• TABLE OF CONTENTS
HIDE
 Front Cover
 Half Title
 Title Page
 Antecedentes
 Primeira expedicao, de 4 de...
 As operacoes militares de abril...
 Segunda expedicao, em 13 de...
 Nota final














Group Title: Coleccao pelo Imperio ; no. 78
Title: Operaðcäoes militares na regiäao da Sanga, do concelho de Novo Redondo, em 1893
CITATION PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00072086/00001
 Material Information
Title: Operaðcäoes militares na regiäao da Sanga, do concelho de Novo Redondo, em 1893
Series Title: Colecðcäao pelo Impâerio
Physical Description: 50 p. : ; 21 cm.
Language: Portuguese
Creator: Almeida, Bello de
Publisher: Agencia Geral das Colâonias, Divisäao de Publicaðcäoes e Biblioteca
Place of Publication: Lisboa
Publication Date: 1942
 Subjects
Subject: History -- Angola -- 1885-1961   ( lcsh )
Genre: federal government publication   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: pelo ten.-coronel Bello de Almeida.
General Note: At head of title: Repâublica Portuguesa, Ministâerio das Colâonias.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00072086
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 13446864

Table of Contents
    Front Cover
        Page 1
    Half Title
        Page 2
    Title Page
        Page 3
        Page 4
    Antecedentes
        Page 5
        Page 6
        Page 7
        Page 8
        Page 9
        Page 10
        Page 11
        Page 12
    Primeira expedicao, de 4 de abril
        Page 13
        Page 14
        Page 15
        Page 16
        Page 17
        Page 18
    As operacoes militares de abril de 1893
        Page 19
        Page 20
        Page 21
        Page 22
        Page 23
        Page 24
        Page 25
        Page 26
        Page 27
        Page 28
        Page 29
        Page 30
        Page 31
        Page 32
    Segunda expedicao, em 13 de agosto
        Page 33
        Page 34
        Page 35
        Page 36
        Page 37
        Page 38
        Page 39
        Page 40
        Page 41
        Page 42
        Page 43
        Page 44
        Page 45
        Page 46
        Page 47
        Page 48
    Nota final
        Page 49
        Page 50
Full Text



- U. I- --C I ~ --


N.o 78


OPERACOES


MILITARES


NA REGIAO DA
DO CONCELHO DE NOVO


SANGA,
REDONDO,


EM 1893

pelo
Ten.-Coronel BELLO DE ALMEIDA


AFRI
DT
611.7
.A66
1942 ISB O A I 1 9 4 2


I II I-L~-b; -~1~B3le~rClc~l


I M. P R I 'O


P E L O




















OPERACOES MILITARES NA REGIAO DA SANGA,
DO CONCELHO DE NOVO REDONDO,
EM 1893









REPOBLICA POR'TUGUESA
MINISTERIO DAS COL6NIAS

COLECCAO PELO IMPtRIO

N.0 78


OPERACOES MILITARES NA
REGIAO DA SANGA, DO CON-
CELHO DE NOVO REDONDO
EM 1893


pelo
Ten.-Coronel BELLO DE ALMEIDA








DIVISAO DE PUBLICACOES E BIBLIOTECA
AGENCIA GERAL DAS COLONIES
1 9 4 2










17

1 0


AFRICA










OPERACOES MILITARES NA REGIAO DA SANGA,
DO CONCELHO DE NOVO REDONDO,
EM 1893






Antecedentes


O ano de 1892 existiam na regiAo da Sanga umas cen-

tenas de indigenas, para ali idos de diversos pon-
tos, verdadeiros salteadores, que do roubo faziam
modo de vida, e que, duma ferocidade sem igual, eram um
verdadeiro flagelo para as populaq5es pacificas que na
mesma regiAo viviam e que eram as primeiras victims das
suas deprada96es, assaltos e mais crimes.
Tamb6m alguns pequenos sobados mais distantes, de
bom ou man grado com ales se aliavam, preferindo ter a
sua proteccAo a serem por l6es hostilizados.
A Novo Redondo chegavam, de long em long, vagas
noticias dos crimes praticados por 6sse bando de malfeito-
res, que, segundo se dizia, intimavam as suas victims a
nao os denunciar sob pena de morte.
Fiados na impunidade dos seus maleficios, foram a
pouco e pouco alargando o campo da sua acqAo e em come-
gos de 1893 jA ousadamente atacavam as caravanas de neg6-
cio, que vindas do interior se destinavam a Novo Redondo,
roubando-lhes as cargas que traziam.
Ainda nao contents cor esta s6rie de atentados at6 en-
fto praticados a distAncia da sede do Concelho, passaram a











estender as suas correrias at as suas proximidades, le-
vando o saque e o incendio a propriedades agricolas onde
se cultivava cana sacarina, destinada a produzir alcohol e
aguardente, produtos estes que entao tinham muita pro-
cura, constituindo valiosa fonte de receita nao s6 para agri-
cultores e industrials, como tamb6m para a Fazenda Pfblica,
pela parte dos tributes que deles Ihe advinham.
Os proprietarios dessas fazendas, em geral, brancos ou
mestigos, fugiam corn suas families para Novo Redondo,
salvando assim a sua vida e a dos seus, mas muitos dos
seus servigais eram espancadoA e levados pelos bandidos,
engrossando assim a sua temivel quadrilha.
Como natural, as noticias pormenofizadas de todos
estes casos, avolumadas pela dist&ncia, chegavam a Novo
Redondo, alarmando extraordinariamente a populaq o, pois
a guarniqto military do concelho, nao s6 nao era de confiar
por ser exclusivamente composta de indigenas, mas sobre-
tudo pela exiguidade do seu efectivo, em face do nilmero
elevado de inimigos, de que se dizia composto o temeroso
bando cor que teriamn de se defrontar, caso estes se resol-
vessem tambem a atacar as casas comerciais da vila, como
atrevidamente faziam propalar.
S6bre a totalidade dos salteadores variavam as opini6es.
S6 se sabia que de comVqo se formara este sinistro bando de
r6probos, cor algumas dezenas de serviqais, que de Novo
Redondo haviam fugido aos seus amos, uns, porque aman-
tes fervorosos da ociosidade se nio podiam sujeitar ao tra-
balho, por vezes violent, que deles se exigia, outros, e
infelizmente o maior nuimero, fugindo aos maus tratos e
barbaridades que sofriam daqueles a quem serviam.
A noticia que na Sanga se achavam reiinidos fugitives
que planeavam vingancas contra os brancos, correra veloz
pelo sertAo e chegara a pontos afastados, do que resultou
ser aquale nficleo de bandoleiros, acrescido cor mais servi-
gais fugidos, com bastantes indigenas, verdadeiros selva
gens pertencentes a tribus de canibais, que entAo viviam na











vasta regiAo de Selles e ainda com pretos e mulatos deser-
tores, tanto do Dep6sito Geral de Degredados, onde estavam
cumprindo pena, como de unidades militares da Provincia,
e que andavam a monte pelas selvas, fugidos A acgAo disci-
plinadora d&stes organismos, a que por indole insubmissa e
irrequieta ou por faltas praticadas, se nAo queriam sujeitar.
O seu chefe principal, de nome N'Hati, era um antigo
servigal fugido de Novo Redondo, negro de p4ssimos instin-
tos e nutrindo por todos os europeus em geral e muito em
,particular pelos residents naquela vila, o mais profundo
6dio, 6dio que sabia propagar a todos os miserAveis sob seu
dominio, muito principalmente Aqueles que tendo sido ser-
vigais como l8e, conservavam a recordagao de maus tratos
que os seus ex-patr6es Ihes haviam dado.
Cabe aqui fazer uma breve referAncia A forma de trata-
mento, muitas vezes deshumano, como muitos negociantes
europeus e mesmo indigenas mestigos, tratavam os seus
servigais, o que naquela 6poca era um caso normal e que,
bastas vezes, originava muito naturalmente a fuga d&stes
infelizes, que, long das povoa9oes de onde eram oriundos
se agremiavam em ferozes bandos de revoltados, capazes
de t6das as crueldades, transformando-se assim em peri-
gosos facinoras.
Novo Redondo nAo fugia entAo A regra geral; parte
dos seus comerciantes e industrials tratavam bArbaramente
os seus serves.
JA de ha muito tempo que tais processes de tratamento
dos pobres indigenas contratados como servigais foi posto
de parte nas col6nias portuguesas. Nos seus contratos pas-
sou a intervir obrigatbriamente a autoridade, protegendo-os
e punindo severamente os contratantes que porventura os
tratassem mal, o que muito concorreu para que tais casos
se tornem rarissimos.
Por6m, em 1893 assim nAo sucedia. Os contratos faziam-
-se, em regra, verbalmente e directamente entire os sobas e
os comerciantes e particulares, que pagavam Aqueles a sua











importAncia em aguardente, p61vora, armas, fazendas,
sal, etc..
Geralmente estes servigais ncio pertenciam aos povos
dos sobas que os cediam. Pertenciam a outras tribus, por
estes sobas vencidas, nds continues lutas que entdo eram
constantes entire povos indigenas do interior.
Os serviqais assim contratados consideravam muitas
vezes um grande bem serem cedidos por tal sistema a
brancos e mestigos, por trocarem um patrAo e dono, que
era sempre feroz e desapiedado, por outro, que talvez o nio
f6sse, e assim gostosa e resignadamente ligavam t6da a sua
vida & dos novos amos, considerando-se como sua coisa e
sem quaisquer outros direitos que o de receberem dia a dia
as suas raq6es de fuba, care on peixe, o pano que mal os
cobria e, 1A de vez em quando, um pouco de cachaga, sua
gulodice predilecta.
Se os novos patr6es os tratavam corn humanidade, jul-
gavam-se felizes e nfo tendo ambiqges, afeigoavam-se-lhes
de alma e coracio, sendo dales excelentes auxiliares. Se
eram tratados deshumanamente ou se do seu natural cram
preguiqosos ou insubmissos, s6 pensavam na fuga.
Era costume naqueles tempos destinarem-se-lhes os
trabalhos mais rudes e violentos, tanto em servigos dom6s-
ticos como nos de agriculture e de fAbricas, sobretudo no
servigo de cargas, em que faziam o papel de humildes
animals.
Pela mais leve falta eram muitas vezes castigados cruel-
mente A f6rga de chicotadas de cavalo marinho, que Ihes
cortavam horrivelmente a pele, sendo vulgarissimo ouvi-
rem-se a altas horas das misteriosas e cAlidas noites de
Africa, gritos lancinantes e verdadeiros uivos de d6r dos
desgra9ados, que brutalmente estavam sendo flagelados
por chefes de turma ou capatazes, na generalidade mulatos,
de coracAo duro.
Em 1893, era freqiiente encontrarem-se nas ruas de Novo
Redondo, e em muitas outras povoaw6es comerciais africa-











nas, pela hora do sol, escaldadiqa e sufocante, troncos
hercfileos de negros, sulcados por funds verges de came
em sangue, servindo de saboroso manjar a miriades de
moscas, e os miserAveis a quem pertenciam, arquejando,
ajoujados sob o peso de cargas descomunais bem superiores
As suas f6rqas.
Cor tais violencias, hoje impossiveis e inacreditAveis,
mas que entAo eram urma realidade, se poderA afoitamente
deduzir, que muitos dos salteadores de Novo Redondo em
1893, atacando o branco ou mestizo que assim os tratava,
nas suas fazendas e vidas, obedeciam a um sentiment
muito comum na grande maioria dos homes, que 6 o de se
vingarem dos que, abusando da f6rga, os fazem sofrer.
O preto de entAo, como o preto de hoje, apesar de em
geral possuir inteligencia rudimentar e ter pensar e prati-
car actos de crianga, conserve um alto sentido de justice,
apreciando muito bern a forma como e tratado, conforman-
do-se em absolute e resignadamente com o castigo, caso no
seu intimo o consider merecido, mas, conservando impla-
cAvel rancor contra quem imerecidamente o maltrata. Muitos
casos chegados ao nosso conhecimento quando servimos
em Africa ou de que ai fomos testemunha, coroboram esta
asser~iAo, que aliAs, nAo 6 s6 nossa, pois se v6 confirmada
em muitos escritos, ao tratarem os seus autores da psicolo-
gia de individuos da raga negra.

Ao norte de Novo Redondo e a c&rca de 50 quil6metros,
desagua no AtlAntico o rio Cuvo, o qual, no seu long tra-
jecto recebe vArios afluentes.
Um destes, o rio Uchilo,' faz a sua junqgo Aquele rio,
bifurcando-se em dois bragos de desigual comprimento, os
quais em 1893 rodeavam um grupo de ilhas e ilhotas, sepa-
radas entire si por delgadas linhas de Agua, que por 6les
eram alimentadas e que desaguavam no Cuvo, de nivel, ou
por meio de pequenas cataratas, se o seu leito ficava supe-
rior a 8ste rio.











Das mencionadas ilhas formadas por grande massas de
pedras, terras, areas e detritos vegetais que a corrente do
rio Uchilo arrastara no seu percurso, algumas tinham atin-
gido proporqGes relativamente grandes, ficando o seu solo
muito acima do nivel do rio que as criara, sendo assim sus-
ceptiveis de se cobrirem de Agua quando a sua corrente era
caudalosa, ou ainda quando a abundAncia de chuvas produ-
zindo cheias o fazia transbordar. Em tais circunstAncias
eram habitAveis, tanto mais que o decorrer de muitos anos
Ihes dera terrenos agricultAveis de certa extensAo, cor ve-
getaqAo exuberante, onde nAo faltavam Arvores de grande
porte.
As restantes ilhas nada mais eram do que afloramentos
de areia, em geral de pequena Area, de existencia ef6mera e
configuraqAo caprichosa, uma e outra modificadas ao sabor
da maior ou menor f6rga da corrente do Uchilo, servindo
apenas de pousio a numerosos jacar6s, que A hora do sol
s6bre elas rastejavam ou dormiam de bocarra aberta, onde,
amigos devotados, uns pequenos pAssaros pernaltas Ihes
catavam conscienciosamente os milh6es de parasitas e lar-
vas que nelas formigavam.
Duas das ilhas habitAveis haviam sido escolhidas por
N'Hati para reffigio dos seus apaniguados e families, tendo
destinado a ilha Qui6-a maior-para nela edificar a sua em-
bala de soba, pois soba se considerava dos seus numerosos
companheiros.
Como principal defesa dessas ilhas tinha os rios Cuvo e
Uchilo, que as rodeavam, e que mesmo na estagAo calmosa
conservavam naquele ponto volume de Agua muito razoAvel
e cor poucos vaus, fAcilmente dominAveis pelas elevaq~es
das ilhas, al6m de que, o uso destes vaus tamb6m se torna-
va bastante perigoso, pela grande quantidade de jacar6s
que ai havia. A ligaeao das mencionadas ilhas corn a terra
fire fazia-se por pontes gentilicas, de troncos e liames
entrangados, facilimas de destruir em caso de ataque aos
seus habitantes.










Cor tao perigosos inimigos as portas de Novo Redondo,
o chefe do concelho e os moradores reclamaram providan-
cias ao GovErno Geral da Provincia, a fim de se p6r c6bro
a tAo grave situaqAo.
Essas providencias nAo se fizeram esperar, passando-se
imediatamente a organizer em Luanda uma pequena coluna
expedicionAria, reputada de efectivos suficientes, para sem
demora partir para aquela vila e pacificar o concelho, pu-
nindo os criminosos que ali haviam levado a devastag;o e
a ruina.
Para comandante das respectivas operaq6es militares de
policia foi nomeado o tenente coronel do exrcito ultrama-
rino Lourengo Justiniano Padrel. Antigo combatente da
Guin6, onde ainda simple alferes conquistara por actos de
bravura o grau de Cavaleiro da Antiga e Muti Nobre Ordem
da T6rre e Espada do Valor, Lealdade e MWrito; dois anos
antes, igualmente se havia distinguido, exercendo como
major o comando da coluna de operaq6es no Humbe, em
que muito se evidenciara, quer submetendo com a maior
valentia intfmeros povos insubmissos daquela regiAo, quer
demonstrando singulares qualidades de competencia e de
calm energia numa situaqAo extremamente perigosa para
a coluna, sob seu comando e responsabilidade.
F6ra o caso, que tendo o chefe principal dos revoltosos
fugido para o Cuamato, ap6s a derrota da sua gente e tendo
o major Padrel resolvido aprisionA-lo, atravessou o Cunene
e dirigiu-se resolutamente para ali, conm as exiguas f6r9as
de que dispunha, acrescidas cor dois mil cuanhamas como
auxiliares. Depois de uma march penosa e dificil em que
se trocaram muitos tiros com a gente do Cuamato, chegara
As proximidades da embala, quando os cuanhamas abando-
naram a coluna e a deixaram em situafAo muito perigosa,
em face do seu pequeno efectivo, tanto mais que as muni-
qbes jA escasseavam e a iunica pega que levava se encontrava
inutilizada por se-haver partido o eixo do reparo em que ia
montada. Com a maior presenga de espirito, resolvera a re-











tirada, operacAo esta em que a sua energia e competincia
foi posta A prova, pois, dirigindo-a pessoalmente, logrou
manter em respeito o inimigo, que muito numeroso a atacou
constantemente durante o seu trajecto at6 ao Cunene, con-
seguindo ai chegar ap6s um percurso de crca de 30 quil6-
metros, apenas cor 40 baixas de indigenas auxiliares, ao
pass que infligira grandes perdas aos cuamatos. Esta re-
tirada debaixo de intenso f6go do inimigo, tal como foi feita,
6 um dos actos mais gloriosos do antigo ex6rcito colonial
- e tantos foranm les que ainda hoje se cita cor o maior
louvor, e que, como 6 natural, grangeou para o major
Padrel just renome, sendo por isso considerado um official
competentissimo.
NAo podia o Gov&rno Geral da Provincia escolher para
comandante da coluna de Novo Redondo, official mais bravo,
ponderado e perfeito sabedor do sen oficio.



















Primeira expedicao, de 4 de Abril


EM 4 de Abril de 1893 embarcava em Luanda, cor destino
a Novo Redondo, a pequena coluna de operab6es cons-
tituida por pragas dos batalh6es de cacadores n6meros 2
e 3, por uma secqao da bataria de artilharia de Luanda, cor
2 peas, uma de 8 cm., sistema francs de carregar pela boca
e outra sistema Krupp, de 7 cm., de carregar pela culatra,
e de uma pequena fracqAo de servi9os auxiliares, tudo sob
o comando do entAo tenente-coronel, Lourengo Justiniano
Padrel.
O contigente de caqadores 2 embarcara As 10 horas da
manha a bordo da canhoneira <>, comegando as
duas horas da tarde o embarque das restantes f6rqas no
vapor <, da Empresa Nacional de Navegaiao.
O povo de Luanda, sempre Avido de tais espectAculos,
acumulava-se na ponte da capitania aguardando os expedi-
cionArios e vitoriando-os cor entusiasmo, quando precedi-
dos pela banda de capadores chegaram ao cais de embarque.
Durante a entrada dos nossos soldados nas grande
lanchas que os conduziram ao paquete, nAo cessaram os
gritos de despedida da multidao e dos que partiam, entu-
siasmo que subiu de ponto, quando a banda que at6 ai
acompanhara os expedicionarios rompeu com o hino nacio-
nal, sendo ininterruptos os vivas a Portugal, ao Rei, ao
Governador Geral, ao ex6rcito, etc.










As quatro horas da tarde o < e saia da baia de Luanda, tomando o rumo do sul.
No dia 5, os passageiros novatos em viagens da costa
africana foram surpreendidos, ao acordar, cor o grande ba-
lanco que o paquete dava, o que muito os intrigava por o
dia amanhecer lindissimo e cheio de sol, e por nAo se ouvir
o costumado rumor do mar bravo, quando por efeito de
temporal as suas vagas se v6m quebrar corn violencia nos
costados das embarcaq6es, desfazendo-se em montanhas de
espuma. Com tal sil&ncio chegava-se a supor que t6da a
gente ensurdecera durante a noite.
Ao subirem ao conv6s admiraram um espectAculo gran-
dioso e altamente impressionante, ao ver o vapor galgar
enormes serras de Agua, para em seguida as descer suave-
mente sem sac6es inc6modos e sem que o mar inundasse a
coberta.
Estas vagas sem rebentagio, deslisando paralelamente,
umas ap6s outras e quAsi A mesma distAncia entire si, ne-
nhum mal faziam ao navio, antes o auxiliavam na sua mar-
cha, visto correrem de p6pa A proa.
Eram freqiientes naquelas paragens, especialmente em
determinadas fases da lua, sendo conhecidas dos indigenas
que Ihes davam a designagAo de w, devendo corres-
ponder ao grande mar sem rebenta;Ao que por vezes chega
As costas das ilhas dos arquip6lagos da Madeira e dos Ago-
res e que ai era entAo chamado < As 8 horas da manha de 7 avistava-se Novo Redondo e
poucas horas depois fundeava o cia da costa.
Aquela vila, vista de tAo long, dava uma forte impres-
sao de desolaAfo e tristeza. S6 se viam altos rochedos, pou-
cas casinhas brancas alvejando de long em long e cubatas
indigenas espalhadas com profusAo no cume de um monte.
Ao norte uma velha fortaleza, parecendo, vista de bordo,
estar desabando em ruinas; no cimo de um outro monte do
sul, um grande rectAngulo de paredes caiadas, que era o ce-











mit6rio, onde muitos europeus descansavam das fadigas e
perigos que em vida haviam sofrido.
O vapor fundeara muito long por causa da caleima e
d1le, s6 cor bin6culos se podiam precisar detalhes de pai-
sagem.
O desembarque no porto de Novo Redondo, al6m de mo-
roso, era naquela 6poca muito inc6modo e um tanto on
quanto perigoso.
Os passageiros dos vapores para poderem chegar a terra
ainda tinham que ser transportados em duas qualidades de
embarcaq6es; primeiro em palhabotes ou cachiques, que,
por meio de velas, que nem sempre eram favorecidas pelo
vento, os aproximavam de terra, fundeando ainda a respei-
tAvel distancia, e em seguida para grandes lanchbes de
fundo chato, movidas a seis e oito remos, e tendo duas
proas como as baleeiras, as quais por falta de cais acosta-
vel deixavam os passageiros em plena praia.
Para Este trabalho correr sem percaleos de maior, ne-
cessArio era que remadores e patr6es das lanchas o exe-
cutassem, conservando-as sempre perpendicularmente ao
eixo das vagas, e aproveitando entire elas a grande vaga que
melhor serviria para as transporter no seu dorso, at6 toca-
rem na praia, momento em que, pretos atentos, Ihe lanca-
riam cabos, cor que as ajudariam a varar, antes que o re-
cuo da vaga, entAo transformada em volumosa massa de
espuma, as envolvesse e alagasse.
Se bem que os pretos encarregados d6ste delicado ser-
viqo fossem escolhidos entire os mais prAticos, bastas vezes,
por erro de vis~o ou de cAlculo de distAncias, eram as lan-
chas envolvidas nos formidAveis r6los da rebentagAo, inun-
dando-se com facilidade e, rapidamente, voltando-se ou
mesmo desfazendo-se.
No desembarque da coluna em Novo Redondo deram-se
dois incidents desta natureza.
Duas lanchas repletas de soldados e lastradas corn pesa-
dos cunhetes de cartuchame, apanhadas em cheio pela re-










bentagio, empinharam-se e voltaram-se, caindo t6da a gente
ao mar, sendo os cunhetes projectados corn violencia fora
da borda, cor risco de na sua traject6ria esmagarem al-
guma cabega de nAufrago, o que felizmente se nao deu, li-
mitando-se o desastre A inutilizagio de muitas muniqbes, As
pracas ficarem sem utm fio enxuto, nao s6 das roupas que
vestiam, como das que nas mochilas levavam, e, ao terem
as lanchas feito das quilas portal, corn algumas tAbuas des-
pegadas, dando grande trabalho no seu salvamento.
Finalmente, chegadas t6das as fo6ras a Novo Redondo
foram recebidas corn a maior alegria pelos seus habitantes,
pois viam nelas o term aos grande sobressaltos que haviam
passado. Manifestando o seu contentamento, tinham-se os
comerciantes e maiores proprietArios da vila cotizado para
oferecerem opiparos banquetes a oficiais e praqas no dia da
sua chegada, os quais foram oferecidos aos oficiais na Resi-
dencia do Administrador do Concelho, aos sargentos na
Fortaleza e As restantes pragas nos barrac6es preparados
para seu alojamento, enquanto se conservassem na vila.

Novo Redondo era entAo a sede do Concelho do mesmo
nome. Era uma vila muito pitoresca e dizia-se estar estabe-
lecida em ponto relativamente salubre.
Banhada pelo pequeno rio Gunza, de margens cobertas
de alto arvoredo que em certos pontos se reiinia pelas suas
altas ramagens, possuia paisagens de surpreendente beleza.
Este rio, um dos poucos inhabitado pelo terrivel jacar6, fer-
tilizava corn os seus 6ptimos nateiros as terras entire as
quais corria, e que por tal motive eram fertilissimas, pro-
duzindo em vastas e bem trabalhadas hortas o milho, o
carA (bafata doce), o feijao, a mandioca, etc., nas melhores
condi96es de qualidade e quantidade. Infmneras laranjeiras
cor os seus frutos doirados, palmeiras de dendem, bananei-
ras, e finalmente extensas Areas de terreno cobertas de cana
de assficar, tudo constituia, no seu conjunto, uma grande
riqueza para o Concelho, habilmente explorada. Grande











quantidade de fAbricas espalhadas pelo vale, destinadas
quAsi t6das A distilacAo de alcohol e aguardente, langavam
no ar, pelas altas chamin6s, enormes penachos e rolos de
fumo, anunciando ao long uma intense vida de trabalho
fecundo.
Novo Redondo jA entAo apresentava aos olhos de foras-
teiros algumas casas de construgAo europeia, especialmente
em duas ruas, em que nem uma s6 casa coberta de colmo
se enxergava. O seu solo 6 que entAo era muito descurado.
Mixto de argila muito barrenta e de saibro em pequena
quantidade, tornava o transito dificil, muito especialmente
em dias de chuva.
A fortaleza, embora colocada em ponto dominant, que
em tempos idos representava uma respeitAvel f6rca da
nossa Soberania e Dominio, nAo era entAo mais do que um
bom miradouro donde se disfrutava o interessante pano-
rama da baia e vila. As suas velhas casernas, remendadas e
de tetos baixissimos, ainda eram aproveitadas para quartel
do pequeno destacamento que guarnecia a vila, e outras de-
pendencias serviam de arrecada4ges e de pai61. Velhas pe-
gas assentas s6bre pranchas de madeira ou reparos de ferro
desconjuntado, apenas serviam para a decorar e para ates-
tar antigos periods de gl6rias.
Contra investidas improvAveis de negros ainda resisti-
ria triunfantemente, por6m, contra os tiros da artilharia
modern, coin facilidade se transformaria em titmulo dos
seus defensores.
Em Novo Redondo, por noite velha, vagueavam A von-
tade lobos e quimalancas (hienas), que haviam tomado a
seu cargo a limpeza da vila, comendo todos os detritos e
imundicias que os seus habitantes pouco limpos abandona-
vam A sua voracidade, e que final seriam focos de insalu-
bridade, se nAo f6sse o econ6mico e higi6nico concurso de
tAo prestimosos benem6ritos. Dizia-se entAo, e parece que
ainda hoje se confirm, que estes animals eram caracteriza-
dos por uma cobardia extrema, nao tendo a ferocidade dos











seus irmAos de raga, da Asia e da Europa. De facto, at6 en-
tAo nio constava que estes animals atacassem o home
adulto em estado de Ihes fazer frente. Quando muito ceva-
vam a sua voracidade nalguma crianga que encontrassem
long das povoaa6es, on nalgum bebado inconsciente, caido
no solo e por isso incapaz de se defender.
A coluna expedicionAria demorou-se em Novo Redondo
at6 13 de Abril, afim de ai se poderem reiinir os carregado-
res necessArios para o transport da impedimenta da expe-
digfo, e porque o terreno ainda se achava encharcado das
filtimas chuvas.
Durante cinco dias de perman&ncia na vila, as f6rqas da
coluna ocuparam-se a preparar cargas, a limpar o arma-
mento e a fazer servigo de guarnioao.
Depois das pragas destacadas no Concelho se juntarem
As f6rgas da coluna esta passou a numerar: 5 oficiais, 2 sar-
gentos e 220 cabos e soldados indigenas, pertencendo todos
ao ex6rcito colonial.
Os oficiais eram, al6m do seu comandante, tenente-coro-
nel Padrel, o capitio Araiijo Santos, o tenente JoAo Moreira
do Carmo, o alferes Frederico Rebocho e facultativo de 2."
Classe Dr. Jose Maria de Aguiar; sargentos: de artilharia,
2.0 sargento Belo d'Almeida; de infantaria, primeiros sar-
gentos Lourengo e Martins e segundos sargentos Moreira,
Rodrigues, Gabriel e Fernandes, o primeiro da bataria de
artilharia de Luanda e os filtimos dos batalh6es de cagado-
res 2 e 3.

















As operaq;es militares de Abril de 1893



NO dia 15 partiu de Novo Redondo para o Puay, a 50 qul-
16metros de distAncia, uma f6rga composta de 8 sol-
dados de artilharia e 12 de infantaria, sob o comando do
2.0 sargento Belo, afim de escoltar 160 carregadores, que
antecedendo a coluna para all seguiam corn bastante ma-
terial. Levava o comandante desta f6r9a instrug6es para se
entender com o soba da localidade, de nome Quitanganha,
afim de fornecer carregadores para.a coluna e, bem assim,
para Ihe fornecer indigenas armados para auxiliarem a
f6rga na defesa da povoaqgo, caso se esboeasse qualquer
ataque dos rebeldes contra ela, antes da chegada da coluna.
Ainda o sargento Belo era portador de cartas de ordem
do comando da coluna enderegadas aos negociantes brancos
que ali estavam estabelecidos, Miguel Augusto e Ant6nio
Jos6 Latino, para fornecerem os g6neros que Ihes f6ssem
requisitados e bem assim alojamentos para as f6rgas que
por ali transitassem.
Esta f6r9a por motivo da preparaqAo e distribui'gio de
cargas s6 p6de sair de Novo Redondo A uma hora da tarde,
justamente quando mais apertava o calor, do que resultou
s6 poder chegar ao seu destiny noite fechada e depois de
uma marcha.dificil e muito penosa.
Os carregadores transportando cargas de material de
guerra, pesadas, poucos passes andados, tinham que des-
cansar; p6ssimos caminhos cobertos de calhaus de arestas










cortantes on rolados; subidas fatigantes em extreme, ou
descidas por atalhos cor declive acentuado e a beira de
temerosos precipicios; tudo concorreu para que a march.
se fizesse vagarosamente e corn o maior cuidado para evitar
desastres. Os carregedores conduziam a peca Krupp des-
montada, de muito dificil transport. Um grupo de doze
pretos que a-mifide se substituiam por igual nimero.
Quatro, conduziam a pe9a ligada fortemente a duas compri-
das varas de bambit, as quais se apoiavam nas extremidades
s6bre a cabega dos condutores. De igual forma se transpor-
tavam o reparo e o armfo dos cofres. Caminhos estreitos
nas encostas das colinas que se atravessavam e freqilentes
vezes serpenteando em curvas apertadas, tinham que ser
percorridos muito vagarosamente, de forma a poder-se
evitar qualquer desastre aos homes que conduziam estas
pesadas cargas, e a evitar-se tamb6m que 6le rolasse nos
barrancos, onde de-certo se danificaria. Ainda assim, nio
raras vezes caia um on outro carregador, actuando o peso
das cargas s6bre os restantes, enquanto 8le sc nAo levantava
e retomava o seu logar.
Em cumprimento do itineririo marcado, a f6rca e carre-
gadores tinham que atingir o m6rro Insequia, que dominava
o Puay. A ascenqAo a iste m6rro se bem que, por vezes,
f6sse penosa pela aspereza dos caminhos, fez-se sem inci-
dentes de maior, por6m sendo a encosta de descida em
face do Puay, um horroroso caminho em zig-zag, com grande
declive, e por vezes tornejando funds precipicios, o seu tra-
jecto foi muito demorado e arriscadissimo, tanto mais por
se ter efectuado jd quasi de noite e em caminho que, sob
Arvores muito copadas, o tornava em certos pontos muito
escuro, sendo porisso transposto quAsi As apalpadelas.
Os carregadores, neste fim de march jA cansadissimos,
escorregavam e caiam, recusando-se a prosseguir caminho,
sendo necessArio esgotar todos os meios de persuasio e at6
de amea9as, para os fazer retomar as cargas e partir.
Tantos contratempos e dificuldades tornaram a etapa










Novo Redondo-Puay bastante tormentosa, mas todos se re-
gozijaram, quando numa volta de caminho se avistou o fa-
rolim do povo Bezungulo; seriam crca de 9 horas da
noite e, pouco depois, o de Puay, de que entAo se distava
uns tres quartos de hora de caminho.
Chegando a f6rea ao Puay vieram ao seu encontro os
negociantes Miguel Augusto e Ant6nio Latino a quem eram
enderegadas as cartas de ordem, de que o seu comandante
era portador. Estes velhos pioneiros do sertAo africano, jA
de hA muito falecidos, muito auxiliaram as f6rcas que pelo
Puay passavam a caminho do Sanga, ou que dela regressa-
vain. Extremamente solicitos em Ihes proporcionarem t6das
as facilidades que podiam dar-lhes, alojaram oficiais e sar-
gentos nas suas casas e soldados em dependencias do seu
neg6cio, e satisfizeram sempre-e prontamente-t6das as
requisi96es de g6neros que Ihes eram pedidas, concorrendo
assim cor o seu abnegado e desinteressado esf6rqo, para
que aos nossos soldados nada faltasse.
Ap6s a chegada ao Puay, e depois de curto mas indis-
pensAvel descanso, soldadose carregadores comeram uma
boa refeiiAo, que previamente havia sido mandada preparar
por aqueles ben'emeritos e, simultAneamente, montava-se um
rudimentar servico de seguranqa, dada a exiguidade da
f6rea, postando-se sentinelas dobradas As portas do arma-
z6m onde se arrecadaram as cargas e nos caminhos por
onde a povoaqAo podia ser invadida de surpresa.
O resto da noite passou-se sossegadamente, e ao romper
do dia foi o soba Quitanganha intimado a fazer a sua apre-
sentaqAo imediata, afimr de Ihe serem transmitidas as ordens
do comandante da expediiao.
Este soba, como todos os sobas de entAo, era um tipo
caricato pela indumentAria que usava. Vestia um raglan de
infantaria, dos uniforms de 1828, cor gal6es de capitio,
quepi tambem da mesma arma, mas de 1890, e cobria-lhe as
escanzeladas pernas vistoso pano de riscado, tudo muito
encebado, sujo e cheio de n6doas de azeite de palma: empu-










nhava um alto bastAo, encimado por uma bola de metal,
que muito bem poderia ter servido, antes, de enfeite nal-
guma cama de ferro. Era alto, desempenado, de carapinha,
bigode e pera esbranquiqadas, sinal evidence na raca ne-
gra, de uma idade avangada.
Quando se apresentou acompanhavam-no muitas mu-
Iheres e os seus macotas.
Transmitidas as ordens recebidas, pareceu acolhe-las
cor respeito e acatamento, curvando-se e batendo tres pal-
madas corn as maos uma na outra, gesto repetido pelos seus
macotas e guerreiros que o acompanhavam, o que traduzia
pleno assentimento as ordens recebidas, e que de resto
verbalmente confirmou, na sua lingua, conform trans'mis-
sao do int6rprete, o negociante Miguel Augusto, que a esse
servigo de bom grado se prestou. Mais tarde provou-se que
&ste chefe indigena, por pusilanimidade ou vielhacaria, nada
mais era do que um espia de N'Hati, com quem jA estava
emn complete entendimento.
Os indigenas da regido, tanto homes corno mulheres,
apresentavam-se completamen~ e nis, tendo apenas press
a cintos de missangas, delgados panos que mal Ihe cobriam
o que fingiam cobrir, os quais dando volta'is ancas eram
tamb6m press pela outra extremidade, aos mencionados
cintos.
As mulheres untadas por complete cor azeite de palma,
a que davam uma c6r atijolada, cobriam as compridas cara-
pinhas de uma massa formada corn o mesmo l6eo, A qual
davam os mais caprichosos feitios. Algumas delas dividiam
a carapinha em duas trangas, que usavam levantadas aos
dois lados da cabega, dando-lhes aspect de chifres. O pano
cor que se cingiam era completamente impregnado tamb6m
de azeite de palma. Parece que o uso em tAo grande quanti-
dade d&ste 61eo no seu ad6rno, tinha por fim evitar a cria-
9io de parasitas.
kste nauseabundo cosm6tico usado pelas mulheres da-
quela regiao, que tio repugnantes as tornava, era em parte











compensado cor a variedade e profusAo de enfeites de latio,
missanga e conchas, por elas usados em t6rno da cabega,
pescogo e membros. Em t6rno da cabeca usavam, vistosas e
desenhadas cor caprichosos desenhos, umas tiras de couro
inteiramente cobertas a missanga, e os cintos que Ihe cin-
giam os rins eram bordados de igual forma.
Nos bracos e pernas, tinham 6cas mas grossas argolas
de latio, que em contact umas corn as outras, e quando a
sua possuidora fazia qualquer movimento, produziam o som
caracteristico do metal, som que denunciava a sua aproxi-
maqAo, mesmo quando ainda de n6s se achavam distantes.
Transportavam os filhos pequenos as costas, tamb6m
completamente nis, e a elas ligados por uma tira bordada a
missanga, envolvendo os dois troncos. Amamentavam-nos
sem os desligar, para o que faziam passar os seios extrema-
mente compridos, por baixo dos bragos.
Os homes tamb6m usavam tiras de couro bordadas a
missanga envolvendo-lhes a cabeqa, tapando-lhes as tes-
tas, e, tanto mulheres como homes tinham o septo nasal
perfurado, por onde faziam passar delgadas varinhas, cor
desenhos abertos A faca, dando a uns e outros feli6es
estranhas.
As mulheres tamb6m apresentavam em t6rno do pescoqo
colares de missanga, que em algumas tinham o aspect de
grossas meadas.
Viviam em cubatas de capim, em promiscuidade com
cAes, porcos, galinhas, cabras, etc., dormindo tudo de com-
panhia. Verdadeiros bichos de mato, nelas se metiam apres-
sadamente A aproximaqAo de algum branch.
A base da sua alimentacao era a mandioca, o milho, e a
care dos cAes, porcos, cabras, galinhas, etc., que criavam,
e a dos antilopes que cacavam. Quando Deus queria tam-
b6m tinham como desenjoativo, apreciados petiscos de que
eram muito gulosos, tais como serpentes, ratos, mangu9os,
lagartos, gafanhotos, etc.
Em t6rno das suas sanzalas viam-se monticulos de pe-











dras colocados cor ccrta ordem. Eram os locais das sepul-
turas dos seus mortos. As pedras tinham o fim de evitar
que as feras desenterrassem os cadAveres.
Os guerreiros que o soba Quitanganha apresentou, tra-
ziam s6bre si verdadeiros arsenals. Uns apareciam armados
de grande espingardas lazarinhas de pederneira, t6das
reforgadas e enfeitadas em todo o comprimento do cano
cor muitas voltas de arame amarelo. Outros, e estes o
maior n6mero, vinham armados de setas ou zagaias de que
hAbilmente se serviam, atirando-as a distAncia s6bre os
troncos de Arvore que visavam.
Os armados de espingarda traziam grande cartucheiras
presas A cinta, uma A frente, outra A retaguarda. Estas
cartucheiras eram feitas de pele de boi, com o respective
palo, mas cheias de enfeites e de desenhos abertos A navalha,
e, caindo delays em guisa de franjas, compridas cerdas de
boi on dc antilope.
Uns e outros transportavam, tamb6m, entaladas nos cin-
tos, catanas (facas de mato), porrinhos (cacetes) e mache-
tes (pequenos machados gentilicos).
As 9 horas da noite do dia 17, chegou ao Puay mais uma
f6rqa de 30 pragas, comandadas por um sargento, tambem
escoltando carregadores.
Fora a f6rga de 50 homes, que jA se encontrava no
Puay, o resto da coluna compunha-se de 120 homens, o qual
sc dividiu em duas fracq6es: uma de 20 praqas que veio
directamente para o Puay, e ai chegou em 20, conjuntamente
corn o comandante da coluna, e outra de cerca de 100
homes, que partiu de Novo Redondo directamente para
Cambale, sob o comando do capitio Arafjo Santos.
Tendo esta iltima f6rga chegado ao seu destiny, ai se
Ihe juntou o soba grande de Panda, D. Jose JoAo Ganda, comn
a sua gente. Depois de indispensAvel descanso, esta parte da
coluna atravessou o rio Cuvo, fixando-se na margem direi-
ta, afim de ai aguardar o resto das f6r4as, para as defender
corn o seu fogo na travessia do rio, se necessArio f6sse.











Em 21 saiu do Puay t6da a f6rqa que ali se encontrava,
acompanhando t6das as cargas, e tres horas depois chegava
ao rio, cuja passage se fez morosamente, empregando-se
nela tres grande jangadas formadas de troncos, ligados
fortemente entire si, e que se puxavam de margem para
margem por meio de fortes cabos.
Assim, s6 As 7 horas da tarde se p6de concluir este ser-
vlgo, seguindo t6da a coluna imediatamente para Calala,
onde se chegou jA noite cerrada, servindo de orientagAo
A coluna, na sua march, o clarAo de um grande incendio,
que lavrava naquela povoaoao, na libata do soba Tcham-
bale.
Antes da chegada do grosso da coluna, o capitao Aratjo
Santos ordenara ao tenente Carmo para que f6sse corn 30
pragas e auxiliaras fazer um reconhecimento As imedia6ees,
e, tendo este official chegado Aquela libata, vira-a abando-
nada, pois a sua gente havia fugido para as ilhas da Sanga,
indicio claro de que se havia juntado aos bandidos do N'Hati.
Nestas circunstAncias f6ra a aludida libata incendiada e
destruidas as lavras que Ihe ficavam pr6ximas; havia sido
o clarao d&ste incendio que servira de farol A coluna, at6
atingir o m6rro da Calala.
A f6rqa de reconhecimento notara que a fuga dos habi-
tantes de Calala f6ra recent e precipitada, pois se encon-
traram numerosos utensilios gentilicos que os fugitives nao
tiveram tempo de levar, e porque se encontraram muitas
panels ao f6go, ainda cor. comida que se estava cozi-
nhando.
A coluna chegara JA tarde ao mencionado m6rro, com-
pletamente extenuada pela march violent que fizera e
verdadeiramente esfomeada, pois desde manhA cedo que
nAo comia.
Para local do acampamento foi escolhida uma clareira,
de que um dos lados estava naturalmente defendido, pois
caia em acentuado decline s6bre terrenos marginais do Cuvo;
os outros lados eram limitados pelos campos das lavras











que haviam sido devastadas na v6spera, os quais eram ro-
deados por mata mais ou menos espessa, que a coluna ha-
via atravessado antes de acampar.
NAo haviam chegado ainda todos os carregadores a 6ste
acampamento, mas para se adiantar servigo, e atendendo ao
estado de esgotamento do pessoal, os graduados trataram
de procurar as cargas de viveres JA chegadas, afim de se
fazer a distribu'iqo As suas unidades e aos carregadores,
para uns e outros cozinharem.
0 official encarregado do servigo de seguranqa, impru-
dentemente, aguardou que aquale outro servico se con-
cluisse, para proceder A nomeavao do pessoal necessArio A
guard e seguranga da coluna, pois convenceu-se, aliAs,
como t6da a gente, nAo ser presumivel que o gentio que
f6ra posto em fuga na vespera, A aproximaqAo da pequena
f6rqa de reconhecimento, se aventurasse a atacar a coluna
composta de tanta gente.
Acabara apenas de se acenderem as fogueiras para cozi-
nhar os generos que se estavam distribuindo, quando de un
dos tufos de mata mais espesso e comprido partiram muitos
tiros em direcqAo ao acampamento.
Ao inesperado ataque sucedeu a maior das confuses en-
tre soldados e auxiliares, os quais, sem ningu6m os mandar,
comegaram desabaladamente a dar tiros A t6a, sendo extre-
mamente dificil, no meio de tal balburdia, colocar uns e
outros nos pontos e locals que no acampamento deviam
ocupar.
S6 depois de porfiados esforgos e sempre debaixo de
fogo violent 6 que oficiais e sargentos conseguiram so-
cegA-los e reuni-los, podendo-se entAo montar as peas, que
depois de fazerem tiros de lanterneta e de granada para os
locais de onde partia o fogo, fizeram calar o inimigo, de-
-certo surpreendido cor o troar dos canh6es e com a explo-
sAo dos proj6cteis que Ules Ihes enviavam, o que para
a grande maioria dos rebeldes era complete novidade.
Depois deste lamentAvel incident 6 que se montaram











postos A cossaco c sentinelas avaneadas, que guardaram o
acampamento durante o resto da noite, conseguindo-se
assim, e finalmente, um relative descanso para as f6rgas, e
se procedeu A distribuiqAo do rancho.
Deste desordenado tiroteio resultou ser ferido grave-
mente corn um zagalote no estomago um soldado de cagado-
res 3, e tr6s outros do mesmo batalhAo, levemente, um cor
um tiro cuja bala Ihe rasgou o couro cabeludo sem ofender
o crAneo, e os outros dois cor as pernas furadas por balas,
mas tamb6m felizmente sem les6es 6sseas. Tamb6m foram
feridos levemente 10 indigenas auxiliares.
Ainda a manhA de 22 vinha long, pois mal apareciam
os primeiros clarbes da aurora e t6da a gente estava de p6,
acordada com novo tiroteio, ainda mais forte do que o ante-
rior, mas que nao encontrava as f6rgas desprevenidas, como
da primeira vez.
Assim, os nossos atiradores comegaram respondendo,
encobertos pelas ondulaq~es do terreno, ou deitados, con-
forme as indicaq6es dos seus chefes, e as duas peas, cor as
guarnigbes defendidas, foram langando granadas de balas,
espoletadas para diversos tempos, com tiros rasteiros, e
tamb6m corn lanternetas com alga para 200 metros.
Este tiroteio durou media hora certa, retirando o inimigo,
de-certo, cor baixas numerosas, pois em diversos pontos de
queda e rebentamento das granadas se encontraram muitas
pogas de sangue. Deste segundo tiroteio apenas 15 auxilia-
res foram feridos ligeiramente.
Ao meio dia reiiniram-se os oficiais, segundo ordem do
comando, sendo por les deliberado que se efectuasse a re-
tirada, desistindo-se momentAneamente do ataque A ilha
Qui6, em vista da exiguidade do efectivo da coluna, da es-
cassez de munig6es, nAo s6, por muitas se haverem gasto
nos dois tiroteios, mas sobretudo, porque atraigoados pelos
negros carregadores do soba Quitanganha, que tendo fugido
haviam abandonado as cargas, consistindo em muitos cunhe-
tes de cartuchame para infantaria.











A uma hora da tarde, pouco mais ou menos, iniciou-se
essa retirada, a qual foi bem dificultosa.
Como jA se disse, o plateau ou clareira onde a coluna fi-
zera o seu acampamento descia quAsi a prumo, do seu lado
sul, s6bre terrenos marginais do Cuvo, e fora alcanqado
pela coluna, fazendo-se um rodeio de cerca de 8 quil6metros,
de forma a alcan9ar-se numa subida mais suave, menos fa-
tigante e menos perigosa. Na retirada, para se poder chegar
ao rio Cuvo ainda de dia, resolveu-se desde logo descer a
encosta acima referida, percorrendo-se os seus dois quil6me-
tros de caminho p6ssimo e em certos pontos quasi a prumo.
Este caminho, em que se caminhava a um de fundo, era li-
mitado por grande pedregulhos, que os indigenas ai haviam
colocado, de-certo, para conterem as terras. Felizmente para
o pessoal da coluna, o inimigo, se estava de sobreaviso s6-
bre provAveis movimentos da nossa tropa, nunca previu que
naquela altura das operag6es tivessemos resolvido sus-
pend&-las, e, muito menos, retirar por um caminho peri-
goso e dificil de transp6r, pensando, naturalmente, que se
quiz6ssemos sair da clareira onde estAvamos, escolheriamos
o caminho por onde a haviamos atingido.
Se o inimigo sonhasse que nos aventurariamos a trans-
p6r o caminho que felizmente escolhemos, esta retirada
ter-se-ia transformado numa sangrenta derrota, para o que
Ihes bastava deslocar os enormes penedos que marginavam
o caminho, fazendo-os despenhar ou rolar s6bre os nossos
soldados.
Corn muita sorte conseguiu a coluna chegar ao sop6 do
m6rro sem que o inimigo a pressentisse, e, quando Wle deu
por isso, jA era tarde para nos poder hostilizar coin eficAcia.
Durante a estada da coluna em Calala, uma das janga-
das, por desleixo dos negros que a guardavam, f6ra rio
abaixo, levada pela corrente, ficando-nos as duas restantes,
de forma que as 8 horas da noite apenas se conseguira pas-
sar metade da coluna.
Quando enfim se conseguiu passar t6da a coluna, cor











excepcho da guard da retaguarda, composta de 30 pracas
sob o comando de um sargento, avistavam-se do alto do
m6rro que se havia deixado, numerosas luzes. Era o ini-
migo que ja havia dado pela retirada.
As nossas f6r9as ainda A beira do rio estavam expostas
ao seu fogo, pelo que se escolheu uma colina um pouco dis-
tante, para nela se fazer o novo acampamento, e, como ainda
faltava a guard da retaguarda, para se Ihe poder indicar
onde as nossas f6rcas se encontravam, foi enviado ao seu
encontro um graduado, que para isso voluntariamente se
ofereceu. S6 alta noite p6de chegar a aludida f6rga ao lo-
cal do acampamento.
Scria just, que ap6s trabalhos tfo fatigantes e exausti-
vos de um dia tVo movimentado, se tivesse um pouco de
descanso, repousando os fatigados corps num sono repa-
rador; inas infelizmente assim nAo sucedeu.
Apart um cuidadoso servigo de seguranga reforqado,
para se evitarem novas surpresas do inimigo, que tio perto
se encontrava, nuvens de mosquitos, grandes como melgas
e pegajosos como carragas, encarnigadamente atacaram t6da
a gente, n&o a deixando sossegar um s6 moment.
Uma excepgao houve, por6m, no geral das pessoas con-
denadas a Zsse martirio em tAo horrivel noite. Enquanto
todos, oficiais, sargentos, soldados e auxiliaries, incbmoda-
nente sentados ou deitados s6bre os calhaus redondos que
atapetavam o mdrro, torcendo-se constantemente sob a
acqao desagradabilissima das repetidas picadas dos seus
pcrseverantes inimigos, que tanto os atormentavam, Sua
Ex.a o soba da Panda, D. Jos6 Joao Ganda, c6modamente es-
tirado numa cama de campanha, que nunca o abandonava,
e permanentemente resguardado das ferroadas dos mosqui-
tos, que quatro moleques, cuidadosamente afugentavam da
sua pessoa, fazendo uso de enxota-moscas, dormia a sono
solto e ressonava como um just, alhcio a pesadelos e a
maus sonhos.
Foi a note mais inc6moda que a coluna passou no seu fa-











dario e ate muito pior A anterior, passada em constant so-
bressalto cor os tiros do gentio, porque ainda assim se con-
seguia dormir um pouco, sem o martirio dos ferozes dipteros.
Todos os oficiais e pragas, ao romper do dia 23, viram
cor pasmo os seus fatos brancos bAstamente sarapintados
de vermelho, como resultado de milhares de picadas de
mosquitos, que tanto os haviam incomodado.
A D. Jose Jofio Ganda jA nio sucedia o mesmo; fresco,
bcm disp6sto e envergando um fato claro, apresentava-se
sorridente, e talvez no intimo trogando dos flagelados
brancos, seus companheiros nesta jornada.
AliAs, sempre correct e respeitador, nfo deixava de a
todos inspirar grande simpatia.
Este chefe indigena era entAo o r6gulo mais important
do concelho de Novo Redondo, sendo-lhe directamente su-
bordinados muitos sobas e sobetas da regiAo, nomeadamente,
como mais importantes, os de Cassongo, Bezungulo e Cam-
bale. Todos os indigenas d&stes sobados tinham-lhe mais
respeito que aos sobas que s6bre lles tinham autoridade
direct.
Alto e de certa elegAncia, vestia regularmente A euro-
peia, falava correctamente o portugues e orgulhava-se de
ser portugues e filho de Mueneputo, como amiidadas vezes
declarava.
Antes da partida da expedigAo de Novo Redondo para o
interior, apresentara-se all ao comandante da coluna, enver-
gando cor certo garbo a vistosa farda de grande uniform,
usada entAo pelos nossos oficiais de lanceiros, e, visto ser
coronel honorArio de cavalaria, mostrando corn orgulho as
condecoraq6es de Cristo e Aviz, corn que Sua Majestade
El-Rei D. Luis I o agraciara, por servigos prestados a Por-
tugal, mas, calgava sapatos de ouralo e sem meias, por
sofrer entAo de feridas nos p6s, provindo da pulex.
As 6 horas da madrugada de 23 seguiu a coluna para
Cambale e ap6s o alm6do levantou bagagens e partiu para
o Puay, onde chegou As 8 horas da noite.











As 6 horas da manhA de 24 partia do Puay, chegando a
Novo Redondo As 3 horas da tarde.
Os tr6s dias que se seguiram ap6s a chegada A sede do
concelho, foram exclusivamente destinados a limpeza do
material de guerra, descarregamento de granadas, balanCo
de cargas, e apuramento de baixas, averiguando-se que
haviam tido um soldado e seis auxiliares mortos; desapa-
recidos tres soldados e feridos, cor mais ou menos gravi-
dade, 3 soldados e 16 auxiliaries.
Ficou-se ignorando o nfmero de baixas do inimigo, mas
presumiu-se que f6ssem em elevado niumero, nAo s6 pelos
numerosos charcos de sangue encontrados nos locais em
que, a coberto de matas, alvejara as f6rqas, mas porque sc
assim n&o f6sse, nAo teria surpreendido o seu ataque, dada
a magnifica posigio em que se encontrava.
A coluna, cor bastante sacrificio organizada, limitara-se
a destruir uma libata, que era uma guard avaneada do ini-
migo, e se mais nAo pudera fazer era em parte porque a
traicAo da gente do soba Quitanganha a havia desprovido
de munie6es, roubando-lhas ou perdendo-as propositada-
mente e porque, mal informado o comando, acreditou que a
exigua f6rca sob as suas ordens era suficiente para bater
os rebeldes, que final se viu, depois, serem em grande nd-
mero, por estarem reforqados cor gente de sobas que at6
entAo considerAvamos finis A nossa Soberania.
Contudo, alguma coisa se lucrou cor a desastrada expe-
diqAo. Reconheceram-se terrenos e adquiriram-se conheci-
mentos s6bre o grau de submissto dos indigenas da regiAo,
o que muito serviria mais tarde, no ajuste de contas final,
quando a Sanga foi finalmente pacificada.
Deixou-se Novo Redondo em 1 de Maio, tendo ali ficado
a artilharia e um ref6rqo important do destacamento, com
soldados de infantaria.
O resto das f6rqas embarcou na canhoneira
e na corveta Mindelo, a caminho de Luanda.
Para que o enguiqo que mais ou menos acompanhou











sempre a coluna, mais uma vez se fizesse sentir, foi decla-
rado fogo no pai61 das tintas da corveta xMindelo, quando
ela, cor todo o pano desfraldado, airosamente singrava a
caminho de Luanda. Os seus bravos marinheiros pronta-
mente o extinguiram, mas o perigo corrido f6ra de arripiar.
De facto, so o fogo se propaga ao velame e a coberta
chela completamente de soldados, onde, entire os quais, nao
cabia um alfinete, e dispondo-se apenas de meia ddzia de
barcos de salvacgo, em que mal caberia a tripulago do
navio, bem se pode calcular a pavorosa catistrofe a que
todos estiveranm ujeitos.



















Segunda expedigao, em 13 de Agasto



RECOLHENDO a Luanda as f6rqas que fizeram part da
expediqAo de Abril, cuja utilidade apenas se cifrou num
servigo, como que de reconhecimento preliminary para ope-
raC6es militares de maior envergadura, tratou-se imediata-
mente da organizagAo de nova coluna expediciondria, a
equal ficou constituida no seu inicio, por 7 oficiais, 250 praqas
de caqadores 2 e 3, 16 de artilharia, e 196 de segunda linha,
ao todo 426 homes de tropa regular, tudo sob o comando
do tenente coronel Lourengo Justiniano Padrel, que JA havia
comandado a primeira expedieAo.
Mais tarde, em Novo Redondo, juntaram-se A coluna
300 homes armados, do soba grande de Panda, D. Jos6
JoAo Ganda e 200 outros do soba Bezungulo.
Assim, o efectivo geral da coluna A sua said de Novo
Redondo numerava 920 homes, albm duns centos de carre-
gadores oferecidos ou requisitados para condu~Ao de mate-
rial e viveres.
Acompanharam tamb6m a coluna como voluntArios, o
negociante europeu Joaquim de Oliveira Barbosa, o valente
indigena Manuel Pereira de Jesus, a quem foi reservado o
servigo de guia, que alias desempenhou cor a maior leal.
dade e diligencia, e, mais tarde, o sertanejo Domingos dos
Santos.
Fizeram parte desta coluna os seguintes oficiais, al6m










do seu comandante tenente coronel Padrel: major Alfredo
Balbino Rosa, o mbdico de 2.a classes Dr. Jose Maria de
Aguiar, o capitdo Francisco Xavier Aralijo e Santos, o
tenente Gualdino Madeira e o alferes Jos6 Henriques Tava-
res, todos do exrcito colonial, o tenente de cavalaria Car-
los Alexandre Botelho de Vasconcelos e o alferes de infan-
taria Joao Henrique de Melo, ambos do exercito do Reino.
D&stes oficiais, que nos conste, apenas existe o tenente
Henrique de Melo. O tenente Botelho de Vasconcelos estava
guardado para ser vilmente assassinado As portas do Arse-
nal da Marinha, numa das numerosas revolu96es republica-
nas, que eram entao em Portugal o pao nosso de cada dia.
Dos apontamentos a que nos reportamos para alinhavar
estas notas, ndo constam os nomes dos sargentos que fize-
ram part desta expedigio, salvo o do 2.0 sargento Joaquim
Martins, da bataria de artilharia de Luanda, que por se
haver distinguido nesta campanha foi promovido ao post
imediato por disting~o.
As f6rgas partidas de Luanda sairam desta cidade, part
no dia 10 de Ag6sto a bordo da canhoneira Limpopo, e
part a 13, a bordo do vapor <).
Reiinida a coluna em Novo Redondo, partiu para o Puay
em 16, onde se f&z o acampamento geral e o dep6sito de
viveres e munig6es, passando assim a servir de base de
abastecimentos. Neste dia apresentaram-se all ao coman-
dante das f6rqas os macotas do soba Tchiela, habitando
uma das ilhas da Sanga, que se declarava adversArio de
N'Hati, por ser uma das suas numerosas vitimas.
Em 12 e 18 procedeu-se A distribuigao das cargas, haven-
do o cuidado de distribuir a artilharia e t6das as munic6es
de guerra a soldados de 2.a linha e os g6neros de alimenta-
qio e mais impedimenta a carregadores indigenas.
As 11 horas da manha de 19 seguiu a coluna para Qui-
lunda, jA em ordem de combat, levando como guard avan-
gada uma f6rga de 50 homes sob o comando do tenente
Botelho de Vasconcelos.










A frente do grosso da coluna seguia uma divisao de
artilharia, composta de duas peas, a Krupp e a de sistema
francs, que jA haviam servido na primeira expedi~&o e uma
metralhadora Nordenfeeld, tudo sob o comando do alferes
JoAo Henrique de Melo, que entao prestava servico na
bataria de artilharia de Luanda.
Seguia-se o primeiro pelotAo de infantaria sob o coman-
do do capitfo Arafijo dos Santos e o segundo sob o comando
do alferes Tavares.
Na cauda destes pelot6es caminhavam os carregadores
send seguidos pela guard da retaguarda, na f6rga de 50
homes, sob o comando do tenente Gualdino Madeira.
Chegando a coluna ao vale de Quilunda As 3 horas da
tarde, depois de percorridos 20 quil6metros de uma fatigante
march, sobretudo para as pragas que conduziam a arti-
lharia, que, desmontada, foi transportada em caminhos
maus e de apertado trilho, subindo e descendo constante-
mente m6rros elevados.
O vale era dominado por um m6rro mais alto, como que
sentinela avancada da Sanga, de onde se avistavam as suas
ilhas e de onde distintamente se via A vista desarmada-a
libata do N'Hati.
Sendo Pste m6rro um ponto estrat6gico de muita impor-
tancia, foi l8e ocupado pela guard avangada, pela divisAo
de artilharia e ainda por auxiliaries, acampando o resto das
f6rgas nas suas imediagOes.
No dia 20 partiu o grosso da coluna em direcqo Aquele
m6rro, juntando-se-lhe as f6rgas que ali tinham acampado;
continuou a sua march em direcqAo ao rio Cuvo, que
alcangou As 11 horas, ap6s um percurso de cerca de 10 qui-
16metros e onde os nossos soldados, sequiosos, se desseden-
taram, pois tendo esgotado os cantis durante a march sob
um sol abrazador, s6 muito penosamenfe haviam at chegado.
A coluna, depois de um pequeno descanso, continuou a
sua march, e As 3 horas da tarde.acampou pouco distant
do p6rto da ilha Quitandala, que ficava fronteiro A ponte










de passage. Quitandala era uma das ilhas habitadas da
Sanga que ficava contigua A ilha de T'Chipela, e pr6xima
vizinha da ilha Qui6, onde estava instalada a libata de
N'Hati.
Como jA dissemos, t6das as ilhas da Sanga, as habitA-
veis e as que apenas constituiam baixos lenq6is de area, e
que a corrente do Uchilo, quando caudalosa, completamente
cobria, estavam separadas entire si por veios dc Agua, mais
ou menos largos, os quais no tempo s&co desapareciam em
grande parte, passando-se de umas para outras a p6 enxuto.
T6das estas ilhas, como tamb6m JA se disse, enchiam
inteiramente um como que delta do rio Uchilo, delta que
abrangia uma Area de muitos quil6metros quadrados.
Tendo chegado a coluna A proximidade da ponte de
Quitandala, foi mandado o guia Pereira cumprimentar o
respective soba, que era inimigo do N'Hati afim de Ihe
transmitir, tamb6m, a ordem do comandante da coluna para
que se apresentasse. NAo se fez esperar, apresentando-se
com os seus macotas.
Ao pensar-se em se aproveltar a ponte desta ilha para a
passage das nossas f6r9as, viu-se nAo ser isso possivel,
porque sendo feita de delgados paus enleados uns aos outros
e atados a varas compridas, ligadas nos seus extremes a
Arvores de uma e outra margem, s6 muito cautelbsamente
podia dar passage a pe6es, sendo completamente impossi-
vel fazer passar por ela a artilharia e mais cargas pe-
sadas.
Forgoso era pois proceder, sem perda de tempo, A cons-
tru Ao de uma ponte em condiq6es de dar passage a t6da
a f6rga e material, mas nAo em ligaqao com aquela ilha,
visto ela achar-se entAo isolada da ilha de T'Chipela, por
propositadamente haver sido cortada a ponte que as ligava,
pois o soba respective destruira-a cor o recelo de por ela
ser atacado pelo N'Hati e seus vizinhos, dos quais era
inimigo.
Assim, foi ordenado ao tenente Vasconcelos para proce-










der aos reconhecimentos necessArios para se saber onde
devia ser construida a nova ponte, missao esta de que
aquale official se desempenhou, sendo acompanhado no
reconhecimento por 40 soldados e pelo soba de Quinta-
dala.
Neste dia e enquanto se procedia ao reconhecimento,
apresentou-se um macota do soba da ilha Tchiela que trazia
um cabrito para o comandante da coluna, como present
daquele soba. Este, jA em 16 havia mandado macotas ao
Puay, como acima se disse. Retribuido o present do soba
corn uma ancoreta de aguardente, foi-lhe mandado recado
para se apresentar corn os homes de que pudesse dispor.
Ainda neste dia, quando do descanso na Quilunda, rece-
beu-se uma carta do sertanejo Domingos dos Santos, morador
em Selles do Amboim, comunicando que tinha muitos ho-
mens cm armas A disposiqAo do comando da coluna, e pe-
dindo para Ihe ser indicado o ponto em que devia actuar.
Como na ocasiao se julgou desnecessArio aumentar a f6rqa
da coluna, o comandante escreveu a Domingos dos Santos,
pedindo-lhe forftasse cerco pelos lados de Quengo, para
obstar A fuga do inimigo, quando f6sse atacado, por6m,
reconhecendo-se mais tarde em Quitandala a necessidade
de mais gentle para o corte de madeiras para a ponte, foi
enviado Aquele sertanejo novo aviso, para que se apresen-
tasse corn os seus homes.
No dia 21 sairam As 11 horas da manhA do acampamento
50 auxiliares armados de machados e de catanas para o
corte de madeiras. Estes indigenas eram apoiados por uma
f6rca de 50 praqas, tudo sob o comando do tenente Vascon-
celos e ainda pela divisao de artilharia, corn as peas e me-
tralhadora montadas nos seus reparos, sob a direcAo do
alferes Melo.
Tendo os auxiliares e f6r9a chegado A orla da floresta
onde se ia cortar as madeiras, foi s6bre 8les descarregada
bastafusilaria que partia do mato das ilhas T'Chipela e Qui6,
fusilaria a que se responded corn vigor, manejando pessoal-











mente a metralhadora o alferes Melo, que cor rajadas de
tiros rasteiros, f&z numerosas baixas no inimigo.
As duas horas da tarde recebeu-se esta noticia no acam-
pamento, e de que o trabalho de corte, nAo obstante o fogo
violent do inimigo se continuava a fazer. Este trabalho
prolongou-se sem interrupqao at6 as 6 horas da tarde,
hora a que todos recolheram ao acampamento, apenas
corn um auxiliar ferido numa perna, por bala, mas sem
gravidade.
Quando o sertanejo Domingos dos Santos se dirigia para
o Quengo, recebeu o aviso para se apresentar cor a sua
gente ao comando da coluna, o que f&z imediatamente, che-
gando ainda com dia, acompanhado de 600 homes bem
armados, a quem se distribuiram viveres e aguardente.
As 11 horas da manha de 22 apresentou-se o soba
Tchiela com 100 guerreiros.
As duas horas da tarde carregaram-se bagagens e a
coluna deslocou-se para a beira do rio, para o local onde se
ia construir a ponte, com o fir de com mais eficAcia se
defender essa construgAo.
Na frente seguiam todos os auxiliares indigenas com
ordem de bater a margem do rio, enquanto se encetava o
trabalho da ponte, por6m, antes de chegarem ao seu destino
comegaram num tiroteio desordenado uns contra os outros,
julgando-se mfttuamente atacados pelo inimigo.
Avisado o comandante da coluna desta enorme confu-
sho, f6z avangar o primeiro pelotao em acelarado para o
local onde estes factos se passavam e, ai ordenando a um
corneteiro fizesse o signal da coluna, ordenou a todos os
auxiliares passassem imediatamente para a retaguarda das
f6rqas, o que 6les se apressaram a fazer, mas nao sem que
olhassem desconfiados uns para os outros.
Destacou-se em seguida a guard avangada da coluna e
a divisAo de artilharia e metralhadora, ocupando a margem
do rio, depois de um rApido avango a descoberto, sob fogo
violent dos rebeldes. Os capadores, A maneira que iam










avangando cosidos cor o terreno, iam descarregando as
suas armas s6bre o inimigo. Pouco depois chegou a coluna,
que se estendeu em atiradores, fazendo tamb6m fogo e
protegendo, assim, conjuntamente cor a guard avangada,
a construqho da ponte. At6 As 6 horas da tarde nao para-
ram os trabalhos e tamb6m o gentio nao deixou de in-
comodar os nossos soldados cor o seu fogo, que final
pouco ou nenhum mal fazia.
Abrigados os atiradores atrAs de parapeitos de terra e
igualmente abrigada a artilharia, fizeram os corneteiros, As
8 horas, o toque de cessar fogo e seguidamente o de recolher,
ficando o acampamento ao abrigo de qualquer surpresa com
um forte servigo de seguranca, no qual se incluiram rondas
de graduados, em permanent vigilAncia.
Na madrugada de 23 fez-se o toque de alvorada, refor-
9ado cor alguns tiros de lanternetas despejadas s6bre as
posicqes dos rebeldes, principiando imediatamente os tra-
balhos da ponte.
O inimigo ainda tentou interromper 4ste servigo, mas
umas rajadas da metralhadora acompanhadas de algumas
grahadas, fizeram-no calar. Uns auxiliares munidos corn
bidons de petr61eo encontraram uma piroga que os desem-
barcou na ilha T'Chipela, onde langaram fogo ao mato
donde eram feitos os tiros inimigos, conseguindo-se assim
alargar nothvelmente o campo de tiro.
Desta forma se facilitava a conclusAo da construcAo da
ponte, trabalho este que se deu por findo As 3 horas da
tarde, sendo dadas ordens de preparativos para o assalto
final, que se deveria realizar no dia imediato.
Como f6ssem escasseando os g6neros, haviam sido man-
dados ao Puay carregadores, que com ales regressaram
neste dia.
As 9 horas da manha de 24, tocaram os corneteiros a
carregar bagagens, formando a coluna em march de corn-
bate, e passando a ponte sem eer hostilizada pelo inimigo.
A frente da coluna marchavam 1200 auxiliares, seguidos










da guard avangada cor a artilharia e metralhadora. Desfi-
lava em seguida o 1.o pelotAo sob o comando do capitao
Araijo Santos, o comandante do grupo de pelot6es major
Balbino Rosa, o comandante da coluna, o medico, o volun-
tArio Oliveira. O segundo pelotao, sob o comando do alferes
Tavares, 300 carregadores cor muniqces, viveres e um re-
banho de 20 bols para consume, e, finalmente, a guard da
retaguarda, sob o comando do tenente Madeira.
Foi nesta ordem que a coluna se manteve sempre, nao
obstante os p6ssimos caminhos que iria percorrer dentro de
densas matas, cheias de grossas trepadeiras e de raizes
adventicias, umas e outras enleando Arvores, que tinham
que ser cortadas a machado para poderem dar passage
As f6r9as e cargas. Foi extenuante 6ste trabalho, hAbilmente
dirigido pelo alferes Melo, no que foi coadjuvado pelo sar-
gento de artilharia Martins, que muito se distinguiu neste
custoso servigo de inutilizadAo de obstAculos.
Nesta travessia de uma vasta floresta, de piso irregula-
rissimo e em que se tornava dificilima qualquer manobra,
tinha o inimigo as maiores probabilidades de inflingir
sarias perdas As nossas f6rgas, caso as atacasse; porem,
felizmente, tal facto se n~o deu, o que se atribuiu A comple-
ta desmoralizagao em que se encontrava, devido As gran-
des perdas sofridas nos combates anteriores.
A ilha T'Chipela estava completamente desert, tendo-se
sup6sto, na ocaslao, que se teriam retirado os seus habitan-
tes para a ilha Qui6, entAo considerada inexpugnAvel pelos
rebeldes. As 11 horas da manha chegava-se a uma pequena
eleva4ao de terreno, donde se dominava a libata do N'Hati.
Ai se puseram em bataria as duas peas, langando granadas
no interior daquela ilha, preparando-se o assalto da infan-
taria.
Os pontos de queda e de rebentamento dos proj6cteis
eram bem visiveis, por6m nAo se via qualquer movimento
dos indigenas, o que levou a supor estivessem escondidos
nas matas que a coluna tinha que atravessar para alcangar











a libata. Todavia, tal facto nAo se deu, pois a ilha estava
desert. A ilha Qui6 tamb6m nAo tinha ningu6m.
A uma e meia hora da tarde davam entrada na libata as
nossas f6reas, hasteando-se nela a gloriosa bandeira azul e
branca, que atW ai acompanhara as f6rcas.
Assim se extinguira o poder do suposto invencivel
N'Hati, autor de tantos roubos e violencias praticadas du-
rante muitos anos. Restava aprisionA-lo e aos seus cumpli-
ces, caso f6sse possivel.
Ocupada a libata e estabelecendo-se um acampamento
provis6rio, foram ordenadas batidas A ilha, afim de se po-
derem aprisionar rebeldes que porventura ai se conservas-
sem escondidos. Nenhum foi encontrado, mas em compen-
saqao encontraram-se muitas galinhas, muitos porcos e
cabras, e bem assim utensilios dombsticos, abundAncia
de milho e feijao, de que os auxiliares, contentissimos, se
apropriaram.
Em 25, estabeleceu-se o acampamento definitive num
plateau que dentro da libata existia, e comeqaram desde logo
os trabalhos para a construgAo de um fortim corn as depen-
dUncias necessArias A sua guarniqfo, encetando-se o traba-
Iho de cortes de madeiras que nelas se deveriam empregar.
Os auxiliaries de folga entretiveram-se a fazer batidas
nos arredores e a cacar antilopes, que nas ilhas e seus su-
bdrbios eram abundantes.
Pelo comando da coluna foram mandadas embaixadas a
sobas de outras ilhas, afim de se apresentarem para prestar
vassalagem a Portugal, sob pena de serem considerados
rebeldes e como tais serem tratados.
At& 30 continuou a construcgo do forte, sob a direcfAo
do tenente Botelho de Vasconcelos, que em Luanda prestara
servigo em comissAo nas Obras Pfblicas, como condutor
de trabalhos. Tamb6m durante aste period recolheram as
embaixadas enviadas aos sobas, os quais pouco depois se
apresentaram para prestar vassalagem.
Em 31 foi eleito o soba para substituir o N'Hati como au-











toridade gentilica, corn predominio s6bre os restantes sobas
das ilhas da Sanga, o qual ficaria instalado cor a sua gente
na ilha Qui6, junto do forte.
Para que o acto f6sse revestido de solenidade, foi orde-
nada a formaqio de uma guard de honra, afim de prestar a
devida continencia A bandeira, pela primeira vez igada no
novo fortim, jd construido.
Perante todos os presents foi lavrada uma acta em que
ficou consignada a data da tomada da ilha, a que na ocasifio
foi dado o novo nome de KS. Bartolomeu>, porter sido ocupa-
da no dia do santo deste nome. Ao fortim e ao novo soba
deu-se o nome comum de homenagem ao entAo SecretArio Geral da Provincia, que
havia ordenado a organizagio das duas expedig6es.
Lavrada a acta, foi igada, ao som de uma salva de 21 ti-
ros de artilharia e demais honras militares, no alto do mas-
tro do fortim, a linda bandeira azul e branca, que era entfo
o glorloso simbolo da PAtria, sempre seguida cor unAnime
entusiasmo em todos os combates coloniais, e pela qual o
gentio sempre teve o maior respeito.
Foi um dia de grande regosijo no acampamento, frater-
nizando os soldados cor os indigenas das comitivas dos di-
versos sobas, uns e outros fazendo furiosos batuques larga-
mente regados a aguardente, acompanhados de bons nacos
de came assada ao espeto.
NAo se haviam convocado os sobas das ilhas de Quipeto
e de Cacombo, por se desconfiar da sua alianCa cor o
N'Hati, e, por constar que um e outro davam guarida a nu-
merosos rebeldes fugidos. Em 1 de Setembro foi o voluntA-
rio Manuel Pereira de Jesus, acompanhado de 10 auxiliares
e de dois soldados devidamente armados, intimar estes so-
bas a fazerem entrega imediata dos fugitivosqu e porven-
tura estivessem nas suas ilhas, sob pena de serem castiga-
dos pelas nossas f6rgas. Neste dia retiraram todos os so-
bas que haviam sido convocados para a eleigio do novo
soba.











Em 2 seguiu para Novo Redondo, gravemente atacado
de febres, o tenente Gualdino Martins Madeira.
Em 3 foi o soba D. Jose Ganda, cor auxiliares seus, ex-
plorar a mata situada ao norte do rio Cuvo, atW ao sitio de-
nominado Semba, por constar estarem nela escondidos re-
beldes.
Recolheu ~ste soba as 3 horas da tarde, trazendo amar-
rado um indigena de nome QuinjAcuE, considerado impor-
tante, por haver exercido junto do N'HIati o logar de confi-
dente, sendo Mle quem convocava as guerrillas para os di-
versos assaltos e quem desinquietava os servigais de Novo
Redondo, convidando-os a fuga.
Mandado apresentar ao comando da coluna, declarou
que pelos lados em que f6ra feito prisioneiro existia mais
gente escondida numa gruta, prontificando-se a mostrar
& se esconderijo. Como havia o maior empenho em aprisio-
nar o N'Hati e o seu macota principal, de nome Capungo,
foi-lhe oferecida a liberdade, caso por sua iniciativa f6sse
indicado o logar em que 8les se encontravam.
Em 4, as 8 horas da manha, saiu do fortim uma f6rqa de
60 pragas e de 40 auxiliares, sob o comando do capitAo Araijo
e Santos, tendo por gula o prisioneiro QuinjAcub, f6rca esta
que, tendo percorrido a margem norte do Cuvo, recolheu
corn 11 prisioneiros, tendo ficado mortos no campo tr6s in-
digenas rebeldes, por nAo ter sido possivel aprisionA-los.
Em 5 saiu de madrugada nova f6rga sob o comando do
major Balbino Rosa, tendo como subalternos o tenente Vas-
concelos e o alferes Melo, corn o objective de fazer nova ba-
tida nas imediaoaes do Cuvo; por6in, recolheu sem ter en-
contrado qualquer rebelde.
Perdida a esperanqa de na ocaslAo se fazerem mais
captures, e tendo recolhido o voluntArio Manuel Pereira de
Jesus cor um servigal fugido de Novo Redondo, encontrado
na llha de Cacombo, foi desde logo resolvido retirarem as
f6rgas para o Puay, salvo a parte delays, que sob o comando
dos alferes Tavares e Melo, ficavam guarnecendo o fortim.











Para esta retirada aguardou-se a apresentagAo dos sobas das
ilhas Tchair, Tchiela e Cacombo, para so lavrarem os seus
autos de vassalagem.
Esta apresentaiAo teve logar em 6, vindo os sobas acon-
panhados de um quimbanda (feiticeiro) para correr cor o
feitio da ilha, pela fuga do N'Hati e pela grande mortan-
dade que tinha havido entire os rebeldes I
Enquanto o quimbanda e mais gentio se entretiveram
em correr e vdr correr o feitigo, foram recebidos pelo
comando os mencionados sobas, que se declaram satisfeitos
por Muene-Puto ter castigado o N'Hati, porque era um mal-
vado que nada respeitava, sendo um p6ssimo vizinho, que
s6 estava satisfeito roubando e matando. Foram avisados
estes sobas, de que grande part das f6rgas ia retirar para
Novo Redondo, mas que a f6rqa que ficava na ilha recebera
ordem para castigar imediatamente os povos que desrespei-
tassem a nossa Soberania, capturando os seus sobas e man-
dando-os para Luanda.
Tamb6m se Ihes mostrou a necessidade de se capturar o
N'Hati e o seu Macota Capungo, fixando-se o pr6mio de
400$00 r6is, em fazendas, a quem os apresentasse.
Tendo-se concluido as constru96es delineadas paraabrigo
e comodidade do destacamento que all ficava, a coluna reti-
rou em 7, tomando o caminho do p6rto grande da Sanga, si-
tuado na extremidade sul da ilha de S. Bartolomeu, o qual
antes das opera9ges era ligado A margem direita do Cuvo
por uma boa e s61ida ponte gentilica, que o inimigo des-
truira A aproximacao das nossas f6rcas.
Na sua falta tiveram que se cortar madeiras para cons-
truir duas jangadas, s6bre as quals os nossos soldados pas-
sariam A margem esquerda do menclonado rio.
Infelizmente, ao efectuar-se esta travessia, tendo-se em-
baraoado uma das jangadas corn o cabo da outra, voltou-se,
caindo ao rio os seus ocupantes, tendo-se empregado todos
os esfor9os para os salvar, o que s6 se conseguiu em parte,
pois tr&s infelizes soldados indigenas foram arrastados pela











corrente, sendo apanhados pelos jacar6s, muito abundantes
nesse local.
No trabalho de salvaqao dos restantes nAufragos distin-
guiram-se: o capitio Araltjo Santos, que salvou dois, e o
alferes Henrique Melo tr8s, salvando-se os restantes sem
auxilio estranho. Aqueles oficiais procederam em tAo angus-
tioso lance corn a maior coragem e filantropia, pelo que
f6ram louvados.
As 9 horas da manhA estavam t6das as f6rqas expedicio-
nArias na margem direita do Cuvo, seguindo para o p6rto
de Binga.
Ao atravessar a regiAo onde se haviam ferido os corn-
bates de Abril, quando da primelra expedigao, s6 all se
encontraram as ruinas que a mesma expedigao havia feito,
nAo se avistando qualquer indigena.
As 11 h. e 30', chegou a coluna ao p6rto de Binga, depoia
de haver percorrido 12 quil6metros, notando-se que o Cuvo,
que em Abril levava uma corrente caudalosa, se havia
transformado num delgado velo de Agua, permitindo a pas-
sagem a vau. Assim atravessaram-no os auxiliares corn
Agua pela cintura, mas todos reiinidos em grande grupos
e fazendo grande barulho para afugentar os jacar6s.
Quanto As f6rcas, passaram o rio nas jangadas.
Tendo-se concluido a travessia ap6s uma hora da che-
gada ao p6rto, foi dado um pequeno descanso A coluna, se-
guindo-se para o Puay, onde se chegou as quatro horas e meia
da tarde, percorrendo-se 15 quil6metros de caminho regular.
Chegadas as f6rgas a esta povoacao, bivacaram. O
comandante das f6rqas apenas chegado, convocou imediata-
mente todos os sobas das imedia6bes para virem prestar
vassalagem ao Puay, e para prepararem a eleicao de novo
soba para Cassengo, visto Quitanganha, seu antigo soba,
se haver bandeado com o N'Hati, nao obstante ser avassa-
lado, atraigoando a primeira expedigio cor o roubo e
abandon de cargas que haviam sido confiadas A sua guar-
da e A dos carregadores que apresentou.











Em 8, seguiu t6da a f6rqa de cacadores 2 para Novo
Redondo, sob o comando do capitAo Araijo Santos, e bem
assim, as praqas da 2.a linha, o material de guerra e a me-
tralhadora, afim de tudo embarcar na canhoneira cLimpo-
po>, que j& all se encontrava para Zsse fim e para fazer a sua
conduiAo at6 Luanda.
O comandante da coluna, o major Rosa, o m6dico
Dr. Aguiar e o tencnte Vasconcelos, ficaram ainda no Puay
para proceder A vassalagem dos sobas, o que se f8z durante
o resto do dia, sendo avassalados os sobas de Bezungulo e
Gumbe e, bem assim, o novo soba de Cassongo, a quem se
fez entrega de 191 cabe9as de gado, que existiam em dep6sito
no sobado, as quais haviam pertencido ao soba Quitanga-
nha, entAo destituido e pr&so em Luanda.
Tendo assim terminado todos os trabalhos da coluna e
do seu comando, partiu o resto das f6rqas para Novo Re-
dondo, na madrugada de 9, chegando a esta vila As 10 horas
da manhA, no meio de grande manifestag6es, sendo entu-
sifsticamente recebidas pela populaqAo, que via assim ter-
minado o long period de sobressaltos que as correrias do
N'Hati Ihe haviam feito passar.
Tendo chegado a Novo Redondo em 15 de Setembro a
corveta , para transportar para Luanda o
resto da coluna, efectuou-se o seu embarque em 16 de ma-
nhA, chegando a Luanda no dia imediato, A 1 hora da tarde.
Quando da said da corveta de Novo Redondo, o coman-
dante Padrel havia recebido pouco antes um oficio do
comandante do fortim ( noticiando ser abso-
luto o sossago na regido da Sanga e estar a f6rea all desta-
cada nas melhores relaqges com os povos gentilicos seus
vizinhos.

Louvores aos expedicion6rios

Tendo o Gov&rno Geral da Provincia reconhecido o
valioso servigo prestado pela segunda expediqAo, louvou











por portaria o seu comandante e os seguintes oficiais, sar-
gentos, praeas e voluntarios, que na campanha se haviam
distinguido:
O major Balbino Rosa pelo incansavel z1lo e actividade
que empregou na boa ordem e disposigAo dos acampamentos
e ainda pela coragem nos combates e na perseguiqao dos
fugitives da ilha;
O medico de 2.a classes, Dr. Jos6 Maria de Aguiar, por
voluntAriamente se haver oferecido para acompanhar as
f6rqas expedicionirias e que tendo feito parte das duas
expedi~6es, mostrou sempre muito zdlo no desempenho da
sua important mission, cor dedicagAo, coragem e sangue
frio, nas ocasi6es de combat;
O capitao Francisco Xavier de Arafjo e Santos, pela sua
coragem nos combates, pela energia e forma briosa como
desempenhou os deveres do seu cargo quando encarregado
da perseguicAo aos fugitives e por ter salvo dois nAufragos,
quando do desastre no rio Cuvo, no dia 2;
O tenente Carlos Botelho de Vasconcelos, que, como
comandante da guard avan9ada, mostrou sempre bastante
coragem, distinguindo-se na ocasiao da ocupa9qo do rio,
onde dirigiu a constru9go da ponte sob o fogo do inimigo,
portando-se com inexcedivel valor;
O alferes Joao Henriques Tavares, pela coragem que
sempre mostrou durante as operag6es e pelo oferecimento
voluntArio de ficar destacado no fortim <(Brito Godins>;
O alferes Joao Henrique de Melo, pela muita bravura,
inexcedivel coragem e sangue frio que mostrou em t6da a
campanha, especialmente na defesa da construefo da ponte,
e ainda pelo muito valor e filantropia, salvando tr6s solda-
dos, que por fatalidade cairam ao rio Cuvo na ocasiao da
passage em jangada, e, finalmente pelo oferecimento
voluntArio em ficar na guarnicfo do fortim ,,
provando mais uma vez a sua coragem e o interasse em bem
servir o seu pais;
O segundo sargento Joaquim Martins, pela muita dedica-











c9o pelo servigo e muita bravura que mostrou sempre, jA
nas opera6ees em que teve que funcionar a artilharia, como
nas marchas por caminhos de dificil trAnsito. (Este sargento
JA em Ordem A Coluna havia sido promovido ao post
imediato por distingao);
O voluntario sertanejo Domingos dos Santos, pela sua
coragem e ainda por se apresentar a favor da causa cor
600 homes armados para 8sse fim;
O voluntario Joaquim de Oliveira Barbosa, que tanto na
segunda expedig o como na primeira, sempre acompanhou
o comando da coluna, abandonando a sua casa de neg6cio
em Novo Redondo, desinteressadamente;
O guia Manuel Pereira de Jesus, indigena sempre fiel ao
Gov&rno e pela muita coragem em todos os transes;
O condenado Manuel Colago Fragoso, que tamb6m fez
parte das duas expedi96es, e que, tanto no fogo sustentado
contra o inimigo, quando da construgio da ponte, como em
todo o servigo das colunas se portou com coragem e valentia.
O soba Mulemba, D. Jos6 Joao Ganda, que sempre ade-
riu As causes do Gov&rno Portugu6s, apresentando o seu
pessoal armado, desinteressadamente;
O negociante Valentim Pais Leiro, de Novo Redondo,
pelos relevantes servigos prestados na pronta satisfaqdo de
g6neros e mais artigos indispensAveis A coluna;
O negociante Miguel Augusto, do Puay, pela prontidAo
e remessa das requisi96es recebidas de Novo Redondo para
a ilha de S. Bartolomeu e pela forma desinteressada como
aboletou t6da a segunda coluna, cedendo a sua casa, e ainda
desinteressadamente alojando o alferes comandante do des-
tacamento, all estacionado;
Finalmente, o Chefe do Concelho de Novo Redondo, te-
nente do ex6rcito colonial Manuel do Amaral de Carvalho
Vieira, pelo zelo c prontidAo nos servigos a favor do bom
4xito das operag6es.

















Nota final




Quarenta e sete anos sAo passados s6bre os aconteci-
mentos a que Aste trabalho se refere.
Durante este long period de tempo, diversas circuns-
tAncias alteraram profundamente a r&de de caminhos genti-
licos e a situamAo de muitas povoac6es indigenas.
Assim 6 que as distAncias registadas em 1893 entire di-
versos pontos e ainda a situaao que entao tinham diversos
centros de populagAo indigena se modificaram por com-
pleto, e, de forma, que quem se proponha averiguar s6bre a
carta ou in loco, comparar as nossas indicaq6es corn as re-
des actuais de caminhos do sertAo de Novo Redondo e a fi-
xaq5o dos locais em que estavam entAo estabelecidos nd-
cleos de populagOes indigenas, cor a sua actual colocacro,
encontra, necessAriamente, manifestas contradiqes, pondo
os estudiosos em divida's6bre a veracidade das informa-
q6es, que s6bre tais assuntos aqui se reproduzem.
Os caminhos gentilicos e ate as pr6prias carreteiras on
picadas, eram corn freqiiencia substituidos por novos cami-
nhos e por novas carreteiras, de harmonia cor as conve-
niencias de quem deles se utilizava. Uns e outros estraga-
vam-se cor o aturado trAnsito, e, como se nAo reparavam e
nem isso valia a pcna, dada a facilidade corn que eram aber-
tos, novas vias de trfnsito se abriam ligando povoaoges,
com maior ou menor extensAo daqueles que substituiam.
Por seu turno as povoa9qes indigenas, compostas de sim-










ples cubatas, que depressa se constroem e depressa se inu-
tilizam, sem que tenham qualquer valor, e que, como sim-
ples abrigos, os indigenas construiam nos locals que de
moment se Ihes afiguravam favor.veis As suas necessida-
des, sAo com a maior facilidade transferidas para pontos
distantes, quando Mles se convencem que os locais pr6via-
mente escolhidos JA nAo servem as comodidades ou bem
star.
Uma conveniencia em maior aproximaqAo de cursos de
Agua ou de nascentes, melhor terreno para as suas cultural;
e ate condic6es de mr visinhanga que surgem entire povos,
tornando-os inimigos, sAo outros tantos motives para uma
populacAo indigena abandonar regi6es em que antes se ha-
via fixado, mudando de pouso.
E 6 assim que por exemplo, a povoaago do Puay, muitas
vezes citada neste trabalho, se encontra presentemente si-
tuada muito mais pr6ximo do rio Cuvo do que estava entAo
e que o p6rto de Binga se deslocou sensivelmente para
montante deste rio, de-certo por se haver modificado o re-
gime de Aguas do mesmo rio, etc., etc.
At6 mesmo a orografia, estrutura, configuracao e nf-
mero das ilhas da Sanga se modificaram por complete, de-
vido As cheias anormais dos rios Uchilo e Cuvo, tornando-se
hoje, quAsi que por complete, inhabitAveis.




University of Florida Home Page
© 2004 - 2010 University of Florida George A. Smathers Libraries.
All rights reserved.

Acceptable Use, Copyright, and Disclaimer Statement
Last updated October 10, 2010 - - mvs