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 A prisao do Gungunhana














Group Title: A prisao do Gungunhana
Title: A prisäao do Gungunhana
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00072093/00001
 Material Information
Title: A prisäao do Gungunhana
Physical Description: 29 p. : ; 19 cm.
Language: Portuguese
Creator: Marques, Mâario Ferreira
Publisher: Agãencia Geral das Colâonias
Place of Publication: Lisboa
Publication Date: 19--
 Subjects
Subject: History, Military -- Mozambique   ( lcsh )
Genre: federal government publication   ( marcgt )
individual biography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: por Mâario Ferreira Marques.
General Note: At head of title: Republica Portuguãesa, Ministâerio das Colâonias.
General Note: Ediøcäao popular de "O mundo portuguães."
Funding: Mundo portuguães.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00072093
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 06325858
lccn - 97166264

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A PRISAO DO
GUNGUNHANA
FOR
MARIO FERREIRA MARQUES


/


AGENCIA GERAL DAS COL6N IAS
E D I C A O PO P U L A R D E
SO M U N DO P O RT U G U E S
R U A D A P RATA, 34 // LISBOA


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A PRISAO DO
GUNGUNHANA























































Composto e impress na
SOCIEDADE INDUSTRIAL
DE TIPOGRA F IA
L I M I TA D A
R. Almirante Pessanha, 3e 5,
L I S B 0 A






REPUBLICAN .j:,!
MINISTMRIO DAS


PORTUGUESA
COb N IAS


A PRISAO DO

GUNGUNHANA
POR
MARIO FERREIRA MARQUES



U


AG'NCI'A GERAL DAS
E D I C A O, P 0 P U
. << O M UN.D O P O R
R U A D A PRAT'A, 34


COLONIES
L A R DE
T U G U.E S.
// LISBOA



























1 :\ i t
l "
4 0 ; *'
















N OS ultimos meses do ano de 1894 corriam
mal os neg6cios portugueses na provin-
cia de Mogambique.
Especialmente no district de Lourengo, Mar-
qiues as rebeli6es dos indigenas sucediam-se todos
os dias.O 0imp6sto. de palhota, que havia sido
aumentado de 900 para 1350 r6is, f6ra o pretexto
para alguns s6bas se lanqarem na rebeldia. A
nossa fo6ra em Mogambique, representada quasi
unicamente por soldados indigenas de Angola, era
insuficiente para manter o respeito e a submissao
dos negros. A-par-disto, as nag6es da Europa,
conhecedoras do valor daquele nosso territ6rio,
iam infiltrando nele os seus missionarios e os seus
comerciantes e, praticando uma bem'estudada po-
litica de assimilaqao, punham em risco os nossos
interesses.
O Gungunhana, chefe do maior imperio indi-
gena da Africa austral de entio, comandava uma 5






raca de guerreiros que havia jA, nas vit6rias cor
outras tribus, adquirido urn enorme prestigio.
Os indigenas do distrito de Lourenco Mar-
ques pertencentes ao grupo tonga, da raca bantu,
eram, na sua contextura, essencialmente agricolas,
mas, depois de Manicusse os ter revoltado em
1819, encontravam-se agora um pouco vatuali-
zados e cor novos instintos e habitos guerreiros
que as constantes lutas entire as diversas tribus
tinham feito desenvolver.
Vivia-se num permanent sobresalto. Os regu-
los faziam imposiq6es e obrigavam muitas vezes.
as nossas autoridades a quebrarem o prestigio da
soberania portuguesa, pela insuficiencia de ele-
mentos para resistir.
A posse de Lourengo Marques, capital da pro-
vincia, tornava-se o ponto cubigado pelo chefe do
poderoso imperio vatua. Aventureiros de vArios
paises incutiam no espfrito de Gungunhana a pos-
sibilidade da posse da cidade, como caminho para
a sua internacionalizagio e dilatagio do poderio
do s6ba que, assim, ficaria com os territ6rios da
margem direita do Incomati.
Mahazul, r6gulo da Magaia, principal region
do distrito, f6ra convidado a entrar na acqco. Era
novo e irreflectido, e o r6gulo de Zixaxa, o Mati-
bejana, soubera-o convencer cor a sua esper-
6 teza. Os outros s6bas da regido, por ambiqco,






uns, por medo, outros, acederam em colaborar no
ataque. E, no dia 14 de Outubro de 1894, uma
enorme avalanche de negros armados atacou Lou-
renCo Marques. A valentia do capitio Roque de
Aguiar, que comandava a policia, se deve a he-
r6ica resistencia que Lourenco Marques opos. En-
frentando os assaltantes cor a reduzida f6rca de
que dispunha, obrigou-os a fugirem desordenada-
mente, depois de terem cometido algumas mortes
e raptarem a esposa e a filha dum funileiro, de
nome Francisco de Azevedo.
Tornava-se necessdria uma accdo en6rgica
que terminasse de vez cor a insubmissdo dos in-
digenas e garantisse a P6rtugal a posse efectiva
'dum territ6rio que, atrav6s dos sdculos, vinhamos
re'gando com o nosso sangue e colonizando corn
o nosso esf6rqo. Tornava-se necessdrio dar ao ne-
gro uma liCgo que o metesse na ordem e em que
se Ihe mostrasse bem que as transig&ncias a que,
por vezes, eramos levados nio representavam o
abandon do nosso incontestavel direito de sobe-
rania. Aos aventureiros que pululavam por Mo-
qambique e As nag6es que espreitavam o moment
de nos espoliarem, tornava-se tamb6m necessario
desiludi-los das suas pretenq6es.
E, ent0o, o governor metropolitan, mqdindo a
gravidade do moment, cofivida Ant6nio Ennes
para o cargo de comissario idgio em Mogambique.






Ant6nio Ennes era um brilhante jornalista e
dramaturgo que nasceu em Lisboa a 15 de AgOsto
de 1848. Comegara a sua carreira de jornalista na
Gazeta do Povo, criara nome, depois, como arti-
culista de valor, no journal 0 Dia, onde os seus
escritos o guindaram a uma posigco de relevo no
jornalismo portugues. Triunfara no teatro. Desde
a sua primeira peca Os Lazaristas, que o reve-
lou como dramaturgo de pulso firme, at6 ao dra-
ma ((O Luxo, representado no D. Maria, e com
o qual abandonou por complete o Teatro, a sua
obra como escritor teatral foi uma serie de triun-
fos que marcou uma 6poca doirada na Cena Por-
tuguesa. Depois, voltara as suas ateng6es para a
political, e o mesmo brilho que soubera dar ao Jor-
nalismo e ao Teatro aparecia ainda nas suas qua-'
lidades de polemista. Os problems coloniais inte-
ressavam-no vivamente, dedicara-se-lhes de corpo
e alma e chegara a ser uma autoridade no assunto.
Quando, em 890, o general Joao Cris6stomo de
Abreu e Sousa foi encarregado de former gabi-
nete confiou-lhe a pasta da Marinha, a que nasse
tempo estava tamb6m adstricta a gerencia dos
neg6cios ultramarinos. E, no desempenho deste
cargo, o seu caracter, o seu saber e a sua energia
impuzeram-no como um verdadeiro estadista.
Era, pois, o home indicado para enfrentar a
8 grave situagao de Mogambique.






Comegou a organizaqao das expediq6es. Pi-
mentel Pinto, ministry da Guerra, nio se poupou
a trabalhos nem a despezas.
Acorreram, desejosos de prestar serviCos, al-
guns dos mais distintos oficiais do nosso Exdrcito.
O capitao de engenharia Freire de Andrade,
foi nomeado secretdrio de Ant6nio Ennes. Paiva
Couceiro e Aires de Ornelas foram escolhidos para
seus ajudantes de campo.
Para o estudo das operaq6es a efectuar, indi-
caram o capitio do Estado Maior, Eduardo Fer-
reira da Costa.
Caldas Xavier, que se encontrava em Mogam-
bique e que ja havia dado bastantes provas do
seu heroismo e do seu patriotism, seria um
,magnifico element a aproveitar.
E com um piano cuidadosa e inteligentemente
estudado, Portugal iria manter em respeito, subme-
tendo-as ou esmagando-as, aquelas enormes le-
gi6es de negros que, cor as suas constantes re-
beldias e investidas, tornavam impossivel a nossa
acago colonizadora no fertil territ6rio de Moqam-
bique.









No dia 28 de Janeiro de i895, Ant6nio Ennes
ordenou a partida de uma coluna de operaq6es
destinada ao Marracuene, nas margens do Inco-
mati.
0 rio Incomati nasce no Transvaal e, depois
de atravessar os Libombos, entra no district de
Lourenco Marques, onde, serpenteando nas suas
planicies, vai desembocar no Oceano Indico, pr6-
ximo de Vila Luisa.
As cinco horas da manha, partiu a expedigao
de Lourengo Marques.
Era uma f6rCa organizada a press, sem a
maioria dos elements necessArios a rudeza da
campanha que ia empreender. Faltavam muni-
96es, ndo abundavam os viveres, eram insuficien-
tes os carros e os gados. Mas os soldados levavam
essa enorme e valiosa arma o patriotism -
que foi em quAsi t6das as nossas campanhas colo-
niais a alma de muitas vit6rias.
Caminhando debaixo de fortes aguaceiros, ato-
lados at6 aos joelhos, a vinte e quatro horas de
march, comeqaram avistando os primeiros inimi-
gos. E dali por diante foram-nos tendo sempre A
vista, em grupos de duzentos, apr6ximadamente.
Atd que, no dia 2 de Fevereiro, estando a
10 coluna bivacada, foi surpreendida, ao romper da






manhi, pela aparicao de enormes legi6es de ne-
gros. Alguns, rastejando, na escuridao da noite,
tinham conseguido aproximar-se do quadrado; e,
quando soou o grito de guerra, langaram-se impe-
tuosamente s6bre as nossas tropas. Houve um
moment de panico,'mas a attitude serena dos
oficiais, entire os quais se encontravam Paiva Cou-
ceiro, Eduardo Costa, Aires de Ornelas e Caldas
Xavier,'conseguiu disciplinary o f6go dos soldados,
e na massa negra dos assaltantes rasgavam-se
enormes clareiras.
Estava ganha a batalha de Marracuene. O
efeito desta vit6ria foi magnifico. Numerosos gru-
pos de indigenas da Moamba, da Chirinda e de
outros pontos apresentaram-se a pedirem amizade.
O pr6prio Gungunhana ofereceu quatro mril
libras para Ihe darem paz.
Era o principio da queda do prestigio do pode-
roso r6gulo africano.




Depois da vit6ria de Marracuene, as tropas
recolheram a Lourengo Marques, e os oficiais que
constituiam o conselho ticnico junto do comissa-
rio r6gio, Ant6nio Ennes, dedicaram-se, entusiAs-
ticamente, a preparar a continuaggo da campanha. 11






Continuava fervilhando a intriga.
Os aventureiros prosseguiam na sua obra de
publicavam tendenciosas noticias que Ihes envia-
vam os seus agents em Lourenco Marques.
Paiva Couceiro viu-se forcado a castigar os
insultos cobardes que alguns lalsos jornalistas di-
rigiram ao nosso pais.
Entretanto, vindas de Lisboa, chegaram a
Inhambane as f6r9as do comando do coronel
Eduardo Rodrigues Galhardo, sobrinho do insigne
,historiador Alexandre Herculano.
Inhambane 6 a capital do district do mesmo
nome. 0 distrito de Inhambane tern uma Area
aproximada de 53.ooo qm2 e uma populagqo de
perto de 224000 habitantes, dos quais 18.0oo
.sdo europeus, indianos, chineses e mestigos.
A missio destas f6r9as era operarem ao Nor-
te, simulthneamente com as f6rcas que, sob o
comando de Freire de Andrade, haviam partido
de Lourengo Marques.
Dos esforqos conjugados destas duas colunas
resultaria o aniquilamento complete das legi6es
negras e o aprisionamento dos seus chefes, entire
os quais se encontravam os rdgulos Zixaxa e Ma-
hazul que, depois do combat de Marracuene, se
tinham refugiado nas terras do Gungunhana.
"12 Ant6nio Ennes enviara ao Gungunhana, em






missio diplomAtica, o tenente Aires de Ornelas e
o conselheiro Joaquim de Almeida, que tinha urma
grande influencia junto do potentado. A finalidade
desta missao era exigir a entrega dos rdgulos que
ji ostensivamente se haviam declarado inimigos.
da nossa soberania, e avaliar a veracidade da
submissio do Gungunhana, desde que oferecera
as quatro mil libras para Ihe darem a paz.
Enquanto os dois ilustres portugueses se f6s-
sem -desempenhando destes encargos, as colunas
que operavam ao norte e ao sul teriam tempo de
irem avanqando.
Mas o Gungunhana, esperto e habil, nao dava
uma resposta clara. Escondia as suas inteng6es.
em frases duvidosas, em salamalIques e em hon.-
rarias aos membros da mission.
Ant6nio Ennes desistiu de resolver o caso por
este process, e as colunas avangaram.





Travou-se a batalha de Magul, em que Paiva
Couceiro e Freire de Andrade fizeram prodigious.
Eram milhares de negros, armados de azagaias,
flexas e espingardas que os aventureiros de Africa
Ihes vendiam por bom preqo.
Os negros investiram a sua maneira, cor ar- 13






gflcia, escondendo-se nos m6rros de formiga bran-
ca, evolucionando nas orlas das florestas ou em-
brenhando-se nelas para fugirem A pontaria
certeira das nossas tropas.
O quadrado foi completamente cercado. Che-
gou a haver panico, logo desfeito pela serenidade
dos oficiais. Alguns soldados atiraram-se a terra,
para oferecerem mentor alvo, mas Paiva Couceiro
e Freire de Andrade agarraram nos pelas golas e
obrigaram-nos a disparar de pe, porque era ver-
gonhoso os broncos agacharem-se diante dos ca-
fres. A luta foi renhida. Quando tocou a cessar
f6go, os portugueses tinham virite e sete feridos, e
cincoenta mortos. Dos cafres havia mais de tre-
zentos cadAveres' e n.o estavam todos porque,
como se sabe, os negros, nas retiradas, levam,.
sempre que podem, os seus mortos. Dificil foi
tambm avaliar o nimero dos feridos. O preto
tern una resistencia muito grande, e, as vezes,
corn ferimentos de gravidade, s6 vai cair a umas
poucas de l6guas dos' locals onde se travam os
combates.



A coluna do coronel Eduardo Galhardo, que
operava ao norte, estava em Chicomo no dia 4 de
14 Novembro em I895, e nesse mesmo dia seguiu






para Manjacaze, caminhando cor dificuldade
num terreno arenoso e acidentado.
Compunham a coluna quinhentos e setenta
homes e quinhentos auxiliares pretos.
No dia 6, os guias estavam perto da povoaggo
de Manjacaze, o (cquartel general) do poderoso
Gungunhana.
O coronel Galhardo foi avisado, mas como o
mato era denso e a march se fazia abrindo cami-
nho a machado, resolve bivacar, para no dia se-
guinte, entoo, se lancar ao assalto. Estava junto A
lag6a de Coolela. Formou quadrado. O quadrado
e uma formaqao de defesa. As tropas que, mano-
brando em terrenos que pela sua extensdo ou pela
sua densidade de vegetaqio, nio tam possibilidade
de exercer uma grande vigilancia nas suas frentes,
recorrem a esta formaqdo para evitar a surpreza
dum ataque que lhes pode vir de todos os lados.
Em geral, colocam-se as peas e as metralhadoras
nos angulos do quadrado, e guarda-se nele, durante
a noite, a cavalaria e t6da a equipagem das colu-
nas.
Foi esta portanto a formaaio indicada pela
proximidade a que a coluna se encontrava das
numerosas f6rqas do destemido chefe yvtua.
No dia seguinte, quando as tropas portuguesas
se dispunham a levantar o bivaque, uma patrulha
de-auxiliares, que andava em exploragio, veio, a






tOda a press, anunciar que se aproximava o
Gungunhana corn a sua gente
Nao podiam chegar em melhor altura! Se vern
um pouco mais tarde, apanhavam a coluna ja em
march e, por muita discipline que houvesse, tal-
vez f6sse dificil evitar o panico, pela impetuosidade
corn que os negros acometeram. Mas, assim, en-
contraram ainda o quadrado formado e as tro-
pas na melhor disposiq;fo para receberem a vi-
sita...
O combat nao teve essas peripdcias dramati-
cas que esmaltaram a maioria das nossas campa-
nhas coloniais.
Foi simples, energico e decisive.
Dum lado, as nossas tropas corn o seu mo-
'derno armamento europeu; do outro, milhares de
negros, avancando, resolutamente em grandes
gr ipos, constituindo regimentos, a que eles davam
diferentes nomes: o regimento dos tbfifalosv, o
dos ((jacar6es, o dos adevastadoress, etc., etc.
Era uma enorme massa de negros, dez mil,
aproximadamente, que galgavam os terrenos,.ex-
pondo-se A- pontaria dos soldados e ripostando
corn energia, ao mesmo tempo que iam envolvendo
'o quadrado.
Mas da nossa parte havia a confianca nos
chefes, e, enquanto se queimavam os sete mil car-
16 tuchos de espingarda e as quarenta e cinco grana-






das de artilharia abriam largas clareiras na nuvem
escura dos assaltantes, os soldados, brincando cor
a morte, diziam piadas uns aos outros.
Ficou celebre a frase dum official que, ao ver
um soldado ferido no nariz por uma bala, Ihe disse
a sorrir:
aI bem feito, ndo tivesses o nariz fora do
alinhamento!.. .-
E, jd depois de prestadas as honras aos her6i-
cos portugueses mortos, quando as tropas entra-
ram na povoaqgo do Gungunhana, de toda aquela
enorme legido vitua, havia apenas uma velhota,
que, a um canto, a chorar, indicava, num gesto de
doida, que o imperador, esse famigerado Gungu-
nhana que langAra uma raga inteira na trAgica
aventura, tinha fugido cobardemente.
A povoagao era vasta, mas formada inica-
mente por palhotas. Havia uma casa de madeira e
Szinco, que o tenente Jidice Biker, que era a auto-
ridade portuguesa no imperio, mandAra armar e
oferecer ao negro. Mas este vivia como os outros
cafres e servia-se da casa como armazem. Dizia-se
tambdm que o r6gulo possuia enormes riquezas,
mas a verdade 6 que, na pesquisa que os soldados
fizeram, encontraram-se unicamente alguns caixo-
tes de garrafas de Vinho do Porto, vasias, um
frasco de sais de frutos, urn mosquiteiro e uma
tina de banho! Se acaso tinha muitas libras, como






se apregoava, levou-as, talvez, ao abandonar a
povoaglo.
Um archote lancou fogo A povoag o, e, nas la-
baredas que se erguiam naquelas selvas misteriosas,
parecia arder todo o prestigio dum imperador que
trouxera curiosa e apreensiva a Europa inteira e
se desfazia, agora, ali, em cinzas, sob.o olhar can-
sado dos soldados de Portugal!




Entre os oficiais que tomaram parte-na campa-
nha contra o Gungunhana, ia o capitgo Joaquim
Mousinho de Albuquerque.
Mousinho de Albuquerque nasceu a Io de
Novembro de 1855. Concluido o curso dos liceus,
frequientou a Escola Polit6ciica, ingressando depois
na Escola do Ex6rcito, donde saiu corn o curso da
arma de cavalaria. A 27 de Dezembro de 1876 era
despachado alferes. JA como official, matriculou-se
na Faculdade de Matematica, da Universidade de
Coimbra, e frequentou-a at6 ao terceiro ano.
Dotado dum temperament ardente e impe-
tuoso, gastou a sua mocidade numa estirdia cons-
tante. Mas adentro da irreflexao pr6pria da idade,
adivinhavam-se ja no j6vem official qualidades que
18 o levariam a ultrapassar a craveira normal dos






homes. Valente e destemido, conseguiria atingir
uma posigao invejavel quando 8le quizesse p6r ao
servigo do Pais as suas qualidades de energia e
decisao.
A ,vida mon6tona do regimento nao se coadu-
nava cor o seu temperamenro.
Servira na India e goverhara, depois, o distrito
de Loureno. Marques. E no contact director cor
as col6nias aprendera a ama-las e a conhecer os
inimigos do nosso patrim6nio ultramarino.
Dedicara-se ao estudo da hist6ria dos vatuas e
tao interessadamente que nascera nele o sonho de
exterminar todo o poderio d&sse famigerado Gun-
gunhana que trazia ja, ao tempo, em sobressalto,
os coraq6es dos verdadeiros portugueses.
E quando na Metr6pole se organizaram as
expedig6es a Mogambique, Mousinho de Albuquer-
que oferecera-se para tomar parte.
Pimentel Pinto, conhecendo o seu entusiasmo,
nomedra-o para auxiliary as expedi96es.
Comandando um esquadrao de Lanceiros,
Mousinho de Albuquerque entrara nas ac(6es con-
tra o Gungunhana. A sua intrepidez e a sua valen-
tia sobressairam logo nos primeiros combates que
se travaram.
Quando a coluna do coronel Eduardo Galhardo,
na perseguigao dos r6gulos Zixaxa e Mahazul,
teve dificuldades em avangar por falta de.viveres, 19






Mousinho de Albuquerque, apenas corn virite e
tantos soldados, foi buscar asses viveres a Inham-
bane que ficava a cento e oitenta e cinco quil6me-
tros de distancia, arriscando-se a ser trucidado
pelas numerosas tribus dispersas pelo caminho.
Depois, na batalha de Coalela, expuzera-se
tanto, no calor do combat, que rolara no chdo,
por ter sido atingido o cavalo que montava.
Estes e outros actos de bravura e de temeridade
impuzeram-no A consideragdo dos seus superiores.
E ao ser criado o governor de Gaza para a ocupa-
do military de t6da a regigo que f6ra teatro das
operag6es, Mousinho de Albuquerque foi nomeado
para assumir a chefia desse governo.
Ao tomar conta do espinhoso cargo que Ihe
f6ra confiado, o ilustre military levava cada vez
mais arreigada a iddia de que havia de prender o
Gungunhana.
Sentia mesmo a necessidade urgente de p6r
em execugao essa iddia.
A f6rqa e o prestigiodo poderoso r6gulo tinham,
de facto, sido quebradas pela acC9o e est6rgo~das
nossas tropas, mas Mousinho de Albuquerque
sabia bem o valor da tenacidade do potentado
negro e ndo Ihe restava d6vida delque e6e, esque-
cidas as horas amargas, tentaria chamar A obedien-
cia muitos dos rdgulos que, movidos pelo terror,
S20 o tinham abandonado.






Deix~-los unir novamente era perder-se todo o
trabalho que at6 entdo tinhamos feito. Era deixar
apagar o formidivel prestigio que as nossas armas
alcanraram em Marracuene, em Magul e, sobre-
tudo, em Coalela.
E cada vez mais sentia enraizar-se-lhe a id6ia
de exterminar totalmente o poderoso soba que,
a-pesar de derrotado, era ainda uma sombra negra
para a honra national.
Dizia-lhe a sua intuigao que o famigerado negro,
ao ver-se abandonado pelos seus suibditos, se teria
acolhido ao lugar sagrado de Chaimite. Chaimite
era uma esp6cie de campo santo dos seus maiores,
e as suas .crenqas te-lo-iam levado ali a consultar
os augures, s6bre as camps dos antepassados.
Sanches de Miranda, o amigo e companheiro
de Mousinho naquelas horas ingratas da campa-
nha, conhecedor profundo da hist6ria vitua, cor-
roborava esta opiniao.
Nao havia que hesitar.




Organizada uma pequena coluna de 3 oficiais
(o primeiro tenente Sanches de Miranda, o tenente
graduado Manuel Jos6 da Costa e Couto, e o fa-
cultativo de primeira classes Francisco Maria do 21






Amaral), um sargento (o 2.0 sargento de Infanta-
ria 2, Jose Bernardo Dias) e 47 cabos e soldados
escolhidos entire as pra9as pertencentes a diversas
unidades militares da Metr6pole e que mais se
haviam distinguido nos combates anteriores, Mou-
sinho de Albuquerque march para Chaimite.
Acompanhavam a coluna duzentos e sete auxiliares
e setenta e seis carregadores que transportavani
arroz, temperos e vinho para dez dias de viagem,
reduzidos a raq6es a cincoenta por cento do nor-
mal.
Uma chuva impertinente, engrossando, por
vezes, em fortes aguaceiros, encharcava-lhes os
ossos. Transpuzeramn pantanos, atolados at6 aos
joelhos. A fadiga tentava venc8-los, mas a vontade
firm de Mousinho de Albuquerque dava-lhes alma
para caminharem.
Seria impressionante, no silencio das selvas,
ver um punhado de 50 portugueses irem desafiar
ao seu iltimo reduto o maior potentado africano t
S6 quem nao f6r portugues 6 que nio pode sen-
tir-se orgulhoso ao p6r na imaginaqAo o que te-
ria sido 8sse espectaculo de heroismo e de bra-
vura!
Tinha said parte da coluna, a 25 de Dezem-
bro de i89'5, a bordo da lancha canioneira Ca-
pelob; no dia seguinte,, havia said por terra a
22 outra parte. As quatro horas do mesmo dia junta-






vam-se em Zimacaze, cerca de tr8s milhas a mon-
tante da foz do rio Chemgane.
E horas depois avistavam Chaimite no meio
de um terreno arenoso, cheio de margala e m6rros
de muchem.
Os auxiliares indigenas, influenciados pelo
prestigio que ainda tinha o Gungunhana, deixa-
vam-se ficar para tras. Foi necessario Mousinho
de Albuquerque distribuir algumas espadeiradas
para os obrigar a cumprir o seu ever.
A coluna continuou marchando.
Chegaram perto de Chaimite, a dez minutes
de march, quando muito.
A povoacio tinha umas vinte e cinco a trinta
palhotas rodeadas por uma palissada de metro e
meio de altura.
Nas imediag6es encontravam-se algumas ca-
veiras, e um cheiro pestilencial a came p6dre in-
dicavam que naquele logar santo dos vdtuas se
tinham passado cenas de carnificina. Uma finica
entrada de quarenta centimetros de largura dava
ingresso a misteriosa povoaq0o.
Mousinho de Albuquerque deu ordem para
que os auxiliares indigenas e os negros que se ha-
viam juntado A coluna formassem um cordao a
cem metros em volta da palissada.
E, de espada desembainhada e seguido pelos
oficiais da coluna, entrou na povoacgo.






Encostados A parte interior da palissada alguns
negros apontaram as espingardas, mas Mousinho
correu para l1es e, ou f6sse por terem visto o cor-
dao envolvendo a povoagdo, nao s6 nao fizeram
fogo, como ainda, acobardados, se sumiram nas
palhotas.
cOnde esta o Gungunhana? preguntou
Mousinho a um negro de cor6a na cabega que,
atraido pelo barulho, saia duma palhota.
O negro nao responded. Limitou-se a apontar
a palhota de onde acabava de sair.
-aGungunhana !-gritou, no silencio que se
estabeleceu, o valoroso capitgo.
Nao obteve resposta.
Pediu um archote e, quando se preparava para
langar fogo A palhota indicada, saiu de 1l, cheio
de arrogancia, o Gungunhana.
Sanches de Miranda e o tenente Couto reco-
nheceram-no logo.
Tinham-no visto mais de uma vez em Manja-
case.
aAmarrem-no!, ordenou Mousinho.
Dois soldados iam a amarrar o Gungunhana.
Mousinho, corn desprezo, deteve-os: cNio, bran-
cos, nio!... Dois negros!,
E dois pretos ligaram as maos do r6gulo, atras
das costas.
-(-Agora, senta-te!)






-,Esta sujo o chdo!,-replicou o potentado.
-- Senta-te!b insistiu Mousinho, dando-lhe
um empurrao que o deitou por terra.
Um enorme alarido de azagaias batendo nos
escudos, de gritos selvagens dos negros empoleira-
dos nas drvores e nos tectos das palhotas, coroou
o gesto de Mousinho.
Era a destituiggo.
R6gulo que se senate ante o inimigo, 6 senhor
destituido.
SE eram os grandes da sua c6rte, os grandes
do seu imp6rio, os que o haviam acompanhado
na hora triste da derrota que aplaudiam, agora,
entusiasmados, a queda daquele a quem momen-
tos antes juravam uma obediencia cega e uma in-
condicional submissoo!
Depois, Mousinho preguntou-lhe onde estavam
Queto, tio do r6gulo, Manhune, seu favorite, que
f6ra sempre um implacavel inimigo dos portugue-
ses, Molungo e Maguiguana, seus conselheiros.
Queto e Manhune apresentaram-se.
Mousinho, para dominar por complete o meio
e como exemplo necessario, mandou-os fuzilar.
Queto, principalmente, encarou a ordem com
heroismo e altivez. Pediu apenas que nao o amar-
rassem, para poder cair no chgo depois de morto.
Em face destes dois fuzilamentos, toda a ne-
gralhada se manifestou em gritos selvagens, de






alegria o que comprova que confundem a f6r9a
e a coragem com a crueldade.
Ema seg'uida, veiu Impincazamo, mai de Gun-
gunhana, de joelhos, pedindo que ndo lhe matas-
sem o filho nem Godide, seu neto, filho do Gun-
gunhana, que ambos ela tinha criado. Impinca-
zamo f6ra sempre amiga dos portugueses.
Mousinho respondeu-lhe que, corn respeito ao
Gungunhana, s6 o rei de Portugal podia resolver,
mas que o Godide seria poupado e que, em aten-
95o a ela, permitia que ele acompanhasse o pai.
A velha agradeceu, e Mousinho disse-lhe que
podia ir em paz para a sua povoaIao, que nin-
gu6m Ihe faria mal.
Nesse mesmo dia a coluna regressou trazendo
sob prison o Gungunhana, o rdgulo Pissane, Mo-
lungo, Godide e sete mulheres que o negralhao
escolhera para o acompanharem.
A 6.de Janeiro de 1896, em Lourengo Mar-
ques e no palAcio do Governo lavrou-se o auto
da entrega dos prisioneiros, que, tempo depois,
embarcaram para a Metr6pole. a bordo do
,Zaire.
Portugal inteiro vibrou de entusiasmo ao ter
a noticia da prisao do Gungunhana. ,
Do Algarve ao Minho, em todos os recantos,
o nome de Mousinho de Albuquerque andou na
26 b6ca.de t6da a gente.:






Havia especticulo de gala em S. Carlos no dia
em que chegou-o telegrama noticiando o feito do-
her6i. D. Carlos mandou 18-lo A assistencia, que,.
de p6 e num entusiasmo indiscritivel, aclamou a
PAtria e o Ex6rcito.
Pensou-se logo em recompensar Mousinho. O
Rei nomeou-o seu ajudante de ordens, mas quiz
ir mais long na recompensa- entregar-lhe o go-
verno de Moqambique.
Por6m, a political palaciana contrariava-lhe
este prop6sito, alegando, uns, que a sua patente
de capitdo n.o era suficiente para a altura do car-
go, alegando, outros, a pouca idade do her6i.
Vigorava ainda esse principio err6nio de que-
a categoria e a idade dos individuos sao condi-
96es indispensdveis para o desempenho de deter-
minadas funqges., Foi um principio que fez a sua
epoca e que hoje se encontra completamente por
terra, em face da redenq5o dum pais levada a
cabo quisi unicamente pelo esf6rgo e inteligencia.
dos novos.
Mas o ambiente de simpatia em volta de Mou-
sinho crescia dia a dia, vencendo as intrigas, os.
despeitos e as invejas. E a i3 de Margo de 1896
promoviam-no a major, contando-lhe a antigui-
dade a partir da data do seu brilhante feito (27 de
Dezembro de 1895), e cinco dias depois nomea-
vam-no governador geral de Mogambique.


27-






Depois, neste cargo, como fosse necessArio
manter em respeito os indigenas que continuavam
a revoltar-se, empreendeu uma campanha contra
os namarrais, travando-se os combates de Mojenga,
Naguema, Ibrahimo e Mocuto-Muno, onde o bravo
military continuou os seus actos de heroismo e va-
4entia.
E desbaratadas as f6rgas de Maguiguana, no
-campo de Macontene, Mousinho empreendeu uma
viagem, primeiro a Pret6ria, depois d Europa,
sendo alvo de in6meras provas de apreqo e consi-
-deraqAo.
Visitando o P6rto em 1898, esta cidade rece-
'beu-o numa entusiastica apoteose, entregando-lhe
uma espada de honra, preciosa obra de arte, feita
sob desenho do ilustre artist Teixeira Lopes, e que
pode ser admirada nessa formidivel manifestag o
do esf6rgo portugu8s, em prol da Colonizagao, que
*4 a I Exposigao Colonial Portuguesa que esta rea-
,lizando-se no P6rto.
Tendo regressado a Mogambique, pouco depois
'era exonerado do alto cargo que exercia naquela
col6nia.
E D. Carlos, querendo dar-lhe uma prova da
muita confianca que Ihe-merecia, nomeou-o aiode
suas Altezas Riais, e nessa qualidade acompanhou
o principle D. Luis Filipe numa digressdo pelo
28 norte do Pais.






Estava-se no ano de 19go e comegara o declinio
do prestigio de Mousinho.
Faziam-se ataques cerrados a sua personalida-
de, acusando-o de incompetent para educador de
principles e chegando-se mesmo a diminuir-lhe a
valor das heroicidades praticadas.
Mousinho entrou num-grande abatimento mo-
ral e tdo grande que, na tarde de 8 de Janeiro
de 1902, metendo-se num trem, mandou-o bater
para Benfica e, ao chegar A altura da quinta das.
Laranjeiras, suicidou-se, fazendo saltar os miolos
e pondo um ponto final numa vida que fora sem-
pre um romance incompreendido de galhardia,
bravura e herolsmo.




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