• TABLE OF CONTENTS
HIDE
 Front Cover
 Half Title
 Title Page
 Dedication
 Prólogo
 Poesias diversas
 Devaneios
 Sonetos
 Humorismo
 Table of Contents
 Corrigenda














Group Title: Flores singelas : versos de alem-mar
Title: Flores singelas
CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00072127/00001
 Material Information
Title: Flores singelas versos de alâem-mar
Physical Description: 104 p. : ill. ; 20 cm.
Language: Portuguese
Creator: Oliveira, Germano Pais de
Publisher: Oliveira :
Depositâaria, Coimbra Editora
Place of Publication: Coimbra
Publication Date: 1936
 Subjects
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: Germano Pais de Oliveira.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00072127
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 36871869

Table of Contents
    Front Cover
        Page 4
    Half Title
        Page 5
        Page 6
    Title Page
        Page 7
        Page 8
    Dedication
        Page 9
        Page 10
        Page 11
        Page 12
    Prólogo
        Page 13
        Page 14
    Poesias diversas
        Page 15
        Page 16
        Flores singelas
            Page 17
            Page 18
            Page 19
            Page 20
        O natal de cristo
            Page 21
            Page 22
            Page 23
            Page 24
        O cometa de Halley
            Page 25
            Page 26
            Page 27
            Page 28
        João das ondas
            Page 29
            Page 30
            Page 31
            Page 32
        Umas visita à minha terra
            Page 33
            Page 34
            Page 35
            Page 36
            Page 37
            Page 38
            Page 39
            Page 40
    Devaneios
        Page 41
        Page 42
        Uma linda moleira
            Page 43
            Page 44
        Idílio
            Page 45
            Page 46
        Mas não sei a sua graça
            Page 47
            Page 48
        Diálogo
            Page 49
            Page 50
        Mendigo
            Page 51
        Beira alta
            Page 52
        Quadras
            Page 53
            Page 54
            Page 55
            Page 56
        Canção dum ferreiro português
            Page 57
            Page 58
        O Lundurila
            Page 59
            Page 60
            Page 61
            Page 62
            Page 63
            Page 64
        Tradução das palavras africanas
            Page 65
            Page 66
    Sonetos
        Page 67
        Page 68
        Roma pagã
            Page 69
            Page 70
        Num baile
            Page 71
            Page 72
        Num dia de noivado
            Page 73
            Page 74
        Uns lindos olhos
            Page 75
            Page 76
        Recordando...
            Page 77
            Page 78
        De longe...
            Page 79
            Page 80
        Uma carta
            Page 81
            Page 82
        Um sonho
            Page 83
            Page 84
        Abnegação
            Page 85
            Page 86
        Ilusão desfeita
            Page 87
            Page 88
    Humorismo
        Page 89
        Page 90
        "O Corisco"
            Page 91
            Page 92
        Patriotismo...
            Page 93
            Page 94
        Luanda, terra de encantos...
            Page 95
            Page 96
        Faz hoje anos um pardal...
            Page 97
            Page 98
        Gazetilha
            Page 99
            Page 100
            Page 101
            Page 102
    Table of Contents
        Page 103
        Page 104
    Corrigenda
        Page 105
        Page 107
Full Text
(iermano Pais de Oliveira


Singelas


Versos
de tll6m-Mar


DepositAria: Colmbra Editora, L.da
Colmbra. 1936
















Flores singelas
Versos de Alim-Mar












EDICAO DO AUTOR
Direitos reservados
em conformidade com a Lei


Oflolas grtficas da COIMBRA EDITORA, I.de-1935





OERMANO PAIS DE OLIVEIRA


fflores

sin elas

Versos de Al6m-Mar








DEPOSiTARIA
COIMBRA EDITOR, L.IA
ARCO D'ALMUDINA, --R. E'RRSIRA BORGES, 73
COIMBRA
















A

mem6ria de meus pais



A

mem6ria
de

minha mulher


I I


II _











Aos
meus ex-colegas
do
Banco Nacional Ultramarino



Aos
meus colegas
do
Banco de Angola


A
I. Trigo da Mota












PROLOGO


OM o enfusiasmo prdprio dos meus 28
anos, escrevi pouco tempo depois da
minha chegada a Luanda, a gazetilha que se
encontra a pdginas 99 deste livro, e outras
que, no rodar do tempo, desapareceram cor
os jornais aonde foram publicadas. Porim,
devido ao clima depauperador dos trdpicos, a
outra idade e a vdrios desgostos que fizeram
sofrer dolorosamente a minha alma, senfi-me
urn oufro eu, no tim de uma dezena de anos
de permangncia em Africa. 0 meu enfusiasmo
de outros tempos desapareceu; ja nao me
apetecia fazer gaze/ilhas; e apoderou-se de
mim uma profunda nostalgia, que me fez
padecer durante alguns anos!...
Devido talvez B grande transforma!ao que
se operou em mim, senti-me por fim mais
suavemente inspirado pelas musas e, nas
poucas horas que me ficavam livres do meu
servigo professional, embora mui/as vezes
saturadissimo de algarismos,-fiz versos.







14 Pr6logo


Nao era minha infencgo fazer urn livro;
mas, animado por alguns amigos, coligi o que
mais me agradou entre o que publiquei em
vdrios jornais de Luanda; e aqui ficam arqui-
vados, nesfe pequeno volume, alguns pedagos
da minha alma!...
Foi &sle livro anunciado, hd mais de 6 anos,
em alguns jornais de Angola; mas, devido a
molivos alheios a minha vonlade, sd agora
pode ser publicado. 0 seu filulo seria sim-
plesmente Flores singelas, conform tem sido
anunciado desde 1929; mas sabendo agora
que apareceu outro com a mesma denomina-
gjo em 1933, da autoria de Frade Correia,
adicionei a Flores singelas o sub-titulo 'Ver-
sos de Aldm-Mar,; ficando ber assim, ndo
s6 pelo motivo apontado como tambdm pelo
facto de qudsi 16das as minhas poesias terem
sido composfas em Luanda e visarem casos
de Africa.
Coimbra, 8 de ulho de 1936.


GERMANO PAIS DE OLIVEIRA.

















PRIMEIRA PARTE

Poesias diversas















Flores singelas




Num simples canteiro
Eu tenho martirios,
Suspiros, amores,
Saiidades e lirios.
Leitor:-queres ver?
E, como essas flores
E as simples boninas
Das verdes campinas,
Sao simples os versos
Que b frente irds ler.















O Natal de Cristo




A Ex.ma Senhora D. 0. S.


Repicam sinos na Igreja
Vai a festa comepar;
Jd se encontra em cada lar
Qudsi pronta a consoada.
Os sinos vao repicando
E o povo cor devogao,
Vai rezar uma oradao
Ante a Familia Sagrada.






22 Flores singelas Versos de Aldm-Mar


A Virgem mostra o menino
Numas palhinhas deitado;
E S. Jose deslumbrado
Levanta as maos para os Ciust...
Ainda os sinos repicam
E as crianCas inocentes
V~o alegres, sorridentes,
Beijar o menino Deus.



Por fim, na festa do lar,
Essas crianCas ridentes
Esperam lindos presents
Enviados por Jesus...
A ceia vem para a mesa
E segue sempre animada,
Ati que chegue a alvorada
Do dia de maior luzIl







o Natal de Cristo






6 linda a festa e bem linda,
Mas, se um parent faltou,
Uma 16grima rolou
Cor tristeza em mais de um rosto;
Vindo-nos pois afirmar
Essa Idgrima sentida,
Que por nosso mal, na vida,
cNo hA prazer sem desg6stol...


Luanda, Dezembro de 1929.

















0 cometa de Halley




Das etdreas regi6es
A terra emfim foi chegado
0 cometa tao falado
Por sAbios e por plebeus.
Alva e tdnue e sua cauda
Qual viu branco virginal;
JS tern fama universal,
P o encanto 16 dos cdust






26 Flores singelas-Versos de Alem-Mar


Passou por Venus, sereno,
tsse pdlido viandante,
E ela, dengue, e mais galante,
De perto o cumprimentou.
A lua foi esperd-lo
De face semivelada,
Qual monja imaculada
Que castidade jurou.



Mas nao foi bem recebido
Pela terra,-ingrato mundot
Pois chamou-lhe vagabundo
E condutor de veneno.
E, se a geito o apanhasse,
0 pregaria na Cruz,
Como ela fez a Jesus,
Ao bondoso Nazarenot...






0 cometa de Halley 27


Mas passou, e confiado
No poder da sua luz,
Segue a estrada que o conduz
Dum mundo para outro mundol
As siderais companheiras
Em festa o vdo esperando,
E Ele andando, sempre andando,
Sem descansar um segundot...



Esti sempre aberto aos homes
O livro da Natureza,
Ilustrado, urna beleza,
Feito por mio delicada.
Mas, escrito em lingua estranha,
Nao ha quem o saiba ler;
Nile s6 se podem ver
As figures, e mais nadat...


Luanda, Junho de 1910.


















Joao das Ondas





Poesia composta expressamente para a
Secqio de Luanda do Real Club Naval de
Lisboa e recitada pelo autor na Sessdo Solene
que teve lugar nesse Club, em Luanda, em
31 de Dezembro de 1909.


Vamos ao mar, ao mar que nos convida,
E dos Casinos deixe-se a beleza;
Ao mar que aos fracos dd vigor e vida,
Ao mar que 8 P6tria deu maior grandeza!t


Joao das Ondas era resolute,
Afdvel e ordeiro.
Tinha amor ao desporto, e um bom amigo
Em cada companheiro.







50 Flores singelas Versos de Alem-Mar


Todos os dias santos e domingos,
De tarde, a qualquer hora,
No mar se via alegre, governando
O lindo bote .


Mas, numa brusca tarde de Janeiro,
Joio nao passeava;
Olhava atento um torreio de niivens
Que ao long se elevaval


Depois ddsse giganteu torreio
Mais outros apareceml
O Sol jd nao se vet, sibila o ventol
As ondas embravecemt ...


E Joio, nesta altura diz:-Amigos;
VWdes os pescadores
Lutando alim, co'a tempestade? oh! vamost
Salvemo-los, Senhorest!








Jo das Ondas






E, nisto, saltam quatro remadores
Para o Escaler (Aurora>.
Joao vai para o leme; e o barco larga,
Veloz, de foz em forat


Sinistramente cruzam os relampagos
Nos ares tenebrosost
Ribomba horrisono o trovio, e as aves
DWo gritos dolorosost...


Joao arrisca a sua pr6pria vida
Para vidas salvar!
Em terra, muita genta aflita corre,
Gritando, 6 beira-mar!...


Aqui, chora o irmio; all, o amigo;
E ajoelhada, alem,
Corn seu filhinho ao colo, a Deus faz preces
A esp6sa triste,-a mael...








S Flores singelas -Versos de Atlm-Mar






A tempestade abranda; o Aurorat chega;
Os ndufragos salvou!
E Joao, abrauando oa companheiros,
De novo os exortou:


Vamos ao mar, ao mar que nos convida,
E dos Casinos deixe-se a beleza;
Ao mar que aos fracos da vigor e vida,
Ao mar que & Pdtria deu maior grandezatt


Luanda, Dezembro de 1909.



















Uma visit A minha terra




Ao Ordmio BeirSo, de Luanda.


Ausente e long eu estava
Da minha aldeia querida,
Quando me foi remetida
Uma missiva em que li:
s home; para soldado
lste ano f6ste apontado,
E vais ser inspeccionado;
Sem demora, vem aqui.







54 Flores singelas -Versos de AlUm-Mar


Li cor tristeza a noticia
Que essa missiva me dava:
Ir h aldeia desejava
Mas tinha aversao i guerrat...
Tendo horror b soldadesca
Fiquei triste, esmoreci;
Mas num pronto resolve
Partir para a minha terra.



Silvou a locomotive
E em march o comb6io p6s,
Que, cor rapidez transp6s
O tiinel grande em Lisboa.
De velocidade aumenta;
Passa serras, galga pontes,
Cortando vales e montes
Nio corre: o comb6io voat







Uma visit d minha terra 55


Jd long estava Lisboa,
Passada era noite inteira,
Ji via terras da Beira
Luso o comb6io deixou.
Passou mais tres estafVes,
Chegou 6 de Oliveirinha,
E cor alegria minha
Deu dois gritos e... parou.







56 Flores singelas-Versos de Alem-Mar


Nesta pequena estaqdo
Apenas eu me apeei,
Vi meus pais e os enleei
Num abraco prolongadot
Chegado era ao lar paterno,
Grande foi minha alegria; .
Pois id seis anos havia
Que os meus eu tinha deixado.



Comegava a primavera;
E por isso os lavradores,
Entregues aos seus labores
Nos verdes campos andavam.
Pouca mais gente se via
AlIm de alegres velhinhos
Que entretinham seus netinhos
Emquanto os pais trabalhavam...






Uma visila d minha terra 57







Feitos alguns cumprimentos,
Tambim da aldeia sai
E descuidado segui,
Atravessando os outeiros...
-Jd via glestas floridas,
Via o rosmano dos montes,
E em baixo, em volta das fontes,
Lfrios roxos em canteiros.



Humildes urzes em floor
Tambim eu vi nas colinas,
No prado vejo as boninas
Formando lindos matizesl...
No arvoredo copado,
Ao abrigo dos raminhos,
Os alegres passarinhos
A vida passam felizest...







88 Flores singelas -Versos de Aldm-Mar


Escondeu-se o sol no monte,
Era terminado o dia;
E em modest moradia
Fui convidado a ficar.
Adormeci sem cuidados;
Mas, muito cedo, o rumor
Do carro dum lavrador,
Obrigou-me a despertar.



Nesse carro de lavoura,
Vinha o belo trovador,,
Dotado de bom humor;
Era um bom amigo meut
Velho Parricha da Lhe chamava o rapazio.
A cantar ao desafio
Nunca ninguim o venceut...






VUra isiia i mnhb tIEr
- -"""il ^





O bom Parricha passou
De vara em punho, content,
Picando os bois brandamente,
Passou na estreita canada.
Entretanto nos pomares
Vio cantando os passarinhos,
Saiidando junto aos seus ninhos
A formosa madrugadat ...



.O Sol, sustento da vida,
Galga por fim o horizonte,
Comeqando nova lida
No verde prado e no monte.

E I vio volvendo a terra
O arado do lavrador
E a enxada do cavador,







1.oreS singelas --Verss del






-- o tempo das sementeirast
Os melros tambim trabalham
A procura dos bichinhos
Que hao-de levar aos seus ninhos,
Escondidos nas balseiras...



Contentes, de sacho ao ombro,
Vio passando as raparigas
A cantar lindas cantigas
Entre as frondosas devesas.
Com atraentes meneios
Em tamanquinhas airosas,
E faces da c6r das rosas,
-Sao lindas as camponesaslt


Luanda, 1954.














DEVANEIOS


















Uma linda moleira


A Ninguim.

Desejava, moleirinha,
Ir vWr de perto o mofnho
Que te branqueia a sainha;
Mas eu nio sei o caminho...


Queria, linda moleira,
Ouvir das m6s o rumor
E passar a noite inteira
Junto de ti, meu amort








44 Flores singelas -Versos de Aldm-Mar




E sendo emfim satisfeito,
Linda flor, o meu desejo,
Hei-de cingir-te a meu peito
E dar-te o primeiro beijo...


Beira Alta--Oliveirinha, Agbsto de 1928.



















Idilio




A uma j6vem de cabelos louros.


Inda bate cor vigor
No meu peito, o coraqco;
E por isso o meu amor
E firme, tern duraqaot


Os teus cabelos sao ouro
Que Deus te quis ofertar;
Deixa-me pois adorar,
Virgem-bela, esse tesouro..








46 Flores singelas -Versou de Atim-Mar




Eu jA brinquei cor Cupido
Tirei-lhe as setas que dle tinha.
Mas brincando fui ferido,
No peito, por culpa minhat ...



Luanda, Fevereiro de 1932.



















Mas nao sei a sua graqa...

*
A Ningudm.

O que sois, sei eu dizer:
Sois qual esquiva pombinha
Que no prado anda sbzinha,
Nao se deixando prender...


Tambim sei que por mim passa;
Tiquetique 2 mesma hora,
Algudm que minha alma adora,
Mas n~o sei a sua graga...


Luanda, Novembro de 1929.



















Dialogo




A prop6sito de um concurso de beleza
levado a efeito a bordo do vapor Nyassa,
quando da sua viagem de Lisboa para Africa,
em Janeiro de 1929.


-Fui hoje ao jardim, cedinho,
Escolher algumas rosas;
Mas, sendo t6das formosas,
De t6das fiz um raminho...


-Aonde serd o jardim
Que tfo lindas rosas tem?
Desejava-o para mim,
Nao deixando ir d1 ninguimt










50 Flores singelas -Versos de Alm-Mar



-Eu vos diria mas hd
Mistirio nesse jardim,
Trata dMle um Querubim
Que t6da a graga Ihe ddl...


-EntSo d&-me, por favor,
Alguns suspiros, se tern,
Para juntar a uma floor
Que hd pouco me deu alguim...


Bordo do Nyassa, Janeiro de 1929.



















Mendigo


Nlo zombes por te pedir
A compaixao ou carinho,
Neste escabroso caminho
Tendo vasia a sacola;
Nao zombes, mulher, nso rias
Suspende a tua crueza,
Ji chega, para tristeza,
Ser despedido sem esmolat...


Luanda, I de Janeiro de 190.


















Beira Alta






HA na Beira lindas flores;
Na Beira ha terras de encantos,
Costumes simples e santos.
A Beira e um iardim de amorest ..


Oliveirinha, 1928.



















Quadras


Nao acendeste a fogueira,
Dizendo:--Nao tenho jeito,.
Mas, por simples brincadeira,
Incendiaste o meu peito...


Tres alcachofras queimei
De noite, no meu jardim;
E nio floriramt Ji sei
Que nio pensas mais em mimt...







54 Flores singelas-- Versos de Aldm-Mar


Eu ji brinquei cor Cupido
No dia de S. Joao;
Mas feriu-me, o atrevido,
Gravemente o coraqao!


I tao belo o teu olhar
Inocentinha pastora,
Que faz por vezes lembrar
A Virgem Nossa Senhora...


Se alguim me disser:- Visando um pobre inocente,
Respondo:-V6s sois descrentet
Nao morreu, foi para o ceut


Ber feliz i quem merega
Ter um filhinho nos ciusl
Teri junto a Deus quem pepa
Perdao dos pecados seus...







Quadras 55







Faz anos?-Nao acho graqa;
Isto por vdrias razoes...
O tempo 6 niivem que passa
Por cima das ilusOes!...


O senhor meu namorado
36 quere beijos em jejum;
Deu-me seis, nlo del nenhum,
E ficou muito obrigadot...


A saiidade, irma da ausdncia,
E filha do cbem-me-quer*,
Nao encontrou resid&ncia
No teu coraiio, mulhert...

















Cangio
dum ferreiro portugu^s




Aos trabalhadores da minha terra.

--Estimo a foria e o malho,
Sou pobre e vivo content;
Quem e livre em seu trabalho
Passa a vida alegremente.


Inda hi artists sem saldrio,
Al tende deles compaixio.
Que a m6quina ajude o operArio,
Mas que nao Ihe tire o paot...







58 Flores singelas-- Versos de Aldm-Mar




-Ndo cubipo o teu dinheiro;
Eu s6 pretend, burgues,
Um pequenino mealheiro
De auxilio na invalidez.


Mantenho a minha cazinha,
Tenho prole, r meu dever;
Cor a minha mulherzinha
Viverei ati morrert


NMot nao enjeito os filhinhost...
-Alegria do meu lar-
Corn verdadeiros carinhos
Livremente hei-de os criar.


As avezinhas do ceu
Tambbm criam seus filhinhos
Cor amor tratam dos ninhos
-Cada casal tem o seu!


Beira Alta-Oliveirinha, Julho de 1956.











O Lundurila *)



A poetisa Lfdia da Fonseca.

Ld no sertao Africano
Ouvi coisas de pasmar;
E e do folclore Angolano
O que a seguir vou contar:


Existe ao pd de Cambamba
Urn morro de grande altura,
Onde encontrou sepultura
A Rainha do sertao!...
Morro-Esfinge, fabuloso,
Deus do Encoge-o primitive.
Mas dizem que 6 vingativo
E que tem mau coragao...


(*) Veja a seguir a este conto a tradug~o das pala-
vras africanas.






60 Flores singelas Versos de Al m-Mar







Morro-Esfinge, o Lundurila,
Deus do povo e das montanhas,
E tern nas suas entranhas (*)
Mesa farta e variada.
Hd 1I finas iguarias;
Mas a donzela que entrar
E da muamba abusar
Ou more ou fica encantadat...


Morro-Esfinge, fabuloso,
Que dizem ser vingativo,
Mas que 6 sempre compassivo
Para quem bem "o tratar...
Existe ao pd de Cambamba.
Quem 16 f6r render-lhe preito,
E que Ihe guard respeito,
Tern dle o que desejar:


(*) Uma caverna insond6vel.






0 Lundurila 61


DA fO6ras ao preto umbaco,
A preta estdril d6 filhos,
Aos velhos da bor tabaco
E as donzelas dd vidrilhos.


Hipnotiza o jacarg,
Salva as crianqas do azar;
Aos Sobas da bom cafi
E palmeiras a fartarl


Dd mangas as raparigas,
Aos rapazes mendubi,
Afugenta o cazumbi,
D6 esteiras a quem nio tern.
Intima o rio a dar peixe
As pretas que o vao pedir,
E o palmar a produzir
Muitos cachos de dendem.







62 Flores singelas Versos de Aldm-Mar


Tudo faz e tudo dd,
Recebe bem t6da a gente;
Em exposiCio permanent
Tem frutas pouco vulgares.
-Deus, amigo do seu povo,
Deseja-lhe boa sorte;
E persegue ate ) morte
Os horriferos Quinzares.


Aos gentios tudo dd
O seu Deus, o Lundurila,
Mas aos brancos tem quizila,
E faze-os desanimar.
-Lanpa sobre gles o Quichimbe
Que destr6i as planta6es,
E cor violentos tuf6es
As casas faz desabart...







0 Lundurtla 65


Porque nio gosta dos brancos,
H6-de haver sempre contendat...
E com isto find a lenda
Do famoso Lundurila.
-Entre Quibaxe e Quitexe,
Hd-de v&-lo o caminheiro,
A vigiar, sobranceiro,
O hist6rico Amboilat (*)


Luanda, Novembro de 1935.







(*) Dembo Amboila, onde ha 270 anos foi derro-
tado pelos portugueses um poderoso exercito de 100.000
homes congolenses, comandados superiormente pelo rei
do Congo D. Ant6nio x.
Os portugueses e angolenses fiNis eram apenas
6.000, sob o comando superior do famoso cabo de guerra
Luiz Lopes de Sequeira.






N

















TraduqAo das palavras africanas



Lundurila -Deus do Encoge, segundo a lenda.

Muamba Cozinhado muito apreclado pelos africanos.

Umbaco -Impotente.

Cazumbi -Alma penada.

Manga Fruta africana.

Dendem --Fruto da palmeira que produz o 61eo de
palma.

Quinzar Antropdfago.

Quichimbe- Trovoada; tempestade.


















SEGUNDA PART

Sonetos


















Roma paga





6 medonho o alarido dos romanos
No grande Circo. Mas, serenamente,
Urn hino entoam calmo, em voz dolente,
Muitos Cristaos nos antros dos profanos...


Venham as ferast-gritam os mundanos.
E a um sinal do Cisar impudente,
Aos leoes arremessam cruelmente
As vitimas das iras dos tiranos!...








70 Flores singelas- Versos de Aldm-Mar



Assim morrem os mArtires da idea
Sacrossanta, prigada por Jesus
Aos povos mais humildes da Judeia...


--E tambdm tle pereceu na Cruzt...
Mas Roma estremeceu! Nero baqueia,
A luz da RedenClo; -bendita Luztt


Luanda, 1915.


















Num bailey


Tangem melodiosos violinos.
As damas, no salao, as mais formosas -
Volteiam em requebros, donairosas,
Lembrando velhos usos levantinos...


Jorram os vinhos, capitosos, finos;
As iguarias sao das mais famosas.
Por fim, fazem-se juras amorosas
Perante uns seios nus, alabastrinost ..







72 Flores singetas -Versos de Aldm-Mar




Ai! como rosa branca perfumada
Ao tremedal imundo arremessada,
Mulher mundana, eu vi-te sem defesat...



O bailey terminou, reinando a orgia;
A luz ji se encontrava em agonia,
E fora despertava a naturezat...


Luanda, 1915.

















Num dia de noivado




Soneto composto expressamente para ser
recitado por sua filhinha Elvira, de 13 anos
de idade, no dia do casamento de D. Cacilda
Vieira, em Luanda.


Minha amiguinha: e hoje, ouvi dizer,
O dia mais feliz da sua vida;
Por isso venho alegre, convencida
De que serd bem grande o seu prazer!


Eu dou-lhe os parabens. E quero crer
Que Ihe sera suave a nova lida...
- Nunca a mulher se viu aborrecida
No cumprimento santo do dever.








74 Flores singelas-Versos de AlUm-Mar




A festa vai ser grande; e grande o dial
E grande tambem e minha alegria,
Por me ver entire boas criaturast



V6s, 6 noivos, sois bons e nobres de alma.
Deus vos di vida sorridente e calma
E longos anos cheios de venturastf


Luanda, 30 de Junho de 1918.


















Uns lindos olhos





Eu amo ocultamente, quasi a medo,
Uns olhos que sonhei honestos, vivos;
E eiibora os consider jd cativos,
86 a Deus eu confio o meu segredo.


A esses olhos lindos eu ja devo
A luz que falta aos meus, desvanecidos;
Por isso, quando os vejo distraidos,
Penso em beijd-los: mas... eu nao me atrevot








76 Flores singelas -Versos de Aldm-Mar




Nio quero perturba-lost Eu s6 peqo
Enternecidamente, qual mendigo,
A esses olhos lindos que estremepo,



A sua luz na send que prossigo.
E se tal grapa 6 certo que merego
Maior ventura rambim eu consigot..


Beira Alta--Oliveirinha, Julho de 1922.


















Recordando...


Cantando entrei na ardente mocidade;
Mas vendo um dia uma formosa fada,
De olhar suave e face nacarada,
Perdeu meu corag~o a liberdadel...


Nao e mulher terrena, Divindade;
Sorriso brando, cabeleira ondeada;
E foi-se para sempre a minha amada,
Voando livre pela imensidade!...







78 Flores singelds Versos de Aldm-Mar




Hoje, se vejo uma mulher formosa
De olhar suave e faces c8r de rosa,
- Embora o peito jI desalentado -



Cortejo-a como quem a quere amar;
E a minha alma ajoelha a solucar
Recordando aquele Anjo do passadot...


Luanda, 1 de AgOsto de 1916.


















De longe...


*


Passaram hoje muitas andorinhas,
Poisando s6bre a Igreja do Convento
Por virem jd cansadas, sem alento,
Algumas das mais novas, coitadinhast...


Seguiram para o sul, as pobrezinhas,
E muito para o sul,-- seu intento...
Fugindo B tempestade e ao frio vento,
Ld vao voando ao long as andorinhas,








80 Flores singelas--Versos de Aldm-Mar




Ld vAo alegremente em revoadat...
Eu, exilado aqui, -sorte daninhat
Quem me dera fazer essa jornada;



Voar, voar tambim qual andorinha,
E ir ver muito em segrido a minha amada,
Aquela que jurou ser sempre minhall


Minho, Outubro de 1928.



















Uma carta


*


Respond a tua carta. A derradeira,
Talvez, pelo que dizes... Sendo assim,
Nao pensards de-certo mais em mim;
FarAs do meu retrato uma fogueiral...


Obrigam-te a casar na quinta-feira?l
Hds-de ir interessante,--m Querubim!...
-Veu branco, sapatinhos de setim
E grinalda de flor de laranjeiral








82 Flores singelas -Versos de Alem-Mar




Eu desejava ir ver;- mas nao ireit
Meu coragdo de-certo nio consente...
E terminando, pois, s6 te direi



Que ficardo comigo eternamente
As saiidades do tempo em que brinquei,
-Do tempo em que brinc6mos livrementett


Luanda, 25 de laneiro de 1951.


















Urn sonho


Em certa noite tive um lindo sonho,
De fantasias mil,-sonho inocente.
Por fim, sentia a comoqao dolente
De horrenda luta, dum motim medonhot...


Quis ver, mas preso e dibil me senti.
A multidlo, nas ruas da cidade,
Assim gritava: Kviva a liberdade!,
Vival bem vinda sejat-respondi.








84 Flores singelas--Versos de Aldm-Mar



Proclama o demagogo, dum balcdo,
0 advento glorioso da igualdade;
Mas, dentro em pouco eu via, oht irrisao!


Uma figure horrenda!-era a cMaldadet...
Grandes letras de sangue em seu pendao,
Dizendo: ts6 g lei minha vontadell...,


















Abnega ao


Poetal existe numa sala, em frente
Da mesa aonde exergo o meu mister,
A fria estatueta da mulher
De que falaste apaixonadamente.


Existe no meu quarto, em minha mente,
E em t6da a parte emfim, onde eu estiver;
E agora com sorriso de quem quere
Fazer sofrer, sofrer, amargamentel...







86 Flores singelas Versos de AlUm-Mar




Meu amigol desejo-te ventura;
E a prova estf na minha abnegagBo.
Sera tua e nao minha essa figure!



Pois vou mandar gravar-lhe esta inscriCao:
4 esta a estatueta fria e dura,
Daquela que pertence a meu irmaotl


Luanda, 14 de Abril de 1954.

















IlusAo desfeita


*

A oaquim Faria, fornalista de Luanda.

A minha alma sonhando, embevecida,
Perante a nova idea que a seduz,
P6s de part a doutrina de Jesus
Quis ver novos costumes, nova vidal


Subiu b imensidade; e distraida
Adere ao demagogo, que a conduz,
Aonde foi escarnecida a Cruz,
Aonde o bom cristlo nio tem guarida...







88 Flores singelas Versos de Alm-Mar




Por fim, arrependida, pesarosa,
Observa corn tristeza a multidao,
-A manhi vai rompendo radiosa



Descobrindo os destropos do Embusteiros em leifos c6r de rosa,
E ccamaradas a dormir no chiott...


Luanda, 6 de Maio de 1954.


















TERCEIRA PATE

Humorisumuo
















"0 Corisco"



Soneto de apresentagio dum jornalzinho
humoristico cor nste titulo, publicado em
Luanda em 1916/1917.

JS vos foi dito em prosa burilada
0 fim cd de 0 Corisco pequenino;
Corn ile tudo vai andar num sino,
Vai ser constant e franca a gargalhada



Mas usard tambim o ferro em brasa,
Como cauterio forte, genuine,
Para o casmurro, ou quem se faga fino
E nio siga os preceitos c6 da casa ...







92 Flores singelas -Versos de Alem-Mar




Brincando, vai dar flm 8 pasmaceira
-Terrivel mal que afecta tanta gente...
Assim, desta arte pois, desta maneira,



O genro triste vai ficar content
Porque, a poder de grande chuchadeira
Se far, santa a sogra impertinentet...


Luanda, 26 de Outubro de 1916.














Patriotismo...


Disse o Costa patriot
HA dias, 16 na Ingombota,
Que nio hA patriotismot...
Num discurso acalorado,
Purioso o desalmado
Atirou-se ao feminismo.


Disse 0le: a mulher agora
Nao tem, como tinha outrora,
Patriotismo a valert...
Mas gritou do lado, alguim:
-Sim, Senhor, ainda tern,
Mas nao o da a conhecer...






94 Flores singelas -Versos de Al m-Mar


Eu dou razao ao s6r Costa,
Emfim, Ele 6 novo e gosta
Das coisas no seu lugar...
Mas quer seja assim quer nao,
Dou a minha opiniao:
-Quem o tem, deve-o mostrart...


Nos tempos de minha tia,
Por t6da a parte se via
Patriotismo de famal
Embora entao se gastassem
E por bom prego comprassem
Quintais de algoddo em rama!!


Luanda, 5 de Abril de 1951.


















Luanda, terra de encantos...


*

MOTE

Luanda, terra de encantos
Onde folgam condenados,
i Mixordeiros encarfados.


GLOSA

0 Graga id regressou,
Mosquitos jd nao ha tantos;
Luanda emfim remoCou,
Luanda, terra de encantos.






96 Flores singelas Versos de Alm-Mar


Jd ter pridios com braz6es
-A fingir, falsificados -
Terra de verdes limes
Onde folgam condenados.


Quanto a bruxas, bruxaria,
Diz a mulher dos quebrantos
Que Luanda, hoje em dia,
JI tem por todos os cantos ...


Diz o Soares dos Fiais,
Que, por mal dos seus pecados,
Hd-de haver cada vez mais
Mixordeiros encarfados.


Luanda, 1930.
















Faz hoje anos um pardal...





Fui hoje surpreendido,
Ao romper da madrugada,
Por enorme passarada
Em festa no meu quintal.
Preguntando a um pardalao
A razco dessa folia,
Respondeu cor alegria:
cFaz hoje anos um pardall...

















Gazetilha




Por diversos acontecimentos na Associa-
qio Beneficente dos Empregados do Com-r-
cio de Luanda, quando da sua fundaoio.

Hd dias li num journal
Um artigo furibundo.
Por causa da Associagdo,
la sendo o fim do mundot...



Por causa da presiddncia
Inda hd chinfrim-O diabot
- 1E trazem fogo no rabot






100 Flores singelas--Versos de AlUm-Mar


Vai-nos faltar o prestfgio
Dos s6cios mais ilustrados?l...
Cuidadot... tento na bolat...
Ficamos desapontadost. ..


Sabemos que ha muitos mdsicos
Descontentes, escamados,
Por nao serem recebidos
Na tuna dos Empregados.


Mas se tais pobres diabos
Tmr amor 6 sinfonia,
Que se apresentem no Carmo
Ao Padre Luiz Maria (*)





(*) C6nego Luiz Maria, exfmio professor de mdsica,
que conseguiu organizer em pouco tempo uma charanga
de pretos, na freguesia de N. S. do Carmo, em Luanda.







Gazetilha


*Para cd, vem de carrinho,
0 jornalista, .o letrado...
-Queremos na presidencia
Um diligente empregadot


Por agora temos dito;
Aguardamos novo assunto,
Nao gastaremos mais cera
cCom r ste ruim defuntot...


Luanda, Novembro de 1896.












INDICE


Pigs.
PR6LOGO .. ... .. 15

PRIMEIRA PARTE

Poesias diversas

Flores singelas .. .. . 17
0 natal de Cristo . 21
0 cometa de Halley .. .. ... 25
Jolo das Ondas ... .. ... 29
Uma visit a minha terra .. ... .. 55

Devanelos

Uma linda moleira . . 43
Idflio. ... ...... .. 45
Mas nao sei a sua graga . .. 47
Didlogo . .. 49
Mendigo .. ........ 51
Beira Alta .. .. ... ... 52
Quadras .. . .... 55
Canqio dum ferreiro portugues .... 57
0 Lundurila ... ... 59
TraduCgo das palavras africanas .. ... 65




University of Florida Home Page
© 2004 - 2010 University of Florida George A. Smathers Libraries.
All rights reserved.

Acceptable Use, Copyright, and Disclaimer Statement
Last updated October 10, 2010 - - mvs