pr6pria filosofia da vida que se condensa e cristaliza nos prov6rbios.
Fil6sofo, entire n6s, 6 o sujeito que vive fora da realidade, que ter
ar distant. Quando o home estA, por qualquer motivo, abstraido, o ami-
go pergunta logo se estA filosofando. Filosofia 6, por isso, sin6nimo de
evasio, de fuga, de perda de contact cor a vida present.
Quem 6 louco para se dedicar ao estudo da filosofia? S6 se for para
morrer de fome, diz logo o home sensato. Filosofia s6 a da vida e a boa
filosofia da vida 6 aquela que ensina a ganhar bons cobres. 0 mais e pura
conversa fiada que nio enche barriga.







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O citado J.D.V. observa que "o calor seco, a ardentia do clima, a
semi-aridez do solo 6 muito da heranga do indigena" tiram ao cearense
"a estabilidade ou ponderagao que se requer para as cousas graves'e s6-
rias. Qualquer cearense pode produzir vaudeville, operetas, as mais be-
las composig6es musicals, com6dias, romances, pode mesmo descobrir e
inventar cousas de arte, mas criar qualquer cousa em ciencia, resolver
problems sociais que demandem profundos estudos filos6ficos, nunca'.
Na verdade, dispomos de raros estudiosos da filosofia. Nao somos,
por6m, incapazes de Ihe dedicar o melhor dos nossos esforgos. Ai esta
o exemplo de Farias Brito, o nosso maior critic de filosofia. Ai estA o
exemplo de Jos6 Sombra evocado por Djacir Menezes. Ai esta o exemplo
de Djacir Menezes que, nao f6sse a luta pela vida, ja nos teria dado mais
obras valiosas na linha de "Problemas de Realidade Objetiva", porque a
tendencia marcante de seu espircto 6 a filosofia.
Sdo raros, indubitavelmente, os navegantes no vasto oceano. Pro-
vam 6les, por6m, a nossa capacidade para os estudos filosoficos. 0 que
hA 6 que o cearense amarrado aos problems do ganha-pAo, nao se pode
dar ao luxo de cultivar a filosofia, de passear, peripat6ticamente, nos jar-
dins de Platlo, Kant e Hegel.
As circunstancias que cercam o cearense, do berco ao timulo, 6 que
chamam a ateng~o para a sua inteligencia esfusiante, para a sua intuicAo
ficil das cousas.
Eliseu Reclus afirma que o cearense hefdou do indigena a resignagio,
a tenacidade, o espirito de asticia, levado at6 a diplomacia; do negro, a
iniciativa, a jovialidade, a benevol&ncia; e do branco, a inteligencia e a
forca.
Vivendo numa Area de s6ca e de fome, as tribes indigenas tiveram
que desenvolver todo um mecanismo de defesa a fim de sobreviver. O
espirito de astfcia na procura de alimento e na persegugigo da caga ain-
da hoje 6 o mesmo predominante no sertanejo pobre.
0 mestigo cearense tem a forca intellectual do branco. E' capaz de
rasgos geniais, de igual pioneirismo. EstA ai comprovando a assertive o
exemplo de Delmiro Gouveia, marco inolvidAvel no desenvolvimento in-
dustrial do nosso pals. : :
O intellectual cearense, o home de letras, aquele que nao pode viver
de suas produces cientificas, literArias ou artisticas, mas que teima em
Ihes dedicar o pouco tempo de lazer, 6, muitas vezes, forgado a sintetizar,
a nao ser prolixo. i
O home escreve como fala. 0 tempo 6 ouro e a pAgina do livro que
edita 6 muito cara. Eis por que, em vez de tratado, de obra volumosa, 6le
nos oferta plaquetas.
O cearense, retomando o fio inicial, 6 home de sete instruments.
E' a pr6pria vida na Area geogrAfica que o obriga a toca-los bem ou mal.
0 rmportante 6 fazer corn que os instruments rendam o suficiente para
garantir a subsistencia.







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SRca, Fome e Fama

Por que a fama de um individuo segue a linha dos defeitos e nao a
das qualidades? Por que as dissemetrias ,r.dentes atraem mais do que as
sfrias?
HA o m6rbido prazer em ressaltar e comentar os defeitos e em ocul-
tar aa virtudes.
Chamar a atengCo para a inteligencia ou o carter do home, 6 dar-
Ihe oportunidade de subir, de galgar posigCo, de classif&car-se socialmen-
te. Chamar a atenCio para as qualidades negatives 6 dificultar a ascen-
sao social on a elevacgo do status. i
A fama, diz Balzac, comumente, 6 feita mais do mal que do bem que
se diz de um home.
Em'Aracati,' ningu6m escapa do apeUldo. O molequismo cearense 1a
se manifest como em Fortaleza. Os crismas sarcfsticos aracatienses sao
iamosos dentro e fora do" Estado.
O humor negativista 6 o mesmo, quer o encontremos na literature,
quer deparemos, corn ele na pr6pria vida. Machado de Assis, que era mu-
Into, epil6ptico e meio gago, vwngou-se em suas personagens.
Assinalar defeitos, salientar dissemetrias, 6 compensar complexos ou
transferir. JA que nao sou um tipo'mais perfeito, que reine a imperfeOgio!
JA que nio sou um sujeito honest, que domine a patifaria! E', assim, que
o pensamento se forma no inconsciente, onde estao as raizes embelbdas
no lencol dos nossos desejos e sentiments mais fortes, reprimidos pela
censura.
Ridiculariza! O ridicule 6 uma arma na luta pela vida, ajuda na dura
competicio. O molequismo esta, desse modo, ligado ao instinto de con-
servadco. E' um process de eliminagco de concorrentes.
Diante disso, 6 natural que a fama se faCa mais rApidamente em tsr-
no dn mal que do bem, em t6rno das qualidades negatives mais do que
das positives.
A robreza ataca o corpo social de modo Vmpiedoso. O "espectro co-
lossal do m&do" comega, entlo, a fazer assombrages.' E o home chega
atW mesmo a sofrer alucinag5es.
Sob a atuacio dAsse fantasma, o home nIo ter divida em escolher
ontre o lado generoso e o lado mesquinho.
Cria fema e deit a na cama! Numa Area de sAca e de fome, entretanto,
certa fama ohri.a o home a deitar em rede e, veja li, o tempo para re-
pouso 6 curto, porque a luta pela vida incessante e o home tem que
sc defender de seu perfido semelhante.
A fama liga-se, assim, a preocupacgo cor a vNda alheia. O home
cresce cor os olhos no vizinho a fim de evitar, se possivel, que Ihe faca
sombra.
Nio hA sociedade menos crista, menos caridosa do que a de uma Area
de s&ca e de fome. A16m do salve-se quem puder, na raiz das pr6prias








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campanhas so-called filantr6picas ha o interesse mercantil que 6 a real
mola de tudo.
V6m dai o ceticismo, a desconfianca. Quando algu6rm mais realis-
ta do que o rci; quando algu6m reza mais do que o vigArio; quando al-
guem quer ser mais honest do que os outros, entao, cuidado corn 6le, nio
tardario os golpos surpreendentes e, ate, estarrecedores.
Ora, numa terra de der.gual e dramAtica luta pela vida, fazer cons-
tantemente a caridade, ajudar continuamente o pr6ximo, pautar a vida
dentro do principio de solidariedade, A ultrapassar a craveira comum.
Nio se supera a bitola moral impunemente. O excipiente ocaba por re-
ceber a desalentadora resposta da part dos quo seguem a regra geral.
A malediclncia entra em agio cor todos seus contingentes. A pobre
vitima 6 cercada, escorracada e, se nao tiver f6rqa- para resistir, destro-
cada pela caincalha desagaimada.
HA uma surda conspiraglo contra os puros, os de alma ilibada e cons-
ci&ncia tranquila, os de maos limpas. Os sujos, os que vvvem cor o foci-
nho na mochila das falcatruas e dos baixos expedientes, lideram a cam-
panha aretiniana.
Na Atenas antiga o carAter inamolgAvel de Aristides inquietava de
tal modo a populaga que acabou sendo banido.
Ningubm 6 profeta em sua terra, poucos sao'os afortunados que ven-
cem sem tropecos e 6bices na terra natal. Muitos sao obrigados a amas-
sar o pao por vezes amargo da emigrag5o.
HA toda uma literature de nostalgia, de saudade do torrAo natal. HA,
tambem, uma tradigio oral de revolta contra as miseroazinhas da provin-
cia, de suas cidades mortas, de sua meteorologia de fenomenos anormais.
De tanto sofrer, o sertanejo acaba radicando-se em' outras paragens,
afirmando mesmo que se sua alma tiver vergonha nio voltarA & gleba na-
tiva.
Sca, fome e fama, como tudo isso estA bem articulado, corn suas ter-
riveis conexoes! Como a fama de honestidade chega ao ponto de atrapa-
lhar a vida do home de bem! As quadrilhas de patifes nao poderiam
admitir homes honestos. Seria uma espinho na garganta a impedir a
pantagru6lica degluticao.


Seca, Fome e Humor

1 O riso do Ceara-Moleque, diz o cron6grafo Jolo Nogueira, e tal
vez rNor que o de Voltaire, porque 6ste achincalha e aquole mata.
Nao ha divida que'o riso do CearA-Moleque nlo tem a "elegAncia
geom6trica de Luciano", nem se parece cor o riso de Rabelais, "do ho-
mem que triunfa da realidade pela discipline da alegria'. O rKso do Ceari
Moleque tern a "perversidade florentina do Decameron", "a mordacidade
cruel de Swift". E, na verdade, ultravoltairiano.
Ksse riso desconcertante, capaz de traumatizar e de matar, transfor-







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ma-se, ou melhor, se along em vaia, E 6, sempre, na Praga do Ferreira
- s6de do Cear6 Moleque que Mle eclode mefistof6licamente.
No govmrno do Franco Rabelo, Joao Brigido registra que uma 'horda
infrene de b6bados pagos a 5$ diArios" estacionava todas as noites na
Praga do Ferreira cor a finalidade de vaiar os adversArios daquile Go-
vArno. Era a "vaia do dedo".
A vaia rabelista, sucedcram-se na Praea outras vaias.
Antes de 1930, Fortaleza por dois dias nao viu o sol. Chovia. No ter-
ceiro dia, as 14 horas, o astro-rei apareceu dentre as nfivens. Os que es-
tavam na Praa .promoveram, entao, grossa vaia.
Certa vez, um passar'nho engaqchou-se nos fios el6tricos, que cobriam
a Praga. Estudantes e populares deram-lhe grossa vaia.
De outra feita, As 23 horas, o motorneiro havia esquecido a chave e
o bonde tomou, no desvio, outra diregco. Os passageiros desceram e apu-
param-no.
Nem os mortos escaparam A corrimaCa. Certa ocasiao, um carro fi-
nebre acompanhado de outro veiculo, recebeu na Praga estrondosa vaia.
Em 1936 mais ou menos, quem vestia roupa de casemira era apupado.
Recebia o apelido de "jararaca" ou "cobrao". O venerando Barao de Stu-
dart, que usava fraque, nao escapou aos gritos e assovios.
O pr6prio rel6gio da Coluna da Hora, que fica na Praga, foi apupado,
ouando se estabeleceu a hora do verio.
No dia 31 de dezembro, por ocasiao da passage do ano, era costume
apupar-se, na Praca, o ano velho.
Em janeiro de 1914, em sua coluna ho "Unatario", JoIo Brigido cons-
tatava que'a populagao limpa havia desertado da Praca do Ferreira, para
o Passeio Pdblico, passando a ser ocupada pelo "povol6u grosseiro e mal-
vestido que leva as noites em orgias a fazer political do rifle e do punhal".
Permanecia na Praga "um' grande nfmero de pe6es a quem falta traba-
Iho, atulham as calgadas, dificultando o trAnsito e dando vaia em quem
passa".
O riso do Ceara-Moleque que se prolong em vaia constitui nao s6
uma descarga de tensao, uma libsrtaclo catartica, mag tamb6m uma ma-
nifestacIo de Animo forte, da parte do home que ri.
O riso 6 escarninho, mau, ferino e agressivo. Desconcerta, traumat-
za e mata. A despeito disso, ha, na'casquinada do cearense moleque, a
pung&ncia de seu drama. A virilidade da sub-raca, a masculinidade do
mestico, 6 que estabelece o tipo de reacao condicionado pela Area de seca
e de fome em que vive.
O mestigo litorAneo ha dezenas de anos que assisted ao drama e, ate
mcsmo, A tragedia de seu povo. As secas, expulsando as populavoes ser-
tanejas de seu "habitat" e jogando-as na capital em campos de concentra.
qao. A emigragio ininterrupta para o norte e para o sul, As vezes sem
preferencia individual, tomando-se o primeiro navio surto no porto. 0
quadro doloroso das hospedarias de emigrantes. A evasio do sertao para







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a capital, transformando o home em desocupado com a fome morando
com Mle na misera barraca ou choupana.
Homens criados assim, fitando diuturnamente a face esquAlida da
missria, nao se assombram facilmente. Dai a paremiologia registrar o seu
desafio em prol6quios como dstes: Desgraga pouca 6 bobagem; quem es-
pera por tempo bom 6 rogado.
Jofo Brigido diz que se "um fendmeno de qualquer natureza que
veio de outra part, onde produz admiracIo, espanto, terror, chegando ao
Ceard toma diferente forma". Cita, entao, o exemplo da peste bub6nica
que recebeu no Ceara o nome de "febre de caroco" e fez fiasco, quando
noutros Estados produziu horror.
Numa area pastoral, o home de tanto ver sangue, embota a sensi-
bilidade. Nao experiment a sensaqIo desagradfvel diante de derrama-
mento de sangue.
Assim, o mestico cearense jogado na capital, empurrado que foi pela
vida incerta no sertao, sem trabalho e faminto, reage por meio da vaia.
E' uma modalidade de vWnganga contra o "destino". E' o esforgo "legal"
contra tudo e contra todos.
O riso ou a vaia constituem nao s6 uma descarga de tensAo ou a ma-
nifestagio de animo forte, mas tamb6m uma esp6cie de transferincia. Ele
esti desviando para o novo motive de humor toda a revolta contra a mi.
seravel situaCio material de classes. EstA descarregando' s6bre outrem a
energia que 6 o apupo em que se ilui a sua c6lera.
A Praga do Ferreira 6 o cenario desse drama do mestico cearense
faminto e sem trabalho, seixo rolado que dos sert6es veio dar ao litoral.
Quando ensinaremos ao mostigo a sorrir ou a gargalhar sadiamente?
Quando esse riso escarninho e essa vw-a contundente deixar5o de conden-
sar as lagrimas do sofrimento e a bilis do 6dio?
Se 8sse mestico aprender a sorrir, se nao sentir Mle a necessidade da
vaia, desaparecerA o Ceara Moleque?
E' possivel que nIo desapareca de todo o cearense moleque que po-
deri sobreviver como uma attitude viril do home em face dos fen6menos
meteorol6gicos e sociais. Esse molequismo seria, entio, uma caracteristi-
ca da plant humana que nasce e cresce em area de s~ca e de fome.
Estariamos, assim, em face de um molequismo, sinal de vigor de uma
gente acrisolada nas retortas da dor. Nao desapareceria o CearA-Moleque
que subs.stiria numa de suas mais fascinantes facetas.
2 E inegavel o espirito galhofeiro do cearense em face da seca
e das mpNs aflitivas situag~es. Na vida e na arte, na luta quotidiana e nos
arranjos da imaginaclo, quando a arte imita a vida, o cearense 6 o home
forte que desafia as intemp6ries cor o sorriso nos l1bios.
Assim 6 que ja corre de b6ca em b6ca, a anedota de dois retirantes
que se encontraram e, no papo que bateram, disseram, entire outras cou-
sas, o segvinte: Primeiro retirante: A cousa esti preta. Parece que o
ano que v6m 6 s&co. Segundo retirante: Se Deus mandar outra s&ca ta
fazendo besteira. Primeiro retirante: Num diga uma cousa dessa. Se.








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gundo retirante: Digo, porque, se ele mandar outra seca, ela fica s6zinha
aqui, porque o povo vai embora que nao 6 besta nao.
Um povo que conversa assim 6, na verdade, um povo de enorme capa-
cidade de reristencia, de admirAvel fortaleza.
Ai estao, em pleno sertao, os que podem oferecer essa her6ica resis-
tencia. Podemos vO-los ecol6gicamente ligados A terra comburida, ao lado
do gado tratado cor chique-chique.
Os que vivem na capital e possuem fazendas no sertao estlo rece-
bendo constantemente cartas dos administradores, dos que permanecm
em plena luta contra a calamidade clim.ica.
A simplicidade viril dessas missivas mal escritas e em letra compro-
bat6ria de quem esta pouco afeito ao manejo da pena, 6 de despertar o
nosso entusiasmo pelo sertanejo.
O administrator comunca que o chique-chique de certa Area chegou
ao fim, mas que Mle levara o gado para outra parte onde ainda 6 possivel
achar alimento.
O sertaneje esgota todos os recursos a seu alcance, aguardando as
chuvas. Cuida das cabecas de gado que Ihe restam atW a derradeira exa.
!ar o iltimo suspiro.
Os que nfo tem ponto de ap6io economic, esses fecham a casinhola
e arribam sem olhar para trAs. Sgo os que vao lotar os paus de arara ou
os navios que vio para n norte ou para o sul.
A revolta L tdo grande como o amor A gleba. O home flagelado pela
sAca aftrma que, se sua alma tiver vergonha, nao voltarA A terra natal
que o expulsa em mementos ag6nicos.
O pat6tico da despedida e da revolta tradutivo da impot&ncia diante
do monstro apoca iptico, 6, apenas, uma face. A outra exibe o riso, a ga-
lhof?.
Goethe aconselhava o infeliz a fazer da dor um poema. O sertanejo
cearense arranca gargalhadas do sofrimento.
Enfrentando o espantalho da s6ca com o sorriso nos IANos, o cea-
rense tornou-se capaz de encarar outros bichos de sete cabecas corn idn-
tico espirito jocoso.
Ai reside a mais forte raiz do molequismo, essa predisposicao para a
critical ridente.
O home que ri da pr6pria desgraca, que descobre o c6mico no trA.
gico, 6, sem divida, uma robusta afirmaqio de her6ica capacidade de re.
sistencia ao sofrimento, ao infort6nio.
A popularidade dos trocadilhistas, repentistas e poetas satiricos tra-
duz o molequismo cearense. E' a agressividade da plant humana que se
manifesta pelo riso ferino.
Essa agressividade se ostenta nos desafios de cantadores que atraem
os que desejam gozar cor as situagves embaracosas dos preliantes.
Os versos, os trocadiltos e os repeptes arrasadores sio decorados, sa
boreados e repetidos.
Sair de situacSes dificeis, nada provoca mais a admiraqlo do cearen-








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se. Ei, ainda, a condicionante da seca e da fome que se encontra na etio-
logia desse sentiment.
As gargalhadas soltadas nas rodas de bate-papo quando algu6m repe
te os versos satiricos dos cantadores correspondem As vajas aplicadas aos
derrotados, aos que foram entupigaitados, aos que nao souberam veneer.
A impiedade para corn quem 6 vencido manifesta-se de modo indisfar-
Cgvel. E o masoquismo que o povo experiment quando sofre escravisagio
mesol6gica ou political.
A prosaria do novo rico 4 mais, contundente numa Area de s&ca e de
fome. E' como se Nle estivesse esfregando o seu triunfo na cara dos ti.
midos, dos que nao tiveram a auddcie de veneer que, muitas vezes, signi-
fica a audacia de ganhar ilicitamente.
A condicionante da seca e da fome provoca a agressividade do home
que fere e espinha at6 mesmo quando ri.



0 Boticario e a Praca

1 Quando o boticAreo Ferreira chegou a Fortaleza, em 1825, a Pra-
ca que leva o seu nome nao passava de um areal chamado Feira Nova.
Havia mongubeiras, castanheiros e oitizeiros. Cercavam-no pilares de ci-
mento que eram conhecidos por frades de pedra. No centro, havia enor-
me cacimblo corn chafariz ao lado.
As casas comerciais e a estacgo de bondes de burro mandavam amar-
rar os animals qui traziam g6neros do interior e os burros de trag~o ou
parelhas aos frades de pedra.
Pelo cacimbao supramencionado, certa vez, passavam Evaristo Maia e
o Prof. Raimundo Ribeiro. 0 primeiro disse ao segundo: Aqui, neste
cacimblo, o Mirandio salvou, em 1877, a vida de um home Por quan-
to? indagou Ribeiro. Mirandao era tido como forreta.
As noites eram escuras como breu. A turma do Grupo Tal.ense de
Amadores tomava banho junto ao cacimbao inteiramente despida. Na es-
quina das atuais ruas Major Facundo e Liberato Barroso, onde esti A
Esquisita, havia a casa de Joao Neri.. Nos altos, moravam Carlos CAmara
e outros rapazes. Depois das 22 horas, 4les saiam completamente ntis e
iam tomar banho no cacimbao.
Ai, tamb6m, satisfaziam eles suas necessidades fisiol6gicas. Certa
vez. Julio Pinto foi pegado em flagrante delito por um guard que Ihe
passou several repreensao. O sr. sabe com quem esta falando? inda
gou Jdlio. Eu sou o Guarda-M6r da AlfAndega. O policial, entao, mais
brando, pediu: Entlo, o sr. ponha ao menos umas folhinhas por riba.
Quando a Praca nao estava calgada, nela se instalavam olas de cava-
linhos. Na estreia de uma delas, tomou parte o Comendador Nogueira
Accioly, sendo o seu gesto criticado pelos cat5es da 4poca.
Em 1902, o Intendente Guilherme Rocha inaugurou, na Praga, o Jar-






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dim 7 de setembro defendido por gradil de ferro corn quatro portbes de
acesso.
Em 1925, foi inaugurado o coreto no centro da Praga. Em 1933, subs-
tituiram-no por uma Coluna da Hora inaugurada entire 31 de dezembro
e 10 de janeiro de 1934.
Durante a Interventoria do Coronel Felipe MoreAra Lima (1934-1935),
Fortaleza passou a ser iluminada a luz elktrica, sendo que as primeiras
lImpadas foram acesas na Praca.
2 Ant6nio Rodrigues Ferreira, conhecido por boticArio Ferreira,
nasceu na Vila Real da Praia Grande (Niterc) em 1801. Perdeu a mie
quando menino, enquanto seu pai desertara na campanha contra Artigas,
nao dando mais sinal de vida.
Comecou o 6rfAo Ant6nio a trabalhar como praticante de farmacia,
cujo proprietario era liberal. Recrutado em 1824 para servir na Cispla-
t.na, desertou, indo dar com os costados no Recife, onde contou corn a
valiosa ajuda do comerciante portugues Manuel Gongalves da Silva.
Na casa de seu protetor, conheceu a Antonio Caetano de Gouveia,
Consul de Portugal e rico negociante em Fortaleza que o levou para l1
como caixeiro e aonde chegou em 1825, em plena s6ca e durante a reacAo
monirquica que culminou cor o fuzilamento dos chefes da Confederacio
do Equador no Passeio Piblico contiguo ao Quartel de Inha.
A casa do Ant6nio Caetano transformou-se no lar do caixeiro Ant6-
nio Rodrigues, m6rmente depois que Aste, cor os rudimentares conheci-
mentos farmacol6gicos, salvou a vida da esposa daquele, em laborioso
part.
Encorajado cor os sucessos na pritica de farmicia e medicine, re-
quereu Rodrigues no Recife a licenca para o proto-medicato, o que Ihe
foi concedida.
De posse da licenga, montou a sua pr6pria farmicia no local onde
hoje ficam as Lojas Brasileiras, A rua Major Facundo. Casou-se em 1827
cor Dcna Francisca Aurea de Macedo, filha do Aracati, e que viera para
a capital cearense acossada pela seca de 1825.
Em sua farmAcia, Ferreira atendia a ricos e pobres com a nim'mm
solicitude, motive por que granjeou popularidade. A sua botica transfor-
mou-se em lugar de palestras para quemr fosse ocioso. A um canto, havia
gamho para quem quisesse jogar na calcada.
Corn a popularidade que desfrutava, nio podia Ferreira fugir As soli-
citag6es da political partidAria.
No CearA, a exemplo das demais Provincias, dois partidos disputa-
vam as preferencias do reduzido eleitorado: liberal ou chimango e con-
servador ou caranguejo.
Ferreira votava aversio aos liberals avancados, pois nao esquecia o
que Ihe fizera o boticArio de Vila Real, resnonsivel pnr seu recrutamentQ
em vinganca pela divergincia de idWias entire patrio e empregado. In-
gressava, por isso. no partido conservador.
0 partido liberal, no Ceara, era dirigido por duas grandes families:







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Alencar e Castro. 0 partido conservador comegou a atuar em 1836 em
oposiggo a administration Alencar. Ibiapina, Figueira de Melo, Pinto de
Mendonga, Costa Barros, Albuquerque, Torres Vasconcelos, Pio Machado,
Graga e Mendes estavam A frente da oposigLo e mantmnham ligagco na
COrte com elements que derrubaram Feij6 e subiram cor Pedro de
Arafijo Lima.
Formou-se, assim, o partido caranguejo do Ceari que esteve no poder,
com pequena interrupgvo, de 1838 a 1845.
Ausentes da provincia, Ibiapina e Figueira de Melo deixaram de nor-
tear o partido que passou a sofrer influencia do dr. Miguel e de Manuel
Fernandes Vieira. Passava a predominar, no partido conservador cearen-
se, o element careard. !
Entre 1841 e 1842, a exacerbagio das paix5es politico-partidarias deu
margem a uma s6rie de atos violentos, provocando o afastamento de an-
tigos chefes do partido caranguejo. Em 1843, esse afastamento concreti-
zou-se em rompimento, quando a ditadura de Miguel Fernandes se fez
sentir por ocasiAo da eleigCo provincial.
A ferocidade revelada em 1842 pelo exclusivismo da faccio carcari
levou Costa Barros, Pinto da Mendonga, Albuquerque, Soares, Bezerra,
Barbosa Cordeiro Mendes a tentarem a organizag~o do chamado partido
do meio.
A queda do minsterio Hon6rio em 2-2-1842 e.a ascensio dos luzias
salvaram a facgio carcarL do aniquilamento ji que Hon6rio e Torres es-
tavam desgostosos corn Fernandes Vieira.
Foi em 1842 que Ant6nio Rodrigues Ferreira, jA conhecido por bo-
tichrio Ferrelra, fNk el ito vereador e, depois, elevado A Presid&ncia da
CAmara Municipal de Fortaleza. Quer como vereador, quer como presi-
dente, Ferreira ai permaneceria pelo espaco de 18 anos consecutivos.
O prestigio de Ferreira no partido conservador assumia tal propor-
gAo que a facc5o dominant dentro d&le era chamada pelos adversArios
de boticria-carcari.
De 1844 a 1848, a oposicio saquarema na Corte produziu a uniao das
facc6es conservadoras cearenses. Essa unilo, porem, foi temporiria, por-
que, nas administracies Fausto e Rego, a cisgo repetiu-se motivada pelo
exclusrvismo da facAio boticAria-carcara que repetia a fabula de lelo
na divisdo da presa.
Miguel Fernendss e Ferreira, influindo no Animo daquiles dois pre-
sidentes, conseguiam manter a sua maquina montada, obtendo nomeacves
para os cargos piblicos dos homes mais devotados A faccio.
Foi nesse period ag;tado que surgiram, na provincia, sociedades de
salteadores tais como os serenos e chios. 0 acirramento dos rancores.po-
litico-partidarios dava origem a incendios e morticinios.
A facc o boticiria-carcarA nio contemplava a faccqo meista no ban.
quete do poder. Miguel Fernandes s6 elegia a quem queria. Se eleito,
nao recebia diploma, desde que o chefe carcara ngo quisesse, como suce-
deu com Pinto de Mendonga em 1842. Os col6gios podiam desobedecer a







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Miguel Fernandes que se vingava, por6m, na apuraaio feita na capital.
Os adversarios afirmavam que o partido da botica, cujos chefes eram
Miguel Fernandes e Ferreira, o BoticArio, nao tinha principio, nem mora-
lidade nos atos; que a fOrga da botica provinha das posic5es oficiais que
ocupava e do Governo que a sustentava.
A lei eleitoral prestava-se a explorag6es facciosas. A divisio dos cir
eulos revestia-se de fundamental importancia. Assim 6 que Quixeramo
bim foi desligada das freguezias vizinhas cor que formava circulo natu-
ral para se reunir ao Aracati, a fim de que a predominancia de Pinto de
Mendon'a em Quixeramobim fosse inutilizada por Aracati e Russas.
Cearense, 6rgio liberal, em ediclo de 23-1.1857, afirma que "a pre-
ponderancia do partido da botica na political provincial se deve a um Arro
grosseiro em que o Governo tem laborado, de que represent um nrin-
cipio e que compreende a maioria da populavlo".
Em 1842, Ferreira sofreu dolorosa perda cor o falecimento da esposa
que nao rerstiu As emog5es da luta political que se travou naquele ano
e que culminou com a eleigco de Ferreira para a Camara Municipal.
De 1842 a 1859, sem soluclo de continuidade, ja como vereador, jA
como president, esteve Ferreira sempre em exercicio, gracas A confianga
do eleitorado conservador.
Entre as suas realizavges em beneficio da capital cearense, podemos
citar as seguintes: a) levantamento da plant da cidade; b) demolic~o do
vielas e becos; c) abertura, alargamento e regularizacgo de pracas; d) de.
sapropriamento de casebres; e) ajuda na construgCo da Santa Casa de
Miseric6rdi,; f) lanamento da pedra fundamental de capela.
0 President da Provincia, Conselhciro Vicente Pires da Mota, em
Relat6rio apresentado a Assembleia Legislativa, em 1-9-1854, na parte re-
ferente as obras pfblicas da Capital, diz: "Incumbi ao zelo caritativo do
cidadfio Antonio Rodrwgues Ferreira de dar andamento As obras do Hos-
pital de Caridade. para as quais mandei aplicar a quantia de 2.000$000.
NMo havia at6 entio hospital que recolhesse enfermos indigentes".
Em 1845, sao acusados diversos cidadaos por malbaratamento dos so-
corros pfiblicos. Ferreira saiu ileso das acusac5es.
Quando a Comiss5o Cientifica de ExploracLo, chefiada por Francisco
Freire Alem~o, esteve no CearA, entire 1859-1861, recebeu de Ferreira
constant assistencia.
Em Relat6rio de Manuel Ferreira Lagos, Chefe da Secio Zool6gica
consta o seguinte:
Volto aos insetos. Estende-se ao Ceara a crenca vulgarizada em outras
provincias acrca da Fulgora Getiranaboia, e da propriedade mortiferr
instantaneamente do seu apelidado ferrdo. Al!m da Fulpnra laternaria
obtive mais dous exemplares muito curiosos do mesmo genero, mas de
esp6cie bem distinta e ainda nio classificada. O nrimeiro me foi dado n?
Fortaleza pelo falecido farmaceutico Antonio Rodrigues Ferreira, que
muitos services prestou A Comissao Cimntifica, e veio com a seguinte infor-
magao: "Pste ,nseto alado 6 conhecido nos cainpos e sert6es do Piaui







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cor o nome vulgar de Tiranaboia, e all apareceu ha seis para oito anos,
pouco mais ou menos, e agora nesta Provincia nos sert6es de Quixeramo-
bim, onde fez algumas vitimas entire os irracionais. Este que conserve para
amostra foi apanhado em 1856: esta um pouco estragado porque quem
me mandou embrulhando-o em um papel Ihe quebrou o pescogo, que 6 Zs.
se tubo que sobe acima do tronco; e tiraram-lhe tamb6m o ferrio ou es
tilete, arma mortifera e que mata instantaneamente a todo aquele que
toca! Parece fabulosa a descriglo que fazem os sertanejos desse inseto.
Dizem que 6 cego, e que ter no f'm do pescoco um ferrao agudo; que
quando parte ou v6a de lugar onde esta 6 sem destiny certo, e que o faz
cor uma velocidade tal que s6 se sabe pelo rugido das asas, que apenas
da tempo ao individuo que o ouve a deitar-se no chgo para livrar-se de
ser encontrado e espetado pelo seu ferrio: l6e v6a, como disse, sem des-
tino at6 que cansa e cai, ou encontra qualquer obstaculo onde bate corn o
ferrao, e onde mata ou more; ou porque fica pr6so por ele, ou porque
o quebra, e em ambos os casos more: dizem mais que os animals ji o
conhecem, e o temem tanto que tremem e encolhem-se todos quando o
ouvem!"
Faleceu Ferreira as 21 horas de 29 de abril de 1859 vitima de um
aneurisma da aorta. Morreu pobre, levando s6bre o peito um simples
emblema de cavaleiro de Cristo por servings a humanidade. Foi sepulta-
do no Cemit6rio de S. Casemiro. Em 1880, seus ossos foram trasladados
para o Cemit6rio de S. Jogo Batista.
No dia 27, fez seu testamento, no qual afirma: "Declaro que, nfo ten-
do descendentes, ao meu pai, se existir, no tempo de minha morte, que
em direto 6 meu legitimo herdeiro, Ihe serA transmitido o dominion e pos-
se de todos os meus bens".
A Praga que hoje tem o seu nome foi por ele regularizada, pois, corn
a aprovagIo da CAmara, demoliram o bAco do Cotovelo que cortava a pra-
ca em diagonal, e a prolongava at6 a rua ParA.
A Praga, que 6 a sede do CearA-Moleque e o coragdo da cidade, tern
o Boticario como patron. Nao podia haver maior homenagem.
Em 1957, o vereador Ren6 Paiva Dreyfus apresentou A CAmara Mu-
nicipal de Fortaleza um projeto de lei que autoriza a municipaliadde a
erguer, no lugar da Coluna da Hora, um monument a Ant6nio Rodrigues
Ferreira.


Praca do Ferreira --- Corac o da Cidade

0 cronista Sobreira Neto, apreciando os logradouros pfblicos de
Fortaleza, consider a praca da Lagoinha a mais romantica; a praca Cas-
tro Carreira a mass frequentada por vagabundos; a praca Coracao de
Jesus a dos novenArios tradicionais; a praga Jos6 de Alencar a de maior
convergencia de 6nibus; a praca do Ferreira 6 o centro de atraCao de in-
telectuais, politicos, comerciantes "que debate a crise brasileira".










O cronista Carvalho Nogueira registra: "Depois das quatro horas da
tarde temos a impressio de que toda a populagio v6m para o coracgo da
cidade como a provar a passage do sangue pelo coracio'.
A Praca do Ferreira esta sempre corn os seus bancos repletos de gen-
te. Pela manhn, os frequentadores 18em os matutinos. A tarde, passam
uma vista nos vespertinos. A ncete, batem o costumeiro papo, apreciando
as ocorr6ncias dibrias.
Atrav6s do tempo, a Praga vem contando cor livrprias, cazfs, bar-
bearias, alfaiatarias, armazens, sorveterias, lojas, farmicias, brocoi6s, sa-
l5es de bilhares, clubs, fotografias, restaurants, cinemas, bares, bote-
quins. As residencias familiares 6 que desapareceram.
Da Proca, nartiam os bondes de burro e, depois, os bondes eletricos
para os subfirbios.
O bonde de burro circulava s6bre trilhos de ferro. Saia de meia e
meia hora para as diversas linhas. A lotag-o era de O passageiros e a /
passage custava 100 r6is. O boleeiro e o condutor usavam farda.
Aos domingos, circulava o bonde de Jo0o C6tico, porque os balaus
tres nao tinham coberta, assemelhando-se a c6tbcos. A linha preferida era
a do Benfica, onde Pedro Eug6nio instalara um restaurant e bar afa-
mado pelas paneladas.
Os burros tinham nome que era gritado pelo boleeiro armado de
grande chiquerador. Conta-se que, certa vez, uma burra empancou, a des-
peito dos esforcos do boleeiro. O fiscal indagou do motive. O boleeiro
declarou que s6 havia um recurso: o de chamar o animal pelo nome.
Mas, ai 4 cue estava a dificuldade, pois o nome da burra nio se podia
dizer +al a indecncra. E cor senhoras no bonde, a cousa se tornava sem
soluco. 0 fiscal, por6m, autorizou o boleeiro a chamar a burra pelo no-
me. O boleeiro pediu, entgo, desculpas aos passageiros e gritou: Taba-
cuda!
Os bondes de burro pertenciam A "Empresa Carril do CearV" que se
transformou, a 6-6-1912, em "The Ceark Tramway Light and Power Co.
Ltd.", sendo nomeado gerente Mac Rean.
0. primeiro bonde el6trico circulou em 1913. Durante a inauguracqo,
ldefonso Albano guiou, um bonde ao redor da Praca do Ferreira.
Com os bondes el6tricos, os rapazes ociosos tinham nova modalidade
de diversio. Na frente da loja Crisantemo e de outros pontos, olhavam
Miles as mocas quo tomavam o bonde. a fim de ver as pernas. Os vestidos,
naquela 6poca, eram compridos. Esses pontos de observag~o se chama-
vam pernosc6pios.
Na Praca funcionou o Cine Politeama, de propriedade de Jos6 de
Oliveira R61lr. Num dos dias que antecederam a queda do Governador
Nogueira Accioly, por ocasiao de uma passeata dissolvida pela cavalaria
da policia, a massa invadiu o cinema na ocasiao em que o Wlheteiro Gil-
berto R611a estava corn todo dinheiro na mesa. Com os tiros, at6 o bilbe-
teiro se escafede. Lembrou-se, por6m, que o dinheiro podia desaparecer.


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Grande foi a sua surpresa quando encontrou os cobres no mesmo lugar.
NAngu6m se lembrou de tirar um tostao. O medo opera milagres.
Antes do Politeama, apareceu na Praga o Biosc6pio, modalidade de
ianterna migica que projetava na tela aspects parados ou epis6dios de
hist6ria simples.
Em 7-9-1917, a Empresa Luis Severiano Ribeiro inaugurava o Cine
Majestic que exibiu o filme "Fedora ou a Princesa Romanov", interpre-
tada por Francisca Bertini. No salio de espera, foi colocado um retrato
a 61eo de Bertini, da autoria do pintor cratense Siebra. Para a inaugura-
g5o, veio a transformista FAtima Miris.
Antes da sessao, entrou um sujeito que ficou de chap6u. A turma
das torrinhas comegou a vaiar. O sujeito, entgo, se levantou e passou a
distribuir bananas. Quando deparou o camarote do Governador, fez uma
rever&ncia e continuou a dar bananas. Hilaridade geral.
A Praga constituia o ponto de reunigo da sociedade elegant e das
camadas mais humildes. Retreta e carnaval nela se realizavam. Havia
perfeita separaqAo de classes. Brancos pobres e pretos na perif6ria e
mestigos ricos e broncos no centro. Havwa um gradil separando a gente
de boa familiar do canelau.
As bandas do ex6rcito e da policia tocavam no coreto da Praga. Fa.
milias ricas e pobres, patries e empregados, pretos e brancos compare-
ciam As animadas retretas. A PraCa transformava-se num redondel em
cue os d. Juans natives tercavam armas pela conquista das belas filhas
de Iracema. Era uma noite diferente. Protelavam-se as d.iscussbes dos
problema e as apreciac5es dos fatos. A mulher polarizava toda a atencao.
Ramos C68tco consagrou as retretas na Praca nesta quadra:

"Enquanto os ricos namoram
Com senhoras ilustradas -
Eu satisfago o meu gosto
Vou namorando as criadas".

Durante o, Carnaval, a Praca constitui o centro de convergoncia.
Quando o Clube Iracema tinha a sua side nos altos do edificio A esquina
das atuais ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, os folibes saiam na
madrugada de quarta-feira e vinham encerrar os festejos mominos na
Praga.
Em carnavais mais recuados, havia na PraCa batalhas de confete e
de laranjinhas.
O carnaval de 1896 marcou epoca Os "Drag5es do Averno", do Clube
Cearense, e ns "Conquistadores Infernais" do Clube Iracema, rivalizavam.
Os carros aleg6ricos foram preparados cor o maior sigilo. Houve um
deficit de 90 contos de r6is que foi coberto, posteriormente, cor o apu-
rado nas quermesses realizada no Passeio Pfiblco para tal fim.
Em carnaval mais recent, Jos, Raimundo da Costa, Am6rico Pican-







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go, Antonio Ferreira Braga e outros organizaram um bumba meu boi. Ao
passarem pela Praca, Renato Rlla aderiu A festanga, incumbindo-se de
pegar numa das fitas da Ema. No dia seguinte, coube-lhe a cota de ....
25$000. Mas, eu pagar 25$ s6 porque peguei no cabresto da ema? Dai
por diante, a todo sujeito que fizesse neg6cio commercial mal sucedido,
perguntava-se: Entio, voc6 pegou no cabresto da ema?
No nosso tempo, arma-se coreto na Praca, entire o Abrigo Central e
a Aveneida 7 de setembro e, perante as autoridades municipals e comIs-
sio julgadora, desfilam ranchos e escolas de samba. No 6ltimo dia, os
pr&mios sao entregues aos campi6es.
Na decada de 1890, durante as festas de Santo Ant6nio, Sao Joao e
Sio Pedro, a Praca transformava-se num campo de batalha. Rapazes co-
locavam-se dos dois lados norte e sul e jogavam buscap6s. Naquele
tempo, os calxeiros que trabalhavam nos estabelecimentos comerciais da
Praca, antes de fechl-los, vedavam, cor barro molhado, a parte que fi-
cava entire a porta e o chfo, a fim de evitar a entrada de buscapds.
Localizavam-se na Praca livrarias tais como a pertencente a Joaquim
Jos6 de Oliveira. Abria aos domingos atW As 10 horas. Fci caixeiro dela
Gabriel Fiuza Pequeno.
A Livrraia AraIjo ficava em pr6dio contiguo a antiga Intend&ncia
Municipal. La, se reunia o Cendculo, cujos membros components eram
Soriano de Albuquerque, Ant6nio Augusto de Vasconcelos, Fiuza de
Pontes, Alfredo de Miranda Castro, Manuel Augusto de Oliveira, Carlos
Vasconcelos, os desembargadores Joao Firmino e Domingues Carneiro.
Ildefonso de Araujo, fundador e proprietArio da Uvraria, "era a al-
ma da Casa. Verdadeira vocacqo de livreiro, nfo s6mente sabia pedir os
livros mais convenientes, como sabia atrair a freguesia, a simpatia e esti-
ma dos intelectuais da terra".
Os figaros preferiam trabalhar na Praga. Na barbearia de Fenelon,
Quintino Cunha fazia a barba, queixando-se a todo instant da navalha
que nio estava afiada. Nessa ocasigo, no interior do estabelecimento, um
gato soltava miados angustiosos. Entao, o conhecido boemio, erguendo-
se um pouco da cadeira, diz: Fenelon, estarlo tgrando as barbas da-
qu8le gato cor a tua navalha?
Quando ocorria qualquer fato important, costumava-se comemora-lo
com foguetes soltados na Praga, costume que ainda nao desapareceu. Cer-
ta vez, o conhecido Pelxotfo aguardava o reconhecimento do candidate
eleito. Nao se sabia se seria ou nio reconhecido. Ouviu-se, entio, um
foguet6rio na Praca. Peixotgo pede ao mulato Albino, empregado, para
ir ver o que havia. Albino corre e, pouco depois, volta ofegante e diz
quase sem fala: E' foguete! Nos primeiros lustros deste s6culo, quan-
do um comerciante da Praca aniversariava, os colegas e amigos inica-
vam a manifestacio de alegria a porta do estabelecimento commercial cor
traques de pavio e foguetes. As vezes, tocava o Chaga dos Carneiros na
sua flauta de taboca, ou entIo Pedro Timbi em sua harmonica. O co-







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m4rcio da Praga fechava depois do almoco para comemorar o event.
Naquela 6poca, a Praga nao tinha vida noturna. 0 iltimo bonde de bur-
ro deixava a Praga As 22 horas.
A Praga continue a ser o ponto de observacgo da rapaziada. Desa-
pareceram os bondes. Os pernosc6pios, por6m, perduraram. E' que, no
trecho entire "A Flama" e o "Slo Luis", o vento 6 forte, levantando, dia
riamente, vestidos de mulher. Certa vez, passava uma velha, cuja saia
foi erguida pelo p6 de vento. Nio aguentou e exclamou: Que vento imo.
ra!! So faz levantar a sa;a. Nfo baixa.
Durante os periods eleitorais, os partidos politicos procuram insta.
lar-se na PraCa. Assim 6 que, por ocasiio da campanha sucess6ria que.
levou ao poder a inexpressiva dupla JJ, o edificio da antiga "RotisserAe"
transformou-se em s6de de comit6s de propaganda de varios partidos.
Na part t6rrea, ficou o coinit dos JJ. No segundo andar, instalou-se o
de Ademar. E, no terceiro, aboletou-se o de Juarez.
Ainda hoje,.na Praca, sIo'afixados avisos. No "Abrigo Central", os
jcrnais colocam taboletas cor a mat6ria da edigeo.
Vaias tremendas t6m sido aplicadas na Praga. Na ddcada de 1890, ri-
dicularizava-se e debochava-se deructando pela b6ca. Havia rapazes que
se distinguiam em tal deique. Recordando-se daquiles tempos, o coro-
nel Ant6nio Fiuza Pequeno cita os nomes de Vicente de Castro, Raimun.
do de Franga, JoIo Viana e Adolfo Siqueira.
Em marco de 1904, o engenheiro Jolo Felipe recebeu uma tremenda
vaia. 0 conhecido professional foi chamado de ladrAo. A Praga chegou
mesmo a ser cercada pela policia.
Em 1912 e 1913, ap6s a queda do Governador Accioly, os marretas,
ideptos do governo decaido, recebiam a chamada vaia do dedo que Ro-
dolfo Teofilo descreve assim: "Raro era o dia em que um marreta mais
cxaltado nao fosse vaiado. Inventou-se um sistema tipico, a vaia do dedo,
trkco no g6nero cearense, penso. Fazia-se o paciente subir a um dos
bancos na Praca, depois o apalpava. enquanto um dos mais desmascara-
dos introduzia-lhe no anus o dedo indicador... Quase sempre 8ste casti-
go era imposto e marretas que vociferavam na Praqa do Ferreira contra
o Governador do Estado".
*Crimes foram cometidos na PraCa. Tiroteios do povo corn a policia,
de soldados do ex4rcito corn guardas-civis, de caixeiros corn policiais. Num
resses tircteios, 6 quc Ium portugues, ao correr, esbarra num poste da Li-
ght e grita: Que gov&rno desgragado!
Na d6cada d, 1890, costumava-se fazer uma quinta de Judas na Pra-
ca, onde Severe tinha mercearia. Quando bebia, o merceeiro tornava-se
violent. Certo grupo de rapazes, sabendo que Severo guardava, em seu
estabelecimento, um Judas, resolve furta-lo. Um do grupo disfarcou-se
em judas, enquanto os demais pediam ao merceeiro para guarda-lo. Joao
Dias Pereira, o falso judas, pigarreava e foram seus pigarros que levaram










Severe a descobrir a simulaC5o. Armado de faca, tentou agradir o falso
judas que fugiu espavorido.
Passava pela Praca uma prociss5o cat6lica. As mocas cantavam, con-
tritamente:

No ceu, no ceu,
Cor minha mie estarei

Nessa ocasiAo, de um dos botequins, saia um popular mcio triscado.
Julgando que se tratasse de bloco carnavalesco, jd que a cidade se pre-
parava para os festejos de Momo, meteu-se o melado no meio da pro-
cissio e comecou a cantar:

A minha caninha verde
Jd chegou de Portugal.

A preocupacio cor o inverno, corn as chuvas que trazem a abundin-
cia, sempre dominou o espirito do cearense. Assim que Edgar Borges
agent da Loteria Federal havia chegado do Rio e andava preocu-
pado corn o inverno. Estava, um dia, em plena Praga, a olhar o ceu,
quando algu6m se aproximou dele e perguntou: Que estA fazendo ai?
Estou vendo se vem chuva nem que seja de canivete aberto.
Em 1920, quando caiu a primeira chuva, depois da seca de 1919, JoAo
Batista Morais, MIrio Cavalcante e tenente Guerreiro bebiam no restau-
rante de propriedade do italiano Jos6 Guerreiro que ficava na Praca.
Quando a chuva comegou a cair, 6les colocaram a mesa na Praga e con-
tinuaram a beber cerveja. O garCon, de guarda-chuva aberto, ia e vinha,
Estavam todos 6les vestidos de casimira.
A meia noite, Leota esperava o bonde de Joauqim TAvora, quando
passa Am6rico Pinto. Que esti fazendo af, Leota? Estou esperando
o bonde. Vou pra casa. E vocA Nio tenho casa. Nio sou maribondo.
Um popular bem alcoolizado agarrava-se a um poste da Light, na
Praca. Um amigo aproximou-se e aconselhou: Mas, Fulano, voc6 melado
a esta hora! Sim, mas sempre altivo.
No bar da Brahma, Jos6 Gouveia e Budio discutiam acaloradamente.
Pois, 4 isso, seu Gouveia, dou-lhe um tiro De voce, Bud;io, s6 tenho
medo das facadas. Pois, dou-lhe uma facada. De quanto?
Em face do molequismo e da traditional irreverAncia do Ceari-Mole.
que, 6 que Monsenhor Jose Quinder6 declara: 0 home que, nesta
cidade, atingir os 40 anos sem cair no ridicule 6 um home extraordi-
nArio.
0 turista que transit pela capital vi, apenas, a parte visivel da Pra
ca do Ferreira: os bancos, os jardins, a Coluna da Hora, as Arvores, as
casas, o Abrigo. A Praga, por6m, ter alma que s6 o conhecimento de sua
hist6ria revela.


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Fcd por compreender isso que alguns estudantes e caixeiros, em ou-
tubro de 1900, reunidos no Passeio Pfiblico, aventaram a id6ia de public.
cagao de uma Revista literAria, escolhendo-se o nome de Praga do Fer-
reira por ser "o ponto de convergencia da vida social, political e VIterAria
de entLo".
O primeiro nfimero da Revista circulou em novembro daqu6le ano.
'oi impressa na Tipografia do russo Chulnik. Fr7fam part do corpo re.
datorial Francisco GonCalves, Paulo de Aguiar, Odorico de Morals e Car.
los Montenegro.
Numa homenagem ao espirito da Praga, 6 que Josaphat Linhares,
Renato Braga, Eduardo Gomes de Matos e Djacir Menezes (quando vem
ao CearA) se reunem na FarmAcia Franceza, esquna das atuais ruas Ma-
jor Facundo e Guilherme Rocha. E' o chpmedo grupo de resistancia. Slo
os filt.mos abencerragens que "contemplam a invasao crescente de gente
estranha, toda futebol e lolobrigida, discutindo coisas ininteligiveis".



Um Pioneiro


Que era o comerciante no primeiro quarto do s6culo atual? Que preo-
cupacfo tinha 6le?
O comerciante, nessa 6poca, era um home de mentalidade estreita,
preocupado, exclusivamente, em vender os estoques de mercadorias e dar
a familiar o conforto compativel com suas posses. Nao tinha nenhuma
preocupacao de cunho ne6filo.
Jos6 de Oliveira R611a, entretanto, ao contrArio, tinha visgo mais
larga; pensava em terms de progress. Nao tolerava a estagnagio, nem
o estacionamento.
Naturalmente que l6e procurava manter lucrative o seu neg6cio. Usa-
va at6 mesmo de artimanhas para dar escoamento aos produtos estoca-
dos. E tipico desse procedimento os berimbaus de barrica que 61e vendeu
rsecns 5 esperteza. Contou-nos o caseo inspirado roeta que 6 o Teixeiri-
nha.
Jos6 R611a tinha uma determinada quantidade daauele artigo. Resol-
veu, entao, escoa-lo da seguinte maneira. Mandava algu6m aos estabele-
cimentos que vendiam o produto. Diariamente, naquelas casas, pessoas
indagavam se havia mmncionado artigo. Dias depois, vend.a Jos6 R11a
todos os berimbaus estocqdos.
Jos6 R611a foi um tipico comerciante da Praca do Ferreira. Possuia
a mesma alma galhofeira e pilb6rica. Sempre comercdou na Praga ou em
suas imediacges. Interessava-se por tudo que nela se passava. Assim e
que, certa vez, interfere? num despejo realizado pelo fiscal da Intend6n-
cia Municioal de name Joao Pedro da Vila Real.
O barbdro Izidro, de c6r preta, tinha barbearia em sala de proprie-
dade do Municipio. Nio pagava, por6m, os alugu6is que se atrasavam.








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O fiscal, autorizado e acompanhado do official de justica, foi despejar
0 Izidro. Jos6 R611a interveio. Reclamou contra o tratamento descortes
dispensado a um cidadio bra:'lciro Izidro sentiu-se encorajado e gritou
para Joao Pedro: Voc6 s6 me expulsa daqui depois de passar por cima
de meu cadAver! Joao Pedro olhou para os circunstantes. Fitou o bar.
beiro. Cor um brago afastou Izidro e declarou: Voce 6 besta. Voce
jA viu negro ter cadaver! E fez o despejo.
Um dos capitulos mais interessantes da Praga e aqu6le que se re-
servar A Maison Art Nouveau, Era o ponto de reuniao da rapaziada, dQ
boemios e estudantvs.
Jose R611a, para dar mais animacao, convidava as orquestras dos na-
vios aportados para tocar na "Maison". Quando coincidia com o domingo,
costumava, A noite, passear cor a orquestra no bonde Joao C6t6co, por
todas as linhas.
Fce, numa dessas noitadas, que o alemao Cristiano, violinist, tomou
u:m ganso que Ihe fez perder o navio. Jos4 R611a contratou-o para tocar
na Maison. Acompanhava Cristiano, ao piano, Pilombeta que, depois da
execu"go da pnrte, corria um pires para ajuda A orquestra.
Pilombeta nio passava de inveterado bommio. Jos4 R611a, condoido
da penuria dAle, falou cor certo engenheiro do Servigo das Obras do
P6rto, a fim de colocA-lo. No dia aprazado, Pilombeta apresentou-se ao
engenhciro que Ihe exp6s as responsabilidades do cargo. Quando con-
cluiu a exposicoo; Pilombeta formalizou-se e solicitou tres meses de Ii-
cenca, Jos6 R611a danou-se cor o bonmio.
No period da Maison, Jose R611a organizava corridas de bicicleta na
avenida 7 de Setembro.
Inaugurava Jos6 R611a o Cine Politeama na Praga, no local ocupado
pelo SAo Luis em construcao.
Nessa 6poca, a concorrAncia era grande. Havia o Rio Branco, do
Mezionn, e o Palhabote, de Jfilio Pinto. A compet;cao forgava a baixa do
preco do ingresso.
Jose R6lla, para atrair espectadores, enviava convites As families mais
importanteps. Atraia, desse modo, as mogas. Os rapazes viriam, entio, e
pagavam.
Havia na Praga um banco em que sentavam alguns senhores provec-
tos, entire os quais Jos6 de Fremtas, Rodolfo Mao de Ferro e Viriato. Jose
R611a dava-lhes entrada grAtis. Atraia, assim, as respectivas families. Aos
domingos, iam todos ao Politeama. Viriato entrava As 18 horas, na sessio
infantil e s6 saia ouando ternmnava a iltima sessAo.
FuncionPva contiguo ao cinema um bar de propriedade de Jos6 R611a
e de seu irmAo Antero. Trabalhava como garcon o Maia. No fim do dia,
MWia gabava-se de ganhar bastante. Desconfiado, Jos4 R611a advertiu An-
tero que passou a fiscalizar o garcon. Um dia, Jos6 R611a descobriu a fon-
fe de renda do Maia. Nurpa mesa em que a despesa era de 20$, Maia gri-
tava para o Caixa 16$. Fazia de ac6rdo corn o freguts que Ihe dava boa
gorgeta. Jos6 R611a, sem se alterar, chamou o garCon e disse: Olbe, Maia,








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voc6 6 muito inteligente. Nao pode mais trabalhar aqui. Aprendi mu.to
corn vock. Nao briguemos. Quando precisar, apareca. O garCon deixou o
bar e passou a vender queijo a Jos6 R611a, quc, quando o via, indagava:
Como vai, professor?
Jos6 R6lla negociou, ainda na Praga, instalando a Casa Americana,
onde havia bilhares, j6go de bicho e um velho de 6culos que decifrava so-
nhos e previa o future.
Nasceu Jos6 R11a a 12 de maio de 183 no sitio "Retiro" localizado
no municipio de Trairi. Casou-se em 4 de fevercro de 1883 cor Sremira-
mis de Oliveira R611a. Trabalhou come caixeiro logo que chegou a For-
taleza na casa de loucas do comerciante Joaquim Felicio de Olivcira Lima,
estpbelecido a rua Major Facundo, entire a S. Paulo e a Senador Alencar.
Leiloeiro, corretor, comerciante e industrial, Jos6 R611a era um es-
pirito progressista e inovador. Fc, Mle quem romeu corn a retina dos
lustres, iluminando os seus estabelcimcntos corn luz elotrica. Foi ele
quem inaugurou. antes do Estado, uma rMde particular doe esgotos, apro-
veitando certo trecho da Praga do Ferreira. Feo ele quem introduziu o
mobilibrio de cores, quebrando a monocromia do preto. Foi 6le quem
introduziu o mobiliirio de c6res, quebrando a monocroina do preto. Foi
Mel quem terminou com o predominio dos qriosques, abrindo casas mais
confortiveis para a freguer,'a. Foi 6le quem construiu o Pavilhlo AtlAn.
tico para abrigo dos que embarcavm e desembprcavam. Foi l6e quem se
adiantou no uso caseiro de ventiladoers e aparelhos de louca e de vidro.
PrivAmos da sua intimidade. Moramos na sua pr6pria casa. Traba-
!hraos no seu armazem A rua Bargo do Rio Branco. Dormimos no mes-
mo quarto em que gle dormia. Recebemos, por virios anos, eu, minha
av6 e minha tia maternas, o amparo generoso do seu coragco.
A 6sse home que, a golpes de esforCo e inteoigencia, ascendeu de
'aixi;ro a patrio, e a quem Fortaleza deve muitas inova56es, ainda nao
foi prestada a merecida homenagem.
A Praca do Ferreira ter n6le um de sous mais categorizados repre-
sentantes. 0 espirnto de Jos6 R611a 6 o mesmo que prepondera na Praca
ile possuia, em b6a dose, a filosofia do molequismo, aquela que ja tive-
mos onortrnidade de definir.
Fica, aqui, portanto, a nossa homenagem e a nossa gratidao ao ines
queeovel pioneiro.


Cafes e Boemios


1 O primeiro Caf6 que surgiu na Praga do Ferreira foi o Java, de
propriedade de Manuel Pereira dos Santos, vulgo Man6 COco. Surgiu
pouco depc;s da Aboliglo e pr6ximo da proclamaglo da Repiblica.
Durante a campanha abolicionista, no local que ficava em frente do
Java, realizavam-se comicios, fazendo-se ouvir oradores de envergadura







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do pedreiro Vilanova, 'baiano que falava mais do que Lopes Trovio".
Depcs do Java, surgiram outros caf6s, motive por que Manuel C6co
solicitou & Intendencia a construcao de uma calgada no que foi atendido.
De 1902 a 1912, os Cafes Java (terreo), do Com6rcio (sobrado), Ele
gante (sobrado) e Iracema (terreo) ocupavam os quatro cantos da Praga.
0 Cafe Iracema foi fundado por Joaquim Emidio de Castro e Silva que
tonmbm fundou a Casa Castro, da qual foi gerente Ludgero Garcia que, a
seguir, ficou cor a gerencia do Cafe Iracema, acabando por comprA-lo.
Joao Brigido combatia a existencia dos quiosques na Praga, onde
funcionavam os Cafes, alegando que ai se bebia mutto e se davam cenas
desprimorosas e deprimcntes. Sugeria a desapropriaqgo dos quiosques e
a indenizagio dos usufrutuArios. Chamava a Praca do Ferreira de Praga
Berreira.
a) Caf6 Java

Fortaleza, de 16-2-1890, diz: "EstA na ordem do dia o Caf6 Java do
Manuel Coco. JA ninguem mais frequent o Passeio Piiblico e os bondes
.ib nAo tmm o rendimento de outrora; tudo corre para o quiosque do Ma.
n6 C6co. Os engraxadores estio no quiosque. As rodas das boticas passa-
ram-se para o quiosque. Tem-se cafe. Come-se bolo. Chupa-se roletezinho
Joga-se domin6. Fala-se da vida alheia".
O program da Padaria Espiritual, amassado e assado aos 30 de mAio
de 1892, dispde: "Empregar-se-go todos os meios de compelir Man6 C6co
a terminar o servico da Avenida Ferreira".
A Padaria funcionava esporAdicamente, diz Leonardo Mota, no Cafe
Java. Nessas oca es, o dono do Cafe obsequiava os padeiros cor alua e,
as vezes, empinava enorme ballo em que se lia o distico Padaria Espiri.
tual. De fraque, sem'gravata, Mane C6co explicava que o balio, subindo,
ia dizer ao Reino da G16r.a para quanto prestava a Padaria Espiritual.
Foi, no Caf6 Java, que os padeiros, entire os quais Ulisses Bezerra,
identificaram o poeta Raimundo Correia que firmou s61ida amizade cor
a turma da Padaria.
No Cafe Java, 4 que funcionava o cinema Fantasmagorias, do frances
Villemon, que dava projeC6es gratuitas. Eram figures coloridas e m6veis
de um metro de altura.
Foi proprietArio do Caf6 Java, em outra fase, Ovidio Leopoldino que,
desejando vend&-lo, p6s um anfncio na imprensa local mais ou menos as-
rFm: Tendo de retirar-me do Estado precise de um s6cio. AquBle que se
interessar deve apresentar-se cor anteced&ncia para ter tempo de apren-
der a ciencia.

b) Caf6 do Comercio

Na primeira d4cada deste s6culo, era proprietArio do Cafe do Co-
mdrcio Jos6 Moreira. Havia um gramofone que tocava, como novidade,







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"Le Retour du Printemps". Mfrio Cesar de Sousa, mestre da banda de
mdsica do BatalhAo de Seguranca, gostou da valsa. Copiou a mfsica.
Na quinta-feira seguinte, por ccasiio da retreta, a banda executou a val-
sa. Jos6 More.ra, encolerizado, quebrou o disco.
Por ocasilo dos acontecimentos de 3 de janeiro de 1904, o Cafe trans-
formou-se num centro de agitag~o.. No interior, realizou-se verdadeiro
comicio politico, no qual foi desancado a valer o Governador do Estado
Pedro Borges. D;scursaram Godofredo Maciel, J. da Penha, Augusto
Correia Lima. Forca da Guarda Civil foi repelida a bala.
Quintino Cunha estava na sua costumeira roda academica no Caft;
por volta de 1908, quando dele se aproxima o acadnrico e telegrafista
Raul Ney da Silva que e apresentado ao poeta por MTrio Carneiro do
Reco Melo que tenta ridicularizar o conhecido boAmio. Quintino, entoe,
imnro'vsa Astes versos:

Doutor Mdrio Carneiro do Rego Melo
Eu meto no rego do Melo
E meto no Melo do Rego
Nao levo a cousa a martelo
NMi. doiu r-Ohi- m.ccrrcco.

Noutra ocasiao, Quintino ostentava no dedo um anel. AlguBm da
roda observou: Se estivesse no dedo de Jo.o TomB, seria um brilhan-
te valioso. Quint;no replicou: Se Joao Tome usasse o g6rro, seria um
Mestre Cuca.

c) Caf6 Elegante

No Cafe Elegante, funcionava a "Academia Rebarbativa" da qual fa
zia parte Gil Amora.
Na dkcada de 1890 mais ou menos ocorreu srrio conflito entire guar-
das civis e caixeiros. Augusto Correia de SA, vulgo SA Preto, Augusto
Lopes e Jos6 Leitio, caixeiros, estavam no Cafe, quando as 13 horas che.
ga o popular Aurblio de Tal bastante alcoolizado. Um guard civil deu.
]he ordem de prisao. Os caixeiros pedcram ao guard para reconsiderar
o ato, nio sendo atendidno. Dan-se, entLo, a lJut entire caixeiros e guar-
das civis. Os caixeiros levaram os guards de roldio, indo deixa-los a
port- do quartel aue ficava no local da sntiga "Rotisserie".
Ramos C6tkco estava no alto do Caf6, quando um grupo de rapazes
passava pela calcada. Ao avistar o boAmio, um dAles grtou: Corta ai
a corda dAsse cachorro. 0 boAmio retrucou logo: Corto nlo que Ale
pode morder tua m.e.

d) Cafe Riche

0 Caf6 Riche ficava na esquina das atuais ruas Major Facundo a










Guilherme Rocha (Farmicia Francesa). Constituia um centro de atragi~
da classes media.
Por ocasiao da Grande Guerra no 1, os frequentadores do Cafe se
dividiram entire partidarios dos Aliados e partidarios das potencias cen
trais ou dos alemAes. Circulava Correio do Ceard, de propriedade de A.C.
Mendes. O maquinario do journal foi adquirido na Alemanha. O novo
6rgao de imprensa formou ao lado dos Aliados. Dizia-se que Mendes to.
mou tal attitude porque ainda nao tinha acabado de pagar as mAquinas e
por tal motive desejava a derrota da Alemanha. Certo d/a, Correio do
C:earc publicou noticias sensacionais. Hindenburg teria morrido e o Es-
tado Maior Alemlo havia rido capturado. Os partidarios dos Aliados co.
mentavam otimistas, vislumbrando jA a liquidacao da Alemanha. Foi
quando chegou ao Caf6 Quintino Cunha que era german6filo. Diante d.!
noticia, o boemio entristece. Levanta-se e, em alta voz, afirma que teve
um sonho revelador daqutles acorttecimntos. Cercam Ouintino. O ins
pirado poeta prossegue. Diz que estava em Berlim. Hospedava-se na
Embaixada Brasileira. Acordou ao som de toques marciais executadoq
por orquestras que passavam na rua. Drige-se ao Embaixador brasilel-
ro ae ermanta que 6 aquilo. Hindenburg morreu, responded o diolomata.
Realizar-se-ao, boje, os funerals. Vai a janela. V6 as ruas engalanadas.
A capital alemi tinhb ar festive. Fica, entao, revoltado contra o povo
que nao respeita a morte de seu grande chefe. 0 Emb,-Ixador diz que
prccisa de scous serv',cs. Como estA quase af6nico, pede-lhe para dis-
clirsar em nome dAle. Na hora aprasada, dirige-se Quintino para o local
dos funerals. L4. encontra o caixao de HTindenburg s6bre a eca. Anun-
ciam que o Brasil vai falar em primeiro lugar. Abre-se a caixao. E dele
sai um frade que, cor os dois bracos, da uma banana e declara: Taqui
pra nctir,'a do Correio do Ceard!
Na esquina do Caf6 Riche, havia um cartaz de propaganda political
de Francisco Prado, candidate a deputado federal. Quintino aproxima-
se, 1M e diz: -- Esta ai, a egun do meu voto no corre nesse prado!
O inspirado poeta Jos6 Albano frequentava o Cafe. Certo dia, numa
roda, estavam 6le, Quintino e Pdre Quinderp. Quintino nio estavn num
dia feliz. JosA Albano, entao. diz-lhe: Quintino, ti estfs tao Testa que
acabn "or comer ssa chaneii de palha.
MAr,.o da Silveira, poeta, conversava corn Jos6 Albano. Manifestava
so entusiasta de Antero de Quental. Jos6 Albano, cor o espirito de con-
tradie5o que o caracterizavp. confess: Nao aceito Antero. Pois
nrefiro os versos dOle aos seus, replica MArio. Foi prevendo essa pre-
fer6ncia que 6le meteu uma bala na cabeca, arremata JosA Albano.
Jos6 Albano presidia a uma roda de intelectuais e frequentadores do
Cafe, entire os muais s- incluem Rodolfo Te6filo, Trinev Filho, Snlps
Campos, Cruz Filho, Mozart Pinto, Quintino Cunha, Alvaro Fernandes,
Mozart Monteiro, C16vis Montnro, MNnr"l Mont"iro. Tona.irdo MotI. An
t6nio de Castro, Gastao Justa, Joaquim Roque de Macedo, Rubens Fal-
cio, Martins Capistrano, Martinz de Aguiar, Clodoaldo Pinto, Euclides


S53










Cesar, Elias Mallmann, Moesia Rolim, Jader de Carvalho, Ant6nio Sales,
Abilio Martins, Gomes de Matos.

e) Cafe Art-Nouveau

O Cafe Art-Nouveau localizava-se na esquina das atuais ruas Major
Facundo e Guilherme Rocha, onde hoje fica.
A inauguragco do Art-Nouveau veio preencher uma sensivel lacuna
na capital cearense que, ate entAo, nao dispunha de sallo digno para
seus encontros, onde'palestrassem as pessoas de b6a sociedade, servindo-
se, ao ensejo, de sorvetes, refrigerantes, cha, caf4 e outras bebidas.
0 Art-Nouveau constituia um novo tipo de Cafe bem diferente dos
quiosques. Estabeleceu-se logo uma rivaldade entire o novo Cafe e o Ri.
che. Enquanto poucas mogas frequentavam o dltimo, o primeiro conta-
va cor a presence das principals families da terra.
Os estudantes e intelectuais, entire 1920 e 1930, transformaram o Art-
Nouveau numa arena de justas da nteligencia.
Djacir Menezes, que frequentava assiduamente o Caf6, diz-nos qu-.
naquela ppoca, no Art-Nouveau, fulgia a literaturea mordaz". "Ali Elias
Mallmann destruiu, num rapto de inspiraaio, a teoria da relatividade o
arrasou as teorias de Schwenhagen, um sabNo que apareceu afirmando as
origens fenicias do homo americanus. Ali se unificaram as tAticas de Hin-
denburg, que perdia a guerra porque nao seguira os conselhos estrategi-
cos" de seus frequentadores.
Companrciam As reur,5es A noite, no Art Nouveau, Ubatuba de Mi-
randa, Oswaldo de Aguiar, Renato Braga, Josaphat Linhares, Jader do
Carvalho, Walter Pompeu, St&nio Gomes, Mo6sia Rolim, Djacir Menezes,
Elias Mallmann, Aldo Prado, Raimundo Menezes, Renato Soldon, Filguei-
ras Tima, Socrates Gongalves e Francisco Falco.
Os estudantes admiravam a intelig.ncia de Aluisio Coimbra quo,
no dizer de Djacir Menezes, "falava, cor espontAnea flubncia, a lintuan
gem de Frei Liis de Sousa. Nunea sr'u de seus lAbios um pronome es-
tonteado nem um verbo suspeito. E o que nos assombrava: traduzia os
clfssicos latinos cor facilidade escandalosa. Duvidei, certa feita, de qu"
soubesse de c6r quase toda "Eneida". Outros duvidaram. Aluisio inda.
gou qual o livro do poema que estavam traduzindo no Licen, cor o padr-
Quinder6. Era o oitavo. Imediatamente recitou, cercado de assombr.,
quase trinta versos!"
Frequentavam a roda os drs. Tomrs Pompeu Filho e Meton de Alen-
car e os Professores Rodrigues de Andrade e Arquvas Medrado. A meia
noite, a turma in deixar em suas cases o primeiro e os dois filtimos.
Essas reunites eram fecundas, porque cada um discutia as suas le,-
turas e estudos prediletos. Assim 6 que Jader de Carvalho e Renat'
Braga ventilivam problems de georrafia humana. E Josaphat Linhares
renova.v a preocumnrcn cor os temas cociol6gicos abandonados ap6s a
morte de Soriano de Albuquerque.


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A mocddade idealista fundava o "Partido da Mocidade" que chama-
rion chamou de "Partido da Bestidade".
Nas discusses da mocidade estudantil e acad6mica, predominava no-
tfvel espirito critic. E o que peculiarizava o espirito critic "era uma
cxtraordinAria independancia", declara Djacir Menezes. E acrescentn:
"Cada um de n6s tratava, com familiariedade assombrosa, o problema mais
Iremendo e dcsrespeitava risonhamente a afirmacn o mais indi-cutivil
Nessa atmosfera, habituamo-nos As diverredades de opini5es: a luta pai-
rava no piano das id6ias; conviviam os pontos de vista mais discordant:.-
Era verdadeiramente uma educaAo democrAtica, cor base real na tr'l+.
rancra, e quanto mais se pronunciavam as divergincias, mais alto flamejava
o debate".
Foi no Art-Novvear que Leonardo Mota encontrou um amigo. Apro-
ximou-se. Amezendou-se. O amigo pediu um copo de leite. la pedir ou
tro para Leota, quando 6ste, segurando-ihe o braco, agradeceu: Nli
peca. Muito obrigado. Tenho uma vergonha...
Num ano de inverno, A noite, numa banca, beber.cavam alguns hb
mens. Chovia. Relampejava. Trovejava fortemente. Os oue bebiam is
estavam bem toldadon. Quando roncava o trovAo, Mles se levantavam de
copo na mao e gritavam: bis!
2 O Caf6 t6m sido, em todo o mundo, ponto de reunrio e de dis-
cussio. Reformas e revoluC6es, id6ias de renovaco e transformacgo,
concepg6es literArias, political e artisticas tnm surgido de mon6logos,
diAlogos e debates travados entire os que se amozendam. Eis por que a
vida de Cafe, na sua dispersio, ter oferecido certa fecundidade.
Antes da Mndustrializacgo e da intense urbanizaCAo, em todo o mun-
do, o Cafa conqregou intelectuais e bogmios que al procuravdam matar o
tempo, impelidos pelo senso de sociabilidade.
Anedotas epigramns, boutades, ditos picantes, repentes jocosos, so-
netos e quadras imortais nasceram no bulicio dos Caf6s, entire gestos, ba.
foradas e tragos.
Escolas lWterArias e partidos politicos t&m elegido os seus Caf6s Cue
se transmudam em trincheiras, onde as ideias novas travam tremendas
batalhas com as id6ias velhas.
Seguindo a regra geral, a capital cearense teve, tamb6m, os sPus
Caf6s, onde o espirito do molequismo eclodiu em espocantes manifesta-
cocs de bom humor.
Rabelais zombava de tudo, menos da filosof.a, diz Ramalho Ortigio,
porque antev6 nos triunfos da ciAncia o future resgate do home, pres-
sente um mundo novo.
O espirito do molequismo cearense 6 rabelaisiano.
3 A bogmia t6m sido um fen6meno universal. O Brasil nio
poderia deixar de apresentar os seus bo6mios.
A fauna ultra-utilithria dos nossos dias inquire surpreendida diante
de certos stores intelectuais do filtimo quartel do s6culo XIX e prin-
cilio do seculo XX: Pnr que os boemios nio souberam aproveltar os






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magnificos dons, a privilegiada inteligencia, gastando tudo em noitadas
de orgia e em fogos de bengala de duelos verbais?
De inicio, devemos afirmar que a boemia 6 fruto de uma 6poca
que passou. Ha uma identidade perfeita entire as suas dissipa5es e fo-
gos de artificio e o espirito de seu tempo. Por fsse motive, ela nio 6,
epenas, "uma feigco transit6ria da mocNdade, um vicio intermitente", co-
mo pensa Joho do Rio.
A boemia quase chega a uma instituicto no fim do Segundo Reina-
do. E se assim ocorreu 6 porque o permitiram as condiC5es econ6rnrcas,
facilitando o parasitismo risonho. Nao podemos, portanto, atribuir a vida
desregrada do artist bo6mio a mera sobrevi?.vncia do romantismo, nem
a simples exigencies temperamentais, cEmo pareceu a Lima Barreto.
A boemia de Ney, Guifma, Z6 do Pato, Pardal Mallet, Bilac, Emilio
de Menezes e tantos outros s6 podia vicejar mesmo noa uadra em qou
floriu. Era a geracgo fcm do s6culo, fim do regime.
Ningu6m ainda esbogou um estudo interpretative da boemia brasilei-
ra, de suas raizes e influ6ncias, de sua profundidade na nossa vida li-
tero-artistica.
A classes romdntica dos bonrros, contra a qual tanto se revoltou o
met6dico Silvio. Romero, procurava reagir contra o meio versejando e
bebericando. Alguns deles, a exemplo do dostoieviskiano Marmeladorff,
bebiani para sofrer duplamente. Mesmo assim, por6m, possuiam um c6-
digo de honra e estabeleciam uma gradacgo moral no ato de bebemorar.
Esses "folhetinistas orais que tinham por rodap6s os Caf6s", agiam,
assim, numa edonomia de forCas, numa singular reagvo de defesa.
"Fulmin.ndo a imbecilidade pretensiosa", "espantalho da burguesia
farta", o boAmio achava que a cachaca nlo estragava a literature nacio-
nal. Daf a nonchalance, a aus&ncia da vaidade brummeMana no trajar, a
conversfo dos "relaxamentos boemios em norma acintosa de vida". Lima
Barreto declarava: Nao se incomodem com o seu esbodegado vestubrio,
porque &le 4 a minha elegAncia e a minha p6se.
"A mediocridade 6 s6ria; a inteligencia 6 rebelde, escandalosa e
zomba do burgues". Deparamos, por isso, cor o humor, a ironia, o epi
grama do boemio. HA, por6m, l4grimas nas casquinadas dresses invetera-
dos blagueurs. As piadas, repentes e bolitades constituem o seu derivati-
vo, a sua vAlvula de seguranca. Sio descargas e sublimac6es de um eu
muitas vezes atormentado. De qualquer maneira, "o riso era o claim
cor que saiam a peleiar".
No ciclo da boemia, ha um pouco da irrequietude do mulato, do
mestico.
Paula Ney, filho de uma area nordestina, transplantado oara outrPs
parancas. procurava veneer a nostalgia por meio da pilh4ria, da verve
esfusiante.
0 mestico bo8mlo respeitava as regras gramaticais, indo, assim, alem
do chiste e do mot d'esprit. Manifestava o secret desejo de falar a me-
Ihor lingua do branch. Revoltava-se contra a "democracia lexicografica".







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Considerava incompativel a coexist6ncia, a perfeita camaradagem dos vo-
chbulos amerindios, brancos e africanos.
Findou o ciclo da boemia. Foram os bo8mios "expirando como as lu-
zes solitArias da noite na difusAo dos raios tremulos dos primeiros mo-
mentos da alvorada".
Mas que saldo.positivo deixou a bo6mia? No nosso modo de pensar,
quase nenhum, pois os folhetins orais se perderam, recolhendo-se pouca
cousa, gracas a tradivgo oral e ao esforco de alguns pesquisadores. O in-
fluxo do bhnmio reside na posielo quase filos6fica diante da vida. Foi
o ar de despreocupacAo, a alegria de viver sem a responsalblidade dos
compromissos e.a lei do menor esf6rCo na luta pela vida que passaram
a posteridade e despertaram o entusiasmo. A indisciplina, a independnn-
cia quase selvagem, certo quixo*'smo e a ausfncia de escola e de cino-
nos constituem outras contribuic6es.
Na bo4min, hA uma forte dose de hedonismo, de fAcil g6zo da vida,
de apressado usufruto das boas cousas da existencia. HA, tamb6m, um
pavor da mirt- que o boAmio tenta ocultar ou disfarcar.
A psicologqia do bo8mio 6 a do n6made, do home que trocou a se-
dentariedade pela aventura. Mesmo quando nlo se desloca no espago as
suas deambulac6es espirituais, as suas inquietaC6es e fantasias o incom-
patibilizom cor a aceitadco de determinados valores. A exacerbac5o do
complex de inferioridade pode levar o boAmio at6 a uma auto-sufician-
cia.
A nossa admiracgo pelo bo6mio nao se explica tfo sbmente pela
consapracdo da lei do menor esf6rco na conquista do pao quotidiano.
ProvEm, tamb6m, de nosso temperament de povo jovem e impetuoso.
E' sin-l de vitalidade e saide esrpritual, pois prova aue nao nos deixn-
mos Absorver pelo materialismo vulgar, pela fome sagrada do ouro.
Mesmo que muita riqueza se tenha perdido, esbanjada por esses per-
dul5rins +T? pi-da,, mesmo que nIo tenham deixado obras duradouras,
os bor-mios concorreram para a valorizacgo das cousas da inteligencia.
O burgues, o filisteu, passou a temer o home de espirito. M ndo d in
tanto das facrcdo-, mas principalmente dos ditos ir6nicos e dos trocadi-
Ihos desconcertantes.
HA urnm bonmia que Jackson de Figu-,redo denomina a qc'arta di-
mensao da existAncia spiritual e a sombra tenuissima do divino que
envolve tudo. LUon Bloy considera-n i'mr maneira de rezar. Essa, po-
rtm, nio 6 o tipo predominante entire n6s e que constitui o objeto do
Dresente estudo.
4 Em 7-8-1955, o matutino Unitdrio comentava o fechamento do
Cafe Globo. 0 comentarista lamentava que desaparecessem os Caf6s da
Praca do Ferreira. A exemplo do que ocorre nos grandes centros ur-
banos, o cafe 6 bebido em pn, ao inv6s de sentado. Nao hA mais tempo
para bate-papo. Hoje, quem quiser beber cafe na Praca tern que ir ao
"Abrigo Central".






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Bancos da Opiniao Publica

Monsenhor Jose Quindere atribvN a seu irmrio JoAo QuinderB a fun.
dagAo do "Banco da Opiniao Pfiblica" que estA colocado bem em frente
da atual FarmAcia Pasteur.
Isso se deu por volta de 1917 logo ap6s a inauguragao do Cine Ma-
jestic. Quinder6 era s6cio-gerente do Bar que a Empresa Severiano
Ribeiro constrrtu ao lado daquela casa de diversAo.
Joao Quinder6 tinha o hAbito de deixar, por uns instantes, os afaze-
res do bar e ir espairecer um pouco no banco da Praca. Nessa ocasilo,
era cercado de amigos que se sentavam a seu lado. No meio da maior
animagco, retornava Quinder6 ao bar. A turma acompanhava e se espa-
Ihava pelas mesas a fim de faxiar o bico.
Quinder6 compreendeu as vantagens de suas idas ao banco, pois se
transformava nlo s6 em distracio mas tamb6m em bom neg6cio.
Depois, o banco passou a ser frequentado por outras pessoas, algu-
mas delas de largo prestigio social e politico. Transformou-se, entio, no
quartel-general do bate-papo de invar/,Aveis frequentadores que comen-
tavam tudo o que ocorria na cidade, desde o escandalo dombstico ate a
intriga political.
Em 1926, na administration do prefeito Godofredo Maciel, o banco
passou por uma reform. Foi lavrada ata que recebeu as assinaturas do
eel. Antnin" -!,n JorP, Morpira da Rocha, Monsenhor Jos6 Quinder6,
R. Ramos, Mkton de Alencar, Tibircio Targino, tenente Emidio Guerrei-
ro, tabelilo Antonio Botelho Filho a farmaceuticos Luis Carlos e Luis
Caracas.
Depois, foram surgindo outros frequentadores entre os quais De-
m6crito Rocbn, Joe NowTogira, Soar.s Bulcio e Jorge Fiuza.
Em 1926, por ocasiao da inauguragao do banco, cor a ata foram
depositados na peque.na urna de mddeira os jornais do dia, coupons da
Light e moedas.
A 29 de dezembro de 1941, nor ordem do Prefeito, foi o banco ar-
rancado. Entrou cm j6go, norm, a influincia dos frequentadores e o
banco foi recolocado.
Frequentaram o banco, na primera fas, Vicente de Castro, Guilher
me Moreira, Carlos Miranda, Eugnnio Gadelha, Jolo Mac Dowell, Adolfo
Siqueira, Francisco Holanda, Raimundo Cicero e Benjamim Torres.
Chegou a frequentar o banco o poeta Jos6 Albano que, na informa-
cio de Ubatuba de Miranda, se apresentava sempre de fraque e mon6-
culo e falando cor sotaque lisboeta.
Conta-se que. durante certa administracao estadual, o banco ataca-
va fortemente o Governo. O Chefe de Policza resolve, entio, destacar
um secret para averiguar. Ap6s uma semana de escuta e observacAo,
o secret foi levado A presenga do Chefe de Policia e declarou: Sr.
Chefe, nio ouvi ningubm atacar o Governo. S6 ouvi imoralidade.









Ate 1949 o banco teve aumentada consideravelmente a frequencia,
passando a ser uma instituigio respeitivel. Surgiram outros fre-
quentadores tais como JoAo de Almeida, Marinho de Andrade, Luis Viei.
ra, Antonio Ferreira Braga, Afonso Medeiros, Jos6 Bento, Emilio Si.
Alfredo Lopes, Eurico Tem6teo, Ant6nGo Furtado, Jacinto Botelho, capi-
tao Jos6 Rodrigues e Paulo Caminha.
Nessa 6poca, "as rolinhas desciam das Arvores, sem m&do... Alguns
lovavam um pouco de alpisto e soltavam em t6rno do banco".
Aos sAbados, era corrido um tronco de beneficncia que revertia pa-
ra os pobres que costumavam aparecer no local.
Nessa fase, a animada reuniio era conhecida como a banco dos velhbo.
Quando a Santa Casa de Miseric6rdia esteve em s6rias dificuldades fi-
nanceiras, os frequentadores do banco contribuiam cor vultosa impor-
tancia, numa prova de altruismo.
Aimbere, locutor da BBC, ao passar por Fortaleza, esteve no banco,
:ifirmando, posteriormente, que obteve, na palestra com seus frequenta-
dores, 6timas informagbes da vida e costumes do CearA.
Nho se tolerava que o banco fosse ocupado por estranhos. Quando isso
ocorrda, alguem dizia: Voces sabem de uma cousa: chegou uma ba
leia na Praia do Iracema.
Na Praga, ha outros bancos nio tao famosos, mas que contam, diA
riamente, cor a presenga dos mesmos frequentadores.
Assim 6 que Ant6nio Botelho Filho, Stenio Gomes, Ant6nio Gomes
de Freitas, Porfirio Maia, Tancredo Bezerra, Celso Coelho de Aralijo,
Jorge Bonfim, Alfredo Viana, Ram.r Valente, Castro Meireles, Jose Gon-
dim Chaves reunem-se todas as noites no banco que recebeu o nome
de "Nosso Banco".
Quando Stenio Gomes assumiu o Governo do Estado, os companhei-
ros de "Nosso Banco" ofereceram-lhe um jantar no Clube Iracema, fa-
zendo-se ouvir alguns oradores, cujos discursos foram pontilhados de
chistes.
Antes de Stenio Gomes, Beni Carvalho, quando ocupava a Interven-
toria do Estado, costumava sentar-se num dos bancos da Praca.
NInguem ficava surpreendido cor tal procedimento. Achava-se cousa
natural, embora a oposig5o visse nisso uma caga a popularidade.
Certa vez, Justiniano de Serpa, falando sobre a psicologia do cearen-
se, observou que Aste t6m a tendencia de tudo nivelar. Saia Ale de uma
casa de diversio. Havia muita gente. Algu6m do sequito gritou para
o povo se afastar. Um popular, entlo, responded: O Presidente 6
home como outro qualquer!
Foi na administravgo de Guilherme Rocha que se inauguraram os
bancoS da Prafa. Educado na Franca. quando via Ale alguem cor os p6s
nos bencos se a)roximava, tirava o Icnco perfumado e dizia: Cava-
lhe~ro, por ob6quio deixe-me colocar o lengo para o sr. pisar.
Os frequentadores dos banoos cgo ciumentos. Revoltam-se intima-
mente quando, A noite, estranhos niles se sentam.


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Alm 'do banco dos velhos e do nosso banco, ha o banco presidido
por Irineu Filho, inspirado poeta satirico, e frequentado por Clodoaldo
Pinto, Fidelis Silva, Sebast4io Arruda, A. Batista Fontenele e Joao Cam.
pos. HA, ainda, o banco dos telegrafistas frequentado por Josaphat Li-
nhares, F. Fernando, Artur Moura, Pedro Ivo Galvdo, Jos6 Alves de
Abreu, Joaquim Arist6teles da Silva, Paulo Medeiros, Joao Ten6rio de
Assis, Jos6 MagalhAes, Joao Francisco do Nasc.mento, Vicente Gomes
Figueiredo, Bernardino ProenCa Filho, Marino de Andrade Maia e Adal-
berto Domingues Carneiro. Em todos asses bancos, surgem constan-
temente casos ridentes.
Assim 6 que Irineu Filho, certa note, estava sentado em seu banco
na Praga em companhia de Kerginaldo Cavalcante, Elias de Oliveira e
outros. Nessa ocasigo, passaram duas mogas mui espevitadas. Elias in-
dagou: Sao f&meas? Irineu responded Sao. Elias seguiu as mocas.
Em certo ponto, Elias dirigiu galanteio as moCas que reagiram, provo-
cando escAndalo e fazendo o galanteador retroceder. Retornando ao ban-
co, reclamou de Irineu: Mas, seu Irineu, voce dizer que eram. f6meas.
Quase fui preso. E sao machos? pergunta Irineu.
Alguem que estava amando e desejava dar present A namorada, pe-
diu a Irineu para Andicar um bom livro. Irineu recomendou o "Livro de
Alda", de Abel Botelho. Dias depois, o frequentador apaixonado aparece
cor ar triste e dirige-se a Irineu: Mas, Irineu, como 6 que voce foi
indicar aquele livro?! A pequena zangou-se e acabou o namoro.
Num dos bancos da Praga, discutia-se a letra dos hinos de various
praises Estava present um sirio que foi solicitado a dizer a letra do
hino de seu pais. Alguem, por6m, antecipou-se, cantando corn voz mo-
derada: Rato, rato, rato, por quo motivo tfi roeste meu bad;..
JoAo Quinder6 estava sentado no banco em companhia de amigos,
quando se aproxima uma cigana, oferecendo-se para ler a mao dos pre-
sentes. Quindere disse que s6 pagaria se a cigana Ihe fechasse o corpo,
compromisso que a improvisada quiromante assume. A cigana faz um
passe mAgico. Quinder6 ouve a leitura da mao e indaga se estA corn o
corpo fechado, ao que a cigana responded afirmativamente. Quinderb, de.
ructa, retrucando: Nao. Tem um buraquinho. NAo posso pagar.
Os bancos da Praca constituem o term6metro a acusar a temperature
political e econ6mica da capital e do Estado. Sens6rio da urbs, registram
todas as sensaoges do corpo social.
Os bancos realizam, diuturnamente, uma obra de desmascaramento
sistematico. Os santarries, os sabidies, os filantropos de fachada, todos
sao analisados friamente pelos frequentadores dos banco que nio respel-
tam, tamb6m, os salvadores da pAtria nem os defensores dos sagrados prin-
cipios da moral crista.
A Praga desenvolve o espirito micro-grupal. Cada banco 6 um micro-
grupo. No exame dos problems, dos fatos, dos boatos e do diz-que-diz,
ha mesmo uma esp6cie de team-work em que cada um participa do es-









clarecimento cor a sua parcela de conhecimento, de experi6ncia ou de
maledicencia.
O compromisso de cada frequentador da Praca cor o seu banco re-
vela uma spenceriana passage do egoismo para o altruismo. 0 home
nho foge de casa. Vai ao banco ventilar problems de ordem municipal,
estadual ou national.
Os bancos c6ticos e pirr6nicos, maledicentes e enxeridos tem os
seus moments de irrefreavel impetuosidade romantica. Alm de duvi-
dar, retalhar e intrometer-se, sfo capazes, tamb6m, de vibrar, de desfral.
dar uma bandeira. Nlo sIo s6 apupo e vaia, mas, tamb4m, o merecido
aplauso, a just consagragio da ideia e do idealista.
Os bancos provam que ha uma disposicgo temperamental do cearen-
se para a galhofa.
Recuando no tempo, quando poderemos tomar conhecimento da
primeira manifesta-lo reveladora do Ceara-Moleque?
As nossas pesquisas nao conseguiram descobrir uma figure repre-
sentativa do Ceara-Moleque anterior a Fagundes, que Araripe Jdnior
consagrou em romance hist6rico verdadeiramente cearense.
A sombra do frondbso cajueiro, o aracatiense catana desempenhou
aquela funcAo que s6culo depois seria exercida pelos bancos da Praga.
Que fazia Fagundes? Tinha o hANto de sentar-se A sombra do cajuei-
ro e comentar os acontecimentos do dia. Nativista, sentindo a f6rga da
terra, era natural que a sua tesoura cortasse de prefer&ncia a fazenda
lusitana.
Na reuniao sob a copa da benfazeja Arvore tropical, s6 tomavam
part mesticos que nIo poupavam os marinheiros.
A primeira afirmacio do Ceard Moleque 4, portanto, de nativismo,
de anti-nacionalismo.
Qiie arma usou Fagundes para critical a autoridade rednol? A lin
gua, a palavra, instrument terrivelmente cortante, que Mle utilizou de
modo tio hAbil que mobilizou a populagIo mestica do pequeno burgo
contra o governador luso.
Esgrimir-a palavra como florete, jogA-la cor a desenvoltura do espa.
dncm,. els a pericia conquistada por Fagundes e que Mle legou a seus
continuadores.
Nos bancos da Praca, ha Fagundes letrados e iletrados que prefe
rem perder amigos a perder chances de pilheriar, de fazer trocadilhos.
Fagundes de viva imagina~io, ssmpre criando situacies pandegas. Fa
gind~e"' v sF" vini'm don adversarios, r'dicularizando-os.
Joauim Pimenta, recordando os seus tempos de estudante, evoca:
"Na Praca do Ferreira, quando nos reuniamos, tudo se discutia, des-
do a rolocac~o de pronomes, muito em voga por influencia de CAndido
de Figueiredo, atW politca e religigo. Neste iltimo terreno era eu quem
provocava os debates. Expunha cor veemencia as minhas iddias, citando
doutores da Igreja, oradores sacros, apologistas famosos; criticando Dar-
vin, Spencer, Haeckol, com arguments colhidos na seara do catolicis-







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mo militant. Um ou outro colega divergia, retrucando ou ridicularizan-
do os meus assertos. Replicava-lhes ainda mais veemente, avnda mais
inabalAvel nas minhas convicg6es. Tio frequentes e encarnicados se tor.
navam tais debates, que, mal me avistavam no dia seguinte, af excla-
mando em tom de gracejo:
LA vem o Te6logo!
Longe de ofender-me, eu me sentia, no intimo e cor orgulho, um
embriao de Santo Agostinho, animado do espirito batalhador de InAcio
de Loiola".
Pouco tempo depois, na mesma Praca do Ferreira, nascia a revistn
Fortaleza, iniciativa de um grupo constituido por mim, Raul Uch6a, MA-
rio T;nhares, Genuino de Castro e Jaime de Alencar, e, a seguir, ainda
na velha Praca, O Denolidor, fundado pelo jA ex-te6logo, per Adonias
Lima e outros colegas, e ainda 0 Reaenerador socialistt) 6ste de um
cncontro aue tivemos, eu e Moacir Caminha, ou por outra, foi um da-
queles bancos, que nao mais existem, a pr6pria redacgo do journal, que
morreu no primeiro ndmero".
A escritora Alba Valdez, em "capitulo inicial de um romance em
nrennro" e que ainda nao foi concluido, refere-se so "hist6rico Banco, a
fpnom'na1l ,nstituicAo da Praca do Ferreira, A qual nao escapam os me-
nnres acontecimentos da vrbz, pret6ritos, presents e porvindouros".
Lelando Sa, Filgueiras Lima, Luis Abner Moreira, -Tos6 Arimnti-
Pinto do Carmo, Walder Sa,.Amadeu Sa fundaram, na Praca, o journal
"Os Novos", por volta de 1925. Os gazeteiros gritavam Os Ovos. Houve
tenthtiva no sentdo de mudar o nome do journal.
Carvalho Nogueira afirma que "das palestras mantidas cor os ama-
dores, a mais das vezes na Coluna da Hora, na Praca do Ferreira, tenho
t;radro mnitas conclusies, s6bre o teatro cearense". Nesse local, reu-
niam-se os revoluciondrios da Academia dos Novos, por volta de 1954.
Era um perigo passar A noite pela PraCa sem manter certa digni-
dade. Assim 6 que o desembargador Pedro Paulo da Silva Moura atra-
vessava a PraCa. Os bancos estavam em pleno funcionmento. Num dedo
moment. o magistrado para e come. a fazer a limpeza das narinas com
um lenqo. De um dos bancos partiu o grito: Tira o dedo da venta. 0
desembargador olhou assustado e replicou: Canalhas!
Duas mocas conversavam na Praga, quando de um dos bancos se lI-
vantou um vclho cor ares donjuanescos e falou em particular cor uma
delas. A moca, entro. disse A comnanhera que o velho qtueria conquisti-
ha: A amiga soltou "ma risada e disse: Aquele, minha filha, nfo le.
vanta mais nem false.
Quando PlAcido Carvalh6 colocou, no alto de sua casa de com6rcio
:i rua Maior Facundo n estSAtua de Merclirio que tinha os msmilos mais
desenvoli'dos, dois carr'toirns, certa tarde, comentavam num dos ban-
cos de onde divisavam a estitua.. Um dAles falou: --.T7o dizendo C1ei
aquela est-tua 6 de um tal de Mercuro. O outro observou: Acho qua
nIo, Mercuro nio p6de vir e mandou a muW6.







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Num dos bancos, frequentador assiduo embriagado pronunciava no-
mes feios contra outro. Num dado moment, fez uma pausa e perguntou:
- Fulano, eu jA disse tudo? Olhe, eu nao quero cair em falta.
Peregrino Montenegro pede ao coronel Botelho para apresenta-lo a
Francisco Bezerra, coletor federal de Quixada. E' feita a apresentagio.
Conversam os dois. Pouco depois, Peregrino chama o coronel e pede:
Agora, me desapresente.
Walter- Pompeu doutrinava. Explicava as vantagens do regime co-
munista. O esculApio, que o ouvia atento, observa: Seu Walter, o co.
munismo devia permitir a cada um o direito de conservar a sua fortune
dcsds que nAo ultrapassasse 250 contos de reis. Poucos anos depois,
regressando Walter ao CearA, encontra-se, na Praga, corn o esculapio.
A conversacao gira em t6rno do comunismo. Walter explica as vantagenq
do regime. O outro ouve com atenc.o. declarando num dado moment:
- Seu Walter, o comunismo devia nermitir a cada um o dr'Mito de con-
servar a sua fortune desde que nao ultrapassasse de 500 contos de r4is.


Tios Po-ilres P -"'i?1

1 Cada povo ter a sua filosofia de vida. Por que o cearense nao
teria a sua? E por que a filosofia de vida do cearense nio seria o mo-
leqvismo?
Nio ha ddvida que, para isso, teriamos que reabilitar o termo.
Moleque, na acepg5o filos6fica, nao seria mais o sujeito atrevidamen-
te desobediente as trivie.s regras da civilidade e que pratica irreverentes
atos, quebrando, escandalosamente, as tibuas das convengBes socials.
Moleque passaria a ser o individuo que zomba do destino; que nao
gosta ou que perde o respeito em face de quem tenta ilaquiar-lhe a b6a
f6 ou faz&-lo de paspalhlo; que nao teme a desgraga; que enfrenta as pio-
res ituacges cor um sorriso nos lAbios; que, ao inv6s de procurar muros
de 1nmentac5es para chorar as suas desgracas, procura esquec-las vaian-
do as debilidades alheias; que usa o apupo como protest ou como descar-
ga do tenslo.
HA, no m-lequrimo, dois elements: um positive e outro negative.
O element negative 6 agribtimico e caracteriza-se pela crueldade,
pelo sadismo. De tanto nao ter pena de si mesmo em face da sina ou
da sorte, o home acaba por n5o ter comiseragio para cor o semelhan-
t". Da tanto testemunhar a pr6pria dor, o home passa a observer a
dor alheia e a descobrir facetas c6micas. Enquanto cascalha diante da
n'rseria do pr6ximo, esquece a pr6pria desventura.
Sob 6sse Angulo, o molequismo e uma tecnica de transferencia. I'
transfer psicanalitico.
A Praga do Ferreira, por meio dos tipos populares, vem ajudando o
moleque cearense a realizar transferencia.
Levando em conta, apenas, o element negative, o molequismo teria







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como principio cardial o seguinte: Quem nao ter pena de si mesmo,
quem zomba da pr6pria dor, ter o direito de nfo se condoer do sofri.
mento alheio.
O element positive do molequismo 6 aquele em que o home en-
frenta o destino fazendo humor. E' aqu6le em que o home faz tudo
para nao passar por palerma. E' aqu6le em que o home parece mais
um c6tico do que um crBdulo.
Nesse element positive, ha, portanto, capacidade de resist6ncia A
dor, boa dose de ceticismo, exagerada nocdo de ridicule.
O molequismo 6 uma filosofia de vida forjada em plena luta numa
area de s6ca e de fome e, consequentemente, de dura competic7o. Cons.
titui a resultante do aperfeiCoamento adaptativo da inteligencia do cea-
rense As condiC5es de luta pela vida no meio em que vive.
E' uma filosofia de vida de mesticos que mandaram as favas as re-
gras de bor tom tipicas da civilizaCio ocidental e erigiram o molequismo
em sistema, em conjunto de id6ias e attitudes sancionadas pelo cnsenso
popular.
O Ceara Moleque 6 o Ceara mestico. Se o branco, se o home da
boa sociedade, deseja afirmar as boas maneiras peculiares a civilizaca-I
europ6ia, o moreno, o home que nio pertence A gene bem, senate dia-
b6lico prazer em 7.bertar-se das amarras das convenc5es socials.
Os elements geradores do molequismo nio permitem que o humor
dele resultante tenha o sabor do humor carioca. 0 moleque pertence a
uma Area de s6ca e de fome. O seu humor, por isso, jA se reveste de al-
go patol6gico. O carioca, nao. 0 humorismo carioca 6 o do boa vida que
quer desopilar. NAo ha amargura nas transferAncias analiticas.
AliAs, sob 6sse prisma, o Rio 6 um centro irradiador de gostosas ane-
dotas, uma fonte de abastecimento de piadas jocosas, um reposit6rio ines-
gotavel de trocadilhos picantes.
A visit do General Craveiro Lopes ao Brasil, al6m de dar oportuni-
dade As declaracSes de amor de pai e filho, permitiu a renovagIo dos
estoques de anedotas em que o portuga 6 a personagem central. E 6 do
Rio, do humor carioca, de onde saem para o resto do pals, numa exporta-
Cgo ridente, os frutos opimos da verve e da imaginacao que constituem
o mais eficiente e national tratamento hepitico.
No humor do moleque cearense, hA gritos de revolta, lagrimas ances-
trais, vociferac5es sublimadas.
O molequismo, entretanto, pode transformar-se na nossa filosofia de
vida, desde que sofra a ablaclo de seu element negative. Ai entlo, o
molequismo serm a filosofia de vida de um povo forte que aprendeu sA-
bias M ces na escola da dor plurissecular.
Saibamos, portanto, ser moleques, positivamente moleques.
2 A Praca do Ferreira s6de do Cearf-Moleque vem sendo,
atrav6s do tempo, o palco onde se apresentam e se consagram os tipos
populares de Fortaleza. Dementes, maniacos, paranoicos, psicopatas de







65 -
todos os.graus, passaram pela Praga e os mais expressivos deixaram seu
nome que se perpetua em artigos de journal, em livros de cr6nicas e, aci-
ma de tudo, na tradicgo oral, nas hist6rias ridentes ou dolorosas que pas-
sam de geragAo a geragco.
Nao se pode estudar a Praga, nem the escrever a hist6ria, sem que
se evoquem as figures que ela consagrou em continues explorag6es e
transfer6ncias de seus frequentadores. Essas figures, grotescas umas e
disgenicas quase todas, constituem o alvo predileto dos que precisam des-
carregar tenses. E' nelas que se ter cevado o molequismo Avido de vf-
timas, sequiosode escindalos e faminto de dissemetrias hilariantes.
Ora, a loucura, em qualquer de suas modalidades nao furiosas, re-
presenta a mat6ria prima ideal para a fabricaggo de casquinadas. E' essa
a inddstria dos que nao tem o sentiment da caridade cristl, do amor
ao pr6ximo.
Ora, o molequismo, sob certo angulo, ji 6 fruto da falta de caridade.
Quem ter pena do moleque, daquele que zomba da dor alheia? Quem se
apieda do seu sofrimento?
0 moleque quer esquecer, quer distrair-se, quer esconder a lfgrima
na cascalhada, quer diluir o pranto na gargalhada. Eis por que se es.
gargalha de modo estridente, parecendo ao ouvinte arguto que Ale esta
mais se vingando do que se divertindo.
O tipo popular, pelas excentricidades oriundas da anormalidade psi-
quica, 6 uma diversio barata ao alcance de todos. Para gozar cor a sua
presence, para desopilar o figado, basta nio ter piedade, ser insensivel.
0 psicopata, por sua vez, sentindo-se o ponto de converg6ncia das
atencves; passa a considerar a Praga o ambiente ideal para as suas deam-
bulac6es. Ela se torna, assim, o seu audit6rio, a sua plati6a.
Eles vAo surgindo e a Praca vai descobrindo o calcanhar de Aquiles
de cada ur. Descoberto o ponto fraco, a ofensiva 6 incessante. Cresce o
anedotArio, o volume de repentes, de piadas, em prosa e em verso. E' es.
sa a. literature da Praca, cujas peas mais ber feitas sgo transmitidas de
b6ca em b6ca.
Opera-se, dAsse modo, uma seleCio de cunho ridente ao g6sto da
Praca. A tradicio oral s6 perpetual aquilo que passou pelo serviCo de pe-
neiramento. O joio, o que nlo presta represent o enorme refuge que se
perdeu no perpassar do tempo, imenso coveiro que tudo enterra.
Jos6 Tertuliano, Cavalo do Cgo, CapitIo Piraruci, Casaca de Urubi,
Jos6 Levi, Maxixe, Piloia, Romlo, Juca Gouveia, Jararaca, Chaga dos Car-
neiros, De Rancho, Tostao, Papagaio, Mimosa, Siri, Garapa, Bode 16i6
desfilaram pela Praca em 6pocas diferentes.
Cada um deles deixou os rastros de sua passage marcados em pro-
sa e verso nos epis6dios humoristicos que ainda hoje slo relembrados na
Praca con snudade relos mais velhos.
Mimosa a Noiva do Tempo convenceu-se de que havia herdado
grande fortuna. Vvvia nos Bancos A procura de heranca.
De Rancho enlouqueceu ao tempo da la. Grande Guerra. Usava um
eacete, imitando a metralhadora. Depois de metralhar os transeuntes, di.







66 -
zia satisfeito cor a vit6ria: 400 milh6es de mortos. E cantava:

Made ndo chore
Que a guerra ndo vem ca.

E concluia: ..

Negra danada td hoje dorme s6
Ti tens as unhas grandes, vai rasgar o meu leng6.

Jos6 Tertuliano era um. pequeno comerciante que de tanto vender
f,:ado, acabou arruinado. Glauco Torres conta-nos que "certo dia, como
a gaita apertasse, Tertuliano envia carta desaforada ao Governador, co-
brando as dividas. Como resposta, apareceu uma tropa de pelegos da
Policia, empunhando seus famosos rabos de galo. Fechou o tempo. Ter-
tuliano, dentro da bodega, defende-se como um leeo. Nao ficou uma s6
garrafa intacta nas prateleiras. Finalmente dominado, Tertuliano, sem
bodega, sem dinheiro, inerme, ainda recebe uma das maiores surras jA
aplicadas pela Policia em um cidadio. Desde Asse dia, perturbado nas
faculdades mentais, saiu pela rua prgeando serm6es. Todos os dias po-
dia ser visto o Tertuliano no patamar da Se, horas perdidas, bracos aber-
tos, dentro de um carrisolao branco, balbuciando palavras ininteligiveis
diante do velho Cruzeiro".
Cajui era de perto minfsculo. Certa vez, precisava acender ur ci-
garro e nio tinha f6sforo. Encontra-se cor Saunders, estrangeiro muito
alto, que Ihe acende o cigarro num combustor de iluminagio pfblica.
Cajui agradece e oferece os pr6stimos: Se vocA precisar de alguma
cousa anoi por baixo, e s6 dizer.
Casaca de Urubi usava palit6 preto bem comprido e cartola preta.
Era de juma normal persist&ncia, motivo por que o contratavam para co-
brar dividas. Assirm que, um dia, o incumbiram de receber certa dfvjda.
Em nagamrnto dos services, teria 50%. Casaca de Urub6 entrou em acio.
Dia e note, aborreceu o devedor cor o aedido de cobranca. O devedor,
nara se ver livre dele, pagou a metade. De posse dos cobres, o alucinado
cobrador foi ao credor e explicou: Olhe aqvw, jA recebi a minha meta-
de. Voc., aeora, node tratar de receber a sua.
Siri constituia o alvo das pilh6rias da meninada solta e desenfrea-
da. Depois de revidar os gracejos cor os maiores nomes feios, silenciava
um moment como a se lembrar de mais e como nenhum outro Ihe ocor
resse, dizia: Meu Deus, eu que sabia de tanto nome feio... Certo jor-
nal da capital cearense foJ apelidado de Sirl em virtude dos virulentos
ataques aos adversArios.
Chagas dos Carneiros tocava flauta do taboca e acompanhava Mle
mesmo cor um cacete que atritava no chAo. Usava um cimisolao por ci
ma da ceroula. Seguiam-no, invariavelmente, quatro carnelroc'.
Tostlo era um onanista inveterado. Vivia a pedir tostgo. Versejava.
Airibuem-se 9 Ale as seguintes quadra-









0 Francisquinho Vilefa
Da Cdmara Municipal
Cor sua cara amarea
Deu na mno do Menescal

Estudo na Academia
Muito Direito Romano
Aprendo Sociologia
Corn o professor Soria-to.

Bode I6i6 era um bode de tamanho incomum. Pertencia ao coronel
Joao Porto. Fedia horrivelmente. Quem usasse cavanhaque na 6poca era
apelidado de bode i6iO. VArias pessoas chegaram mesmo a raspar o cava-
nhaque para evitar o apelido.
S6 o normal resisted ao riso da PraCa.
Joio Nogueira conta que, em 1880 mais ou menos, o pernambucano
Magnivier fazia demonstrates de um invento denominado Motor Hidro-
Circulat6rio Duplo. Explicava que se tratava de maquina que podia mul-
tiplicar a forga humana e que seria capaz de mover um navio. O advo.
gado Luis de Miranda aparteava:: Sim, mas se o mar f6sse uma ga.
mela. Risada geral. O inventor escafedia-se de vez.
O povo, observava Jogo Brigido em Unritrio de 27-4-1919, dA o nome
de c-de-boi As rusgas em que more gente e cd-de-pinto As rugas sem
importAncia. Diz-se de pobre que more que esticou a canela. Ridicula-
riza-se cousa perigosa. Os dramas mais pungentes t&m o seu lado e6mi-
co. Ningu6m db uma queda, embora quebre a costela, que nao provoque
o riso da Praga.
O normal, entretanto, nao tem o senso do ridicule, nem sensibilida-
de moral. Encontra na Praga o ar que respira cor prazer, retribuindo
generosamente as atene5es que Ihe dispensa a Praga.
A evocaqao dos tipos populares da Praga atrav6s do tempo reconsti-
tui o humorismo do moleque cearense que nela atuou, gargalhando e di-
famando, escalpelando e casquinando, retalhando e mofando, sempre em
perowao de guarda, esgrimindo o insulto e vaiando, para supreme aflicio
dos que tAm rabo de palha, dos que perderam a forca moral nos dramas
conjugais, nos escandalos de alcova, nas falcatruas, nos desfalques, ou
dos que sofrem em consequbncia das deficiencias de sua natureza e de
sua inteligencia.
O mais ligeiro estudo que se fizer da popularidade dos tipos que a
PraCa do Ferrefra explorou e apupou, adverte o home normal a nio
cair no ridiculo, a nao se tornar um sujeito desfrutAvel. Qualquer des-
lise, qualquer concessao que fizer, pode ser o ponto de partida de um
terrivel desastre.
E' precise ter uma linha de conduta exemplar, ser, na verdade, um
vargo plutarquiano, para nao ser atingido pela catana da Praca.
Assiste-se, na Praca, a cenas impiedosas, em que a pobre vftima 6
amarrada ao poste de lapidagIo erguido pela critica mais ferina.


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68 -
O bebado, o louco, o mitomaniaco ou o paranoico,, qualquer deles 6
cercado, vaiado ou vivado. A vitima, entgo, ou improvisa o comicio ou
se desfaz em obcenidades. Discursando ou arrotando nomes feios, a pobre
vitima estA alimentando a Praca, dando-lhe um dos pAbulos preferidos.
A Praca nao podia viver sem seus tipos populares, nem Gles podiam
vivcr sem a Praga. Nas relag6es de ambos, presidia o principio dos va-
sos comunicantes.
A tardinha, ap6s o fechamento do com6rcio, ou A noite, quando todos
cs bancos estavam ocupados por seus assiduos frequentadores, apareciam
os tipos populares. Entravam em cena. Comegava, desse modo, a "fun-
cao". O classes m6dia esqueda, por moments, as agruras dom6sticas, os
intimos dissabores e ria a valer. A Praca transformava-se num grande
circo, em que pobres palhacos, devidamente espicagados, faziam a pla-
tWia rir destemperadamente.


Seu Joao, do Majestic
0 botequineiro e o gerente de bar nurna terra como a nossa slo, em
geral, homes espertos, vivazes, loquazes e, sobretudo, prevenidos.
A ativWdade professional agugou-lhes o instinto de defesa ao extreme,
abroquelando-os contra as "facadas", os fiados e os expedientes mais di-
versos, oriundos da firtil imaginago do home sem dinheiro.
A Praca do Ferreira, coraggo da cidade, centro de convergencia so-
cial, sempre fed o local escolhido para bars e botequins que, atrav6s do
lempo, se instalaram em locais diferentes e sob a propriedade de diver-
sos donos.
,Poucos gerentes, entretanto, grangearam a simpatia e a fama de seu
Joao do Majestic.
Aihda hoje, o nome de "seu" Jolo 6 lembrado por aqueles que, na
decada de 30, tiveram oportunidade de conhec6-lo.
Anedotas circulam por ai, contadas, muitas vezes, nas rodas que se
formam A noite nos bancos da Praga, a exemplo das que recolhemos e
iremos contar aos nossos leitores, m6rmente Aqueles que desconhecem as
figures afamadas, cuja fama se fez no labor diurno e noturno, em esta-
belecimento de comircio defronte da Praca.
Localizado em excelente ponto, ao lado de um dos bons cinemas de
Fortaleza daquela 6poca, o bar do "Majestic" atraia grande ndmero de
fregueses. Em determinadas horas do dia e da noite, l se amezenda-
vam figures conhecidas, das mais diversas profissoes e classes sociais.
Essas reunites eram levadas a s6rio. Os parceiros no j6go do boz6
corn que discutiam o pagamento da despesa nIo podiam faltar. A ausan.
cia de um despertava logo a curiosidade e interesse dos demais.
Joto Marques da Costa nasceu em Aquiraz. Vindo para Fortaleza,
exerceu a profissdo de engraxate e, depois, a de garcon, inicialmente, no
Palhabote, e, a seguir, no bar Rotisserie na Praca do Ferreira, de Joio
Quinder4. Em 1917, associando-se Quinder6 a Empresa Severiano Ribei-
ro que acabava de inaugurar o Cine Majestic, passou seu Joao a trabalhar








69 -
como gargon no bar da Empresa contiguo ao Cinema. 0 bar mudou de
proprAetArio. Seu JoAo, porem, 16 continuou.
Assim 6 que, certa vez, Chamarion, jornalista e boemio, teve qie
justificar os dias de ausencia da roda. Havia passado 6le alguns dias no
interior cearense. Ao retornar A mesa de bebida, um dos companheiros
.ndagou ao v6-lo de terno novo:
EntAo, Chamarion, a situacgo esta melhorando! Terno novo! Aon-
de tern andado?
Estive em Or6s.
Conte como e aquild.
Chamarion passou a descrever a viagem e a estada em Or6s. Sur-
preendeu-se cor o ritmo de trabalho. Havia 1I ate chines. Funcionavam
bons cabarets. Corria dinheiro a r6do.
Interrompendo a descrigSo, um dos companheiros perguntou:
E o agude.
Ah!, nsso, eu nao ouvi falar nao.
Retornemos, entretanto, a seu Joio. Contemos alkuns epis6dios ri-
dentes que lembram os seus diurnos e noturnos contacts com boemios
quase todos jA meio truviscados.
Certo freguns devia conta de bebida c nao pagava. Um dia, fez um
bilhete a seu Joio, pedindo-lhe que remetesse meia dura de cerveja oue
prometia pagar dentro em pouco tempo. O portador ficou esperando e,
como demorasse a ser atendido, procurou seu Joao.
Como 6, o sr. manda a cerveja? Nao tenha receio, o home pro-
mete pagar.
Diga a Fulano, responded seu Jolo, que Nle nio paga o que. deve
quanto mais o que promete.
Um de seus devedores morreu. Seu Joao fez uma fezinha no bicho,
levando em consideracao o ndmero de bicadas que o finado devia. Eram 27.
A tarde, por6m, dava o 28. Seu Joao, mal satisfeito, declara: TB
depois de morto, Asse sujeito esta me enganando! Refletindo um pouco,
acrescenta: Serb que eu me esqueci de anotar uma bicada?
Noutra ocasigo, numa mesa discutia-se o pagamento da despesa. Seu
Joao estava preocupado, porque um dos parceiros Ihe devia uma conti-
nha. Em dado moment, porem, ter seu Joao uma vertigem. Quando vol-
ta a si, pergunta logo: Quem ganhou?
Conhecido advogado frequentava assiduamente o bar. Numa das
vezes, sobracava um exemplar de "Os Gemeos", de Papi Jdnior. Colocava
o volume s6bre a mesa e pedia uma cerveja. Seu Joao trazia a bebida.
Dspejava-a no copo, enquanto ia soletrando o titulo da obra:
Ge-me-o, gemeu, heim. seu doutor?
Gemi corn 10$.
Quando Euclides Aires faleceu, seu Joio fo. render-lhe a filtima ho-
menagem. Diante do caixio, declarou: Morreu virgem. Como algu6m
estranhasse, explicou: Sim, morreu virgem. Nio deixou vale. Pagava
A vista.
Certo fregues, A 1 hora da madrugada, viu luz no bar. Empurrou a







70 -
porta. Entrou de mansinho. Encontrou, entAo, seu Joao fumando um
charuto e cor a caixa onde guardava os vales que faziam. Tirava um e
dizia: Coitado, morreu sem me pagar. Tirava outro e aduzia: Infeliz, fi-
cou me devendo. Tirava ainda outro e acrescentava: Desgragado, nio
paga porque nio quer.
O fregues aproximou-se mais e falou:
Que esta fazendo ai, seu Joao?
Quer pagar a sua continha?
Tire a conta!
SAo 218$.
Pronto, tire al!
Voc8 parece que veio do Francisco Rodrigues?
Na conta do fregues, havia um vale cor as iniciais UQPNM.
Que 4 isso?
Uma que pediu no muro. Havia um muro que separava o cinema
do bar.
0 mesmo fregues foi ao Piaui. De volta, foi ao bar e perguntou a seu
Jo0o:
Que hA de novo, seu Joio?
S6 mesmo aquela continha.
Outro fregues devia umas quatro cervejas e nio havia meio de pa-
gar. Certo dia, entra no bar e pede uma cerveja. Repete o pedido tr&s
vezes. Seu Joao sai do recinto do bar em diregCo de uma Area, olha o
tempo e declara: -0O tempo estA trubado. Nao seria melhor tomar uma
cachacinha? E' mwis barato e faz mais efcto. Evita do sr. se constipar.
Outro boemio costumava tomar duas a tres cervejas e, depois, pro-
metia: Seu Joao, tenha fM em Deus que amanhi eu Ihe pago. Passa-
vam-se os dias e o boemio perdeu no boz6 uma rodada de cerveja. Ficou
desolado. Cor exCe&co de um, todos os companheiros se retiraram. O
que ficou tentou consolar:
Ora, diga a seu Joao que tenha fo em Deus que amanhl voc& pa-
gara.
Que nada, seu Joao estA ficando herege.
Franecsco Hblanda observou que seu Jogo estava servindo a roda jA
foldado. Reclamou. No dia seguinte, Joao Lima, da EmprAsa Severiano
Ribeiro, chamou .seu Jolo e perguntou: E' verdade, seu Joao, que vo-
e0 serve o pessoal, jA embriagado? 0 barman responded, apenas: S6
Ales 6 que podem? Corn isso queria dizer que tamb6m tinha o direito do
melar-se e, ao mesmo tempo, criticava os que se melavam e nao queriam
que os outros se melassem.
Numa das rodas mais assiduas, um dos fregueses sugeriu a idWia de
homenagear seu Joao cor a aposicao de seu retrato em ponto grande no
bar. Seu JoAo, sobracando a caixa de vales, passeava de um lado para
outro, ouvindo a sugestao e a manifestacvo dos presents. Em dado mo-
mento, diragindo-se ao pal da idWia, pergunta:. Me diga uma cousa,
isso nio vai aumentar os vales nao?
Certo fregues devia 32$50. Numa despesa rateada, tocou-lhe a par-






71 -

cela de 20$. Puxou, entAo, uma pelega de 50$ e pediu o tr6co. Seu Joio
despachou os outros e ficou corn o dinheiro do fregues devedor que pas-
sou a reclamar insist6ntemente em alta voz. Depois de algum tempo, seu
JoIo aproximou-se e indagou do devedor: Nao seria melhor o sr.
pagar aquela continha de 32$ e deixar esta de 20$ pra depois?
Assim, era seu Joao, figure representative dos nossos barmen. 0
exercicio da profissao, na Praga, desenvolveu-lhe a capacidade de lidar
com bodmios, paus dAgua, velhacos e sujeitos em dificuldades financeiras.
0 exercicio da profisslo, o hibito de lidar continuamente cor bebi-
das alco6licas, acaba por tentar o professional, e Mle, para maior propa-
ganda do sabor etilico e mesmo por prazer, acaba por pagar o seu tribu-
to. Se nao se transformna em enomaniaco ou dipsomaniaco, pelo menos fin.
da por salgar o galo vez por outra, at6 mesmo por tomar o seu piffozinho.
E' uma maneira de esquecer os dissabores da profissao.

Jose Levy

Ha chistes tendenciosos, como assinala Freud, em que se torna indis-
fargAvel a rebelido contra a autoridade.
No home cearense, ha a agressividade condicionada pela area de
seca e de fome. O home jA 6 um revoltado. Sublima ou canaliza essa
agressividade atrav6s dos repentes, das glosas, dos apelidos, das vaias,
dos ditos chistosos que constituem a delicia dos ouvintes. Dai a facilida-
de corn que os epigrams dos boemios e os versos satiricos dos cantado-
res se espalham.
O sentiment sidico surge no home que nao conta corn a facilidade
de meios na luta pela vida e senate prazer quando verifica que outros lu-
tam contra as mesmas ou maiores dficuldades.
Na area de seca e de fome, a competicgo 6 dramAtica. O chiste 6
instrument usado na luta pela vida. Serve para eliminar o concorrente.
Nisso consiste a t6cnica ou arte de elaboracgo do chiste.
Na psicog6nese do molequismo cearense, ha sentimento de vinganca
contra o destino. Na sociog6nese do molequismo, hA a manifestag~o das
classes menos afortunadas. HI atW auto-critica, pois o home nao poupa
nem a si mesmo na sua mordacidade, na sua ironia e no seu sarcasm.
A arte de elaboragao do chiste varia corn a mentalidade do autor.
HA a marca da classes social. O chiste verbal ou intellectual atesta a ori-
gem social do autor.
O chiste tendencioso agressivo, para Freud, revela a existAncia de
poderosas components sadicas, mais ou menos coibidas na vida indivi-
dual. O humor, conforme o grande analista, 6 um process de defesa
destinado a evitar o nascimento de desprazer produzido por fontes in-
ternas. Elaborando o chiste, o home ter o vaidoso impulso de mos-
trar o seu engenho equivalent A exibigio no terreno sexual.
No cearense, hI uma pred.sposicao para o molequismo. Dai a imr
periosa necessidade de transferir por meio de vaia, da ridicularizacAo.
O sofrimento acaba por despertar emoCBes subjetivas que predisp6em o
home a zombar do semelhante.








0 riso do moleque cearense chega, portanto, a se tornar ignobil. E'
o riso do malvado. O riso em face do bor enganado pelo mau. E' como
o procedimento de Quevedo diante dos medicos e dos mestres-escolas,
De Molibre diante de Sganarelo. De Voltaire diante de Jean Jacob. Do
abade Morelet em face do Chateaubriand.
Nao hA nesse humorismo, amargo aquAle carter docente do humo-
rismo ingl&s que visa a corrigir o erro e a moralizar.
No humorismo sadio, antes de rir, o home pensa. E do labirinto
de paradoxes, o ridente Teseu sai sempre guiado pelo fio ariadniano da
conscinncia do bem.
HA, entretanto, sense of humour entire n6s. HA os que riem de si
pr6prio ao inv6s de rir cor malicia apenas dos outros, o que peculiariza
o senso de humor, na observacao de Gilberto Freyre. Nio hA ddvida que
6 raro, mas ha, embora nao seja Asse o sal que condimenta o espirito do
brasileiro em geral e principalmente do nordestino. Na observagio do
mesmo soci6logo, a nossa ambi&ncia sub-regional nio 6 favorAvel a eclo-
slo dessa virtude sutil.
A tendencia A ridicularizacAo 6 que leva o moleque cearense a ex-
plorar os tipos populares.
Um desses tipos que foram devidamente desfrutados foi Jose Levy.
Filho adotivo do frances Benoit Levy, Jose tinha o aspect de um qua-
simodo. Giboso. de voz fina, sempre de dedo em riste como a traduzir a
agressividade e a inata revolta, transformou-se em figure indispensAvel
nos comicios
Contam que Justiniano de Serpa queria incluir Dario Correia Lima
na chapa de deputados estaduais. 0 povo da Praga levantou, entio, a can-
didatura de Jos6 Levy, liqudando, assim, a de DArio.,
A sua presenqa nos comicios politicos era tao constant, a sua opo-
sicao tio sistemAtica, que acabaram por fazd-lo president do "Partido
do eleitorado sem cabresto".
Quem da nossa geraco nao se lembra dos comfcios de Jos6 Levy?
Quem nao acha graga, ainda hoje, da maneira cor que Ale respondia a
certos apartes?
Antes de 1930, Jos6 Levi comparecda ao "meeting" envergando fra
que e cartola. Num desses comicios, em certo moment, o orador dizia:
Assim como Ashaverus... Algu6m aparteava: Quem 4 Ashaverus?
Outro respondia: E' o Jos6 Levy. O orador, entAo, irado, replicava-
Ashaverus 4 teu pal, cabra ruim!
Noutra ocasiao, Jos6 Levy discursava no cor&to da Praca. Urm dos
ouvintes deructava pela b6ca. 0 orador rlenciava e, depois, indagava: -
Cavalheiro, JA acabou de deructar?
Quando do lpncamento das candidaturas dos drs. Francisco SA e
Ip*,je&e-*km4 ao Senado, Jos6 Levy, em comfcio na Praca, defended a so-
gunda candidature. Em discurso, diz 6le: HA dois candidates. Um o
dr. Joa43aom, engenheiro ilustre, o outro fios de cobre... Fernanda
Pinto, hoje pr6spero home do comr-r'o, aparteia: V. Excia pod-
dizer o nome do outro candidate? Jos6 Levy replica: V. Excia vf a...,







73 -

De outra vez, Jos6 Levy 6 aparteado por Francisco Holanda que cos-
tumava frequentar o bar do Majestic. Jos6 Levy, agastado, responded: -
Cidadao que me deu o aparte, o botequim e mais adiante.
Noutro comicio, Jos4 Levy orava inflamado, quando alguem gritou:
- Que fcd chavelhudo? 0 orador, interrompendo a oracgo e noutro tom
de voz, indaga: A prop6sito, como vai o sr. seu pai?
No governo do desembargador Moreira da Rocha, um grupo de fre.
quentadores do bar do Majestic convenceu o Jos6 Levy de que devia, nos
comicios, atacar o GovArno. Certo dia, quando Levy do alto do coreto,
deitava o verbo, o grupo, nio ouvindo o orador atacar o situacionismo,
enviou seu Joao. Este aproximou-se do orador e comegou a puxar-lhe a
aba do palit6, dizendo-lhe ao mesmo tempo: A turma ta dizendo que
voc .ainda. nao fez o que prometeu. Ataque o Governo. Seu Joao ficou
insistindo e Jos6 Levy falando ate que perdeu a paci&ncia e, no meio do
discurso,-declarou: --Diga ao pessoal que va pros diabos que os carre-
gue!
De outra fcita, Jose Levy discursava na Praga, s6bre uma barrica
improvisada de tribune. LA As tantas, a tampa da barrica cedeu e o ora-
dor afundou na barrica. Hilaridade geral.

Comicios

A Praga do Ferreira t6m constituido, atrav6s do tempo, o cenario
das manifestac6es legalistas e reovlucionarias, das explosoes populares
contra majorag6es de pregos e das manifestac6es de agrado ou de desa-
grado da estudantada.
A 3 de janeiro.de 1904, estudantes percorreram a Praca, quebrando
bancos, gradis e lampi6es, correndo a pedra os rondantes isolados e ber-
rando vivas e morras. Entre Asses estudantes, estava Gustavo Barroso.
Em 1912, por ocasiio da deposigio do Governador Nogueira Accdoly,
a Praca esteve em constanteagitagAo. As passeatas. dos estudantes de-
moravam na Praga, onde Dolor Barreira, Fernandes Junior, Quintino
Cunha, Emilio SA e Castelar Sombra discursavam.
Por ocasiao do falecimento de Pinheiro Machado, a noticia circulou
na Praga As 20 horas. Populares deram vivas ao Brasil e soltaram fogue-
tes. O jornalista Raimundo MagalhAes discursou, dizendo, entire outras
cousas, o seguinte: "Concidadaos, a PAtria estA de luto. A PAtria, essa
megera que chora lAgrimas de 75 contos s6bre o cadAver de um bandi.
do e deixa os seus filhos morrerem de fome... "Nao pAde concluir o dis-
curso. Foi preso.
Quando Sacadura Cabral e Gago Coutinho chegaram a Fortaleza, rea-
lizou-se comicio na Praga. Quintino Cunha fala ao povo. 0 sol ainda bri-
lhava. 0 orador, por6m, alude a miriades de estrelas. Como os ouvintes
estranhassem, Quintino esclarece: as mirfades de estrelas que sao os
olhos das mulheres cearenses presents.
Em 1927 mais ou menos, liceistas quebram os bondes elttricos em
virtude do aumento da passage. A Companhia pede providencias ao







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Govvrno que manda a Cavalaria da policia para a Praca. Os liceistas,
entio, armaram-se de cabos de vassoura. Montados em burros, jumentos
e cavalos, sairam da Praga dos VoluntArios, onde ficava o Liceu, e de-
mandaram a Praga do Ferreira. Quando chegaram A altura da esquina
das atuais ruas Pedro Borges e Floriano Peixoto, avistaram a Cavalaria
comaridada pelo Capit5o Espinheiro.. Os-liceistas enviaram um emissario
ao Comandante da tropa. 0 official, ao ver o estudante montado num ju.
mento e armado de cabo de vassoura, ca.u na gargalhada. Pediu que os
estudantes se retirassem, consentindo, por6m, que dessem uma volta pe
la Praca.
Nesse tempo, realizaram-se meetings contra o aumento da passage.
Num deles, o professor Eduardo Mota falava com eloquencia. Precisa-
mos, dizia Mle, reagir comi a democracia ou sem ela. Quebremos os bon-
des. Nessa ocasiAo, entrava na Praga a policia. 0 orador, entio, sem
perder a calma, prosseguiu: "Devemos reagir, Om, mas dentro da or
dem e do direito, respeitando as autoridades constituidas".
Em fins de 1929, com a chegada a Fortaleza da caravana da Alianga
Liberal chefiada por Augusto de Lima, a Praga viveu horas de emoCio.
Os alancistas tentaram realizar comicio. Dem6crito Rocha comegou a
falar. Fazia a apresentagAo dos caravaneiros, quando a Cavalaria invadiu
a Praca e dispersou a massa humana.
Em 1930, a Praca vibrava de civismo. Djacir Menezes, que tomou
parte ativa nas campanhas, record: "Naqueles tempos cheios de tumul-
tuosas aspirac5es democraticas, wviamos todos ou quase todos os de
minha geracio embriagados de ret6rica political: criamos sinceramento
consertar a pAtria a golpes de palavra. E o centro de nossa orat6ria
era o famoso corAto da Praga do Ferreira. Para n6s, o corato era um
pincaro, ou um Sinai: e visionavamos os que all acorriam como vasta
mar6 de conscencias livres que um s6pro de liberdade agitava para as
batalhas campais de regeneracto da Repdiblica agonizante..."
Djacir diz ainda: "Os que tinham vivido nos dias her6icos do rabe-
16rio atW achavam que soprava a mesma aragem. A aragem podia ser a
mesma, mas as ideas ja nao eram. Porque a tecla principal era a da
desmoralizacAo dos velhos partidos politicos, sempre assentados a beira
do erario e comandando os escribas das eleic5es falsas".
At6 a remodelavgo da Praca, quando o coreto foi demolido para, em
seu lugar, se erguer a Coluna da Hora, a velha tribune popular foi usa
da por homes da oposicqo e da situaclo, por candc'datos a cargos ele-
tivos, por lideres sindicais e estudantes que explicavam as suas plata
formas. os seus programs e as suas id6ias.
O coreto desapareceu. Os comicios, por6m, continuam a se realize
na Praga. Arma-se coreto de madeira. Ou entao, os oradores falam dos
degraus da Coluna da Hora.
"0 lado critic, diz Djacir Menezes, representava, na realidade, o
espirito da Praga do Ferreira: nele era que mergulhavam as raizes da
geracgo que assistiu e participou espiritualmente do movimento de 1930
Nele estava o impulse idealista mris sadio e mais alto que seria explo-







75 -
rado pelo aventureirismo faccioso".
Na verdade, ai reside o valor educative da Praga.

0 Cajueiro Botador

Havia na Praca do Ferreira um cajueiro que ficava em frente do
armazem de estivas de propriedade de Antsnio Martins e Jos6 Raimundo
da Costa (hoje "Armazem do Povo")
0 Cajueiro botador nao era uma Arvore frondosa como a que abri-
gava Fagundes. De seu tronco, apenas trhs galhos se langavam no espa-
go. A sua -enerosidade, por6m, se tornava clAssica. Passava o ano I
produzir saborosos frutos.
Sob a copa rarefeita do Cajueiro botador, reuniam-se comerciantes
clue tinham casas nas proximidades e ai comentavam os fatos da crdade.
Surgiam os mais variados boatos. Contavam potocas a valer. Dai elas se
espalhavam pelo resto da cidade. Havia pessoas que transmitiam e vei.
culavam tais atoardas por samples prazer.
Conta-se que Jofo Salgado ia passando pela Praga, quando se apro-
xmou d6le uma velha e perguntou que horas eram. Ele puxou o rel6gio,
olhou e disse: 11 horas. A velha achou que nlo era tao tarde. Pediu.
entao, para ver o rel6gio. Salgado mostrou. Os ponteiros marcavam 9
horas. A velha censurou: Mas, e o sr., mentindo. Nao t6m vergonha?
Salgado responded: E' isso mesmo. Eu nao tenho o que fazer.
Entre 19141 e 1915, alguns comerciantes langaram as bases de uma
instituigao calcada la Guarda Nacional. Havia Ministro da Guerra, Ge-
nereis, Coroneis e demais postos da hierarquia military. O objetivo resu-
mia-se no combat a potoca, ao boato, A mentira.
Os organizadores da Sociedade patri6tica que funcionava sob a copa
rarefeita do Cajueiro botador, instituiram o dia 1.0 de abril para a reali-
zac~o das eleicqes e renovaclo da diretoria.
Nesse dia, uma urna de madeira colocada debaixo do cajueiro reco-
IN a os votos do eleitorado. Na ocasiao, a Banda de Mfisica da Forca
Piblica executava dobrados. Muitos votos nao passavam de gracejos em
prosa e em verso.
SAp6s a apuragao. proclamava-se o resultado, sendo empossado o Mi-
nistro da Guerra. A sua fotografia era pendurada num dos galhos do
cajueiro.
A insttiiico irradiava-se pelo interior cearease. Assim 6 que muztos
telegramas' chegavam de vArios municipios e se procedla A leitura dos
:nesmos, prendendo-os depois no tronco da arvore.
No da seguinte ao da eleicAo, o Estado Maior entrava em ativida4e
Em papel especial, devidamente carimbado e ostentando sinetes. lavra-
vam-se as promog~es e davam-se as ordens urgentes.
Conta-se que uma dessas folhas cheia de vistos e cumpra-se foi pa-
rar nas maos de um comerciante do Ic6. 0 Estado Maior conferia-lhe ele-
vada patente e pedia-lhe que recrutasse elements capazes de servir ao
Exercito. O offcio causou sensagfo naquela cAdade. Passou de mio em







S76
mao, considerando-se o comerciante icoense altamente honrado.
Jornais do Rio e de Recife noticiaram o resultado dog pleitos e che-
garam mesmo a publicar as comunicag6es oficiais.
Durante as eleig6es, as c6dulas transformavam-se em instrument de
critical aos politicos dominantes. Diz-se que, no Govdrno de Justiniano
de Serpa, Aste criticado pela turma do Cajueiro botador, acabou por subs-
tituir, nas chapas oficiais, os nomes de candidates jovens e sem tradicao
partiddria e experiencia political por outros de maior tirocinio.

Da Intendencia ao Abrigo Central
Entre a Avenida 7 de setembro e a rua Parb, situava-se a Intendnn-
cia Municipal. Nos altos, ficava a sala de audaencias. Localizava-se, ain-
da, o salao de juri.
Quando surgiam casos rumorosos que empolgavam a opiniAo pfblica,
o salio do juri se enchia, enquanto do lado de fora a massa humana
aguardava o veredictum. Muitas vezes, o advogado da defesa, quando
triunfante, era carregado nos ombros dos populares que davam uma vol-
ta pela Praga.
Por volta de 1922 ou 1923, numa audiencia de fal6ncia presidida pelo
juiz Felismino Norberto, um dos advogados, implicando cor o chapeu da
dra. Henriqueta Galeno, que era procuradora de uni dos credores, re-
clamou ao Juiz, alegando que ninguem podia estar de chap6u na audin-
cia. O Juiz, porem, decidiu que chapeu de mulher 6 adorno.
Durante uma sessao de jurw, fazia-se o sorteio dos jurados. O juiz
chama: OtAvio Parente que responded: Pronto. Prosseguindo, o juiz cha-
ma: Emidio Barbosa (Chamarion) que responded: Outro pronto. Hilari-
dade geral. O juiz toca a campainha. Ameaga evacuar a sala.
Um dos advogados mais populares era Quintino Cunha. Certa vez,
6 Ale nomeado defensor de rdu pobre. Antes da sessao do juri, Quintino
encontra uma velha e pergunta-lhe se quer ganhar 50$. A velha alega que
nada sabe fazer. O advogado assegura-lhe que o trabalho consiste em
ficar sentada numa cadeira. Comega a sessao. Depois de falar o promo-
tor, Quintino inicia a defesa, metendo o pau no reu. Todos estranham.
O pr6prio juiz chama a atengio do defensor que passa a provar que, a
despeito de tudo, o reu era bom filho. Eis por que a mne dele estava
present. Aponta, entgo, para a velha que permanecia sentada na ca-
deira. Explora os sentiments filial e maternal. Exacerba a sensibilidade
dos jurados. Comove. Faz chorar. Resultado: o rdu 6 absolvido. Depois
do juri, alguem indaga: Quintino, voce conhece a mre do reu? E
kle trn mae? replica o conhecido tribune.
Depois de realizar brilhante defesa numa sessio de juri, o rAbula
I.us de Miranda vai a Praga, onde bebe e vomita. Nessa ocasigo,. al-
guem grita: Ti vomitando, bebo! O rabula responded: Tou, corn no-
jo da tua cara.
Quintino Cunha passava a cavalo pela Praca, Em frente da Inten-
dencia, o cavalo estradeiro parou de chouto. Certo comerciante, que fa-







- 77 -


lira fraudulentamente, viu e observou: "Que 6 isso, poeta, deixar um
cavalo marchador parar de chouto. O poeta replicou: Parou de chou-
to corn vergonha dos estradeiros. (Estradeiro quer dizer velhaco. Cavalo
estradeiro 6 o que troca as marchas).
A velha Intendenca e outros pr6dios foram demolidos, construindo-
se, em seu lugar, o "Abrigo Central" que se transformou numa esp6cie
de Assembl4ia do Povo.
No "Abrigo", ha caf6s, garapeiras, bancas de Aornais, engraxatarias,
tabacarias, secges de venda de slo, de bilhete de loteria.
A construgco do "Abrigo" ainda hoje 6 motivo de discussfo, sendo
condenada por uns e aprovada por outros. Os primeiros consideram.no
um delito praticado contra a estetica da cidade, um monstrengo a ates.
far atraso urbanistico. Os segundos afirmam que Ale jA faz parte da vi.
da do povo. Consideram-no mesmo um monumento sociol6gico" por ter
"a faculdade de unir a todos, indistintamente, seja qual f6r a raga ou
conrclo social".
O "Abrigo" foi construido para abrigar os "fatigados passageiros dos
onibus". Hoje, por6m, nao ha mais onibus na PraCa.
O cronista Josu6 de Birto afirma que "o Abrigo se converted no re-
f6gio da sujeira da cidade. Nao se trata apenas dos vendedores ambu-
lantes de bugigangas de toda esp6cie. Estes impedem o trAnsito total-
mente, cor seus mostruarios espalhados pelo chao. Nao se trata dos
mendigos rotos, sujos, chagados, porque, final esses sao os pobres e se-
tornaram donos da capital. Nao se trata ainda da zoada infernal da le-
giAo de vendedores de bilhetes de loteria, de todas as ,dades e feitios,
impedindo de que se tome cafe ou que se converse sossegado Trata-se
de sujo mesmo. Sujo nas paredes, sujo no chao, sujo do povo. Sujo por
toda parte".
A qualquer hora do dia ou da noite, ha sempre gente no "Abrigo".
Eis por que Pimenta Lira assevera que "muita gente moca e sadia pre.
fere discutir political no "Abrigo", ou vender maags argentinas nas calca-
das, a apanhar algodio nos rogados, a cortar palhas de carnauba nas var-
zeas, a catar oiticica, As margens das lagoas, rios e riachos, a tecer fibras
de carnauba, em proveitoso artezanato".
Nas eleicSes de 1954, conhecida firma commercial de Fortaleza tomou
a iniciativa de mandar confeccionar grafico cor os nomes dos candida-
tos a Governador, Senador e Prefeto, colocando-o na parte leste do
"Abrigo", no alto, de modo que todos podessem ler os resultados-da apu-
racao.
Ao meio dia de 30 de outubro do mesmo ano, quatro individuos subi-
ram ao tecto do "Abrigo" e de cacete em punho iniciaram vandAlica de-
predacao do placard.
Nas eleic6es de 3 de outubro de 1958, o placard teve melhor sorte.
Deu o resultado das eleic5es ate o fim, de ac6rdo cor os dados oficiais
fornecidos pelo Tribunal Regional Eleitoral.







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Bibliografia
1-Abelardo F. Montenegro ..... "A Ciencia Politica no Brasil e Outros Artigos"
Fortaleza, 1956
"Soriano de Albuquerque, um Pioneiro da Socio.
logia no Brasil", Fortaleza, 1952
"0 Romance Cearense", Fortaleza 1953
"CearA-Tentativas de Interpretacgo" Fortale-
za, 1953
0 POVO, 1957
2-Joio Brigido ................ "CearA, Homens e Fatos" Fortaleza
"Ceara Ridente" Fortaleza
UNITARIO (Fortaleza), 27-4-1919
3-Djacir Menezes .............. O POVO (Fortaleza), 16-8-1955; 28-6-1957;
6-7-1957
Conferencia na "Casa de Juvenal Galeno" no dia
6-1-1953
4-Joaquim Pimenta ........... "Retalhos do Passado" Rio, 1949
5-Alba Valdez .................... REVISTA DA ACADEMIA CEARENSE DE LE-
TRAS, vol. I Tomo II Dezembro de 1938
6-Gustavo Barroso ............. "Liceu do CearA" Rio
7--Joao Nogueira ............... "Fortaleza Velha", Fortaleza, 1954
8-Rodolfo Te6filo .............. "Sedic5o de Juazeiro"
9-Ubatuba de Miranda e Raimun-
do Grlo ................... .. "Retrato de Fortaleza" Fortaleza, 1954
10-Carlos de Pinho .............DIARIO DO POO 21-11-1954.
11-Ramalho Ortigio ........... "Biblioteca Internacional de Obras C6lebres" -
Volume X
13-Mons. Jose Quinder4 ......... "Reminiscencias" Fortaleza, 1957
13-Leonardo Mota ............ "A Padaria Espiritual" Fortaleza, 1938
14-Araripe Junior .............. REVISTA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE
LETRAS, Rio, 1929
15-Paulino Nogueira ............ REVISTA DO INSTITUTO DO CEARA', n. 1 -
Fortaleza
16-Jader de Carvalho ........... 0 POVO, 30-3-1944
17-Gustavo Barroso .............. 0 CRUZEIRO, Rio, 21-7-1956
18-Teodoro Cabral .............. GAZETA DE NOTICIAS (Fortaleza), 11-12-1927
19-Josue de Brito .............. UNITARIO, 17-4 e 9-10-1955
20-Sobreira Neto ............... 0 POVO, 4-8-1956
21-Pimenta Lira ............... CORREIO DO CEARA', Fortaleza, agosto de 1950
22-Luis Glauco Torres ......... 0 ESTADO (Fortaleza), 6-11-1953
23-:Jandira Carvalho ............ COTRETO DO CEARA', 5-12-1953
24-Carvalho Nogueira .......... DIARIO DO POVO, 27-3 e 7-9-1954
25-Chico da Barbalha ........... 0 POVO, 8-11-1929
26-J. Matos Ibapina ............ 0 CEARA' (Fortaleza), 5-2-1926







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27-Redagao ................... CORREIO DO CEARA', 10-1953; 5-10-1954;
30-6-1954
UNITARIO, 11-9-1955; 7-8-1955; 12-12.1903.
O POVO, 29-12-1941
DIARIO DO POVO, 4-11-1954
0 COMERCIAL, 1-9-1854 Fortaleza
CEARENSE (Fortaleza), 23-1-1857
FORTALEZA, 16-2-1890
Almanaque EU SEI TUDO 1945



INFORMAC6ES PRESTADAS AO AUTOR

0 autor agradcce as informag6es prestadas por Ant6nio Fiuza Pequeno, Augusto
Fiuza Pequeno, Ubatuba de Miranda, Josaphat Linhares, Artur Moura, Monsenhor
Jose Quinderd e Paulo de Aguiar.
Outrossim, agradece mui particularmente a Renato Braga que Ihe forneceu c6pia
da carta do boticdrio Ferreira a Comissio Cientifica de Fri on-'-jo chefiada por
Francisco Freire Alemdc.








IN DICE

la. PARTE

Influencia do meio sobre o home

I Area de Seca e Astrologia ......................... 5
II SOca, Fome, Astdcia e Trabalho ................. 8
III Seca, Fome e Grosseria .......................... 11
IV Trabalho Maneiro ............................... 13
V Politica Partiddria e B6a Vida ................... 15
VI;- PredestinagIo, Seca e Fomne ...................... 18
VII Funambulismo e Ambivalancia ..................... 20
VIII Rotina e Aventura ................................ 22
IX A Psicologia do Novo Rico ...................... 24
X A Psicologia do SabichIo ............. .......... 27
XI A Psicologia do Linguarudo ......................... 28
XII Ceardnse Homem. de, Sete Instrumentos .......... 30
XIII Seca, Fome e Fama .............................. 33
XIV Seca, Fome e Humor .............. .............. 34

2a. -PARTE

A Praga do Ferreira

I 0 BoticArio e a Praga : ........................... 38
II Praca do Ferreira CoragAo da Cidade ........... 42
III Um Pioneiro ................. ..... ........ ....... 48
IV Caf6s e Boamios ............. ........ ...... 50
V Bancos da Opiniio Pdblica ;....................... 58
VI Tipos Populares e Molequismo .................... 63
VII Seu Jodo do Majestic ........... ..... .... 68
VIII Jos6 Levy ........... .. .......... ............... 71
IX Comicios ... .......... .............. ......... 73
X 0 Cajueiro Botador ......... .................... 75
XI Da Intend&ncia ao Abrigo Central ................... 76
XII Bibliografa ................. .................... 78





Composto e Impresso na
EDIT6RA A. BATISTA FONTENELE
Rua Senador Pompeu n. 1118
Fortaleza Ceara


















"As suas diretrizes afinam
perfeitamente corn as do
nosso grande Marechal Jua-
rez TAvora, home de
quem o Brasil necez.ita Fa-
ra realizar os seus grandes
destinos". (Jos6 Cust6dlo
de Azevedo, C'orreio do
Ceara, 12-1-1959)





"VY'--e bem que o amigo
ha sido um incansavel e
impenitente perquiridor das
cau-as e efeitos do nosso
declinio politico e adminiE.-
trativo, investigando de mo,-
do e-pecial os pr6dromns
do getulismo..." (F ancis-
co Capibaribe, in O POVO
2-1-1959)




"Aceite meuo parabens
pelo desassombro de sua
attitude intellectual equili-
brada, sensata e por isso
mesmo eminentemente pa-
tri6tica, ao mesmo tempo
que faro votos por que con-
tinui a brindar a inte'ec-
tualidade conterrAn-a corn
r- oportunas produces de
sua lavra ricamente fecun-
Onq" (PadrP JoAo Jn),r Ca-
valcante, in 0 POVO (For-
taceza), 2-12-1958)




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