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HIDE
 Front Cover
 Half Title
 Frontispiece
 Title Page
 Table of Contents
 Preface
 Homem de accao
 Administrador
 Intelectual
 Afectivo
 Nota final














Group Title: Mousinho : esboco para um retrato psicologico.
Title: Mousinho
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 Material Information
Title: Mousinho esbãoðco para um retrato psicolâogico
Physical Description: 80 p. : illus., ports. ; 22 cm.
Language: Portuguese
Creator: Parreira, Carlos
Publisher: Imprensa Nacional
Place of Publication: Lourenðco Marques
Publication Date: 1936
 Subjects
Genre: federal government publication   ( marcgt )
individual biography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
General Note: "Primeiramente publicado no documentâaria trimestral 'Moðcambique' n.os 7 e 8, ano II, 1936."
 Record Information
Bibliographic ID: UF00072119
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 07862229
lccn - 77253037

Table of Contents
    Front Cover
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    Half Title
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    Frontispiece
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    Afectivo
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Full Text

CAPJS b ROS ~ A


MOSINHIO


ES-BO OCO
PAR A
UM RETRA Y PFSI COLOGI: C


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MOUSINHO





























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MOUSINHO








ESBOCO PARA UM RETRATO
PSICOLOGICO


POR
CARLOS PARREIRA


IMPRENSA NATIONAL
LOURENCO MARQUES
1936







































F.DITAO
DO
GOV2RNO GERAL
DE MO0AMBIQUE


REPARTICAO CENTRAL DE ESTATfSTICA





















PREFACIO

0

0

0

0


Homem de Acqio

Administrador

Intelectual

Afectivo


NOTA FINAL













t


Major Mousinho de Albuquerque













PREF A CIO







11 MOUSINHO
Preficio











!*] M FIGURA de Mousinho impressionou-me sempre, desde muito
Snovo.
Seco, anguloso, 6sso-e-nervos, a mascara estridente
de energia, silhueta toda em impeto, num arco tenso de
decisgo, a estuar intranqiilidade, como que nostAlgica sempre de ambien-
tes purpdreos de refregas, ecoados de berros, de pragas, de ahns! an-
siosos de agonias vislumbrando vit6rias; olhos de terciopelo escuro, que
inicialmente fivessem a refrangencia branda dos que s6 veem na vida
estradas de Damasco, escaleiras azues, ligando sonho a outro sonho,
mas a que o espectAculo constant do perigo, o drapejar escalate da
aventura viessem a modificar a tinta extfaica, transmutando-a numa
substfncia estranha, rica, admiravel, mixto de asa e de min6rio, em
que o fulgor da pupila tinha um acento nitido, breve, imperative, de
comando.
Impressionou-me sempre.
Porque Mousinho, com o vidro do mon6culo a p6r a sua gota de
petulAncia, o seu fr6mito de requinte no grgo tostado da pele, esculpido
pelos s6is de Africa e a reverberaqao acre das campanhas nesse tom
de burel penitencial, s6bre-o-carrancudo, que Ihe dava A fisionomia uma
expressividade e um como que eterno de medalha; brusco e gentilhomem,







MOUSINHO 12
Prefacio











soldado e gran-principe, Mousinho nao era um valente A maneira
ret6rica, tal como a concepqao impostora das gravuras aleg6ricas: gran-
des bigodes pantafaqudos curvefeando a sua bravata de retr6s ao-de-cima
da b6ca; cabelos empastando s6bre dois dedos de testa, num desalinho
tempestuoso; o busto enorme, atochado, numa pl6tora luzidia, de con-
decoracqes; com uma das m5os poisando s6bre acess6rios de guerra
numa pernalta mesa burguesa, pot-au-feu, e a outra fazendo o gesto de
indicar a subentendidos trop6is de legionArios: Rapazes, 6 por all o
caminho que leva A eternidade da gl6ria! Segui-me e sereis grandes!
Nao era um mata-mouros de quinto acto. Era, por assim dizer, um
espiritualista do heroismo, um estatuArio-poeta da Acq5o.
Fardado, com a sua farda modest de capitAo de cavalaria I, tendo
a enfeitarem-lhe o peito apenas o cordao e as agulhetas regulamen-
tares, com
(diz um bi6grafo); vendo o retrato que tirou logo ap6s a capture do
Gungunhana,--nao se podia concluir que estava all o protagonista
duma das faqanhas de mais assombro, desde que o mundo 6 mundo,
mas simplesmente um official magro e esgalgado, a mirar a objectiva
cor o pensamento em que o fot6grafo o nao fa~a nem melhor nem
pior, mas assim mesmo, fal qual 6.







13 MOUSiNHO
Prefacio











Os jornais da minha infancia andaram cheios dos seus feifos, e
na Lisboa de 1897, na Lisboa amorAvel e provinciana, trescalando
honestamente a alfazema, na Lisboa com e rotativista em
political, lembro-me de que uma certa manha de Dezembro, encinzeirada
de aguaceiros, como todos os dezembros desse tempo, e com instan-
taneas amostras de sol, rompendo, ouro-doente em desgastes mendi-
gos de frio, de entire o pano feimoso das nuvens, o entusiasmo dos
meus poucos anos, a minha retentiva ca6tica de menino, sobreexcitada
pelas mil instigaqSes da aura colectiva, ovacional,--o viu passar, mon-
tado num cavalo branco, entire alaridos festejadores de povildu, vivas e
bandeiras, janelas coalhadas de gene, lengos brancos a acenar, senho-
ras batendo palmas e regimentos em continancia, chapdus altos e
bandas em tiracolo das corporagSes, plastrons e sobrecasacas resplan-
decendo dum jibilo alagador, em que nao havia bochecha de gordan-
chudo que f6sse ridicule.
Pelo testemunho dos que, jA pessoas grandes, puderam assistir
A apoteose magnifica, averiguo que Mousinho seguia, em meio
do crepitar das aclamag6es, um tudo-nada grave e solene, dessa
solenidade de boa estirpe, a refranger-se em bonhomia, sem rigidezes,
nem engongamentos, porque 6 a pedra de toque do orgulho, depurado







MOUSINHO 14
Prefficio











pelo crisol da modestia. O olhar num embaciamento ligeiro de me-
lancolia.
Porvenfura o seu espirito, em que fantas directrizes se contrariavam,
numa porfia exhaustive: a ascese da discipline e impulsividades col6ricas
(a carta a Jos6 Luciano e o program de instruqAo de principles, p6sto
na que escreveu a D. Luiz Filipe); o arranque que tudo leva adiante
de si e nenhum obstaculo entibia ou estramalha, e a esp6cie de cruise
idilica, amolentada de fernura, com que na varanda da casa, (na v6spera
do combat de Macontene), horas morfas, sob o c6ncavo do c6u, que
construia, corn o grande mido espacial e as mil e uma ansiedades das
estrelas, este feitiqo inico: a noite dos tr6picos, dialogava cor a
mulher, mAos nas maos, a prop6sito da empresa ferrificante, em que ia
meter-se no dia seguinte, nao por essa necessidade de loqiiela, que
experimenfam aqueles, a que veio o pressentimento de que vio morrer,
e se apressam a nao deixar por exprimir todas as coisas que quereriam
ter revelado durante a vida, mas, simplesmente por um determinismo
emotional de confidencia, para viver a dois, o Sonho de bem-merecer
que o enchia todo; porvenfura o seu espirito, em que fantas directri-
zes se contrariavam, tornando-o num como que Hamlet cavalheiresco
da temeridade, sobressaturado de enigmas, como o oufro, pilido e






15 MOUSINHO
Preficio











funesto no seu gibao negro, estaria a ver ja, corn a segunda vista
dos nervosos, projectadas na lanterna magica do tempo, a degradante
porcaria moral, a lama putrefacta, a ignominia colectiva, cinicamente
corrosiva, que cinco anos p'r'al6m, mal contados, haviam de provocar-lhe
o , na caleche de aluguel, trambelhicando pela
estrada das Laranjeiras o seu cahin-caha sonolento.
Emil Ludwig conta no seu Napoleon este epis6dio s6bre o Sacre,
que 6 o comentArio mais veemente da estupenda fantasmagoria il6gica,
do absurdo conto maravilhoso, desconexado por um fumador de 6pio,
que foi a existfncia do tenenfe Bonaparte, esmagriqado e cor a me-
m6ria biliosa dos ratinhamentos na mingua ementa de todos os dias,--
metido na sua metempsicose de Imperador.
Todos os canh6es de Paris saiidavam o acontecimento cor o zan-
garreio timpAnico, corn a farfalha rebramidora dos seus estrondos.
Notre-Dame, a duegne gricil, carcomida por todos os afinamenfos
e toda a cArie dos S6culos, chamejava de apoteose, reverberava de
gl6ria, impante num meli-melo multicolorido de bandeiras e trofdus de
guerra. Valia, nesse instance, quasi tanto como no livro de Hugo; era
bem a replica ardorosa do quadro descomunal de David.
Oiros de fardas; cintilas de pedrarias; todos os grandes nomes da






MOUSINHO 16
Preffcio











Lenda Aurea das batalhas; as mulheres lindissimas que vencem tam-
bem, nada menos do que corn um simples fluir e refluir de leque,
ritmando a espreita de dois olhos de brocado azul evanescente, men-
tindo, obnubilados de sinceridade...
Notre-Dame varava a alma de infinite, fransfigurada na grande
igua misfica dos seus vitrais, como uma visao da bem-aventuranqa.
E tudo: as mulheres que enfremostram o c6u, despenhando-nos,
irremissivelmente, no inferno; os sobranceiros batalhadores, coruscando
como estranhos s6is fulvos, num halo retininte de reflexes; o orgulho
e a fatuidade, roqagando todas as improvisaqSes do arco-iris, erectos e
enormes, acrescentados da solenidade de estarem ali, comparsas daquela
formidanda celebrasAo, movimentada de ritos, como urn mistrio medievo,
--tudo cravava os olhos ansiosos, Avidos de preitezia, numa subordina-
qao despersonalizada de coisas, na figure pequenina, um tanto con-
frafeita, a mecha do cabelo fazendo noite na confenlio marfilena da
test, que avanqava, obesa e amarelida, envolta no aparatoso manfo
c6nico, como os semi-deuses cesareanos de Suet6nio. S6 a Signora
Leticia, a mai do vencedor do Mundo, murmurava para si, supersticiosa
e tremente em meio do arruido e do chamejamento apote6tico:
Oxala que isto dure! OxalA que isto dure!







17 MOUSINHO
Prefcio












... nao durou, sumido nas intemp6ries da steppe, obstinada e fa-
nitica, que apunha fantasma de neve a fanfasma de neve, medonha e
inexorAvel no seu: nao passarAs!
... nio durou, espatifado, reduzido a cisco pela pertinicia de Kou-
fussof, fumando o seu cachimbo cismitico, escarranchado s6bre uma
velha carcassa de tambor,--a espera do inverno...
Sim, tudo mo diz: no estralejar da consagraqao de Dezembro,
frendtica, irreprimivel, em melodramiticas vagas alagadoras de vivas!
Mousinho ouviria ji o estalido necessdrio da arma obediente, efecti-
vando o seu sacrificio de sbzinho, para a redenqao duma nacionalidade,
que nunca, final, ganhou grande coisa em ser redimida, gozosa at6 a
medula, dos compadrios politicos e mequetrefes desfrutadores, que sem-
pre merecera.

% No %

O caso do suicidio. .
Atd a meia-farde do fatidico dia 8 de Janeiro de 1902, tudo
aconfeceu como nos demais dias.
Nessa manh5, Mousinho almoqou no Paqo, como de costume.






MOUSINHO 18
PrefaFio











Um retrato havia, de D. Carlos (conta o seu memorialista, Eduardo
de Noronha), em cuja posse Mousinho punha um interesse especialis-
simo, porque representando o soberano num despretensioso casaco
branco, sem teatralidades majestAticas, nem 8nfases de reinante, fome-
cia do retratado, exactamente a imagem mais certa, a projecco intima
mais consentfnea cor a acessibilidade passa-culpas, com a bonhomia
de burgues artist, nosftlgico do canto-de-lume e com a ilcera dum
t6dio indominAvel a contrafaze-lo em timido, a emperrar-lhe os eixos
da expansgo, frente As insulfantes curiosidades da Rua, essa acessibi-
lidade e essa bonhomia tfo bem conhecidas dos familiares do seu con-
vivio, e que eram, acima de tudo, a dominant moral do monarca mal-
sorteado.
O rei, seu amigo, ja Ihe havia prometido o retrafo, e Mousinho,
nesse instance do seu 6ltimo alm6co, insisted pelo cumprimento da pro-
messa
Recebe-lo hoje (acrescenta) seria uma mercer supreme.
D. Carlos acede ao pedido, e umas horas mais al6m procura o
cartfo no seu quarto, escrevendo nele uma dedicat6ria de amizade.
Nesse instant quem sabe se o suicida da estrada das Laranjeiras
esboqava ji o gesto de apoiar na front o cano do revolver, ,um pouco






19 MOUSINHO
Preficio











acima... assim>, para que n5o houvesse dtAvida no inevitfvel da more,
como exemplificava (diz ainda E. de Noronha), numa tarde do tempo
das campanhas, enfre uma turma de amigos a petiscarem cigarros na
varanda do comando military, s6bre que descia o formilhamento azul-
-cobalfo dum c6u de Africa, mordido de crepssculo...
... ao passar pela Livraria F6Tin mandou parar o trem.
Se nao fosse o incident trAgico, sobrevindo depois, todas as idas
e voltas, que precederam o acto dele se matar, achA-las-iamos naturais;
teriam o comezinho sem hist6ria do quotidiano.
Sao as coincidencias que entrelaCam a teia encantadora e pertur-
bante de mistdrio, que envolve subtilmente o corriqueiro desenxabido da
vida, emprestando-lhe essa tinta de pressentimentos e pressAgios, que 6,
ao mesmo tempo, o seu flagelo e o seu perdso.
Junto do corpo, caido de bruqos por s6bre o est8fo da carruagem,
num automatismo de boneco que se desequilibrasse no seu escaparate,
perdido jA o como que orgulho cellular, que faz a flexuosa esplenden-
cia do human organismo vivo,- estava um livro: Cruelle Enigme, de
Bourget.
Noutra ocasiao, seria apenas um volume de Bourget, companhia
bem justificada num home de tal modo complex como era Mousinho,






MOUSINHO 20
PrefAcio











vibrando de todas as curiosidades excelsas do espirito, lirico e impul-
sivo, corn brusquidSes vulcanicas e preconceifos extificos de artist no
arranjo de certas frases dizendo as reacqbes do emotivo ante bocados
filgidos de paisagem...
Cruelle Enigme!
O enigma da sua estranha personalidade, desorbitada dos carreiros
normais, do chouto bestiaga dos outros; o enigma do seu ceu-, da
sua estrutura de Parsifal, sobrepairando, imarcescivelmente branca e
coevamente ildgica, a uma companha de gnomos forvos, tartamudeando
as suas pequeninas cobigas e os seus despeitos mindsculos.
De resto, a mesma matematica rigorosissima de home de accAo,
que fornou possivel a assombrosa empresa do Chaimite, fulminante e
alucinat6ria como um milagre dnico da Vonfade, pode-se dizer que
regulou as iltimas horas da existfncia de Mousinho.
O seu suicidio foi a sua batalha derradeira; batalha contra a vida
reles; contra as emboscadas traigoeiras da vida, que forcejava por
sufocA-lo de asco.
Batalha que ede venceu ainda, aniquilando-se embora para sempre.


*ME



































































Retrato a 61eo de Mestre Jos6 Malhoa
existence no Municipio
de Lourenpo Marques


-
Irr-
j~c~
-~J' C-

















CAPiTULO
PRIMEIRO


0 HOME DE ACCAo







25 MOUSINHO
0 Homem de AcCao











SHOMEM de guerra, que foi Mousinho, veres de subordinagqo, que mais que o capacefe e a espada
distinguem o military, do civil, (palavras da sua carta ao
President do Conselho, demitindo-se do cargo de comissi-
rio r6gio de Moqambique), estf incontroversamente explicado pelos
mandatos da hereditariedade.
Uma ascendencia flambanfe de capitais-mores, e cavaleiros fidalgos,
entroncando, como ponto de partida, numa dessas bastardias de principle,
que sempre foram na Hist6ria os cimos viris e supra-sensiveis das ge-
raq6es, os resumos esplendentes de todas as possibilidades her6ico-
-emofivas desta e daquela casta, e continuada na galharda figure de
engenheiro-poeta e militar-arfisfa, que foi o av6, Luiz da Silva Mou-
sinho de Albuquerque, morfo, por uma razdo desinteressada de cardcter,
na refrega de T6rres Vedras, a quando das jacqueries cruentas do libe-
ralismo, depois de fer escrifo a memdria, que salvaguardava da ruina,
como um padrao imarcescivel de Arte, o Mosteiro da Batalha, -
uma ascendencia de cavaleiros fidalgos e capitais-mores, aquartelando
nos seus escudos a bravura donairosa e a energia temperada de
perfinAcia, de-certo que havia de ter como determinante excelso, como
fecho magnifico, o home valoroso, o milifar superiormenfe estrafe-






MOUSINHO 25
O Homem de AcqAo











gista, fazendo da ordem e da discipline o seu ascetismo, a sua pos-
sessgo de iluminado.
Para 8le, combater era exercer um culto.
Por isso eu compreendo bem que no recontro de Macontene,
quando depois de mais de meia hora de fusilaria desesperada, as gran-
des massas uivantes dos pretos que afacavam e que, como ondas dum
oceano coldrico, constantemente'se reformavam numa teima incansivel,
comeqaram, alfim, por afrouxar no impefo obstinado, iniciando a fuga
pAnica, desconexa, Mousinho, perseguindo os fugitives, n5o o fizesse
de espada desembainhada.
Anguloso, sobreexcitado, a mascara, de ordinario calma, transfigu-
rada num ricto de desd6m e de vit6ria, ia na frente, de cavalo-marinho
em punho!
8 que para o seu femperamento de religioso do heroismo represen-
tava nada menos de que uma blasfemia desembainhar a espada, simbolo
de valentia leal, indispensAvelmente altiva, mesmo na derrofa, para os
que assim se afropelavam na descoordenagio do medo, contagioso, pi-
trido, desmoralizador.
Os seus companheiros de armas seguem-no sempre, encantados.
Os que estao ao p6 dMle e execufam as suas ordens, jA antecipada-






27 MOUSINHO
0 Homem de Acfio











mente sabem que tudo hi-de correr bem, tal o domino persuasive da sua
f6 no bom resultado de tudo o que intense; f6 que 6 uma equaqio
alg6brica de concepc5es certeiras, uma rede ddctil de debates inte-
riores, pondo dum lado as probabilidades e do outro lado a maranha
vingativa dos percalqos; f6 que, se consubstancia o ardor divinat6rio
duma mistica, vale, pelos resultados faiscantes, a suma genialissima
duma experiencia.
Tinha uma decisao toda de relampagos, brusca, impetuosa, sobres-
saltada de claroes, e os casos prementes de soberania, todas as graves
quest6es, que implicavam a vida ou a more do ,prestigio national>,
e que pareciam insoldveis, ou se quedavam inglbriamente estacionArias,
porque mais nao havia, para resolv&-las, que o anquilosado ramerr5o
administrative, at6 nos lances de pura ofensiva e exclusive beligerancia,
teimando em intrometer o tardo formalismo burocritico,- sob as fusti-
gaq~es do seu querer, sob a dinamica viril da sua vontade, se descom-
plicavam, unilaterando-se, subordinando-se A caracteristica que s6 lhes
cabia, de problems bdlicos, que, ou se atacam logo, d md cara, sem
olhar ao que sucederd, ou nao se vencem nunca!
No dia 31 de Dezembro de 1895, tres dias depois do Gungu-
nhana ter passado pela afronta mAxima de se sentar A f6rca, no solo






MOUSINHO 28
O Homem de AceAo











do seu kraal, ante o pasmo supersticioso de dois mil e quinhentos
vAfuas armados, que paralisava, o terror daquela imprevista liquidaido
do rdgulo mais que todos arrogance, tripudiando, enorme e ferrifico,
como um sombrio deus pinico, enfre prot6rvias e assassinatos, no dia
31 de Dezembro de 1895 recebia Mousinho uma nofa reservada do
governador geral, interino, de Mogambique, em que cada linha ressumava os
cautos processes de longanimidade, a prudent tergiversagao, envolta em
luva de pelica, que sao a moinha dos que fazem que andam mas nao
andam, e consfituem a chaga dos temperamentos trepidantes, acostu-
mados a seguirem na vida, a area do peito exposta ao vento, amorosos
perdidos da tempestade.
E como segue essa nota: ... com relagio ao caso especial das
fentativas para a capture do Gungunhana, nao convindo por forma
alguma sujeitar as pequenas frcqas regulars, que agora se acham ai,
As contingencias duma derrota, o que seria uma catAstrofe que anularia
os efeitos morais e politicos das vit6rias conseguidas atW hoje s6bre
aquele r6gulo, deve V. Ex.a abster-se de todo o movimento contra o
mesmo r6gulo, mantendo-se a seu respeito na defensiva.
O investigator consciencioso, Sr. Eduardo de Noronha, cujo tra-
balho (2.a edi!go do Her6i de Chaimite), me fern servido de guia, e






9 MOUSINHO
0 Homem de Acqo











que regisfa a nofa no seu livro, comenfa-a deste modo, cor justiceiro
desempeno:
<,Se chega tres dias antes, os sacrificios feitos duranfe toda a cam-
panha ficavam, por assim dizer, inufilizados, e seria necessArio novo,
forte e dispendioso esfo6ro do pais para destruir de vez o c6lebre e
astuto potentado.





Claro que Mousinho n5o esta s6 cor as suas impulsividades
esbeltas, cor a sua audacia serena, digna de ser cantada por Homero,
corn a varonia vibrant, em hallalis de repto, da sua estftua de cava-
leiro duma Tavola Redonda, aureolada de poesia her6ica, sobrevivendo
a uma F6 Antiga...
Nao estA s6 na tarefa gigantesca de dignificar uma PAtria, que ele
adorava, um pouco A maneira dos cantores de gesta: como uma Bem-
-Amada e como uma Madona.
Um punhado de bravos, um escol de militares denodados, de
viciosos tambim das emogoes rascantes das pelejas, e que atravds do






MOUSINHO 30
0 Homem de AcqHA











respeito disciplinado pela profissao, sabiam fazer da intrepidez um sin6-
nimo altruista, oblativo, do Dever, um n6cleo de aguerridos formava
um friso epopeico de esforqos ao de redor daquela Energia enorme,
silhuetando-se num halo de ouro de altitudes, como as figures voadas
dos capitdis: Caldas Xavier, tenaz e ide6logo, reflexive e decidido, em
luta sempre contra um destino ciUmento e versatil, que mesmo para
aldm da morte forceja por dominA-lo cor mais outra more ainda: a do
esquecimento; Roque de Aguiar, Vieira da Rocha, Andrade Velez,
Eduardo Costa, Azevedo Coutinho, Sanches de Miranda, Mascarenhas
Gaivao, Cabral Sacadura, Azevedo L6bo, Aires de Ornelas, louro, a
pele r6sea, esmalte holandez nos olhos azues, como se tivesse said
dum quadro de Franz Halls; Gomes da Costa, h6rculeo, monumental,
cor tumultuarias sobrancerias de rude, para esconder as vulnerabili-
dades de terno; Costa e Couto, Pinto da Mota, Paiva Couceiro,
sacudido, inquieto como uma flamula, que quando march dir-se-ia que
carrega, num tinir de ferros, reverberantes de sol, sabres entrechocan-
do-se, eias! frementes, acendendo a exultag~o carmesim das arran-
cadas ...; estes e outros ainda, como o alferes Chamusca, que na
emboscada do Palule, em que ,seiscentos negros lutavam contra nove
europeus>, para nao se deixar apanhar vivo, fez saltar os miolos corn






1 MOUSINHO
0 Homem de AcqAo











a iltima bala do seu revolver, num romantico desaflo aos sarcasmos
cinicos da mn-sorte.
... estes, e a massa an6nima da soldadesca, amarelida de malei-
fas, vomitando a Agua podre dos riachos, e nas acalmias da febre sal-
modiando restos delidos de cangSes, do tempo em que 1A no alto o
c6u era dum outro azul, e o sol nio era assim, a exasperar tudo corn
o seu acinte de cAustico, tiranico, vingativo, atrabiliArio; a soldadesca
ing6nua e praguenfa, grazina e paciente, corn ,ahs !1 admirativos ante
o primeiro imprevisto de paisagem (,olha aquela palhoqa! Que pa-
tusco !) e n5o abaixando sequer a. cabeqa quando zoam os zangaos
col6ricos da metralha; a soldadesca avanqando entire as incertezas t6rvas
do caminho, cor todos os ecos do espaqo a reenviarem-lhe nada menos
do que presAgios, suspeitas da more pr6xima, , es-
condida nos erigamentos do capim,- e, apesar disso, calma, obstinada,
cor uma esp6cie de despreocupaqao fesfiva, galhofeira, como num apon-
famento de guerra de Watteau...
Mousinho idolatra os seus companheiros humildes de fadigas, na-
quela porfia dum Portugal Maior; tem-nos a fodos no sangue, e 6 cor
uma expressao alacremente rescendendo a povo, que anuncia, no re-
contro memorAvel de Macontene, ao entrar no quadrado, que uma






MOUSINHO 33
0 Homem de Acao











investida apocaliptica de negros s6bre negros, aos uivos, numa sanha
de 6dios nao conseguira romper:
Rapazes, a partida estf ganha!





O feito de Chaimite parecia dever trazer para a vida de Moqam-
bique o sossego propiciat6rio, em que dependurada a espada que aco-
metia, destroqando, impiedosa como o destino, aquietada a balbardia
febricitante dum continuado sur-le-qui-vive, se tornava, emfim, possivel
o ambience reflexivo dos problems de administrag~o, a met6dica des-
tringa da oportunidade, ou da ineficAcia das medidas a adopfar, que
transformassem o organismo social da Col6nia num fodo nifido, harmo-
nioso, com o ritmo is6crono duma casa em ordem.
Mas nAo!
Nesses recuados tempos de entire 1895 a 1897, esfe recanto de
territ6rio portugues, , consoante a formula
consagrada dos ,,-que tranqUilos autom6veis podem passear
agora, de ponta a ponta, com tranqiilos viajantes fumando um dis-






33 MOUSINHO
O Homem de Acqio











traido charuto, sob o resguardo inevitAvel dum capacete de cortica,-
nesses recuados tempos de entire 1895 a 1897 era uma selva oscura
de perigos e ameaqas, um vespeiro de diabos negros, aqulados por
todos os acicates do 6dio, uma maranha batbarenga de emboscadas e
incomodidades, a que s6 raros 6asis dum conforto europeu, reincidente,
desmonotonizavam o feio hostile, sorrindo o seu fresco sorriso de cotta-
ges; uma maranha barbarenga de incomodidades e emboscadas, onde o
pobre colono, quando nao acabava, mirrado pelas , a balbuciar
nostalgias duma fusca Sulamite, que o assistia, capida e precavida, o
pensamento no migalho suado e tressuado do esp6lio, se arriscava
muito a que uma azagaia o perfurasse, ou Ihe esparralhasse os miolos
uma carga de espingarda.
Mousinho, que, em recompensa justissima da empresa que levara
a cabo, havia obtido, com o acesso, por distincqo, ao p6sto imediato de
major, a incumbencia de superintender na Col6nia, na qualidade de go-
vernador geral, Mousinho n5o ia ter muito tempo, para na calma do
seu gabinete, acompanhado das sensitivas coisas de Arte, que eram a
atmosfera essencial das suas crises de nervoso (na residencia da Es-
tr6la, jA prestes a sumir-se no grande voluntariato desdenhoso da Morte,
tinha diante da mesa de trabalho o retrato da esp6sa. mais que tudo






MOUSINHO 34
0 Homem de Acqio











estremecida, pintado a 61eo por Malhoa), continuar o plano gran-
dioso de dominagao a s6rio, efectiva, que iniciara no inferno estrepi-
fanfe das refregas, investindo, acutilando, rechaqando.
No norte da Provincia, em frente da ilha de Mogambique, suble-
vaqAo dos namarrais.
Supersticioso e cruel, o namarral zomba da suserania, que querem
impor-lhe; espafifa o fio lasso das proibiq5es; onde encontra bonhomia
fransigenfe, branda pressao de pulso, passa e devasfa, A machadada, A
facada, estramalhando as caravanas que vem, lentas, no seu lento de-
senroscar de anelideos torporosos, entire esfalidos de chicofes e zoeiras
de guisos,--atulhadas de mercancia.
Mousinho parte para 1l.
Oufubro de 1896 a fins de Marco de 1897, e nesfe espaco de
pouco mais de cinco meses, como que numa vertigem caleidosc6pica,
num fumulto formidando de marche-marche, numa febre fustigadora de
arrancadas, ao arrepio e a descaso de tudo: o flagelo da sede ( Agua e s6 de raro em raro a mistela tifica dos poqos, quando n5o 6
a extensgo do matagal, amarelo-ocre, verde-ferrugineo, que parece que
nao acaba nunca, sobressaturado de ameaqas, apertando-se, fechando-se,
como um circulo dantesco); o gado que nao puxa, esfanicado de fadiga







35 MOUSINHO
O Homem de AcCAo











pela aspereza do caminho e o peso das cargas; as viaturas, a que 6
precise lanqar fogo, para que nao as arrebate o gAudio do inimigo; o
rir sinistro da fusilaria, constant, rebuqada, traicoeira (estiveram vinte e
seis horas seguidas sob um granizo ininterrupto de metralha),- como
que numa vertigem caleidosc6pica os combates sucedem-se: o da
Mojenga, em que 6le, cedendo ao mandate instintivo da sua constitui'ao
galharda de risque-tout, quere carregar, A frente dum pelotfo de cava-
laria, para que fique (desassoberbada> um pouco a posiaio quAsi insus-
fentAvel dum quadrado; o de Naguema, o de Ibrahimo, o de Macuto,
estes fres tlfimos a pequeno intervalo do primeiro, e em que Mousi-
nho interv6m, jA como comissArio rdgio,- pr6mio merecido pela fulmi-
nante decisao, pela pericia admirAvel, de que deu provas, na primeira
parte da campanha.
... e a invencibilidade dos namarrais passou a ser uma gasta
superstigdo sem sentido, uma velha hist6ria de canto de lume, enter-
rada, bem enterrada no passado.
Mas agora outra aventura: rebenta em Gaza nova revolt.
Ap6s o aprisionamento e o destarro do Gungunhana, os vAtuas
comecaram a sentir que o seu predominio s6bre as outras tribus, se
Ihes esfarelava; e esta constataqao, tornada em 6lcera pela arrogancia






MOUSINHO 36
0 Homem de Acqo











dos dominados de onfem, fazia ressoar mais alto ainda o tocsin da
derrofa nas suas almas de guerreadores sobranceiros e rapaces.
Maguiguana, caudilho preferido do r6gulo destronado, pela sua
impefuosidade bravia e o seu ardor na consftncia do 6dio, sabia
exacerbar a chaga desse despeito, cor o hallali das suas insfigac~es, a
aguilhoada fenaz dos seus rancores.
Todo o distrito 6 uma cratera, esbraseada de insias subversivas
de revindictas.
I enfto que todas as qualidades de bravura disciplinada, de fact
estrategisfa, de visAo instantfnea, de ilan persecut6rio, de coesgo na
temeridade, que se verificam em Mousinho, afingem, por assim dizer,
o potential mAximo.
Apenas um mes de campanha!
E rApido, esmagador, decisive, e o esforgo military portugues pode
enfileirar no registo das suas vit6rias, mais 6ste nome: Macontene.
Depois, aquela extraordinAria march de cavalaria, em perseguigao
do aliciador desfemido, que, iniciada na manha de 8 de Agosto de
1897, s6 terminal quarenfa e oifo horas mais al6m, na manha de 10,
numa acelera(qo quasi alucinat6ria de movimento (-Para a frente! Para
a frente!); atravessando, num galope de balada fantistica, como no







MOUSINHO


0 Homem de Acqao











soneto de Antero, povoaq6es que se enroscam na cafalepsia argentea
do luar, estranhos conciliAbulos de Arvores, a gesficularem os seus
barbaros empastamentos escuros, e mais povoagqes ainda, onde, aqui e
ali, esbracejam para o alto, cor ritos. maniacos, sibilantes sabbats de
fogueiras; e outras Arvores e gibas de palhotas, irrompendo da ante-
-manha; a desolaqao amarelida de paisagens, dir-se-iam dum mundo
amaldiqoado pela c6lera de deuses terrificos, e s6bre que se encarniga,
atrabiliArio, um sol de min6rio candente...
Apenas um m&s de campanha, e a cabeqa do Maguiguana mefida
em alcohol, para ser reconhecida, como uma advertencia aos que ainda
admitam possibilidades de novas sublevagoes.
3 de Setembro de 1897.
E quando Mousinho regressa a Lourengo Marques, aureolado de
gl6ria, aclamado em delirio pela populaqio inteira da cidade, electrizada,
subjugada de assombro por cometimento famanho.
Pouco menos de quarenta e dois anos antes, numa manha do No-
vembro de 1855, recebia o baptismo na igreja da Senhora da Vit6ria,
do Convento da Batalha, Joaquim Augusto Mousinho de Albuquerque.
Nesse instance seria que o seu Destino assinou, perante aquelas
arcarias solenes, ressumantes de lendArio heroismo, entire que se'estava







MOUSINHO
0 Homem de Acqio


a realizar o acto cristgo, o compromisso de bravura inigualAvel e
infrepidez cavallreiresca, que, mais uma vez, acabava de respeitar, o
Homem forte, o Homem calmo, encontrando no saibo do triunfo, reper-
cutido por milhares de vozes, quem sabe se o anfeg6sto de au-deld,
dos enamorados nostAlgicos da Morte!


m m



































































(Reproduqgo duma estampa litogralada s6bre aguarela de Roque Gameiro).


i''













Mousinho de Albuquerque
na campanha contra os namarrais

















CAPITULO
SEGUNDO


0 ADMINISTRATOR






43 MOUSINHO
0 Adminisfrador











io admirAvel volume Mogambique, que 6 o seu libelo de
Shomem moral, de portuguts de ouro, conforme a expres-
-sao de Diogo do Coufo, que ele cita, leitor hiper-licido,
Sexperimenfado em humanidades; que 6 o seu j'accuse! fre-
mente, azorragando de vergastadas justiceiras os bufarinheiros falaciosos,
os mercadejadores de conveng6es e ficq6es, escreveu Mousinho estas
palavras: cutilada aos pretos.
E um engano; a maior e a melhor parte das cufiladas foram
assenfes nas convengSes, nas ficq6es, no enredo de falsidades cor que
nos pretendiamos iludir. E como essas cufiladas eram puxadas cor alma,
como cortavam fundo, at6 ao 6sso, parfiu-se-me a espada cor que as
vibrava; s6 6 para admirar que houvesse durado dois anos; 6 que era
de boa tempera.>
Cor efeifo, nesse period de entire 1896 e 1898, da sua adminis-
fraqao de Moaambique, mais obstinados que os vAiuas na sua feroci-
dade estragalhadora, sanguinolenta; cor um mais fraigoeiro afinco de
6dio que o namarral deslealissimo, Mousinho ter de se defrontar, sem
um instance de fr6guas, corn dois inimigos implacAveis, dissimulados,
cruenfos, duma profeica vitalidade no seu modo de ser hostile e no en-






MOUSINHO 44
0 Adminisfrador











carnigamento obtuso da sua estagnacgo: nascemos assim e assim have-
mos de morrer.
... dois inimigos: os usos seculares> e os preconceifos regula-
mentares,.
Ataca-os de frente, corn a bravura cavalheiresca, que 6 o timbre
de tudo em que joga a partida ardorosa dos seus entusiasmos.
Esse home, que no estrondear fimpAnico das pelejas (uivos de
agonias; 6dios s6bre 6dios, crescendo, submergindo fudo em vagalhoes
de raivas destrutivas; tinir do ferro chocando corn o ferro, exasperado
na virulencia do seu ago pela freima inimiga de duas ofegAncias, inquie-
fas, famintas por se frespassarem); 8sse home que, na demoninharia
rubra dos combafes, mantem a calma, o impeto disciplinado, a naturali-
dade, o assenhoreamento de si, dos que se enconfram no element
prdprio, transplanfado para o congeminar das regulamentaq6es, para
o dia-a-dia sentado dos labores de secreftria, em fudo afenta, fudo
prevy; corn mindcias pacienfes de estudioso, di a caqa ao pormenor,
enjoiando-o no seu engasfe de essencial; rasga perspectives onde s6
parecia que deviam eternizar-se muros egoistas, entapando o horizonfe;
enche de ar o que era bafienfo e anacr6nico.
No seu gabinefe, corn as suas nervosas maos, de dedos longos,






45 MOUSINHO
O Adminisfrador











vozeantes de rata, dizendo predilecq6es de emotivo, e como que fre-
menfes ainda, com a saidade a enfebrec-los, do contact bem-amado
da espada, que jA nio acometia, esbelfa e aureolada dum her6ico mis-
ticismo,- folheava solenes volumes, circunspectos frafados, vivia at6 ao
exaspero a sua Ansia da verdade, o seu afinco em que fudo f6sse sirio
e leal na tr6pego do non potest esse burocratico, esperecendo de insAnia e pe-
quice, entire hemoptises de f6rmulas...
Transfiguragio admirAvel dum irrequieto, a pautar a existencia pelas
metodizaq6es harm6nicas dum beneditino!
Quando em Coimbra freqUentava a Universidade (1882: tinha 27
anos. Partira para l em 1879, a entesoirar-se de Matematicas e Filo-
sofias, entire os amavios da paisagem feiticeira, rezando, nos nervosos
pores-de-sol, a reza g6tica dos choupos), uma doenqa grave forqa-o a
regressar a Lisboa, onde, pelo espaqo de dois anos, o tem, amarelido e
emaciado de sofrimentos.
Mousinho, durante esse period da sua enfermidade, como ilude o
torpor das horas interminiveis, das horas que laceram o Tempo, tresca-
lando a suores de febres e a relentos acres de medicinas; descoloridas
e insApidas como um avesso da vida, onde o pressentimento do fim






MOUSINHO 46
0 Adminisfrador











desenhasse toda a sorte de hieroglifos nostflgicos, linhas partidas de
adeuses, mem6rias de alegrias passadas, a estilhagarem-se em grumos
minisculos de ligrimas?...
Como ocupa Mousinho o seu tempo?
A ler os memorialistas das Grandes Idades her6icas; a vibrar corn
a veemencia epopeica dos homes sombrios e intratAveis, de catogan e
punhos de rendas, embrulhados, sAdicamente, em vestimentas escuras,
que contam as Descobertas, a lenda durea dos Feitos Maritimos, em
que as caravelas partiam, enfunadas de todas as seducc6es euf6ricas do
Perigo, a decifrarem a esfinge do Mar Ignoto...
... passava o seu tempo a enebriar-se, sacudido por grandes ven-
tanias crespas de EmoqAo, corn os deslumbramentos da fantasmagoria
napole6nica, corn o milagre d'aquela vida, que o absurdo, contrasce-
nando corn o real, transfer em simbolo-elemento da Energia, em para-
digma demiurgo da Vontade; a disciplinary, em suma, as rebeldias
fumultuirias do seu espirito, comentando os classicos ...
Mousinho era um mental, lisere de um sensitive, mental e sen-
sitivo por heranqa, e que as curiosidades adquiridas do seu sens6rio,
sublimaram, afinaram, ate aos paroxismos do ser complex, miltiplo,
contradit6rio, sim! (s6 os imbecis estao sempre certos corn ales mesmos),







47 MOUSINHO
0 Adminisfrador











que a mesquinharia bronca e a amoralidade porcaz do tempo em que
viveu, haviam de necessAriamente langar As feras.
A mesma esp6cie de cerebralidade dinAmica e de exaltagao ideo-
16gica, com que 6le invested e carrega a fundo s6bre o adversArio, -
o que tinha de p6r no afazer exhaustive da administracgo.
Os que se admiram, pois, de que nesse military, tdo de raiz, com
todos os sacerd6cios rigidos de classes, pudessem coincidir tamb6m,
numa extreme identificaqao, o maravilhoso bom senso governativo, o
discernimento sereno, e a adivinhante perscrufa das indispensabilidades
do momento presente, surgindo a cada pass, a chasquear o que 6
caduco, do das suas qualidades introspectivas uma pobre amostra
bem caricata.
De resfo, foi um minguo galardgo o que Mousinho recebeu com
a superintendencia nos destinos de Mogambique.
Em todos os ramos da actividade da Col6nia que merenc6ria
mascarada de vida efectiva, efectivamente aut6noma!
E compreende-se.
Diz 6le: ,Mostra a experiencia que, em Africa, toda a tentative de
posse que nao seja precedida por uma acqao de forga e seguida de
uma ocupaqgo que imponha respeito, ou antes mrdo, a todos que ten-







MOUSINHO 48
O Adminisfrador











tem revoltar-se, 6 sempre mal sucedida. Na Provincia de Mocambique
houve numerosos e frisanfes exemplos que abonam esta regra geral e
o mesmo tem sucedido nos paises vizinhos, por diversas vezes.
Entendi pois que a primeira coisa a fazer, desde que para isso
obtive meios, era proceder A ocupaqAo military, percorrendo o pais cor
uma coluna suficientemente forte para vencer qualquer resist6ncia e,
batidas as f6rqas inimigas, ocupar alguns ponfos que reputasse mais
importanfes, estabelecendo comandos e posfos milifares forfificados e
guarnecidos por forma a poderem, n5o s6 defender-se, mas exercer a
sua acqAo policial e repressive numa zona bastanfe vasfa. Nao era novo
nem original 6ste piano, antes pouco diferia do sistema de ocupaqio
que o enfto coronel Gallieni empregou nas terras alias do Tonkin e,
mais tarde, em Madagascar, com a divisao do territ6rio em circulos
militares e sectorss>
Uma merenc6ria mascarada!
Na circulaqao monetiria, por exemplo, que pdle-m&le de fraudes!
que frenesim anArquico mais complete!
A legislagio fazendAria 6 uma inutilidade discursadora.
Nesses tempos, como ainda hoje, o que import 6 a superstiao
peralvilha das jerarquias; ser jd chefe, poder distribuir serviqo, cor ares







49 MOUSINHO
0 Administrador











distantes e engongamentos de prebostes de entremez, a uma turma
despersonalizada de subordinados.
Julga-se rei-sol o que mais datas regulamentares sabe de cor. Nao
se procura forrar o espirito de ideas, de apercep~6es, mas atravanci-lo
dum tropel de cifras.
Dai, a inconseqiiencia e a inviabilidade dos orcamentos de entao,
exactos, quando muito, no sentido contabilistico.
Mousinho nao se cansa de protestar, cor a sua voz mais indi-
gnada, contra a metafisica de tal exactidao.
E escreve a pAginas 353, do seu Mo'ambique:
Sobmente quando a provincia houver entrado num viver normal,
isto 6, quando todo o territ6rio esteja ocupado, todas as populac6es
completamente submissas, policiadas, tributadas, se poderAo fazer orga-
mentos, se n5o rigorosos, ao menos muito aproximados.
No estado actual da Col6nia os orgamentos d5o idea dos recur-
sos com que se pode contar, das despesas indispensAveis, do progressive
alargamento dos diversos serviqos, mas 6 necessArio prevenir sempre,
tanto nas despesas como nas receitas, muitos casos imprevistos, que
podem alterar profundamente umas e outras. Pretender nas actuais cir-
cunstAncias, que os orgamentos tenham a aproximagao e se cumpram






MOUSINHO 50
0 Adminisirador











com o rigor que devia haver em Portugal, 6 desconhecer por complete
o que pode e deve ser a administracgo e governor de um pais que,
como Mogambique, estf em via de forma~io, ainda no period de con-
quisfa e iniciaqSo colonizadora, industrial, agricola e commercial >
Neste feixe luminoso de acertos ficam bem marcados os dois cre-
dos da sua cartilha administrafiva: necessidade absolute de descentra-
lizagdo, e fuga formal aos processes delet6rios da assimilagdo.
... Porque, (aduz cor o calor de convicq5o imperative de sempre)
<6 necessario distinguir bem entire civilizar e funcionalizar um povo.
E forcoso que em Portugal se convenqam por uma vez que aplicar a
um pais qualquer as nossas leis, os nossos regulamentos, as nossas
complicadas engrenagens administrativas, nso 6 civilizd-lo, 6 apenas
funcionalizd-lo. A india Portuguesa 6 um exemplo frisante; estf fun-
cionalizada atf ao iltimo extreme, raro 6 o ramo de serviqo da admi-
nistraqAo ietropolitana que ali nao esfeja representado, caricaturizado
por vezes; estA porventura civilizada, nacionalizada ? E entretanto que
abismo nao distancia o estado social dos indios, cristAos ou gentios, do
dos indigenas da Africa !
E, na verdade, um trabalho de H6rcules, o seu.
Tudo, ou quAsi fudo por fazer!






51 MOUSINHO
0 Adminisfrador











Dos que o precederam, sbmente Ant6nio Enes, num e noutro
ponto, intent revigorizar alentos, que, mal se esboqam, tem de deba-
ter-se logo cor guerrillas obstrucionistas de interesses criados.
Sbmente Ant6nio Enes reage aqui e al6m. Mas a sua intrepidez
de mandante entibiam-lha algum tanto as incertezas do escritor teatral,
que nas afirmaq6es do seu genius dramitico jamais pode ir al6m do
f6lego sincopado dos Lazaristas.
Errou Mousinho, alguma vez, na ,tarefa Ardua, dos seus dois anos
escassos de governor, e administrag5o por expedigoes militares indispensiveis> ?
Ndo teve tempo sendo para alinhavar!
E ,tinha como certo que havia de tropeqar nos hAbitos rotineiros,
tao generalizados no funcionalismo national, e que as maiores dificul-
dades que se me haviam de antepor estavam nas proprias leis e regu-
lamentos a que me achava sujeito>.
Mas para ele, administrar era ainda digladiar, avanqar, de espada
relampaguejando, para os encantos acres da Aventura; estraqalhar em-
boscadas.
Copio estes dizeres do seu livro:
,Desde que se p6e pes em terra de Africa, a vida passa-se a






MOUSINHO 52
0 Adminisfrador











lutar, a batalhar contra os inimigos de toda a especie. Tudo ali 6 hostile
ao recem-chegado -a natureza e o home. Contra o agricultor ha o
gafanhoto, contra o criador de gado a rinder peste e a horse sickness,
contra o especulador as minas que s6 tfm files explorAveis nas b6lsas,
os terrenos que dum dia para outro se valorizam, ou desvalorizam, as
empresas que de todos os lados Ihe prop6em, contra o pobre trabalha-
dor a competencia de raqas estranhas, o ch6mage imposto pelas febres
ou pelos cracks tao freqtientes.
Tudo 6 hostile, salvo talvez as feras, reduzidas hoje a alimento de
um sport muito afamado na Europa, mas de facto pouco perigoso.


m.m



















o,1 r -1912
L z -s~-- h-


1A


Monumento de Mapulangiiene,
no local em que foi morto o Maguiguana,
em 10 de Agosto de 1897


*i. fe 1 "

















CAPITULO
TERCEIRO


0 INTELLECTUAL






57 MOUSINHO
0 Infelectual











ouco menos de um mes depois do suicidio, escrevia o
Dr. Pedro Gaivao, cunhado de Mousinho, ao poeta, seu
amigo, Luiz de Magalhhis, a carta, que reproduz integral-
mente a 2.a ediqAo do Her6i de Chaimite.
Dessa carta, document inestimAvel de superioris-
sima penetraqAo psicol6gica, todo ressumante de mestrias de estilo Agil,
flexuoso franscrevo isto: <... aqui em Lisboa, naqueles dias de
triunfo, que nos causavam um tao grande alvor6go de felicidade, lem-
bro-me bem de o ver agarrado a um livro de Oliveira Martins s6bre
Cam5es, onde vinham uns versos em que se falava de a unica
felicidade ser o descanso da cabeqa que se encosta A pedra fria da
sepulfura ...
Havia na vida deste home, entfo, algum desg8sto? Nao; havia
o amor da Morte, que sobrepujava todas as alegrias momentaneas da
gl6ria ... >
Estf nestas palavras a biografia inteira dum espirito.
Quantos, em situaq6es semelhantes, com os fumos da gl6ria a
sobreexcitarem-lhes o individuo molecularmente fAtuo; com o feitiqo
dos vivas ecoando, repercutindo imortalidades falaciosas; nimbados
duma como que auroola escarlate e oiro, pelos sorrisos das senhoras,






MOUSINHO 58
0 Intelectual











estrepitando palmas nas janelas, enfre inquietagces de bandeiras quan-
tos, em situa5ges semelhantes, nao poderiam fazer mais do que remi-
rar-se, como Endymion, na refracco lunar dum especioso auto-endeu-
samento !
Esses, por6m, pertencem ao nimero dos que Mousinho verberou na
carta-programa de endoutrinamentos morais, dirigida ao Principe Real,
seu pupilo, e a prop6sito de cuja inconseqtincia de quotiliqu6 escreveu:
,ser soldado nao 6 arrastar a espada, comandar exercicios, deslumbrar
as multidbes cor os doirados da farda,.
Ele, n5o t
Vidente e sensitivo, naqueles dias de triunfo, em meio do frenesim
obcessivo das homenagens, repassa-se de paginas tristes, coisas endolo-
ridas de elegia, saborosas de saibos nirvanicos; sob a influi'ao
desse Grande Encanfador de 6pocas idas, que 6 o sinfonista-bro-
chador de frescos, de Os Filhos de D. Jodo I, vivia a felicidade
doce-amarga, de dialogar com a Morte, dora invencivel, porque nso hA algemas que prendam um morto,
conforme indica (desenhista surpreendente de frases-sinteses) ao Prin-
cipe, seu Amo.







59 MOUSINHO
O Intelectual














Esta necessidade de se ensimesmar, de nunca deixar de ter pre-
sente o pelitrapo escarninho do perecivel, gelido e inquietante como a
fosforescencia dos tdmulos; este constant para que ? conformista, como
um comentArio aos mindsculos grades dramas da existencia (que 6
o plexo dos que vivem porque pensam), nitidiza-se, insisted em mais
que um pass da biografia de Mousinho.
Os seus memorialisfas mais intimos, volta meia volta revelam isso
nos seus racontos.
Assistindo ao enterramento dos que se ficaram no campo da refrega,
dos que fiveram a more dos valentes, 'expiat6ria e her6ica, exclama:
<- Chega-se a ter inveja dos mortos!>
Procuro uma expressao, que me defina bem este Homem.
Porque ele nao 6, evidentemente, apenas um official de cavalaria,
sabia obedecer ao que Ihe era ordenado>; nada mais que um guerreiro
valoroso at6 o impossivel.
Gallieni, que 6 o simile mais certo e consabido da sua estrutura
de military, tambim nao foi simplesmente o general Gallieni...






MOUSINHO 60
0 Infelectual











Penso que diriamos melhor afirmando que Mousinho era um
intellectual, intrinseco, absolute, contaminado de 8xtases e celularmente
fanfasista, como todos os de essa estirpe maldita; um intellectual, que
pela circunstancia exterior de ser um ,soldado> destemido, p8de efecti-
var, movimentar o seu Sonho formidando de epopeias.
Se este caso se nao desse, A Hist6ria dos feitos portugueses, ao
Livro Maravilhoso do seu esforgo dominador em Africa, faltariam muitas
das suas laudas mais brilhantes, mais iluminadas de bravura magnifica, -
mas continuaria, integro, admiravel, florescente, o autor de paginas como
estas, onde o colorista a cada pass interv6m, corn o sortil6gio dos
seus pincdis, para sensacionar de atavios as precisoes acidas da anAlise:
,Na Africa Austral e intertropical agitam-se os brancos que a
habitam numa actividade febril, numa competencia ardua de rapas, de
naqges, de classes, de individuos. Onde ha ouro domina a yellow fever,
um espirito descaroadamente ganancioso; em Joanesburgo tem-se suce-
dido aos booms os cracks, chegando, em 1895-96, a haver um verda-
deiro exodo para fora do pais. Em todas as cidades, o banqueiro opu-
lento, o negociante abastado encontram-se corn o country jumper que
venm s terras civilizadas, policiadas, para gastar numa rApida orgia as
libras adquiridas, sabe Deus por que meios, no interior.







61 MOUSINHO
O Infelecfual











Onde nao hA ouro, ha a insaciavel fome do terreno, as farms
imensas, incultas, pastagens de gado inimero, as vezes roubado a viva
f6rqa aos indigenas ou a algum vizinho.
Ha quem tenha usurpado acres e acres de terreno sem uma citaqao
de lei, sem uma f6lha de papel selado, mas cor uma carabina e o
cinto cheio de cartuchos. Hi gentlemen correctissimos, que marcam nos
melhores clubes das cidades, cor cr6ditos bem estabelecidos nas b6lsas,
e que, poucos anos antes, tiveram por dnica indistria a high way
robbery, por tnicas propriedades um cavalo salgado e uma Martini Henry;
senhoras autenticamente casadas, dando hoje o tom da elegancia local,
que debutaram em Africa como barmaiden num road side hotel de
zinco, frequentado por gene de toda a esp6cie e proveniencia.
Centenas destes individuos morrem no sertfo prospectors que
fantasiaram files auriferos, trekkers roidos de febres, mortos de fome
junto a uma carreta carregada de artigos de luxo e imobilizada pelos
estragos da rinder pest, settlers que caem crivados pelas zagaias dos
pretos ou cor uma bala nas costas, despedida talvez pela carabina de
um companheiro da v6spera, de um h6spede de ocasiao!
Nao importa: a Gra-Bretanha 6 um viveiro inesgotfvel de aventu-
reiros de todas as classes, a misdria expulsa os italianos do pais natal,






MOUSINHO 62
0 Infelectual











e no Levante hA milhares e milhares de individuos aptos para todos
os mesteres vesgos, instruidos em fodo o g6nero de tram6ia. E como
hoje a Africa 6 o pais do ouro, corre para 1I o judeu elegance, dispondo
de capitals, sportman e dissipador, relacionado cor a alta finanqa de
Paris e Londres, e o judeu miserAvel, s6rdido, emigrado da Lituania ou
da Galicia que, xelim a xelim, numa cantina de prefos, vai juntando
um pectlio A custa de privagbes de toda a esp6cie, a que nIo raro
sucumbe.
Mais s6brios que o italiano, mais astutos que o levanfino, mais
onzeneiros e avarentos que o pr6prio judeu e, no que foca a interna-
rem-se por paises inexplorados, tfo persistentes como o mais destemido
sax6nio, o mouro e o baneane da India, sempre humildes e tr6mulos
diante de brancos e prefos, vAo, com artigos avariados, com alcohol
semi-venenoso, vendidos cor lucros infimos e medidas falsas, A caga
das libras que andam espalhadas por essa Africa imensa, fazendo escra-
vatura onde lha toleram, contrabandeando o que podem, e sempre
sorridentes e curvados em salames, sempre gananciosos e Avidos de
ouro que mandam para o Industgo. E As vezes, para onde s6 chegam
as avanqadas desta gene, parte um missionArio wesleyano ou metodista,
acompanhado de mulher e filhos, criancas ainda, a montar uma self-






65 MOUSINHO
0 Infelecfual











-supporting-mission; e e um dos dramas mais vulgares no sertfo d
triste final dresses aventureiros semi-evangelizadores, semi-comerciantes;
primeiro as crianqas anemizadas pelo clima e pelas privaqCes, a quem
a Providencia parece em Africa querer defender cor a more breve dos
horrores da orfandade no abandon complete, depois os pais, vitimas de
ilusBes utopistas, tfo aferradas, entretanto, que se sucedem uns aos
outros, sem que o sacrificio de tantos sirva de aviso aos restantes.>
... um intellectual, pois, at6 os tlfimos instances da existfncia
O detalhe do livro francs comprado na Frin,, (entra, folheando
aqui e ali, fariscando, debrucado s8bre os mostradores, com 8sse jeito
dir-se-ia voluptuosamente preensil, dos viciosos de leitura, que 6 como
que um esquema geom6trico da curiosidade, Avida por fisgar manjar
real at6 que se decide por aquele) o detalhe do livro frances, que
8le leva para a carruagem, onde devia dar-se, pouco depois, o terrific
irremediavel- que indice enorme, incontroverso desta sua caracteristica!
No tram de aluguer estfo, agora, s6s, os dois: Mousinho e a
brochure amarela de Bourget; a sua necessidade violent, altruistamente
expiatdria, de deixar a vida, para que possam continuar tripudiando os
falsos politicos, os canhestros homes publicos, mais an6dinos quem
sabe do que corruptos, os conselheiros, a que o luzido do plastron






MOUSINHO 64
0 Infelecfual











dispense a nitidez da consciencia; o seu convencimento radicado de
que isso e preciso, e a poalha preciosa de Beleza, que se desagrega
dos periods subtilmenfe cinzelados do esteta-novelista ...
S6s, os dois
E no entanto, a bala que o arrebatou A subvida pequenina do
dia-a-dia fisico- aniquilando-o, foi 16gica.
Morto, Mousinho desfez o absurdo da sua figure e do seu feitio,
contrastando inexplicAvelmente no mundo mis6rrimo, que o cercou.
Leio ainda na carta, ja citada, do Dr. Pedro Gaivao:
-- e do seu tempo, quebrado o lao da vida, 8le foi retomar a posiio e
a altura que Ihe competiam numa outra 6poca hist6rica, a que per-
tencia.>


N

















CAPiTULO
QUARTO


0 AFECTIVO

















































Mousinho e sua Esp6sa

a Senhora D. Maria lose Gaivio






69 MOUSINHO
O Afecfivo











UMA fotografia, publicada nos jornais por ocasiao das come-
moraq5es da vit6ria de Chaimite figure Mousinho com
sua mulher.
De perfil. Os bustos apenas.
D. Maria Jos6 reclina a cabeqa s6bre a do marido idolatrado.
Daquela jungao de ambos irradia, positivamente, ternura.
Todo o cartao esta impregnado duma amorosidade doce, dum mdtuo
encantamento absorvente.
Lembra a gravura, que vem reproduzida no livro de Lolide s6bre
as Mulheres do Segundo Impirio, representando os dois Goncourt, lado
a lado (Jdlio, o cadet, projecta-se prA frente, numa impetuosidade indo-
minada, atento, dir-se-ia, a n5o perder um minuto s6 da vida visivel,
que se Ihe escapa, fto breve! Edmundo fica-se mais pra tras, com uma
bonhomia melancolizada de reflex5o, em que ha jA a saiidade do com-
panheiro que vai perder.
*Nessa fofografia, como na estampa dos dois evocadores demiurgos
do s6culo xvIII artist sente-se que perpassa um fr6mito subtil de
espontaneidade. Nao 6 uma attitude conventional, arranjada pelo fot6-
grafo de olhos de hulha e pera assiriana, cor intuitos sermoneadores
quanto A exemplaridade do casamento.






MOUSINHO 70
0 Afectivo











E o exacto de duas sensibilidades, unidas, interseccionadas, como
Atomos iguais da mesma chama- servindo-se, para se perpefuarem, do
intermediario an6dino duma objective.
Mousinho, o rude bafalhador em bruscas alumiaq5es de bravura
medieva, o military estreme, impetuoso, violent, explodindo c6leras de
her6i de Homero ante o mais pequeno forcicolo da Disciplina- Mou-
sinho conseguiu isto: sobreerguer-se de fal modo em afinamento pas-
sional; enfretecer tio devocionalmente em oferenda de amor o complex
de todas as suas energies sentimentais, que um coraqao de Mulher
p6de identificar-se ao ritmo febricifante do seu; exultar cor os seus
enfusiasmos e retransir-se com as suas crises; avigorar-se com o orgu-
lho br6nzeo das suas incompatibilidades, viver o A-vontade esbelto e
vitorioso dos seus empreendimentos...
E que amantissima Companheira ela foi, adivinhadora e sempre
atenta, duma dedicagqo tio grande como a de Antigona!
Para a sua ansiedade, as horas de Perigo e as de Triunfo tem
uma coloraqAo id$ntica, porque a f6 que deposit no marido bem-amado
6 de tal maneira reforqada de certeza intima, que aventura de guerra
que ele intent, por mais irresolvivel na aparencia, por mais que o
inaudito a emmascare de impraticAvel, 6 jA uma antedata do sucesso.







71 MOUSINHO
O Afectivo











Risonha e confiada, porque vai com ela o Grande Capitao inteme-
rafo, o Cavaleiro-Lohengrin, para quem a bravura 6 o modo como flui
o sangue nas suas art6rias nenhuma perspective de fadiga a intimida.
Quando, ap6s o formidando feito de armas da segunda campanha
de Gaza (morto, emfim, o Maguiguana, que era o ululante pesadelo,
sobrevivendo, numa projecqao cdnica de assombro, A lenda destruida, da
invencibilidade dos vituas) hA que regressar do Chibuto a Lourengo
Marques, por Inhambane os 180 quil6metros e outro fanto de tra-
vessia da Agua, que completam a distancia, fi-los, montada tamb6m a
cavalo, ou na incomodidade barbaresca dos navios costeiros de entso,
entire todas as hostilidades melodramAticas dos caminhos, seguindo ao
long de interminiveis deserteiras, que causficam de febre as obstina-
q5es virulentas do sol; balouqada na torporosidade exaustiva das calmarias.
Numa conferencia, feita para homenagear as suas virtudes excelsas
de Portuguesa, disse o seu panegirista justiceiro que, durante os perio-
dos das beligerancias, ela se multiplicava em trabalhos absorventes de
toda a ordem: ora colaborando, nos intervalos de partida das tropas
para a demoninharia dantesca das pelejas, em obras de Miseric6rdia,
com as Irm5s de S. Jos6 de Cluny, no hospital da cidade de Mogam-
bique; ora organizando e dirigindo ela pr6pria um hospital de sangue,







MOUSINHO 72
O Afectivo











na regigo revoltada de Gaza; ora servindo de enfermeira ao marido,
que volta, ferido e coberto de gl6ria, do recontro de Mojenga.
Mousinho sabe corresponder a esta t9o intensa e admirnvel posses-
sao de afecto.
No amor que dedica a sua mulher ha qualquer coisa do culto
fervoroso dos misticos, e pela vida fora hi-de sempre ver nela o seu
talisman de milagre.
Quando 1 e congemina, no remanso do seu stadium do pr6dio
da Rua das Trinas, 6 no retrato, que fez da esp8sa o pincel compreen-
sivo de Malhoa, e que adonaira a parede, em frente A mesa de tra-
balho nesse retrato que demora os olhos e o pensamento, como
se f6sse numa figure de retabulo, ao mesmo tempo Madona e Musa
propiciat6ria.
Afirmaqao incontroversa das suas qualidades intrinsecas de afectivo,
tao imbuido de fernura, que todos os seus subordinados o adoram, mais
do que a um Chefe, como a uma F6rqa magnfticamente tutelar; todos
os seus subordinados, a jolda vivaz da soldadesca, os companheiros
grazinas e humildes das arrancadas, cujas recompensas em dinheiro,
que propoe, 8le estA sempre disposto a cobrir com os proventos do seu
mdnus, quando nao ihas aprovem, ou regateiem!






























































Mascara morfuaria de Mousinho

(Do escultor Costa Mota)













NOTA FINAL







77 MOUSINHO
Nota final











BODOS aqueles que se proponham estudar de fora para dentro
a personalidade de Mousinho, libertos da preocupaqao de
fazerem da sua vida, apenas um relato despersonalizado
de efemdrides gloriosas, como aft aqui ter sido o caso
dos historiadores de seus feitos uma coisa fnm de deci-
dir logo: o aprisionador do Gungunhana foi um suicida nato.
Ja procurei discriminar, no que ficou atras, as circunstfncias que
concorreram, para que esfe seu caso se verificasse: a sua psyche de
mental, naturalmente atormentada; a alvinitencia moral do Homem
Probo, juntando-se com as incompatibilidades do Individuo Superior,
indbmitamente altivo, a debater-se, cheio de nojo, num ambience de
coisinhas itonas carantonhando impertinencias de mandantes; num charco
podre de interesses a desagregarem desvergonhas e sandice.
O meio, pois, em que exisfiu Mousinho pode-se dizer que precipitou
o inevitfvel do seu gesto; nio deixou que ele, antes disso, acabasse de
realizar a empresa famanha, que (tudo o indicava) ele era o inico que
poderia levar a cabo, para luzimento magnifico do nome portugus ...
Impossivel, de facto, ser mais corrupt a 6poca, em que o mau
sestro do seu destino o fez viver!
Bons senhores, que nunca teriam lido um livro, por curiosidade







MOUSINHO 78
Nota final











sensivel, dresses que, conforme a frase vibrant de Anatole a prop6sito
do bonito insApido das meninas corn a tarantula do nam6ro, confundi-
riam Hamlet corn omelette- achavam-se senhores de tudo, espapa-
gavam-se nos melhores lugares, formando uma como que maaonaria da
mediocridade, em que a audAcia impudente era o santo e a senha,
despistadores do mdrito.
Ser military era, quasi sempre, uma prebenda de secretaria.
Chegava-se a general, muitas das vezes, apenas depois de simples
pelejas de papel official, e escaramugas e assaltos a coraqges facilmente
rendiveis de senhoras, nos grandes bailes de aparato, quando, sob a
transida aranha dos lustres, os oiros das fardas mentiam aprumos mar-
ciais, e o carmesim das bandas arremedava halalis de guerra.
Basfava ter um primo, adquirir o direito de desejar o que quer que f6sse, ao mesmo tempo
que se ganhava 8ste outro: o de nao ter prestimo para nada.
Jos6 Luciano, o diabo coxo, atochado de uma experiencia mileni-
ria de todos os ,calcanhares de Aquiles, dos falsos puritanos, regia o
entremez de esbandalhamento hilare, em que a nacionalidade do Mestre
de Aviz, em que a PAtria bem-amada do CondestAvel ia obliterando
aos poucos o seu orgulho de pais, sob o fastio do Rei, a que os inhi-






79 MOUSINHO
Nofa final











bismos do Artisfa contaminavam as infeirezas rigidas do querer; do Rei
bonacheirao e frouxo, saUdoso, no impertigamento dos Conselhos de
Estado, da non-chalance bo6mia do seu iate A Maupassant.
Jose Luciano comandava a funqao, ajudado nas suas tracas de
mefisto, pelos chds corn bolos da Senhora Dona Maria Emilia Pom-
padour impertdrrita, a dar o mote, entire espinhas dobradas de interesses,
num Versalhes Luizinho XV, de luneta convexa: o pr6dio hist6rico da
Rua dos Naveganfes.
Dom Carlos admitiu ainda que fazer Mousinho perceptor de Seu
Filho seria subtrai-lo aos rancores imediatos dos mindsculos grandes
homes eleigoeiros, dos estadistas subservientes e fura-vidas, que no fil6
de empalmarem mais depressa o bocado que cobiqavam, apareciam em
public luzindo a librj de seus lacaios, envergada, por inadvertfncia,
como se f6sse o uniform do metier.
Pobre soluqao !
Instrutor de Principe; apagado, diluido na torporosidade sedafiva de
uma f6rula monitorial, o comandante da c6lebre carga de cavalaria
emp6s do Maguiguana ferocissimo
e no entanto os pigmeus canhesfros das camarilhas iam
tecendo Pendlopes de farinha triga .






MOUSINHO 80
Nofa final











Sim 1 0 infeccioso meio politico foi que Ihe precipitou a more!
Imagino agora o que se daria, se, nao nesses tempos dduma apa-
gada e vil tristeza>, mas no friunfal Hoje lusiada, Mle houvesse de
perpassar neste mundo, para viver o escasso minuto da vida ...
A ret6rica dos tribunos desapareceu, sumida entire oufros acess6-
rios gastos de featro. A eloqUincia inflamat6ria, que de cada palavra fazia
desfraldar bandeirinhas vermelhas em cocares histribnicamente subversi-
vos o sol dos saiidAveis cepticismos deu-lhe e derreteu-a para sempre.
Modernamenfe, 6 s6 cor o a b das realidades que todos n6s
queremos ser convencidos.
A Terra Portuguesa vive, na verdade, a sua Hora-F6rqa, por muito
que isso punja os atrabiliArios sebastianistas e os insexuados prosdlitos
de um ontem ignominioso.
As homenagens que tnm sido prestadas ao exterminador do pode-
rio vAtua avultam como garantia de que outros destinos o esperariam
nesta actual transmutaqfo de valores, que rejuvenesce e magnifica a
cansada alma naufa.
ContemporAneo dos dias que correm, Mousinho seria a ardent
Voz Her6ica deste Portugal Maior, que os dirigentes de agora andam
a erguer cor a mocidade esplendida da sua F6!





























ESTE KESB6 O PARA UM RETRATO PSICOLO-
GICO DE MOUSINHO,, FEITO POR CAR-
LOS PARREIRA, FOI PRIMEIRAMENTE
PUBLICADO NO DOCUMEN-
TARIO TRIMESTRAL

N.OS 7 E 8
ANO II
1936




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