• TABLE OF CONTENTS
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 Front Cover
 Half Title
 Title Page
 Dedication
 Anteloquio
 O cariri. Os indigenas que o habitaram....
 A chapada do Araripe. A etimologia...
 A chapada do Araripe, um dos grandes...
 A Provincia do Cariri Novo. Um...
 Inventarios do cartorio de orfaos,...
 Familias caririenses invernam nas...
 Mais prdprio o Cariri para a agricultura...
 A cana de acucar, contemporanea...
 O algodao. Maquinas de descaroca-lo,...
 Plantio de arroz, feijao e milho....
 Pocos d'agua perenes. Pescarias...
 A localizacao do Crato. O fator...
 A imigracao, elemento de progresso...
 Dois fatores principais da ascensao...
 Religiosidade do povo do Cariri....
 O passadio em certas casas abastadas,...
 O carro de boi e o lombo de burro....
 As feiras do Cariri
 As fiandeiras. O fuso. O engenho...
 O negociante e o agricultor no...
 A colera-morbo e as bexigas
 Curandeiros, barbeiros, sangradores...
 A colaboracao dos cratenses na...
 O Padre Mestre Jose Antonio Pereira...
 A colaboracao dos cratenses na...
 O jornalismo no Crato
 Feudalismo politico no Cariri,...
 O carnaval no Crato
 O testamento de Judas
 Primeiros hotels e cafes, no Crato....
 Sobrevivencias totemicas no...
 Freguesias de Missao Velha, Crato,...
 A origem da Se do Crato. Suas reformas...
 Os festeios da padroeira do Crato....
 As procissoes do Nosso Pai. Um...
 As Irmandades do Rosario e das...
 Algumas capelas e oratorios na...
 O cemiterio do Crato
 O Quadro da Matriz, no Crato. Um...
 A praca de S. Vicente, no...
 O culto de S. Vicente Ferrer, no...
 A praca do Rosario, no Crato
 A seca
 Um pouco de estatistica
 Table of Contents














Group Title: O Cariri : seu descobrimento, povoamento, costumes.
Title: O Cariri
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 Material Information
Title: O Cariri seu descobrimento, povoamento, costumes
Physical Description: 288 p. : ; 24 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinheiro, Irineu
Publisher: s.n.
Place of Publication: Fortaleza Cearâa
Publication Date: 1950
 Subjects
Subject: Geografia Do Ceara   ( larpcal )
Historia Do Brasil - Politica (Descobrimento)   ( larpcal )
Kariri Region, Cearâa, Brazil (State)   ( lcsh )
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Record Information
Bibliographic ID: UF00075697
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 15482872

Table of Contents
    Front Cover
        Front Cover 1
        Front Cover 2
    Half Title
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    Title Page
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    Dedication
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    Anteloquio
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    O cariri. Os indigenas que o habitaram. A expulsao dos indios do crato das terras que lhes doaram o capitao-mor domingos alvares de matos e sua mulher. A etimologia do vocabulo cariri. O descobrimento e o povoamento do sul do ceara. Manuel Rodrigues ariosa e a casa da torre. Os mendes lobatos
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    A chapada do Araripe. A etimologia de seu nome. Resto de um colosso de areias o chapadao. As camadas de que este se compoe. A origem de suas fontes sopedaneas. Serra em decomposicao. Seus fosseis. Destruicao das matas pelo fogo. A formiga de roca, um terrivel inimigo. O pequizeiro. A chapada, uma imensa habitacao coletiva nos anos secos. O Cariri, um presente do Araripe
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    A chapada do Araripe, um dos grandes campos criadores do Ceara. Cruzamento do gado zebu com o crioulo. A migracao das manadas zebuinas da Baia ate o vale do Cariri. A travessia do rio de S. Francisco. Os elementos que mais concor reram para o povoamento e a expansgo do Brasil. Soltas de gado no Araripe. A pastagem da serra. Ajuntamentos de vaqueiros nas aguadas de ao pe da chapada. O toque ou seca. Compras de gado cavalar no Piaui. Os barreiros
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    A Provincia do Cariri Novo. Um artigo de Jose de Alencar. Um sonho que se nao realizou
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    Inventarios do cartorio de orfaos, no Crato. Nem luxo, nem conforto, antigamente, no Cariri. Infimos, ali, os precos de tudo, ha um seculo, ou mais. Escassez de bachareis. Cultivo da lingua latina
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    Familias caririenses invernam nas suns fazendas de criar no Ceara e Pernambuco. Compras de gado no Piaui. O vaqueiro, alfaiate de couro. O abandono dos nossos rebanhos. Uma lei de 1860. O Marques de Lavradio e a nossa pecuaria. So briedade de nosso sertanejo que desconhece as mais elementares regras de higiene. Sua imperfeita alimentacao. Espirito de patriarcado no nordeste
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    Mais prdprio o Cariri para a agricultura do que pare a pecuaria. Cheques entre seus lavradores e criadores. O gado caprino e a lavoura. A mandioca. Uma lei municipal de 1860. A farinha de mandioca, o pao de milhoes de brasileiros. A cultura de abacaxi no Cariri
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    A cana de acucar, contemporanea dos nossog primeiros colonizadores. Quando a plantaram no Cariri. Os engenhas de pau e os de ferro. O primeiro engenho d'agua no Cariri. O primeiro motor de beneficiamento de cana de acucar no sul do Ceara. A usina do Buriti. A irrigacao no Cariri. Variedades de cana. O mosaico. O campo de sementes de cana de acucar do Cariri, em Barbalha
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    O algodao. Maquinas de descaroca-lo, puxadas por homens e animais. O primeiro locomovel de beneficia-lo, no Cariri. Os primeiros motores nos muncipios de Crato e Juazeiro. Cipos, cordas de caroa e fios de arame. A cultura algodoeira no nordeste e em S. Paulo
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    Plantio de arroz, feijao e milho. Silos de ferro zincado. Uma tentativa de cultura do trigo, no Crato. O cafeciro. O fumo, um dos prazeres do sertanejo e remedio popular
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    Pocos d'agua perenes. Pescarias por tinguijamento. Excursoes a povoacao de Quixara, proxima do Crato, para pescas no rio Carius
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    A localizacao do Crato. O fator agua na escolha dos locais dos povoados. O que era o Crato em 1838. Seu inferior estalao moral. Concordancia de juizos do sabio George Gardner e do coronel Tomaz Antonio da Silveira a respeito do elemento cabra. Escrituras de perdao
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    A imigracao, elemento de progresso do Crate. Seu comercio. A melhoria dos predios urbanos. Aperfeicoamento dos costumes sociais. Uma festa familiar em 1857. Ceremonial nupciais nos ultimos anon do seculo passado e nos primeiros do atual. Um casamento no derradeiro quartel do s6culo XVIII. Emprestimos de roupas aos noivos pobres. Um dancador de solo ingles
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    Dois fatores principais da ascensao moral do Crato, no meado
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    Religiosidade do povo do Cariri. Excessos dessa religiosidade. Danca de Sao Goncalo. Fanatismo e supersticoes. Assombracoes
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    O passadio em certas casas abastadas, no Cariri, ha mais de meio seculo. Os jogos de baralho. Abundancia de baratas nas cozinhas. Como se iluminavam as casas. O descobridor da cera de carnauba. A iluminacao publica no Crato. Seu Mercado de Carne e de Frutas. A cadeia publica cratense
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    O carro de boi e o lombo de burro. Dois projetos de estradas do Crato ao Ico em 1841 e 1864. Caravanas de negociantes, no Cariri. Os encontros. Uma "Sociedade de Correios do Partido Liberal". O telegrafo no Crato. A proclamacao da republica, no Crato. Os primeiros automoveis chegados ao Crato. A inauguracao, ali, da via ferrea
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    As feiras do Cariri
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    As fiandeiras. O fuso. O engenho de fiar. As redeiras. O anil do mato. Uma carta do ministro Martinho de Melo e Castro ao marques de Lavradio. O tear. As rendeiras. As lavadeiras. Um dos efeitos sociais das secas
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    O negociante e o agricultor no Crato. Rendas em especie. Tendencias cooperativistas entre os trabalhadores rurais. Divisao do solo no Cariri. Aumento de preco das terras. A unica mereadoria cara: o escravo. Anuncios de negros fugidos. Consideravel valorizacao de tudo, de um seculo para ca
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    A colera-morbo e as bexigas
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    Curandeiros, barbeiros, sangradores e parteiras. Medicos da pobreza e cirurgioes vacinadores. Partidos medicos. Veterinarios matutos
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    A colaboracao dos cratenses na guerra do Paraguai. Os primeiros vinte voluntarios do Crato. A comissao Qrganizada pelo presidente Lafayette Rodrigues Pereira para alistar no Crato voluntarios da Patria. Discursos, paradas da Guarda Nacional, proclarriarcoes. Espirito partidario. O corpo de volntarios sob o comando do major Abdoral.
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    O Padre Mestre Jose Antonio Pereira de Maria Ibiapina, o missionario dos sertoes nordestinos. As suas missoes no Cariri. As Casas de Caridade de Missao Velha, Crato, Barbalha e Milagres. A entrega das Casas a D. Luiz Antonio dos Santos, Bispo do Ceara. Curas milagrosas do Padre Ibiapina
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    A colaboracao dos cratenses na construcao do Seminario de Fortaleza. O Seminario de S. Jose, no Crato, uma bela recompensa de D. Luiz Antonio dos Santos ao Cariri. Breves consideracoes sobre as escolas primarias antigas. Colegios cratenses, de vidas efemeras. O Ginasio do Crato e o Colegio de Santa Teresa de Jesus
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    O jornalismo no Crato
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    Feudalismo politico no Cariri, nos primeiros tempos da Republica. As Guardas Locais. A justica pelo bacamarte, pelo cacete, por mangas de gibao. A politica dos Governadores. Um episodio partidario no inicio do seculo presente. A tirania local, a pior de todas
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    O carnaval no Crato
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    O testamento de Judas
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    Primeiros hotels e cafes, no Crato. Mercearias que faziam papel de bars. Familias que fabricavam e vendiam doces
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    Sobrevivencias totemicas no Cariri
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    Freguesias de Missao Velha, Crato, Jardim, Barbalha, Milagres, Aurora e Juazeiro do Norte
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    A origem da Se do Crato. Suas reformas no correr dos tempos. Seu relogio. A descricao de suas tribunas. O cruzeiro do adro. Urn habito que desapareceu
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    Os festeios da padroeira do Crato. As duas imagens da Virgem da Penha. A imagem do Coracao de Jesus. Procissoes de penitentes. A imagem do Senhor Morto. A procissao do enterro. O farricoco e a morte. O estandarte da procissao do Senhor dos Passos
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    As procissoes do Nosso Pai. Um incidente edificante passado no Crato. Um episodio da Historia do Brasil. A irmandade do Santissimo Sacramento, uma associacao a que presidiu certo cunho aristocratico A opa, como traje de gala, no municipio de Milagres
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    As Irmandades do Rosario e das Almas. Preconceitos de raca. A capela de S. Miguel, no Crato. Sinos da Se cratense
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    Algumas capelas e oratorios na freguesia do Crato, fora da sede
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    O cemiterio do Crato
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    O Quadro da Matriz, no Crato. Um pouco de sua historia
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    A praca de S. Vicente, no Crato
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    O culto de S. Vicente Ferrer, no Crato
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    A praca do Rosario, no Crato
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    A seca
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    Um pouco de estatistica
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IRINEU PINHEIRO
(S6cio correspondent do Instituto do Ceard
e da Academia Cearense de Letra.r)


0


CARIRI


SEU DESCOBRIMENTO,
POVOAMENTO.
COSTUMES.














r\J f


0 CARIRI'





LIVRARIA E PAPELAkiIt,
Lap do VWrtiode.
S.k Vcente Ferror
LUIS HALVES PEREIRA
Oa Dr. JoIs PaeoSa, W
(JCL4.t "


i~Bs~





IRINEU PINHEIRO
(S6cio correspondent do Instituto do Cearu
e da Academia Cearense de Letras)










CARIRI


SEU DESCOBRIMENTO,
- PO V A M E N T ,
COSTUME S.


Fia~ahjii
"~' GI


FORTA tEZA


- 95o C EA R A'


R. SENADOR POMPEU, 483 -


:
!


0


__
__























A MEMORIA DE MEU AVO, CORONEL ANTONIO

LUIZ ALVES PEQUENO, O SEGUNDO DtSTE

NOME, CUJA HONRADEZ, TRABALHO E INTE-

LIGeNCIA, NA DERRADEIRA METADE DO

SACULO PASSADO, COOPERARAM PARA O

ADEANTAMENTO MORAL E MATERIAL DO

CARIRf














nieloqutio




Waste livro 6 puramente regional mas penso que nao desin-
teressara o leitor do norte, do sul ou do centro do Brasil.
A um grande todo indiviso a nossa PAtria, ligada pela mesma
lingua, pela mesa religiao, pelas mesmas tradig6es, pelos mesmos
costumes que, aqui e all, bem poucas vezes, se poderao diferengar.
Assim 6 no present e foi no passado. E Deus queira que
assim seja de future al6m. Quem duvidar, percorra o interior dos
nossos Estados, leia as nossas cr6nicas, as descrig6es de viagens
de estrangeiros ilustres, manuseie essas admiraveis cartas jesui-
ticas que, .ltimamente, em boa hora, estao send desentertadas
do p6 centenirio dos arquivos da Companhia, expostas a luz de
uma larga divulgag5o.
Neste meu livro procurei narrar o descobrimento e o povoa-
mento de um dos mais carateristicos trechos do nordeste brasileiro,
o Cariri, no extreme meridional do Cear6, sua principal agriculture,
sua criagio na serra do Araripe, sua pequena inddstria, alguns
h6bitos de sua gente, algo de seu folclore.
Atrav6s de suas paginas, da primeira a derradeira, ver6
aquele que tiver a gentileza de o ler, meu desejo de register certos
aspects atuais da vida sul cearense, como tamb6m outros que
as geragoes mais jovens jb n1o observaram.
Tudo b que escrevi, julgo, 6 um subsidio modestissimo, mas
dtil, certamente, aos que se aventurarem a construir nossa Hist6-
ria.






0 CARIRi. OS INDIGENAS QUE O HABITARAM. A EX-
PULSAO DOS INDIOS DO CRATO DAS TERRAS QUE LHES
DOARAM 0 CAPITAO-MOR DOMINGOS ALVARES DE MA-
TOS E SUA MULHER. A ETIMOLOGIA DO VOCABULO
CARIRi. O DESCOBRIMENTO E O POVOAMENTO DO SUL
DO CEARA. MANUEL RODRIGUES ARIOSA E A CASA DA
TORRE. OS MENDES LOBATOS.







O Cariri 6 uma regiio que compreende in totum ou em
parte os seguintes municipios no extreme sul do Cear6: Crato, Bar-
balha, Juazeiro, Missao Velha, Milagres, Mauriti, Brejo Santo,
Jardim, Santan6pole, S. Pedro, hoje Caririassi, Quixar6.
V assim que o povo caririense entende a regiio em que mora,
sem dar-lhe limits exatos de rios, relevos geogrificos, etc.
Sua vegetagao sempre verde e suas aguas perenes contras-
tam singularmente com os sert6es semi-aridos que o circundam.
H~ mais de cem anos o naturalist escosses George Gardner,
em um rapto de lirismo, exprimiu as sensag6eg que Ihe vincaram
a alma para sempre no dia m que chegou ao Crato: < tarde, disse l8e, a frescura vivificante da atmosfera e a opulEncia
da paisagem, tudo tendia a produzir uma alacridade de espirito
que s6 o amante da natureza pode experimentar e que, em vio,
desejei f6sse duradoura porquanto me sentia bem ngo s6 comigo
mesmo como <.
Tanto mais Ihe deleitaram os olhos as paisagens caririen-
ses quanto acabara ele de viajar do Aracati ao Crato, numa dis-
tAncia de cerca de 300 milhas, < epoca era pouco melhor que um deserto>. verdade podermos
considerar o Cariri uma zona a parte no interior do nordeste.
Por isso, em geral, se nao julgam sertanejos os caririenses.
Em virtude de um certo orgulho nativista, talvez por que
o termo sertio Ihes de a idea de zona seca e esteril, acham que
sua terra, muito bonita e f&rtil, nio deve incluir-se naquela de-
signa'go. O Cariri 6 lindo e rico, nao pode ser sertio.
Ufanam-se de suas aguas correntes, suas paisagens verde-
jantes nos mais rigorosos estios, suas fruteiras, seus brejos, o
habitat, por excelencia, da cana de agucar, suas palmeiras erectas
como sentinelas em t6rno de suas cidades e vilas, etc.






IRINEU PINHEIRO


Mas, quer queiram ou nio, o Cariri e puro sertio. Apenas
um tracto mais feliz'de nosso hinterland.
Se consultarmos nossos diciongrios, veremos que o vocd-
bulo sertao significa um continente.
Nosso velho Moraiz define-o textualmente: <'O interior, o
coragfo das terras, op6s-se so maritime, e costa>.
Id6ntica 6 a opinigo de frei Domingos Vieira, em seu 'Dic. Port.>.
Assim sempre entenderam os que tem escrito s6bre nosso
pais.
Em sua < bro de 1627, <
, observou frei
Vicente do Salvador que, no seculo, se chamou Vicente Rodrigues
Palha: trato, por que ate agora nio houve quem a andasse por negligEncia
dos portugueses que, sendo grandes conquistadores de terras, nio
se aproveitam delas, mas contentam-se de as andar arranhando ao
long do mar como carangueijos>.


ft o Cariri uma estreita faixa de terreno sertanejo, com
fontes que nunca secam.
Veiu-lhe o nome de seus habitantes primitives, os indios
cariris, origindrios de <, conforme eles diziam,
talvez o rio das Amazonas, no pensar de Capistrano de Abreu.
Na sua larga peregrinagio, viajaram, a principio, ao long
do litoral, mas expulsos da beiramar pelos tupiniquins e tupinam-
bis, portadores da lingua geral, internaram-se nos sert5es, onde
tamb6m ha >.
Abrigaram-se & sombra das matas da Borborema, dos
Cariris Velhos e Novos, fixaram-se junto ao leito de alguns rios
como o Jaguaribe, o Acarad, o Assi, o Apodi, etc.
Permaneceram na costa, por exceqgo, da Paraiba>>, os tremermbs, que eram do tronco cariri, e plantadores de cajueiros>.
Muitos cariris prosseguiram sua migragio que s6 foi detida
pelas aguas caudais do rio Sio Francisco, imensa estrada liquid
dificil de ser transposta.
Assenhorearam-se da vasta regigo entire este rio, na Baia, e o
Iapicuri, no Maranhio.
Na 6poca do povoamento do pais, dominaram-nos os bran-
cos, aldeiando-os, explorando-os e matando os que resistiram.


- 8-








em persistent que os povoadores encontraram em todo o pais>.
Para domi-los, foi precise que os atacassem Francisco, no Piranha, no Jaguaribe, no Parnaiba, por gente de S.
Paulo, da Baia, de Pernambuco, da Paraiba, do Cear>.


Sio 6s cariris nografia decifrou>.
Segundo o criterio linguistico, constituem um dos grupos
em que se dividem os incolas brasileiros.
Nio esquegamos o fato important de terem sido eles, os
cariris, ao lado dos tupis, populagio do Brasil>.
Em seus escreve Capis-
trano que sertanejos de certas zonas>. Observamo-la, especialmente, no Piaui,
Cear6, Rio Grande do Norte e Paraiba. E' de parecer Alfredo Elis
Junior, citado por Estevio Pinto em ,
que deste>.
Ao nosso ver, digamos de passage, nao tern a importin-
cia que Ihe emprestaram alguns autores essa questao de indice
cefilico, por que, no dizer de Joao Ribeiro, saciedade que os dois tipos braquicefalos e dolicocefalos (mesmo
incluindo o tipo mrdio de Broca, mesaticefalos) estio em perfeita
coexistencia em todas as grandes regi6es do orbe,.
Acresce ter o < ders (no Brasil sambaquis) a coexistencia dos braquicefalos e do-
licoc6falos>.


Por decision do governador de Pernambuco, Jos6 Cesar de
Meneses, foram os indios do Crato despojados em 1779, injusta-
mente, das terras que Ihes doaram, no ano de 1743, o capitio-m6r
Domingos Alvares de Matos e sua mulher dona Maria Ferreira da
Silva, filha do capitao Ant6nio Mendes Lobato, morador em Pene-
do, Alagoas.
Executou a iniqua sentenga o ouvidor Jose da Costa Dias
e Barros que contra os indios representara, havia algum tempo. (i)
Um crime que nosso histori6grafo Ant8nio Bezerra profli-
gou corn indignaego, tanto mais quant o governador expulsou os

(I) Vejam , de Ant8nio Bezerra, pigs.
224 a 226, 227 a 229, 233.


O CARIRI


- 9-









infelizes caboclos do Crato para Parangaba, primeira aldeia de
indios na capitania do Ceard, < grande bem.>>
Mas nio foi Este um fato inedito no Brasil.
Em sua refere-nos Auguste
de Saint Hilaire o seguinte epis6dio: membros da camara municipal de S. Paulo foram encarregados
das administra~8es das aldeiss de S. Miguel, de Nossa Senhora dos
Pinheiros, de Guarulhos e Barueri; mas, lembrava-se dos indigenas
t~nicamente quando dos mesmos necessitavam para fazer alguma
expedigio no interior ou levar socorros as Provincias do litoral.
Os pr6prios magistrados (ouvidores) foram os primeiros a ordenar
que se tirassem dos infortunados indigenas as terras que Ihes per-
tenciam, para serem arrendadas por conta da camara municipal.
Como se ve, ca e 1l...
*s*
Em 1803 frei Vital de Frescarolo, missionario apost61ico ca-
puchinho, aldeou em Pernambuco alguns cariris: < gentios vou6, umio e xoc6>. SupSe Tomaz Pompeu Sobrinho nao
serem cariris os xoc6s, mas tarairifs, os quais constituem < familiar 6tnico-linguistica perfeitamente distinta da familiar cariri>.
Ha uns cem anos, segundo Gardner, viviam em Jardim, no
Cear6, , e
alguns xoc6s os remanescenfes de sues tribus.
Diz ainda Gardner s6bre os xoc6s e os huamaes, que outros
chamam Humons e Umgos: consta serem de costumes imundos, chegando, na falta de melhor
alimento, a devorar cobra cascavel e outros reptis>.
Desses nossos liticos antepassados, os cariris, ngo restam hoje
representantes, a nio serem os' carnij6s (serio mesmo cariris ?) que
reduzidissimos, em via de extingio>. (2)
*se
Foi-lhes fatal, aos nossos av6s indios, o trato com o home
civilizado, a quem tiveram de submeter-se
frase de Am&rico Vespficio, ao descrever, em sua a expe-
digao de Hojeda.
Que foi deleteria a nossos aborigenes a agio dos alienigenas,
provam-no muitos fatos.

(2) < morativo do primeiro centenario da Independencia, organiza-
do pelo Instituto Hist6rico e Geografico Brasileiro)>.


- t ---


IINEU PINHEIRO






0 CARIRI


- II -


Nada tinham os cariris, por exemplo, corn portugueses e
holandeses que disputavam as terras que 8les, os amerincolas, desde
tempos imemoriais, conquistaram e habitavam.
Mas a f6rga das circunstancias levou-os a alistar-se nas fileiras
de uns ou de outros.
Em sua Angyone Costa que a maioria ficou .
Vencedores os lusitanos, vingaram-se das tribus, que Ihes
foram contrarias, perseguindo-as, ferozmente, nas planicies e nas
serras.
Escreveria tragicas piginas aquele que historiasse, com ver-
dade e minficias, a colonizagAo indigena em nossa patria.
Vejam o que assegura um notAvel ge6logo, Charles Frederik
Harrt, em sua seguidos (os botocudos) pelos colonizadores portugueses como
animals selvagens, e um senhor me disse en... que durante sua
vida, ou por suag pr6prias mAos, ou por sua ordem, tivera meios
de matar a faca e a espingarda, ou por veneno, mais de um milhar
dessas pobres criaturas>.
A**

Qual a etimologia do vocabulo cariri ?
Uns consideram-no oriundo de caa mato e ira mel, ou cai
queimado, ira mel ou rirg depois que.
E' o que se 18 em cia do Cear>, de Paulino Nogueira.
Ha quem julgue que os 6timos da palavra cariri nao sZo os
apontados acima. Ainda em < regista
Estevio Pinto que o nome cariri, na expressed de P6rto Seguro,
significa tristonho; calado, silencioso, cf. outros>.
Do parecer de Varnhagem e o nosso Capistrano que em seu
livro, , declara: < cor o qual os portugueses s6 amiudaram contact no s6culo XVII,
a o dos Cariris ou Kiriris (voz tupi, os tristonhos).>
Embora nula minha autoridade em etnologia indigena, seja-
me licito perguntar: Por que o apelido de tristonho ou calado?
Seriam os cariris menos comunicativos que seus irmAos de outras
tribus ?
Qualifica-os Angyone Costa de nos>, tenazes na defesa do solo de que se apossaram.
O autorizado Capistrano de Abreu observe que co negro
trouxe uma nota alegre ao lado do portugues taciturno e do indio
sorumbitico>.
Em < lustrou por muitas vezes o interior de nossos Estados setentrionais,






1RINEU PINHEIkR


nota que < falar baixo>.
triste do mundo, devemo-la ao negro, na opiniao de Azevedo
Amaral.
De tudo isso se conclue que o nome cariri nio provirg, para
determina'go de uma familiar de indigenas, do fato de serem estes
calados, tristonhos, pois todos os demais sempre assim foram con-
siderados, f8ssem quais f6ssem as tribus a que pertencessem.
Digamos, aqui, que Tomaz Pompeu Sobrinho discord dos
que julgam tristonhos nossos indigenas. Sao suspeitosos, mas nio
tristes, afirma ole. Cor quem se dio, palram alegremente, sio, as
vezes, indiscretos.
Apoiam a opiniio de nosso ilustrado patricio as seguintes
palavras de um dos melhores observadores dos costumes de nossos
incolas, Jean de Lery,,escritas na segunda metade do seculo XVI:
rais, aborrecendo os taciturnos, os avaros e os neurastenicos. Posso,
pois, assegurar aos sovinag, e aos avarentos, aos que come dentro
da gaveta, que n~o serio benvindos entire os tupinambas, porquanto
detestam tal especie de gente>.
Narra, ainda, Lery ter passado entire os indios uma das mais
terriveis noites de sua vida, certo de que os bArbaros o queriam
matar e comer. Mas estes nao tiveram intenaio alguma de ofende-1o.
De manh9, ao saberem o medo de seu h6spede, lastimaram
o que Ihe sucedera e minhas atribula'Ses>.


Historiadores h6 que afirmam ter sido o Cariri descoberto
por bandeiras da afamada Casa da T8rre, da Baia, fundada por
Garcia d'Avila, assim chamada <, no
dizer do padre Ant8nio Vieira, em seu Papel Forte.
Em escreve Jogo Brigido que
a tradiqio coloca entire 1672 e 1678 o comego do povoamento das
regimes sopedAneas do Araripe pela familiar Mendes Lobato Lira.
Outros contestam a verso ngo s6 relativamente aos descobri-
dores e povoadores sengo tambbm quanto & data do povoamento.
Ant8nio Bezerra, um dos mais insignes pesquisadores da his-
t6ria cearense, garante em < que < o chefe da Casa da Torre, nem algudm por l8e trouxe bandeira
alguma ao Cariri.
Acha nosso cronista que o verdadeiro povoador dessa
regiio foi o capitio-m6r Manuel Rodrigues Ariosa, riograndense-
do-norte, o qual obteve do capitfio-m6r Jorge de Barros Leite, em


- 1t -








12 de Janeiro de 1703, juntamente com o mestre-de-campo Manuel
Carneiro da Cunha, uma data de tres 16guas, a comeqar da Ca-
choeira dos Cariris at6 entestar cor o fim da lagoa dos Cariris. (3)
Por que considerar-se Ariosa povoador do Cariri, cor cx-
clusLo de seu companheiro de sesmaria? Por que, explica Bezerra,
Carneiro da Cunha residencia no lugar como ele (Ariosa), que nunca saiu das terras de
sua data'>.
A uma distancia de meia 16gua da cidade de Missao Velha,
no lugar Cachoeira, o rio Salgado despenha-se, de repente, numas
pedreiras, de uma altura de varios metros, num grande estrondo
que se ouve de long, para depois da queda correr mansamente no
seu leito em busca do oceano.
Deve ser all a Cachoeira dos Cariris a que se refere a data
de Ariosa.
Ant6nio Bezerra opina que < uma e a mesma cousa>. Segundo ele, Ariosa morou entire o Crato e o
Juazeiro, no sitio S. Jos6, antiga Lagoa do Ariosa, denominagio
que, hoje, mui poucos conhecem, inica reminiscEncia dEsse coloni-
zador do extreme sul cearense, j6 morto em 1716.
DeverB ser tido, realmente, o dia 12 de Janeiro de 1703 como
o do descobrimento do Cariri?
Em 28 de Fevereiro de 1702, um ano antes da data de Ariosa,
obtiveram Gil de Miranda e Ant6nio Mendes Lobato do capitio-
m6r Gil Ribeiro, conforme escreve o pr6prio Antonio Bezerra, uma
sesmaria < capitania>, na qual sesmaria se 1 que ao segundo couberam terras
de Ingazeiras a Tropas, Morros Dourados, Duas Passagens, l1ho
d'Agua do Buraco, Emboscadas e Cachoeira.
esses dois iltimos lugares j6 estgo no Cariri.
0 descobrimento e o povoamento da parte meridional do
Ceara sao assuntos que, evidentemente, merecem de nossos perqui-
ridores hist6ricos estudos mais pacientes e acurados.
**

Vasta era a fama da Casa conquistador de Garcia d'Avila,
decantada no folclore sertanejo. Por isso, a principio, raciocinaram
que s6 ela poderia ter sido a descobridora do Cariri.
Foi Garcia d'Avila notavel figure de nossa hist6ria, chegado
ao Brasil na comitiva de Tom6 de Sousa, de quem era protegido.

(3) Quem quiser conhecer esse antiqufssimno document de nossa
hist6ria, consulate o 2' vol. pPg. 13, de publicadas em 1921, por ordem do president do Ceara, dr.
Jo~o Tom6 de Saboia e Silva.


- 13 -


0 CARIRI






- 14 IRINEU PINHEIRO

Num de seus livros Geraldo Rocha julga cor justiga que
Avila foi e um dos grandes
vultos da Hist6ria Patria>. Escreve textualmente: vale do Sgo Francisco, do norte para o sul, em diregAo oposta A
corrente, Ele (Garcia d'Avila) escolheu pontos apropriados, cons-
truindo currais primitives, deixando em cada um deles um casal
de escravos,'dez novilhas, um touro e um casal de equinos, lan-
cando assim a semente da maior e mais estAvel das riquezas na-
cionais>.
Quem folhear a , do padre
Serafim Leite, S. J. poderA ler: sil alguns grandes proprietirios, e um deles, na Baia, Garcia
d'Avila, possuia tantos bens como todo Col6gio. Ora o Colegio
era uma coletividade, Garcia d'Avila um s6.>
Os sucessores de Avila, filho e netos, alargaram seus domi-
nios, numa verdadeira <, em arrancadas contra os
indios pela Baia, por Pernambuco, pelo Piaui.
Quem sabe nao viu o quarto Senhor da T8rre, Francisco
Dias d'Avila, nos longes do horizonte, o perfil anilado do planalto
do Araripe, em suas arrojadas viagens sert6es a dentro?
Nao atingiu a Casa da T6rre ao sul do CearA, mas suas
extensas propriedades aproximaram-se do vale caririense.
Tratando de seus neg6cios particulares, colaboraram Garcia
d'Avila e seus descendentes no desbravamento do hinterland nor-
tista, povoando-o de gados e de gente.
Tiveram de combater o indigena que defendia a terra, em que
sempre viveu, Ihes nio respeitava os rebanhos, por nunca ter tido
noggo do meum et tuum. Dai o choque entire os d'Avila e os padres,
advogados natos dos indios.
Conhece-se a questgo entire o padre Martin de Nantes e
Francisco Dias d'Avila, que o bargo de Studart chama severamen-
te apelida-o de grande, em sua <.
Pontos de vista diversos que conduzem a resultados opostos.
Tinham razao os padres, especialmente os jesuitas, em opor-
se a exploraqgo do indigena pelos colonos, mas destes, atW certo
limited, se pode justificar o modo de agir naquela 6poca.
Ou dominariam nosso aborigene e o obrigariam a trabalhar
a f6Sra, ou fracassariam todos os seus esforgos na nova terra.

Venderam os primeiros sesmeiros do Cariri, ou seus descenden-
tes, suas terras a outros, e:tinguindo-se, melancblicamente, no cor-
rer dos tempos, os nomes de Ariosa e de Mendes Lobato.
Nio sei de alguem, no sul do Ceard, que use, hoje, o apelido
destes ou o daquele.






A CHAPADA DO ARARIPE. A ETIMOLOGIA DE SEU NOME.
REST EE UM COLOSSO DE AREAS O CI-APADAO. AS
CAMAD S DE QUE ESTE SE COMPOE. A ORIGEM DE
SUAS FONTES SOPEDANEAS. SERRA EM DECOMPOSI-
CAO. SEIS FOSSEIS. DESTRUICAO DAS MATAS PELO
FOGO. A iFORMIGA DE ROCA, UM TERRfVEL INIMIGO. O
PEQUIZEIRO. A CHAPADA, UMA IMENSA HABITACAO,CO-
LETIVA ]OOS ANOS SECOS. O CARIRi, UM PRESENT DO
ARARIPE.






Dos sert6es do Cear. e Pernambuco avista-se, distant de
l6guas, a serra do Araripe na sua imponente altitude, a separar-se
do espago por uma regular, extensa e nitida linha horizontal.
Da-nos a impressio de uma paisagem em que, ao long, se
encontrem c6u e mar. Todos os importantes nficleos populosos do
Cariri sio mui pertos da chapada do Araripe, cujo nome primi-
tivo foi Rari.
Explica Capistrano de Abreu que o brando, qualquer que seja a posigao, e que em portugues 6 sempre
forte no principio das palavras: dai o fato interessante de os brasi-
leiros juntarem-lhes um A inicial para, pondo o R entire duas vogais,
conservarem-lhe o som primitive: 6 o que se ve em Araripe, por
exemplo, cuja forma antiga 6 Rari, como e 18 num document
conservado em Purchas>.
Quanto a pe, << uma posposigio da lingua geral, significando
em>.
Paulino Nogueira em seu aceita a seguinte
etimologia: < Pagina 49i>.


A chapada do Araripe, rego geral de leste a oeste, entire as cabeceiras do Salgado, afluen-
te do Jaguaribe, e as do Itaim, que flue para o Parnaiba, cor al-
titude de 900 a i.ooo metros>, 6 na opinion de Capanema, significante resto de um colosso de areas que all foram depositadas>.
Do parecer de Capanema partilha Charles Frederick Hartt,
o qual assim se express:





- i6 IRINEU PINHEIRO

cialmente os arenitos (do Araripe) ocuparam outrora uma imensa
extensgo da superficie do Ceard nao pode haver a menor dfvida,
como o dr. Capanema observou, pois os arenitos sgo muitas vezes
encontrados capeando m6rros isolados, A long distancia da serra>>.
A parte mais larga desta < a que se acha em frente do Crato
e do Exd (Exii Velho e nao Novo Exd), a qual conta 15.000 bra-
gas (33 Klms.) medidas pelo tenente coronel Jos6 Vitoriano Ma-
ciel>, consoante escreve o dr. Marcos de Macedo em suas vag6es s8bre as secas do Cear>>.


Segundo Horatio L. Small em d'Agua SubterrAnea no Ceara e Parte do Piaui>, 6 a seguinte a com-
posicio do Araripe:
estratificado, com c&rca de cinquenta metros de espessura;
b) Uma camada de arenito vermelho de c8rca de trezentos e
vinte e cinco metros de espessura, cor falsa estratificacgo;
c) Ainda uma camada de arenito vermelho com oitenta e
cinco metros a noventa tamb6m falsamente estratificado, mas dis-
tinto do precedent e onde' est o horizonte das fontes, na altitude
aproximada de seiscentos e vinte metros;
d) Uma camada de calc6reo mais ou menos fossilifero cor
cerca de noventa metros de espessura;
e)' Uma camada de arenito vermelho com cem metros de
espessura;
f) Uma camada de arenito conglomerAtico que assenta dire-
tamente s8bre as rochas cristalinas, numa altitude inferior a qua-
trocentos metros>.
Diz Small que a camada de calcareo representa papel im-
portante na estrutura da chapada quanto ao suprimento de agua>.
Sgo uma imensa esponja as tres primeiras camadas do pla-
nalto, nas quais se embebem todas as aguas pluvinis que nele caem.
Nio hi enxurradas senio as dos declives da serra ou as dos
caminhos batidos pelo p6 do home ou pelo casco do burro.
Em 1871, em seu livro ha pouco citado assevera o dr. Mar-
cos de Macedo:
josa e perme6vel que os fortes aguaceiros, como sabem despejar as
nuvens intertropicais, se infiltram apenas se acham cor ela em
contact. fste fen6meno 6 tio carateristico e efetuado tio precipita-
damente que um viajante, por exemplo, que no meio de uma bitega
se quisesse desalterar n9o poderia reter agua senao anteparando-a>.
Ao atingirem o calcareo impermeivel, formam as guns
vasto dep6sito, origem das fontes nas faldas do chapadio.
Acrescenta o ge61ogo Small:






0 CARIRI


- 17 -


(alude is camadas da serra) produziu ainda a concentraggo d'agua
numa linha N-S atraves do Crato e Jardim. Nos flancos da cha-
pada, que sao cortados por esta linha, h6 grande abundancia de
Agua, que brota de uma altura de 725 metros s6bre o nivel do mar
e cerca de 50 a 75 metros da parte superior do calcAreo. Nestes lu-
gares o nivel parece mais determinado pela camada dura de areni-
to que pela do calcAreo, parecendo ser o resultado da estrutura sin-
clinalh.
Afirma, ainda, o dr. Marcos de Macedo: tentamente na chapada do Araripe, na altura da cidade do Crato,
ouvem-se surdos ruidos cavernosos produzidos pela corrente das
aguas que formam as nascentes>.
A 8sses ruidos chama o povo gemidos da serra.
Em alguns sitios do Crato e de Barbalha, longes da chapada
vArios quil8metros, surdem olhos d'agua derivados, talvez, do
grande dep6sito existente acima umas dczenas de metros.
Tanto mais plausivel a hip6tese quanto esssa fontes jorram
com maior ou menor f6rqa, de tal sorte que se mergulharmos o
brago em uma delas, senti-lo-emos impelido para fora.
Estariam submetidas a presslo resultante da diferenca de
nivel entire o terreno dos brejos, de onde nascem, e o horizonte das
nascentes do planalto ? Poderiamos formular a pergunta: Um caso
de artesianismo ?
**
Na epoca das chuvas rolam, frequentemente, grandes por-
qoes dos pendores da chapada.
t o Araripe uma serra em decomposiq5o, na just expressAo
do bario de Capanema, que a estudou, cuidadosamente.
Segundo ele, sgo formadas as dunas cearenses por areas que
os rios torrenciais, nas estacges invernosas, levam do maciqo arari-
,-pano at6 o mar.
Outros h6, 6 verdade, que julgam provirem da Africa as
areas de.nossa costa, trazidas pela corrente peldgica.
As terras das parties desabadas do planalto sao conduzidas
nos brejos pr6ximos do Crato atraves do leito das correntes forma-
das pelas fontes jorrantes do chapadlio.
HA tempos vem sendo alguns sitios cobertos por camadas de
areas que, em certos lugares, medem quatro metros, ou mais, de
altura.
Citemos como exemplo o sitio Batateira vizinho da cidade.
Asse fen8meno lento e constant do desgaste da serra e do
aterrro dos magnificos terrenos dos brejos prejudicarg, seriamente,
em future mais ou menos long, a vida econ8mica do municfpio.
O principal remedio contra as erosses da chapada, provoca-
das pelas precipitaSes pluviais, sera a replantal.o racional de seus


- 17 -








pendores antigamente revestidos de muito numerosas arvores da
regilo das driades.
Nio nos esquegamos que as aguas torrenciais modificam,
As vezes, profundamente, o ffcies geogr6fico e o geol6gico das ter-
ras por onde passam.
Foram elas, as aguas, que, em 6poca remotissima, no perio-
do creticeo, como pensam Agassiz, Orvile, etc., em paredes verticais ou ligeiramente desaprumadas atW meia en-
costa para o vale do Carirb, cavando o Araripe e a serra de S. Pedro>.
Leia-se o , de Tomaz Pompeu.
*s*

Ao pe das escarpas da chapada vtem-se indmeros esp6cimes
de peixes fossilizados.
Seriam de notAvel valor paleontol6gico os estudos que se fi-
zessem in loco d8sses vertebrados mortos hi milenios.
Em sua tese o sr. Silvio Fr6is Abreu
escreve que foram descobertos peixes f6sseis, os quais classificados por especia-
listas Agassiz em i841, A. Smith Woodword em 1887-1890, Jor-
dan e Branner em igo8, foram referidos ao period creticeo. A
fauna dos foraminiferos das camadas do Araripe 6 abundante e to-
dos os caracteres indicam que se trata de dep6sitos marinhos>.
No rico gabinete de paleontologia da Escola Nacional de
Minas e Metalurgia de Ouro Preto, como me informou o ilustre
dr. Ant8nio Pinheiro Filho, professor daquela Escola, v8em-se seis
exemplares de peixes f6sseis do Araripe: Vinctlfer Comptoni, Cla-
docyclus Gardneri, Calamopleurus Brama, Racholepis Buccalis,
Ennelyctis Derbyi, Tharrias Araripis.
Os quatro primeiros foram classificados por Agassiz e os dois
filtimos por Jordan.
HA, crca de vinte anos o gr. Philipp von Luetzelburg veri-
ficou a exist8ncia de peixes f6sseis no Crato, Barbalha, Porteiras, etc.
Assim send, pode garantir-se que a serra e uma enorme
jazida de icti6litos. Diz ainda o sr. Luetzelburg em seu livro < do Bot&nico do Nordeste> ter encontrado fragments de f6sseis de
siuriog entire o sitio Roncador, em Barbalha, e a Feira do Pau ou
Gameleira, no municipio de Missgo Velha.
Exclama o naturalista num incontido entusiasmo: < plorag~o mais minuciosa daria resultados espantosos>.


Revestiram a serra, hi muito tempo, vastas florestas que
foram destruidas pelos nossos lavradores e criadores.


- 18-


IRINEU, PINHEIRO






O CARIRI 19-

Simples o modo como se ter processado a agriculture em
nosso famoso cin'-,l '-,. Simple e prejudicial.
Faz-se a broca, a derruba das grandes arvores, a queima
alongada, muitas vezes, por defeito dos aceiros, na extensio de qui-
18metros c, por filtimo, a plantagio da naniva de mandioca.
Ali se cultiva a terra durante uns quatro ou cinco anos e se
6 em fim expulso por um terrivel inimigo: a formiga de roca.
Passam adeante a cumprir sua fungio de exterminadores de
florestas.
No terreno abandonado, que depois se transformarg em ca-
poeira, substituem ao home os formigueiros cor suas extensas
e profundas galerias subterraneas comunicantes corn o exterior por
dezenas de bocas circuladas por monticulos de terra.
Contam-se, hoje, por milhares e milhares, as casas-de-formi-
ga em toda a planura da chapada, taladas pelos daninhos insetos
as arvores, as plantai5es de ao redor em um raio de muitos metros.
Nao se cuida da terra, nao a adubam, nao Ihe extinguem os
formigueiros, flagelo universal no Brasil, desde os tempos coloniais.
Identicos os rotineiros processes agricolas na serra, no vale
que Ihe fica ao p6, nos sert6es.
Ja notava o fenomeno do abandon de nosso solo Charles
Ribeyrolles, af pela segunda metade do seculo passado, em seu
Brasil Pitoresco>:
nunca fiscalizada. E como ela e tratada? Queimada, cultivada ate
o esgotamento, depois abandonada. Nem alternatives, nem adu-
bos, nem argilas. De trabalho em trabalho ate o terreno inculto,
eis a progressno.
Um fator importantissimo de devastraco de nosso patrim6-
nio florestal, no Araripe, tem sido o fogo que, desde muitos lustros,
o vaqueiro, Nero encourado, ateia para formaqao de campos de
pastagens propicias a seus rebanhos.
Da primitive floresta restam alguns belos exemplares de
visgueiros, jatobgs, paud6ias (pau d'61eo) e poucos mais.
Durante leguas s6 se descortina o mato rasteiro das capo-
eiras, jurubeba, velame, balaio de velho, canela de saracura, mar-
meleiro bravo, cambui, de cujo fruto semelhante ao da jaboticaba,
embora menor, se faz vinho que 4 apreciado.
Ha umas cinco decadas passadas, nos fins do seculo XIX,
viajava-se atrav6s da serra sombreada por grandes arvores, cujas
copas entrela'adas se atiravam altivas para o alto.
Resteas de sol manchavam aqui e alem, trimulamente, og ca-
minhos muito pianos e estreitos da chapada.
i margem da estrada viam-se, como inda hoje se veem,
comboeiros arranchados, frequentes vezes o fogo sob as panels
amarrades por cordas aos galhos das arvores.









Em cima do planalto dificilmente encontra o sertanejo uma
pedra que possa servir de trempe para cozinhar sua refeigio fru-
galissima: um pouco de feijio corn um naco de came.
Na parte da serra denominada agreste dominam os aracas
de veado, os araticuns, o pau-terra, de que se faz carvio para as
forjas dos ferreiros, os muricis branco e vermelho, a faveira, exce-
lente combustivel para as fornalhas dos engenhos, a manigoba, o
pequizeiro corn seus bonitos corimbos amarelados e com seus tron-
cos sempre inclinados para o poente, etc.
Nerm o ltimo, que 6 refrig6rio das populag~es nos tempos
de stca, 6 poupado por nosso home do interior.
Abatem-no a machado para a feitura de rodas de cacimb5es,
corcundas de engenhos, f6rmas de rapaduras e vArios outros mis-
teres.
O fruto do pequizeiro, que 6 arredondado e de c6r verde,
cont6m um carogo coberto de uma camada carnosa de notAvel valor
nutritivo.
Pessoas do povo hi que o comem cru, roendo-o at6 atingir
os pequenos espinhos que envolvem a amrndoa central.
Cozinhado, os natives do Cariri acham-no agradabilissimo
ao paladar.
Na 6poca das crises climAticas sobem o Araripe centenas de
emigrantes dos serties e all arraiados em ranchos de tecto de capim
ou A sombra de arvores colhem o fruto precioso, dele se alimentam,
levam-no em balaios s6bre as cabeqas As localidades do Cariri e o
vendem para comprar sal, rapadura, umn pouca de farinha, etc.
Nessa quadra, durante meses, a chapada transforma-se em
uma imensa habita(o coletiva.
Nag noites frigidissimas da serra ve-se luzir, aqui e all, a la-
bareda de fogueiras, em cujo derredor conversam ou dormem re-
tirantes de quase todos os Estados' do nordeste.
Ngo 6 s6 ao ar livre, aditemos a guisa de parenteses, que
nosso matuto dorme ao calor de fogos, mas tamb6m os acende nos
compartimentos de suas casas de taipa, junto As suas redes de al-
godao.
Isso de aquecer-se A chama de fogueiras,. dentro de suas ha-
bitag~es, de aquentar fogo, na expresso de nosso home do povo,
seria um habito que Ihe herdou nosso selvicola, noites de frio, seu grande capote, no dizer de Raimundo de Morals,
sempre foi o braseiro sob a rede, ou perto da esteira, se ele dorme
no chgo ?>>
Em 1557, Hans Stadan regista em sua ,
referindo-se aos indios que o aprisionaram: < que chamam inni (rede de dormir) na sua lingua, as quais sio-fei-


- 20 -


IRINEU PINHEIRO






0 CAKRI -

tas de fios de algodio. Amarram-nas em dois esteios, acima do chao,
e ao lado conservam fogo durante a noite.

Como vimos atris, e a manigoba native no agreste do pla-
nalto.
Na primeira decada deste seculo, plantaram-na muitos em
grande escala para dela extrairem o latex, A frente dos plantadores
o padre Cicero Romio Batista cor seus romeiros de Juazeiro.
Em 1912 escreveu o padre a seu encarregado, na serra, sr.
Jos6 de Noroes Maia, recomendando lhadores a tirar a borracha corn cuidado e limpeza; em quanto nao
aprenderem, se deve reparar para nio estragarem as grvores>.
SNa mesma carta disse: Adolfo van den Brule) mandou pedir>.
Pertenceram esses homes, aos quais se refere a carta, ao
grupo armado do dr. Augusto Santa Cruz de Oliveira que, na-
quela 6poca, depois de revolucionar por motives politicos o mu-
nicipio paraibano de Alagoa do Monteiro, se viu obrigado a fugir
As f6rgas policiais daquele Estado e abrigar-se, acompanhado por
sua gente em armas, em Juazeiro, no Cariri.
Digamos, em fim, que, em virtude da depreciacio da borra-
cha, abandonaram os manigobais, que desapareceram, em part,
pelo iogo ou pela morte natural do vegetal.

Le-se em Her6doto que o Egito 6 um produto do Nilo e egip-
cios s9o os que bebem as Aguas do grande rio.
Parodiando o historiador grego, podemos dizer que o Cariri
6 um present da chapada do Araripe -e caririenses os que Ihe be-
bem as Aguas das nascentes, as quais, em n6mero de cento e tan-
tas, originaram as cidades do extreme sul do Estado e as tem
feito progredir. (4)

(4) No Cariri chamam-se nascentes as fontes de aguas abundantes,
olhos d'Agua as m6dias, minadouros as pequenas. Citemos os
nomes dos sitios de onde brotam nascentes, olhos d'agua e mi-
nadouros.
CRATO: 3 no sitio Romualdo, 5 no Francisco GomeS, 2
no Romeiros, a no Coqueiro, 3 no Grangeiro, I no Caiana, I.no
Belmonte, I no Cinzeiro, .i em Bocaina, 3 em Loanda, 4 em Preguiga,
3 em Coruja, 2 em S. Joho, i em Boa Vista, 3 em Bebida Nova,
4 em Valverde ou Lopes, 2 em Guaribas, i no Ceu, i em l1ho
d'Agua, i no Carrapato, 2 em Almecegas, i em Rosario, i em
Trindade, 2 no Cabreiro, i no Coite, 3 em Santa Rosa, 2 em En-
genho Velho, 3 em Santa Cruz, 2 na FAbrica, i do Genipapeiro,







- 22 IRINEU PINHEIRO

Dessentam esses mananciais as populag6es rurais e urba-
nas, fertilizam os terrenos dos brejos e p6s-de-serra, teem causado,
tamb6m, choques que perturbaram a vida social caririense.
No Crato, pertencem ao municipio algumas de suas fontes,
como as do Grangeiro, Caiana, etc., cujas aguas formam o riozi-
nho que banha'a cidade.
Por amor dessas aguas surgiram, as vezes, conflitos entire o
povo, que delas sempre se abasteceu, e os lavradores de ao sop6
da serra, que, de quando em quando, as aplicavam, mais do que
deviam, em proveito de seus canaviais.
Em virias ocasioes, procurou a camara municipal conciliar
os interesses publicos com os dos donos de sitios.
Desde remotas eras, desejaram os cratenses canalizar as aguas
das fontes do Araripe para o Crato.
Em 30 de Agosto de 1860, o president do Ceari, dr. Anto-
nio Marcelino Nunes Gongalves, autorizou a camara municipal
do Crato a chafarizes d'agua potdvel na respective vilaw.
Ndo foi adeante o projeto.

I no Riacho Vermelho, i no Engenho da Serra, I no Brejinho,
I no Riacho Fundo, i no Constantino, i na Baixa, 2 no Lameiro.
SANTANOPOLE: I no Queimado, i no l1ho d'Agua de
Santa Barbara, i em Azedos, i em Palmeira do Brejo Grande, i
no Pontal, i em Saco Grande, I em Buxix6, i em Git6, i no Nelo,
i em Ventura, i no Sitio, I no Ribeiro, i em Palmeira, I no Frade,
i em Bois, i em S. Gongalo dos Adrianos, i em Nicacio, i no Geni-
papeiro, i em S. Gongalo do Bonito, I em Pedra Branca, I no Buri-
ti, I em Conceigio.
BARBALHA: 5 no Caldas, 2 no Riacho do Meio, x em S.
Joaquim, i em Brejinho, 3 em Flores, i em Mund6us, 2 no Silv&-
rio, I em Podres de Guaribas, i em Caldas dos Rochas, 2 em San-
ta Cruz, 2 no Saco, 2 em Macauba, 3 em Farias e Santo Antonio,
i em Guaribas de Farias, i em Sbzinho de Farias, 4 no Melo, 3 em
Santa Rita, i em Podre de Arlindo, i no Brejao, i em Loanda, i
em Tamandui no Saco de Farias, i no Saco dos Greg6rios, I no
Saco dos Calous.
JARDIM: I em Boa Vista, i em 61ho d'Agua, i em Enge-
nho Velho, I em Agude, i no Cumbe, i em Belo Horizonte, 3 em
Boca da Mata,, I em Bom Jesus, I em Agua Branca, x em Lamei-
rio, I em Laranjeira, I em Jardim, i em Santos Dumont, I em
Santana, i no Canto, i em Catol6, i em Sacada, i em Marinheiro,
i em Gravatd, x no Guedes, i em Areias, i no Lopes, I no Breji-
nho, i em Sbzinho, I em Morot6, i na Mata, I na Descida, i no
Riachio.






6 CARIRt


Em 1886, cogitou a camara de realizar a velha aspiragqo po-
pular. (5) Mas a idea morreu, melanc6licamente, como a primei-
ra acima referida.
S6 na era de 40 deste seculo foi que elas, as aguas, foram
conduzidas em canos ate as ruas e pragas da cidade.

(5) ApElo dos vereadores do Crato ao povo para que colabore na
empresa de canalizacio d'agua para a cidade:
tOs abaixo assinados,, vereadores da cimara municipal no
quadriEnio que comega a 7 de Janeiro future, compenetrados
desde ji da alta incumbencia de que foram revestidos por seus
municipes, tendo em mente proporcionar o abastecimento de agua
potavel A populagio desta cidade por meio de canalizagio e colo-
cag;o de chafarizes nas diversag pragas, media de long data
reclamada como um dos meios de evitar as febres de mau carter
que, peribdicamente, se desenvolvem em consequencia das Aguas
apodrecidas que serve a grande parte privada de meios para
mandar vi-la de fora; e prevendo os abaixo assinados que samen-
te com as defectiveis fontes de receitas da camara nio podem
realizar tio important melhoramento, v8m por meio deste fazer
um ap8lo A filantropia dos habitantes da cidade, a quem maig di-
retamente aproveita tao humanitario servigo, a fim de que,
subscrevendo cada um cota proporcionada as suas f6rqas, possa
a camara, em breve tempo, dar por terminada essa tarefa sem
a decretagio de novos impostos que constituem, As mais das vezes,
o flagelo de um povo. As subscrig~es sergo tomadas nos escrit6rios
dos senhores Henrique Fernandes Lopes, tenente coronel Joaquim
Secundo Chaves, capitio Vicente Gomes de Amorim, Benedito
da Silva Garrido, Raimundo Gomes de Matos e Ildebrando Sis-
nando Batista, em poder dos quais ficario as quantias subscritas
para serem restituidas se por qualquer eventualidade, o que nio
e provavel, a cimara deixar de iniciar as obras ate Marco future.
Crato, 25 de Setembro de 1886. Juvenal de Alcantara Pedroso,
Manuel Felipe Teles, Manuel da Cruz Rosa Carvalho, Antonio
Ferreira Lobo, Raimundo Gongalves da Costa, Alexandre Gomes
de Amorim, Ezequiel de NorSes Maia>>.


I


-13 -






A CHAPADA DO ARARIPE, UM DOS GRANDES CAMPOS
CRIADORES DO CEARA. CRUZAMENTO DO GADO ZEBO
COM 0 CRIOULO. A MIGRACAO DAS MANADAS ZEBUI-
NAS DA BAfA ATE' 0 VALE DO CARIRL. A TRAVESSIA DO
RIO S. FRANCISCO. OS ELEMENTS QUE MAIS CONCOR-
RERAM PARA 0 POVOAMENTO E A EXPANSAO DO BRA-
SIL. S6LTAS DE GADO NO ARARIPE. A PASTAGEM DA
SERRA. AJUNTAMENTO DE VAQUEIROS NAS AGUADAS
DE AO PE' DA CHAPADA. O TOQUE OU SECA. COMPRAS
DE GADO CAVALAR NO PIAUf. OS BARREIROS







So chapadio um dos grandes campos criadores do Cearg.
No Cariri o gado crioulo esti sendo cruzado em important
escala com o zebi que 6 muito robusto, adaptAvel ao meio, ridstico,
de estatura mais elevada, mais bravio, mais gregario que o nosso.
Em grupo mais d6cil, mais rebelde individualmente.
Tern vindo em sua quase totalidade da Baia, especialmente
do municipio do Mundo Novo, nctivel zona pecugria daquele Es-
tado.
A titulo de curiosidade descrevemos em rApidos tragos a
migraggo dessas manadas zebuinas, de cerca de centenas de reses,
em uma distancia de mais de duzentas l.guas. Percorrem elas, as
reses, corn o seu pass tardo, as compridas orelhas pendentes, o
nordeste da Baia, Pernambuco de sul a norte, e chegam em fim ao
vale do Cariri pelas ladeiras da serra do Araripe.
Atravessam o Rio Sio Francisco nas chamadas barcas de
passage, que tem a form de currais, tangidas pelos ventos que
Ihes enfunam as velas de algodiozinho.
Essas embarcag5es sao comboiadas por dois paquetes, movi-
dos a remo, guarnecido cada qual por quatro homes.
Uma precaugio para o salvamento de qualquer rss que se
atire As aguas do majestoso rio.
Nos verses escasseia a pastagem nos campos. Os condutores
dos rebanhos derribam a machado, a foice ou a facto, nas caatin-
gas ou nos baixios, galhos de umbuzeiro, de aroeira, de juazeiro,
corn que alimentam o gado faminto.






0 CAIR 25 -

Aqui e ali compram palhas secas de milho, ou de cana, que
sio boas forragens.
Calga-se, as vezes, o gado muito estropiado, ou doente de
febre aftosa, com uma esp6cie de alpercata redonda feita de um
pedaVo de sola corn seis orificios, atrav6s dos quais se mete uma
correia, cujas pontas devem exceder a circunferencia do original
sapatio.
Dobrada a sola de modo a envolver todo o casco, amarram-
se as duas extremidades da correia so nivel do machinho do ani-
mal doente.
Durante as noites os tangerines rodeiam as reses que, a re-
moer, olham como que fascinadas, corn seus largos olhos mansos,
as.chamas alegres das fogueiras construidas em volta do acampa-
mento.
Dessedentam-se essas levas de zebis nos cacimb5es dos fa-
zendeiros que moram a margem da estrada.
OcasiSes ha em que padecem side dois e tres dias.
No inverno transp6em os mil atoleiros dos caminhos, ou pas-
sam a nado os rios que encontram.
Tudo isso se faz corn perdas considergveis em virtude da
s@ca ou dos copiosos aguaceiros.
Assim r que se aperfeigoam os nossos rebanhos no Cariri
ou no alto sertio do nordeste brasileiro.
Ha mais ou menos trezentos anos, digamos entire parentese,
usavam-se ardis que facilitavam a travessia dos infimeros cursos
d'agua de nossos serties.
Em 1711 escreveu Andr6 Joao Antbnil, anagrama de Joio
Ant6nio Andreoni, ilustre jesuita, italiano de Lucca: < de alguns rios, um dos que guiam a boiada, pondo uma armacLo de
boi na cabega e nadando, mostra as reses o vau por onde irio
pasgar>.
SApelida Capistrano de Abreu de genio an8nimo ao inven-
tor dessa traga hist6ria e a modelou em grande parte>.
apetecidas ambas as margens do Rio S. Francisco>.
Ngo nos parecerA exagerada essa opiniio de Capistrano, se re-
fletirmos que o criador foi um dos trhs elements que mais concor-
reram para o povoamento e expansio do Brasil.
Os outros dois foram, ao sul, os paulistas corn as suas ban-
deiras, e ao norte ate o Javari, os religiosos, notadamente os be-
nemeritos jesuitas.
R verdade que Capistrano de Abreu, em seus < Hist6ria Colonial, pergunta se os horrores cometidos pelos bandei-









rantes podem ser compensados pela consideragao de que a eles deve
o Brasil as terras conquistadas.
Acha que bandeirante 6 sin6nimo de despovoador.
Sob certo ponto de vista, a criagio primou no povoamento
da nossa PAtria em relaggo aog dois outros fatores atr6s nomeados.
Diz JoHo Ribeiro que foi ela < quilo da nossa cultural, por ela abriram-se as comunicaSges terres-
tres iniciadas pela conquista e conservou-se, como ainda hoje se
conserve, nas estancias sertanejas o fnico tradicionalismo da vida
national>.
O gado acompanhou os nossos colonizadores e, logo, se mul-
tiplicou no seu novo habitat.
Quanto ao Cariri, se folhearmos os registos de concess5es
de sesmarias, all, veremos que, desde a primeira, eram elas reque-
ridas para criago de gados.
Depois veiu a agriculture que, no decurso dog anos, sobre-
pujou aquela.
Inda agora, no nosso interior falho de estradas de ferro e de
boas estradas de rodagem, sao os gados um dos ramos de neg6cio
mais fAcilmente realizAveis, por que, na expressio de um dos nos-
sos antigos cronistas, < sao os que sentem nas longas marchas todo o peso do seu corpo e
apenas se faz necessirio que haja quem os encaminhe>.
Volvamos A nossa narrageo.
Ao comegar a 6poca da estiagem, em Maio geralmente, cos-
tumam os fazendeiros caririenses levar para o Araripe seus gados
que sao retirados no principio do inverno.
Ha uns quarenta anos passados, um dos maiores criadores
do sul cearense, senio o maior, o coronel Quinco Cardoso, soltava
no Araripe anualmente milhares de reses.
A's primeiras chuvas da estaoio invernosa, todos os anos,
comegavam os seus vaqueiros a traquejar (6) as vacas, os bois era-
dos, os barbat5es ariscos e velozes, a junta-los nos malhadouros con-
sinados (7), a faze-los descer pelas ladeiras fortemente ingremes da
serra.
Tocavam depois atraves das picadas que colubreiam nos.

(6) Traquejar o gado: lev6-lo do mato para os malhadouros ou os
currais das fazendas. E' uma operaggo que o vaqueiro faz a
cavalo, cor certo jeito.
(7) Malhadouro: lugar onde o gado, nos campos, costume descan-
qar A noite ou nas horas mais quentes do dia. Bebidas consi-
nadas ou malhadouros consinados: aqueles que sio preferidos
pelo gado e conhecidos dos vaqueiros. Consinado: corruptela
de consignado.


- 26 -


19INEV PINHEMOt






6 CARIRt -

taboleiros e caatingas, ao som dos aboios e dos 6!cou, ao tinor dos
chocalhos das vacas ariojadas (8) ou das reses velhacas, as
pontas de gado que eram levadas para fazendas do Brejo dos San-
tos e de Porteiras.
Uma cena que, por mementos, animava o grande silencio
envolvente da paisagem sertaneja.
Ha o gado serreiro, aquele que sobe e desce por si mesmo a
serra nas quadras pr6prias.
Todos os dias, no tempo das s6ltas na chapada, enchem-se
as ladeiras de reses em busca das fontes do sop6 do macigo arari-
pano.
A principal pastagem em cima dhste 6 o capim agreste, o
quic6, a mucunan, o taquari, a flor e a vagem seca do visgueiro,
o fruto e a flor do maracuji, etc.
Durante a inflorescencia do pequizeiro, a floraggo e a fru-
tificaqAo do maracuja, reses ha que, no espago de muitos dias, nao
vio as nascentes dos pss-de-serra.
Em t6rno dessas aguadas, diAriamente, se reunem vaquei-
ros que conversam s8bre o gado da sua entrega, amarrados os cava-
los A sombra das arvores circunvizinhas, afrouxadas as cilhas para
que melhor descansem os animals.
Tenho assistido mais de uma vez a esses curiosos ajunta-
mentos.
Alguns vaqueiros, de c6coras, desenham no chgo marcas de
gado e permutam informagSes. (9).
Outros quebram o jejum com um bocado de came assada ao
espeto, um pedago de rapadura, uma das alegrias> do sertanejo, e
um punhado de farinha, que 6 comida , a jogarem-
na com a mio dentro da boca. (io)
Seria esse modo de comer farinha um habito legado pelos
nossos indigenas?
Os tupinambis, diz Jean de Lery, tanto os homes como as
mulheres, acostumados desde a inffncia a come-la seca (a farinha
de aipim, de mandioca) em lugar do pio, tomam-na com os quatro
dedos na vasilha de barro ou em outro qualquer recipient e a
atiram, mesmo de long, corn tal destreza na boca que nao perdem
um s6 s6 farelo. E se n6s franceses os quisessemos imitar, nao. es-

(8) Vaca amojada: aquela pr6xima de parir, ou dar cria, na lin-
guagem dos fazendeiros.
(9) Marca de gado: o ferro com que cada fazendeiro assinala, a
fogo, na anca, os animals da sua propriedade.
(Io) Quebrar o jejum: comer pela primeira vez, no dia, alguma
cousa s6lida.







-28- II~JNEU PINHEIRO


tando como eles acostumados, sujariamos o rosto, ventas, bochechas
e barbas>.
Todo vaqueiro traz seu mantimento em um par de alfor-
jes de couro curtido suspensos de um lado e outro da sua sela de
campo por duas tiras. de sola atravessadas por baixo da capa e
s6bre as gualdrapas do ginete. (II)
A qualquer hora, no mato, ou em casas de conhecidos, comem
o que levam nos alforjes. Depois da s6bria refeiggo, rematada sem-
pre, quando podem, por uma ou mais chicaras de cafe, fazem in-
defectivelmente um cigarro, de vagar, com pachorra, como se obe-
decessem a um ritual: puxam das suas perneiras de couro rie bode,
ou de veado capoeiro, facas longas e afiadas, corn estas cortam um
pouco de fumo da terra no c6ncavo da mao esquerda, esmagam-
no entire as palmas das mios, enrolam-no, ap6s, em mortalhas de
papel ou em palhas de milho, passadas na lingua umas duas ou
tres vezes para melhor amacia-las, fecham em fim o cigarro cor o
gume da faca e o saboreiam deliciosamente.
Beber fumo (fumar) e tomar caf6 sao os vicios mais estima-
dos do matuto.
Regra geral, trazem os vaqueiros nos bolsos dos seus gibes
de couro artificios, que sio o f6sforo do sertanejo.
Comp6em-se de uma ponta de chifre de boi, de cerca de
meio palmo de comprimento, cor um pequeno buraco na extremi-
dade final, e de uma tampa, feita de um pedago de cuia, cujo centro
6'atravessado por uma correiazinha de couro de bode, a qual serve
para abrir o instrument.
Enchem-ro de algodao em rama (l1 de algodao, como
dizem), calcam 8ste cor o indice, queimam a parte superficial.
Simples o modo de funcionamento do rudimentar aparelho.
Pegam-no corn a mao esquerda, segurando ao mesmo tempo
entire o indice e o polegar uma pedrinha de taboleiro, bem dura,
pedra de figado, assim denominada por se assemelhar a sua c6r A
do figado da galinha.
Do atrito dessa pedra cor um pedago de ago, o fusil, que o
operator prende entire o indice e o polegar da m9o direita, saltam
fagulhas que caem no algodio e o incendeiam. Acendem, entAo, ci-
garros, cachimbos, tamb6m pauzinhos de marmeleiro, com os quais
fazem o fogo nos seus toscos fogies de barro.
SAo campearem, conduzem consigo os vaqueiros alguns ape-
trechos que Ihes sio indispensaveis: uma corda de lasar, feita de
couro cru, enrolada, sob a capa, no argao dianteiro do selim, umas
duas caretas (esp6cies de mascaras), tamb6m de couro cru, postas

(11) Ginete: sela dos vaqueiros campearem, isto 6, andarem no
campo, a cavalo, em procura de gado.


- 28 -


1INEU PINHEI0O






O CARIRI 29 -

no assento da sela, ainda debaixo da capa, destinadas ao gado
rebelde, dois relhos, de uns cinco metro de comprimento, amarra-
dos as tiras de sola que sustentam, os alforjes, alguns chocalhos, um
chifre de boi cor uma entalha na parte mais fina, na qual entalha
passa uma correia que o prende a capa do ginete.
Ao soprarem nesses chifres, tiram os vaqueiros sons altos e
alongados, corn os quais avisam aos companheiros distantes o lugar
onde eles, os tocadores, se acham, que a pega da res procurada se
efetuou, etc.
Penso que o uso do chifre, como trombeta, e uma das mui-
tas sobrevivencias de costumes africanos, entire n6s.
Ladislau Batalha, citado por Artur Ramos no livro negro no Braril>, nos informa: to usados6 para servigo de pesca e caga: a buzina (esp6cie de trom-
beta, feita de um chifre). tste instrument nio entra junto corn os
outros na composigio de m6sicas; e serve apenas para que os pre-
tos, separados uns dos outros por motives de caqa ou pesca, se pos-
sam entender por meio de sinais corn le feitos.
No inverno o criador caririense ou o pernambucano, do outro
lado do Araripe, 6 obrigado a despastar o gado, isto 6, a recondu-
zi-lo da serra para o gertgo, ou para o vale do Cariri, sob pena de
v--lo adoecer ou morrer do toque ou seca, doenga manifestada pela
tristeza e magrdm da ris, pelo arrepismento do cabelo que engros-
sa, pelo dessecamento das fezes, etc.
Em > escreve Geraldo Rocha que a region
dos campos gerais Bafa, Goiaz e Minas Gerais. Durante as secas prolongadas os fazen-
deiros da zona bordejante de tais campos costumam para 1i reti-
rar o gado, que vai pasta o capim agreste previamente queimado
para oferecer aos rebanhos a tenra brotagco. Nas primeiras chuvas,
por6m, urge retirar os animals, por que a ingestio de uma grande
quantidade de silica, colocada nas folhas pelo gotejar da agua contra
o solo, determine uma moldstia a que chamam toque, fazendo o
gado perder o tecido muscular e definhar pela mis&ria fisiol6gica.
O finico remedio 6 transferir o rebanho para um solo argiloso e
p8r A sua disposic~o grande quantidade de sal a fim de provocar
dejegbes que limpargo dos intestines o excess da area ingerida.
Do que se acaba de ler pode deduzir-se ser id8ntica a causa
do toque nos campos gerais e na serra do Araripe, uma chapada
de terreno silicoso como o daqueles campos, na qual domina, como
all, o capim agreste.
Como explicar-se que em lugares tao distantes, dificilimas as
comunicag5es entire si, seja igual a denominaggo popular do mesmo
mal?
i licito supor-se que, em tempos muito remotos, explora-






IRINEU PINHEIRO


- 30 -


dores daquelas regi6es tenham vindo ate o vale do Cariri, promo-
vendo a migragao do vocabulo pars essa zona do interior do Ceara.
Ou entAo (o que e mais provavel) os d6ste Estado 6 que foram
aquelas paragens longinquag e de la trouxeram a expressio.
Antigamente os vaqueiros dos criadores caririenses penetra-
vam o Piaui ate os limits de Goiaz.
Quem sabe nao foram Rles os que transplantaram para o
Cariri a palavra a que nos referimog ?
Sei de alguem, Ant8nio Pereira Gongalves Martinz Parente,
dono do sitio Saquinho, no Crato, que, h6 um s6culo, ou pouco
mais, ia pessoalmente comprar cavalos nos Inhamuns e no Piaui, os
engordava no Araripe, no lugar Mata dos Cavalos, para vende-los
no rec8ncavo da Baia.
Como ja dissemos; a porosidade na planura do chapad5o 6
tamanha que determine a embebigAo imediata das aguas das chu-
vas em toda a sua superficie. Dai ser 8le quase um desert.
De algum tempo a esta parte se vem esforgando nosso ser-
tanejo por solver Esse problema vital de falta d'agua pela constru-
qco de barreiros, grandes buracos cavados no chio, impermeabiliza-
dos A f6rga de malho, cheios atW as bordas pelas chuvas dos invernos.
Aqui e all, junto As moradias, espelham esses pequeninos
lagos cada dia mais numerosos na zona correspondent aog munici-
pios caririenses e aos limitrofes de Pernambuco.
Em consequencia da multiplicagio dos barreiros avultam os
currais na serra.
Fazem-se all queijos de manteiga e de coalho, que se vendem
nas feiras das cidades caririenses.
Para a coagulagio do leite usam-se pequenos pedagos de vis-
ceras de certos animals: as do boi, do preg, do bode, do moc6, a
melhor de todas.
Families ha, no Cariri, que costumam, anualmente, veranear
nos logradouros de cima do Araripe.





A PROVINCIA DO CARIRf NOVO. UM ARTIGO DE JOSE'
DE ALENCAR. UM SONHO QUE SE NAO REALIZOU.







Povoou-se relativamente ripido o Cariri, desenvolvendo-se,
sobretudo, sua agriculture. Tal a expans~o da sua riqueza que, em
1839, cento e trinta e seis anos ap6s seu descobrimento, se cogitou
de criar a Provincia do Cariri, cuja capital deveria ser o Crato.
Leiamos o que escreveu <> em seu n6mero 46, de 31
de Maio de 1836: < de Janeiro, brilhante publicagao jornalistica do nosso distinto pa-
tricio, o Sr. Dr. Jos6 M. de Alencar. Em nome do piblico
cratense protestamos-lhe o nosso reconhecimento pelo valioso ser-
viqo que presta A causa da criagio da Provincia do Cariri, servico
tanto mais proficuo quanto esse atleta da imprensa pode levar A
convicgao do corpo legislative essa verdade que achou sua demons-
tragio no espirito lfcido do venerando nosso caro amigo, Sr. Se-
nador Alencar, e no dos seus ilustrados e respeitiveis colegas, Para-
nagu&, Vasconcelos e S. Leopoldo. O Sr. Dr. Alencar, prestando
A sua terra servigo t9o valioso, nao faria debalde um apelo A ge-
nerosidade do bom povo cratense quando chegasse o dia de Ihe
poder dar uma prova da nossa sincera gratidio:
A idea da criagio de uma nova Provincia na comarca do
Crato 6 uma idea antiga, j6 discutida no Senado, e que hoje come-
ga a reviver e a tomar algum vulto. Os habitantes daquele lugar,
desejando ver realizado esse projeto de um dos seus patricios, o Sr.
Senador Alencar, acabam de criar um journal , destina-
do exclusivamente a sustentar essa causa just, que nos propo-
mos defender cor os nossos fracos e pequenos recursos. Embora A
primeira vista essas ideiag de divisoes de Provincias paregam
quest6es de interesse local, 6 impossivel contestar a vantagem que
de uma boa divis o administrative result para o govErno de um
Paid, e sobretudo o acrescimo de rendas, o aumento de produqlo
que traz criacgo de uma Provincia que se acha em condiges t5o
favor6veis como a que se projeta na comarca do Crato. Uma das
cousas que mais receia o Governo, quando se trata de criar uma
nova Provincia, 6 o aumento de despesas provenientes da sua orga-
nizaqo administrative, mas este temor nao pode existir a respeito
do Crato, cuja renda atual, junta A dos municipios que Ihe devem
ser anexos, 6 superior A de muitas Provincias j6 criadas. Antes de
entrar em qualquer desenvolvimento, desejamos, para dar aos nos-








sos leitores uma idea just das vantagens que oferece a criagio da
Provincia, reproduzir alguns documents que existed no Senado a
este respeito. O projeto, de que ha pouco falAmos, foi apresentado
no Senado pelo Sr. Senador Alencar em 14 de Agosto de 1839 e,
depois de requisitados ao Governo os documents a respeito, en-
viado As Comiss6es de Constituig o e Estatistica. O parecer da
primneira Comissgo, no qual estao assinados nomes que tern muito
peso, como sejam os do Visconde de S. Lepoldo, o Marques de Pa-
ranagu6 e Bernardo Pereira de Vasconcelos, 6 o seguintc:
<
tado pelo nobre Senador Alencar, no qual prop6e desmembrar da
extensa Provincia do Ceari uma outra Provincia com o titulo de
Cariri Novo, cuja capital seri a vila do Crato. Nao encontra a
Comissao disposigio alguma na Constituigio que se oponha a essay
media, mas antes no artigo 2, titulo i, 6 express a faculdade para
semelhantes subdivis6es, quando assim o pega o bem do Estado.
Ora, que ela seja convenient, sup6e-se, j6 pela razio geral de que
semelhantes distritog por mui longinquos escapam h aRcio e vigilAn-
cia do administrator, e da part dos governados mais se Ihes difi-
cultam os recursos, ja em especial por que a idea dessa subdivisgo
tem a seu favor a experiencia e os conhecimentos pr6ticos do nobre
Senador que acaba de presidir Aquela Provincia. Todavia nio tendo
a Comissao bases suficientes para por si s6 julgar da conveniencia
e proporsges da regulagio dos limits aqui tragados e assinalados,
entende que deve ser ouvida a Comissao de Estatistica, que se en-
cerra na de Coloniza io e Catequese. Pago do Senado, 19 de Agosto
de 1839. Visconde S. Lepoldo Marques de Paranagua Vas-
concelos>>.
< Estatistica, os quais sglo bastante interessantes por conterem a
exata apreciagco do estado da Comarca do Crato e das suas pro-
porg6es a ser elevada a Provincia: <<< todo o cuidado informar-se do estado e circunstAncias da Provin-
cia do Ceara e de suas limitrofes, A vista dos mapas, informao6es e
escritos existentes, e, particularmente, de uma mem6ria feita pelo
Desembargador Veloso em 1819 s8bre a criaqco dos Bispados no
Brasil, e A qual juntou mapas da populacgo de todas as comarcas
do Imphrio, fundados em outros enviados pelos ouvidores ao desem-
bargo do paso em diferentes datas. E pelo exame feito se convenceu
a Comiss~o da utilidade e necessidade da criacgo da Provincia do
Cariri Novo, e deduziu as seguintes observagoes:
i Que a Provincia do Ceara, depois de desmembrada a parte
indicada para a nova Provincia, ainda conserve uma extensgo de
mais de 80 16guas de L. a O. e de mais de 60 de N. a S., cor a
populag5o de 150 a 160 mil habitantes, e corn pequena diferenga de


- 32 -


IRINEU PINHEIRO






0 CARIRI


- 33 -


renda, tanto .geral, por consistir na maior parte em renda das al-
fandegas da Fortaleza e Aracati, por onde continuario a passar os
gEneros de importawao e .pcr'.r~ic- da nova Provincia, como tam-
bem a provincial por que, sendo sabido nao avultar a dos lugares
remotos da capital por falta de agio do Governo, qualquer pequena
diferenca ficara compensada cor a cessa.c o da despesa provincial
nessa pa.rte desmembrada e que talvez a exigisse maior para a sus-
tentag o da ordem e tranquilidade pfblica.
2 Que a nova Provincia do Cariri Novo, criada corn as po-
voan6cs designadas no projeto, ficara limitada a uma extensao de
12o a 130 l6guas de N. a S. e de 50 a'6o de L. a 0., com uma
populag5o de 140 mil habitantrs c com renda suficiente para as
suas despesas, maiormente se a arrecadacao das rendas se estabele-
cer com os oficiais necessarios para desempenharem uma escritura-
gqo simples e aparatosa. Tendo interinamente por Capital o Crato,
fica o Governo na proximidade do centro da Provincia e mais perto
das povoac5es que se acharr na divisa das outras Provincias>.
desenvolvimento que deve ter tido desde 1839 os distritos destiha-
dos A criacgo da nova Provincia. Se naquela 6poca o Senado julga-
va essa criag5o util e necessiria, atualmente as vantagens h5o de
achar-se na proporglo do crescimento da populac5o, de renda e de
industria, que se observa naqueles lugares. Para um primeiro artigo
basta. Em seguida examinaremos as vantagens administrativas que
o Governo colheri, levando a efeito a subdivisAo projetada e aprova-
da no Senado em primeira discussion. (Ext. do DiArio do Rio dc
Janeiro) .
Deveria compor-se a Provincia < e da de Sgo Joio do Principe, no CearA, do municipio de Pambu,
na Baia, das comarcas da Boa Vista e Paje(, cm Pernambuco, do
term de Jaic6s, no Piaui, e finalmente do municipio de Sousa, na
Paraiba>.
Para a formago da nova unidade national, argumentava-se
em ser do Imp&rio.
Criada a Provincia do Cariri, melhor se aplicaria <
uma populagao de mais de 350 mil almas>, mais eficiente a repres-
sao do crime em consequencia dela (justiga).>
Pregava-se que se expandiria
gio do povo>, animaria mais fdrteis terrenos que a natureza legou A agriculture e mesmo A
criag5o nas imensas campinas que cercam a grande montanha do
Araripe>.
Falava-se ainda em coloniza'cao, em reform de costumes das
regi5es sertanejas, reform mais f6cil por que delays mais pr6xima
a capital, numa






- 34 IRINEU PINHEIRO

tram aos cofres pdblicos, e num aproveitamento complete dog seus
recursos em favor do seu engrandecimento.
Combatiam-se os que se opunham A empresa, acusando-os de
sacrificar uma bela causa aos seus sentiments de < nao calam num peito nobre>.
Lembrava-se o exemplo de Sao Paulo: subdividir S. Paulo, escrevia-se, os manes dos her6is do Ipiranga
foram invocados no seio da representaeio national contra a erec-
,io da Coritiba em Provincia do Parang, como ge aqueles benem6-
ritos pertencessem menos Coritiba ou a qualquer outro ponto do
Brasil do que a Sao Paulo>.
Exclamava-se cor entusiasmo: < ses adjacentes, a sua sede natural. Contando corn uma populagio
de maig de 20o mil almas, 6 esta a comarca melhor povoada da Pro-
vincia do Ceari, e o Crato o povoado mais important dos confins
das Provincias limitrofes. Sua populacgo 6 maior de 6 mil almas,
e A pequena distAncia ficam 3 vilas, 8 povoac6es e um sem-nfmero
de arraiais. Consignando o ilustre Senador (Alencar) a idea de que
o Crato f6sse a sede da nova Provincia, teve em mente por sem dii-
vida estas conveniencias, a que cumpre tender, e se mostrou pri-
tico e conhecedor das localidades e suas proporq6es. O ponto central
nio foi mesmo despresado para assento do Governo.
Tudo nAo passou de um sonho que a nossa nonchalance impe-
diu se cristalizasse em realidade.
Mas as boas ideas marcham. HA os que enxergam desvanta-
gens e perigos na atual divis~lo territorial do Brasil e advogam,
veementemente, uma outra, de modo a evitar-se sejam muito des-
proporcionadas as areas dog Estados components de nossa federa-
gio.
Na , n. 3, de Julho de 194o,
Joio Segadas Viana, distinto official de nosso Exercito, apresentou
um piano de division territorial do Brasil, em que figure o Estado
do Araripe com a superficie de 96.'560 quil8metros quadrados e a
populaqio de 750 mil habitantes. Teria por capital o Crato. Em
1949, na <, modificou M. A.
Teixeira de Freitas, Presidente da ca>, o projeto de Segadas Viana.
O Ceard, Rio Grande do Norte e Paraiba formariam o Estado
do Nordeste, cuja capital seria o Ic6,
-J






INVENTARIOS DO CARTORIO DE 6RFAOS, NO CRATO.
NEM L,UXO, NEM CONFORTO, ANTIGAMENTE, NO CA-
RIRL. INFIMOS, ALf, OS PRECOS DE. TUDO, HA' UM SI-
CULO, OU MAIS. ESCASSRS DE BACHARiIS. CULTIVO

DA LINGUA LATINA






Quern folhear, como eu folhrei, no cart6rio de 6rfios, ausen-
tes e interditos do Crato, autos de invent6rios de hi cem anos atris,
ou mais, concluiri que, no Cariri, naqueles longinquos tempos, nada
havia de luxo, ou mesmo de confSrto.
Baixissimo o valor de terras, casas, mobilias, engenhos-de-pau
de moer canas de acfcar, aviamentos de casas-de-farinha, gados,
metais como ouro, prata, cobre, ferro, etc. Nada escapava A meticulo-
sidade dos inventariantes que, talvez, assim fossem minuciosos corn
o fim de evitarem desconfiancas e desgostos cntre os intercssados.
Arrolavam objetos mais insignificantes .como, por exemplo,
enxadas e machados velhos a razao de 300 e 400 reis, chapeus de
couro por 640 r6is ou duas patacas, toscos bancos de pau, mesa de
cedro corn gaveta e sem elas por 4 mil ris, camisas de home c
ceroulas por 3co e 60o reis, respectivamente, cada uma, cangalhas
desaparelhadas e estragadas.
No primeiro quarter do seculo passado, num esp6lio, incluiram
um <81ho de enxada>> por 160 r6is.
Entre essas cousas humildes realgava, as vezes, uma j6 a de
ouro e de.prata, nunca de brilhantes, um vestido de seda, uma
casaca de pano fino azul, etc.
Eram, regra geral, leigos as juizes de 6rfos, que sc reve a.van
de quando em quando. Citem-se, aqui, alguns casos em que, por
exceqao, funcionaram bachareis.
Em 1828, ordenou se inventariassem os bens de Malaquias Pe-
reira de.Andrade o Ouvidor e Corregedor da Comarca do Crato,
Dr. Manuel Pedro de Moraiz Meyer, o equal, em 1824, participara,
na qualidade de relator, da Comissgo Militar, chefiada por Conra-
do Jac6 de Niemeyer.
Em 1831, em Maio, presidiu ao inventirio de Bento de Oliveirn
Rocha o Dr. Martiniano da Rocha Bastos, Ouvidor Geral e Cor-
regedor Provedor da Comarca do Crato, mas em Novembro do
mesmo ano figure no referido document o nome de Francisco Car-
doso de Matos, substitute interino de Rocha Bastos.
Como se sabe, foi @ste deposto pela Cgmara do Crato, faccio-






IRINEU PINHEIRO


samente, no dia 6 de Junho de 31, sob a alegagio de ser infenso ao
movimento de 7 de Abril, no Rio. Mas, licito. afirmar-se, o motive
foi local, resultante de ter o Ouvidor dado sentenga favoravel, um
ano atr6s, ao Coronel Joaquim Pinto Madeira, numa devassa
contra Ele movida por seus inimigos do Crato.
Colaborou nessa deposicao Cardoso de Matos, que era liberal,
patriot ardente, embora portugues, um dos implicados na revolu-
c5o de 1817, preso no Recife durante tras anos. Nas eras de 50 e 60,
actuaram no Crato, como juizes de 6rfaos, por pouco tempo cada
qual, os bachareis Jos6 Fernandes Vieira, Benjamim Pinto No-
gueira e Manuel Coelho Bastos do Nascimento.
Em alguns inventArios verifica-se a quanto montavam as custas
e as despesas de enterro e funeral.
Em 1812, numa conta apresentada pelo vigario Miguel Carlos
da Silva Saldanha 18-se que a este, num servico fdnebre solene,
constant de acompanhamento do corpo do defunto, canticos, missa
couberam II.200 reis, aos outros Padres que o auxiliaram, impor-
tAncias desde 960 a 4.500 r6is, segundo a assistancia de cada um
acs atos das cerem8nias religiosas.
Era de 640 reis (duas patacas) a esp6rtula de uma missa de
corpo present, e de 4,480 r6is (catorze patacas) a de um oitavArio
de missas.
Foi a pataca quantin muito usada entire nossos antepassados.
Em um invent6rio de 1848, ganhou o Juiz 6 mil rdis, o escrivao
9.320', o curador 1.6oo r is, oz avaliadores 1.2oo r6is, o contador
600 reis.
Mas ninguem se admire dresses algarismos. Tudo era baratissi-
mo, naquela 6poca.
Num inventario de 1809, estimaram-se vacas em 5 mil reis uma,
em outro de 1840 deram-se a vacas solteiras e paridas, na devida
ordem, precos de 8 10o mil r6is.
Sgo, ainda, elevadas essas cifras se ag compararmos cor as do
inventario de Joao Gonqalves Diniz, em 1751, no qual inventArio
avaliaram-se vacas parideiras, A razAo de mil e seiscentos r6is uma.
Nesse document deram a
o valor de quinze mil r6is, e a < o de
dois mil r&is.
Compravam-se por 50 reis bragas (2 mts. 20 cent.) de ter-
renos, as quais, hoje, sho vendidas por 2 a 3 mil cruzeiros.
Valia a oitava (pouco menos de 4 grs.) de ouro I.200 reis a
3 mil reis, a de prata 1oo r6is.
S6 era caro o escravo, cujo pre'o atingia centenas de mil reis.
Dos inventarios, que li, deduz-se que, no Cariri, nunca houve
grandes proprietarios de cativos.
Era pobre, econ6micamente, a regiro, long do litoral, sem


- 36 -






6 CARI1 37 -

estradas que facilitassem a exportagio dos produtos que poderiam,
proporcionar suas fertilissimas terras. Incultos enormes tractos
destas que s6 comegaram a ser trabalhadas, a datar de 1889, em
virtude da migraBo religiosa de milhares de nordestinos para Jua-
zeiro do Padre Cicero, e dai7para toda a zona sul cearense.
Mui reduzida a colheita agricola, bastante apenas para o con-
sumo regional.
Nos esp6lios, As vezes, arrolavam-se cargas de cem rapaduras
(cada uma pesava e pesa ainda cErca de um quilo) por 2 e 4 mil
reis.
Quanto aos cereals, lembra-me que num inventario de 1814,
de Jogo Machado Jorge, calcularam uma quarta de arroz (80 litros)
em 400 reis.
Entre os bens deixados por heranga, frequentemente, enge-
nhos ha de moer canas, na importancia de trinta e tantos mil r~is,
taxos de cobre, outros utensilios indispensiveis A fabricaoio de ra-
paduras, etc.
Muito antiga a lavra de cana de aqucar no vale caririense,
contemporaneo, pode dizer-se, de seu descobrimento.
Em 8 de Setembro de 1738 concede o Capitio-m6r Domingos
Simres Jardim a Francisco Pinto da Cruz registo de uma data de
terras, por Ele compradas no riacho dos Porcos, Canas e mais Lavouras>.
Como se vy, antes daquela 6poca se levara para o Cairi e se
explorava a excelente graminea que, no decorrer dos tempos, era
fadada a ser um dos primordiais fatores de progress no sul cea-
rense.
Em 1867, ja se plantava no Crato o cafeeiro, cor fins comer-
ciais.
No inventario de Jos6 da Costa Siebra, naquele ano, ve-se
que no sitio Bocaina, ao sop6 da serra do Araripe, perto da cidade
do Crato, alum de fruteiras e cinco tarefas de socas de canas havia
mil e tantos pes de cafe.
Em certos inventirios documents hi de dividas em favor de
negociantes, documents demonstrativos de que, no s6culo transac-
to, os juros eram, comumente, de 2% ao mes.
Em 1867, por morte de Joaquim Correia Lima de Macedo, in-
ventariaram livros que dao uma ideia do gosto litergrio daquela
epoca: Misterios de Paris, A Moreninha, a Biblia, obras de Ovidio,
Corndlio, Tito Livio, Quintiliano, Cicero, Anais de Tacito, Gil Braz,
Bocage, Telemaco, Hist6ria de Nap lego, Tratado de Medicina
Legal (Orfila), Dicionirio de Morai.: em dois tomos, volumes de
Direito, etc.
Na pequena livraria desse Joaquim de Macedo dominavam,
como se ve, os classicos latinos.









De primeiro, entire n6s, cultivava-se o latim com mais amor
do que agora. Professores p-blicos e particulars havia que cram
bons latinistas.
Entre outros, no Crato e Jardim, citem-se os nomeg do Reve-
rendo Jo.o Marrocos Teles e de JoaQluim Teot6nio Sobreira, pa-
drasto do Padre Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa, de trafega
mem6ria.
Hoje em dia, muitos que frequentam nossas escolas superiores
sao incapazes de declinar, corretamente, hora, horae, ou conjugar
o verbo sum, es, fui, esse.
Refugiou-se, quase exclusivamente, nos Seminirios a lingua do
Licio, a qual originou a nossa, qu e 6 inculta e bela flor>, na ex-
pressfo do poeta.
Outros ensinamentos nos ministry o estudo dos inventarios, no
Crato, qual seja, por exemplo, o de.que, algumas decadas atras,
eram poucon os bachar6is, os quais preferiam arranhar o litoral,
A maneira de carangueijos, como diria Frei Vicente do Salvador, a
penetrar og sert5es asperos e distantes.
Por isso exerciam-lhes as fungSes, quase sempre, leigos, sem a
desejAvel competencia. Por muitos anos, foram as Faculdades de
Direito do Recife e Sio Paulo as fnicas de nossa pAtria.
No Cearg, na segunda administration do Senador Alencar, na
era de 40 foram < Brigido, os que se botaram ao Presidente corn ffria inaudita, atiran-
do contra Ele as tropas chefiadas por um carangueijo, o Major Torres,
soldado pouco valente sim, mas afeito a bernardas.
Chamavam, no Imp6rio, saquaremas ou carangueijos, aos con-
servadores, e carrapatos ou chimangos aos liberals.
Deu-se o fato a que acabo de referir-me, citado por Joao Brigi-
do, em tempo de eleig5es, e os que, com impeto, investiram contra
Alencar e seu govErno, de certo antes queriam cargos pfiblicos ou
mandates politicos, em Fortaleza ou na COrte, que os graves en-
cargos da magistratura, no interior da Provincia.
Sao documents aridos de ler-se os inventarios, mas de seu
manuseio atento muito se podera concluir de ~til ao estudo da vida
das passadas geragqes sob diversos de seus prismas.


- 38 -


M~NEVf PRIHEI&O~C






PAMILIAS CARIRIENSES INVERNAM NAS SUAS FAZEN-
DAS DE CRIAR NO CEARA' E PERNAMBUCO. COMPRAS DE
GADO NO PIAUf. O VAQUEIRO, ALFAIATE DE COURO. 0
ABANDON DOS NOSSOS REBANHOS. UMA LEI DE i860.
O MARQUES DE LAVRADIO E A NOSSA PECUARIA. SO-
BRIEDADE DO NOSSO SERTANEJO QUE DESCONHECE AS
MAIS ELEMENTARES REGRAS DE HIGIENE. SUA IMPER-
FEITA ALIMENTAQAO. ESPfRITO DE PATRIARCADO NO
NORDESTE







Algumas families caririenses costumam passar, no inverno,
uns dois ou tres neses nas suas fazendas de criar no Ceara e Per-
nambuco.
Durante essas apreciadas ferias anuais, alum de refocilarem-se,
fiscalizam os fazendeiros seu gado, fazem ou remontam seus cerca-
dos, etc.
Muito simples a vida que se leva nessas estag5es, a qual se pode
resumir em tomarem todos, de manhazinha, seu leite cru na portei-
ra do curral, em assistirem mais tarde a s8lta das vacas paridas, em
se banharem nos aqudes, nos pocos dos riachos, em cujas aguas,
tremulamente, se refletem as Arvores e as nuvens do ceu, em pales-
trarem nos alpendres, onde se armam redes, em caqarem. em joga-
rem a sueca, a bisca, etc.
Antigamente quebrava, as vezes, a monotonia didria um acon-
tecimento extraordingrio: a vinda a fazenda de pontas de gado,
compradas no Piaui, compostas de novilhotes e de bois de ano, que
eram soltos nos campos para reformarem e serem vendidos nos
mercados vizinhos por pregos compensadores. (12)
Em seus neg6cios de gado vacum e cavalar, os caririenses per-
lustraram uma boa parte dos nossos sert5es.
Assisti, uma vez, A tardinha, na fazenda Ponta da Serra, no
municipio de Aurora, a chegada de uma partida de bois adquiridos
muito no interior piauiense por ordem de Jos6 Sampaio Cardoso,
filho de um grande criador, o coronel Quinco Cardoso.

(12) Boi de ano: boi de tries anos de nascido. Reformar: crescer,
engordando.







- 40 IRINEU PIN HEIRO


Passou o gado a noite no curral. No dia seguinte, bem cedinho,
comegaram cs vaqueiros vestidos em suas perneiras de couro a lagar
os bois, a chega-los aos moiroes, a meter-lhes os dedos fortemente
nag narinas para melhor dom-los, a arregagar.lhes a cauda, a bene-
ficia-los (13) em fim com as suas compridas e afiadas facas de ponta.
Alguns dos bois berravam dolorosamente, os olhos retorcidos,
o focinho fimido, a lingua a pender larga e Aspera da boca bem
aberta, por entire os beigos.
Soltaram-nos depois no mato para a engorda e a venda nas lo-
calidades pr6ximas. Naquele inverno o sertgo todo, taboleiros e
morros, se cobrira, interminAvelmente, de verdura, de tal arte que
nos fazia recorder a frase entusiastica do Padre N6brega, numa de
suas cartas de 1549, s6bre as terras do Brasil: < tes grandes jardins e pomares, que nao me lembra ter visto pano de
raz tao belo>>.


Nas folgas de seu.oficio, entire a pega de um boi e a cura de uma
bicheira, vaqueiros hi que fazem os seus couros uniformme,
cosendo A m6quins as virias peas de que Estes se comp6em: as
duas abas da frente dos gib5es, a parte trazeira ou o lombo, os
punhos, o colarinho, as duas porq5es constantes de cada perneira
corn seus guarda-esporas e suas pestanas que cobrem o p6, etc.
Pedagos de sola recortados, desde os ombros at o tergo supe-
rior do bra'o, as ombreiras, reforgam as mangas dos gib5es, outros
pedagos, a parte deanteira ou de detrbs logo abaixo do colarinho.
Tudo preso por costuras de linha e de pcquenas correias en-
fiadas a maneira de alinhavo.
Nos gibes desenham-se ss que os enfeitam no peito e nas costas.
Quanto As perneiras, sAo roladas, de bocas largas semelhantes
is de calgas, ou puxas, tao estreitas que o vaqueiro precia- de um
auxiliar que as tire, puxando-as. Dai seu nome.
A Esses rudes alfaiates de couro, ajudam-nos, nio raro, as mu-
Iheres, sentadas ao seu lado, no intervalo dos trabalhos caseiros.
Na primeira metade do s6culo XIX, segundo Rugendas, usa-
vam-se vestes de couro nas nossas Provincias centrais.
< queiros, feita de couro, que os envolve dos p6s A cabega. E' o que
se pode ver nos vastos campos de Goiaz e de Minas>>.
Por terms falado em bicheiras, expliquemos que estas, nos
sert5es, se tratam cor o sarro do cachimbo (dep6sito formado no
canudo deste), corn a creolina, ou se curam no rasto...
Como fazer-se a cura no rasto? Agarram tres seixos quaisquer

(13) Beneficiar: castrar.


19INEU PINVHEIPO


'- 40 -







0 CARIRI 41 -


do taboleiro, colocam-nos em tr&s pegadas da r8s doente, deixando-
os depois nos seus lugares respectivos.
Ou, entao, varrem tres rastos do animal enfermo com um
molho de tr8s raminhos verdes, encruzando-os, em seguida, no
rasto median.
Ha, ainda, um outro process. Fazem cor o dedo indicador em
tres rastos sinos (signos) de Salom5o, tiram da superficie de cada
rasto com a mao, cuidadosamente, toda a terra, deitam-na em
folhas verdes, que sao postas nas parties raspadas.
Assim e infalivel a queda dos bichos e a cicatrizagio da ferida,
garantem.
Frizemos, aqui, que sempre se criou, empiricamente, no Cariri
e no Ceara.
Nunca nossa legislaqgo protegeu de modo eficaz a pecuaria,
procurando melhori-la e expandi-la.
E' verdade que em 29 de Agosto de I86o o Presidente do Ceard,
dr. Ant8nio Marcelino Nunes Gongalves, sancionou uma lei, decre-
tada pela Assembleia Legislativa, a qual lei o autorizava a fundar
uma fazenda-modelo, cujo escopo seria introduzir na Provincia
boas ragas de animals, dar ligSes priticas de veterinfria, ensinar
o fabric de manteiga e de queijos, o prepare de Hls, o modo de se
guardar o feno, sem o perigo de deteriorag5es, etc.
Mas tudo ficou na esfera das excelentes inteng6es.
Inda hoje, no interior nordestino, poderia aproveitar ao ser-
tanejo a observAncia de medidas que, em 1779, decretou o Mar-
ques de Lavradio, Vice-rei do Brasil, relativamente. nossa
pecuiria.
Tal tern sido ate agora nosso descaso que, pode dizer-se, cria-
Se gado nesse long tracto de territ6rio national, que e o nordeste
de nossa Patria, quase A lei da natureza.
<**

Neste capitulo vem a palo dizer que o vaqueiro, como o traba-
lhador de enxada, 6 duro e s6brio.
Passam alguns deles dias inteiros sem comer, entregues as suas
frduas tarefas. Caminham 16guas sem descangar, a calcar as vere-
das pedregosas do nosso interior cor as patas do seu cavalo, ou
cor as s61idas alpercatas de couro, as de rabicho, ou as de agoite.
Vive o home do sertio sem assistincia medica, inciente dos
rudimentos de higiene, mas relativamente forte, gragas, em parte,
so sol dos tr6picos, o grande Saneador.
Se me nao engano, o Dr. Renato Kelh, m6dico, num seu livro
disse ter observado no norte da Europa les5es 6sseas que a nossa
intense luz solar, rica de raios ultra-violetas, nao permitirg se vejam
nunca no Brasil.


0 CARIKI


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-~~~~ ~ ~ 42-I_ NUPNER


Notemos, ainda, um detalhe que parece digno de atencgo: no
nosso interior veem-se, mui frequentemente, maus dentes, oriundos,
de certo, da imperfeita alimentagio do sertanejo.
Como sabemos, constitute a base alimenticia deste farinha de
mandioca, rapadura, milho, feijio de corda.
Quase nao usam leite (cor exceg&o dos vaqueiros, na 6poca
dos invernos), gorduras e frutas.
Entre os nossos matutcs o vocabulo fruta 6 sin6nimo de rari-
dade.
Ouvem-se frases como esta: <>.
Na sua mesa nem sempre ha o arroz, a came.
Do regime alimentar adotado no nosso hinterland, regime,
como se viu, pobre de vitamins e de c6lcio, resultam, em parte, as
doengas dentArias da nossa gente.
Ngo esquegamos que abusam da rapadura. E o < to de carbon por excelEncia, ter sido responsabilizado pelo apa-
recimento das caries dentirias>.
Mas estas, 6 claro, nio sHo um apandgio do sertanejo. Vemo-
las em todo o Pals.
No period colonial j6 elas chamavam a atengio dos contem-
poraneos.
Le-se em <: teve grande atragio pela mulher portuguesa. Os cronistas holande-
ses consideram tanto os homes portugueses como as mulheres de
conformagio fisica horrorosa pela mi nutrigio. Os homes more-
nos e secos em demasia. As mulheres pouco ageis e perdendo cedo os
dentes>.
Certo 6 que Gilberto Freyre em > assevera
justamente o contrArio: poucos os flamengos que se engrasaram de pernambucanas, e de
tal modo a se fazerem cat61icos para casar cor elas>.


No nordeste brasileiro domina um certo espirito de patriarca-
do, que 6 inexistente nos meios rurais do sul do Pais.
A' tardinha, no patio da casa grande reunem-se vaqueiros e
moradores que conversam s6bre bois, cavalos e miungas (14), a
respeito de suas rocas de milho, feijio de arranca: e de corda, de
suas plantag5es de mandioca, as completes, ou as de pds-de-capitao,
assim chamados os pes restantes de rogados anteriormente colhidos.
De certo tempo para c& apelidam-se tamb6m mancos asses p6s-de-
capitao.

(14) Miungas: miuga. Criaggo de miugas: criago de cabras e de
ovelhas.


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IRINEU PINHEIRO








Aludem As pragas agricolas, das quais a mais temida 6 a da
lagarta, que chamam mofina. Nao raro falam de cagadas de tatis
verdadeiros, ou de pebas, acuados, no escuro da noite, por cdes
amestrados, e puxados de seus buracos a claridade de pequenas fo-
gueiras improvisadas nos taboleiros escampos, no fechado das
caatingas, ou entAo relembram epis6dios de veados que cairam nas
ciladas das esperas, giraus que se constroem entire os ramos de ar-
vores pr6ximas dos inhards, dos paus-marfins, etc., de cujos frutos
se alimentam esses graciosos e ariscos ruminantes.
A tudo afrontam os cagadores no cerrado das matas: os espi-
nhos recurvos dos lambe-beigos e das unhas-de-gato, as juremas
erigadas de acileos, pontas de pau agudas como punhais, o espinho-
de-judeu, capaz de romper giboes de vaqueiro, o chocalhar sinistro
dos maracas das cascav6is, etc.
Enfrentam os perigos materials e, tamb6m, os de ordem so-
brenatural. De permeio cor nsses incidentes venat6rios, contam
casos em que os cachorros, que os acompanham nas cagadas, se
Ihes metem, de repente, por entire as pernas, a ganirem de terror,
ameagados por series invisiveis, em que bichos desconhecidos apare-
cem nas veredas, p6s de vento se levantam corn um tremendo baru-
Iho, sem que, ao menos, trema uma folha no mato, em que vozes,
gemidos, suspiros se ouvem a direita ou a esquerda do cagador,
atrAs dele ou na sua frente.
De quando em quando, traspassa um calefrio de emogao os
cora's5es dos circunstantes que, de ouvidos alertas, pregam os olhos
arregalados no maravilhoso narrador.
Creem nossos matutos na transformagao de homes empamba-
dos (muito palidos) em lobis-homens, que andam pelas estradas na
noite de quinta para a de sexta feira, no caipora, entidade amerin-
dea, que gosta de funmar, esconde ou mostra a caga.
Ha quem afirme haver pactos de cagadores corn caiporas.
Devemog dizer que essas crendices tendem a desaparecer no
Cariri, cujos campos, A proporgio que se enchem de gente, se des-
povoam de misterios.
Arrosta os perigos, serenamente, o sertanejo por que 6, sobretu-
do, um fatalista.
, dizem eles.


No nordeste o patriarcado rural, acima nomeado, requinta-se,
atingindo uma verdadeira intimidade entire o amo e seu vaqueiro,
ou seu trabalhador de enxada, que conversam familiarmente, sen-
tados lado a lado, come na mesma mesa, etc.
Isso de comerem juntos patr6es e trabalhadores, 6 um habito
notado no Brasil por JoAo Mauricio Rugendas, ha cerca de um


0 CARIM


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seculo: feita em separado, mas onde 6les sgo menos numerosos, e principal-
mente nas plantag6es longinquas do Pais, os senhores come A
mesma mesa que os escravos>.
Conheci uma familiar que, ao invernar em uma das suas pro-
priedades no municipio de Aurora, escutava, todas as noites, cer-
cada dos seus moradores, hist6rias, em que figuravam os mais di-
versos animals, contadas por um dos seus agregados, o velho Anto-
nio, que costumava sentar-se no batente do alpehdre, encostado a
uma das forquilhas de 6mago de aroeira.
Era seu Antonio um sujeito que repetia com algum engenho e
chiste esses contos que, hA dezenas de anos, percorrem o hinterland
do setentriao brasileiro, sempre ouvidos num sil8ncio atento, A luz
do luar, ou ao clarao de fogos acesos no terneiro das casas sertanejas.
Lembro-me que uma dessas narrativas era a da madrasta que
sepultou vivas duas enteadas suas num lugar onde, depois, cresceu
bonito e verde capinzal.
Um dia, um trabalhador, a mando do pai das criangas assassi-
nadas, foi all cortar alguns feixes de capim.
Ao primeiro golpe da foice, ouviu ele elevar-se da plantagao um
canto dulcissimo, numa solfa melanc61ica, que dizia assim:
Capineiro de meu pai,
Nbo me cortes meus cabelos
Que minha mae penteou,
Minha madrasta enterrou.
Correu o home a inteirar o amo do caso extraordinirio.
Vieram os dois ao local, cavaram-no e desenterraram asqueri-
das mortas, que ressurgiram.
Foi punida, como 6 natural, a malvada que tentara mati-las.
Acha o Professor Nina Rodrigues que 6sse conto da madrasta,
que todos n6s ouvimos em meninos, muitas vezes corn os olhos ma-
rejados de lagrimas, considerado de origem ariana por Celso de
Magalhfes e Silvio Romero, < menos nas suas ideias fundamentals da transformagio em plant
que fala e denuncia o crime, e na ressurreigao da vitima>.


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WINEU PINHEiRO






MAIS PROPRIO O CARIRI PARA A AGRICULTURE DO

QUE PARA A PECUTARIA. CHOQUES ENTIRE SEUS LAVRA-

DORES E CRIADORES. 0 GADO CAPRINO E A LAVOURA. A

MANDIOCA. UMA LEI MUNICIPAL DE 1860. A FARINHA

DE MANDIOCA, O PAO DE MILHOES DE BRASILEIROS. A

CULTURAL DO ABACAXf NO CARIRi.







A fertilidade do solo do Cariri e suas aguas perenes o fadaram
a agriculture.
Mas foram criadores os que primeiro o colonizaram. Seu des-
cobridor, Manuel Rodrigues Ariosa, h6 mais de duzentos anos,
pediu ali tres 16guas de terra's capazes de criar gado, etc.>.
Fundaram-se fazendas de gado vacum que, rapidamente, pro-
grediram.
Veio, depois, a agriculture. Como era natural, entire lavradores
e criadores surgiram choques, que se amiudavam a proporgao que
Se alargava a zona cultivada dos pds-de-serra e brejos.
Sempre os governor municipals ampararam, embora timida-
mente a principio, os que amanhavam a terra, por mais contribui-
rem para a riqueza desta.
No Crato, hi uns cem anos, dividiu-se o municipio em duas
parties: a da criacao e a da agriculture.
Mas nunca se cumpriram com o precise rigor as posturas ca-
mardrias, por serem os criadores pessoas abastadas, protegidas pelos
interesses da political local.
Em 1855, classificou o seman6rio >, em seu nfime-
ro 29; de os gados do campo, afirmando terem 6stes pre-
judicado, naquele ano, reis>.
S6 de mandioca, disse, destruiram 261 mil covas.
Apelaram para os legisladores provincials a fim de proibirem
criaggo de animals nas faldas araripanas.
Corn o decorrer dos tempos, em virtude dos constantes protes-
tos dos prejudicados, apoiados pela opinigo pdblica, se foi, aos
poucos, limitando a criagco no campo, a s8lta. Hoje crin-se em
mangas, exclusivamente.
Os donos-de-sitio, em geral, possuem, fora do Cairi, fazendas







IRINEU PINHEIRO


onde descansam e engordam os bois que move seus engenhos e os
burros que cambitam em suas moagens. (15).
De 16 trazem, ainda, vacas para abastecerem de leite as cidades
caririenses do Crato, Barbalha, Missio Velha, etc.
Alguns mandam pastorear em terrenos abertos suas vacas pa-
ridas por pessoas que Ihes impedem invadir as roas de legumes e
os canaviais. (16)
Nao se restringiram ao Cariri, 6 claro, esses conflitos entire la-
vradores e criadores, mas se estenderam pelo Brasil em fora, desde
os tempos colonials. Exemplifiquemos: Uma vez, ha quase trezen-
tos anos, o coronel Francisco Dias d'Avila, o opulento chefe da Casa
da T8rre, mandou soltar uns cavalos nas terras da Aldeia de Araca-
pd A markem do Rio de Sgo Francisco, lavradas por indios all reu-
nidos e catequizados pelo padre Martin de Nantes.
Veemcnte o protest d&sse sacerdote que, pelos desgragados>, na expresso de Ant6nio Bezerra, disse ao
potentado: petit); il vous faut si peu de drap pour v6tir, et si peu de chose
pour nourrir et vous n'etes pas content de cinquante lives de
rente?>

Em certos lugares do Cariri, em outras parties do interior hA
uma luta sem treguas entire o criador de cabras e o agricultor.
Penetra o terrivel gado caprino os roqados de cereais, de algo-
dio, destruindo em pouco tempo o labor de muitos meses. Para
cvitar o dano, seria precise que nosso matuto estivesse continua-
mente a remontar seus cercados, num esf6rgo superior as suas con-
di~5es econ8micas.
Um problema que o governo dever6 resolver em favor de quem
cultiva a terra e a faz produzir.
Registemos, aqui, por curiosidade, que nos sertSes, corn muito
gaudio dos plantadores, sao frequentes os roubos de bodes. As vezes
matam-nos no mato, esfolam-nos, abandonam .a care, conduzindo,
apenas, o couro que e vendido por bom preqo.
Seculares esses roubos de miuas (bodes, ovelhas), que a poll-.
cia nunca p6de impedir.
Em 8 de Agosto de 1838 o Presidente Manuel Felizardo de
Sousa e Melo sancionou uma lei, a qual aprovou a.seguinte postu-
ra da Camara Municipal da vila de S. Bernardo: que nesta vila vender bandas ou quartos de cabras ou de ovelhas,
sera obrigada a apresentar ao respective inspector de quarteirgo as

(15) Moagem de um sitio: reducgo de toda sua cana a rapadura ou
a aguardente.
(16) Legume: cereal.


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orelhas da ovelha ou cabra que vender, para A vista do sinal se
entrar no conhecimento se 6 do individuo que a vende>.
Como se sabe nos sert6es assinalam-se bezerros, bodes e ove-
lhas, fazendo-se-lhes nas orelhas, a faca, recortes carateristicos de
cada criador.
Quando alguem bate a porteira, isto 6, vende todo seu gado, ou
c perde em consequencia de sica, por exemplo, costumam dizer:
<

Em cina do Araripe dominam lavras de mandioca, a qual 6
plantada, tamb6m, em menor escala, em todo o vale caririense.
Em ,854, votou a Camara Municipal do Crato uma lei que
mandav < anualmente, 2.ooo covas de mandioca em ariscos sem agua de rega,
sob a multa de 2$ooo rs.>>
Obrigava, ainda, < Junho de cada ano um arrolamento de seus moradores a fim de que
o mesmo fiscal em suas correigSes pudesse observer as disposigo6e
da lei. Pela falta desse arrolamento, ou por sua inexatidgo, pagaria
o imposto de 2$0oo' rs. de multa>>.
Como se va, a Camara sob ameaFa de penalidades, orientava
os agricultores do municipio e ordenava, talvez, o primeiro recen-
ceamento neste, embora parcialmente.
Mas ao Padre Cicero Romeo Batista, o patriarca de Juazeiro,
nao a leis, se deve a intensificacgo do cultivo de nossa euforbiAcea.
Em obediEncia aos conselhos do Padre, multiplicaram seus ro-
meiros, em grandes por~5es da chapada, no Ceari e em Pernam-
buco, as rogas desse utilissimo vegetal e os aviamentos para sua
desmancha. (17)
Lembremos que se contavam, naqueles tempos, por milhares
esses romeiros, os quais constituiram a maior migragio internal, no
Brasil, determinada pelo misticismo de nossos sertanejos.
Outras se processaram, inda hoje se processam, em virtude de
fatores econ8micos, especialmente da regigo nordestina para o Ama-
zonas e S5o Paulo.
As casas-de-farinha, que se viem por toda a parte, no vale ou
no alto do chapadZo, sgo cobertas de telhas, abertas dos lados, sus-
tentadag por forquilhas de aroeira. I oportuno descrever, aqui, o a-
viamento, produtor da farinha, alimentag5o estimadissima do ser-
tanejo, ao lado da rapadura.
Compoe-se o aviamento de uma roda de 150 centimetros de
circunferencia, feita de quatro cambotas de pan d'arco, ligadas por

(17) Desmancha: redugco da mandioca a farinha.


O CARIRI


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duas fortes travessas de pau que se cruzam no centro da roda. Dai
o nome que Ihe dio de roda de cruz.
No centro dessa cruz, que 6 tamb6m, como vimos, o centro da
roda, passa um varao de ferro, 6 qual 6 montado em mancais do
mesmo metal pregados num suporte de madeira, o moirao, construido
de um tronco de bradna, de 14 palmor de comprimento, cuja metade
6 enfiada no chao, a outra metade (nao enterrada) 6 aberta no
seu meio, de cima abaixo, de modo a former duas hastes paralelas
entire si.
Nas extremidades do vario, de que se falou atrAs, prendem-se
dois veios de ferro, acionadores da roda.
Em toda a circunferEncia desta cava-se um rego em que corre
um relho de couro cru de boi, ou de tamandua.
Por interm6dio desse relho liga-se a roda a um carritel de pe-
quizeiro, o qual participa de um cilindro tamb6m de pequizeiro.
Neste cilindro, chamado bola ou caititd, encravam-se vinte e quatro
serrilhas de ago, distantes umas day's outras circa de um centimetro,
cujos dentes se destinam a tritura'go da preciosa raiz. Prende-se a
um banco de madeira o caititd, em baixo do qual se acha um coxo
de cedro, de sete palmos de comprimento, de quatro de largura e
de dois de altura, cuja funqgo 6 receber a plant reduzida a massa.
Acima da bola, em sua frente, o suspiro, formado por dois pe-
quenos pedagos de cedro que evitam seja projetada para fora a
mandioca violentamente ralada pelo caititd em movimento.
], a massa depois lavada em uma r6de, um metro de algodiozi-
nho ralo armado em dois toros de pau por meio de bocados de cor-
da de caroA.
Botam os desmanchadores duas cuias de massa e uma d'agua
nessa rede, levam-nas A prensa composta de um coxo de pequizei-
ro, de um fuso de banha-de-galinha, de uma porca de pau-d'arco,
de um pranchio da mesma madeira cor um buraco central em que
se entaixa fuso.
Sustentam a prensa dois moir5es de aroeira, de sucupira, ou
de amarelo, de uns vinte palmos de comprimento, fincados profun-
damente no chio.
Por meio de um travessgo de pau dois ou tres homens giram
o fuso e comprimem a massa tanto quanto lhes permitem suas
f6rgas.
Para que ela, a mass, assim apertada nao saia pelas junturas
das tabuas, ou pelos orificios do coxo, forra-se este corn palhas de
Ihba',f ou de carnauba.
Do fund do vaso, atrav6s de buracos redondos que o crivam,
escorre a manipueira, que 6 venenosa.
Passam a massa prensada em uma urupema de taboca, que


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IRINEU PINHEIRO






O CARIRI 49 -

ret6m em suns malhas a crueira, excelente ragio para o gado vacum,
porcos, etc.
Torra-se a parte peneirada num forno constant de seis arcos
de alvenaria, nos quais assenta um ladrilho circular de grandes ti-
jolos de barro cozido, bem ajustados uns aos outros.
Em toda a circunferencia do ladrilho, que mede cerca de tres
metros e meio, se eleva uma pequena parede de um e meio palmo
de altura.
Cor um rodo dc cedro encastoado numa vara de taboca de uns
cinco metros de comprimento, espalha o forneiro, cuidadosamente,
a massa a fim de que se process igual a torrefag0o.
0 rude maquinismo 6 movido por bracos de homes, og dois
puxadores de roda, nus da cintura para cima, as calgas arregagadas
at6 os joelhos, reluzentes de suor que Ihes corre por todo o corpo, da
cabega aos p6g.
Assim, de modo rudimentary, 6 que se ter feito farinha no Ca-
riri, secularmente.
Em I860 decretou a Assembleia Provincial uma lei que autori-
zou o Presidente Ant6nio Marcelino Nunes Gongalves a adquirir
mdquinas de descascar mandioca e vende-las, cor prazog de um a
tris anos, aos agricultores, tiradas as despesas de custo e transport
das mesmas.
Nio se concretizou em fato, parece, a boa intengio. Inda hoje
se fabric farinha A moda colonial.
Nos alvores de nossa nacionalidade, em 1549, dizia o Pe. Ma-
nuel da N6brega: de pau, que chamam mandioqua, da qual fazem uma farinha de
que comem, e dd tamb6m vinho, o qual misturado corn a farinha
faz um pfo que escusa o de trigo>>.
E' de Gabriel Soares em seu <:
trigo), os governadores Tom6 de Sousa, D. Duarte e Mem de Sa
n5o comiam no Brasil pao de trigo, por se nao acharem bem cor
8le, e assim fazem outras muitas pessoas>.
Inda hoje 6 a farinha desse apreciadissimo arbusto o pao de
milhies de brasileiros, especialmente no nordeste de nossa patria.
Corn a massa de mandioca puba preparam-se bolos e papas,
cor a goma beijis, tapiocas, cor a farinha para, came pisada ou
pagoca de care, pagoca de peixe, etc.
E' o para, de que usam as pessoas enfraquecidas, uma mistura
de farinha e 6gua quente, temperada cor pimenta do reino, um
dente de alho e uma pitada de sal.
Quanto A came pisada, de que muito gosta o sertanejo, fazem-
na comr care torrada e toucinho, pilados num pilgo de madeira
juntamente cor farinha, coentro e cebola atd o ponto de farofa.







- 50 IRINEU PII~HEIRO


Em certas parties do litoral cearense, um dos pratos estimados 6
a pagoca de peixe: assam o camurapim e pilam-no corn farinha de
mandioca, toucinho e. c8co ralado. Ambas as pagocas sao comidas
de origem indigena.
Como se sabe, herdaram-nos nossos selvicolas o plantio da man-
dioca. De que modo fabricavam eles a farinha?
Em sua Staden: grlos miudos; tiram-lhe depois o suco cor um aparelho feito de fo-
lhagem de palmeira, ao qual chamam tippiti, que eles esticam;
passam depois tudo numa peneira e fazem da farinha uns bolinhos
achatados. A vasilha em que secam e torram a farinha 6 de barro
cozido e ter a forma de uma grande bacia chata. Tamb6m tomam
as raizes frescas e as deitam n'agua atW apodrecerem, que 6 quando
as retiram, e p5em-nas ao fumeiro, onde secam. A essas raizes secas
chamam keinrima e conservam-se por muito tempo, e quando pre-
cisam delas, socam-nas em um pilgo de madeira, onde ficam alvas
coio a farinha de trigo. Disto fazem eles bolinhos a que chamam
byyv. Tamb6m tomam a mandioca apodrecida, antes de seca, e a
misturam corn a fresca e corn a seca, corn o que preparam e torram
uma farinha que pode conservar-se um ano, sempre boa para co-
mer-se. Esta farinha chamam V. Y. than>.
Em notas explica Teodoro Sampaio: < carima, ainda hoje conhecido e empregado pelo vulgo para desig-
nar a massa da mandioca puba. Byyv 6 do tupi mbeyd, que vale
dizer o enroscado, o enrolado. Hoje vulgarmente beiji. V. Y. than,
diga-se uyta, que significa farinha dura>>.
Daniel P. Kidder, que visitou o Brasil entire os anos de 1837 e
1840 escreve, num seu livro, que rado perigoso e os escravos dela encarregados usavam na comida
flores de nhambi e raiz de uruct a fim de tonificar o corasgo e o
est6mago>.
Acrescenta que, no lugar onde espremiam a mandioca, encon-
trava-se suco, corn o qual as indias, pondo-o na comida, envenenavam seus
maridos e oS escravos aos senhores>.


Em cima da serra do Araripe, ao lado da mandioca, estendem-
se grandes rogas de abacaxis, que sio vendidos nas Peiras semnanais
do Carirf, exportados para outros municipios do Ceari, para'os li-
mitrofes paraibanos.
Garantiu-me Jos6 Xavier de Oliveira, resident hi muitos anos
em Juazeiro, pessoa digna de fe, ter visto em 1875 abacaxis provin-
dos do sitio Timbatiba, pr6ximo daquela cidade. Mas, quem no sul


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IRINEU PINHEIRO







O CARIRI 51-

do Estado plantou primeiro, em maior escala, a saborosa brome-
liicea, e a espalhou pelos municipios caririenses, foi o agricultor
Ant6nio Francisco, morador no sitio S. Jos6, entire Crato e Juazei-
ro. Isso no ano de 190o, mais ou menos.
Antes dessa 6poca cultivava-se o ananaz, menos doce, mais as-
pero que o abacaxi. Por Esse motivo alguns comiam-no misturado
cor vinho e acicar.








A CANA DE Aq6CAR, CONTEMPORANEA DOS NOSSOS
PRIMEIROS COLONIZADORES. QUANDO A PLANTARAM
NO CARIRI. OS ENGENHOS DE PAU E OS DE FERRO. 0
PRIMEIRO ENGENHO D'AGUA NO CARIRi. O PRIMEIRO
MOTOR DE BENEFICIAMENTO DE CANA DE AC6CAR NO
SUL DO CEARA'. A USINA DO BURITI. A IRRIGACAO NO
CARIRL. VARIEDADES DE CANA. O MOSAICO. 0 CAMPO
DE SEMENTES DE CANA DE AQCAR DO CARIRi, EM
BARBALHA






Cultiva-se cana de ag car, secularmente, nos municipios sul
cearenses do Crato, Barbalha, Jardim, etc.
No Brasil 6 ela contemporAnea de nossos primeiros coloniza-
dores. Q
Plantaram-na em 1532 sob o governo de Martim Afonso de
Sousa, na capitania de, S. Vicente, a qual, no dizer de Frei Vicente
do Salvador em sua <, revista por Capistrano de
Abreu, era < primeira onde se fez acGcar donde se levaram plants para as ou-
tras capitanias, etc.>.
Afirma Saint-Hilaire no seu livro sabre a Provincia de S. Paulo
que Martim Atonso < de ag(fcar, que de S. Vicente se espalhou pelas outras parties do
Brasil; e ordenou a montagem do primeiro engenho de agCcar que
existiu no Imperio>.
Acrescenta, ainda, numa das notas do seu livro: afonsea, consagrei A mem6ria de Martim Afonso um belo genero
brasileiro da familiar das leguminosas, genero que se distingue pela
pluralidade dos ovArios e dos calices vesiculosos (V. minha Vo-
yage au District des Diamants, etc. I, 388). Permitir-me-io repetir
aqui as expresses de que me servi na dedicat6ria desse genero bo-
tanico: In honorem illustrissimi ducis Martim Afonso de Sousa,
qui maximo incolarum behelicio, saccharum officinale in Brasiliam
introduxit, Monumentum splendidus grati consecrant Brasiliensis.
Nao sei se atW o present moment os meus votos foram realizados>.
Segundo Francisco Freire Alemao, chegou ao Brasil a cana de
acucar antes de 1532, certamente trazida pelos navios europeus








em suas viagens de exploragSes; A semelhanqa dos malaios, toma-
vam em suas arribadas, em algumas ilhas Cangrias ou do Cabo
Verde, canas de a',6car para fazerem part de suas provis6es3. (O
Agccar, monografia do Eng. Jose C. Pedro Grande. Departamen-
to de Estatistica e Publicidade da Secretaria de Agricultura do Es-
tado de Minas Gerais, 1933).
Quanto a Pernambuco, em conformidade com a referida mono-
grafia, ela Lopes de Sousa>, irmAo de Martim Afonso, o fundador de S. Vi-
cente e Piratininga.
Numa sua carta de o1 de Agosto de 1549 escreve o Padre
N6brega a respeito de S.Salvador, na Baia: ajudam a fazer as casas e as outras cousas em que se queira empre-
g6-los; podem-se j6 contar umas cem casas e se comegam a plantar
canas de aficar e muitas outras cousas para o mister da vida, por
que a terra 6 fertil de tudo, ainda que algumas, por demasiado pin-
gues, s6 produzem a plant e nao o fruto.
Transcrevemos alguns trechos da Viagem b Terra do Bra-
sil>, de Jean de Lery, que aqui esteve em 1557, no tempo de Ville-
gagnon:
dade nesse Pais. Entretanto n6s franceses nio tinhamos nem a
gente nem as cousas necessarias para dela extrair o agdcar, como
fazem os portugueses em suas possesses. Por isso, acerca das be-
bidas dos selvagens, s6 usdvamos em infusio para fazer agua aqu-
carada ou Ihes chupavamos simplesmente o caldo.
Em 1561 era o aigcar a moeda corrente na capitania de Slo
Vicente.
Veja-se o que diz ainda o Padre N6brega ao Padre Francisco
Henriques, numa carta datada de Junho daquele ano: sou pouco escrupuloso nisto, nao tivera de ver cor o escandalo, se
alguem o tomar por mandar de c6, (o ag6car) nio s6mente para
os enfermos de 1, mas tamb6m para cornele se mercar 16 cousas
para os enfermos de ca, maiormente que a moeda, que nesta capi-
tania corre, nio 6 senio ass6quere; nele nos pagam a esmola de
El-Rei. Se isto 16 aprovarem, pode-lo-emos mandar desta capitania
de S. Vicente>.
Mas all nio progrediu a graminea que hoje 6 a riqueza de al-
guns dos nossos Estados.
Teve que ceder lugar, informa o precitado Fr. Vicente, << la-
voura do trigo, que se dd ali muito bem, e cevada e grandes vinhas,
donde se colhem muitas pipas de vinho, ao qual para durar d5o
uma fervura no fogo.
Vem de long a indfistria vinicola no Brasil, diga-se de passa-
gem.


6 CARIRf


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IRINEU PINHEIRO


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Garante o Padre Luiz da Gra, em 1533, em uma sua carta a
Santo Inacio de Loiola:
.
Nao Se vA pensar que, no com& o, havendo o trigo, havia, tam-
b6m, o pio.
E' ainda do Padre Luiz da Gra: de Portugal, ainda que em Sio Vicente se semeia e colhe muito
formoso, mas nenm all nem nas outras capitanias se trabalha pelo
semear, por que 8ste mantimento da terra, de raizes de arvores, a
que chamam mandioca, aipim, carimi, 6 suficientemente bom; e
ainda que a mandioca 6 pegonha se se bebe a sua agua, contudo
a farinha que dela se faz nao faz mal a sadde>.
Foi levada a cana para o Cariri na primeira metade do s6culo
XVIII.
Em 1738, num requerimento em que pedia a Domingos Sim6es
Jordao, capitao-m6r da Capitania do Ceard e governador de For-
taleza, a confirmaqAo de uma data de terra, disse o capitao-m6r
Francisco Pinto da Cruz ter comprado < cho dos Porcos no Cariri novo, desta Capitania, onde ter povoaggo
de gado, engenho de cana e mais lavouras>.
Daqueles tempos para ca, aumentou notAvelmente no Cariri o
S cultivo dessa preciosissima plant.
Pela Ordem de 12 de Setembro de 1758, segundo Joao Brigido,
foi dispersa a gente que se dava aos trabalhos de mineraggo em
Fortuna, Barreiros, Mangabeira, Morros Dourados e outros luga-
res do sul do Ceard.
< paragens, assegura ele, e a povoagio congregada aplicou-se A agri-
cultura e A criagAo de gados. Ficavam A pequena distancia as serras
e os brejos do Araripe, terrenos dos mais fdrteis e irrigaveis do Ceard
que continuaram a atrair povoadores; e veio o plantio da cana de-
agdcar para tornar permanent a imigranago. Foi ali que comeqou
para o Cearn a indistria agucareira,.
Em 1838, hA pouco mais de um seculo, o bot&nico Gardner, num
livro em que narra sua exploragio cientifica pelo Brasil setentrio-
nal, descreve cor minuciosa verdade o fabric de rapadura no
Crato, na engenhoca de Joio Gongalves, filho de Dona BArbara de
Alencar.
Ao lado da rapadura fazia-se, tamb6m, aguardente, que o Pa-
dre Antonio Vieira chamou ralmente todos mais que do de Europa)>.
A principio existiam apenas os engenhos de pau puxados a bois,
os quais tender a desaparecer, completamente. Conhego alguns no
municipio de Missio Velha.
Atrav6s de suas tres moendas verticais de brafna ou de Amago







6 tAkthl1


de jatoba espremem-se as rolas de cana e os seus bagagos. E inda
assim se perde uma apreciavel porcentagem do suco da graminea.
Datam os engenhos de pau em nossa PAtria do comego do s6-
culo XVII.
Em Fr. Vicente do Salvador lemos que um cl&rigo espanhol
vindo das parties do Per>> ensinou, no govErno de D. Diogo de
Meneses, um meio de fabricar-se o agfcar mais facilmente do que
os empregados naquela 6poca.
Era um engenho, diz o frade historiador, composto de triess paus
postos por alto muito justos, dos quais o do meio cor uma roda
de Agua ou com uma almanjarra de bois ou cavalos se move e faz
mover os outros. Passada a cana por Rles duas vezes, larga todo o
sumo sem ter necessidade de gangorras, nem de outra cousa mais
que cozer-se nas caldeiras, que sAo cinco em cada engenho, e leva
cada uma duas pipas mais ou menos de mel, al6m de uns tachos
grande em que se poem em ponto de agfcar, e se deita em f6rmas
de barro no tendal, donde se levam a casa de purgar, que e mui
grande>.
A esses pitorescos engenhos, que enchem de barulho o ambien-
te em uma raio de muitos metros, construidos por carpinteiros
locais, sucederam, no Cariri, os de ferro puxados tamb6m por bois
que se movimentam sob o estimulo da vara de ferrao que o tan-
gedor empunha sentado na almanjarra.
Ao que parece, os primeiros engenhos de ferro idos para o Ca-
riri forarm montados no sitio Cabo Verde, entire Crato e Juazeiro,
nos anos de 1840 ou nos de 50, pelo pernambucano Ant6nio Ferreira
de Melo, tronco da famflia Melo no sul cearense, no sitio Lameiro
ao sop6 do Araripe, no municipio do Crato, nos fins da era de 50,
pelo capitio Francisco Leio da Franca Alencar ou por seu sogro
Jose do Monte Furtado, no sitio Tupinambb, em Barbalha, por An-
t6nio Manuel Sampaio, no lugar Cajazeiras do Farias, ainda em
Barbalha, pelo coronel Joaquim da Costa Aradjo.
0 engenho de Ant6nio Ferreira de Melo ainda hoje trabalha
no sitio-Bebida Nova, no Crato, de propriedade dos herdeiros de um
outro pernambucano, Jose Ulisses Peixoto. Quem primeiro, no
Crato e no Cariri, fundou um engenho d'agua foi Vicente Amancio
de Lima, falecido em 13 de Setembro de 1857.
E' o que nos informa em seu nrimero Izo <0 Araripe>, referindo-
se A morte d8sse lavrador cratense: era, tambem, um dos mais ricos e inteligentes agricultores do Ca-
riri, onde p6de introduzir alguns melhoramentos agricolas, que tem
servido para o desenvolvimento que a agriculture vai tendo entire
n6s, sendo o primeiro que montou em seu sitio um engenho de ferro
para trabalhar com agua>.
Ao tenente coronel Amfncio, como se pode ver em seu testa-







5MNI$EU PIXHEI19O


mento, datado de 18 de Julho de 1857, arquivado no primeiro car-
t6rio do Crato, pertenceram os sitios Belmonte, onde morou o tes-
tador, Cinzeiro e Bocaina, que Ihe eram vizinhos.
Num d8stes, talvez no Belmonte, moeu canas o mais velho
engenho d'agua caririense.
Dos cinco engenhos, movimentados por f6rga hidrgulica, atual-
mente existentes no Crato, nos sitios Lameiro, Francisco Gomes,
Jac6, Bocaina e Sao Gongalo, 6 o do Lameiro o mais antigo.
Da nascente do Batateira Ihe prov6m a Agua que o move, a
qual corre em levadas e, depois, a cerca de trinta metros da casa
do engenho, em bicas de pau d'arco e canos de ferro.
Ao chegar ao engenho, a agua cai de uma altura de dois pal-
mos s6bre uma grande roda dentada, de uns seis palmos de diAme-
tro, construida de pequizeiro, corn raios de pau-d'arco e eixo de
bra6na, fazendo-a girar em tOrno de si.
Esta roda, cuja terga parte, aproximadamente, anda debaixo
do solo, se engrena cor uma outra menor, a qual, por sua vez, se
endenta con uma terceira ligada & extremidade do eixo da moenda
de ferro.
fsses engenhos d'agua, de origem lusa, eram chaynados em
Portugal engenhos copeiros. Havia os meio copeiros ou rasteiros.
Julgo que o primeiro motor de beneficiamento da cana de aqd-
car, no sul do Cearg, foi um que o coronel Ant8nio Luiz Alves Pe-
queno, o Antigo, assentou em 1875 ou 76 no seu sitio Santa Maria,
em Missio Velha.
Uma iniciativa que infelizmente nio obteve, logo, imitadores.
Em 1892- Ant6nio Ferreira de Melo, filho do pernambucano
do mesmo nome, a que aludi acima, comprou um motor acionado
a lenha para moer as canas do seu sitio Jac6, a uns cinco quil8me-
tros do Crato, o qual motor, em virtude da morte do comprador,
s6 foi montado em 1908. Venderam-no em 1930 e tantos a Janu6-
rio Borges que o estabeleceu no seu sitio S. Domingos, no munici-
pio de Sao Pedro do Cariri, para beneficiamento de cana de aqgcar.
Em 1928 um home de inegavel f6riga de vontade, Virgilio Ri-
beiro Maracaja, instalou no Crato uma usina agucareira que, de-
pois de alguns anos de vicissitudes, fracassou por sua mA organi-
zagao.
Vemo-la, hoje, no sitio Buriti a uns tres quil8metros da cidade,
deesmantelada, silenciosa, a atestar melancblicamente o sonho des-
feito do seu fundador.
Nos 6ltimos anos, de modo particular de 1930 para c6, a f8rga
animal esta sendo gradualmente substituida, nos engenhos, por mo-
tores em que se utiliza o gas pobre, a lenha, o 61eo cru.
Hoje 6 de 74 o nfmero de engenhos de rapaduras, no Crato:
29 movidos por mdquinas a vapor, 5 por agua e 40' a bois. Con-


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0 CARIRI


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tam-se 12 alambiques. Isso segundo dados fornecidos em Outubro
de 1941 por Jos6 Kleber Macedo, agent municipal de estatistica.
O cultivo da cana de agdcar, no Cariri, esti em mios de umas
tr8s centenas de proprietarios.
Os sitios dos brejos com as suas terras plans sio lavados na-
turalmente pelas aguas oriundas das nascentes da chapada. Os dos
p4s-de-serra precisam de ser molhados. (18) Na levada vinda dire,
tamente das f'onteg sopedaneas do Araripe fazem os agricultores,
aquf e all, cada qual em seu sitio, umas pequenas aberturas chama-
das sangradouros ou ladr6es, pelos quais se escba determinada quan-
tidade de Agua distribuida, a enxada, em indmeros regozinhos, pelas
terras que se desejam irrigar.
Ha nesse oficio de molhas homes habilissimos que espalham
as aguas de sorte que mais parece ter chovido no solo por eles
regado.
Essa irrigagio rotineira, no dizer de Tomaz Pompeu, satura,
As vezes, os terrenos e Sabe-se que o nosso trabalhador rural, ignorante e analfabeto,
possue, em regra, escassa noggo de responsabilidade.
Costumam, frequentemente, no eito, conversar, fazer cigarros
corn pachorra, etc.
Por isso alguns proprietarios preferem empreitar os seus ser-
vigos a mand6-los fazer per conta pr6pria, alibs, pagando por dia
ao opergrio.
Assim aprecam a limpa, a plantagn o de cans, etc., de uma ta-
refa (25 bragas quadradas), que 6 uma das mais conhecidas medi-
das agr6rias do sertanejo.
Avalia-se por certa quantia o transport diario de um ajustado
nimero de cargas de cana do corte do sitio para o p6 do engenho,
por alguns centavos cada centena de rapadura que o Mestre fabri-
car, etc. etc.
Devemos dizer que, nas moagens, os cabras dos engenhos e suas
families podem chupar canas, beber garapa, levar aos sabados para
as suas casas cabagas de mel.
Exige-se, apenas, que nio abusem desse privilegio, que 6
secular.
A prop6sito, acrescentemos que, no Cariri, havia o costume,
inda hoje observado em menor escala, de certos transeuntes ines-
crupulosos tirarem canvas dos canaviais A beira da estrada e as chu-
parem sem a menor cerem8nia, como se suas f8ssem.
Faz mais de cem anos, em suas silb, j6 notava Henry Koster: < entire a gente do povo. NBo tem escrripulo de, passando pelos ca-

(18) Molhar: irrigar artificialmente.







- 58 RINEU PINHEIM6

naviais, cortar um molho de dez ou doze canas e as chupar, ou o
levam para casa.
Mas essa praxe condendvel vem de muito mais long, segundo
se 18 numa nota de Camara Cascudo, escrita A margem do aludido
livro de Koster: estudando - os ladr5es a furtam a feixes; nem pass rapaz, ou caminhante,
que se nao queira fartar, e desenfadar a custa de quem a plantou>.
- Cultura e Opulencia do Brasil por suas drogas e minas, pigina

Ate 1894, preponderaram nos canaviais caririenses as seguintes
variedades de- cana: a crioula, origindria da India, transportada
talvez da Palestina para a Europa meridional pelos Cruzados, a
caiana, vinda de Caiena para a Provincia do Para entire os anos de
1790 e 1793, a bambi, muito grossa e vidrenta, a sangarola, que 6
uma corruptela de Salangor, a ferril, trazida de Sergipe para o
Jardim e dali para o Crato em Igoo, mais ou menos.
Naquele ano de 94 a cana caiana, a principal do Cariri, adoe-
ceu de um mal que nio foi diagnosticado.
Comegou-se a importer a cana rosa, a amarela de Java, a fita
roxa, a fita amarela, a. bourbon, certamente chegada ao Brasil em
1858, da Ilha de Bourbon, por iniciativa do governo imperial.
Foi encorporada aos canaviais do Crato em 1900 pelo agricul-
tor Jose Joaquim de Macedo, o qual, de regresso de uma viagem'
ao sul do Pais, trouxe da cidade fluminense de Campos alguns
rebolos, assim chamados pedacos de cana de uns trinta centimetros
de comprimento contend dois ou trEs n6s.
Depois destas, por adoecerem tamb6m, vieram a cabocla, a
roxa, a Semente ou Flor de Cuba, corn pelo e sem pelo.
Em 1925 ou 1926 comeqou a dizimar os canaviais um tremendo
morbo: o mosaic. Em alguns sitios as moagens se reduziram na
proporg5o de 50 por cento.
Era o soss8bro da vida econ8mica de toda a region caririense,
que foi salva pelo Campo de Sementes de Cana de Agccar do Cariri,
em Barbalha.
Em 1934 iniciou o Campo, entire os agricultores, a distribuigco
das variedades P. O. J., especialmente as de nimeros 2714 e 3878,
as que .se julgam melhor adaptadas As terras do Cariri.
As duas variedades acima provieram do cruzamento da 2364
cor a E. K. 28.
A primeira, 2714, << uma cana excelente, destinada, ao que pa-
rece, a tornar-se muito popularizada devido ao seu belo aspect,
seu grande rendimento bruto e sua grande resistEncia ao mosaico.
A segunda, 2878, ter revelado < mol6stias, um elevado teor de sacarose>.






0 CARIRI


- 59 -


E' o que regista o eng. Jos6 C. Pedro Grande em sua mono-
grafia, << Aqicar>>, citada paginas atris.
Substituidas nos municipios sul cearenses as canas doentes
pelas novas variedades, viu-se que a produqio de rapaduras exce-
deu, considerAvelmente, A da 6poca anterior ao mosaico. Nao temos
dados estatisticos que demonstrem cor rigor a porcentagem do
aumento.
Diz ainda a monografia, hi pouco aludida, que no Estado de
Minas, cujos canaviais foram atacados pelo mosaico, <
vanesa, em area igual, substituindo variedades antigas como a Cris-
talina, Barbados, Maca6 (Port Mackay), al6m de sua precocidade
e seu trato cultural. mais reduzido, quadruplicou os rendimentos>.
O Campo de Sementes, de Barbalha, que continue a prestar rele-
vantes servigos, ocupa naquela comuna caririense, no distrito de Bu-
riti, distant da sede municipal circa de quatro quil6metros, uma
area de 1.630.000 mts.2, dos quais 500.000 sao mui pr6prios para
irrigaqAo.
Alem das doze variedades javanesas P. O. J., existem no
Campo seis variedades Coimbatore oriundas das Indias Inglesas, a
Caiana o1, as maiaguesas 7 e 49, etc. Ao todo 25 variedades.
Essas sementes das P. O. J. vieram da Estaoio Experimen-
tal de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, para o Campo de Se-
mentes de Cereais e Leguminosas de Guaiuba, no Ceard. Isso por
nio haver ainda, na epoca da importago, area preparada para re-
ceb8-las no Campo de Barbalha. Transplantaram-se as sementes
daquela localidade cearense para o Cariri, em 1934.







O ALGODAO. MAQUINAS DE DESCAROCA'-LO, PUXADAS
FOR HOMES E ANIMALS. O PRIMEIRO LOCOMOVEL DE
BENEFICIA'-LO, NO CARIRi. OS PRIMEIROS MOTORS
NOS MUNICIPIOS DO CRATO E JUAZEIRO. CIPOS, CORDAS
DE CAROA' E FIOS DE ARAME. A CULTURAL ALGODOEIRA
NO NORDESTE E EM SAO PAULO







Eminentemente democratic no Cariri a cultural do algodio.
Todos, inda os mais pobres, plantam por conta pr6pria sua semen-
te de algodio branco, ou a do moc6, apanham-no e vendem sem
intermediarios nas feiras das cidades caririenses.
Semeiam o primeiro nos terrenos mais frescos, nos baixios por
exemplo, o segundo nas terras mais secas, alternando-lhe as covas
corn outras de milho e feijio, tal como no tempo de Koster, ha
mais de cem anos.
meado corn o algod5o, e brota mais abundantemente que nas terras
pr6ximas do litoral.
Sempre aumentaram os algodonis na proporgio do vulto das
exportag~es, tamb6m do valor venal do produto.
Nunca foram muito abundantes as safras no Cariri, cujo solo
6 mais propicio A cans de agdcar e aos cereais.
Divide-se em tres ciclos a hist6ria do algodio no Brasil: < meiro 6 o da que chamam revolucgo industrial (1776 a 1810), o se-
gundo o da guerra da Secessgo (1866 a 1876), o terceiro o da crise
do cafe (de 1930 para diante)>.
Em 1857 o semangrio cratense, , estimulou a plan-
tacvo do algodoeiro no Crato e nas comunas vizinhas, buscando de-
monstrar-lhe a superioridade, naquele moment, s6bre a cana de
agucar.
Em 58, em sua , escreveu o Profes-
sor Bernardino Gomes de Araijo que o precioso vegetal, legado
pelos nossos indigenas, teria sido ali tagio se f8sse cuidadosamente cultivado, mas os terrenos pr6prios
para a sua cultural se acham indevidamente ocupados corn a cria-
gao.
Em 1861 << Araripe> e o < servador, aconselharam aos agricultores cearenses, em virtude da









guerra fratricida na Amdrica do Norte, o cultivo dessa utilissima
plant, que hoje 6 uin dos mais importantes fatores da nossa balanga
commercial.
Diz o journal fortalezense:
repj;blica dos Estados Unidos chamou o povo do seu trabalho ha-
bitual para a vida agitada dos combates; nessa transigio ficou aba-
lada a sua ind(istria, paralizado o curso regular das suas mAquinas,
despresada a cultural dos seus campos, quebrados os vinculos do seu
impirio commercial e comprometida a atividade sem limits da in-
dfstria inglesa em suas importantes ramificag5es e extensio do seu
comercio. Um tal fato n5o pode deixar de produzir choque de inte-
resses mais ou menos complexes na existencia econ6mica e comer-
cial dos outros povos. O Brasil, pela f'ertilidade do seu solo, extensio
do seu territ6rio e amenidade do seu clima, apresenta 6timas pro-
porg6es para suprir 8sse perfeito de produg~o, se por ventura pudes-
se aproveitar os terrenos que se prestam a cultural do algodio e que
no entanto existem a margem, ainda n5o explorados>.
A alta do custo deste, nos anos de 60, resultante da guerra da
Secess9o na America setentrional, originou no sul do Ceara indme-
ras rogas da nossa opulenta malvAcea.
Nio s6 no Cearr mas tambr m em outras Provincias do Norte
e do Sul do Brasil.
Em Sergipe, por exemplo, a guerra civil norte-americana vcou de lavradores de algodEo as matas> de varios de seus muni-
cipios.
Industrinis e comerciantes de Aracajd improvisaram-se agri-
cultores, fecharam as portas dog estabelecimentos e abriram derri-
badas nas florestas>.
Foi a guerra da Secessio que < demand do algodio que nos Estados Unidos nio podia obter>.
A' percepgio de Luiz Agassiz, sAbio naturalista que visitou o
Brasil em 1865 e 66, nio escapou a influencia da luta civil nos Esta-
dos Unidos s8bre o aumento dos algodoais, entire n6s.
Eis o que le disse em sua , escrita de cola-
boraglo cor sua mulher, Elisabeth Agassiz: Sio Paulo, onde nunca se tinha plantado um p6 de algodoeiro, ou-
tras como Alagoas, Paraiba do Norte, Ceara, onde a cultural havia
sido abandonada, produziram quantidades tLo extraordingrias que
se estabeleceram duas linhas de vapores entire Liverpool e essas Pro-
vincias, as quais prosperaram gragas aos fretes pagos pelo algodao>.
Ponderou Agassiz haver falta de bragos no Brasil, que, ainda
por cima, nio concede < seus lavradores, nem agiu violentamente, a maneira do Vice--rei do
Egito, que mandou < envii-los As suas plantaq5es>.


- 61 -


0 CARIRI







-62 IRINEU PINHEIRO

Chegaram ambos os jornais, a que nos referimos ha pouco, <<0
Araripe> e o <, a lembrar que a exploraggo do algodoeiro
no Ceari seria preferivel A da cana de ag.car, a base da lavoura
caririense.
No primeiro d&sses dois peri6dicos, em 30 de Julho de 1864, es-
creveu Joio Brigido: colhido no plantio do algodaio no termo do Crato: a colheita pro-
mete ser pingue, e desde ji se vio experimentando as vantagens que
oferece Este ramo da indfstria agricola. Diversos lavradores vio
enchendo os seus pai6is, e o capital posto em movimento para a
compra desse produto equivale ji A metade do que nos importam
anualmente pela rapadura e pelo agdcar, ramo principal da nossa
produ o. tste aspect, que toma o com6rcio do algodio, tem por
tal modo incitado a ambigio dos nossos agricultores que no fim do
ano nio haverA uma geira de terra em pousio, todas as capoeiras
estao convertidas em rogas e todas as outras plantag5es serao aban-
donadas por essa que a situatio econ6mica converted em mais lu-
crativa, fabulosamente lucrative. Contando por milhares de bragos,
que atrai esta indistria, a safra do ano future nos parece t9o boa
que desde logo prevemos que o transport nao sera possivel corn os
meios e cor as vias de que atualmente dispomos. Querenos dizer: as
cavalgaduras, que fazem o transport dos nossos gEneros, nio bas-
.targo para levar ao mercado todo esse algodio. Elas pertencem-
pela maior parte As freguesias dos sertoes, e ai reclamam os seus
serviqos safras igualmente copiosag. O que 6 mister, portanto, para
ocorrer a uma necessidade tal do nosso com6rcio, para dar anima-
gao a esse ramo da agriculture, que para o Cariri, no estado de
ruina em que se acha, vale o mesmo que comunicar vida a um ca-
daver, pensamos n6s, 6 promover o melhoramento da estrada do
Salgado entire o Crato e o Ic6>.
Preferiu Joao Brigido, naquela 6poca, o cultivo do algodoeiro
ao da cana de afticar por achar que esta < ordinirias da comarca (Crato) nio podia melhorar as suas con-
dicoes financeiras>.
Mas a excelente graminea prevaleceu at6 hoje.
Ha uns trezentos anos, Mauricio de Nassau aconselhou, uma
vez, em Pernambuco, que aqueles < ria, ngo sio capazes de fabricar o aGfcar e, por isso, vivem na
mis6ria, bem poderiam ocupar-se corn a cultural do algodio, do in-
digo,'anil, etc.> Preconizava, inteligentemente, como se v8, a poli-
cultura.
Inda agora, no Cariri, A semelhanqa do principle holandes, seria
licito lembrar que muita gente, em lugar de cana, deveria plantar
amoreira, videira, etc.







0 CARIRI 63 -


Em toda a zona podem-se colher uvas iguais as melhores dos
paises estrangeiros.
Recordo-me de ter ouvido D. Joaquim Ferreira de Melo, Bispo
de Pelotas, no Rio Grande do Sul, afirmar em 1933, na casa de sua
familiar, no sitio Sgo Jose, entire Crato e Juazeiro, n5o saber o mo-
tivo por que se nao cobriam de vinhas os sophs da serra do Arara-
ripe. Trazia ele, certamente, na visio os panoramas dos vinhedos
gadchos, nos quais assenta um dos pilares da economic do pr6spe-
ro Estado sulino.
Nao se esqueca o valor alimentar da famosa plant, que con-
tim as vitamins A e B.
Para a expansgo de vinhais, que poderio ser rendosissimos,
precise deem os governor aos caririenses aquilo que Jo5o Brigido
pediu em 64: meios de transportes, os quais deverio ser rdpidos,
abundantes e apropriados ao acondicionamento da fruta.
Alem da condugio barata e facil, carecem os nossos lavradores
de que as administrag~es os auxiliem cor premios em dinheiro, etc.
Em neg6cios de compra e venda de algodao faliu no Crato, ha
uns oitenta anos, um dos seus mais ricos negociantes, Joaquim Lo-
pes Raimundo do Bilhar.
Muitas vezes encheu-se a rus do Fogo, em que Bilhar nego-
ciava, de carros de bois, vindos do Aracati, abarrotados de merca-
dorias por ele compradas na praga do Recife.
Costumava o velho Bilhar, A maneira de outros colegas seus
contempor~neos, receber os seus carros festivamente, ao espoucar de
foguet5es.
Viram-no, depois, perdidos todos os seus bens, a vender nas
feiras cratenses, corn imensa resignagio, copos de ponche (garapa)
de tamarindo adogados cor rapadura.
Em tempos muito remotos descarogava-se o algodao em ma-
quinismos de madeira, movimentados a bracos de homes.
Era o que se observava em outras parties do Brasil. No comeCo
do seculo XIX, Martius e Spix admiraram-se de terem sido mon-
tadas pelo proprietArio de uma fazenda em Minas Gerais quinas para cardar e fiar o algodao, como as que se conhecem em
Portugal, e que s9o acionadas por uma fnica roda, movida a mo>.
Vieram depois as bolandeiras puxadas por bois ou burros, as
quais se comp6em de umn roda de pau dentada de cerca de vinte
palmos de circunferencia, de uma outra menor de uns quatro ou
cinco palmos, cujos dentes se engrenam cor os da primeira.
A roda maior gira em t6rno de um eixo, o gigante, feito em
geral, de um toro de bradna. A menor e ligada por um vargo de
madeira, que chamam sarilho, a uma pega tambem de madeira, o
zabumba, a que se adapta uma correia de sola de mais ou menos
quatro polegadas. Esta, por sua vez, prende-se a uma polia de


- 63 -


0 CARIRI






IRINEU PINHEIRO


ferro e aciona a m6quina pr6priamente dita de beneficiary a mal-
vacea.
As bolandeiras, ha muito, extinguiram-se no Cariri. Range
ainda algumas em certos lugares do interior.
Em 1885 o negociante e capitalist Ant8nio Manuel Sampaio,
mui conhecido em Barbalha por Major Sampaio, montou all, na
rua da Umarizeira, um locom6vel de dois e meio H. P., de origem
inglesa, destinado a descarogar algodgo, o primeiro estabelecido no
Cariri, que eu saiba.
Vendeu-o 81e, anos depois, ao coronel Sabino Pires, de Misslo
Velha, o qual o revendeu ao Sr. Felipe Ribeiro Gomes que nego-
ceia all.
Ainda hoje a pequena mdquina move um engenho de ra-
paduras no referido municipio missaovelhense.
No ano de 19zI Raimundo Nonato de Sousa e Joaquim Be-
zerra de Meneses, nos seus sitios respectivos Ipueira e Salgadinho,
no Crato e em Juazeiro, instalaram og primeiros motors movidos
a lenha, aos quais sucederam muitos outros, especialmente da era
de 30 para ca.
A principio, amarravam-se os fardos de algodio comn cip6s, o
caititdi e o verdadeiro, e depois por meio de cordas de caroa. Hoje
usam-se fios de arame.
Ultimamente, em virtude de pregos mais elevados, aumentaram
de modo considerAvel ag rogas da riquissima malvacea em toda a
regigo do sul do Estado.
De primeiro, dominou no Brasil a cultural algodoeira do nor-
deste, Pertence, hoje a Sio Paulo a primazia.
Observou muito bem o Sr. Omer Mont'Alegre, no seu artigo
>, publicado no Trabalho, Indfstria e Comercio>, n. 91, Ano VIII, que a sorte da
terra nordestina 6, assim foi corn o agdcar, corn b algodEo e... cor a mandioca>.
Pergunta o Sr. Mont'Alegre: < tino a capacidade suficiente para fixar a sua produgqo?>
Podemos responder afirmativamente, sem mEdo de errar.
O que Ihe falta sgo duas cousas essenciais: o capital e a edu-
cag~o agricola.
Aldm disso aniquilam-lhe as melhores iniciativas as secas pe-
ri6dicas da sua regiao. E' inegavel a inteligencia do sertanejo, que
adotari os mais modernos m6todos de cultural da terra sob a con-
di~io de Ihe mostrarem as vantagens econ6micas dresses m6todos.
0 nosso matuto e desconfiado, como S. Tome precisa de ver para
crer.


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PLANTIO DE ARROZ, FEIJAO E MILHO. SILOS DE FERRO
ZINCADO. UMA TENTATIVE DE CULTURAL DO TRIGO, NO
CRATO. O CAFEEIRO. O FUMO, UM DOS PRAZERES DO
SERTANEJO E REME'DIO POPULAR.







No Cariri cultiva-se arroz, feijio, milho, que 6 de origem ame-
ricana, do qual fazem fubd, pio, mucunz6, pipoca, etc. Na 6poca
pre-cabralina e depois dela plantavam nossos incolas as variedades
branca e vermelha e cor elas fabricavam farinha que coziam e
comiam como as outras. (Jean de Lery).
Nao hA no nordeste brasileiro grandes plantadores como no
sul do Pals.
Quem viajar pelo nosso interior, vera & margem da estrada,
pr6ximos das casas humildes, pequenos cercados de varas de mar-
meleiro, dentro deles o feijao de corda a estender-ge pelo solo, a
enroscar-se nos p6s de milho que, erectos, em filas, lembram solda-
dos de um regimento, langas e pend6es ao ar.
Nas lag8as, nos terrenos mais baixos 6 que plantam arroz, ali-
mento das pessoas de recursos.
Ha anos atras bastavam para o consume do sul do Estado os
arrozais do vale dos Cards, no Crato, os de Santan6pole, os do ria-
cho do Rosario, em Varzea Alegre.
De algum tempo a esta parte, diminuiram as safras por causa
dos maus anos e da carestia da mio de obra.
Urge que os governor aproveitem as aguas muito abundantes
do subsolo dos Cards, para com elas irrigarem aquelas ub6rrimas
terras agricolas.
At6 o fim da segunda d6cada deste seculo, mais ou menos,
descascava-se em piles de madeira todo o arroz que usavam as
populag6es do Cariri.
Daquele tempo para ca, comegaram a importer maquinismos
que o descorticam, polindo-o, tornando-o menos pr6prio a alimen-
tagio.
Pilava arroz uma pessoa, as vezes duas, tres ou quatro, ao
mesmo tempo, corn tal habilidade que nunca se chocavam as maos
de pilgo, mui pesadas, construidas de aroeira.
Na revolufio de 1832, chefiada pelo coronel Joaquim Pinto
Madeira e o Padre Ant6nio Manuel de Sousa, os pintistas, diz-se,
matavam todos aqueles que encontravam a pilar aos tres, por que






- 66 IRINEU PINHEIRO

o bater das m9os de pilio repetia, onomatopaicamente, o nome
de Joaquim Pinto. Era uma provocaEqo que nao toleravam.
Ocasi6es hM em que, ao pilar, se diverted o sertanejo. Dois pila-
dores, por exemplo, corn as suas toscas mios de pil~o dao panca-
das regulars ao descascarem o arroz, ou a quebrarem o milho atW
reduzi-lo A mass, de repente amiudam essas pancadas para, em
seguida, as espagarem de novo. E' o que chamam cavalo manco.

Pouco se armazena dos produtos da lavoura caririense.
Nos anos de seca, como os de 1915, 32 e 42, importam-se gene-
ros, copiosamente, do Maranhio, do Para, do Rio Grande do
Sul, etc.
Em 1924, se me nao falha a mem6ria, o coronel Manuel Si-
queira Campos, um home empreendedor, de larga visio comer-
cial, usou pela primeira vez no Crato silos de ferro zincado em
que se podem guardar legumes sem o perigo de deterioragSes.
Muitos o imitaram, mas nunca se construiram esses utilissimos de-
p6sitos em quantidade bastante as precisoes da zona caririense.


Em 9 de Agosto de 1860, o Presidente do Ceard, Dr. Ant6nio
Marcelino Nunes Gongalves, sancionou uma lei votada pela As-
sembleia Legislativa Provincial, segundo a qual ficava o Presiden-
te autorizado
os cinco agricultores que apresentarem cem alqueires de trigo, co-
Ihidos de suas lavouras em um ano>, como tambr m
as sementes que forem necessarias para distribuir gratuitamente
entire os agricultores da Provincia>.
Em 1868, tentou o Padre Rolim, celebre educador sertanejo,
plantar trigo no sitio Larneiro, a uma meia l6gua do Crato. Mas
falhou a tentative de cultural dessa nobre graminea no sul cearense.
Isso faz lembrar uns trechos do relat6rio do Marques de La-
vradio, apresentado em 1779 ao seu successor, Luiz de Vasconcelos e
Sousa: Grande do Sul) podem ngo s6 dar toda a farinha de trigo necess6-
ria para a America, evitando-se por esta sorte que da Europa nos
venha um genero, que tanto li necessitam; mas provendo-se esta
lavoura, e dando-se as providencias necessgrias para os prontos
transportes dos efeitos daquele Continente, poderemos mandar ainda
para a Europa uma grande porq5o dessa mesma farinha>>.
Nada disso foi adiante. Inda hoje, nesse particular, somos vas-
salos da Argentina e dos Estados Unidos.
Segundo o Comercio n. 81, de Maio de 1941, importAmos no primeiro semes-
tre de 1939 quinhentas e vinte e quatro mil e noventa e seis tone-






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ladas de trigo em g'ro e de farinha de trigo, no valor de cento e
oitenta e dois mil quinhentos e sessenta e dois contos de r6is.
'*S*
Quanto ao cafeeiro, introduziu-o no Brasil Francisco de Melo
Palheta em 1723 segundo Tomaz Pompeu, em 1727 segundo Rio
Branco.
Trouxeram-lhe as sementes de Pernambuco para o Cariri em
1822, dali em Baturit6, que plantou em roda de sua casa alguns p6s, e desses,
em 1824, Domingos da Costa e Silva levou alguns para Aratanha>.
Essa 6 a opinigo do Senador Pompeu em seu < Provincia do Cear>>.
Em 1859 o Barto de Capanema distribuiu sementes de caf6 em
Fortaleza.
Em , escrita em 1865 e 66 por Luiz Agas-
sis e Elisabeth Agassiz, 18-se o seguinte:
cresce admiravelmente nos flancos de todas as serras, constitute aqui
(Aratanha) grande fonte de prosperidade, mas, pelo menos nos
sitios que visitamos, 6 dificil fazer-se uma idea da extensio das
plantag6es pela maneira irregular com que sHo feitas. A produgio.
6, no entanto, consideravel e o caf6 de superior qualidade>>.
Em toda a regiao caririense foi sempre reduzida a cultural dessa
famosa rubiAcea, a qual 6 plantada nas abas das serras no Crato,
Porteiras, Goianinha, Jardim, Barbalha, etc.
Em referencia ao Crato, observam-se as melhores colheitas nos
sitios Valverde, Lopes e F6brica. O cultivo 6 maior do que em Bar-
balha e Jardim e menor que em Goianinha e Porteiras.
Pode avaliar-se a safra manual caririense em varias centenas de
sacos, muito insuficientes ao consume da regiao.
No Cariri deitam as sementes maduras do cafeeiro em cantei-
ros, feitos em terrenos imidos, logo cobertos com folhas de babagi6
que os resguardam do ardor do sol, at6 que elas, as sementes, ger-
minem e nasqam.
Quando os p6s alcanqam a altura de uns 15 centimetros, sao
mudados para novos canteiros, em leiras, distantes as plants umas
das outrage cerca de io palmos a fim de melhor se desenvolverem.
Ao atingirem o tamanho de 3 ou 4 palmos, transplantam-nas
para o terreno definitive, enterrando-as at6 o ponto em que estive-
ram enterradas no segundo canteiro, conservando-se o espago de xo
palmos entire uns p6s e outros.
Sao de 3 a 6 as limpas anuais feitas a enxada.
Entre as carreiras dos cafeeiros plantam milho, feij~o de ar-
ranca, mandioca, mamona, etc. Isso at6 que o precioso vegetal
tome conta da terra, assombrando-a.
Em todas as comunas do extreme sul do Estado expandir-se-


o CARIRI









iam, considerarAvelmente, os cafezais, se os invernog se normalizas-
sem entire n6s.
Ningu6m se quer aventurar a uma plantaqio, que requer cui-
dados especiais, para ver perdidos os seus esforgos nos maus anos
que nos assaltam, quando menos esperamos.

Apreciadas e rendosas as plantagSes de fumo.
Li, n~o faz muito, que William Keif, publicou um edito contra o fumo. Esta media pro-
vocou forte reaqio e um quadro nos mostra o povo em frente da
casa do governador protestando contra tal media. E' interessante
notar que o povo protestava, num gesto de desacato, em meio a
uma grande nuvem de fumo, todos de cachimbo A boca.
Ao contrdrio de William Keif, revelou-se defensor do tabaco o
Dr. Herculano AntOnio Pereira da Cunha, que foi, no Imp6rio,
Vice-presidente da Provincia do Ceara.
Em 8 de Agosto de 1856 concede 8le, no exercicio da presi-
d8ncia, ao Dr. Marcos Jos6 Te6filo, medico, um fianga id8nea, de seis contos de r6is, para montar sua fabrica de
rap6.
Era o beneficiado corn toda esta quantia para a tesouraria, devendo paga-la em presta-
g5es anuais de um conto de r6is, a contar da data do recebimento>.
Havia, naquele tempo, no Ceara, ao que parece, uma particular
proteg~o ao rap6.
No ano seguinte, em 57, o Presidente Jogo Silveira de Sousa,
autorizado pela Assemblein Legislativa Provincial, isentou de im-
posto o fumo >.
Ngo sei se prosperou o com6rcio do Dr. Marcos Te6filo, que
pudemos considerar um dos pioneiros da indistria cearense.
0 que 6 certo 6 que, no Crato, compravam os seus negociantes
em Recife as conhecidas marcas de rap6 Lisboa e Meuron, acondi-
cionado o produto em env61ucros de chumbo a fim de se nao resse-
car. Custava cada bote de libra a quantia de um cruzeiro e alguns
centavos, em nossa moeda atual.
Vendiam-se caixas de rap6, algumas mais ou menos artisticas.
Em certos lugares, nio no Cariri que eu saiba, usavam-se caixas,
ornadas de pinturas imorais. A elas se refere o Bispo de Pernambu-
co, Dom Jooo da Purificagio Marques Perdigao, numa sua pastoral,
datada de 31 de Outubro de 1850, na qual ameaca os culpadog de
excomunhao maior.
Curioso o plantio do fumo, e, tamb6m, seu prepare. Curioso
e complicado.
Langam as sementes em algumas bragas quadradas de terras
bem estrumadas, os canteiros, os quais sio aguados, limpos & m9o,


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IRINEU PINHEIRO









cuidadosamente, durante uns quarenta dias. Passados estes, arran-
cam as plants, mudando-as para as vazantes dos rios, das lag6as,
para os terrenos apropriados dos baixios.
Enterram-nas em covas de um palmo mais ou menos de pro-
fundidade, continuam a agui-las at6 que peguem, zelam-nas, ar-
rancando A enxada todo o mato que vai nascendo, desolham-nas,
sapateiam-nas, isto 6, tiram-lhes todas as folhas que brotam em
baixo, na parte inferior do tronco.
Quebram depois as folhas maduras, levam-nas para as casas,
dobram-nas e as juntam, colocando-as em seguida no varal, ao sol,
at6 que sequem.
Depois de bem s8cas, molham-nas, destalam-nas, juntam-nas
novamente em molhos de 5 a 15 folhas e vio dobrando os molhos,
chamados tamb6m cangulas, para formarem a corda. Feita esta,
enrolam-nas num pau de cerca de seis palmos de comprimento, o
sarilho. Durante cinco dias, duas vezes dikriamente, viram a corda,
passando-a de um sarilho para outro.
Decorridos os primeiros cinco dias, acima falados, ji o fumo
bem preto, botam-no, por espago de umas quatro semanas, em
grade, isto 6, disp6em-no no sarilho envi6sadamente, para areji-lo
ber. De vinte e quatro em vinte e quatro horas 6 mudado de um
sarilho para outro..
S6 ap6s esse long process 6 que se forma o rSlo que, ainda
uma vez transcorridos dez dias, 6 virado a fim de verificarem se
esta curado.
Em plantagoes de fumo, em rogas de algodao, feij5o e milho
fincam no chgo uma vara, em cuja extremidade enfiam um chifre
de boi. Isso para defendE-las de mau olhado.
Contra Este 6 bom, tamb6m, segundo nosso sertanejo, deixar
nas rocas um p6 de mandacard, cacto comum em nosso interior.
O fumo 6 um dos prazeres do sertanejo, que ter por hibito
traga-lo, isto 6, aspirar-lhe a fumaca atra'vs do cigarro e do ca-
chimbo, expelindo-a logo pelo nariz e pela boca, A semelhanga da-
queles nossos selvicolas, citados por Lery, os quais, versam, costumam sorver a fuma'ga, soltando-a pelas ventas e l6bios,
o que lembra um turibulo>>.
Nos dias de feira no Crato, na arapuca do Mercado de Frutas,
demolido hi algum tempo, sentava-se o vendedor de fumo numa
cadeira de sola, expunha numa banca de madeira seu produto, a
apregoar-lhe a excel8ncia, a merc-lo em pequenos pedagos corta-
dos cor um cutelo de ferro, ou cor uma faquinha bem amolada,
vendia-os a regatear com o comprador.
A's vezes para mostrar a bondade de sua mercadoria fazia um
cigarro A vista dos fregueses, tirava-lhe algumas fumagadas, entre-
gava-o ao comprador que o experimentava, devolvendo-o depois ao


- 9-"


6 CARIii






IRINEt PINHEIRO


seu dono. Cenas semelhantes se veem em todas as cidades e vilas
caririenses.
Devemos notar que nossos sertanejos nao sentem nojo de certas
cousas que julgamos repugnantes.
E' comum vermos mulheres oferecer as amigas seu cachimbo,
passando-lhe primeiro o cabo nas axilas, para. limpr-lo de saliva e
impurezas que, por ventura, contenha. Isso corn o fim de evitar,
dizem, as boqueiras, que-elas classificam de encarnadas e brancas.
Fumam, geralmente, em cachimbos, dos quais o fornilho, que
denominam cabega, 6 de barro cru, o tubo, de mais ou menos um
palmo de comprimento, feito de limaozinho, tingindo de amarelo
corn anilina e agafr8a, desenhado corn listas' pretas por meio, ainda
de anilina ou ferro em brasa.
Defumam os cachimbeiros (fabricantes de cachimbos), num
pequeno forno, as cabegas dos seus cachimbos com a fumaga de
folhas verdes de canafistula e de estarco de bode, a qual fumaga
Ihe da uma c8r negro-lustrosa e indel6vel.
Ai pelo comego do s6culo atual, o velho Manuel Corr6, mora-
dor no sitio Saquinho, perto do Crato, era un dos mais afamados
cachimbeiros daquelas redondezas.
H6, ainda, os mascadores de fumo, que dao cusparadas para a
direita e a esquerda, a sujarem o piso e as paredes das casas.
Prescrevem o fumo, frequentemente, como rem6dio.
Aplica-se o mel de fumo (substancia que escorre da corda
quando 6 passada de um sarilho para outro, como se disse atrAs)
nas picadas de cobras, a saliva do fumante nas inflama85es, nas
d6res de barriga das criangas, cujos ventures sao ainda defumados
cor baforadas de cachimbo, e o sarro deste nos lugares de extragAo
de bichos de p6, nas umbigueiras de bezerros novos e nas feridas
rebeldes. E' o sarro a substAncia que se deposit no tubo, ou canudo,
do chachimbo.
Da-se o torrado em pitadas aos que sofrem de passamentos
(vertigens), aos doentes de estalicido (estilicidio), etc.
Preparam-no da seguinte forma: assam-se ao calor de brass,
num esp8to de marmeleiro, algumas peles de fumo (pedagos finos
que se tiram da corda, desenrolando-a), deitam-nas misturadas corn
sementes de cumari, corn folhas de alecrim, muito cheirosas, num
courinho de veado, que 6 dobrado e amarrado cor uma pequena
correia, pisam, depois, as folhas assim press corn um macetinho
de pau atW reduzi-las a p6.
Serve o fumo para clarificar e conservar os dentes e, por isso,
comumente os sertanejos os esfregam cor pedagos de fumo cortido.
Vem de long o empr8go medicinal dessa solanfcea, que
Damiro de Gois, em sua cr6nica de D. Manuel, chama Erva Santa,


- 70 -






6 CAklRI i- 71

e Gabriel Soares < em seu do Brasil>>. Os indios apelidavam-na betum.
Numa carta dirigida de P8rto Seguro ao Padre Simio Rodri-
gues, em 1550, escreve o Padre Manuel da N6brega: < midas s5o muito dificeis de desgastar, mas Deus remediou a isto
corn uma erva, cujo fumo muito ajuda a digestAo e a outros males
corporais e a purgar a fleuma do est8mago. Nenhum dos nossos
irmrios a usa e nem assim os outros cristios por nao se conformarem
cor os Infieis, que muito a apreciam. Teria dela precisio por causa
da humidade e do meu catarro, mas abstenho-me, considerando non
quid mihi utile est sed quod multis ut salvi fiant>.
Mas, por uma certa ironia do destiny, quem primeiro levou a
Portugal a erva, desdenhada por N6brega, foi Luiz de G6is < depois, sendo viuvo, se fez na India dos da Companhia do nome
de Jesus>.
Registemos haver nadadores nos sertSes, que trazem dentro
da boca pedacinhos de fumo, ao atravessarem rios ou agudes, com
o fim de evitarem caimbras musculares nas pernas e bragos.
Concluamos este capitulo cor a narragio de um epis6dio pas-
sado no Crato, hi uns oitenta anos: Por muito tempo morou na
rua das Laranjeiras, esquina da travessa Jose de Alencar, atual-
mente, Ant6nio Filgueiras do Nascimento, excelente home por
todos estimado.
Muitos se lembram, ainda, de te-lo visto, jA velho, de cava-
nhaque e cabelos brancos, metido em casa, como era hhbito, de
primeiro, numa camisa de madapolAo, de peito duro e engomado,
a cairem as fraldas s6bre a ceroula de algodiozinho, amarrada, a
cadargo, no tornozelo. Fundou ele uma pequena fabrica de charu-
tos, cor a singularidade de serem alguns triangulares. Moldava-os,
A mao, em formas de cedro.
Avultou o neg6cio de Ant6nio Filgueiras. Tal sua fama que o
apelidaram de Ant8nio Charuteiro, e ao trecho da travessa em que
residiu, entire as ruas das Laranjeiras e Pedra Lavrada, de beco
do Charuteiro.
Mas, um dia, chegaram ao Crato frades missionarios. Na pra-
ga da Matriz, certa tarde, pr6gou um deles, cor eloquencia, contra
o vicio do fumo, e afirmou, veementemente, aos fi6is que o ouvi-
am, de p6, ombro a ombro, chapeu A mio, silenciosos e contritos,
que, se a quem quer f6sse licito descer ao inferno, veria todos os
cies (assim chama nosso matuto ao diabo) a se estorcerem no fogo
eterno, de charutos ac8sos A boca.
Desde aquele moment, com medo das labaredas infernais, es-
cassearam os fregueses de Ant8nio Charuteiro, de tal arte que teve
ele de fechar as portas de sua fabricazinha. Assim acabou, melan-
cblicamente, no Crato, a indfistria de charutos.






P6OOS D'AGUA PERENES. PESCARIAS POR TINGUIJA-
MENTO. EXCURSOES A' POVOAQAO DE QUIXARA',
PR6XIMA DO CRATO, PARA PESCAS NO RIO CARIOS.






Na >, tomo LIV, ano LIV,
escreveu Tomaz Pompeu Sobrinho: tanejos, forrados de espessas camadas de areas e cascalhos sao,
aqui e all, transversalmente cortadog por dique de rochas muito
duras (pegmatites, diabase, quartzites), mais ou menos aflorantes.
&stes diques funcionam como barragens subterraneas. Dai resultam
os c6lebres pogos dos leitos dos rios, quando jA n9o defluem, assina-
lando trechos descobertos do lengol aquifero, normalmente oculto
nas areas. Nos rios medios e pequenos, este aspect ainda persiste,
porrm se vai atenuando A proporgAo que se amesquinham as sec-
gEes transversais do leito. Esta circunstancia permit, por todo o
interior, o suprimento mais ou menos regular e abundante de Agua
para as populacoes e respectivas criaq8es>.
No rio Salgado, antigo Jaguaribe-mirim, no riacho dos Caras,
no Crato, no do Genipapeiro que limita o municipio de Misslo
Velha cor o de Aurora, etc., viem-se pogos perenes, fixadores de
popula l es. Em seu derredor sempre maior o indice demogr6fico
do que em outros lugares afastados deles.
Abastecem o casario perto que, As vezes, mais parece um
arruado, sio espl8ndidas aguadas para o gado grosso e o mido,
nas suas margens planta-se fumo, feijAo, capim, cana de aficar,
batata, etc.
Quando altos os barrancos, derribam-nos, rampeiam-nos a
enxada, formam verdadeiros canteiros para a cultural agricola.
No rigor das estiagens, comprazem-se os olhog em admirar as
manchas intensamente verdes dessas beiras-de-rio no meio da pai-
sagem cinzenta carateristica dos nossos verses.
Irrigam-se essas vazantes, ou beiras-do-rio como dissemos, cor
agua carregada em latas de gas (querosene), cabaaas, potes, etc.
Aguam-nas, tamb6m, As vezes, por meio de um instrument chama-
do passadeira, a qual e compost de uma cuia amarrada, por meio
de um cordio de fio de algodgo encerado com cera de abelha, a ex-
tremidade de uma vara de marmeleiro, de cerca de oito palmos de
comprimento.
A' borda do pogo, ou mesmo dentro dele, alguem a empunhar
cor a mio direita a ponta da vara e com a esquerda seu tergo su-
perior, mergulha a cuia no poqo, enche-a d'agua que A sacudida








com f6rga para fora, de tal sorte que vai cair, em forma de chuva,
nas plantag6es da margem.
Poderia ser um dos fatores mais notiveis de combat as secas
peri6dicas o aproveitamento racional do contefdo dresses utilissimos
dep6sitos.
Ao lado deles morrem de sede os plantios de arroz, milho, fei-
j9o, etc.
Para a salvagio das rogas ameraadas pelas secas bastaria cons-
truirem-se nesses pogos, de margem a margem, paredes de pedra
e cal, sentarem-se bombas que elevassem a agua para a irriga'io
dos terrenos sequiosos do liquid.
E' uma velha ideia a de se armazenarem rguas nos nossos rios
para a lavoura e a pecuAria. Em 1707 o sargento-m6r Jogo da Costa
Silva requereu ao capitgo-m6r Gabriel da Silva Lago Ihe conce-
desse uma legua de terra no rio Salgado, no qual desejava &le algum trabalho para represar aguas com que possa fazer uma nova
povoaao>>.
Mas s6 agora, depois de quase dois seculos e meio, 6 que timi-
damente alguns particulares v5o levantando barragens de pedra e
cal, aqui e ali, nos nossos rios e riachos.
Em Missao Velha j6 montaram mrquinas nos pogos do Salga-
do e estAo a regar terras, h6 poucos incultas, hoje revestidas de
magnif'icos canaviais.
Nao faz muito, vi um dresses maquinismos a uma meia 16gua
da cidade, no lugar Cachoeira, onde as aguas do Salgado, no inver-
no, se despenham de uma altura de varios metros (uns 30 p6s, na
opiniao do Prof. Bernardino Gomes de Ardjo, em sua < Misso Velha>) nurn grande estrondo que se ouVe de long.
Por curiosidade digamos que em 1858 pretendeu o governor do
Dr. Jogo Silveira de Sousa arrazar esse salto do rio.
Cabe as administrag~es federais e estaduais a iniciativa de as-
sentamentos de bombas nesses reservat6rios dos rios e riachos cea-
renses, de faze-las funcionar, de vend8-las depois aos proprietarios
por pregos m6dicos e a prazo long.

No fim de cada ano costumam tinguijar os pogos para pescarias.
Tenho assistido mais de uma vez ao original process de pesca
por tinguijamento. Original e nocivo por que mata, indistintamen-
te, os peixes grandes e pequenos.
De manhi, muito cedo, antes do nascer do sol, entram no rio
os pescadores, cada qual a levar na mrb esquerda uma cuia cheia
d'agua com raspas de raiz do tingui capeta, a agitar cor a mao
direita a mistura at6 fazE-la espumar.
Atiram depois na superficie dos pogos a espuma semelhante a
do sabio, espalhando-a cuidadosamente.


0 CARIRI


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Alguns dos pescadores caminham de vagar, a agua a atingir-
Ihes a cintura, o peito, outros, numa rapida bragada, num nado
curto, sempre a cuia A mio esquerda, atravessam uma parte mais
funda para tomarem p6 logo adeante.
Ap6s uma hora, mais ou menos, comega o peixe a beber e a
embebedar-se, isto 6, a envenenar-se.
Pegam-nos a mao, em landuds ou gerer6s, vasilhas formadas
por um arco de cip6-de-rego, de uns cento e oitenta centimetros de
circunferencia, ao qual se prende uma rede de malhas A maneira
dag de uma tarrafa. Essa rede, que 6 afunilada e feita cor fios de
algodao, mede cerca de meio metro de profundidade.
Entre os habitantes desses pogos do sul do Cearg veem-se as
terribilissimas piranhas, as quais, no entanto, parece-me, nro pos-
suem a ferocidade das que vivem em outras regi6es do Brasil.
Nas 6guas do Genipapeiro, por exemplo, sio rarissimas as pes-
soas por elas mordidas. Nao se deve confundir o tingui capeta, no
dizer popular, ou tingui glabrata cientificamente, uma Arvore de
porte elevado, pertencente A familiar das berberideas, cor o arbusto
do mesmo nome, mui prejudicial ao gado, que dele se alimenta na
epoca das estiagens.
No tempo do verho, nos lugares onde ha o tingui arbisteo, tra-
tam os vaqueiros as reses cor a maxima precaug'o, evitando-lhes
as carreiras.
Qualquer movimento violent basta para que elas, as reses,
caiam fulminantemente mortas.

Na primeira d6cada dgste s6culo costumavam muitos craten-
ses, anualmente, assistir ao tinguijamento dos pogos do rio Carifis
em Quixard, distant do Crato crca de doze 16guas.
Partiam a cavalo, de madrugada, em caravanas, a conversa-
rem alegremente, a gosarem a suavidade da noite, a admirarem a
lua que, no ceu, parecia correr por entire os rasgoes das nuvens.
As pescarias de Quixara um pretexto para certos divertimen-
tos: dangas de quadrilhas e valsas, jogos de lu, de espadilha, de
bacard e lansquene durante o dia e a noite.
Franca a comida, as mesas sempre postas A disposigio dos vi-
sitantes.
Uma feita dangou-se atW o alvorecer, A hora da partida dos
h6spedes para o Crato. Na sala do baile, em meio aos que valsavam,
alguns havia ji calgados com suas largas botas russianas, a que se
-prendiam esporas de prata.
Em frente da casa da festa, na rua, os cavalos selados espera-
vam pacientemente, uns bem firmados nas quatro patas, outros a
descansar uma das pernas, uum pouco curvada, apenas a ponta do
casco a ferir o chio.


IRINEU PINHEIfO









Nos quatro ou cinco dies passados em Quixarg, gastavam-se
na hospedagem dos excursionistas cerca de sete ou oito contos de
reis pagos cor o barato que era cobrado, impreterivelmente, aos
jogadores que ganhavam qualquer parade. Uma esp6cie de multa
a que todos se submetiam de bom grado.


Ao terminarmos este capitulo, notemos que a presenga de pes-
soas de mau olhado, ou de mulheres grAvidas, pode prejudicar a
pescaria, no pensar do nosso home do interior. Para evitar o dano,
sera necessario que o adventicio colabore na operagio, sacudindo
no pogo um pouco de tingui.
Julga o sertanejo que sera bom nadador quem engulir o f6lego
de um peixe, que 6 a bexiga natat6ria deste.
Ha, tamb6m, um meio simples de o matuto se tornar habil
tirador de abelhas: comer a rainha de um cortigo, a abelha mestra,
como dizem.
Quem quiser ser 6timo escopeteiro deverr matar uma das
nossas mhais lindas aves, o beija-flor, e trincar-lhe o corag~o ainda
palpitante.
Sergo os fatos que acabamos de relatar, reminiscEncias dos cos-
tumes dos nossos incolas? O Pe. Luiz Figueira, citado por Capistra-
no de Abreu no livro ,
garante que os indios nio comiam certa qualidade de veados para
nio ficar medrosos>.
Digamos que se consideram as aguas dos pog~s tinguijados
abortivas para as vacas.


O CARIRa


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A LOCALIZAqAO DO CRATO. O FATOR AGUA NA ESCOLHA
DOS LOCAIS DOS POVOADOS. O QUE ERA O CRATO EM
1838. SEU INFERIOR ESTALAO MORAL. CONCORDANCIA
DE JUIZOS DO SABIO GEORGE GARDNER E DO CORONEL
TOMAZ ANTONIO DA SILVEIRA A RESPEITO DO
ELEMENT CABRA. .






Fundaram o Crato a uns cinco quilmetros da serra do Ara-
ripe, entire os altos do Barro Vermelho e do Seminario, assim hoje
denominados, As margens da corrente perene do Grangeiro.
Com os tempos, o casario dilatou-se, galgando os dois morros
acima aludidos.
No Ceard, ou melhor, no nordeste brasileiro surgiram os.
rxcleos populosos ao long dos curses d'agua.
Nos verses deixam os rios de correr, mas nos seus leitos ficam
pogos que nunca secam, cavam-se cacimbas capazes de fornecer
agua suficiente As necessidades das moradias pr6ximas.
Nio fugiu o Crato A regra geral. Seus primitives habitantes
preferiram a vizinhanga do ribeiro aos montes que o sobranceiam,
mais saudiveis, mais varridos pelos ventos, de horizontes mais
amplos.
Em todo o nordeste, terra de sEcas peri6dicas, na escolha dos
locais das povoaq5es preponderou o fator agua s6bre outros quais-
quer, comerciais, defensivos, est6ticos, ou religiosos. Como todos sa-
bem, frequentes vezes motivos de religigo influiram na situaggo dos
povoados, na era colonial.
Lembro-me de ter lido em algures que os portugueses, para
que melhor se ouvisse ao long o repicar dos sinos, chamando os
crentes para a oragio, costumavam erguer nas emin8ncias as igre-
jas, em cujo derredor logo se agrupavam as casas das futuras ci-
dades.
Proporcionemos um exemplo dos nossos dias, quanto a influ-
encia da religilo e da Agua. HA uns oitenta anos, mais ou menos,
Miguel Xavier Henriques de Oliveira, que foi chefe politico no Cra-
to, edificou na sua fazenda Caatinga Redonda, ao p6 da serra do
Urubf, no atual municipio de Caririassi, antigo S. Pedro do Cariri,
uma casa, uma capela e fez, um aqude.
Em 1934, um Padre, vigario em S. Pedro, Francisco das Cha-
gas Barros, comegou a visitar o lugar, a celebrar missas em certos








dorningos, a confessar penitentes, a organizer associag5es pias, a
festejar o Padroeiro que e Sao Vicente Ferrer, a levar, de vez em
quando, frades capuchinhos, que predicavam os preceitos da religiio
cat6lica a todas aquelas gentes das redondezas. Nessas ocasi6es
cornungavam centenag de pessoas.
Mudou o Padre Chagas o traditional nome de Caatinga Redon-
da pelo de Valenga, em homenagem ao orago da igrejinha.
De toda a part, especialmente dos municipios de Sao Pedro e
Missao Velha, acorreram os crentes.
Elevaram-se, entio, as primeiras casinhas de tijolos e de taipa,
que atingem agora cerca de 40, inclusivamente duas mercearias.
Assim se criou um nticleo de populaoio que tende a aumentar.
Dois elements concorreram, aqui, para a formacgo do luga-
rejo. Urn, de ordem religiosa, atrav6s da agco do paroco de Sao
Pedro, o outro representado pela existencia do agude, pela proxi-
midade de pogos, no alveo do riacho do Genipapeiro, resistentes as
mais prolongadas estiagens, distantes um quil8metro, calculada-
mente.

Em 1838, < uma cidade pequena e assaz pobre, tendo circa de um tergo do ta-
manho do Ic6>>.
Inda assim Ihe eram inferiores Missao Velha, Barbalha, Jardim,
Santana.
Juazeiro nao existia. S6 no fim do s6culo XIX que o haveria
de furdar o Padre Cicero Romro Batista.
No comeco, foi o Crato irregularmente construido.
Por ter acompanhado os torcicolos de um estrada, 6 agora mui
sinuosa a rua Jos6 Carvalho, antiga das Laranjeiras. Ao poente
desta fizeram uma outra, menog tortuosa, a Pedro II, outrora da
Pedra Lavrada, chamada assim por que, no principio do s6culo
passado. ali viveu um certo sujeito, de nome Jogo, numa casinha,
em frente da qual assentava uma pedra quadrada e lavrada. Uma
verso que o Padre Juvenal Colares Maia garantia ter ouvido de
seus pais, mortos hA muitos anos em idade bastante avangada na
velhice.
Transcrevemos outros trechos do livro de Gardner: populagco, informa Mle aludindo ao Crato de 1838, sobe talvez a
duas mil almas, na maioria de indios, ou de seus descendentes
mestigos; a porgAo mais respeitavel dos habitantes 6 constituida por
brasileiros, quase todos lojistas; mas de onde as classes mais baixas
tiram os meios de sua subsistencia 6 cousa que nHo sei explicar. Os
habitantes desta parte da Provincia, geralmente conhecida pelo
nome de Cariris, sao af'amados em todo o Brasil pelo seu g8nio'
turbulento; outrora costumava ser, e ainda hoje 6 em menor escala,


O CAURIR


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o ponto de refdgio de assassinos e de vagabundos de today sorte
das outras parties do Pais e, conquanto contasse corn um Juiz de
Paz, um Juiz de Direito e outros oficiais de justipa, 8stes disp6em
de pouca autoridade e, ali6s, se quisessem exerce-la correriam gran-
de risco de.cair sob a faca de um assassino; apontaram-me diver-
sos dEstes que andavam impunes. O principal perigo que os amea-
,a 6 por parte dos amigos da pessoa assassinada, que os perseguem
atrav6s de longas distancias e ngo perdem ensejo de exercer sua vin-
ganga. 0 nivel geral da moralidade entire os habitantes do Crato 6
muito baixo; o j8go absorve a maior parte do dia, e quando faz bom
tempo podem ver-se grupos de todas as classes, desde a chanada
Gente Grande atW a mais infiina, sentados nas calqadas do lado da
sombra das ruas, profundamente entregues ao j8go; os mais abas-
tados fazem parades cor patacoes de prata e os mais pobres ou
cor moedas de cobre, ou mais comumente corn feijoes; nesta oca-
silo as rixas s9o muito frequentes e geralmente resolvidas a faca.
Mesmo na classe alta raro 6 o marido que vive em companhia da
esposa; poucos anos depois de casados expelem-nas de casa e Ihes
d9o habitaggo A parte, a fim de poderem viver cor raparigas novas
assaz complacentes para substituir aquelas sem os lagos' do matri-
m6nio. DEste modo t8m les de sustentar duas casas; entire as pes-
soas que viviam assim posso citar o Juiz de Direito, o Juiz de
OrfAos e quase todos os principals lojistas. Mas, semelhante estado
de moralidade nao 6 de admirar se se tender a conduta do clerow,
a qual era irregularissima.
Como se ve, muitas uni6es ilicitas ao lado dos casamentos de
>.
Isso faz recorder a 6poca que logo se seguiu ao descobrimen-
to do Brasil.
Em 1551 escrevia o Padre Manuel da N6brega, em Pernam-
buco: de cl6rigos por que, al6m de seu mau exemplo e costumes, querem
contrariar a doutrina de Cristo, e dizem phblicamente aos homes
que Ihes 6 licito estar em pecado cor suas negras, pois que s9o
suas escravas>.
Lembremos que naqueles tempos, apelidavam-se, tamb6m, os
indios de negros.
As cousas chegaram a tal ponto que os jesuitas quase cerra-
ram capaz de absolvigoo>.
Se depois de quase 300 anos, tivessem voltado A Terra N6bre-
ga e seus companheiros, veriam no Cariri as mesmas cenas por
8les condenadas: padres culpados, mancebias frequentissimas, in-
dios espoliados de suas terras e expulsos do Crato para Arronches,
perto de Fortaleza.


- 78 -


IRINEU PINHEIRO






O CARIRI 79 -



Sobre o vicio de jogar, ao qual se refere Gardner, que era
veraz observador, digamos que se nfio restringia ao Crato, mas
campeava infrenemente em todo o Cariri.
Em 1856, em seu numero de o1 de Maio disse < pobre o vinte e sete, o cativo ou o frecha ou o cacete>>. um j8go de paradas, a portas fechadas, com um baralho aparado,
uma botija de aguardente a um canto, uma faca ao c6s! Um cri-
me... dois crimes... muitos crimes! Mas 6 isto o que vemos dia-
riamente no Crato, mesmo na prisio da sala livre, na Barbalha, no
Jardim, em Porteiras, em cada vila, em cada povoafio ou sitio,
em cada canto finalmente. Cumpre que a policia acabe cor isto,
ao menos para que daqui a pouco se nio suponha que jogar 6 pro-
fisslo licita; por que se isto se deixa encasquetar ao povo, adeus
enxada! Nao hM quem nao prefira viver jogando a andar quebran-
do as unhas por essas bibocas>>.


Do que nos informa ainda o sibio ingles Gardner nos periods
atr6s reproduzidos se deduz que, afora a corrug5o familiar, ji a
fama dos cabras do Cariri, na terceira d6cada do seculo passado,
justificava o rifio: <.
Em 15 de Outubro de 1831, uns sete anos antes de Gardner,
num oficio ao Vice-presidente da Provincia, Miguel Ant6nio da
Rocha Lima, exp6s, assim, o coronel comandante das armas, To-
maz Ant6nio da Silveira, o estado entire certos elements politicos
do Crato e do Jardim, dirigidos os da (ltima localidade por Joa-
quim Pinto Madeira e pelo vigirio Ant6nio Manuel de Sousa:
uma political mal concebida sustenta a gente denominada cabras,
o que melhor V. Excia. vera do meu oficio de 2 de Setembro.
Estes homes sao uns perfeitos cossacos, eles nao temem a Lei, e a
Religiao 6 neles diminuida em proporcSo do crescimento da supers-
tigio: vivem armados de bacamartes, clavinas, facas de ponta aguda
e outras armas ofensivas e sao muito faceis e destroys na arte de
assassinar o pr6ximo, e folgam de alimentar-se da rapacidade a
que sio muito inclinados>.
Identicas, como se v6, as opiniSes de Gardner e do coronel
Tomaz Ant8nio s6bre a indole d8sses mestigos a que se deu o nome
de cabras.
Mas nem sempre se resolviam as quest5es a faca, ou pelo baca-
marte.
Perdoavam-se, As vezes, < ofensas gravissi-
mas.






-- 80 IRINEU PINHEIRO

Em 1816 um certo Gongalo Jos6 de Santana desistiu no car-
t6rio do Crato de uma agSo judicial por ele movida contra Jos6
de Sousa Junior que o agredira a cacete, fazendo-lhe < um brago.
Eis alguns trechos dessa curiosa < assina-
da de < pelo ofendido: <... que ele (Gongalo) havia dado
uma querela perante o Juiz Ordinario desta vila, de Jos6 de Sousa
Junior, pardo, solteiro, morador no sitio dos Currais, tamb6m d8ste
termo, pelas n6doas que Ihe fizera em um brago corn um pau, e
que de seu motu-pr6prio, sem constrangimento de pessoa alguma
que para isso o obrigasse, perdoava, como de fato perdoou, desde
hoje para sempre o dito crime e culpa ao dito querelado Jos6 de
Sousa Junior pelo amor de Deus, e dele nao queria mais cousa
alguma em tempo algum, para que desde ja desistia de todo direito
de aggo e acusa'go que contra ele podia ter.







A IMIGRACAO, ELEMENT DE PROGRESS DO CRATO.
SEU COMiRCIO. A MELHORIA DOS PRADIOS URBANOS.
APERFEICOAMENTO DOS COSTUMES SOCIAIS. UMA
FESTA FAMILIAR EM 1857. CEREMONIES NUPCIAIS NOS
OLTIMOS ANOS DO SLCULO PASSADO E NOS PRIMEIROS
DO ATUAL. UM CASAMENTO NO DERRADEIRO QUARTEL
DO SECULO XVIII. EMPRESTIMOS DE ROUPAS AOS NOI-
VOS POBRES. UM DANCADOR DE SOLO INGLES






Muito concorreu para o progress do Crato a imigragAo de ele-
mentos de outras parties do Ceara, de algumas Provfncias vizinhas,
seduzidos pela uberdade do solo do Cariri, pelas aguas de suas
fontes, por seu mais elevado grau de pluviosidade.
Na sua maioria, negociantes os recem-chegados A nova terra,
ai pelo meado do seculo transacto.
Naquele tempo a lavoura nao tentava a ambigio de quem
quer que f8sse. A inexistencia de boas estradas, que facilitassem a
exportagio dos g8neros, desvalorizava todos os produtos agrfcolas.
Tudo se transportava em costas de animals, atraves de leguas
e 16guas, em pDssimos caminhos.
Pelo contrario, reputavam-se bem as fazendas e as mercado-
rias, compradas no Recife. Fundaram-se no Crato lojas que atrai-
ram o comercio das redondezas, inauguraram-se duas boticas, a do
capitfo Benedito da Silva Garrido na era de 40 ou na de 50, e a
do coronel Joaquim Segundo Chaves em 1864, os quais, alum de
boticrios, eram os medicos do lugar.
Em 1882 criou-se mais uma botica, a de Jos6 Ant6nio, notdvel
por nela se reunirem, diAriamente, A tarde, no Imperio, os partidis-
tais liberals pompeus. A do coronel Secundo compareciam os libe-
rais paulas, inimigos irreconciliaveis daqueles.
Viveram essas duas boticas, que eram uns verdadeiros clubes
politicos, na rua Grande; no mesmo quarteirlo, do lado da sombra,
entire a travessa da Calif6rnia e a pequena praga de S. Vicente
Ferrer.
Desde cedo, As quatro horas da tarde, mais ou menos, come-
,-avam a chegar os habitues, que se sentavam na calgada em tam-
boretes cobertos de sola, pregada cor pregos dourados.
Jogavam-se animadas partidas de gamao.







IRINEU PINHEIRO


Negociavam, tamb6m, os lojistas corn drogas, em competicao
cor os boticArios.
Nas prateleiras daqueles viam-se preparados medicinais, como
a Salsaparrilha de Bristol, -de Ayer, a Salsa, Caroba e ManacA, o
Balsamo Filantr6pico; as pilulas de Ayer e de Reuter, etc. Merca-
va-se alvaiade, mercfrio, que era acondicionado em caixinhas de
madeira, macela, pichurim, sene, etc.
Era o que se fazia em todo o Brasil.
Assim escreve Saint-Hilaire: < ciantes de fazendas e de viveres vendiam alguhs rem6dios. Isso
ocorria em 1818, particularmente na cidade do Cabo Frio, e mesmo
em 1820, por que Pizarro afirma, referindo-se a essa cidade, que
na mesma niio havia farmaceuticos cor farmicia aberta>>.

De cem anos para c6, se foram estendendo as lojas de fazen-
das e mercadorias pelos quarteiroes da rua Grande, agora Joao
Pessoa, entire as atuais pragas Siqueira Campos e Juarez TAvora.
Podem elevar-se, apenas, a uma dfzia as casas de families alf hoje
existentes.
HA uns 90 anos, na rua do Fogo, que agora e chamada Senador
Pompeu, em frente da Cadeia Pdblica, fundou Arafjo Candeia
.ama loja mui afamada, que viveu ate os fins do seculo passado.
Nessa rua, paralela A Jooo Pessoa, entire as pragas acima nomea-
das, est9o sendo substituidas, aos poucos, as casas de families por
armazens de generos de exportaglo, mamona, algodio, rapaduras,
e por mercearias, padarias, etc.
Perto da Estaglo da Estrada de Ferro, situada na praga
Francisco Sa, construiram-se, nesses iltimos tempos, vArios arma-
zens, em que se compram e vendem nao s6 os generos de exporta-
cao, ha pouco citados, mas tambem espichados (couros de boi),
peles de cabra, etc.
A travessa da Calif6rnia, hoje rua Barbara de Alencar, na sua
extremidade poente, perto do rio, ate bem pouco, negociavam-se,
igualmente, espichados. Quem por all passasse, veria a secarem no
chgo, no sol, couros envenenados cor sab5o arsenical.
Essa travessa, que vai do Alto do Seminario ao do Barro Ver-
melho, compunha-se, inda no principio d8ste s&culo, apenas de
quatro quarteir5es, corn a singularidade de cada um, ai pela era de
50, ter tido sua denominagco pr6pria.
Do poente para o nascente chamavam-se, respectivamente, tra-
vessas do Crespo, da Palma, da Calif6rnia e da Ponte. Morria na
rua da Vala, atualmente Tristgo Goncalves. Hoje j6 galgou o Alto
do Barro Vermelho e e uma das mais movimentadas arterias do
Crato,


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0 quarteirao, conhecido de primeiro por Crespo, foi ocupado,
em parte, por ourivesarias. Dai o apelidarem, comumente, de tra-
vessa dos ourives.
E' a rua Barbara de Alencar, a qual o povo teima em dar o
nome de Calif6rnia, o principal centro das mercearias, dos cafes,
das barbearias, etc.

Na 6poca de 50 fizeram-se no Crato pr6dios melhores que os
primitivos, os quais eram geralmente, de taipa.
Em 1857 levantou o coronel Ant8nio Luiz Alves Pequeno, A
rua Grande, esquina da travessa da Calif6rnia, para sua residencia,
um sobrado sob o molde dos da capital pernambucana. Na mes-
ma era de 50, na mesma rua e no mesmo quarteirao, erigiu um
outro o negociante Ant8nio Jose de Carvalho e na rua Formosa
(Santos Dumont, hoje) edificou o coronel Joaquim Gomes de
Matos um menor, semelhante ao do coronel Ant6nio Luiz. Alguns
se ergueram na rua do Fogo, no Quadro da Matriz, na pracinha de
S. Vicente.
Nesta form construidos dois, um em I861 pelo Padre Jogo
Marrocos, o outro em 1863 pelo portugues Manuel Rodrigues Mon-
teiro, segundo me parece.
No do Padre Marrocos viveu durante alguns lustros Jos6 Mar-
rocos, distinto educador da juventude caririense.


A par do aperfeicoamento das construcges urbanas, a partir
da decada de 1850, refinavam-se os costumes, no Crato.
Families houve, faz quase um seculo, que cultivavam certo
luxo.
No sobrado do coronel Arit6nio Luiz a sala de visits era for-
rada e esteirada, adornada por uma magnifica mobilia de jacaranda,
que constava de 12 cadeiras, de um sofa cor entalhes mui artisti-
cos, de uma mesa de centro e de dois consoles corn pedras de mar-
more e pds belamente torneados.
Para mostrarmos que o Crato, naquela 6poca, se adeantava
socialmente, copiemos, por expressive, um artigo de >,
em seu nfimero de 27 de Agosto de 1857: o Sr. Tenente Coronel Ant6nio Luiz Alves Pequeno, por ocasiao
do-batizamento de-seu quarto filho, obsequiou aos seus amigos
desta cidade cor um esplendido bale que foi assaz concorrida. -
Esta reunion provoubastante em favor do adeantamento moral
do Crito. Ngo faltou ordem, g8sto e delicadeza entire os numerosos
convidados. Todos porfiaram em, dr-.de seus..costumes a melhor
ideia.-Por sua part o Sr. Antonio-Luiz e sua Excma. Sra. abun-
daram de delicadezas e bons,modos para comn seus h6spedes, que--


- 83 -


0 CARIRI







IRINEU PINHEIRO


ficaram penhorados de suag ateng~es. Uma numerosa companhia
de senhoras, cujas gragag eram mesmo superiores ao g6sto apurado
do seu trajar, grande ntimero de oficiais da G. N. ricamente far-
dados, todos identificados no pensamento de dar ao festim o maior
brilho, fizeram bem agradaveis muitas horas dessa noite que tio
veloz parecia correr. Uma bela mrsica, uma companhia escolhida,
licores variados e deliciosos, um cha servido cor profusgo, sio
sempre cousas que muito agradam, mas cumpre confessA-lo, houve
ai algo que mais nos prendeu a atengao: foi a educagio apurada
que revelaram os convivag, as maneiras delicadas que em todos se
observaram. Julgando por esta bela reuniao, qualquer estranho
pode afirmar dos nossos costumes o juizo mais honroso. Agrade-
cendo, pois, ao Sr. Tenentes Coronel e a Sua Excma. Sra. as atengSes
de que fomos testemunhas e mesmo objeto, nao o fazemos por mera
etiqueta, mas para ter a ocasiao de consignar o servigo que prestou
ao Crato, em geral, acabando de plantar os hAbitos cultos das nos-
sas capitals>.

Narremos uma festa nupcial, no Crato, nos fins do seculo XIX,
ainda na primeira decada do present. Nessa descrigEo podera o
leitor entrever costumes das populaEges do extreme sul do Cearg.
Cedo, As duas horas da tarde, mais ou menos, batia o bombo
a chamar os mdlsicos, na calgada da casa do Mestre da banda local.
Tris as chamadas cor intervals de cerca de cinco minutes de uma
para outra. Esse bater de bombo era como que um toque de alerta
a convocar o povo para partilhar da festa do casamento ou apre-
cia-la de fora, na rua.
Algumas vezes varriam-se os passeios lageados da cidade ate
a porta da Matriz, cobriam-nos de folhas verdes de mangueira.
As quatro horas comegavam a chegar os convidados ao domi-
cilio dos pais da noiva.
Em dado moment, os homes iam buscar o noivo na residen-
cia deste e agrupados o traziam a frente de todos.
De volta, postavam-se na calgada, A porta da casa, e all dando
o brago As senhoras, formavam um long prestito, As vezes de
virias dezenas de pares.
Todos, uns atris dos outros, acompanhavam os noivos, a p6,
at6 a Matriz da cidade.
Registavam-se em certas ocasi5es, na forma'io do cortejo, epi-
s6dios engragados.
Algumas damas n5o queriam dar o brago a 8ste ou Aquele con-
vidado, por julga-lo de condigio inferior A sua, por exemplo.
Faziam-se pequenas manobras habeis, recuos disfargados,
mas, em fim, uma ou outra acabava por aceitar o brago indeseji-
vel e encorporar-se ao acompanhamento.


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0 CAMlfi


A frente deste, de bragos dados, marchavam a noiva e o pai
desta, logo ap6s o noivo e a primeira madrinha, em seguida os
outros pares indistintamente.
Uma menina segurava a cauda do vestido da noiva e uma
outra levava em uma salva as aliangas de ouro.
Na igreja, durante o ceremonial religioso, os nubentes ajoelha-
vam-se em dois almofad6es de seda para all enviados adredemente.
Muitos lembram-se, ainda, do fausto dEsses casamentos: a
noiva cor seu vestido de seda branch afogado, a que se prendiam
flores de laranjeira artificiais, v6u e grinalda tamb6m brancos, A
m&o enluvada um leque de plumas e um bouquet de flores natu-
rais, cravos e melindres.
Calgava botinas brancas de salto alto.
As senhoras, que compareciam a essays b8das, vestiam-se de
fazendas cars, seda, merin6, 15, alpaca.
Justos os casacos em todo o tronco, as saias amplas, corn cau-
das, estreitas e compridas as mangas com pafos que excediam os
ombros. (z9)
Naquela 6poca estava em moda o uso supliciante do esparti-
iho. Tanto mais elegantes as mulheres quanto mais delgada a cin-
tura. Algumas apertavam-na de tal arte que, as vezes, desmaiavam.
Havia requintes de luxo: brincos de brilhantes, pulseiras de
ouro, sapatos bordados corn fios de seda.
Os homes envergavam casaca, sobrecasaca ou fraque. Uns
iam de claque, outros de cartola, e alguns mais modestamente cor
seu chapeu de coco.
No patamar, na nave da igreja, em todo o trajeto de ida e
volta, urna multidio curiosa a espiar os do sequito, a admirar os
vestidos das senhoras, a cochichar bisbilhotices que despertavam
risos.
A said da comitiva nupcial da casa dos pais da noiva e A sua
vinda, A chegada na Matriz, tocava a banda de mtisica, entusiAstica-
mente, marchas e dobrados.
Depois do acompanhamento, costumavam os rapazes trocar
as calgas pretas por outras brancas, com as quais dangavam.
De igual maneira as senhoras mudavam os vestidos por outros
sem caudas. Algumas preferiam conservar o trajo do acompanha-
mento, suspendendo, *o dangarem, a cauda por meio de uma fivela
pr8sa no into do casaco.
A noitinha comegavam as dangas: as valsas, as polcas, o galope,
as quadrilhas marcadas em frances por alguem, o par marcante.

(g9) Pafo: suplemento da mesma fazenda do vestido e com fran-
zidos. Parece-me que o vocdbulo se original da palavra inglesa
puff.


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IRINEU PINHEIRO


Muito em voga a valsa viana, locugio que Se deve interpreter
por Varsoviana.
SOutrora, nas festas, separavam-se as mogas dos rapazes, os
quais se agrupavam nas portas do salvo do baile, As vezes nas cal-
gadas, enquanto aquelas se sentavam em cadeiras ao long das
paredes, a conversarem baixinho entire si, a sorrirem, abanando-se
cor seus leques.
No havia entire os jovens de ambos os sexos essa excessive
familiaridade, que existe hoje, tio nociva ao prestigio da mulher.
Assistiam os noivos as dangas na sala de visits, sentados em
um sof', ela, a noiva, corn o busto erecto e apertado pelas aspas de
ago do espartilho. Um tormento a que nenhuma podia fugir.
Durante a noite punham-se as mesas repetidamente corn vi-
nhos e bolos: o bom-bocado, o bolo frances, o de mandioca, etc.
Terminavam as fiestas corn o ato de, pela madrugada do dia se-
guinte, todos os convidados acompanhados pela banda de mfisica
irem deixar.os noivos na casa que Ihes era.destinada.
Assim se casavam os de h6 uns trinta anos atr6s.
Na feitura dos vestidos para esses casamentos trabalhavam
noite e dia as irmis Maroca e Francisquinha que, nuns quarenta
anos, foram as modistas da melhor gente do lugar.
Vem a pClo dizer que, segundo me parece, foi o coronel Ant8-
nio Luiz Alves Pequeno, o Antigo, quem primeiro no Crato, no co-
mego da era de 70, comprou uma maquina de costura, a qual se se-
guiram logo duas outras: a das referidas irmis Maroca e Francis-
quinha e a do alfaiate Jts6 Pedro Celestino.
Antes daquela epoca tudo se cosia A mro: vestidos de senho-
ras e roupas de homes.
Muito anteriormente, na segunda metade do s&culo XVIII,
houve, no Crato, um casamento em que se ostentou uma prosapia,
de certo nio condizente com a rude vida dos nossos antepassados.
Ha pouco tive entire mros um redingote e um corpete ou ja-
queta cor que se casaram uns noivos, naquela era.
O redingote feito de uma fazenda grossa, de cor rubra sangue
de boi, corn um f6rro de linho e de tafeti encarnado, 6 talhado
de forma que, na frente, se vai abrindo de cima para baixo, as
abas a morrerem um pouco superiormcnte L curva do joelho.
A destra e A esquerda bolsos cor portinholas de dez centime-
tros de largura.
No lado direito, nos punhos, na parte trazeira das abas, bot6es
de madeira chatos e redondos, de nove centimetros de circunferen-
cia, cobertos de um tecido cor listas plflmbeas e douradas, muito
.semelhante ao do galio.
Quanto ao corpete, forrado tamb6m de linho, 6 de seda ver-


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melha lindamente bordada. Por infelicidade o tempo estragou a
saia que, segundo me disseram, era do mesmo pano da jaqueta.
Encomendaram-se ambos os fatos na Baia, de onde era natu-
ral o noivo, Ant6nio Pereira'da Costa, tio do Conselheiro Jos6 An-
tonio Saraiva, e um dos ascendentes da familiar Calou, muito nu-
merosa nos municipios de Crato, Barbalha e alguns limitrofes
pernambucanos.
O coronel Greg6rio Pereira Pinto Calou, que foi chefe politico
em Barbalha na segunda d6cada deste s6culo, era genro de Anto-
nio Pereira Gongalves Martinz Parente, filho de AntOnio Pereira
da Costa. (20).
Um neto deste, Raimundo Gongalves Martinz, conhecido pelo
apelido de Dum, mandou fazer para o casamento dele Dum um
redingote, de fazenda preta, sob o molde mais ou menos do de seu
av8.
Por muitos anos emprestou-o aos noivos pobres, vizinhos do
seu sitio Saco dos Parentes, no municipio de Barbalha.
Aqui mais uma vez se repete a hist6ria.
Informa Frei Vicente' do Salvador que, no tempo de D.
Francisco de Sousa, ha mais de trezentos anos, em Piratininga,
guma capa de baeta e manto de sarge, se emprestavam aos noi-
vos e noivas para irem A porta da igreja>.


Por terms Palado, acima, em danqas, recordemos um epis6dio
passado no Crato,' no comego do s6culo present, ai por 1906 ou
9go8.
Uma feita, A noite, organizou-se um baile em casa de Jose
Andre, home muito chistoso, dono de uma mercearia, que era o
ponto obrigat6rio de conversa das pessoas mais distintas do lugar.
Em certo moment da festa, quis Domiciano Ferreira Lima,
que se orgulhava de ser tenente coronel da Guarda Nacional, exibir-
se numa danga, que ele chamava solo ingles. Afastadas as cadeiras
da sala, p6s-se Domiciano a sapatear, a sacudir as pernas para um
lado e para o outro, com tal viclGncia que todos os convivas se re-
tiraram, prudentemente, para o quarto pr6ximo, ou para a calgada
da casa.
Os misicos, que se achavam no corredor contiguo a sala,,aca-

(zo) Essas informag es me foram dadas pelo Sr. Antonio Greg6rio
Calou, falecido ha pouco no Crato. Foi ainda o Sr. Ant6nio
Greg6rio que, 'gentilmente, mandou vir de uma fazenda dos
sert5es de Pernambuco o redingote e o corpete acima des-
critos.


-7 -


6 CARdI






- $8 IRINEU PINHEIRO

baram por se levantar, sempre a tocar, soprando nos seus instru-
mentos, as bochechas cheias de ar, a espiar, desconfiados,.o dangari-
no, receosos de que Este, de repente, Ihes invadisse o aposento.
Era Domiciano um tipo curioso, muito alegre e estimavel, a
manifestar em todas as ocasi5es, exaltadamente, cor palavras acom-
panhadas de grandes gestos, a sua admirago pelo Marechal Flo-
riano Peixoto.
As vezes puxava de um punhal, cor o qual, dizia, seria capaz
de defender ate a morte a mem6ria do seu idolo.
Foi ele, em verdade, o mais sincere florianista que eu conheci
no Crato.






DOIS PATORES PRINCIPALS DA ASCENCAO MORAL DO
CRATO, NO MEADO DO SECULO PASSADO






No meado do s&culo XIX comegou a ascender o estalio moral
da sociedade do Crato, que podemos considerar padrio de toda a
zona caririense.
Ate entao era inferior o nivel de moralidade do lugar.
Um dos motives de aperfeigoamento dos costumes foi a emi-
gragio para ali de famflias, especialmente do Ic6, cujo esplendor
principiava a declinar.
Fixaram-se na nova terra fdrtil, menos sujeita as crises climi-
ticas enriquecendo-a cor seu labor e, portanto, civilizando-a, os
Alves Pequenos, os Candeias, os Bilhares, os Garridos, os'Linhares,
os Gomes de Matos e outros cujas descend8ncias se prolongaram
atW n6s.
Frutificaram os bons hMbitos familiares dos recem-vindos.
Outro factor de progress moral no Crato e em todo o Cariri
foi a criaiio em 1853 do Bispado do Ceard, a qual se confirmou
em 6 de Julho de 1854 pela bula cPro animarum salute>, do Papa
Pio IX.
Em 1859 escolheu o Governo do Impprio a D. Luiz Ant3nio
dos Santos para ocupar a nova sede episcopal.
A todos satisfez o decreto imperial.
A esse respeito publicou o journal : Diz o nosso
correspondent que foi nomeado o Rvd. Dr. Luiz Ant8nio dos
Santos. Damos parabens a nova Diocese, sos nossos patricios por
vermos aproximar-se o term desse interdito, que atW hoje privava
a Igreja Cearense do seu Pastor. Acreditamos que a escolha do
Governo deverd ter recaido em um varao respeitivel por suas luzes
e costumes, e s6 fazemos votos para que se realize quanto antes o
feliz moment da inauguragio do Bispado e da presenga do res-
peitavel prelado entire n6s. Nunca a Igreja do Brasil se achou
talvez em circunstancias mais melindrosas do que atualmente, em
que se v8 ameagada senko de um cisma ao menos de graves e desa-
grad6veis complicag6es cor o Governo por causa do c6lebre pro-
jeto dos casamentos mistos. Fazemos votos para que o Espirito
Divino ilumine nosso Governo e proteja sua Igreja.
Em 1860 foi a decisgo governmental aprovada pela Santa Se.
No ano seguinte, em 61, chegou ao Ceard D. Luiz, que aposto-
lou as nossas populag5es nos vinte anos do seu episcopedo na
Provincia.







IRINEU PINHEIRO.


- 90 -


Atraves dos Semindrios de Fortaleza e do Crato, embora este
se tenha fechado, logo, por motives de ordem climatdrica, e do
Colegio da Imaculada Conceig2o, da Capital da Provincia, funda-
dos pelo novo Bispo nas eras de 6o e 70, educandarios da mocida-
de masculina e feminine, 6 que, como se disse atrds, foi o Bispado
do Ceard poderoso element de cultira e civilizagio do nosso povo.
Imprimiram os Seminarios maior pureza A vida do clero cea-
rense, proporcionando-lhe melhor formacgo intellectual, moral e
religiosa.
Antes de D. Luiz padres havia que, al6m de pouco instruidos,
infringiam frequentemente as leis can6nicas, sobretudo a do celiba-
to, escandalizando o povo.
Em 1838 escreveu Gardner a respeito do Crato: < era entio de setenta a oitenta anos, era pai de seis filhos naturals, um
dos quais foi educado para ser sacerdote, depois se tornou presi-
dente da provincia e era entZo senador do imperio, conquanto ainda
conservasse seu titulo eclesiastico. Durante minha perman8ncia em
Crato veio o senador visitar o pai,-trazendo consigo sua amante,
que era sua prima, corn oito: filhos dos dez que ela Ihe dera, tendo
alem disso cinco'filhos de outra muiher, qua faleeera ao dar A
luz o sexto. Aldm do vigario, havia na vila mais tr.s outros sacier-
dotes, todos Rles com filhos havidos de mulheres corn quem convi-
viam-abertamente, send: uma das mulheres casada. '
Vinte anos depois, 'em 1858, disse - (Barbalha) o Padre Pedro, acompanhado de mulher e filhos, etc>.
Assim era no Ceara'e emr .outras parties do Brasil:
Naqueles tempos iiviam os padres ceaienses quase que entre-
gues a si pr6prios, nas suas longinquas par6quias.
Ngo percorriam os Bispos de Pernambuco, a cuja Diocese per-
tencia o Ceard, o territ6rio dEste, tal a extengo do sei Bispado.
De quando em quando, corn interregnos de anos, chegavain a
sedes das freguesias representantes do Bispo; chamados visitadores,
que examinavam as igrejas, os altares, as alfaias, os livros, etc.,
sem que, regra geral, providenciassem s8bre a vida particular dos
pdrocos.
Foi D. Luiz o primeiro Bispo que visitou terras cearenses, de
uma extremidade a outra, coibiu antigos abuses, obnseguiu que as
novas geragres de sacerdotes f6ssem convenientemente instruidas e
vivessem segundo moldes consentaneos cor a moral cristg. .
Mle foi, em verdade, o grande reformador da Igreja cearense.
Registemos aqui que, muitas vezes, ap6s varios anos de estudos
nos Semindrios, verificavam alguns moeos nao ter vocago sacer-
dotal, deixavam aqueles educandArios, encorporavam-se na vida









civil, polindo os costumes muito rudes da sociedade daquelas alon-
gadas eras.
,Tanto mais important a fungio educational dos' Semindrios
quanto, nio faz muito, eram raros os col6gios de instrugio secun-
doria na capital e no interior cearense.
No Seminario de Fortaleza, tamb6m no de Olinda, ordenaram-
se jovens cratenses. Outros bacharelaram-se na Faculdade de Di-
reito do Recife. Mas, antigamente, preferiam os pais a batina A
beca.
see
Quanto ao Col6gio da Imaculada Conceigio, o primogenito, no
Cear6, relativamente A educacgo de mogas, fundou-o D. Luiz e o
instalou, no dia 15 de Agosto de x865, em uma casa terrea da rua
Formosa, em Fortaleza, confiando-o a oito abnegadas Irmis de
Caridade, sob a diregio da Irma Maria Bazet.
Favoreceu o Colegio a instruglo feminine das classes mais abas-
tadas do Crato.
Uma das suas primeiras alunas, senio a primdira, foi uma cra-
tense, filha do coronel Antonio Luiz Alves Pequeno, Dona Naninha,
que depois se casou com o Dr. Antonio Pinto Barbosa Cordeiro, a
qual veio do Recife com as Irmls fundadoras.
A volta de 60 e de 70, alguns pais, no Crato, internaram suas
filhas no novo. educandirio, levando-as atW ali em penosissimas
viagens de cem l6guas a cavalo.
Entre esses pais, alm do coronel Antonio Luiz, recordamo-nos
do capitio Benedito da Silva Garrido, farmaceutico, do negociante
Joaquim Francisco de Arafjo Candeia, do capitao Jolo Vitorino
Gomes Leitao.
Tanto mais admirivel o que acab6mos de register. quanto,
no seculo passado, descuravam a instrunio da mulher em todo o
Brasil.
Lembremo-nos que no Rio de Janeiro, em 1816, existiam ape-
nas dois col6gios particulares para mogas, segundo Jean Baptiste
Debret em sua .
Informa ainda esse autor que
ras em 1815 se restringia, como antigambnte, a recitar preces de
cor e a calcular de mem6ria sem saber escrever nem fazer opera-
9Ses. Somente o trabalho de agulha ocupava os seus lazeres, pois
os demais cuidados relatives ao lar sao entregues sempre As escra-
vas. Os pais e maridos' favoreciam essa ignorancia a fim de des-
truir pela raiz os meios de correspondencia amorosa>>.
Cinquenta anos depois de Debret, em sua ,
em 1865 e 1866, assim se expressam Luiz Agassiz e Elisabeth Cary
Agassiz: lher; o nivel da instruaio dada nas escolas femininas 6 pouqufssimo


0 cARuMP


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92 IRINEU PINHEmO


elevado; mesmo nos pensionatos frequentados pelas filhas das
classes abastadas, todos os professors se queixam de que se reti-
ram as alunas justamente na idade em que a inteligencia comega a
se densenvolver>.
Mag esse descaso pela instrug~ o feminine vem de tempos
muito mais recuados.
Em suas < narra o Padre Sera-
fim Leite, S. J.: < se pensava ha instrucio das meninas. Em todo o caso dg-se o fato
extraordingrio de irem ter os indios com o Padre N6brega a pedir
que assim como havia padres para lhes educar os filhos, tamb4m
desejavam mulheres virtuosas para as filhas>.
Nfo dominava entire os nossos indigenas, ao que parece, o
preconceito de que o analfabetismo garantia a virtude das mulhe-
res. Seria esse preconceito de origem peninsular?
Corn as filhas do gentio, depois de educadas, queria N6brega
casassem os mogos doutrinados pelos jesuitas em seus coldgios.
Veja-se a carta que, de S. Vicente, l8e escreveu em 12 de Junho de
1561 ao P. Geral Diogo Lainez.
Trezentos anos depois, em 1865, reeditou-se no Amazonas o
epis6dio de N6brega.
Conta Elisabeth Agassiz que, uma manhb, se aproxima dela o
indio, em cuja cabana ela se hospedara, e perguntou se Ihe podia
dar a Rle io de jornal por que, disse, < dida .
Acrescentou depois: < eu Ihe pedia para levar milha filha, como criada, para Ihe ensinar
a ler e a escrever>.
Foi satisfeito o desejo do pobre indigena. Conseguiu a escrito-
ra que a menina f6sse admitida numa escola para Indios, em
Mangus.


Nao prevaleceu no Crato, como vimos, pelo menos entire certos
elements de sua sociedade, o prejuiso de que nio saber ler e es-
crever era um escudo da virtude das mulheres, mas estas, em sua
'maioria, em todo o Cariri, permaneceram ignorantes, em conse-
quencia de causes econ8micas que as impediam de estudar em For-
taleza.
Ate o comego do seculo present, impunha-se excessive recato
as mulheres, que passavam em casa quase t8da a sua vida. Nem
mesmo iam as lojas efetuar suas compras. Mandavam all as criadas
buscar as mercadorias de que precisavam, as examinavam, faziam


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IRNEU PINUHEMO~






0 CARIRI 93 -

voltar as portadoras a fim de pedirem aos lojistas abatimentos
quanto aos pregos, etc.
Mag nao 6 de admirar por que, em 1865 e 1866, no Rio de Ja-
neiro, < determinadas condig5es, sem provocar escandalo>. Leia-se Via-
gem ao Brasilb h. pouco citada.






RELIGIOSIDADE DO POVO DO CARIRI. EXCESSOS DES-
SA RELIGIOSIDADE. DANQA DE S. GONQALO. FANATIS-
MO E SUPERSTIQOES. ASSOMBRACOES.






Foi sempre muito religioso, inda hoje o 6, o povo do Cariri.
Vive, como todo o cearense, a apelar para a miseric6rdia divina, no
decurso de sua existEncia entremeada de 6pocas de fartura e felici-
dades e de mis6rias e morte.
Cite-se, aqui, um exemplo da f6 inabalAvel da mulher sertaneja.
Em quaisquer perigos, em moments, por exemplo, de gran-
des chuvas acompanhadas de relmrpagos e troves de estralo, cos-
tuma ela ajoelhar-se deante de seus humilimos registos de santos
e rezar o rosario apressado da Virgem da Conceiggo.
Em cada padre-nosso interroga A Virgem, assim: sestes que, quando eu estivesse na maior agonia e na maior afli-
gio, chamasse por V6s cento e cinquenta, vezes, e que eu haveria
de ser valida? Pois 6 chegada a ocasigo, minha Virgem da Con-
ceilo>.
Cor os dedos tremulos vai passando as ave-marias e dizendo:
.


Em toda a zona do Carirf, tamb6m nos sert5es circunvizinhos,
extremou-se a religiosidade popular. Justifiquemos nossa assergio:
NO Crato, hi mais de quarenta anos, uma distinta pessoa da terra
fez o enterro de um seu filhinho ao som da banda de mtisica local
e ao estourar de foguetes, o cadAverzinho rigido, de p6, num andor
seguro por quatro homes, todo vestidinho de seda, em traje de S.
Jos6, as maos postal, as faces tingidas com papel de arrebique,
assim chamado um papel vermelho, que se comprava na praga do
Recife.
Atrts do andor os amigos dos pais, num singular prdstito que
atravessou as runs da cidade em meio A admiragio do povo aglo-
merado nas calgadas, ou a espiar nag portas e janelas das casas.
Antes do enterramento acima descrito, e depois dale, outros
se fizeram no Crato, em andores, alegremente.
Afirma Gilberto Freyre que a idealizacgo da crianga entire n6s,
especialmente nos sert5es, vem dos tempos da catequese jesuitica
no Brasil.
Os padres da Companhia de Jesus, assevera ale, atenuar entire os indios o mau efeito do aumento da mortalidade








infantil que se seguiu ao contacto ou intercurso em condig6es dis-
genicas entire duas ragas, tudo fizeram para enfeitar ou embelezar
a morte da crianga. Nio era nenhum pecador que morria, mas um
anjo inocente que Nosso Senhor chamava para si.
Assim pehsam, hoje, muitos pais, que se regozijam por saber
que eles, os anjozinhos, voam ate Deus e 16, entire os resplendores
celestiais, vio rogar pelos que ficam na Terra escura e triste.
Sempre se ouviu dizer no Carirf que as criancinhas em bom trmpo>>.

Se as-vezes, como se viu acima, extremava-se a religiosidade
caririense, outras vezes degenerava em prAticas que atingiam as
raias da irreverencia.
Ate quase nossos .dias, festejaram S. Gongalo as populagoes
sertanejas corn dangas e cAnticos, a que nao presidia desej6vel
cunho de moralidade e respeito. Nesses festejos colaboraram, a
principio, os padres, especialmente os vigarios de freguesias.
Numa mesa, que servia de altar, enfeitada de flores, coberta
cor uma toalha, colocavam uma image do Santo, em frente A'
qual dangavam os devotos e entoavam, noites a fio, versos iguais ou
semelhantes a estes:

< Hoje tornou a dizer:
Quem se pegasse com. le,
ele havera de valer.
Sao Gongalo e ourives,
fle fez um crucifixo
Para botar no pescogo
Da Virgem Nossa Senhora.
Sao Gongalo de Amarante
Feito de pau d'alfavaca,
Quem nao ter rede, nem cama
Dorme no couro de vaca.
Sao Gongalo 6 um santo
Urn santo mui poderoso,
Tern uma estrela na testa,
Outra na magi do rosto
Sio Gonsalo de Amarante,
Casamenteiro das mogas,
Casai v6s a mir primeiro
Pr'a depois casar as outras.


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0 CARIRI







`- g6 ---- ZRIEUPIHE1-


Tudo isso ao som de uma viola e de um tambor, cujo eco se
prolongava ao long. Em 1763, o Bispo de Pernambuco, Dom
Francisco Xavier Aranha, proibiu que os padres assistissem a esses
festejos, ou para eles cooperassem, ameagando-os de suspensgo de
suas ordens, se reincidissem.
Quanto aos leigos, homes e mulheres, mandou que < de excomunh9o maior e de cem patacas para as obras do aljube
n o fizessem em suas moradas dangas, origem de muitas ofensas a Deus.
Mas passou o Bispo, passaram os padres a quem este se diri-
giu, e as dangas, conforme se disse hA pouco, vieram ate 6pocas
relativamente bem pr6ximas de n6s.
*0*

Nas populagoes caririenses dominou, e ainda domina em me-
nor tomo, o fanatismo e a supersticgo.
Em alguns municfpios companhias de penitentes, por fanatis-
mo, se flagelam A noite corn disciplines de ferro, As portas de cape-
linhas ou em frente dos cemiterios dos povoados.
Entire as superstig6es, que sio numerosissimas, registem-se
duas significativas.
Nunca resolveram os governs brasileiros, no Imperio e na Re-
pfiblica, o problema das secas no nordeste de nossa PAtria, nem
mesmo, pode dizer-se, conseguiram minorar-lhes, de modo conside-
ravel, os nefastos efeitos.
Falharam, portanto, ate hoje, os poderes terrestres.
Desenganadas, recorreram as populagSes rurais para as potesta-
des celestiais.
Quando, por exemplo, na quadra invernosa nao caem, logo, chu-
vas, ou rareiam, costumam nossos matutos furtar de uma casa vizi-
nha e amiga a imagem de um santo (de preferEncia S. Jos6) e s6
restitui-la depois de acabado o inverno e assegurada a colheita.
Se, por6m, houver s8ca, ou mesmo repiquete (seca atenuada),
continuara preso e oculto o santo at6 o fim do inverno seguinte.
Levam-no, entio, A casa de onde o tiraram, num andor, em
procissao, a cantar benditos, A frente do cortejo algum -a soltar
foguetes, na cauda mdsicas de couro com seus pifaros e zabum-
bas, cujos rataplans quebram o silencio das noites sertanejas. In-
versamente, h6 os que desejam seca a fim de que subam em for-
midiveis proporqces o prego dos generous alimeriticios guardados em
seus caix6es de cedro, em seus pai6is, etc. S5o as especularores sem
alma, os aventureiros, como os chamam.
De primeiro, (penso que ainda assim se faz muito em sigilo)
enterravam eles dentro de seu arroz, farinha e feijao a estAtua de
Santo Ant6nio, de cabega para baixo, e s6 a retiravam depois de
perdidas todas as plantag5es.


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IRINEU PINHEIRO








0 ARRI- 7


Cohsidera nosso povo Santo Ant6nio um dos santos de maior
prestigio da c6rte celeste, mas alguns se atrevem a trata-lo, como
vimos, corn imensa irreverencia, querendo forga-lo ate a fazer mi-
lagres, em proveito deles e em detrimento de toda a coletividade.
No nosso interior levam-se em redes para o cemit6rio da loca-
lidade mais pr6xima os que f'alecem fora das povoag5es, um ato de
caridade que o sertanejo cumpre de boa mente, por inc8modas que
sejam as circunstAncias da ocasiio.
Quando o defunto e muito pesado, agoitam-n'o, as vezes, na
convic'go de que o peso procede dos pecados do morto.
Faz-se mister castigar-lhe o corpo para alivid-lo das culpas
cometidag em vida. Uma feita, contaram-me, conduziam um cada-
ver do sitio Buriti.para a vila de Santana do Cariri, agora Santa-
n6pole, distant dali cerca de nove quil6metros.
Vergavam os que seguravam as duas pontas do pau da rede
ao peso excessive desta.
De quando em quando paravam anelantes para que se reve-
zassem os carregadores.
Em certo lugar do trajeto fez alto o s6quito, tiraram do muto
circundante ramos de arvores e surraram o finado impiedosamente.
Garantiu o informant que as cipoadas, como sempre, torna-
ram leve o corpo que logo foi transportado at6 a igreja e o cemit&rio
de Santana.

Desde minha meninice, h6 ji longos anos, conhego na fazenda
Ponta da Serra, municipio de Aurora, uma pequena cruz de ma-
deira, cercada de pedras, A beira da estrada. Ao passarem por ela,
tiram, reverentes, alguns viajantes seu chap6u de palha de carnau-
ba ou de couro, outros param, abaixam-se, apanham uma pedra do
taboleiro e a levam, pondo-a ao lado ou em cima das que formam
o monticulo de ao p6 da cruz, rezando por alma do que all morreu,
talvez de repente, talvez de desgraga.
Qual a origem da cruzinha, como a chamam?
Contam os velhos das redondezas que, h6 mais de um seculo,
um padre de nome Carcard se refugiou, por motives ignorados, se-
guido de um cabra que servia de pagem, num socavao de serra co-
nhecido por Saco dos Macacos, bem em frente da cruz que, de-
pois, a piedade haveria de erguer A margem do caminho.
Notou o companheiro do padre que este, nos alforjes de couro
que trouxera por baixo da capa de sua sela, guardava um tesouro:
moedas de prata e de ouro que reluziam, convidando-o ao crime,
irresistivelmente.
Um dia, acharam ambos um canudo, abelha silvestre comum
em nossos sert6es.
Deu por terra o pagem, a machado, cor o pau onde se arran-


0 CARIRI


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IRINEU PINHEIRO


chara a abelha, abriu bem o 6co em que estavam os favos de mel,
tiraram-nos os dois corn as mios, lambuzando-as, e os chuparam,
pondo fora a cera.
Em dado moment, veio ao cabra, que era de mas entranhas, a
tentagio de matar e roubar o desavisado sacerdote. Num descuido
d8ste, abateu-o por trAs o malvado cor machadadas na cabeqa,
violentamente, arrebentando-lhe os ossos do crAneo, fazendo-lhe sal-
tar os miolos que se misturaram cor os cabelos.
Enterrou o corpo numa cova que le mesmo cavou, s8bre a qual
fez uma fogueira, cujas chamas alumiaram, durante horas, aquele
sitio ermo e sinistro.
Algum tempo depois, descobriram o crime e puniram o culpado.
No lugar da cruz plantada em homenagem do assassinado, con-
tou-me o velho Marcos, vaqueiro da Ponta da Serra, ter ouvido
certa madrugada, ao passar por ali, conversas em voz alta e risa-
das que Ihe arrepiaram a pele e erigaram os cabelos.
Agoitou e esporeou o burro em que montava ate desaparece-
rem atr6s de si aqueles ruidos misteriosos.
Houve quem visse, tamb6m, e hA quem diga ainda ver, do lado
do Saco dos Macacos, de noite, uma luz muito bonita e levemente
azulada, a andar de um lado para outro, luz que denominam to
diamante>.
I a alma do padre, diz o sertanejo a benzer-se devotamente,
e a recitar sua , seu ou seu < Deus Padre>, em intenfio do que mataram, hi dezenas de lustros,
b arbaramente, sem que, A hora extrema, Ihe f8ssem perdoados os
pecados.
Isso e o que conta a tradiqco, transmitida de pais a filhos, ao
clario da lua cheia, no terreiro das fazendas sertanejas.
Mas eu sei.que o padre assassinado no Saco dos Macacos, na
serra dos Beijfis ngo se chamava Carcari, mag Carlos Jose dos
Santos Pereira de Alencar, filho de dona Barbara Pereira de Alen-
car, a heroina de 1817, irmao de Tristao Goncalves de Alencar Ara-
ripe, president da Confederagio do Equador, e que o crime ocorri-
do em 1824, no tempo da ConfederagSo, se prendeu nio a roubo
mas a motives de ordem political, por se ter o desditoso sacerdote,
solidArio com seu irmlo, < na expressio de um de nossos cronistas.


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