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Group Title: O homem branco e o homem de cor frente a frente : conferencia realizada no Clube Fenianos Portuenses, em 6 de Maio de 1968
Title: O homem branco e o homem de cor frente a frente
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 Material Information
Title: O homem branco e o homem de cor frente a frente conferência realizada no Clube Fenianos Portuenses, em 6 de Maio de 1968
Physical Description: 43 p. : ; 19 cm.
Language: Portuguese
Creator: Oliveira, Hermes de Araújo
Liga Portuguesa de Profilaxia Social
Publisher: Imprensa Social
Place of Publication: Porto
Publication Date: 1968
 Subjects
Subject: Portuguese -- Africa   ( lcsh )
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: por Hermes de Araújo Oliveira.
General Note: At head of title: Liga Portuguesa de Profilaxia Social.
 Record Information
Bibliographic ID: UF00024941
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: aleph - 002897497
oclc - 10202201
notis - APC9077

Table of Contents
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PORTO-1968











Um formosissimo livro
em edihao extraordinaria
da Liga Portuguesa de Profilaxia Social



"O AHTIO O VID A HA POERIA TI5OREAHA"


Pelo Prof. Froilano de Alelo,
Director da Escola MAdica de
Nova Goa e dos ServiCos de
Saiide da India Portuguesa


Toda a alma maravllhosa da India milenaria,
atrav6s da sensibilldade de dois indlanos Ilustres:
Rabindranath Tagore e Froilano de Melo


PREQO 15$00


A venda em todas as livrarias
e na sede da Liga Portuguesa
de Profilaxia Social






LIGA PORTUGUESA DE PROFILAXIA SOCIAL


O HOME BRANCH

E O HOME DE COR

FRENTE A FRENTE


POR
-HERMES DE ARAOJO OLIVEIRA
Coronel do Estado-Maior


Confertncia realizada no
Clube Fenianos Portuenses,
em 6 de Maio de 1968.






1968
IMPRENSA SOCIAL
Se(;io da Coop. do ovo Po rtiese
Run do Paraflo, 219- PORTO


















PROLOGO


Vozes ilustres, das mais longinquas paragens
do territ6rio national, se fizeram ouvir id na Tri-
buna da LIGA PORTUGUESA DE PROPILAXIA SOCIAL,
dissertando sobre os mais diversos temas concer-
nentes ao Ultramar, por forma a darem-nos uma
visto, tanto quanto possivel exacta, da vida, dos
costumes, da cultural, da etnia, da paisagem humana
e fisica da vastiddo lusiada.
Eis as conferencias jd realizadas:

UTILIDADE NATIONAL DAS MISSOES RELIGIOSAS
ULTRAMARINAS--pelo Rev. P.e Joaquim Alves Cor-
reia, em 21-11-1940.
PROFILAXIA SOCIAL EM MOCAMBIQUE pelo Sr. Fe!ls-
berto Ferreirinha, em 29-7-1944.
ASSISTINCIA INDIGENA, POLITICAL DE GOOPERACAO
-pelo capitAo Augusto Casimiro, em 7-5-1945
PRESENCE DA MULHER NA PAISAGEM SOCIAL DA
AFRICA PORTUGUESA-pela Sr,' D. Maria Archer,
em 31-10-1945.



















A PRIMAZIA DAS COLONIES PERANTE A METRO-
POLE-pelo colonialista Eresto Queir6s Ribeiro, em
14-11-1945.
ALGUNS ASPECTS DO PROBLEMA DA LEPRA EM
MOCAMBIQUE -pelo dr. Mdrio de Andrade Silva,
em 19-12-1945.
CULTURAL MIDICA E CLINIC TROPICAL pelo
dr. Tito Serras Sim3es, em 5-7-1946.
IMPERIALISM LUSITANO pelo dr. Arnaldo Brazdo,
em 7-12-1946.
COLONIZACAO INTENSIVE DO ULTRAMAR pelo
capitao Alvaro Afonso dos Santos, em 12-6-1947.
SILVA PORTO NA VIDA E NA MORTE-pelo Sr. Rodrigp
de Abreu, em 31-10-1947.
A MOSCA DO SONO E 0 CONTINENT AFRICANO -
-pelo dr. Amadeu Feij6 Colago, em 19-1-1950.
O OIRO NEGRO-pelo dr. Elmano da Cunha e Costa,
em 29-3-1950.
MAGIA AFRICANA-pelo dr. Elmano da Cunha e Costa,
em 15-11-1952.
ANGOLA--MUNDO ABERTO AOS PORTUGUESES-
pelo capitol' Gastao Sousa Dias, em 28-6-1954.


4-




















PORTUGAL NO ORIENTED. (MACAU, INDIA E TIMOR)
pelo omralista Ernesto Vdrzea (Balmaceda), em 17-7-1954.
CABO VERDE E A SUA GENTE-pelo dr. Henrique
Teixeira de Sousa, em 25-11-1954.
A EVOLUCAO DA CULTURAL PORTUGUESA NA INDIA
-pelo dr. Sebastido Ant6nio Morio Correia, em
25-11-1955.
A POSICAO DE PORTUGAL PERANTE A UNIAO
INDIANA-pelo coronel Hermes de Aratio Oliveira,
em 31-3-1958.
O MESTICAMENTO HUMAN EM MOCAMBIQUE E
A SUA INFLUNCIA NA ACULTURACAO DOS
POVOS AFRICANOS-pelo tenente Manuel Sim6es
Alberto, em 26-8-1960.
A NOVA TERRA DE PROMISSAO ANGOLAA) pelo
dr. Bernardino Lavrador Ribeiro, em 6-6-1962.
PORTUGAL INICIADOR DA CULTURAL ATLANTICA E
PRECURSOR DA CULTURAL ECUMENICA-pelo
dr. Manuel Cruz Malpique, em 7-4-1968.
O ENSINO SECUNDARIO EM ANGOLA pelo dr. Adriano
Vasco Rodrigues, em 29-2-1968.

A LIGA PORTUGUESA DE PROFILAXIA SOCIAL,
ciente da importdncia que o seu esforfo de dar a

















conhecer Portugal aos portugueses comporta, mor-
mente nesta hora conturbada em que determinados
sectors da opinido mundial (ndo tanto por igno-
rdncia da nossa obra civilizadora e dos nossos
direitos, mas por acintosa inveja e inconfessdveis
designios) nos caluniam e hostilizam tentando a
desuniao e o desmembramento da Portugalidade,
a LIGA, diziamos, empenhadamente se entrega a uma
missdo que, ndo o duvidamos, terd o meritissimo
condo de contribuir para uma maior aproximagdo
entire os portugueses de todas as latitudes.
A com este objective que ora se public a con-
ferencia que, subordinada ao tema < BRANCO E 0 HOME DE COR FRENTE A
FRENTE,, o coronel do Estado-Maior Sr. Hermes
de Aradjo Oliveira proferiu na Tribuna da LIGA'
PORTUGUESA DE PROFILAXIA SOCIAL 'em 6 de Maio
de 1968.
Dificilmente poderia escolher-se pessoa mais
autorizada, para ocupar-se de tdo important qudo
oportuno problema. A experiencia que ter dos
assuntos africanos e a forma lrcida e pertinent



















como os ter estudado estdo bem patentes nos
seus seguintes trabalhos:

GOLPES DE MAO (Laureado com o oPr6mio Barreto de
Oliveira>)
GUERRA DE GUERRILLAS (Laureado cor o Barreto de Oliveira,)
O SUBMARINE E AS COMUNICACOES MARITIMAS
O SUBMARINE
A INFANTARIA NA GUERRA MODERN (Laureado corn
o A GUERRILHA NA GUERRA MODERN,
LA GUERRILLA EN LA GUERRA MODERN
TER FI ...
POTENTIAL HUMAN INDIGENA DE MOCAMBIQUE
(SUA IMPORTANCIA NO QUADRO DA DEFESA
NACIONAL) (Laureado cor o O PROBLEMA DA INDIA PORTUGUESA
O PROBLEMA DA ARGaLIA
A DEFESA DE MOCAMBIQUE A LUZ DA GUERRA
REVOLUCIONARIA (Laureado cor o <(Pr6mio Mogam-
bique>)


-7

















GUERRA REVOLUCIONARIA (4." edivao)
A ACCAO PSICOLOGICA NA DEFESA DE MOZAMBIQUE
SUBVERSAO EM AFRICA (Laureado cor o <(Prmio Almi-
rante Augusto Os6rio>>)
POSICAO DE PORTUGAL EM AFRICA. SEU VERDA-
DEIRO FUNDAMENTO
A ACCAO PSICOSSOCIAL EM MOCAMBIQUE
A BATALHA DA CERTEZA (ACCAO PSICOSSOCIAL)
(3.4 ediggo)
SUBVERSAO E CONTRA-SUBVERSAO (em colaboragbo)
GUERRA SUBVERSIVE.' SUBSIDIOS PARA UMA ESTRA-
TAGIA DE REACCAO.

0 facto de quase-todos os citados trabalhos se
encontrarem esgotados, dd a just media da grande
audidncia que o sr. coronet Hermes de Aradjo Oli-
veira ter entire o pltblico interessado nos problems
Smilitares e ultramarinos. Serd esta a mais real con-
sagragio dos altos m6ritos de um escritor.



















1 Ao contrArio do que a generalidade do
home branco sup5e, o home preto formou, espon-
tAnea e naturalmente, ao long de s6culos de adapta-
cgo aos quadros geogrAficos de florestas, prados e
estepes, sociedades sempre caracterizadas por dois
factors essenciais: a conexao com as condig es do
ambient e da paisagem e o respeito dos circulos
socials naturais formados pelos clas ou grafndes fami-
lias, constituitivos de um sistema complicado de
circulos isolados e fechados, mas, apesar de tudo,
relacionados entire si. Gragas ao primeiro, criou ele
cultures especiais de grandes rios, de selva virgem
e de semi-deserto pastoril; por influencia do segundo,
nasceu uma esp&cie de sistema planetdrio> social
de pequenos grupos, cada um deles vinculado a
uma geira de terra e a uma manada de gado, aos
quais rende verdadeira adorag o.
A sociedade political negro-africana 6, pois,
constituida por circulos concentricos cada vez mais
largos, que se sobrepBem sucessivamente, imbrin-






cados uns nos outros e formados sobre o tipo da
familiar: em geral, varias families, cor o mesmo
dialecto e uma origem comum, instituem uma tribo;
diversas tribes, que falam a mesma lingua e habitam
o mesmo pais, formam um reino; e, por fim, various
reinos podem entrar numa confederaggo ou num
imp6rio. A maior parte dos grandes imp6rios afri-
canos desagregou-se antes da intervencgo europeia,
sob os golpes de outros africanos, mas as c6lulas
familiares de base conseguem, em geral, manter a
sua originalidade e a sua coesio. E enquanto os
imperios, as grandes hegemonias, raramente duram
mais de dois seculos, as organizag5es politico-fami-
liares, at6 ao nivel aldeia, sobrevivem, revelando
notAvel permanencia.
Nestas sociedades existe uma cultural organica,
embora elementary, cor as suas leis e a sua dialectica
pr6prias; nelas se encontra um nucleo-de verdade
no seu pensamento traditional, na sua filosofia e
no seu ideal de vida, tudo formando corpo corn a
pr6pria essancia do seu ser. E, assim, tern de se
reconhecer que tais instituigSes jamais poder~o dei-
xar de existir, visto corresponderem a necessidades
fundamentals inerentes A natureza do Homem.
Estes quadros politico-sociais, tgo fortemente
tradicionalistas, veem irromper bruscamente, em
determinada 6poca, a presenga do home branco.
Este, contudo, ndo estA preparado para compreender
tais sociedades,, assentes na estabilidade, na per-
petuagdo do passado, na integragfo total do indi-
viduo no grupo e, dal, no cosmos.
A political que de inicio leva a efeito prepare


10 -






psicol6gicamente o receio e o rancor em vez de des-
pertar e firmar a confianca. Mais tarde, quando
alguns exploradores idealistas e muitos missionArios,
depois de haverem percorrido o interior, deixam
antever, nos seus relates, a verdadeira riqueza da
Africa Negra, esta 6 repartida por potencias euro-
peias, segundo limits arbitrAriamente tragados sobre
o mapa, sem curar de tender, a factors de ordem
econ6mica e, sobretudo, etnogrAfica. Principia, entAo,
a fase da exploragdo econ6mica do continent, trans-
tornando todo o sistema existencial do home preto
que, surpreendido e impotente, v0, por um lado,
a mAquina revolver as suas terras, pondo-o a ele,
seu verdadeiro e legitimo dono, completamente de
parte, e assisted, por outro lado, ao seu encurrala-
mento em regi5es pobres e esgotadas onde more
a fome- ou a sua expulsio para zonas industrials
-onde 6 tratado desprezivelmente.
Mesmo nesta altura, a compreensgo do home
branco nao melhora. Acredita ele no Progresso,
no Future, no Individuo; distingue cuidadosamente
o temporal e a prAtica do spiritual e do ideal,
quando os nao nega. Mesmo os mais puros entire
os seus pioneiros, os mais sinceramente debrugados
sobre a evolucgo humana do preto, nio sabem, em
geral, distinguir o carActer fisiol6gico vital de certas
instituig5es que, por serem avaliadas na escala de
valores europeus, sLo tidas por eles como birbaras.
Os outros nao se preocupam cor isso, nem sequer
admitem a possibilidade de existirem verdadeiras
cultures, ainda que rudimentares, por trAs da evi-
dente mis6ria material dos povos africanos. E, assim,


- 11






chega-se a assistir, por vezes, a este paradoxo estra-
nho: as melhores intencges, as mais honestas, fazem
mais mal do que a indiferenga ou mesmo o desprezo,
O home branco ignora por complete o ver-
dadeiro significado dos essenciais principios enfor-
madores da civilizagAo negra e, por conseguinte, os
elements sobre que assenta a personalidade espi-.
ritual da cultural dessa civilizagco. Levado por tal
ignorAncia, procura associar as tribes em organi-
zag~es mais amplas, regionais e nacionais, substituir
os chefes hereditArios por autoridades representa-
tivas ou converter aqueles nestas e, por fim, subs-
tituir as instituig6es tradicionais pelas instituigSes
pr6prias de um Estado modern e europeu. E assim
procede sem levar em atengao as condig5es psicol6-
gicas, hist6ricas, socials e religiosas peculiares as
sociedades indigenas.
Por sua vez, o home preto julga o home
branco segundo os seus pr6prios valores. Sempre que
procura imitA-lo ou assimilar os seus modos de
comportamento, cujo significado e cujo alcance nio
compreende, fA-lo segundo as suas normas, que estio
muito long de ser as mais ajustadas. O home
preto nem sabe como interpreter o que ve nem
senate o que Ihe 6 sugerido ou imposto...
Ha, pois, uma incompreensio reciproca entire
duas civilizag~es, e dela nascem erros e faltas, origem
de conflitos e rancores.

2- DA-se, na verdade, o choque entire as nor-
mas socials e a cultural de uma civilizagFo elementary
e os principios novos emanados dos conceitos de


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uma civilizagio evoluida. Desse choque result per-
der o negro o seu equilibrio human, visto tornar-se
estranho ao meio tribal onde se formou e cuja
cultural comega a nio o satisfazer completamente,
sem, no entanto, encontrar lugar onde possa acomo-
dar-se e viver na sociedade do branco, que, se o
nao repele, pelo menos o nao aceita.
Ao ser despojado dessas suas instituiOSes, fica
sem raizes, exposto a ser joguete de todos os ventos,
como a area do desert. A sfibita injec~io de
modernismo e europeismo, sem passar antes por
etapas intermidias, produz-lhe a desorientagao.
E o seu espirito torna-se indeciso, oscilante, intelec-
tualmente desordenado e confuso. Sao, na verdade,
explosives os efeitos do choque da civilizagAo euro-
peia corn o regime tribal do africano. Enquanto o
home preto anseia igualar-se ao home branco,
mas conservarido integra a sua cultural nas suas
formas, no seu determinismo especifico, na sua
pr6pria vitalidade; o home branco, em vez de
a expurgar de certas regras que ofendem o seu
conceito pr6prio de cultural e de a aproximar, tanto
quanto possivel e aos poucos, do conceito euro-
peu de civilizaIo moral e material, insisted no
erro de querer substitui-la, pura e simplesmente,
pela sua.
Para grande parte das populagjes de cor, que
em curto period de tempo se veem obrigadas a
passar bruscamente dos tipos de civilizaggo agricola
primAria para a complex civilizagyo mecAnica actual,
a nova cultural imposta quase nunca e adquirida,
e muito menos assimilada.


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Resulta dessa circunst&ncia perderem quase
de repente o criterio tribal de apreciagao e jul-
gamento dos valores, sem, todavia, adquirirem
um novo.
Quer dizer, o home branco, ao pretender impor
a sua civilizagao ao home preto, corn total des-
prezo pelos princfpios vAlidos em que assenta a
estrutura traditional deste, comega a langar os
g&rmens da desintegrago. revolucionAria da forte
contextura das tribes africanas. A vida do home
preto 6 completamente dominada pela exist&ncia
da tribo e pelos interesses da comunidade desta.
Tal conceito de comunidade tribal cria, e man-
tem fines, as directrizes do seu espirito e as suas
finalidades essenciais de ser human. Todavia,
os novos principios de civilizagao a que o home
branco o pretend obrigar-mas que ele nao con-
segue entender na sua essancia destroem, sem
as substituir, essas directrizes e finalidades, vendo-se,
assim, desintegrado do todo comunitario e subme-
tido a novas formulas de vida, estabelecidas em
bases individualistas por ele desconhecidas. De uma
existencia simples, em que a vida 6 fAcil, passa a
um sistema dificil, cuja complexidade o desorienta.
Abre-se, assim, brecha profunda na organizagco
tribal, sem haver possibilidade de a colmatar, visto
;a diferenga entire a civilizacgo do home preto e
a do home branco ser tdo grande que nio permit
aquele assimilar de pronto a nova civilizaao, em
substituigdo imediata da sua. A imposi~lo da edu-
cagao e da moral individualista europeias faz per-
der ao home preto a sua estabilidade moral.


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Entretanto, criam-se, em muitas regimes, reser-
vas e Areas indigenas, onde aquele possa viver
da terra.
Numas e noutras, porem, as terras sao insu-
ficientes e das mais pobres, eastigadas pela erosao,
secas ou esgotadas. As melhores, as mais produtivas,
ficam reservadas para o home branco, sem levar
em conta o problema econ6mico que tal circuns-
tancia cria aos proliferos homes de cor. Quer dizer,
as boas terras, pr6prias para a cultural, que eram dos
pretos, passam agora a ser dos brancos ou para eles,
tendo em vista a chegada de novos colonos.
Apesai dos numerosos factores contrArios a
sua progressividade fisiol6gica, a populagao negra
aumenta em ritmo acentuado. Por outro lado, as
mais que limitadas Areas de terras produtivas, onde
por imposigao se encontra instalada, perdem grande
part da sua ja diminuta fertilidade ou sao destrui-
das pela erosao, por virtude da intensive exploragao
dos solos, da destruigao das florestas e dos m6todos
em uso no trabalho da terra. Nasce, desta maneira,
entire as populag6es, em face das dificuldades que
se Ihes apresentam, um estado de espirito de inquie-
tagao, estado de espirito que evolui no sentido do
descontentamento, cuja pressao se vai acentuando
aos poucos.
Quer dizer, A pobreza das terras junta-se o
super-povoamento resultante da pequenez das Areas
e do aumento constant da populagao, tornando
impossivel a vida aos milh6es de individuos que
nelas se acumulam. A situaao 6, pois, de satu-
raggo absolute.


- 15






O home preto abandon, entao, essas reser-
vas, procurando fora delas o minimo de condigSes
indispensiveis A sua exist&ncia. Emprega-se nas
plantag6es do home branco ou debanda para as
cidades.
Naquelas, contudo, 6 uma especie de servo,' e,
dos que caminham para a cidade, s6 uma part
alca'nga trabalho nas minas e nas oficinas, ou entio
como servigal do branco. E como nas minas e ofi-
cinas ha uma maior procura de mdo-de-obra nao
especializada, o home preto, porque e mais nume-
roso e menos exigente no que respeita a comodidade
e remuneralo, passa a ser forte concorrente do
home branco, tido como operArio qualificado.
Os restantes--que constituem a grande maioria-
embora sem conseguirem trabalho, nio regressam
as suas terras e permanecem na cidade, caindo, dia
a dia, numa vida de delitos e convertendo-se len-
tamente em i'ndividuos perigosos. Uns e outros,
sendo considerados, nao homes bons, mas antes
elements indesejaveis uns pela concorrencia,
outros pela ociosidade--vao-se organizando num
sentido xen6fobo e propagandeando ideas que de
modo algum coincide cor aquelas que funda-
mentam os conceitos de vida europeus.
Desta forma, milhares e milhares de pretos sao
arrancados, a todo o instant, dos seus ambientes
geogrAficos tradicionais e langados para outros muito
diversos, cnde mantfm contact intimo corn o branco,
na vida do dia a dia.
Assiste-se a uma autentica desergio progres-
siva da selva em proveito da cidade.


16 -







P uma multidao informed, sobretudo de jovens
entire os 25 e os 30 anos na sua maioria esma-
gadora rapazes solteiros ou temporAriamente sepa-
rados das suas families. As repercussoes morais e
sociais deste desequilibrio entire os sexos sdo fAceis
de adivinhar: as ligacges de acaso, a mancebia e
a prostituicao constituem o fundo do quadro da
cidade africana, tendo como contrapartida inevitAveI
a fragilidade e a instabilidade dos lares.
A peniria e as graves insuficiencias de habitat
-jA por sium grande obsttculo a qualquer expan-
sao familiar juntam-se as dificuldades de alimen-
tag5o caracteristicas da grande cidade: 6 precario o
reabastecimento alimentar, tornando-se indispensAvel
comprar tudo. Ora, os salaries que se praticam,
mesmo em beneficio dos citadinos, permanecem sala-
rios insuficientes. Nio podem conciliar-se senao
corn um estado de celibato e de sub-nutrigao, a
menos que sejam completados corn proventos mar-
ginais, de origem mais ou menos escura.
Quando se junta a esta pobreza cr6nica o fla-
gelo do desemprego, entio 6 a mis&ria. E surge um
mal novo de amplitude assustadora.
A partir do moment em que o individuo aban-
dona o quadro geogrAfico da sua sociedade natal,
produz-se um relaxamento dos lagos socials e poli-
ticos dessa sociedade, facilitado ainda pelo estabe-
lecimento de um direito e de regulamentos coloniais.
Este novo direito -tomado no sentido mais lato,
para alum do simples corpo juridico sobrepSe-se
ao da tribo e substitui-o em larga media sempre
que o individuo dela se ausenta, acabando, numa


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segunda fase, por deslocar o direito tribal ou por con-
taminA-lo, em graus diversos, tirando-lhe o seu
significado.
Crescem de maneira assustadora as cidades afri-
canas, amontoando, sem os unir, dois mundos: de
um lado, a cidade europeia, em geral garrida e res-
plandecente, e, do outro lado, ou normalmente em
torno dela, o aglomerado de cor, a desenvolver-se ao
acaso, como todas as <. E, no seu
crescimento, caminham, a passes largos, para um
clima individualista, contrario A necessidade natural
de vida comunitaria pr6pria do negro, para o anoni-
mato dissolvente e isolador dos grandes aglomerados
modernos: 6 o deserto das grandes cidades.
Liberto do seu chefe de familiar, do seu chefe
de povoagco, do seu administrator, o citadino nAo
e incorporado num apertado quadro professional e
pode viver a seu bel-talante, no mais complete ano-
inimato. Formam-se assim grandes massas humans
que, desamparadas das suas organizag6es tribais,
entram em contact com um mundo de organizagao
e funcionamento absolutamente inesperados, sujei-
tando-se a uma liberdade em moldes de que nao
tem experiencia. Como consequencia, processam-se
modificag6es de comportamento que nem sempre con-
duzem A formagao de um grupo estabilizado mas
que sao sempre causa do drama da evolucao indi-
vidual que vai projectar-se no meio da origem.
E esta ampla disponibilidade de gentes sem obri-
gag6es e sem quadros, < tem a defender nem a perder>, transforma-se, pouco
a pouco, por influencia de organizag6es political


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exteriores a Africa, numi proletariado africano A
deriva.
Assim, e em resultado da carencia de terras e
da consequente march para a cidade, a desintegra-
cao tribal, que nunca deixa de se acentuar, acaba por
ser total, entire a maioria da populag~o de cor, pas-
sando-se do destribalizado temporArio> para o plantado definitiveo>, absorvido por tais organizacSes.
De tudo result o home preto deixar de se
satisfazer corn as explica ges dadas sobre o mundo
e a vida pelo pensamento filos6fico herdado da
tribo. TAo pouco o satisfaz o quase nada que pode
apreender e assimilar da cultural europeia. Os con-
ceitos, embora elementares, em que assenta a sua
vida sao profundamente abalados. Sente-se entio
individuo mas de maneira confusa desintegrado
do todo comunitario, que era a razao principal da
sua vida. Desorientado e perdido, nao sabe o que
fazer desse novo valor que a cultural do homenm
branco lhe trouxe: a sua individualidade e inde-
pendencia de ser human.
Nasce assim grave e dolorosa perturbalao de
espiritos, fonte de turbulencias de toda a ordem.
De facto, o home preto 6 obrigado a adaptar-se a
novas formas de instituigao familiar e a novas moda-
lidades de relagbes socials, sem qualquer signifi-
cado para si.
Por outro lado, nao 6 menor a desorientaclo
trazida A sua vida pela introdugo, no regime de
economic aldeA de tipo comunitArio, dos principios
da economic individualista europeia. 1 colocado
perante novos conceitos de riqueza, de propriedade


- 19






e de trabalho. E o trabalhador preto deixa de ser
simplesmente aquele home de uma colectividade,
que trabalha para a existencia do pr6prio grupo e nao
para uma remuneraglo, cuja ideia 6 estranha A pr6-
pria Africa. Sofre uma profunda transformagao, des-
truidora da sua vida traditional, tornando-o vitima
do seu pr6prio enriquecimento, que o conduz A desa-
gregacao familiar. E esta, por sua vez, ameaga a
organizagao comunitaria da aldeia africana.
A vida simple, assente em actividades elementa-
res tais como a colheita fAcil de produtos da terra,
da pesca e da caga- dentro do fechado anel de
interesses e relag5es da pequena aldeia, tem de ser
abandonada. Em seu lugar, surge um complex
sistema de vida, em aglomerados citadinos de milha-
res e milhares de pretos, a fornecerem um trabalho
assalariado A pequena populagao branca que os
dirige e depend do seu esforgo.
Quer dizer, como produto da infeliz incompreen-
sao do home branco pelo home preto, produz-se,
por toda a Africa Negra, um fen6meno da maior
transcendencia: a ruptura e o aniquilamento da
ordem social e econ6mica em que vive hA milinios.
Tudo trabalha, cor efeito, no sentido da desin-
tegragdo das sociedades tradicionais.
Surge, entdo, um facto paradoxal: ao contrArio
do que se possa pensar a primeira vista, nao result,
dessa desintegragao, um enfraquecimento do espirito
tribal. Surge, antes, um reforgo, melhor diriamos
uma nova orientacdo desse espirito.
O individuo, que vive no seio da tribo, tern,
desta, muito pouca consciencia, mesmo no sentido


20-







em que ela constitui o seu meio ambiente, na acep-
gao quase biol6gica do termo. f1 apenas quando sai
dela, ao v6-la do exterioror, no moment em que
ele pr6prio se senate como estrangeiro neste mundo
exterior, por ele acabado de descobrir, que consegue
verdadeiramente apreender a originalidade. A partir
de entio, as instituiges, que deixa de viver ode
dentro>, passam a tomar novo significado aos seus
olhos, tendem a esvaziar-se do seu valor funcional
para se transformarem em simbolos de uma esp6cie
de nacionalismo por reacfco. Despojada do seu
character original e reconstituida sob uma forma mais
ou menos aberrativa, a instituicgo toma carActer
agressivo e violentamente xen6fobo.
Em paralelo corn este movimento de degrada-
Slo acelerada da sociedade traditional e reacgo
tribalista e sobrepondo-se a ele a ponto de o
dissimular, por vezes desenvolve-se uma tendencia
nacionalista, de escala mais vasta e de dados ant-
logos, mas mais complexes. Trata-se ainda, primeiro
que tudo, da tomada de consciencia de diferengas,
mas agora dobrada de uma tomada de consciencia
em sentido inverso, a dos tragos comuns alem, jus-
tamente, das diversidades tribais.
0 processus existente para o preto said do seu
meio traditional acentua-se tanto mais quanto mais
o individuo se afasta desse meio. Dai, tornar-se
demasiado sensivel em todo aquele que recebe uma
instrucao tipo europeu, isto 6, no (evoluido. Este,
por6m, como resultado da incompreensao nascida
das diferengas radicals da natureza entire as duas
civilizag6es, tern da civilizagLo europeia uma con-


- 21







cepgao pessoal que difere por complete da dos pr6-
prios europeus.
Os mal-entendidos nascidos desta representagao
muitas vezes uma reacgio de frustragio, de decepgco,
que conduz ao rancor e ao ressentimento. O home
preto sente-se rejeitado, ter a nogio da recusa que
Ihe 6 oposta pelo mundo branch.
O aumento considerAvel da populagAo europeia
determine a ida para Africa de families completes,
c o afluxo crescente destas leva o pessoal de enqua-
dramento imigrado a criar din loco> uma sociedade
de tipo metropolitan, muito fechada, que o isola
do pals cada vez mais. Ao mesmo tempo, a presenga
desta sociedade de elevado nivel de vida exerce forte
atracgo, mesmo que continue a fechar-se, dando
assim ao oevoluido> uma sensagio ainda mais vin-
cada de discriminagao. Ao sentir-se diferente do
colonizador, largamente desligado do meio tradicio-
nal pela sua educagio e pela sua participagco no.
sistema politico-econ6mico colonial, tende, para o
future, a imaginar-se, cor os seus, como membro
de uma colectividade mais vasta que a tribo e, ao
mesmo tempo, diferente do conjunto do pals colo-
nizador.
Dai, surgirem reivindicacges que vao, segundo
as circunstAncias e os individuos, de um autono-
mismo federalista a um pan-africanismo racist e
xen6fobo.
A situagao social das massas de cor acaba a3im,,
ao long desta penosa evolugAo, por se sintetizar na
existencia de dois grupos distintos: as populag5es

22 -







da primitive sociedade negra e as populaqSes influen-
ciadas pelo contact corn o europeu e que trabalham
como assalariados agricolas e operdrios industrials.
As primeiras vivem da terra, amarradas & tradicgo
agrAria da policultura, procurando manter-se firms
na sociedade traditional da organizag~o tribal; as
segundas, utilizadas pelo branco, constituem a socie-
dade proletAria, desenraizada da terra e submetida
A destribalizacgo. E, enquanto as massas agrarias
continuam a sofrer as duras e trdgicas consequencias
de uma defeituosa repartiqgo de terras, as massas
assalariadas langam-se na luta pelas reivindicagaes
que Ihes dizem serem inerentes ao proletariado.

3--Entretanto, o contact cor o branco deixa
antever ao preto um conceito diferente da vida e
do Homem.
E esse conceito cria nele o desejo de se digni-
ficar, de se elevar, de ser algu6m, de usufruir das
mesmas regalias, de ser senhor dos mesmos direitos
e dos mesmos deveres do home branco. A reli-
gigo crist5, que a todo o instant Ihe afirma ser ele
um home cor uma alma, uma inteligencia e uma
vontade, promete-lhe aquela igualdade, e o preto,
assim entusiasmado, propoe-se, por suas aptidbes
e cor o auxilio 'necessario, equiparar-se ao branco.
Deixa de se satisfazer cor a cultural e a lite-
ratura da sua tribo ou do seu povo. Quer mais,
muito mais. E quantos deles se langam, entgo, cor
desespero e persistencia, nos estudos modernos,
enchem as escolas, frequentam assiduamente as
bibliotecas pbblicas, dando origem a formnaio de


- 23






uma nova classes em tudo diferente da tribal, da
camponesa e da operdria. Formada de engenheiros,
mMdicos, advogados, professors, sacerdotes, peque-
nos funcionmrios, v6 juntarem-se-lhe todos os jovens
que regressam, depois de haverem lutado na Europa
e no Oriente contra brancos para triunfo da causa
de outros brancos ou de terem desempenhado cargos
de certa importAncia nas indfistrias de guerra.
Comega assim a nascer um escol negro e, com
ele, um novo estado de coisas.
A instrucgo torna o indigena apto ao exer-
cicio de diversas profissoes, e a doutrina de Cristo
revela-lhe, como dogma sagrado, que, pretos ou
brancos, sdo todos homes, filhos do mesmo Deus.
Na vida prAtica, por6m, as coisas apresentam-se ao
contrArio. A recusa do home branco em despir-se
de preconceitos de superioridade racial leva-o a nao
dar, aquele escol, posicges de comando, inerentes A
sua cultural e que, por isso mesmo, ele deseja. Nio
se trata de ambicao sua mas de simples aspirag~o,
visto reconhecer, em consciencia, estar preparado
para as ocupar.
Reconhece-o tamb6m o branco. No entanto,
receia que entregar-lhe as alavancas do comando--
mesmo as mais elementares--seja condenar-se a si
pr6prio, em future nao muito distant. Obcecado
pela incompreensao, tern como certo que o preto,
de posse dessas alavancas, procurarA chamar a si,
lentamente ou por forma brusca, a direc~io total
da administragdo, eliminando-o dela.
Surgem, 6 certo, europeus que levam aos, seus
territ6rios africanos progresses materials de grande


24 -







valor e at6 mesmo, por vezes, a igualdade political
as suas populag5es. Fazem-no, por6m, esquecen-
do-se de que, introduzir os principios democrAticos
nas instituicges political dos povos negros, no seu
actual estado de desenvolvimento, 6 desarticular todo
um sistema traditional de governor e de autoridade sem
ter a precauggo de garantir uma realidade melhor.
Para chegar a essa perfeigo, muito sofreu a Huma-
nidade, vArias tendo sido as etapas interm6dias per-
corridas pelos povos para alcangarem o estado de
evolucgo political em que se encontram.
Esquecem-se tamb6m haio bastarem os progres-
sos materials para levar a esse mesmo estado as
pcpulag5es nativas. Por mais amplos que sejam, por
maior significado que atinjam, nao serio suficientes
para se criar uma sociedade inteiramente instruida,
moralizada e civilizada.
Com efeito, porque o desejo 6 fazer evoluir,
aperfeigoando-a, uma sociedade existente, toda a
acgao tendente a esse fim nao poderA assentar exclu-
sivamente numa acqao material; antes haverA, por
obrigat6rio, de partir de um estudo pr6vio, a fundo,
dessa sociedade, tanto em si pr6pria como no moment
actual de evolugao. Chega-se, assim, ao Homem,
que se move e desenvolve no meio pr6prio e caracte-
rirtico, corn as suas crengas, seus ritos, sua religiao,
suas superstic5es, sua estrutura hierArquica de familiar,
do cld, o seu direito consuetudinArio, as suas prticas
as vezes selvagens ou simplesmente atrasadas em rela-
cgo ao avango social dos outros povos. Nao ha, por
conseguinte, qualquer possibilidade de promover o
progress dos povos negros sem conhecer tais facto-


- 25







res, que permitirdo fixar, da sociedade existente, o
que interessa conservar e o que conv6m fazer evoluir
e, mais ainda, que levarao a marcar a hierarquia das
reforms e o ritmo a imprimir-lhes.
Surge, por 16gica, a necessidade imperative de
exercer tamb6m, sobre as populac6es indigenas, a
accgo spiritual. E faz&-lo, senao com prioridade
sobre qualquer outra, ao menos em paralelo.
Esses europeus, contudo, esquecem-no lasti-
mosamente.
Assim, se 6 certo o home branco, na sua
tarefa civilizadora, conseguir criar aos poucos um
aceitAvel sistema de principios de accgo imediata no
quo refere A explorago e valorizacgo material dos
territ6rios, certo 6 tambem nao edificar, no campo
da civilizaglo spiritual, sistema algum orientador.
0 home preto continue desorientado no embate
da sua cultural elementary cor uma outra de nivel
muito mais elevado, sendo destruida aos poucos a
sua organizagio social, spiritual e econ6mica, pois
o home branco nao quer -ou nIo sabe--pre-
parar a sua ascensao cuidadosa e gradual para novas
condig6es de vida e de saber.
No seu trabalho de muitos e longos dec6nios,
este derruba florestas, ergue cidades, constr6i portos,
rasga estradas, abre escolas, explore a terra at6 as
suas entranhas; tudo isso faz, mas nao toca a alma
do preto. Esta continue ignorada pelo europeu.
Num lamentavel e total desconhecimento do
que constitui o nicleo de verdade do pensamento
traditional do home preto, da sua filosofia e do


26 -







seu ideal de vida, o home branco nao consider
aquele como um ser human igual aos outros: nega-
-lhe sempre a posse de uma alma, tem-no como um
. Consciente ou inconscientemente,
recusa-se a ver nele uma alma que sofre, uma alma
que vibra e que senate as mesmas dores e as mes-
mas alegrias que a dele senate: basta que a felicidade
ou a desgraga Ihe batam A'porta.
Essa alma, tao desconhecida ainda, estd como
a terra virgem, A espera da charrua e da semente.
Nela podem germinar, 6 certo, os mais baixos e des-
preziveis sentiments. Mas, assim como A terra vir-
gem, quando pobre e est6ril, consegue a ciencia dar
condig6es de fecundidade e riqueza, tamb6m o home
branco poderia levar a florescer, na alma do preto,
os mais nobres sentiments. Tudo dependeria do
tratamento que Ihe fizesse e das sementes que nela
langasse.
O home branco, por6m, quase nenhuma
semente usa, e a pouca que, por vezes, utiliza, de
muito fraca qualidade 6.
Os seus -esforgos param no limiar dessa alma.
Nao penetram nem as suas aspiragecs profundas
nem as suas ang6stias nem as suas virtudes. Ansioso
por civilizar ou cristianizar, nao presta atenc o
as reace5es ou As resist4ncias daquela alma;
desejoso de verificar os resultados a curto prazo,
prefer arrancar e plantar num terreno passado
a limpo, em vez de enxertar e mondar. Seria
milagre se os frutos obtidos em tais condic6es cor-
respondessem a expectativa e as esperancas dos que
acreditam servirem a Africa dessa maneira.


-27






O home branch nao sabe descobrir os prin-
cipios da sabedoria e da metafisica negras, a fim
de fazer deles uma base s6lida tanto para o desen-
volvimento das civilizagSes africanas como para o
progress do Cristianismo; nao sabe encontrar as
> da alma do home preto. Declara
entao essa alma impermeAvel As suas ciencias e as
suas t6cnicas, numa palavra, ao seu pensamento
rational. E, como consequencia, ter para si que
a apresentacgo ao home preto da civilizag~ o euro-
peia, apenas pode levar A criaqdo -salvo algumas
excepgaes- de falsos evoluidos.
Destr6i, por outro lado, demasiado depressa,
instituicoes ou gestos respeitAveis, simplesmente por-
que se nao dA ao trabalho de penetrar o seu sentido.
R c6modo interpreter como
os gestos ou at6 os ritos cujos significados Ihe
escapam. Deixa-se levar a juizos sumarios que ferem
profundamente a sensibilidade do preto: ridiculariza
com, gracejos de mau gosto instituicaes respeitAveis
ou condena-as em bloco em nome da moral; suprime
o que nao compreende; e, bem depressa, mata a
alma negra antes que ela tenha tempo de descobrir
a alma do europeu.
Entretanto, o escol negro, A media que vai
atingindo grau de cultural bastante apreciavel e
nfimero relativamente elevado, intensifica a acgco
de reclamar para si o que o branco teima em
negar-lhe. Inicia, entao, um movimento do desper-
tar da . A revolta, que nascera
entire os seus componentes-os >-
comega a ampliar-se, encontrando audit6rio sim-


28 -







patizante na grande massa dos mais atrasados.
E o escol negro torna-se numa legiAo de i nArios profissionais>.
Na sua Ansia de subir, esse escol, animado de
uma mistica de reabilitagco e de emancipacgo, v6-se,
todavia, apenas cor muitas promessas e palavras
vazias de significado prAtico, que em nada o podem
beneficiary. Porque ter sede de justiga, porque anseia
que Ihe seja dado o que Ihe vem a ser recusado,
langa um apelo ao home branco. e um apelo
just, cheio de humanidade, mas o home branco
nao quer ou nio sabe escutA-lo.
Fecha-se-lhe o mundo branco, 6 posto A mar-
gem da sociedade que o ilustra. Como consequan-
cia, sente-se deslocado, dominado por complexos de
ressentimento, tanto mais violentos quanto 6 certo
reconhecer, levado pela desilusao, a impossibilidade
de conduzir os seus irmros de cor a redeng~ o da
sua dignidade humana cor a colaboragao do branco:
essa missdo, em seu entender, s6 poderA ser cumprida
regressando ao passado, explorando a forga em si pr6-
prio existente, que o < ou a negritudee>.
Depois de adquirir a cultural europeia, volta-se
para os valores da sua terra: os resultados dessa
introspecgio, praticada cor os meios culturais da
Europa, sio surpreendentes. Na verdade, cor base
nas riquezas da alma negra, toma conscincia da
raga, reconhece o < as qualidades comuns aos seus pensamentos e ao
seu comportamento face A Europa e que, ao mesmo
tempo, o protegem contra os empreendimentos a
ele estranhos.


-29







No seu espirito, agora de posse de mais aper-
feigoado conceito de apreciag~o dos valores, con-
solida-se o desejo de liberdade, transformado em
aspiragao A independencia. Passa, entao, a explo-
rar o descontentamento nascido do desequilibrio da
distribuigao de terras e a desorientagao resultante
da desintegracgo da sociedade negra factos que
anteriormente poucas ou mesmo nenhumas conse-
quencias de natureza political teriam -. E faz deles
uma arma poderosa contra o home branco.
Ora, as reivindicac5es nascidas desses fen6menos
slo articuladas e conscientes apenas na minoria ins-
truida que, por isso, estA apta a precisA-las, expri-
mindo-as racionalmente. Nas massas, ao contrArio,
nao vao alem de um plano afectivo e emotional.
Dai, ser facil a estas, para as exprimirem, langa-
rem-se na viol&ncia cega, dirigidas e impelidas pelo
escol africano.
No seio deste, 'revela-se qualquer coisa de
hibrido na investidura dos lideres: representatives
na media em que se conservam africanos, t&m de
exercer as suas fungSes numa estrutura institucio-
nal nAo-africana. Quer dizer, a necessidade de con-
ciliar uma dupla personalidade torna-se caracteris-
tica da situagdo dos homes politicos africanos da
present gerago.
Assiste-se, como consequ&ncia, ao aparecimento
simultaneo de dois fen6menos contradit6rios : a ten-
,dUncia para governor independents, moldados nos
principios europeus, e a exacerbagao de crengas tra-
dicionais, ritos mAgicos, sociedades secrets, etc. Esta
simultaneidade de attitudes, tao contrarias, mais nao


:30 -






e, final, do que o resultado natural daquela desin-
tegrag~o e da reacago instintiva da sua ancestrali-
dade. Por outras palavras: nela se v6 o reflexo das
duas camadas de populag~o--os poucos europeiza-
dos, educados no Ocidente, e a grande massa tribal,
retr6grada--camadas que, passando por cima das
suas diferengas, se unem contra o home branch.
e a acco aglutinante da negritudee>, insensi-
velmente transfonna em <6dio de raa>>, e que forgas
estranhas a Africa acompanham, amparam, incitam
mesmo, fazendo chegar pela imprensa e pela radio,
senao por agents activists a todas as paragens
da selva, atW as mais remotas, as solenes promessas
.e declarag5es dos Direitos do Homem, mais ou
menos disfargados sob a forma-de nacionalismo negro.

4 E, pouco a pouco, vArios e numerosos
factors se conjugam no sentido de a animosidade
contra o home branco se espalhar, como se fora
rm cancro, por todos os recantos do continent.
Chega o moment em que o corpo da rica e ainda
misteriosa Africa, completamente enlagado pelas
metastases daquele terrivel mal, estremece em pro-
fundas convulses, Avido de liberdade. Obseca-o
o desejo fremente de expulsar do seu seio os que,
nele entrados hA seculos, por ela nada mais tem
feito do que a exploracao, em proveito pr6prio, das
suas incomensuraveis riquezas, cor triste esqueci-
metto-senao desprezo- pelos que a ela per-
tencem.
Entio, o home branco comega a reconhecer
o seu tremendo erro.


- 31






Comega a reconhecer que o preto ter alma
como ele e que essa alma, embora bArbara, e como
a de todos os homes da terra : grande ou acanhada,
cheia de rasgos generosos ou de attitudes egoistas,
de paix6es e desprezos, de ternuras e raivas, de
beleza e fealdade, de heroismos e crimes. Comega
a concluir ter errado em nunca desejar compreender
essa alma, por ter repulsa pelo preto, visto o con-
siderar de raga inferior, esquecendo-se de que nao
hA ragas eleitas nem ragas superiores, mas tao
s6mente homes inferiorizados a quem ainda se nao
deu oportunidade de ascenderem ao pleno dominio
da consciencia; que, como consequencia, embora
ocupe a Africa, esta continue a ser sua desconhe-
cida, e o preto, apesar de viver junto de si, 6 para si
um estranho. Comega a concordar que tal incom-
preensgo avolumara, no seu espirito, insensatos des-
dens por este ente, primitive sem divida mas, como
ele, emotivo e human. Comega a admitir, como
resultado desta incompreensao, a sua falta em pre-
tender < rado ao conceito de que a aus&ncia dos valores da
sua civiliza io caracteriza a animalidade pura.
Tudo isso comega a reconhecer, mas s6 entlo.
P, na verdade, demasiado tarde...
Nas convulsoes dessa Africa ttl generosa, tio
grande e tao forte, comega a encontrar, inexoravel-
mente, o duro e just castigo do seu tremendo erro
de nio ter querido compreender o preto e de o
trazer at6 si.


32 -




















1 Assim procedeu o home branco ao long
dos anos e, ao faz--lo, afastou de si, por muito
tempo, o home preto. Este, cujos antepassados
apenas dispunham para odiar o home branco, de
feiticarias e de langas e flechas, passa a empregar,
pela boca dos seus intelectuais e dos seus chefes,
uma fraseologia especial para propagar as suas ver-
soes das doutrinas de liberdade e promocgo humana,
em conjugacgo, onde e sempre que necessArio, corn
armas automiticas e bombas.
O home branco trilhou, dolorosamente e tris-
temente e dramhticamente, caminho errado no seu
comportamento para cor o home de cor.
E esse home branco somos n6s, ocidentais e
europeus.
Cumpria-nos -e cumpre-nos, como imperative
categ6rico--actuar sobre a sufa alma, resgatando-a
da menoridade em que se encontra e trazendo-a
para a luz, e prosseguir, acelerando-a, na promoglo
da integragao do home de cor na vida do pais


- 33







ou da regiao que habitat, de modo a constituir, como
todo o cidadao valido e qualificado, um element
active da sua administrao.
Deve ser esta a base orientadora da accao de
valorizagao do home preto, por forma a adaptA-lo,
dentro. da idea ocidental, A vida modern, quer
procurando criar 'nele a nog~o de interesses que
excedem a tribo ou a aldeia, quer criando-lhe neces-
sidades pela atribuigdo de direitos e obrigavges mais
precisas, mais ricas, mais complexes do que as que
ele tem pelos costumes, quer ainda desenvolvendo
nele o concerto de uma responsabilidade individual
independentemente da raga, do cl., da regido;
segundo a expressio do poeta, fazer-lhe <(compreender
cor estremecimento o esplendor de ser.um homem.
Langar-nos-emos entao na tarefa de plasmar
o homem novo> corn a argila bruta existente, ilu-
minando-a corn o nosso espirito, por forma a tornar
o preto um Homem A nossa semelhanga, que cami-
nharA a nosso lado cada vez menos vacilante, ate
se parecer perfeitamente connosco. Entao, deixarA de
ser um ente inferiorizado e terA ascendido do seu
meio primitive para a consciencia de um mundo
diferente, mais vAlido por mais evoluido. SurgirA
outro, menos parecido corn o que e e mais seme-
lhante cor o que n6s somos.
E uma cruzada de o trazer atW n6s, levantando-o
do chao em que rasteja, mas uma cruzada progres-
siva, realizada atrav6s de uma actividade lenta e
equilibrada.
A n6s que junto dele havemos de exercer
a acgo de promogo cumpre facultar-lhe os recur-


34-






sos que adquirimos em mil6nios de persistent acgco
e estudo, a experiencia de muita dor e trabalho
perseverante, os resultados da luta travada cor a
natureza imensa e avara, libertando-o, assim, da
necessidade mediata ou imediata de realizar, para
veneer, grandes e dolorosos sacrificios infiteis. Como
tal, 6 de aceitar que nao venha a precisar de tantos
s6culos, como o branco, para percorrer o caminho
do seu aperfeigoamento e para avangar no sentido
da sua realizagio como Homem. Nem por isso,
contudo, 6 de aceitar o pensamento dos que
entendem dever o preto colocar-se, de um salto,
a par do branco, em desenvolvimento material
e spiritual. Se o nao faz dizem 6 por inca-
pacidade, de onde ter-se firmado o conceito de
inferioridade do preto, olhado apenas como escravo:
esp6cie de animal, cujas faculdades nunca poderAo
atingir o desenvolvimento alca'nado pelo branch,
ao qual deverA ficar, por conseguinte, subordinado
para sempre.
Conceito erradissimo este, porquanto, em geral,
esquecem-se de que um avango demasiado rApido
no campo spiritual serA instAvel, por ficarem espa-
gos vazios, que mais tarde se revelam como uma
forga que sobreleva em muito o progress realizado,
final ilus6rio.
E assim 6. porque a hist6ria dos povos e das
civiliza9ges ensina que a sua ascensgo, no campo
da valorizacgo, sempre se fez lentamente, A custa
de ingentes sacrificios: todos os degraus foram subi-
dos um a um, sem qualquer deles ter ficado por
pisar, todo o long caminho foi percorrido palmo


- 35







a palmo, sem restar um s6 que deixasse de ser tri-
lhado. A caminhada imensa fez-se sem saltos brus-
cos e regada corn .
Tambr m o home preto tern de percorrer, a
pass, today a long e at6 penosa subida, muito
embora, por estar amparado e possuir JA padres
a que se arrimar, possa estugar esse pass. E talvez
por isso mesmo os seus sacrificios tenham de ser
mais duros ainda...
A iluminagao da sua inteligencia e a reform
dos seus usos e costumes, na media em. que se
reconhega absolutamente indispensAvel A sua valo-
rizagdo como ser human, ter~o de ser consegui-
das vagarosamente e sem lacunas. Se, por mudanga
repentina, passar do estado rudimentar em que se
encontra ainda para o do civilizado branco; se, de
um instant para o outro, trocar a tanga pela casaca;
se da escuriddo em que vive transitar, de repente,
para os luminosos conhecimentos cientificos de
que disfrutamos; nunca poderA ser um verdadeiro
cidadio, porquanto, em vez de evoluir, transfor-
ma-se e, nessa transformaggo, ficarao vazios, pon-
tos fracos da sua formagao, onde a todo o instant
tropegarA.
A accao civilizadora tern que seguir um ritmo
certo, de modo a conduzi-lo no caminho fire, vaga-
roso e eficaz, em perfeito equilibrio dos elements que
nela intervem: nem predominio do materialismo
nem desprezo do spiritual.
HI que instruir, educar, civilizar enfim, essas
gentes, sem, no entanto, descurar nem a progres-
sividade nem o equilibrio. De facto, a sua nio con-


38 -






sideragdo podera levar directamente, para alem de
um desperdicio de energies e de vidas, ao compro-
metimento da fraternidade entire o home branco
e o home de cor.
e imperative proceder cor a mAxima mode-
ragio e toda a prudencia.

2--Nao bastard, por6m, civilizar o home de
cor, arrancando-o para-a consciencia dos verdadeiros
valores humans, elevando-o das trevas para a luz.
HA, ao mesmo tempo, que o compreender e aceitar,
vendo nele uma alma que sofre, capaz de todas as
virtudes inerentes A pessoa humana, e um cerebro
que pensa, capaz de apreender os factos, de os jul-
gar e deles deduzir a verdade.
Conseguir-se-A tal objective se a acgio educa-
tiva, a levar a efeito, for dirigida tambem ao home
branco, dando-lhe aquilo que Ihe tern faltado at&
hoje: uma consciencia que o leve a sentir e a viver
a Africa, uma consci&ncia que faga dele, em vez de
um corruptor, sempre pronto a castigar desapieda-
damente, um educador, sempre disposto a corrigir
e a econselhar.
A funggo do home braico, em Africa, tern
de ser a de agent civilizador. Nao diremos ocupa-
.dor, para nao confundir corn explorador. Ora, s6
6 possivel ser-se agent civilizador quando alguma
coisa fire alimenta o nobre ideal de transformar
o individuo selvagem em home civilizado. Nao
bastam as virtudes que trazemos na alma, a chama
que arde no nosso corag~o. Essas virtudes desapa-
recem e extingue-se essa chama quando o agent


- 37






civilizador *nao tem a indispensAvel formagdo ou,
tendo-a, cai em crise moral.
Para que tal nao suceda, importa educarmo-nos,
dando-nos, a n6s mesmos, uma consciencia que nao
coloque o home branco contra o home preto
nem atire o home preto contra o home branco,
Cumpre-nos educarmo-nos convenientemente porque
a just educaggo 6 a mais eficiente preparagao para
a batalha a travar.
Esta preparagao tem de ser moral e intellectual.
A primeira 6, sobretudo, a preparagao da von-
tade e o aperfeigoamento do coracgo para que os
homes saibam querer e amar. O -corag~o 6 o
simbolo do amor e, portanto, a sintese do Homem,
como o amor 6 a sintese do seu viver. Preparar o
ideal nobre, puro, elevado, que seja o termo desse
coragdo 6 former moralmente o Homem, aperfeigoar
o amor 6 elevar a vida humana. Mas nao basta
viver nem basta amar. E necessario viver e amar
bem e, para isso, torna-se indispensavel ter um
viver e o sonho desse amor.
Os valores morals sao necessArios ao home
para disciplinary os apetites, veneer os desregramen-
tos, criar uma nova conduta exterior, ordenar inte-
riormente a vida para um fir superior e gerar a
convigco de que o bem comum hA-de prevalecer ao
bem particular.
Esta preparagAo moral terA de ser feita desde
a adolescencia, antes que, cor os anos vividos ao
sabor da natureza e & margem de toda a moral,
se vinquem maus habitos, se contraiam vicios, se
gerem preconceitos e o coragEo comece a corrom-


38 -







per-se. Mas tambem devera ele visar os que jA de
hA muito deixaram a adolescencia, tarefa ber mais
dificil, pois cumpre-Ihe entdo corrigir defeitos, curar
paix6es, desfazer dfividas, sarar feridas e, s6 depois
disto, langar, firmes e s6lidas, as linhas de nova
construg&o moral.
Porque o Homem nao 6 s6 coragdo nem s6
vontade mas tambem inteligencia, nao s6 amor
mas tambem verdade, carece, alem da formaggo
moral, de uma preparagao intellectual. E como a
vontade corre atras do que a inteligencia Ihe mos-
tra, como o coragao ama simplesmente o que antes
foi conhecido, nunca a formag~o moral pode ser
muito s6lida sem a correlativa formag5o intellectual.
HA um grau de aptidao minimo a que cada
home ter direito para desempenhar o minus de
cidadAo cor as suas regalias e deveres. Essa base,
que varia de home para home, segundo a capa-
cidade de cada um, e estA em conformidade cor
a missio a cumprir e em harmonia cor a posigao
a ocupar, fundamenta-se numa certa preparagao
intellectual, que e necessArio garantir-se a todos.
Esta educaao 6 fundamental porque s6-pode-
mos educar o home preto, educando-nos.

3 -E corn esta vastissima obra, que a todos
envolva, independentemente de cor e de credo, cria-
remos uma consci8ncia colectiva que levarA os
homes a reconhecerem que, na verdade, sgo irm5os :
o home de cor encontrara no home branco, nao
o opressor, nio o espoliador, mas sim o irmao que
Ihe estende as mios para o erguer ao nivel que


- 39








ele deseja atingir e 6 human que atinja e o
home branco, ao olhar o home de cor, vera nele,
nao o escravo, nao o ser inferior incapaz de ascender
para a luz do entendimento, mas sim um irmdo
tambem, um element da mesma comunidade, que,
por merc6 de circunstAncias vArias--todas a ele
estranhas ainda nio conseguiu erguer-se da situa-
go de taio desenvolvimento em que se encontra.
Entao cada home sentir-se-A realmente
HOMEM, tendo, a orientA-lo na vida, um ideal
generoso, feito de nobreza e lealdade, de beleza
e bondade.
Sera isso possivel se o home branch estiver
disposto a ter a coragem de ser diferente daquilo
que ter sido atW agora, em tudo quanto de diferente
tenha de ser exigido, muito particularmente em ver
no preto um home cor uma alma, uma inteli-
gencia e uma vontade: alma a resgatar da escuri-
dao para a luz, intelig&ncia a abrir da ignorancia
para o conhecimento, vontade a despertar do aban-
dono para a accao.


40 -



















E o home branco somos tambem n6s, os por-
tugueses.
Populag~es em estAdios de cultural diferentes
e com maneiras de sentir, de pensar e de reagir
diversas nio podem ser avaliadas entire si, umas
As outras, pelos mesmos padres. Mais do que
inexactos, seriam dramAticos os resultados obtidos.
Porque a verdadeira media de um home e
a posse e o dominion de si pr6prio, o imperio que
pela intelig6ncia e pela vontade exerce sobre as
impresses, os instintos e todas as fdrgas naturais
que nele trabalham; porque a aut6ntica media
de um home 6 a dignidade de vida, a nobreza e
elevagAo de sentiments, a firmeza de convicgoes
e a conformidade do procedimento corn os princi-
pios; porque a exacta media de um home 6,
finalmente, a soma de esforgo moral de que se senate
capaz para veneer as dificuldades, dominar os aci-
dentes da vida, olhar de frente o infortilnio, mos-
trar-se maior do que ele e, apesar de tudo, perma-







necer sempre no seu dever, mantendo a fM e a
esperanga; por tudo isto, apenas um factor pode
ser comum naquela apreciacgo: O ESPIRITO DE
CRISTANDADE, DE HUMANIDADE.
Inspirados nele, temos procurado fazer dos doze
milhoes de homes de cor da nossa Africa, nao
uma massa de individuos violentados e ofendidos
na sua mais intima humanidade, mas outros tantos
milhbes de portugueses integrados nos dez milhoes
de portugueses brancos. E, se o conseguirmos,
haverA entdo, de facto, um MUNDO PORTU-
GUMS, habitado por Homens, portugueses apenas,
que marchardo na vida de maos dadas e de cora-
9Ses a baterem em unissono. Uni-los-do, cor fir-
meza, lagos de solidariedade assentes na amizade
e na estima reciprocas, lagos que os levardo a entre-
ajudarem-se para resolverem os miltiplos proble-
mas da existencia.
E o MUNDO PORTUGUPS serA uma reali-
dade indestrutivel.
Para tanto, havemos de sacudir a poeira dos
velhos conceitos e de nos bater a golpes de refor-
mas de toda a natureza. Significa isto fazer uma
Revolugo: Revolugio de espirito ao serviqo de
uma causa humana; que surge como imperative
categ6rico e inadiAvel, porquanto, se a nao fizer-
mos, outros a fardo. Temos de nos langar delibe-
radamente no caminho das grandes transformagoes,
de contrArio, cedo on tarde-e por certo mais cedo
do que tarde--eles o farao, sem n6s e contra n6s.
SerA a nossa Revoluaio, na qual havemos de
construir o nosso future, que desejamos melhor do


42 -







que o present, um future que assente na verda-
deira paz, nio nascida das armas, da destruigo
e da violencia, da morte e da dor, antes a paz que
procede do Amor e da TolerAncia, da Bondade e
da Compreensgo, da Justiga e da Verdade; numa
palavra: a paz que emana e se alimenta da Fra-
ternidade entire os homes.









NOTA -A mais cuidada revisio escapam, nio raro,
as famigeradas gralhas. Confiamos, por6m,
em que a intelig~ncia e a benevolente com-
preensio do leitor saberA detecti-las, neu-
tralizA-las e desculpA-las.


- 43











Em todas as liorarias se vendem as
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