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 Mensagem de Despedida do Combatente...
 O regime politico preconizado por...
 As forcas armadas preconizadas...
 Entrevista ao jornal "O Pais"
 Localizacao politica de Kaulza...
 Guerras coloniais e descoloniz...
 A linha militar Kaulzista e a sua...
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Group Title: Guerras coloniais e descolonização: entrevista
Title: Guerras coloniais e descolonização
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00053131/00001
 Material Information
Title: Guerras coloniais e descolonização entrevista
Physical Description: 19 p. : ; 22 cm.
Language: Portuguese
Creator: Arriaga, Kaúlza de, 1915-
Publisher: s.n.
Place of Publication: S.l
Manufacturer: Tipografia 9 de Julho
Publication Date: 1973?]
 Subjects
Subject: Colonies -- Social policy -- Portugal   ( lcsh )
Politics and government -- Portugal -- 1933-1974   ( lcsh )
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: Kaúlza de Arriaga.
General Note: Cover title.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00053131
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Holding Location: African Studies Collections in the Department of Special Collections and Area Studies, George A. Smathers Libraries, University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: aleph - 003436370
oclc - 05066310

Table of Contents
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        Front Cover
    Mensagem de Despedida do Combatente ao Comandante Mocambique 1973
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        Page 2
    O regime politico preconizado por Kaulza de Arriaga
        Page 3
    As forcas armadas preconizadas por Kaulza de Arriaga
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    Entrevista ao jornal "O Pais"
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    Localizacao politica de Kaulza de Arriaga e objectivos politicos internos nacionais
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    Guerras coloniais e descolonizacao
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    A linha militar Kaulzista e a sua projeccao no meio civil
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Kalza de Arriaga
GENERAL


CIEAllll cLIIAIS
E
iE3CILNIZAlR

Entrevista


1







MENSAGEM DE DESPEDIDA
DO
COMBATENTE AO COMANDANTE
MOAMBIQUE 1973



Combatentes que somos, cerca de quatro anos vivemos
-a todos os nveis o dia a dia do General Kalza de Ar-
riaga. Porque, combatentes que somos, lutmos a seu lado, sob
o seu comando, em unio de pensamento e de aco, na guerra
nica que aprendemos a saber vencer. Guerra nica-guerra
total de todos quantos somos, empenhadamente, pela manu-
teno da grandeza fsica do espao portugus, pela justia,
humanidade e progressismo da soluo social oferecida pela
Nao Portuguesa, pela procura esforada de uma paz just,
de igual oportunidade para cada um e de ordem e progress
para todos.
Quatro anos. Dia a dia.

Com o nosso General Comandante-Chefe estivemos nas
clareiras do planalto de Mueda ou nas savanas de Tete ven-
do-o desembarcar do helicptero em plena operao, na tenso
do perigo, na segurana da vitria. Recebemo-lo nos mais iso-
lados estacionamentos de Cabo Delgado, Niassa e Tete em
horas de comunho com as tropas ou naquelas em que se tor-
nava necessrio uma palavra de estmulo ou de f.
Observmo-lo na gravidade dos moments de deciso, na
sala-mestra do Quartel-General, frente aos mapas de situao,
frente ao dados, frente premncia do tempo e dos problems.
Vimo-lo, em muitas madrugadas de cacimbo, candeeiro aceso
sobre a mesa de trabalho, camisa aberta, na concentrao de
um despacho a proferir, de um relatrio a apreciar, de uma
mensagem urgente a responder. Escutmo-lo no ensinamento
da Palavra, no traado das grande linhas doutrinrias, no bus-
quejo das teses que iriam depois enformar comportamentos,
attitudes, formas de ser e de estar. Lemo-lo, na mensagem
escrita, que at ns fez chegar em dezenas de entrevistas, con-
tactos com os homes da Informao, conferncias de Imprensa.
Estivemos nos mais reservados encontros que manteve com







polticos, com diplomats, com outros cabos de guerra, sempre
que era oportuno o debate de ideias, sempre que foi preciso
ser politico para ser Comandante. E com o General Kalza de
Arriaga bebemos o trago emotivo dos Natais de Pundanhar,
Tartibo, de Nangololo, do Fngo. Vimos nascer alvoradas-de-
-ano-novo, vimos desmatar cerros, surgirem aerdromos, levan-
tarem-se pontes, serpentearem novas estradas beirando fron-
teiras hostis, apetrecharem-se hospitals de guerra, construirem-
-se um a um, aldeamentos e seus postos sanitrios, suas esco-
las, seus centros de convvio, suas defesas, seus ambientes de
paz na guerra.

Este General que nos deixa, este Comandante que ainda
cedo parte, contudo, o Homem que fica. Na fora de uma lem-
brana que muito nossa; no prestgio de uma personalidade
que perdura nas suas obras; na pujana de uma presena de
comando que marcou funds vincos de rara dignidade.

H, em cada gesto recordado, um punhado de tnicas
comuns: rasgo de viso, serenidade de deciso, requinte de
humanismo humanismo autntico, generoso e lcido.

Combatentes que fomos, sob as ordens deste Coman-
dante que nos deixa, no dia a dia de cerca de quatro anos o
acompanhmos, o seguimos, o respeitmos e o estimmos.
A sua porta sem portes nem sentinelas, cada um de ns teve
recepo quando precisou e nunca foi de press a audincia,
nunca foi de menos a ateno.

Talvez por isso pela maneira de ser Chefe, pelo jeito
de entender a alma de que somos alma e o sangue de que
somos sangue, possa agora o General Kalza de Arriaga con-
tar com um amigo em cada um dos que teve sob o seu comando.
Talvez por isso mas no s. que no impunemente que
se grande, de muito alto.

Do Combatente ao Comandante: em respeitoso silncio,
numa hora de adeus.










O REGIME POLITICO PRECONIZADO POR
KALZA DE ARRIAGA








a. Regime harmonioso e eficaz que concilie a administrao
central com a descentralizao administrative regional e
o interesse geral com os interesses particulares, e de
equilbrio entire o estatal e o privado e entire o colectivo
e o individual.


b. Regime de sentido social que faculte a cada um igual opor-
tunidade e conceda a cada um o que realmente merece,
garantindo a todos os nveis de vida mnimo compatvel com
a dignidade inerente condio humana.

c. Regime de sentido jurdico que respeite e faa respeitar
os direitos fundamentals do home e no qual o sistema
judicial seja independent e oportuno, incida igualmente
sobre o Estado e sobre os cidados e sirva exclusivamente
a verdade e a justia.

d. Regime de sentido pragmtico no qual se verifique autori-
dade que permit aos governor governarem efectivamente
e que assegure que a Constituio, as leis e os seus coro-
lrios sejam observados, a liberdade e a ordem sejam
garantidas e o civismo e o progress sejam conseguidos,










AS FORAS ARMADAS PRECONIZADAS POR
KALZA DE ARRIAGA







a. Uma misso exclusivamente considerada a nvel national
e no das alianas internacionais vigentes.


b. Uma estruturao adequada misso.


c. Uma hierarquia baseada na competncia resultante das
qualidades pessoais, do estudo e da experincia e matu-
ridade conferidas pelo tempo.


d. Uma tica de culto pelas qualidades nobres como o carc-
ter, a moral e a honra, a coragem e a generosidade, a leal-
dade e a camaradagem, o patriotism e a f no seu pais.


e. Uma discipline firme, mas inteligente e humana, e volunt-
ria, mas sempre aceita.


f. E uma eficcia to grande quanto o possvel, vlida no
present e apontada ao future.







ENTREVISTA AO JOURNAL "O PAIS"










P. 1 O Senhor General tem vindo a ser referido com fre-
quncia nos rgos de comunicao social nacionais e estran-
geiros. De uma maneira geral, aquelas referncias dizem res-
peito sua localizao pessoal no leque poltico e sua inicia-
tiva relative ao project MIRN; s suas opinies sobre as recen-
tes guerras coloniais e sobre a descolonizao, as quais seriam
mesmo motivo da prxima publicao de um livro; s suas
actividades no interior das Foras Armadas, que alguns julgam
terem levado formao de uma linha military Kalzista, e
projeco desta linha no meio civil.


Se est de acordo, formular-lhe-ei, sobre todos estes pon-
tos, algumas questes concretas.


R. 1 -Tenho, neste moment, uns sete ou oito pedidos de
entrevistas para a Imprensa national e estrangeira, mas creio
que o seu desejo, formulado h muito e agora reiterado, est
cronologicamente em primeiro lugar.


Assim e conhecendo j muitas das referncias que citou,
estou pronto a responder s suas questes concretas.









LOCALIZAO POLTICA DE KALZA DE
ARRIAGA E OBJECTIVES POLITICOS INTER-
NOS NACIONAIS






P. 2- Muitos, embora hoje j bastante menos, consideram-no
um home da extrema-direita poltica; o Sr. General tem afir-
mado professor ideias polticas correspondents a uma direita
moderada, mas o MIRN, segundo a sua prpria definio, cobre
toda uma faixa que vai de uma direita civilizada e actualizada
at uma esquerda igualmente civilizada e actualizada. Tudo isto
criou certa confuso.

Deste modo, gostaria que esclarecesse este ponto. Con-
cretamente, qual a sua verdadeira posio poltica?


R. 2-Devo comear por recorder, primeiro, que a poltica
ou mais precisamente a escolha de um regime poltico pra-
gmtica no tempo e no espao, devendo considerar o pas real
a que se destina e no um pas desejvel que se idealize;
segundo, que mesmo entire os objectives importantes h priori-
dades.


Neste final do Sculo XX, numa rea agora exclusiva-
mente europeia e no pas real que o Portugal de hoje,
o objective prioritrio na poltica internal o do estable-
cimento, desenvolvimento e consolidao de uma Demo-
cracia Pluralista atravs de uma ampla frente no-marxista
e anti-extremista







Assim, entendo que, neste final do sculo XX, numa rea
exclusivamente europeia, se bem que com indelveis vincula-
es com a Africa Austral e com a Amrica do Sul, e no pas
real que hoje Portugal, o objective politico interno prioritrio
concentra-se na defesa da democracia pluralista necessaria-
mente atravs de uma frente no marxista e anti-extremista.
Daqui o MIRN...

P. 3-Mas o CDS sustenta que essa defesa da democracia
pluralista se faz perfeitamente atravs do jogo dos partidos e
no precisa de organizaes mais amplas e muito menos supra-
-partidrias que classifica de anti-democrticas.


R. 3-Conheo perfeitamente as teorias do CDS.

E julgo que o CDS argument com base em dois equvocos.
O primeiro o de considerar no dever admitir explicitamente
o pas real, que sei saber existir, onde, em verdade, a demo-
cracia pluralista no est ainda plenamente estabelecida e
muito menos consolidada, mas dever admitir, sim, o pas dese-
jvel democrtico pluralista. O segundo equvoco o de supor
que o MIRN ser um organismo supra-partidrio ou com ten-
dncia para partido nico, quando na realidade ele cooperar
com os partidos em plena paridade e no se destina a substi-
tui-los.

Porm, no tenciono manter qualquer polmica com o CDS.
O tempo e os acontecimentos se encarregaro de me dar razo.
E, se assim no acontecer, at por ser eu menos dotado em
terms de infalibilidade do que o CDS, tanto melhor para o Pas.


P. 4- Mas o Sr. General afirma no estarmos em democracia
pluralista efectiva precisamente quando, finalmente e com ver-
dade democrtica, temos uma Assembleia da Repblica eleita,
um President da Repblica eleito e um Governo do partido
eleitoralmente maioritriol


R. 4-Tenho muita pena, mas no posso considerar a vigncia
de uma democracia pluralista plena num pas, onde um absten-
cionismo eleitoral enorme diz respeito fundamentalmente a uma







mesma rea poltica, o voto til a regra e a manipulao pol-
tica das populaes frequent, onde a Constituio pelo
menos marxizante, onde as nacionalizaes e expropriaes
sem compensao e as ocupaes extremists se mantm, onde
rgos de comunicao social estatizados so politicamente
tendenciosos e parciais, onde a poltica baixa de mentira, intriga
e calnia e o terrorism politico campeiam, onde alguns par-
tidos e populaes por eles instrumentalizadas exigem, e JA,
uma ditadura popular e onde um clima de golpismo crnico
ainda existe.


P. 5-Bem ou... mal, dizia o Sr. General que o MIRN...



O MIRN ser um catalizador da formao de uma ampla
frente no marxista e anti-extremista abrangendo as foras
political civilizadas e actualizadas; ser, possivelmente
com brevidade, proposto ao pas com o adequado por-
menor.



R. 5-Sim, dentro do conceito que exprimi de o objective pol-
tico interno prioritrio ser, presentemente, o da defesa da demo-
cracia pluralista atravs de uma frente no marxista e anti-
extremista, o MIRN propor-se- ser o catalizador dessa frente
no relative a todas as foras polticas civilizadas e actualizadas.
Oportuna e possivelmente com brevidade, o MIRN ser pro-
posto ao povo portugus com o adequado pormenor.


P. 6-A expresso civilizadas e actualizadas no me parece
suficientemente caracterizante. Pode, o Sr. General, precis-la?


R. 6-Entendo por foras polticas civilizadas e actualizadas
aquelas que essencialmente advoguem um:







a) Regime harmonioso e eficaz que concilie a adminis-
o central com a descentralizao administrative
regional e o interesse geral com os interesses parti-
culares, e de equilbrio entire o estatal e o privado e
entire o colectivo e o individual.

b) Regime de sentido social que faculte a cada um igual
oportunidade e conceda a cada um o que realmente
merece, garantindo a todos o nvel de vida mnimo
compatvel com a dignidade inerente condio
humana.

c) Regime de sentido jurdico que respeite e faa respeitar
os direitos fundamentals do home e no qual o sis-
tema judicial seja independent e oportuno, incida
igualmente sobre o Estado e sobre os cidados e sirva
exclusivamente a verdade e a justia.

d) Regime de sentido pragmtico no qual se verifique
autoridade que permit aos governor governarem efec-
tivamente e que assegure que a Constituio, as leis
e os seus corolrios sejam observados, a liberdade e
a ordem sejam garantidas e o civismo e o progress
sejam conseguidos.

E, como v, em tudo isto no cabem quaisquer ideias
extremists. Tais ideias esto fora do meu mbito intellectual
e actuante e, portanto, fora do mbito do MIRN, como, de resto,
j foi dito e redito.

P. 7 Mas, o Sr. General sabe que h rgos de Comunicao
Social que, em comentrios e anlises political, continuam a
consider-lo um home dessa extrema-direita ou direita radical.

R. 7-Eu sei. E s uma teimosia inconcebvel ou intenes
inconfessveis podem explicar o facto.

No tenho a certeza se, como sucede noutros pauses, em
Portugal vivel o processamento judicial de quem atribui a
outrem ideias polticas que este no perfilha, particularmente
quando elas esto constitucionalmente banidas. Se o for, eu







deveria, embora o no tencione fazer, processar o semanrio
Expresso, pois avalio-o, de entire os peridicos que com fre-
quncia me consideram da extrema-direita ou direita radical,
dada a sua inegvel categoria jornalstica, como o que mais jus
faria a uma reaco da minha parte.

P. 8-Mas h tambm entidades polticas que insinuam ser
o Sr. General um extremist.

R. 8- Tambm sei isso.

P. 9- E tambm acha que os deveria, mas no vai processar?

R. 9-Naturalmente. Coitados, usam as armas adequadas s
suas personalidades. Em ltima anlise so coerentes.


GUERRAS COLONIAIS E DESCOLONIZAO

P. 10-No pas e mesmo no estrangeiro, a esmagadora maioria
dos responsveis e quase todo o grande pblico estavam e
esto convencidos do insucesso, para Portugal, das guerras
coloniais na Guin, Angola e Moambique. Mais duramente,
quase todos estavam e esto certos da derrota das Foras
Armadas Portuguesas naquelas trs colnias.

Parece que o Sr,. General tem opinio diverse e que est
mesmo a preparar um livro em que pretend provar que aquelas
guerras estavam ganhas por Portugal. Poder desenvolver um
pouco esta questo?


Dentro de algum tempo ser, provavelmente, publicado
um livro de alguns Comandantes-Chefes, no qual se ana-
lisam com iseno, profundidade e conhecimento de
causa, a situao nos teatros de operaes da Guin, de
Angola e de Moambique em 1973.


R. 10- evidentemente verdade que todos aqueles que dese-
javam a destruio de Portugal tal como ele era, ainda em fins







de 1973 e no comeo de 1974, proclamavam a derrota eminente
das Foras Armadas nacionais nas ltimas guerras ultramarinas
que tivemos na Guin, em Angola e em Moambique. Tal cons-
tituia uma excelente arma psicolgica, particularmente eficaz
em guerras subversivas, como eram aquelas que estavam em
curso.

Apesar disso, no sei se se pode falar com tanta genera-
lizao, como o faz, das entidades e pessoas que acreditavam
verdadeiramente na derrota das Foras Armadas portuguesas.

Mas mesmo que assim fosse, essas entidades e pessoas
laboravam num erro.


P. 11- Considera, pois, o Sr. General, que as guerras refe-
ridas no estavam perdidas?


R. 11 -Dentro de algum tempo, ser provavelmente publicado
um livro, no exclusivamente meu, mas de alguns Comandan-
tes-Chefes dos trs Teatros de Operaes, no qual a questo
ser analisada com iseno, profundidade e conhecimento de
causa.

Contudo, direi, desde j o que segue.



Em 1973, Costa Gomes impediu a cedncia na Guin,
admitida por Marcello Caetano, afirmando, peremptria e
decisivamente, que aquele territrio se podia e devia
defender.



Relativamente Guin, pessoalmente no me posso pro-
nunciar pois conheo muito mal o que ali se passava e passou.

Mas, referirei que, em meadows de 1973, segundo o Presi-
dente Marcello Caetano e quando este admitiu ceder nesse
territrio, foi o General Costa Gomes, ento Chefe do Estado
Maior General das Foras Armadas, que o impediu, afirmando
peremptria e decisivamente que a Guin se podia e devia







defender enquanto o inimigo no tivesse aviao, o que nunca
se verificou.



A luta em Angola e Moambique era cada vez mais um
empreendimento construtivo e de aperfeioamento, e cada
vez menos um conjunto de aces especificamente
militares



Nos casos de Angola e Moambique, j a minha posio
diferente, porque estive bastantes vezes em Angola e troquei
cuidadosas impresses com alguns dos Comandantes-Chefes
do correspondent Teatro de Operaes e porque, no que
respeita a Moambique, fui eu prprio Comandante-Chefe do
respective Teatro de Operaes mais de trs anos.

Mas, ao exprimir a minha opinio sobre o provvel resul-
tado da luta nessas duas ento Provncias Ultramarinas Por-
tuguesas, desejava comear por chamar a ateno para o facto
de que tal luta, ao contrrio do que muitos possam pensar, era
cada vez mais um empreendimento construtivo e de aperfei-
oamento, concretizando-se num esforo imenso e permanent
de valorizao dos territrios e de promoo e elevao do
nvel de vida das populaes, e cada vez menos um conjunto de
aces especificamente militares.



Em 1976 e tanto quanto uma previso isenta pode asse-
gurar, estaria definitivamente garantido o sucesso das
Foras Armadas Portuguesas em Angola e Moambique



Em Angola e em 1973, a guerra estava ganha por Portugal,
traduzindo-se a vitria num desenvolvimento global espantoso
e sempre crescente e numa reduo e quase ausncia de ope-
raes especificamente militares.

Em Moambique e em fins de 1971, a guerra esteve quase
ganha pelas Foras Portuguesas e mesmo quase terminada.








Depois, o atraso no desenvolvimento geral, principalmente, e
o inicio da construo de Cabora Bassa, com as suas incisivas
consequncias polticas e estratgicas, particularmente, a fixa-
o de considerveis efectivos que a rea da future barragem
e albufeira, a linha de transport de energia e os seus acessos
impunham, retardou o sucesso. Este, se se procedesse como
era acertado e possvel, deveria retomar o seu ritmo acelerado
no segundo semestre de 1973, com a projeco do arranque
em curso do desenvolvimento geral, com a no diminuio do
nvel da instruo e preparao das tropas, com a manobra de
efectivos entire Angola e Moambique e com a entrada em
operaes das foras locais voluntrias que foram mandadas
constituir. E o mesmo ritmo acelerar-se-ia, nos anos de 1974,
1975 e 1976, com o desenvolvimento geral, com o choque pol-
tico e psicolgico que resultaria do termo da construo de
Cabora Bassa, precisamente no dia desde incio previsto, e
com as grandes vantagens especificamente militares que a sua
albufeira ofereceria. A Frelimo sabia-o, e por isso exerceu o seu
grande esforo, que, contra-producentemente, quase a esgotou,
no ano de 1973. Assim, em 1976, estar-se-ia numa fase j impor-
tante de um desenvolvimento geral em crescimento e, no res-
peitante a operaes especificas militares, estas deveriam estar
muito reduzidas em volume e localizadas muito a Norte. O pr-
prio Samora Machel t-lo-ia honestamente reconhecido.

Neste ano de 1976, pois, se se tivesse procedido acertada-
mente como era vivel e tanto quanto uma previso isenta pode
assegurar, estaria definitivamente garantido, embora possi-
velmente ainda no consumado, o sucesso das Foras Armadas
Portuguesas em Angola e Moambique. Isto as respectivas
guerras estariam ganhas em terms de contra-subverso.


P. 12- Deste modo pensa o Sr. General que a descolonizao
no foi resultante de dificuldades militares?



As causes profundas da descolonizao no tiveram qual-
quer origem em resultados militares operacionais menos
felizes







R. 12-De modo algum. As causes profundas da descoloni-
zao no tiveram origem em resultados militares operacionais
menos felizes. Tiveram sim origem poltica e foi esta poltica,
apstata e contra os verdadeiros ventos da histria, que acabou
por criar em sectors das Foras Armadas situaes que con-
duziram degradao da instruo e preparao das tropas,
ao imobilismo estratgico a nvel national e, na ltima fase,
paralizao estratgica nos Teatros de Operaes e mesmo a
attitudes de inoperncia tctica perante o inimigo.

P. 13-E a sua opinio sobre a forma como foi conduzida a
descolonizao?



A descolonizao foi um atentado histria de Portugal
e ao povo portugus e um erro nos plans Humano, Pol-
tico, Econmico e Estratgico.



R. 13-A minha opinio sobre a descolonizao, no seu
modus-faciendi, j conhecida publicamente.

A descolonizao foi, no plano dos princpios, um abuso
atentatrio da histria portuguesa e do povo portugus (euro-
peu, africano e asitico) e, no plano pragmtico, foi um erro
nos sectors human, politico, econmico e estratgico.

A histria de Portugal foi gravemente ofendida e o povo
portugus, de todas as etnias que o constituam, foi ilegtima e
insultuosamente ignorado, ao no ser consultado, nem mesmo
ouvido, quer direct quer indirectamente. O nmero de vtimas
foi e catastrfico. Os novos estados no adquiriram a inde-
pendncia, mas caram no domnio de potncias comunistas.



A descolonizao pode considerar-se, com autenticidade,
como o grande desastre do process histrico portugus.



O agora Portugal caminha, parece que quase irreversivelmente,







para o caos econmico e social e os antigos territrios ultra-
marinos portugueses atingiram j esse mesmo caos. E, final-
mente, no fomos leais para com a OTAN, nem consideramos
alguns dos seus importantes interesses, apesar de pertencer-
mos organizao ab-incio e de nela desejarmos at aumentar
a nossa participaao.

A descolonizao pode considerar-se, com autenticidade,
como o grande desastre do process histrico portugus.

P. 14- Sr. General. fcil critical. Mas, pergunto-lhe, como se
deveria ter procedido?

R. 14- Por forma bem simples em esquema, embora certa-
mente mais difcil na execuo, mas perfeitamente vivel.

Deveria ter sido assim:

PRIMEIRO ganhar a guerra, em terms de contra-
-subverso, o que, como disse, pelo menos para Angola
e Moambique, no seria muito difcil.

SEGUNDO esclarecer e consultar isenta, serena-
mente e com tempo as populaes portuguesas (euro-
peias, africanas e asiticas), apresentando-lhes com-
parativamente as diferentes solues polticas pos-
sveis.

TERCEIRO adoptar as solues livremente escolhi-
das pelas populaes, tendo como garante da sua
execuo correct as Foras Armadas Portuguesas
vitoriosas.

E poderia muito bem acontecer que as populaes esco-
lhessem a unidade poltica, a federao, a confederao ou a
comunidade e no a separao.

P. 15-E no seria tudo isso muito caro?

R. 15-Caro?l Pelo menos seria extraordinariamente mais







barato, em vidas, em desgraa, em patrimnio destruido e em
dinheiro, do que a descolonizao efectuada. E conduziria a
territrios de riqueza crescente e no de misria galopante>


A LINHA MILITARY KALZISTA E A SUA
PROJECO NO MEIO CIVIL


P. 16-Sr. General. Existe realmente alguma linha military
Kalzista nas Foras Armadas?


Se existe uma Linha Kalzista na Foras Armadas, ela
traduz-se numa comunho de pensamento, entire Oficiais
de carreira, relative ao regime politico, descolonizao
e s prprias Foras Armadas.


R. 16-No sei,. O que posso dizer-lhe a esse respeito o
que se segue.

Por um lado, no tenho quaisquer contacts com oficiais
em posies significativas nas Foras Armadas, com excepo
naturalmente de alguns amigos com os quais converso em
attitude de pura observao do que se vem passando.


Umas Foras Armadas autnticas na sua misso, na sua
estruturao, na sua hierarquia, na sua tica, na sua dis-
ciplina e na sua eficcia o pensamento comum a muitos,
muitssimos, Oficiais de carreira.



Por outro, admito perfeitamente que muitos, diria muits-
simos, oficiais de carreira das Foras Armadas militem num
pensamento bem prximo do meu. Com efeito, como homes
actualizados, sero, como eu, adeptos de um regime politico
democrtico pluralista com as caractersticas de harmonia o







eficcia e o sentido social, jurdico e pragmtico, que referi, e,
naturalmente, no marxista e anti-extremista; como bons portu-
gueses, condenaro, como eu, a descolonizao tal como ela
teve lugar; e, como militares autnticos, continuaro a conde-
nar, como eu, a mesma descolonizao e desejaro, como eu,
umas Foras Armadas tambm autnticas, isto cujos prin-
cpios informadores sejam, como de resto se procura que
suceda em todos os passes civilizados do Mundo, os seguintes.

a. Uma misso exclusivamente considerada a nvel nacio-
nal e no das alianas internacionais vigentes.

b. Uma estruturao adequada misso.

c. Uma hierarquia baseada na competncia resultante
das qualidades pessoais, do estudo e da experincia
e maturidade conferidas pelo tempo.

d. Uma tica de culto pelas qualidades nobres como o
carcter, a moral e a honra, a coragem e a generosi-
dade, a lealdade e a camaradagem, o patriotism e a
f no seu pas.
e. Uma discipline firme, mas inteligente e humana, e
voluntria, mas sempre aceite.

f. E uma eficcia to grande quanto possvel, vlida
no present e apontada ao future.

P. 17- E, para alm dessa possvel comunho de pensamento
entire oficiais de carreira, no desenvolve, o Sr. General, nenhu-
ma actividade militant, diria menos democrtica, no interior
das Foras Armadas contra o poder politico vigente?

R. 17-Creio que, em resultado da minha localizao poltica
no marxista e anti-extremista e das minhas opinies sobre as
recentes guerras ultramarinas e sobre a descolonizao, h
quem sinta em mim um perigo potential.

E, em consequncia, e duma forma mais ou menos cclica,
inventam-se propsitos e manobras anti-democrticas e mesmo
conspiratrias, golpistas e revolucionrias, com a finalidade de
indisporem o poder politico vigente contra mim.







A verdade, porm, que, independentemente de diver-
gncias, ou no, de opinio, eu nem de perto nem de long
estou ligado a tais propsitos ou manobras que, de resto, de
meu conhecimento no existem. Tudo o que empreendo e me
proponho empreender no plano poltico respeita com rigor a
Constituio da Repblica Portuguesa vigente, embora dela
discorde em numerosos aspects, e observa escrupulosamente
o actual Estatuto do Oficial do Exrcito. Esta uma declarao
categrica.

E de tudo isto dei j conhecimento director ao Senhor Pre-
sidente da Repblica.


P. 18-Em contrrio, no exerce qualquer actividade de natu-
reza colaborante no interior das Foras Armadas?



No mbito de um despacho do Chefe do Estado-Maior do
Exrcito, vai ser posto em juzo o problema das reparaes
de que me julgo credor por uma injustificada e longa priso



R. 18-No. que, independentemente de possveis reas de
sintonia intellectual, preciso, tambm, no esquecer que, sem
qualquer justificao, fui compulsivamente mandado transitar
para a situao de reserve em Maio de 1974 e que, igualmente
sem qualquer justificao, fui preso e nesta situao mantido
de 28 de Setembro de 1974 a 21 de Janeiro de 1976. E, ainda,
que, at hoje, nenhumas explicaes ou reparaes me foram
dadas.

No mbito de um despacho do Chefe do Estado Maior do
Exrcito, vai este assunto ser por mim posto em juzo. Ver-se-
o resultado.


P. 19-Assim, no exerce actividades anti-democrticas con-
tra o actual regime poltico nem, por agora, com ele colabora.


R. 19- Exactamente.







P. 20 -Uma ltima questo concrete,. Consider, o Sr. General,
que a linha military Kalzista, tal como a interpretou, tem pro-
jeco civil?

R. 20- Muito provavelmente. O pensamento que referi, como
possivelmente comum ou muito prximo disso, a mim prprio
e a outros oficiais de carreira, no exclusive dos militares e,
bem pelo contrrio, ele interessa com idntica acuidade a todos
os civis, adults e jovens. Por isso admito perfeitamente que
numerosas Mulheres e Homens e numerosos Jovens militem em
tal pensamento.

So as Mulheres e os Homens que, em plena maturidade
e com sensatez e experincia, sentem o desastre national e
desejam a estabilidade political, a recuperao econmico-finan-
ceira, a paz social e a discipline no trabalho. E so os Jovens
que, sedentos de verdade e de justia, generosos e entusiastas,
vivem no culto da Histria Ptria e anseiam pela construo de
um Mundo melhor.


















































Composto e Impressso na:
Tipografia 9 de Julho-Porto




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