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HIDE
 Front Cover
 Cruz filho
 Title Page
 Pedro de Aratanha
 Apresentacao
 Braga Montenegro
 Filgueiras Lima
 Joaquim Alves
 Luis Sucupira
 Martins de Aguiar
 Erminio Araujo
 Joao Jacques
 Paulo Sarasate
 Florival Seraine
 Matos Pereira
 Moacir Teixeira de Aguiar
 Saraiva Leao
 Joao Jose Cavalcante
 Galdino Catunda Gondim
 Perboyre e Silva
 Otacilio de Azevedo
 Eduardo Campos
 Artur Eduardo Benevides
 Afonso Banhos
 Francisco Hardi
 Eusebio de Sousa
 Silveira Marinho
 Table of Contents
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Group Title: Publicacao ; no. 30
Title: Falam os intelectuais do Cearâa
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Full Citation
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00075949/00001
 Material Information
Title: Falam os intelectuais do Cearâa
Series Title: Publicaðcäao
Physical Description: 147 p. : ; 22 cm.
Language: Portuguese
Creator: Lima, Abdias, 1911-
Publisher: Imprensa Oficial
Place of Publication: Fortaleza Cearâa
Publication Date: 1946
 Subjects
Subject: Intellectuals -- Brazil -- Cearâa (State)   ( lcsh )
Intellectual life -- Cearâa (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre: government publication (state, provincial, terriorial, dependent)   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: Abdias Lima.
Funding: Publicaðcäao (Cearâa (Brazil : State). Imprensa Oficial) ;
 Record Information
Bibliographic ID: UF00075949
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 54927082

Table of Contents
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    Cruz filho
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    Pedro de Aratanha
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    Apresentacao
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    Filgueiras Lima
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    Joaquim Alves
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    Luis Sucupira
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    Martins de Aguiar
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    Erminio Araujo
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    Joao Jacques
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    Paulo Sarasate
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    Florival Seraine
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    Matos Pereira
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    Moacir Teixeira de Aguiar
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    Saraiva Leao
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    Joao Jose Cavalcante
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    Galdino Catunda Gondim
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    Perboyre e Silva
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    Otacilio de Azevedo
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    Eduardo Campos
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    Artur Eduardo Benevides
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    Afonso Banhos
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    Francisco Hardi
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    Eusebio de Sousa
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    Silveira Marinho
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Full Text
U' *Z~-~SS;


ABDIAS LIMA




FALAM OS INTELECTUAIS

DO CEARA


FORTALEZA
1946


I.




RO
-15z j


Falam os Intelectuais

do Ceara



; M I;
i .

3 i r ',"- .- .













CRUZ FILHO


Resposta de Cruz Filho Comegou imitando Guer-
ra Junqueira. 0 Pe. AntBnio Tomaz inicia-se nos
sonetos. A nossa literature e o epis6dio do Judas. Um
piparote na burguesia. Bilac, Alberto de Oliveira.
Raimundo Correia e Vicente de Carvalho poetas
liricos e nao parnasianos. 0 trabalho mental, sobre-
tudo o de bor lavor artistic, exige serenidade e dis-
posic(es especiais da parte do escritor.


Um amigo nos dizia ha pouco: ainda temos uns vesti-
gios de literature porque yive Cruz Filho. Observa0ao apres-
sada, esta. Temos romancistas como Jader de Carvalho e
Fran Martins. Temos belas vocaq6es pohticas como Filguei-
ras Lima e Aluisio Medeiros. Temos na filosofia uma espe-
ranga: Moacir de Aguiar. Em filologia, estamos satisfei-
tos: Prof. Martins de Aguiar. Em historic, Eusebio de Sou-
sa. E' exato que ao lado destes, ha os capistranos-mirins, pe-
ritos em carnaubeiras, coco catolI e azeite de dendi, mas sem
nenhuma vocagao para a literature seria. A lista esta in-
completa.
Observando-se mais profundamente o meio, verifica-
se que ha, entire n6s, um renascimento literArio. Ai estao as
revistas, jornais cor paginas literArias e livros circulando. Ja
se fala ate em jornais A D. Casmurro, cor colaboraao pa-
ga, e isso em janeiro proximo. Que pass important nas
nossas letras! E colaboracgo paga! Sentimos um gostinho de
mel na boca...
De qualquer manei-a, Cruz Filho 6 um artist tio alto
que constitui o ponto central de nossa literature. Nunca pe--







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netra nas sombras. Quando o meio literario se desenvolve, o
poeta atinge o esplendor. Quando decresce, Ele fica nos
meios-tons, encolhido num canto, mas sempre respeitado.
Quando, li fora, se fala em literature do Ceari, Cruz
Filho vem em piano primeiro. Ja verificamos isso numa
revista do Rio. Os que o cbnhecem, simples e modesto, em
chegando na metr6pole, tratam logo de espalhar-lhe o nome.
Como viem, e um nome que dispensa fogo de artificio
para briihar.
"Sugestao de Beethoven" e uma poesia formidavel em
qualquer part.
Aspitemn o perfume dresses versos:

"Noite. Ermo. Um luar de abril quase morto na bruma.
Silncio. Ar medieval de algum mosteiro em ruina.
Num piano, cuja voz um mundo extinto exuma,
Beethoven chora e geme, em pungente surdina".

Inconfundivel artist, mestre da poesia, esse nosso sim-
ples Cruz F 0ho.


QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-.
CIAS LITERARIAS?

Eiit tempos idos e vividos, ria hora doirada do roman-
tisnio, pela qtial todos passainos, fui tentado pelo bom de.-
monio da Poesia.
Certo livro, que hoje possuo, no qual se contmni varia-.
da coleFbo de poemas recortados aos jornais e pregados As
folhas cohstituiUt-se o sortilegio da minha inicia~ao no ino-
cente culto de Orfeu. Depois, caiu-me nas mAos um livro al--
go excenti-co, ("Stellos"), do poeta pernambucano Teoto-
nio Fteiie, de cuja muisa andei enamorado por algum tem-
po, at6 que me avistei mais de perto com o pr6digo Guerra
Junquieiro do "D. Jofo" e da "Musa em FPrias", a quem
passei a iniitar dt&rante cerca de tim lustro.






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QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA, QUANDO DO INICIO DA SUA CARREIRA ?

Quando comeeei a compor versos corretamente metrifi-
cados,.graCas ao present que, entao, .me havia feito do "Di-
cionario de Rimas Portuguesas", de Mario de Alencar, o
meu amigo Galdino:Catunda Gondim, a vida mental do Cea-
ra concentrava-se em torno da revista FORTALEZA, a cu-.
ja frente se encontravam Raul Uchoa, Joaquim Pimenta,
Mario Linhares e outros, e, logo depois, A volta de TERRA
DA.LUZ, revista. que se seguiu.aquela, dirigida pelo cita-
do Joaquim Pimenta. Compunha Esse cenaculo de escrito-
res, alem dos diretores referidos, dados os dois primeiros a
cogitacqes .filos6ficas, luzida falange, de .moqos talentosos,
dentre os quais citarei os nomes de Adonias Lima, Beni Car-
valho, Jilio Maciel, Gustavo Barroso, Irineu Filho, Soriano
de Albuquerque, .Cabral de Alencar, .Raul Carvalho e Pa-
dre Ant6nio Tomaz, que havia iniciado a publica.qo dos seus
sonetos.

QUAL.A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE DA
DO CEARA?

N~o e das irielhores a minha impressao geral a-respeito
da atual literature ouliteratice brasileira.
O fen6meno social, a que poderemos chamar, generica-
mente, "crise econ6mica" do mundo modern, engendrou,
no decurso do corrente s6culo, senio muito antes, certo es-
tado de espirito.,de que derivou uma como "crise artistic"
na Europa, de onde se irradiou, em pouco tempo, por sim-
ples imitaqdo, para a nossa America.
Certo epis6dio regional descrito por Euclides da Cu-
nha poderA, pela flagrante analogia, esclarecer bem iste ul-
timo fen6meno.

Conta-nos Euclides ("Judas-Aasvero", IN "A' Mar-
gem da Historia") que o trabalhador nordestino emigrado







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para a Amaz6nia tern o habito de, em certa 6poca do ano,
''se desforrar" da imensa desdita da sua sorte de degredado
e escravo, por meio de ingenuo e engenhoso estratagema.
Nas v6speras do sabado da Aleluia, dia consagrado aos "ma-
ximos deslizes", dedica-se o referido "seringueiro", A tarefa
de improvizar um simulacro do ap6stolo Judas de Iscariote,
o qual, ap6s receber a fisionomia torturada que, inconcien-
temente, Ihe da o inabil estatuArio, juntamente cor a idu-
mentaria e chap6u deste, se revela assombrosamente seme-
lhante ao seu pr6prio autor...
A's primeiras horas do aludido sabado, 6 solenemente lan-
gado ao rio, metido num arremedo de canoa, o patusco boni-
irate, que, em verdade, nao represent um ultraje ao disci-
pulo traidor. E', na realidade, o sombrio mensageiro que,
compelido pela correnteza do rio, ira denunciar ao mundo
longinquo, ao mundo dos presumiveis homes felizes,,o ino-
minavel infortunio do "seringueiro" escravizado e sem es-
pcranga naqueles miltonicos recesses da Terra monopolizada.
Sem se aperceberem bem de que, no dominio da Arte,
fotografam ou copiam as suas pr6prias pessoas e toda a sua
pungente odiss6ia de artist, im'agina o escritor, o pintor e o
compositor musical do nosso tempo, nas regi6es profundas
e obscuras do seu inconciente, "desforrar-se-" tamb6m dos
ultrajes e tormentos a que a sociedade contemporanea os sub-
mete, com o aplicar-lhes indiretamente a pressAo da miquina
pneumAtica do seu odioso capitalism.
Coio faze-lo? Por comodidade e a falta de pistol, pu-
nhal ou bomba de dinamite, valem-se do sarcasmo, toman-
do do pincel ou da pena e comecando a garatujar, cor ob-
vios intuitos de mistificar o burgues, uma caricature gro-
tesca de si pr6prios, isto 6, do pr6prio Homem, seu tirano
e seu irmao em Cristo, bem assim de tudo quanto diz respei-
to ao mesmo Homem.
Como a arte 6, em geral, a expressao do espirito da so-
ciedade em determinada 6poca historic, surgiu, natural-
mente, dessa "desforra mental", o futurismo, o cubismo,
o unanimismo, o super-realismo, o dadaismo, a music sem
melodia, tudo quanto, enfim, sob a denominaqco gendrica






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de "modernismo", vise a abafar o tropel da opulenta cara-
vana dos triunfadores que monopolizam as delicias e gozos
da vida humana.
Convrm, que se d& o seu just relevo, no que concern
a determinaqo etiol6gica do fen6meno, a revolta contra o
jejum forcado de amores aristocriticos, a qual veio condi-
mentar de onanerotismo boa parte do novo acepipe litera-
rio, pict6rico ou musical.
Nasceu assim, tambem um tanto por espirito de imi-
tac~o, a literature brasileira atual, a pintura portinaresca,
a miisica idiota, a canconeta estipida,, o samba africaniza-
do, oriundos os tres iltimos dos infimos BASFONDS
sociais.
E' esta a fisionomia geral da nossa modern literatu-
ra, sem que isto signifique a inexistencia de prosadores e
poetas novos de altanado porte, como o demonstra a atual
producao literAria do pais.
Quanto A literature cearense da nossa 6poca, direi ape-
nas que, a par de uma ou outra mediocridade enfezada, ha
atualmente entire n6s belos e Ageis espiritos dotados de ta-
lento e boas letras, capazes de redimir os nossos cr6ditos li-
terArios dos danos porventura causados por aquelas.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE OS POETAS
PASSADISTAS E MODERNISTAS?

Consider tbo estranha a esta hora mental do mundo
a poesia a que, na falta-de denominacqo mais adequada, se
convencionou chamar "modernista" ou "futurista", quan-
to aquela outra a que, no Brasil, se ter denominada impro-
priamente "parnasiana". Poetas parnasianos, 'no sentido
frances do conceito, em verdade, aqui tivemos tao somente
dois, que foram Francisca Jflia da Silva e Alf. Castro; os
demais Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia,
Vicente de Carvalho e outros foram todos integrais e ex-
celentes POETAS LIRICOS...
Quanto aos nossos "modernistas", parece-me que, na
sua grande maioria, nem sdo poetas nem tao pouco moder-







1- 14


nos. Andam alguns a arremedar os antigos simbolistas, e
outros, sem letras e at6 sem graintica, divertem-se em
mistificar o public cor as suas abstrusas sandices, dispos-
tas graficatente em forma de poesia, mas, em todo caso,
supinamente prosaicas.

COMO VOCR TRABALHA?

Literariamente, ha muitos anos ando "em g6zo de f6-
rias".

QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

'E' dificil responder a este 6 quesito. Nao tenho, na
realidade, preferencias muito fixas.
Apraz-me, contudo, dentre os modernos prosadores
nacionais, a companhia de :Raul Pompdia, Euclides da Cu-
,nha, Machado de Assiz,, Aluizio'Azevedo e Graga Aranha
:(Canai. ), para nio falar.senSo dos mortos; dentre os es-
-trangeiros, dou-me bem na convivencia do incomparavel Eca
de Queiroz, de Fialho de Almeida, Ernesto Renan, Flaubert,
Maupassant, Anatole France, Dostoievski, Tolstoi, Blasco,
Ibanez, D'Annunzio e alguns dos contemporaneos.
No dominion, da poesia, restringindo-me tambem ape-
nas aos modernos, tenho por bons amigos Alberto de Olivei-
ra, Raimundo: Correia,. Olavo Bilac, Vicente de Carvalho,
Guilherme de Almeida, -Olegario Mariano, Ronald de Car-
valho e alguns mais, no Brasil; no estrangeiro, Leconte de
Lisle, Baudelaire, Heredia, Victor Hugo,. Samain, Eugi-
nioi de Castro e nao-sei quantos outros.
Nao inclui, nesta relaqgo, os poetas e prosadores com-
provincianos.

EM JQUE TRA.BALHA ATUALMENTE?

Os prcodutos do meu apoucado engenho sAo 'de ma. qualida-
,de e,-consequentemente, fazem rarear a freguesia.







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QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA
COM RELACAO A LITERATURE?

SNao me seduz, na sua generalidade, a literature im-
provizada ao estrondear dos canh6es. O trabalho mental,
sobretudo o de bom lavor artistic, exige serenidade e dis-
posig6es especiais da part do escritor.
Demais, a falta regular de comunicaqSes e a perda de
contato direto cor os acontecimentos costumam original
certa literature suspeita em que entra, sem duvida, o con-
dimento de quanta cabotinagem podem imaginar mediocres
escritores apressados para exploraqgo da papalvice public.
Nao quer isto dizer, todavia, que nao se encontre, ate
aqui no Brasil, entire os livros referentes a guerra, uma ou
outra obra de valor e alcance sociol6gicos, embora traduzi-
das ou parafraseadas em cassange de primeiro quilate,
quando estrangeiras.





ABDIAS LIMA


FALAM OS INTELECTUAIS

DO CEARA





D...............- .. .. ..
Rho DeaSla Cava

FORTALEZA CEARA,
1946














AOS MEUS AMIGOS:




Francisco Magalhies Martins
Francisco de Sousa Bento
Amilcar Barca Pelon

e
Joaquim Juares Teixeira


S,.- .--l,~CAN COLLECT



Ra ph ia Cei"' '













Obras do author:


CINZAS (1933)

RONDANDO O VERNACULO -Vol. I (1942)

RONDANDO O VERNACULO Vol. II (1946)



Em prepare:


"NOTAS DE CRfTICA" criticala literaria)














PEDRO DE ARATANHA


Resposta de Pedro de Aratanha A poesia moder-
nista e cascalho, concha vazia, onde DE BALDE se
busca a perola. Whitman e o poeta John Greenleaf
Whittier. A poesia modernista e freudiana? A lite-
ratura brasileira nao impression. Atualmente tra-
balha por uma aposentadoria... 0 seu poeta predile-
to foi lavrador Roberto Burns, o grande lirico es-
cocos. Diz pertencer ao seculo passado, em que o mun-
do parecia mais honest pelo menos ainda nao se
criara a palavra TAPEA(AO.


Pedro de Aratanha 6 um pseud6nimo celebre. Mas, co-
mo no caso do Tristao de Ataide, o nome confundiu-se cor
o pseud6nimo. Tanto faz assinar Tristao como Alceu Amo-
roso. Lima:. a mesma cousa. Todo o mundo sabe de quem
se.trata. Naturalmente, Pedro de Aratanha nao 6 ainda co-
nhecido no Brasil. Quando dizemos que os nossos escritores
sAo um nome important, levamos em conta o meio. Alguns,
de certo, se vivessem noutro centro, jA teriam irradiado o
nome por todo o Brasil. Pedro de Aratanha, est6 nesse ca-
so.
Sabendo alemao a fundo, j6 transplantou para essa lin-
gua, que o genio de Lutero renovou, varias quadrinhas de
nossos poetas indigenas, que, infelizmente, estao mortos
(quasi todos) tanto aqui como l1. Se, todavia, no Ceara dei-
xam escapar um d6bil gemido 6 para expirar sob os c6us
germanos, pois a voz de Goethe os fulmina, num relampa-
go...







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Pedro de Aratanha 6 professor de linguas, mas nele ad-
miramos o artist paciente, fugindo da gloria hebdomadaria
como o diabo da cruz. Poeta, ainda nao nos deu, cremos, em
livro, a beleza de sua alma. Trabalha, ha long tempo, numa
traducao de Omar Khayyam e dada sua paixao beneditina,
sua inteligencia critical, pode descobrir mundos no poeta per-
sa.
0 Ceari mental abre alas a passage desse monge das
letras da Idade-Media.
Notemos, de passage, que &le descende de uma fami-
lia ilustre, que jf nos deu um dos mais vigorosos poetas da
America.
Nasceu nesta capital em 2 de abril de 1891.

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

O Futurismo, a que sou grato sem todavia render-lhe
culto, teve a virtude si assim posso chamar de abrir de
par em par as Cancelas da Arte, dando acesso a qualquer.
E' tambem o meu caso. Nao sou pois nem um literate, no sen-
tido professional de home de letras. Sou um mero diletan -
te. Ando, por devoqao e por dever de oficio, a lidar com li-
vros e a bebericar nos livros. Si fui levado a tentar rimas,
foi de inicio, por um movimento de revolta ante e crassa in-
justiqa do chamado HOMO SAPIENS. Para nao sair da
erudiqao das frases feitas, repito cor Juvenal, FACIT IN-
DIGNATIO VERSUM.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A POESIA PAS-
SADISTA E MODERNISTA?

A poesia passadista, que 6 poesia, e como a perola na
concha. A que se diz modernista, a concha vazia, cascalho
s6, onde debalde se busca a p6rola perdoem-me os ,fans"
este simile. Walt Whitman, sem duvida um dos pioneiros no
genero, o poeta da maquina como o chamam, sendo lido por
um Seu colega e contemporaneo, John Greenleaf Whittier-






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excelente poeta. antiga este engulhou-lhe as "FOLHAS
D'ERVA" e deitou-as ao fogo. Greenleaf i. e. folha verde
- pelo nome, havia de entender das "FOLHAS D'ERVA",
presumivelmente verdes tambem...
A poesia modernista, segundo o diagn6stico do Dr.
Fudo Beltrano, 6 a expressio patol6gica do estado morbido
por que vem passando o mundo esse caos borrascoso onde
jaz prostrado este mesmo mundo modern, cujo simbolo fe-
licissimo t~o bem cabe a ele como a ela a sua proclama-
da poesia. Este simbolo 6 o Cactus, plant agreste e agressi-
va, crispada de espinhos, parca de encantos, que s6 de long
em long ostenta uma flor, um fruto, que da gosto ver. E'
um sorriso de safide... sim, porque a verdadeira Poesia nio
morreu. Anda as escondidas cor sua tenra irma, a Paz, que
tambem se acha escorracada em meio da borrasca.
A esse Mundo Moderno, ja houve quem ihe prognosti-
casse a morte premature, escrevendo-lhe desde ja o epitafio:

Stranger, here lies that one time Modern World,
That noble and courageous age which hurled
Its gauntlet in the very teeth of fate
And dared and died... What are you laughing at?-E.S.

Poderiamos interpreter mais ou menos assim:

Forasteiros, aqui jaz o Mundo que outrora
Modern se chamou por cuja f6 confessa,
Ousou lanqar a luva A face do Destino,
E lutou e morreu... Porque estdo rindo? hom'essal



Afora rarissimas excec6es, a poesia modernista, liberta,
despejada, sei ia si freudiana, e por natureza indigesta, inas-
similivel para os paladares afeitos ao pao de trigo, ao vinho
d'uva, de que hoje apenas nos resta a mem6ria. E' o pao
mestizo, o pao bucha, regado a leite corm gua produtos de
uma 6poca que ha de passar. Tempo virA, onde veremos de







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mfos dadas a Poesia e sua irma e curadora, a Paz. Tsto pa-
ra quando o mundo convalescer e vigorar a safide, quando a
Paz e a poesia -_ saradas safarem-se deste diliivio como
novo Arco da. Velha Alianca.
Que seja breve e nao custe.

QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?

Nao impression. Ha joio em demasia. Prefiro co-
mo fiz sentir acima nutrir o espirito cor trigo ja joeira-
do. Dai escolher livros que ja passaram pelo crivo do Tem-
po, e ainda esses muitas vezes nos trazem joio de permeio..
HA naturalmente espiritos, esclarecidos nem podia
deixar de haver mas teem a voz abafada no arruido dos'
cavaleiros malandantes, que assediam as Cancelas do Par-
naso, no pressuposto de cavalgar Pegaso.
Tdo cedo nao teremos um segundo, nem um terceiro
Machado de Assis, o psic6logo na prosa, o fil6sofo no verso.

COMO VOCE TRABALHA?

Faco a mim inesmo identica pergunta! Acho que toda
produqgo intellectual ha de ser fruto do silencio, da concen-
tragao que s6 me parece possivel no silencio. Vivendo numa
venturosa penumbra, segundo o preceito de Epicuiro "on-
de a luz se derrama em neblinas e luares" entendo ca-
ber-me dai a messe doirada de um ou outro pomo d'oiro, que
tento transport para o meu caniteiro...
O poeta Alfred Hayes, referindo-se As insinuaq6es da
Musa, diz o seguinte em "O VERBO INEVITAVEL",
que aqui transponho para lingua vulgar, corn a devida venia:

Ei-lo que escuta a music em surdina...
De onde Ihe surge ignora; apenas senate
A vibragio sutil, que lhe domina
O pensamento, a su'alma inteiramente.







- 21 -


Pousa-se-lhe incorp6reo vulto ao lado,
Segreda-lhe no ouvido o imponderavel...
E ele toma da pena e transportado -
Langa ao papel o Verbo InevitAvel.



THE INEVITABLE WORD.

He hears the music of his heart
But knows not whence the breath is blown;
It comes from regions far apart,
With power beyond his own.

A presence at his side alights,
A whisper at his ear is heard;
Amazed he takes the pen, and writes
The .Inevitable Word.
Alfred Hayes

Ai estA! E como As noites o silencio mais acolhedor,
prefiro trabalhar As horas caladas.

QUAIS, SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Contento-me e de sobra com -o nosso genial Machado de
Assis e na prosa e no verso.
E' lamentavel que em nosso pais nAo se consiga uma e-
diqco bem cuidada do nosso maior escritor.
A par do grande mestre, ha dutros homes que se reco-
mendam, mas nem um Ihe chega aos pes.
Hermes Fontes, o saudoso e malogrado poeta, semeador
de maravilhas 6 autor. do soneto nr. 1 da lingua portuguesa.
"Lampada Velada" vela por si s6 todo um tomo de poesia -
forma, luz e cores, e que lampejos!
O autor de "Alegoria" que um idota pretendeu fos-
se encarcerado! que tambem 6 o autor de "Comedia An-
gelica", este e santo de casa.






- 22 -


O nosso grande estadista Joaquim Nabuco escreveu
"Minha Formagdo", livro que devia estar na mao de cada
adolescent.
Entre os vivos, tenho 'uma queda por Monteiro Loba-
to, na prosa, e Guilherme de Almeida, na poesia. Aquele ter
um estilo leve e de bom sabor brasileiro, este ora acende uma
vela A antiga, ora a modern poesia -, porem, sempre flo-
rido.

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

Atualmente trabalho por uma aposentadoria...
Tenho um livro de rimas que tem por titulo "Ao Lume
d'Agua" e subtitulo "Reflexos e Interpretacoes". Como o
titulo deixa entrever, sio coisas singelas, traducSes e recom-
posiq6es ecos ou "mim6logos" de poesias lidas e senti-
das nas horas de fazer de um bisbilhoteiro de livros. Si pu-
blico? ndo sei. Talvez o inquinem de arcaico e anacr6nico!
Tambem, nao nutro veleidades de home de letras. Si pego
na pena em vez da enxada, 6 antes por conselho de meu m6-
dico, dado aos achaques da idade que avanca un home de
plume malgre lui...

QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA, QUANDO DO INICIO DE SUA CARREIRA?

Nunca cheguei a tomar carreira. Nao pass de um ama-
dor das letras, a soltar baforadas de fumo onde outros quei-
mam essencias. Mas quando cuidei de rimas, imperava do-
minadora a escola hpje tachada de passadista, cor inumeras
figures de relevo. Sou do s6culo passado, de ao tempo em
que o mundo parecia mais honest pelo menos nao se crea-
ra ainda a palavra Tapeacdo, que 6 neologismo e bem modern
e cor um poder de expressed capaz de orgulhar o nosso lexi-
co e de uma aplicacqo, nos tempos que correm, ab hoc et ab
hac. E', por assim dizer, o sinete do tempo da-lhe o verda-
deiro cunho.
JA parece ate que se estendeu ao vocabulario ingles!
"Tapeation"-soa-me no ouvido cor um tinir esterlino...







- 23 -


QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA COM
RELAQAO A LITERATURE?

A guerra, como escola de sofrimento, 6 fonte inexhau-
rivel de drama e de heroismo a massa de que se fabric o
pao do espirito. E, a bem dizer, a poesia teve seu berqo no
campo de batalha, com os primitivos bardos, seus primeiros
cultores. Poesia e comocao. Guerra e comorao. Nao vejo que
sejam incompativeis, pelo menos quanto A poesia' pica. Des-
ta fermentaqao de sentiments e que surge a literature. Do
charco nasce o lirio.
Mas, cor o abaixamento do nivel de cultural, parece
que escasseiam os bardos! ou ji passaram de epoca?
A v.s. talvez pareqa curioso ter-me eu referido, cor
insistencia e por metAfora, aos simbl6icos produtos da gleba
o vinho e o trigo! Saiba que o meu dileto poeta foi la-
vrador, arava a terra, e chamou-se Roberto Burns, o grande
lirico escosses, que escreveu "A Man's a Man for a' that..."
E nunca me sai da mem6ria o verso deste tambem gran-
de poeta portuguis, Ant6nio Correa d'Oliveira, que tambem
canta a terra e os seus enlevos. Diz-nos ele em seu primoro-
so livro "Pao Nosso" -
"Ser lavrador nro tira.o jardineiro!"
E nao tira.
Agora, ao encerrar esta perlenga, rogo a v.s. relevar-
me alguma irreverdncia ou falta de compunc;o, incompati-
vel com os verdadeiros devotos do Templo das Musas, mas
que se explica num simples amador que nao fez profissio de
fe; esta especie de peregrine digamos "turista" a moder-
na que ousa intrujar no ritual do culto e a quem olham de
soslaio os que se teem na conta de legitimos sacerdotes das
Musas. De um sei que, esticando o pescoqo A altura da gira-
fa e olhando-me de riba, deitou-me alguns remoques em rima.
Arrumei-lhe o epitAfio derradeira pincelada que todas
as vaidades se esfriam debaixo do chao e -
"Murcham-se os loiros quando os ceifa a Morte!"
ou, citando Thomas Gray na sua famosa "Elegia escrita em
um Cemithrio de Aldeia" -







-24 -

"The paths of glory lead but to the grave!"
Ainda outra fineza.
Si vir v.s. que isso nao responded ao seu interessante in-
querito, seja human e siga o exemplo de Whittier cor as
"Folhas d'Erva".
Cor toda a simpatia que me merece,o talent, despeqo-
me de v.s. mui cordialmente -

um criado para servi-lo,

Pedro de Aratanha.









APRESENTACAO


O inqu&rito que se vai ler foi realizado de ju-
Iho de 1944 a fevereiro de 1945. 0 mundo estava
mergulhado em sangue e por toda a parte, desde
as planicies geladas da Rlissia ds terras generosas
da America, s6 se ouvia a voz do canhdo.
Os intelect*uais, entretanto, nao perderam a fg
nos valores de sempre. Apesar de tudo, a Inglater-
ra ouvia Beethoven, a Franca cantava corn Paul
Valery, a America do Norte publicava romances,
0 Ceard seguia na esteira desses paises, e enquanto
ddvamos a nossa quota de sangue para o dia lirico
da liberdade, realizdvamos um inquerito, na "Ga.
zeta de Noticias", abrangendo toda a vida literdria
da Provincia.
Julgamos que assim estamos servindo 6 Lite.-
ratura cearense, n6s, os autores, e ,os que aqui res-
pondem aos quesitos formulados.
Pensamos tambim que se todos os estados do
Brasil nos imitassem, organizando inqueritos co-
mo esse, ter-se-ia um panorama geral de toda a
nossa literature.
Lamentamos que, entire outros intelectuais, os
srs. Antonio Girdo Barroso e Silveira Filho ndo de.
ponham nesse inquerito.
O primeiro, pela sua luta em beneficio de nos-
so fortalecimento cultural, o segundo, pela contri-
buicdo 6 poesia cearense, de que e prova o seu re-
centissimo livro "Arquipelago de simbolos".
Sabemos que h6 falhas nesse inquirit Que a
critical honest as emende, "ndo murmurando em
sua casa porque desfaz em si".


ABDIAS LIMA














BRAGA MONTENEGRO


SResposta de Braga Montenegro. A natureza ama-
zonica inspira as suas primeiras crbnicas. "Emigran-
'tes", um romance destruido por economic de baga-
gem. A literature cearense ndo ten expressed. Seus
autores prediletos: Dostoievski, Eta, Huxley, Gide,
Maupassant, Joyce, Pirandelo, Machado de Assis.
Para trabalhar, dd preferencia, como Renan, aos
aposentos forrados de livros por dentro e de rosas
por fora. A humanidade poderd adquirir, das expe-
riencias desta guerra, renovadas fontes de inspiracdo.


Braga Montenegro, conquanto raramente apareqa na
nossa imprensa, 6 um grande conhecedor de literature, tanto
national como estrangeira, e um contista que ji foi premia-
do num concurso de contos'instituido pelo "Correio da Ma-
nha", do Rio de Janeiro.
Esse silencio prejudice a literature do Ceara que po-
deria estar recebendo o influxo desse espirito observador e
culto.
A que devemos atribuir isso? Ou o sr. Braga Monte-
negro ter consciencia do seu pr6prio valor, e s6 deseja apa-
recer quando tiver certeza absolute de Exito (hipotese para
que pendemos) ou 6 um intellectual preguigoso, a exemplo
de Anatole France.
E16i Pontes conta-nos com o mestre frances escreveu
o "Lirio vermelho".
A senhora X trancava-o num quarto e Anatole Fran-
ce s6 tinha direito de sair depois de soltar, por debaixo da
porta, vArias tiras escritas a lpis,







- 26 -


Se a senhora do contista cearense fizesse o mesmo, tal-
vez a literature brasileira ganhasse em extensio e profun-
didade.
Nasceu em Maranguape, a 28 de fevereiro de 1907.
Ter colaborado no "Correio da Manha" e no "D. Casmur-
ro", do.Rio. Na imprensa de Manaus publicou alguns contos.
O Ceara intelectutal exigia a presenga de Braga Mon-
tenegro. Ei-lo:

QUAIS, FORAM .AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
S CIAS :LTERARIAS?
*-- Comecei pela cr6nica de observagao e interpretaqio
daj l.isagem e dos costumes amaz6nicos. Nesse tempo via-
Sjava eu, pprimposiCao,de prdem professional, atravis o rio
Madeira. Havia lido alguns autores e feito um pouco de
cultural a respeito das cousas do Amazonas. Reclus, Barbo-
sa Rodrigues, Euclides da Cunha, Angelo Bittencourt, Rai-
mundo Morais este talvez o escritor que maior influin-
cia exerceu s6bre os meus primeiros passos na literature -
esses autores me eram familiares. Juntei alguns conheci-
,-.mentos, apresadi,.s e, superficiais, apanhados nos livros,
:,,l uilo que observa\'a da varanda dos gaiplas a subir e des-
cer as aguas, barrentas do grande rio e comecei a escrever
cronicas que tinham como assunto as aguas, as matas, os
bichos, .a navegaqao,, as lendas e os costumes da Planicie. Se
mi ., mrito.,havia nessas cr6nicas era o de:serem curtas.
Depois-escrevi versos, numa tecnica que era a imitacAo
do "Losango CAqui" e do! "Cobra Norato". Entretanto es-
creyia contos -, talvez, ogenero para o que verdadeiramen-
.,te me sinto inclinado, se. que se pode chamar inclinacao a
, : .sses meus raros contacts. com a literature. Os contos, que
em grande parte no. foram publicados,,-lamento .t-los des-
., truido, pois me serviriam hoje para aquilatar da minha evo-
luco artistic.
.:Animado por algum sucesso-(aprendi depois quanto
facil du \idoso Isse sucesso!) lancei-me de :corpo
e alma a literature. Esperdicei muita lauda de.::papel e








lapis sem conta. A minha curiosidade acerca dos literatos "
expanditi-se. Privar cor 6sses semideuses, .saber das suas
preferencias, ascultar as suas opini6es pessoais s6bre assun-
tos de arte, era a minha mais constante aspiraqao (aprendi-
tambem, por fim, a me contentar tdo s6mente corn o conhe-
cimento da obra de arte e a julgar os autores, meros instru-
mentos pelos quais ela se revela. Certo estou de que quasi na-
da, individualmente, ha neles de interessante). Inaugurei,
entdo, uma vasta correspondencia corn alguns intelectuais,
cm todo o Pais e ate em Portugal. Fundei, em Manius, corn
Le6ncio de Salignac e Sousa, Goatacara Thury, Greco Gal-
loti, Jaime Sishando, Antonio Maia e outros, a "Sociedade
Literaria dos Novos". gremio que teve a duracqo igual ao
tempo que se gastou para a redagao e aprovacgo dos seus es-
tatutos e cuja gloria maior foi a recepgao do escritor Rai-
mundo Morais, na qualidade de s6cio honorario, numa ses-
sao solenie assistida pelo que havia de mais representative
na sociedade e intelectuaalidade amazonenses. Coube a mim
fazer o discurso de recepqgo que me deu, por algum tempo,
fama de orador coisa que aliAs nunca fui.
Escrevi tambbm alguns artigos que pretendiam ser cri-
tica literiria e ao.mesmo tempo fazia um romance "Os
Emigrantes" que era a aventura de uma familiar serta-
neja do Ceara, que emigrava desprotegida e faminta para
o septentriao brasileiro, onde ia viver o drama imenso do
seringueiro, tantas .vezes repetido na ficqco e na historic.
Essas paginas foram destruidas, por economic de bagagem,
nas minhas constantes mudancas, juntamente corn tudo o
que escrevera at6 entao. Ndo seria essa, por6m, a minha
unica tentative de romance: tenho ao fundo da gaveta o
"Gereraui", um calhamao' informe, escrito a lapis e a md-
quina, que pretend ser um romance, mas ainda por ter-
minar.
QUAL'ERA O:MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO INICIO DE SUA CARREIRA?

Entremefites aos fatos de que foi objeto a resposta
anterior', se fazia rid Ceara o brilhante movimento ,moder-


V -'







- 28'-


nista de "MaracajA" e d6le eu tinha noticia por intermedio
de Rachel de Queiroz e de Mario Sobreira de Andrade.
QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DA DO CEARA?
-0 assunto 6 sobremaneira ponderavel para ser tra-
tado nas curtas linhas das respostas a iste inquerito. Con-
sidero, todavia, a literature brasileira uma das maiores do
continent americano. Temos, entretanto, a empecer o nosso
esforco, a obscurecer o nosso estimulo, a lingua pela qual
nos exprimimos.
A lingua portuguesa tem plasticidade e carter, pode
adquirir uma docura e musicalidade inexcediveis quando
manejada por um Alencar ou um Graca Aranha; uma lim.
pidez surpreendente quando o escritor 6 um Machado de As-
sis ou um Graciliano Ramos; e elegant e maleAvel quando
dela se serve Eca de Queiroz; plet6rica quando sob a pena
de Ruy Barbosa ou Camilo Castelo Branco; pitoresca c
elastica quando Jose Lins do Rego escreve os seus romances.
Mas a despeito de todas essas virtudes, a literature da
lingua portuguesa se conserve na obscuridade. Nao se ex-
pande por falta de public. O ingles, o frances e o espanhol
sdo linguas lidas e faladas por quasi todos os povos. O por-
tugues, por uma pequena parcela da populag5o mundial e
esta mesma sem um darater definido, sem a necessaria cul-
tura para manter um patrimonio literArio A altura das gran-
des literaturas.
Se Eca ou Machado tivessem escrito em ingles ou fran-
ces, a gl6ria de ambos estaria resplandecendo junto aos no-
mes de Sterne, Dickens ou Anatole. E' estulta a compara-
qco entire Euclides da Cunha e Sarmiento, mas o "Facun-
do" 6 trinta vezes mais conhecido que "Os Sert6es", mes-
mo tomando em conta o consideravel exito que a recent
traducao deste livro esti obtendo nos Estados. Unidos.
Contudo, a despeito das dificuldades apontadas, mui-
to temos progredido e acredito nSo exagerar afirmando que
nomes como Josb Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graci-







- 29-


liano Ramos, Gilberto Freyre, Alvaro Lins, Jorge Amado,
Joao Alphonsus, Jos6 Geraldo Vieira, Otavio de Faria, L',
cio Cardoso, Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, podem
figurar destacadamente em qualquer literature modern. E'
tudo, como disse, uma questao de ambiente e de public.
A literature cearense, no entanto. carece de expressao.
Os valores realmente grandes deixam de pertencer A lite-
ratura cearense propriamente dita, para incluirem-se na ga-
leria dos escritores nacionais. E' o caso de Alencar, Arari-
pe Junior, Capistrano de Abreu, Franklin Tivora, Adolfo
Caminha, Ant6nio Sales, Rachel de Queiroz...
No CearA, Aparte alguns movimentos literArios de
grande significaio, sem duvida, a literature permanece em
constant estado de apatia. Nao ha editors, nao ha revistas
adequadas nem jornais que mantenham suplementos lite-
rarios bem dirigidos. E por nao haver clima favoravel as
letras, o intellectual em nosso meio, salvo algumas exceg6es,
se estiola A falta de estimulo e cede lugar A sub-literatura,
hoje mais que nunca tripudiante e avassaladora.

QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Dostoievsky, Eaa, Huxley, Gide, Maupassant, Joy.
ce, Pirandello, Machado de Assis. Como ve, os caracteres
mais desencontrados o que me denuncia a incapacidade
de sistematizar o meu g6sto literArio. Cito como autores
prediletos aqueles cuja leitura runca me fatiga e nos quais
encontro sempre um sentido de novidade toda vez que me
ponho em contact cor a sua obra, embora que, ao passar
pela primeira vez a ultima pagina de certos livros seus, eu
tenha experimentado aquela sensacao de que nos fala Alva-
ro Lins A nota XII do seu Diario de Critica.
.Quantas vezes ja li "Os Maias"? Creio que neste par-
ticular ja me equiparei a Graciliano Ramos. Agora mesmo,
sigo Don Raposo e seu doutissimo compahheiro de peregri--
naqao, atravis das terras, tantas vezes sagradas quantas
vizes malditas, onde o cristianismo teve o berqo... E "Les
Faux Monnayeus"? e "Les Caves du Vatican"? a mag-






- 30 --:


nifica "~ptie" que encerra o principal personagem da gale-
ria gidiana, aquele desconcertante Lafcadio?... Muitas.ve-
zes tenho,lido o "Crimee Castigo" e:"Os Irmaos Kara-
mazoff". "I1 Fu Mattia Pascal" foi o primeiro livro a ser
lido por mim em lingua italiana, trabalhosamente, pelo
simple g6sto de conhece-lo no original. ;Ja li o "Contra-
ponto" em tres linguas .diferentes: em frances, em portu-
gues e ingls. Os .contos de Machado, que os admiro acima
dos seus romances,,sao.relidos constantemente. Possuo cn:-
pleta a rbra de Maupassant e e raro o volume que'eu nio
tenha lido mais de uma vez: "Une Vie", "Fort comme la:
Mort", "Boule de suif'", "Clair de Lune", "Contes de la Be-
casse",.quasi todos... Quanto a Joyce, li-o primeiramente em
frances, e agora traduzo, por mero prazer intellectual, as suas-
incomparaveis short stories do "Dubliners".

COMO TRABALHA VOCR?
Sempre que'escrevo, faco entire os meus livros, num
ambiente de serenidade e de ordem. Como Renan, amo os a-
posentos forrados de livros por dentro e.de rosas por fora...
Sentado minha mesa de trab'alhoencho a lipis as laudas
de papel, em letras apressadas e quasi ilegiveis, com tudo que
antes idealizara fazer e mais aquilo -. ou antes aquilo -
que o pr6prio assunto me sugere a proporqao que Ihe you.
dando forma. Depois me deparo com a tarefa fastidiosissi-
ma de passar a limpo o-que antes escrevera; de quasi adivi-
nhar os caracteres deixados no papel; de policiar os erros de
linguagem que muitos escapam; de dar'afinal uma forma
mais digna ao-assunto tratado; na media das minhas pos-
sibilidades artisticas, -procurando de qualquer maneira ser
o mais honest possivel em tudo o que escrevo e public.

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?
Nao me impils nenhuma :tarefa literaria considera-
vel. O romance a que lhe referi, pouco mais que esbogado,
jaz amarelecido, desde muito tempo, ao furido de uma gave-
ta. Nil,, sou escritor de profiss~io, cousa que aliAs acontece







- 31 -


a quasi todos os nossos homes de letras. Receio que nem
mesmo um literate eu seja. Se nao o sou nao sera por falta
de vontade nem da coragem de confessar-me como tal, assim
como Ehrenburg no prefAcio do "Julio Jurenito". Porque
nasci pobre e nio sei ganhar dignamente a vida senao pelo
trahalho, adotei uma profissAo absorvente que n.o me dei-
xa lazares alkm dos necessArios ao repouso e aos escassos
prazeres indispensAveis ao espirito e ao corpo. Nio obstan-
te, aproveitando retalhos de tempo, tenho, ultimamente, es-
crito alguns contos que tenciono publicar em livro.

QUAL A SUA' IMPRESSAO SOBRE A GUERRA
COM RELACAO A LITERATURE?

-Deixo aqui apenas a minha impressio do que penso
a respeito da literature ap6s a guerra. Nao pretend afirmar
o que ela seja na realidade, pois que uma afirmagao dessa
natureza pertence A profecia e eu nao acredito nos profetas;
acredito nos homes esclarecidos que dos fatos presents
podem avaliar os sucessos porvindouros. A propria guerra,
no entanto, traz as suas surpresas: quasi ninguem, ao tem-
po em que as hordas nazi-fascistas dominavam o continent
europeu, bombardeavam indiscriminadamente a Inglaterra,
invadiam a Rissia e a Africa, podia prever que depois hou-
vesse uma Stalinigrado e uma El Alamein. Estou certo, po-
rem, que a humanidade poderi adquirii-, das experiencias
desta guerra, renovadas fontes de inspiracao e nos dias de
amanha uma nova literature surgiri; nova quanto ao con-
ceito filos6fico de uma condicio de vida, consoante A liqao
aproveitada num grandiose ciclo da hist6ria. Mas os temas
serio sempre os .mesmos... Os temas universais da arte em
todos os suculos: o home e as suas relac6es com a pai-
sagem e corn a civilizacio; em conflito corn as paixoes do
6dio, do amor, dos interesses. Em resume, penso que a arte
e um fen6meno meramente individual e portanto erram a-
queles que pretendem ser a literature de ap6s guerra ou ri-
gorosamente social, ou essencialmente religiosa, ou ainda
unilateral em qualquer sentido.














FILGUEIRAS LIMA


Resposta de Filgueiras Lima "Maracaid" o
verdadeiro 6rgodo do modernismo cearense. A atual
literature brasileira marca um dos mais altos ins-
tantes da nossa vida intellectual. A poesia e uma sd.
0 silencio seu melhor estimulannte. Poesia c
guerra ndo sdo inconciliaveis.


O sr. Filgueiras Lima esta realizando, na poesia, uma
obra sugestiva e duradoura. Ele nao se content mais em
construir frases bonitas, em ser um lirico simplesmente.
Usando as suas proprias palavras: "Nao se content cor
as aparencias, mas procura atingir a essencia das cousas".
E' do "Ritmo essencial":


"Poetas!
Bendito seja o Misterio!
O mist6rio 6 que faz de cada home,
nao uma sombra que passa,
imprecisa, tenue, indefinida,
mas um ser dentro do Ser,
um mundo dentro do Mundo,
uma vida dentro da Vida."

O poeta percebeu uma coisa mais alta e mais profun-
da no destino do home. O homem "nao 6 um ser material,
agindo por meios materials sobre uma natureza material",
como queriam Marx e Engels. Isso 6 um absurdo. E os poe-
tas os sacerdotes -segundo Hugo, "os semeadores de







- 34


deslumbramentos", desdenham dessa teoria e, como Fil--
gueiras Lima, bemdizem o Misterio que faz de cada home.

"...um ser dentro do Ser
um mundo dentro do Mundo,
uma vida dentro da Vida".

Quando o poeta substitui os amores de Lel pelos mis-
terios do mundo, a sua poesia se enriquece cor um novo
ritmo essencial.
"Ritmo essencial" foi recebido entusiasticamente pela
critical.
Publicou: "Festa de ritmo" (Menqgo honrosa de Poe-
sia da "Academia Brasileira de Letras" 1932), "A lite-
ratura cearense na formagao do sentiment national", "A
vida e a arte de Soares .Bulcao" (conferencias), "Ritmo es-
sencial" 1944. A sair:
"Terra da luz" (poemas) "Jardim suspenso'" versoss),
"Arte e pensamento" (conferencias literarias) e "Jose de
Alencar" (ensaio).
Nasceu em Lavras da Mangabeira, 1909.
Catedratico de "Tecnica do Ensino" da Escola Nor-
mal, Diretor do "Ginasio Lourenco Filho", membro da "A-
cademia de Letras do CearA", Filgueiras Lima toma part
na festa da nossa Inteligencia onde ocupa um lugar de
honra.
QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

As minhas primeiras tendencies literarias (toman-
do-se tendencia aqui como sinonimo de pendor e vocaqco)
manifestaram-se no campo da poesia. Revelei muito cedo a
minha mensagem poetica, como se diz atualmente. "A poe-
sia e um destino" escrevi em livro recentemente publicado.
E os eriticos gostaram da definiqao. Creio que ai est~ a me-
Ihor explicacio para as tendencies que revelei, ao iniciar a
minha earreira literaria.







- 35-


QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO INICIO DE SUA CARREIRA?

Esbocava-se o movimento modernista que, logo de-
pois, se afirmou entire n6s com a publicaco de "O CANTO
NOVO DA RAQA", de autoria de Jader de Carvalho
Mozart Firmeza, Franclin Nascimento e-Sydney Neto, -
e corn a revista "MARACAJA", dirigida pelo espirito
cintilante de Democrito Rocha. Nessa revista, que foi o ver-
dadeiro orgdo do modernismo cearense, publiquei os primei-
ros versos em metro livre, que ji vinha praticando corn en-
tusiasmo.

QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA?

Penso corn Manuel Anselmo, o grande critico moder-
no de Portugal, que a atual literature brasileira marca urt
dos mais altos instantes da nossa vida intellectual, notada-
mente na esfera do romance e da biografia. A poesia, corn
alguns nomes de autentica-expressao, no norte e no sul, esti,
contudo, marchando A retaguarda, em meio ao estrepito e i
polvorada de toda uma legiao de profariadores do seu credo.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A POESIA PAS-
SADISTA E MODERNISTA?

Ndo ha poesia passadista e modernista; ha simples-
mente poesia... Onde ela estiver de verdade haveremos de
sentir-lhe a presence inefavel. Antiga ou modern, metrifi-
cada ou livre, corn rimas ou sem rimas, a poesia 6 uma s6..

COMO VOCI TRABALHA?

Gosto de trabalhar depois de pensar... A norma
ino 6 muito adotada atualmente, mas estou certo de que '
honest e fecunda. Meu melhor estimulante 6 o silencio. Ele







- 36 -


e muito mais eloquente do que certos homes que nio fe-
cham a boca...

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

Tenho, prontos para entrarem no prelo, dois livros de
poemas "Terra da Luz" e "Jardim Suspenso". E' bem
possivel que, daqui para Dezembro, um deles seja lanqado
ao public. Por outro lado, continue reunindo elements pa-
ra o meu ensaio sobre Alencar. Tenho pensado ultimamen-
te num livro sobre estetica da linguagem. ValerA mesmo a
pena pensar nisso?

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A -GUERRA
COM RELACAO A LITERATURE?

Em palestra que proferi no "Instituto Brasil Estados
Unidos" ha pouco mais de um mis, focalizei o seguinte te-
ma "A Poesia e a Guerra". Tive entdo oportunidade de
mostrar que a guerra, em vez de sufocar o sentiment poeti-
co, Ihe abria novas portas e novos caminhos. E escrevi: "A
poesia e a guerra nao sdo, como vedes, incompativeis e incon-
ciliaveis. Pondo a vida humana ao sabor de todbs os peri-
gos, a guerra empresta-lhe um sentido mais human e mais
tragico. Interpreter esse sentido profundo e trAgico da vida
6 fundio do poeta que nao se content corn as aparencias,
mas procura atingir a essencia das coisas".














JOAQUIM ALVES


Resposta do prof. Joaquim Alves Silvio Romero
e Jose Verissimo nao tomavam conhecimento da vi-
da literdria no Ceard. A Poesia, o Romance, o Tea-
tro, tudo se movimenta para oferecer ao Brasil uma
produg~o da inteligencia que corresponda ao desen-
vblvimento cultural do Pais. Geografia e seca. Acre-
dita na capacidade dos intelectuais cearenses.


O prof. Joaquim Alves, em Sociologia, e um nome que
ja transp6s.as fronteiras do Ceari e resplende l1 fora.,
Otimo palestrador, fmodesto, o prof. Joaquim Alves
faz jus a admiragao que Ihe tributamos sem reserves. A-
quela risada amarga que p6deria trair um espirito amargo,
e, no entanto natural. Outro, nas suas condiq8es, seria um
deus olimpico. Olharia para n6s outros, "uns bichinhos da
terra tao pequenos", cor desd6m e asco... Joaquim Alves no
entanto, acolhe-nos cor simpatia e u um animador de gera-
6es. Eis aqui o titulo que mais se Ihe ajusta: animador de ge-
rai6es. Ri uma figure que merece nao'quatro linhas mas um
long estudo interpretativo. OxAlA, possamos fazer um dia.
Publicou: "Nas fronteiras do Nordeste", "Estudos de
Pedagogia Regional". Prontos para o prelo: "Fragmentos
de uma geraqao" e "Geografia do Ceara". Trabalha em
uma historic da seca. Nasceu em Jardim (Ceari) 10 de
fevereiro de 1904. Ensina em diversos estabelecimentos:
Escola Normal, Colegio Sdo Jose, Faculdade de Ciencias E-
conomicas, Colegio ISta. Maria (Curso ticnico) e Fenix
Caixeiral. Colabora em "Cultura political" e nos jornais des-
ta leal cidade.







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QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

Iniciei as minhas tendencies literarias no jornalis-.
mo, quando estudante, quando trabalhava 10 horas por dia
Entdo, como atualmente, escrever era diletantismo. Como to*.
do rapaz que se inicia, necessita de um ponto de apoio, jul-
guei encontrar esse ponto de apoio escrevendo nos jornais.

QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA, QUANDO DO INICIO DA SUA CARREIRA?

O realismo no romance e o parnasianismo no ver-
so, representavamn o I.'m torn literario. Ega de Queiroz, Ra-
malho Ortigao, Abel Botelho, entire os portugueses, Emile
Zola, Gustave Flaubert e Paul Bourget entire os franceses.
eram os escritores preferidos. No Brasil, era assinalado o
sentido classic dos nrsseos escritores, notadamente Macha-
do de Assis e Carlos de Laet que serviam de modelo entire
os estreiantes, embora sem resultado. Entre os poetas, Bi--
lac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira constituiam o
parnaso national, repetindo, fielmente, as lic6es de Heredia.
Leconte de Lisle e Theodore Banville eram os models dos
nossos patricios.
Euclides da Cunha e Graqa Aranha, representando um
seritido novo na vida literaria, criaram um circulo de adini-
radores que viam no artist de "Canaan" e no sociologo dos
"Sert6es" figures que se projetariam para o future deter-
minando a formanao de novas correntes literarias.
O criterio do julgamento era determinado por Silvio
Romero e Jose Verissimo que ndo tomavam conhecimento
da vida literaria do Ceara. O primeiro ligado ao organismo
espenceriano e o segundo, A analise descritiva da obra lite-
raria da epoca.
O estudo da lingua portuguesa experiment um gran-
de desenvolvimento, ante as tendencies reformistas vindas
de Lisb6a, atrav6s dos livros de Goncalves Viana e Candido de







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Figueiredo, repercutindo, entire n6s, nos trabalhos de Faus-
to Barreto, Carlos de Laert e Said All.
Nao se registravam grades tiansformaqoes nas escolas
literarias, mas assinalavam-se tendencies reformistas que
mais se acentuavam com a influencia dos autores estrangei-
ros divulgados pelas das traduq6es francesas.
Ao findar a Guerra de 14 sentia-se que os models li-
terarios iam ser substituidos, ante o aparecimento de livros
novos filiados a novas correntes de iddas que se projetavam
da Europa para a America.
QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?
Estamos em uma fase de franca evasdo literaria, o
que explica a reedicao de escritores que predominaram em
geraq6es anteriores; no entanto isto nao quer dizer que as
gerac6es, que responded pela vida mental do Brasil, estejam
paradas. HA um movimento intense em todos os stores do
pensamento. A Poesia, o Romance, o Teatro, tudo se mo-
vimenta para oferecer ao Brasil uma produAo da inteligen-
cia que corresponda ao desenvolvimento cultural do Pais.
No CearA temos de reconhecer que a vida literaria estA
em fungqo das atividades economics dos que trabalham in-
telectualmente. Mesmo assim, os que se encontram com res-
ponsabilidade intellectual, procuram realizar o possivel, pa-
ra que sejam mantidas as tradic6es de inteligencia de que go-
za o cearense. Cremos na capacidade de trabalho dos mocos
que escrevem e, ainda mais, cremos na imaginaco criadora
de cada um, para que possam apresentar paginas mais bri-
Ihantes do que as que fizeram a gloria da geraco da. ulti-
ma d6cada do seculo passado, cujo brilho se estendeu ate as
primeiras d6cadas da atual.
QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?
Voltado para os estudos de Historia e Geografia, in-
teressain-me todos os autores, nacionais ou estrangeiros,
qeu se ocupam destas duas disciplines e cor as demais que







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constituem as ciencias sociais. Os classics franceses Jean
Brunhes, Vallaux e La Blache representam a primeira fase
dos estudos dos que se iniciam em Geografia; Huntington '
o pensamento determinista e unilateral da America, cujos
livros todos manuseio embora discordando em parte do seu
pensamento. Ratzel e o fundamento da geopolitica modern,
cuja repercussdo se vem fazendo sentir nos meios culturais
do mundo.
No Brasil ha um movimento representative de impor-
tancia, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatistica. A ala geografica com as suas publicag5es, Re-
vista Brasileira de Geografia e Boletim Geografico, consti-
tuem a ultima palavra sobre Geografia do Brasil.
EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?
Tenho escrita uma Geografia do Ceara e estou fa-
zendo a historic da S&ca, de acordo cor o piano do Institu-
to que tomou a si a tarefa de dotar o Estado de uma Gran-
de Historia do Ceara, constituida por mais de 10 volumes,
distribuidos entire os seus socios, desde a Proto Historia, at6
a epoca atual.
QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A' GUERRA
COM RELACAO A LITERATURE?
A influencia da atual guerra teve inicio desde a fase
preparatoria, corn a organizaqco dos totalitarios e a criaqgo
de uma literature de propaganda dos principios nazi-fascis-
tas. Sofremos a sua influencia corn a formagao de nucleos
de estudos constituidos por inexperientes que se filiavam
as novas doutrinas political.
O conflito criou umfa literature propria, de reportagens
divulgadas em livros de grande divulgacao, que forqam os
leitores a tomar uma posico em meio as ideas que eles es-
palham. "UM MUNDO SO", "O ALIADO ESQUECI-
DO" e a "QUEDA DE FRANCA" sao livros que deixam
impressio duradoura nos leifores.
A Poesia no Brasil trouxe modificao6es nos temas da
guerra, dando lugar ao aparecimento do sentido social nos
versos modernos.














LUIS SUCUPIRA


Luiz Sucupira Entrou na literature pela porta das
Musas. Mdrio da Silveira, Cruz Filho, Otacilio ae
Azevedo, Clovis Monteiro, Carlos Gondim, Otdvio
Mem6ria, Epifanio Leite, Jose Albano poetas da
velha geragCo. Um conceito exato de Osvaldo Aranha.
A literature brasileira & uma negagCo. Literature de
ap6s guerra e borra de, cafe. So ha uma inteligencia
clara no mundo: a francesa. Dos nossos escritores,
tolera Tristio de Ataide e Padre Leonel Franca.
4

Podemos transmitir a seguinte impressao sobre os inte-
lectuais do CearA: os que procuram caminhos, os que ainda
nao tem uma formarao literiria perfeita e os que jA abriram
caminhos, que ja os. percorrem serenamente, apreciando a
paisagem em torno, colhendo os frutos de seu labor e de sua
inteligencia.
O prof. Luiz Sucupira pertence aos ultimos. Leu e con-
tinua lendo, corn m6todo, os bons autores. Nao se deixou a-
bafar pela enorme produqio livresca do Brasil, produao
que, at6 antes da guerra, era um fen6meno geral no mundo.
Publicavam-se, ate ha pouco, na Franca, 3000 livros por ano.
O prof. Luiz Sucupira, como 81e proprio diz, escolheu meia
duzia da sabios e mestres e contentou-se corn isso. "Ser fa-
miliar de Montaigne, de Saint-Simon, de Retz, de Balzac ou
de Proust basta para enriquecer uma vida", diz Andre Mau-
rois.
Que 1~ o sr. Luiz Sucupira? Nunca jamais E'rico Ve-
rissimo (cor a sua tecnica norte-americana de propaganda,
como diria o Tristko), o sr. Pitigrilli e traduq5es'infames de







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escritores de segunda ordem. Mas, de-certo, Chateaubriand
e Sfo Tomaz de Aquino.
Ex-Deputado Federal pelo Ceara, jornalista fulguran-
te, prof. do Colegio da Imaculada, orador de todos os Con-
gressos Eucaristicos aqui realizados, o sr. Luiz Sucupira
honra todos os postos que Ihe sao confiados. Redator do
"0 Nordeste", ali pontifica cor maestria. A sua cultural e
grande e notamo-la atraves dos seus "Pontos de vista" onde
sao ventilados todos os assuntos. Ja militou na imprensa ca-
t61ica do Recife e do Rio cor igual brilhantismo. Ate mes
Smo a critical literAria ter tentado, corn exito, o redator de
nosso conceituado diArio catolico.
Quanto ao seu estilo, a sua maneira de escrever, pode-
mos dizer dele o que disse Jos6 Cesar Borba de Alvaro Lins:
"Dir-se-ia que ele ter o privilgio do estilo penetrante,
s6brio e moderado, convencendo pelo equilibrio e pela sim-
plicidade".
Temos o prazer de publicar hoje a resposta desse gran-
de home ao nosso inquerito literArio:

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS? QUAL ERA O MOVIMENTO
INTELLECTUAL DO CEARA, QUANDO DO
INICIO.DE SUA CARREIRA?
As minhas primeiras tendencies literarias dirigiram-
se para a Poesia. Ao desabrochar da minha juventude, For-
taleza era um ninho de bons poetas: Mario da Silveira, Cruz
Filho, Otacilio de Azevedo, Clovis Monteiro, Carlos Gon-
dim, Otavio Memoria, Epifanio Leite, e, destacando-se en-
tre os demais, o grande Jose Albano.
Como era natural, ao adolescent que se sentia deslum-
brado cor aquele ambiente, o sonho tinha que embalar e os
versos tinham que aparecer. Mario da Silveira e Jose Alba-
no foram os meus dois maiores incentivadores. Ambos, a
seu modo. Isso levou-me a perpetrar grandes crimes contra a
literature e o que me valeu 6'que os cometi acobertado sob um
pseudonimo hoje inteiramente ignorado.






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Uma coisa porem rie ficou daquele convivio incompa-
ravel nas mesas de caf6, onde a arte do verso imperava cor
a forqa dominadora das coisas belas: foi esse amor pelas
boas letras, essa curiosidade pelas manifestaq6es da inteli-
gencia, esse cgrinho pelo verbo feito verso e pela imaginacao
feita frase.

QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?

-A minha impressao diante da atual literature brasi-
leira 6 de complete desanimo. A luta pela vida e os prazeres
faceis mataram os escritores e os poetas do Brasil e do Cea-
rA. Onde um nome representative em nossos dias e capaz de
elevar este period cultural da nossa PAtria? O ministry
Oswaldo Aranha 6 que ter razao: um desert de ideias. Nu,)
temos um po6ta, nao temos um romancista, nao temos um
fil6sofo, nao temos um historiador. Isso ndo quer dizer que
nao sejam encontradiqos poetas, romancistas, fil6sofos his-
toriadores. Mas faltam aqueles que se transformam em fi-
guras centrais de uma 6poca e podem ser apresentados; co-
mo o expoente de uma nacionalidade no terreno da cultural.

COMO VOCR TRABALHA?

Eu nio fujo A regra geral. Trabalho de afogadilho.
Musico demuitos instrumentos, sou escravo da improvisaqco.
Deixo tudo para a ultima hora. Esta resposta mesmo estA
sendo feita entire dois tempos, atendendo a parties e solucio-
nando assuntos dos mais variados interesses. Como resulta--
do, a produgao ha de ser deficiente e alinhavada. E' o que
sempre acontece. Pretendo escrever uma obra de f6lego so-
bre Sociologia. Mas estou aguardando o fim da guerra, pois
s6 os profetas poder5o falar atualmente dos destinos da so-
ciedade.







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QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Quem 6 que pode ler novidades atualmente com os
livros pela hora da morte, si impresso no Brasil, ou sem a
contribuigAo dos autores franceses? Vamos e venhamos. S6
ha uma inteligencia clara no mundo: a francesa. Em todos os
ramos do saber s6 a Franqa vence. O resto 6 ancilagem ou
copia, como sucede conosco.
Enquanto a Franca nao nos mandar os frutos do seu
pensamento elevado, eu me limito a ler os velhos autores, a-
queles que possuiam na verdade a sabedoria. E, entire os bra-
sileiros de hoje, s6 tolero Tristdo de Athayde e o Padre Leo-
nel Franca.
Fora deles nada mais vejo sindo barbarie e presunqio,
quando nao sou obrigado a tapar o nariz as sotadicas pro-
dug6es de certos romancistas que supreme a falta de cultural
corn os desmandos de uma linguagem de alfurjas.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA
COM RELAQAO A LITERATURE?

As guerras matam os escritores. Quando nao os ma
tam, atrofiam-nos. Nao se resisfe impunemente a uma guer-
ra de exterminio que vai atingir o lustro. As mentalidades,
como os paises, ficam devastadas. O que vier depois disso
no mundo cultural nao ha de ser grande coisa. Outros Mar-
guerites surgirao. Outros aspects de literature pervertida
aparecerao. S6 cor muito vagar teremos a reaqao. Literatu-
ra de ap6s guerra 6 borra de caf S6 serve mesmo para lixo














MARTINS DE AGUEAR


Prof.' Martins de Aguiar As suas primeiras ten-
dencias literarias: romancista, critic literdrio e fild-
logo. 0 moviMento intelecthal do Ceard sempre ma-
rasmdtico. Em filologia, Portugal estd em decaden-
cia. LO e escreve "numa ride", ao ritmo de um
balango middo".


O prof. Martins de Aguiar 6 um fil6logo. Ele nao as-
pira a outro titulo. Mas 6 um fil6logo como poucos no Brasil.
Em tudo que escreve ha algo de novo e era isso que Balzac
exigia em toda produao intellectual. Nao um mero repe-
tidor de conceitos filol6gicos e, apesar de viver a sombra da
bandeira de Goncalves Viana, nao obedece cegamente ao
Mestre. Em.alguns pontos corrige-o at6, e para isso e pre-
ciso muito conhecimento cientifico da lingua, sabendo-se
que o autor de "Apostilas aos dicionarios portugueses" era
imenso.
As perguntas mais disparatadas que Ihe fazem, o prof.
Martins de Aguiar responded sempre dentro da filologia. Ele
tern a paixao da ciencia linguistic, como Flaubert tinha a da
Forma. Nasceu para ser grande na ciencia de Darmesteter.
O prof. Martins de Aguiar responded ao nosso inque-
rito literdrio como segue:

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TEN-
DENCIAS LITERARIAS?
Eu queria ser romancista, critic literArio e fil6logo.
Criado intelectualmente a leitura das obras completes de Can-
dido de Figueiredo e das obras completes de Antonio Feli-







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ciano de Castilho, nao me era facil deixar de ser, ou, antes,
eu teria de ser, forcosamente, um purista. E o purismo le-
vou-me a filologia. A Castilho, talvez o artist mais com-
pleto da literature de lingua portuguesa, a ile, o grande es-
critor cego, que procurava suprir com o mais escrupuloso e
minudente esmiro de forma aquilo que Ihe faltasse em ele-
vagao de pensamento e em profundidade de emocgo, devo-lhe
ainda a clareza do meu estilo, bem como a discreta elegancia
que procuro comunicar-lhe, embora a ingratidio da materia
nem sempre permit a meu gosto. Para tentar a critical, che-
guei a fazer estudos especiais, e-de ser romancista s6 hA uns
seis anos 6 que desisti. Foi Antonio Sales quem, ainda eu es-
tudante, me mostrou a grandeza, talvez inexequivel, do meu
tentame. Cor o tempo, fui-me a pouco e pouco convencendo.
de que estava corn le a razao e acabei por ser apenas fil6lo-
go e amante das boas letras, criado, como fil6logo, As ideias
de um home cujo valor ainda nao foi omrn justeza posto em
evidencia, o grande sabio portugues Goncalves Guima-
r.es, sabio de verdade em mais de um ramo da ciencia. Em
filologia, nenhum mestre da lingua portuguesa teve ideias
mais avancadas, nenhum mais segura penetracgo.

QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL
DO CEARA QUANDO DO INICIO DE
SUA CARREIRA?

Era o mesmo de hoje... marasmAtico sempre. Apenas
havia mais cultural entire os mogos, que conheciamos todos os
grandes poetas e romancistas da nossa lingua, al6m dos es-
trangeiros. Imagine o mett amigo que estudavam alguns o
russo, na ansia de ler no original os grandes rebelados e ide6-
logos da R6ssia! Mas era da Franca que vinha ate n6s o prin-
cipal influxo, e, em materia de literature francesa, havia
duas correntes preponderantes: a dos entusiastas de OCTA-
!VE MIRBEAU e a dos entusiastas de ANATOLE
FRANCE. Eu era MIRBEAUZISTA e parece-me que ain-
da hoje o sou.







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QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL FILO-
LOGIA PORTUGUESA E ESPECIALMENTE
BRASILEIRA?
Contristadora. Portugal perdeu os seus grandes filolo-
gos, que nao sei quando serao substituidos. Parece-me que
ainda vive Davi Lopes, arabizante de fama europeia; mas
Francisco Adolfo Coelho, Goncalves Guimaraes, Carolina
Michaelis, Gongalves Viana, Vasconcelos. Abreu, Sebastiio
Rodolfo Dalgado, LIeite de Vasconcelos, Epifanio Dias, Ju-
lio Moreira, Jos6 Joaquim Nunes, Antonio de Vasconcelos
(iste ja velhinho e vivo ainda, que ha muito, porem, se con-
finou na historic) e Jos6 Maria Rodrigues, quem podera.
dignamente ocupar-lhes o lugar? Entretanto, outros vao a-
parecendo: Oliveira Guimaraes, Rebelo Gonqalves, Raul
Machado, Jos6 Inez Louro... No Brasil, a situaqao foi sem-
pre inferior. O nosso maior fil6logo Joao Ribeiro, que era
tambem a nossa maior ilustraqao e o nosso escritor mais po-
lim6rfico, nao deixou obra A altura do seu imenso valor.
Saide Ali nada mais ter feito, e o que nos ter legado 6 bri-
lhante, mas de grandeza apenas ilus6ria. Esperemos em Sou-
sa da Silveira, em Jos6 Oiticica, em alguns outros.
QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITE-
RATURA CEARENSE?
Nao 6 boa, por que nao campeou nunca t.o livremente
a ignorancia. Mas tenho muita confianca no romance de Fra
Martinz, que, A media que se afasta de escolas malsas, sur.
ge um artist superior, j. perturbante na sua idade. Espero
nele um dos maiores romancistas do Brasil. A poesia tern
alguns representantes notaveis e aqui em Fortaleza, moven-
do-se entire n6s, estao esses admiraveis Cruz Filho e Silvei-
ra Filho, poetas em que a.ilustrag o corre parelhas corn a
mais elevada poesia. Eu poderia citar various nomes de va-
lor. A Academia Cearense e 'o Instituto do Ceara congre-
gam figures nacionais, mas s6 quero dizer, em acrescimo,
que Pompeu Sobrinho 6 a mais notavel expressao intellectual
do nosso estado.






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COMO TRABALHA VOCi?

Cor todo o m6todo. Primeiro, reuno o material de que
necessito; depois, "escrevo" mentalmente, ajeito, corrijo. i
s6 entao que pass tudo para o papel. De maneira que nunca
faco borrao. As correq5es, ponho-as no original mesmo.'O
trabalho material de escrever, a exemplo do de ler, hoje
feito numa rede, ao ritmo de um balance miido.

QUAIS SAO OS SEUS FILOLOGOS
PREDILETOS?

Nao tenho predileg6es. Acato e amo todos os grandes
mestres.

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

Numa "Hist6ria do Combate de Ibicui". Assim talvez
tenha melhor titulo A cadeira e secretaria do Instituto do
CearA. Trabalho tambem na revisio das minhas obras publi-
cadas.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA
COM RELACAO A LITERATURE?

Penso que a guerra nos dara. uma literature tdo gran-
de, inesperada e nova como ela mesma que a vai motivar, e
como a era luminosa que vai surgir do negrume do caos.













ERMINIO ARAUJO


Resposta do prof. Erminio Araujo A ilusdo das
gramdticas. Um amigo dos classicss' Na aula, o
primeiro aluno em portugues. Um discurso que pro-
vocou uma soneca do reitor. Atribui 6 influencia de
ECa e de Camilo a sua pena ferina. Pregando uma
peca num colega. Lia Machado de Assis, ds escon-
didas, no Semindrio. Havia (ndo os hd mais?...)
poetas que seriam capazes de matar e beber o sangue
da vitima, se ndo Ihes gabasse os versos! 0 futuris-
mo, alfobre de todas as mediocridades. Martins de
Aguiar, em filologia o precursor do metodo de
Bacon e Descartes, no Ceard. Nunca houve movi-
mento literdrio aqui. Trabalha brincando apesar
de ser Flaubert o seu modelo. Como professor, qua-
se se torna analfabeto...


No ambiente mental do Cear6., a figure do prof. Ermi-
nio Araujo e exponencial.
Mestre da lingua portuguesa, esse instrument que nas
maos de muitos e, quase sempre, torno de apertar ossos (su-
plicio da Idade Media) de triturar os nervous dos leitores,
nas maos de Erminio produz milagres.
As vezes, ele se arma cor o "latego de estrelas", de
Juvenal, e o petroleo desce de sua prosa viril sobre panta-
nos, sobre imoralidades, sobre mediocridades literarias, so--
bre vaidades balofas, sobre vicios e rotinas, purificando o
amibiente como o seu emulo romano.
Chamaram ao sr. Alvaro Lins o critic da coragem.
No Ceara, o critic da coragem 6 Erminio Araujo. Inimigo
do acocoramento, das frases dubias, dos olhares .obliquos,






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Erminio Araujo nao 6 apenas o intellectual de talent e de
cultural, mas, ', antes de tudo, o Homem. Deve, por isso, ter
inimigos. Mas Alexis Carrel ja o disse:
"Os homes elevam-se quando os inspira um ideal ele-
vado, quando contemplam Horizontes vastos. O sacrificio
nao e dificil quando se arde de paixao por uma grande aven-
tura. E nao ha aventura mais bela e arriscada do que a re-
novacao do home moderno.
E' por isso que Erminio Araujo se bate: pela purifica-
0ao dos costumes, pela renovaaio do home modern. -
Eis a sua auto-biografia:
"Nao sendo' historicco, nem candidate a isso, sou um
animal sem historia. Nem gosto de historias... Dai porque
resolvi eu mesmb traqar a minha biografia. Nasci-ainda
que isso careca de importancia, porque a idade e a do espiri-
to ja depois da proclamacao da Republica, numa "vilazi-
nha clara, esquecida do mundo", elevada, nao obstante, mui-
to mais tarde, ai categoria de cidade, com o mesmo nome que
conserve, ainda hoje, correspondent a "pedrabritada", no
tupi. Mas. por me nao conformar nem a condieao de ficar
na planicie nem A de viver na montanha, na idade de pode-
la galgar, porque, numa terra, onde o espirito nao se ala,
quanto faz estar em cima, como em baixo tive' de rumar,
assim, muito cedo, ainda menino, para Fortaleza, na espe-
ranca de vir, umn dia, a aprender a ler operaqao que se me
afigurava, como ainda hoje, muito complex, mais frequen-
temente por culpa do mestre, do que do aluno. Aqui, onde
peguei de galho e fiquei toda a vida, s6 ultimamente tendo
resolvido a emigrar, fiz todos os meus preparatorios. Tran-
sitei pelo Semihario, chegando ate ao curso te6logico, e s6
nao tendo sido padre, por nao ter ja emborcado aos labios
puros o intransitivo calice das desilusoes; cheguei a ingres-
sar para a Salamanca, donde sai bacharel, como toda a gen-
te; fui, por concurso, professor catedratico de latim e de
portugues; faCo parte da Ordem dos Advogados, da Asso-
ciaqio de Imprensa e da Academia de Letras, e, contudo, pa-
rece que estoui como, quando, imaginando-as na mesa li-






- 51i


nha de nivel, deixei a planicie e a montanha, porque jA nesta
idade, nao consegui ainda aprender a ler... Pensei, por isso,
em fazer-me de poeta futurista; mas, cor medo de ir parar
no asilo, desisti. Hoje, sou apenas fiscal de consume, e nao
sei se, em vista das condic6es materials mais bem sorteadas
e prosperas, do que as do meu tempo de professor, ja me
you sentindo menos bruto... E dizer que o vil metal nao faz
milagres, se ter o poder de "desbestializar ate o alarve que
o possue a r6do!"

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

Os meus primeiros pendores literarios se manifes-
taram, num ambiente de soliddo mistica, onde decorreram os
meus mais virides anos. Eu cursava, a esse tempo, o 3 ano
do Seminario. Um dia, na aula de portugues, o professor
da material, ao ler sem declinar o nome do aluno, conforme
cra praxe, os deveres escritos que marcara, me teceu, assina-
lando-me os meritos, os mais espontaneos elogios. Ele man-
dara que fizessemos uma descricao sob o tema "a velhice",
destacando o meu trabalho como o melhor. Todos os olha-
res, na classes, para mim se voltaram. E ainda que procuras-
se disfarqar que os louvores do mestre nao eram a mim di-
rigidos, bastou o meu ar desconfiado para que me traisse.
Houve at6, entire os meus colegas, quem, no fim da aula,
exigisse que Ihe desse a descricio para copiar. Beliscado,
pela primeira vez, na fibra sensivel da vaidade. literaria, a
surpresa do elogio que tanto me sensibilizara, foi para mim
como um incentive a maior, para que, radicando-se-me no
espirito a convicqao de vir a ser o primeiro da classes, pu-
desse, dai por diante, fazer grandes progresses. Estava
mesmo eu o sentia -, em vista do ruido em torno do meu
nome, na obrigacao de nao desmentir o que de mim se pro-
palava, ainda que, como Monsieur de Jourdin, tivesse de fa-
zer prosa sem saber. O meu primeiro cuidado, quando me
compenetrei de ser ja alguma coisa, no meu setor, foi mu-






- ^52 -


nir-me de um ror de gramaticas que consegui adquirir. Por-
que pensava, de acbrdo cor a definiqdo, que elas ensinassem
mesmo a gente a falar e a escrever. Mas essa ilusdo,.pri-
meiro que empanturrasse o espirito de taritas regras e exce-
qces que devia saber de c6r e salteado, de logo se desfez as-
sim que tomei gosto pela leitura. Passei a ler de.preferencia
os classics da lingua, costumando desvelar, entire outras
muito gratas ocupacges, as minhas melhores horas, ou co-
Ihendo notas e tirando significados de palavras, ou diligen-
ciando penetrar todos os segredos da esquiva arte de escre-
ver, no trato diuturno cor as letras. E ap6s os mais porfia-
dos e alcandorados labores, para chegar de ponto:, em bran
co a minha finalidade, 0 dia, de resto, nao tardou de na clas-
se ji ninguem, me levar as lampas. Era o primeiro em por.
tuguis e, dai pot diante, nunca mais,'no fim do ano, deixou
de ser meu o premio dessa material. Ganhei fama ati de ora-
dor! Porque, como diz Berryer, pude descobrir que "le
secret du improvisateurs, c'est qu'ils n'improvisent pas de
tout",
Uma vez, ji no 4 ano, tendo de proferir, numa sessao
literaria, um discurso, se nao-me 'engano, sobre a existencia
de Deus, falei quase duas horas, como Cicero PRO MILO-
NE. Perdendo-tne em amplificaq6es retoricas, fui enfando-
nhamente palavroso. Em derrames de erudiqdo, poderia, se
quisesse, ter sopitado corn o meu "plaidoyer" o proprio in-
ferno, num letargo de Epiminides. Porque ati o reitor que
presidia A sessao, quando atordou, foi para encerrA-la, fi-
cando os mais Ioradores sein poderem impingir as suas pe-
gas... Concomitantemente, nesse periodo tdo remoto e tao
presente, fiz-Te jornalista, como redator de uma folha ma-
nuscrita "0 Astro" -, de curta existencia, alias, por-
que, quando en estava em veio de mA lingua, ninguem, no
Seminiario, escapava... S6 por isso a censura caiu em cima do
journal e foi-proibida a sua circulacqo. Mas nem assim, sem-
pre que se me oferecia desancar o proximo, eu o deixava em
paz. Atribuo-o! A influencia'do Ega e de Camilo. Ocorre-me,
nesta'parte, uma das minhas maisdivertidas perversidades,






- 53-


no meu tempo de seminarista. Para falarem, numa sessao li-
teraria, no dia da nossa emancipaqao political, estavam esca-
lados dois colegas do 4 ano. 0 ultimo que devia deitar fa-
laco, lera-me, na ante-vespera, o discurso que teria de pro-
nunciar, pedinda que Ihe desse francamente a' minha bojuda
opinifo sobre o merito da "peCa". Mas o discurso tinha sido
copiado, sem faltar uma virgula, do "Orador Popular", um
compendio *de cratoria barata que eu jA havia manuseado.
Gabando:.o valor da "joia literaria", sem dar a entender que
j; conhecia, corabinei com o Luiz Batista Vieira que, ao
tempo, cursava o 2 ano e, como ital, ndo era obrigado a ler
trabalho propric, que procurasse por todos os meiosa seu.al-
cance copiar do livro o discurso, afim de proferi-lo, na ses-
sao, em que, pela ,ordem, tinha:de ser o primeiro a se fazer
ouvir. Preparada .assim a traca .ardilosa, depois de ter fei-
to um-exordio, porque a "peca" na~ tinha, sucedeu que, no
dia da sessao, e:iquanto o orador do discurso copiado espe-
rava que o que c antecediana tribune, terminasse a sua ora-
qio, sem o apendiculo que .he arranjara, o ultimo, entrando,
de subito, no doinino.alheio, deixou.o outro inibido de falar,
"Lupus et agnus ad eundem ivum venerant", como na fA-
bula. 'Tiiha havido, nesse dia, muito coco, no Seminario.
Ainda corn as laidas numa das m. os e com a outra compri-
mindo o venture, o rapaz dirige-se ao reitor, 0 president da
sessio, e faz-lhe sentir,. meia voz,.que, achando-se encomo-
dado, desejava recolher-se A enfermaria. S6 depois, veio a
comentar-'se, ent:-e frouxos de riso, a circunstancia impre-
vista por que nao foraproferido o discurso. Durante muito
tempo, no Seminario, era comum repetir-se o chavio, a
proposito de quem .fosse apanhado em flagrante delicto de
improbidade literaria; "comeu cco !"... Nio sei se ainda ho
je, por tI, vige essa prAtica. Foram essas assim, como se ve,
as-minhas primeiras atividades, na esfera das letras.
QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO:INICIO DA SUA CARREIRA?
Livre da batina de que ainda tenho saudades, e cla-
ro que me tenha sentido mais -A vontade, para poder rumar






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o meu espirito noutra direcao, literariamente falando. Fol
quando li todo o Eqa o autor preferido da mocidade de
meu tempo e tambem a obra de Machado de Assiz, de
quem apenas conhecia o "Quincas Borba" e o "Braz Cubas",
desde o Seminario, e assim mesmo. devorados num relampa-
go, corn medo que me pilhassem a jeito, as voltas cor o ce-
tico escritor. Precisamente a esse tempo eu era ainda
simples estudante de direito, publicaram as revistas de
Fortaleza, a "Fornalha", a "Fenix" e outras, os meus pri-
meiros artigos, verdadeiros atentados contra o bom gosto,
porque, se nesses' ensaios de rapaz, a ideia era pobre, a for-
ma era quase indigente. Mas eu estava ainda para repetir
o Eca, na fase desses fumos da ilusio literaria que levam
todo o home de letras, mal corre a pena sobre o papel, a
tomar por faiscahtes raios de luz alguns sujos riscos de tin-
ta. Ainda nessa mesma epoca, vim a estrear tambem na im-
prensa. Mas noa sabia, influenciado por Camilo, senao des-
compor o proximo. Era uma fase, de fato, em que esse ge-
nero, pelas rabidas virulencias do estilo, em vista das lutas
de partido, tinhai entire n6s, a melhor aceitagio.
Muito pouco, todavia, concorreu o nosso meio literario
propriamente, apesar de superior ao de hoje, para a minha
formagqo intelectual definitive. Contavam-se e certo -
em Fortaleza, bons po6tas que tambem escreviam prosa,
como Antonio Furtado, Raimundo Varko, Carlos Gondim,
Epifanio Leite ie outros canoros vates da minha geraq o.
Mas, como nao sentia em mim a tecla do verso, apenas me
limitava, arredi6 das Musas, ja se ve, a ouvir e achar bons
os poemas que ine recitavam. Porque poetas havia que se
riam capazes ate de matar e beber o sangue da vitima, se
nao lhes gabasse os versos! Uma unica vez tentei, muito
a medo, um poema. Um verdadeiro desastre rimado! Um
soneto calamitoso de que ainda agora., s6 em lembrar-me,
tenho raiva... Porque vessicado interiormente por uma in--
grata materialista a quem idolatrava cor psicolbgismo in-
compreendido, sem mirar a deidade A nota intima, pessoal,
que era a unica coisa que se salvara do meu lirismo; mas,







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ao reves, sentindo-se insultada tao catastr6fico era o
poema!'- resolve mandar-me as urtigas cor os versos e
os amores, como eu ja havia feito corn a batina. Desde esse
tempo, ganhei 6dio ao mAu poeta. Nao tolero, por isso, essa
imbecilissima coisa que se rotula de futurismo alfobre
de todas as mediocridades, mais charras e curtas, cor pre-
tens6es de batrAquios a homes de letras...
Mas, se pouca,'com efeito, se fez sentir a influencia do
meio no que particularmente toca A minha formaao mental,
devo, nao obstante, ressaltar, ja aqui, que do contact cor
os espiritos, no meu tempo, mais dados as disquisicSes filo-
logicas, como entire outros, o meu querido amigo Prof. Mar-,
tinz de Aguiar -, o precursor, na materia, do metodo de
Bacon e Descartes, no CearA muito, efetivamente, lucrei,
por conseguir imprimir aos meus estudos uma orientaqao
mais racional e 16gica, dentro de um criterio rigorosamente
cientifico. Assim que, se, num period de quase tres lustros,
antes de candidatar-me a professor, procurei por-me em dia
cor o pensamento europeu relativamente a ciencia da lin-
guagem, nao deixei, por outro lado, gracas A leitura assi-
dua dos bons models, de neles forragear-me o bastante a
alimentar a biblica sede do espirito insatisfeito. Nesse espa-
go de tempo que foi a fase da minha maior atividade inte-
lectual, porque nao me preocupava o fator economic, sem
o qual, no dizer de Taine, nao ha grandes surtos de espiri-
tualidade, li a maioria dos escritores e poetas gregos e lati-
nos. Li os principals mestres da prosa francesa, de prefe-
rencia Chateaubriand, Renan, Flaubert, Anatole, Hugo e
Balzac. Mereceu-me tambem particular atenio a critical
literaria, datando desse tempo, o meu conhecimento da obra
de Taine e Sainte-Beuve. Li, igualmente, os grandes humo-
ristas, Sterne, Thackeray, Mark Twain, Charles .Dickens,
Swift, sem falar em Voltaire e Moliere, cuja obra, em par-
te, ja conhecia. Entre os autores portugueses, dei preferen-
cia ao Eta, a Camilo, a Ramalho Ortigao e Fialho, e quanto
aos nossos propriamente, lia como ainda hoje leio, cor mes-
mo prazer, Machado de Assiz, Alencar, Euclides da Cunha,







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Rui, Nabuco, Graca Aranha e Raul Pomp6ia. Isso para nio
sair do dominio da prosa, porque, no que tange a poesia, Bi-
lac, Raimundo Correia, Gonqalves Dias e Castro Alves, fo-
ram, e continuam a si-lo, os nossos maximos poetas, nao a-
penas para a minha sensibilidade, mas de todos que os sin-
tam cor alma, capaz de vibrar As emoq6es superiores.

QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?

No Brasil, pais cuja nacionalidade nao se acha ain--
da perfeitamente formada, como se costuma dizer, nada,
de admirar que se nao evidence corn linhas bem acentuadas
fei&co literaria definitive. 0 que ha 6 ainda uma literature
em evolugco. As nossas melhores obras, com rarissimas ex-
ceq6es, nem chegam a transport fronteiras. Nao tim esse
carter de universalidade, de durabilidade do "aere pere-
nius" dos latinos. Nada ha, assim, de original nas nossas
produg6es, que sio uma copia apenas do que importamos.
Tivemos e exato romancistas, como Machado de As-.
siz. Mas quanto tempo sera ainda precise, para que apare-
Ca butro que; ao menos, se aproxime desse cetico criador de
tantos tipos vivos, de verdade e de simbolo? Se na prosa, co-
mo na poesia, atua, jA ha muito, no Brasil, a esterilidade fe-
cunda das crises literarias...
Quanto ao caso particular do CearA, nem 6 bom que se
ponha o p6 a esse terreno. Porque nunca houve movimento
literario aqui. Toda a nossa atividade literaria cinge-se, de
fato, A prosa das rodas maledicentes dos cafes, a artigos
de imprensa, ou a uma ou outra conferencia a que ninguem
vai, senAo arrastado como bode para dentro dagua, confor-
me disse, certa vez, o Torquato Porto, num brinde, por oca-
sido de um jantar a que fora levado, a forca, para ser- o
"pato".
Prosadores e pbefas, e corn efeito, o que, no Ceara, nao
falta, perdidos todos no vago das suas asceris6es para mun-






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dos melhores... Mas poucos, se levarmos em linha de conta
o que produzem, merecem a folha de livro. Se excetdarmos
Aderbal Sales, Jader de Carvalho, Cruz Filho, Filgueiras
Lima, Julio Maciel, quais realmerite, a julgar pelo m6rito
das obras mais recentemente publicadas, os escritores e poe-
tas de hoje em dia, no Ceara, que valem a pena da mengqo?
E os que nem tem asas para voar, como certos parvos que
vemos atolejar-se no lodagal, onde s6 p6em o focinho de f6-
ra, quando 6 para impingir-nos por ouro de lei o pechisbe-
que da sua "droga futurista", ium arranque fruste de im-
becil que "p6sa para a posteridade?" Esse Ceara ter coisas!
Mas serA essa mesma, como pretendem tantos mocinhos in-
gnnuos, a sorte das nossas letras, no future? Porque no pas-
sado o Manuelzinho do Bispo nio fez escola... Veio a .fazer
agora.
COMO VOCR TRABALHA?

Trabalho... brincando. Porque at6 corn as letras
costume brincar. Trabalho nas bancas de cafe, nos bancos
das avenidas, nos bondes, na rua, onde toca de sorte. .E
tudo o que escrevo sai ja como deve ser, da primeira fun-
dico. A questao 6 nao ler as laudas, depois de escritas.
Porque, se cem vezes correr a vista ao papel, cem vezes e-
mendo. E chego a ter impetos at6 de rasgar as tiras, como,
em muitas ocasi5es, tenho feito, pois nunca a prosa me sa-
tisfaz.:-I por isso que Flaubert, para quem ela nao tinha
fim, ja a chamava de seu calvario. S6 trabalhando assim
o seu formoso estilo, suando como um ferreiro, depois de
levar um dia, muitas vezes, para tirar a assonancia de uma
frase, foi que o admiravel artist de Salamb6 conseguiu,
efetivamente, atingir a perfeigao. Porque a prosa para
Flaubert s6 era perfeita, quando forma e pensamento fos-
sem como equivalentes aos membros de uma equacao al-
gebrica. Sem uma palavra superflua, sem poder acrescen-
tar-se uma linha a mais sob pena de ser alterado tambem
o sentido. Nao tenho a veleidade e. claro de chegar
ao mesmo resultado do grande mestre Pa prosa francesa.









Apesar.de fiaver ainda, como Gide, quem diga que "Mada-
mi Bbvary", na introducao, 6 iim romance trial feito. Pos-
sui6, por'mn, como pbucbs, sensibilidade vernacula, tenho
sihsb esfttico, esse terceiio ouvido mnesrfii "das dritte
ohir' --, muitd niais delicado e senisivel, de que nos fala
Nietzsche. Tehtl hbi-ror inignito aos thavoes, a catisados
lug ieg tcbihuris, e adhc cque n~o set trivial, 6, sem duvida,
tido o que pode ha~Vei de mais dificil na arte, como na vi..
da. 0 ji-nalisiho, cju6 taritos taletitos tehi rbubadd 6s hbs-
sas letras, nii~b por isso b camiriihb iiais indicado para tor-
nar-se thi inteiectual ihteresshiite como escritor. Pnrqiie
a sua altitude psicologica e qutase s'dimpre a negaqao daquele
estO*do de sensibilida'de e iifiaginatio que engehd-a a ativida-
dd literaria. 0 joih-ialista qju' escreve pot obrigago, para ien-
cher um espaco de journal, 6 um ser profissionalmente desti-
tuido de liberdade spiritual. A sua consciencia nao ter tem-
po de esperar pelo estado de fecundagao que produz a forma
livremente criada; a forma que 6 o ato vivo do espirito. Dai
a razao por que, escrevendo quase sem preocupaqAo de or-
dem literaria para a imprensa, trabalho, por outro lado, corn
mais apuro, silenciosamente, a maneira da abelha, o meu
estilo, o estilo como imagine. Nunca na minha vida de pro-
fessor pude entregar-me a essa ocupacao. iPoi um period.
de fato; em que poucas vezes consegui abrir um livro! S6
nao me tornei analfabeto, por causa do "lastrb" dos conhe-
cimentos que ja possuia. Porque aqui, como nos Estados
Unidos, nao se adota. o regime do "full time", vendo-se, as-
sim, o mestre na dura contingencia, sem poder especializar-
se na sua material, pela exiguidade dos vencimentos, de gran-
gear a vida noutro setor, para nao morrer de fome.

EM QUE TRABALIIA ATUALMENtE?
Teiho, presenteiferfte tres liv bs eth prepare: "Eh-
saib 'sob're PITAto", "Da influencia da Filosofia Heleniea na
Jurisprudencia Rofmana" e "Tei-it TWfrivel". 0o 'deseja-
va, por in, ser 'aiiltr, antes de atingir b fieu e al estitico
Reilizi-1b-ei? 0 tenpi %Z encai-rrgara de ihosttar.


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QVAIS SAO OS SEUS AUTQRES PREILETOS?

Jps indiquei. Mas, atualmente, aos preferidos vie-
ram juntar-se outros. E leio tudo, leio e guardo, ate o que
nio presta. Porque na propria imbecilidade a gente vai bus-
car, muitas vezes, a docil material prima, para uma escorcha,
uma zagunchada em regra, sobretudo quando se oferece a
oportunidade de reprimir os impetos irreflexiveis e brutos
da irritacao vingativa, da inveja ou do despeito.

EQUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA
COM RELA(AO A LITERATURE?

Os bramidos das tempestades disse Chateau-
briand paralizam o bico das aves. Nao me parece, todavia,
que o asserto da parte dos que assim pensam spja aceito. Ao
reves, o que se verifica 6 que depois de uma guerra, a ciencia,
as artes, as letras, tudo, em fim, progride. Porque, nio po-
dendo parar o ritmo da vida, o que seria a estagnai.o, a mor-
te, e sendo a arte a express.o da vida universal, nio pode,
por isso mesmo, a literaturea, como arte, estancair nas suas
fontes de inspiraa.o, deixando de ser o reflexo da vida, ru -
morosa e intense, de cada dia. Uma literature 6, realmente
- acentuou um critic autorizado toda a vida de um po-
vo, cor as suas paix6es e seus ideals, seus desvarios e seus
heroismos, suas aspiragSes e seus erros, seus entusiasmos e
suas fraquezas, suas lagrimas e suas gargalhadas, seus pre-
conceitos e suas lutas -,.uma yida complete e enorme, retra-
tando-se em uma cancio, denunciando-se em uma pagina.
passando vertiginosa em um hino, apanhada em flagrante
sobre tres palmos de tela. O primeiro gemido de dor, de fome
ou de revolta contra a natureza feroz, que deu, na sua 16-
brega caverna de montanhas, o troglodita palpitante foi cer-
tamente o primeiro hino, o rude poema da vida moral nas-
cente, a expluir do coracqo da especie, saindo da pura anima-
lidade. Desse hino ate os Vedas, destes at6 Homero, de Ho-
mero at6 Vergilio, Dante e Shakespeare, destes ate os Viden-







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tes, ate os Super-homens, a traca da vida se veio avivando
e se fazendo mais brilhante, e mais solene, e mais cultural.
Porque o ritmo da vida nao pode parar. Tornando-se, ao
revs, mais acelerado, depois de uma luta, nao poderao os
homes de aqo, os homes de espirito, os coraq~es sensi-
veis e amargurados, ficar inativos, deixando de produzir
para que mais se enriquea,. cultural e artisficamente, o pa-
trimonio da humanidade. HaverA, disse Tristao de Ataide,
a proposito da literature de ap6s guerra um grande ru-
mor de asas, amanha, quando a dor se transfigurar e se fi-
zer canto. Sera a hora da expressao. A hora da expressao
criadora, a Poesia. Para "corresponder ao anseio de evasAo
e esquecimento do home abafado pelos acontecimentos",
nao pode, efetivamente, deixar de ser assim, porque 6 essa,
de certo, a missao social da arte. Foi o que se deu com o ro-
mantismo, depois das guerras napoli6nicas, conclue, cor
muito acerto, Tristao de Ataide. Como foi o que se deu com
o simbolismo, depois da catastrofe de 1870. Nio posso, por
conseguinte, aceitar, sem exame, a opiniio de que, empecei-
do que desabrochem os espiritos'em luxuosas e esplendidas
inflorescencias, venham as grandes crises sociais a ser um
escolho A literature. Seria mister, assim, que a vida paras-
se, para nao ser a arte o seu reflexo.













JOAO JACQUES


R'esposta de Jodo Jacques 0 intelectualismo no
Brasil, ndo e carreira. Anda-se aqui cor a cabeca a
pass de cdgado. Machado de Assis, Raul Pompeia,
Rui Barbosa, Victor Hugo, Paul Bourget, entire ou-
tros, seus autores prediletos. 0 pensamento human
estd oprimido. A liberdade vai soar. Jodo Jacques cre
na vida, no amor e nos homes.

Toda a cidade conhece aquele moco moreno, silencio-
so e modesto, que passa pelas nossas ruas quase como uma
sombra. E' Joao Jacques. Poeta e cronista, o redator do que-
rido vespertino "O Povo" conhece a dificil arte de escrever.
Esta arte ndo se aprende nos compendios de Albalat. E' um
dom. Tem-no um H. Firmeza, um Caio Cid e, mais distan-
ciado de n6s, um Humberto de Campos, um Alvaro Lins.
Cor 34 anos de idade, jA publicou quase mil cronicas
que deviam estar enfeixadas em volume. Joao Jacques se-,
ria ingrato para cor o CearA se deixasse sepultada nos jor-
nais tanta cousa bela. Felizmente o poeta tern dois livros de
cronicas para publicar: "Reticencias" e "Alma em corpo
10".
Chefe de setao da Diretoria de Viaao e Obras Publi-
cas, redator do "O Povo", desde 1933, Joao Jacques hon-
ra o Ceara pela inteligencia e pelo carter. Irrmo de Paulo
Sarasate, que tio admiravelmente substituiu Dem6crito Ro-
cha na nossa tribune da liberdade, Joao Jacques herdou as
qualidades artisticas de seu pai, o velho maestro Henrique
Jorge. Um, o music; o outro, o poeta. HA diferenqa entire o
poeta e o music? Ambos cantam. "E cantar 6 conquistar a
alma", disse alguem.






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QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS
TENDENCIES LITERARIAS?

Para esclarecer um pouco o meu confuso passado li-
terdrio, basta que eu respond ~ pergunta com esta luminosa
palavra: a poesia
De fato, as minhas tendencies iniciais foram, como
ocorre ao comum dos jovens ne6fitos, de natureza lirica. Ver-
.sejei. Cometi muitos sonetos, dos quais me penitencio hoje
como de verdadeiras faltas mortais. Comecei mal a minha
vida intellectual, pois engatinhei cor p6s quebrados...

QUAL ERA 0 MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO INICIO DE SUA CARREIRA?

Antes de tudo retifiquemos: que carreira?.O inte-
lectualismo,:no .Brasil, .no 6 carreira. Anda-se aqui corn a
cabega a passo dec6gado. Os cerebrais sao gente A parte, fa-
ninta, sem future. "Verdadeiros poetas..."
Entrei para.a imprensa com um poema editado em um
.numero do "O Povo" de 1930, pela porta escancarada do
modernisnmo. Foi bern facil ingrear. Dificil me ser .sair,
creio :eu...

'QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA:BRASILEJRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?

-- No tenho impres.so das mesmas, porque, atual-
mente, Ihes falta expressao.

SCOMO VOCS TRABALHA?

Quanto ao.tempo.: de manha,,de tarde.e:. nite, Quanto
,ao espaco:-em casa, na redanio, no,empregQ, na rua. Qugan.-
to aos ,meios.: a mao (lapis e pena) .e .a miquina. Quanto a
mim mesmo: cor sangue.







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QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Nacionais ou estrangeiros? Nacionais: Machado de
Assis, Raul Pompeia, Rui Barbosa, Humberto de Campos,
Coelho Neto, Olavo Bilac. Estrangeiros: Eqa de Queiroz,
Herculano, Victor Hugo, Ingenieros, Chateaubriand, Ra-
cine, Paul Bourget.

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

Na imprensa, no Estado e no magist6rio domestic.
SEnsino a meus filhos A noite, conversando e tambem apren-
dendo com ales. De uns meses para cA, ando preocupado em
pregar uma peqa a meus semelhantes, isto 6, em escrever
uma peqa para teatro, uma comedia corn o nome "0 Dormi-
nhoco". /

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA COM
'RELACAO A LITERATURE?

A present guerra libertarA o mundo da escravidao
totalitaria. O pensamento human estA oprimido. As ideias
passam por peneiras, na culinAria das censuras. O gosto li-
terArio ndo pode ser o mesmo. Sinto-me, portanto, em dieta.
E que fastio!...
Deixemos que a vit6ria das naq6es unidas traga de no-
vo o sol da liberdade. S6 entio rebentario espontaneas da
terra as flares do pensamento, as rosas da poesia. Eu creio
na vida, no am6r e nos homes!














PAULO SARASATE


Resposta de Paulo Sarasate Literato e o que se
dedica is letras impulsionado por um scutiiienito es-
tetico natural, espontaneo, por uma "necessidade
artistica. S6 pretend ser jornalista. Redigiu una
folha manuscrita aos 14 anos. Nos bons tempos da
"A Farpa" o movimento intellectual do Ceard era
empolgante. Tris'to de Ataide e a revista "Maraca-
,jd". A literature brasileira em crise. Autores predi-
letos: Rui, ECa e Olavo Bilac. As artes e as letras
s6 poderdo ser grades se forem realmente livres.
Cultura sem liberdade e urn contrassenso


Entre as penas que defendem a causa dos Aliados e, con-
sequentemente, a causa da Liberdade, contamos a de Paulo
Sarasate.
Saindo do ambito national em que a sua atividade jor-
nalistica se projeta, e restringindo-nos ao Ceara: aqui, como
politico, como educador, como jornalista, em todos esses se-
tores, o director do nosso querido vespertino resplandesce de
bravura moral e intellectual.
Democrito Rocha morreu tranquilo. Sabia que o seu
substitute era um jornalista complete, era daqueles homes
que escrevem cor sangue e sabem que "nas suas seis deze-
nas de anos, cabe uma eternidade tremenda, e espahtosamen-
te escondida".
Reunindo o desassombro de Joao Brigido e a cultural
e o idealismo de Democrito. Paulo Sarasate oferece ao Cea-
ra um journal modern, prova de amor A nossa terra g ao seu
povo.






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Afirma ele que nao deseja set outra cousa senao jor--
nalista. Quem realize urma obra esplendida de jornalismo
como Paulo Sarasate, por que motive ha de invejar o poeta,
o romaricista, o critic? Realizando com consciencia e dig-
nidade a sua fungco, esti satisfeito. OxalA que o poeta, o
romancista o imitassem na sua attitude heroica.
Nasceu nesta capital a 3 de novembro de 1908. Redator
de "0 Povo" desde 1928. Director, com a morte de Dem6-
crito. Director do Ginasio Lourenco Filho. Foi fundador de
"Maracaja", juntam'ente com Dem6crito Rocha e MArio
Sobreira de Andrade, revista de grande repercussio nacio-
nal.
Publicou "Porque devemos combater o Nazismo", con-
ferencia 1942. Ter pronto para o prelo: "Geografia do
Brasil", para o curso ginasial.
fP este ilustre jornalista brasileiro que, corn tanto bri-
Iho, procura servir o povo cearense, que hoje responded ao
nosso inquerito literario:

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

Uma resposta a essa pergunta, nos terms em que
ela esta feita, implicaria em reconhecer-me, eu proprio, li-
terato, qualidade corn a qual,. para ser sincere, nio desejo
empavonar-me. E exato que muita gente, hoje como ontem,
vive forgando uma porta de entrada na republican das letras,
embora Ihe escasseiem meritos para-tanto ou The Taftem o
traco essencial, o tonuss", digamos assim, do verdadeiro
beletrista. Em outras palavras, literate, em sentido estrito
-e 6.esse, a meu ver, o sentido da pergunta nao 6 ape-
nas o que escreve para o public, indistintamente. E o que
se dedica as letras impulsionado por um sentiment est6tico
natural, espontaneo, por uma "necessidade artistica, diria-
mos melhor. Um literate nao se improvisa. Nao sera ja-
mais um produto do esforgo ou da pertinicia, se a essas qua-
lidades nro se alia uma terceira, que 6 o element vital das







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legitimas criac6es literarias: a inclinac~o artistic. Como
um pintor ou um music, o -beletrista ter que trazer do ber-
go a sua "vocaqdo".
Por assim entender 6 que nao me parece razoavel ve-
nha a falar das "minhas primeiras tendencies literarias",
vestindo roupagens que nao assentam absolutamente em
minhas atividades intelectuais. Se nao me sinto impelido,
constantemente, a manejar as letras como expressed da arte,
nrio tenho o direito de considerar-me ou permitir que me con-
siderem literate. Jornalista 6 o que pretend ser. E, nesse
terreno, poderia afirmar que "minhas primeiras tenden-
cias" vem de long, dos tempos em que a garotada das escolas
nao se comprazia apenas em discutir futebol ou aventuras
cinematograficas. Sinto-me jornalista desde que, entire os
14 e os 15 anos, nio resisti, con, alguns companheiros, a
inefavel tentaqgo de fundar pequenos jornais manuscritos,
em que garatujavamos as nossas mal nascidas impresses
da vida e do mundo. Dai para cA tenho progredido um pou-
co, 6 exato, mas nem por isso me assisted o direito de consi-
derar-me um literato...

QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO INICIO DE 'SUA CARREIRA'

No inicio de minha carreira jornalistica propria-
mente dita, isto 6, nos bons tempos da "A Farpa" e, pouco
depois, quando Dem6crito Rocha fundou O POVO e fez
de mim, desde entSo, o seui companheiro de todas as horas,
nessa 6poca o movimento intellectual do Ceard, como de res
to o do Brasil inteiro, era alguma coisa mais empolgante,
mais viva e menos desoladora do que isso que ai esta. Havia
um sopro de idealismo entire os intelectuais, uma melhor
compreensAo de suas responsabilidades e, o que 6 mais im
portante, uma base cultural menos fragmentaria e fofa do
que essa que a mocidade de hoje pretend assentar os seus
castelos. Aquela 6poca podia-se falar, realmente, em movi-
mento intellectual no Ceara. Novos e velhos, modernos e






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passadistas, poetas e prosadores, agitavam-se todos em re -
dor das letras, dando o melhor de suas inteligencias para
qtle elas permanecessem vivas e dinamicas, numa onda con-
tagiante de ritmos e iddias.
I desse tempo (1928-1929)a revista "Maracaji", fun-
dada por Dem6crito, Mario de Andrade e eu (que Ihe dei o
nome selvagem) corn o'objetivo de incentivar os intelec-
tuais mocos do Ceard, reunidos entao er" .,ca do O POVO.
Sem que o pretendessemos, todavia, a despretenciosa publi-
caqao se transformou, de um moment para outro, em ex-
pressdo ou sintoma de um "novo movimento literArio", a que
o sr. Tristao de Ataide, em pleno fastigio intellectual, dedi-
cou nada menos de dez paginas de seus "Estudos", incluin-
do-o, corn muita honra para n6s, entire os movimentos "tipi-
camente cearenses" e que foram, de acordo corn sua classifi-
cagco, o "movimento filos6fico de 1870, corn Capistrano de
Abreu, Rocha Lima, Araripe Junior, Joao Lopes, Tomaz
Pompeu etc; o movimento politico de 1880, emtorno do qual
se fez todo o mpvimento abolicionista (no qual o Ceara teve,
como se sabe, um papel saliente) e republican, corn o jor-
nal "Libertador" e a revista "A Quinzena"; e, finalmente,
o movimento literario de 1890, cor a fundaqdo da Padaria
Espiritual e'do seu orgdo "O Pdo", pela geracao de Farias
Brito, Antonio Sales, Adolfo Caminha, Oliveira Paiva, Ro-
dolfo Te6filo e outros".
Desta sorte, "MaracajA", na qual pontificaram Anto-
nio Garrido (Dem6crito Rocha) Raquel de Queiroz. Jader
de Carvalho, Mario de Andrade, Heitor Marcal; Filgueiras
Lima, Franklin Nascimento, Silveira Filho, Sidney Neto e
alguns outros, "MaracajA", dizia eu, conquanto nab tenha
sido tudo aquilo que nela quis enxergar Tristao de Ataide,
foi pelo menos uma fonte de agitaqao e como tal conquistou
o seu lugar na historic literAria de nossa terra.






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QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE'
DO CEARA?

Na resposta a pergunta anterior ja referi, incidente-
mente, a minha impressed sobre a atual literature national
e em particular sobre a de nosso Estado. Nao digo que es-
tejamos numa fase de decadencia do pensamento, nem que
seja ii-remediavel a situacqo. Ha apenas um hiato, oriundo
de causes que .terdo forqosamente de passar, porque sao
proprias das 6pocas de transigio.
Tdo cedo volte a paz a imperar sobre o mundo, come-
aremos a sentir, na literature como na political, os profun-
dos efeitos da transformaqao que a guerra terA necessaria-
mente de operar. O que.ocorre cor a nossa literature 6 ape-
nas uma crise e, como toda crise, nao poderA. eternizar-se.

COMO VOCe TRABALHA?

Nao me parece nada interessante, para o public, sa-
ber como trabalho. Entretanto, para nao fugir A pergunta,
poderia dizer que a nota predominante de minhas atividades
e a boa divisio do trabalho. Repartindo as minhas horas de
labor entire um journal e um girasio, cada um dos quais exi-
ge uma soma consideravel de atenqSes.: motive de vaidade,
para mim, proclamar que em ambos a minha assistencia e
diAria e .ininterrupta.

QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Rui Barbosa e Eca de Queiroz, na prosa, e Olavo
Bilac, na poesia, foram os autores que mais de perto toca-
ram a minha sensibilidade e a que dediquei as minhas prefe-
rencias da juventude. Hoje, nao tenho autores prediletos.
Mas e ainda no grande Rui que costumo procurar refugio
toda vez que repontam as minhas desilus6es civicas e sinto a






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necessidade. de entrar em contact cor a liberdade, A qual
ele dedicou toda a sua vida de pregador e de apostolo.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA COM
RELAQAO A LITERATURE?

Ci-iando sulcos profundos na vida social dos povos,
a guerra ndo podera deixar de influir na literature, que 6
uma das mais fortes expressSes da inteligencia humana. Es-
sa influencia,serA mais decisive nos paises totalitarios, onde
o pensamento cultural ter vivido sob a 6gide da censura,
sem ambiente, portanto, para expandir-se. Fazendo a guer-
ra para restabelecer os principios derrogados pelo fascistno,
as NagSes Unidas, corn a sua vitoria, criario necessariamen-
te uma nova atmosfera para as artes e para as letras, que s6
poderao ser grandes se forem realmente livres. Cultura sem
liberdade e um contrasenso.














FLORIVAL SERAINE


Resposta de Florival Seraine. Os nossos ultimos
grandes poetas Moacir de Almeida e Raul de Leo-
ni. Farias Brito e Vicente Licinio Cardoso, dois ex-
poentes da nossa cultural. Aqui mesmo, neste Ceara
de tantos safrimentos e glorias, hd os que estudam
e produzem raros artists e homes de pensamen-
to no silencio dos gabinetes, indiferentes ao aplau-
so das "coteries".


O dr. Florival Seraine vem realizando, sem barulho e
sem sensacionalismo, uma obra que se caracteriza, sobretu-
do, pela maxima honestidade.
Mais do que ninguem, 6le compreende que a literature
nao e um jogo de cabra-cego, uma roda de cirandinha. A li-
teratura e um sacerd6cio lembra alguem, e assim a encarra
o dr. Florival Seraine. Haja vista os seus livros, todos rea-
lizados cor consciencia e alma.
Parece-nos que o seu espirito inquieto ainda nio se fi-
xou num assunto. Filosofia, critical, filologia? Qual o mais
fascinante? E' possivel que a vida contemplative de Descar-
tes, na Holanda, tenha encantado a alma artistic de Flo-
rival. Dai o seu estudo acerca do "Discurso sobre o m6to-
do". Embora afirme que os estudos de nossa lingua nao se-
jam o genero de sua predileqao, a verdade e que ter publi-
cado cousas interessantes sobre o assunto.
Mas ainda esperamos de Florival a obra que represent
a sua cultural e a sua sensibilidade.
Por outro lado, cremos que, dificilmdnte produziremos







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uma grande obra na provincia. Onde o incentive para isso?
Farias Brito comecou aqui a "Finalidade do mundo", mas
a concluiu noutras plagas. Isso, somente no Cear? ,"Ne-
nhum acontecimento" escreve Alvaro Lins "indica que
estejamos nas vesperas de uma grande epoca. Estamos an-
dando, normalmente, por caminhos conhecidos, sem aventu-
ras nem surpresas.
Sera que nao atingiremos o grande moment vivido por
todas as literaturas importantes? O momentt" que gera,
por exemplo, um Shakespeare, um Balzac, um Cervantes,
um Nietzsche? Ou serA que, na civilizacao ocidental, esta--
mos marcados para o destino de umia simples "provincia"
(sentido spengleriano) da cultural ("Notas de um diario
de critical vol. 10, p. 18).
Que e que nos confina nessa mediania? E' o clima? E'
a alimentaco? Alexis Carrel, aprofundando o assunto, diz
-que seria curioso se conhecessemos a genese de certos acon-
tecimentos que se deram no passado: "Quais sao, por exem-
plo, os fatores que determinaram, na epoca de Pericles, a
apariqao simultanea de tanto genios?"
Um volume, de pouco mais de noventa paginas, foi o
seu livro de estreia, em 1916. Em seguida: "Panorama ar-
tistico na epoca colonial", "Descartes o Discurso sobre o
mrtodo", "Cultura brasileira" e "Estudos cearenses" (1"
serie).
Ex-Presidente da Sociedade Cearense de Geografia e
Historia, ex-diretor da revista "Estudos", colaborador de
nossos jornais, medico, o dr. Florival Seraine e, sem favor,
um nome simpatico das letras cearenses.

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

No perpetrarei um lugar-comum ao referir-com a
generalidade dos patricios-que, inicialmente, andei compondo
versos. Porque isso 6 uma verdade, a que nao falta certa do-
se de patetismo, resultante de evocar um andlo purissimo






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que nao medrou e, ao mesmo pass, um trecho da adolescen-
cia feito de solidao, de renuncias, cor aquele raro sabor de
existencia padecida, silenciosa e nobremente... CUdo com-
preendi que o meu espirito era racionante demais para ser
acolhido com plenitude nos templos onde oficiam os sacer-
dotes da Beleza pura. E outros rumos entao busquei,-onde
encontrar a livre expansio de minhas inquietudes espiri-
tuais e para que nao dizer? compensaqio a este prematu-
ro desencanto da vida pragmitica...


QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA, QUANDO DO INICIO DE SUA CARREI-
RA LITERARIA?

Nao me acho bem inteirado acerca do movimento
intellectual do Ceari, quando vai para dez anos a 81e
retornei, e nesta mesma "Gazeta de Noticias", entrei a di-
vulgar alguns trabalhos de literature.
Poi essa, para mim, uma fase de intense leitura estran-
geira, notadamente francesa, dos autores em voga no am-
biente cultural europeu. Eu trouxera do Rio uns numerous
da "Nouvelle Revue Frangaise" e, aqui, encontro a Afonso
Banhos, que jA se ocupava, possuido de estranha curiosida-
de intellectual, de Gide, Proust, Valery, Claudel, Alain, Tho-
mas Mann, Ramon Fernandez, Aldous Huxley, Suards e
tantos outros, que eram como signos luminosos do pensa-
mento e da sensibilidade artistic, que se seguiram ao con-
fusionismo revolucionario do ap6s-guerra.
Ent.o comeramos a mandar vir do sul ou do exterior
as obras de alguns desses autores, que tao sugestivamente
se nos apresentavam... e depois disso, como seria possivel
surgir eu em public a discorrer, cor seguranca, em torno
das letras cearenses, quando do inicio das minhas atividades
literarias;?






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QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?

Creio que um dificultoso estado de espirito, oriun-
do de atuais contingencies belicas, chegue a nos alcangar co-
mo um reflexo talvez mas suficientemente para obstar a
eclosdo de verdadeiras correntes literarias ou cientificas.
Mas afirmar que a literature brasileira se ache integralmen-
te morta, parece-me avancar em demasia, pois nunca che-
garemos a prever o que se acharA fermentando em alguns
predestinados cerebros moqos, nem mesmo avaliar como ou-
tros trabalham, isolados, estoicamente, apesar da guerra e
o que e mais chocante de ambientes por complete hos-
tis a quaisquer revelaq6es culturais. E' exato que depois de
Moacyr de Almeida e Raul de Leoni, serao poucos os nossos
autenticos grandes poetas. Que, ao lado de Farias Brito,
e, talvez, de Vicente Licinio Cardoso, quasi ninguem mais
logrou colocar-se, como expoente da nossa Cultura, na 6r-
bita do pensamento. Que nos falta um grupo de escritores,
do genero de Valdomiro Silveira e Sim6es Lopes Neto, para
oferecer a expressed da terra e do home atraves das ma-
nifestacoes do conto regionalista. Nao obstante, seria injus-
to desprezar alguns bons novelistas da ultima geraao, aque-
les que, no meio de tantos seguidores banais das modas li-
terarias, hao de permanecer, porque sao realmente talento-
sos, alimentados pelo fogo da criaqqo, que de long se dis-
tingue.
E de sociologos e etnologos como Gilberto Freyre, Ro-
quette Pinto, Artur Ramos; de critics literarios a exem-
plo de Tristao de Ataide; de escritor acendradamente na-
cional como Mario de Andrade; nao sera permitido esquecer
os nomes, afirmando cor displicencia que jA nao possuimos
vestigios de literature.
Aqui mesmo neste Cear5 de tantos sofrimentos e glo-
rias, hai os que estudam e produzem raros artists e ho-
mens de pensamento no silencio dos gabinetes, indiferen-









tes ao aplauso das multid6es e ao efemero prestigio das CO-
TERIES. Sobre esses o tempo se pronunciarA, o tempo que 4
o verdadeiro aferidor dos valores humans.

COMO VOC TRABALHA?

Ber ou mal, inconfortavel ou satisfatoriamente ins-
talado, a verdade que trabalho. Nao obstante os meus afa-
zeres profissionais, ainda me sobra tempo para o labor in-
telectual, realizado quotidianamente.

QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

No citarei autores da minha predilecao, mas algu-
mas obras imortais, que tive a fortune de perlustrar, e que
sdo para mim eterna fonte de sabedoria: "Apologia de S6-
crates", de Platdo; "Etica", de Spinoza; "Geneologia da
moral", de Nietzsche, apesar de id6ias contrarias ao meu
pensamento politico; "Disciurso sobre o M6todo", de Des-
cartes, de que jA me ocupei em conferencia realizada por o-
casido do tricentenario desse livro genial. Entre as mais
recentes, menciono: "As grandes correntes do pensamento
contemporaneo", de Eucke; "Estitica", de Croce; "Filoso-
fia da Arte", de Vicente Licinio Cardoso e "A linguagem e
a vida", d eCharles Bally, que marcou um novo rumo as mi-
nhas pesquisas no ambito da Filologia.
Nao esquecerei tambem, uma que outra obra de Orte-
ga y Qasset, destacando os magnificos ensaios de "El tema
de nuestro tiempo".

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

A quem houver seguido a parte anterior desta en-
trevista, noo 'deixarA de surpreender o que aqui vou referir:
presentemente trabalho no ultimo capitulo de um livro, que
sera lanqado por editor do Rio ou S. Paulo, versando te-
mas de Filologia.


- 75 --,







S- 76 -


Mas o fato ocorreu do seguinte modo: Em 1937, Ma-
rio de Andrade que era entdo o director do Departamento
de Cultura, de S. Paulo, nao sei por que raz6es, achou de
bem convidar-me para representar o Ceara em im congres-
so, efetuado depois na capital bandeirante. Escrevi "Contri-
buicgo ao estudo da pronuncia cearense". E dai comega o
meu gosto sirio pelo assunto.
HA dois anos se me nao engano dei a publicida-
de, em edilgo felizmente limitadissima, um volume, em que
esbocei o plano de alguns dos capitulos que constitulem a
obra, neste moment anunciada. Ainda recentemente, ao
Decimo Congresso Brasileiro de Geografia, a ser realizado
em Setembro pr6ximo, remeti dois estudos: "Toponimia
cearense" e "Mapas linguisticos do Ceara". Cabe-me, po-
rem, frisar que este nao represent o genero da minha pre-
dilecio intellectual, o que facilmente se dedtzirA das res-
postas a alguns dos quesitos anteriores. Tenciono, logo ul-
time a present tarefa, enveredar por outros pianos litera-
rios, em os quais nao logra acesso a gramatiquice, cor a sua
c6lera e o seu obscurantismo, ja proverbiais... Mas, 6 just,
que se note, a exposiqgo de um desejo, ainda que alto, nao
visa exprimir o mesmo que afirmaCao de exito.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA
COM RELACAO A LITERATURE?

Qualquer interessado pelos assuntos literarios sabe
que a gloria postuma de Alain Fournier foi alimentada nas
trincheiras, durante a hecatombe que precedeu a esta dos
dias atrozes que vivemos. Que sobre a guerra, algumas obras
de grande interesse literario tnm aparecido, bastando alu-
dir, em nosso s6culo, as de Remarque, que tanta influencia
exerceu, quer no estilo, quer na maneira de tratar os temas,
sobre diversos novelistas e romancistas da geracgo atual. E
algum espirito, mais, afeiqoado As revelaqges da literature
sul-americana, nao ignorard que ate uma peleja sem grande
repercussao universal, como a do Chaco, serviu de motivo a






77 -

floracao de apreciaveis escritores dos paises conflagrados.
Nao me aventurarei A apreciacqo dos fluxos de ideias que,
no moment, devem percorrer o ciclo da cultural ocidental,
caracterizando-o essencialmente; sdo, esses, altos assuntos
de Filosofia da Cultura que prefiro deixar A competencia
especializada de um Francisco Romero, cuja capacidade de
cogitacao sobre a material pudemos apreciar atravis de pro-
duc6es suas, divulgadas nestes ultimos anos.
Lembrarei, ainda, que existe hoje, por ai, quem busque
restringir o campo das letras e das ciencias ao mero jorna-
lismo politico, o que revela, simplesmente, ausencia de cul-
tura e estreiteza de discernimento.
E aqui encerro esta espinhosa missao, em que sou le-
vado a falar sobre minha pessoa e, um pouco, da vida alheia
- atos que, sinceramente, ndo estimo praticar.














MATOS PEREIRA


Resposta de Matos Pereira Secretario de uma
Academia poetica em Guaramiranga. Nossas livra-
rias vivem abarrotadas de tradugoes mediocres. Nos-
sa poesia como nossa music, serd sempre apaixona-
da, colorida e cheia de harmonies. A poesia modern
verdadeira epidemic passard. No dia em que
os poetas governarem o mundo ndo haverd 'mais
guerra.


Ja estudamos Matos Pereira como tradutor e breve o
faremos novamente a proposito de sua "Antologia po6tica
mundial", a sair. Falaremos tambem sobre o poeta, criador
de estrofes imortais na lingua portuguesa. Por isso, esse
introito era ate dispensavel; fazemo-lo para nio quebrar a
regra.
Um home que passou 4 anos confrontando paciente-
mente textos dificeis de francis e inglis para dar-nos o ge-
nuino Omar Khayyam tem direito de aguardar a gloria nas
letras.
Nasceu em Sao Luis, em 28-5-1898. Em Londres, onde
viveu 22 anos (1914-1936) trabalhou na agencia do Lloyd
Brasileiro e na grande guerra, 14-18, foi interpreted do
governor ingles. Ensinou linguas no Colegio Militar e outros
estabelecimentos de ensino desta capital. R atualmente Di-
retor do Servico de Cultura, Divulgacqo e Divers6es Popu-
lares do Ceari, cargo ao qual se dedica cor zelo inexcedi-
vel, gozando por isso mesmo da integral confianca do chefe
do governor, dr. Pedro Firmeza.
Conhece profundamente ingles, frances, espanhol. Tra--
duz o italiano. Traduziu o "Rubaiyat" do ingles e do fran-







- 80 -


ces. Em prepare: "Antologia poetica mundial", que espera
publicar nos comegos de 1947. Pronto para o prelo: "Poe-
mas que ninguem quis'.
Eis o home que gentilmente responded hoje ao nosso
inquerito literario:

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

Foi em Guaramiranga, quando eu era primeiranis-
ta ginasial, e Leonardo Mota e Sila Ribeiro academics de
Direito exerciam no Ginasio de Julio Holanda, Pedro Frota
e Zacarias Magalhaes as fungBes de "prefeitos", que senti
pela primeira vez as atracges da poesia.
Nesse tempo Bilac, Vicente de Carvalho, Raimundo
Correia e outros grandes sentimentalistas iluminavam o ceu
da literature brasileira.
N6s, os alunos do Ginasio, fundamos entao uma espe-
cie de Academia, da qual fui seu primeiro secretario e esco-
Ihi para meu patrono Guimaraes Passos. Nos dias de festa
enfeitavamos o enorme salao de estudo, convidavamos a eli-
te daquela redondeza e, A hora marcada, entravamos em
cena com discursos e recitativos.
Sempre fui, por natureza, um triste; portanto, nada
mais natural que as minhas primeiras tendencies fossem
para, a poesia.

QUAL ERA 0 MIOVIMENTO LITERARIO DO CEA-
RA, QUANDO DO INICIO DE SUA CARRETRA?

Nunca fiz carreira literaria. Escrevo por amor a
arte e. somente quando algo me inspire.
Nao me record dos nomes entao consagrados na lite -
ratura cearense, mas, foi por essa 6poca: que li o "Pelo so-
lim6es", de Quintino Cunha e admire os versos de Antonio
Sales.






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QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA?

A literature brasileira esta representando neste mo-
mento o papel da "Belle au bois dormant". Os pseudo prin-
cipes que tem aparecido nao a conseguem despertar do seu
profundo sono. Quanto tempo se passara, ainda, antes que
aparega o verdadeiro "Prince Charmant", nao sei, mas
ele vira. Entretanto vejo corn profundo pesar que o gosto
national esta se deteriorando cada vez mais. Nossas livra-
rias vivem abarrotadas de traducges mediocres de inumeras
obras sem valor.

COMO TRABALHA VOCR?

Deitado numa rede e fumando.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE OS POETAS
MODERNOS?

Penso que a poesia modern nao sobreviverA entire
n6s. Nossa poesia, como nossa music, seri sempre apaixo-
nada, colorida e cheia de harmonies.
O panorama brasileiro 6 uma festa de cores: nosso ceu
e todo esplendor, nossos mares tem tonalidades incriveis,
nossas matas segredos de luz que sao impossiveis descrever
- e depois as flores, e as aves de todos os matizes e tudo...
Sou da opiniAo de Bilac:

"E em nostalgias e paixSes consists,
lasciva dor, beijo de tres saudades,
flor amorosa de tris racas tristes".

Nao, essa epidemia modern passara e uma vez ida nao
nos deixarA saudades e n6s continuaremos a cantar cor vo-
zes harmoniosas neste Templo de Beleza que Deus nos deu.







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QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

-Nao tenho predileees por autor algum; gosto de
todos aqueles cuja leitura desperta, de uma ou outra manei-
ra, o meu interesse.

A LITERATURE INGLESA EXERCEU INFLUEN-
CIA SOBRE SEU ESPIRITO? MANTEVE RELA-
COES COM OS INTELECTUAIS DE LONDRES?

Admiro a literature inglesa e nem poderia deixar
de o fazer pois vivi quasi 23 anos em Londres onde conheci
muita gente ilustrada; todavia, ndo deixei de ser brasileiro.
Concordo cornm poeta iugoslavo, Milos Crnjanski quando
diz:
... o sangue
6, &1e e o nosso terrivel orgulho".

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

Neste moment ocupo-me corn tim livro que 'iniciei
ha various anos ainda em Londres: uma antologia po6tica
mundial em portugu&s. Sao tradug6es de poetas de todas as
parties do mundo a maioria de minha lavra, mas agrade-
ceria aos poetas que me quisessem enviar seus trabalhos.

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA COM
RELA;AO A LITERATURE?

A guerra trouxe muito sentiment novo A poesia;
enriqueceu-a portanto, mas no dia em que os poetas gover-
narem o mundo ndo haverA mais guerra.













MOACIR TEIXEIRA DE AGUIAR


Resposta de Moacir Teixeira de Aguiar Farias
Brito decidiu a sua carreira literaria. Nao acredita
na incapacidade congenita do brasileiro para as gran-
des elaboragCes filos6ficas. Seus autores prediletos:
Bergson, $5o Tomaz e Heiddeger. Pretende escrever
uma obra onde vai retificar a opinido de Daudet a-
cerca do seculo XIX. A contrario 4 literature isola-
da da vida social.

Moacir Teixeira de Aguiar dispensa apresentacao. O
seu opusculo, "A modern cultural brasileira" tao leve em
proporq6es materials, 6 uma demonstraqdo dos seus conhe-
cimentos filosoficos,, em especial, da filosofia bergsoniana.
"Bergson 6 um mundo", diz ele na resposta, e nesse mundo
Moacir Teixeira de Aguiar nao fica desorientado. O seu
pensamento e claro. Quem escieve, aos 23 anos, um folheto
tao denso de cultural ter aptid6es para tornar-se um nome
national na Filosofia. f essa a nossa opiniao. Que os fatos
o ratifiquem.
Mas qual 6 o fim da Filosofia ? Que soma de beneficios
extraimos para a humanidade da filosofia de Bergson? Ate
hoje a Politica tem desprezado a Filosofia. Estamos persua-
didos de que se aquela aproveitasse os principios desta, o
genero human lucraria imenso.
Nao 6 para conquistar glorias ou fazer arte pela arte
que Spinoza rejeita todos os empregos rendosos e se confine
num quarto isolado a pulir vidros. Nao 6 para tornar-se
mortal, ter o seu nome no "cartaz" que Descartes troca Pa-
ris "por um arrabalde sossegado de Haia". Esses pensado-
res visam a um fim: a felicidade humana.







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Moacir Teixeira de Aguiar se enfileira ao lado dos
mocos estudiosos do pais cor ideal semelhante.
Nasceu a 15 de maio de 1918 nesta capital. Publicou
"A modern cultural brasileira", ensaio de critical filosofica
1941. Colabora na revista de TristAo de Ataide "A Or-
dem". Bacharel em Direito.

QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?
Duas poderosas paix6es me empolgaram a alma e o co-
racqo desde os primeiros dias de minlia mocidade, revelan-
do muito cedo as minhas tendencies vocacionais: a literatu--
ra filosofica e a literature social e political.
Foi o segundo volume da FINALIDADE DO MUN-
DO, de Farias Brito, o grande mestre de nossa geraqAo, que
despertou em mim a ansia e a inquietude pelos problems
meta'isicos.
Farias Brito decidiu a minha carreira literaria.
Li ent.o, quasi toda sua obra.
A sua critical vigorosa ao positivismo de Comte, a sua
lei dos tres estados, A sua concepcgo baseadas, alias, na
frenologia de Gall de reduzir a psicologia a um mero ca-
pitulo da fisiologia nervosa, ecoou profundamente na minha
inteligencia. Tornei-me, assim, dos 15 para os 16 anos um
opositor entusiasta o entusiasmo facil e a paixao passa-
geira dos adolescents as ideias positivistas de Teixeira
Mendes e Miguel Lemos.
A oposigco decidida de Farias Brito A psicologia ma-
terialista do peso e da media tentando aplicar formulas
matematicas a vida spiritual, tornou-me finalmente um
papaixonado da renovagao ideological do Mestre do nosso
Pensamento filosofico.
Somente num ponto, o meu entusiasmo por Farias Bri-
to arrefeceu um pouco.
O panteismo de Spinoza, que procurava identificar Deus
e a Natureza Natura Naturans e Natura Naturata e
que tantos aplausos merecera do autor de FINALIDADE






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DO MUNDO, nao me despertou nem a simpatia nem a ade-
sdo de minha inteligencia.
A sua negaqao de um Deus-Creador e sobre-natural e
a sua definicao de que Deus 6 a luz parecem ter ferido de-
masiado a sensibilidade religiosa de minha antiga formacao
catolica.
E isto, talvez justifique a minha ingratiddo, ja tantas
vezes reparada para cor o mestre querido: em 1933, cor
16 anos de idade incompletos realizava a primeira conferen-
cia filosofica na Unilo de Moqos Catolicos, um estudo so-
bre Farias Brito, onde criticava, acremente,, a sua adesao ao
panfeismo de Spinoza...

QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO INICIO DE SUA CARREIRA?

Em 1932, o Pe. Helder Camara e o entao Cap. Jeovah
Mota iniciaram no CearA, entire os seus intelectuais e a sua
mocidade, das academias e dos colegios, um movimento de
rea~qo contra a literaturea pura",'"arte pura", o "diletan-
tismo cultural", o "eruditismo pernostico", o "porque-me
ufanismo", as torres de marfim de nossa burguesia inte-
lectual.
Esteve no auge na minha geracao a preocupaqao sociolo-
gica.
Os nossos idolos nao eram Rui Barbosa, nem Jose de
Alencar, nem Machado de Assis. E, sim, Euclides da
Cunha, Jackson de.Figueiredo, Tristao de Ataide, Oliveira
Viana, Gilberto Freire, Capistrano de Abreu.

QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL LITERA-
TURA BRASILEIRA E ESPECIALMENTE
DO CEARA?

Embora nao tenha ainda grandes creaq6es metafisicas,
o Brasil vive um moment de restauraqao dos problems fi-
losoficos e de um real interesse por eles.
Nao acredito na incapacidade congenita do brasileiro







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para as grandes elabora6es filosoficas. Discordo de Tobias
,Barreto. Nao me e possivel aceitar esta especie de racism
cultural, resultante, talvez, de um complexo de inferiori-
cdaci e de uma exagerada admiraqgo pela cultural germa-
nica.
A propria America do Norte ainda nao deu ao mundo
um filosofo da aristrocacia mental de um Bergson ou de
um Kant.
Somos, ainda, um povo creanqa. Mas, quando chegar-
mos a epoca da nossa'completa maturaq5o intellectual, acre--
dito que as creaqSes metafisicas, ou epistemologicas do pen-
samento brasileiro poderSo ocupar um lugar brilhante na
Historia da Filosofia universal.
Leonel Franca, Pontes de Miranda, Jos6 Barreto Fi-
Iho, Eurialo Canabrava representam para mim as maiores
afirma~5es da alta cultural do nosso pais.
No Ceari, as minhas maiores admirao6es sao: Parsi-
ral Barroso, converse ao catolicismo, profundamente in-
fluenciado por Bergson e Sto. Tomaz, 6 uma das mais for-
mosas inteligencias do Ceara nos dias que passam; Pe. Mon-
teiro da Cruz, embora nao cearense, 6 outra figure lumino-
sa ja integrada na cultural da nossa terra; Alvaro Costa, ou-
tro magico da inteligencia, e Afonso Banhos, estudioso do
existencialismo heidegeriano.
No campo da literature e da poesia, em particular as
minhas simpatias convergem para Mozart Pinto, o esteta
da palavra, e Filgueiras Lima o brilhante creador de "Ritmo
Essencial".
Na literature juridica as minhas maiores admirac6es
est5o dirigidas para Andrade Furtado, Eduardo Girdo e
Jos6 Martins Rodrigues, que honram nas suas catedras da
Faculdade de Direito a cultural juridica do CearA.
'omaz Pompeu Sobrinho 6 um nome grandiose. Devo
ainda, incluir no circulo das minhas admirac6es intelectuais,
Jeovah Mota, o estudioso brilhante das nossas realidades so-
ciais, Fernandes Tavora, a quem devemos um interessante
trabalho de metapsiquica, e na nova geracao, Pontes Neto,
uma inteligencia moqa e revolucionaria.






- 87 -


QUATS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Bergson e ainda o filosofo das minhas predilecges. A
sua revisao do mecanicismo e do finalismo tradicionais, a
sua nova interpretaqgo da teoria evolucionista, o aspect es-
sencialmente creador, original e imprevisivel do l6an 'vital
considerado como "a current passing from germ to germ
through the medium fa developed organism", constituem
um dos pontos mais altos e grandiosos da modern especu-
lacao filosofica.
Bergson e um mundo. Sem ele, no nosso seculo, ja nao
mais poderemos filosofar.
Leio cor muito interesse, tambem, a Sto. Tomaz de
Aquino e a todos os neotomistas da atualidade. O existen-
cialismo de Heiddeger comega, entretanto, ser objeto das
minhas preocupac6es, e creio que a sua influencia sobre a
minha formaqao filosofica poderi ser decisive.

EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?

Em abril de 1943, o governor do Interventor Menezes
Pimentel, me honrou cor sua confianga entregando-me a
catedra de Filosofia do Colegio Estadual do Ceard.
Cargo de maior resppnsabilidade, na formanao intelec-
tual das futuras geracqes cearenses, tendo de suceder a um
home de cultural de Jos6 Sombra, foi muito natural que
eu procurasse, com esforgo e dedicagAo, corresponder A es-
pectativa dos meus alunos, e A confianca e A gentileza do
ilustre Interventor do Ceara.
Por isto tive de afastar-me das atividades jornalisticas
e de sacrificar os trabalhos iniciais de uma obra sobre epis-
temologia, iniciada, ha mais de dois anos, com que espero
decidir e definir a minha verdadeira posigio filosofica no
seio da cultural do meu estado e do meu pais.
Estou, entretanto, muito preocupado num estudo de
revisao do seculo XIX.
Considerado por muitos como o seculo da dissociaqao







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e da analise do materialismo e do cientificismo, o seculo
XIX, tal como a Idade Media, sofreu a deturpagco de uma
critical partidaria.
Nao conhecemos o seculo XIX, e sim a sua caricature.
Para isto, estudo demoradamente as obras de Kierkegaard,
de Wronski, de Felix Ravaisson, de Ol1 Laprune, de Jules
Lachelier, etc,
Espero, brevemente, poder demonstrar que em vez do
"seculo estupido", pintado pela critical reacionaria de Leon
Daudet ha o "outro seculo XIX" cheio de beleza e de har-
monia spiritual.

QUAL A SUA OPINIAO SOBRE A LITERATURE
EM FACE DA GUERRA?

Sou contrario A literature isolada da vida social. Dai
compreender que, depois desta guerra, as grandes transfor-
mac6es sociais possam atingir os mais altos pianos da espe-
culag~o filosofica.














SARAIVA LEUO


Resposta de Saraiva Ledo Relembrando seus dias
de estudante pobre. Ao p6 de uma vela ate ds 2 horas
da madrugada. Vacilando entire a poesia e os cldssi-
cos portugueses. Contos... na gaveta 0 burgues que
nos 1 estd lambendo os beigos... Raimundo Vardo,
poeta enorme, boOmio, figure esqudlida corn as suas
grandes mdos de seis dedos Trocando a medicine
pela filologia.


Entre os valores mentais do Ceara, o sr. Saraiva Leo
se distingue pelo seu grande amor A lingua portuguesa.
A medicine rouba um nome A filologia, As letras brasi-
leiras. No entanto, a arte de curar 6 uma arte important
e Saraiva Leao, que e um esteta, sabe que a beleza esta em
toda parte. "Esti tanto na arte sangrenta dos grandes ci--
rurgioes como na dos pintores, dos musicos e dos poetas".
Um seu trabalho sobre medicine jA foi transcrito numa re-
vista de Nova Torque.
Produto de seu proprio esforqo e de sua propria inte-
ligencia, Saraiva Leao conseguiu, cor dignidade, uma po-
sigao definida nas letras do Ceara e na arte de Galeno.
A sua resposta 6 u-m mimo de casticismo. As ilumina-
g5es estilisticas de Bernardes e de Vieira, seus velhos com-
panheiros de longas noites, surgem aqui para a maior glo-
ria da lingua portuguesa.
Joao Batista Saraiva Leko nasceu em Quixeramobim,
em 25 de dezembro de 1895.,







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QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?

Eu quasi que nao as tive. A vida, por muito tempo,
me foi madrasta. Menino e mogo nao pude., pela crua neces-
sidade de ganhar o pao de cada dia, nao pude, senao cor in-
gente csforco, iniciar, atabalhoadamente, os meus estudos.
Fi-los, de comego, sem m6todo, sem orientagao,'por mim
mesmo. E tao Atoa que contratei professor de fisica, quimi-
ca e historic natural prescindindo das matematicas! Depois
c que vi o erro!
Empregado do comercio, onde se trabalhava das 6 da
ma-nhj, is 6 da tarde, s6 me sobejava a noite para o estudo
e para o repouso.
Ao p6 de uma vela fiquei noites e noites ate uma, duas
horas da madrugada. Nao tive, porem, a bossa de um Hum-
berto de Campos, que, nas mesmas condiqges, senao piores,
chegou it imortalidade.!
Mas, estudava e lia. Estudava pensando em ser medico,
ideal, que se me aninhou nalma desde muito cedo. Porque o
comercio, corn a sua seducao do oiro, nao me conquistou. O
balcao me foi inh6spito. O escritorio, at6 onde subi, me era
Arido!
Influenciado por Antonelli Bezerra, o amigo querido,
intellectual da mais pura tempera, iniciei-me na literature
francesa. Manusiei Chateaubriand, alguma cousa de Flau-
bert, Maupassant, Daudet, e decorei versos de Musset e
Baudelaire. E, procurei adquirir estilo corn Albalat. Cheguei
a evidencia, porem, de que s6 lendo e lendo, impregnando-se
mesmo de leitura escolhida e boa, e que se pode aprender a
escrever.
Em nossa lingua, Bilac era o meu VADE-MECUM.
Castro Alves arrebatava-me Gongalves Dias fez-me um ad-
mirador dos nossos indigenas. Raimundo Correia, Emilio
de Menezes, Alberto de Oliveira, lia-os sempre e sempre.
E a poesia, se eu tivesse -nascido poeta, creio, teria si--
do a minha primeira tendencia literaria. Porque foi o zque






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primeiro ensaiei. De logo, por6m, percebi que poesia, cor
metro e rima, ou sem rima e metro. nao se faz artificial-
mente!
Passei a compulsar os prosadores. Bernardim Ribeiro,
Vieira, Manuel Bernardes, Francisco Manuel de Melo, Her
culano, Garrett, Camilo, Ega de Queiroz, Rui Barbosa, Ma-
chado de Assiz, Josi de Alencar, toda essa gente me era mais
ou menos familiar. E tentei a prosa. O conto foi a forma
literaria que mais me seduiiu. Esperimentei-a. Nao cheguei
a publicar nem um! A auto-critica censurou-os e... ficaram
na gaveta!
As minhas tendencies literarias foram, como se ve ne-
gativas.
Resolvi, ja quase desvanecido da iddia de ser m6dico
pela impossibilidade material, resolvi ser filologo! E o estu-
do das linguas me cativou. Cheguei a lecionar portuguis e
frances! (Que me nao oiqa o Prof. Martins de Aguiar)!
Armei-me dos melhores mestres da lingua. E se nao fora :
Fortuna que me fez voltar, tomando-me as maos, ao cami--
nho desejado, A realizacgo do ideal, penso que, hoje, seria
um Martins de Aguiar... mirim! Mas o certo e que me fiz
medico sem tendencies literarias!

QUAL ERA O MOVIMENTO INTELLECTUAL DO
CEARA QUANDO DO INICIO DE SUA CARREIRA?,.

O mais promissor possivel. Estudante de humanidades,
ja rapaz, a Escola de Direito era um repositorio de talents
brilhantissimos, de literatos acabados. Antonio Fuirtado, o
estilista primoroso de JUDAS, BEZOIRO AZUL, MAR-
MORE PAGAO e tantas joias esparsas pelos jornais e re-
vistas da 6poca; Antonelli Beze'rra, o conhecedor profundo
da nossa literature e da francisa, cujos trabalhos literarios
nunca foram divulgados; Epifanio Leite, o cinzelador de
TEIA DE ARANHA, RAIZ e tantas riquezas outras; Iri-
neu Filho, o burilador de SAHARA, o satirico de MARI-
CAS E MARICOES; Mario da Silveira, o poeta que tom-






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bou, varado por bala inimiga, em plena Praca do Ferreira.
E muitos outros mocos que, estudiosos da lingua, surgiram
vitoriosos.
Apareceu nessa quadra, vindo da Europa, e permane-
ceu entire n6s, por alguma tempo, a figure singular e ciclopi-
ca, a maior da nossa literature, que tive a ventura de conhe-
cer de perto, Jos6 Albano ( o Albaninho). Barba .ampla e
negra, cabeleira vasta, olhos penetrantes e inquiridores, na-
riz aquilino, rosto long e palido, que lembrava Musset, na-
zareno perfeito se o monoculo a Eca Ihe nao quebrasse a
serenidade do aspect.
Camoniano puro, publicou poemas e versos do mais fi-
no quilate, verdadeiros primores de elevado valor literario
e de pureza de linguagem. REDONDILHAS,- ALLEGO-
RIA, CANCAM A CAMOES e ODE A LINGUA POR-
TUGUEZA:

"Lingua minha dulcisona e canora
Em que mel com aroma se mistura,
Agora, leda, lastimosa agora
Mas n5o isenta nunca de brandura:
Lingua do gram Cam6ens, a que elle ensina
A simphonia rara.
Que em tudo se compara-co a Latina"

Impressos em Barcelona em 1912, mais s6 em 1918
vim conhece-los, quando me dei com o poeta. E nesse tem-
po publicou, aqui, a COMEDIA ANGELICA, de um ange-
lico misticismo Jose Albano nos empolgava. Ouvi-lo, era
um encantamento. Sotaque portuguas legitimo, recitava-
nos os seus versos de maneira admiravel.
Disse d6le Da Costa e Silva: Jos6 Albano foi um
verdadeiro poeta, ati na adversidade do destiny. Inteligen-
te e culto, viveu obscuro quase desconhecido na sua patria.
rico, de fina educagco, morreu talvez sem conforto em ter-
ra estrangeira. Entretanto neste home que desaparece co .
mo qualquer mortal, se harmonizaram divinamente uma in-






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teligencia poderosa e uma sensibilidade agudissima, auxi-
liadas por uma cultural est6tica invulgar cosmopolita, quase
enciclop6dica. Conhecia ele todas as linguas neo-grecas e
neo-latinas, falando e escrevendo algumas delas corn a ele-
gancia e a pureza da materna, que sabia prodigiosamente".
E mais: "Jos6 Albano 6 ainda maior como poeta: 6 um be-
lo poeta brasileiro, como poderia ser um grande "poeta
ingles".
Para que se tenha uma id6ia do grande vate cearense bas-
tam estes versos formosissimos:

"Ha no meu peito uma porta
A bater continuamente:
Dentro a esperanca jaz morta
E o coraqdo jaz doente.

Em toda parte onde eu ando,
OuCo este ruido infindo:
Sdo as tristezas entrando
E as alegrias saindo".

-Raimundo Varto, o polidActilo, Advena, figure esquAli-
da de quase causar repulsa, corn as suas grandes maos de seis
d6dos, sua cabeleira tocando os ombros, barba hirsuta, olhos
grandes, luminosos e vagos, tresandando a suor e gordura,
nao trocava a roupa (nem a lavava!) enquanto nao ficasse
em tiras! Varao foi o boemio mais bem acabado que jA co-
nheci. Certa vez, apaixonou-se por uma menina no Passeio
Public. Nao podia falar-lhe porque sabia da nao aceitagao,
e vingou-se fazendo-lhe uns versos ou cousa que o valha,
e que terminavam:

"Hei-de roer-lhe os ossos como um cao faminto!"

E dava as maos, quando os recitava, a feiqco de garras
e ao gesto, esgares de louco.









Sao de sua autoria "A Morte da Aguia", lindo poema.
cujo epilogo 6 este:

"0 Poeta e como a Aguia anseia o infinite
0 olhar na Luz da Ideia eternamente fito -
Desdenha o Mundo vil, a Existencia ilusoria...
E voa... e cai... e more olhando o sol da Gloria".

E "Glatigny", sobre o poeta Alberto Glatigny, autor
de "Flechas de Ouro",, "Impassivel" e "Normandia".
E se me nao falha a memorial, eram enriquecidas as le-
tras do CearA, nesse mesmo period, cor a aparigio de
"Terra Martir", de Julio Maciel, o poeta magnifico, que
sempre aliou A sua inspiraa- o cuidado da forma. Parna-
siano perfeito. E em 1925 o poeta traduzia os "Versos de
oiro de Pitigoras", que sdo um compendio de moral e de
linguagem castiga:

"Se bor filho e bor pai, just irmro, terno esp6so.
Elege amigo teu o que em virtude prima:
Vive como ele vive e dMle te aproxima.
Os conselhos Ihe escuta; e se te aconselhando
O teu amigo f6r um dia menos brando,
Perdao! que sobre a fiel vontade 6 lei several!
A Fortuna fatal, As vezes, prepondera.
Dominar as paix6es 6 dom que te pertence:
Tuas loucas paix6es subjuga e doma e vence".
QUAL A SUA IMPRESSAO DA ATUAL FILOLO-
GIA PORTUGUESA E BRASILEIRA?

.J n io posso andar tao em dia corn esses estudos. O da
medicine, minha obrigagio precipua, absorve-me o tempo
todo. Mas a impressao vaga que tenho 6 de que a filologia
portuguesa supera, de muito, a nossa. Parece-me que muito
poucos sao os estudiosos do assunto. HA um descuido cri-
minoso no estudo da lingua! E' minguado o numero dos que
zelam o santo patrimonio. E as traduc6es que se veem fa-







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zendo de ultimo, aos mont6es, sao o atestado irrefutavel do
pouco conhecimento da lingua portuguesa, que Jos6 Alba-
no amava tanto e prometeu defender:
"E se te outros ofendem vezes tantas.
Embora solitario, eu te defendo.
QUAL A SUA IMPRESSAO DA LITERATURE
DO CEARA?
O Ceara foi sempre manancial de intelectuais, de lite-
ratos. Vem de long a fama. Dir-se-ia que o fulgor do sol
tropical penetrou o cerebro desta gente, donde despede fau-
lhas, chispas, reverberos!
Nao se compreende a'apatia, o estacionamento. a pa-
rada'da literature atual. Nao faltam cabegas. As letras e
que carecem de estimulo, de vontade, de amor. Trocam-se os
livros pelos desportos! O corpo ter mais direitos que a ca-
beca! A massa afoga a essencia!
Poucos sio os valpres novos. A literature do Ceara
ainda esta firmada em nomes jA feitos como os de Leonardo
Mota, Cruz Filho, Andrade Furtado, Mozart Pinto, Mar-
tins Rodrigues, Julio Maciel, Martins de Aguiar, Filguei-
ras Lima Otavio Lobo, Jurandir Picanco, Aderbal Sales,
Luiz Sucupira e mais alguns. A luta pela vida, que cresce
desesperadamente, deve ser, tambem, razao da queda da
literature em nosso meio. E o ensino?! Que falem os enten-
didos..
COMO VOCR TRABALHA?

E' um caso muito serio esse de organizacao de traba-
Iho intellectual. Hi muito que venho procurando um meio
de resolv&-lo. Estudar, ler mesmo, sem anotar, sem colher
o que interessa, 6 trabalho inutil. Nao ha cabeqa que arma-
zene o que se l~ e estuda durante a vida!
Os grandes assombros de erudigco nao passam de or-
ganizacao, metodiza5ao de estudo. Ter-se em mao o que
se leu ha anos atrAs, e poder obter-se tal ou qual assunto
em pouco .tempo, -sem fadigas, sem precisar por abaixo toda







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a livraria, e a maior vitoria para o que trabalha nas lides
da inteligencia.
Na Bahia, o grande e erudito portugues, que Deus ha-
ja, Pe. Luiz Gonzaga Cabral mostrou-me o seu metodo. Ca-
demros em series alfabetica corn indice para as materials. E
era tao bem feito o arranjo que, de moment, revia o assun-
to que Ihe interessava em qualquer departamento dos seus
estudos.
Mas, de ultimo, consegui organigar um fichario de
classificador decimal, que e o que jA vi de melhor. E 6 por'
esse m6todo que vou trabalhando.

QUAIS SAO OS SEUS AUTORES PREDILETOS?

Em literature, (porque o inquerito e literario), ainda
hoje me rejo pelos velhos! Passadismo? Nao sei. O que sei
e que, atualmente, nao hi quem escreva como Bernardes,
Vieira, Herculano, Camilo, Garrett, Castilho, Frei Luiz de
Souza, Rui Barbosa, Machado de Assis, Jos6 de Alencar
etc.. E 6 por isso que esses sao os meus autores prediletos,
que leio e releio quando me sobeja um poucochinho de tem-
po.
EM QUE TRABALHA ATUALMENTE?
Atualmente e sempre em medicine! Medicine! A car-
reira que requer, alem de muito sacrificio, de muito despren-
dimento, de energias- grandes para suportarem-se ingrati-
d5es e injusticas, muito estudo para acompanhar a pass c
pass o seu evolver e o seu espraiar-se!
Vez por outra, porem, para arejar o espirito you a
outro setor.
O trabalho preciosissimo de Tomaz Pompeu Sobrinho
sobre os cranios da gruta do Canastra, que merece os maio-
res encomios porque veem enriquecer as pesquisas antropo-
logicas brasileiras, desviou-me, de ultimo, para estudo mais
acurado do assunto. E venho lendo e estudando, em horas
roubadas, alguma cousa sobre antropologia.
E' estranho que se nao haja comentado, pela impren-







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sa, o aparecimento de tdo bem cuidado quao interessante
trabalho.
Estudo paciente de beneditino, com orientaqco sabia, a
obra de Tomaz Pompeu Sobrinho merece mais bem conhe-
cida e divulgada.
Nao sei, entire n6s, de quem se tenha dado a tal estudo
e o tenha levado a cabo. Tomaz Pompeu Sobrinho verifi-
-cou sexo, idade, capacidade, forma, diametros de 12 cranios
e examinou peas exparsas de mais tres cor o cuidado, ca-
rinho e interesse de cientista.
E chegou a conclus6es de valor cientifico,. que, na sua
modestia, acha que "sao simples tentativas de exploraqao
num enorme -campo virgem, aguardam novas e ineditas con-
tribuiCies que Ihes corrijam as aproximacqes e as deficien-
cias".

QUAL A SUA IMPRESSAO SOBRE A GUERRA COM
RELACAO A LITERATURE?
Todo flagelo social desperta interesse e dai a literature.
Estudam-se homes, caracteres, povos. A \da atual cuja
bagagem jA 6 bem avantajada, ha-de culminar pelos estudos
dos homes e da grandeza da destruicgo, que tem influen-
cia direta sobre a sociedade. Se conflagracges de muito me
nor porte como a sedicao de Canudos nos deu um "Sert6es"
e a do Paraguay, uma "Retirada da Laguna"; se Euclides
da Cunha nos descreveu o home, e a terra de maneira ma-
gistral para mostrar a razao de ser do conflito, que nio a-
parecerA de estudos dos homes e dos povos ap6s esta ca--
lamidade que dizima o Mundo?! Que de trabalhos especiali-
zados sobre Hitler e sobre o povo alemAo nao virao a lume'
A psiquiatria, a sociologia, todas as ciencias coadjuvarAo a
documentacao monumental da maior guerra que a huma-
nidade jamais presenciarA!
Hitler passarA aos posters como aquela triste perso-
nagem da Historia, que, nao possuindo qualidades que a fi-
zessem notoria, incendiou um Templo! E ele fez mais... in-
cendiou o Mundo.













JOAO JOSI CAVALCANTE

Resposta do Pe. Jodo Jose Cavalcante 0 bombate
ao Nazismo a forca irresistivel que o impeliu pa-
ra as lutas da imprensa. Adquirir ideias sua preo-
cupacdo dominate, no labor intellectual. S6 pode tra-
balhar num ambiente de profundo silencio. Sao To-
maz de Aquino seu livro de cabeceira.


O Pe. Joao Jose Cavalcante e o primeiro membro do
clero cearense que dep6e nesse inquerito.
R nosso intuit ouvir todos os intelectuais do Ceara,
sejam quais forem as profiss5es que exeraam, pertenaam a
quaisquer correntes.
O inquerito 6 puramente literario e a nossa preocupaao
aqui servir A literature.
Defendendo a Igreja, que e uma instituigio eterna, ou
combatendo o Nazismo, que 6 o produto de consciencias
ca6ticas, a pena do Pe. Joao Jos6 Cavalcante estA a servico
de uma causa nobilissima.
No piano literario, todavia, esperamos do Pe. Joao Jo-
se Cavalcante algo mais duradouro do que artigos polemicos.
Ensinando filosofia tomista ele pode nos oferecer ainda um
estudo sobre o "Doutor-Angdlico", a influencia do sistema
filosofico de Arist6teles sobre o do grande te6logo.
Cor uma cultural bem formada, cheio de saude inte-
lectual, em contact diario cor um fil6sofo e um santo, o
Pe. Joao Jos6 Cavalcante estA destinado a subir ate As cul-
minancias de um Leonel Franca.
A Igreja estA de parabens.






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QUAIS FORAM AS SUAS PRIMEIRAS TENDEN-
CIAS LITERARIAS?
Tarde empunhei a pena. As ocupac6es absorventes do
ministerio sagrado e, ja, antes, as dos estudos de formagao
sacerdotal nao me deixavam lazeres para escrever. Foi o
combat ao nazismo anti-cristao a forga irresistivel que me
puxou para as lides da imprensa local. Antes, quando ainda
estudava no Seminario maior de Fortaleza, contentara-me
em preparar trabalhos de cunho doutrinario para o Circulo
de Estudos Sto. Tomaz de Aquino.
Nos meus tres anos de vigario, de 1935-1937, publiquei,
sob pseudonimo,, raros artigos em jornais da terra. Como se
ve, minhas tendencies,, desde as primeiras manifestaq6es de
minha vida literaria, foram pela prosa. A poesia nunca me
atraiu. Quero dizer: nao me sinto cor vocaco a cultor das
musas, embora ache encantos nas produces podticas quan-
do as leio. Atribuo isto a nao ter jamais cultivado a imagi-
naq~o. Cedo amadureci para os estudos abstratos. Minha
preocupacao dominant, no labor intellectual, sempre foi ad-
quirir ideias no manuseio das obras secas, puramente doutri-
narias. Assim, enquanto cuidava de desenvolver a inteligen-
cia, negava aos sentiments o past que Ihe dao asas para
os vbos podticos.
.QUAL ERA O MOVIMENTOQ INTELLECTUAL DO
CEARA, QUANDO DO INICIO.DA SUA CARREIRA?
Contemporaneo do Prof. Jose Valdivino, no Semi-
nario, onde, se me nao mente a memorial, fomos colegas de
ano, senti a mesma impressao que aqui ja externou o ilustre
membro do magisterio cearense: quando lancei a vista para
o movimento intellectual do CearA, a preocupacao que domi-
nava os moqos estudiosos de ent~o.eram os assuntos de or-
dem filosofica e sociologica. Tristdo de Ataide atraia os
olhares da juventude academic seriamente dada aos livros
de alta cultural. S, Tomaz de Aquino, por sua vez, desper-
tava admiradores avidos de conhec-lo. Infelizmente, foi um
sopro que passou!




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