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HIDE
 Front Cover
 Title Page
 Apresentacao
 Explicando
 O cariri cearense. Origem do nome....
 Descoberta do ceara. Tentativas...
 Primeiras vilas do ceara. A missao...
 O ceara separado de pernambuco....
 Revolucao pernambucana de 1817....
 Table of Contents
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Group Title: Colecao Estudos e pesquisas
Title: Histâoria do Cariri
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00075951/00001
 Material Information
Title: Histâoria do Cariri
Series Title: Coleðcäao Estudos e pesquisas
Physical Description: v. : ; 23 cm.
Language: Portuguese
Creator: Figueiredo, Josâe Alves de, 1904-
Publisher: Faculdade de Filosofia do Crato
Place of Publication: Crato Brasil
Publication Date: 1964-
 Subjects
Subject: History -- Cearâa (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre: bibliography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Bibliography: Includes bibliographies.
Statement of Responsibility: por J. de Figueiredo Filho.
General Note: Vol. 4 has imprint: Crato, Tipografia e Papelarâia do Cariri.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00075951
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 08990219
lccn - 68035781

Table of Contents
    Front Cover
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    Apresentacao
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    Explicando
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    O cariri cearense. Origem do nome. Habitantes indigenas
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    Descoberta do ceara. Tentativas de colonizacao e de catequese. Povoamento do cariri. Sesmarias e posseiros
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    Primeiras vilas do ceara. A missao do miranda passa a vila. A primeira paroquia caririense. A fundacao de jardim
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    O ceara separado de pernambuco. O cariri entre os seculos XVIII e XIX. A segunda comarca do ceara
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    Revolucao pernambucana de 1817. Repercussao no cariri. Atuacao da familia alencar. Influencia que ficou. O governador sampaio
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Full Text

Faculdade de PioseIdWl-fato

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HISTORIC

DO

CARIRI


VOLUME I
Cap. 1. ao 5









1964 *Crato- Ceara B-rai l









INST1TUTO DE ENSINO SUPERIOR DO CARIRI


(AGREGADA A UNIVERSIDADE DO CEARA)

R11TOR DA UIVERSIDAE w00 CFARA' PROF. ANTl NIO MARTINS FILHO
R1. DA FACULDADE HE FROSOFIA 10 CRATO PROF. 1OS0 NEWTON HALVES DE SOUSA




DEPARTAIMENTO DE GEOGRAFIA E HIST6RIA
Cadeira de HISTORIA DO CARIRI E DO CEARA
Titular- Prof. Josd Alvef de Figueiredo Filho





Enderoo:
Rua Cel. AntSnio Luiz, 22
CRATO-Cearf-B-RASIL




Faculdade de Filosofia do Crato


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VOLUME I
Cap. 1. ao 5'


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1964 Crato-Ceari Brasil


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3i

























A PRHEBSEITAQAO

A coleg~o ESTUDOS E PESQUISAS visa
a publicaSo de trabalhos culturais e cientificos de
autoria, principalmente, dos que lidam na Faculdade
de Filosofia do Crato, sejam profess6res, sejam
alunos.
Inicia-se cor o primeiro volume da HISTO-
RIA DO CARIRI, que vem sendo escrita pelo re-
gente da Cadeira, o talentoso intellectual prof. Jose
Alues de Figueiredo Filho.
A este primeiro volume se seguira o segundo,
cujo langamento esth previsto para o dia 21 de
junho p. future, data comemorativa do bi-centenario
do Municipio do Crato.
Autor, obra e tempo aqui se encontram e
ajustam, nesta feliz iniciativa, que trara a Paculdade
de Pilosofia do Crato, possivelmente, o agradeci-
mento e o aplauso dos estudiosos.
Crato, fevereiro de 1964
Josd Newton Alves de Sousa
Director da P. F. C.










Explicando...


A Faculdade de Filosofia do Crato, atraves
de sua colegAo ESTUDOS E PESQUISAS,
resolve editor os cinco primeiros capitulos de
minha despretensiosa HISTORIA DO CA-
R1RI. E obra relativamente arrojada que
encetei por motive de falta de comp6ndio
apropriado para a cadeira que dirijo, nequele
estabelecimento que tantos beneficios tem
trazido A culture intellectual da region, sob a
competence direcio do Prof. Jos6 Newton
Alves de Souse.
Na realidade, 6 trabalho de compilacao. Nem
poderia deixar de ser uma inioiativa de tal
monta. Meu mirito apenas 6 o de concatenar
o muito que estava escrito e esparso em t6rno
da her6ica e movimentada hist6ria do Vale
Caririense.
Bebi ensinamentos em muitas fontes pursa,
entire as quais, as dos pesquisadores em6ritos
- Irineu Pinheiro, jf falecido e o Padre An-
tinio Gomes de Arafjo, incansfvel e inteli-
gente investigator de nosso passado.
HA dois anos. assumi a direcgo da cadeira
aludida, na pioneira des escolas de ensino
superior no interior cearense. Nunca discipli-
na que lecionei, se coadunou tanto corn a
minha vocaClo. Meu primeiro ato, ao inicier
as aulas, foi escrever capitulos em ordem cro-
nol6gica, mimeografados pela Faculdade de
Filosofia do Crato, para os alunos. Mas, o
trabalho foi crescendo e hoje sai a primeira
parte da tiva do Prof. Jos6 Newton, que nao sabe
projetar qualquer coisa sem dar-lhe execugao
imediate.
Destine-se aos meus alunos e tamb6m servi-
rf como orientagvo ao ensino da hist6ria
regional, nos estabelecimentos secundArios, nos
grupos escolares e escolas isoladas.
Cinco capitulos estao neste primeiro volume.
Outros tantos ja estio escritos e, se Deus
quiser, serao enfeixados noutro livro, neste ou
no pr6ximo ano. A obra prosseguir6, cor a
ajuda da Provid6ncia. A tarefa que me pro-
ponho realizar 6 de tamanha monta, que comr
ela encerrarei a minha pouca luminosa carreira
no mundo dos livros. Muito feliz, no entanto,
me julgarei, se puder completi-la, conforme o
piano modesto que tracei, tudo isso pare a
grandeza do Crato e do Cariri.
Crato, 15 de Janeiro de 1964
J. F. F.









HISTORIC DO CARIRI




I CAPITULO


0 CARIRI CEARENSE. ORIGEM DO NOME.
HABITANTES INDIGENAS

O Cariri 6 region do sul do Ceari, situada ao sope do Ara-
ripe. irrigado, em grande parte, por dezenas e dezenas de fontes
perenes, brotadas daquela serra que o separa de Pernambuco e causa
principal da situagao privilegiada, que sua natureza desfruta, em con-
traste cor a caatinga ressequida que o circunda.
cterizada, quer se consider a sua facies geografica, quer as sua
origens e sobrevivEncias etnicas, quer o seu aspect social.
Esta curiosa diferenciagco, no seu conjunto, bem acentuada
quanto ao resto do Ceara e dos vizinhos, o 6 igualmente em relagio
a todo o Pais. O mais frizante contrast observa-se entire o pequeno
vale do Batateira cor os seus tributbrios, ainda menores, e o sertao
circundante. Mas, interposta entire aquele e este, uma zona de tran-
sic6o se estende, subdividida em trechos transversais, mais ou menos
bem definidos, que, daquele vale, se irradiam, perdendo progressiva-
mente as qualidades especiais que sobremodo singularizam a parte
nuclear.> (Dr. Thomaz Pompeu Sobrinho.)
A diferenga entire a sua natureza e a da circunvizinhanga
bem flagrante. Dai o filho do Cariri, apesar de bem interiorano, sentir
que sua region 6 inteiramente fora do sertio pr6priamente dito.
Nao fica satisfeito o caririense quando alguem o chama de
sertanejo, e seu Cariri de sertio. Nao toma a palavra sertdo no seu
sentido mais amplo, na acepgao de zona do interior, afastada da faixa
litoranea. O Cariri, do Ceara, 6 uma especie de zona da mata per-
nambucana, ou dos brejos da Paraiba). (J. de Figueiredo Filho -
(ENGENHOS DE RAPADURA DO CARIRI).
No Cariri, conforme as fltimas divis6es municipals do Ceara,
ha, presentemente, 20 municipios, aqui discriminados em ordem
alfab6tica:
Abaira, Araripe, Barbalha, Barro, Brejo Santo, Caririaqu,
Crato, Farias Brito, Grangeiro, Jardim, Jati, JuAzeiro do Norte, Mau-








riti, Milagres, Miss5o Velha, Nova Olinda, Penatorte, Porteiras,
Potengi, Santana do Cariri.
Conforme o recenseamento de 1960, sua populacio orga em
373. 851. (Ant6nio C. Coelho ITAYTERA, 1961).
No mapa de DelimitagFo da REGIAO DO CARIRI, os t6cni-
cos da Etene, do BANCO DO NORDESTE BRASILEIRO, acres-
centam-lhe: Campos Sales, Assare, Antonina do Norte e Varzea
Alegre.
Procede a sua denominagio de um dos ramos indigenas do
Brasil, classificados pelo grande historiador cearense Capistrano de
Abreu. nestes oito grupos: TUPIS GUARANIS, GUAICURUS, NU-
ARUAQUES, CARIRIS, GES ou TAPUIAS, CARAIBAS, PANOS
e BET6IAS.
d Os Cariris (KIRIRIS-SABUJAS de Ehreneich) estendiam-se
do Paraguagu ao Itapicuru e ai foram encontrados, desde os primeiros
tempos da colonizagio. Senhoreavam, a principio, o litoral nordestino,
onde ainda os viram os portugueses. O nome, no dizer de Porto
Seguro, significa TRISTONHO; CALADO, silencioso, cf outros, o
que indica sabido que os outros indios cram terriveis palradores>, diz Rodolfo
Garcia. (Estevao Pinto OS INDIGENAS DO NORDESTE).
CARIRI. Esta familiar foi encontrada ocupando uma area
nao muito extensa, que se estendia do sul do Ceara ao centro da
Bahia e do oeste de Pernambuco as quebradas orientals da Borbore-
ma. Mas, nem todo este territ6rio estava senhoreado pelas hordas
cariris: elas se tinham localizado nos melhores sitios, nas regi6es mais
ferteis e menos aridas, nos vales frescos ou fimidos, como o que tern
o seu nome, no Ceara, nas serras frescas, no vale do rio Sao Fran-
cisco, nas cabeceiras de alguns rios baianos da drenagem atlantica,
ao norte do rio das Contas. Viviam naquele ambito, interpostos aos
cariris, tribes gE, tupi, fulnie, tarairifi e outras de origem ainda nao
determinada.
Ao que se sup6e, teriam chegado a esta region, vindos do
norte, como era tradicao entire eles, e do noroeste. O caminho proved
vel, mais ajustado as condig6es de vida e A sua cultural neolitica, teria
sido o curso navegivel de rios caudalosos, no nosso entender o pr6-
prio Amazonas e o Tocantins.
Uma vez estabelecidos nas margens e ilhas do Sao Francisco,
depois de algum tempo tiveram de expandir-se, premidos pela neces-
sidade de espago, cor o crescimento das tribes, seguiram entio levas
para o norte, pela serra de Borborema ate alcangar o rio Salgado,
afluente do Jaguaribe, no Ceara, onde foram ocupar o vale entire as
serras do Araripe e de S. Pedro, abundante d'agua, e todo o vale
do rio Salgado, que era entao perene. Possivelmente, ainda no Ceara,








tnoravam em trechos limitados das bacias dos rios Carids, dos Porcos
ou Podi-mirim, Rio das Antas, do Rosario e de outros, afluentes do
Salgado. Viveram no oeste da Paraiba, nas cachoeiras do rio das
Piranhas, nos melhores tratos da Serra da Borborema. Outras levas
preferiram marchar para o sul e os Cariris se espalharam pelos sitios
mais ferteis do oeste de Sergipe, por tratos bem escolhidos das bacias
dos rios Itapicuru e Paraguaqu. Quase nada se sabe da somatologia
do Cariri, alkm de que tinha estatura baixa e cabega curta. A sua
cultural, porem, 6 bem melhor conhecida, como veremos oportunamente.
Por enquanto, basta referir que, como neolitico, praticava a agriculture
e usava uma ceramica relativamente desenvolvida, embora bem inferior
a dos Aruaques e Tupis.
A familiar decompunha-se em 4 dialetos seguintes:
1) Kip6a, na serra dos Cariris;
2) Dzubucua, no rio Sao Francisco;
3) Camuru, falado na aldeia de Pedra Branca, na Bahia;
4) Sabuja, na serra da Chapada, na Bahia.
Estes dialetos foram mais ou mencs estudados, especialmente
os dois primeiros. Possivelmente devem ter existido outros, que se
perderam. Os indios dos Cariris Novos, no Ceara, provavelmente
usavam um dialeto algo diferente dos referidos, como alguns top6nimos
deixam suspeitar>. (Thomaz Pompeu Sobrinho PRE-HISTORIA
CEARENSE).
HA duas regi6es nordestinas com a denominaqao de Cariri.
Uma fica na Paraiba, em zona de natureza inteirameate diferente da
do Ceara, e onde impera a caatinga braba, e outra, no sul do Ceara.
A regiio cearense recebeu o nome de CARIRIS NOVOS, uma vez
que foi conhecida e colonizada ap6s sua hom6nima paraibana.
Thomaz Pompeu Sobrinho, autoridade incontestavel no assunto,
e de parecer que os primeiros grupos de indios Cariris estabelece-
ram-se no sul do Ceara, provAvelmente no IX e X seculos da era
crista. Vieram do Sao Francisco, onde teriam chegado no seculo
IV e V, conforme a mesmo cientista e emerito pesquisador. (1) 0
seu caminho foi o do Riacho da Brigida e do Pagefi, o mesmo que,
em parte, seria utilizado pelos povoadores brancos, ap6s a descoberta.
Como sucedeu mais tarde com o colonizador, as recursos naturals da
terra, corn suas fontes a jorrarem perenemente, foram convite eficaz
ao invasor aborigena a fixar-se na terra, de ac6rdo cam as primitivas
condig6es de vida selvagem.
De conformidade com Estevao Pinto, autor de INDIGENAS
DO NORDESTE, os Cariris dividiam.se, de acardo com os respe-
ctivos dialetos, nos grupos: Tremembes. Pacajus, Ic6s, Cariris, Caries,
Jucas, Genipapos, Jandifs, Sucurus, Garanhuns, Choc6s, Vouves,
Filnis, Acenas, Romaris. Fora dresses grupos havia os Calabagas,








Curianes, Quixerefs, Icosinhos, no Cariri Cearense e circunvizinhanca.
(Pe. Antonio Gomes, TA PROVINCIA>, Crato). Muito influiram os
antigos selvicolas na formagdo do Cariri. A pr6pria habitacgo do
pobre 6 copiada, em part, do aborigene. A o mocambo, nome de
origem africana, que nos veio de Pernambuco, feito de palha de
palmeira e as paredes de muitas, ate do mesmo material, encontrado
em abundancia nas interminaveis matas de babaqus do sul do Ceara.
Em desconf6rto, pouco supera ao selvagem, o morador dos sitios ou
dos subfirbios citadinos.
Muitos dos utensilios domesticos nos vieram dos habitantes
primitivos das selvas. A ceramica i filha ainda do t8sco Cariri. No
mato, as populagces se serve ainda das cabagas, ciias e coites, tal
qual os nossos remotos antepassados do mato. O pil~o de socar, a
urupemba, abano, esteira de palhas de palmeira e mil outras coisas
que se integraram A civilizagao sertaneja e mesmo das capitals, vie-
ram-nos do selvagem.
A cultural da mandioca, cor prepare da farinha, foi outra
boa heranga do indio. Evoluimos pouco no tocante ao seu prepare.
Agora t que estamos introduzindo process mais modernizado na fa-
bricagio da farinha, com a utilizacao do motor para o acionamento
da roda do aviamento, o que jia melhoria no metodo da taba. Con-
forme diz a maioria dos historiadores, a pr6pria Missio do Brejo de
Miranda criou-se e cresceu a sombra de casa de farinha, em seu
sistema mais rudimentar. As cultures do milho e do algaddo foram
tambem conhecidas do indio. No Cariri, tudo concorria a vida facil
e primitive, cor a natureza a fornecer, em abundancia, a macafba,
babac6, piqui, araag e outras frutas silvestres, al6m da caga farta
das matas, tudo isso nessa especie de paraiso terreal, cor dezenas e
dezenas de c6rregos, tiachos e extensos brejos.
Restam ainda, sensiveis vertigios da vida do selvicola por
estas passagens. Entre a praga da Se, bergo do Crato, e o atual pre-
dio em construgco da Faculdade de Filosofia, a Avenida Ant6nio
Luis, de quando em quando se tem encontrado, em escavag6es de
alicerces, igacabas e mais igagabas. Infelizmente nao se pode apro-
veita-las inteiras O trabalhador, ao descobri-las, julga estar diante
de uma botija, escondida por ricago da antiguidade, em sua fuga de
lutas armadas constantes. Sem mesmo examins-las cuidadosamente,
trata logo de arrebenta-las a enxadecos ou picaretas. Restam, apenas,
daquele tesouro que cobigavam, em sua vida de pobreza, ossos pulve-
rizando-se, em part, e cacos de barro, alguns cor desenhos bem
vistosos. Em todo o Vale Caririense, encontram-se colares de pedras,
silex ou machadinhas de indios, aos quais o povo chama sempre de
corisco. Sao bem feitos, contornados, atestando assim que seu pos-
suidor ja passava pela fase mais evoluida da pedra polida. Ha varias
inscriC6es em t8da a zona.
Em Exu, municipio pernambucano, vizinho ao Crato, encra.







vado em zona primitivamente povoada por indios da nacao Cariri,
quando se trabalhava,. h poucos anos, na rodovia, em ladeira da
Gameleira, foram encontradas tres igagabas, que tiveram o mesmo
destino das que sempre sio descobertas nesta region destrulio.
Numa delas, havia cachimbo de pedra entalhado corn o maximo de
perfeig5o, inteiramente em estilo inciico. Gameleira fica nas proxi-
midades do chamado Exu Velho, povoagdo fundada por Capuchinhos
e mais antiga que a Missio do Miranda, que deu origem ao Crato.
O objeto, pelo bom acabamento, mostra que tivemos, em tempos re-
motos, povoadores mais adiantados do que o aborigene Cariri, que
foi encontrado pelo colonizador, em fins do seculo XVII para o co-
maCo do XVIII. (2) Tambem podia se dar o caso de sua importaglo
cor os indios Cariris, em sua migracio da Amaz6nia para o Nor-
deste.
O element aut6ctone vive, ainda, no meio, atraves dos seus
top6nimos de riachos, serras, povoados, fazendas, sitios e, sobretudo,
na denominaggo de ingmeras esp6cies da rica flora e da fauna cari-
riense.
O indigena, que vivia aqui, como em outras importantes re-
gi6es nordestinas, era de bravura inexcedivel e a significaaio de seu
nome que algu6m diz ser covarde, apelido que Ihe f6ra dado pelos
tupis, nao passa de mentira indigna de registro.
Terrivel a resistencia dos Cariris, diz Capistrano de Abreu
em rCAMINHOS ANTIGOS E POVOAMENTO DO BRASILD,
etalvez a mais persistent que os povoadores encontraram em todo
o pais.
Para dome-los, foi precise que os atacassem no Rio Sao
Francisco, no Jaguaribe, no Parnaiba, por gene de Sao Paulo, da
Bahia, de Pernambuco, da Paraiba, do CearA>. (Irineu Pinheiro O
CARIRI).
Como vimos, atW bandeirantes paulistas tiveram de romper
longos e invios caminhos afim de destruir os mais bravos indigenas
que encheram as selvas do Brasil. E este destemor, provado em mil
lutas e vicissitudes, ficou tambem em seu descendente, depois do cal-
deamento cor o branco e, em pequena cota, com o negro. O mesti-
co do Cariri, pela sua afoiteza em lutas individuals, de cacete ou de
facas, cor o n6 na camisa, ou nos movimentos epicos da guerra da
Independencia, dos campos do Paraguai, do desbravamento da Ama-
z8nia. nos embates contra a natureza hostile, 6 autentico her6i nacio-
nal. 8 digno de ser amparado pelos poderes piblicos para que tanta
energia indomavel nao venha a socobrar, pela miseria coletiva.
Lord Cochrane, o almirante ingles a serving da independen-
cia do Brasil, chegou a conhecer alguns dos seus elements, em For-
taleza, no mes de outubro de 1824, quando abafou a Confederacio
do Equador no Ceara. No seu relat 6 rio, em certo trecho,
diz:







cPrevendo o perigo disto, expedi uma proclamacgo, onde
oferecia a quem o prendesse (TRISTAO) recompensa suficiente para
induzir os indios, que antes haviam sido seus sustentadores, a partir
em busca dele, resultando a vir em ser morto, e todos os seus se-
quazes apreendidos. Os chefes indianos, assim como a gente que
dEsses dependia, foram de grande prestimo na restauracgo da ordem,
combinando robustes corporal superior cor atividade, energia, docili-
dade e f6rga de aturar que nunca falhava formando, cor efeito,
os melhores padres da raga. que eu vira na America Latina>.
(HIST6RIA MILITARY DO CEARA Eusebio de Sousa) (3)
Tais indios, que acompanharam Filgueiras e Tristio Goncal-
ves ate Fortaleza, durante os acontecimentos her6icos e trAgicos de
1824, naturalmente procediam do Cariri, pois constituiam a gente
de confianca cor que sempre contaram eles nas memoriveis lutas de
1822, 1823 e 1824. As tribes pertencentes aos Cariris apareceram,
contra ou a favor, nas expedic6es de Garcia d'Avila, o bandeirante
da Casa da T6rre e tamb6m acompanharam as duas facg6es em liti-
gio na terrivel luta entire as families Feitosa e Monte, responsiveis
por muita sangueira nos sert6es cearenses. Conforme afirma o Con-
selheiro Tristio de A. Araripe, os idigenas do Cariri e Inhamuns fi-
caram com a primeira, enquanto Calabagas e Ic6s agruparam-se em
torno dos Montes.
O escritor Gustavo Barroso, secundando outros historiadores,
fala-nos de uma *Confederagco dos Cariris) entire os seculos XVII
e XVIII, a qual ia pondo em perigo a colonizafio lusitana no Nor-
deste. O m6vel principal da luta foi a guerra sem tregua que o indio
fazia A criagio que considerava caca comum e que podia ser abatida
como qualquer animal do mato. Vejamos pequeno trecho de Gustavo
Ba:roso, que foi um dos maiores cronistas que o CearA ji possuiu,
recolhida de seu livro p6stumo "A MARGEM DA HISTORIA DO
CEARA."
"No Sul do Brasil, a famosa Confederacgo dos Tamoios, de-
cantada em prosa e em verso, ameagou a dominagio portuguEsa. No
Nordeste, especialmente no Rio Grande do Norte e no Ceara, a
Confederagco dos Cariris, embora muito menos falada, quase destruiu,
em seus fundamentos, a colonizagio lusa. Os Cariris eram uma na-
;go ind8mita e inquieta, de lingua travada, como se dizia, isto 6, que
nao falava o idioma tupi. Habitavam o sertso, mas ao long dos rios,
de suas cabeceiras se estendiam ate as proximidades da costa. Ocu-
pavam a vastissima regiio compreendida entire a margem esquerda
do Rio Sao Francisco e as quebradas das serras do Araripe e da
Ibiapaba. Combatidos pelos bandeirantes baianos da Casa da T6rre
de Garcia d'Avila, corn eles As vfzes se aliaram para dar caga a
outros indigenas seus inimigos.
Escuros, altos, (4) membrudos, ornados de penasnegras, car-
rancudos e tristonhos, figuram nos documents antigos corn s various








homes de Cariris, Carirts, Kiriris e at6 Alarves. Essas denominac6es
cabiam ao seu ramo principal. Cor outros ramos do mesmo sangue.
usavam apelidos diferentes. Evangelizaram-nos no alto do Sao Fran-
cisco, no seculo XVII, os capuchinhos franceses Martin de Nantes,
Teodoro de Luce, Bernardo de Nantes, Boaventura de Becherel,
Anasticio de Audierne e Jose de Ploermel. Deve-se ao primeiro a
interessantissima <(Relation succinte e sincere de la Mission du Pe.
Martin de Nantes, predicateur capucin, missionaire apostolique dans
le BrEsil parmi les indiens appeles Cariris,. No Ceara, aldearam-nos,
no seculo XVIII, os franciscanos italianos Carlos Maria de Ferrara,
Francisco de Palermo e Joaquim de Veneza, os frades carmelitas
fundadores de Missao Velha e Missao Nova e o Jesuita Jacob
Cochle. Todavia, em 1780, restavam poucos descendentes dessas tribes
bravias, que foram transferidos para as vilas de indios mansos das
cercanias da sede da Capitania do Cears: Paupina ou Messejana,
Arronches ou Parangaba, Cauchia ou Soure, onde foram, dentro de
algum tempo, absorvidos pela populaggo local.
O historiador cearense Catunda achava os Cariris de inteli-
gencia inferior e incapazes de receber o menor grau de cultural. Tam-
bem os considerava mais antrop6fagos do que os outros indios e sem
qualquer nocgo de propriedade. O Padre Mamiani que foi grande
estudioso do Cariri afirma que Ele nio praticava a antropofagia e
Beton que era habil na tecelagem do algoddo. Sua agriculture era
bem desenvolvida (Extr.)
Conforme assegura Walter Pompeu, no CEARA COLONIA,
o didleto Cariri 6 extremamente simples e, como o Tupi, fahavam-lhe
as letras do alfabeto F, L, J, Z, e V.


NOTAS: (1)


conjecturas se permitem. Os Cariris joram dos primeiros
imigrantes proto-malaios que abicaram as costas americanas
do Pacifico, nos istmos ou na Coldmbia. Teriam bem cedo
deixado a drea de caracterizaao tipoldgica. Isto ocorreu,
provhvelmente, quando ainda nela chegavam novas levas que
vinham de galgar os Andes. Admitindo que essays primeiras
levas na quarta corrente de povoadores alcanfaram as costas,
de onde se internaram, no continent, no curso de N W.
Amazdnico, ai pelos ultimos skculos diste milenio. 0 estacio-
namento na drea de jormaCao dos Brasdlidos (por ventura
dos pri-brasidos) nao teria sido interior a um milenio. Tudo
isto nos leva a conjecturar que Este povo chegara as margens
do rio S. Francisco, ha cerca de 1,5 mil/nios, portanto ainda
no primeiro quarter da era crista. Poucos seculor depois
estariam alguns grupos de Cariri estabelecidos no sul do
Ceard, isto 1, at pelo IX ou X seculo de nossa era. (PRE-
HIST6RIA CEARENSE Thomaz Pompeu Sobrinho.)








(2) dte cachimbo encontra-se no mu.eu do Crato, do Instituto
Cultural do Cariri, d6diva do Sr. Jost de Brito Bacurau.
(3) Apesar da expulsao dos indios da Vila Real do Crato, em
1780, Gardner, viajante ingles que visltou Crato em 1638,
encontrou-o. entire sua populavao de cerca de duas mil almas,
cna maioria indios, ou de seus descendentes mesti0os...
(4) Prejerimos ficar cor a vernao de Thomaz Pompeu Sobrinho
que diz o Cariri ser de estatura baixa. Sua descendencia bem
o demonstra.

BIBLIOGRA iIA a
O POVO, edicao comemorativa do Primeiro Centenario de Elevagio de Crato A
Cidade 17 de outubro de 1953. Artigo do Dr. Thomaz Pompeu Sobrinho.
ENGENHOS DE RAPADURA DO CARIRI J. de Figueiredo Filho Servigo
de Informagao Agricola, do Minist6rio de Agrieultura Rio, 1958
cITAYTERA>, 6rgao do Instituto Cultural do Cariri, Crato, 1961.
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Brasil Etene, Fortaleza, AgOsto de 1961.
OS INDIGENAS DO NORDESTE Estevio Pinto Companhia Editoria Na-
cional, S. Paulo, 1935
PR1-HISTORIA CEARENSE Thomaz Pompeu Sobrinho Editors Instituto
do Ceara Ltda. Fortaleza, 1955
0 CARIRI Irineu Pinheiro, Fortaleza, 1950
HISTORIA MILITAR DO CBARA Eus6bio de Sousa Editora Instituto do
Ceara Ltda., 1950
HISTORIA DA PROVINCIA DO CEARA Tristao de Alencar Araripe. Editor
Institute do Ceari, 1958
A MARGEM DA HIST6RIA DO CEARA Gustavo Barroso, Imprensa Univer-
sitaria do Ceari, 1962
CEARA' COLONIA Tipografia Urania, Fortaleza, 1929
cA PROVINCIA, Crato, julho de 1954
























II CAPITULO


DESCOBERTA DO CEARA. TENTATIVAS DE
COLONIZAQAO E DE CATEQUESE. POVOAMENTO
DO CARIRI. SESMARIAS E POSSEIROS

Conforme tudo indica e baseado em exaustivos e criteriosos
estudos de Thomaz Pompeu Sobrinho, publicados no nfimero LVIII
da REVISTA DO INSTITUTE DO CEARA>, a costa cearense
foi avistada, em janeiro de 1500, por navegador espanhol do ciclo do
<(El Levante por el Poniente. Trata-se de Vicente Yanez Pinzon que
f6ra capitio da caravela NINA, quando Colombo desvendou terras
do continent americano. No dia 26 de janeiro, avistou ele promon-
t6rio a que deu o nome de xSanta Maria de la Consolation>. Isso,
portanto, quase tres meses antes do verdadeiro descobridor do Brasil
- Pedro Alvares Cabral ter desvendado para o mundo e se apos-
sado em nome da coroa portuguesa, das Terras de Santa Cruz. Muitos
opinam que a zona costeira avistada por Pinzon nao era mais do que
o cabo de Sa.to Agostinho. Pernambuco registra o fato cor cunho
de autenticidade e ate com comemorag6es, no municipio de Cabo, sito
no mesmo Santo Agostinho.
A divergEncia. porem, em t6rno do assunto 6 bem velha.
solation 6 a ponta do Mucuripe (Ceara) e o Rostro Hermoso serA a
ponta de Jericuacuara (HISTORIA DO BRASIL Jodo Ribeiro).







Thomaz Pompeu Sobrinho, cor a autoridade de pesquisador
e de estudioso, de primeira ordem, nao se limitou s6 a conjecturar
afim de dar seu valioso parecer s6bre o caso. Assegurou que o cabo
Santa Maria de la Consolations fica em Aracati e o "Rostro Her-
mosor, de Pinzon, n2o & outro senao a ponta de Mucuripe, hoje
quase atingida pela cidade de Fortaleza.
( PINZON. MostrAmos ja, com abundancia de arguments e provas
limpidas, que este lugar foi nas i m e d i a 6 es da atual (PONTA
GROSSA ou da Jabarana, muito provAvelmente na enseada do
RETIRO, abrigada pelo promont6rio nomeado.
A referencia que os cronistas fazem as PENHAS VIZINHAS
da costa, no ponto de desembarque, e nas quais, como nas arvores
pr6ximas, o Capitao fez gravar os nomes dos reis espanh6is e os
seus, tambem condizem com esta localidade, visto como, em t6rno da
base do promont6rio, ha grandes blocos de arenito a flor da agua.
Tal circunstancia represent mais um bom argument em fa-
vor da identificacgo que indicamos neste trabalho.D (REVISTA DO
INSTITUTE DO CEARA. Fortaleza, 1944).
A realidade insofismAvel, no entanto. 6 que a descoberta ofi-
cial do Brasil coube ao Almirante Pedro Alvares Cabral, a 22 de
abril de 1500. Ojeda e Pinzon tocaram anteriormente ao nauta lusi-
tano, no litoral brasileiro, mas dele nao se apossaram. Mesmo que
o fizessem, em nome de el Rei de Castela, tal posse ficaria sem
efeito, pelo Tratado de Tordesilhas, de 1496, celebrado sob os auspi-
cios do Papa Alexandre VI, entire Portugal e Espanha, quase os
fnicos paises navegadores daquela 6poca.
Ap6s a descoberta cabralina e o sensacionalismo que produziu
em Portugal, este como que esqueceu o Brasil, fascinado com a pers-
pectiva das riquezas fabulosas do Oriente, cujo caminho f6ra aberto
por Vasco da Gama e outros nautas arrojados da escola de Sagres.
Os flibusteiros de todos os matizes foram, em seu comercio com os
selvagens da costa brasileira, os provocadores do despertar, para a
nova terra, dos reis portugueses. Para fazer face a esse estado de
coisas e melhor coloniza-lo, D. Joao III dividiu o Brasil em 12 capi-
tanias hereditarias, cabendo o Cearb, que era o menor quinhao, a
Ant6nio Cardoso de Barros. Nunca chegou a tomar posse das terras
que Ihe couberam. Tal doagco ocorreu em 1534 e compreendia ex-
tensfo de quarenta leguas de costa, entire Angra dos Negros, no rio
Jaguaribe, e o rio da Cruz, em Camocim.
mor da Fazenda da Bahia, e, tendo naufragado quando regressava a
Portugal (1556). em companhia do bispo D. Pedro Fernandes Sardinha,
nos Baixios de D. Rodrigo, foi devorado pelos indios Cahetes>. (HIS-
TORIA DO CEARA Cruz Filho).








Mesmo sem tomar posse de sua capitania, Ant6nio Cardoso
de Barros iniciou a serie de tragedias, que iria acompanhar a coloni-
zag5o e catequese cearenses, em seu alvorecer para a vida civilizada.
A tentative de colonizacio do Ceara ocorreu mais de um
seculo ap6s a descoberta do Brasil e o povoamento do Cariri se deu
cor atraso de cem anos, mais ou menos, da chegada dos primeiros
colonos lusos a costa cearense.
Os franceses infestavam entfo o litoral que se estendia entire
a capitanis do Ceara e do Maranhio. Facilmente se estenderam cor
o element indigena, conseguindo indisp6-lo contra o portugues, dono
official da terra. O Rio Grande do Norte, desde 1597, se encontrava
sob dominio consolidado lusitano. O Ceara ficava no caminho do
Maranhio e precisava ser conquistado, ainda mais porque o selvicola,
fugido das terras norte rio grandenses, recolhera-se mais para o
norte.
Pero Coelho, natural dos Acores e cor sangue nobre, ofere-
ceu-se ao governador Diogo Botelho para fazer tal conquista. Ndo
Ihe faltavam Animo e coragem. Em 1603 (1), cor duzentos indios e
sessenta soldados, chegou a foz do Jaguaribe, de onde partiu para a
serra da lbiapaba, depois de mil perip6cias. Deu combat aos fran-
cEses e seus aliados, comandados por Mambile. Apesar da aspereza
da jornada e da escasses de alimentos, conseguiu vence-los, fazendo
dez prisioneiros franceses e muitos indigenas. A vit6ria arranjou-lhe
a aproximag5o de dois chefes tabajaras ex-inimigos Juripariguacu e
Irapuan que, dai em diante, se tornaram fieis amigos dos lusitanos.
Pero Coelho tentou ainda alcangar o Maranhio, retrocedendo do rio
Parnaiba, pelas dificuldades de t6da a ordem cor que se deparou.
Em seu ret6rno, na barra do rio Ceara, fundou a povoagdo de Nova
Lisboa, dando o nome da regido de Nova Lusitania. Em busca de
soc6rro, voltou A Paraiba, deixando ali Simio Nunes cor 45 homes.
Regressou em 1705. Os auxilios prometidos pelo governador geral
nunca Ihe chegaram. Ja acompanhado da familiar e na impossibilidade
de manter-se naquele local, sem qualquer recurso, transferiu-se para
o foz do Jaguaribe, onde fundou o forte de Sao Lourengo. A situa-
cio continuou na mesma desolagdo ate que seus companheiros de
jornada o abandonaram em busca do Rio Grande do Norte. Vendo
ser impossivel permanecer naquele local, acompanhado de sua familiar
e dos amigos que ficaram fieis, o capiiao-m6r empreendeu a viagem
de volta para o Rio Grande do Norte, pela praia, e isso no ano es-
casso de chuvas de 1705. Morreram-lhe filhos e companheiros, pala
inanico. Animados pela dedicagco de sua esp6sa. D. Tomasia, to-
dos esquAlidos, alcancaram Natal.
Acompanhou-o na espedigco ao Ceara o jovem de 17 anos,
Martins Soares Moreno que, adquirindo a esperiEncia no trato cor
os indigenas e criando amor a nova terra, transformou-se, tempos de-
pois, no verdadeiro colonizador do Ceara. A expedig~o de Pero Coe-








lho, apesar das mil vicissitudes c6m que se deparou, foi acusada de
maltratos ao selvicola. Os prisioneiros feitos por Pero Coelho, em sua
primeira estada no Ceara, foram expostos a venda, ate que o Gover-
no Geral as libertou.
Com a tentative de catequese das terras cearenses, os resul-
tados tamb6m foram desastrosos. A missao foi confiada aos jesuitas.
Eram eles os padres Francisco Pinto e Luis Filgueiras, filhos de
Portugual. Animava-os acendrado espirito apost6lico da Congregagao,
fundada por Santo Inacio de Loiola e tao proveitosa A civilizag&o e
a evangelizag~o dos incolas sul-americanos. O campo de acAo deve-
ria ser tamb6m o mesmo de Pero Coelho, a zona costeira do Ceara
e do Maranho. Como media de precaugco, nao trouxeram soldados
brancos no meio de sua gene. Preferiram apenas os indios ja cate-
quizados. Sabiam que, entire os indigenas, reinava 6dio terrivel ao lu-
sitano, disseminado pela gene de Pero Coelho. Fundaram eles Mes-
sejana e Caucaia. Depois de march penosa, desembarcando na foz
do Jaguaribe. alcancaram sua primeira meta a serra da Ibiapada.
Foram bem recebidos pelos indigenas Juripariguacu e Amanay, mas
se tornaram infrutiferam suas tentativas de apaziguar os indios hostis
aos lusos, como os Tacarijus. N5o esmoreceram, entretanto. Depois
de quatro meses de permandncia em meio amigo, mesmo cercado da
pobreza que reinava ali, em consequEncia das lutas anteriores, pros-
seguiram a jornada para o Maranhao. A 11 de Janeiro de 1608, fo-
ram, in6pinadamente, atacados pelos Tacarijus, sendo o Padre Fran-
cisco Pinto morto a golpes de tacape, que Ihe esfacearam o cranio.
O Padre Figueira, que tinha se ausentado do local, escapou e p6de,
mais tarde, se apresentar na Barra do Ceara, onde existia o Forte
de S. Tiago, fundado por Pero Coelho em sua efemera Nova Lisboa.
Foi depois para o Rio Grande do Norte, em companhia do Padre
Gaspar de Sdo Peros, em embarcacao que Ihe mandou Jer6nimo de
Albulquerque. Nao escapou a sorte de seu companheiro Padre Fran-
cisco Pinto, pois, em 1643, quando ia evangelizar o Maranhio, com
outros irm5os de habito e martirio, morreu em naufragio, sendo de-
vorado pelos indigenas Arauans, da ilha de Maraj6. O Padre Fran-
cisco Pinto foi enterrado em Ubajara, assistido por muitos indios,
entire os quais o future chefe Camarao (J. Valdivino Noc6es
de Hist6ria do Ceara, de Filgueiras Sampaio).
Em 1612, foi que Soares Moreno, seguido, apenas, de seis
soldados e um capelio, aportou A antiga feitoria de Pero Coelho pa-
ra colonizh-la. Animava-o muito boa vontade e a esperiencia no tra-
to com o indigena, pois, muito Ihe valeu a amizade com o cacique
Jaca6na. Foi na Epoca em que Diogo Batelho era o oitavo governa-
dor geral da colonia. Foi nomeado capitgo-mor do Ceara e fundou a
forte de S. Sebastigo, na Barra do Rio Ceara e a ermida de Nossa
Senhora do Amparo. Martins Soares Moreno cooperou eficazmente
na luta contra os franceses, no Maranhio, sob as ordens de Jer8nt-
mo de Albuquerque, isso no ano de 1613. Chegou a desembarcar na








Ilha de Sao Luis, mas, ao tentar reunir-se as f6rcas de Jer6nimo de
Albuquerquo, ventos obrigaram-no a ir a Sao Domingos e de li &
Espanha que, entio, dominava o Brasil. Retornou ao Ceara e fez
parte da expedicgo contra os franceses, em 1615, sob o comando de
Alexandre de Moura. Tendo adoecido, tentou voltar a Portugal, quan-
do foi aprisionado por nau francdsa que o conduzia A Franca. (2)
Conseguindo libertar-se, voltou ao Ceara em 1621, sendo bem rece-
bido pelos indigenas. Introduziu em sua capitania a criagio do gado,
a cultural da cana de acicar e outros melhoramentos.
Mas, Soares Moreno tinha espirito irrequieto de guerreiro
nato. Em 1631, deixando seu sobrinho, Domingos da Veiga Cabral,
a frente da Capitania, foi, cor alguns indios, para Pernambuco, afim
de juntar-se a Matias de Albuquerque na luta contra o invasor ho-
landes. All, desempenhou papel saliente na campanha que mais tarde
libertaria o Brasil. O General Carlos Studart, estudioso da hist6ria
do Nordeste, da-lhe papel de -elevo, baseado em documents irrefu-
tAveis, na guerra contra o batavo. (ESTUDOS DE HISTORIA
SEISCENTISTA Fortaleza, IV n0 da revista ITAYTERA -
Crato)
Soares Moreno, dos maiores vultos que Portugal nos mandou,
foi o verdadeiro iniciador da colonizacio do Ceara. Possuia t6das as
virtudes de administrator de terras, em seu despertar para a civiliza-
cgo. Mas, era military, acima de tudo. Foi o guerreiro branco do ro-
mancista Jose de Alencar em sua IRACEMA, que e verdadeiro poe-
ma ao Ceara nascente. A verdade, entretanto. como os fatos bem
demonstraram, 6 que, cor franceses no Maranhao ou holandeses em
Pernambuco e noutras paragens, o CearA nao poderia ser colonizado.
Estaria sempre sujeito a invasoes, como aconteceu, rApidamente, cor
os primeiros, ou em ocupag6es mais demoradas, como sucedeu cor
os flamengos. Martins Soares Moreno, ao dar combat sem treguas
aos invasores ate que desapareceram de uma vez do solo brasileiro,
deu, assim, a melhor contribuigE o para que a capitania pudesse ser
povoada, sem qualquer embarago de ordem externa.
Por duas vezes ocuparam os batavos as terras cearenses.
Entre 1637 e 1644, ano em que os indios se rebelaram contra o seu
dominio, massacrando t6da a sua guarnicgo. A outra ocupacio foi
a de Matias Beck, em 1649, quando se estabeleceu as margens do
Pajefi, fundando o forte de Shonenborch. Cor a capitulacgo flamen-
ga da Campina do Taborda, em 1654. em Recife, Alvaro de Azeve-
do Barreto ocupou a direc~o da Capitania do Ceara, nomeado pelo
governador de Pernambuco. Fortaleza p6de expandir-se livremente
em t6rno do forte fundado pelos holandeses e reconstruido pelos lu-
sitanos, cor o nome de Nossa Senhora da AssuncAo. A causa do
Brasil f6ra vencedora e o Ceara poderia crescer a sonbra da Reli-
giio em que nasceu e se civilizou.
O Cariri, no sul da capitania, teve colonizagdo diverse da








parte litoranea e vizinhangas no Ceara. Sua catequese tamb6m nao
foi obra dos evangelizadores, filhos de Santo InAcio, que tanto fize-
ram para a civilizagio do Brasil. Seu hospicio, na serra da Ibiapaba
e o outro em Aquiraz, fundados, respectivamente, em 1721 e 1725,
nao tiveram atuagco no sul da capitania. Foram outros audazes mis-
sionfrios que levaram a semente da fe aos selvicolas, constituindo-se
nos seus principals aldeadores e maiores elements de progress.
O Cariri foi alcangado pelos povoadores do chamado ciclo
da civilizagco do couro. (3) Vieram da Bahia, de Sergipe e Pernam-
buco, pelo mesmo caminho palmilhado outrora pelos selvicolas na
pre-hist6ria o S. Francisco. Muitos alcangaram o riacho dos Por-
cos, dai se bifurcando para o Jaguaribe, ou penetrando nos terrenos
ferteis ao sop6 do Araripe. Alguns chegaram-nos pelo caminho do
Pagefi, de Pernambuco, ou o riacho da Brigida, afluente do brasileiro dos rios) No lado pernambucano tinhamos povoag~o, fun-
dada por capuchinhos, em 1705, tendo apenas a serra do Araripe de
permeio, a separi-la do lado de ca, no local onde se fundou a mis-
sao do Miranda que, depois, quando vila, recebeu o nome de Crato.
Foram criadores, que atravessaram invios sert6es em busca
de pastagem para o gado e cor a ansia de disseminar a criaglo, os
pioneiros da colonizagco caririense. O Sao Francisco foi sempre o
disseminador da civilizacao no Sul do Ceari. Vieram-nos de l os
primeiros colonos, jA brasileiros, caldeados na Bahia, Sergipe, Ala-
goas ou Pernambuco. Trouxeram-nos dali sua experiencia civilizadora,
cor o gado vacum, cavalar e caprino, Fixados na terra, transplanta-
ram para a regiao, a cana de agfcar, cor seus engenhos de rapadu-
ra, trazendo-nos algo do que aprenderam no Rec6ncavo ou na mata
de Pernambuco. Daquelas paragens, vieram, depois, o gado zebu pa-
ra a melhoria das especies bovinas, e o mestigo holandes, criado as
margins sfofranciscanas, pelos sertanejos de Alagoas. Finalmente, ja
em 1961, em pleno seculo XX, chegaram-nos, do rio civilizador, de
sua cachoeira, agora transformada em geradora de eletricidade, os
fios que hio de cooperar decisivamente para a emancipag~o econ6-
mica do sul do Ceari.
A Catequese igualmente nos velo das mesmas bandas, prin-
cipalmente de Pernambuco, cor seus denonados capuchinhos civiliza-
dores pelo Evangelho, de t6da a zona sao franciscana. No Cariri,
foram os barbadinhos do Hospicio de Olinda que, na zona, exerceram
o mesmo papel dos jesuitas no norte do Ceara.
Deixemos falar Irineu Pinheiro, na escrita em cooperacgo cor J. de Figueiredo Filho, A pAgina 29, da-
quela monografia:
aA principio, 6ramos terra desert, coberta de luxuriante ve-
getaCio, cheia de aguas que brotavam das nascentes do Planalto do
Araripe, rica da caga, mel e frutas silvestres. Pasmaram os primeiros








povoadores, Manoel Rodrigues Ariosa, os Lobatos, Gil de Miranda e
outros, da imponencia e da beleza da regigo que, de future, tomaria
o nowe de Cariri.
Ja falecido, em 1716, talvez no sitio S5o Jose, onde morava,
nao se gozou muito Ariosa da sesmaria que Ihe concederam em 1703.
Vejam a Carta de data e sesmaria, firmada em 30 de setembro de
1716, em favor de Jose Gomes de Moura, Baltazar da Silva Vieira e
Germano da Silva Saraiva, no tempo do Capitio mor Manoel da
Fonseca Jaime.
Depois, fomos a Missao do Miranda (o autor narra a hist6-
ria, como se fsse o pr6prio Crato a conti-la), em seguida, a humil-
de aldeia do Brejo do Miranda, habitado por indios catequizados por
capuchinhos italianos, que Ihes ensinaram a rezar e exaltar, em sua
lingua barbara, a gl6ria de Deus e da Virgem.
Chamou-se Carlos Maria de Ferrara o frade que os aldeou,
em lugares onde se acha o Crato, doados, em 3 de dezembro de 1743,
aos indigenas, pelo Capitao mor Domingos Alvares de Matos e
sua mulher, Maria Ferreira da Silva, filha do Capitao Ant6nio Men-
des Lobato, grande sesmeiro do sul do Ceari.
Redigiu a escritura de doaico Roque Correia Marreiros, po-
voador do vale do Cariri. No seculo XVIII, casaram-se descendentes
de Marreiros e de Joso Correia Arnaud, um dos fundadores de
Missao Velha.
No dia 3 de dezembro do mesmo ano de 43, assenheou-se o
missionArio das terras dos indios, como seu procurador, nelas pondo
sinais e balisas, gritando em alta e inteligivel voz se havia quem pu-
sesse embargo a dita posse). Copiamos IPSIS VERBIS a frase as-
peada do auto de posse, escrito por Marreiros.
As primeiras sesmarias no Cariri datam dos anos de 1702
e 1703. A verdade 6 que tais sesmarias foram concedidas pelo
motive 16gico das terras do vale ja serem conhecidas por alguem que
as tenha percorrido cu mesmo se fixado, isoladamente, em fins do
seculo anterior. Conv6m, mais uma vez, acentuar que, desde 1705, ha-
via nicleo povoado em Exu, ao sope do outro lado do Araripe, em
Pernambuco.
Poucos foram, outrossim, os sesmeiros que tomaram posse e
exploraram as terras que Ihes foram concedidas, Colonos ou possei-
ros, como chamamos presentemente, fixaram-se e radicaram-se na re-
giao. Firmaram-se no meio, compraram seu trato de solo, ou arren-
daram para cultivA-lo, aos donos que moravam distant, ou o adqui-
riram por direito do usucapiso. O drama daquele tempo era, em
part, mais tranquilo do que o que se possa agora em certas regi6es,
a exemplo do Parana. As condig6es da luta pela existencia mais
amenas, sem a concorrencia atual, tornavam a posse relativamente







mais pacifica do que no present, cor a populagio j6 aumentada e su-
as intrincadas quest6es socials sem soluco plausivel, dentro de leis
justas. O que as companhias de compras de terrenos fazem nao e
mais do que repetir, em sentido mais amplo, relative ao tempo, o
que se processava entire os sesmeiros dos seculos passados. Adquiri-
am terras em sert6es longinquos, ficavam residindo nas metropolis e
aguardavam que se valorizassem, afim de usufruirem lucros mais avan-
tajados. A pr6pria evolugo da agriculture e da pecuhria exigia tra-
balho do home que vivesse em contact direto cor a gleba. E isso
foi o que aconteceu outrora, nos seculos XVIII, mesmo para o bem
da colonizacio do interior brasileiro.
Quais os primeiros povoadores do Cariri? Qual a causa que
impulsionou o pecuarista primitive a procurar o sertfo, ate atingir o
vale que se estende ao sope do Araripe? Nao foram as minas o atra-
tivo principal da penetracio. Apareceu mineragCo de ouro, em Missio
Velha, j& quando se processava o povoamento regular da zona e deu
resultado inteiramente contraproducente. Foi a expansdo da criacgo
de gado e, logo depois, da agriculture, cor t6das as possibilidades
que o solo fertil caririense oferecia ao alienigea, as causes primordiais
da colonizacio sul-cearense.

Teria feito o Cariri parte de sesmaria dos bandeirantes da
Casa da Torre da Bahia os Avilas? Isto nunca foi comprovado e
sua presence, nestas paragens, permanece inc6gnita. Suas terras, en-
tretanto, alcancaram o vizinho municipio de Exu. Leonel de Alencar
Rego, av6 da heroin Barbara de Alencar, da revolu~co de 1817, de
Crato, fundador da fazenda Caicara, foi rendeiro da familiar Avila.
Conforme dados colhidos pelo Pe. Gomes de Araijo, incanshvel pes-
quisador de arquivos, nunca foi encontrado no Cariri qualquer des-
cendente dos pioneiros da Casa da Torre. Entretanto, hi, na regiao,
varias families oriundas diretamente de Caramuru e sua esp6sa Pa-
raguassu.
Em t6rno do povoamento do Cariri por troncos baianos, nao
hi melhor depoimento do que a tese que defended o mesmo Pe. An-
t6nio Gomes de Arauijo, no PRIMEIRO CONGRESS DA BAHIA,
para comemorar a fundago da primeira capital do Brasil e a insta-
laCio do Governo Geral. Recebeu o nome de (tCONCURSO DA
BAHIA NA FORMACAO DA GENS CARIRIENSE e foi publi-
cada nos ANAIS DO PRIMEIRO CONGRESS DE HISTORIA
DA BAHIA, 1950, e em ITAYTERA, revista do Instituto Cultural
do Cariri Crato, 1955. Vejamos seu preambulo:
cEncalgando indios belicosos, ou movidos pela ansia da fun-
dag~o de currais de vacaria, os sapat6es dos sertanistas despertaram
o Cariri nos fltimos decenios do seculo 17.
Iniciada a centfiria seguinte, abriu.se a fase de povoamento
da regiao, afluindo os povoadores pelo rio Salgado, deixando atras








o Jaguaribe, e pelos caminhos que, da antiga fazenda Vila Bela, ho-
je Serra Talhada, e da povoacio de Cabrob6, localidades pernambu-
canas, convergiam e se fundiam nas alturas de Jati (outrora Macap&),
passando, o primeiro, por Belmonte, hoje Manicobal, e o segundo,
por Salgueiro. Desse ponto de fusao, rumava-se para Jardim e terra
dos atuais municipios de Porteiras, Brejo Santo, Milagres, Mauriti e
Missfo Velha. Eram as estradas, VILA-BELA CARIRI CA-
BROBO CARIRI.
Exu, municipio nos baixos pernambucanos da Serra do Ara-
ripe, ocupado no seculo 18 pelos colonizadores, ligava-se ao citado
Cabrob6, por uma estrada que marginava o lado esquerdo do riacho
Brigida, atraves das fazendas Terra Nova, (Saco do Martinho, da
qual nasceu estrada CABROBO-EXU.
Do referido Exu, vencido o acesso da serra do Araripe, o
qual depois se chamou ((LADEIRA DA GAMELEIRA, rampa pro-
duzida pela erosio pluvial e sucessivamente usada pelos indios e
brancos do referido Exu, repito, vencidos esse acesso e a chapa-
da, descia-se no lugar atualmente denominado (cLADEIRA DO
FRANCISCO GOMES>>, no sitio do mesmo nome, municipio de Cra-
to. Era a estrada EXTII-CARIRI.
Desde tempos imemoriais, as precipitag6es pluviais abrem,
lenta e progressivamente, rampas nos bordos elevados da referida
serra, para oferecer acesso ao home desmunido de veiculo. Foram
as veredas-ladeiras dos pre-colombianos, depois praticadas por sertas
nistas e colonos, rampas suaves: Boca da Mata (Jardim) e Taboca-
em Bodoc6, Pernambuco. (4)
Os amerindios n5o habitavam a chapada do Araripe, face a
ausdncia de reserve d'agua, circunstancia que, ainda hoje, imprime
ao plat6 a fisionomia de quase desert demografico. Os dois unicos
e temporarissimos reservat6rios, eMalhada Funda> e (Cacimbas, for-
mados por abaixamentos da planicie e que parecem de impermeabili-
dade natural, realmente receberam pisoteio secular do casco de gado.
Se alguma vez a indiada concentrou-se transit6riamente na chapada,
o fez sob pressio armada pos colonos.
As veredas indigenas, em seguida, estradas dos brancos, JA-
GUARIBE CARIRI, VILA BELA CARIRI, CABROBO -
CARIRI e CABROBO EXU CARIRI, conduziram desbravadores
e povoadores para esta region; pernambucanos, sergipanos e baianos,
entire outros.
Os colonos baianos, se nao foram aqui os principals titulares
das terras de sesmarias, co-povoaram por acostamento, aforamento e
compra aos sesmeiros, acambarcadores de latiffndios de leguas. Con-
sagraram-se, assim, fecundos e co-fundadores do Cariri, depois de








co-partes em sua revelaaio ao s6pro expansionista da Casa da T6rre
da Bahia, a qual requereu sesmaria no Ceara, conforme o identificou
RENATO BRAGA, professor catedratico da Escola de Agronomia
do Ceari.
Os baianos atuaram sobretudo nos vales de Missio Velha e
Barbalha, em sua tarefa de participar na formacio 6tnica, social e
econ6mica da nova patria que adotaram.
Desses her6icos filhos da terra de Moema, fixados sob o cdu
caririense, ao long do seculo 18, seculo das origens e formacio so-
cial do Cariri fiz o present rol, palida resenha, que fica muito
aquem da realidade. Deficientes as fontes escritas consultadas, quan-
to ao tempo, pois partem de 1742, quarenta anos ap6s o povoamento
da terra. Os arquivos eclesiasticos consultados acham-se desfalcados
de muitos de seus livros, considerados perdidos. O arquivo paroquial
de Crato nao possui um (nico livro relative ao s6culo 18, senao o
do Tombo, datando a criagio da freguesia de marco de 1762. 2 um
exemplo. Ademais, nio me foi ensejada consult aos arquivos pIbli-
cos e aos de todos os cart6rios do Cariii. Por isso, numerosos colo-
nos baianos, estabelecidos na zona durante o s6culc 18, escaparam ao
present fichario, podendo o nuimero dos registrados ser dobrado, sem
exagero, para cobertura da deficiencia.
Recolhi mais de quatrocentos nomes duma area correspon-
dente aos territ6rios dos modernos municipios de Crato, Barbalha,
Milagres, Brejo Santo e JuAzeiro do Norte, area que registrou 78 ba-
tizados de 1742 a 1747, o que represent u'a m6dia de 1.800 a 2.000
habitantes. Se considerarmos esses dados e mais o fato de a popula-
c5o apresentar-se muito mais rarefeita nas decadas anteriores a de
1740, concluimos nio ter sido somenos a cota de baianos integrada
na formag o do Cariri, naqueles tempos recuados. Todo o Cariri, ex-
clusfo feita das areas atuais dos municipios de Quixark, Araripe e
Campos Sales, deu 600 batizados, de 1748 a 1762.
Os colonos baianos, lado a lado de seus congeneres de outras
procedencias, foram os autenticos povoadores do Cariri. Os sesmeiros
representaram o papel de posseiros: acambarcaram as terras e afora-
ram-nas e venderam a retalho. Cor exceio do coronel Joao Men-
des Lobato, assim agiram os sete outros Lobatos, que chegaram a
possuir na regiao, de 1714 a 1725, setenta leguas de terra em quadro.
O coronel Joao de Barros Braga foi outro grossista. S6 uma
percentage muito reduzida dresses latifundiarios de espirito fenicio,
exploraram e povoaram os seus sesmos pessoalmente ou por interme-
dio de imediatos, quais, por exemplo: Ant6nio de Sousa Goulart e
JosE de Sousa Goulart, em Barbalha; ou Joao Gongalves Sobreira e
o capitfo Francisco Pinto da Cruz, em Milagres. S6mente uma prova
em contrario, a base dum levantamento das transmiss6es de proprie-
dades de terra no Cariri desde a primeira parte do seculo 18, levar-
me-ia a outra conviccgo.








Nao sei de families caririenses portando nomes dos primitivos
sesmeiros. (5) Mas, muitas families existem cor os nomes dos hu-
mildes troncos originarios, que aforaram e compraram a retalho as
terras de sesmaria. Sio elas, entire outras, os Pinheiros, os Esmeral-
dos e Alencares, de Crato; os Sobreiras, de Juszeiro do Norte; os
Sampaio, Callou, Coelho, Correia, Filgueiras e Sa Barreto, de Bar-
balha; os Cruz, Santana e Landim, de Missio Velha; os Gouveias,
os Neves, os Pereira de Carvalho, de Jardim; os Furtado Leite, Fi-
gueiredo e Araijo Lima e Martins, de Milagres, Mauriti e Brejo
Santo. Os troncos dessas families fixaram-se no Cariri, na primeira
e segunda metade do s6culo 18.
Nao se isolou, porem, o Cariri do restante do CearS. Aproxima-
ram-se os sertanejos atraves do primeiro amplexo cor seu irm5 de capi-
tania pelos Inhamuns e pelo Jaguaribe. Ja nio foram populav6es diferen-
tes que se encontraram e se fundiram. Foram tambem homes do ciclo
do couro, forjados nos sert6es, na criacio e na lavoura que se de-
param uns com outros, com os mesmos sentiments, adquiridos na
dura lida sertaneja, long do literal. Tudo isso para a construgAo do
CearB, cor os mesmos elements etnicos, vindos do sul ou do nor-
te, dentro da pujante unidade national.
Como veremos mais adiante, Ic6 teria de exercer relevant
papel civilizador do Vale, servindo assim como veiculo principal de
aproximagio entire o sul e o norte da provincia. E assim p6de corri-
gir galhardamente certos Erros que poderiam exercer acgo perniciosa
entire as duas zonas, povoadas por elements procedentes de regi6es
diversas.
O folclore do Cariri, conservado quase puro ainda, apesar
dos abrolhos surgidos em seu caminho, ainda 6 outra grande prova
de que a colonizaaio do vale foi realizada por elements que nao
procederam do norte cearense. Em Fortaleza e arredores nao se co-
nhece o zabumba-de-couro. R quase desconhecido ali o maneiro-pau.
Nunca se dangou o milind6 nas praias cearenses e circunvizinhancas
Todos os folguedos, difundidos no sul do Cears, encontram,
no entanto, similares em Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia, e
isso corn raizes multiseculares. E mais uma prova da version vitoriosa,
defendida pelo historiador Pe. Antonio Gomes de Araijo, que de-
monstrou matemAticamente, tal influencia, com a presenga, no Cariri,
de mais de quatrocentas families de origem baiana e duzentas e tan-
tas sergipanas. Alem disso, ha o entrelagamento secular entire cairi-
enses e sertanejos pernambucanos.
A Bahia esta present na vida do Cariri, apesar dos anos
que o separam do contact civilizador da TERRA MATER do Brasil.
Disse-me o mesmo Pe. Ant6nio Gomes de Aradjo que, nas ribeiras
do Riacho dos Porcos, quando sopra o vento sul, o povo chama.o
simplesmente de BAIANO. HA raga de peru, aclimatada na zona








caririense, a qual 6 chamada de ebaiano). E o motive musical o
baiao onde teria nascido? Desde tempos antigos que 6 conhecido
nestas regi6es e vizinhanga, entire tocadores de fole, cantadores, vio-
leiros, zambumbeiros e pifeiros. Estes ainda executam o baiio primi-
tivo e o saracoteiam, cor multiplicidade de passes, conservado por
tradigio mais que secular. 0 termo BAIAO nao 6 mais do que cor-
rutela da palavra BAIANO. (O FOLCLORE NO CARIRI J. de
Figueiredo Filho).

NOTAS: (1) Em 1903, o Presidente do Ceard, Dr. Pedro Borges, genro
do Comendador Acioli, recomendou a todo o Estado que se
fizessem solenes comemoraCes do tricentendrio da tentative
de nossa colonizacao, por Pero CoElho. 0 entao intendente
do Crato, Jose Belim de Figueiredo, mandou erigir busto
confeccionado de pedra e cal por mestre Santos, no centro
da Prapa da Alatriz, atualmente da Se, onde Jica o jardim
Frei Carlos Maria de Ferrara. Deixemos a palavra cor Jos'
Alves de Figueiredo, em sua crdnica CRATO INSPI-
RANDO MEDEIROS E ALBUQUERQUE, do livro MULATA>, editado pela Imprensa Universitdria do Cear6,
1958, pdgs. 119 e 120:
signo, velo coberta de azar, traduzindo perjeitamente a Jata-
lidade que ptsou sdbre a cabefa de Pero. em vida, e que
vem influindo sinistramente, no destino do povo cearense.
Exposta aos olhos do pdblico, um moleque batizou-a cor o
nome pouco reverente de Joao Cotoco, e a maledicencia da
rua adotou-o corn satisjaaio.
Corn &ste pouco auspicioso comefo, rapido e Junexto
joi o seu Jim. Logo nor primeiros m&ses de inverno, o cho-
que de duar eletricidades contrdria, produziu um radio que,
desprezando os dois pridios proximos, muito mais altos, e
a elevada tdrre da Matriz, caiu sdbre Joao Cotoco, deixan-
do-o, cor o seu pedestal, em jragmentors.>
2) 'Le 6 decembre 1616, dit Asselines, un capitaine du Havre
de Grdce, appele Fleuri, amena a Dieppe, une prise qu'll
avait faite sur les Espagnols, et M. le Gonverneur ne vou-
lant pas que ces Itrangers, tant hommes que jemmer, misent
le pid a terre dans cette ville 11 it les fit passer Jusqu'au
batardeau et ensuite detenir prisioniers dans le jardin de
Afensiou>. Quant au capitaine il (ilegivel) en prisonnait le
nommJ Suarez qui se disait SARGEANT MAIURE a Marig-
nan, lequel y avail assistJ les Espagnols dans le combat
qu'ils y eurent centre les franfais.> Trecho de carta que Ca-
pistrano de Abreu escreveu, a 19 de junho de 1902, ao Ba-
rao de Studart em Fortaleza, na qual the dava noticia de ter








'encontrado o dia exato da prisao de Mlartins Soares More-
no, em publicafao de EUGENE GUENIN Paris, 1901
Capistrano de Abreu Pedro Gomes de Matos, 1953).
(3) ao chio duro, e, mals tarde, as camas para os parts; de
couro, tSdas as cordas, a ,borracha> para carregar hgua, o
moc6 ou aljorge para levar a comida, a maca para guardar
a roupa, a mochila para milhar o cavalo, a peia para pren-
de-lo em viagem, bainhas de jaca, as bruacas e surries, a
roupa de entrar no mato, os bangugs para o cortume ou pa-
ra apurar sal; para os arudes, o material de atgrro era le-
vado em couros puxados por juntas de bois que calcavam a
terra cor o seu peso; em couro pijava-se tabaco para o na-
riz. (CAPISTRANO DE ABREU Do livro CAPIS-
TRANO DE ABREU, de Pedro Gomes de Matos)
De couro eram antigamente as amarras das varas de en-
chimentos e dos caibros das casas, como pude verificar em ja-
zendas do Jaguaribe e na residencia duas vezes secular de
Bdrbara de Alencar, em Caipara, Exu-Pernambuco. Foi a
invasao de ratazanas, desconhecidas no interior do Brasil,
que ]orcou o serlanejo a nao mais utilizar o relho neste mis-
ter. Em Crato, em tempos recuados e ainda no comieo des-
te seculo, bois transportavam a pr6pria came de seus se-
melhantes, abatidos, do matadouro para o aFougue pdblico.
(J. F. F.)
(4) <0 segundo caminho, usado depois de 1650, buco h regiao dos cariris aldeados, jd a 40 lMguas para o
interior. 0 terceiro caminho joi o do gado, vindo do sertao
do Sao Franeisco, com os paulistas. Seguiu as eguas do
Pajea ate as nascentes e, dai, vencida a contra-vertente, des-
cia pelo curso do Pianc&> (Irineu Jojfily). Waste ultimo ca-
minho joi que deu acesso as terras do Ceard, atravs do vale
do Cariri, pela estrada que, ainda hoje, liga Pernambuco ao
nosso Estado, passando pelo municipio de ManiFobal, antigo
Belmonte, para entrar em Jati, ex-Macapd. De Vila Bela, atual
municipio de Serra Talhada, vinham as boiadas e comboeiros
para o Cariri, passsando por Salgueiro para, entao, entrar
em Jardim.> (HISTORIA DAS SECAS SMonografia n.
23 Joaquim Alves).
(5) cendentes, suas terras a outros, extinguindo-se, melanc/lica-
mente, no correr dos tempos, os nomes de Ariosa e Mendes
Lobato.
Nao sei de alguem, no sul do Ceara, que use, hoje
o apelido deste ou daqueles. (0 CARIRI Irineu Pinheiro).








SSbre este assunto, transcreveremos artigo do Padre
AntInio Gomes de Aradjo, de O POVO, de Fortaleza, edicao
comemorativa do primeiro centendrio de elevafao de Crato a
cidade, em 17 de outubro de 1953:


O CARIRI: SESMEIROS E POVOADORES

Nao parece exato conjundir os primeiros passes da
civilizafao no Cariri Ndvo cor os poucos sexmeiros que
aCambarcaram as terras da regiao logo nax duas primeirax
decdrias do sxculo XVIII.
A prop6sito da economic das sesmariax do Brazil,
algulm jh lembrou que, sobretudo no Nordexte, os titulares.
delays chegaram credenciados pelo ojicialismo aonde j6 se
fixara o povoador obscure, espontineo, ejetivo, lecundo, sem
titulo legal, porem munido de legiilmissimo tilulo de ocupante> e primeiro aproveitador das possibilidades da ter-
ra modalidade de propriedade individual que os governor
colonials diluiam nas concessxxe sexmeiras em vez de legali-
zarem-na, expul.ando, dessa maneira, o legitimo ocupante,
ou reduzindo-o a escravo ou joreiro.
0 sesmeiro nao constituia, muita vezes. simbolo de
precedencia em seux sesmcs, mas indice de usurpaCao sebre
os que ox haviam precedido e de exploragao xsbre aqueles que
chegavam depoix a solicitar um lugar ao sol nas terras
apambarcadas.
choviam as cartas de sesmaria.
Titular de sexmaria nao era quem estivesse disposto
a trabalhar um pedaro de terra, mas o home influence, que
sabia como requerer as cartax e possuia j6rpa bastante para
obtencdao do deferimento e da confirmarao.

Os governor opinavam de acdrdo corn as alegacjes dos
pleiteantes.
Que podia fazer o povoador humilde para a obtencao
de cartax diante dos governor distantex e que nao conheciam
a geografia do pais?
Dex.a maneira, alidx, J que a enjiteuse invadiu o
Braxil... pela impossibilidade que impedia o povoador obter
a carta da terra que era sua por direito de conquista, de
primeiro ocupante e pelo trabalho realizado.








Quando se fizer a hst6ria territorial do pals, sobretu-
do da regiio nordestina, hd de se verijicar... que /oi inisgnUli-
cante a proporgao de s'esmarias doadas aos povoadores ejeti-
vos da terra.
J4 6 tempo de escrever essa hist6ria que se detem na
casinhola de pindoba, no heroismo do home simples, que,
de perto, enjrentou os perigos da conquista e assegurou o
dominion da terra. (a)
Fazer hist6ria do Brasel pelos titulos das sermarias e
perpetuar a injuslila de uma explorafao antiga, tomando
em servifo, a javor do povoamento, o que nao deixou de
.ser urm ntrave... a leg2timidade das situaiesx adquirtdas pe-
to esjx6ro e sacrifcio dos povoadores efetivos. (b)
0 Carlri cearense, do Crato a Ribeira do Riacho dos
Porcos, joi afambatcado por alguns sesmelros, latijuddidrios
e parasitlrios, do tipo acima descrito e nas condivFes men-
clonadas, quais, por exemplo, o eel. Joao Barros Braga
e os Mendes Lobato.
Primeiros ocupontes da regiao na orden legal, nao o
joram, entretanto, no tempo e de jato.
Nao se distaneiaram muito de seus conggneres de ou-
tros rinctes do Nordeste.
Quando Antonio Mendes Lobato requeria (1714) a
jesmaria, correspondence ao actual municipio de Brejo Santo,
espesinhava o direito de am primeiro ocupanle: AMaria Bar-
bosa.
Na maioria, ~sese sesmelros se encheram, parasitarla-
mente, do produto dos arrendamentos e vendas em que reta-
Iharam os latijdndios que nada Ihes custaram.
0 CarNri Ndvo nao 6 criaao desses sesmeiros, porlm,
daqueles que, a retalho, Ihe foram absorvendo os extensos
Jeudos rurais, corn o que se Jundou a pequena propriedade,
base da grandeza desta parte do Ceard.
Gente humilde, mas de qualidade, os autenticos cons-
trutores da civilizafo nestas plagas, os quals nao agilaram
titulos de sesmarias, ergueram-se aspirando o oxigenio do
trabalho herdico, continue e Jecundo.
De comefo, joram quase que os eitelros e vaquelros de
suas pr6prias pessoas, e suas casas se caracterizasam pela talpa
e a cobertura de palhas. De pau, as engenhocas expostas ao
eol.









Seus decendentes construiram, em tioNlo e telha, casas
amplas, indice de ascensio econdmica e social, e dirigiram
turmas de empregados, construiram aglomerafoes socials,
assumiram a direcao political local e fizeram revoluces rei-
vindicadoras. Deram, final, ao Carirl esta Jisionomia su-
gestiva da hora present, a atrair as vistas de meio Brasil.
Dos sesmeiros, nada resta porque passaram sob esses
ceus como parasitas mete6ricos.
Os Jundadores vivem, na maioria, atrayvs de decendin-
cias vigorosas, que these continuam a obra fecunda, num es-
Jdrco ininterrupto e hercleo de quase 300 anos. Elas lhes
portam os nomes, podendo, alguns, ser indicados: os MAelo.
os Pinheiro, os Alencar, os Esmeraldo, os Landim, os
Sampaio, os Sd Barreto, os Quental, os Filgueiras, os Fi-
gueiredo, os Furtado Leite, os Cardoso, os Aradjo Lima,
os Cruz Neves e tantos outros.
Os sesmeiros do Cariri nao legaram families tradi-
cionais a terra que empalmaram.

a) Barbosa Lima Sobrinho 0 Devastamento do Piaui Brasiliana, Vol.
225, la. edigao Edit6ra Nacional
b) Autor citado, Publicag6es do Arquivo Vol. IV e V Recife Per-
nambuco, 1950,

BIBLIOGRAFIA s

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HISTORIA DO BRASIL Joao Ribhiro Livraria Francisco Alves la. edicgo.
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C1DADE DO CRATO Jos6 de Figueiredo Filho e Irineu Pinheiro Servico de
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ANA MULATA Jos6 Alves de Figueiredo Editbra Universitaria do Ceari. 1958
CAPISTRANO DE ABREU Pedro Gomes de Matos Edit8ra A. Batista
Fontenelle, Fortaleza, 1953
HISTORIA DAS SECAS Joaquim Alves Monografia n. 23, Edices do Ins-
tituto do Ceari, 1953
O CARItII Irineu Pinheiro, Fortaleza, 1950
O POVO* Edicgo de 17 de outubro de 1953, em comemoracvo do Primeiro
Centenario de Elevacio de Crato a Cidade. Forteleza.

























III CAPITULO


PRIMEIRAS VILAS DO CEARA. A MISSAO DO
MIRANDA PASSA A VILA, A PRIMEIRA PAR6QUIA
CARIRIENSE. A FUNDAqAO DE JARDIM

O Ceara, que f6ra das capitanias criadas por D. Joao III,
para melhor colonizaCio do Brasil, desde 1621 ate perto de 1700,
vivera sob dependencia total on parcial do Maranhao e, depo;s. de
Pernambuco. Segundo Varnhagem, o dominio maranhense perdurara
ate 1663, enquanto outros datam de 1656, dois anos ap6s a capitula-
cao dos holandeses na campina do Taborda, em Recife. Capistrano
de Abreu vai mais long, chegando a demarca-lo ja no crepfisculo
do seculo XVII. (1)
A verdade, porem, & que o Cariri cearense comegou a po-
voar-se e a nascer para a civilizaco, ja sob inteiro dominio da ca-
pitania de Pernambuco. Se a regiao apareceu e cresceu sob influxos
de povoadores sAofranciscanos e cor vinculos bem profundos cor
os sert6es pernambucanos, ficavamos, naqueles tempos, quase tao
pr6ximos de Recife, quanto de Fortaleza. As ordens ou leis nos po-
deriam chegar mais facilmente da metr6pole pernambucana, do que
mesmo da sede do Cear~ Grande. Comercialmente, o Cariri ligava.
se mais ao Ic6 que, por sua vez, abastecia-se pelo p6rto de Aracati,
cor navegag~o direta cor Recife. No ponto de vista religioso, os
Cariris Novos (2) dependiam do Hospicio de Olinda e de seu Bispa-







do. Os poucos carmelitas, mesmo egressos, que operaram no meio,
tamb6m procediam de Pernambuco. Ainda hoje, sio bem s6lidas as
ligag6es entire o estado vizinho e a zona sul-cearense. O Cariri fica
mais ou menos equidistante de Fortaleza, Recife, Salvador e Teresi-
na, constituindo-se o autentico centro geografico do Nordeste Brasi-
leiro. Essa influencia de Pernambuco fol decisive nos destinos cariri-
enses, notadamente nos movimentos revolucionarios independentistas e
republicans, no primeiro quartel do seculo XIX. Costumes igualmen-
te ficaram na region, oriundos das terras que se ligavam tio intima-
mente conosco, pela fronteira e pelo intercambio commercial intense,
que ainda sobrevive.
Em ordem cronol6gica, a primeira vila instalada, em terras
do Ceara Grande, foi a de Aquiras, que data de 25 de janeiro de
1700. O historiador Joo Brigido dos Santos assim se express em
aCEARA, HOMES E FATOSs:
c25 DE JANEIRO (1700) Procede-se a eleigco da primei-
ra camara do Ceara, a vila de S. Jose de Riba-Mar do Ceara, cujo
termo compreenria t6da a capitania. Foram eleitos os capitaes Ma-
noel da Costa Barros e Crist6vao Soares de Carvalho para juizes or-
dinarios; o tenente Antonio Dias Freire, Ant6nio da Costa Peixoto e
Joao da Costa Aguiar para vereadores, o capitao Joao de Paiva
Aguiar para procurador.
Estes individuos escolheram para sede da vila o lugar Igua-
pe (Aquiris), contra o voto do capitao-mor Francisco Gil Ribeiro, mas
pedindo ao governador e capitao-general de Pernambuco a confirma-
gio de sua eleic~o, este expediu, em 24 de marco, as suas CARTAS
DE USANCA, mandando que a sede da vila fosse a mesma povoa-
gao em que estava a fortaleza.
Aquiras foi tamb6m sede do governo do Ceara de 1713 a 1725
e sua freguesia data de 1700, tendo como orago Sao Jose do Riba-
mar. (Dicionario Geografico, Hist6rico e Descritivo do Estado do Cea-
rA Alvaro Gulgel de Alencar).
A segunda vila cearense foi a sua pr6pria capital Forta-
leza, que se instalou a !3 de abril de 1726.
13 DE ABRIL Instalacio da vila de N. Senhora d' As-
sungio, (Fortaleza) pelo capitfo-mor Manoel Francez, o qual elegeu
para juizes ordinArios e vereadores da camara a Ant6nio Gomes Pas-
sos, Clemente de Quevedo, Jorge da Silva, Pedro de Morals e Sousa
e Joao da Fonseca Machado. Para termo desta vila se marcou desde
o riacho Precabura, ate a serra da Ibiapaba e todo o territ6rio da
parte da fortaleza, ficando a outra parte da capitanta para Aquiras.
A camera desta iltima se op8s ao ato do capitao-mor, que
assim fixara os limits das duas vilas, dando lugar a que ele mandas-
se prender os vereadores.







Em conclusio, o govErno portugues atendeu As reclamag5es
da populagdo de Aquiras, mandando fixar novos limits, ficando s6-
mente a pendencia de melhoria e antiguidade, para cada uma, os mo-
radores delas.
Em uma audiencia do auvidor, de 30 de dezembro de 1747,
se cominou pena para os que litigassem s6bre isso, e uma ordem re-
gia de 1760, mandou que se considerasse o Aquiris vila mais antiga,
afim de sua camara concorrer em certos atos da administracgo da fa-
zenda real. etc.) (CEARA, HOMENS E FATOS Joao Brigido).
A terceira vila da capitania instalara-se em pleno interior e
e nas preximidades dos Cariris Novos. Foi Ic6, a 4 de maio de...
1738. Ha controversial em t6rno do assunto, mas Joao Brigido. em
CEARA, HOMENS E FATOS, diz que tal data esta de ac6rdo cor
documents encontrados em cart6rio e que a vila foi ereta pelo ou-
vidor Vitorino Pinto da Costa Mendonga. Ic6 recebeu seu nome de
tribo do grupo Cariri. Foi sede da segunda par6quia da capitania que
tinha jurisdiCgo s6bre os Cariris Novos. Teve muitas ligacges com o
Cariri no passado, tanto no ponto de vista hist6rico, como pelo co--
mrrcio intense que fazia cor o Crato e vizinhangas. Recebia a mer-
cadoria do Aracati em corros de bois, tropas de cavalo e depois de
muares. Teve period de esplendor, chegando a ser mais adiantada
do que a pr6pria Fortaleza. Sua influencia no Cariri serh estudada
mais adiante no decorrer desta Hist6ria.
A vila de Aracati segue Ic6 em ordem cronol6gica. Foi ins-
talada a 10 de Fevereiro de 1748. Chegou a ser a localidade mais
important do Ceari, cor soeiedade requintada que se sobressala em
t6da a parte onde atuava. Era o p6rto cearense mais movimentado,
fornecendo mercadoria atraves de Ic6 a todo o Cariri e imediag6es.
Viu-s constituida principalmente de uma comprida e ampla rua, as
casas em geral de dois pavimentos, no meio delas quatro belas igre-
jas. Cinco mil habitantes, na maioria pobrissimos, todos ajudando a
abarrotar os navios com algod~o e coirama, e a esvaziA-los, no re-
t6rno, de quanta mercadoria traziam: panos, armarinhos, ferragens,
secos e molhados. Sinais da fase area fora o azulejo de various tons
cobrindo as fachadas dos predios, e a cantaria portuguEsa nos p6rti-
cos e soleiras dos sobrad6es da rua do Comercio cHISTORIA ECO-
NOMICA DO CEARA Raimundo Girio).
A Missao do Miranda, ao ser elevada a vila, nao o foi isola-
damente. Foi cor Baturite, pela ordem do governador de Pernambu-
co Diogo L6bo, de 6 de ag6sto de 1763 e renovada pelo seu su.
cessor, em 16 de dezembro do mesmo ano Conde Copeiro Mor.
O Marques de Pombal, cor o afa de privar o Brasil dos
top6nimos indigenas, ordenou ao Governador de Pernambuco que







desse a nome de localidades portuguesas a toda vila que f6sse cria-
da em sua jurisdigio (3). A Missao do Miranda coube o de vilarejo
alentejano, cuja celebridade era apenas o denominar grio-priorato,
sendo o iltimo a adota-lo o infante D. Miguel, mais tarde, D. Miguel
I. Nos ptim6rdios da monarquia lusa ji aparecia cor a denominaCgo
UCRATE OU OCRATO.
A aldeia de Frei Carlos Maria de Ferrara recebeu o pomposo
nome de Vila Real do Crato. Mais adiante, atraves de lutas tenazes
e portentosas em prol de independencia e da repfblica, iria fazer o
possivel para desmentir o sonoro epiteto cor que foi agraciada.
marinos de Portugal, mediante aviso, autorizou Luiz Diogo Lobo da
Silva, capit5o general e governador de Pernambuco, a cometer a Vi-
torino Soares Barbosa, ouvidor e corregedor geral da comarca do
Ceari Grande, que abrangia a Capitania t6da, a missao de fundar
novas vilas, de ac6rdo cor os alvarAs de 6 a 7 de junho de 1755 e
de 8 de moio' de 1758 e Carta Regia de 14 de setembro deste fltimo
ano.
Em 6 de ag6sto de 63, cumpriu Luiz Diogo o que Ihe orde-
naram, encarregando Vitorino de erigir em vilas as localidades cea-
renses de Baturite e Crato.
Em marto j6 se achava em Baturite o ouvidor, que em 14 de
abril fundou a Vila Real de Monte-Mor N6vo d'America, depois Ba-
turite, as vozes de Real, real! Viva o nosso augusto soberano D.
Jose I de Portugal, que mandou criar esta vila!)
Levantou o pelourinho, simbolo terrivel de autoridade naque-
les recuados tempos.
Em 21 de junho, cor as mesmas cerim6nias de estilo, inau-
gurou Vitorino a vila do Crato, que sucedeu a Aldeia do Brejo, an-
tiga Missio do Miranda.
Deve ter gastado Soares Barbosa, de Fortaleza ao Crato,
ida e volta, a pass de cavalo, cerca de quatro longos meses. Foi
bem escolhida a epoca da viagem, por estar o sertio verdejante e
florido.
Na fundacdo das vilas de Baturite e de Crato jS nao era
mais governador de Pernambuco Luiz Diogo, mas seu successor, o
conde de Vila Flor, nomeado por carta de 16 de dezembro de 1763
o qual ratificou a comissao confiada ao aludido ouvidor. Tudo cor-
reu, portanto, exatamente legal.
Na ata que foi lavrada no Crato, firmada pelo escrivAo Elias
Paes de Sousa Mendonga, 18-se que deveriam estabelecer-se na nova
vila os indios seus moradores, os da MissSo de JucS, na ribeira de
Inhamuns e os da Aldeia de Quixel6 cque estiverem fora da Missao







da Telha cor todos os indios que andarem dispersos e pertencerem
a alguma das novas vilas e povoag6es.>
Providenciou o governor de Pernambuco s6bre remessas de
enxadas, foices, machados para o trabalho de picadas e demarcag6es,
de varas, tinteiros, pano de mesa da camara, balangas, pesos e me-
didas para padres.
Nao foi olvidado o patrim8nio da Camara, que nio sei qual
foi. Infelizmente era incomplete o document que tive entire mios re-
lativo a fundaigo de Crato.
Recomendava ainda o governador de Pernambuco que se des-
sem edatas de terras Aqueles brancos que, por seu procedimento, se
possa confiar sirvam de exemplo para animarem os indlos no traba-
lho e os adiantarem na civilizagdo" (FOLHA DA SEMANA -
Crato, 21-6, 54)
Nasceu, portanto o Crato da Missio do Miranda, fundada
primitivamente em local mais afastado e que conserve ainda o nome
de sitio Miranda, embora ji envolvido quase totalmente pela cidade.
De onde Ihe veio a denominacao? Alguem ji afirmou que procedesse
de antigo cacique que foi batizado cor aquele sobrenome. Isso seria
impossivel. O indigena, ou recebia ao ingressar no seio da Igreja, no-
me pr6prio de santo, ou traduzia seu nome primitive para o portu-
guds, como sucedeu cor Diabo Grande, Camario ou Algodao. Jamais
Ihe viria mudanca para sobrenome e notadamente, mais pendido pa-
ra o castelhano do que para o lusitano, como sucedia cor MIRAN-
DA. Ate agora, diante dos fatos, podemos ligi-lo ao sesmeiro Gil de
Miranda, que aparece nas primeiras datas do Cariri, embora a region
pelos documents, f6sse entregue primitivamente a Ariosa e aos Lo-
batos.
O document mais antigo que existe s6bre a Missao do Mi-
randa e o registro de batizado, realizado em 1741, por Frei Carlos
Maria de Ferrara, o verdadeiro fundador da Missao:
licenCa do reverendo Cura, Diogo Freire de Magalhies, batizou o
padre Mestre Frei Carlos Maria de Ferrara, na Igreja da Missao
do Miranda, a Apolinario, filho de Matias Lopes, foram padrinhos:
Manuel Moreira e sua irms Lficia de Sousa, filhos de Ant6nio Mo-
reira, todos moradores nesta freguesia, e Ihe p6s os Santos Oleos -
Joso Saraiva de Araijo, Cura do Ic6 (Livro do Registro de batizado
e Casamento, 174-1783, fls. 2. Freguesia do Ic6) Esta pesquisa foi
realizada pelo Padre Ant6nio Gomes de Aradjo.
Tudo isso prova que ja existia certa vida social no aglome-
rado human do Miranda, como igualmente, o inicio de families de
brancos, ou de mestizos, no local que mais tarde se transformaria na
vila do Crato.







cO period da cr8nica do Crato, de. Ariosa A Missao do Mi-
randa, 6 ainda um como lusco-fusco. Certamente foram-se fixando
colonos na terra, por aforamento e compra a Ariosa e Lobatos, e
s6mente mediante a primeira modalidade, neste rec6ncavo, pois, do
contrario, nao poderia ter sido doada aos indios daquela Missao. J. J.
Dias da Rocha Filho afirma que no ano de 1730, o sergipano e ca-
pitio Ant6nio Pinheiro L6bo e Mendonga, tronco dos Pinheiro e dos
Bezerra de Menezes, encontrava-se situado no sitio MUQUeM. e
uma excecao. O fato real 6 a cortina escura que interp6e, naquele
period, entire n6s e o conhecimento dos nomes dresses colonos, do
tempo de sua fixacio a terra e de seus feitos e aC6es.
Quando a Miss5o do Miranda surge em documents eclesi-
Asticos relacionados cor ela, o faz simultaneamente. ao lado de colo-
nos que satisfazem necessidades espirituais na Igreja da dita Missao,
LASTRO ORGANIZADO, ela a Missao Miranda dos futures muni-
cipio e par6quia e cidade do Crato. Alguns dentre eles alcangam,
senao ultrapassam, a inauguragio da Vila, quais, por exemplo, o Ca-
pitio Francisco Gomes de Melo e o Coronel Antonio Lopes de An-
drade, que recebem, entio, investiduras de cargos na administration
municipal (A CIDADE DE FREI CARLOS A PROVINCIA -
CRATO 1954).
No mesmo trabalho diz mais adiante, o historiador citado:
dInaugurada a Vila, foram logo criados, para o fim de admi-
nistrar a justiga, os dois primeiros juizes ordinarios, cuja escolha
recaiu nas pessoas do citado capit-o Francisco Gomes de Melo e do
indio Jose Amorim, prova que os ex-missionarios capuchinhos, real-
mente iam se tornando aptos a colaboracgo cor os brancos, na ad-
ministracio ptblica da pequena comunidade que todos haviam criado,
num period de 25 anos. Criou-se tambem, um corpo de cavalaria,
cujo comando coube ao coronel Antonio Lopes de Andrade. O cargo
de capitio-mor, deteve.o Arnaud de Holanda Correia. de Recife, pa-
rente e coevo do principal fundador da atual cidade de Missao Ve-
lha, capit5o Joao Correia Arnaud.
Assim, evoluiu, no campo politico, a Missio que Frei Carlos
Maria de Ferrara fundarav.
Outro povoado tambem se firmara nos Cariris Novos a pou-
cas leguas da Missao do Miranda. Ficava as margens do Salgado,
onde este forma uma cachoeira. Como tudo demonstra, foi obra dos
Carmelitas tambem de Recife. Recebeu o primitive nome de S. Jose
dos Cariris Novos, consagrado ao orago muito da predilecio dos
Carmelitas S. Jose, como todos os santos do Antigo Testamento.
No Cariri h& propriedades que pertenceram antigamente aos frades
do Carmelo, como por exemplo Frecheirinha, hoje do Capitao do exer-
cito Joao de Pinho Pereira. Nao se sabe, como aconteceu cor a
Missao do Miranda, a data exata de sua fundacao. Os documents.







entretanto, dio.lhe noticias precisas em tempos anteriores aos que
apareceram em t6rno do aldeiamento dos Cariss, as margens do
Grangeiro.
Em 1725, (4) acossados pela seca que jA disseminava calami-
dades na region que nascia para a civilizagdo, mudou-se para o local
melhor servido por Agua. Ali Joao Mendes Lobato, filho do sesmei-
ro Ant6nio Mendes Lobato, fundou capela consagrada a Santo An-
t6nio, em homenagem ao santo patrono do genitor. O nicleo recebeu
o nome de Missao Nova.
O povoado que depois teve a derominalio de Missio Velha,
parte de Cachoeira, comeiou a ter novo impulso op6s a chegada do
seu verdadeiro colonizador-Joao Correia Arnaud. Ja nao foi atraido
pela civilizaao do couro e sim pelo fascinio das bandeiras e entra-
das do sul-a mineraq~o.
Afirma o padre Ant6nio Gomes de Aratijo, que Joao Cor.
reia Arnaud& chegou ao seu destiny na quarta dectiria do s6culo de-
zoito, chefiando uma bandeira integrada pela esp6sa, nove ou dez fi-
Ihos adults. parents e escravos (a procura de ouro em Morros
Dourados>, ao tempo em que a region era conhecida por Minas do
Cariri.
Segundo Antonio Bezerra, lJoio Arnaud nao podia denomi-
nar a primeira povoaiio de Cariris Novos, de Sio Jose de Missao
Velha, porque esse nome s6 foi dado por ocasiio de ser edificada a
Matriz de Sio Jose de Missio Velha, em 1760, denominacio que pas-
sou a t6da a freguesia em lembranga da Missio de Sio Jose da Ca-
choeira que, por ter sido a que se instituiu all primeiramente, se cha-
mou Velha depois que foi transferida a Missio para o sitio Santo
Antonio, hoje conhecido por Misslo Nova, cuja igreja parece se cha-
mou assim, porque foi construida pelo fundador do povoado, capital
Antonio Mendes Lobato e seus parents. 4(ENC1CLOPEDIA DOS
MUNICIPIOS BRASILEIROS INSTITUTE BRASILEIRO DE
GEOGRAFIA E ESTATISTICA-RIO-1959)o
Ja vimos que foi Joao Mendes Lobato, filho de Ant6nio
Mendes Lobato e construtor da igreja.
A nota do historiador Antonio Bezerra, dos mais criteriosos
que fizeram a hist6ria do Cearb, 6 para rebater Joio Brigido em afir-
mar ter Joao Correia Artaud fundado, em 1707, a povoagfo de S.
Jose de Missio Velha dos Cariris Novos.
Vejamos trecho da de Pedro Calmon e referente ao autEntico fundador de Missao Ve-
lha-Joio Correia Arnaud e sem precislo de data:
aSucessivas expedig6es de paulistas rechassavam para o norte
e o oeste os CARIRIS ferozes. Gente da Torre entrou-lhes a regifo,
balizada ao poente pelas serras dos Cariris Noves, auxiliou os indios







daquela regiao contra os Carios, seus inimigos, e descendo o rio Sal-
gado at& o Ic6, acampou junto da lagoa, por isto chamada ((da
T6rre>. Dois conquistadores aparegem ai como procuradores ou capi-
ties da casa dos Avilas: Medrado e Joao Correia Arnaud. Com -les
comega a historia dos campos do Cariri.
A conquista da terra nao foi feita, entretanto, por Joao Cor-
reia Aruaud com trabucos e frechas. Foi pacifica e construtora. A fim
de garantir melhor a sua continuidade, trouxe a mulher e seus nu-
merosos filhos. Para a region que despontava, importou o primeiro
element de origem africana. Nao teria Este a mesma atuacdo como
nas zonas agucareiras, cafeeiras e de mineracio do Brasil, mas seiia
fator important de trabalho. Iria caldear-se em pequena proporaio
com o branco e o aut6ctone, da mesma forma, como sucedeu em to-
do o Ceara e no interior do Nordeste.
A hist6ria da mineragio de ouro de S. Jose de Missio Ve-
lha 6 bem cheia de fracassos, ao contrario de sua agriculture e de
sua pecuAria, podemos dar-lhe retrato sucinto, atraves de Joao Bri-
gido dos Santos, em seu tao ja citado CEARA, HOMENS E FA-
TOS.
(1753-27 de fevereiro Ordem do governor de Pernambuco,
fixando o dia 6 de julho oara ter comego a mineragao de ouro nos
Cariris Novos, e fazer-se all a divisao das terras pelas pessoas, que
se dispunham a explorer as minas, devendo elas sujeitar-se ao paga-
mento da 5a parte do ouro, que extraissem, para a fazenda real.
Por uma outra ordem da mesma data, se proibiu que alguem
seguisse para all sem licenga por escrito do comandante do lugar,
em que residisse; isto, para evitar a acumalacio de pessoas inquietas,
e infiteis. Nao obstante, foi consideravel a afluencia de aventureiros.
O governo de Pernambuco mandou postar em Miss5o Velha
uma f6rga sob o comando do sargento.mor Jer6nimo Mendes da Paz,
expressamente para center os desordeiros e evitar o contrabando.
Houve trabalhos de mineracZo nos lugares Fortuna, Bar-
reiros, Mangabeira, Morros Dourados etc; mas o resultado nao cor-
respondeu As vistas do governo.
JA em 18 de abril de 1752 o capitAo-mor da Paraiba denun-
ciava ao governador de Pernambuco a existencia de ricas jazidas de
ouro nas regi6es inferiores do Araripe. (5)
Por carta regia de 12 de setembro, de 1758, mandou-se ces-
sar a exploraqio das minas do Cariri e da Mangabeira (Lavras), co-
mo desvantajosa ao erario: e a 25 do mesmo mes fez-se extensive a
proibiglo a quaisquer outras da capitania. Finalmente, para evitar o
extravio do quinto do ouro em todo pais, pois que se supunha que
a fraude ia prejudicando o tesouro portugues, uma carta regia de 30








de julho de 1766 mandou fechar t6das as tendas de ourives, inutilizar
as forjas e proibir essa profissio, fazendo sentar prata aos mestres
e aprendizes que recalcitrassem,.
Leis duras assim, apesar da colonizaiio inteligente de Portu-
gal, que criou nacionalidade cor caracteristicas pr6prias e sem qual.
quer resquicio de discriminaggo racial, de pouco a pouco foram for-
mando no brasileiro o espirito de independencia que eclodiria mais
tarde. Felizmente, a carta r6gia de 30 de julho de 1766 nao matou
o g6sto do caririense pelo oficio, que, aliis, nos velo de artifices lu-
sitanos. Crato, entire os seculos XIX e principios do seculo XX, che-
gou a possuir rua inteira de ourives. Este artesanato passou depois
para Juazeiro do Norte e agora esti pressionado pela escassez de
ouro que se verifica no pais inteiro.
Desde o seu nascedouro espiritual, a MissAo do Miranda
pertenceu a freguesia do Ic6, como vimos no seu primeiro registro
de batizado. Depois ficou cor a freguesia de Cariri N6vo de Nossa
Senhora da Luz de Missao Velha, separada do Ic6 pela proviso do
Bispo de Olinda D. Frel Luis de Santa Teresa, de 28 de janeiro
de 1748. Em 1760 foi que o Bispo D. Francisco Vicente Aranha,
por proviso de 3 de maio de 1760, autorizou a construcio da matriz
de Sao Jose. Foi edificada no local da capela da missio primitive e
de identica invocacAo.
HA verdadeira balbfirdia quanto a data da criagao e instala-
cio da freguesia do Crato. Damos a palavra ao maior investigator
atual da hist6ria caririense, Padre Antonio Gomes de Araojo:
Quanto ao ano da criagao da freguesia em que se transfor-
mou, do ponto de vista religioso, a Missao do Miranda, divergem
os autbres. Uns apontam o ano de 1762, enquanto outros avancam a
data para 4 de janeiro de 1768, quando foram tragados os limits
territoriais.
Joio Brigido assegurou que, em marco de 1762, o Bispo de
Pernambuco nomeou vigArio para a povoaigo do Miranda, ereta em
freguesia, e estranha que os siditos desta continuassem a ser curados
na Missao Velha ate a autonomia da primeira. verificada em 4 de
janeiro de 1768, quando o visitador, Pe. Jose Teixeira de Azevedo,
autorizado por despacho episcopal, 17/1/1767, procedeu oficlalmente
b delimitacio territorial da segunda freguesia criada no Cariri, a de
que se trata.
Um livro do arquivo paroqulal da freguesia de SAo Mateus
(Jucas), topAvel no arquivo da Ctria Cratense, alude ao Padre Manu-
el Teixeira de Morais, atribuindo-lhe, do mesmo pass, as fung~es de
do MirandaD, em 28 de novembro de 1762. Esse sacerdote paroquia-
ra Sao Mateus, de 2 de julho de 1759 a 5 de julho de 1761, quan-







do trausmitfra o cargo a seu successor, Padre Sebastiao da Costa Ma.
chado. Em 1762, no mes de novembro, ainda funcionava avulsamente
naquela par6quia. E se foi nomeado para a Missao do Miranda, em
margo de 1762, s6 assumiu as funC6es na segunda quinzena de ja-
neiro de 1763, de vez que na primeira ainda funcionava Frei Joa-
quim de Veneza. Seu primeiro ato registrado, praticado a frente do
n6vo cargo, traz a data de 26 de janeiro de 1763. Desde entao, to-
dos os registros e atos oficiais seus, o apresentam corn o titulo de gario e conferem a sua igreja titulo de gMatriz>. cVigario da Igreja
Matriz do Mirandab, eis a expressao correta em registros. Vigario e
sacerdote. E matriz implica na existencia de freguesia.
Desde 1765, a Igreja Matriz do Miranda apassou a ter es-
crita aut6noma> porque, de entio em diante, a escrita paroquial de
Missao Velha silencia a respeito dos habitantes do Miranda.
A meu ver, a freguesia foi mesmo criada em 1762, e o ato
de 4 de janeiro de 1768 apenas oficializou sua configuraago terri-
torial-demogrAfica. De 1741 a data daquele segundo ato, ja os habi-
tantes da area atribuida a, freguesia do Crato pelo mesmo ato, satis-
faziam suas necessidades espirituais na Igreja de Nossa Senhora da
Penha da Missao do Miranda. Realmente, o sitio CARITi e a RI-
BEIRA DO SALAMANCA distam menos desta cidade que da de
Missio Velha e da capela de Missao Nova, cujo capelao foi Admi-
nistrador geral dos Sacramentos, para os Cariris Novos, de 1741 a
1747. E 6 menos long de a esta urbe, que de li a Sio Mateus (Jucas). Desse modo, o men-
cionado Visitador imprimiu carter juridico a uma situaaio de fato,
quando delimitou a nova freguesia. (A CIDADE DE FREI CARLOS
aA PROVINCIAL CRATO).
0 vigArio Padre Manoel Teixeira de Morals substituiu os
capuchinhos na diregio da Missio do Miranda e assistiu sua evolu-
cio para a Vila Real do Crato. Depois, Frei Carlos Maria de
Ferrara, que esteve na direcao spiritual da aldeia atW 1749, foi
substituido pelo seu irmao de habito Frei Gil Francisco de Palermo,
que durou at! 1760. Em seguida. funcionou o outro barbadinho Frei
Joaquim de Veneza, que celebrou sua filtima missa na primeira quin-
zena de janeiro de 1763, na Igreja de Nossa Senhora da Penha da
Missao do Miranda (LIVRO DO REGISTRO DE BATISADOS
DA PAROQUIA DE MISSAO VELHA, 1748 a 1764, conforme
pesquisas do Pe. Gomes).
O fato mais sensacional e mais injusto que ocorreu em Crato, no
iltimo quartel do seculo XVIII, foi a expulsfo dos indigenas, espolia-
dos de suas terras duadas pelo capitao-mor Alvares de Matos e sua
esp6sa. Foi consequencia de um ato do governador de Pernambuco
- Jose Cesar de Menezes, dirigido ao ouvidor do CearA Grande -








Dr. Jose Dias da Costa Barros. Foi movido pela intriga cor acusa-
c6es aos antigos Carids de que nfo se sujeitavam ao trabalho e A
discipline. Entretanto, vimos que sua capacidade de adaptaCio A civi-
lizacio que Ihes trouxe o dedicado amigo e evangelizador Frel
Carlos Maria de Ferrara, foi tamanha, que um deles Jose
Amorim, foi escolhido como juiz ordinirio da Vila de Crato, recem-
criada, ao lado do branch capitio Francisco Gomes de Melo.
Muitos dos indigenas roubados de suas terras, com direitos assegu-
rados por doacio pfblica, cujos documents publicamos em nota, pre-
feriram embrenhar-se pela serra do Araripe, ao deus darA. (6) Ja nao
existiam no pastoreio de almas seus amigos capuchinhos que, como os
filhos de Santo Ingcio, preferiram a luta aberta contra a prepotEncia
da forga, do mando e da riqueza, a deixar que seus catequizados f6s-
sem espezinhados pelos colonos.
Em Parangaba, cor o nome entio mudado para Arronchos pela
agao anti-brasileira do Marques de Pombal, os indigenas cratenses
se definharam, ate o desaparecimento complete, em frente ao Diret6-
rio inativo dos indios.
Pior a sorte dos indios jardinenses, perseguidos a ferro e
fogo pelos fazendeiros que os acusavam de Ihes roubar o gado dos
campos. De todos o mais implacAvel foi o Coronel Simplicio Pereira
da Silva, o carrasco dos pobres indigenas, na expressao de Pedro
Theberge em seu Esb6~o Hist6rico da Provincia do Cearai. (CI-
DADE DO CRATO)
Outra povoa~io surgiu tambem, no Cariri cearease, no seculo
XVII, a qual iria influir decisivamente no povoamento da regiao e
nos fatos hist6ricos da centiria seguinte. Foi Jardim. Novamente ire-
mos nos abeberar dos conhecimentos de Irineu Pinheiro, no ja citado
eExemplifique-se ainda, com6 no Cariri influiram os templos
na funda2io de nicleos de populaFio. Em 1792, ano da terribilissima
sica, chegou ao Jardim, tangida pelo fen6meno, um sacerdote baiano,
valente e andejo, de nome Joao Bandeira, acompanhado de seu escra-
vo, que Ihe servia de pagem. (7)
Encantado cor as Aguas e as terras verdejantes, em violen-
to contrast corn 1guas de sert6es cinzentos pela estiagem, parou o
Padre o cavalo, apeou-se, e, logo, decidiu ali ficar e erguer uma ca-
sinha de taipa em que se aboletasse cor seu pagem, seu missal e
sua espada.
Em frente de seu rancho construiram fieis a capelinha, pre-
cursora da atual Matriz da par6quia.
Religioso, afluiu ao local o povo de ao redor para ouvir mis-
sas, confessar-se, comungar.
A casa do Padre agregaram-se outras, que se foram multiple







cando. Assim se orlginou a povoacio de Barra do Jardim, enfim, ci-
dade de Jardim, simplesmente.
Que foi feito do Padre Bandeira? perguntara o leitor.
Misto de sacerdote e aventureiro, montou um dia, de navo, a cavalo,
de espada a cinta, em companhia do escravo, garante a tradiaso, e
mergulhou nos sertoes desertos, desaparecendo para sempre. Mas,
em seu lugar, continuou um seu irmro em Cristo a curar as almas
da recem-nata povoag4o, que espiritualmente pertenceu a Missio
Velha e, temporalmente, ao termo do Crato. Alinhemos, portanto, as
igrejas entire os fat6res de vilas e. cidades.>


NOTAS (1) reto joi mandado de Pernambuco, por mar, cor tropas, a
fortaleza Jundada por Iartins Soares, onde havia Holande-
sex, e dela tomou posse a 2 de malo de 1654.
Apesar disto, o Ceard voltou a dependencia do Mara-
nhao no seu livro 1, cap. 6 da CRONICA DA CAPITA-
NIA, concluida depois de 1693, escreve Betendof:
nao logo dos baixios do S. Roque. Dista setenta liguas de
Pernambuco, em quatro graus e cinco minutes a sueste, onde
tem seu primeiro marco, contando dali atJ o Ceard cento e
setenta e cinco liguas, tres graus e trinta minutes para o
sul e vai correndo do Ceara ate a cidade de S. Luiz, cento
e setenta liguas e (em?) dois...'
InJormacao semelhante Jornece Telxeira de Morais
nos cTumultos*, Sousa Ferreira na 'America abreviada, to-
dos tres contempordneos e editados pelo Instituto Histrico.
Veja-se tambem -O NOTICIARIO MA RANHENSE, tomo
81 (ENSAIOS E ESTUDOS, Capistrano de Abreu, Socie-
dade Capristrano de Abreu, Rio, 1938)
No mesmo livro e no mesmo trabalho CEARA E
RIO GRANDE, ainda hd o seguinte trecho relative ao domi-
nio maranhense no Ceara.
cDesde 1699 ordens relatives ao Ceara enumeradas na
transmitidas por intermedio do governador de Pernambuco.
Em 1701, o Piaui, ate entao dependencia pernambucana, Jol
mandado anexar ao Maranhao. Talvez a anexacao do Cear6
a Pernambuco jfsse uma compensacao,.
(2) CARIRI NOVO Pimentel Gomes.
Conheci primeiro o Carirl Velho na chapada da Borborema
entire 600 e 700 metros de altitude. E chato, aspero, poeirento,







coberto de caat;nga raquittca e rala onde avullam as cacti-
ceas e bromelidceas. Ha chique-chique e jacheiros, cards e
palmas. Os umbuseiros, umbrosos e folhudos, aparecem es-
pontdneamente aos milhares. Rios de leitos rasos, quase
sempre scos. Alguns cerros pedregosos. Auscncia de bons
locals para a acudagem. Aguas raras e ruins. Pluviosidade
interior a 600 millmetros. Clima Jresco, durante o dia Jrio,
a noite agradabilissimo, salubirrimo.
O Cariri Velho, quase um semi-deserto, vive da cabra,
do algodoeiro mocd, do car6a e do sisal. E hd bovinos em
quantidade, que se alimentam principalmente de cactdceas
plantadas aos milhJes, e de sementes de algodoeiro moc6.
O Cariri Ndvo I multo dijerente. Quando o aviao atinge
a serra de Sao Pedro, percebe-se o vale extenso e jecundo,
cavado entire esta e a chapada do Araripe, que se ergue alem,
extensa e tabulada. No periodo chuvoso, hd no vale e nas
serras, iddas as tonalidades do verde. As 4guas dos rios
Jaiscam entire coqueiros e babafus e desenham meandros nos
canaviais. Na longa estapao s&ca, vale e encostas, morrow e
chapadas, sao pardacentos e Julvos. Hl verde acinzentado dos
mandiocais e jaixas verdejantes de canaviais e coqueiros que
descem das lombadas das montanha. em declines diversos e
acabam reunidas nos leitos maiores do Batateiras e do Cards.
Entre as serras e Jaixas verdejantes Crato, Juazeiro do
Norte, Missao Velha, Jardim, Barbalha corn seu casarios
brancos e pracas ajardinadas que a ignordncia popular de-
nomina Kavenidax>. E incontesthvelmente, uma zona ecoldgica
dijerente. Para isto concorreram various Jatdres.
O Cariri Ndvo em suas montanhas encostas, e um
dos trechos mais pluviosos do interior nordestino. Caem, em
media, mais de 1.000 millmetros de chuva por ano, as vzes
mais de 1.200. 0 baixo Jaguaribe tern menos de 800; Sobral,
menos de 900; o Cariri Velho, menos de 600: o Seridd, 500
ou menos de 500. As chuvas, pelo menos no Araripe, che-
gam mais cWdo e sao mais regulares que as da maior part
da zona sertaneja. E que a Araripe se encontra influenciada
por duas zonas meteorol6gicas. A estafao fmida que abrange
setembro-outubro, se abate sdbre o leste meridional e outras terras
brasileiras, atinge a Araripe e circunvizinhancas e at se aca-
ba. E fdcil verificar isto viajando-se, em fins de outubro,
do Rio de Janeiro para Fortaleza, pelo interior. Em janeiro,
chegam as chuvas normais do Ceard e interior do Rio
Grande do Norte e atingem fambIm o Cariri,
O solo i permeavel e projundo, justamente o contrdrio
do que sucede na maior part do Poligno das secas. No Vale








do Carft, embora faltem as fontes que alimentam o Batatel-
ras, hA bastante Agua jreatica quase sempre a pequena pro-
jundidade,
Entre a chapada do Araripe e alguns de seus contra-
jortes, ao sul, e a serra de Sao Pedro e outran pequenas
serras, ao norte escrevi, num relat6rio ao ministry da
Agriculture se estende o vale relativamente amplo e fJrtil
do rio Cards, um dos afluentes do Jaguarlbe.
0 leito do rio 6 estreito menos de vinte metro, onde o
visited um tanto proJundo em alguns pontos, noutros, ra-
so, sem area. Recebe a direita e a esquerda, vdrios pequenos
afluentes, quase sem leitos.
Durante a estapfo 4mida, ter muita agua. As vezes,
inunda tdda a vdrzea, correndo, cor pouca, fSrfa atravys de
canaviais e outras cultural que, nessa Jpoca. cobrem todo o
seu leito maior. Nao falta, entao, dgua para irrigaFoes com-
plementares, que nao raro sao indispensAveis, principalmente
para a cultural do arroz. E entao possivel e aconselhAvel o
uso de motombo em grande escala.
Durante a estafao sAca, o rio deixa de correr, pois J
semi-peri6dico. Quando suas nascentes e as de seus ajluen-
tes estavam cobertas de matas, era mais ou menos perene.
Secava, excepcionalmente, em anos pouco chuvosos.
Sucede, porem, que um trecho da bacia do Cards e de
arenito conglomerdtico, muito projundo e permeavel. Corn as
chuvas abundantes e as cheias dos rios e riachos, todo o
arenito fica saturado da Agua, ate muito perto da superficie.
As v~zes, mesmo no rigor da estiada, a Agua estd apenas a
um metro de projundidade, mas ou menos. As margens do
Cards, hA uma faixa de aluviao mais jfrtil e tambem bas-
tante tmida.
Nedtes solos que conservam a umidade, hl alguns ca-
naviais nos trechos mats Javorecidos. Nos pontos menos dmi-
dos, Arvores frutiferas. 0 mato se mantim, em alguns tre-
chos, verdoengo. Hd grande drvores folhudas esparsas na
vdrzea.

A chapada do Araripe < uma regiao de arenitos mo-
les, em que a agua I absorvida pelo solo de areia e, jiltran-
do-se nas rochas que the ficam por baixo, forma uma boa
corrente subterrdnea,
Abaixo, hA uma camada Jina de calcerio, corn 50 e
100 metro de espessura. Depois, outra camada de arenitos
vermelhos e amarelos, seguidos de arenito conglomeratico.








A dgua das chuvas absorvida, em sua fuase totall-
dade, pelo arenito mole da fsrie superior. Filtra-ae ate o
calcdrio que I impermedvel. Corre por ele atJ rebentar nos
Jlancos, sob a jorma de jontes caudalosas. E a inclinafao
da camada impermed el que determine a localizavao das nas-
centes. Hd uma concentrarao de &gua na linha norte-sul,
entire Crato e Jardim. Nos flancos da chapada atraveosados
por essa linha, hd muita agua. Brota numa altura de mais
ou menos 725 metros sdbre o nivel do mar, 50 a 75 metros
acima do calcrio.
A temperature media do vale nao se eleva aos absurdos
3] graus centlgrados que o Sr. Pompeu Sobrinho the atribui.
Ele rejere-se a temperature reduzida ao nivel do mar, cujo
valor 6 exclusivamente cientijico. 0 que interessa e a tem-
peratura sensivel, e esta e muito mais balxa-26 graus cen-
tigrados.
A geografia e a geologia explicam o Canri Nvo -
regiao bastante dijerente das que a cercam. Tern vantagens e
desvantagens. As vantagens principals sao o solo projundo e
permedvel e as condigoes excepcionais da Araripe, que lhe
permitiram a irrigasao natural de alguns trechos de sea
solo. Cor desvantagens, o solo pobre em trechos enormes e
a dificuldade de aumentar at atuais dixponibilidades de dgua.
Quanto a isto, o baixo Jaguaribe e o baixo Acarad sao multo
mais promissrdres. E tem terra: mais jerteis. Ademais, o
lhomem tern etragado o Cariri Ndvo. Cortou as Jlorestas das
encostas da Araripe e das nascente do Cards, provocando
erosjes tremendax e reduzindo consideravelmente as disponi-
bilidades de dgua. 0 Cards i uma vitima da inppcia dos
homens. Injelizmente as autoridades locals ainda nao com-
preenderam as extraordindriars inalidades da Floresta Na-
cional Araripe-Apodi, que eu conseguf criar quando director do
Servico Florestal, e nao the deram o apoio que merece e
que the I indispensdvel.
Seria imposlvel Jazer, num fim de artigo jd muito
comprido, um esbdpo de planejamento para o aproveitamento
sistemdtico e complete do Cariri Novo, regiao promissSra,
embora muito estragada pelo home.
Mas Aste planejamento se jaz mister. Poderia ser uma
iniciativa municipal, dirigida pelo prefeito do Crato. Lembro,
porem, o rejlorestamento das encostas da Araripe e das
nascentes do Cards, racionalizafao da agriculture pela meca-
nizacao, adubaCio e combat as pragas e molistias, a intro-
duao de novas espkcies de grande valor econdmico, a indus-
Irializafao, o aproveitamento das Aguas Jreticas existentes na









bacia do Riacho dos Porcos e no arenito inferior. (Do
'0 Povo, 17 10 53)
(3) 0 historiador cearense, id falecido Walter Pompeu, author
do CEARA COLONIA, nao primava pelo amor a ortodoxia
cat6lica. MAas, em seu aludido livro, publicou nota as pAgs.
102 e 10, corn libelo terrivel contra o Marques de Pombal:
tSebasitao Jose de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras
e depois MAarques de Pombal (Emulo do ministry Frances
Choiseul, e instrument subserviente dos capriehos da Mar-
quesa de Pompadour), tinha o coraao empedernido pelo
ateismo voltairiano e foi o maior inimigo do institute de
Loyola.
0 Ministro D. Jose I, um dos mais ilusres estadistas
de seu tempo, fui acerrimo inimigo do Brasil. Ao par de
uma obra grandiosa de restauraao national, praticou cruel-
dades e viol1ncias que lhe macularam a ld6ria.
Sao estas as provas dadas pelo larques de Pombat
de mh vontade a nossa patria, no seu governo: 1 a carta
r4gia de 10 de junho de 1761, proibindo a cultural da cana
no Maranhao; 20 a ordem rigia de 31 de julho de 1766,
obstando o desenvolvimento no Brasil das indfstrias de ouri-
yes, Jiadores de ouro e linha de prata: 30 a instruCao de 30
de maio de 1751, enviada a Xavier de MendonCa, ordenan-
do a introducao de negros escravos no Maranhao: e 4, a
extincao da Companhia de Jesus,.
A dltima media joi golpe de more na instrucao, de
norte a sul do Brasil, pois eram os filhos de Santo Indcio
que mantinham collgios nos principals pontos da col6nia,
allm de serem tles os mais dedicados amigos do element
indigena.
0 Marques de Pombal ainda foi terrivel inimigo dar
dominarjes, em lingua native, de localidades brasileiras, co-
mo tambim canalizou todo o ouro das minas do lado de cd,
para a reconstrurao de Lisboa e para outras medidas que
deram brilho ao seu govrno, no alim mar.
(4) A repercussao que a sAca de 1723-1727 teve no Nordeste
s'co foi projunda, merecendo dos cronistas do tempo registry
especial, ora referindo-se a sua manijestafao no inicio do
decenio, ora entire o meio e o jim do mesmo, de modo que
todo o territ6rio das antigas Capitania. foi atingido, umar
mais, outras menos, conforme a densidade demogrdfica da
regiao. Assim, o Senador Pompeu sdbre ela diz que foi priamente a primeira, de que se encontra noticia em docu-
mentos oliciais da Provincia. Nessa ipoca o Ceard era ainda
raramente povoado por colonos europeus; ou seus descenden-








ees. E porem certo que o gentio que dominava em quase todo
o interior, sofreu muito e emigrou para as serraz mais fres-
cas. No Vale do Cariri, o terreno alihs mais firtil e abun-
dante de agua do Ceara, e onde se conserva mais tradigao
dessa seca, que em 1725 fez dessecar todos brejos e correntes,
obrigando os habitantes de Missao Velha mudar-se por jalta
d'hgua> (HISTORIA DAS SECAS Joaqulm Alpes.)
(5) julgou melhor jazer uma companhia a Companhia de
Ouro das A inas de S. Jose dos Cariris cor a duracao
de um ano e vinte s6cios, que que se obrigaram a subscrever
para os jins sociais, certa quantia em dinheiro e a entrar
cor determidado namero de escravos. A ideia provocou o
espirito de imitagao nos senhores de engenho, animando-se a
constiluir outra companhia, a que o governador cortou o vSo,
decretando que a nova empresa sdmente seria poss'vel se os
associados provassem possuir complete em pessoal as lotaCes
dos seus engenhos.
Redigidas as clausulas do contrato da Companhia de
Ouro, datadas de 3 de agdsto de 1756, coube o cargo de
administrator ao s6cio capital Antdnio Jac6 ViCoso, que a
19 de novembro saiu de Recife cor uma expedicao, levando
73 escravos, dos quais chegaram apenas sessenta e nove.
Jerdnimo da Paz, resgatando o metal encontrado e
multiplicando esjdroos no combat ao contrabando, pdde en-
viar, a 15 de dezembro, para o Recife, cinco libras de ouro
comprado a diversos, Jazendo novas remessas em 3 e 29 de
abril seguinte. Mas Jose Vicoso nao suportou as asperezas
da missxo e tratou de abandonar a compaahia e o cargo, a
que serviu durante pouco mais de um ano, sendo substftuido
por Jose Pinto. E nao mostrando o neg6cio nenhuma renda,
vieram todos a compreender a inutilidade da minerafao.
Dissolveu-se em consequencia a Companhia e, corn o
seu fracasso deliberou a cdrte mandar sustar quaisquer ser-
vipos de catas, nao s6 as de S. Josi, como em tIda a Ca-
pitania. (HIST6RIA ECONAMICA DO CEARA Rai-
mundo Girao). Vimos assim que se deu segundo fracasso na
mineracao, em Mnissao Velha. Cor nsse servipo houve, no
Cariri cearense, o primeiro ensaio de sociedade commercial
por cotas.
(6) Escritura de doalao que fez o Capilio-m6r Domingos Alvares
de Mattos, e como procurador bastante de sua mulher dona
Maria Ferreira da Silva ao Rvdmo Frei Carlos Maria de
Ferrara, Missionrio do Gentio Cari e mais agradados de
um pedapo de terra das cabeceiras do Miranda dos Cariris-
Novox, a qual liz por me ser destribuida.








Saibam quantos sxte ptblico instrument de escritura
de doacao eu como para sua validade melhor nome e lugar
hoje e dizer possa, virem que xendo no ano do Nascimento
de Noxso Senhor Jesus Cristo de 1743 annos, aos 3 diax
do mgs de dezembro do dito anno, nesta Misxao do Miranda,
Ribeira dos Cariris-novos, termo da villa nova de Noxsa
Senhora de Expectavao do Ic6. capitania do Ceard grande
adonde eu Tabelliao ao deante nomeado Jui vindo, e sendo
ahi appareceram parties presented, de uma e Capitao-m6r
Domingos Alvares de Mattos por si e como procurador bas-
tante de sua mulher Dona Maria Ferreira da Silva, como
me constou de uma procuracao que se acha lancada nox
livrox de notas, e de outra Rdo Padre Carlos Maria de
Ferrara, como procurador e administrator do Gentio Carid
e mais agregadox, pessoas de mim Tabelliao reconhecidas
pelax pr6prias de Jaco mengao e de que dou e', e logo pelo
dito Capitao-m6r me Joi dito em minha prexenca e das tex-
temunhas ao deante nomeados e assignadas, que ellex entire
os mais bens que porsuiam e estavam de mansa e pacif/ca
posse, era bem assim uma sorte de terras nas cabiceiras do
Miranda dos Caririx-novos, da qual de si dava e doava
toda a terra: que pertence as Aguas vertentes que quebram
para a Missao correndo pela barreira e rumo do sul atM a
ponta da serra do Araripe todo o xacco ou enseada que ficar
dentro e para a parole do norfe t6 o lugar onde Jaz barra e
riacho da mesma Missao, e dahi dando as costas ao Brejo
cortando direito a uma ponta grande da serra para a part
do rio de S. Francisco, da parole do poente, da qual terra
poderd o dito Gentio tomar posse, e o dito Frei Carlos Maria
de Ferrara para xituafao de xua Aldeia e Missao, quer por
is quer por auctoridade da juslixa, e quer a tome quer nao
de hoje para todo o sempre ox ha por empossadox pela
clausula constitui, e que de si demita t6da poxee e dominion
que na dita parte de terra tinham, e que Jazendo o contrrrio
nao queriam ser ouvidos em juizo nem fora delle, tanto por
xuax pessoas como por seus herdeiros, para o que se desa-
Joravam de todox ox privil/gios, izenrJex e liberdade e do
juizo do xeu jSro, e tudo o mail. que a seu Javor faca, e Sd
que esta valesse e se lhe desse todo inteiro cumprimento,
como nella se declara, para o que podiam as justicas de Sua
Magextade que tudo guard, facam muito inteiramente cumprir
e guardar Este instrumento axsim e da mesma sore que nelle
se contcm e declara, e logo peto Rdo. Padre Frei Carlos
Maria de Ferrara, como procurador e Missiondrio do dito
Gentio Joi dito que Elle acceitava a dita escritura na Jorma
que nella se declare, e se obrigava nas pessoas dcs ditox
Gentios em tempo algum nao innovar coisa alguma, nem
nellex haver arrependimento por xerem muito contented e ami-








gavel composicao, porlm cor declarapao, que largando o dito
Gentio a Missao tornariam as terras a antiga posse do dito
diante ou de seus herdeiros, e de como assim o disseram e
outorgaram, estipularam, e acceitaram, eu tabelliio como
pessoa pLblica, estipulante e acceitante, estipulei e aceitei em
nome do ausente a quem a Javor desta tocar possa, e pedirem
jossem feito este instrument nesta nota em que assinaram o
Coronel Antonio Lopes de Andrade e Feliciana Mendes que
reconhefo pelos pr6prior, de que se tratam, e eu Roque
Correia Merreiros, tabeliao escrivi. Domingos .Alvares MAattos,
assigno a rogo de minha mulher, Dona Maria Ferreira da
Silva, e como seu procurador. Domingos Alvares de Mattos,
como procurador e missiondrio do dito Gentio, Fret Carlos
Maria de Ferrara, capuchinho, Antonio Lopes de Andrade,
Feliciano Mendes da Silva, e nao se continha mais em dita
escrltura de doacao, que eu Roque Correia Marreiros, tabe-
lliao publico do judicial e notas na nova Villa de Nossa
Senhora da Expectacao do Ic6 e seu term, capitania do
Cear6-Grande por sua Magestade que Deuj guard, aqui
trasladei bem e fielmente do prdpro livro de natas donde a
tomei, o que me report e vai na verdade rem coisa que
duvida jaca e comigo prdprio Oste traslado conjeri e concerted
e me assigned do meu signal pdblico e raso a seguinte-estava
e signal pdblico-em Jf de verdade Roque Correia Merreiras.
(Copiado do livro de autoria de Ant.nio Bezerra al-
gumas Origens do Ceard Prgs.: 224-225-226.
Auto de posse que toma o Rio, Padre Frei Carlos
Maria de Ferrara, de uma sorte de terras nas ca-
beceiras do Miranda, ribeiro dos Cariris-novos, co-
mo procurador e administrator do Gentio Cari e
mais agregados.
Saibam quantos Wste instrument de auto posse virem
que sendo no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus
Chri.to de 1743 annos aos trez dias do mez de dezembro do
dito anno, nerte logar da Miissao do Miranda, termo da vil-
la do Ic6, capitania do Ceard-grande, .adonde eu tabeliao ao
deante nomeado fui vindo a requerimento da parte, e sendo
ahi appareceu perante o Rdo. Padre Frei Carlos Maria de
Ferrara, procurador e mirsionArio do Gentio Cari e seus
agregados, pessoa que reconheeo pela propria de que se trata,
e por elle me Joi apresentada uma escriptura de doacao de
uma parte de terras, cuia fica lancada no livro das notas,
e por elle me joi requerido em presence das testimunhas so
deante nomeadas e assinadas, que em virtude da dita escri-
ptura the desse posse judicial da dita parole de terras que
consta da dita escriptura de doacao que me apresentou de








que dou ft, e satisfazendo eu a sou reqaerimento em virtude
da dita escriptura, entrei nas ditas terras em arias parties
em presence das testemunhas que presents estavam, e logo
o dito Alissionhrio, como procurador dos Indios passou por
varias parties em lugares das terras, pondo signals e balisas,
e logo gritou em alta e intellegivel voz, se havia quem pu-
sesse embargo a dita posse viesse perante mim que eu es-
lava prompto para Ihes receber, e pelos nao haver depois do
dito Rdo. Missionario cortou varias arvores e por signals,
eu tabelliao Ihe dei posse da dita parte de terras na Jorma
que lhes pertence pela dita escriptura que aceitou, e lhe a real
e actual civel e natural, e o houve por impossado tanto quan-
to e por razao de meu oficio sou obrigado, a qual elle ac-
ceitou assim e da mansira que nesla se contem em Jf do
que fiz este instrument e auto de posse nesta nota que as-
signou o dito Rdo. Missiondrio com as testimunhas que pre-
sentes estavam, o Coronel Antonio Lopes de Andrade e Fe-
liciano Mendex da Silva, e eu Roque Correia Aarreiros, ta-
beliao o escrevi. Como Missionario do dito Gentio Frei Car-
los Maria de Ferrara, capuchinho Antonio Lopes de Andra-
de, Feliciano Mendes da Silva, e nao se continha mais no
dito auto de posse que eu Roque Correia Marreiros, tabelliao
public do judicial e notas na nova Villa de Nossa Senhora
da ExpectaFao do Ic6 e seu termo, capitania do Ceard-gran-
de por Sua Magistade que Deus guard, aqui e trasladel
bem e fielmente do proprio de meu livro de notas donde o
tomei qaal me report, e comigo proprio o conjeri e concer-
tei e vae na verdade sem coisa que du'ida Java, e me as-
signei do meu signal public e raso seguinte: estava pos-
to o signal public, em /f de verdade, Roque Correia Mar-
reiros.
Copiado do livro de autoria de Antonio Bezerra Al-
gumas Origens do Cearh Pags: 227-228-229.
(7) Almeida, conta que outras mais moderadas, uma seca tao terrivel e rigorosa,
que durou o espaco de 4 anos, porim no ano de 1791 e
1792 mas excessive, de tal sore que derrubou, destruiu e
matou quare todos os gados dos sertoes desta comarca, e
por isso veio a perder aquele ramo de comercio das I bricas
de came seca desde o ano de 1793 exclusive, porque no
ano de 1794 jt nao houve gados que se malar e pereceriam
todos, re da Capitania do Piaui nao socorressem aos dos
serltes desta comarca cor seus gados, cujo dominio se es-
pera ser reparado em razao de ja ir de agora havendo ga-
dos com que podert continuar a rejerida jdbrica de carnes
secas> (Hist6ria das Sicas Joaquim Alves)









Apesar do otimismo do vereador aracatiense, como alsd
j peculiar ao cearense em geral, a SECA GRANDE Joi jalal
as xarquadas de Aracali, tao celebrex no passado.

BIBlIOGQRAFIA t

ENSAIOS E ESTUDOS Capistrano de Abreu Sociedade Capistrano de Abreu
Rio 1938
tO POVO, edicao comemorativa do primeiro centenario de elevacio de Crato
A Cidade 17/10/1953
CEARA HOMES E FATOS Joilo Brigido
DICIONARIO GEOGRAFICO HISTORICO E DESCRITIVO DO ESTADO DO
CEARA' Alvaro Gurgel de Alencar Tipografia Minerva Fortaleza 1953
HISTORIA ECONOMIC DO CEARA' Raimundo Girao Institute do
Cear& 1947
FOLHA DA SEMANA Crato, 21.6-1954
REVISTA 'A PROVINCIAL Crato, 1954
ENCICLOPEDIA DOS MUNICIPIOS BRASILEIROS IBGE Rio. 1959
HIST6RIA DA CASA DA TORRE Pedro Calmon
CIDADE DO CRATO Jos6 de Figueir8do Filho e Irineu Pinheiro, EdicAo do
Service de Documentaclo e Cultura do Ministerio da Eduoac&o e Cultura -- Rio
CEARA' COLONIA Walter Pompeu Tipografia Urania 1929
ALGUMAS ORIGENS DO CEARA' Ant6nio Bezerra (C6pia de Hermogenes
Martins)
HISTORIA DAS SECAS Joaquim Alves Instituto do Ceari. 1953

























IV CAPfTULO


0 CEARA SEPARADO DE PERNAMBUCO. 0 CARIRJ
ENTIRE OS SiCULOS XVIII E XIX. A SEGUNDA
COMARCA DO CEARA

O nascimento e crescimento da missao do Miranda e os pri-
meiros albores da Vila Real do Crato foram relativamente calmos. O
indigena, apesar de ser o mesmo que op6s a mais tenaz resistencia
ao colono, ja verificada no Norte do Brasil, fAcilmente foi catequisado
pelo capuchinho ou pelo carmelita. em S. Jose dos Cariris Novos,
depois Missao Velha. Naturalmente, nao deixou de haver choques e
lutas do comCeo da sociedade em formaCio. As convulses entire o
aborigene e o colonizador, que abalaram outras paragens, passaram
quase desapercebidas nesse alvorecer da civilizagio, em plagas cariri-
enses. Missao Velha ja era freguesia, como tamb6m, o Crato, que
tivera a primasia de inaugurar a vida municipal aut6noma, na region.
Sacerdotes seculares passaram a gerir espiritualmente as duas par6quias.
A injustica clamorosa da transferencia dos cariris de Crato para
Arronches, hoje Parangaba, nao encontrou reaiao por parte dos
pobres espoliados, ji sem os her6icos defensores os frades capu-
chinhos. A sociedade se formava em ritmo quase normal e s6 entraria
em ebulicgo, ap6s 3 de Maio de 1817, com a adesao de Crato e da
CAmara de Jardim ao movimento revolucionArio, partido de Recife.
0 CearA, ji no crepfisculo do seculo XVIII, passara a ter








governor pr6prio, nomeado diretamente pela administration lusitana. Foi
o inicio da redenwio econ6mica cearense, pois, assim p6de fazer co-
mercio diretamente cor Lisboa e ter tamb6m seu governo, em casa,
olhando melhor para as reais necessidades da capitania, prestes a
transformar-se em provincia.
O Cariri, entretdnto, ficava tio long de Fortaleza, quase
quanto de Recife. A noticia, ao que se presume, foi recebida no meio
cor indiferentismo. Os vinculos comerciais, e mais tarde, politicos,
continuariam cor Pernambuco, cor consequencias decisivas na regiio,
em virtude das terriveis lutas em prol da emancipag5o political nacio-
nal, cuja eclosdo nao tardaria.
Embora retardadamente,
Da. Maria 1 Amor e Delicias do seu povo, guiada pela sua inata
Beneficencia, decidira trazer alteraq6es para a rotineira vida da Capi-
tania, de dfstria insignificant, riqueza pfiblica, e individual escassa, sertoes
invios, justica sem valor, despotismo dos governantes exercido sem
contestaCgo, nenhuma instrugco civil e pouquissima instruiao religiosa
(ALENCAR ARARIPE).
Sendo-me presents consignara ela na Carta r6gia de 17
de janeiro de 1799 os inconvenientes que se seguem, tanto ao meu
real servigo como ao bem dos povos, da inteira dependencia que os
governos das Capitanias de Siara e de Paraiba se acham do gover-
nador e Capitao General da Capitania de Pernambuco, que pela
distancia em que reside, ngo pode dar cor prontidio as providEncias
necessArias para a melhor economic interior daquelas Capitanias,
principalmente depois que elas tern aumentado em populacgo, cultural
e comercio, Sou servida separar as ditas Capitanias, do Siara e Paraiba
da subordinagao imediata do Governo Leal de Pernambuco em tudo
o que diz respeito a proposta de oficiais militares, nomeag6es interinas
de oficios e outros atos governo, ficando porem os governadores
das ditas duas capitanias obrigados a executar as ordens dos Gover-
nadores de Pernambuco no que for necessfrio para a defesa interior
e exterior das tres Capitanias e para a policia interior das mesmas.,
Colorfrio 16gico da media era esta outra, constant da mesma
carta: dgualmente determine que do CearA e da Paraiba se possa
fazer um comercio direto cor o Reino, para o que se estabelecerio
em tempo e lugar convenient as bases de arrecagio que forem pre-
cisas e se dio as outras previdEncias, que a experiencia mostrar, para
a comunicacgo imediata e o comercio corn ste Reino.>
A efetuaqgo dresses desejos reals viera confinada ao encane-
cido Chefe de esquadra Bernardo Manuel de Vasconcelos que che-
gando ao Ceari em 25 de setembro do citado ano de 1799, iniciaria
uma sequencia de governadores s6mente quebrada cor a deposiCeo
de Francisco Alberto Rubim, em 3 de Novembro de 1821.v (PEQUE-








NA HISTORIA DO CEARA Raimundo Girio, Editora A. Batista
Fontonele, 1953)
O primeiro governador esteve A altura do seu cargo e procu-
rou logo iniciar o comercio direto com Lisboa. Em sua companhia
trouxe o naturalista Feij6 que, quando secretario do governo do Ca.
bo Verde, em 1793, deu bondosa assistencia aos deportados brasilei-
ros da inconfidencia Mineira. Seu trabalho principal foi procurar mi-
nerio no Ceari. A vida no Cariri caminhava a passes lentos. A ca.
lamidade da seca grande de 1792 tamb6m o atingiu em cheio, nio
tanto como nas outras localidades sertanejas. A agCo do n6vo gover-
no s6 Ihe chegava lentamente. Nenhum predio de valor resta daquela
epoca. As construg6es quase t6das de taipas nio deixaram vestigios.
As pr6prias igrejas tamb6m modestas, sem o menor trago de esplen-
dor das construidas na zona canavieira do Pernambuco ou do Recon-
cavo Baiano, foram remodeladas; mais adiante, para chegarem at6 o
tempo present. Casa de tijolo levantou-se no comego do seculo, feia,
atarracada e que chegou ate o seculo atual, isso na vila Real do
Crato. (1) Foi a habitafio de Barbara de Alencar, A Praca da Ma-
triz, hoje Praga da Se. Foi demolida pelo governo do Estado afim
de levantar o pr6dio da coletoria estadual. Em Jardim outra de qua-
se identica construcio, ainda subsiste ao tempo e pertenceu ao Padre
Ant6nio Manuel de Sousa o Benze Cacetes, cuja figure proeminenre
na hist6ria caririense iremos conhecer, noutros capitulos.
A calmaria, por6m, nio era total na zona, Rivalidade, de re-
sultados funestos para 0 future, surgiu entire Jardim e Crato.
reia Arnaud, filho do Coronel de Milicias de Missao Velha; Alexan-
dre Correia Arnaud (Natural de Inhambupe) e Isabel Maria da Pu-
rificacio. Neto paterno do fundador da cidade de Missao Velha: -
Capitio Joio Correia Arnaud e Isabel Maria da PurificaCio Masca
renhas (de Iguape).
O citado capitdo-mor Jose Alexandre Correia Arnaud era ri-
val do Capitao-Mor do Crato Jose Pereira Filgueiras. Foi esta ri-
validade que levou aquele Capitao a solicitar do Principe Regente, o
desmembramento do povoado de Jardim, da Vila do Crato, e que se
realizou pelo Alvarh de 3 de ag6sto de 1814, erigindo em vila o po-
voado do Bom Jesus da Barra corn o nome de Vila de Santo Ant6-
nio de Jardim, tendo por termo o territ6rio atW entao pertencente a
freguesia de Missio Velha e por patrim6nio uma l6gua quadrada. A
ordem de inauguracao da nova vila s6mente foi expedida a 2 de
ag6sto de 1815, mas sua inauguracio se de a 3 de setembro de 1816.
Foi assim Jardim o segundo municipio do Cariri criado ainda no
tempo da Col6nia (NOTICIA HISTORICA SOBRE O MUNICfPIO
DE JARDIM Maria Luiza Linhares ITAYTERA Crato,
1957).








Aparece assim pela primeira vez, nesta hist6ria, o vulto de
Pereira Filgueiras que iria encher uma 6poca cheia de convulses.
Nao era natural nem do Cariri, nem do Ceara. Nascera na fregue-
sia de Nossa Senhora da Oliveira, na Bahia, e viera para o Vale Ca-
ririense nos meados do seculo XVIII, acompanhando seus genitores
- o luso Jose Quezado Filgueiras e Dona Maria Pereira de Castro.
Casou-se no sitio Sao Paulo, agora no municipio de Barbalha, a 25
de ag6sto de 1803, cor a baiana Joaquina Maria Parente, fllha legi-
tima do Cel. Manoel Gongalves Parente e Dona Rosa Maria do Sa-
cramento. Foi oficiente o paroco Pe. Franscisco Xavier Motez, ser-
vindo como testemunhas o Capitio Jose Alexandre Correia Arnaud e
o mestre de campo Jose de Araujo Soares, tudo isso de confor-
midade cor o Livro de Casamento da Par6quia de Missdo Velha.
Aquela mesma testemunha iria, mais tarde, inimizar-se cor
ele, contribuindo assim para os dramas sangrentos que se desenrola-
riam, azedadas cor lutas political, rivalidades entire Crato e Jardim
influindo, de algum modo, ate nas convulses que se desenrolariam
no Cariri, de 1817 ate 1824, como oepilogo final de 1831 para 1834.
<(Em 1811, Jose Alexandre Correia Arnaud detinha o cargo
de juiz de 6rfaos do Crato, como se ve da sentence proferida nos
autos do inventario de Dona Inacia Pereira de Jesus:
Achei por justificado e deduzido no requerimento da justifi-
cante, e julgo assim por minha sentence definitive que mando se
cumpra, como nela se cont&m. salvo sempre o prejuizo dos 6rfios,
quando o haja: pague o justificante as custas dEste sumArio, que se
juntari aos autos do inventario respective.
Real Vila do Crato, 18 de janeiro de 1811, Jose Alexandre
Correia Arnaud.
Como causa da rivalidade entire Jose Alexandre Correia Ar-
naud e Jose Pereira Filgueiras, se apontou o fuzilamento de um sobri-
nho do iltimo pelo cabo Francisco Calado e sua gene, afeicoados
ao primeiro. Mas. a verdade 6 que o sangrento epis6dio, absoluta-
mente impremeditado, apenas antecipou e apressou, casual e indire-
tamente, o desfecho duma situaCio em march surda, de que a pro-
tecgo dispensada por Jose Alexandre aos fuzileiros do sobrinho de
Filgueiras, foi uma manifestag&o aberta e gritante. A situacio em
march surda era a rivalidade que jA lavrava entire ambos, e cujo
resultado final se afirmou pela perda, para Filgueiras, da jurisdiqCo
military sobre metade do Cariri, cor a criagao da vila de Jardim e
sua respective capitania mor, iniciativa do mesmo Jose Alexandre
como se viu, desenvolvida pessoalmente no Rio de Janeiro, junto ao
mundo official do Principe D. Joao, tendo, do mesmo pass, conse-
guido, para sua pessoa, o cargo do capitao-mor daquela vila.
Vencido no Ceara, onde o gove:nador Manuel Infeio Sam-








palo, se inclinara por Filgueiras. Jose Alexandre Correia Arnaud
revida cor aquele golpe, revelador da inteligencia, argicia, tenacidade
e decisao de seu autor, bela expressao da estirpe dos Arnaud deste
Cariri.'
Enquanto relutava em se entregar a tropa comandada pelo
Cabo Francisco Calado, que o cercara no sitio Cantagalo, Goncalo
de Oliveira Rocha Jiinior, Goncalino, despachou Joaquim Inacio para
o sitio S. Paulo cor aviso a Filgueiras. Cavalgando para Cantagalo,
Filgueiras e Joaquim Inacio toparam a escolta de Calado em Missao
Nova, conduzindo Goncalinho em amarras. Filgueiras exigiu a liber-
dade do preso. Resistindo Calado, acendeu-se a discuss5o, em cujo
curso Jonquim Inacio saltou do cavalo, cortou as amarras ao preso e
tombou fulminado pelas balas da escolta, que perdeu tres elements,
abatidos por Filgueiras, enquanto os demais encontraram na fuga a
salvagao. De passage, acentue-se que o Cabo Calado prendera
Goncalinho, oficialmente autorizado. (PADRE ANTONIO GOMES
DE ARAUJO REVISTA DO INSTITUTE DO CEARA, 1953).
Essa luta de Jose Pereira Filgueira mais Ihe avultava a fama
no Cariri e arredores. Sua forqa fisica descomunal, aliada A bravura
nas lutas e energies inatas no lidar cor os homes de entao, deu-
Ihe prestigio desmedido no seio das populag6es rurais daquela epoca.
Ate lenda gerou.se em t6rno do seu bacamarte de forma cada vez
mais a grangear-lhe a admiraqao e respeito do povo simples. Sem
grandes obstaculos, resolve fle todas as questoes surgidas naquele
meio.
Em 1816, Joao Ant6nio Rodrigues de Carvalho, 190 ouvidor
do Cearb, ao visitar o Cariri, quando inaugurou a vila de Jardim,
teve rixa seria corn o Capitao-mor de Crato. Supoe-se que o motivo
de tal desentendimento foi a impermeabilidade de Filgueiras a sorver
ideias revolucionarias, pregadas pelo mesmo Ouvidor. fste falou em
prende-lo. Foi obstado, no entanto, porque cerca de 400 homes jun-
taram-se em t6rno de Filgueiras para defend.elo em qualquer cir-
cunstancia. Isso fol agua na fervura e demonstrou que era Ele o li-
der natural da region.
As duas par6quias do Cariri, a de Crato, de Nossa Senhora
da Penha (2) e a de S. Jose do Cariri Novo, conforme escreve o li-
vro de compromisso da Confraria do SS. Sacramento de Missao Ve-
lha, de 28-12-1791, foi acrescida com a de Jardim.
(Onze de outubro de 1814, assinala a criacio da Freguesia
de Jardim, sendo seu primeiro vigario C6nego Ant6nio Manoel de
Sousa (natural do Rio Grande do Norte) que tomou posse em feve-
reiro de.1815. Seu parequiato prolongou-se ate 25 de setembro de
1857, quando faleceu, ja cego octogenario, o notAvel politico e men-
tor dos acontecimentos de 1832, culminados cor o fuzilamento de
Pinto Madeira a (MARIA LUIZA LINHARES ITAYTERA)








Era vigario, naquele ano, em Crato, desde 1930, o Padre
Miguel Carlos da Silva Saldanha, outro que ocuparia lugar de desta-
que nos acontecimentos tr9gicos e 6picos que 'comegaram em 1817.
Foi o quinto vigario da freguesia, ap6s os padres seculares: Manoel
Teixeira Morais, Ant6nio Lopes de Macedo Junior, Ant6nio Teixeira
de Arauijo e Ant6nio Leite de Oliveira.
Outro fato important se deu, em Crato, cor repercussio em
todo o sul cearense. Foi a criagCo da segunda comarca do Cears.
O filtimo ouvidor cor jurisdigco em todo o Ceara Grande f6ra Joao
Antonio Rodrigues de Carvalho. Pelo mesmo alvara que criou a ou-
vidoria do Crato foi tamb6m criada a vila de Lavras, a 27 de junho.
O item primeiro do alvarA diz assim: Hei por bem dividir a
comarca do Ceara-Grande, e criar outra cor a denominaco de co-
marca do Crato, servindo-lhe de cabeca a vila de Crato e compreen-
dendo no seu distrito as vilas de S. Joao do Principe, Campo Maior
de Quixeramobim, Ic6, Santo Antbnio do Jardim e S. Vicente de La-
vras, que por este alvara sou servido a elevar a qualidade de vila.
T6das estas vilas ficam logo desmembradas da referida comarca do
Ceara-Grande, e sujeitas a nova comarca do Crato do Ceara.>
Para os neg6cios da justice Esse fato revestiu importancia
exceptional, notadamente porque, para servir de ouvidor da nova
.comarca, foi nomeado o Desembargador Jose Raimundo do Pago de
Porb6m Barbosa, que (era um homem superiors, no dizer de Joao
Brigido.
Cor efeito, Porbem Barbosa patrocinou a construcgo de uma
casa de caridade em Ic6; tomou o maior interesse pela intensificacgo
das operac6es mercantis dessa vila e, alem disso, foi o primeiro a
levantar a ideia de aproveitamento das aguas do S. Francisco para a
irrigacio dos rios do Ceara, notadamente o Salgado.
O primeiro Ouvidor de Crato, nomeado por Carta Regia de
12 de julho de 1817, esteve em exercicio ate 1820. Seguiram-se-lhe o
Ouvidor Bel. Joaquirn Correia da Costa Pereira do Lago, nomeado
por Carta Regia de 1 de ag6sto de 1820 e que exerceu o cargo ate
1827: o terceiro Ouvidor, Manoel Pedro de Morals Mayer, nomeado
por Carta Imperial de 8 de novembro de 1827, e que exerceu as
fungoes de cargo ate 1827: e, por fim, o quarto e iltimo Ouvidor,
Bel. Martiniano da Rocha Bastos, nomeado por Carta Imperial de
31 de outubro de 1829. A partir de 1854 a comarca de Crato passou
a ser administrada por Juizes de Direito. Jose Vitoriano Maciel foi o
primeiro a exercer o juizado nos anos de 1834 a 1835. e(FLAGRAN-
TES DA HISTORIC DO CRATO Ant6nio Martins Filho Povo> 17 10 1953) (3).
Em 1816, quando esteve no Carir o Ouvidor Jo.o Antonio
Rodrigues de Carvalho, alem da inauguracio da vida de Jardim, in-
terferiu cor sua autoridade judiciaria para resolver problems impor-








tantes. Solucionou a questdo de grades proporc6es das Aguas do
lugar chamado Lagoa da Ariosa, ainda hoje cor vestigio no tnunicipio
de Crato e conservando a denominacfo de antigo sesmeiro. Reprimiu
energicamente a horda de ciganos, que infestava a regiao, sobressai-
ram-se pelo saque, violencia e desordem. Cometeram as maiores
estripulias em Crato. Desde 1760 que havia alvara expedido do reino
contra os ciganos no Brasil (General Dr. Pinheiro Monteiro).

NOTAS:
(1) sentes e interditos do Crato, antes do inventdrio de ht cem
anos atrs., ou maix, concluir6 que, no Cariri, naqueles
longinquor tempos, nada havia de luxo, ou mesmo de
conSfrto.
Baixfs'simo o valor das terras, casas, mobilias, enge-
nhos-de-pau de moer canas de afucar, aviamentos-de-casas-
de-Jarinha, gados, metals como ouro, prata, cobre, Jerro, etc.
Nada escapava a meticulosidade dos inventariantes que, talvez,
assim, Jfssem minuciosos cor o Jim de evitarem desconfian-
fas e desgostos entire os interessados.
Arrolavam objetos mais insignificantes como, por exemplo,
enxadas e machados velhos a razao de 500 a 400 rdis, cha-
peus de couro por 600 risx ou duas patacas, toscos bancos
de paus, mesa de cedro corn gavetas e sem elas por 4 mil
reis, camisas de home e ceroulas por 300 a 160 rdis res-
pectivamente, cada uma, cangalhas desaparelhadas e estra-
gadaf.
No primeiro quarter do s'culo passado, num espdlio, incluiram
um cdlho de enxada, por 160 rdis.
Entre essays causes humildes realeava, as vezer, uma
j6ia de ouro e de prata, nunca de brilhantes, um vestido de
seda, uma casaca de pano fino azul, etc.
Eram, regra geral, leigos o. juizes de 6rjaos, que se
revezavam de quando em quando. Citem-se aqui alguns casos
em que, por exceeao, Juncionaram bachar6is.
Em 1822, ordenou se invetariassem os bens de Malaquias
Pereira de Andrade o Ouvidor e Carregador da Comarca de
Crato, Dr. Manoel Pedro de Miorais Mayer, o qual, em
1824, participara, na qualidade de relator, da Comissao
Military, chefiada por Conrado Jac6 Niemeyer.
Em 1812, numa conta apresentada pelo vigdrio Miguel
Carlos da Silva Saldanha le-se que a ste, num serviro jf-
nebre solene, constant de acompanhamento do corpo do
dejunto, cdnticos, missa couberam 11.200 risi, aos outros








padres que o auxiliram, importtncias desde 960 a 4500 riis,
segundo a assistencia de cada urn aos atos das cerimdnias
religiosas.
Era de 640 rdis (duas patacas) a esp6rtula de uma
missa de corpo present, e de 4.420 rdis (quatorze patacas) a
de um oitavrrio de missas. Foi a pataca quantia muito
usada entire nossos antepassados.
Em um inventhrio de 1843, ganhou o Juiz 6 mil reis,
o escrivao 9.320, curador 1600 ris, o contador 600 r6is.
Masa ninguem se admire dresses algarismos. Tudo era
baratissimo naquela ipoca.
Num inventlrio de 1809, estimaram-se vacas em 5 mil risx
uma, em outro de 1840 deram-se as vacas solteiras e paridas,
na devida ordem prepos de 8 a 10 mil rits.
Sao, ainda, elevadas essas cifrat se as compararmos
com as de inventhrio de Joio Gonaalves Diniz, em 1751, no
qual inventario avaliaram-se vacas parideiras, a razao de
mil e seiscentos reis uma. Nesse document deram a mil cevar de mandloca semedeira) o valor de quinze mil riis,
e a -mil cevas de mandioca nova> o de dois mil reis.
Compravam-se por 1500 ris brapas (2 mts. 20 cent.) de
terrenos, as quais, hoje, sao vendidas por 2 a 3 mil cruzeiros.
(ano de 1950).
Valia a oitava (pouco menos de 4 grs.) de ouro 1200
ris a 3 mil reis, a de prata 100 reis.
S6 era caro escravo, cujo preco atingia centenas de mil
ris. Dos inventirios, que li, deduz-se que, no Cariri, nunca
houve grande proprietirios de cativos. (O CARIRI-Irineu
Pinheiro Fort. 1950)
(2) CA capelinha, que, em 1742, era dita igreja de Nossa
Senhora da Penha da Mis.rao do Miranda, samente a 1 de
janeiro de 1745, loi oficialmente dedicada a Senhora da
Penha. Isto comprova cor a inscriao gravada numa pedra
embutida na parede exterior da matriz do Crato. E do teer
seguinte:
Uni Deo et Trino
Deipara Virgine
Vulgo da Penha
S. Fideli missio. S. P; FRan. ci Capucinerum
Protomartyri de Propaganda Fide
Sacellum hoc
Zele, humilitate, labor
D. D.
Sup. eiusdem Suncti Cosocy F. I.
Kalendis January
Anno Salutis AJDCCXLV.








A prop6dito diste documento, de mator valor hltd6rtio,
Jol divulgado pelo renomado historidgrafo cearense, Antonio
Bezerra, uma traduifo da autoria de Projessor JsI AMarro-
cos segundo a qual Frei Fidelis teria dedicado a Capela a
Debd Uno e Trino e a Virgem, Mae de Deus, Nossa Senhora
da Penha, no, ano de 1704. 0 texto de inscricao, sdbre que
o latinista sul-cearense trabalhou a rua tradufao, Joi colhido
de uma disldncia de 11 metros, gracas a lente de urn bind-
culo, quando a pedra ainda estava colocada na parede da
matriz, e resultou substancialmente alterado e deturpado.
Destarte, carece de todo valor a traduFao em apreo, nao
merecendo sequer ser citada a opiniao, ndle calcada, de que
a Capela ja exististse em 1704 ou que por aqul houvesse
atuado, urn Frei Fidells. Alids, esta conJusao influiu p ara
que se dijundisse a suposiao de que o Crato primeiro s
tenha chamado Curado de S.. Fidlis.
0 prdprio Antonio Bezerra se penitenciou do erro, es-
posando o parecer do entao Mons. Quintino Rodrigues. Re-
almente, o primeiro Bispo de Crato, quando ainda vigdrio,
fizera descer a mencionada pedra para a guardar ccmo uma
preciosidade na sua matriz>, apanhando o texto exato, al-
canpou-lhe o sentido verdadeiro. Em carta ao Autor de "Ori-
gens do Cariri7, datada de 13 de junho de 1913, escreve:
de josx Marrocos, que evidentemente se equivocou.>
Nao hd o pretense Frei Fidllis, dedicador da Capela
(em nomination latino), mas sim Frei Fidelis de Sigmaringa
(em dativo), protcmdrtir da Propaganda fide, e missiondrio
capuchinho, a quem o superior da mesma capela (ejusdem
Sancti) e os Jrades (ou irmaos) seus companheiros de Missao
(concocil Jf) tambem a dedicaram (DD) em 1745> Antdnio
Bezerra, Algumas Origens do Ceard, 1912 pdg. 116-117) Do
padre Rubens L6ssio NOSSA SENHORA DA PENHA
DE FRANCA ITAYTERA Crato Ceard 1961.
(3) Rodrigues de Carvalho, que era balano, empossou-se no dia
8 de maio de 1815 e Joi o derradeiro dos Ouvidores corn
Jurisdifao em todo o terj trio cearense, pois que pelo Alva-
rd de 27 de junho de 1 16 foi criada a Comarca de Crato,
dirigida por outro Ouviddr, o primeiro deles Jose Raimundo
do Pafo de PorbEm Barbosa, empossado em 17 de dezembro
de 1817. Rejerido Alvard determinava que a sede da Ouvi-
doria de Aquiraz passasse para Fortaleza. Na gestao do Ou-
vidor Carvalho erigiu-se em vila a povoafao de Barra de
Jardim (1816). Fol, no regime provincial, Senador pelo
Ceard e Ministro do Supremo Tribunal de Justica.









No que tange I primeira insthncia, e judicidria era cof/ia-
do a juizes leigos, juizes de vintena, almocatle e juizes ordi-
ndrios.
O primeiros, eleitos anualmente pelas Camaras, cha-
mavam-se tambem juizes peddneos ou vintaneiros, tinham
competlncia para decidir verbalmente, eem agravo nem ape-
lafao, causa aie certos limited do valor, mas nao conheciam
de materia criminal, nem de demanda:s sbre bens de raiz,
Os almotaciis tomavam conhecimento de leito: em audicncia.
sem procerso escrito, cor apelapo ou agravo para os juizes
ordincrios. Estes, eleitos trienalmente corn o vereadores, em
ndmero de tres, servindo cada qual durante am ano, conhe-
clam dos recursor contra as decisdej dos almocaMis e as jul-
gavam, por si mesmos se a causa nao excedia o valor de 600
rdis e, se excederse, sdmente as despachavam cor a asxis-
tencia dos vereadores. Quando havia pena corporal a aplicar,
o recurso era para o Tribunal de Relaao. Nas vilas de mais
importlncia Juncionava um juiz de fora, nomeado pelo Rei
entire bacharisx em direito, nao havendo, entao, juiz ordindrio.
Eram pagos pelos cores reals e tinharn aposentadoria, alem
das pr6prias a que estavam obrigadas as Camaras.
Ao centendrio dos juizes ordinarios que, como insignia,
conduziam uma vara encarnada, os juizes de Jora as tinham
brancas. Bern mais amplas eram as suas atribui4Jes e no
Ceard os houve em Fortaleza (Decreto de 24 de junho de
1809) Sobral e Aracati (citado Alvard de 27 de janeiro de
1816). Completava-se o aparelho judicial corn os escrivaes
dos almotactis, os Alcaides, Pstes encarregados das deligenctas
e mandados judiciais, os carcereiros, encarregados da guar-
da da cadeia. Havia, junto a Ouvidoria, ox escrivaes privd,
ticos e o meirinho de correiao, corn o respective escrivao.
A Provedoria, de junoJej fiscais, era exercida no Cea-
rd, pelo Ouvidor, desde a separaao dela do Rio Grande do
Norte. ,(PEQUENA HISTORIC DO CEARAz, Raimun-
do Girao, 1953)
Ouvidoria e Provedoria da Fazenda Real separaram-se
do Rio Grande do Norte, no Cear4, desde a Provisao R6gia
de 7 de janeiro de 1723. A Provederia joi extinta em 24 de
janeiro de 1799, cor a criapio da Junta da Fazenda, ap6s
a separacao do Ceara, de Pernambuco.








BIBLIOGRAFIA I

PEQUENA HIST6RIA DO CEARA Raimundo Giruo A. 3atista Fontenele
- 1953. FORTALEZA
ITAYTERA Crato, 1957
LIVRO DA PAROQUIA DE MISSION VELHA (PESQUISAS DO PADRE GOMES)
REVISTA DO INSTITUTE DO CEARA', 1953 OS ARNAUD NO CARIRI -
PADRE ANTONIO GOMES DE ARAUJO
LIVRO DE COMPROMISSO DA CONFRADIA (A grafia 6 assim) DO SANTIS-
SIMO SACRAMENTO DE S. JOSE DO CARIRI NOVO
.0 POVO, DE OUTUBRO DE 1953
O CARIRI IRINEU PINHEIRO CRATO, 1950
ITAYTERA Crato, 1961
























V CAPfTULO


REVOLUCAO PERNAMBUCANA DE 1817. REPER-
CUSSAO NO CARIRI. ATUAQAO DA FAMILIAR
ALENCAR. INFLUBNCIA QUE FICOU.
0 GOVERNADOR SAMPAIO

Muito se ter discutido em t6rno da revoluCao de 1817, na
Vila Real do Crato. Foi movimento efemero, que durou apenas oito
dias. Ocorreu a 3 de maio de 1817, em consonancia cor a revolu-
4ao que eclodiu em Pernambuco. Foi abafada, quase ingl6riamente,
a 11 do mesmo mes. a verdade que a vila bisonha de entao nao es-
tava suficientemente preparada para a rebeliAo que, para rebentar, em
Recife, necessitara da assimilagio de muitas piginas de literature re-
volucionAria, da luta entire brasileiros e portugueses, em gestagio
desde a guerra holandesa e do prepare meticuloso, em dezenas de
sociedades secrets, alem de fatOres econ6micos miltiplos.
Na vila, que surgira da MissAo do Miranda, a 21 de junho
de 1764, havia, porem, elite que estava representada notadamente pela
familiar Alencar. Muito de seus membros estudaram no Seminario de
Olinda, ninho conhecido de ideias nitidamente revolucionirias e ou-
tros tinham contact direto cor os mentores do movimento que sur-
giria, em 1817, em Pernambuco.
Aqueles oito dias de vit6ria e consequente prepare para o








martirio dos promotores da revolta, foram decisivos para o future de
Crato. Tornaram-no o condutor natural de todos os movimentos em
prol da emancipaaio political do Ceara, cor repercusslo no Piaui e
no Maranhao, como tambem da monfederacao do Equador, ja intei-
ramente de carter republican.
Nao podemos analisar os fatos de um angulo apenas. Se
olharmos os acontecimentos de Crato e Jardim, pelos dias agitados
de maio de 1817, teremos visao errada dos fatos. PEREIRA FIL-
GUEIRAS surgira como figure debil, vacilando entire a revolugao e
os restauradores da ordem, ate que se decide pelo mais provavel a
vencer no moment. Sua figure, entretanto, agiganta-se para tornar-se
dos mais eminentes vultos da hist6ria cearense e nordestina, se pro-
longarmos a analise das coisas, pelos anos de 1822, a 23 e 1824. (1)
O sub-diacono Jose Martiniano de Alencar nao passaria de jovem
idealista precipitando acontecimentos, sem campo preparado, capazes
de levar a ruina t6da a sua familiar e a pr6pria Vila Real de Crato
que serviu de palco ao drama que redundou em quase tragedia,
principiado no dia da invencqo da Santa Cruz. Tristao, que foi figu-
ra cicl6pica, que encheu o Ceara entire 1822 e 1824, nao passaria
de simples moco que adotara sistema fnico e exclusivamente pela
influencia do irmao mais letrado e mais velho, vindo do litoral. Ha
os que condenam, sistematicamente, a rebeliao que teve origem em
Recife e que foi a mais pujante prova da ansia de liberdade do po-
vo brasileiro. Foi a ante-vespera da vit6ria de 1822 e a maior con-
tribuiaio de sangue e de heroismo que o brasileiro deu, desde os pri-
meiros albores da id6ia de emancipacao political, em terras de Santa
Cruz. Tamb6m foi rebeliao de amplitude maior, nao circunscrita A
finica capitania ou provincia.
Mesmo que se reconheca no portugues vocacao de povo co-
lonizador dos tr6picos e de forjador de naV6es, como 6 o exemplo do
Brasil, nao poderemos negar que. no primeiro quartel do seculo XIX,
estavamos na epoca precisa de nos separar de Portugal. A evoluaio
rnacional chegou ao ponto de nio mais podermos ficar ligados a mde
pAtria. A velha Lusitania perdera muito de seu apogeu do tempo da
epopeia das descobertas. Constituiu-se em nacgo de segunda ordem e
a realidade da situacao era que o Brasil se tornara maior, ou mar-
chava para isso, do que a nacio que o descobrira e colonizara. Por
sua vez, t6das as outras col6nias latino-americanas libertaram-se, ou
estavam em vias de emancipar-se, da Espanha, enquanto os Estados
Unidos da America do Norte, desde 4 de julho de 1776, proclamaram
sua independencia da Coroa Inglesa, firmando-a definitivamente, ap6s
her6icas e prolongadas lutas. O exemplo de liberdade, soprando do
norte, contaminara a Franca, ja convulsionada pelo enciclopedismo e
pela crise econ6mica prolongada, tudo isso vindo a influir, em chelo,
em t6da a America Latina. i verdade que, desde 1815, o Brasil
passara a ter pe de igtraldade cor Portugal, ap6s a instituiaio do
Reino de Portugal, Brasil e Algarve. mas essa unilo nunca velo a








satisfazer nosso sentiment nativista.
Em 1807, ap6s dias agitados com a invasio de Portugal pelas
f86ras napole6nicas, sob o comando de Junot, a familiar real translada-
ra-se para o Brasil, debaixo da protecao ostensiva da esquadra bri-
tanica. A 24 de janeiro de 1808, desembarcava na Bahia, parachegar
ao Rio, no dia 7 de marco. Tanto, em Salvador como na capital da
antiga col6nia, naquele instant sede do reino, a familiar real foi rece-
bida com festividades oficiais e populares, tanto assim que a terra
soube logo cativar as simpatias do Principe regente D. Joao: Muitas
medidas tomou ele em beneficio da jovem nacionalidade. Abriu os
ports ao com&rcio estrangeiro, criou o Banco do Brasil, melhorou a
cidade, iniciou a construcio do Jardim BotAnico, etc. Outras, no en-
tanto. que adotou, nho deixaram de chocar brutalmente a populacao
brasileira. Fazendo parte do sequito da familiar real vinham 15 mil
lusitanos, recrutados notadamente entire o funcionalismo, militares e a
nobreza ja em franca decadencia de pais pobre, que desfrutara fasti-
gio, em 6pocas anteriores.
Para acomodar t6da essa multidio, foi logo aplicada a odiosa
lei da aposentadoria.
Qualquer fidalgo apresentava-se diante do Juiz Aposentador e
indicava a casa em que queria morar, f6sse qual f6sse, mesmo que
o dono estivesse residindo nela. O Juiz mandava um official de justice
fazer a notificaqco ao proprietArio ou inquilino com ordem de se
retirar dentro de vinte e quatro horas Se nio tivesse para onde ir,
que f6sse para o diabo, mas desocupasse a casa. Depois o meirinho
escrevia s6bre a porta, com giz, as letras. P. R. que significavam
Principe Regente. O carioca, que sempre teve espirito e graca, mesmo
nas piores ocasi6es, interpretava aquelas letras como Ruaa, ou Predio Roubado>. z(RELIQUIAS DA CIDADE DO RIO
DE JANEIRO Carlos Barthou Pag. 105).
T6das essas coisas contribuiam para criar e acirrar a odiosi-
dade do national, inconstestavel dono da terra, e o intruso que viera
fugindo de Lisboa, acossado pelas baionetas de Junot. A familiar real
f6ra decepcio igualmente. De long, havia a veneraCao pelo rei,
atravEs de tresentos anos de dominion e de certo carinho que teve pela
col6nia, se compararmos com o sistema colonial de outros povos. O
Rei sempre fei a 6ltima entrancia para quem o brasileiro apelava e
quase nunca se decepcionava.
Nas quest6es entire rein6is e brasileiros, nao se inclinava
sempre ele para o lado de sidito peninsular. A colonizacio portuguesa,
como criadora de nacionalidade com caracteristicas pr6prias, foi das
melhores que ja medraram no universe. Alem de outras boas quali-
dades, que deixou no Brasil, nunca nos legou qualquer preconceito
de c6r, como sucede notadamente em parte dos Estados Lnidos e
muito especialmente, nos lugares colonizados por holandeses.








Mas, estAvamos no tempo de nossa emancipagEo. Portugal
enfraquecera. Sua nobreza, outrora forjada na guerra e no cavalhei-
rismo, nio passava de sombra do passado. No Rio, veio apenas acirrar
6dios e criar preconceitos, tanto assim que a pr6pria c6rte passou a
cercar-se, de preferencia, da nobreza rural brasileira. Possuia esta as
virtudes que ficaram vivas no isolamento do campo e oriundas ainda
das bandeiras e do paternalismo, forjado nas fazendas de criacao, da
cultural canavieira e mineraago.
D. Joao VI, incontestAvelmente, tinha tino politico. Criou
amizade ao Brasil onde encontrou certa paz que desconheceu na
Europa. Mas, o simples aspect de sua figure adiposa, ao lado de
esp6sa mal educada, feia, doudivanas, cor a Rainha-Mae louca e o
peralta do filho Pedro, causou p s s i m a impressio ao element
national.
cQuando D. Joao saia da Quinta e se dirigia a algum lugar
mais afastado, como a Fazenda de Santa Cruz, ia c6modamente re-
festelado no seu pesado coche. Seguia acompanhado de um criado
montado num burro cor dois alforges, num iam alimentos, especial-
mente franguinhos assados; no outro ia um urinol "(RELIQUIAS DA
CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Cit. Pig. 108).
O povo em geral nio via ndle o estadista de influencia mar-
cante na evolucgo do Brasil, e sim, exclusivamente, a sua figure um
tanto ridicule, ainda acrescida de titulo de fujao, em contrast cor os
vultos brilhantes de seus ilustres antepassados, da casa de Braganga
Desde tempos passados, que havia sintomas de rebeldia do
national contra o lusitano. E isso era mais acentuado em Pernam-
buco, que desde a sua libertacio do jugo holandes, sem a ajuda ofi-
cial de Portugal, demonstrara que o brasileiro seria capaz de agir
ou mesmo de governar-se por conta pr6pria.

Por ocasiao dos epis6dios, que culminaram cor a GUERRA
DOS MASCATES entire Olinda, e Recife e dominada pela nobreza
rural brasileira e negociantes recifenses, formados de rein6is e judeus,
o Governador pernambucano Sebastido de Castro Caldas, que tomara
posse, em 1707, ficou inteiramente ao lado dos MASCATES. Isso pro-
vocou o exacerbamento do 6dio do olindense que chegou a ocupar a
localidade rival cor mao armada e a forjar possivel reptiblica, aos
moldes da de Veneza, sob inspiraCgo de seu denodado mentor -
Bernardo Vieira de Melo. Antigo Governador de Pernambuco, con-
forme nos revela Rocha Pombo, em sua HISTORIA DO BRASIL,
9" edigAo, revista por Helio Viana, das EDICOES MELHORAMEN-
TOS, de S. Paulo, a pig. 235, dizia (para a c6rte), em document
official, que os pernambucanos repetiam. b6ca larga que, se corn o
pr6prio esf6rgo se haviam libertado do dominio holandes, cor melhor
razio o fariam de Portugual.








A semente da liberdade, em Pernambuco, fora langada, desde
o period da ocupacgo flamenga, entire os anos de 1630 a 1654, corn
a celebre capitulac~o da Campina do Taborda, que p6s fim, definiti-
vo, A invasdo, em terras nordestinas, de um dos povos europeus mais
aguerridos e evoluidos de entlo.
Recife, desde o comego do seculo XIX, sofria a influencia
dos principios da Revolucao Francesa e dos movimentos de indepen-
dEncia dos paises americanos, inaugurados na America do Norte,
em 1776. Sociedades secrets se formaram nos mais diversos moldes,
cor inspiracio mag6nica e contando cor o ap8io do clero, o elemen-
to mais esclarecido do moment, ainda sem a condenacio da Santa
Se do ingresso dos sacerdotes em tais entidades.
A realidade, por6m, 6 que o brasileiro aspirava a essa libertacio
e sua tendencia natural encaminhava-se para a Repiblica, pelos prin-
cipios que sorvia, atrav6s da literature, oriunda da Franga e do exem-
plo da emancipac5o americana. Eclodiu a Revolug;o Pernambucana
de 1817, no dia 6 de marco. Teve como principals causes, no dizer
de Costa P6rto, jornalista e histori6grafo pernambucano: Prosperi-
dade econ6mica corn fundamento no acucar recuperado e situacio
lisonjeira do algodao, bem-estar que, no geral, numa col6nia, constitui
convite sedutor a experiencia de rebeldia a base de auto dominion:
por cima o liberalism decorrente da Revoluc~o Francesa; o estimu-
lante da indisposicio contra o reino e do occasional arrocho fiscal.
(INTRODUCAO AO VOLUME VII DE aANAIS PERNAMBU-
CANOS, DE PEREIRA DA COSTA).
Deveria ter surgido a insurrei lo no dia 6 de maio. a o que
nos revela o Padre Ant6nio Gomes de Araujo, em seu opfsculo -
1817 NO CARIRI, ao transcrever carta de autoria de Frei Amador
de Santa Teresa, dirigida a D. Joio VI, da Bahia:
cA obriqaiio de vassalo me faz apresentar a V. Magestade
que seita dos Padreiro-Livres, cuja sede principal esta nesta cidade
fundada ha mais de 20 anos, por lose Francisco Cardoso, Luiz
Pereira Sodre e outros, e a causa motriz do deplorivel levantamento
dos pernambucanos, e ha de ser para todo o Brasil. Ja agora chors-
vamos esta infelicidade se os pernambucanos nio tivessem lido o dia
6 de maio por 6 de margo da abreviatura, pois neste dia de maio,
refeitos de munigco de b6ca e de guerra como tem demonstrado os
abastecimentos que seguiam para eles e o bloqueio tern feito regressar
para esta cidade, e mais seguros se manteriam na desobediencia.
Um dos ataques prediletos, assestados contra a revolu io de
1817, e que tinha ela carter separatist e o Brasil seria mutilado,
em parte important de seu territ6rio, caso f6sse vencedora. 1 grande
inverdade. A pr6pria carta de Frei Amador de Santa Teresa prova-o
bem e o prepare do movimento, feito cor antecedencia, estendia-se a
vdrias provincias e nunca deixaram seus documents, mais em evi-








dencia, de falar em nome do Brasil em peso. Acreditamos, entretanto,
que, cor a proclamagio da independencia, por um principle da dinastia
portuguesa, cor seu prestigio e conservando-nos, dentro da tradicgo
monarquista, haja o Brasil poupado muito sangue e preservado sua
unidade political de modo mais ou menos pacifico. Nao podemos,
tadavia, condenar a rebeliao de 17 que demonstrou estar a nacao
preparada para gozar sua autonomia political, ao mesmo tempo que
precipitous o 7 de setembro de 1822.
9Os chefes do movimento em Pernambuco tinham entendido
e corn acerto expedir emissarios e propagandistas para diversas Ca-
pitais e para o Estrangeiro. Rumo dos Estados Unidos seguiu Cruz
Cabuga, encarregado de solicitar o ap6io da ex-col6nia InglIsa e de
comprar petrechos belicos, para o que recebeu do ErArio doze contos
de reis, e da sublevacgo da Bahia incumbiu-se Abreu e Lima, mais
conhecido por Padre Roma.
Para o Ceara tudo estava a indicar o jovem seminarista de
Olinda Jose Martiano de Alencar. Moco, ardente, pertencendo a
ura familiar de incontestavel prestigio, discipulo do Pe. Miguelinho e
frequentador dos conciliabulos em que se ensinavam as mais adianta-
das doutrinas e mais livres teorias, ninguem melhord o que ele estava
no caso de pregrar no Ceara o Evangelho de uma ideia. Demais, o
Crato onde os de sua familiar dominavam, ja pelo prestigio do VigArio
Miguel Carlos da Silva Saldanha. ji pela popularidade de Dona
Barbara, mulher de animo varonil, demorava perto de Pernambuco
para qualquer auxilio e a grande distancia de Fortaleza para estar
fora de alcance de medidas rapidas de represslo.
Eis Martiniano a caminho por terra e trazendo por compa-
nheiro Miguel Joaquim Cesar de Melo, que nao 6 o Pe. Miguelinho,
como alguem escreveu.
As instruc6es por que tinham de guiar-se continham as linhas
seguintes:
e cautela, obrando por este modo quando tratarem cor os Povos por
onde passarem, se os acharem dispostos para a boa causa procurarao
acender ainda mais o seu patriotism, mostrando-lhes as antigas
opress6es e os bens que nos virao de nio sermos mais governados
por ladr6es, que vem de fora chupar a nossa substancia; se acharem
os Povos em uma total ignorancia e abatimento procurario dar-lhes
algumas ideias a favor da causa e inflama-los, por6m se acharem
algum tenaz partidista da tirania nAo entrarao cor nle em discuss6es...
basta que o fiquem conhecendo. Assim irao direto ate se avistarem
cor o Vigario de Pombal, dele haverao noticias da Comarca do
CearA, tanto do seu interior, como beira-mar, e terEo noticia do Pe.
Luiz Jose se tiver declarado pela boa causa, irio ter corn ele, e dali
partirA o patriota B pelas cabeceiras do Rio do Peixe ao seu destino









(MARTINIANO DE ALENCAR), ficando cor o Pe. Luiz Jose o pa-
triota. E para dali escrever cartas e mandar papeis para seus amigos
do Ic6. Estas cartas devem set persuasivas sem darem a entender
que as pessoas, para quem foram dirigidas, tem principios de quere-
rem a Liberdade para os nao comprometer. E chegando ao Pombal,
se houver certeza de que o Pe. Luiz Jose nao & pela Patria, dai
seguirao o mesmo destino. E se parecer, ambos iho para o Crato
por cima. Revolucionado o Crato e o Ic6, mandarAo logo a Pernam-
buco aviso para Ihe ir socorro, e estas vilas podem cor cartas e
proclamag6es fazer que se levantem Aracati e Sobral, e mesmo sem
socorro de Pernambuco poderio atacar a Vila de Fortaleza e desttuir
o tirano>. A carta foi assinada pelos chefes revolucionarios e mem-
bros do Governo Republicano de Pernambuco: Padre Joao Ribeiro
Pessoa e Domingos Jose Martins.
O Sub.Discomo Jose Martiano de Alencar, deixando o com-
panheiro Miguel Joaquim no Rio do Peixe, chegou a Crato no dia
29, ficando em casa do Vighrio e seu padrinho Padre Miguel
Carlos da Silva Saldanha. Desde 1800, conforme nota de ESBOCO
HISTORICO DE CRATO, do Cel. Rairnundo Teles Pinheiro, assu-
mira as func6es de vigario colado da par6quia. Foi o quinto sacer-
dote a exercer tal missao, desde a erecao da freguesia da Missao
do Miranda, em 1762.
Estaria a vila Real de Crato, perdida no interior, a centena
de leguas do litoral, preparada para tal event? No local, encravado
em centro agricola important e corn atuagio em vasta region, havia
elite que se formava girando em t6rno da familiar Alencar, que ji
dava os primeiros rebentos a assumirem papel de lideranCa na regigo,
demonstrando que, mais tarde, pela inteligencia de escol e pelo tra-
balho, projetar-se.iam pujantes, pelo Brasil afora.
(A ideia nao medrara em terreno esteril. No Cariri, havia
todo um escol spiritual propicio a infusio dos principios ncvos, ou
f6ssem as ideias do seminarista Jose Martiniano de Alencar. Por
exemplo (sem falar em Dona Barbara, preconizada heroina desde 1810),
o Padre Carlos Jose dos Santos: O Padre Miguel Carlos da Silva
Saldanha, citado; Tristao Gongalves Pereira de Alencar, irmao de
Jose Martiniano e nascido em 17 9 1789 (carta de Conselheiro
Tristlo de Alencar Araripe ao Desembargador Livino Lopes da Silva
Barros,) Leonel Pereira de A I e n c a r, mencionado irmao de Dona
Barbara; Inacio Tavares Benevides, genro daquela e pernambucano
de origem; Francisco Pereira Arnaud (e nio Arnaudo), licenciado, de
Missao Velha, neto do Capitdo Joao Correia Arnaud, co-fundador da
mesma cidade, Bartolomeu Alves Quental (cor 28 anos de idade em
1817), filho de pernambucano, de Recife, Jose Dias Alves de Quental,
que se fixara em Crato e fundou a important familiar Quental, deste
Cariri; Raimundo Pereira de Magalhaes (mais on menos da mesma
idade de Alencar, alias o finico representante da familiar Bezerra de









Menezes. do Pariri, que participou da revolugao de 3 de maio de
1817 nesta zona, Francisco Pereira Maia GuimarAes (fundador da
familiar Maia sob Estes ceus e ascendente de Alvaro Maia, interventor
do Estado do Amazonas no tempo da Ditadura Vargas. (1817 NO
CARIRI PADRE ANTONIO GOMES DE ARAJO).
Em vila do interior qualquer do Brasil de entio nao poderia
haver, relativamente b populag5o, ambiente melhor do que o da antiga
MissAo do Miranda. O contact cor a forja natural do espirito de
rebeliao no Nordeste Recife, era permanent, atrav6s do clero,
estudantes de Olinda e ligag6es de familiar. Sao injustos os historia-
dores que menosprezam o movimento do Cariri, s6 porque nao medrou
em capital litoranea. Naquela epoca, Aracati e Ic6 formavam as vilas
mais pr6speras e opulentas do Ceara e t6das tinham contact direto
cor Crato, pelo comercio intense, de ac6rdo cor o tempo, e tendo
como principal mercado fornecedor e consumidor a metr6poles de
Pernambuco.
A rebeliao de Crato, que durou apenas uma semana, teve,
todavia, repercussio extraordinaria no tempo e no espaco. A vila tor-
nou-se a cabega natural das lutas em prol da independEncia, no
Ceard, e seu raio estendeu-se ate pelo Maranhao e Piaui. Entre 1817
e 1824, Crato, por si, ou seus filhos natos e adotivos, esteve a testa
de tudo quanto se fez pela emancipacio political na provincia e muitas
vdzes, at& fora dela. Os vultos de 1817, que ocuparam a primeira
plana entire 3 de maio e 11 do mesmo mes, mesmo os que contribui-
ram para a sua derrocada, tornaram-se quase nomes nacionais, a
exemplo de Jose Martiniano de Alencar, Tristao, Barbara de Alencar,
Pereira Filgueiras, e o Brigadeiro Leando Bezerra Monteiro, ascen-
dente de figures que encheram de gl6ria a pr6pria nacionalidade. (2)
A familiar Alencar converteu-se em patrim6nio glorioso do pais, de
norte a sul. Cs legalistas de 1817 Pereira Filgueiras e Joao Vito-
riano Maciel,, tornaram.se ardorosos independents, amigos incondi-
cionais de seus antigos vencido s, de 11 de maio de 1817 os
Alencares. (3)
Ao encontrar-se em Crato, ap6s sua louga viagem, o sub-dia-
cono Jos6 Martiniano de Alencar nao perdeu tempo a cumprir sua
dificil missio. Conduzia carta para o Vigario de Crato e o Capitio-
Mor Pereira Filgueiras, e assinada pelo Pe. Joao Ribeiro e Domingos
Martins. Foi auxiliado no prepare da revolta pelos dedicados Tristao
Goucalves, seu irmso e o frade carmelita Francisco de Santana Pessoa,
parent do revolucionario recifense Padre Joao Ribeiro, alem de
outros.
Jose Pereira Filgueiras era caudilho que desfrutava prestigio
ilimitado no seio da populagco caririense. Dispunha de f6rga fisica
descomunal. Valente e energico, sabendo igualmente conviver cor o
home rural o cabra que nele confiava em absolute, em qualquer
moment poderia mobilizar centenas de homes armados e dispostos








a obedecer-lhe em tudo e por tudo.
Jos6 Martiano de Alencar, cor Tristio, Bartolomeu Alves de
Quental e Frei Francisco de Santana, capelao de Barbalha, foram
falar cor Pereira Filgueiras, levando-lhe a carta dos chefes revolu-
cionarios recifenses. Isso foi no dia 2 de maio. Sabe-se que o caudi-
Iho caririense comoveu-se cor os dizeres da missiva e deferencia que
tiveram os cabecilhas de 17, em escrever-lhe pessoalmente. Ouviu a
propaganda do movimento e os meios de que dispunha para vencer, da
b6ca de seus visitantes, mas nio tomou attitude decidida de apoiar a
rebeliao, ou de repudi.-la. Para persuadir o Brigadeiro Leandro Be-
zerra Monteiro, monarquista convict, ficou encarregado o Vig&rio
Miguel Carlos, quenada conseguiu em seu intent.
Para Martiniano de Alencar, a attitude do Capitio-mor do
Crato, Filgueiras, significava, pelo menos, certa neutralidade que ja se
constituia grande coisa, pois qualquer posigio que o caudilho tomasse,
determina:ia a vit6ria ou derrota imediata da rebeliao. Isso pelo menos,
momentaneamente, em t6da a regiao caririense, tal o prestigio que incon-
testAvelmente desfrutava ele.
gente cor promessas de empregos, merces e concess6es, entire as
quais avultava o perdao dos subsidies da came, em espalhar que a
pr6prio Filgueiras se comprometera a chefiar o movimento, estratage-
ma que logrou o esperado efeito;. (BARAO DE STUDART).
aBateu Jose Martiano de Alencar um RECORD admiravel,
organizando a insurreigio no Crato e desfechando-a no curtissimo
espago de quatro dias, na manha de 3 de maio de 1817, dia da in-
vengao da Santa Cruz.
Horas antes do levante, rumaram para a casa de Pereira
Filgueiras, no Sitio S. Paulo, Francisco Cardoso de Matos, Francisco
Pereira Maia Guimaries e Gonqalo Jose Ferreira, este encarregado
pelo escrivio Jose Ant6nio Ferreira Chaves de avisar ao Capitio-mor
quais os cabecas do movimento e quais os que Ihe eram contrArios.
Cor Ferreira Chaves ja se aconselhara Filgueiras s6bre as
medidas que se deverlam usar para a efeliz restauragcio da vila.
As ocultas, cautelosamente, tramava o astuto escrivio, sem
sair de Crato, a contra-revolug&o.
Que foram fazer, no engenho S. Paulo, Cardoso de Matos e
Pereira Maia, patriots, embora portugueses, press, depois, como
revolucionArios, em 26 e 28 dejulho, respectivamente?
Talvez tivessem Ido incumbidos de espionar Filgueiras, de
animi-lo, se houvesse oportunidade, a entrar, logo, no movimento*.
(IRINEU PINHEIRO em UM BAIANO A SERVICE DO
CEARA E DO BRASIL).








A rebelito de Crato estava aprazada para o dia 3 de maio e
assim se realizara. Teve inicio na missa conventual, celebrada pelo
Padre Vicente Jose Pereira. Era Domingo, coincidindo com o dia da
ihvencao da Santa Cruz. A vila estava cheia de homes dos sitios
vizinhos, que afluiram para a missa. Faltara o Vigario Padre Miguel
Carlos. O seu contact com o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro,
home de convic6es monarquistas, inimigos de qualquer coisa que
cheirasse a repfiblica, parece que transformou o convincente em con-
vencido. Ja estava comprometido demais para recuar. Pretestou doen-
ca, real ou imaginaria e nao celebrou o Santo Sacrificio naquele dia
tao grande para a Religiso. Mais tarde. revelaria, no process judicial,
seu espirito de recuo e de fraqueza. Na matriz de Nossa Senhora da
Penha achavam-se mais de duzentos homes, alem da parte feminine
comum ao ato, avultando entire eles moradores, ou cabras dos sitios
LAMEIRO E PONTAL, pertencentes aos Alencares. Ao terminar a
Missa, o sub-diacono Jose Martiniano de Alencar assomou a porta
principal da Igreja, fazendo-se arrodear do seu cortejo. Em suas ves-
tes, batina e roquete, como por contrast, s6 explicavel pelo seu ardor
patri6tico e pouca idade, exibia faca a cintura. Entre aclamac6es dos
assistentes, proclamou a independencia e repfblica em sintonia com o
movimento recifense.
Para melhor exclarecimento ao povo e para acender-lhe a
chama nativista contra o dominio luso, leu o celebre manifesto do
advogado Mendonca, da Junta Revolucionaria de Pernambuco, que
passamos a transcrever, visto ser resumo dos acontecimentos ocorridos
em Recife, na ocasiao do deflagar do movimento. Recebeu o nome
da primeira palavra da f6lha volante, disseminada profusamente na
capital pernambucana, a maneira da denominacio das enciclicas
papais.

PRECISO DO ADVOGADO JOSf LUIZ DE IENDONQA. 10/3/1817

Preciso dos sucessos que tiveram lugar em Pernambuco,
desde a faustissima e gloriosissima Revolucao operada felizmente na
Praca de Recife, aos seis do corrente mes de marco, em que o genero
esf6rgo dos nossos bravos Patriotas exterminou daquela parte do
Brasil e monstro infernal da tirania real.
Depois de tanto abusar de nossa paciencia por um sistema
de administrag-o combinado acinto para sustentar as vaidades de uma
C6rte insolente s6bre t6da a sorte de opressao dos nossos legitimos
direitos restava culuniar agora a nossa honra cor o negro labeu de
traidores aos nossos mesmos amigos, parents e compatriotas naturals
de Portugal; e era esta porventura a derradeira pega que faltava de
p6r A mAquina political de insidioso governor extinto de Pernambuco.
eC omecou o perfido por ilaquiar a nossa singeleza proclamando







pfblicamente a 5 deste meg que era amigo sincere dos pernambucanos,
que tinha repartido o seu coraaio corn eles, escrevendo estes enganos
cor a mesma pompa cor que acabava de encher no segredo do seu
gabinete listas de proscritos que tinham de entregar nas mros do
algoz. Brasileiros de t6das as classes, a mocidade de mais espirito
do pais, os oficiais mais bravos das tropas Pagas, numa palavra, os
filhos da patria de maior esperanga e mais distinto merecimento
pessoal.
cAmanheceu enfim o dia 6 em que as enxovias haviam de
ser atulhadas de tantos patriots honrados, e suas families alagadas
de dor e lgrimas: convoca o maldito um conselho de oficiais de
guerra, todos invejosos da nossa gl6ria; e depois de ter assinado cor
eles a atroz condenaco daquelas inocentes vitimas, despacha dali
mesmo os que Ihe pareceram mals capazes de Ihe dar execucao. Uns
correm aos quartets militares, outros as casas particulares, fervem
pris6es por t6da parte, e ja as cadeias comecam a abrir-se para ir
engolindo um por um dos nossos bons compatriotas.
Aqui, porem, mostraram os nossos como tinham capacidade
para saber conhecer que a desobediencia ter todo o preco de hero.
ismo em certos casos e e quando cor ela se salva a causa pAtria.
Um bravo capitio deu o signal de dever de todos fazendo descer aos
infernos o principal agent da injustissima execuvco: corre-se as armas,
e poucas horas daquele mesmo dia foram todo tempo de comecar e
acabar tao ditosa revoluco que mais pareceu festejo de que tumulto
de guerra, sinal evidence de ter sido tudo obra da Providencia, e
beneficio da bencao do Todo Poderoso. (5)
40 ex-general recolhido a Fortaleza do Brun e aonde supu-
nha achar uma prava de defesa, achou a prisAo de sua pessoa, e dos
seus. Recorreu a proposiC6es pacificas, que acabaram num COCLU-
SUM cor que foi obrigado a conformar-se no dia 7 pelas 8 horas
da manha. Desde logo foi restabelecida toda a ordem ptblica, nao se
ouviram mais outras vozes que de aclamaC6es gerais dignas do dia,
em que um imenso povo entrava na posse dos seus legitimos direitos
socials. Foi consequEncia disto nao ter havido atW agora sequer um
s6 distirbio nem motivo qualquer de queixa.
(A 8 se instalou o governo provis6rio compost de cinco pa-
triotas tirados das diferentes classes, o qual governo ter sido per-
mamente sempre em suas sess6es. O seu primeiro cuidado foi desa-
busar os nossos compatriotas de Portugal dos medos e desconfianga,
cor que os tinhaminquitado os partidistas da tirania recebendo a to-
dos cor abracos, e 6sculos, segurando suas families, pessoas, e pro-
priedades, de t6da a sorte de injustica, fazendo-os continuar em seu
comercio, trafegos e ocupacaes, com maior liberdade, que dantes, pro-
clamando enfim por um bando de sentiments de governor, e de po-
vo, e nao haver mais daqui por diante diferencas entire n6s de brasi.
leiros e europeus, mas deverem todos ser tidos em conta de um s6, e








mesma heranca que 6 a prosperidade geral de t6da esta Provincia.
ficagio geral, sem o povo se ressentir doutra novidade que das bon-
dades do Governo todo aplicado a promover a seguranga interior,
por medidas acertadas, buscando esclarecer a sua march cor dividir
materias de major importAncia por comiss6es compostas das pessoas
de maior capacidade, conhecimento por cada um deles, cor que ter
obtido ao mesmo tempo popularizar as suas deliberag6es o mais
possivel.
eNaquele mesmo dia o govErno foi permanent ate a meia
noite para continuar diversos despachos, que hoje aparecerfo, sendo
dos mals importantes fazer entrar os funcionarios pfblicos nas suas
ocupac6es como dantes, sem tirar ninguem de seu oficio, prescrever
as formulas de tratamento atW agora usadas sem admitir nenhuma
outra que a de v6s mesmo cor ele Governo, abolir certos impostos
modernos de manifesta injustica, e opressio para o povo sem vanta-
gem nenhuma da naeao. E tal e nosso estado politico, e civil ate hoje
10 de marco de 1817. Viva a PAtria, vivam os Patriotas, e acabe
para sempre a tirania Real. <(ANAIS PERNAMBUCANOS 1795
- 1817 F. A PEREIRA DA COSTA Arquivo Pfblico Esta-
dual Recife Pernambuco, 1953.
Estava assim proclamada a Repiblica num lugar que. se for-
mara e fora criado, cor 18as constantes ao Rei e a Coroa Portuguesa.
Houve festas, vivas e muitos desmandos contra o adversario. Foi
destruido o pelourinho, simbolo degradante da autoridade e de
autonomia municipal. Os press da cadeia foram soltos e naquele dia,
foi arvorada a bandeira branca, simbolo primeiro da revolta de 6 de
marco, em Recife, em substituicio a das quintas lusitanas.
Quando o sub-diacono Martiniano de Alencar saira da me-
tr6pole pernambucana para a sua missfo revolucionAria, o pavilhio
bi-color com sua cruz e arco-iris, hoje bandeira do Estado de Per-
nambuco, nao estava ainda oficializada.
A bandeira branca foi o primetro pavilhao da revolucio
pernambucana de 17. Foi arvorada na sumaca que levou preso ao
Rio o Governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro. Saiu a 10
de margo de Recife. Da bandeira branca 6 que nos fala Telemare.
Foi a bandeira arvorada pelo Padre Ten6rio para tomar a Fortaleza
de ItamaracA>. (ANAIS PERNAMBUCANOS)
Que pensaria o povo comum daquilo tudo? Ainda como nos
dias recentes, como vemos nos meios rurais, seguia as cegas os seus
dirigentes, chefes de clas. O costume nio foi sempre Esse no passa-
do? O entusiasmo, como nos contam todos os historiadores, foi enor-
me, nos primeiros moments o boato criava asas, dando vit6rias em
Pernambuco, deposiCio do Governador Sampaio no Ceara. Mas o
dominio do boato 6 efemero. Depois surge a verdade nua e crua e o








boato torna-se arma de dois gumes.
A Camara Municipal foi ocupado pelos revoltosos, sempre
entire aplausos, sendo substituidas as autoridades que nao inspiravam
confianga ao movimento. Foi enviada Mensagem de adesao a Junta
Revolucionaria de Pernambuco, de tudo se lavrando a competent ata.
Foi ela redigida pelo parent dos Alencares-InAcio Tavares Bene-
vides.
Os rebeldes de Crato nao se mostraram inativos. Tentaram
expandir a revolucgo republican por outros municipios, No dia 5
conseguiram a adesao de Jardim, por intermedio do juiz ordinArio-
Leonel Pereira de Alenear, irmao da heroina BArbara de Alencar.
E o que se passou em Crato, ap6s os acontecimentos do
Domingo, 3 de maio? Pereira Filgueiras permanecera arredio de tudo
em seu sitio S. Paulo e os elements fieis ao trono nAo poderiam
ficar indiferentes, sabendo ao mesmo tempo que o ap6io A rebeliao,
de carter tao grave, nao tinha substancia. Aquele estado de colsas
teria forcosamente de cair, sem base s6lida para apoia.lo.
S6bre o caudilho Pereira Filgueiras, o home que poderia
decidir tudo, temos de ouvir de seus bi6grafos mais autorizados, o
histori6grafo cratense Irineu Pinheiro:
aEm 4, acompanhados de amigos, foi ao Crato, em plena
revolt desde a vespera, ocupado por duzentos homes, hospedou-se
em casa de vigArio Miguel Carlos da Silva Saldanha, revolucionario
malgri lui, jantou com -sse e outros revoltosos.
Sabe-se por informac5es dadas a Sampaio ter sido dona Bar-
bara, mae dos irmIos Alencares, quem preparou a refeicao, mandan-
do comprar ao contratador 2 libras de came salgada, matando 3 ga-
linhas, pondo a mesa 3 garrafas de vinho, das quals apenas uma, pe-
la metade, foi utilizada pelos convivas.
Sera crivel que Filgueiras, se se tivesse manifestado, no dia 2
francamente contrario ao movimento pernambucano, f6sse meter-se en-
tre os revoltosos do dia 4, e que estes o recebessem bem?
Nao correu alegre, de certo, o jantar a ele oferecido, porque
mal tocarem os comensais no vinho p6sto A mesa, signal de Ihes preo-
cupar os corag6es pressagos o lance perigosissimo em que se viam
envolvidos, capaz de proporcionar-lhes perdas de vida e liberdade.
Quando esteve no Crato tudo observou Filgueiras: os recursos
de que dispunham os revolucionArios, os projetos destes, o nftmero de
homes armados, achou, segundo informou em carta ao Governador
Sampaio epovo muito atemorizado ou parte dele entusiasmado.o
Durante a sua visit mostrou-se o Capitao-mor reservado, sem








Ferreira Chaves, realista enrage, home que ele considerava de apru-
dente parecer comunicou em segredo que abreve seria a vila restau-
radar, segundo palavras textuais de Chaves numa carta ao Governa-
dor Sampaio.
Acrescentou, ainda, o escrivao no mesmo document: 'Ignoro
tambem que o dito Capitao-mor assinasse papel relevant a consentir
na subleva4co e 6 que Ihe tenho sempre perguntado e ele firme res-
ponde-me que os que aparecem sho falsos e sinistramente alcanCados
afim de macular sua honra.D
Como se ve, perguntava o bom escrivio e reperguntava para
bem se certificar da verdade e transmiti-la ao Governador.
Cor n ste, que era home sagaz e vigilante, carteavam-se
Ferreira Chaves, no Crato, e Manuel Brigido dos Santos, no Ic6, se-
crethrio da Camara dali, de tudo o informando.
Do que se acaba de ler, deduz.se, parece-me, que colhido de
surpresa, na conferencia cor Jose Martiano, prometeu Filgueiras nao
hostilizar a' rebeligo. Mas, no intimo, sua intenC~o era combate-la,
conforme suas acima referidas declaraC6es ao Governador Sampaio e
a dois amigos seus, nos dias 2, 3 e 4 de maio.
Manifestando-se neutro, ele quis, de certo, ganhar tempo,
tomar as necessbrias providencias Kpara fazer a restauraVao com cau-
tela, apalpando primeiro o animo dos povos>, conforme frases suas
textuais em carta a Sampaio, datada de 15 de junho de 1817.
Guardou tal sigilo s6bre seus verdadeiros prop6sitos (a ser
exata minha hip6se de sua fingida neutralidade, a qual alias resultou
de documents) guardou tamanho sigilo, que o Tenente-coronel Lean-
dro Bezerra Monteiro, personagem influence no Municipio e que ja se
negara a participar da revoluc;o, julgou que ele Filgueiras vacilava e
acabaria por se unir aos rebeldes.
Encarregou de dissuadi-lo deste intent seu filho GonCalo
Luiz Teles de Menezes e o Padre Francisco Gongalves Martins,
baiano, carmelita egresso de sua Ordem. home inteligente e argu-
mentador, os quais o visitaram no sitio S. Paulo e lhe procuraram
demonstrar os riscos da empresa.
A ambus garantiu, firmemente, Pereira Filgueiras como f6sse a contra-revolugao se havia de fazerv, segundo palavras
de Dias da Rocha, que biografou Leandro. ((UM BAIANO A SER-
VICO DO CEARA E DO BRASIL).
O Capitao-mor de Crato, ao que tudo faz crer, vacilou entire
a amizade que dedicava a familiar Alencar e sea ever ao lado da
legalidade de entao. NIo ha qualquer document que prove a sua
adesao a revolta de 3 de maio. Desvaneceu-se com a carta que Ihe
enviaram o Padre Joao Ribeiro e Domingos Martins, recebendo de bem







os amigos Jose Martiano de Alencar, Tristio, Bartolomeu Alves de
Quental e Frei Francisco de Santana Pessoa, seu pr6prio capelio,
pois geria ele os destinos espirituals da capela de Barbalha. No
maximo, exprimiu a sua nao participacgo em movimento de repressio.
No dia 3 de maio, esteve ausente de qualquer ato na Vila Real
do Crato. Apareceu para o jantar no dia 4, ja trabalhado pela influ-
encia do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, tanto assim que ele e
membro da familiar Alencar portaram-se como cdo diante do gato. If
bem visivel na cena descrita por Irineu Punheiro, a atmosfera de des-
confianca reinante entire eles. Pereira Filgueiras nfo p6de disfarcar
que se inclinara para a contra-revolugco. Era home de armas, aci-
ma tudo, e nao sabia ser o farcante como o querem apresentar
alguns historiadores. O chamamento so dever pela labia dos realistas,
cor a ameaca das consequEncias que pesariam funestas s6bre o cri.
me de rebeldia contra o Rei.
Deve ter sido bem inquieta, na vila rebelada, o clima
ap6s o primeiro entusiasmo da fAcil vit6ria. Os boatos passaram a ser
de efeitos contrArios. O governador Sampaio, inimigo intransigent da
revolug5o, permanecia no poder no Ceara. A rebeldia nio progredia,
a nao ser na quase adesao simb6lica de Jardim, por obra e graca de
Leonel Pereira de Alencar. Das vizinhancas pernambucanas, nao che-
gava nenhuma nova alvissareira. Em seu poema dramatico DONA
BARBARAs conta o escritor Jose Carvalho que ate a noticia do de-
sastre do Padre Roma, em Salvador, chegara ate ao Cariri. NAo se-
ria dificil a novidade chegar, pois, sempre houve comunicagao cor a
Bahia pela estrada natural que trouxe os primeiros povoadores baia.
nos & regiao caririense. A verdade 6 que os revolucionarios passaram
a defensive, no campo dos preparativos e das ideias e o Brigadeiro
Leandro agia intensamente. Filgueiras ja decidira qual o lado que to-
maria. Os chefes monarquistas, pro-Portugal, sabiam disso.
O dia 11 marcara o epilogo triste daquele sonho que surgira
a 3 de maio. Oito dias de entusiasmo inicial, seguidos de miltiplas
apreens6es! Jose Pereira Filgueiras, com as forgas de Leandro Bezer-
ra Monteiro, seu pr6prio pessoal, do sitio S. Paulo, e Joao Vitoriano
Maciel, chegaram a tardinha no alto do Barro Vermelho, fizeram al-
to, cor cerca de mil homes. A noticia da aproxima;5o da tropa rea-
lista gelou o pouco entusiasmo que ainda restava na vila. Os cabeci.
Ihas tentaram ainda levantar os Animos, apregoando que Filgueiras
vinha, na realidade, confraternizar cor a revolta. Ninguem, porem,
acreditou naquilo.
aRecebeu Filgueiras, all, um parlamenthrio dos revoltosos, as-
sustados com aquele movimento de tropas, Joaquim Francisco de
Gouveia Ferraz, o mais est6pido dos cratenses, na expressio do Padre
Ant6nio Manuel de Sousa, vigArio de Jardim, e ao ser insultado com
palavras por Ferraz o Capitio-mor, que estava a cavalo (li isso al-
gures, nio me lembro onde), tirou, rApido, o p6 do estribo, corn ele







vibrou no emissfrio violent golpe, mandando prende-lo imediata.
mente.
Penetrou, em seguida, na vila e na praca da matriz, junto da
cadeia, prendeu, ainda, os i r m o s Alencares: Jose Martiniano de
Alencar, Tristao Goncalves Pereira de Alencar, Padre Carlos Jose
dos Santos Alencar.
Jose Martiniano foi o Inico que, de faca em punho, tentou
resistir h ordem de prisao dada pelo Juiz Ordinario Manuel Joaquim
Teles.
Todos os outros republicans, que, naquele mesmo dia 11,
cprevenidos de p6lvora e bala, juraram worrer, defedendo seu partido,
fugiram no moment em que aparecerdm as tropas do Capitdo-mor.
Isso atestou o vigArio Ant6nio Manuel.
Fracassou, lamentavelmente, dentro de oito dias, o movimento
patri6tico, gracas, pode dizer-se, a Jose Pereira Filgueiras que, sem
medo dos revolucionarios em armas, muito menos se atemorizou, de-
pois, cor as ameacas dos que prometiam vingar as pris6es de seus
parents.
Foi o que ele informou a Sampaio em carta de 15 de junho
de 1817. Reunindo-se, no dia 11, a Camara cratense confiscou, sums-.
riamente, os bens dos rebelados e assentou que todos no dia seguinte,
12, seriam enviados para o Ic6 bem escoltados, Ka custa deles>. Ber
escoltados e algemados. (6)
Reza a tradigio que, ao algemar Jose Martiniano, bateu o
ferro cor o martelo, por inadevertencia ou de prop6sito, no punho
do malogrado revolucionario, arrancando-lhe um gemido de dor.
Tristao, que estava ao lado, indignou.se, levantou os bragos
ja press em algemas e sacudiu com violencia s6bre a cabega do
ferreiro, que vacilou.
Filgueiras assistiu ao epis6dio. narra ainda a tradigco, e sor-
riu, sem dizer palavra. (UM BAIANO A SERVI(O DO CEARA
E DO BRASIL-IRINEU PINHEIRO)
A simples presenga do Capitao-mor, que era o lider natural
de tbda a regiao, foi suficiente para esmorecer o grosso dos revolto-
sos. Ficaram firmes apenas os promotores do movimento. Jose Mar-
tiniano ainda quis tentar reagir, em favor da causa perdida, empu-
nhando faca de ponta. Tristao teve animo para vingar-se do ferreiro
que maltratava seu irmao. Ambbs eram jovens, mas encarna-
ram em si o principio de liberdade que, mais tarde, medraria corn
frutos. Pelo fato de esmorecimento em frente ao vencedor, mais po-
deroso, nao hi razao parase censurar a massa dos revoltoscs. Isso 6
comum e e o exemplo da Inconfidencia Mineira, nela sobresaindo-se
apenas o heroismo do primeiro martir de nossa emancipacao politica-,








Tiradentes.
Durante o curto periodo em que dominaram os revoltosos, em
Crato, da mesma forma que seus correligionArios, de Recife, nao pra-
ticaram qualquer ato de vandalismo, nem provocaram a morte sequer
de um realista. Na capital pernambucana houve mortes, mas apenas
no calor da luta e antes de efEmero triunfo revoluoionario. Entre-
tanto, nunca nenhun ato de rebeldia, em terras do Brasil, foi castiga-
do com tanto sangue e perversidade, como a Revolugao Pernambu-
cana de 1817. S6 o governador Sampaio do Cearh, duro e arraiga-
damente zeloso de causa realista, nao manchou as maos corn sangue
de martires. Essa justica hoje a hist6ria Ihe faz.

0 Capitio de Ordenancas-Joaquim Pinto Madeira foi quem
comandou a escolta que conduziu os press de Crato para Ic6.
Surgiu assim, para o cenario da Hist6ria, pela primeira vez,
o caudilho, filho do municipio da Barbalha, mas, integrado politica-
mente a vila de Jardim. A escolta saiu para o Ic6 no dia 12, condu-
zindo os tres irmaos Alencares e Joaquim Francisco de Gouveia.
Dona Barbara e o vigario Manoel Carlos da Silva Saldanha, ligados
por velha amizade e parentesco afim. conseguiram fugir do Crato,
refugiando-se na Fazenda Cip6, no Rio do Peixe, Paraiba, ondo fo.
ram press depois.(7)

Frei Francisco de Santana Pessoa conseguiu homiziar-se em
Exu, Pernambuco, onde foi capturado, dizem que disfarcado no sexo
oposto. Francisco Pereira Maia travestiu-se de legalista, assinou a ata
do dia da reconquista e formou nas hostes do Capitao de Frontei-
ras Alexandre Jose Leite de Chaves e Melo, na perseguigio aos re-
voltosos. ate A provincia vizinha de Paraiba. A 28 de julho foi pre-
so, ja de ret6rno ao Crato.

Em Ic6, os press passaram das maos de Pinto Madeira para
as do portugues Capitfo.mor Jose Bernardes Nogueira, home conhe-
cido por (anedotas da mais bizarre tirania,> conforme afirmava o
historiador Joao Brigido dos Santos. Para aquela vila, que f6ra ins-
crita no rol dos possiveis focos da rebeliao pernambucana de
17, foi enviado oficio a sua Camara, pelos chefes vencedores de Crato,
narrando os acontecimentos ao mesmo tempo que ofereciam socorro
aos ic6enses, caso f6sse necessario.
(Nada disso foi precise. Pelo contrario, fOrcas cearenses
penetraram o territ6rio paraibano e efetuaram pris6es, entire as quais
as do Capitio-mor da vila de Sousa, Patricio Jose de Alencar, e do
Vigario de Pombal, Jose Ferreira Nobre. (Irineu Pinheiro)
Na vila do Ic6 foram os press apupados pela populag5o,
conforme narra manuscrito estampado em fotoc6pia, no quarto nimero
de Itaytera, de Crato.








Chegaram cobertos de cadeia e press por corrente de um
para outro, em cavalos sem arreios, sob cujas barrigas amarravam-se
as pernas de todos eles, o apupo da plebe fazia lembrar o que dizem
os Evangelistas acerca da outra plebe, que no PAteo de Pilatos pedia
obstinadamente a condenagao de Cristo.2
,O povo, que escoltava os press, era composto de gente
parda, de camisa e ceroula, chap6u de couro. Seguiam-no na retaguarda
os indios nts da cintura para cima, e armados de arco e flecha.
Todos gritavam Viva a casa de Bragangca
A noite acrescentava ainda que os press, no percurso, ate
A Capital, viajavam em horas que pudessem alcancar vilas e povoados
durante o dia. A conclusao natural disso era para terem eles a mesma
recepgoos que tiveram em Ic6, localidade dominada por comerciantes
lusos.
Foi escolhido para levar os prisioneiros a Fortaleza outro
portugees. Manoel da Cunha Freire Pedrosa, catleta, ostentoso va-
lentez fadado a ser abatido, tempo ap6s, em plena rua de Ic6, a
mando de Joao Andre Teixeira Mendes. (Irineu Pinheiro)
Em Cangati, no percurso, os press conseguiram escapar,
enquanto a escolta dormia durante a noite. Ferraz ainda conseguiu ate
roubar a espada do comandante. Na manha seguinte foram catura-
dos para alivio do imprevidente Cunha Freire Pedrosa.
Os prisioneiros chegaram finalmente A Capital cearense, de-
pois de longa VIA CRUCIS que continuaria ainda, all a mais adi-
ante, at6 Salvador. O Governador Manuel Inacio Sampaio, a alma
da contra-revolucao nao s6 no Ceara como tamb6m em parte im-
portante do Nordeste, ja os aguardava, cor informac6es detalhadas
dos acontecimentos de Crato e de outros pontos. Foram todos tran-
cados, na Casa de Crime, depois de revistados da cabeca aos pes.
Nio foram sepultados em vida no calabougo subterraneo do quartel,
porque nao existia. naquele tempo, e nunca serviu de prisao em tempo
algum, apesar da inscrigao que existia no local em t8rno do sofrimen.
to de BArbara de Alencar. Suportaram mil humilhac6es no cArcere.
Foram transferidos para Recife e de la para Salvador, onde con-
tinuou sua odisseia, ate que a pena f6sse comutada pelos aconteci-
mentos, ap6s a revolugio constitucionalista do P6rto, de 1820. Foram
pronunciados a 13 de setembro de 1818. (8)
S6bre a atuacio do entlo Governador do Cearf, noutros
pontos da Provincia, deveremos ouvir a Cruz Filho, em sua HISTORIA
DO CEARA:
Governava, entio, o Ceara, Manuel Inscio de Sampaio, ho-
mem de valor e energia, o qual, percebendo a gravidade da situacao
e temendo que a propaganda republican chegasse A capitania cea-
rense, comecou a tomar several providencias. 0 seu primeiro ato foi








mandar prender o ouvidor Rodrigues de Carvalho, chegado recent.
mente a Fortaleza, cujas estreitas relag6es com os revolucionArios de
Recife eram bastante conhecidas. Logo depois, vieram correios e
expresses trazendo as proclamaC6es do governor revolucionario de
Pernambuco. (9)

Na vila de Fortaleza, estabeleceu-se geral ansiedade, enchen-
do-se a popula4;o de temores e apreensaes.
0 governador tomou imediatamente diversas medidas tenden-
tes a evitar a propagacao do movimento no Ceara, entire as quais a
detencao das embarcaCbas que dos portos da capitania estavam a
sair para o Recife, o guarnecimento por f6rgas armadas, das fronteiras
do Rio Grande do Norte, Paraiba e Pernambuco, e estabelecimento de
presidios em alguns sitios da costa, a organizacio de tropas e o ar-
mamento dos indios das aldeias situadas nas imediag6es de Fortaleza.
Enquanto o Governador Sampaio punha em prAtica essas me-
didas, eram despachados de Pernambuco para revolucionar Fortaleza
os emissarios republicans Francisco Alves Pontes e Matias Jose
Pacheco, que foram press nas jangadas em que navegavam, na altura
do lugar Canoa Quebrada, pr6ximo a foz do Jaguaribe, e remetidos,
depois, para o Maranhao.*

A media, no entanto, mais eficiente e de real proveito para
abortar o movimento revolucionario em todo o Nordeste, foi a que
tomou o Governador Sampaio em nomear o acoriano Alexandre Jose
Leite Chaves de Melo, coronel das fronteiras, a vigiar a zona possi-
velmente nevrAlgica, entire as provincias conflagradas. Operou ele na
zona jaguaribana, e sua tropa serviu de cunha para a provivel juncio
dos rebeldes de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Cariri
cearense.
Na realidade foi enorme o martirio dos revoltosos de Crato
em Fortaleza, mas Sampaio nunca chegou a ser responsivel pela
execugio de qualquer um deles. Agiu dentro de suas func6es e bem
cumpriu o dever que Ihe competia. Muito long estava da tirania do
Conde dos Arcos, de Joaquim de Melo Cogominho ou de Luis do
Rego Barreto, algozes desnaturados dos chefes republicans de 17.

Apesar de certos defeitos, foi tambem dos bons estadistas que
Portugal nos mandou no tempo da col8nia e no nascedouro do Reino
de Portugal, Brasil e Algarves.
emancipacionista efoi o de maior vulto ate entfo realizado>. Camara
Cascudo considera.o ea mais linda, inesquecivel, arrebatadora e initil
das revoluc6es brasileirasn (Raimundo GirAo, em CPEQUENA HIS-
TORIA DO CEARA).








Creio que devemos ficar inteiramente com a opinlgo abalizada
de Joao Ribeiro. 1817 foi o preludio de 1822. Sem aquela revolta,
D. Joao VI. que foi sempre home previdente, nao encaminharia o
filho para ficar A frente do movimento de independencia do Brasil,
antes que tires provou que o brasileiro se preparava, com seu pr6prio sangue,
para lutar decisivamente pela sua liberdade.
Em Crato durou poucos dias, que foram marcantes para os
seus destinos. Os prisioneiros que estiveram nos cArceres da Bahia
vieram mais firmes e melhor orientados. Conseguiram converter para
a sua causa, antigos e terrenhos monarquistas, como Pereira Fil-
gueiras e Jose Vitoriano Maciel. Foram eles que se constituiram os
condutores do facho da liberdade, em todo o Ceara, durante as lutas
de 1822, 1823 e 1824. Aos independents cratenses coube o comando
da expedigio, com grosso de tropa formada por caririenses, e que
derrubou o altimo baluarte lusitano, em terras do Brasil Caxias do
Maranhao. Comandava-o dos mais experimentados cabos de guerra
portugueses do moment o Brigadeiro Jose da Cunha Fidie.
A rebeliio de 1817 deixou marcas bem profundas em Crato.
Criou-lhe o espirito de pioneirismo, no decorrer dos tempos futures:
Quase todo o empreendimento benefico, nascido na vila ou na cidade,
que nascau da Miss5o do Miranda, tendo a derramar-se noutras
regi6es.
Em 1839, Jose Martiano de Alencar, ja senador do Imperio,
secundando pedido da Camara de Crato, apresentou projeto, criando
a provincia dos Cariris Novos. Nfo medrou, mas ainda poderh flo-
rescer como Estado, em oportuna divisio territorial do pais. Isso foi
consequencia da jornada, entire 3 e 11 de maio, pois o inspirador foi
o mesmo:
Os liberals, jorjados em 1817, em Crato, foram a muralha
que impediu o triunfo do chefe corcunda Joaquim Pinto Madeira,
em seu afi de cooperar para a restauracao do ja superado Impera-
dor Pedro I.
Os movimentos em prol da instrug5o pfiblica, que partiram da
fundagAo do Seminario de Sao Jose, pela clarividencia de D. Luis
Ant6nio dos Santos e sua floradgo, mais adiante, com o advento do
bispado de Crato, encontraram o terreno propicio para medrar, no
velho espirito de pioneirismo cratense, despertado em 17.
A derrubada da prepotencia municipal, encarnada no inten-
dente Jose Belem de Figueiredo, ja fora da 6poca, em 1l4, foi outra
consequencia da altivez do cratense, vinda de 1817. -
Nao foram vaos, por conseguinte, os dias de gl6ria e de
martirio da jornada de maio, quando a Vila Real de Crato formou
ao lado da Revolugco Pernambucana, repetindo a velha ligagio hist6-
rica com a vizinha capitania, depois provincia, oriunda desde a alvo-
rada do povoamento da fecunda terra caririense.








NOTAS:
(1) Nh segunda metade do stculo XVIlI velo, tambim, ao
Cariri, provindo da Bahia, conjorme garante Bernardino Go-
mes de Ara4jo em sua tuguis Jose Quesado Filgueiras Lima, casado corn Maria
Pereira de Castro, or quais se jixaram no sitio Santana,
nas proximidades de Barbalha, mui perto do Crato.

Levaram consigo um filho de quatro anos de idade, Jose
Pereira Filgueiras, que, depois, seria Capitao-mor do Crato e
exerceria relevantissimo papel no Ceard, Piaui e Maranhao.
Nasceu Filgueiras nao em Sergipe, como escreveram o
Barao do Rio Branco, Oliveira Lima, Barao de Estudart e
outros historiadores, mas na Jreguesia de Nossa Senhora de
Oliveira, arcebispado da Bahia.
pulafjes de nosso interior; Janatizadas por sua valentia, de-
monstrada em intimeras ltuas, no comeFo do seculo tran-
sacto.
Corria que seu cavalo voava sabre terras de igrejas,
seu clavinote <.Estrrla d'alva, rua espada tinia na bainha a
aproximaFao de inimigos, etc.
Contava-se que, certa vez, num passeio de seu iftio S.
Paulo ao Crato, numa distdncia de quatro lIguas, em ter-
reno acidentado, colocou Hle nos dois estribos patacies, em
cima distes firmou os pes ate o Jim da viagem, sem que sa-
issem do lugar as duas moedas de prata.
Dizia-se que, agarrado coin as maos num galho de 4r-
pore, suspendia o cavala em que montava, abarcando-o nas
duas pernas retesadas.
Era um prodigio de robustis o capitao-mor do Cratfo
(IRINEU PINHEIRO em UM .BAIANO A SERV.CO
DO CEARA E DO BRASIL)
Julgo que nao e exagPro essa /rca fisica, atribuida a
Pereira Filgueiras. No comepo dste s.culo existia jamilia,
proprietlria do sitio MIRANDA, onde se originou primiti-
vamente a Missao que deu origem a Crato, descendente dos
antigos <.Filgueiras> a que pertencia o Cdpitao-mor, vencedor
de Caxias, no Mlaranhao. Todos os irmaos, mesmo os do
sexo Jeminino, eram de robustxs incrivel, corn fdra Jisica
Jora do comum. Ainda eu era muito Jovem e tiPe oporfuni-
dade de conhecer, de perto, o oJicial da marinha mercante
national, o cratense Luis Filgueiras.. Levantava sdzinho mo-








enda possante de engenho, desatava carga de ancoretas de
aguardente, totalmente chelas, descarregava-as com cangalha
e tudo, de uma s6 vez e tem qualquer ajuda. Um de seus
irmaos viajava vinte lIguas a pJ, em uma s6 jornada.
(J.F.F.)
Irineu Pinheiro rebate muito acertadamente alaques a
Pereira Filgueiras do historiadores, Monsenhor Luis Tava-
res, Joao Brigido dos Santos e, sobretudo, Dias da Rocha
Filho, autor da VIDA DO BRIGADEIRO LEANDRO
BEZERRA MONTEIRO. Responde-lhes Irineu of ataques
atirados contra o Capitao-mor de Crato.
dlMas, licito perguntar-se: por que nada se Jaz, no
primeiro quarter do seculo passado, sem a colaboravao de
Pereira Filgeiras, ou melhor sem sua ostensiva chefia ?
Talvez de uma razao de ordem psicol6gica se tenha origina-
do a reveridade do julgamento de Dias da Rocha.
Quif, quem sabe7, o distinto historidgrafo, fem que o
pressentissem, realcar of mrritos de seu biograjado, diminu-
indo of de Filgueiras, actor como Leandro no cenlrio da
vida pdblica cratense, nos principiof do fsculo findo.
Nao pode casar-se a apregoado bopalidade de Filgueiras,
corn fua acao decisiva nos sucessos de nossa hild6ria, entire
1817 e 24, todos de projecao national.
Parece-me que a reserve e taciturnidade de Filgueiras,
por alguns julgados indice de estupidez, podem ser explica-
cados por ter-lhe Jaltado espontdneidade e locucao, tambim
por astxcia inata afim de evitar comprometimentos num meio
em que fermentavam 6dios e intrigas.o
Mas adiante, na luta contra o experimentado Fidid,
veteran da guerra peninsular contra Napoleao e quando se
tornou a nnica esperanpa de sobrevivEncia da ConJederacao
do Equador, at~ mesmo para Pernambuco, c que Pereira
Filgueiras assumiu posicao de relvo na hist6ria do Nor-
deste Brasileiro. C(J.F.F.)
(2) Narceu o Brigadeiro Leandro, em 5 de Dezembro
de 1740, no engenho Moqucm, nas vizinhancas do Crato.
Seu av6 materno, o coroner Joao Bezerra Monteiro jdra o
primeiro proprietrio cesse ftio, para onde se mudara vindo
da Jazenda de ZOR6ES (OROS?), que possuia perto de Ico,
e ao casar sua Jilha Joana Bezerra de Menezes corn o ca-
pitao Antinio Pinheiro LSbo, fez-lhe doacao do rejerido en-
genho Moqulm, send os altimos os pais do Brigadeiro Le-
andro, que conforme uso muito comum no norte do Brasil,
usava a6 o sobrenome materno, conservado por part dos seus








descendentes, enquanto outros retomaram .os apelidos pater-
nos.
De ascendencia, entroncava-se em Jidalgas jamilas por-
tuguasas e era descendente em 10 grau de Diogo Alvares
Correia, o Caramuru, e de Catarina Alvares, a famosa India
Paraguacu. Possuo em mao essa linhagem, alis' transcrita
pelo Barao de Studart em seu DICIONARIO BIO-BI-
BLIOGRAFICO CEARENSE, embora o Her6doto cearense,
inexplichvelmente, nao Jaca no mesmo o registro biogrjfico
do Brigadeiro, talvez por nao supd-lo cearense. <(Jose De-
nizart Macedo de Alcantara em VIDA DO BRIGADEIRO
LEANDRO BEZERRA A3ONTEIRO-ITAYTERA-Cra-
to, 1957)

(3) BARBARA PEREIRA DE ALENCAR
(A Heroina)

da (, Jazendo herdada do citado Leonel de
Alencar RNgo pelo filho deste Altimo, casou-se em 1782 com
o portugues, Capitao Jose Gonfalves dos Santos, comerctante
de tecido na vila de Crato, e domiciliou-se nesta mesma vila
(Livino de Alencar Barros, op, cit, -Padre Antonio Gomes
de Araujo> Naturalidade de Barbara de Alencar" cit). Ou-
tros Alencares, procedentes de Indcio Pereira de Alencar, de
suas segundas nipcias corn Antdnio de Leao, irma da cita-
da Bdrbara, ou Dona Bdrbara, como costa passou a ser co-
nhecida em Crato -estabeleceram-se no sitio Lameiro (deste
municipio), que alguns escribas, quando se rejerem aos re-
voluciondrios caririenses de 1817, as vozes grafam errone-
mente-Limoeiro"
Ainda em 1767, o tio paterno de D. Bdrbara, Jose
Antdnio de Alencar, casara-se na aristocracia do Icd, quan-
do convolou nfcpcia corn uma filha do Capitao Crispim dos
Montes e Silva (Licro de registco de casamentos, da Jregue-
sea do Ic6, 1729-1783), criando-se, desta maneira, naquela
vila, um juturo ponto de apdio para os Alencares em suas
arrancadas political, rumo a Fortaleza, por ocasiao da con-
sumacao da independencia no Ceara, e da revoluao de 1824,
que integrou esta provincia na CenJederaao do Equador. Em
1800, o Paare Miguel Carlos da Silva Saldanha velo do
Jaguaribe e assumiu as Juno6es de vigdrio colado do Crato.
Dois irmaos, seus, casaram-se cor duas irmias de Dona
Bdrbara, respectivamente, eles Manoel e Alexandre da Silva
Saldanha, e elas, Antdnia e JoseJa Pereira de Alencar,
acontecendo que morrendo o iltimo, a vidva casou-se corn








In6cio Tavares Benevides, entao vitvo doutra irma de Dona
Bhrbara: Genoveva Pereira de Alencar, Jalecida sem filhos.
Em 1803, o casal Dona BArbara -Capitao Jose Goncalves
dos Santos casaram sua filha, Joaquina de Sao Jos n nomee
de mopa) no cla dos Antao de Carvalho, de Oeiras, Piaui.
Era outro ponlo de apdio do Cla Alencar. Nas lutas da in-
dependcncia, Oeiras expedird emissarios para o Crato a pro-
cura de auxilio military (Pereira da Costa, Cronologia do Pi-
aui). Outro tio paterno de Dona BArbara, Ddmaso Leonel de
Alencar Rego, cruzou-se corn os Landins, do Engenho de
Santa Teresa (Missao Velha), genie que Joao Brigido cha-
mou: Os tersiosx. 0 irmao de Dona BArbara, Leonel Pe-
reira de Alencar e Indcio Pereira de Alencar (primeiras n4-
pcias desta), irmao dela, casaram-se na casa grande da
( Pereira de Carvalho, baiano, de Geremoabo.
Rica, prestigiasa pelo valor pessoal incomum e a cate-
goria da familia, Dona Barbara desfrutava do respeito e da
consideraiao de todos e gozava da amizade do vigario local,
citado, e do Capitao-mor do Cariri, depois do Crato, Jose
Pereira Filgueiras, ambos, seus compadres, como seu amigo
e compare foi o terceiro e iltimo Capitao-mor do Crato,
Joaquim Antinio Bezerra de Menezes, successor imediato do
mesmo Filgueiras.
Visao larga, firmeza, decisao, iniciativa, pendor de
cheje e inclinacao political, milia" (Esperidiao de Queir6s Lima,. toao. Agir-1946-Rio, o author pertence pelo sangue a ja-
milia Alencar./
Para se ter uma idea da mentalidade de amplo ho-
rizonte de Dona Barbara bastaria esta referencia: Foi ela,
na vida do Crato, quem, primeiro construiu, em pedra e cal,
pridio particular, ou j sse a parede de frente de sua casa
de residencia, tendo vindo o mestre-pedreiro do Recife. A
casa existiu, intacta, ate a uns 25 anos atris. Completa-
mente reformada, por um ato de estupidez do powder pbblico,
nela junciona a Coletoria Estadual, local.

O TITULO DE HEROIN

Quando o Dr. Manuel de Arruda Cdmara determinou,
ao Padre Joao Ribeiro, seu intimo amigo e segunda pessoa
political, e a outros dos mais destacados portadores de sua
ideologia, revolucionaria, a atribuiao formal do titulo de he-
roina a Dona Bhrbara, vencedora que jdsse a revolucao-jA
entao, considerava a exceptional senhora revestida dos atri-








bulos qut o titulo supoe, o que implicava num conhecimento
previo e exato, direto ou indireto, da pessoa da privilegiada.
No mesmo document, Arruda Cdmara recomenda zdlo quan-
to ao Kadiantamento' do filho de Dona Bdrbara, o jovem
Jose Martiniano de Alencar, que, entao, estudante no Se-
mindrio de Olinda, jd devia ter revelado temperamento po-
litico cor pendor de lider, e uma estrutura spiritual aberta
as solicita3es das iddias subversivas em march. De carter
politico, estas recomendavjes, a prop6rito da mae e do jilho,
encontram-se na carta-testamento, expressao da iltima von-
tade, deixada por Arruda Cdmara ao referido Padre Jodo
Ribeiro e a Pste dirigida, firmada de Itamarac6, no dia dois
de outubro de 1810, acontecendo que o autor velo a jalecer
ainda neste ano. No seu bucanos Celebres>, Recife, Tipografia Universal, 1817 <(Uls,
640-644), islo e: jd antes de outubro de 1810, jrisamos,
n6s. E Arruda Cdmara ligava os dois aludidos Alencares
ao piano revoluciondrlo, na mesma data! Dona Barbara, in-
tegrada e provada na conspiraao subterranea. Em cAnais
Pernambucanos. obra posterior, volume VII, pAg, 100-101,
publicaCao do Arquivo Estadual de Pernambuco, Pereira da
Costa volta a dita carta de Arruda Cdmara e transcreve os
trechos de carter politico. Dirigindo-se a esus herdeiros ideo-
Idgicos Arruda Cdmara o faz nltes termos ao rejerir-se a
Dona Barbara; heroina. mencionada, nos trechos transcritos, tomou parte na revoluuao
de 1817, esta D. Barbara Crato, de quem jala o sdbio natu-
ralista, 6 a DONA BARBARA PEREIRA DE ALENCAR,
mae de Jose Mlartiniano de Alencar...?
Fixemos rstes dados que ajudam a esclarecer: Dona
Barbara teve no Semindrio de Olinda or sobrinhos, padres
Jose da Costa Agra, Joao Bandeira Marinho da Costa Agra
(nao conjundir cor o padre Joao Bandeira Marinho de Melo,
Jundador da cidade caririense de Jardim) e Jose Martiniano
de Alencar, os quais antecederam ao primo Jos lMartiniano
de Alencar (o revolucion6rio de 1817) no aludido semin6rio,
onde talvez chegaram a ser contempordneos. Estudou ainda
no mesmo seminrrio, o jilho de Dona Barbara, Carlos Jose
dos Santos, nascido em 1784. (Padre Antonio Gomes de
Aratijo, Naturalidade de Dona Barbara, cit) que por sua vez,
antecipou-se ao irmao Jos MIartiniano e certamente oi .reu
coevo a sombra do hist6rico casarao. Em 1814, jA exercia
as JunJces sacerdotais nesta pardquia de Crato. Finalmente,
ja no ano de 1810, Jose Martiniano era aluno do citado
seminario, e aluno dos , os Padres








Joaquim de Almeida Castro, tPadre Miguelinho", e Joao
Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, ex-membro do AER6-
PAGO DO ITAMIBE, ninho acadgmico de doutrinafao poll-
tica revoluciondria, jundado por Arruda Cdmara em 1796 na
Jronteira de Pernambuco cor a Paralba, no regresso de sua
dltima viagem a Europa, e dissolvido em 1810, suspeito de
conspirar contra o regime vigente, mas ressurgido no ano de
1812 em tres academia secrets em que projessavam e pro-
pagavam os mesmos principios revolucionlrios, sendo princi-
pal a Academia do Paraiso, presidida pelo mesmo padre
Joao Ribeiro (Pereira da Costa, Anais, cit, vol, cit.) Reje-
rindo-se a Pste sacerdote, ,Diciondrio Biogrhfico,, escreveu
Pereira da Costa (que Oliveira Lima chamou de mestre dos
historiadores pernambucanos): ... poude catequizar, persuadir
conquistar, nao s6 o0 que propendiam para tais iddias a
idiia separatista, a iddia de independencia senao ainda
muitos dos maiores rejractrrios, todavia era o Semindrio a
sua principal campanha e por Ple cultivada com tanto zelo e
assiduidade, como convinha a quem bem conhecia quanto
valem e quanto duram as primeiras lieJes e impressoes...>
Depois do que vai escrito, nao se poder6 negar que
Dona Bdrbara tivera ligaoJes com principals dos de Recije> ainda antes de 1810, a partir das que fatalmente
se estabelecem entire pais e educadares, relacoes que se am-
pliaram ao campo politico, como se ve das recomendaojes de
Arruda Cdmara a respeito do cadiantamento> de Jose Mar-
tiniano de Alencar e do titulo de heroina conjerido a mae
d/ste altimo, em outubro de 1810. Claro que estas relacoes
continuaram. em crescendo e progressive consolidacao ate a
eclosao do movimento revoluciondrio de 1817, no Cariri.
Se Dona Barbara apenas houvesse consentido ativa-
mente, que o recesso da sua casa jSsse o ambiente, anos a
fio, em reunites da jamilia, do s6pro revolucionrio de Josi
Martiniano de Alencar, como realmente joi, sobretudo, que
sua casa tivesse sido, come na verdade aconteceu, o centro
dos dramticos dias da revolucao caririense 1817-3 a 11
de maio-- etes Jatos, por si, jt teriam conslituido autIn-
ticos atos de heroismo, tratando-se de pessoa de seu sexo,
numa ipoca em que se considerava quase heresia a conjura
ou a rebeliao contra o regime e o rei, cujo poder era julgado
de direito divino e castigava de more a conspirarao e o le-
vante.
Aas, a verdade e que a heroina de Arruda Cdmara
(patriarca dos carbondrios de Recije>) e da hisdtria integra-
ra-se na ideia JSrca da revolucao e na sua transformaCao
em jato. Agitar os tfrmos de sua prisao e dejefa os quais
reduzem as dimensies da gravidade da sua participafao nos








acontecimentos de 3 de maio- nao prevalete contra o pro-
gresso, sigiloso. Quanto ao 3 de maio, o tMrmo joi feito lon-
ge do Crato, sob a responsabilidade de gene estranha a esta
terra e ao influxo da pressao moral do enorme presttgio da
acusada, tudo concorrendo para amaciar a situacao. Quanto
aos tMrmos de deJesa... deJesa 6 dejesa. Haja vista o caso do
Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, que, comprometido
realmente em jace dos documents surpreendidos em seu
poder, entretanto dejendeu-se cabalmente no sector da justice.
Ha outras particularidades. Em Salvador, onde a heroina e
outros revoluciondrios estavam presos, viviam 6000 pedreiros-
livres, segundo o testemunho do citado Frei Amador de
Santa Tereza em sua jd mencionada carta, os quais, tudo
empenhavam para suavisar a situavao dos rdus. Mais: o
desembargador Bernardo Teixeira Coutinho, cheje da De-
vassa, de nenhum modo adversdrio das ideias dos reus, an-
tes, um cripto-simpatizante, joi depois eleito deputado as
Cdrtes de Lisboa, pela provincia do Atinho, quando teve oca-
siaio de assegurar, nas mesmas Cdrtes, a seus colegas An-
tInio Carlos e Jos' Martiniano de Alencar, que seu Jito
era procrastinar o process ate que o tempo arrejecesse as
paixJes e um decreto de perdao mais amplo salva.se a mul-
tos, minorando as penas de outros (Nota deAntdnio Joaquim
de Melo as obras Politicas e Literhrias de Frei Joaqulm do
Amor Divino Caneca, anotada por Rodolfo Garcia no Vol.
V.P. 213, da Histxria Geral do Brasil, de Warnhagem, 3a.
edicao, Companhia de Melhoramentos, S. Paulo, 1936).
Por sinal que Bernardo Teixeira Coutinho acabou rompendo
cor o Governador por motivo desta .ua complacgncia, e le-
vou a melhor. Corn uma autoridade judicidria assim inten-
cionalmente comtemporizadora teria sido posslvel, ati a mo-
difiacao de textos de peas dos processes e a substituiao
delays, no curso dos mesmos processes, no sentido de Javo-
recer a situa(ao dos culpados. 0 ambient de Salvador devia
convergir as suas simpatias especialmente para D. Barbara,
um espanto pelo ineditismo de seu caso: uma re de crime
politico revolucionhrio. Abandonemos porem as conjecturas
para afirmar que Bdrbara Pereira de Alencar, Dona Bdr-
bara, caririense por adoaio e histdria political, I heroina por
Jundada preconiza9ao, acao e tradiVao, ela, na ordem crono-
6Igica, a primeira mulher republtcana do Brasil. Sem rigor!
E Crato ter a prioridade da proclamarao da Independin-
cia da reptblica no Ceard e no interior do Brasil...

PRECURSOR E LIBERTADOR

A aluno do Semindrio de Olinda (Joco de idlias demo-
crtlicas, co-matziz spiritual das celebres academia secrets,








acddemias secrets, por sua vez redulos da idlia nacionalista
e republicana, Jose Marliniano de Alencar nao nasceu depois
de 1792, poise em 1. de abril de 1832 joi escolhido senador
do Impirio por carla imperial desta data, e a lei exigia do
candidate a idade minima de 40 anos.
A respeito de Jose Martiniano, como de outros, seus
companheiros de banca de estudos no Semindrio de Olinda,
a recomendarao de Arruda Cdmara, recomendacao political,
joi observada fielmente. O. padres Joao Ribeiro e Aiguelinho
cuidaramr zelosamente do do ex-pupilo do
patriarca dos revoluciondrios de 1817. Alencar filiou-se a
Academia do Paraiso (Revista do Instituto do Ceard, Tomo
12, pg. 35) Associou-se a maConaria, certamente na Loja
, jundada pelo Padre Joao Ribeiro, rejerido,
em 1806, fato ste altimo, comprovado pela cons'talaao his-
tirica (Pereira da Costa, Anais, cit, p, 93-94.)
No moment em que Arruda Cdmara firmava sua celebre
carla, 2, 10, 1810, Jose Martiniano contava 18 anos de
idade.
0 ano de 1810 e os 18 anos de Alencar naquele ano
sao dados importantes. Pois nao hA quem possa negar que o
ex-pupito de Arruda Cdmara: aluno e mentorado dos padres
Joao Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro e Miguel Joaquim
de Almeida Castro no Semindrio e nas sociedades secrets,
nao J6sse, por ocasiao das Jfrias, discreta e tenazmente,
soprando, no recesso da Jamilia, no circulo cauteloso de
amigos e parents, as iddias subversivas, incendiado, ele, na
chama do ardor juvenile e ao impulso de seu temperament
politico. A idJia nao medrava em terreno estxril. No Cariri
havia todo um escol spiritual propicio a infusao dos prin-
cipios novos, ou Jfssem as iddias do seminarista Jose Mar-
tiniano de Alencar. Por exemplo (sem Jalar em Dona Bdrbara,
preconizada heroina desde 1810), o padre Carlos Jose dos
Santos: o Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, citado;
Tristao Gonaalves Pereira de Alencar, irmao de Jose Mar-
tiniano e nascido em 17-7-1789 (carta do Conselheiro Tristao
de Alencar Araripe ao desembagador Livino Lopes da Silva
Barros); Leonel Pereira de Alencar, mencionado irmao de
Dona Bdrbara; Indcio Tavares Benevides, genro daquela, e
pernambucano de origem; Francisco Pereira Arnaud (e nao
Arnaudo), licenciado, de Jiis'so Velha, neto do Capitao
Joao Correia Arnaud, co-jundador da mesma cidade; Barto-
lomeu Alves ae Quental (cor 28 anos de idade em 1817),
filho do Pernambuco, de Recite, Josb Dias Alves de Quental,
que se fixara em Crato e Jundou a important jamilia Quental,
diste Cariri; Raimundo Pereira de Magalhaes (mais ou
menos da mesma idade de Alencar), alids o 6nico represen-








tante da jamilia Bezerra de A1enezes, do Carlri, que partici-
pou da revoluFio de 3 de maio de 1817 nesta zona; Fran-
cismo Pereira Mala Guimaries, jundador da jamilia Maia
sob Este clus e ascendente de Alvaro Maia, interventor do
Estado do Amazonas ao tempo da Ditadura Vargas. A id6ia,
semeada, ;oi medrando progressivamente, sempre estimulada
pelo seminarista em jfrias anuais e ao contato de alguns
que acaso o visitam em Recije e atraves de ur outro corre-
ligionhrio que por ventura se dirigi J e para o selo de seu
cli. A iddia jd estava amadurecida quando na segunda
quinzena de abril de 1816 e primeira dezena do mes reguinte,
teria recebido o impulso, acidentalmente estimulante, esporh-
dico, do Ouvidor JoA o Antonio Rodrigues de Carvalho, que
tendo tomado posse das JunoJes em 16 de maio de 1815,
rsteve em Crato, pela primeira e iltima vez, naquela quadra
de tempo, no desempenho das funrees: correiao e erefao da
vila de Jardim, criada em 1814. Sem descontinuidade, a
atuaao de Alencar pros.eguiu. E quando chegou a esta vila
em 29 de abril de 1817, para deflagar a revoluFao no Ca-
irir, como de jato Iz no dia 3 do mEs seguinte, seu tra-
balho nao Joi mais o de semear uma ideia, que semeara an-
teriormente, e cultivara, em anos seguidos, mas o de con-
vencer da oportunidade de convert -la em revolufao de Jato,
acrescida a tareja da articulafao e deflagrafao do movimento
revolucionlrio.
Admitlssemcs, s6 para argumentar, que a Revolufao Ca-
ririense de 1817 tiverse sido o resultado da curta estada,
um ano antes, do Ouvidor Carvalho nesta zona e admi-
tiramos o absurdo de a ideia revoluciondria por ele aciden-
talmente lanfada, ter amadurecido em 12 meses, e mais o
outro absurdo de Jose Alartiniano haver aguardado, desde
1810, a apao ideol6gica do Ouvidor, limitando-se A exclusive
tareja de deflagrar a revolucao em 1817.
Enjim, nao hd documentrio, que autorize a dar a
atuapao de Rodrigues de Carvalho em Crato, o relevo ima-
ginado, ou, melhor jantasiado por certos cronistas. 0 pr6prio
Indcio Tavares Benevides, antes de ter sido o pretendido e
transitdrio apaniguado do Ouvidor, o era, e, permanent, de
Dona B~rbara e Jose Martiniano ae Alencar.
Precursor da ideia de independencia e de repdblica no
Cear& (o Ouvidor Rodrigues de Carvalho chegou ao Ceard em
dezembro de 1812 e nao estd provado que logo iniciasse a
propaganda de idWias subversivas, enquanto Jos MIartiniano
de Alencar e sua mae jd em 1810 eram objeto das preocu-
paoies political de Arruda Cdmara); precursor da ideia na-
cionalista e republican no Cariri, pioneiro da Revolucao in-








dependentilta e republican no Ceard a /igura hsiddrica de
Jose Martiniano de ,Alencar conJigura-se no bindmio: Pre-
cursor-Libertador. Libertarao ejemera, mas que se consu-
maria em 1822 no Ceard, numa afao que ignorava ainda o
Sete de Setembro e realizada pela mesma genie transitoria-
mente derrotada no Cariri em 1817.> A independencia no
Ceard joi proclamada no Ico a 16 de Outubro de 1822 ao
se reunirem ai os eleilores do sul da provlncia para a es-
cdlha dos constituintes brasileiros. 0 governor tempordrio, por
Miles organizado, pela alianca de Tristao de Alencar Araripe,
um dos implicados na revolucao de 1817, com o chefe rea-
lista Filgueiras, (entao politicamente convertido dos Alen-
cares, observamos n6s) tomou conta do Ceard e decidiu-se
socorrer o Piaui contra a truculencia de Josd da Cunha
Fidie...> (Oliveira Lima, op cit, 1817 NO CARIRI-PADRE
ANTONIO GOES DE ARAUJO)

(4) A carla dos denodados cheese pernambucados Padre Joao
Ribeiro Pessoa e DomingoJ Jose Alartins Joi dirigida con-
juntamente ao Capilao-mor de Crato e ao seu vigdrio Padre
Miguel Carlos. E do seguinie teor:
ta outros de ndvo, compadecendo-se de tantos seculos de opres-
sao e cativeiro dos desgracados povos do Brasil donde so-
mos naturals permitiu que em um moment, em qae malva-
dos sem Religiao nos queriam soterrar e cobrir a nossa pf-
tria de ldgrimas e de sangue, nao recobrdssemos os nossos
direilos e nossa Liberdade para formarmos um governo livre
e independent, que nos assegure a pureza da nossa santa fJ
e os nossos direitos todos os dias violados pelos nossos
opressores.
0 Soberano, que ds manda para governor os seus Povos
a despotas e a ladroes, ter quebrado perante Deus o jura-
mento de reger os povos com justica, e de manter os seus
direitos e por consequencia desobrigado o povo de juramento
de fidelidade pode escolher o governo que melhor the paracer.
Lede o primeiro livro dos Reis na Sagrada Escritura, e ve-
reis quanto o Senhor levou a mal que o seu povo quisesse
ser governado por um Rei l imitaCao dos pagaos e gentios.
Lembrai-vos que muitos dos nossos patricios tem levado as
suas queixas ao trono, mas tudo em vao, porque a cdrle
corrompida sd quer que Ples voltem ricos com os despojos do
miseravel povo para all se atolarem nos mais Jelos vicious.
Pernambuco nao podendo sojrer mais tantas opressoes, tantos
rogos, enjim uma fria perseguicao que se levantava contra
muilos dos seus benemeritos filhos, ajudado de Deus por um
visivel milagre em um instance lanpou por terra os tiranos, e








elamando viva a ReligiAo viva a pltria viva a Li-
berdade viu todo povo unir-se a si, e gracas ao Ente Su-
premo desde o Rio de Sao Francisco ate o Rio do Acu es-
tamos livres e prontos para derramar a 4ltima gota de san-
gue em dejesa de nossa patria, Que Provincia mais cativa e
mas tiranizada do que o Ceard? E nao havera entire seus
Honrados Jilhos um que levante a voz para xalvar a Patria?
Aonde estx o valoroso Capitao-mor Jose Pereira? Quem e que
o demora? 0 medo? Nao, porque ele nao ter medo. 0 ser
6d? Nao, porque a sua voz se levantarao no seu lado milhares
de patriotas que respe'tam as suas virtudes. Pots quem que
o demora que salve a sua patria, e nao vai lancar ao mar o
tirano, que tem jeito gemer ao Ceard Grande debaixo de um
jugo de jerro? Tamblm canvosco jalo, generoso e honrado vi-
gdrio do Crato, as vossas luzes claramente vox devem Jazer
ver os horrores da tirania que nos prime. Nao vedex que Es-
tes mesmos tiranos vindox de Jora cor novos costumes vem
injeccionar a nossa Religiao, e corromper ox bons costumes
que nossos maiores nox deixaram? Nao temais porque a cau-
sa e de Deus, e assim como 2le no. ter ajudado, assim vos
ajudarA a v6s. Nao temais, que ox remorsoxs azem ox tira-
nos jracos e covardes. Se nao fizerdes o que nds jazemos,
serels perseguidos pelos tiranos, qualquer calania vox levar6
as prisoes, voxoss filhos, vossos amigos serao presos e Jor-
cados a virem pelejar contra sua vontade com seus irmaos
de Pernambuco e os tiranos entao, cheios de satisjarao verao
correr o voxso rangue, acordai do Lelargo enquanto 6 tempo,
hx armas, Liberdade, Deus e por n6 vossos patrotas ami-
gos o Padre Joao Ribeiro Pesxoa Domingos Jose Mar-
tins, 3 de abril de. 1817 (BAR AO DE STUART DO-
CUMENTO DA REVOLU2AO DE 1817 REVISTA
TRIMENSAL DO INSTITUTE DO CEARA Nimero
comemorativo do Centendrio da Revolurao Pernambucana). Na
assinatura do Padre Joao Ribeiro, trocaram-lhe o nome por
Josx, talvez por grro de revisxo.
0 tirano do Ceard, para os chefes revplucionarios per-
namfbucanos, era o governador Sampaio.

(5) A causa imediata da deflagrafao da revolta de 1817,
em Recipe, joi o jato do Brigadeiro portugues Barbosa de
Castro ter repreendido severamente, alim de prende-los, ofi-
ciais brasileiros. Foi ilnediatamente atravessado pela espada
do capitao pernambucano Jose de Barros Lima, apelida-
do de Leao Coroado. Alis, era o assassino antigo protegido
do comandante luso.
(6) ATA DA CAMARA DE CRATO, em 11 de maio de
1817--Aos 11 dias do MIs de maio de 1817, nesta vila








de Crato, etc, em casa aa camara, onde jul vindo eu es-
crivao, que tinha servido na mesma cdmara, e de present
pela mesma novamente nomeado par oficio que me dirigiram
estando ausente desta vila, pelos restauradores jui conduzido
para continuar na serventia deste ojicio pela gloriosa res-
tauracao desta vila por uma hora da tarde, sendo restaura-
dores o capitao-mor desta vila, o tenete-coronel comandante
do regimento de cavalaria desta vila e juiz ordindrio o ca-
pitao Manuel Joaquim Teles e mais officials empregados e
povos na gloriosa restauracao que Jelizmente se celebrou em
nome do el-rei nosso senhor, que Deus guard, etc. At tam-
bem chamado de seu sitio o juiz Manuel de Jesus e o ve-
reador Alexandre Raimundo e por estar preso o vereador
Tristao GonCalves e ausente o vereador Jose Carlos, Joi
para os seus lugares nomeados para vereadores o capitao
Goncalo Teles Ferreira, Francisco Pereira Maia Guimaraes,
e o interino procurador Francisco Joxs de Andrade. At pelo
dito juiz president joi dado o juramento dos Santos Evan-
gelhos, que os mesmos vereadores para que bem e verdadei-
ramente servissem a S.M. Fidelissima dando provas de filis
vassalos restauradores desta vila do jugo e pesado cativeiro
em que estivaram oito dias pelos insultantes traidores pela
pep4blica pernambucana, que dado o juramento de fidelida-
de, prometeram uns e outros em tudo serem fijis a nosso
amado soberano, etc, etc. ASSINADOS (RE VISTA TERA,>--4 ndmero-1958-Crato)
(7) A car/a do cientista e preparador da revolu/ao de
1817-Arruda Cdmara, na qual chama Bhrbara de Alencar,
de heroina, jA em 1810, tem o teor seguinte:

( temer de at chegar vivo, JaCo-te esta bem itribulada, pois co-
nheco o meu estado.
chegue vivo. Estas linhas sao escritas por cautela, para de-
pois de minha more saberes mais Tinoco, o que devem Ja-
zer quanto algumas aljatas que ficam. Nao ignora a
demasiada ambifao do meu mano Francisco, que tudo hh de
praticar para-nao ter efeito minha 4ltima vontade. 0 nosso
amigo Joao Fernandes Portugal nunca em esquecimento de
voce. A miiha Flora de capa encarnada que Francisco tern
em vistas, chama a ti cor tempo. A minha obra secret
manda corn brevidade para a America inglesa ao ncsso
amigo: Por nela center coisas importantes, que nao convem
ao Jeroz despotismo ter dela menor conhecimento; e por ter
entao muito que perder os da tua Jamilia do ramo do gene-
ral Andre Vidal de Negreiros, que Padre Matias Vidal de








Negreiros, e marques de Casceis hao despojados dos bens do
dito general jurtivamente. Toma toda cautela na minha mis-
celdnea, onde estao todos os apontamentos das importantis-
simas minas. Se suceder algum dear, em que vires perigo
a tua exisitncia, /az ciente alguim de tua Jamilia do ramo
de Negreiros, amigos da America inglesa para prevenir tudo,
e nunca sujeitarem os meus paplis a ingratos, embora fiquem
por tempos privados dos seus bens>.
Jraudado. Estou jalando dSbre os herdeiros roubados do ramo
do general Negreiros. Os bens ficam a disposirao dos meus
testamenteiros, tu, Tinoco, e Jodo Fernandes Portugal>.
inspires para que nenhuma provlncia a exceda. Tenham todo
o cuidado no adiantamento (0 grijo J do copista) dos rapa-
zes Francisco Muniz Tavares, Manuel Paulino de Gouveia,
JOSI AiARTINIANO DE ALENCAR (o emprego de
maidsculas na grafia do nome deste tllimo e do copista), e
Francisco de Brito Guerra; como assim acabem cor o atraso
de gene de c6r, islo deve cessar para qui logo que seja ne-
cessArio se chamar aos lugares pdblicos haver homens para
isto, porque jamais pode progredir o Brasil sem eles inter-
virem em seus neg6cios; nao se imported cor essa acana-
lhada e absurda aristocracia cabundd que h6 de sempre
apresentar Jlteis obsticulos>.
ter ingresso na prosperidade do Brasil. A conhecida probidade
de Caetano Pinto nao deve ser constrangida. Tu &s o meu
escolhido (o grijo e do copista). As Jases por que ter de
passar o Brasil mostrarao em que deve Jicar o seu governo
sdbre representante da naao. Sou dos agricultores que nao
colherei os frutos de meu trabalho, mas a semente esdt plan-
tada cor boas batatas. D. BARBARA CRATO, DEVEM
OLHA-LA COMO HEROINA (o emprego de maiscula na
grafia deste nome e iniciativa do copista). Remete logo a
circular aos amigos da America inglesa, e espanhola; sejam
unidos cor esses nossos americanos, porque tempo virh de
sermos todo urn; e quando nao jdr assim sustentem uns
aos outros. Como ainda nao pode o Brasil cor grande
obras, Jala no entretanto a Caetano Pinto para mandar por
via dos comandantes de ordenancas abrir essas estradas at6
cincoentas lIguas a machados e joices corn o que muito lu-
crar4 o comercio e agriculture. Nao trato de abrir canals,
porque sustentam os que ha de jeitos pela natureza, nao vale
a pena o .fervipo que cor ele se despender. Mauricio situou
o Recipe, sem ter ancoradouro e em cima de bancos de area
inextinguiveis.-Adeus.-ltamaraci, 2 deoutubro de 1810>.








,P. S. Se ainda vires Fret Gal/undo dize a esse irade
que nao levo queixas dele, poise tudo the perddo,. (In Pereira
da Costa, F. A. Dicionrrio Biogrrfico de pernambucanos c-
lebres. Recije, Typographia Universal, 1882-Fis. 640-649).
Essa carta, testamento do Dr. Manuel Arruda Camara,
lol dirigida ao Juturo cheje revoluciondrio Pe. Joao Ribeiro
Pessoa, destinado ao suicidio, ap6s a derrota da rebelio de
17. Quem xabe se Arruda Cdmara nao conheceu pessoalmente
Dona BArbara, em ruas excursres cientificax, a cata de es-
pecimes da flora nordestina, pelo interior pernambucano?
Pelo menos, conhecia xeu pensamento, atraves de correspon-
dencia delaJ corn filho, estudantes de Olinda.
Pereira da Costa, oesquisador da carta de Arruda Cd-
mara, dirigente do AREOPAGO DE ITAJBE, dax socie-
dades secrets que mais cooperaram para a dijusao dos
principals revoluciondriox, em Pernambuco, nao escreveu Dona
BARATA CRATO e sim-DONA BARBARA CRATO. E
mais outro golpe mortal nos propoxitais conjusionistas que
querem por ddvida a heroina de 17, de Crato, Bdrbara Pe-
reira de Alencar.

LISTA DOS CULPADOS DA REVOLUQAO
CARIRIENSE DE 1817

No Arquivo Pbblico, da Bahia, Oliveira Lima copiou,
do original da Devassa, a lista dos culpados da Revoluao
Pernambucana de 1817 e publicou no fim de suas anotaesx
a obra de Muntz Tavares, citada. Desta lista extraimos ox
nomes dos culpadox da revoluCao caririense do referido ano:

Antdnio Alves Carneiro, pronunciado a 15 de setembro de
1818, cabra do Lameiro.
Antinio da Costa, cabra do Lameiro, pronunciado na data
rejerida.
Bdrbara Pereira de Alencar, pronunciada em 13 de xetembro
de 1818.
Bartolomeu Alves de Quental, pronunciado em data supra.
Padre Carlos Joe' dos Santos, pronunciado em 13 de setem-
bro de 1818.
Felix Carneiro, cabra do Lameiro, pronunciado em 13 de
setembro de 1818.
Francisco Cardoso de Matos, pronunciado em 13 de setem-
bro de 1818.








Francisco Pereira Maia Gutmaraes, pronunctado em 13 de
setembro de 1818.
Frei Francisco de Santana Pessoa, pronunciado em data
supra.
Indcio Tavares Benevides, pronunciado em 15 de setembro
de 1818.
Joaqulm da Costa, cabra do Lameiro, pronunciado em 15
de setembro de 1818.
Joaquim Francisco de Gouoga, pronunciado em data supra.
Padre Jose Mlartiniano de Alencar, pronunciado em 13 de
setembro de 1818.
Leonel Pereira de Alencar, pronunciado em data supra.
iManuel da Costa, cabra do Lameiro, pronunciado em data
supra.
,Manuel da Silva, cabra do Lameiro, pronunciado em 13 de
setembro de 1818.
Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, vigdrio da matriz
da vila do Crato, pronunciado em 13 de setembro de 1818.
Miiguel Justo, cabra do Lameiro, pronunciado em data supra.
Raimundo Pereira de Magalhaes, pronunciado em 13 de
setembro de 1818.
Tristao Gonealves Pereira, pronunciado em data supra.
NOTA: Os reus Antdnio Carneiro e Antdnio da
Costa nao eram pernambucanos, mas cratenses, moradores
no sitio Lameiro, de propriedade dos Alencares. Quanto a
Francisco Pereira Arnaud, o Barao de Studart grajou-
Arnau-mas na verdade a grafia e Arnaud, ou Arnaut, usa-
da secularmente pela amillia nesta zona. Ele era filho do
Coronel Alexandre Correia Arnaud, por sua vez prucedente,
este, como se disse, dt Capitao Joao Correia Arnaud, baiano
e tronco no Cariri da Jamilia Arnaud desla mesma zona.
Feito o conjronto dos culpados da revolufao pernambu-
cana de 1817 no Cariri cor os da mesma revolucio no res-
to do Ceari, &stes ficam sensevelmente aqulm daqueles do
ponto de vista qualitative, isto e, tomada em conjunto a ca-
tegorizaao social. E sob o aspect quantitativo, 6 ridiculo, o
ndmero de culpados, cearenses, do resto do Ceard (Estamos
excetuando o Cariri, re-Jrisamos). (SEPARATA DE ITAY-
TERA-1961-1817 NO CARIRI-PADRE ANTONIO
GOES DE ARALJO-CRATO)









So'mente em 1821, quando anulada a devassa pela Re-
lapao da Bahia, Joram postos em liberdade os iltimos in-
digitados sem que, felizmente, nenhum experimentasse a dura
sina de outros cabecilhas da Revoludo, enjorcados sem pie-
dade. D. Bdrbara joi sdlta, em virtude de perdao, por man-
dado de 17 de Novembro de 1820, e o Padre Carlos e Leo-
nel Pereira de Alencar, por mandate de 17 de dezembro.,
(PEQUENA HISTORIC DO CEARA RAIMUNDO
GIRAO)
(9) ((Se propagou esses ideals o Ouvidor Joio Antdnio
Rodrigues de Carvalho, em suas viagens ao interior, por
Jdrfa de, sea cargo, foi tao cautelosamente que resultou in6-
cua, pode dizer-se, sua aao a ss'e respeito'. (IRINEU PI-
NHEIRO-UMI BAIANO A SERVIQO DO CE1ARA E
DO BRASIL)

BIBLIOGRAPIIA a

RELIQUIAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO-Carlos Barthou- Grffica Ol'm-
pica Edit6ra Rio, 1961
HISTORIA DO BRASIL-Rocha Pembo. 9 Edicao-Melhoramentos-S. Paulo.
ANAIS PERNAMBUCANOS-Pereira da Costa-Arquivo Pfblico Estadual, Recife.
1958
1817 NO CARIRI-Padre Ant6nio Gomes de Arafijo-Separata da revista ITAYTERA,
1961 Crato-CearA.
REVISTA TRI-MENSAL DO INSTITUTE DO CEARA-Nf6mero comemorativo do
Primeiro Centenfrio da Revolugco de 1817.
ESBOCO HISTORICO-Cel laimundo Teles Pinheiro-Imprensa Univ-rsitfria do
Cearfi 2a edicao, 1959.
REVISTA ITAYTERA,, III e IV nfimeros-Crato-Ceara
REVISTA DO INSTITUTO DO CEARA-1951 e sua separate, de Irineu Pinheiro
-Um baiano a servigo do Ceara e do Brasil
DONA BARBARA, Poema de Jos6 Carvalho
HISTORIA DO CEARA'-Cruz Filho-CIA. melhoramentos de S. Paulo
PEQUENA HISTORIA DO CEARA'-Raimundo Girto Edittra *Instituto do
Cearb a-Fortaleza, 1962








- ND I C E -


APRESENTAgAO
EXPLICANDO...

I CAPITULO


0 Cariri cearense. Origem do Nome.
Habitantes indigenas

II CAP1TULO

Descoberta do Ceara. Tentativas
de colonizagao e catequese do
Cariri. Sesmarias e Posseiros

III CAPITULO

Primeiras vilas do Ceard. A mis-
s2o do Miranda passa a vila. A
primeira Par6quia caririense
A fundagao de Jardim


IV CAPfTULO


0 Ceara separado de Pernambuco. 0
Cariri entire os s6culos XVIII e
XIX. A segunda comarca do Ceara

V CAPITULO

Revolugao pernambucana de 1817.
Repercussao no Cariri. Atuagao da
familiar Alencar. Influencia que
ficou. 0 Governador Sampaio.


. pg. 5


pag. 13


. pg. 29


p6g. 50


. pg. 61


















































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