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HIDE
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 O orfao
 O penitente
 O conselheiro
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Group Title: Antonio Conselheiro
Title: Antãonio Conselheiro
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00075700/00001
 Material Information
Title: Antãonio Conselheiro
Physical Description: 73 p. : ; 24 cm.
Language: Portuguese
Creator: Montenegro, Abelardo Fernando, 1912-
Publisher: s.n.
Place of Publication: Fortaleza
Publication Date: 1954
 Subjects
Genre: bibliography   ( marcgt )
individual biography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Bibliography: Bibliography: p. 60-73.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00075700
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 05262546
lccn - 63049141

Table of Contents
    Front Cover
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    Front Matter
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    Title Page
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    O orfao
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        O meio sertanejo - Araujos e macieis
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        A ovelha desgarrada
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        A sonho desfeito
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    O penitente
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        O exemplo de ibiapina
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        A vinda do messias
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        A catequese
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    O conselheiro
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        A nova canaan
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        O jagunco
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        A organizacao social
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        A reacao da igreja
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        A guerra
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        O movimento sebastianista
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        A mitologizacao de conselheiro
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        Tentativa de interpretacao
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    Bibliografia
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    Errata
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    Back Matter
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Full Text



Afl.LAr.D0 F. MONTENEGRO


ANTONIO CONSELHEIRO













1954
Fortaleza Ceara
















"NAo discutimos aqui as
suas conclus6es, que se.
por vezes, coincidem cor
as de outros critics que
o antecederam no exame
doe mesmos assuntos, nSo
raro, demonstram pela
16gica corn que foram ar-
quitetadas e o desassom-
bro corn que sao expostes,
o valor intellectual e a in-
dependencia de carAter
do seu author (Dr. Flori-
val Seraine Opiniao
sobre "Tobias Barreto e
Machado de Assis", in O
Povo, de 27-3-1954)
"Alias, a imnressAo que
me deu Abelardo, ao co-
nhecelo, foi a de um de-
vorador de livro, al'n de
um ensaista em poten-
cial.

"Assim, acertei cor
aquela legend cnaaista
em potential e vein o
eterno dovorador de li-
vros revelar-se, tamb6m,
um escritor fecundo, um
criador, um ensaista que
nao apenas estd escre-
vendo muitos livros, como
este "O romance cea-
renoe", em que fui co-
nhecer o author da bro-
chura que a. garota pro-
testante leu escondido,
senAo tamb6m que Essps
trabalhos sao ensaios dos
melhnres. dos ma's enman-
cipados e mais lficidos da
mnderna literature bra-
i'?eira. "(Maura de Senna
Pereira in "Gaz-ta de
Noticias (Rio), de 2-2-
1954).
"P6de-se dizer sem
exagero, que Abelardo
Montenegro 6 um aconte-
cimpnto inte'ectual que
justamente se fazia ne-







ABELARDO F. MONTENEGRO


ANTONIO CONSELHEIRO





v ...i 7 -;';


S .- ..... O- ..


1954
Fortaleza CearA






Ad
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S.-
'6 /

J) (


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{IA














I 0 MEIO SERTANEJO

A partilha do solo cearense comegou em 1663. Procedeu-se corn tal con-
fusio que surgiram lutas entire families que questionavam a respeito dos limi-
tes de suas propriedades.
Os indios, expulsos de suas terras, eram utilizados como soldados pelos
colonos portugueses, ou deles descendentes.
Em meados do s6culo XVIII, a populagio havia aumentado. Processa-
vam-se permutas corn o centro do Piaui. A bacia do Jaguaribe supria as
talhas de Pernambuco corn boiadas, e a lavoura deste Estado e da Bahia re-
cebia cavalos para saas fibricas.
Os indios haviaa sido exterm!nados. A terra, por6m, como diz o cron6-
grafo Joho Brigldo, estava. semeada de prepotentes que possuiam siquitos de
celerados, por intermidio dos quais impunham o terror.
As concess6es de sesmarias e as demandas por limits constituiam, indu-
bitavelmente, o poiro de disc6rda entire os colons.
No sertio, dominavam os fazendeiros podercsos, cujo prestigio estava na
razio direta de seus bens imovels e do rebanho. A casa grande contrastava
com as miseraveis casinholas da massa camponesa.
O abastado senhor rural preenchia infimeras fung6es. Substitula o padre
por ocasiao dos tergos rezados na capela. Na casa grande, mandava discri-
cionariamente, enquanto, no povoado pr6ximo, orlentava a political.
Os crimes dos potentados ficavam impunes. Como os senores rurals esti-
vessem perto e as autoridades long, a plebe rural, por instinto de conser-
vago, abrigava-se a sombra da casa grande.
O meio era birbaro. Como afirma Joio Brigido, as crlangas abriam os
olhos vendo matar indios e flagiciar africanos. Cresciam afeitas a criagio de
gado, cujas fainas consistiam em castrar, serrar os chifres, jarretar, danger
o agullhio, derribar e sangar na jugular. Isso concorria naturalmente para
endurecer o coraclo.
Incontestavelmente, no sertio, a inica forCa real era a do senhor rural
Havia mesmo um compromisso do Estado corn a casa grande: esta apoiava
aquele na defesa de scus interesses, enquanto o Estado transferia o powder
que pudesse A casa grande, salienta Nestor Duarte.


II ARAOJOS E MACIEIS

Na barbara sociedade sertaneja, a solidarledade familial constituia a su-
prema forca. Os aIos de sangue dificilmente eram dissolvidos. Qualquer
ofensa a um membro do cll pastoril atingia todo o cli.









-8 -.

Cada familiar poderosa lutava ate o exterminio pela conservagio de
sua ascend6ncia. 0 fazendeiro nio podia tolerar manifestag6es de indepen-
dnceia de agregados, ou mesmo de homes livres de status inferior.
Determinava-se o prestigio de cada um pelo prestigio do grupo familial.
Qualquer capitis deminutio provocava desagravo que variava na razio direta
das consequ6ncias detrimcntosas da ofensa.
A familiar, na verdade, constituia o finico centro de organizagio da so-
ciedade colonial. A extensio territorial, a intense atividade rural c a exig6n-
cia de mando deram ensejo a que a instituigio familiar desempenhasse a
triplice funcio: procriadora, econ6mica e political.
A area de expansion social nio coincidia com a area de efici6ncia political.
A bipertrofia do poder privado e a atrofia do powder politico, assevera Costa
Pinto, criavam condiq6es propicias ao aparecimento da vinganva privada
como modo tipico de control social.
Assim 6 que tivemos, no Cear6, lutas de grades families tais como as
dos Montes e Feitosas e Araijos e Macieis.
Henry Koster, referindo-se aos Feitosas, assevera que "'les mesmos vin-
gavam as infirlas que Ihes faziam; os culpados contra eles eram enforcados
pfblicamente nos vilarejos do interior; o pobre que nfio f6sse de seu partido
era obrigado a tolerar em sil6ncio os atos que nao aprovassem".
Nessas lutas de families, quase nio intervinham as forgas.regulares, pois
eram pouco numeresas, nio podiam abandonar o ltoral, e mesmo porque
seria imprudnncia arrlscf-las no longinquo sertio.
Nas primeiras dicadas do s6culo XIX, nos sert6es entire Quixeramobim
e Tamboril, viviam os Macieis. Na povoago de Boa Viagem, s6de da region,
viviam os Aradjos e Macieis," desiguals na fortune e posiVio social".
.Os Aradjos formavam poderoso cla. Nao permitiam que outros se Ihes
avantajassem. Os Macieis, embora pobres, nao se submetiam ao domino dos
ricos Araiijos, insubmissAo que 6stes nio justificavam, em virtue daqueles
nio possuirem "vastos latifindios e boiadas gradess.
Por volta de 1833, os Macieis eram acusados de uns furtos sofridos por
Silvestre Veras, aparentado cor os Araijos. Sentindo-se ofendidos, os Macieis
protestavam veementemente.
Certa note, piguel Mendes Maciel conversava cor companheiros na
bodega de Manuel Proc6pio de Freitas Guimaraes, quando o caso foi ven-
tilado.
"- Pois, seu Miguel, fala um vaqueiro, disse-me o Inicio (Inicio Mendes
Guerre'ro, agent do Correio e parent dos caluniadores) que desconfia-
vam de V.
Pois, olhe, responded Miguel, a pecha nfo me pega. Na minha rapa
nunca houve ladr6es. Onde os hA 6 nesta familiar de desgragados, que t6m
filhos que roubam os pais. les devem procurar mesmo no meio d6les o rou-
bador. Se dissessem que um Maciel mandou um para o outro mundo, vi lA;
mas roubar, nunca; e quem diz p6de mandar tocar sino, que a morte 6 certa."
Silvestre Rodrigues Veras morava no termo de Vila-Nova. Ao saber da
ameaea, declarou guerra de exterminio aos Macieis on Carlos. Pertencente








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& poderosa familiar dos Araijos, que controlava as autoridades locals, p6s em
jogo a influincia clinica, forgando os Macieis a abandonarem Vila-Nova e
virem para Quxeramobim.
Munido de uma ordem de prisIo, Silvestre'Veras reuniu um bando de
homes armados, inclusive filhos e genros, e foi prender os Maciels na Vila.
Estes, por6m, avisados, resistiram e fizeram recuar os agressores.
Os inimigos dos Macieis, nio podendo prend6-los, convidaram para auxi-
lia-los o capitio do mato Jos6 Joaquim Menezes, que, vindo de Fortaleza,
ia para o Piaui acompanhado de sicirios e do terrivel Vicente Lopes. Menezes
retraiu-se, anuindo, porem, sob a condigIo de que, se os Macieis se entregas-
sem sem resistencia, nada sofreriam. Os Veras concordaram.
Entregaram-se os Macieis. Menezes passion os press aos Aradjos e Veras
que, no dia 9 de Junho de 1833, entire as fazendas Convento e Arara, entire
Quixeramobim e Sobral, simulando um ataque a escolta, os assassinaram.
Ai perdiam a vida os dols chefes da familiar dos Macieis: Manuel Carlos
Maciel e seu irmio Ant6nio Maciel.
Dessa chacina, escapou Miguel Mendes Maciel conhecido tamb6m por
Miguel Carlos Filho, que era, a 22 de Outubro de 1833, assaltado na fazenda
Passagem pelos figadais inimigos chefiados por Pedro Martins Veras. Esca-
pava, por6m, enquanto morria a irma.
Exercia o cargo de Juis de Direito da Comarca de Quixeramobim o dr.
Jbiapina, que, mais tarde, seria missionirio. Ibiapina protegia os Maciels.
Tentou dissuadir Miguel dos pianos de vinganga. Retirava-se, por6m, do
termo e passava o exercieio do cargo ao juiz leigo Ant6nio Duarte de Queiroz,
parent dos Arafjos, que iniciou a perseguilho dos Macieis.
De Miguel Carlos Maciel eram filhos: Miguel Mendes Maciel ou Miguel
Carlos Filho, Helena, Francisca e outra que perecia na luta de Passagem.
Havia, ainda, outro filho, porim bastardo, de nome Vicente, que seria o pal
de Ant6nio Conselheiro.
Sob a inspiragio de Helena, Esticio Jos6 da Gama abatia a Luciano
Domingues de Arafijo. Em represilia, os Araijos atacavam a Miguel Mendes
Maciel que perecia na luta, tendo, antes de morrer, eliminado a Manuel de
Araijo Costa, chefe do bando. Ambos eram, entio, sepultados a 1. de Julho
de 1834 na Matriz de Quixeramobim, envoltos em hibitos brancos e enco-
melrd-"- os corpos pelo vigirio Padre Frutuoso Dias Ribeiro.
.-s ~ chacina de 9 de Junho de 1833, os Macieis dispersaram-se. No
process 'le arrolamento do esp6llo de Antonio Maciel, instaurado em Quixe-
ramobim, em 1848, a requerimento de Francisco Rodrigues da Silva, fol
pedida a expedigio de carta precat6ria ao Juizo de Direito da Comarca de
Baturit6 para, no lugar Riacho do Cangati, serem citados os herdeiros Fran-
cisco de Andrade Maciel e outros que, desde 1833, se haviam mudado para 1l.
No c6digo de honra sertanejo, seria humilhante nio se desforgar, nio
exercer vindita. A pressio do grupo colocava o individuo no seguinte dilemma:
on vingar-se e provar que respeitava a vontade grupal, ou nao se vingar e
excluir-se do grupo.
As autoridades consideravam-se impotentes para reprimir a pritica do








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talilo. Fazia-se justiqa cor as pr6prias mAos, levando o cronista Joao Brigido
a exclamar: "Quem nao tiver av6s que matassem, ou f6ssem mortos, levante
o dedo!"


III A OVELHA DESGARRADA

Vicente Mendes Mactel era filho de Miguel Maciel que os Araijos mata-
ranm. De tez ligeiramente morena, vigoroso, de temperament taciturno e
suspicaz, encolerizava-se facilmente quando se alcoolizava.
Cortez, obsequioso, valente, vivia retraido. Instalava-se em Quixeramobim,
depois de abandonar a vida de vaquero. Fugia das lutas clanicas e pensava
em educar a familiar.
Vivia Vicente coin Maria Joaquina de Jesus, tamb6m conhecfla por Maria
Joaquina do Nascimento, com quem casava As 17 horas do dia 31 de Agosto
de 1834, em sua residencia na Vila de Quixeramobim. Dava-lhe ela tres
filhos: Ant6nio, Francisca e Maria.
Decorridos 17 meses e 11 dias, casava-se Vicente, pela segunda vez, cor
Francisca Maria da Concei&o, tambem conhecida por Francisca Maria Ma-
ciel e ainda por Francisca Maria das Chagas, Ps 20 horas, do dia 12 de
Fevereiro de 1836, na Matriz de Santo Antdnio, de Quixeramobim.
No dia A de Fevereiro de 1837, nascia-lhe o primeiro filho do segundo ma-
trimonio: Dorot0ia. Nascia, ainda, Rtfina, imica filha das segundas nfipcias
a sobreviver a Vicente.
Dedicava-se 8le ao com6rcio de secos e molhados, nIo obstante ser anal-
fabeto. A fortune que adquiria empregava na construcgo de casas, numa
esp6cle de mania de edificagio que bem revelava a sua ansia de classificar-se
socialmente. O resultado disso fol endividar-se, valendo-se, entao, da pro-
teqio de amigos.
Vicente instalara a sua loja na quadra chamada do Cotovelo. Conta-se
que, quando caia no jogo e na bebedeira, Francisca a segunda esposa -
escondia o apurado da loja, economies que Vicente inverteu na construaio
de casas na vila.
Em 1898, duas dessas casas ficavam na quadra do Cotovelo e pertenciam
ao coronel Jo-o Paulino de Barros Leal e aos herdeiros do coronel Te6filo
dos Santos Lessa. A terceira estava localizada na rua de Santo AntOnio e
pertencia so tenente-coronel Francisco Ivo da Silva e Sousa.
Todas as filhas de Vicente casaram-se. S6 Francisca, por6m, casada com
Lourenzo Correia Lima, teve filhos. Em 1896, do casai havia Maria, que casou
cor nJoo Barbosa Lima, resident em Cazinhas, e AmAncio Maciel de Lima,
que so achava no Amazonas, em lugar ignorado.
Falecla Vicente no dia 5 de Abril de 1855. Morria sem ver o filho mals
velho do primeiro matrimOnio AntOnio Vicente que nascera em 1828 -
aencaminhado nos estudos eclesiasticos, ou melhor, j& ordenado, honrando a
familiar dos Macieis como home ilustrado.
Era enterrado Vicente em Quixeramobim e os oficios de encomendagio









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da alma se elevaram & alta soma de 91$720 Inclusive 4$ para o sacristo
Tibbfrcio Valeriano de Castro e Slva.
A segunda esposa de Vicente sofria das faculdades mental.


IV 0 SONHO DESFEITO

Ant6nio Vicente Mendes Macel, filho de Vicente Mendes Maciel e de
Maria Joaquina do Nascimento, ficava orfoio de mae bem cedo, aos sets anos
de idade.
A madrasta Francisca Maria Maciel, considerada "mather geniosa, que
The nio poupava maus tratos", irritava-se com o marido e desforrava-se nos
enteados. Chamava o pequeno Antonlo de mandriao, e sem vergonha.
O menino aprendia a ler e escrever cor o pal do capitio Raimundo
Francisco das Chagas, que casaria corn uma sobrinha da madrasta de Ant6nio.
Desejando destinar o filho so sacerd6clo, que oferecia vantagens numa
area de seca, pois constitula carreira segura, Vicente matriculava o filho no
curso do professor Manuel AntOnlo Ferreira Nobre, que Ihe ensinava porta-
guas, latim e francss.
Reinava na Provincia a malor ignorfncia. Em sessio de 12 de Agosto de
1823, o deputado Costa Barros lamentava: "A minha provincial hA quatro
anos que nao t6m um s6 mestre de latim; nio 6 porque haja falta de mestres
mas porque nao corresponde o pagamento; 6 ele tio mesquinho que ninguem
se afoita a ser mestre de gramAtica latina, nem mesmo de primeiras letras;
e se alguem hs. que se prop6e a isto, 6 sempre um miseravel como o que eu
conhego, que anda embrulhado em um timio grosso, que esta carregado de
filhos e que nao sabe ler nem escrever. Cor efeito quem querera ser mestre
por quarenta mil reis anuais, que nio chegam nem para o necessArio de um
home s6, quanto mals para quem tiver mulhler e filhos?"
Ant6nio revelava-se muito religioso, morigerado e bom, respeitoso para
cor os velhos. Protegia e acariciava as criangas. Sofria cor as rusgas entire
o pal e a madrasta. Consideravam-no a p6rola de Quixeramobim, por ser
um mogo s6rio, trabalhador, honest e religioso.
Divertia-se pouco. Gostava de banhar-se nos rlos chelos e nos pogos.
Joao Brigido conta que, certa vez, salvou da morte a quatro companheiros,
sendo um d6les Ant6nio, que se salvou agarrado so pescogo de Joao Brigido,
apanhado com 6le numa tarrafa, num poCo estreito e profundissimo.
Nos moments de folga, la Ant6nio o Lunario Perp6tuo, a Princeza Ma-
galona, Carlos Magno e outros livros de fundo religioso que circulavam nos
sert6es.
Caixelro do estabelecimento commercial de sea pal, cor a morte deste, re-
queria Antonio o inventArio, no qual se habilitavam como creadores o Padre
Visitador AntOnio Pinto de Mendonga cor o er6dito de 400$000, e Manuel
Francisco da Cunha cor o cr6dlto de 1.2495450, ambos os cr6ditos compro-
vados por meio de promiss6rias assinadas por AntOnio a rogo do pal. 0 esp6-
Ho elevava-se a 2.031$73.










Nos autos do inventArio, Ant6nio requerla que se Ihe adjudicassem os
haveres separados ao pagamento das dividas de seu pal "visto que parte dos
bens deixados, come sejam bebidas espirituosas e miudezas, julgava lmpr6-
prio para serem entregues aos credores", conforme expresses suas.
Assentiam os interessados e o Curador das incapazes ressalvava: "Sbmen-
te coucordarei na dita adjudicap8o se nisto consentirem per um term os
preditos credores, desonerando as minhas curadas de today e qualquer obriga-
fio para o future relative as indicadas dividas".
Ant6nio tornava-se comerciante gragas & confianga que n8le depositavam
os negociantes de Aracati, de onde eram Importadas as mercadorlas.
Comegava Antonto a negociar corn 223$934 corespondentes a sen quinhio
de heranga, e mais ainda comr 2.963$750 em mercadorias velhas.
A 19 de Marqo de 1856, falecla, na Vila de Quixeramobim, corn 39 anos
de idade, a madrasta de Antonio Francisca Maria Maciel sendo sepulta-
da na Capela do Senhor do Bonfim. Morria sofrendo das faculdades mentals.
Antonio nio tinha vocagco para o coinrcio. Os neg6cios nio aumenta-
vam e as dividas cresciam. Assim 6 que 6le, a 3 de Junho de 1856, dava em
hipoteca uma casa & rua Santo Antonio, na Vila, para garantia da divion
0&0 ois contns de r~is contralda corn o negociante Manuel Francisco da Cunp',
de Aracati, o mesmo que se habilitara como credor no inventArio de Vicente.
Antonio, no dia 7 de Janeiro de 1857, as 20 horas, na Matriz da Cidade
de Quixeramobim, casava corn Brasilina Laurentina de Lima, filha natural de
Francisca Pereira de Lima, ja falecida, send testemunhas Jos6 Raimundo
Faganha e Pedio Jos6 de Matos. Oficiava o ato o vigArio interino, Padre Jos6
Jacinto Borges de Menezes.
A 3 de Setembro de 1857, Antonio e Brasilina vendiam ao eel. AntOnio
Rodrigues da Silva a casa de morada sita 4 rua Santo Ant6nio, con cinco
portas de frente e cor arma~ao de loja e balodo, heranca do pal e sogro, pela
quantia de 2.22350000. Assinava a escritura, a rogo de Brasilina, per ser anal-
fabeta, Joaquim Manuel de Lima. A casa vendida ji estava hipotecada ao
credor Manuel Francisco da Cunha.
Liquidava Antonio a casa commercial. Fracassava no comrrclo por falta
de vocaqgo, on apressava a liquidagio per outro motive, qual seja a conduta
irregular da esposa?
Antonio nao podia viver em boa harmonia com Brasilina, analfabeta e
possuidora de qualidades negatives de inteligdncia e carAter.
E' de presumir-se que a mA conduta da esposa e ausencia de vocag o
para o comrrcio tenham forgado Ant6nio a liquidar a casa commercial, a
pagar as dividas contraidas e a deixar a Cidade.
Ao deixar Qulxeramobim, fixava-se AntOnio na fazenda Tigre distant da
Cidade olto lIguas, e que, em 1949, pertencia ao sobrinho e filho adotivo de
Francisco Cordeiro Pinto. Ai abria uma escola primAria, onde lecionava Por-
tugues, Aritm6tica e Geografla.
Do Tigre, rumava Ant6nio para Tamboril, onde procurava a ajuda do
Tennete-Coronel Joaquim Jose de Castro, que todos tinham na conta de
home honrado e prestimoso. Nao oferecendo o lugar oportunldades, pedia








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Ant6nio a Castro uma carta de recomendaVg o para Campo Grande, aonde
chegava em 1859.
Castro apresentava-o ao Major Domingos Carlos de Sabola, comerciante,
agricultor e politico prestigioso, que colocou o recomendado como caixeiro.
Por Osse tempo, Brasilina dava-lhe um filho. A mulher de AntOnio apa-
rentava ter 18 anos. Alta, magra, de cor branch, cabelos pretos, rosto oval,
nariz afilado, olhos grandes, pretos e vivos, era uma mulher bonita e multo
prazenteira.
Liquidando o Major Saboia a casa de comerclo, ficava Ant6nio sem colo-
caVco. Procurava, entAo, ganhar a vida como advogado dos pobres, meio de
vida precario, mbrmente quando Brasillna Ihe dava outro filho do qual era
padrinho Jodo Mendonga Justos.
Em 1861, em conduggo cedlda pelo compare Mendonca, Anto6no aban-
donava Campo Grande com destiny a Ipli, onde fixava resldencia, Continua-
va a military no foro.
Em Ipd, frequentava-lhe a casa um furriel, que AntOnio suspeitava man-
tivesse relagpes amorosas comr esposa. Essa svspeita foi confirmada, um
dia, quando Antonio, armado de clavinote, penetrou na pr6pria casa e encon-
tron os dois amantes.
Abandonava AntOnio a mulher e retirava-se para a casa do Major Jos6
Gongalves Veras, fazendeiro que morava na fazenda Santo Amaro, no termo
de Tamboril, e entregando-se ai exclusivamente ao magistirio. Pela primeira
vez, um Maciel colocava-se sob a protegio de um Veras, descendente dos
assapsinos de seus antepassados.
Em Santa Quiteria, onde residira durante dots anos, tivera Antonio uma
aventura amorosa com Joana Imagindria, mulher profundamente mistica,
nascendo um filho que recebeu o nome de Joaqulm Aprigio.
A formagio religlosa coloria misticamente o drama de Antonlo. Havia
naufragado no com6rcio. NAo conseguira fixar-se no torrio natal. Fora traido
pela mulher. A infincia e adolescencla haviam sido as de um orfao.
Da fazenda do Major Veras, AntOnio retirava-se em 1865 para Campo
Grande. Visitava Joana, a quem recomendava o filho pela uiltima vez. Enquan-
to isso, Brasilina prostitula-se a exemplo da mae e findava vivendo da cart-
dade pfiblca, em Sobral, onde nascera.
De Campo Grande, Antonio seguia para o Crato, de onde rumava para
Paus Brancos, do municipal de Quixeramobim, onde morava a sua irma
Francisca casada cor Lourengo Correia Lima. Af, num acesso de furia, feria
o cunhado que tentava contE-lo.
De Paus Brancos, retornava ao Crato, acompanhai~do os missionirlos
que evangelizavam. Ganhava a vida como vendedor ambulante. Negociava
corn aguardente.
Em 1869, ja estava 6le em VArzea da Pedra, distant sete liguas de Qui-
xeramobim. Assumia um compromisso no combrcio local, nio lhe sendo pos-
sivel satisfaz6-lo no dia do vencimento.
Em 1871, no foro de Quixeramobim, o seu credor Jose Noguelra de
Amorim Garcia promovia agao decendiaria contra 6le. O official de justica









14 -

certificava que, no dia 18 de Julho de 1871, havia citado o r6u.
A divida montava a 1685268. AntOnio nao contestava a avio que cprela
A sua reveia. Pasava per devedor remisso. Isso repercutiria decisivamente
na vida de Antonio.
Deixando, logo depois de casado, a terra natal, deambulara pelo norte do
Estado, onde exercera diversas funcoes. Nao conseguira fixar-se em parte
alguma. Conm lar desfeito, retornara ao torrio natal. Tentava reorganizar
a vida e o resultado fora malor insucesso. Passava, agora, a ser apontado pela
sociedade como devedor insolvavel, 6le que anos antes Vendera tudo para
pagar as dividas do pat.
Os insucessos consecutivos convenciam-no, cada vez mais, de que no era
possivel viver no Ceara.
Rumava con destino a Pernambuco. Passava em Sfo Mateus (Jucis).
Em Assare, no lugar Uruct, Antonio Vilanova, ainda adolescent, lhe dava
de present um carneiro. Vestia um comlsolio e usava um chap6u de palha,
conform Informago de Hon6rio Vilanova.













0 Penitente















I EXEMPLO DE IBIAPINA

O dr. Ibiapina, que protegera os Macieis, em Quixeramobim, ordenava-se
em 1853, quando se esbogava uma reagao cat6lica.
Nas decadas de 1850 e 1860, missionarios perlustravam os sert6es. Cons-
truiam cemiterios e outras obras pias corn a ajuda do povo.
Na decada de 1860, Ibiapina realizava construe6es de casas de caridade
na Paraiba, Rio Grande do Norte e Ceara. Em Outubro de 1862, passava por
Acarad, onde granjeava fama de santo. Em 1865, inaugurava a casa de cari-
dade de MissIo Velha. Em 1868 e 1869, fundava cemittrios capelas, igrejas e
agudes em Barbalha e Milagres.
Ibiapina angariava donativos. Dinheiro, cereals, animals, tijolo e madel-
ra eram oferecidos espontaneamente. Muita gene trabalhava sem remune-
ragio nas obras pias.
Era ele recebido nas cidades e povoados debaixo de aclamag6es e flores,
ao som de misica e ao espocar de foguetes. Entrava sempre acompanhado
de cavaleiros que lam espera-lo As portas das localidades.
Entrava Ant6nio na adolescencia quando a fama taumat6rgica do Padre
Ibiapina polarizava as crenVas dos aglomerados humans do Nordeste. Conta-
vam-lhe, entio, a protevao que Ibiapina dispensara aos Macieis na luta contra
os Arafjcs.
Anos depois, vinha Antonio a conhecer o Padre Ibiapina no sul cearense.
Tinha oportunidade de ouvi-lo e ver como as massas rurais o seguiam con-
tritamente.
Depois de ouvIr os sermoes do grande missionirio, Antonlo meditava
sobre as suas desventuras. Verificava que os seus ascendcntes nio haviam
tido sossego em luta contra figadais izmigos; que Mle perdera bem cedo a
mie, ficando entregue aos maus tratos da madrasta; que casara em busca
de felicidade e fora traido; que exercera virias proflssaes sem se firmar em
nenhuma.
A formagio religiosa e o drama intimo concorriam para maior impressio-
nabilidade de seu espirito. As palavras ardentes dos pregadores andejos, como
sementes, calam em terreno ubertoso. Ant6nlo convencia-se, pouco a pouco,
que precisava isolar-se do mundo. E quanto mais refletia mais se tornava
solitArio e mais se julgava culpado.
Os sofrimentos s6 podium ser provalSes a que o submetia a divina Pro-
vidnncia. Pecador, tinha que accitar a cruz como o Filho de Deus tomara
a Dale e subira o Calvarlo.
O sonho de sen pal de classiflear socialmente a familiar e ordenar o filho
ruira por terra. Como nio se envergonharia Vicente se o visse, agora, sem
pouso certo, corn o lar desfeito!










-18 -

Os av6s deviam ter vergonha d6le que, a exemplo de Vicente, traira os
compromissos clinicos de luta e exterminio dos inimigos.
A religiao, indubitavelmente, neutralizava a conscincia clanica e ope-
rava a sublimagko do desejo de vinganga.
A orafio constituia a maneira de comunicar-se cor Deus. Para entrar
em contact com a divindade, por6m, o home precisava estar limpo de
pecado.
Ant6nfo iniciava a vida asc6tica. Fugla das mulheres, dos prazeres. A
solugo que encontrava para o seu caso nio dissentia do desenvolvimento de
sua psique.
Vivia num meio inteiramente dominado pelo catolicismo. Des-
cendia de familla tradicionalmente cat6lica. Educara-se dentro dos princi-
plos defendidos pela Igreja. Sen pai pensara mesmo em ordena-lo. Ensina-
ram-lhe a sofrer corn resignagfo, a esquecer as mis6rias terrenas para gozar
as delicias celestiais e a aceitar como provag6es divinas os golpes impiedosos
do destiny. A leitura de obras sacras mostrara-lhe como os santos haviam
sofrido e buscavam o sofrimento.
Ant6nio aprendera, ainda, que os santos sAo os eleitos do Senhor, motive
per que o calendArio estava cheio de seus nomes, lembrando os feitos que a
Igreja comemorava.
Ora, frustrada a sua aspiragpo de classificagfio social e consumada a sua
infelicidade conjugal, o espirito de Ant6nio nao podia ter reagido de outro
modo.
Se le fosse um Maciel bronco e sem instruiao, de certo, a sua reagio
seria outra. Educando-o e instruindo-o, embora deficientemente, sen pal
alterava o curso da vida de um Maciel, ajudava a cerrar as presas do felino,
a tim de nao destruir o rebanho. Um dia, por6m, a onga sertaneja exlbiria
as poderosas garras.
Depois de 1871, ap6s a agio que Ihe move Jos6 Nogueira de Amorim
Garcia, Antonio abandonava o CearA. Morria para o mundo. Dava inicio a
cenopegia.
No Ceara, ficava E!e quase inteiramente esquecido. Na assoclagio de
idlias de poucos, o sen nome aparecia apenas ligado ao escandalo" em que
era magna pars um Lovelace de coturno reuno".
Em 1872 mais on menos, deambulava nos sertoes de Pernambuco, sem
destiny certo, como se f6sse uma assombracao ou visagem.
Errava &le de povoado em povoado. Palmilhava invios caminhos. Lutava
contra a fome e a side. Enfrentava caatingas e carrascais. Identificava na
pobrcza do meio sertanejo, na misbria das populag6es abandondas, a humil-
dade evang6lica. As massas que cercaram Jesus nas andancas pela Galileia
deviam ser iguais as que ~le deparava atraves do sertao.
Arrimado ao bordAo de peregrino, pregando o Evangelho nas povoavdes,
em contact corn s humildes, AntOnio superava o complex de inferioridade.
Adquiria autoridade, que deixava de conquistar por nao haver abraeado a
carreira eclesiastica. Realizava, assim, a aspiragao paterna a seu modo.
Nos seus monologcs, julgava-se Antonio a manifestag.o da vinganga








... 19 -

divina. Um Maciel surgla como elelto do Senhor para salvar o sertio. Nio
podia haver maior honra para um mortal. Dens, mais uma vez, evidenciava
a verdade proclamada per Seu Filho: os humildes serao exaltados.
Deus nio desprezava os sens filhos, nem deixava de tender is suplicas
dos que invocavam o Sen nome.
Ant6nio recordava o _pis6dio do fusilamento de Eustiquio Jos6 da Gaina
que, nas lutas entire Macieis e Aralijos, abaters a Luciano Domingues de
Araijo.
Condenado a pena de more por fuzilamento, Eustiquio, com os olhos
vendados f6ra colocado debaixo da "Cajazeira da Liberdade", na Praga Santo
Ant6nio, bem pr6ximo do Cruzeiro da Matriz de Quixeramobim.
A voz de f6go, o condenado gritara: "Valha-me o Santissimo
Sacramento!" Nenhum projetil atingira o alvo. Outra descarga, e o mesmo
resultado. A terceira descarga confundira-se cor o ribombar do trovio. Escu-
recera o tempo e a Vila f6ra agoitada per forte tempestade. Dens castigara,
assim, os que nio ouviram o brado do justlcado. At6 a cajazeira jamais fru-
tificara.
Lembrava-se Antonio do que se dera com o dr..Ibiapina, quando Jutz de
Direito de Quixeramobim.
Submetera-se a junr um home acusado de homicidlo. Recusara-se a
escolher defensor, afirmando ao Juiz que seu advogado era Dens que estava
present. O dr. Iblapina nomeara-lhe defensor dativo. Na ocasilo em que os
jurados se reuniram para o veredicto, um deles sentira-se mal e pedira para
confessar-se. Ao padre, revelara ser o autor do crime imputado ao r6u. O
padre nio quisera trair o segredo da confissao 4 chamara o Juiz e os jurados
que, em face da confissio, absolviam o acusado.
Em Quixeramobim ocorrera tudo isso. Era bem possivel que um filho de
Quixeramobim f6sse o enviado do Senhor para levar ao redil as ovelhas tres-
malhadas.
Comparava-se ao Padre Iblapina, a quem procurava imitar. O Padre
tamb6m se fizera religioso depois de ter casado.


II A VINDA DO MESSIAS

A religion das populacSes mestigas nordestinas nIo passava de fetichismo,
formado pela contribuigSo do negro, do indio e do portugus, os dois primel-
ros em estidio inferior de cultural e o iltimo profundamente supersticioso
em part devido a influencia mussulmana.
As populat6es sertanejas tinham, como ainda hoje t6m, subjacente a
m2entalidade primitive, uma de cujas tendencias consiste em atribuir aos
series invisiveis o poder de solucionar os problems da tribo.
Nas regi6es s&cas, onde a vida depend da Agua acima de tudo, as ceri-
mnnlas religiosas giram em torno do fazedor de chuva.
A fisiografla da regiao nordestina excta as populagces. O sertIo asseme-
iha-se a um "forno cremat6rio atigado pelo diabo para queimar o corpo e a
alma do sertanejo".









-20.-

A terra pobre, negando Agua e pio, em razAo dos fen6menos an6malos de
sua meteorologia, criava condie6es propicias ao resvalamento para o sobre-
natural, para a mistica exaltacio, para o apelo constant ao milagre.
A religio rural consistia, come ainda hoje consiste, na direta interfe-
rencia dos series invisiveis e na consequente explicac o dos fen6menos deter-
minados pelos mesmos poderes sobrenaturais.
A reitgiio rural consistia em jejuns rigorosos, creneas quillhsticas e ora-
g6es aos santos de devogio.
Durante a quaresma, as populag5es sertancoas compenetravam-se do
martitio da Palxio. Jejuavam rigorosamente.
As "Miss6es Abreviadas" circulavam pelos sert6es. Constituiam reposit6-
rio de fatos reveladores do poder divine e de castigos a que estavam sujeitos
aqueles que se desviassem da santa religiao.'
Na ansia de justiga, o sertanejo criava hist6rias de escravocratas que
eram vistos em suas casas,grandes mal assombradas a pedirem penitencias e
orag6es a fim de salvar a alma que penava.
Corriam hist6rias de Jesus Cristo quando andava pelas terras do sertio.
Havia nelas uma "ilusio de bondade", uma "d6ce esperanca do paraiso". A
tradiqo oral consagrava como her6is os pobres, os desamparados e os
humildes.
Circulavam hist6rias de milagres e apariS6es da Virgem e dos Santos, em
certos lugares. Eram imagens que apareciam, desapareciam inexplicavelmente
e findavam per retornar ao lugar primitive, onde se eregia logo uma capela.
O misticismo sertanejo manifestava-se na eregfo de santurrios que se
transformavam em lugares santos, atraindo a atenglo das populag6es aban-
donadas, cuja misaria os coloria de lendas. Para, les 6 que se voltavam,
quando as calamidades climicas as ameacavam de more.
fsses santuarios eram fundados por homes piedosos considerados santos
come aquele Monge que, "sem mats roupa que uma tdnica que cobria multos
cilicios e mortifica"6es corporals, corn um Santo Crucifixo e uma imagem
da Virgem Maria", perlustrava os sert6es.
Em 1819, na Serra do Rodeador, no Bonito, Silvestre Jos6 dos Santos
pregava a ressurrei~io de el-rel d. Sebastiao.
No Ceari, haviam aparecido os Cerca-Igrejas e o Padre benze-cacetes.
Em 1850, no Crato, surgia a companhia dos Serenos, penitentes que se flage-
lavam, pois missionarios cat6licos haviam profetizado o pr6ximo fim do
mundo.
O misticismo nordestino quase nio difere do misticismo eslavo. Nao ha
diferenga entire o que se passa nos sert6es nordestinos e o que se pass na
Rfissia. Mestiros nordestinos e brancos eslavos provam, assim, que a question
do misticismo nio deve ser apresentada em terms de psiquiatria comparads
e, sim, em terms de cultural.
Na Rtssia, sob o nome de Deus Sabaoth, de Cristo e de Mie de Deus,
inimeros penitentes peregrinavam cercados de siqultos de fervorosos ado-
radores.
As representacgcs das seitas nio diferem das representag es tradicionais






21 -

da Igreja. As pessoas misticas sao as mesmas. O ideal ase6tico e o mesmo. 0
que distingue a seita da Igreja 6 que o ideal, em lugar de permanecer pla-
t6nico on reservado a alguns se imp6e a todos integralmente, diz Robert
Hertz. A seita da a palavra ao povo reunido e faz dele o principal oficiante
do culto. Isso satisfaz a necessidade que Ele experiment de evadir-se do real.
A seita eleva o campones acmha do seu senhor, de um salto, fazendo dle -
um servo um Cristo.
Falaley e Chadkin, na Russia, pregavam a more come a fmica salvagio.
A desgraga do povo criava condigqes para aceitagio da doutrina. A morte, na
verdade, constituia nma libertagio para a massa rural espoliada.
Como em Pedra Bonita, no subterrineo pr6ximo do rio Gerevozinka, no
departamento de Perm e em Ternovo, as vidas sao sacrificadas, imoladas.
O misticismo 6 produzido per determinado estado social e mental. E'
plant que germina no solo social em efervescencia. Ora, na Rdssia imperial
come no Brasil, as condig6es da vida camponesa prolongavam indefinida-
mente essa efervescencia. Logo, nio podia haver diferenga entire os fanAticos
brancos da Rfssia central e os fanaticos mestigos do nordeste e do centro
do Brasil.
Nesses acontecimentos nio se lobriga, apenas, o fanatismo religioso. Des-
cobre-se facilmente o forte desejo de justica social.
Em Pedra Bonita em 1832 os faniticos pensavam que os caes imolados
ressurgiriam, no dia do desencantamento de D. Sebastido, come valentes
drag6es para devorar os proprietaries.
"A idi6a de comunismo, id6ia do gozo do alhelo trabalho, transpira no
melo de incultas selvas do ameno Pernambuco, e 6 afagada por toscos e
rudes camponios, que jf ambicionam a pratica daquilo cujo nome nem ao
menos conheciam", diz Xavier de Oliveira.
Nos sertfes nordestinos, a massa camponesa esperava a vinda do Messias,
quando Ant6nio Vicente Mendes Maciel vagava pelas terras semi-Aridas na
qualidade de samples e humilde penitente.


3 A Catequese

As misses de catequese percorriam os sertoes. Constituiam factor impor-
tante na formag o de "fanaticos centralizadores de setarios".
As populabces sertanejas vinham ouvindo as pr6dicas dos missionirmos
durante as misses e visits aos SantuArios, quando se deslocavam para ver
de perto os milagres, os efeitos do poder divino.
Os missionaries eram acompanhados per piedosos sertanejos, principal-
mente per mulheres. Os sertanejos abandonavam as fainas da lavoura e do
criat6rio e marchavam so lade dos pregadores.
As misses eram pregadas em frente das igrejas e capelas. Armavam-se
latadas nas adjacencias, onde homes, mulheres e criangas dormiam.
Havia quem abandonasse a familiar e doasse tudo A Igreja, abragando a
vida de peregrine. Tinha, entio, permissio de esmolar, de angariar dqnativos
para a construaqo de casas de caridade, cujas.dirigentes eram as beatas, mu-







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Iheres que usavam habito ainda que nio assumissem compromisso corn a
Igreja e tivessem a liberdade de deixa-lo quando quisessem.
Ant6nio passava dos sert6es de Pernambuco aos de Sergipe. Aparecia na
cidade de Itabaiana, em 1874. Esmolava. Seguiam-no os primeiros fieis, um
dos quais "carreXava o temple nico, entio, da religion mini~scula e nascente:
um oratorio tosco, de cedro, encerrando a imagem de Cristo".
Em 1876, chegava Ant6nio & vila de Itapicurd de Cima. Corriam os mais
extravagantes boatos a respeito de sua vida. Comegava o process de mitolo-
gizaglo.
Penetrava Ant6nio nos sertoes baianos. Obrigava as mulheres a cortarem
os cabelos e a queimarem chales, sapatos e objetos de luxo condenados pela
religiao.
Nas primeiras dicadas do sdculo XIX, a religiao cat6lica atravessava um
period de decad6ncia. Nos anos de 1833 a 1840, D. Joao da Purificago Mar-
ques Perdigio, bispo de Olinda, no sen "Itinerario das Visitas feitas na sua
Diocese", conta que, a 23 de Janeiro de 1837, falou "ao padre Joao Gualberto
Luis de Barros, capelio do engenho Frecheiras, a quem mandel chamar para
Ihe estranhar o seu mau procedimento, pelo qual o quis suspender... Deixei-o
contudo recomendado ao senhor do engenho Noruega, para, no caso de nio
haver corregio, proceder contra 6le como Ihe assegurei".
No dia 23 de Agosto de 1839, em sua viagem pelo CearA, mandava cha-
mar o vigirlo da freguezia de Cascavel e censurava-lhe a mancebia.
O Conselheiro Joaquim Jos6 Pinheiro de Vasconcelos, na Fala de aber-
tura da Assembleia Legislativa da Provincia da Bahia, a 2 de Fevereiro de
1843, deplorava o estado dos temples, das matrizes das par6quias f6ra da
capital, em razIo da incdria dos par6cos. As quotas de consignagco nao eram
aplicadas. Sugeria, por isso, uma Lei Provincial pela qual se nomeasse "para
cada Comarca um visitader eclesiastico, on secular, que promovesse e fisca-
lizasse o reparo e asseio das matrizes, fazendo empregar cor proveito as
quantias consignadas e agenclando dos respectivos paroquianos algumas
esmolas, que coadjuvassem tals obras..."
Na Fala de 8 de Fevereiro de 1844, o mesmo Conselheiro reiterava as
acusagoes ao clero desidioso e desonesto que nao prestava contas dos dinhei-
ros recebidos.
Antes de 1874, Ruy Barbosa considerava o clero "atrasadissimo, ignoran-
te e mundano, sem autoridade moral sobre a mats ilustrada fragio dos cren-
tes, indulgente ctmplice das superstiqtes populares".
Atravessando os sert6es, observava Antonio a falta de zelo pela religiao.
As paroquias permaneciam, muitas vezes, abandonadas, enquanto os vigarios
levavam vida dissoluta. Por outro lado, via que alguns par6cos gostavam que
dle pregasse em suas igrejas e capelas, pois era uma maneira de congregar
o povo.
Antonio concitava a massa sertaneja a construir temples e cemit6rios.
Auxiliava as families pobres corn esmolas recebidas.
Ocupando o pilpito corn autorizagp o dos padres, AntOnio sentia que as







83-.

multid6es anslavam por um mundo melhor, e que o c6u constitula para elas
a supreme aspiracio.
A simplicidade e a linguagem persuasive de Antonio concorriam para
o 6xito de suas predicas. Estabelecendo a comparacio entire o vigario e o pe-
regrino, a massa sertaneja verificava que este levava a verdadeira vida de
enviado de Deus. As seas virtudes constituiam motive de admira~go.
O conflito moral de Antonio, oriundo do adultirio e do fracasso na classi-
fica~o social, era sublimado e projetava-se na vida sertaneja em forma de
reivindicac6es 6ticas. No combat ao Mal e ao Pecado, revelava AntOnio o
espirito de luta dos Macieis.
Nao se ordenara como queria o pai; mas vivia como virtuoso missionario
secular. Ocupava os p6lpltos das igrejas. Construia temples e cemitfrios como
Ibiapina. Dirigia o rebanho como zeloso pastor. Concretizava, assim, o sonho
de Vicente, embora rompesse os compromissos clanicos e, cristimente, acon-
selhasse a dar a outra face para a bofetada.
As suas deambulacges comegavam a despertar a atengfo das autorldades
ben como a provocar a reacao da parte do clero baiano, que, em face do
prestigio crescente de Antonio, o denunciava como criminoso no Ceari,
influindo no animo das autoridades civis no sentido de prende-lo.
Deixava AntOnio crescer a barba e os cabelos. Vestia uma tinica de azulio
pouco asseada. Alimentava-se tenuemente. Acompanhavam-no duas professo-
ras. Vivia a rear tergos e ladainhas.
Em 1876, prendiam-no em Missio da Saide, term de Itapicuri. Envia-
vam-no escoltado para Salvador, ende as autoridades policiais o encaminha-
vam para Fortaleza.
Em oficio datado de 5 de Junho do mesmo ano, Joao Bernardo de Ma-
galhies, Secretirio da Policia da Provincia da Bahia, dizia ao colega do
Ceara que Antonio, "em suas pr6dicas" plantava o desrespeito ao vigario da-
quela freguezia..." ;Pedia para nio deixar Ant6nio voltar & Bahia, mesmo
que nio f6sse criminoso, pois a volta dile traria "certamente resultados desa-
gradaveis pela exaltac;o em que ficavam os espiritos dos faniticos cor a
prisio do seu idolo".
Em oficio de 15 de Julho, o Chefe de Policia do Ceari dr. Vicente de
Paula Doscais Teles comunicava ao Juiz Municipal de Quixeramobim a
prison de Antonio.
Em Quixeramobim, entretanto, Ant6nio era posto em liberdade pelo Julz
Alfredo Alves Mateus, conforme oficio diste ao Chefe de Policia, datado de
1.o de Agosto.
AntOnio conduzia consigo uma pequena caixa de flandres com a image
do Crucificado. Levava umra vida asc6tica. Nao comia came. Dormia is vezes
no pr6prio chio sem lengol nem travesseiro.
"Se alguem the dava, per exemplo, uma esmola de 45, tirava mil reis,
entregava o resto, dizendo:
"- E' multo dinheiro, nio precise mais".
Demorava Antonio alguns dias em Boqueliro, pr6ximo da capital cea-








24 -

reuse, em casa de Jos6 Vieira, cuja mulher era parent de Ant6nlo. Seguia
depois para o Crato.
Em 1877, a Folhinha Laemmert ji falava d61e na Bahia. Vagueava pelos
sert6es de Curagi, estacionando de preferencia em Chorroch6.
De 1877 a 1887, errava pelos sert6es, em todas as direg6es, chegando mes-
mo a alcangar o litoral, em Vila do Conde.
Em 1879, viam-no nos arrabaldes da cidade de Lagarto. "Piido, e magro
de uma magreza esquel6tica alto, corn os cabelos compridissimos, enfia-
do em urma tnMica azul, a cuja cinta estava atado um cordio de trade fran-
ciscano, do qual pendia um crucifixo, ele estava cercado de enorme multidAo
que, em c6ro, a hora em quo apresentamos, acabava de cantar a ladainha
de Nossa Senhora.
"Na cabeleira, via-se o pulular dos piolhos: era digno de fazer inveja
iquele bemaventurado S. Labre, que a igreja canonizou s6 por se ter deixado
viver em cima de um monturo...
"0 que, por6m, Ihe dava o tom a fisionomia era o olhar. 0 olhar bolava
naquela abstragfo vaga, naquela expressio de cisma indefinivel, que carac-
teriza os misticos, cs sonhadores, os alucinados. Fitava um ponto do espago,
olhando sem ver, absorvido cm 6xtases.
"Dirigimos-lhe saudaS6es e perguntas. A nada responded. Apenas de
uma vez, como insistissemos, ele tomou uma attitude inspirada e comunicou-
nos esta novidade:
"- Deus 6 grande!
"Eu nio me contive. Ja um pouco aborrecido cor o sujeito, dispuz-me a
trogar:
"- De que tamanho?
'O Conselheiro volveu para mim rapidamente uns olhos de fera. A bon-
dade, a abstragio habitual cederam lugar a uma expressio tal de surprise e
c6lera, que me senti gelar de medo, "diz alguem que se esconde sob as iniciais
de C. F., em "A Repfiblica", de 10-9-1897.
Voltando ao cenario de suas atividades anterieres, novas reclamag6es
V surgiram contra 6le. 0 seu prestigio, porem, assumia tal proporgio que parte
do clero tinha que tolera-lo.
Antnio prestava infimreos servigos a Itapicurd, Chorroch6, Capinm Grosso
e a diversos povoados onde construia capelas e cemiterios: Transformava
.- uma fazenda na vila de Bom Jesus.
As massas sertanejas, nao hesitavam entire o missionArio secular s6brio,
casto e macerado, e a part do clero "preocupado inicamente em political,
rixoso, amancebado piblicamente, nao procurando o engrandecimento de
suas pardquias nem da cultural religious de suas ovelhas". Ant6nio pregava
contra a mancebia. As mancebas, apavoradas, abandonavam os par6cos e
vinham, contritas, pedir perdao a Antonio.
Em 16 de Fevereiro de 1882, o Arcebispo D. Luis, da Bahia, em circular
aos pardcos, recomendava que nao consentissem quo AntOnio pregasse, bemr
come nio permitissem aos paroquianos que o ouvissem.
Luis Gonzaga de Mlacedo delegado da Vila de Itapicurft em oficio







25 -
de 10 de Novembro de 1883, dizia ao dr. Domingos Rodrigues Guimaries -
Chefe de Policia da Bahia que ha doze anos "pouco mais ou menos, corn
pequenas interrupc6es, fez (Ant&nio) sua residencia n6ste termo".
O delegado de Itapicurfi comunicava que acompanhavam AntBnio cen-
tenas e centenas de pessoas, que ouviam e cumpriam suas ordens de prefer6n-
cia as do vigario da par6quia.
Ant6nio construia, em 1886, a capela de Bom Jesus, onde trabalhavam
as expenses do povo muitos homes, inclusive cearenses, nos quals Wle depo-
sitava a mais cega confianga. 0 cearense Feitosa chefiava os operarios. O
arraial constitula uma praga de armas.
Surgia uma desinteligencia entire o grupo de AntBnio e o vigario de
Inhamnbupe. O vigirio de Bom Jesus mandava chami-lo para pbr termo. a
tal estado de coisas, e Antonio mandava dizer que nio tinha neg6cios
cor ie.
O delegado Gonzaga considerava Ant6nio "malcriado, caprichoso e so-
berbo". Confessava impotencia ante a forga do missionario que era adorado
"como se fOsse un Dens vivo".
0 Arcebispo D. Luis, em 11 de Junho de 1887, em oficio, solicitava pro-
vid6ncia contra Antbnio, que pregava "doutrinas subversivas, fazendo um
grande mal A. religiAo e ao estado,... procurando convencer de que 6 o
Espirito Santo, insurgindo-se contra as autoridades constituidas, is quais nio
obedecia e nmnda 6ssobedecer".
Jodo CLpistrano Ba:dsira de Tela, em oficio de 15 do mesmo mes res-
pondia ao Arcebispo, informando que havia pedido ao Ministro do Imp6rio a
entrada de Antonio no Hospicio de Alienados, na Corte, em virtude de estar
atacado de monomania religiosa.
O Conselheiro Bario de Mamor6 Ministro do Imp6rio respondia
que nEo havia lugar. no Hospicio Pedro II, devendo Ant6nio ser internado no
Asilo de Alienados de Salvador.
Aumentando a perseguigqo, Ant6nio passava-se para al6m do Sao Fran-
cisco, apanhando a divisa das Provincias.
O vigario de Lagato, em 1887, exprobrava o procedimento dele e conci-
tava-o a deixar a vida errada. Antonio respondla-Ihe: "- Bom! Retiro-me".
Descalcava uma de suas alpercatas, atirava-a para long de si e exclamava:
"- Algum dia, hei de voltar por esta alpercata".
Veiculava-se que Ant6nio fora preso em Pernambuco e conduzido a Re-
cife, onde o maltrataram antes de ser posto em liberdade.
Aparecia Ant6nio em Fortaleza, em 1887. Viajara pelo interior. Visitava
Joio Brigs'o, seu companheiro de adolescencia, colega de escola e insepara-
veis nos banhos de pogo.
"-E agora, Maciel, pergutava-Ihe Joio Brigido, para onde val?
Cumprir uin voto a S. Francisco, que fiz na Bahia.
Mas aqui?
Nao. Nos sert6es de Canind6. Depois segulrei para onde me chamam os
mral aventurados."
Despedia-se de Joio Brigido. Pagava a promessa. Deixava o torrio natal
para nunca mais voltar.













0 Conselheiro















I A NOVA CANAAN

De retorno do Ceara, penetrava Antonio na Bahia. Alguns padres, em
virtude das ordens do Arcebispo D. Luis, ndo consentiam que Rle pregasse
on fizesse via-sacra. Em Natuba, proibia-lhe o vigario que consertasse a
igreja.
A reagVo clerical despertava em Antonio a c61era hereditrisa. Assumla
ele, entio, "uma feigio combatente litteiramente nova".
Em Bom Conselho, queimava as tibuas, onde estavam afixados os edl-
tais para cobranga de imptotos. De Salvador, segula uma forga para pren-
di-lo. Em rMIssete, porim, la desbaratada.
Prevendo perseguig6es, partia Antonio para o norte. Depois de percorrer
terras de Alagoas, Sergipe, Pernambuco, e Bahia, chegava a Canudos.
Canudos era uma fazenda de grande extensdo pertencente a d. Mariana
Fiel de Carvalho. Achava-se desocupada desde 1891. Encontravam-se em
Canudos as estradas de Geremoabo, Uaud, Cambaio, Ros&rio, Chorroch6 e
Curral dos Bois. Em Canudos pernoitavam os comboleiros.
A fazenda Canudos estava localizada numa regido esteril, onde se ele-
vavam serras pedregosas, em cujas vertentes se estendlam caatingas. Para I1
chegar, o caminhante teria de atravessar uma zona sem Agua e sem recursos.
Agora, Ant6nio ndo se corsiderava mals o peregrine, o missionario secu-
lar, o evangelizador que palmilhara o sertio no desempenho de miss~o divi-
na. Julgava-se o Conselheiro.
AntOnio ia defender-se do inimigo. Convocava, per Isso, em name de
Deus, a povo sertanejo para a construigo da cidade santa. E as populai6es
atendiam ao apelo de Conselheiro, numa manifestaglo de horror ao isola-
mento, impelidas polo instinto de conservagfo em face do desert ameagador.
As massas sertanejas tinham necessidades imperiosas. Ignorando as
causes dos pr6prios males, recorriam As forgas sobrenaturals. Nas respostas
que davam &s solicitagies exteriores, predominavam as no6oes mais sumarias,
os instintos mats primitives, a fM cega, a incapacidade de lucubragOes e a
imaginagio espontinea. 0 caldo de cultural propiciava o surto da taumatur-
gia. As massas camponesas fatalstas e passivas agitavam-se aos acenos dos
milagreiros que Ihes verbalizavam os anseios obscures e lhes infundiam
esperangas.
Acorreram a Nova Canaan o pardo, a tapuia domestlcada, o preto, o eu-
riboca, o mulato, o cabra e o branch, today a descendnelia resultante da mis-
cigenalgo nordestina.
Antonio estava certo que escolhera o local ideal para a construcio da
cidade santa. No Ceara, na mesma dpoca, Padre Cicero realizava tambem









30 -
os designios divinos em Juazeiro, parada obrigat6ria dos que viajavam pelo
vale do Cariri.

11 O'JAGUNCO
Do caldeamento de racas que se processor is margens do Sio Francisco,
resultou o barranquelro ou jagungo.
No seculo XVII, a regiao siofranciscana assisted is lutas contra os indios
confederados, os negros aquilombados e os grupos de mamelucos que ataca-
vam fazendas c se apoderavam dos gados.
Na luta contra o aborigene, o escravo e o mameluco, os fazendeiros man-
tinham milicias Irregulares em seus feud6s, em que predominava o cabra.
A Bahia tivera lutas feudals entire famillas poderosas que cultuavam a
vendetta.
Os homes que acorriam pressurosos ao chamado do Conselheiro eram,
em grande parte, descendentes dos que pelejaram ao lado dos Militses e
Guerreiros, dos Seixas e Brnd6es, families nimigas que ensanguentaram os
sertdes balanos.
O jagungo constitula tipico produto do estado de cultural dos sertdes
nordestinos.
Sflvio Romero diz muito bcm que o portuguds, o mazombo, o praeiro, o
branco, o fazendeiro, ao se revestirem do gibio, das perneiras e do guarda-
peito, adotaram a alma do curiboca.
Na acepqdo etnol6gica, jagungo 6, o mestigo sertanejo "que soube acomo-
dar as qualidades viris dos seus ascendentes selvagens, indios on negros as
eondie6es socials da vida livre e civilizaago rudimentar dos centros que
habitat .
Na acepgio vulgar, jagungo 6 o "individuo que vive habitualmente envol-
S vdo em desordem, por conta pr6pria ou alheia".
Revelavam-se, no jagunco, Inteirigos, "o carAter indomavel do indio, o
gosto pela vida errante e n6made, a resistEncia aos sofrimentos fisicos, i
tome, A sede, as Intemp6ries, decidido pendor pelas aventuras da guerra".
Firmeza de carter e de convicgio, intolerAncia e beliccsidade, eis as qua-
lidades primacials do jagungo que, vivendo isolado da civilizagio Itorinea,
era um obnubilado e, portanto, desligado dos "centros motors da conquista
civilizadora".
A religlio do jagunno nio passava de um misto de animismo indio e fe-
tichismo africano, nio esquecendo o contribute de superstil6es do portuguds.
O sentimento religioso do jaglumo era o m6do, o terror profundo e a inquie-
tagio vaga diante de am poder misterioso e desconhecido.
A imaginaiio do jagungo levava-o a acreditar em cidade encantadas.
"Os norros cuja ossatura se desvenda, caprichosamente repartidos, semelham,
de fato, grandes cidades mortas entire as quais o matuto passa, medroso, sem
desfitar a espora dos ihals do cavalo em disparada, imaginando ia dentro,
uma populaCio silenciosa de almas do outro mundo", diz Euclides da Cunha.
Era essa a gente que acorria a Nova Canaan, ao apelo do Conselheiro e
em busca de salvaqio.










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Conselheiro estava content. O povo sertanejo atendia ao seu chamado.
A sua imaginagio transfigurava a paisagem. "Aquela terra nio era senio a
nova Canaan. Aquele povo era chamado a realizar a obra divina. E Ble la
convoci-lo, ia revelar-lhe os altos destinos que Deus Ihe reservava; ia levi-lo
a construgao da cidade santa, da nova Silo, onde templos soberbos se de-
veriam erguer; ia armi-lo para repelir o inimigo, para su~b'gar os novos
filisteus!".


III A ORGANIZAgAO SOCIAL

A noticia da fixagio de Conselheiro em Canudos espalhava-se pelos
sertoes. Agitava-se a plebe rural Homens, mulheres e crianoas abandonavam
as suas choupanas e partiam em busca da terra santa.
Cada dia que passava mais aumentava a populagio. Os que chegavam
aboletavam-se debaixo das arvores e das latadas. Era uma populagdo desnfi-
trida, doente, sem a minima noeio de higlene. Reuniam-se em Canudos "A
espera da voz de Deus, que desse a todos um quinhao de felicidade, de abas-
tanca".
Conselheiro ia aos poucos impondo um regime social compativel cor o
nucleamento da populaCio sertaneja, estribado, naturalmente, na sua ele-
mentar concepsao de vida social. Aparecia, entio, como home bem humo-
rado e simpatico. NAo falaya, por6m, muito. Usava, multas vezes, gestos em
vez de palavras.
Em Canudos, tudo obedecia as ordens de Antonlo. Cada faniillia tinha o
direito de conservar sua criacgo e rogado. No ato da chegada, cada um entre-
gava metade do que possula. Os desvalidos eram alimentados. Os demais vi-
viam do seu trabalho. Conselheiro recebia esmolas que lhe chegavam de
vfrios pontos da Bahia e de outros Estados. Conseguia adquirir generos all-
menticios a baixos pregos. Circulava dinheiro do Impirio e da Repiblica.
Embora o dinheiro nao tivesse grande valor, ConselheIro mantinha no cofre
as economics da comunidade. Havia, tamb6m, uma especie de vale, impresso
c garantido por Antonio Vilanova qua era proprietirio de ums cas camercia!
em Canudos. Esse vale tinha franca aceitago nas localidades vizinhas. Os
ladrocs eram press e eizviados autorid a s bala-s. As me-etrir.s err.ri
de pirtsdas.Nalo se permitia o uso de cachaqa. Os que viviam em concubi-
nato eram casados per ocasiio das visits do Padre Sabino, vigArio de
Cumbe, que tinha casa em Canudos, onde celebrava, casava e batizava na
pr6pria igreja construida por Conselheiro.
Canudos dava bon lucro ao Padre Sabino. IIon6rio Vilanova declarou-nos
que o Padre Ricarte, vigario de Pombal, desejava a division da freguezia do
Cumbe, a fim de Canudos ficar fazendo part da freguezia dble. Chegou
mesmo a discutir o assunto corn Consellheiro que asseverou nada tcr a ver
comn caso.
Conselheiro possnia, apenas, um cavalo para suas viagens. Quando recebia
esmolas para a Igreja e para si pr6prio, separava-as escrupul2samente, d's-
tribuindo as que Lhe eram destinadas entire os cegos e aleijades.









32 -

Era de uma humildade a toda prova. Esta carta dirigida a Felisberto de
Morals 6 eloquente atestado.
"Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo Amparo, 26 de Abril de 1893
Illmo. Senr. Felisberto de Morais Pego-lhe que faga-me a caridade de
mandar uma res de que tenho precisio. Creia, nutro a esperanga que nio
terei recorrido de balde a sua benevol8ncia, acolhendo corn caridosa intencio
a satisfacio do meu pedido e de cuja caridade Ihe ficalei maito agradecido.
Sou de Va. Sa. Atencioso Antonio Vicente Mendes Maciel".
Canudos crescia e Conselheiro ia organizando melhor a populacqo. Pre-
vendo lutas futuras, impunha a discipline military. Joao Abade, auxiliado por
VicentAo e outros chefiava o servigo de seguranca, de manutencao da ordem.
Conselheiro dirigia o servigo religioso cercado de doze ap6stolos. Estabe-
lecia o jejum obrigat6rio nos dias escolhidos pela Igreja. Consentia que mis-
sionirios visitassem o arraial e realizassem santas misses. A noite, mandava
tirar o terco.
Pedr.o e Manuel Ciriaco sobreviventes de Canudos afirmam ao
reporter Luciano Carneiro que Antonio Conselheiro nio era contra a Igreja
, Catica. Acatava os padres. Respeitava os Sacramentos. Jamais oficiava ce-
rim6nia religiosa privativa de cl6rigo. NAo se considerava um Deus. A quem
se ajoelhava para tomar-Ihe a benCio, dizia: "Levante-se que Deus 6 outra
pessoa". 86 pregava o ben e s6 fazia o bcm. Construia as oelhorcs igrejas
da region. Combatia o roubo, a mentira, o homicidio. Impedia que vivessem
juntos casais nto casados na Igreja. Nao tolerava o amor livre.
Conselheiro vivia modestamente. Passava horas em recolhimento no seu
quarto. Alimentava-se, frugalmente. Dormia numa cama de varas, tendo
como colchio inma esteira de palha de ouricuri e para cobrir-se um cobertor
de i~ muito fina. Por baixo da sotaina de azulao, usava camisa e ceroula de
algodiozinho. O cabelo a Nazareno era aparado aos stbados. Sala pelas fa-
zendas vizinhas em peregrinavgo. Dirigia construgao de igrejas. Mantinha
um secretirio-- LeAo da Silva a quem ditava o seu pensamento sobre
religiao, provavelmente, pois ninguem tinha noticia do contefido dos cadernos
que, em sua maior parte, desapareceriam na voragem da guerra.
Conselheiro, durante o dia, fiscalizava as obras da igreja. Dava esmolas.
Andava pelo arraial acompanhado de um carneiro que, por ocasi o de um dos
combates, era varado por bala, indo morrer aos pes do Conselheiro, que ofe-
recia a care ao povo. Ninguem, por6m, tocava nela.
Canudos assemelhava-se a um acampamento de beduinos. A louga era
de barro. As casas de taipa cobriam-se de rama. de coirana. As r&des con-
feccionavam-se de fibra de caroa. De algodao se faziam as roupas e de couro
erfi as alpercatas.
Conselheiro anunciava o Juizo Final. As misses que percorriam os sert6cs
haviam formado uma mentalidade quili'tstica. Nas suas prega6es, Conselhei-
ro profetizava. "- Da era de 1950 em diante ficara um s5 home governan-
do, assim como na Igreja s6 temes um Papa em todo o mundo".
Conselheiro extremava-se em mostrar invencivel horror A beleza, que
consIderava "a face tentadora de Satan". Nio olhava para as mulheres. Fa-









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lava de costas mesmo As beatas velhas.
Canudos, de fazenda que fora, constituia, agora, povoado. Havia crescido
gragas a invasio das terras vizinhas abandonadas. Transformara-se num
ativo centro de comircio.
Os comerciantes de Monte Santo, Cumbe, Uanu e outras localidades vl-
zinhas, segundo informagvo de Hon6rio Vilanova, tinham inveja de Canudos,
porque os comerciantes do arraial nio pagavam imposto e prosperavam.
Os vendedores ambulantes, que lam ter a Canudos, invejavam os irmifos
Vilanovas, cujo estabelecimento commercial era o maior e o mals movimen-
tado do arraial.
Conselheiro, ledor do Novo Testamento, vendo a populagio crescer, des-
cobria semelhainia entire a sua atuag~o e a de Cristo. Hon6rio Vilanova ouvlu
estas palavras da b6ca de Conselheiro: Quando Jesus Cristo andava pelo
mundo, era acompanhado por 5 mil pessoas, havendo mais gente ruim do
que boa. Parece que, em companhia do Bom Jesus, jA t6m o mesmo nfmero
de pessoas.
O sertanejo sempre considerou o ladrao o mais detestavel dos criminosos.
Em Canudos, Conselheiro punia severamente os ladr6es. Certa vez mandou
matar uns gatunos que se apoderaram de muares, e alguns d6sses ladr6es
se tinham na conta de conselheiristas.
Canudos ia, assim, vivendo sob a vigilancia de Conselheiro. Havia gado
para o aCougue. Os palois continham provis6es. As rogas estavam plantadas.
Enquanto isso, a inWudncia de Conselheiro se estendia pelos sertoes, aumen-
tando, por isso, o temor dos fazendeiros e das autoridades.


IV A REACAO DA IGREJA

Os vigirios sertanejos permittam que Conselheiro realizasse priticas do
pidpito das igrejas e capelas, o que Ihes produzia pingues rendimentos pro-
vindos dos batizados, desobrigas, novenas e festas. Consentiam, ticitamente,
que a massa sertaneja considerasse Conselheiro um santo.
As autoridades nio viam, nas pratices de Conselheiro, nenhum desres-
peito A ordem constituida e deixavam aos poderes eclesiAsticos a tarefa de
zelar pela pureza da religiAo e estabelecer a separagio entire verdadelros
e falsos ap6stolos.
Nao hA ddvida que Conselheiro comegava as suas predicas apoiado pelos
vigArios das freguezias por onde passava em sua peregrinaio. Os padres
nada viram, nas pregag6es do peregrino, que fIsse contrArio A religion de
Cristo.
O rovo, concitado por Conselheiro, fizera obras que o Governo e os vi-
gkrlos jamais realizariam. NAo admira, pois, que as massas sertanejas se
tivessem dexaado levar pela palavra de Conselheiro e, desde que nao houvera
contestag;o, tivessem acreditado piamente que ele era enviado de Deus.
Os vigArios, em sua maioria, nio indicavam ao povo o caminho certo,
nem faziam sentir que era impossivel a um tipo do estalAo de Conselheiro
representar a divindade e a sua palavra ser o verbo inspirado de Deus.








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Ao contririo, a influ6ncia de Conselheiro f6ra utilizada por par6cos no
objetivo de congregar o povo para levantamento de eemit6rios, capelas e
igrejas.
As populag6es sertanejas acabaram por tragar o paralelo entire Conselhei-
ro e os vigarios, verificando que aquele sobrepujava a 6stes em qualidades,
estando mais perto do coragto delas.
O exemplo de Conselheiro concorrera para a desmoralizacio dos par6cos
pouco virtuosos. Essa superioridade moral e a fraqueza do poder piblico
concorreram para aumentar o prestigio de Conselheiro.
A Igreja conhecia muito bem os efeitos do fanatismo. Na Bahia, durante
o governor de Teles Barreto, o indio Ant6nio, cristianizado pelos jesuitas, pre-
gara a vinda do Messias. A repercusslo das pregaSges messianlcas do indio
fora tal que o governor geral dissolvera o ajuntamento, conforme esta docu-
mentado na "Primeira VisitaVCo do Santo Oficio i~s Portas do Brasil em 1591".
Agora, outro Ant6nlo agitava as populagSes. Ressurgla o messianismo
colonial. A Igreja nao podia tran-igir corn o fanatismo, pois, no fanitico,
tudo era erro, falsidade. A excitai;io mental obliterava-lhe a nocm o do diieito.
No grupo que seguira Conselheiro por terras de virios Estados, havia
coesao estabelecida em virtue da uniformidade de crenga e maneira de agir.
Havia unidade de vontades e sentiments. Isso afastava toda discussfo impor-
tuna, toda objegio Independente. Prevalecia a intolerancia em artigos de f6.
Senttndo o prestigio ascendente de Ant6nio que, de penitente, ascendera
a Conselheiro no concerto do povo sertanejo, alguns padres denunciaram o
fato ao Arcebispo D. Luis que procurou interni-lo num hospicio, tendo antes
recomendado aos par6cos que nfo consentissem que Antdnio pregasse ao
povo "doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rigida, cor o
que esti perturbando as conscidncias e enfraquecendo nio pouco a autori-
dade dos par6cos".
Corn a proclama;ao da Repfblica, colocara-se francamente contra as
novas leis. Par6cos chegaram a inciti-lo contra a nova ordem, e Conselheiro
Sndo hesitara em profligar os prineipios da Repiblica heritica. Adqulrira,
assim, fama e prestigio.
Pregava Conselheiro contra a Repfiblica, porque, na sua opinifo, reforgada
Spela de alguns vigarios, o novo regime ameagava a religion dominant. NAo
agira, porquc fdsse monarquista; mas porque o novo regime separara a Igreja
do Estado.
i Fundado o servigo de Estatistica, fdram enviadps para todas as locali-
J dades formularios que cada cidadio devia preencher. Conselheiro, entfo, estu-
mado por alguns vigarios, convencera o povo das mis intenv6es do Governo
quo desejava saber a religgio de cada um a fim de acabar com a religlao.
Nisse acorooammento de Conselheiro contra a nova ordem political, salienta-
ra-se o padre Agripino.
0 Governor fizera seguir uma diligdncia em procura de Conselheiro, que,
encontrado em Massete, rechawara a forga policial.
S A interven~io governmental no sentido de garantir a nova ordem poli-
tica fazia com que os par6cos abandonassem Conselheiro, e, a fim de des-










mentir qualquer cumplicidade, passassem a acusi-lo de inimigo da Religlao
e da Reptiblica. P
Temendo perseguig6es, Conselheiro fundara Canudos, nucleamento que
a Igreja nio podia ver corn simpatia.
Conselheiro, entretanto, nio hostilizava a Igreja. A sua attitude para
corn os padres era amistosai Recebia os mission6rios que iam a Canudos, dan-
do-lhes inteira liberdade no exercicio de seu minist6rio.
O vigArio de Cumbe mantinha as melhores relag6es com Conselheiro.
Visitava frequentemente o arraial, onde batizava, casava e confessava, o
.que Ihe rendia bom dinheiro. Vsse sacerdote seria preso por Moreira Cesar
qup o colocaria a test da coluna, i p6 e a titulo de gula. Serviria, assim, de
isca aos tiros da jagungada. Viria a ser salvo pelo coronel Tamarindo. Fume-
gando de raiva, retornaria ao Cumbe, onde rezaria missa de corpo present
por alma de Moreira Cesar, agoirando-lhe a morte, o que, ocorreria um on
dois dias depois.
A Igreja aceitava o regime republican. O padre Jflio Maria dizia:
"Antagonismo entire doutrina cat6lica e o regime republicano... nao existe;
e se ha fatos que o fazem crer sio produtos de politicos desvairados on
de cat6licos ignorantes".
Assumindo a diocese da Bahia, D. Jer6nimo, de acordo corn o Governador
dr. Rodrigues Lima, enviava a Canudos os missionArios Joko Evangelista do
Monte Marc~ano e Caetano, ambos italianos. O Arcebispo considerava Con-
selheiro um assalar.ido da monarquia.
Os entendimentos do Arcebispo corn o Governador, visando a interven-
gPo do Estado em Canudos, eram recebidos sob reserve. A Igreja estava
separada do Estado e, conforme dispositivo constitutional, nao havia religito
official, sendo permitido o funcionamento de qualquer seita.
No regime monArquico, o pedido de interveng~o do Estado se justificava.
A Igreja Cat6lica, na qualidade de religiao official, podia requerer ao poder
imperial a dissolucio de seitas e faniticos.
Em 1895, seguiam os dois frades italianos com destino a Canudos.
O frade firmara-se como her6i da hist6ria territorial da Bahia. Melo
Morais, pai, critical, por6m, o frade italiano. Censura-lhe a "linguagem estro-
piada, e muitas vezes chela de trocadilhos obcenos". Recomenda mesmo que
a catequese deve ser feita por grades brasileiros e nio por barbadinhos
italianos.
Em Canudos, Frei JoAo Evangelista nio pregava corn aquele m6todo ado-
tado pelo bispo d. Joao da Purificagao, quando pacificava os cabanos, e que
consistia em comunicar a doutrina corn docura e suavidade.
A 13 de Maio de 1895, Frel JoAo Evangelista visitava Conselheiro. "Ves-
tia (Conselheiro) t6nica de americano, tinha a cabega descoberta e empunha-
va um borddo; os cabelos crescidos sem nenhum trato, a cairem sobre os
ombros; as crespas barbas grisalhas, mais para brancas: os olhos funds raras
vezes levantados para fitar alguem; o rosto comprido, e de palidez quase
cadavirica; o porte grave e ar penitente davam-lhe ao todo uma aparincia
que ndo pouco teria contribuido para enganar e atrair o povo simples e








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ignorant dos nossos sert6es."
Em palestra corn Conselheiro, Frei Jolio Evangelista dizia-lhe que a
Igreja condenava as revoltas e, aceitando todas as formas de governor, ensi-
nava que os poderes constituidos regem os povos em nome de Deus.
S As predicas dos frades nio agradaram aos conselheiristas que acabaram
por identifica-los como emissirios do Governo, e que, de acordo cor n ste,
visavam a "abrir caminho a tropa que viria de surprdsa prender o Conse-
lheiro e exterminar a todos Eles".
Sentindo a hostilidade no olhar da massa conselheirista, os frades fugiam
de Canudos. Tinham tempo, por6m, de levantar a plant do povoado.
Hon6rio Vilanova declarou-nos que os frades foram recebidos corn ma-
nifestag6es de alegria. Os conselheiristas soltaram fogos. Tocou o cabagal.
Os frades iniciaram as pregag6es. Aconselharam o povo a abandonar Conse-
lheiro. Pediram a Conselheiro para reunir todo o seu povo em frente do San-
tuario, o que foi felto. O povo, reunido, deu vivas aos santos e ao Conselheiro,
o que fez corn que os grades fechassem violentamente a janela de onde assis-
tiam a concentragio popular, e suspendessem as pregag6es. Conselheiro
enviou Jos6 Venancio a fim de saber por que os frades nio prosseguiam nas
pregag6es. Jos6 Venancio dirigiu-se ao local onde se achavam os grades.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, sauida Jos6 Venincio.
Para sempre seja louvado, responded os frades mal humorados.
Meu Bom Jesus Conselheiro manda perguntar se val haver missa
amanha.
Se voces precisam de missa, vio assistir a missa dble.
Se Ele fosse padre, podia celebrar, replica Jos6 Venancio, humilde-
mente.
Sai da minha frente, amaldiboado.
Se o sr. me amaldigoa, eu tamb6m posso amaldi4oar. Pela parte de
Deus Nosso Senhor e da Virgem Maria, disse Jos6 Venancio, tragando com a
mao no ar uma cruz, em diregoo dos grades.
Os grades nio voltaram mais ao Santuirio. Retiraram-se do arralal. Com
Sa said deles, Conselheiro explicou que os frades tinham ido a Canudos coroar
a guerra, firmar a guerra. Os conselheiristas, por sua vez, comentaram que
os grades tinham ido a Canudos na qualidade de espi6es.
"Frei Luiz Piazza, noticiava journal de 1897, esteve ontem no Palicio do
Governo, a convite do sr. Vice-Presidente da Repiblica, a quem informou
que hi anos Irei Joao Evangelista, resident no Estado da Bahia, estivera
em Canudos, onde levantou uma carta topogrifica e escreveu um important
relat6rio osbrc o modo de vida do pr6prio AntOnio Conselheiro, dos seus
fanaticos e dos habitantes da zona que percorreu".
A Igreja sentia a necessidade de eliminar o quisto de Canudos. Separada
do Estado s6 encontrava um meio de agir: propalar o carter politico do mo-
vimento que se processava em Canudos. Eis por que Frei Joao Evangelista,
no relat6rio apresentado is autoridades, fala em "seita politico-religiosa",
em "pequeno cisma na igreja baiana".
Em 1894, na Asdembl6ia do Estado, o deputado Ant6nio Pires afirmava








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que, em confer6ncia cor outras pessoas, haviam sido estas de opinio que a
forga voltasse, "porque era melhor procurar um outro melo, am melo bran-
do". Referia-se a forga que f6ra rechaqada em Massete.
0 deputado Jos6 Justino aconselhava: "Se a religiio foi o motive que
fez ajuntar-se a Ant6nio Conselheiro esta gente; se Mle em todo caso 6 um
home virtuoso, um verdadeiro asceta, nio um hip6crita; mas um fanitico,
incontestavelmente, devem-se empregar outros recursos antes dos meios vio-
lentos". Se a religiao os reunia, a religion devia dispersf-los. Caridade e nao
espingardeamento. Sugeria que o Governo falasse corn o Arcebispo, a fim
ddste enviar missionirios "que tenham infludncia sobre o povo e que, empre-
gando as mesmas doutrinas de paz e de ordem, podessem dissolver aquele
grupo por meios suas6rios".
Na Assembl6ia Legislativa Nacional, o deputado Erico Coelho, apreclando
o relat6rio de Frei JoAo Evangelista, asseverava: "Se os nobres deputados
lerem r sse relat6rio do trade, ficarao pasmos das expresses amorosas que
ele prodigaliza a Repfblica, armando ao efeito; pois, a pretexto de defender
a ordem pzblica e as InstituiqSes republicans, a intengio do clero foi mover
a guerra religiosa..."


V A GUERRA

Conselheiro adquiria em Juazeiro certa quantidade de madeira para con-
cluslo da igreja nova. Contratava o neg6cio cor um representante de auto-
ridade daquela cidade. Esgotava-se o prazo para entrega do material e Con-
selheiro nada recebia.
Exercia o cargo de Juiz de Direito da Comarca de Juazeiro (Bahia) o dr.
Arlindo Leoni, que, quando Juiz de Bom Conselho, tivera que deixar a loca-
lidade invadida por conselheiristas. Conselheiro chegara a impedir que f6sse
preso um home que acoitara a comborga do Juiz.
Violado o trato, Conselheiro prometia arrebatar as madeiras fosse come
fosse, o que constituia perigo de invasio da cidade, motive por que o Juiz
de Direito telegrafava ao Governador, solicitando providdncias. O caso ocorria
em Outubro de 1896. E, em Novembro do mesmo ano, travara-se o primeiro
combat em au&.
Iniciava-se a guerra de Canudos. Poucos compreendiam as suas causes
profundas. Na imprensa balana, por6m, havia quem dissesse: "A ignorincia
em que os sessenta anos de monarquia nos educaram 6 que esta explodindo
na superstiVAo barbara cor que os crendeiros defendem a pessoa e as falsas
doutrinas religiosas de Antbnio Conselheiro".
A populagio de Canudos nao podia compreender os motives pot que era
guerreado Conselheiro. Durante anos vivera sob a sua direg~o e s6 Ihe conhe-
cera a pratica do bem. Em suas inteligdncias rudimentares, a guerra de Ca-
nudos "s6 podia provir da impiedade e da heresia contra a religion e a fl:.
Os irmios Vilanovas (Antonio e Hon6rio), que dirigiam pr6spero esta-
belecimento commercial em Canudos, entretanto, atribulam a guerra As intri-
gas fomentadas por comerciantes e fazendeiros dos sert5es baianos que, impe-


4.. : rrc









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Idos pela inveja da prosperidade dos comerciantes de Canudos, ofereciam
constantemente denmincias is autoridades contra os conselheiristas.
Corn o primeiro combat, a massa sertaneja se agitava ao aceno de
Conselheiro que a conclamava para a defesa de seus lares. A esse fogo, assis-
tia Herculano emissirio do Padre Cicero. Vinha Rle observer o que se pas-
sava, conform informaglo a mim prestada por Hon6rio Vilanova, e publica-
da na imprensa de Fortaleza. De nada mals poy6m, se lembrava Hon6rio, con-
tinuando obscure o carter das relag6es entire Conselheiro e Padre Cicero.
Depois, em Informagc o a mim prestada, Hon6rio declarou que Conselheiro
fez question que Herculano assistisse ao primeiro fogo de Canudos. Quando
o emissirio do Padre Cicero retornou a Juazeiro, disse-lhe antes Conselhei-
ro: Conte ao Padre o que viu. Ainda val haver tres fogos. Ele tamb6m tera
o seu foguinho. 86 nio sera federal comeo o meu, mas estadual
Canudos j~ vinha sendo o refugio dos que se julgavam fora da lei. O
arraial surgira mesmo corn o objetivo de resistir a qualquer tentative de
destruiio da forma de vida que elegera. A pr6pria disposig1o das casas obe-
decia a um piano preconcebido de defesa.
Conselheiro, prevendo os futures embates, noo consentia que se cons-
truisse casa nas duas margens do rio. Dizia Ele: Do lade de Ia do rio, virl o
fogo do inferno. Isso foi interpretado, mais tarde pelos conselheiristas, como
a pr6pria guerra que rebentaria naquela direCfo.
O brado de Conselheiro ressoava nos sert6es. A grande maioria dos habi-
tantes da regiao obedecida as suas ordens. Nem os proprietirios consegulam
contar corn vaqueros e agregados.
Segulam pequenos grupos con armas, munlb6es e g6neros alimenticios
para Canudos. Havia emissirios junto aos comerciantes das vilas vizinhas.
Espalhava-se a noticia de que Conselheiro dissera a seus adeptos que, logo
acabasse a guerra, Cumbe, Monte Santo, Pombal, Tucano, Soure e Itapicurf
seriam arrasados, e as fazendas distribuidas.
S As munig6es chegavam aos corespondentes de Conselheiro em Alagoinhas,
Santa Luzia e Feira de Santana. Os mantimentos e gados vinham por Bom
Conselho, Geremoabo e Simio Dias.
As populag6es de Tucano e Itapicurii, em grande parte, deslocavam-se
para Canudos. Depois da retirada do major Febr6nio, faniticos de Pernam-
buco, Piaui, Ceari, Alagoas, Minas Gerais e Slo Paulo viajavam para a
SJerusalem do Vasa-Barris.
As vit6rias de Conselheiro levavam o entusiasmo atW o delirio, de sorte
que aumentava o numero de seus setarios, e via-se o espeticulo de populagfes
inteiras do sertao abandonarem mulher, familiar, casa, bens materials, todas
as comodidades para o acompanharem. At6 uma coluna de indlos armados de
arco, flecha e b6sta vinha juntar-se aos conselheirlstas, que eram calculados
por alguns em dez mil
Alcides do Amaral Borges Comissirio de Policia no municipio de Pom-
Sbal em oficio ao Chefe de Policia da Bahia, afirmava que dezenas de
homes do municipio e de outros limitrofes emigravam para Canudos, ale-
gando que iam para 1a cortar soldados.








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Operava-se a convergancia de cangaceiros e jagungos que estavam sepa-
rados pelo valado em declive de Paulo Afonso.
Em Canudos, Conselheiro estabelecia um regime de discipina military.
Ninguem podia abandonar o reduto. Assim 6 que mandava degolar uma fa-
milia inteira pelo fato de fugir.
Os canudenses estavam certos de que nio morriam; mas, apenas, muda-
vam-se. Acreditavam plamente na ressurreiao em came e osso.
A imprensa calculava que as forgas de Conselheiro se compunham de
faniticos verdadeiros que o consideravam enviado de Deus; faniticos inte-
resseiros, que o veneravam na esperanca de que viesse a dividir depols as
fazendas de gado e lavouras; aesertores do exercito e policia; e de assassins
e malfeitores da Bahia e dos Estados de Sergipe, Minas, Alagoas, Ceari,
Pernambuco e Piaui.
Governo, para sertanejo, era sin6nimo de poder mal6fico de cujo con-
tacto se devia fugir. O sertanejo nao queria neg6cio com o Governo, pois a
sua experincda assim o aconselhava. O Governo s6 se lembrava dele para
cobrar imposto. Tirava e nfo dava. Roubava e nEo protegia. Quanto ao sol-
dado cumpria as ordens emanadas das autoridades Antolhava-ke-lhe como
instrumento de execugo. Cortar soldado significava a vinganea do sertanejo
escarmentado.
A ordem social sertaneja, sob a monarquia, caracterizava-se pela prepo-'
tOncia do fazendeiro, do senhor rural, sobre o agregado, o escravo, a plebe.
rural, enfim, que tinha agora, oportunidade de sacralizar a vinganga sob as
bengfos de Conselheiro.
Em Sergipe e Alagoas, ocorriam sublevag5es nos respectivos corpos de
policia. Os desertores fugiam cor armas e munigoes para Canudos, onde
davam instrucio military, instruindo os faniticos no manejo das carabinas
modernas.
Em Petrolina, era preso o padre espanhol Martinez Codego y Martinez sob
fundamento de que fornecla p6lvora a Conselheiro. Sofria punigio humilhante
em Queimadas.
Corn a derrota de Moreira Cesar, o prestigio de Conselheiro atingia o
Apice.
Os "onselheiristas, na guerra, empregavam a emboscada, o tiro partido de
tras do pau. O terreno favorecia-os. As caatingas constituiam poderoso aliado.
A tatica da tocaia, da guerrilla, aparecia aos olhos dos chefes militares
da campanha como recurso de poltr6es, quando, na verdade, era percursora
da arte bilica.
Na guerra, os canudenses estavam sempre na defensive. Cumpriam as
determinaq5es de Conselheiro que Ihes ordenara a apreensio da munivt o e
proibira terminantemente o saque.
Conselheiro nIo pensava em rendigRo, pois nio reconhecia o Governo
que mandara atacar Canudos, dizem Pedrao e Mannel Ciriaco em entrevista
concedida ao reporter Luciano Carneiro. Prolbia a circulagro do dinheiro
da Reptblica no arraial. S6 permitia a utilizago das armas capturadas ao
inimigo. Ordenava que dinheiro, mantimentos e demals pertences apreendi-








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dos f6ssem jogados f6ra, no mate. Nao queria que sua gente usasse coisas dos
"infieis". Os conselheirlstas deviam comer "cabega de frade", embora o int-
migo houvesse abandonado na estrada grande quantidade de charque. Antes
a fome do que comer comida republican.
Pedrio e Manuel Ciriaco contain ao mesmo reporter que, certa vez, cinco
soldados cairam em poder dos conselheiristas, no combat de Uaua, e que
Conselheiro os devolveu is suas linhas.
Organizava-se a quarta expedilio. A campanha revestia-se da mator
crueldade. Destoando do concerto de ovagces, alunos da Faculdade Livre de
Direlto da Bahia langavam um manifesto A nagio, considerando crime a ju-
gulagio dos conselheiristas aprisionados.
A degola nio constituia mais novidade. Conta Euclides da Cunha que o
cabo Miquelino tinha a alcunha de degolador. Ap6s a campana, o remorse
convulsionava de tal mode o seu espirito que se via forgado a procurar no
alcohol a tranquilldade da conscidncia.
A campanha estava no fim. Soldados e oficiais, porem, tinham inimeras
oportunidades de aquilatar do valor do conselheirista e de sua obediencia a
Conselheiro.
Na fazenda Tarraxil, o geenral Savaget perguntava ao administrator:
"- For que nao sai on nio manda vender o seu gado nas feiras de Ge-
remoabo on de Simio Dias?
"- Porque o Governo nao quer, responded o sertanejo.
"- Como assim! replica o general. Mas o Governo nada tem que ver corn
isso!
"- Tem, sim senhor, sea general.
"- Donde velo essa ordem?
"- Do Governo de Canudos, do Conselheiro".
Conselheiro estava certo da derrota. Na resistfncia do arraial, punha,
porim, today a combatividade dos Macieis. Seria a sua resposta supreme aos
inimigos remotos e pr6ximos: aos Arafjos, ao furriel que Ihe roubara a
mulher, as autoridades que o haviam prendido, A sociedade pecaminosa e
injusta em que fracassara na sua tentative de classificaSio social.
Em Salvador, corria a noticia de que Conselheiro se comprometia a aban-
donar Canudos e dispersar a sua gente, con a condigio de recolher-se ao
convento de Sao Francisco, em Santo Amaro.
A quarta expedigio, entretanto, continuava no sea afan destruidor. As
tropas do general Artur Cesar, no vale dos degolamentos, trucidavam duzentos
prisioneiros.
Alfeu Ribeiro de Aboim, que fez part da 4.a expeditio, vi unm cabo -
comandante de uma escolta obrigar quinze homes e um menino a darem
vivas A Repfiblica, e depois serem mortos a sangue frio.
Conselheiro falecia a 22 de Setembro, vitima de desinteria. Ffra, ainda,
ferido por estilhago de granada, quando passava da igreja para o santuArio.
Hon6rio Vilanova informou-nos que Conselheiro nao recebeu ferimento
resultante de explosio de granada. Conselheiro estava acamado desde Junho,
vitima de desinteria, quando, con o bombardeio, um pedago de telha do









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telhado do Santuario cain sobre a sua perna, ferlndo-a levemente. Conse-
Iheiro faleceu em consequencia da desinteria e seu corpo nao apresentava
ferimento de qualquer esp6cie.
As tropas destruiam a cidade santa, "em nome da ordem, da civiliza4io
e da moralidade do Brasil".
Alfeu Ribeiro Aboim afirma que estava perto do local, onde foi sepultado
Conselheiro e que assistiu & exumacno do cadaver realizada pela comissio
m6dica. Viu quando Conselheiro fol tirado da cova. Estava envolvido em
esteiras, trajava uma batina azulada, velha, amarrado a cintura um cordlo de
Sio Francisco, unhas crescidas, cabelos longos, imagens e figures de santos
por todos os lados, le n~o exalava man cheiro apreciavel, apesar de ter side
sepultado hi treze dias. Levaram-no para o hospital de sangue, onde Ihe
seccionaram a cabega que foi enviada para Salvador.
Pedrao, sobrevivente da guerra de Canudos, entretanto, afirma que to
cadaver cxumado era de Manuel Quadrado e nio de Conselheiro.
Pedrio, em entrevista concedida a Optato Gueiros, diz: "Havia, entire n6s, k
um beato que trajava do mesmo modo que o nosso chefe e conservava longas.>"
barbas conhecido por Manuel Quadrado.
"Na tomada da igreja, tres dias antes, morreu o Conselheiro.
"Este predisse que, ao terceiro dia, ressuscitaria. Esperamos os tres dias,
mas, como antes mesmo de sucumbir ja catingava, pois foi presa de uma
terrivel desinteria, nao foi possivel suportar-se o fdtido, e resolveu-se sepul-
t~-lo por tris do temple.
"Quando as forgas penjetraram na igreja encontraram aquele tipo morto
e, cuidando tratar-se de Ant6nio Conselheiro, cortaram-lhe a cabega e a con-
duziram. De maneira que, per engano, deixaram Manuel Quadrado sem a
cabega e o Conselheiro ficou corn a dele, enterradinho-o que foi torado por
um "exemplo" pelos remanescentes adeptos do fanitico de Canudos.
"Deixou Manuel Quadrado uma filha, Adalgisa, que reside, hoje, em
Belem, neste Estado, a margem do rio Sao Francisco.
"Esta ainda hoje confirm as declarag6es de Pedrio, e assistiu quando
deceparam a cabeca do pai, tanto que nunca se esqueceu apesar de contar,
naquela 6poca, tres anos de idade, apenas".
Hon6rio Vilanova informou-me que nio assistlu a exuma9ao do cadaver
de Conselheiro, assim como Pedrio tamb6m nio assistiu, pois ambos ji
haviam abandonado o arraial. Soube, porim, depois, em conversa cor pessoas
que presenciaram a exumagIo que o cadaver nio era de Manuel Quadrado e,
sim, de Conselheiro. Discordou de Pedrao, esclarecendo, ainda, que Manuel
Quadrado nio era beato, mas uma esp6cie de curandeiro.
Angelo Reis, proprietirio da fazenda Formosa, no municipio de Santo
Ant6nio da G16ria, 78 quil6metros de Canudos, reunia, no dia seguinte ao
da queda do arraial, amigos e agregados em niunero de treze, e dirigia-se
para 1 com a intenvio de enterrar os mortos.
A proporvo que se apropinquava, percebia inexplicavel arruido. Dir-se-ia
que os mortos haviam ressuscitado. Penetravam no arraial e descobriam a
causa. Urubfs sem conta crocitavam. Caes famintos rosnavam. Moscardos,









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varejeiras e moscas zumbiam. Quantidade incontavel de formigas e tatis
neer6fagos repastavam-se nos corpos insepultos.
0 fazendeiro e as amigos levavam virlos dias a enterrar os mortos, lan-
Cando nas valas jagunoos e soldados, indistintamente.
A perseguigfo contra os conselheiristas continuava mesmo depois de
expugnado o arraial. Pelo Jornal de Noticias, da Bahia, Lelis Piedade afir-
mava que cartas de distintos sertanejos the conferiam a incumbencia de cha-
mar a atengao do conselheiro Luis Viana para Pombal e Tucano, onde conse-
Iheiristas, que retornavam a seus lares, eram explorados, ou entao, ameaga-
dos de tal sorte que se escondiam nos mates durante o dia, s6 conseguindo
algum alimento a noite, graCas a piedade de parents.


VI O MOVIMENTO SEBASTIANISTA


Em Abril de 1893 eram constituidos os municipios de Itapicuri, Soure e
Amparo. Cobravam-se impostos emu Soure num dia de feira. Conselheiristas
hostis a Replblica, insuflados por individuos que seriam posteriormente auto-
ridades locals, faziam em pedavos as taboletas em que estavam afixados o
orgamento e as posturas municipals. Soltavam foguetes e gritavam contra
o pagamento de impostos.
Alguns dias depois, nas feiras de Amparo e Bom Jesus, repetlam-se as
manifestag6es de protest. Dessa data em diante, s6 pagava Imposto queen
quisesse. As rendas dresses municipios diminulam consequentemente e mal
chegavam para as despesas de mere expediente.
O Bargo de Geremoabo conversava comr Conselheiro, dizendo-lbe que a
Repfiblica nao era obra do demonio, pois o Papa recomendara aos padres a
adesao a tal regime na Franca, ao que Conselheiro replicava que o Papa,
assim fazendo, errara, porque "a Repuiblica era partido do demonio, e que
a palavra Re-pfiblica o indicava".
Conselheiro, Informou-nos Hon6rio Vilanova, dizia frequentemente:
Quando inventaram a Repfiblica, os homes inventaram tamb6m umas armas
de mola, invenfo do Anti-Cristo, que 6 raga de Calm, para vir combater o
Peregrino.
Joao Brigido opina que o brasileiro t6m negag"o a todo regime repre-
sentative e pende exclusivamente para o cesarismo, em virtude de sua
educaqlo moldada na teologia e no direito romano.
Lauro Sodr6 entende que todo o sertao 6 republican, porque a monar-
quia nio deixou raizes. Nina Rodrigues, porem, acentia que a populacio ser-,
taneja 6 monarquista, porque Ihe falecia "capacidade para compreender e
aceitar a substitugio do representante concrete do poder pela abstragpo que
ele encarna, pela lei".
As opini6es eram unanimes no sentido de que, depois do advento da Re-
piblica, comegaram a se desenvolver no espirito de Conselheiro desejos dife-
rentes daqueles que se notavam ati entio.
Por ocasiao das eleig6es de Ruy Barbosa, pregava Conselheiro contra o










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candidate, chamando-o de home perverse e espirito das trevas a quem
urgia liquidar.
Diziam alguns que Conselheiro adotava a monarquia, mas que nao tinha
program politico e nio tinha chefe em lugar algum que cor le se rela-
cionasse.
Lauro Sodr6 assevera que, inicialmente, Conselheiro nio obedecia a
moveis politicos; mas que, depois, passava a servir de instrument dos que
desejavam desmoralizar as instituig6es republicans.
Relativamente ao nfmero de faniticos que acorriam para Conselheiro,
Lauro achava que isso nao era devido ao ideal politico e, sim, A ignorincia,
ao fanatismo e ao pendor para as lutas.
Perguntava um correspondente de journal: Havera entire os jagungos gente
civilizada, restauradores, nationals ou mercenirios? E respondia: A questao
tem sido aventada, sem receber resposta decisive.
Aludido correspondent afirmava que os militares haviam visto nas altu-
ras que circundam Canudos tr s on quatro observadores bem trajados que
pareciam acompanhar o movimento das tropas legais; que, entire os mortos,
ap6s o combat de Cocorob6, a 26 de Junho, havia um sujeito branco bem
apessoado, com talim de official e gorro de crochet; que era encontrada uma
carta sem assinatura em que o author instigava a luta contra o exercito, que
dizia ser composto de ladr6es e ateus, a fim de ser possivel a restauragco da
monarquia; que os jagungos tinham services de sinais bem organizado, boas
fortifica4ges, usavam bandeira branca e conheciam certos principios de
estrategia e ttica.
Prosseguindo, o correspondent dizia que os que opinavam nao' tivesse
Conselheiro aliados fora da zona sertaneja, se baseavam nos 40.000 cartuchos
tomados & expedilo Moreira Cesar e nos 50.000 aos combolos de Artur Oscar,
apoderando-se em ambas as ocasi6es de fusis Mauser, Manulicher e Comblain.
Quanto aos que acreditavam que os conselheirlstas tinham ramificag6es
na Bahia, nos Estados vizinhos e talvez no estrangeiro, entire os restaurado-
res endinheirados, fundamentavam sua opiniao nos seguintes fates: a) Desde
25 de Junho que os conselheiristas gastavam municio. b) Entre os projetis
atirados pelos laguncos abundavam os de Kropatchek, que slo armas da
armada e nio do exercito e por conseguinte 1no foram tomadas &s expedi-
g 6 Moreira Cedar e Artur Oscar. c) Em Canudos fol encontrado um des-
pacho de quatro caix6es de armas procedentes de Salvador e remetidos a
Antonio Vilanova.
A Repiblica, em editorial, vangloriava-se de ter decifrado o enigma de
Canudos. Proclamava que Conselheiro visava A restauraio. Acusava os res-
tauradores de organizer focos de fanatismo por todo o pais, a fim de destruir
o exrcito e, por conseguinte, a Repfblica. Citava o Conselheiro da fronteira
de Santa Catarina. Aludia ao Conselheiro de Ribeirfo Alegre.
Outro corespondente asseverava que, desde meados de 1891, acompanha-
va o fanatismo dos sertanejos, habilmente insuflado pelos chefes monar-
quistas. Referia-se ao nucleo que comegava a formar-se em 1891 em Sio
Carlos do Pinhal, no Estado de Sio Paulo, principalmente nas fazendas do









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coronel Gentil de Castro, onde se fazia propaganda contra a Rep6blica e em
favor da monarquia.
No Rio de Janeiro, orgios monarquistas pugnavam pela restauraglo.
Afonso Celso, em 1895, perguntava: Seri possivel a restauragio da Monarquia?
Respondia: Acho-a mais do que possivel, infalivel.
Liberdade, journal francamente restaurador, dizia em editorial: "Se de-
vemos A RepiTblica essa ficticia prosperidade, devemos-lhe tambim o descri-
dito, a ruina, a humilhaglo perante o estrangeiro, o man cambio, o luto, a
guerra civil, a intolerincia".
O mesmo journal procnrava mostrar que o caso de Canudos resultava do
abandon dos sert6es, bem como da ruptura dos vinculos entire a Igreja e o
Estado, ficando os habitantes das zonas centrals entregues a instintos infe-
riores que encontravam freio nas doutrinas religlosas. Conselheiro era o coro-
16rio direto da teoria da sociedade sem Deus. O Brasil das classes dirigentes
circunscrevia-se ao litoral, enquanto o interior deserdado vivia segregado do
progress e da civilizaqio.
O Jacobino, em face dessa propaganda restauradora, nao tinha dfivida
quanto A articulacio monarquica cor Conselheiro.
Os defensores enrages do regime republican viam, em Canudos, um
baluarte de restaurag5o bragantina, conviccvo fortalecida cor documents
apreendidos logo ap6s a tomada do arraal.
Dantas Barreto, que tomou parte na iltima expedicvo, transcreve, em
seu livro, duas cartas que chegaram ts mios de Moreira Cesar e iste as enca-
minhara As autoridades no Rio. Uma das cartas era assinada por E. P.
Almeida e datada de 21 de Abril de 1897, e a outra, de 4 de Agosto do mesmo
ano e assinada por Carlos Augusto de Figueiredo. Em ambas, dava-se carter
monirquico A sedi~go.
Martins Horcades contestava que qualquer filho da Bahia figurasse em
Canudos como cmplice de id6las monarquicas. Canudos, em sua opinion,
nlo passava de centro de ignorincia.
Dantas Barreto considera plat6nica a co-participagio de monarquistas
nos acontecimentos de Canudos.
Jellinek observa que as almas simples compreendem a repfiblica cor
maior dificuldade do que a monarquia, cuja totalidade da atividade estatal
se p6de perceber corn os sentidos.
As massas sertanejas, em virtude do estado de cultural, nao podiam enten-
der o regime republican. A tendEncia A personificagIo, A materializaqio do
principio, caracteristica das populacges culturalmente inferiores, era facili-
tada pela monarquia, que tinha por simbolo o imperador.
Haveri documents comprobat6rios das ideias e tendencias monarquicas
e anti-republicanas de Conselheiro?
Euclides da Cunha, em "Os Sert6es", diz que Conselheiro pregava contra
a Repiblica. Menclona um livro que continha as pridicas de Conselheiro e
que, no dia 5 de Outubro de 1897, fora encontrado no SantuArio, onde Rle
vivia, por Joao de Sousa Pond6, sexto anista de medicine que acompanhava
a quarta expedigio na qualidade de cirurgiao. Esse livro era presenteado por











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Pond6 a Afrinio Peixoto que, por sua vez, passava is m~os de Euclides,
encontrando-se hoje em poder de Aristeu Seixas, em Sao Paulo.
Nisse livro manuscrito, em letra de mulher, Conselheiro doutrinava: "Dai
a Deus o que 6 de Deus e dal a Cesar o que 6 de Cesar. Mas este sublime sen-
timento nao domina no coravgo do Presidente da Repiblica que, a seu ta-
lante, quer governor o Brasil, praticando tio clamorosas injusti~as, ferindo
assim o direito mais claro, mals palpavel da Familia Real, legitimamente
constituida para governor o. Brasil".
Ap6s a vit6ria legal de Floriano, os republicans nio viam com bons
olhos qualquer ajuntamento que pudesse ser utilizado pelos restauradores. O
ajuntamento de Canudos, portanto, a despeito de nio ser descoberta qual-
quer influ6ncia monarquica ou dos revolucionarios federalistas, nio podia
deixar de ser denunciado pelas ardorosas folhas political republicans como
trampolim armado por restauradores para a retomada do poder.
Com o malogro da expedi io Moreira Cesar, a imprensa republican ca-
rioca declarava que a Bahia era um reduto de monarquistas, motivando um
manifesto dos estudantes das escolas superiors de Salvador, os quais defen-
diam "a probidade political do povo balano" e julgavam irris6ria a acusafio
de cumplicidade "na obra delet6ria de um grupo de bandidos sem lei e sem
ideals".
Conforme palavras de Manuel Vitorino Pereira vice-presidente da Re-
piblica e organizador da terceira expedigio, Moreira Cesar recusava toda
forga que pusera a sua disposiggo o Governo. Alegara que requisitaria o re-
forgo de patriots, a fim de nio desfalcar as guarnig6es da capital e das ci-
dades principals, "porque estava convencido de que 6sse movimento era auxi-
liado em obedincia ao piano de distribuir forgas para melhor facilitar a
execueio dos intuitos e pianos monarquistas".
Os jacobinos nio admitiam que, sem comando nem armas regulars,
pudessem os faniticos derrotar tropas do ex6rcito que conheciam os princi-
plos da estrategia.
Gentil de Castro, que seria assassinado por ardorosos florianistas, achava
que a acusagio de conspirata monarquica por.tris do Conselheiro "teria re-
sultado de uma pilhrria do Filhote, Interessante suplemento literirio, que
circulava anexo A Gazeta de Noticias. Os exaltados, por6m, reportando-se a
frase quanto pior melhor, que o visconde de Ouro Preto pronunciara por
ocasiao do fechamento dos jornais monarquistas, ordenado pelo Governo, acre-
ditavam que a sublevagio estava no program do partido monirquico, que
parecia disposto a lancar mAo de todos os recursos". Por esse motive, "a ban-
deira de Ant6nio Conselheiro passou a ser a bandeira da restauragao".
O relat6rio de Frei Joao Evangelista do Monte Marciano vinha aumentar
as suspeitas. Os jornais republicans viam as suias do Visconde de Ouro
Preto por trAs das barbas do Conselheiro.
Artur de Azevedo escrevia a revista "O Jagungo", em homenagem aos
soldados do 7.o batalhfo que ia partir para Canudos. O popular ator Brandio
recitava os versos:








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O jagunqo nao 6 tao sbmente
O matuto fanttico e mau,
Que nos invios sert6es mata a gente
Escondldo por trAs de um bom pau.

2 jagungo o palfrdio parola,
Que o progress nao quer da nagAo
E, sem ter convicg6es na cachola,
Prega id6ias de restaurago.

Indubitavelmente, os monarquistas tentavam a desmoralizago das insti-
tuig6es republicans. Os jornais restauradores Liberdade e Gazeta da Tarde
realizavam uma campanha de difamaqao. Noticiavam que cerca de trezentas
casas de comrrcio haviam requerido falncia, o que foi logo telegrafado para
Londres pelo correspondent do Times, causando grande emocIo no mundo
financeiro, no dizer do Jornal do Com6rcio.
Alcindo Guanabara, em A Repfiblica, denunciava conspirag6es de monar-
quistas. Gentil Jos6 de Castro chamava Alcindo a responsabilidade. Em juizo,
Alcindo acusava Gentil de mandatirio de monarquistas e perturbador da
ordem republican.
Elisio de Arafijo desincumbia-se de tarefas policiais em Minas Gerais.
Investigava a possivel participaiio de monarquistas na remessa de arma-
mentos para Canudos. Elisio, por6m, nada concluia de positive.
A polmica e a exaltaago de animos davam origem a lendas. Jornals no-
ticiavam que o cabo Arnaldo Roque ordenanga do coronel Moreira Cesar
defender at6 o eltimo cartucho o cadaver de seu comandante, dedicaglo
que Ihe valia a escolha do nome para patrono de uma das mais movimen-
tadas travessas do Rio. Verificava-se, depois, a improced&ncia da noticia.
Cabo Roque s6 faleceria em 1900, vitima, no Rio, da peste bub6nica.
Sebastianistas e jacobinos constituiam os extremes da political national.
A grande maloria seguia a Prudente de Morals que incarnava 'os programs
partidArios do engrandecimento da Repdblica pela lenta evolucgo de suas
conquistas".
Os jacobinos, liderados por Diocleciano MArtir, achavam que Prudente
de Morais estava comodamente no PalAcio Itamarati graias a vontade de
Floriano Peixoto; que cumpria a Prudente seguir a orientag o political dos
florianistas, jacobinos e militares que o guindaram ao poder.
"E' o governor sonolento do sr. Prudente de Morais, declarava "O Jaco-
bino", que nio liga importancia A sorte da Repiblica, e, devido A sua ne-
fasta political de conciliado 6 que os inimigos da nova forma de governor
acharam ocasiAo oportuna para conspirarem contra a estabilidade das insti-
tuigces".
Os jacobinos, que cultuavam a Floriano o Cristo da Repfiblica e
que chamavam a Prudente de Morals de Prudente de Mais, propalavam que
o Conde D'Eu remetia dinheiro para Conselheiro.
"O Jacobino" considerava Conselheiro um enviado do sebastianismo, uma







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esp6cle de gumercindo ou aparfcio, com o prop6sito de perturbar a ordem na
Bahia. Noticlava que Conselheiro era filho de uma mulher p6rfida que o fez
assassino da esposa honest; e que, oriundo de venture degenerado, s6 podia
exibir birbaros instintos.
"O Jacobino" via em tudo a sombra do restaurador. Assim 6 que, co-
mentando a alta de pregos dos gcneros ailmenticlos, acusava o galego de
conspirador contra. a Repiblica e de inimigo da PAtria.
Rocha Pomba observe que os legftlmos republicans vociferavam contra
a fronxidio corn que Prudente de Morals fazia repiblica, e que viam inimigos
em toda parte.
O deputado Barbosa Lima condenava "a conduta Inexplicavel e delitnosa
do President da Rep6blica, que nao se digna sair do sen silencio maras-
mitico para vir dar a essa populacgo noticia da situaglo come trm obrigagio
de dar a respeito do que se passa em Canudos, nesse antro onde corn a
conivencia de S. Excia. tramam-se as mals vergonhosas conspiracies contra a
Repiiblica".
0 deputado Seabra, em discurso na Camara, dizia que a minoria, quando
nada tinha a discutir, se referia a Canudos, e, JA se sabia, era um canudo
ate as 4 horas da tarde. Canudos constituia a valvula de esgotamento do
tempo, a fim de que os orgamentos nao fossem votados.
Prudente de Mcrais ficava entire dois fogos. O element jacobino queria
dominar o Partido Iepublicano Federal, porque se considerava intransigent
defensor da fe republican.
A imprensa republican, afirma Afonso Celso, fugia de discutir comn a
monarquista e agulava contra esta os maus instintos da populaga. Acrescenta
que at6 Ferreira de Araiijo perdia a serenidade, quando justificava a necessi-
dade da Intolerancia.
Contava-se que Francisco Glicrio, num diAlogo, dissera que "velo a
talhe de foice o neg6eio de Canudos". Os diretores do Centro Monarquista
haviam langado um manifesto ao pals, a 12 de Janeiro de 1896. Corn a morte
de Moreira Cesar, temendo-se a restauranio, exigia-se a destruigio de Ca-
nudes e a eliminatvo dos chefes monarquistas. Os jacobinos queriam que a
imagem da Reptiblica saisse purificada da eversio do sebastianismo e do fa-
natismo.
Na mensagem apresentada pelo Presidente de Repfblica, por ocasiao da
primeira sessao da terceira legislature, sob o titulo de Sucessos de Bahia, dia
Prudente de Morals que a noticia da more de Moreira Cesar "produziu
nesta Capital e nos Estados sensagio agravada pela suposigfo de que os
revoltosas dos sert6es da Bahia nao sAo simplesmente impulsionados pelo
fanatismo religioso, mas tamb6m instruments dos que ainda sonham cor
a restauravio da monarquia, apesar de estar definitivamente condenada
pela Nagio...
"0 exame refletido dos fates produz a crenga de que o Insucesso de Ca-
nudos den-se, nao porque os revoltosos dispusessem de elements capazes
de resisitir a repelir o ataque, mas porque as forgas legais, quando se acha-
vam dentro da povoagio, que seria tomada e vencida, tiveram a nfelicidade








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de perder o valente chefe que as dirigia e que, cor o exemplo, mais do que
cor as vozes do comando, transmitia-1he a sua coragem qeu atingia as raias
da temeridade.
O desastre aumenton a fora moral dos revoltosos e os recursos materials
para a luta.
"Nio obstante, a causa da legalidade e da civilizagio, em breve, venceri
a ignorAncia e o banditismo".
Prudente de Morals conduzia-se corn moderagio. Dble, chegava a dizer
Afonso Celso: "Julgo mesmo que V. Excia. concretiza o mais nobre esforgo
de que 6 susceptivel o sistema dominante.
Canudos concorria para Prudente de Morals consumer a consolidac&o
republican de Floriano.
Tentavam culpar o Governador Luis Viana de cumplicidade cor Ant6nio
Conselheiro.
De 1893 a 1896, era Governador da Bahia o dr. Joaquim Manuel Rodri-
gues Lima. O sertio vivia conturbado. Jagungos promoviam desordens, ma-
tando e roubando ate os pobres bruaqueiros, ou sejam, os condutores de vive-
res de um lugar para outro, em animals.
O deputado Antonio Bahia, n, Assembli6a Legislativa baiana, citava a
Gazeta de Noticias que dizia: "Infelizmente continue alarmado de dia a dia
o nosso sertfo, devido exclusivamente a politicagem desbragada e moral de
que esti contaminado este infeliz estado, pois o governor e os nossos repre-
sentantes olham corn indiferentismo para as necessidades urgentes que re-
clamam toda a atividade, e s6 se preocupam nas discusses de pequenina
political e em nomeagBes e demiss6es de autoridades policials, para caprichos
e vingancas partidirios".
A imprensa noticiava que Bebedouro, entire o rio Una e Mocambo, sofria
ataques de grupos de jagunqos, que ameagavam Chique-Chique, Andarai e
outras localidades. Exigia provid6ncias governamentais inadiavels.
Sucedia ao dr. Rodrigues Lima, no governor baiano, o dr. Luis Viana, eujo
quadri6nio iria de 1896 a 1900.
Conselheiro era acusado de fornecer capangas aos grandes conquistadores
de urnas que reforgavam a pan e a tiro a soberania national.
O deputado Ubaldino de Assis asseverava que Conselheiro era politico,
pols "um home que tiem um squito de 12 mil, 6 impossivel que nio tenha
sido aproveitado no iiltima eleigo senatorial, porque acho que ninguem no
sertio deixa de votar atualmente".
O dr. Garcia Pires, em carta ao journal "A Repfiblica", do Rio, afirmava
que o Governador Luis Viana via em Conselheiro um auxiliar poderoso, pois,
em Canudos, representaria s6ria ameaga hs fazendas de criavTo de Jos6 Gon-
Valves e Cicero Dantas Martins, inimigos do Governador. Dai a protegio que
Ihe dispensava. Dai os elogios que os seus amigos faziam ao fanItico durante
as sessies da Assembl6ia, de 1894 a 1895.
Medeiros c Albuquerque asseverava que Conselheiro tinha sido muitas
vezes explorado como docil instrumento pelos politicos da Bahia, at6 que
resolvera fazer obra por conta pr6pria. Acusava a Luis Viana que, em tele-







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grama de 6 de Dezembro de 1896, vinte e poucos dias antes das elelqOes
locais, assegurava que as forgas de Conselheiro nao excediam de 500 homes,
e pedia, tamb6m, que nao f6sse envlada forga federal para it, o que Ihe dava
ganho de causa no distrito em que estava Conselheiro e onde anteriormente
tinham vencido os seus adversaries.
O Bareo de Geremoabo responsabilizava o Governador Luis Viana pelo
fracasso de UaU Para pacificar as comareas de Paraguassfi e Canavieiras,
enviava o Governador grande unmero de soldados, enquanto que, para 'a
expedlo de Canudos, se satisfazia corn uma centena.
O Eardo contava que o coronel UIitro, no primeiro plelto que se deu
depots da cisio do Partido Republicano Federal, se enlendia cor Conselhei-
ro, pedindo forca para conflagrar a comarca de Bonfim, "pedido a que nio
acedeu o ermitio, por ser a eleigao em favor da Repdblica".
A titica do Governador Luis Viana, no pensar do Bario, consistia em
nio veneer os fanaticos, mas dispersi-los para que, em bands, arrazassem
e destruissem as fazendas e propriedades dos adversaries.
No Rio, "A Repiblica" nao so conformava com o silnclo do Governo
sobre Canudos. Na Cdmara, o lider da oposigco apresentava um requerimen-
to para que se constitu!sse uma comissio geral e convidasse o Minlstro da
Guerra a dar informa6oes sobre o que se passava em Canudos.
O mesmo journal acrescentava que o Governo fizera tudo para nao ser
aprovado o requerimento, alegando que o mesmo era inconstitucional e incon-
veniente, pois seria sobressaltar o espirito piblico.
Que pretend Ant6nio Conselheiro? Por que 6 que combatemos? Quer
dep6r o Governo do dr. Luis Viana? Pedlu o Governador balano a interven-
Vio do Governo Federal? Onde? Quando? Em que terms e sob que funda-
mentos? Eram perguntas que a imprensa formulava didrlamente.
"A Repdblica" acusava a Luis Viana de estar ocupado em combater o
General Glc6rio e ndo o Conselheiro. Indagava-se se era veridiea a noticia
de que oficiais que estiveram na revolta as ordens de Saldanha da Gama,
havlam sido convidados, cor bons ordenados, para trabalhar nas fortifcaq6es
de Canudos. Inquiria-se, ainda, se outros oficiais jA estavam 1I em aego.
O deputado Serzedelo Correla falava no bombardeio de Canudos felt
com material de guerra imprestivel. A igreja nio havia sido arrazada gragas
ao pouco poder da artilharia. Contestava que, em Canudos, houvesse pequeno
nimero de faAtlceos. Atribula a resist$ncia de Conselheiro a existencia de
milhares de homes armados e diseiplinados, pois seria impossivel admitir-se
o contririo.
Prosseguindo, Serzedelo nio podia compreender que fanaticos desapare-
cidos militarmente resistissem a soldados que contavam cor os recursos do
Tesouro da Unido, dos arsenals e do Governo.
O deputado J. J. Seabra defendia o Governador balano das acusag6es
de eonivencia e de falta de cumprimento dos deveres. Afirmava que quem
subestimou o valor de Canudos foi Febr6nlo de Brito, que contour corn o con-
sentimento do coronel Saturnine e cuja expedigio f6ra organizada por Ma-
nuel Vitorino Pereira, que conhecia a Bahia. Relativamente aos efetivos







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conselheiristas, perguntava se era possivel conhec6-los exatamente.
O deputado Joio de Siquelra declarava que o Governador Luis Viana
concedera habeas-corpus a Conselheiro; que Luis Viana s6 pedira interven-
vio federal quando se verificara o clamor piblico motivado pelas depreda-
Does feitas nas propriedades dos adversarios de Luis Viana, entire os quals
o Bario de Genemoabo. Acusava o situacionismo de ajudar os fanaticos e de
comerciar corn os mesmos, fornecendo-lhes armas e muniCges. E conclula
dizendo que ninguem ouvira falar que os conselheiristas tivessem atacado a
gente da situaVio dominant no Estado.
No Senado, Vicente Machado requeria que se pedisse informal ao o Pre-
sidente da Repiblica se o nosso Ministro Plenipotenciario na Rep6blica
Argentina havia trazido ao conhecimento do Governo da Repfblica o fato
de term sido despachados na alflidega de Buenos Aires armas e munic6es
de guerra, cor destine a Santos e a Bahia.
Severino Vleira defendendo a Bahia, afirmava que, conforme informa-
96es fidedignas, soubera que o telegram de Beunos Aires publicado em
"O Pals" nao podia merecer ff, pois era la lavra do estrangeiro Climaco dos
Reis, deportado havia anos do Rio por exercer a profiss5o de caften.
Climaco dos Reis vinha sendo indevidamente admitido na legaVio bra-
sileira em Buenos Aires desde o tempo do Barfo de Alencar, recebendo at6
mesmo a gratificaio mensal de 200 pesos a titulo de servigos prestados. Cli-
maco dos Reis, porim, tivera a sua entrada vedada na legagio pelo atual re-
presentante brasileiro na capital portcnha. Dai o despeito que devia ter dado
origem ao telegrama.
Severino Vielra, na mesma defesa que fazia de Luis Viana, declarava
que o crime deste consistli em ter dado o alarma, em ter promovido a alo
armada contra Conselheiro.
A propaganda que se fazia contra Luis Viana fundamentava-se no infor-
me que dera ao Governo Federal por ocasiao da organizagio da expedigio
do major Febr6nio. O Governador baiano calculava em 500 e nfumero de com-
batentes baseado na informagio do Juiz de Direito da comarca de Monte
Santo, em cujo perimetro se achava a regiao de Canudos. Aludido Juiz tinha
relagio de parentesco corn o Bario de Geremoabo, pertencendo ambos a
mesma facao political. A informavio de Luis Viana coincidia, ainda, cor
outros informes colhidos por autoridades locals.
Quando o major Febr6nio entrara em choque corn os conselheiristas, 6
que se verificara nfo ser exato o cAlculo feito por Luis Viana, embora o
f6sse na tpoca em que fora realizado, pois de 1a para ci o nfimero de jagungos
aumentara.
O Major Febrbnio de Brito falara na existncia de 5.000 a 8.000 fanAticos,
nfo s6 pelo que vira, mas tamb6m pelo que ouvira de Antonio Reis, resident
em Cumbe. Nessa informagio, 6 que devera ter sido organizada a expedigio
Moreira Cesar.
0 dr. Artur Rios, em carta, que f6ra comentada no Senado por Vicente
Machado, provocara retificacges da patte do dr. Jos6 Gongalves que viera a
Imprensa dizer que nao pertencia ao namero dos que queriam o exterminio







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dos conselheiristas, e, ao mesmo tempo, protester contra a intriga pela qual
se procurava fazer crer que os partidos politicos da Bahia tinham utilizado
services do Conselheiro em pleitos eleltorals.
Alguem, que se escondia sob o pseud6nimo de Catasol, afirmava que Jos6
Gongalves, embora criador de gado nas proximidades de Canudos, nio ofere-
cera sequer umr bezerro is expedigees. Contestava que os conselheiristas
tivessem devastado propriedades do Barao de Geremoabo, pelo simples fato
de term sido amaldigoadas per Conselheiro, o que implicava na intocabi-
lidade das mesmas por part dos conselheiristas.
Os adversaries de Luis Viana nao o poupavam. Um deles vociferava:
"Desde que chegou a ser Governador da Bahia o dr. Jose Gonglaves da
Silva, inimeras tmn sido as expedigies organizadas contra Antonio Conse-
lheiro, e sempre em visperas de elei~go, quer se tratasse do cargo de senador,
quer de governador... Perguntai por todo o armamento Chuchd que servia
a policia, e a sua competent municio, e terels come resposta que se acham
em poder de Antonio Conselheiro. Abri os anais do congress baiano e haves
de ver que, quando na Camara dos Deputados o deputado Ant&nio Bahia
clamara contra o colebre Ant6nio Conselhelro, se levanton para defendi-lo
o sr. Justino Teles, do partido do Governador, acontecendo o mesmo no
Senado, cuja defesa a Osse fanatico foi produzida pelo entio senador Luis
Viana, respondendo As palavras cheias de verdade do Bario de Geremoabo,
que o atacava".
"A Bahia" combattendo o Governo, asseverava que as populaV6es se viam
obrigadas a de certo modo auxiliar on n~o servir de estorvo aos bandides,
por causa das violEncias praticadas pela forea pdblica, nas localldades per
onde passava, as quais ficavam mais devastadas do que quando per all atra-
vessavam os conselheiristas.
Os jornais da capital baiana noticlavam violenceas ocorridas no sertfo.
"Correlo de Noticias" via nos boatos "dose de malicia, espirito de oposiq&o
e mi vontade".
Em 1896, Clementino Mates atacava o povoado de Barra do Mendes.
Juntava cerca de 400 cabegas de gado e levava o produto do saque para Cha-
pada Velha. Volta Grande havia roubado a cidade de Mundo Novo.
Antes de assumir o governor, Luis Viana incumbia o coronel Policarpo
Ferreira Campos de entender-se corn os grupos bandeirantes, dizendo que nio
toleraria perturbagVo da ordem e que esperava se desarmassem e se dis-
persassem.
"A Bahia", em face do banditismo reinante, elogiava a attitude de Lufs
Viana, que iniciava a execuglo do piano de exterminio dos bandidos. Reco-
nhecia que o sul do Estado ji gozava dos resultados beneficos da intervenQAo
official. Lastimava, por6m, que o governor nao tivesse conseguido jugular os
criminosos que devastavam as regales das Lavras Diamantinas, onde existiam
em alta escala os 6dios dos grupos e famillas poderosas. Pacificar os sert6es
constituia o servigo mais relevant que poderia prestar ao progress e
civilizag[o balana.
"Diario da Bahia", de 27 de Fevereiro de 1896, escalpelando Luis Viana







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e a policia que coexistiam "corn o mais ousado banditismo que ji conflagrou
o sertfo da Bahia", esclarecia: "A falta de comunleako, de melos de trans-
porte fez-se sentir nessas zonas, protraindo a sua emancipagio da velha ro-
tina, desanimando os pequenos e esparsos nicleos agricultores e industrials,
impossibilitando a colonizagio national e mais ainda a estrangeira, perpe-
tuando o analfabetismo e constituindo a melhor garantia dos quadrilheiros
e celerados que impunemente matam, depredam e roubam".
Jos6 do Patrocinio vergastava aqueles que faziam oposigo apenas para
se apossarem do governor; aqueles que queriam a derrota em Canudos e o
alarm universal contra a Repfiblica, contanto que dai resultasse para RIes
o governor. Desmascarava os adversirlos do situacionismo federal e baiano,
revelando que Rles combatiam a direqgo e a march dos neg6cios cm Canu-
dos na persuasio de que atacavam o Governo da Repfiblica e o Governador
da Bahia.
Em editorial, "Republicano" investia contra o orgao official balano que
nio poupara ocasiao de atirar-lhe o epiteto de militarista. Explicava que era
militarista, porque fora leal sustentador do governor do Marechal Floriano
Peixoto, e porque confiara na lealdade do Ex6rcito, que nio deixaria que a
Repfiblica desaparecesse no meio da confusio political, que Luis Viana criava
de comum acordo corn Prudente de Morals.
"Republicano" reptava Luiz Viana a declinar o nome do negoclante ao
qual o dr. Jos6 Gongalves dirigira a carta da qual constava o segulnte trecho:
"Tendo falhado tudo para subirmos, vamos apelar para Canudos". "Republi-
eano" acrescentava que o partido de Luis Viana anslava pela dissoluc~o do
ex6rcito national".
O correspondinte especial de A Rep'lblica declarava que as operagSes se
processavam morosamente, porque ninguem conhecia as dificuldades do
terreno, o nfmero aproximado do inimigo e os obsticulos que a mi vontade
de certas autoridades locals opunham & execuqco dos pianos do general em
chefe.
Depois de UauA, a reagio anti-conselheirista revelava o antagonism
entire o otimismo de Luis Viana e o pessimism do comandante em chefe
das foras federal. Enquanto o primeiro julgava solucionar o caso corn me-
didas policiais, o segundo recomendava operac6es de guerra.
Luis Viana agia de acordo com o art. 6. da Constituilgo de 24 de Fe-
vereiro de 1891, Levantava "o espantalho de uma ameaga A soberania do
Estado", e repelia "a intervencao que the implicava incompetEncia para man-
ter a ordem nos seus pr6prios dominoss.
Em carta de 14 de Marco de 1897, Euclides da Cunha referia-se a trin-
dade nefasta do entao vice-presidente da Repiblica, do Governador baiano
e de dois dos ministros federals. Falava "no desastrado governador baiano,
assoberbado pelas consequencias deploraveis da sua teimosla estipida".
"Se aquele Major (Febrnnio) desbaratasse os faniticos, a imbecilidade de
mestre Viana seria considerada elevado tino e a vossa pruddncia exage-
rada precaugio".
Na mesma carta ao sogro General Solon Euelides mostrava-se alegre








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corn o insucesso de Febronlo. "A raE o 6 simple e que tste pais estA atual-
Smente entregue h petulAncia triunfante de todos os ineptos, de todos os
incompetentes e de todos os desonestos que ocupam as horas de 6cio de uma
maneira bArbara -' conspirando cobardemente contra os que ainda tem
algum valor".
General Solon explicava; "Crente estava eu de que o Governador estava
inteiramente iludido em sua boa fi, per corteligionArios que exploravam os
fanaticos, comerciando cor Ales, de quem tiravam todo o proveito, quer
material, quer politico ou antes de politicagem, para nao acreditar de modo
algum nas desairosas informaV6es que reservadamente me vinham trazer,
pessoas de importancia social, assegurando-se que eu nada consgeguria contra
Ant6nio Conselheiro. E a razio disso era que o dr. Luis Viana, segundo diziam,
Interessava-se por que Wle nIo f6sse aniquilado, e apenas enxotado daqui
para all e dali para acolA para, cor suas correrias, abater o prestigio dos
mais importantes chefes politicos oposicionistas daquela zona, os srs. Gere-
moabo, Aramjo e Jos6 Goncalves, dos quais apenas vi uma vez o primeiro e
que sio segundo a opiniAo geral, legitimas influencias em toda a zona das
explora"6es e depredag6es feitas pelos fanaticos, em suas fazendas e outras
propriedades que se acham devastadas".
Esclarecia o mesmo General: "Foi exatamente o desejo de assim proceder
e o fato de tomar todas as providencias ao meu alcance para chegar aquele
desideratum, que den lugar A minha exoneragiro. Veto esta confirmar a de-
claragio j5 referida de que "se en insistisse na tentative de bater definitiva-
mente o Conselheiro, seria retirado da Bahia por um pretexto qualquer".
0 deputado Antnio Bahia reconstituia os acontecimentos. Dizia que o
Governador envira ordens em oficios as autoridades policials para que pro-
videnciassem no sentido de iquidar o quisto. As autoridades policiais confeg-
saram-se impotentes ao Governador. Este, entao, langou mio da forga que
f6ra batida pelos fanAticos. Diante disso, recorrera o Governador ao Coman-
dante do 3. distrito e ao Vice-Presidente da Repdblica que Ihe mandara dar
auxillo. A forga havia sido post a servigo do Governador, mas as ordens
diste foram transmltidas per meio do comandante do 3. distrito.
Perguntava AntOnio Bahia: "Por que nio se obedeceu a ordem do Pre-
. sidente da Repiblica, o sr. Floriano Peixoto? Por ventura ano estava pertur-
bada a paz do interior do Estado? Por ventura nio era vilipendlada a insti-
tuiio republican, quando aquelas populagies rasgaram os dinheiros da Re-
piblica e propositadamente se opunham ao pagamento dos impostos?". E
concluia, respoisabilizando o comandante do distrito, "porq*e estava em
suas mios fazer cessar tudo isto".
Fora da Bahia, atribuia-se a manejos restauradores a guerra de Canu-
dos. A tais insinuag6es, respondia Luis Viana que "a Bahia 6 republican
porque quer".
Em entrevista concedida ao "Jornal de Noticias", Luis Viana afirmava
que nao acreditava em auxilios de armas e munices a Conselheiro. "O que
nio duvido, dizia, 6 que a gente de Ant6nio Conselheiro, repleta de esmolas,
supra-se de armas e munig6es, nos armazens espalhados pelo interior, e que










estes, pela ganAncia do lucro, ihes vendam munie es e armamento, sem
inquirir o fir a que se destinam".
tuy Barbosa fazia a defesa do Governador baiano. "Bastaria, dizia Buy,
para ter certeza de nio errar nesta apreciagvo, recordarmos o terivel epis6dio
de Canudos, onde o seu nome teve a honra de ver-se associado ao daquele
grande e heroic estado na exploragio do espantalho monarquista, e a sua
prudencia, a sua habilidade, a sua flrmeza conseguiram transp6r cor van-
tagem os perigos de uma grande calamidade".
A respeito de contraband de armas, diz Pedro Muniz que a hist6ria de
Sete Lagoas, embora bem arquitetada, nao tera passado de fantasia de con-
traventores habituais, mas sem a minima ligaglo con Conselheiro e multo
menos corn monarquistas. Acrescenta que nunca se exibiram provas convin-
centes de acumpliciamento de Conselheiro corn monarquistas, pois as que
foram apresentadas corn 6sse objetivo ruiram por terra. Na verdade, as de-
cantadas armas modernas encontradas em Canudos pertenciam As expedi-
~6es anteriores.
Aristides Milton afirma que nao contest que os monarquistas ansiavam
pela vit6ria de Conselheiro, na esperanga de tirar proveito.
O deputado erico Coelho acredita que, iniciada a campanha contra
Canudos, para 16 convergiram as vistas, as esperangas e os auxilios dos
restauradcres do trono, qud conspiravam na Capital Federal, nos Estados de
Minas e Sao Paulo, bem como para IA se voltaram as vistas do clero que
ainda sonhava a restauragco da Igreja no Brasil.
Vencidos, entretanto, no Rio, no Parant, em Santa Catarina e no Rio
Grande do Sul, nao se arriscariam federalistas revolucionarios e restaurado-
res em Canudos.
Ruy Barbosa, em discurso pronunciado no Senado, dizia que fol a con-
tinuac~o dos 6dios politicos entire vencedores e vencidos que fez surgir o fan-
tasma da monarquia. Referia-se a serie de inveng6es fabulosas, gragas ts
quais se apontava Canudos como quartel general da restauraaor monarquica.
Na opinlAo de Buy, Canudos serviu "para se preparar a deposigio de
governadores, para se produzir diante do espirito pfiblico a ameaga da depo.
sig8o do governor geral". E. depois, acrescentava, "quando totalmente se des-
mascararam as inveng6es monarquistas de Canudos, quando a lutuosa cam-
panha chegon ao seu termo pela sombria extingao dos f~ltimos elements
humans daquele agrapamento de infelizes, quando se verificou nio existi-
rem no seio do ex6rcito brasileiro os elements exploraveis, os elementos peri-
gosos, de cujo concurso fingia valer-se a paixAo political para intimidar aos
seus adversarlos, para tornar precaria a situag9o dos seus antagonistas, co-
megou entio um rumor novo, mais terrivel e mais sinistro do que o outro: o
da substitui~io da revolt military pelas eliminag6es individuals de homes
eminentes, de homes politicos, de homes da mais elevada posiAo no Go-
verno da Repfblica".
"Ninguem logrou at6 hoje precisar o mais leave indicio de mescla res-
tauradora nos sucessos de Canmdos... Tudo foram desconfiancas de uma
extravagalcia transcendente... O monarquismo que nAo soube salvar a Sal-









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danha da Gama no Rio da Prata, nao iria atravessar as dificuldades Infinitas
do sertio, para se aliar & loucura de Antonio Maciel..."
Indubitavelmente, a Bahia nlo constituia centro de agitagio restaura-
dora. A revolucao da armada, de 1893, nfo encontrara Eco na Bahia.
O General Artur Oscar disse, certa vez, aos acadimicos de medicine que
serviam na campanha:
"- Sua Bahia t6m dado o que fazer.
"Xavier de Oliveira acudiu logo:
"- NAo 6 a Bahia, mesmo porque AntOnio Conselheiro nio 6 baiano.
"- Mas foi a Bahia que o acolheu.
"- Como acolhe vossa excelencia".

VII A MITOLOGIZACAO DE CONSELHEIRO

A predisposigbo ao sobrenatural per parte da mentalidade sertaneja cons-
titui o terreno fertile em que viceja a taumaturgia.
Antonio, quando penitente, deambulara pelos sertoes de virlas Provin-
cias. Conseguira conquistar, pelo exemplo, a confianga das massas sertanejas
que passaram a considerA-lo home santo que pregava a palavra de Cristo
e s6 dizia a verdade.
Depois, de simple peregrine, ascendera a Conselheiro. Transformava-se
numa criatura superior, que dispunha de real prestigio junto i divindade.
Passavam a circular de povoag5o em poovagio, os seus milagres. Perdiam-se
as suas origens.
Circulava a noticia de. que Conselheiro era assassino da mie e da pr6-
pria esposa. Diz Euclides da Cunha: "Diziam-no assassino da esposa e da
pr6pria mie. Contavam que a ultima, desadorando a nora, imaginary per-
d6-la. Revelara, por isto, ao filho que era traido; e come iste, surpreso, Ihe
exigisse provas do delito, propos-se apresenti-las sem tardanga. Aconselhou-o
a que fantasiasse qualquer viagem, permanecendo, por6m, nos arredores, por-
que viria, i note, Invadir-lhe o lar o sedutor que o desonrara. Aceito o alvi-
tre, o infeliz, cavalgando e afastando-se cerca de mela 16gua, torceu depots
de redeas, tornando furtivamente, por desfreuentados desvios, para uma
espera adrede escolhida, de onde pudesse observer bem e agir de pronto. Ali
quedou longas horas at6 lobrigar, de fato, noite velha, um vulto aproximan-
do-se da sua vivenda. Viu-o achegar-se cautelosamente e galgar uma das
janelas. E nio Ihe den tempo para entrar. Abateu-o cor um tiro. Penetrou,
em seguida, de um salto, no lar e fulminou corn outra descarga a esposa
infiel, adormecida. Voltou, depois, para reconhecer o home que matara...
E viu, corn horror que era a sua pr6pria mae, que se disfarcara daquele modo
para a consecuglo do piano diabolico. Fugira, entEo, na mesma hora, apa-
vorado, doudo abandonando tudo, ao acaso, pelos sertoes em fora..."
Euclides, em 1902, considerava o matricidio eo uxoricidio de Conselheiro
pura fantasia.
A lenda, entretanto, nao desaparecia. Assim 6 que a ouvimos de pess6a
natural de Quixeramobim e descendente dos Araijos. Narrava ela o matrici-









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dio e contestava o uxoricidio de Conselheiro.
Moravam no lugar Casinhas, a tros 16guas de Quixeramobim, e uma tarde
Antonio, pretextando necessitar de ir a cidade, de onde s6 voltaria no dia
seguinte, despedlu-se da esposa e partiu. Mas ao anoitecer regressou, caute-
losamente. No pateo havia uma frondosa gameleira, sob a qual dormaim
centenas de ovelhas. Para all se dirigiu, clavinote na mIo, Antonlo Vicente,
quando vin surgir, por tris da casa, um vulto. Um home, vestindo ceroula
e camisa brancas de algodio, salton a janela, meio aberta, e penetrou justa-
mente pela direvio do quarto de Maria. Antonio perden a cabega. Era ver-
dade o que a mAe Ihe dissera. P6 ante p6, corn a respiragio suspense, quase'
acocorado, aproximou-se de casa, deitando-se no chio, debaixo da calgada,
que era alta, e esperou, impaciente. LA pelas tantas, o vulto saltou de novo a
janela, tomando a direogo de onde viera. Mal, porem, deu alguns passes,
ouviu-se um estampido que despertou today "Casinhas" Antonio, de tocala,
alvejou o "ladrao da sua honra", prostrando-o com um tiro certeiro. Sem
larger o clavinote, correu para o vulto, que tombara, de brugo, sem vida, e ao
virar-lhe o corpo... A sua pr6pria mAe!... Ao estampido, Maria (mulher de
Conselheiro) correu, como outras pessoas do lugar, e, estacando diante do
cadaver da sogra, retrocedeu. Antonio, deixando a arma, encaminhou-se para
a esposa, e depots de narrar-IWe tudo, pediu-lhe perdAo de haver duvidado da
sua lealdade conjugal. Ferida na sua dignidade, Maria deu-lhe as costas,
dizendo-Ihe que nunca mais a procurasse. Antonio tratou de arranjar uma
r5de, na qual colocou o cadaver da mae, e dirigindo-se a Quixeramobim,
onde chegou jA dia claro, tratou do enterro, depols do que procurou o dele-
gado de policia, Major Eufrasio Nogueira, que tinha sido seu colega na
aula de latim do professor Jos6 Remigio, para entregar-se A prisAo, e nio
houve demovA-lo de livrar-se solto, dadas as razoes do crime. Responded a
jurl e foi absolvido por unanimidade. Mandon, ent~o, pedir a esposa dols
camisol6es, uma coberta, um par de alpercatas e um cajado. E um dia diante
de grande multiddo, sem se despedir de ninguem, AntOnio Vicente partiu da
porta da cadela, atravessou a cidade, vadeou o rio, subiu pelo Alto da Ma-
ravilha e desapareceu.
Gustavo Barroso,, em "0 Cruzeiro", de 1. de Janeiro de 1949, assevera:
"Corre no Ceard a hist6ria ou lenda, nao se sabe bem, que o nomadlsmo e o
misticismo de AntOnio Conselheiro foram causados por terrivel tragedia do-
m6stica, na qual le matou a sua pr6pria mae". Acrescenta Gustavo que,
praticando o crime, "se acercara do cadaver, que estava de borco, cor a mao
no cabo da faca para o que disse e viesse".
Conselheiro jamais foi matricida, nem uxoricida.
Vicente Mendes Maciel pal de Conselheiro casou-se duas vezes.
Beza o registro do primeiro casamento: "Aos trinta e hum de Agosto de mil
oitocentos e trinta e quatro, pelas cinco horas da tarde em casa de morada
do contraente Vicente Mendes Maciel, omitidas as diligEncias do costume por
ser o casamento feito in articulo mortis assist ao recebimento dos Con-
trahentes Vicente Mendes Macel, fllho natural de Maria Manoela do Sacra-
mento, JA falecida, comn Maria Joaquina de Jesus, filha natural de Feliciana










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Maria Francisca, em presenga das testemunhas Jos6 Antonio de Baros e Jos6
Raimundo Faganha, casados: os nubentos, naturals, e moradores desta Fre-
guezia de Santo Antonio de Quixeramobim e logo receberao as Bengaos
Nupciais: do que para constar fiz este assento, que assino. O Vigr. Fructuoso
Dias Ribeiro".
Decorridos 17 meses e 11 dias, Vicente Mendes Maciel casou, pela segun-
da vez. Diz o registro: "Aos doze dias de Fevereiro de mil oitocentos e trinta
e seis, pelas oito horas da noite na Matriz desta Freguezia, ometidas as De-
nunciag6es do estilo, de licenga minha o Reverendo Fructuoso Dias Ribeiro
casou e deu as Bensios Nupcials a Vicente Mendes Maciel, viuvo por fale-
cimento de sua mulher Maria Joaquina de Jesus, corn Francisca Maria da
Conceigio, filha legitima de Innocencio Alves Freire e Joana Maria da Con-
ceigio ji falecida; foram testemunhas Francisco das Chagas Pinto e Jose
de Souza Nogueira, casados; todos moradores nesta Freguezia, do que para
constar, do assento que me foi remetido,'fiz o prezente termo que assino. O
Vigr. Pinto de Mendonga".
Vicente Mendes Maciel nSo se casou pela terceira vez, conforme atesta
o registro de sepultamento que se segue: "Aos cinco dias do mes de Abril de
mil oitocentos cincoenta, e cinco falleceo de human constipagio nesta Villa
cor todos os Sacramentos o adulto Vicente Mendes Maciel de idade qua-
renta, e olto annos casado cor Francisca Maria Maciel, e foi solenemente
sepultado na Capella do Senhor do Bonfim de grades assima em volto em
habito preto, sendo o acto presidido por mim do que para constar mandel
fazer 6ste assento, que assigno. 0 Vigro. Antonio Jos6 Jacincto Bezerra".
Tudo indica que'o primeiro casamento de Vicente Mendes Maciel foi
felto in articulo mortis. Mesmo admitindo hip6tese contriria, Maria Joaquina
do Nascimento a mge de Conselheiro morreu antes de 12 de Fevereiro
de 1836, pois nssse dia se casou Vicente corn Francisca Maria da Conceigao,
a sua segunda e iltima esposa.
Do primeiro matrim6nio, sao filhos de Vicente: Ant6nio Vicente, Maria
Francisca e Francisca Maria. Do segundo, sao filhos de Vicente: DorotBia,
a primogenita, que nasceu a 8 de Feveeriro de 1837, e Rufina Francisca.
Por ocasiao do inventirio de Vicente, em 1856, figuravam como legitimos
herdeiros os tr6s filhos do primiero casamento e ura do segundo a menor
Rufina que se casara, em 7 de Novembro de 1855, cor Marcos Ant6nio de
Almeida, no sitio Riacho do Meio da par6quia de Quixeramobim.
Se o filho mais velho do segundo casamento de Vicente nasceu em 1837,
em 1855 os demais filhos do mesmo casamento eram menores.
Conselheiro nasceu em 1828, conform registra o Bario de Studart. Quan-
do morreu a sua mae Maria Joaquina do Nascimiento em 1834 ou antes
de 1836, Conselheiro contava seis anos de idade. Nao podia estar casado, nem
matar a mne dble.
A mae de Conselheiro figure corn o nome de Maria Joaquina de Jesus
no registro de casamento cor Vicente Mendes Maciel, e no assento d6ste corn
Francisca Maria da Conceiio. Figura, ainda, corn o nome de Maria Joaqui-
na do Nascimento no registro de casamento de Conselheiro, no batistfrio da









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primeira irma de Conselheiho, de 15 de Junho de 1831.
A madrasta de Conselheiro figure com o nome de Francisca Maria da
ConceigLo no seu assento de casamento cor Vicente Mendes Maciel. Figure
cor o nome de Francisca Maria Maciel no registro de 6bito de sen marido e
no registro de casamento de sua filha Rufina Francisca. Figura cor o nome
de Francisca Maria das Chagas no inventario de Vicente Mendes Maciel.
Se relativamente is suas origens, circulavam hist6rias sem base na rea-
lidade, outras fantasticas hist6rias corriam no concernente A sua forga tau-
matdrgica.
Contava-se que Conselheiro, sabendo que o madeiro escolhido para viga
da cumieira da igreja nova nao podia sser conduzida pelos jagungos, de tio
pesada que era, se dirigia ao local, tocava por tres vezes o madeiro cor a
ponta do bordlo e ordenava que tres homes o suspendessem e levassem
para seu destino, o que se verificava.
Contava-se, ainda, que, no iltimo dia da santa missao pregada por Con-
selheiro em Monte Santo, ao fazer 6le a cruz, no limiar do temple, corn a
ponta do bastio, de repente, comegava a exsudar agua das paredes e a go-
tejar do teto. Ao deixar o temple e fazer o pelo sinal, cessava a agua de res-
sumar das paredes. EntIo, o povo augurava que semelhante prodigio anun-
clava muito sangue derramado por causa do Conselheiro. Pouco depois tra-
vava-se o combat de Uaui.
Dizia-se que uma senhora ficava boa por beber as cinzas de um pedago
do hibito de Conselheiro dissolvidas em agua morna. Outra, faltando-lhe
leite para amamentar o filho, implorava a Conselheiro e os seios se enchiam.
Ao fundar Bom Jesus, propalavase que Conselheiro fazia milagres. Em
Monte Santo falava-se que a Virgem Santissima deramava Iagrimas san-
grentas.
A imprensa noticiava que, na regiao sob o control carismitico de Con-
selheiro, quem negasse a divindade dBle teria seus bens confiscados e seria
morto.
Conselheiro pregava a noite no Santuirio, contou-nos Hon6rio Vilanova.
O povo ouvia cor a maior atenCio. Num dado moment, Interrmpeu brus-
samente a homilia. Silenciou. E, logo depois, disse em voz alta: Ah! mal-
vado, matar teu irmao para roubar, e depois matar a mae e at6 a criada...
A seguir, Conselheiro prosseguiu na pregagio. Na noite seguinte, foi preso no
estabelecimento commercial dos Vilanovas um home rec6m-chegado ao
arraial e que foi identificado como o autor do crime anunciado por Conse-
lheiro. Tratava-se do assassino de um filho, da esposa e de uma criada
de Angelo Reis, proprietirio da fazenda Formosa, distant 78 quil6metros de
Canudos. Conselheiro assistira, a distincia, o crime, forga misteriosa que
aumentou o seu prestigio.
Havia, entretanto, muita explorafio e os jornais veiculavam boatos e
fantasias extravagantes. Interrogado sobre os milagres de Conselheiro, certo
jagungo adolescent, trazido de Canudos pelo Coronel Carlos Teles, respon-
dia que nio os conhecia. Declarava que Conselheiro nio prometia a ressurrei-
95o e sim a salvagio aos que morriam em combat.










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No seio das tropas que lam combater Conselheiro, circulavam essas hist6-
rias. Muitos soldados, filhos do Nordeste, ja conheciam os milagres de Con-
selheiro.
Os canudenses tinham oportunidade de verificar que Conselheiro nio
era Deus, nem Seu enviado.
Certo dia, estava Conselheiro cercado de vinte a trinta pessoas, quando,
num dado moment, recrudescia o tiroteio. Conselheiro resmungava de mau
humor:
Estes cles malditos amanheceram hoje danados.
Um dos circunstantes alvitrava-Ihe, entSo, que buscasse lugar mais se-
guro. Irritado cor a observavio, Conselheiro replicava que nao corria perigo,
bem como os que perto dOle se achavam. Mal acabava de proferir essas pa-
lavras, quando explodiu uma granada sobre o compartimento, destruindo-Ihe
parte da cobertura e derribando um lango de parede.
Conselheiro, cor o hibito de azulio roto, estava cor um fio de sangue
a Ihe escorrer da coxa desnuda. A partir desse dia, Conselheiro perdia parte
do prestigio que desfrutava. O ferimento provava vulnerabilidade. Hon6rie
Vilanova, por6m, contest esse epis6dio.
Mesmo depois de sua morte, os canudenses continuavam a acreditar no
seu prestigio junto a divindade. Tinham certeza de que Conselheiro viajara
para o c6u de onde voltaria em breve entire "milh6es de arcanjos armados de
espadas flamivomas" e cairia sobre os sitiantes, "fulminando-os e comegan-
do o Dia do Juizo".

Depois que Canudos foi arrazado, a crenga na volta de Conselheiro per-
durou. Ale voltaria para libertar sen povo.
Joao da Silva Campos conheceu o inico tabarfu do nordeste baiano que
nio acreditava nas virtudes e santidade atribuidas a Conselheiro. Conside-
,rava-o um iludrid6 da humanidade.

Em 1916, o mesmo folclorista obtinha de amigo que esteve no arraial a
informapio de que havia ali quem aguardasse a volta de Conselheiro. Acres-
centava Silva Campos que existia gente nos municipios limitrofes que estava
A espera de que ele ressurgisse para veneer e prender Lampiao.
Em 1950, passando em Canudos, o escritor cearense J. Figueiredo Filho
observou que do antigo arraial s6 restava o Cruzeiro todo crivado de balas
e ainda no seu velho pedestal. Amarrado ao p6 da cruz, viu um ex-voto-mio
tosca de madeira, Veio, entio a saber que, nos arredores, morava uma familiar
sobrevivente da luta e que esperava a volta, em care e osso, de Conselheiro.
A literature consagrou esse iessianismo. Em "Canudos", de Pedro Ri-
beiro, a personagem Macambira diz a Manuel do Bode que "o ConsIelheiro foi
pro ceu, mas torna a vorta".
Os violeiros sao os "orgtos da opiniao" das populag6es sertanejas. Can-
tam os feitos e os milagres dos caudilhos religiosos. Sao os cantadores que
interpretam os pensamentos e exprimem os sentiments do sertio acerca de
instituig6es e acontecimentos.









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Em 1876, Silvio Romero registra esta quadra:

Do c6u veio uma luz
Que Jesus Cristo mandou
Sant'Ant6nio Aparecido
Dos castigos nos livrou.

Fernando Barreto Nunes registra esta outra:

Quem quiser rem6dio santo
Lenitivo para tudo
Procure o Conselheiro
Que esta 1A nos Canudos.

Moreno Brandio afirma que a campanha de Canudos preocupou forte-
mente as populag6es do baixo Sho Francisco. Muitos individuos procuraram
os sert6es da Bahia para ficar a par dos acontecimentos maravilhosos que
lhes exaltavam a imaginavio. Criou-se o mito da ressurreigio de Conselheiro.
Existe um ciclo de cantos e lendas milagrosas a respelto de Conselheiro,
que ainda correm os sert6es nordestinos.
O sertfo atesta a predominant predisposigio ao sobrenatural por part
de suas populag6es.
Joao Alfredo de Freitas conta que a origem do nome de Frade, localidade
cearense, 6 que hW perto uma enorme pedra configurando um disses mis-
sionarios capuchinhos que pregam pelos sertoes. Os habitantes asseguram
que tal pedra e a image de um santo frade, que all residiu e praticou a ca-
ridade. No moment de expirar, por efeito sobrenatural, surging a pedra que
ali ficou como vigilante do lugar.
E' grande a capacidade fabuladora do sertanejo. O mrdo, em face dos
fen6menos inexplicaveis & mentalidade rudimentar, leva o sertanejo a cair de
Joelhos, a proclamar a onipot8ncia de uma forga estranha.
O portugues ji povoava as suas notes com os assombros que tinham
vindo cor le nos galeoes. O negro cantava sua gesta milenar. Deuses e
duendes corriam entire os troncos de cem anos, deixando rastros na alma
assombrada dos indigenas, diz Cimara Cascudo.
A terra nordestina encheu-se de Curupiras, Sacis e Lobishomens que
surgiam r proporCio que o povoador enfrentava a natureza tropical.
As populaGies sertanejas nWo estio em condiges mentais de compreen-
der os dogmas, as coisas abstratas. Nao concebem Deus como simpless mo-
tor do mundo". le s6 passa a ser compreendido por elas, quando entra em
relaoges incessantes.
Assim sendo, o caudilho religioso, aquele que interpret a vontade de
Deus, o medianeiro entire o criador e a criatura, acaba por ser divinizado pelo
simples fato de ser visivel, de estar mais perto dos olhos e do coragio dos
crentes.
A mito!cgizanpo de Conselheiro esta na 16gica da mentalidade sertaneja.









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Ele passa por Deus, porque revela qualidades sobre-humanas que beneficial
os agrupamentos rurais que v&em nele o conhecedor de suas necessidades.
Se Conselheiro tmr poder misterioso de fazer o bem e o mal, os ruricolas
querem manter cor ~!e as melhores relag6es.
A mitologizagio de Conselheiro result da tend6ncia da mentalidade ser-
taneja de representar o mundo conforme os seus desejos e as suas necessida-
des. E' fruto da imaginagio sertaneja pressionada pelas miseraveis 'condig6es
de vida do sertio. Nio sUi da cabeca do povo como Minerva da cabega de
Jipiter. E' a realidade ambiente que exerce pressio sobre a imaginaeio, que
forma o mito que toca nos mais profundos anselos do rurigena, em suas espe-
rangas e em seus temores.

VIII TENTATIVE DE INTERPRET AO

Vicente Mendes Maciel, pai de Antonio Conselheiro, rompera cor os
compromissos clinicos. Abandonara o campo e fixara-se na cidade. Analfa-
beto, esforgara-se por educar e instruir os filhos. Almejara mesmo ordenar
AntOnio.
Antonio fracasou no comrrcio. Nio abracou a carreira eclesiistica. Foi
infeliz no matrirnnio cor Brasilina. Educado nos principios da religiio ca-
t6lica, reagiu ao adulterio da esposa de modo envangelico. A infidelidade da
mulher, por6m, exerceu decisive influencia na sua vida. Interpretou-a come
sinal divine de reprovacio por nio haver seguido os conselhos de seu pal,
que desejava faz6-lo padre.
Os missionrilos que esquadrinhavam os sertoes despertaram-lhe forcas
latentes. Conheceu, entio, o Padre Ibiapina, que realizava impressionante avlo
social.
Ser missionirio como Ibiapina. Construir igrejas, capelas e cemiterios, ter
atris de si a massa de fieis, gozar da consideraVgo das massas sertanejas,
eis o seu ideal. Concretizaria, assim, a aspiragoo de seu pal. Os Macieis have-
riam cle brgulhar-se dble. Seria a melhor vinganca contra os Araijos.
Fugindo da Provincia natal, onde fora tao infeliz, Antonio adentrou-se na
Provincia de Pernambuco. Passaram-se virios anos sem que se tivesse noti-
cia dele.
Em contact cor as massas sertanejas, foi AntOnio sentindo os anseios
messiAnicos que as agitavam. Depois que se julgou apto para exercer as fun-
9oes de missionario, a exemplo de Ibiapina, iniciou as suas atividades.
Percorreu AntOnio povoados e vilarejos. A catequese comegou a dar bons
frutos. Os vigArios passaram-a v-lo corn bons olhos, pois, ao seu menor aceno,
se construiam cemit6rios e se elevavam capelas.
Nessa incessante peregrinacgo encontrou-o o regime republican.
A massa sertaneja nio sabia distinguir entire monarquia e repiblica. O
que temia era ser onerada de mais impostos, pois os poderes piblicos s6 so
lembravam dela para tosquia-la on sangra-la. Conshelheiro nio fez mais do
que liderar 6sse movimento de revolta.
Quanto ao fato de instigar o povo a nao pagar imposto, nao seria Rle o










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Onlco. O Juiz de Direito da Comarca de Valenga revoltou-se contra o gover-
no municipal, incitando os contribuintes a nio pagar impostos e ele mesmo
deu o exemplo, recusando-se a pagar os impostos como gerente das fAbricas
de Valenga. Agiu como Conselheiro, diz "DiArio da Bahia", de 7 de Marco
de 1896.
Sacerdotes sertanejos combateram o novo regime. Condenaram a separa-
gEo da Igreja e do Estado. Conselheiro seguiu o mesmo exemplo. Julgou que
o regime republican ameagava a sua religiao. Nio agiu como monarquista.
Estimulado pelos par6cos, Conselheiro excedeu-se em violencias, pro-
vocando a reagio governmental.
Conselheiro recebeu a Republlca como re-pilblica. Identificou-a cor a
esposa adiltera. Nos seus sonhos, devia haver a condensacao freudiana.
Contra o novo regime canalison todo o seu 6dio a Brasilina, revolta que recal-
cara em razio da censura religiosa.
Anatematizou Conselheiro o casamento civil. Ainda neste anatema, inter-
pretou os sentiments da massa sertaneja, cuja attitude de reserve se mani-
festa cor relacao ao casamento civil.
As violentas manifestag6es anti-republicanas, lideradas por Conselheiro,
reproduziam o movimento dos Quebra-quilos, revoluvio social que rebentou
no municipio de Campina Grande em 1875, provocado por novos impostos
provincials. Tomaram parte nele lavradores de terra alheia, os feirantes e os
pequenos comerciantes que deflagraram o movimento por ocasiao da execu-
cgo do sistema m6trico.
As massas rebeladas quebraram os novos pesos e medidas. Incendiaram
cart6rios e arquivos municipals. Rasgaram o retrato de Pedro II
Na agVo de Conselheiro contra a Reptblica, nio houve influ6ncia do
conspirador monarquista. Em resposta ao brinde, que Ihe f6ra erguido no
banquet oferecido pelo Governador da Bahia, em 25 de Outubro de 1897.
o General Artur Oscar declaron "estar convencido de que AntOnio Conselhei-
ro era monarquista por fanatismo, pela religion. ... seu monarquismo, por-
tanto, era meramente religioso, sem ader8ncias & politica... Antonio Conse-
lheiro era monarquista de motu proprio, menos como um meio de fazer mal
a republican do que cor o intuito de sustentar a religion".
Os atos violentos praticados por ordem de Conselheiro e.o choque com
a forga policial em Massete levaram-no a escolher um local mals estrat6gico,
em que pudesse resisitir com eficiencia caso fosse atacado.
Surgiu, assim, Canudos, que Conselheiro organizon a seu modo, de acordo
com a sua concepio crista de vida.
Antes, pregou Rle em linguagem simples. Falou de uma vida em que todos
se nivelam e onde nio ha ricos nem pobres, porque todas as riquezas consis-
tem na humildade, no amor do pr6ximo.
Agora, fundado o arraial, pos em pritica Conselheiro o que compreendia
por comunidade evang6lica.
A concepgio de vida cristi de Conselheiro atenden aos anseios das massas
sertanejas, que almejavam algo melhor. Dai o fanatismo que resultou do
encontro da massa cor o caudilho, que prometia materializar o sonho de









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um mundo diferente. Dai a transformaggo em forga material das concepoges
de Conselheiro.
0 misticismo religioso de Canudos nio p6de ser atribuido a simples con-
sequ6ncia da mestigagem. Explica-o, em parte, o "labutar duma meia cul-
tura inconsequente" que se prolongou por quase quatrocentos anos.
Canudos 6 -a insurreigio s6cio-psicol6gica elite que explode o antagonismo
de cultures separadas por dist&ncia fisico-social: a do litoral, urbanizada, e a
do sertio, arcaica e pastoral, diz Gilberto Freyre.
Canudos 6 a "reagio contra as imposig6es feudais, defesa das crengas
populares, simbolizadas na figure mistica do Conselheiro", afirma Artur
Ramos.
Canudos 6 um perigoso centro de alucinados fanaticos, alimentados pela
indiferenga, tolerincia e imprevidencia dos governor, bem como pela igno-
rAncia das populaC6es sertanejas, asseveram os estudantes de agronomia da
Bahia, em manifesto publicado no "Diitrio da Bahia", de 2 de Abril de 1897.
Ha os que consideram Canudos un "fato policial, transformado por incd-
ria e descaso em calamidade pdblica". Responsablizam o Governo por nio
ter sabido dar cultural e civilizacgo.
Relativamente a Conselheiro, 6 considerado nm desequilibrado. "A Bahia"
afirma que 6 die um element de desordem e perturbagdo social, political e
econ6mica do Estado, um infeliz desequilibrado, uma potAncia malifica e'
anarquica, um fanatico, um louco on degenerado mental, dotado em alta
dose da faculdade de fascinar e dominado pela obsession reformist anti-repu-
blicana.
O mesmo journal, esclarecendo o seu pensamento mal interpretado por
"Correio de Noticias", diz que, repelindo o titulo de bandido e relvindicando
para Conselheiro os qualificativos de alucinado e fanatico, s6 visa A verdade.
Julga os atos de atrocidade pr6prios de faniticos que os praticam em legiti-
ma defesa, obsedados por uma causa que consideram santa. Faz ver que a
atrocidade esta na razao direta da conviccaodo fanatico. Cita o exemplo de
Marco Aurelio que, a despeito de moralist, muito perseguia a cristandade.
Tim6teo, em "Didrio da Bahia", de 20 de Dezembro de 1896, nfo cre que
Conselheiro seja bandido, fanatico on santo; mas v6 nele uma combinagAo
de velhacaria pr6pria corn a indiferenga dos que nio atalharam o mal em
pequeno.
O deputado Antonio Bahia, na Assemblmia balana, na session de 19 de
Maio de 1894, defended Conselheiro da pecha de ladrao e assassin, e qualifi-
ca-o de desvalrado.
Hi os que desconfiam do Inabalavel de suas crengas, de seu zelo mis-
sionurio.
Xavier de Oliveira 6 de opiniMo que Conselheiro nio era erente exaltado
e que s6 se fez missionario para melhor exercer a sua vinganga e provar que
nio era home para apanhar de mulher.
Araripe Junior asseverou que, no Ceari, qualquer critieo de ports de
botica sertaneja tnm Conselheiro na conta de velho best, de maus bofes,
que, traido pela mulher, se fez devote. Entende, ainda, que qualquer Conse-









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Mheiro sertanejo agira como 6le, que nao p6de ser classificado entire os tipos
lombrosianos; mas nio pass de gn6stico bronco e cr6dulo, cuja doutrina 6 o
resultado de combinag6es encontradas na literature religiosa de cordel: as
mesmas profecias, as mesmas hist6rias do tempo do onga. A fnica diferenga
deriva de particularidade individual tal como o 6dio ao casamento que lhe
f6ra funesto, motive por que estabeleceu a liberdade do amor. Conselheiro e
um despeitado da vida que o meio converted em instrument do sertao con-
tra a civilizaglo litoranea que queria puni-lo por seu atraso.
Prosseguindo, Araripe Junior pergunta se Conselheiro nEo 6 um vaga-
bundo religioso do tipo estudado por Maximov em "A Russia errant e men-
diga". Conselheiro nao trabalha e obriga os outros a trabalhar. Essa obsti-
nag~ o muito se pode atribuir a uma velhacaria sub-consciente. Andar pelos
sert6es a pregar, a fazer carregar pedras para a edificagOo de igrejas e a
retirar-se dos poovados coberto de bengios dos que o consideram santo, nAo
6 cousa desagradavel e dificil.
A opiniao mais generalizada 6 a de que Conselheiro 6 um louco. Assim
o consideram cronistas e historiadores que o estudaram.
0 cron6grafo cearense JoAo Brigido assevera que Conselheiro esta nas
condi&6es patol6gicas do pai e que a familiar dos Macieis sofre de afeegco
mental.
O historiador Rocha Pombo registra que Conselheiro descend de uma fa-
milia, cujos membros, na maior part sofrem de alienaago mental.
Morto Conselheiro, o seu suposto crineo fol levado para a Faculdade de
MediZcna de Salvador, ondle Nina Rodrigues o analisou minuciosamente.
Nina Rodrigues consider Conselheiro um simples louco; mas reconhece
que a sua loucura 6 um reflexo do meio que a gerou. Divide a hist6ria de
Conselheiro em tres fases que coincide corn os trEs periods de sua psicose.
O primeiro period estende-se atW a internacgo de Conselheiro na Bahia em
1870. Desinteligncias dom6sticas cor a mulher e a sogra, mudangas de re-
sidincia e agressIo ao cunhado caracterizam o seu delirio de perseguigio.
O segundo period abrange as pregag5es iniciais no sertao balano, a prisiia
e remogio para o CearA. Prolonga-se. at 1889.. 0 terceiro period comega
corn a proclamagr o da Repfblica. Peculiariza-se por alucinacles persecut6-
rias que o lancam contra os inningos da religiao. Nina conclue que Conse-
lheiro 6 vitima de delirio cr6nico de evolucOo sistemAtica.
Xavier de Oliveira tacha a observagio de Nina Rodrigues de incomplete
pelo fato de nao ter visto Conselheiro, que 6 classificado por Xavier como
esquizoide, pots Conselheiro manteve at &r morte perfeita integridade mental.
E' um esquizoide tipico, por seu feitio individual, arredio que sempre fol ao
meio, habitualmente guerreiro que o cercou desde o nascimento. Para Xavier,
Conselheiro 6 um paranoico no conceito germanico de'Kraepelin.
Euclides da Cunha vC, em Conselheiro, "uma anticlinal extraordinaria"
resultante da sublevagio das "camadas profundas da nossa estratificagio
Utnica".
Alcides Bezerra explica a criminalidade de' Conselheiro polo atavismo









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organico-psiquico lombrosiano somado i inadaptacgo juridico-social vacca-
triana.
HA, entretanto, os que pensam que nao seja a loucura a causa das ag6es
de Conselheiro.
J. da Costa Palmeira acha que a loucura de Conselheiro nada represent
se nao f6r levada em conta a psicologia da 6poca e do meio. E' ai que vamos
encontrar o combustivel para o incndio.
Silvio Romero lobriga fluxo e refluxo, troca de influ6ncias entire Conse-
Iheiro e a massa sertaneja que o seguiu. A vesania do caudilho religioso s6
se complete quando 6 compartilhada pela massa.
HI os que descobrem, em Conselheiro, o lider que guiou as massas opri-
midas contra os opressores.
Clovis Moura, interpretando Euclides da Cunha, assinala a difereneiag&o
profunda de classes no campo dividido entire os "descendentes dos opulentos
sesmeiros" que gozam "parasitiriamente as rendas de suas terras" e a massa
camponesa composta de "anonimos-nascendo, vivendo e morrendo na mes-
ma quadra de terra-perdidos nos arrastadores e mocambos; e cuidando a
vida inteira fielmente de rebanhos que Ihes nio pertencem".
Gilberto Freyre, interpretando tamb6m a obra de Euclides, acha possivel
que o movimenf;o messianico de Conselheiro tenha certo cunho de revolt
dos oprimidos.
A resenha do Hachette, de Paris, para o ano de 1897, proclama a fama
mundial de Conselheiro, ex6tico caudilho que prega o comunismo ao mesmo
tempo que o restabelecimento da monarquia.
.sse diagn6stico de revolt de classes oprimida no concernente ao mo-
vimento de Canudos, p6de ser reforgado pelo latifundiario Bario de Gere-
moabo, que se refere A 'seita de comunismo" da qual Conselheiro 6 chefe
inconteste.
Ha os que nio negam as qualidades de lider e reconhecem, em Conse-
lheiro; um espirito capaz do lirismo religioso de um Savonarola. Grupo
nenhum confia em lider sem coragem fisica e moral. Se o lider represent
o grupo 6 porque esta integrado n6le. Um lider que nao possua energia fisica
e moral nio se imp6e ao grupo. Nao 6 lider e, sim, um corpo estranho.
Ha os que temem a uniAo do caudilho religioso corn a massa sertaneja,
vendo nela um s6rio perigo social.
Nestor Vitor atemoriza-se diante da possibilidade de fusio do fanatismo
religioso cor outros sentiments subversivos. A proliferac~o de caudilhos re-
ligiosos rivals de coroneis transformara o Brasil numa Rfissia antartica bol-
chevique.
HB os que se assustam diante da possibilidade de reprodugao dos acon-
tecimentos de Canudos.
"Diario da Bahia", de 6 de Fevereiro de 1898, em editorial, refere-se a
uma carta recebida do sertAo, comunicando que o bandido Barbadura se
localizou em Gongory, B6ca do Mato, termo de Pog6es, de onde faz largas
excurs6es e explorag~es, e que, esquecido de Canudos, esta se fortificando.
Tristfo de Ataide adverte os poderes pfblicos de que a concentracio de-










66-

mografica nos morros do Distrito Federal p6de causar outra explosio mestiga.
A possibilidade de vingangas das classes oprimidas foi prevista pelos que
focalizaram, literalmente, a guerra de Canudos.
Tiago diz a Vila Nova, em "0 Rei de Jagungos", de Manuel Benicio;
"Quem sabe se ainda nao tomaremos uma desforra dos danados que fizeram
isto?"
Tico-Tico, so juntar os clavinotes depois da hecatombe, diz a Pachola,
em "Os Jagungos", de Afonso Arinos de Melo Franco, que um dia, talvez,
aindA se precise deles.
Na explicagao do fen6meno Conselheiro nio se p6de solar o caudilho da
massa e do meio em qte atuou.
Descendente da familiar dos Macieis, sertanejos que viviam perfeitamente
adaptados ao quadro ecol6gico, herdou Conselheiro as tend6ncias de comba-
tividade e amor & liberdade.
A educagio e a religiao formaram-lhe o super-ego. 0 pal tentou orde-
na-lo, faze-lo padre. Conselheiro, al6m de fracassar na sua tentative de
classificavao social, foi infeliz no matrimOnio cor Brasilina. Reagiu contra
a desgraga, fazendo-se peregrino.
Hon6rio Vilanova, em informagio prestada ao autor, declara que Con-
selheiro Ihe confessou que se tornara peregrino por ter sido um home
Infeliz. Quando crianca, f6ra maltratado pela madrasta, e depois de casado,
f6ra traido pela esposa.
A atuaago dos missionarios nos sert6es cearenses acicatou-lhe o com-
plexo de inferioridade. A projeVgo de um Padre Ibiapina recordou-lhe a aspi-
ragIo de seu pal que lutara pela elevaglo de status da familiar. Conselheiro,
entio, tornou-se penitente.
Percorrendo povoados e palmilhando veredas e caminhos, nio tentou
Conselheiro libertar-se, apenas, da angfistia que as vicissitudes da vida pro-
duziram. Esforcou-se por concretizar a aspiragfo paterna, adquirindo con-
sideracio social.
Nas suas peregrinag6es, perdeu o nome profano de Ant6nio Mendes
MacieL Passou a ser conhecido por Irmfo Antonio, e, quando se instalou
em Canudos, ficou sendo chamado de Santo Ant6nio Aparecido e Bom Jesus
Conselheiro. Conseguiu, assim, sacralizar a sua ascensao social.
Filho do sertio e de sertanejos, a sua estruturagio morfo-fisio-psocol6-
gica esti condicionada ao complex clima-alimentagio e sofre a influCncia
da heranga racial Viveu sempre no sertao, long do litoral. Escravizou-se a
terra que o modelou a sua image. Frugal, a parcim6nia cal6rica 6 respon-
savel por seu tipo magro, anguloso, senm adiposidade.
O seu bi6tipo deve ser encontrado na pr6pria classes a que pertence, de
sertanejo pobre e macerado pelos jejuns.
Conselheiro sofre, como todo sertanejo pobre, a influ6ncia do complex
ecol6gico. As 'uas necessidades sMo as da imensa maioria da massa rural
abandonada. Eis por que as populag6es rurais nio tergiversam na escolha
entire ele e os vigarios.
O isolamento do desert e a natural desconfianga do recalcado aumen-










- 67 -


tam a esquizotimla de Conselheiro. Alias, todo sertanejo pobre 6 quase sem-
pre esquizotimico, de temperament instavel pressionado pelos instintos que
o levam a matar a fome e pelos que o levam a satisfagfo de outros desejos.
A agio missionaria, prestiglada pelos par6cos sertanejos, di-lhe condiglo
de plenitude social e religiosa. Constitui a sublimaeao da combatividade que
integra a sua heranca 6tnica.
0 catolicismo de Conselheiro reveste-se da dureza das caatingas. O seu
Deus possue o rigor inclement das soalheiras. As misses, pintando o infer-
no, nio fazem mais do que descrever as terras adustas e semi-rridas, onde
vegeta uma sub-humanidade faminta, doente e fatalista.
As pregan6es de Conselheiro contra as instituiqges republicans nao
revelam compromissos politicos com a monarquia. O lider nio faz mais do
que interpreter a desconfianga das populag6es sernanejas que se habituaram,
por experiencia pr6pria, a identificar, nas inovag6es, modalidades de extorsio
governmental.
A reagto armada do Governo levou Conselhelro a confundir a Repdblica
com os inimigos de sua religion, conduta que foi estimulada por virios viga-
rios sertanejos que, por sua vez, julgaram que a separagio da Igreja e do
Estado significaria o triunfo do Anti-Cristo.
Irretorquivelmente, a sociedade sertaneja via de regra se form na base
de ditadura teocritica. Mas por que? Pelo estado de cultural, pelas condic6es
de vida em que se encontram, pela mentalidade rudimentar que possuem, 6
a resposta.
A populagio agricola e pastoril nao esta em condig6es de realizar uma
revoluqio de cunho estritamente politico. Lutar contra a implantaqdo de
uma autoridade political, nao 6 a mesma coisa que realizar uma revolugao
political. A massa rural, assim agindo, traduz o desajustamento econ6mico
em que vive. Lanca o seu protest de classes contra a estrutura econ6mica
prejudicial a seus interesses.
Canudos, o caso do monge de Tibagi, as guerilhas no Contestado, as
incurs6es de jaguncos e cangaceiros, Pedra Bonita e Juazeiro do Padre Cicero,
tudo revela que o Brasil 6 um s6, diz Nestor Vitor.
Em todos esses movimentos, a massa sertaneja luta em prol de uma
ordem social mais just. Canudos 6, d6ste modo, "ante-sala do Paraiso, o
pobre peristilo dos c6us".
Em Canudos, nio 6 de grande significago saber se Conselheiro teria a
capacidade de Mahomet ou de Lutero se f6sse instruldo e atuasse noutro
meio mais elevado. 0 que interessa saber 6 que le foi o porta-voz das massas
rurais desalustadas, e que, em Canudos, as massas sertanejas encontraram
o seu caudilho.
Nao sejamos ingenuos afirmando que a causa fundamental da guerra
de Canudos foi o matrimonio infeliz de Conselheiro.
A concorrencia commercial que os pr6speros comerciantes de Canudos
faziam- aos grandes negociantes das localldades vizinhas, e a organizagio
econbmica e social baseada num estranho socialismo cristfo, atemorizando









-68-
os grandes propridtarios da regiao, 6 que foram as causes verdadeiras da
guerra de Canudos.
Nfio conv6m, ainda, esquecer a atuago da Igreja Cat6lica que viu, na
singular religilo crista praticada em Canudos, um s6rio perigo para a sua
evangelizalao nos sert6es.
Nao hA divida, portanto, que foram os grandes proprietirios, os grandes
comerciantes e a Igreja Cat6lica que convenceram o Estado a liquidar Con-
selheiro e a arrazar Canudos. E o Estado no hesitou, interessando o Ex6r-
cito na empresa macabra.
O Ex6rcito, que, depois da guerra do Paragual, pesava na balanga do
Poder, mais firmou a sua forga cor a Aboligo e a Rppblica.
Transformando-se em elemento ponderoso das agitag6es nacionais",
a sua presenva passaria a ser cada vez mats exigida pelas facs6es political em
luta. O fetichismo politico, na expressio de Euclides da Cunha, exigia, num
crescendo assustador para o civilismo, "manipangos de farda".
O Exmrcito que, durante a campanha abolicionista, se recusou a servir
de capitio do mato, aceitou a missio de destruir Canudos, que nio passava
de reduto de outros escravos para os quals Conselheiro, sem nitida consci6n-
cia de classes, pedia outro 13 de Malo.
E o Ex6rcito continuaria a ser utilizado em campanhas contra fanAticos.
De 1935 a 1938, em Pau-de-Colher, no Estado da Bahia, atuou o fanAtico
SeVerino Tavares, que era tratado pelos adeptos por meu Padrinho Conse-
Iheiro. 0 reduto foi destrutdo, tomando part na luta dois batalh6es do
Exrcito.
O Departamento Naclonal de Obras Contra as Shcas esta construindo na
Bahia, no rio Vasa Barris, um agude que modificara a paisagem local, co-
brindo com as suas Aguas a hist6rica povoagio de Canudos.
Teria o Governo pensado em eliminar o messianismo sertanejo Inundan-
do a terra santa de Canudos? O problema 6 mais serio. Nio 6 s6 a paisagem
fisica que deve ser modificada, mas tamb6m a paisagem social. As massas
eertanejas anseiam por uma nova ordem social, por uma estrutura econ8mica
compativel cor suas aspiragies melloristas. Do contrArio, outros Canudos e
Conselheiro poderio surglr do solo social em erupgio.



















B I BL IOG RA F I A

LIVROS COMPULSADOS PELO AUTHOR

1-Euclides da Cunha............... "Os Serties" Rio, 1902
2-Afonso Arinos de Melo Franco.... (Olivio de Barros) "Os Jaguncos" -
S. Paulo, 1898
3-Manuel Benicio................... Rei dos Jagungos"
4-Silvio Rabelo................. "Euclides da Cunha" Rio, 1948
5-Luis da Camara Cascudo ......... "Vaqueiros e Cantadores" Porto
Alegre, 1939
6-Xavier de Oliveira..... ............ "Espfritismo e Loucura" Rio, 1931
7-Dantas Barreto................... "Acidentes da Guerra" Rio Grande
do Sul, 1905
8-Prado Ribeir................. "Vida Sertaneja Usos e Costumes
do Sertio baiano" Bahia
9-Melo Morals Filho................ "Festas e Tradig6es Populares do Bra-
si' Rio, 1946
10-Tristao de Alencar Araripe...... Preficio a "Mem6ria Sobre Pedra Bo-
nita oa Reino Encantado na Comarca
do Vila Bela", de Ant6nio Atico de
Sousa Leite Rio, 1875.
11-Afonso Celso.............. .... Assassinato do Coronel Gentil de
Castro" Paris, 1897
12-Henrique Duque Estrada de
Macedo Soares..................."A Guerra de Canudos" Rio, 1902
13-Joao Brigido................... "Ceara Homens e Fatos" Forta-
leza
14-L. A. da Costa Pinto............. "Lutas de Familias no Brasil" Sio
Paulo, 1949
15-Urbino Viana.................... "Bandeiras e Sertanistas Baianos" -
Slo Paulo, 1935
16-Aristides Milton.................."A Campanha de Canudos" Rio,
1903
17-Pandia Calogeras................."Formaaio Hist6rica do Brasil" Co-
legio Brasiliana, serie V Cia. Edi-
tora Nacional Sio Paulo
18-Joao Brigido..................... "0 Cear (Lado Cmmico)" Fortaleza
19-Joaquim Ribeiro................."Introduio ao estudo do folclore bra-
sileiro" Rio Editora Alba Ltda.








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20-Vicente Soares....................Do Fanatismo" Niteroi, 1911
21-Joao da Silva Campos........... "Tradio6es Baianas"- Bahia, 1930
22-Melo Morals, pal................. "rasil Hist6rico" Rio, 18G7
23-J. da Costa Palmeira........;.... "A C p ib.'i do Conselheiro" Rio,
1934
24-Dantas Barreto.................."Destruiiio de Canudos" Pernam-
buco, 1912
25-Joao Brigido..................... "O Conde D'Eu, seu CarAter, Viagem
ao CearW" Fortaleza, 1902
26-Afonso Colso.................... "Guerrilhas" Rio, 1895
27-Pedro Calmon...................."Hist6ria Social do Brasil" vol. 3 -
Colegfo Brasillana Cia. Editora Na-
cional Sgo Paulo
28-Elisio de Aradijo................."Atrav6s de meio seculo" 1932
29-Rocha Pombo................... "Hist6ria do Brasil" Curso Superior
3.a edigio
30-Pedro Calmon...................."Hist6ria da Bahia" Rio, 1927
21-Euclides da Cunha............... "Canudos (DiArio de uma Expedicho)"
Rio, 1939
32-Sflvio Romero............ ....."Cantos Populares" 2.a edigio
33-Moreno Brandio.................. Baixo S. Francisco, o Rio e o Vale"
Recife, 1884
34-Joio Alfredo de Freitas.........."Lendas e Superstisges do Norte do
Brasil" Recife, 1884
35-J. P. de Oliveira Martins......... "Sistema dos mitos religiosos" Lis-
boa, 1883
36-Luis da CAmara Cascudo........"Geografia dos Mitos Brasileiros"
37-Celso Mariz ................... "Ibapina"
37 A Manuel Ximenes.............. "Memd6ras"
37 B Espiridiao de Carvalho......."Antiga Familia do Sertio"
38-Dantas Barreto.................." ltima Expedif o, a Canudos"
Porto Alegre, 1898
39-Silvio Romero..................."Hist6ria da Literatura Brasileira" -
vol. 5 Rio, 1943
40-Gilberto Freyre................"Perfil de Euclides e outros perfis" -
Rio
41-Artur Ramos...................."Introdugio a Antropologia Brasilei-
ra" vol 2 Rio
52-Nestor Duarte..................."A Ordem Priyada e a Organizaa o
Pfiblica Nacional" Colegio Brasiliana
Cia. Editora Nacional S. Paulo
43-James H. Leuba.................. "La Psychologie des Pheneomnes Re-
ligieux" Paris, 1914
44-Robert Hertz...................."Ml6anges de Sociologie Religieuse et
Folklore" Paris, 1928









- 71 -


45-Raoul de la Grasserle............"De la Psychologie des Religions" -
Paris, 1899
45 A Francisco Marins............. "A Aldeia Sagrada" SAo Paulo, 1954
46-Emillo Willems.................. "Cunha, Tradigio e Transigio em uma
Cultural Rural do Brasil" S. Paulo,
1948
47-Strauss ......................... "Nova Vida 'de Jesus", traduzido do
frances por Heliodoro Salgado
47 A Joao Dornas Filho........... "Apontaientos para a Hist6ria da Re-
pilblica"
48-Lynn Smith..................... "Sociologia da Vida Rural" Rio 1946
49-Gilberto Freyre....................'*:7.-.er l' 2 Volumes Rio, 1945
50-Oliveira Viana..................... stituiSes Po!iticas Brasileiras" -
2 vols. Rio, 1949
51-Henry Koster....................."Viagem ao Brasil"
51 A Reginald Lloyd.............. "Impressos do Brasil no S6culo Vinte",
1913
52--Livro do Centenario AnuArio do Brasil, 1923
53-Optato Gueiros................... "Lampio" 2.? ed. S. Paulo, 1953


JORNAIS E REVISTAS

I-A Repfiblica (Fortaleza.........edig5es de 11-12-1896; 10-9-1897;
15-3-1897; 17-4-1897; 10-3-1898; 4-2-
1897; 15-9-1897; 22-8-1897; 21-8-1897;
2-9-1897; 28-6-1893; 28-4-1897
2-Jornal do Com6rcio (Rio) ........ edies de 18-3-1903; 6-3-1903
3-A Noticia (Rio) .................. ..ii ic.- de 10-3-1897; 12-3-1897
4-Jornal de Noticias (Bahia)......edic6es de 29-1-1897; 16-2-1897; 15-3-
1897; 28-1-1897; 3-12-1896; 26-2-1897;
21-4-1897; 22-3-1897; 12-7-1897; 19-11-
1897; 4-3-1897; 25-11-1897; 5-6-1897;
18-3-1897; 11-11-1898; 16-7-1897; 5-8-
1890; 10-8-1896; 26-7-1897; 5-3-1897;
26-4-1867; 1-2-1897; 20-4-1897; 24-11-
1897
5--DiArio da Bahia ................edi..6es de 11-2-1897; 1-4-1897; 15-4-
1897; 2-4-1897; 20-12-1896
6-Correio da Manha (Rio).......... edivio de 4-12-1949
7-A Repfiblica (Rio)................edi5es de 22-8-1897; 2-8-1897
--Liberdade (Rio).................edi6es de 7-5-1896; 14-12-1896
9-0 Jacobino (Rio)................ edifces de 15-5-1897; 12-10-1895; 5-9-
1896; 19-12-1896; 6-2-1897
10-Gazeta de Noticias (Rio)......... ..edio de 9-3-1897
11-Correio de Notfcias .............edi.ies de 23-11-1897; 28-9-1897; 23-7-
1897; 27-7-1897; 29-10-1896; 7-11-1896;









- 72 -


17-7-1897; 10-12-1896; 15-12-1896
I2-Revista Trimestral do Instituto fist6rico e Geogrifico do Brasil, tomo
L, 1887; tomo LXX, 1908; tomo LV,
1892 Rio

1S-Revista do Brasi (S. Paulo)......n. 71, Julho de 1922; Jan-Margo, 1921;
nIL 78, Junho, 1922
14-Revista Brasileira (Rio).......... Tomo IX, 1897; Separata
15-Revista do Insttiuto Arqueo!6gico,
Hist6rico e Geogrifico Pernam-
bucano ..........................Vol. XXXIX 1944
16-Revista do Instituto Hist6rico e
Geogrifico da Bahia..............n." 69, 1943
17-4evista do Instituto ilst6rico e
Geogrifico Paraibano ...........Vol. 4, 1912
18-Revista do Institute do Ceari....Tomo 45, 1941; Tomo LXII, 1948; To-
mo XXV, 1911; Tomo XIII, 1899
19-0 Cruzeiro (Rio)................. ediv6es de 2-8-1947; 1-1-1949; 5-12-1953
20-Revista de Aracajfi ...............n.0 2, 1944
21-DiArio Oficial da Bahia..........edigo especial do Centenkrio, 2-7-1923
22-Anais do Senado Federal (Rio)... Vols. I e III, 1897
23-Anais da Cimara de Deputados da
Bahia ...........................VoL I
24--0 Povo (Fortaleza)............ edb6les de 30-12-1950; 30-5-1953; 19-9-
1949; 10-5-1948

25-DiArio do Povo (Fortaleza)....... edicio de 1-11-1953
24-Correio do Ceark (Fortaleza).....edigio de 8-8-1953
25-0 Povo..........................edig6es de 24-5-1948; 26-4-1948; 22-12-
1953
26-Larousse du XX me Siecle
27-Ismael Pordeus.................. O Nordeste (Fortaleza), edifes de
26-9-1949; 28-9-1949; 10-10-1949; 13-10-
1949; 17-10-1949; 18-10-1949 e 20-10-49
28-Pedro Wilson Mendes...........O Povo, ediq6es de 14-6-1948; 12-7-
1948; 31-7-1948; 30-4-1949; 30-7-1949;
5-8-1949; 6-8-1949; 8-8-1949; 9-8-1949

29-Arquivos do Arcebispado de Fortaleza Livros de Batizados, Obitos e
Casamentos da Par6quia de Quixera-
mobim:
Batizados: Livro 11, pag. 284; Livro
13 pag. 173
Casamentos: Livro 5, pag. 293; Livro 4,
pags. 53 e 91
Obitos: Livro 3, pags. 183 a 183v; Livro
5, pag. 207
30-Autos do Cart6rio de Miguel C5mara, da Comarca de Quixeramobim-










73 -

31-0 Nordeste....................... edviqo de 7-10-1949
S33-Gazeta de Noticias (Fortaleza).... edigto de 4-10-1949
83--evista Sul Amirica, n. 131 Jan. Fev. Margo, 1953
34-A Noite Ilustrad................1-8-1945
35-Unitrio .................. ..... 8-12-1953























INDICE

0 ORFAO

I 0 Meio Sertanejo ................................. 7
II Araijos e Macieis .................................. 7
III A Ovelha Desgarrada ............................. 10
IV 0 Senho Desfelto ................................... 11
O PENITENTE

I 0 Exemplo de Ibiapina .......................... 17
II A Vinda do Messias .............................. 19
III A Catequese ...................................... 21
O CONSELHEIRO

I- A Nova Canaan .................................... 29
II O Jagungo ......................................... 30
III A Organizago Social ................................ 31
IV A Reagao da Igreja ........................................ 33
V A Guerra .......................................... 37
VI 0 Movimento Sebastianista ......................... 42
VII A Mitologizagao de Conselheiro ..................... 55
VIII Tentativa de Interpretaga o ......................... 61,
Bibliografia ........................................ 69














ERRATA


Pig. Linha Onde se I1:

8 12 bipertrofia
12 45 Tennete
14 3 Pasava
17 8 cemit6rios
24 34 infimreos
25 31 Lagato
25 40 pergutava
30 16 Brad6es
30 20 praeiro
30 33 tordnea
40 19 geenrkl
42 31 informou-n os
43 24 estrategia
45 31 estrategia
51 11 Gonglaves
51 23 "A Bahia.
54 4 .terivel
55 23 poovaglo
56 5 dormaim
57 1 Baroa
57 32 i Feveeriro
57 34 primlero
58 26 deramava
58 32 interrmpeu
58 33 samente
61 18 fracasou
64 14 poovados
66 3 literblmente
67 31 guerilhas
68 33 ConseIheir o
72 26 24
72 27 25
74 6 Senho


Leia-se:
hipertrofia
Tenente
Passava
cemit6rios,
imimeros
Lagarto
perguntava
Brand6es
praieiro
litorAnea
generate
informou-me
estrat6gia
estrat6gia
Gongalves
"A Bahia",
terrivel
povoaao
dormiam
Barros
Fevereiro
primelro
derramava
interrompeu
camente
fracassou
povoados
literAriamente
guerrilhas
Conselheiros
25A
25B
Sonho


Composto e impresso na Editora
A. BATISTA FONTENELE
Abril de 1954 N.O 15
















ccssqrio em nossos dias.
"Sente-se, nos livros
do autor, da primeira
iltima pdgina, a presen-
qa de uma vontade que
nao procura se afastar do
metodo cientifico. Daf o
cseu g6sto pela esquema-
tizaco, pela frase limpi-
da e forte (Lficio Lima
in Diario do Povo, de
7-3-1954).
"... Abelardo Monte-
negro, o finico da Anto-
logla dos Novos que t6m
progrpdido sem decaden-
cia..."
(Delmondez Neto, In
Universa!ia, n.o 1, de
7-9-1953).
"Enfim uma obra que,
pelo seu carter, se tor-
nar& indispensavel para
tudo o que diga respeito
ao romance cearense".
(Correio do Dia, (Belo
Horizonte), de 19-7-1953)
"Deie se p6de discor-
dar na apreciaqgo de ho-
mens e fatos, mas ndo hA
como negar-lhe Incontes-
taveie meritos, que se
evidenciam na clareza e
vigor do estilo, na largue-
za do conhecimentos, no
sentido cientifico qule
procura imprimir as su .s
produQ6es literariis. E'
de salientar, particular-
mente, a coragem cor
que fala de certas figures
da intelectualidade bra-
sileira, nao fugindo ao
risco de enfrentar uma
tradiqgo formada em anos
de consagrapco pfiblica,
s6 para ser fiel ao ponto
de virta em que se firmou
e qu lIhe parece certo".
(J.C. Alencar Araripe -
O Povo, de 5-4-1954.




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