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 Front Cover
 Half Title
 Title Page
 Front Matter
 Frontispiece
 Um elo da cadeia
 Posicao de cabo verde
 Composicao do arquipelago
 Descobrimento e povoamento
 Caracteristicas da populacao
 Cultura Portuguesa
 O caso de Sao Nicolau
 O que fizemos dessas llhas...
 Semelhanca com o norte do...
 A maior riqueza de cabo verde
 Outras riquezas de uma terra...
 Paisagens
 Qualidades do cabo-verdiano
 Destino do homem das llhas
 Quando chove...
 A vida nas llhas
 A "morna"
 Os "bailes nacionais"
 Um poeta
 Literatura popular
 Uma literatura culta
 Apenso: Dois contos populares de...
 Termos e expressoes
 Table of Contents
 Campanha nacional de educacao de...
 Back Matter
 Back Cover














Group Title: Coleccao Educativa ; 38 : Serie E ; no. 3
Title: As ilhas portuguesas de Cabo Verde
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Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00072073/00001
 Material Information
Title: As ilhas portuguesas de Cabo Verde
Series Title: Colecðcäao Educativa
Physical Description: 124 p., 11 leaves of plates : ill., map ; 17 cm.
Language: Portuguese
Creator: Oliveira, Josâe Osâorio de
Publisher: Campanha Nacional de Educaðcäao de Adultos
Place of Publication: Pãorto
Publication Date: 1955
 Subjects
Subject: Description and travel -- Cape Verde   ( lcsh )
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: Josâe Osâorio de Oliveira.
General Note: At head of title: Plano de Educaðcäao Popular.
Funding: Colecðcäao Educativa.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00072073
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 04241056

Table of Contents
    Front Cover
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    Half Title
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    Title Page
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    Front Matter
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    Frontispiece
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    Um elo da cadeia
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    Posicao de cabo verde
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    Composicao do arquipelago
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    Descobrimento e povoamento
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    Caracteristicas da populacao
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    Cultura Portuguesa
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    O caso de Sao Nicolau
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    O que fizemos dessas llhas desertas
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    Semelhanca com o norte do Brasil
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    A maior riqueza de cabo verde
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    Outras riquezas de uma terra pobre
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    Paisagens
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    Qualidades do cabo-verdiano
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    Destino do homem das llhas
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    Quando chove...
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    A vida nas llhas
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    A "morna"
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    Os "bailes nacionais"
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    Um poeta
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    Literatura popular
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    Uma literatura culta
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    Apenso: Dois contos populares de Cabo Verde
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        O lobo e o chibinho
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        Joao-que-mamou-na-burra
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    Termos e expressoes
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    Table of Contents
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    Campanha nacional de educacao de adultos
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    Back Matter
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    Back Cover
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Full Text





















































'p















AS ILHAS PORTUGUESAS
DE


CABO


VERDE





PLANO DE EDUCACAO POPULAR


JOSf OSORIO DE OLIVEIRA


AS ILHAS


PORTUGUESAS


DE


CABO


V


ERDE


XXXVIII


COLECQXO EDUCATIVA
SERIES E NOMERO 3


CAMPANA NATIONAL DE EDUCACO DE ADULTS















< ... No meio das convulsoes presents
n6s apresentamo-nos como uma irmandade
de povos, cimentada por seculos de vida
pacifica e compreensao cristA, comunidade
de povos que, sejam quais forem as suas
diferencia<6es, se auxiliam, se cultivam
e se elevam, orgulhosos do mesmo nome
e qualidade de portugueses>.


SALAZAR


















I'-
tIe











Um elo da cadeia


Portugal 6 constituido, nao s6 pela parte
da Peninsula IbErica a que a vontade dos
Portugueses deu esse nome, mas pelas Ilhas
Adjacentes e pelas Provincias Ultramarinas.
Em toda a parte onde flutua a bandeira
portuguesa e pode dizer-se, que em toda
a parte onde s,: fala a Lingua de Camoes,
mesmo no Brasil, ainda hoje, o que se
verifica e a capacidade de querer dos Por-
tugueses.

Por terms querido ser uma Nagdo, nos
tornamos independents do antigo Reino de
Leao e resistimos a Castela; insatisfeitos
cor a faixa de terreno que nos coubera na
Peninsula, fomos a busca de outros terri-
t6rios, descobrimos e povoamos as ilhas







atlanticas da Madeira e de Porto Santo e o
arquipalago dos Agores, tentAmos criar um
impprio em Marrocos, descemos ao long da
Costa Africana, chegamos a India, fomos ao
Extremo-Oriente, fundAmos na America do
Sul um enorme pais, de lingua portuguesa;
penetramos pelo interior do Continente Ne-
gro, convertemos ao Cristianismo o rei do
Congo, ocupamos parte da Guine, culti-
vamos as ilhas de Sao Tome e Principe,
fizemos de Angola e de Mogambique duas
grandes provincias portuguesas, ainda hoje
mantemos acesa a luz da nossa Civilizacio
em parcelas do imenso Indostoo, numa ci-
dade da China, numa ilha da Oceania...

Falta, neste breve resume da accio dos
Portugueses, um elo da cadeia, que propo-
sitadamente omitimos como se quisEssemos
proper aos leitores uma adivinha: Que 6
que falta ai, nessa sucinta enumeracio dos
prodigios de vontade do povo portuguis?

Tao pouco se fala de Cabo Verde, que






nao estranhariamos que nao soubessem res-
ponder. Pois sem a citagco de Cabo Verde
ficaria incomplete, nao s6 o quadro geogra-
fico do Mundo Portugues, mas o que e
ainda mais important o compendio das
nossas qualidades de povo colonizador.










Posic;o de Cabo Verde


A quase igual distancia do cabo SEo Vi-
cente, na Europa (2622 quil6metros) e do
cabo de So Roque, na America do Sul
(2519 quil6metros), mas relativamente perto
da Costa Africana (620 quil6metros), o arqui-
pelago de Cabo Verde ocupa uma posicao
funcionalmente centrica no Atlantico. Tanto
assim que do porto de Sao Vicente se ser-
vem muitos navios, dos que navegam entire
a Europa e a America do Sul, para se abas-
tecerem de 6leo ou de carvio, e que do
aeroporto da Ilha do Sal se utilizam algu-
mas carreiras areas transatlAnticas. Com-
pete corn Sao Vicente o porto espanhol de
Las Palmas, nas Canarias, e com a Ilha do
Sal o aeroporto de Dacar, na Africa Oci-
dental Francesa. Mas a posigio estrategica
de Cabo Verde, essa nio sofre competencia.










Composiqao do Arquip6lago


O arquipelago de Cabo Verde e cons-
tituido por dez ilhas e meia dfizia de ilheus,
divididos em dois grupos, em relaqio cor
o vento dominant que 6 o de nordeste.
O grupo de Barlavento compreende, de
oeste para este, as ilhas de Santo Antio,
Sao Vicente e Santa Luzia, os ilheus Branco
e Raso, as ilhas de Sio Nicolau, Boavista
e Sal. O grupo de Sotavento compreende,
de este para oeste, as ilhas de Maio, San-
tiago, Fogo e Brava, corn os ilheus Secos
ou do Romba (o de Cima, o Grande, o de
Luis Carneiro e o Sapado), a Norte da ilha
Brava.

A area total do arquipelago e de 54033
quil6metros, quadrados, o que represent
quase cinco vezes a area da Madeira (cor






as ilhas vizinhas: Porto Santo e Desertas)
e quase o dobro da area dos Aqores. A ilha
mais vasta 6 a de Santiago (991 quil6me-
tros quadrados), onde fica situada a Cidade
da Praia, sede do Governo da Provincia, e
a mais pequena, nao falando dos ilhEus,
a de Santa Luzia (35 quil6metros quadra-
dos).










Descobrimento e povoamento


0 descobrimento dessas ilhas constitui
um problema hist6rico, mas nAo importa que
tenha sido um portugues (Diogo Gomes) ou
um genoves (Ant6nio de Noli) quem pri-
meiro ambos colaboradores do Infante Dom Hen-
rique. Executavam ambos (como os outros
que colaboraram no descobrimento do arqui-
pelago ou a quem esse descobrimento pode
ser atribuido) o Piano Henriquino de siste-
matica explorago dos mares. Entre 1460,
ou pouco antes, e 1462, foram to-
das as ilhas do arquipelago de Cabo Verde,
que ha quase cinco seculos, portanto, sio
portuguesas.

<





- dizia Diogo Gomes na narrative que fez
da sua viagem, referindo-se ao descobri-
mento de Santiago. Mas logo em 1461
ou 62, as primeiras ilhas descobertas e por
Dom Afonso V doadas a seu irmAo, o In-
fante Dom Fernando, comeqaram a ser po-
voadas. Repartida a ilha de Santiago entire
dois donatarios: Ant6nio de Noli e Diogo
Afonso (descobridor de outras ilhas do ar-
quipelago), o primeiro levou para 1l alguns
genoveses, seus parents; o segundo, man-
dou para a parte da ilha que Ihe coube
alguns casais da Metr6pole, sobretudo do
Algarve.

Procurou-se colonizar as outras ilhas com
families de Minhotos, de Algarvios, de Ma-
deirenses, de Agorianos e de Judeus, mas
poucos seriam os bravos e depressa comeqou
a importaqio de escravos africanos, oriun-
dos, na sua maior parte, da Guine. Os indi-
-genas da col6nia vizinha Balantas, Pap6is,
Bijag6s e outros passaram a constituir,
pelo nfimero, a base da populaqAo, mas em
















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Ilba d* Ssnttaqa Cidade da Praia -Clkin.r M~unldipa1 .
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Ilha de Santiago Paisagem


L"-







1466 ja o Infante Dom Fernando fazia
seguir para as ilhas de Cabo Verde sa-
cerdotes incumbidos da conversao desses
negros.











Caracteristicas da popular ao


Segregados do continent africano, os
natives da Guin& perderam, dentro em breve,
os usos e costumes gentilicos, podendo di-
zer-se que se tornaram cristgos quase ao
mesmo tempo que as ilhas se tornavam por-
tuguesas. Depois, ao long dos seculos, pela
mistura cor os naturais da Metr6pole ou
cor os descendentes dos colonos brancos,
foram perdendo as suas caracteristicas ra-
ciais, e assim se constituiu em Cabo Verde
uma populaq5o crioula, que ter muito pouco
que ver com os povos da Africa Negra.

Nfo podemos, corn efeito, comparar os
Cabo-Verdianos cor nenhuns nfcleos de
populaaio do continent africano, ao Sul
do Sara, quer pelo grau de civilizacqo quer






pela fusao de sangues, que fez da gente das
ilhas um povo mestizo, mas com fisionomia
pr6pria.
Na provincia portuguesa de Cabo Verde,
o maior ou menor grau de coloragio da pele
nio quer dizer nada, pois que todos os habi-
tantes sio igualmente civilizados. Falam, os
Cabo-Verdianos, um dialecto do portugues
- o crioulo cabo-verdiano. Mas isso nio
impede que os Cabo-Verdianos se expri-
mam, igualmente, em portugues de Portugal,
ou que, pelo menos, o compreendam perfei-
tamente.

Sio diferencas, essas, que se explicam
menos pela raca que por influencias do clima
e que nio diminuem a indole portuguesa dos
Cabo-Verdianos. AliAs, mesmo quando, como
era inevitdvel, o facto de se tratar de ilhas
situadas nos Tr6picos tenha imprimido carac-
teristicas psicol6gicas pr6prias A populaqgo
da provincia de Cabo Verde, e a sua cul-
tura social seja, portanto, de certo modo
diferente da de Portugal, a verdade & que
os Cabo-Verdianos se sentem portugueses.











Culfura Portuguesa


Nao e precise falar daqueles crioulos
que no liceu de Cidade do Mindelo, na ilha
de S~o Vicente, adquirem os elements de
uma cultural intellectual portuguesa, e menos
ainda daqueles outros que vem estudar para
a Metr6pole, e aqui frequentam as escolas
superiores. Qualquer cabo-verdiano que te-
nha frequentado uma escola primaria e &
muito reduzida a percentage de analfabe-
tos nas ilhas crioulas de Portugal, nao
s6 se exprime perfeitamente em portugu&s
como pensa e senate, em tudo que diz res-
peito a Naqgo, da mesma forma que um
filho das Beiras ou do Alentejo.

Se a sua maneira de ser tem parti-
cularidades, tambem as ter o portugues de






Tras-os-Montes ou o dos Agores. E quando
cultos, nada os distingue, mentalmente, dos
portugueses do Continente ou das Ilhas
Adjacentes, mesmo que seja mais escura a
cor da pele. Alguns cabo-verdianos tEm
ocupado ou ocupam altos cargos na vida do
Pais, e ninguem os 'diferencia dos demais
portugueses.

Trata-se, por conseguinte, de uma das
melhores provas da excelkncia dos proces-
sos portugueses de colonizacgo, sem o valor
dos quais dificilmente se compreenderia que
tivessemos criado o Brasil e que possamos
falar de um Portugal Ultramarino.











0 caso ce Sao Nicolau


O Cabo-Verdiano e animado pelo desejo
de aprender, e assim se explica que seja
bastante reduzido o nfimero de analfabetos
numa terra que, pela modestia da sua vida
econ6mica, nao oferece colocacgo adequada
a todos os que possuem conhecimentos lite-
rarios. Lemos, algures, o depoimento im-
pressionante de um professor: Mario de Mo-
rais, que leccionou na ilha de SAo Nicolau.
veu ele causa admiraqgo, e i de como-
ver observer a solicitude e diligencia cor
que os pequenitos palmilham distAncias que,
cor frequencia, atingem muitos quil6metros,
e por vezes cor os ventures quase vazios,
para aprender as primeiras letras em escolas
que ficam long das suas povoaq6es natais.






Dando conta de uma experiencia pessoal,
acrescentou esse professor: curso que tentei organizer na Ribeira Brava
inscreveram-se inimeros natives, que pre-
tendiam aprender a todo o custo as coisas
mais dispares. Alguns deles, que eu sabia
pobrissimos e interroguei escrupulosamente
sobre o modo por que Ihes era possivel
ocorrer as despesas do aprendizado, pro-
punham-se arcar corn sacrificios deveras im-
pressionantes cor os quais talvez nenhum
outro povo tivesse coragem de arrostar>.

O gosto pela instrucgo, levado a extre-
mos de amor e satisfeito, muitas vezes, corn
verdadeiro espirito de sacrificio, e geral no
arquipelago, mas tio acentuado na ilha de
Sao Nicolau que o referido professor en-
controu ali: um preto de meia-idade e de
humilde condigAo econ6mica, que se Ihe diri-
giu citando o Padre Ant6nio Vieira (o mes-
tre classico, por excelEncia, da prosa portu-
guesa); um mulato de quinze anos, modesto
empregado numa fabrica de conservas, que






< fluencia e correcg;o pasmosas>, e que tinha,
alkm disso, < de frances, de ingles e ate de latim>; um
rapaz native, que Ihe serviu de guia num
passeio a cavalo e que Ihe fez uma citacao
em latim. A explicago desse misterio encon-
trou-a logo Mario de Morais ao saber que
na vila da Ribeira Brava funcionava, entdo,
desde long data, um estabelecimento de
ensino equivalent aos liceus, e fazendo o
balango da actividade desse institute, assim
dep6s esse professor sobre tao extraordinario
caso de amor desinteressado pela instrucAo:

< os mais abastados, abalavam mais tarde para
a Metr6pole a prosseguir os seus estudos
na universidade; outros, os mais pobres -
a maioria,-impossibilitados de penetrar nos
quadros acanhadissimos do funcionalismo
piblico da col6nia (hoje Provincia Ultra-
marina), acabavam por se consagrar As pro-
fiss6es humildes dos pais. Mas nem por isso






reputam infitil o tempo e a actividade des-
pendidos nesse aprendizado de que nio obti-
veram resultados praticos. Fica-lhes sempre
dentro da alma o orgulho do seu valor pes-
soal e nao perdem jamais o gosto pelos bons
livros.>











0 que fizemos dessas Ilhas deserfas


Nas ilhas de Cabo Verde introduzimos
os animals domesticos, o gado e a indtstria
de lacticinios, a mandioca, o feijio, o milho,
frutas europeias como a laranja, a cana de
agccar e o cafeeiro quase tudo quanto
permit ao Cabo-Verdiano viver ou Ihe da
algum rendimento, pois que o arquipdlago
apenas tinha de seu as Aguas ricas em peixe
e o sal. Este constituiu uma riqueza nos tem-
pos em que no Brasil nao se exploravam as
salinas. Para la o mandavamos, como ainda
hoje o exportamos, em grande quantidade,
para o continent africano para o Congo
Belga, por exemplo, apesar do desenvolvi-
mento das salinas de Angola.

Dessas ilhas fizemos ponto de escala nas







viagens para terras de Santa Cruz; nelas ins-
talimos um entreposto de escravos, quando
o braqo negro era o inico de que se podia
dispor para o desenvolvimento da rica col6-
nia americana. Todas as na6es cor terri-
t6rios na America adoptavam, entao, esse
process de obter trabalhadores depois
condenado, mas s6 abolido quando a emi-
graCio europeia permitiu dispensar o Afri-
cano.











Semelhanca com o norte do Brasil


Durante muito tempo, Cabo Verde esteve
em contact bastante intimo com o Brasil,
principalmente cor o Norte desse pals, rece-
bendo dele influencias. Teve razAo o jorna-
lista brasileiro Arnon de Mello, ao escrever
sobre Sao Vicente, no seu livro Africa:
mente brasileiro. Se Lisboa me deu a impres-
sfo de achar-me no meu pais, pela simpatia
cor que fui acolhido e por certos traces de
sua gente e de suas coisas, Cabo Verde
faz-me p6r em dcivida se estou realmente
numa ilha distant ou em territ6rio national.
Tendo tido a mesma base de formaaio do
Brasil o Portugues e o Negro Sao Vi-
cente apresenta quase as mesmas caracteris-
ticas de rata, cultural e civilizadao nossas,


29






acentuadas sobretudo pelo cruzamento do
Branco cor o Preto>>. < da semelhanqa de cozinha, de casa e de
costumes, a mesma gente, a mesma mfsica,
a mesma lingua, a mesma literature do Bra-
sil. Em aspect fisico, nunca vi povo tio
parecido com o brasileiro, levando-nos a
imaginar que anda pela cidade popula;ao
nossa>>.

Pelo facto de se parecer com o Brasil,
ou, mais exactamente, com uma parte desse
pais, tao extenso como divers, Cabo Verde
nao deixa de ser portugues pelo caracter da
sua gente. A excelencia da nossa coloniza-
.ao consistiu, precisamente, na capacidade
biol6gica e psicol6gica, que possui o home
portugues, de se adaptar a outras terras e
a outros climas. Teria sido absurd instalar
o Portugal europeu em regi6es tropicais, sem
o adaptar ao meio. Por isso mesmo, um escri-
tor portugues Augusto Casimiro p6de
dedicar a Cabo Verde um livro intitulado
Portugal Crioulo.







Geograficamente colocado a meio cami-
nho entire a Europa e a America do Sul, tal-
vez Cabo Verde esteja, quanto a psicologia
da sua gente, a igual distancia de Portugal
e do Brasil o que Ihe atribui um papel
simb61ico no Mundo Lusiada, isto e: no
mundo que fala a Lingua em que cantou
Cam6es.






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llha de Santiago Posfo SanitArio do Bairro Craveiro Lopes, na cidade da rraia










































llha de Santiago Paisagem do interior











































Ilha de Santiago -- Uma ra: de cidade da Prala


- I











A major riqueza de Cabo Verde


O nosso Ultramar tem grandes riquezas.
Para s6 falar das Provincias da Africa,
basta referir os diamantes e o manganes de
Angola, e, entire outros produtos agricolas,
a mancarra e o coconote da Guine, o cafe
e o cacau de Sio Tome e Principe, o sizal,
o milho e o cafe de Angola, o sizal, o algo-
dio, a copra e o chd de Mogambique. Entre
Provincias tio ricas, como sio as suas qua-
tro companheiras africanas, Cabo Verde faz
figure de pobre. E assim uma especie de
<>, que vive sentada ao
canto do lume, cuidando do seu lar modesto.

E, no entanto, esse arquipelago, corn o
qual a Natureza foi pouco generosa, possui
uma riqueza, que Ihe deu Portugal. Nessas







ilhas aridas, arenosas umas (a do Sal, a da
Boavista e a do Maio), rochosas as outras,
e abruptas, talhadas quase a pique sobre o
mar, vivem 147097 almas, segundo o censo
de 1950. NAo importa que 42487 habitan-
tes sejam negros, que 101498 sejam mes-
tigos, e que s6 3019 sejam brancos puros.
S~o todos Cristdos e Portugueses; tem todos
uma maneira de viver quase identica a das
aldeias, vilas e cidades de Portugal, se ex-
ceptuarmos a populacio do interior de San-
tiago, mais puramente africana que a das
outras ilhas.

A danca tipica de Cabo Verde nao e
nenhuma forma de batuque, mas a >
- danca de pares, tao civilizada como as
antigas dos nossos sales (a polca, por exem-
plo). E nas danqas manifestam os povos,
mais do que em qualquer outro acto, a sua
peculiar maneira de ser, o seu gosto artis-
tico e o seu grau de sociabilidade.

Tao europeus, nos seus usos e costumes,







como os portugueses da Metr6pole os criou-
los possuem qualidades pr6prias, dignas de
apre;o. Veremos, a seguir, quais as quali-
dades que os distinguem, mas afirmamos,
desde ji, que Cabo Verde possui, nos seus
filhos, a sua maior riqueza.











Outras riquezas de uma terra pobre


A posi;~o geogrAfita do arquipalago e
o magnifico Porto Grande de Sdo Vicente
constituem riquezas naturais que s6 esperam
um melhor apetrechamento do referido porto
para se tornarem grandes valores econ6mi-
cos. Esse apetrechamento vai, de resto, tor-
nar-se uma realidade.

Tambem se pode falar de uma riqueza
piscat6ria ainda nao completamente apro-
veitada. As lagostas, por exemplo, pululam
nas Aguas de Cabo Verde e sao procura-
das, tdo long, pelos lagosteiros franceses,
podendo, muito bem, ser exportadas por n6s.

Mas o clima 6 ingrato para a agricul-
tura, porque se passam, as vezes, anos sem






que chova nas ilhas. Os ventos secos, pro-
venientes do desert do Sara, afastam as
nuvens. A falta de arborizacgo contribui,
tambmm, para a escassez de humidade, e hA
ilhas sem agua, como Santa Luzia, que por
isso nao 6 habitada, ou onde e pouca e ma
a agua potavel, como Sao Vicente. Nesta
ilha, onde esta situada a mais important
cidade do arquipdlago: Mindelo, e o seu
grande porto, a agua que se bebe vem, em
barcacas, da ilha fronteira de Santo Antgo.

Mas na ilha de Santo Antio, como em
S5o Nicolau, como no interior de Santiago,
como no Fogo e na Brava, sempre que ha
<> ou altas montanhas, sempre que
ha agua, o home plantou mandioca, feijio,
milho, cana de agicar, cafeeiros, bananeiras,
Arvores de fruto tropicais como a mangueira,
e laranjeiras (que dao 6ptimos frutos), at,
videiras, como no Fogo, no sitio do Mos-
teiro. A laranja da Cidade Velha, em San-
tiago, & da melhor que ha, e podia pensar-se
em desenvolver o seu cultivo para exporta-






<;o (por exemplo: para o porto frances, tao
pr6ximo, de Dacar). O caf6 de Santo Antao
e, principalmente, o do Fogo nao ter, tal-
vez, rival senao no de Timor, mas 6 pouca,
infelizmente, a sua quantidade. A aguar-
dente de cana, de Santo Antio (nas ilhas,
chamada < bre
E tudo isso, que parece pouco, mas que
e muito, se considerarmos as condic6es do
terreno e do clima; tudo isso se deve ao amor
que o Cabo-Verdiano ter pela sua terra e
A sua resistencia aos fados adversos.











Paisagens


Quem, a caminho do Brasil, toca no
Porto Grande de Sao Vicente, ou quem,
viajando num vapor das carreiras da Africa
Ocidental, visit, tamb6m de passage, a
Cidade da Praia, na ilha de Santiago, colhe,
inevitAvelmente, uma idea desoladora de
Cabo Verde sob o aspect paisagistico. Para
n6s, mesmo na ilha esteril de Sio Vicente,
em que a vida se limita a cidade do Min-
delo e ao seu porto carvoeiro existe uma
beleza. Que beleza podem ter essas pedras,
onde nem a mais leve pincelada de verdura
alegra a vista? perguntario aqueles que
s6 acham formosura nos prados, nos poma-
res ou nos jardins, ou aqueles que em todas
as terras dos Tr6picos esperam encontrar a
exuberancia da floresta. E, no entanto, as






montanhas rochosas de S0o Vicente e as de
Santo Antao, vistas do Canal que separa as
duas ilhas, constituem um dos mais belos
espectaculos cor que a natureza pode, se
nio deliciar, esmagar o espirito cor a sua
grandeza tragica e sombria. Alem disso, se
Ihes falta o colorido alegre da vegetaqdo,
que tonalidades maravilhosas, do cor-de-rosa
ao roxo, do cinzento ao negro, nos dio essas
pedras, a luz difusa da madrugada, incen-
diadas pelo sol ou ao entardecer!

Mas quem, ao desembarcar na Praia, cir-
cunvagando tristemente o olhar pela aridez
dos arredores, podera imaginar que a alguns
quil6metros da cidade a natureza Ihe reserve
alguns trechos de paisagem, sem exagero,
deliciosos? Basta, no entanto, ir ate a Trin-
dade quinta experimental do Governo -
ou ate A propriedade de Sgo Martinho, para
encontrar arvores de fruto e plantac6es de
cana, para beber a Agua adocicada dos cocos,
para order os < (fruto que ter o
perfume das rosas), para ouvir o drapejar






das largas folhas rasgadas das bananeiras,
o gorgolejo da Agua das regas ou o gemido
dos < a cana de acicar). Mesmo ai, tao perto dos
plat6s desnudos (as ) que circun-
dam a Praia, e possivel, na verdade, sentir
a poesia da vida rural de Cabo Verde.

0 caso explica-se, pois a esterilidade do
solo 6 a consequEncia do vento, da falta de
chuvas e da inexistencia de agua ou da sua
insuficiente captaaio. Sempre que o terreno
6 abrigado dos ventos as terriveis sas> de Cabo Verde, sempre que a maior
altitude humedece a atmosfera como em
Santa Catarina, no interior de Santiago, -
sempre que se aproveitam as nascentes ou os
cursos de agua, mesmo irregulares como
nas Cabo Verde & tao susceptivel como qual-
quer outro de proporcionar, a quem o ve, o
espectaculo de belezas naturais.

A certo que o aspect geral que as ilhas






mais frequentemente visitadas oferecem ao
viajante 6 o de montanhas nuas ou, quando
muito, cobertas de erva rasteira se tiver cho-
vido, como no monte chamado Verde, em
Sdo Vicente. Quem circula pelo interior de
Santiago nao ve, geralmente, A sua volta,
senAo campos de pedras onde pastam cabras
- que se alimentam nao se sabe de que -
e sobre os quais pairam as sombras negras
dos corvos. Quando muito, os olhos do pas-
seante descobrem, aqui e all, um renque de
tristes arbustos de <> planta olea-
ginosa), uma plantacao de asperos
(a piteira a que nas outras Provincias Ultra-
marinas se chama sizal), uma acacia espi-
nhosa toda inclinada pelo vento, um ou outro
coqueiro contorcido e desgrenhado.

Mas essa paisagem nio arrasta do cora-
cgo do Cabo-Verdiano o amor da sua terra,
nem destr6i na sua alma a visao lirica da
vida. Uma vez por outra, perpassa, nesse
quadro desolador, a < ave de







plumagem azul. i o bastante para que ao
crioulo ocorram ideas de amor, e entoe a
em que uma rapariga diz:

Empresta-me a tua pena e o teu tinteiro,
Para escrever uma carta iquele ingrato,
Que embarcou, foi-se embora serp se despedir...











Qualidades do Cabo-Verdiano


O Cabo-Verdiano emigra porque nio en-
contra, muitas vezes, trabalho no arquipe-
lago, porque deseja alcancar um nivel supe-
rior de vida ou, mesmo, porque ter certo
espirito de aventura. Existem nos Estados
Unidos da America do Norte nicleos impor-
tantes de cabo-verdianos (em Massachusetts,
Rhode Island e outros Estados); hd-os, tam-
bem, nas ilhas Sandwich, no Senegal (espe-
cialmente em Dacar), na Guine Portuguesa
e noutros territ6rios portugueses da Africa;
ha, tambr m, cabo-verdianos estabelecidos na
Argentina, no Brasil e um pouco por toda
a parte. Mas, quando emigra, o crioulo leva
consigo o amor da terra (da como Ihe chamou um poeta das ilhas), e
volta sempre que pode, para casar ou para







comprar um pedaco dessa terra ingrata e
construir uma moradia.

Conhece ele, como portugues que e, pelo
coraca'o, o que significa a saudade (que em
Cabo Verde se diz mento que faz corn que, para os Portugue-
ses, a terra natal esteja sempre present,
por mais distantes que vivam da Patria.
Nuns versos populares, cantados em San-
tiago, diz-se, segundo a tradugio, do crioulo
para o portugues, que deles da um escritor
cabo-verdiano:

<<0 corpo, que 6 escravo, vai;
0 coragao, que 6 livre, fica...>

Quer isto dizer que o corpo part por-
que e escravo das circunstancias ou das
necessidades, mas que o coragio, que ter
a liberdade de sentir, fica preso A terra, a
casa, A familiar. Por isso, o escritor de Cabo
Verde que escolheu esses versos para epi-
grafe do primeiro <













de S, Vicente Vista parcoal d Porto Grpnde e da cidade do Mindelo
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Uma rue de S. Vicente vendo-se em 1.0 piano o Mercado Municipal















S. Vicenle Perto Giande
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Baltasar Lopes, comega assim a 'hist6ria de
Chiquinhos: muito triste, record a casinha em que nasci,
no CalejAo. 0 destiny fez-me conhecer casas
bem maiores, casas onde parece que habitat
sempre o tumulto, mas nenhuma eu trocaria
pela nossa morada coberta de telha francesa
e embocada de cal por fora, que meu av6
construiu cor dinheiro ganho de riba da
Agua do mar.











Desfino do home dass llhas


O pai de <> partira para a
America do Norte; ele foi para Sao Vicente
estudar, mas, terminado o curso dos liceus,
voltou para a ilha natal, de Sao Nicolau, e
ali nao havia onde empregar a sua activi-
dade. Teve, por isso, que partir, tambem,
para os Estados Unidos, numa escuna, como
os emigrantes da ilha Brava.

$ esse o destiny do home das ilhas,
seja da Madeira, seja dos Agores, seja de
Cabo Verde. A terra & pequena ou pobre
para tanta gente, e o mar convida os homes
a partir, em busca de fortune ou, simples-
mente, de melhores meios de vida. Mas onde
estiver um ilheu, mesmo que ele seja um
<






nos chamam aos Cabo-Verdianos, Portugal
estari sempre present, gragas A saudade.

Optimos marinheiros, como e pr6prio de
ilheus, os Cabo-Verdianos viajam entire as
ilhas, vio a Dacar e a Guine, chegam a
America do Norte em barcos de vela, As
vezes pequenos palhabotes. Dedicam-se A
pesca da baleia, embarcam como fogueiros
nos navios americanos, andam por todos os
mares. Tambrm 6 do seu destino procurar
> corn que viver, jd que
<> 6 pobre e, ainda por cima,
as vezes nio chove durante anos, e corn a
longa estiagem nem o minimo necessario
pode dar aos seus filhos. Por isso o poeta
Osvaldo Alcantara escreveu, no seu pun-
gente poema Mam~e:

Venho rezar uma oragaio ao pe de ti.
Teu filho vem dirigir suas suplicas a Deus Nosso
Senhor
Por Ele
Por ti







Pelos outros teus filhos espalhados
Na superficie cinzenta do teu venture martir,
Mamaie-Terra.


Mamiezinha,
Dorme, dorme,
Mas, pela Virgem Nossa Senhora,
Quando te acordares
Nao te zangues comigo
E cor os outros meninos
Que se alimentam da ternura das tuas entranhas.


Mamaezinha,
Eu queria dizer minha oracio
Mas nao posso;
Minha orafio adormece
Nos meus olhos, que choram a tua dor
De nos quereres alimentar
E n~o poderes.>











Quando chove...


Vivemos algum tempo em Cabo Verde,
numa 6poca feliz para o arquipelago, por-
que choveu sempre, regularmente. Voltamos
1, numa rapida visit, e vimos cover, de-
pois de um period de estiagem que A gente
da terra se afigurava ja ameaqador. Como
esquecer esse espectdculo!? Percorriamos de
autom6vel, numa excursao, o interior da ilha
de Santiago, quando a bendita agua do cEu
comeqou a cair. Dir-se-ia que nunca ela foi
tao bendita por series humans! Das casas
humildes saiam homes, mulheres, velhos,
criancas, e todos manifestavam a sua alegria.

Era o espectro terrivel da seca que se
afastava esse espectro evocado por outro
poeta das ilhas, Jorge Barbosa:







Mete d6
o silencio triste
da terra abandonada
esmagada sob o peso
do Sol penetrate!

HA quanto tempo nao rodam
as pedras dos moinhos!
HA quanto nfo se ouve
o som mondtono e madrugador
dos piles cochindo...
Que e desse ruido anunciador
das refeig6es do povo?

De dentro das casas
nem fio tenuissimo
de fumo subindo...




Pobres enxadas
que nao serve mais!
esquecidas nos cantos dos quintais,
cobertas
de poeira e de estrume...







Coisa inutil as enxadas,
deixadas
sem cabos
por all
ao abandon!

Arvores pasmadas
sequiosas
corn restos ainda
dos ninhos que abriram,
deixam rogativas silenciosas
no desolamento da paisagem!

E a terra seca
cheia de sol!
De dentro das casas
nem fio tenuissimo
de [umo subindo...>


Quando chove e o fantasma desaparece,
a alma do Cabo-Verdiano nAo cabe dentro
dele e a sua terra aparece-lhe como um
scenarioo soberbo>>. Se abandonou o arqui-
pelago para ir trabalhar, por exemplo, na






ilha exuberante de Sao Tom&, quer logo vol-
tar, mal chegam Ia as noticias de ter cho-
vido na terra adusta em que nasceu e a
que quer mais do que a qualquer ponto do
globo, de solo fertil e paisagem paradisiaca.

A attitude do campones cabo-verdiano
diante da chuva, exprime-a Manuel Lopes,
num capitulo de romance ainda inedito:

< a mao ao lugar donde retirara a cabeca.
Pingos de agua acariciaram-lhe os dedos.
Um pressentimento sfibito iluminou-lhe o
cerebro como um relampago. Levantou-se
de chofre, no meio da escuridao, caminhou
ao long da parede do quarto. Um ruido
que nao era s6 de onda envolvia a casa.
Era vento e era chuva! Vento rijo e chuva
brava. Acertou com a porta da rua. Preci-
pitadamente deu volta a chave. Lufada vio-
lenta de vento e grossas bategas de chuva
fria irromperam pela porta escancarada, tur-
bilhonante no quarto, como se o mar, enrai-






vecido, tivesse lancado as ondas contra a
casinha do Mariano. Aguas do ceu desaba-
vam sobre a ilha! Chuva brava, boa amiga!
Demorara-se no caminho, e para ganhar
tempo caia agora cor fuiria, desforran-
do-se, reduplicando de volume e de impeto.
6 Deus! Chuva, cobre esses campos queima-
dos! < tinha os olhos abertos
para o grande espectaculo.>

Esse temn medo do mar,
sem dfvida, mas o que o faz desistir de ir
para o Brasil 6 menos esse temor que o
apelo da terra:

< mansa onde a chuva estava caindo nesse
moment como uma esmola de Deus. Fazia-
-lhe medo o barulho do mar. Nio queria
seguir o caminho perigoso. Preferia o sos-
sego da sua ribeira mansa. Preferia ouvir a
ribeira roncando no fundo. No meio de uma
chuva destas ouve-se a voz das ribeiras. Da
vontade de viver. Ia pegar na sua enxada
para viver a sua vida.>













A vida nas llhas


Talvez nenhuma descricao em prosa de,
como o poema Rumores, de Jorge Barbosa,
to nitida idea da vida nas ilhas:


Dos trapiches
quando esmagam a cana para o grogue
corn os bois pacificos a rodar,
sempre a rodar
ao som desse canto que vem dos numa cadencia estranha de nostalgia,
que deixa um arrepio a morrer no ar...

Rumores das salinas,
dos rodos nas maretas,
das carretas
levando o sal na via f[rrea...








Rumores do Porto Grande,
do carvao
caindo nas lanchas metalicas,
das ancoras,
dos guinchos,
das sereias,
dos apitos
e dos gritos,
dos gritos nocturnos nos botes da baia...


Rumores do romper da manh5,
nos piles
cochindo o milho para a comida do povo,
na gente
que chega ao mercado,
em todo esse alegre af/
de coisas humildes...


Rumores de fainas maritimas,
dos pescadores langando
os botes ao mar,
dos veleiros cruzando
o arquipdlago...
Rumores da emigrag5o,








nos carimbos postais
em dias de malas.

Rumores pagaos
das coladeiras de Santo Ant6nio,
de Sao Joso, de S5o Pedro,
ao som dos tambores...
Rumores de dramas agricolas,
da chuva que vem
que nao vem...

Rumores tagarelas
nas lojas rurais,
as portas dos regedores,
do curim,, da bisca, das damas...

Rumores musicals
das mornas
dangadas,
das mornas
tocadas,
das mornas
cantadas...

...e das ondas
A roda das Ilhas...>






































D3 de S. Vicenfe S. Jorge dos Orgaos Poslo de Fomento Pecu6rlo.






































.I







Ube de S.-Vicer


S6


"ida das Panaras


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'ycr


le--











A "Morna"


Na >, dancada, tocada e can-
tada, se exprime a alma do povo crioulo.
O vira 6 do Minho ou da Nazar6, o fan-
dango do Ribatejo, o corridinho do Algarve,
mas a <> 6 comum a todas as ilhas
do arquip6lago cabo-verdiano.

Sempre que o Cabo-Verdiano pretend
exprimir um sentiment entoa uma morna>>,
como se fosse essa a sua linguagem. A iro-
nia, a tristeza, a saudade, a ternura, tudo
isso encontra na > a sua expressao.
O que nela predomina, porem, e o que em
crioulo se chama e se traduz por
bem-querer, mas pode definir-se como a mo-
dalidade cabo-verdiana do amor portugues.

8 claro que ha em todas as mornas>






uma tonalidade comum. Mas isso e o que
acontece com todas as formas de arte de
inspiracio &tnica. E as < duto duma raca, duma terra, dum clima e
das condig6es de vida dum povo. Com efeito,
nio 6 s6 a lingua que as caracteriza, pois
que, se na sua quase totalidade a letra e em
crioulo, tamb6m as ha com letra em portu-
gues.

Para bem compreender a sentimentali-
dade da precise lembrarmo-nos
de que os Cabo-Verdianos, como dissemos,
sio um povo mestizo, que a sua terra e um
arquipelago, que o seu clima e o dos Tr6-
picos e que as condic6es de vida obrigam,
muitas vezes, o home crioulo a emigrar.
Disso tudo devia resultar uma forma de arte
impregnada de melancolia e de nostalgia, de
ritmo melodioso, extremamente lento, quase
arrastado, um pouco mon6tono talvez, mas
duma beleza incontestavel.

Para apreciar devidamente a <>







precise ve-la dangada, pois que o ritmo do
baile, nao s6 da expression plastica a misica
como complete a significacio das palavras.
Nao se trata, com efeito, duma danga acom-
panhada de palavras como qualquer outra.
O facto do povo de Cabo Verde dancar a
<> cantando (repare-se que nao se
trata de uma danga de roda), indica, clara-
mente, que, para ele, gestos, letra e melo-
dia sio formas indistintas do mesmo ritmo
interior.

Nunca a alma dum povo encontrou, tio
perfeitamente, a sua expressio, numa finica
manifestacgo de arte. Cabo Verde nao tern,
de facto, mesmo em estado rudimentar, artes
plasticas ou decorativas que caracterizem a
sua gente. Quanto A mfsica e A poesia fol-
cl6rica ou de sabor popular, em dialecto
crioulo, todas as suas manifestac6es tomam
a mesma forma.











Os "Bailes Nacionais"


Como a <> uma danga de sala,
nao se danga, em regra geral, ao ar livre,
mas dentro de casa, nos chamados < populares>. Promovem-nos, habitualmente,
raparigas do povo, mas tomam parte neles
homes e rapazes de todas as categories
sociais, tal a solidariedade existente em Cabo
Verde, derivada de todos comungarem os
mesmos sentiments.

Em salas terreas, nio muito grandes, de
casas modestas, muitas vezes de chfo de
terra batida, os crioulos dangam aos pares.
As raparigas, mulatas, pretas e, algumas
delas, de tez branca, apesar de mestigas, em
cabelo ou de lenqo, vestidas de cor-de-rosa,
de azul celeste ou de amarelo, descalgas ou






de meias de seda e de sapatos de verniz,
cantam harmoniosamente, acompanhando a
misica. A orquestra 6 constituida por mfsi-
cos amadores, que tocam de ouvido e se
servem da flauta, da rabeca, da viola e do
violio.











Um poeta


As melodies das comp6em-nas
pessoas que nao sabem escrever mtisica e as
improvisam cantando a viola. Era assim que
compunha a mfisica das suas o
poeta Eugenio Tavares o maior de quan-
tos tem escrito em crioulo. Poeta culto, tra-
duziu para o dialecto cabo-verdiano Cam6es
e Jo'o de Deus, e deixou poesias em portu-
gues. Mas o livro que perpetua o seu nome
na mem6ria dos Cabo-Verdianos intitula-se
Mornas e e constituido por uma colecq5o
de >.

Numa delas, Quel pessoa... (Aquela
pessoa...), esse poeta conseguiu exprimir,
embora num dialecto, aquele sentiment de
amor-adoraaio que enche a poesia de lin-







gua portuguesa. E por tal forma o fez que
esses versos crioulos podem ser, perfeita-
mente, incluidos entire as mais belas liricas
produzidas por gente lusiada, isto e: por
gente que se caracteriza, no mundo, mesmo
quando fala um dialecto, e n5o a Lingua de
Cam5es, por um sentiment de amor pela
mulher, impregnado de-religiosidade.

Para que se possa fazer uma idea do
que e a letra das de Eugenio
Tavares, dos sentiments que elas exprimem
(e os das outras <, mesmo quando
de humildes poetas, nio sio muito diferen-
tes), bem como da sensibilidade do povo
que as canta, transcrevemos a version portu-
guesa, feita por alguem que adoptou o pseu-
d6nimo de Paulo Lagardere, da <
J6 m'cre-bo! (Como eu te quero!):

Guardo, bem dentro de mim,
Tal segredo que receio
De que me negues um >







Antes te quero calada,
Guardar-te no pensamento,
Que saberes deste amor
Para me dares tormento!


Um rna o triste de ouvir!
I pior quk a maior dor...
E, assim, nunca sabers
Que te tive tanto amor...

Se triste era, triste fico,
E sem certeza e sem gosto...
- Que antes triste de incerteza
Do que triste de desgosto...>










Literatura popular


Cabo Verde possui, como Portugal con-
tinental, uma rica literature popular, cons-
tituida por hist6rias maravilhosas, de que
damos dois exemplos, em apenso. Mas, para
se fazer ideia da imaginadio da gente crioula,
tambem serve a narrative fantdstica de um
velho marinheiro, <, possi-
velmente inventado, que extraimos do citado
romance de Baltasar Lopes:

< Chiquinho. Fazia um luar tio claro que pare-
cia que a Lua estava dando uma serenata a
Nossa Senhora. De repente, ouvi uma can-
ca o.

Era Sirena. A moca do mar tinha mais






corpo acima da agua. Depois ela calou a
cantiga e disse a Nh6 Joso:

-Eu sou a moga do mar...

Nh6 Joao disse-lhe:

Voce 6 bem bonita... Voce anda can-
tando para IToa Senhora se divertir?

NIo. Ando a cantar s6 para VocE
ouvir...

Muito obrigado, Sirena. Quando eu
passar novamente por este lugar, trago um
raminho de manjerona para Voce enfeitar
os seus cabelos.

O que e que Voce quer, marinheiro?
Diga, que eu tudo Ihe darei...

Quero uma casa grande e muito bo-
nita para eu morar...







Dar-te-ei uma casa como nunca viste.
Bonita, bonita de endoidecer...

Quero uma noiva mais bonita do que
Branca-Flor...

Tua noiva sera mais bonita que Bran-
ca-Flor...

Bonita como Branca-Flor nio quero
porque ela se enfariaria (enfastiaria) de mim
por eu nao ser tio bonito como Passo-
-Amor...

Viraras bonito como Passo-Amor...

Quero hortas boas para eu traba-
Ihar...

Dou-te hortas em que crescerio plan-
tas como nunca viste...

Chuvas para molhar minhas hortas...







Quando quiseres que chova, faz uma
serenata a Lua, a Lua chorara, e as suas
ligrimas molharao tuas hortas...>

Nao falta, ao crioulo, espirito critic e,
portanto, capacidade para julgar os erros
do fundo e os defeitos dos homes. Se nio,
vejam-se as poesias conceituosas recolhidas
por Clarisse Silva Monteiro da boca de anal-
fabetos do Fogo, sua ilha natal poesias,
como diz essa senhora letrada, < ,isso de qualquer influencia literaria>. Damos
um exemplo, em traduglo a letra daquela
estudiosa da literature e do folclore de uma
das parcelas do pequeno mundo cabo-ver-
diano:

& o 6dio, a inveja e a ambicao.
Comer a came alheia
B das coisas piores.
Preocupa-te cor a tua vida;
NIo te imports
Corn cada um.>











Uma liferatura culta


Os Cabo-Verdianos dados as Letras com-
preenderam, um dia, duas coisas: que de-
viam voltar-se para a sua terra e a sua
gente, e que deviam exprimir-se em portu-
gues. Tinham ali, diante dos olhos e junto
do coracdo, um povo que sofria, que lutava
contra o destiny e que merecia, pela sua dor
e pela qualidade da sua alma, que os, por-
tugueses de Portugal soubessem da sua exis-
tencia. Que injustiCa, pensar na gente feliz
e nas belas coisas do mundo, quando os
seus irmaos humildes esperavam que eles,
jovens intelectuais cabo-verdianos, estudas-
sem os seus problems e se debruCassenm
sobre o drama das ilhas!

E um dia surgiu em Cabo Verde unm






grupo de escritores decidido a combater a
idea de que o arquipelago fosse um dim das Hesperides. Era precise apontar a
dura realidade para que a gente culta de
Cabo Verde tomasse consciencia da tarefa
que Ihe incumbia de melhorar as condic6es
da terra e a vida do povo.

E assim, e para isso, nasceu em Cabo
Verde uma literature cabo-verdiana culta, de
lingua portuguesa, da qual demos alguns
exemplos neste trabalho. Sao poucas as
obras publicadas, mas ja n5o se pode falar
da literature portuguesa contemporanea sem
reservar um paragrafo A expressao poetica,
a descriCio, novelesca ou A interpretacio
ensaistica das ilhas crioulas, devidas aos
pr6prios filhos de Cabo Verde e nio a
metropolitanos, que apenas pelo espirito, e
n5o pelo sangue, sentem, amam e compreen-
dem o arquipelago, como sucede cor quem
escreveu estas paginas breves.

Lisboa, Setembro de 1955.






























































.1





































ilha de S. Nicolau Vlla de Ribeira Brava

SI-.. 4 '- S 4.; A 1 a. .2 *









APENSO


DOIS CONTOS
DE CABO


POPULARES
VERDE











O Lobo e o Chibinho


CONTOO DA ILHA DE SAO N1COLAU)

Houve grande seca naquele ano. Nos
campos nao havia nem fio de palha para as
alimdrias. Ti'Lobo andava muito magro, de
corpo relampeado, e sem gosto nenhum na
vida. Girava de campo em campo, A pro-
cura de qualquer coisa para Ihe aguentar a
debilidade, mas nada havia de substancia
para o seu. est6mago de comildo. Certo dia,
ja farto de andar, foi parar a uma fonte, a
ver se por acaso encontraria por 1a alguma
chibarrinha perdida da m5e. Deu logo de
cara com Compadre Chibinho, que estava
muito paxA a gozar a sombra de uma em-
pena de barranco. Ti'Lobo arregalou os
olhos. I que Compadre Chibinho estava
gordo, bonito, tinha mesmo ar de quem tinha






comida boa para encher as tripas do corpo.
E Ti'Lobo disse:

Bi, Compadre Chibinho! Voce esta
gordo, Deus o guard!

Assim, assim, Ti'Lobo; o suficiente
para safar este tempo de carestia...

Nao, Compadre Chibinho: voce ter
comido em caldeira fina. Veja como estou.
As minhas costelas parecem cordas de vio-
lao. Venha tocar lundu, Compadre...

Chibinho viu logo que Ti'Lobo queria
converse e saber onde 6 que ele comia. Mas
Compadre Chibinho era esperto, e sabia
que Ti'Lobo tinha muita mofineza no corpo.
Pensou na sua cabeca que boca & arma de
fogo. Fingiu nao entender a intencao de
Ti'Lobo, e fez uma grande bordada na con-
versa.

Ti'Lobo, ha muito tempo que eu nio
via voce...




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