• TABLE OF CONTENTS
HIDE
 Title Page
 Main






Group Title: Pasquins do litoral norte de Sao Paulo e suas peculiaridades na Ilha de Sao Sebastiao
Title: Os "pasquins" do litoral norte de São Paulo e suas peculiaridades na Ilha de São Sebastião
CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/UF00023425/00001
 Material Information
Title: Os "pasquins" do litoral norte de São Paulo e suas peculiaridades na Ilha de São Sebastião
Uniform Title: Revista do Arquivo Municipal
Physical Description: 68 p. : ; 24 cm.
Language: Portuguese
Creator: Mussolini, Gioconda
Publisher: Departamento de Cultura
Place of Publication: São Paulo
Publication Date: 1950
 Subjects
Subject: Folk songs, Portuguese -- History and criticism -- Brazil -- São Paulo (State)   ( lcsh )
Pasquinades   ( lcsh )
Genre: government publication (state, provincial, terriorial, dependent)   ( marcgt )
bibliography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Bibliography: Includes bibliographical references (p. 68).
Statement of Responsibility: Gioconda Mussolini.
General Note: "Separata da Revista do Arquivo, CXXXIV"
 Record Information
Bibliographic ID: UF00023425
Volume ID: VID00001
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: aleph - 001608326
oclc - 37764596
notis - AHN2650

Table of Contents
    Title Page
        Page 1
        Page 2
        Page 3
        Page 4
    Main
        Page 5
        Page 6
        Page 7
        Page 8
        Page 9
        Page 10
        Page 11
        Page 12
        Page 13
        Page 14
        Page 15
        Page 16
        Page 17
        Page 18
        Page 19
        Page 20
        Page 21
        Page 22
        Page 23
        Page 24
        Page 25
        Page 26
        Page 27
        Page 28
        Page 29
        Page 30
        Page 31
        Page 32
        Page 33
        Page 34
        Page 35
        Page 36
        Page 37
        Page 38
        Page 39
        Page 40
        Page 41
        Page 42
        Page 43
        Page 44
        Page 45
        Page 46
        Page 47
        Page 48
        Page 49
        Page 50
        Page 51
        Page 52
        Page 53
        Page 54
        Page 55
        Page 56
        Page 57
        Page 58
        Page 59
        Page 60
        Page 61
        Page 62
        Page 63
        Page 64
        Page 65
        Page 66
        Page 67
        Page 68
        Page 69
        Page 70
Full Text





GIOCONDA MUSSOLINI


OS "iPASiOINS" O LITORiL HIRTE E Si PAHLO E

S01 PECULIARIDADES 11 IllA DE SIO SEAISTIAO







Separate da
IIEVISTA DO ARQUIVO
CXXXIV









DEPARTAMENTO DE CULTURAL
SAO PAULO 1950


Wl!l'WT.TY OF FLORIDA UBRARIE


















7-> C)
K"1 CD









/a,



























TRABALIO PREMIAN 0 NO 39 CONCURS DE
MONOGRAFIAS SOBRE O FOLCLORE NATIONALL
INSTITUiDO EM 1948 PELA
DISCOTECA PtrBLICA MUNICIPAL


Ao 39 Concurso de Monografias s6bre o Folclore Nacional, ins-
tituido em 1948 pela Discoteca Ptiblica Municipal, apresentou-se como
inica concorrente. a sra. Gioconda Mussolini, corn uma monografia
sbbre "Os "Pasquins" do Litoral Norte de Sdo Paulo e suas Peculia-
ridadesi.na Ilha de Sdo S,h astieoh". A Comissao Julgadora, com-
posta dos srs. prof. Herbert Baldus, prof. AntSnio Candido de Melo
e Souza e sr. Luis.Saia, resolve conferir a sra. Gioconda Mussolini
o 19 premio (Cr$ 10.000,00) e determinar a publicagdo da Ata dos
seus trabalhos de julgamento, que e do te6r seguinte:

"No dia 28 de dezembro de 1948, is 16 horas e media, reuniu-se
a Comissdo Julgadora do 30 Concurso de Monografias Folcloricas do
Departamento de Cultura, composta dos srs. Professores Dr. Herbert
Baldus, Ant6nio Cdndido de Melo e Souza e sr. Luis Saia, sendo
eleito Presidente da mesma o Prof. Herbert Baldus e relator o sr.
Luis Saia. Em discussio a mat&ria, concordaram todos que a mo-
nografia "Os "Pasquins" do Litoral Norte de Sdo Paulo e suas Pe-
culiaridades na Ilha de Sao Sebastido", de autoria da sra. Gioconda
Mussolini, inico trabalho apresentado, era digno de receber o pri-
meiro premio, pelas qualidades seguintes:

19 Originalidade do material, colhido pela autora;

29 Honestidade cientifica;


30 Capacidade de pesquisa e generalizadio te6rica,











Concordaram tambem que a monografia padece, nio obstante,
de alguns senses metodol6gicos, que vio indicados:

10 Certa desproporado entire a parte tedrica e a apresentagio
do material;

29 A parte teorica aparece como que justaposta ao trabalho,
constando como consta de um histdrico do problema do pasquim,
quando seria preferivel have-la extraido do prdprio material;

3" E, finalmente, que assim agindo a autora perdeu de algum
modo o sentido funcionalista da pesquisa, deixando de integrd-la de-
vidamente no context cultural em que ocorrem os fatos estudados.

Resolve a Comissdo .assinalar Ostes pontos como contribuicao ,
autora, entendendo que o seu trabalho itein riu,-,'ra nossa lite-
ratura especializada, gracas. as qualidades inicialmente mencionadas.

Esta ata foi Idvrada por mim, relator, e vai por todos assinada.


Sao Paulo, 28 de dezembro de 1948.


Herbert Baldus

Ant6nio: Candido de Melo e Souza

Luis Saia"

























OS "PASQUINS" DO LITORAL NORTE DE SAO
PAULO E SUAS PECULIARIDADES NA ILHA
DE SAO SEBASTIAO

GIOCONDA MUSSOLINI


"Ao lado dessa corrente secular (da
poesia do povo) temos a corrente nova,
native, criadora, sustentada pela rdstica
fantasia dos poetas do sertdo.
... Sendo mais espontanea, essa cor-
rente renovadora vai porisso mesmo
insensivelmente marcando corn outro vi-
gor e outra significagio as diferengas re-
gionais ..."
Amadeu Amaral, Tradig5es Populares,
pigina 102.















































































Lugares onde foram obtidos os pasquins.
o Lugares aos quais hM referencias nos pasquins.


1 Bonete
2 Borrifos
3- Cambaquara (S. Pedro)
4 Castelhanos
5 Curral
6 Frades


RELACAO GERAL
7 Ilhote
8 Indaiafiba
9 Jabaquara
10 PerequS
11 Praia Grande
12 Rodamonte


13 Sepituba
14 Serraria
15 Sinmio
16 Sombrio
17 Tatambora
18 Taubat4



























INTRODUQAO


"0 mundo das classes cultas, o inico
que e articulado e o inico que se comu-
nica livremente conosco, 6 um mnundo
aparte do mundo do folk. Para apren-
der e registrar os modos do folk e neces-
sdrio encontrd-los direta e intimamente:
nio hd outra forma para descobri-los".
Robert Redfield, TepoztlAn, p6g. 1.


"Tirar pasquim" 6 pratica generalizada em todo o litoral norte
do Estado de Sio Paulo. Difere, por6m, para os "centros" e para
as "margens", a par dos fins visados e das possibilidades de expres-
sao, aquilo que se poderia chamar de "situaqdo estimuladora" para
p6r em uso esta pratica. E porisso mesmo, diferem tamb6m os pro-
dutos literirios resultantes.
Por ter faltado aos "centros", durante muito tempo, a.neces-
sAria "motivaqdo", fato acarretado principalmente por ausEncia
de incentive politico para debates e dissenq6es, e ademais, por uma
serie de circunstancias que analisaremos depois e que nem sempre
facilitam que se tome conhecimento deste setor da cultural local,
explica-se porque, embora ja familiarizada com a Area, nunca all
tivesse ouvido falar em pasquim ao iniciar o present trabalho num
bairro distant da ilha de Sao Sebastido..
Numa viagem ao Bonete um dos pontos mais segregados e
de dificil acesso da ilha, situado "l f6ra" como se diz para desig-
nar a costa voltada para o "mar aberto" em oposiqio a do canal -










REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


ouvi o pasquim pela primeira vez: foi o nome que deram aos versos
que cantavam e que se referiam a acontecimentos locals, de interisse
comunitario. Paxim, na corruptela de alguns.
Estava em grande voga um que se referia ao limo algaa mari-
nha), cuja coleta se alastrava por aquela parte da Ilha e muitas
vizes assist a cantoria na qual, quando a pedido meu, muitos cola-
boraram, lembrando trechos. Sem ser um pasquim pr6priamente
novo (ja tinha mais de dois anos), era bastante atual: a comunidade
estava vivendo a "experiencia do limo", corn um interisse e num afi
dignos de nota.
Nio me foi dificil o registro do que era cantado ou dito, mes-
mo porque tinham grande prazer em repetir-me as passagens joco-
sas, divertindo-se cor certos pormenores que ressaltavam como
caracteristicos, para os quais me chamavam particularmente a
atenqao.
Mais tarde, em contact direto com pasquineiros, pude contra-
p6r a sua attitude de certa resistincia para me fornecerem as suas
composicqes aquela espontaneidade do Bonete, onde o pasquim nao
implicava em "responsabilidade" de ninguem.
Aquele pasquim, "o do limo", era novo. Mas "o pasquim" era
velhissimo. E um informant, na maneira muito caracteristica de ao
colocar os fatos numa perspective hist6rica referi-los sempre a pes-
s6as, responded a minha pergunta: "0 pasquim sempre existiu.
Minha av6 jf alcanqou. A s6 aparecer a ocasito e pronto: jf se
langa pasquim" (1).
Ali no Bonete nfo havia quem tirasse. No geral eles vinham
"li da ponta do sul" (2) onde se encontrava o "foco".
Nao me puderam informar quem langara o do limo, mas admi-
tiam que o tirador era um "danadc" (espirituoso, hibil, observador)
porque aquile pasquim correspondia berm realidade. E a realidade
era os que miles sintetizavam na expresso: "os acontecidos" (3).
A respeito de pasquins escritos, informaram-me que "em
outros lugares" se costumava "lanqar em papel" e que aquiles que
sabiam ler e escrever copiavam. Entao eu poderia conseguir os
"assentos". No Bonete n5o: "Pois nao ve que daqui apenas tris
homes andaram nas eleiq6es?" foi a resposta convincente.
Tamb6m naquela zona nfo era costume escrever o pasquim,
uma vez que ate o pr6prio pasquineiro era, no geral, analfabeto. ile

(1) Sao sin6nimos: tirar, pOr, deitar, langar pasquim.
(2) Designa-se assim a parte sul da Ilha de Sao SebastiAo, no extre-
mo sul, nas proximidades da Ponta da Sela, t6rmino do canal
naquela direcgo. (Denominasao regional). Inclui Cambaquara,
que aparece muito neste trabalho.
(3) Em Cambaquara, urn dos bairros da parte sul da Ilha, ouvi
a curiosa expressio: "Mas isto ja seria um muito acontecido!"
referindo-se um home a algo que dificilmente ocorreria.











OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 11


cantava nas "cirandas" (4) quando tinha um novo pasquim
pronto. Cantava "de cabega" e o pessoal tamb6m guardava "de
cabeca". Isso nao impedia'que quando houvesse quem pudesse es-
crever e estivesse interessado, "pusesse em papel" o que o tirador
cantava e depois passasse adiante.
Estive no Bonete em janeiro de 1947. Data dai o inicio do
present estudo. Um simples acaso foi a f6rca propulsora que me
impeliu As andlises aqui apresentadas: as informaq6es ali colhidas
podiam representar um comieo promissor, mas nada me motivou
tanto quanto o simples enunciado da palavra "pasquim". Ela nao
me teria ocorrido, para designer os produtos literirios ali encon-
trados.
Na sua forma atual, personalissima, parte integrante do reper-
t6rio das cantorias de ciranda, o pasquim representava uma peculia-
ridade local que nao poderia, porisso mesmo, coincidir cor as mi-
nhas informac6es s6bre a epoca de sua exist&ncia que eu colocava
no passado e corn a representaqdo de sua forma e contefido que
eu sintetizava em papelucho an6nimo, porta voz da critical ou da
difamaqdo.
Resistindo atrav6s do tempo, de forma viva, preso a u'a maneira
tipica do folk de expressar os "acontecimentos" ou sejam, as pr6-
prias experiencias do grupo, cuja importaricia era o consenso local
que definia (e isso era facil constatar pela attitude da comunidade)
e nao a seleg5o do historiador, o pasquim representava, dentro daquela
cultural, algo tio peculiar e digno de estudos, quanto a forma especial
por que aii se constr6i uma casa, fabric uma can6a, benze de
"olhado" ou cura de "esipra" (erisipela).
.J havia iniciado a coleta de dados, conseguido o registro de
varios pasquins e travado conhecimento corn um pasquineiro, quan-
do uma verdadeira chusma de "papeluchos" se espalhou em Sao
Sebastiio (no continent fronteiro, cabeqa de comarca) por volta
das eleiq5es de novembro de 1947. Dava-se agora, para empregar
as palavras do informant do Bonete, "o aparecimento da ocasiao"
que nao se definia da mesma forma para esta cidadezinha e para os
bairros da ilha.
Os pasquins de Sao Sebastiao, an6nimos, circulando sorratei-
ramente por baixo das portas, visando influenciar a opinido piblica,
acerbos na critical As pessoas de relevo na political local, cheios de
desabafos e rancores pessoais, condiziam perfeitamente com a
id6a que o tirmo denota. (5)
(4) Ciranda 6 sin6nimo de baile em t6da a Ilha. A expressed 6 co-
nhecida em Ilhabela, se bem que nao se empregue para os bailes
do centroo".
(5) A titulo de exemplo, damos, no final, um pasquim de S. Se-
bastiao copiado do caderno de.um morador que possuia varias
produg6es.











12 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

Rste fato foi oportuno mais por fornecer material de confront
com o da Ilha, de que por enriqueci-lo cor elements folcl6ricos.
Porisso deixamos de incluir 6ste material no present trabalho.
Ndo consegui pasquins do passado e para registro e analise
dos de outros pontos da area, teria sido necessArio maior per-
manincia e uma oportunidade de convivio mais duradouro, que ndo
tive. Contudo, as informaq6es que pude obter desde Sio Sebastiio
ate Ubatuba, permitem afirmar que o emprego do pasquim 6 gene-
ralizado e que hi muitos aspects em comum na sua confecgo
que oportunamente apontaremos.
Dentro de um limited geogrifico mais restrito a Ilha e da
mera atualidade, porem, e possivel focalizar duas quest6es essenciais
neste trabalho: de um lado, o process de transformaqdo por que
passou o pasquim, analisando-se a "conservaqio" e a "redefiniqao"
de sua primitive forma tal cor a hist6ria n6-la fornece; em se-
gundo lugar, a anilise do pr6prio produto redefinido o pasquim
da Ilha como expressfo folcl6rica.




























I CENTRO DE ORIGEM E DIFUSAO DOS PASQUINS

"Se folclore d vinho velho em garrafas
novas, e tambem vinho novo em garrafas
velhas".
B.A. Botkin, A Treasury of American
Folklore, pdg. XXI.


Nem sempre 6 fAcil, ou sequer possivel, identificar a origem
remota de uma pratica perpetuada pela tradiqio. No present caso
pode-se nao s6mente tracar a sua procedancia de uma 6poca em
que teve grande amplitude de emprigo no Brasil, como ainda,
sem recorrer ao que Radcliffe-Brown denominou de "conjectural
history", remontar-se ao pr6prio centro de origem do pasquim e
apreend&-lo em sua primitive forma e fungao.
Na ItAlia, onde surgiu, o costume de se afixarem versos pelas
estituas, muros e colunas, para que um piiblico frequent pudesse
lI-los e aprecia-los, representava uma heranha que da Antigui-
dade ClAssica recebera a Renascenqa. Inicialmente os versos expos-
'tos na estitua mutilada de Pasquino, em Roma, nada tinham do
aspects de portavozes da critical an6nima por que mais tarde
se caracterizariam os produtos literArios ali exibidos: a poesia .
que aparece em Pasquino "comeqa douta, escolAstica, curial" (1).
Da fusao desta pratica cor outra, comum a t6das as cidades
italianas pelo menos ate fins da primeira metide do s6culo XV -
a da sAtira political an6nima nasce o pasquino. Entio, se no
dia da festa official aparece no torso informed uma profusio de ver-
(1) Veja-se a Enciclopidia Italiana, Vol. XXVI: "Pasquino-Pas-
quinate".












14 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


sos eruditos e pedantescos, em latim, nos demais dias do ano, foca-
lizando os assuntos do moment, aqueles mesmos motes espirituo-
sos, epigramas e outras formas literarias de critical, que antes cor-
riam de bca, em b6ca ou eram pregados nos muros, comeqam a
surgir em Pasquino. Tinham os papas, principles e outras persona-
gens de relevo por alvo (2). E uma vez que se desejava a propala-
cao imediata, nao poderia haver melhor lugar: a estatua se en-
contrava em Parione, um dos pontos mais populosos de Roma.
Mais que em qualquer outra cidade italiana, nesta iltima leva-
ria tempo para realizar-se a transiqdo da forma erudita, primitive,
para a complete popularizacao do pasquim. Contudo, no s6culo
XVI, quando ele realmente se identifica cor a critical an6nima, jA
aparece em lingua vulgar e nio apenas em sonitos, epigramas,
disticos e quadrinhas, como tamb6m em prosa.
Seria sob esta feicao que se irradiaria para fora das frontei-
ras italianas, sin6nimo da critical an6nima, afixada em lugar p6-
blico, uma vez que "Pasquino... acabou por personificar a satira
an6nima romana, douta ou popular, porque em seu nome foram
cotipostos libelos (as pasquinadas), em latim e em lingua vulgar,
em verso e em prosa, contra os papas e seus governor, contra os
cardeais e a c6ria, contra pess6as e costumes julgados, a torto e
a direito, dignos de condenaaio e os papeluchos nos quais vinham
escritos eram afixados no torso, no pedestal e nos muros cir-
cundantes" (3).
Adotado em Portugal, onde se denomina "satira", nos tem-
pos de Felipe, o segundo, (4) muito cido se irradia ao Brasil:
a hist6ria registra a sua presenqa entire n6s desde o siculo XVI. (5)
Contudo, o documentArio a respeito e precArio, o que se ex-
plica por tratar-se de "formas ilegais de divulga~io, sorrateiras e
perigosas, destinadas a desnaturar-se e esmaecer nos cochichos,
nos muros e no manuseio" (6).

(2) A pr&tica do pasquim parece datar do s6culo XIV. Frequente-
mente uma outra estAtua chamada Marf6rio que emparelhava
cor a de Pasquino, dava-lhe a replica. O mais antigo epigra-
ma que. se dS. como tendo sido afixado no pedestal refere-se
ao Papa Urbano IV Barberini, que tinha mandado fundir bron-
zes antigos para fazer canhSes: "0 que os bi;baros nSZo fize-
ram, f6-lo Barberini". Jfilio II, Leo X CInminte VII, Paulo
II e Sixto V foram os papas que Pasquino atacou corn mais
graca. Veja-se: Encyclop6dia e Diccionario Internacional, W.
M. Jackson. Vol. XVI. "Pasquim" e "Pasquino".
(3) Enclclop6dia Italiana. Loc. cit.
(4) Afonso de E. Taunay, Hist6ria Seiscentista da Vila de S. Paulo,
Tomo II (1653-1660). pg. 225.
(5) Carlos Rizzini. O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil (1500-
1822), p. 241, registra o aparecimento do primeiro pasquim em
Ilheus, na Bahia, em 1587, no qual se ataca a Companhia de
Jesus.
(6) -- Carlos Rizzini, Op. Cit., p. 241.











OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE. SAO PAULO 15


Excegao feita a uns poucos casos (se incluirmos as produg6es
satiricas de um Greg6rio de Matos, o panfleto vivo d'a Bahia seis-
centista) o pasquim nao assumiu entire n6s feigco erudita: moldou-
se a uma forma de expresso crua e rude, desprovida de qualquer
estilo, a que Taunay se refere como "falar a portuguesa".
A hist6ria os conserve principalmente pela qualidad'e de sAtira
political ou de 6rgdos agitadores da opiniao pfiblica que assu-
miram, ao se proporem o "julgamento" de problems e pess6as
de importincia na vida national. Porisso mesmo, aparecem espora-
dicamente apontados na Denunciacges da Bahia ou nos Documentos
Interessantes como resultadbs de devassas.
Seria oportuno indagar, porem, se 6ste carAter do pasquim
entire n6s se deve a uma selecao hist6rica ou se corresponde A ge-
neralidade das produces da 6poca. A pergunta foi formulada
por Sumner, em Folkways: " uma questao de primordial im-
portancia para o historiador se os mores da classes hist6ricas, de
que ele encontra provas documentArias, penetram as massas ou
nao. As massas... aceitam a influincia e imitam, mas fazem-no
como acham convenient, sendo controladas por suas nog6es e gos-
tos previamente adquiridos... Conseqiientemente, os escritos da
classes letrada nao representam, absolutamente, as crenqas, nog6es,
gostos, padres, etc., das massas" (7).
Analisando o papel que coube no pasquim, salienta Rizzini
o fato de que as nossas duas inconfidencias setecentistas a Mi-
neira, de 1789 e a Bahiana, de 1798 se distinguiram por nao
ter a primeira feito uso d6ste expediente, enquanto que a segunda
abusou do seu emprigo. E conclui que isso se deve a maior "cons-
ciencia political" que caracterizou a Inconfid&ncia Mineira, na qual
"os conspiradores se bastavam", nao Ihes convindo "bater caixa",
(tanto assim que concorreu para a sua condenaqio "as reservess
de segredos que usaram"), como homess de posiqgo, cultural
e cabedais" que eram (8).
A negaqio de tudo isso, por outro lado, teria caracterizado
a Inconfidencia Baiana, que "abusou dos pasquins".

(7) William G. Sumner, Folkways, p. 46. Neste particular, po-
r6m, parece que a maneira de ver do soci61ogo nao coincide
cor a do historiador. Escreve Rizzini; "Desse acervo de
ditos e rimas quase nada rest e, que restasse, nenhum interds-
se ofereceria. A instancia hist6rica julga os acontecimentos
pelas suas consequsncias, s6 por excecgo ouvindo o depoimento
pessoal dos contempor&neos. Os casos popularmente profliga-
dos ou eram de mera particularizag o, ou envolviam um todo
sobranceiro a tio curtas armas. E, vista a continuidade do
regime abso!utista portugues, os casos nao incarnam senio os
erros e abuses dSle reprovados". Carlos Rizzini, op. cit. pg.
242.
(8) Carlos Rizzini, Op. Cit., p. 242.











REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


Contudo, se o pasquim nem sempre foi um expediente das
"classes letradas" (e talvez os inconfidentes mineiros represented
uma das poucas exceq6es), nao o deixou de ser muitas vEzes, con-
forme o provam as apuraq es das devassas (9).
Por outro lado, que o pasquim nao se tenha restringido a ven-
tilacao exclusive de temas de interesse public, visandfo "um
todo sobranceiro a tio curtas armas", como diz Rizzini, a pr6-
pria hist6ria n6-lo aponta. Prestava-se cor facilidade a uma par-
ticularizaqgo do meramente pessoal, intimo, privado, pela sua fei-
gqo de ataque a pess6as, consicferadas responsiveis pelos males
piblicos. E mesmo nas produq6es de um inico autor, como nas
de Greg6rio de Matos, mesclam-se cor facilidade os versos que se
tornariam celebres pelo seu conteudo noticioso 6til, carter geral
dos temas abordados e destreza com que atingem o alvo a cri-
tica political e as questiinculas de natureza privada, o que levou
Ronald de Carvalho a considera-lo "o nosso primeiro journal onde
estao registrados os escandalos miidos e grandes da 6poca, os
crimes, os adulterios, e ate as prociss5es, os aniversArios e os nas-
cimentos" (10).
Pste carter de critical "personificada" o pasquim conservaria
sempre, em qualquer de suas formas e mesmo quando atingiu a im-
prenssa, aspect que, em 1832, Evaristo da Veiga cnmentava salien-
tando: "A maior parte dos jornais que possuimos... mais inventi-
vam que argumentam: os nomes pr6prios e nio as doutrinas enchem
quase t6das as suas pAginas" (11).
Nas Atas Municipais da So Paulo seiscentista, analisadas por
Taunay, aparece a pitoresca express5o Omens de rolm boqua
- para designer pasquineiros que, apropriando-se da arma da epo-
ca "segundo seus gostos, padres e aptid6es", usam-na nao
para tratar de assuntos de interesse do piblico, mas simplesmente
para molesti-lo. O mais conhecido distes foi Belchior de Ordonhes,
que viera da Bahia para Sao Paulo, e do. qual uma das aludidas
Atas diz que "por respeito de sua boqua nao ha nesta villa omen

(9) Para citar apenas um exemplo: na carta de 3-7-1767 dirigida
a Pombal pelo Morgado de Mateus, capitto-general da Capi-
tania de S. Paulo, a respeito de um pasquim que, contra a sua
administragav aparecera no adro da Igreja de Santa Tereza
e que tivera por motivo a, criagAo das Tropas Auxiliares, aponta
Ale como possiveis autores da sdtira "jesuitas ocultos" e depois
se descobre, em devassa, que o autor fora o .Pe. Francisco Xa-
vier Gama. Ver: Documentos Interessantees para a IIstoria e
Costumes de S.Paulo, Vol. XXIII (1766-1768), p. 182 e ss.
(10) Ronald de Carvalho, Pequena IHist6ria da Literatura Brasileira,
p. 101.
(11) "Motim Politico de 17 de Abril de 1832", Apud H-lio Vianna,
Contribuigco A Hist6ria da Imprensa Brasileira (1812-1869),
p. 149.










CS "PASQCUrTI" NO ITTORAL NORTE DE SAO PAULO 17


onrado nem mother onrad'a por ser de roim boqua" e que f6ra
escorragado da Bahia por "porsedimento de sua boqua e vida" (12).
Relembre-se, aliAs, de passage, que na pr6pria ItAlia o pas-
quim nao cedeu h tentacao de entregar-se ao julgamento de
pess6as e costumes considerados, a torto e a direito, dignos de con-
denacgo, afastando-se, nio raro, do primitive carAter de satira
political.
O que 6 important salientar, por6m, e que tal como no pais
de origem, entire n6s o,pasquim se nio se limitou a, destinou-se
sobretudo ao papel de instrument supletivo de 6rgaos mais ade-
quados de protest e de informaqio, e ainda, que pelas circuns-
tancias especiais do meio social em que se entrosou, exerceu funqao
tipicamente agitadora. Seu cunho pessoal nao significa, necessaria-
mente, privado. Assim e que na carta de sete de junho de 1767
enviada a Pombal pelo Morgado de Mateus, o capitAo-general da
capitania de Sdo Paulo, na qual se refere a um pasquim que
'contra ele f6ra dirigido, e que teve por motivo a criaiao das Tro-
pas Auxiliares, destacamos um trecho bem caracteristico: "...
forio pregar na porta (da Igreja das Recolhidas) human vergo-
nhosa sdtira em que atacavdo nio os meus vicios como elles o me-
recem, mas as principals dispozigoes do mieu Governo em que exe-
cuto as Reaes Ordens de S. Mage., entire estas sao escarnecidas
as Tropas, e o seu luzido fardamento, chamando-me de destruhidor
do povo; as Lavouras chamando-me de "carreiro", as Villas,
chamando-me de "fidalgo de meya tigela"... concluindo corn mui-
tas ameaqas de darem de mim conta a V. Exa. para que mne d'
carreira, o' me pozesse nada menos que na forca" (13).
E da importancia que poderia ter o pasquim, como instru-
mento de opiniio piblica, di-lo a pr6pria parte argumentative da
carta: "... mas eu ndo temo tanto do que me pod'em cA fazer;
temo-me de que na presenga de V. Exa. represented dfe mim algu-
ma queixa com que V. Exa. venha por em d6vida o meu prosse-
dimento"...
Cor o aparecimento dos pasquins impresses, cujo numero
aumenta consideravelmente a partir de 1831, e que H'lio Vianna
reune sob o nome de "Pequena Imprensa" (14), possivelmente
as f61has volantes e os papeluchos sorrateiramente passados por
baixo das portas ou afixados em lugar piblico se tenham conver-
tido em expediente cada vez menos geieralizado.
Sob a forma impressa, por6m, continuam a ser vasados rios
moldes de seus antecessores: crueza da forma, mordacidade da cri-

(12) A. de E. Taunay, op. cit. pg. 229.
(13) Documentos Interessantes, Lioc. cit. (0 grifo 6 nosso).
(14) H61io Vianna, Op. cit.










18 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

tica dirigida a pess6as, finalidade de agitar a opinido pfiblica.
Bastante significativos disso sao os nomes adotados, as epigrafes
tomadas por lema e os slogans propalados. Poucos conseguem o
equilibrio e a modera~io.
O carAter do ataque pessoal nunca o perdeu o pasquim. As
"verdades" continuam a ser ditas personificadamente: "... nro
ter condescend&ncias para deixar de anunciar verdades as mais
austeras, ainda que sejam contra amigos, uma vez que estas ndo
se dirijam a patentear faltas particulares ou erros da vida privada,
e sim o abuso de empregos, falta de patriotism, traigqo a Pdtria,
enfim, tudo quanto diz respeito a crime e faltas pdblicas", e como
noticia o seu aparecimento, em 1830, um dos mais terriveis pasquins
pernambucanos Bfssola da Liberdade (15).
Na 6poca da agitaqdo political que se estende de 1831 a 1840,
e principalmente no decorrer de 1833, elevam-se ao mAximo as ca-
racteristicas que, definindo os pasquins nao-impressos, continual
a simbolizar os impresses, incluindo-se o anonimato: "a critical
ferina e a satira mordente nada respeitam" (16), e a maior parte
dos jornais "contem mais injfirias pessoais e improp&rios do cpe
informaqao ou discusses instrutivas s6bre principios politi-
cos" (17).
Esta situaqdo d'uraria ate 1840 quando, descendo a "febre do
jornalismo politico" (que fez nascer e morrer num repente, um
nimero considerAvel de produqaes panfletArias), por efeito da
normalizaqAo da situacao ao se organizarem os dois partidos cons-
titucionais, "nao havia lugar para a copiosa, embora efemera mani-
festaqao de opiniSes, ideias, animosidades particulares, por nio
haver mais quem por elas tanto se interessasse" (18).
A partir do primitive tipo de pasquim 6 possivel, portanto,
tragar-se a trajet6ria seguida e identificar, pelo fundo comum, os
nao-impressos e os impresses. Alem da semelhanqa de forma
(pelo menos de alguns) destaca-se a de funqdo, nitidamente agita-
dora: se como papelucho, divulgado sorrateiramente, visou a pre-
paracao da malograda Inconfidencia Baiana (1789) que "abusou
dos pasquins", focalizando quest6es de quilate de alforrias, quad'ru-
plicago dos soldos, igualdade de mulatos livres e libertos em

(15) H61io Vianna, Op. cit. pg. 46 (O grifo 6 nosso)
(16) Moreira de Azevedo, "Origem e Desenvolvimento da Imprensa
no Rio de Janeiro" Apud HClio Vianna, Op. cit., p. 149.
(17) Charles James Fox Bunbury, "Narrativa de viagem de um
naturalista ingls., ao Rio de Janeiro e Minas Gerais (1833-
1836)" Apud H1eio Vianna, Op. cit., pAg. 150.
(18) Jos6 Verissimo, "A Imprensa", Livro do CentenArio (1500-
1900), Vol. 1.0, p9gs. 39-40, Apud H61io Vianna, Op. Cit. pg.
152.










OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 19


relaaio cor os brancos (19), na forma impressa coube-lhe impor-
tante papel na preparagao de ambiente favordvel a revolugqo de
7 de abril de 1831, de que resultou a abdicagqo de D. Pedro I (20).
Nao sabemos quando se deu a introdugdo dos pasquins no lito-
ral norte. Mas 6 provavel que se tenha dado na 6poca em que, re-
presentando algum significado econ6mico na vida do pais, esta parte
do litoral mantinha intercimbio, relativamente grande, corn o Rio
de Janeiro, o principal escoadouro de sua produqdo aqucareira (21).
Informa6qes precisas, por6m, s6 as possuo para o inicio da
segunda metade do seculo passado. No C6digo de Posturas Muni-
cipais de Vila Bela da Princesa (atualmente Ilhabela, Ilha de Sao
Sebastiso), do ano de 1868, na parte da Policia Preventiva, aparece
a condrenag~o do pasquim: "P- expressamente prohibida a publici-
dade dos pasquins ou outros papeluchos ultrajantes e obscenos e
que affectam a moralidade public. Os que forem encontrados corn
estas publicac6es ou dellas derem noticias, divulgando-as e ind'igi-
tando o nome de qualquer pess6a, incorrerdo na multa de 6 a 8$000
e soffrerio dous dias de prisdo" (22).
Esta proibieqo se repetiria vinte anos mais tarde, no C6digo
de Posturas de 1889.










(19) Carlos Rizzini, Op. cit., plgs. 242-245. (Ver a p&g. 244 o fac-
simile de um dos pasquins).
(20) H61io Vianna, Op. cit., pg. 121 e ss.
(21) A Correspond6ncia da Camara de Vila Bela da Princeza no
s6culo passado se entrosa perfeitamente na linguagem da 6po-
ca e deve refletir a ambiencia: t6da ela se recheia de apelos
patri6ticos comunidade, de condenagqes de prAticas e pessoas
que se desviam do que 6 considerado de interesse pfiblico e
nao perde oportunidade de atacar, sem preambulos a cidade de
Sebastiao nos varios mementos em que a conscincia local se
agua ante ameaga de perder a sua independencia para a
cidadezinha fronteira como tantas vezes se deu no decorrer
de sua hist6ria.
(22) leis de S0o Paulo. C6digo de Posturas da Camara Municipal
de Vila Bela da Princeza, 1868. Titulo V, "Policia Preventiva",
irt. 40.
Idem, 1889, Titulo V, art. 49. Conv6m salientar que estas datas
lacaa dizem da antiguidade real do pasquim, mas tio s6mente
tqu. entAo se dava a primeira oportunidade de publicar a sua
condenagco. Infelizmente, nao existem mais as Atas da C.ma-
a de Vila Bela onde se pudessem colher outros e mais deta-
-hados informes.



























II OS PASQUINS DO LITORAL NORTE: CONSER-
VACAO E REINTERPRETAgAO-

... eo estudo de reinlcrpretab&o re-
vela que urn novo significado: invarid-
mente vasado nos. moldes de forms am-
teriores".
M. I. Herskovits, "Folklore: after a
Hundred .Years: a. Problem. in Redefini-
tion", -pg. 97


0 material apresentado nas, piginas anteriores nao visa ape-
nas "datar e localizar" a procedEncia dos pasquins, mas .fornecer
dados empiricos a partir dos quais se possa depreender. o "nio
datado e nio localizado" uo seja, a generalidade que, caracterizando
estes produtos, sirva como ponto, de referi-ncia na. anrlise, dos
exemplos que a realidade atual fornece.
Considerando os produtos de. Sio Sebastiao.-e os da:Ilha, uma
diferenqa nitida se observa: aqueles se enquadram na definiqao que,
omitidos os elements particularizadores, se obt&m do. pasquim;
os da Ilha dela se afastam, embora retrospectivamente se, possa
perceber a marca de sua origem comum.
A pr6pria comunidade distingue as duas especies de produq6esf
designando-as, respectivamente, pot "pasquim que agrava" e "pas-
quim que nio agrava" o que um informant expressou cor muita
clareza numa frase: "Os daqui, (da Ilha) sio pri diverti; os de li
(de Sao Sebastido), pra marrotd" (1).
(1) .Ofender, desfazer-se em algu6m.









22 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

Desprovidos do significado e da fundao que primitivamente
tiveram, meras "derivaqces de estAgios mais primitivos da socie-
dade" (ou seja, da sociedade de uma 6poca de que a Ilha partici-
pou, em que Este element da cultural era "significativo" e "funcio-
nal", suprindo a falta de 6rgaos mais adequados d'e critical) os pas-
quins da Ilha poderiam recorder a conotagao clAssica de uma "so-
brevivencia" cultural.
Representariam "vestigios do passado", "sancionados e per-
petuados ... simplesmente pelo habito e pela tradigqo" (2), con-
forme o diriam, em primeiro lugar, a pr6pria representagao que
diles ter a comunidade, quando anuncia que "o pasquim 6 pAn-
dega" (ou divertimento) e em segundo lugar, a minha surprise
ao saber que se aplicava o nome de pasquim aos produtos literi-
rios que eu ouvia e para a designaqdo dos quais nunca me teria
ocorrido esta palavra.
h o simples fato de tratar-se de uma "sobrevivincia", garan-
tiria a 6stes produtos literarios a inclusdo no campo do Folclore,
no qual, uma das mais antigas (e mesmo recentes) preocupaq6es,
quando se fizeram enunciados a respeito de seu valor como meio
de reconstituiqgo histAricn foi justamente que se dedicasse a reco-
Iher estas "reliquias do passado".
S6bre isso escreve Miss Burne em Handbook of Folklore:
"Ifles (os vestigios) adequad'amente receberam o nome tecnico de
sobrevivencias e o estabelecimento da existencia de sobrevivin-
cias na cultural como fen6meno observAvel pode ser considerado
como o principal resultado do estudo cientifico do folclore" (3).
Uma das formas de perpetuaqgo de tragos culturais "sem uso"
(useless), como se os considerou, seria sua transferncia para
o campo dos jogos infants ou para o dominion do brinquedo ou
divertimento.
Se, porem, os pasquins da Ilha poderiam suscitar a id6ia
de "sobrevivencia", "perpetuada pela f6rga do habito num estado
de sociedade diferente daquele no qual teve lugar de origem" como
a considerou Tylor (4), o criador do t&rmo, poder-se-ia ter dfivida
s6bre se se estaria fazendo emprigo just do conceito ao aplica-lo
aqui. Uma "sobrevivincia" foi considerada como um aspect da
cultural que nSo se coaduna com seu meio cultural, que "antes
persiste que funciona" e que quando funciona, nao se harmoniza per-
feitamente com a cultural ambiente. Esta caracteristica 6 que torna-

(2) Miss Burne, Handbook of Folklore, Apud M. J. Herskovits,-
"Folklore after a Hundred Years..." p. 97.
(3) Ibidem. Ponto de vista id6ntico 6 apresentado em George
Laurence Gomme, Ethnology in Folklore.
(4) Edward Tylor, Primitive Culture, Capitulo Introdut6rio.








OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO .23


ria a sobrevivencia significativa como element de reconstituiqao
hist6rica, porquanto, o que hoje se apresentaria como desprovido de
significacqo, incoerente cor os demais elements, teria funcionado
plena, e ordenadamente em outro context, num estigio anterior
da sociedade.
Ora, que haveria no caso dos pasquins da Ilha de "incompati-
vel", "esquisito" ou "ininteligivel" que pudesses fazer deles meros
vestigios do passado "sancionados e perpetuados... simplesmente
pelo habito e pela tradicqo"?
Por outro lado, poder-se-ia argumentar que a teoria das
sobrevivencias de Taylor e Lang se originou e aplicou a elements
culturais de natureza muito diverse lendas, contos, mitos os
quais podiam, com muito mais propriedade que um simples ins-
trumento de critical, (o pasquim), conservar o carAter de "use-
less" (5).
Contudo, que nio se possa tomar o pasquim como "sobreviven-
cia" no sentido clAssico do 'termo, deve-se nZo a uma falsa aplica-
~io do conceito, mas sim no carter de sua pr6pria formulaqco.
(Diga-se de pasagem, alias, que nao se adstringiu o'seu emprego
a lendas, contos ou mitos, embora niles a teoria tivesse encontrado
sua base e justificaqo mas se o estendeu para incluir outros ele-
mentos da cultural, como processess, costumes e opinioes", conform
o salienta o pr6prio Tylor, na obra jA citada).
Por ter havido as mesmas ddividas que ora nos ocorrem, 6 que o
conceito de "sobreviv&ncia" foi muitas vezes reconsiderado, e tendeu-
se a empregA-lo cor crescente parcimonia.
Assim, em relaCio ao aspect "nao functional os investigadores
de campo, em contact mais direto com a cultural, puderam perceber
que nao raro muito do que A distincia poderia assumir o carAter
de mera sobrevivincia, era na realidade, significativo e fun-
cionava (6).

(5) S6bre isso escreve Boas: "A investigagpo dos contos de fadas
europ6ias levaram A conclusion de que no conteudo e na forma
elas encerram muitas sobreviv6ncias dos tempos passados.
Nao apenas as teorias de Grimm, mas tambem o ponto de
vista de Gomme baseiam-se nesta opini5o. L bastante evidence
que os modernos contos de fadas europeus nao refletem as
condiCges de nosso tempo, nem as condig6es de nossa vida co-
tidiana, mas que nos apresentam um quadro imaginative da
vida rural da epoca semi-feudal e que, devido as contradig6es
entire o modern intelectualismo e a antiga tradigco rural, os
conflitos de pontos de vista que ocorrem podem ser interpre-
tados como sobrevivencias". Franz Boas, Race, Language and
Culture, p. 497
(6) A respeito diz Ierskovits, que "6ste conceito de sobreviv6ncia
foi muito mais um aspect do evolucionismo europeu, que do
americano,... porque para Tylor ou Frazer ou seus colegas,









24 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


E quanto ao outro aspect que apontamos e que tornaria os
pasquins nio comparfveis aos mitos do ponto de vista da possibi!i-
dade de sua conservaaio "useless" uma s6rie de consideraq~es que
nos provem de Boas e seus discipulos sao bastante elucidativas, mes-
mo em se tratando, nestas analises, dos elements mais passiveis de
fixidez e perpetuaao;, como as lendas, os mitos e os contos.
Salienta Ruth Benedict que "a teoria, das sobreviv6ncias atribui
uma estabilidade muito. grande aos fatos culturais, porque a impor-
t&ncia das sobrevivencias naturalmente decresce quando se lida com
u'a mitologia ainda em funcionamento" (7). E Boas, em seus estu-
dos sbbre mitologia e folclore, demonstra como a teoria das sobre-
vivencias tern razdo de ser para os contos europeus,. mas nao para
os-contos de povos primitivos, entire os quais "crenqas e costumes
na vida: e nas hist6rias esto, em pleno acordo" e entire os. quais as
hist6rias importadas "sao prontamente adaptadas ao modo de vida
que prevalece". Conclui que na media em que apenas no process
de incorporaqao de.novos.elementos A cultural, em periods de tran-
sigio a novos generos-de vida. (como no resultante do contact corn
europeus) 6 que as contradiq6es aparecem, as sobrevivencias repre-
sentam ali pequeno. papel, (8).
Tendeu-se, porisso, a empregar as sobrevivencias nao como "o
m6todo.de traqar; o. curso do, desenvolvimento hist6rico, atrav6s do
qual s6mente 6 possivel compreender o seu sentido", como o assinala
Tylor,, uma vez que representariam "provas e exemplos de uma
condiqgo mais antiga.a partir da qual uma nova envolveu" (9) mas
num sentido mais modesto.e mais condizente corn a realidade.,
Para se dar conta da origem hist6rica de um traqo, de um lado,
e de outro, das transformaqoes que nele se opera, por efeito de sua
integraqgo num novo context, sugere Herskovits que se substitua
o t&rmo "sobrevivencia cultural" por "retenqgo de costume", corn

os representantes vivos dos pressupostos estigios mais primi-
tivos habitavam terras distantes. Seus costumes, colhidos para
estudo do trabalha daqueles que visitaram 6stes povos selva-
gens, lembravam .costumes rurais da Inglaterra. Para Tylor,
tais costumes eram, entao na Inglaterra e no continent euro-
peu, vestigios do passado que nao funcionavam... Para Mor-
gan, de outro lado, e para os seus contemporaneos ameri-
canos, o homem primitive" nio era um ser distant, mas um
habitante de seu pr6prio pafs. Seus costumes, para 81e, eram
nao sobrevivencia, mas elements perfeitamente funcionais em
sua cultural M. J. Herskovits, Man and.:His Works, p. 471
(7) Ruth Benedict, "Folklore", Enciclopaedia of the Social Scien-
ces, Vol. VI, p. 289
(8) Franz Boas, "Stylistic Aspects of Primitive Literature", Race,
Language and Culture, p. 497. Vejam-se os seus trabalhos sO-
bre mitologia na mesma obra e em General Anthropology.
(9) Tylor, Loc. Cit.
(10) M. J. Herskovits, Man and his Works, p. 472











OS "PASQUTINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 25


a cond'iaio de se ihe:anexar'um atributo complementary: "reinterpre-
tagio". Ver-se-. assim, como ile o salienta, '"queium novo signifi-
cailo- invariavelmefite vasado nos moldes das formas anteriores",
transformarido-se, entio, -o' Folclore nao em coletor de reliquias de
tiu passado ffiorto; mani de rcalidadt., vivas, onde o "velho" se rede-
fi fe e erejtusta: (11).
Coituidd, 'eribora se tenda cada vez menos a adnmitir a exis-
tencia 'e s'obrevivincias no sentido classic do tarmo, 6 inegAvel
que elas existem e representam um pormenor important a coisi-
derar. O que se pode critical 6 a validade de seu emprego em
certos casos e, ademais, que sejam sempre tdo significativas quanto
se quis admitir. Elas representam o que Boas caracterizou como
"contradig6es" e de que descobriu exemplos mesmo entire indios
(12). Se encarado na sua totalidade, dificilmente se pode ver num
costume ou prAtica e mera perpetuaqgo de algo "useless", hi, sem
dfivida, no process de incorporagio de um element novo a cultural
(quer se tenha originado por invenqo ou sicfo torado de empr6s-
timo) alguns aspects que permanecem nio completamente ajusta-
dos ou explicados no context (13).
Assim, na fatura do pasquim, para s6 citar por ora um por-
menor, hi um aspect que nao se "coaduna" corn o seu aspect atual
(na ilha) : 6 o fato fde um pasquineiro escrever, ou quando analfabeto,
pedir que outrem escreva para ele suas composiqges e depois lang8-la
na encruzilhada do caminho. Falando s6bre isso, disse-me uma in-
formante do bairro do Perequi: "Nao adianta nada porque a gente
sabe quem estA tirando o pasquim e depois, ele mesmo 6 o primeiro
que canta".
Ora, na media em que, como element folcl6rico, o meio de
propalaqgo do pasquim 6 o canto, iste aspect 6 revelador por re-
presentar a "persistencia" de um hAbito numa cultural que dispensa
esta forma de divulgaqdo a escrita -e que no geral nio conta
'om a possibilidade de seu emprego (14).

(11) M. J. Hehskovits, "Folklore after a Hundred Years..." p. 97
,(12) Nos contos dos Laguna, um dos Pueblos do Novo Mexico, o
visitante sempre entra pelo teto, embora as casas modernas
tenham portas. Os indios da Planicies. (Plains Indians) fa-
lam ainda de cagadas de bfifalos, embora esta j5 tenham desa-
parecido e eles se transformado em agricultores. Franz Boas,
Race, Language and Culture, p. 497
(I ) Alexandre Goldenweiser, "Leading Contributions of Anthro-
pology to Social Theory" in Barnes, Becker and Becker, Con-
temporary Social Theory, p. 443
(1 ) -- Sintomaiticamente, tende-se a usar cor mais freqii6ncia a ex-
pressAo "tirar pasquim" (tirar na viola) 'de que "lanqar", "por"
cu deitar" pasquim.











26 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

Contudo, mais que 6stes pormenores (sem d6vida significati-
vos como elements na analise) o que e important considerar 6 o
process de reinterpretaqdo por que passou (e ainda estA passando)
6 pasquim, ao se adaptar a novas condiq6es de vida "diferentes da-
quela em que foi criado", transformando-se em element folcl6rico
ndo por representar um "vestigio do passado", mas por ter sido
adotado por uma sociedade de "folk" que o encorporou segundo
suas possibilidades culturais, e da qual @le 6 a expressed mais ca-
racteristica entire os demais produtbs literArios.




























III O PASQUIM DA ILHA E O PROBLEMA DA
COMUNICAgAO

"0 folk ouve boatos; este povo 1~ no-
ticias ... atravis do journal e dos filmes
estd adquirindo a experiencia acumulada
de grupos geogrdfica e hist6ricamente re-
motos. Estd deixando, ou jd deixou, de
ser um povo de folk".
Robert Redfield, Tepoztlin, pdg. 3.

No process de integraqio por que passou e esta passando o
pasquim para ajustar-se, progressivamente, a uma sociedade de
"folk", o aspect mais evidence 6 ter assumido a forma oral.
0 fato de ser algumas vezes lancado por escrito, nao invalid
para estas produgbes o carter folcl6rico; significa, como salien-
tamos hi pouco, mera persistencia de uma forma anterior no proces-
so de incorporaqdo do pasquim a outro context.
Mesmo que persista indefinidamente, por6m, o que 6 important
considerar para a caracterizaqco de uma sociedade de folk e,
portanto, dos produtos literArios que nela se original, nao 6
tanto a possibilidade de ler e escrever que tenham seus membros,
mas saber-se qual a aplicaao que fazem desta habilidade. Se a
alfabetizaqgo represent, sem dfivida, um indice de importincia
no process de comunicaao, a posse desta habilidade nao ga-
rante, por si mesma, que esta sociedade se exponha ao que se cha-
mou de "influencias civilizadoras". A leitura e a escrita, nio sao
"comunicativas em carterr, como diz Sapir, e desta forma,
o fato de contar em seu seio corn individuos alfabetizados, nio al-












REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


tera a condiqdo de uma sociedade de "folk" na media em que a
determinacqo dos padres de conduta, pensamentos, gostos, etc., de
seus membros se faqa por comunicagdo oral cor as gerag6es pre-
cedentes.
Representando a sociedade de "folk" em "tipo" construido
(1), as sociedades que a realidade fornece podem aproximar-se,
mais ou menos, do que 6 considerado como "tipico": pequena, iso-
lada, nao letrada e homogenea, corn forte sentiment de solidarie-
dade de grupo (2), tal 6 o "tipo ideal" que a respeito dela apre-
senta Redfield.
Implicando o tipo numa pluralidade de caracteristicas rela-
cionadas (3) e sendo uma destas caracteristicas do "tipo" de
"sociedade de folk" o isolamento, por outro lado, o fator comuni-
cacqo poderia ser posto em destaque, como caracteristica, a media
que uma sociedade se torna "menos folk" e se encaminha para o
outro extreme do "gradiente" no qual teriamos a "civilizacqo".
Na realidade, como salienta Albig "a comunicacao 6 a instituiqao
humana fundamental no sentido de que estabelece os limits e a
extensdo da comunidade e de que por sua natureza afeta todos os
demais tipos de associaqao entire os homes. O falar confina a as-
sociaqdo aos limits da migraqio e da voz humana; a escrita e a
imprensa libertam o home para participaqio em sociedades mais
amplas e mais diversificadas" (4).
Dentro do tipo ideal de sociedade de folk o isolamento seria a
norma quanto ao exterior, e o contact intimo, de natureza prima-
ria, a caracterizaria em relagqo ao "in group".
I evidence que o grau de participaqao da "civilizacio" se
condicioniria, grandemente, pelo fato de contar cor aquelas pos-
sibilidades materials a que Sapir se refere como "tecnicas secun-
dirias que facilitam o process de comunicaqgo" (5), e a possibi-
lidade de preservar-se "folk" dependeria da possibilidade de man-
ter-se segregada As influincias "civilizadoras", por qualquer es-
p6cie de isolamento.

(1) O "tipo" 6 construfdo, ideal, represent uma selegio planejada,
a combinagao e a acentuagao do "encontrado empiricamente",
abrangendo linhas muito gerais de um fenOmeno, para que
possa servir de instrument de anAlise, de sorte que nao cor-
responde a nenhum caso "real". Howard Becker, "Construc-
tive Typologies in the Social Sciences", in Barnes, Becker and
Becker, Contemporary Social Theory, pgs. 3-45.
(2) Robert Redfield, "The Folk Society", The American Journal
of Sociology, Vol. LII, n.0 4 (1947). pag. 297.
(3) Robert F. Winch, "Heuristic and Empirical Typologies", Ame-
rican Sociological Review, Vol. 12, n. 1 (1947) pag. 69.
(4) W. Albig. Public Opinion, p., 21
(5) Edward Sapir, "Comunication", Enc. Soc. Sc., VoL IV, pags.
78 e ss.











OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO


Ora, 6 claro que os meios de. comunicacao na-o sao comuni-
cativos em carter: -a sua significacao reside no fato de.permitirem
uma difusio gradual de tra.os culturais ou, como diz.Sapir, de "rea-.
c6es culturais significativas" (6).
0 que define, portanto,. o mundo civilizado (em contraposiqio
ao pequeno mundo do folk) .6 justamente que "'para certos fins .a
sua totalidade .se .tornou o0 equivalent. psicol6gico :da ,tribo. pri-
mitiva", em virtude do process .de comunicaco. que deminuiut
a importincia da mera contigdicrade geogrifica (7). .Ao contrario,
uma sociedade de :folk, pela pr6pria natureza do meio de comunica-
qio de'que disp6e -.a tradi*go oral se caracteriza pelo isola-.
mento que, adstringindo sua rela~io aos membros do grupo::ime-
diato, faz cor que..em caso extreme,. ignorem a existencia de
otitros que :no .6les pr6prios" (8).
:Em virtude dos dois processes de comunicaqao pelo qual
se definiriam de um lado, o "folk" e de otutro, a civilizacao, t6das
as demais -caracteristicas de vida dEstes tipos de ;sociedade pode-
riarm' ser vistos variar, :concomitantemente, pelo menos -do ipon-
to de vista do "tipo".
No campo do Folclore, no qual, hi nada menos de s6culo, dis-
cutem os autores a-respeito da definirio de "lore" e .de qual seria
o "folk" ao qual caberia esta forma de "saber", nao raro por se
ter apresentado, principalmente -do que constituiria o "nao lore",
uma definiqao sumniria, Is vEzes sintetizada nitm atributo como "co-
nhecimento cientifico", "conhecimento verdadeiro", "conhecimento
refleticro", estas defini6qes forneceram bem pequeno auxilio como
element de anlahse do que. constituiria, em muitos casos, a dife-
renqa entire os dois tipos de "saber" em oposigdo. Por exemppo,
que sentido teria quando se op6e o "foldI6rico" ao "cientifico",
considerar-se uma forma de governo como tal, em oposic~o a outra,
"natural", "espontanea"? (9). E isso porque, o que constitui
o "nao lore", 6 uma s6rie de caracteristicas que define o "tipo"
da civilizaqco. Tal como no caso do "folk", tomada uma .inica
destas caracteristicas, seria dificil caracterizar o conjunto, se' ji
nIo se o tivesse construido (10).


(6) Ibidem.
(7) Ibidem.
(8) Robert Redfield, Art. Cit. p&g. 296
(9) Veja-se Luis de Hoyos SAins y Nieves de-Hoyos Sancho, Ma-
nual de Folklore. (Traz muitas definig8es e conceitos).
(10) Andre Varagnac em .;Dfinition du Folklore, p&g.. 18. dando-se
conta da complexilidade que acabamos de assinalar, diz que
S"Folclore so crengas coletivas sem doutrinas, pr&ticas coletivas
sem teoria".


PAULO 29












30 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

Colocando o problema em t&rmos de comunicago, salienta
Redfield, a respeito da sociedade de "folk": "Atravgs dos livros
os povos civilizados se comunicam corn o espirito dos outros povos
e de outros tempos e um aspect do isolamento da sociedade de,
folk e a ausencia de livros" (11). Porisso mesmo, pela ausencia
de "comunicaco", o "folk" nao tern acesso ao pensamento e a expe-
riencia do passado, quer de outros povos, quer de seus pr6prios
ancestrais, tal como os livros a fornecem. Portanto, a tradigqo oral
nao sofre ameacas ou competiqio. E, porisso tamb6m o que carac-
teriza finalmente esta sociedade, 6 que nao tendo nenhuma for-
ma de crenqa estabelecida por registro escrito, "nao pode ter senti-
'do hist6rico", tal como os povos civilizados o possuem... (12).
Em consequencia da caracterizaqdo da sociedade de "folk",
para Redfield o campo do Folclore seriam as manifestac6es de sua
vida Folclore em sentido lato e as expresses de sua literature
- Folcl6re em sentido estrito (13). E na media em que os povos
de "folk" sdo povos rurais, restringe o estudo a este campo, por-
quanto, a seu ver "se o folclore 6 encontrado nas cidades nunca
o 6 em condiqdo robusta, mas sempre decadente, sempre em vesti-
gio" (14).
Mesmo sem adotar a posiqio extremada de Ridfield de con-
siderar todos os produtos do "folk" como abjeto de estudo do
Folcl6re, mas limitando este ao estudo da literature oral, e por outro
lado, sem fazer desta um campo privativo do meio rural, (15) com-
preende-se que esta optqo pelo '"rural", feita por varios auto-
res, se prende a que nio apenas a tradicqo oral ali abrange a totali-
dade de seus produtos literArios, como ainda 6 a forma de trans-
missao dos demais elements de sua cultural.
Ora, voltando ao tema do nosso trabalho, estas consideraq6es
visam esclarecer a posicao que assumimos ao falar do pasquim
como expresso folcl6rica.
P evidence que uma sociedade pode ser mais ou menos
"folk" e.ademais, que pode aproximar-se do "tipo" num pormenor

(11) Robert Redfield,, Art. Cit. pag. 296.
Unamuno tambr m chama a ateng o para este aspect, salien-
tando ser o objeto do Folclore (Dem6tica, como l8e denomi-
nou) o estudo da tradiego secular, do sub-hist6rico do espirito
pdblico, do mundo interior da sociedade. a "intra-hist6ria"
por oposigco A "consci8ncia pfiblica", a opinilo,. que forma
a vida hist6rica. Citacio (sem indicag6es) de Sainz y Sancho,
Op. cit. pag. 50.
(12) Robert Redfield, Art. Cit.. pag. 296
(13) Robert Redfield, Tepoztlin, pag. 172
(14) Idem, p&g. 2.
(15) Ao apresentaar o livro, A Treasury of American Folklore,
salienta Botkin que "os contos e cantos do folk industrial
sio bastante expressivos de que a maquina nio destr6i o fol-
clore." pag. xii.











OS "PASQUITS" NO LTTORATL NORTE DE SAO PAULO 31

e afastar-se em outro. Dentro da pr6pria Ilha, constituida de uma
multiplicidade de pequenos povoamentos que se disseminam por
t6da a sua periferia uma tantas ilhas dentro da Ilha, como
ja se disse as variaqges sao manisfestas. Nao raro, a pr6pria di-
ficuldade de comunicaqgo fisica, restringe a vida de certos ni-
cleos a um insulamento pronunciado. Caracteristicamente tamb6m,
a conservaqgo dos modos de vida tradicionais preserva-se de manei-
ra d'iversa nos varios bairros. Mais ou menos "folk" por6m, uma
grande identidade cultural os caracteriza: o peqfieno emprego da
leitura e da escrita (salvo por um pequeno nfmero de moradores
de Ilhabela) como elements de comunicagqo.
Uma verdadeira mistica da escrita, que se observa em alguns
dos poucos bairros desprovidos de escola, nao implica numa visio
"realista" das possibilidades ou necessidades de seu emprego. E se
bem que todos me garantissem (frase estereotipada) "que a leitura
6 uma nova luz diante dos olhos", n5o raro me apontaram, como
resposta ao significado e valor da alfabetizacgo, de uma forma muito
prAtica, que "um individuo que sabe ler quando vai a Santos nao
precisa estar perguntando o nome das ruas". Um outro interesse
pela alfabetizacgo reside na possibilidade de "dar o voto" nas elei-
o6es, o que significa retribuir um favor prestado pelos elements da
"clique" mais informada e politicamente influence em Sao Sebas-
tido ou Ilhabela. Desta mesma "clique" se irradiam uns poucos in-
formes que, colhidos dos jornais, passam Aqueles que a noite cir-
culam pelo centroo" na espectativa (alias condicionada por &ste)
de ouvir alguma coisa relative ao mundo de fora.
Da influincia, portanto, da alfabetizaqdo como element orga-
nizador da experiEncia, poder-se-ia ter uma falsa icTia se conside-
rassemos o numero relativamente grande de escolas que a Ilha pos-
sui: treze escolas rurais e um grupo escolar para uma populagao
que nao atinge o total de seis mil individuos (desconheqo a popula-
gco em idade escolar).
Outra influencia que deve ser considerada corn reserves e
a exercida por Santos na cultural e vida locals. Embora a comuni-
cacgo cor aquile p6rto seja constant, isso nio significa que se
possa falar, sem mais nem menos, em "influncia da cidade grande":
ha verdadeiros pontos de concentraqgo em Santos onde, ao que me
informaram, "s6 se encontra caicara", isto 6, gente da Ilha. (Ine-
gavelmente uma certa influencia exterior vai penetrando principal-
mente no dominio das curas baixo espiritismo -, derrotando a
medicine de "folk" local. Por outro lado, o folcl6re tende a ceder
cada vez mais terreno As m6sicas populares, tornando-se o bate-p6,
fungio ou fandango uma habilidade de velhos).











32 'REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

Ao ser adotado como forma de expressao nos bairros da Ilha,
o pasquim tendeui, pela pr6pria natureza da sociedade (contatos
pessoais intimos) a 'perder o carter de anominato e de ataque
acerbo a pess6as, de sorte a tornar-se "coniipaivei" corn a iorlma
de critical admitida. Os dois aspects que a primitive forma abran-
gia informaqAo e critical se bem que conservados, tender a
merecer enfase diverse.
Explicando-se o pasquim em funqco da cultural, sociedade e
mentalidade de que e fruto, por outro lado, transforma-se num ele-
mento de comunicacqo no "in group" e por isso mesmo, tende a
acentuar-se o seu aspect informative..



























IV-- SIGNIFICADO E. FUNQAO.DOS PASQUINS

"... o povo ndo s4mente canta de uma
forma que lhe4 peculiar, como tambim
compie os seus pr6prios cantos me-
dida que, come. a examiner. auto-
conscientemente, os seus problems e, co,
mentd-los corn objetivo,.vigor. e ironia".
Alan Lomax, "Songs of the. An.eric'iu
Folk", pAg. 138, (1).


Ao lado das quadrinhas ou composi6oes mais complexes que
constituem o centefdo traditional das chimarritas, das saravalhas,
das ubatubanas ou praianas, canto e danga a um.tempo, o pasquim
ter seu lugar de destaque.
Uma das vezes em que pedi a um pasquineiro que cantasse
um pasquim para eu ouvir ele me responded: "Se a senhora me
pedisse prA canta, uma moda, eu nao me negava. Mas o pasquim '
diferente. Eu tenho a minha responsabilidade. Eu pontuo'todos os
acontecimentos".
Na realidade, o que marca a diferenqa essential entire os pas-
quins e as outras formas de cantoria, sintetizadas na expressao
"moda", 6 antes o conteido, que a forma.
Do ponto de vista musical "pode ser tirado em qualquer toque":
no da verdadeira moda (como no caso do Pasquim do Bahia), no

(1) Modern Music, Vol. XVIII (January-Fabruary, 1941) n.o 2, pag.
138. Alan Lomax "Songs of the American Folk". Apud. B. A.
Botkin, A Treasury of American Folklore, pAg. 818.









34 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

da chimarrita (Pasquim do Pombo Branco), no do "balanceado",
cor estribilho constant (a maioria dos pasquins, corto por exemplo,
o da guerra), a forma mais comum porque a pr6pria cadincia lenta
permit alcangar melhor o fim visado, isto 6, a sua divulgaq~o.
Numa epoca, por6m, em que "a mocidade s6 quer dangar
bailey e nao funio (fandango ou bate-p) ele tende a vasar-se nos
moldes do balanceado ou samba local. Se pelo toque "logo se divisa
se 6 uma chimarrita, uma ubatubana ou uma praiana", pelo con-
teido 6 ficil reconhecer-se um pasquim. Ninguem o confunde
corn outros produtos folcl6ricos. Quando, entao, se quer marcar
a distinqao entire ile e as demais produq6es, tomando-se em consi-
deraqCo apenas a express5o literiria, independent da miisica e da
danca, di-se a estas iltimas a d'esignaqao geral de "moda".
A composicao do pasquim 6 demorada. Por iste pormenor ele
nio se assemelha as composiqces repentistas. Muitas vezes, o ti-
rador 6 um improvisador habil, que na "presenga" de um aconteci-
mento qualquer 6 capaz de fazer versoss", mas isso nao 6 pasquim.
O pasquim 6 long, 6 narrative. o seu pr6prio conteido que Ihe
demora a confecqEo.
Na expressao de um in-fcr=- r- 11.?. 1!, o "pasquim precisa ser
bem assuntado". 0 pasquineiro, entao, fica alerta a tudo o que "6
consoante", isto 6, tudo o que diz respeito ao caso no qual esta inte-
ressado: recolhe os "palpites". Vai procedendo por anexaEio. Ane-
xaao diAria, cronol6gicamente lancada. Nunca encerra um pas-
quim antes que o acontecimento que aborda tenha chegado a um des-
fEcho. Porisso mesmo, Tiao Reis me disse que jA vinha colhendo
material para o pasquim da guerra "desde o comi&o", embora s6
tivesse tirado o pasquim no ano passado (1947).
Embora se possa comp6-los em quadras, preferem-se as
sextilhas a cujo respeito explicou-me Sebastido Reis: "Aqui se cha-
ma "grosa". Eu faqo um verso que ter que rimar tris vizes. Eu
rimo uma vez. Tenho que achar outra palavra para reformer. Pode-
ria rimar s6 duas vizes. Mas nao ter tanta f6rqa. Prefiro tris".
Quando os interroguei s6bre os nomes usados para designer
suas composiq6es, demostravam pouco interisse por Lstes pormeno-
res que nao constituiam objeto de sua preocupaqco: "Se comega
assim pri nio comeSg pelo meio e se acaba pedindo descurpa pra
ninguem se zang6". Era uma explicacqo que Ihes bastava e nunca
consegui melhores. Rste remate, por6m, 6 preocupacIo que existe
de preferincia quando se cantam as pr6prias composiq5es e que nao
raro se perde com a difusao do pasquim.
No process de fatura, informaram os pasquineiros analfa-
betos que tiravam um "verso" (sextilha ou quadra); depois o se-
guinte, que tinha que ser "consoante". "Nos pasquins caprichados








OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 35


todos os assuntos sio consoantes e tamb6m um verso 6 consoante
corn outro". A uma selegdo e ordenacao que se Ihes.imp6e o pr6-
prio carAter narrative da composiqdo.
Burilando-se a primeira sextilha ou quadra, passa-se A seguinte.
Grava-se bem uma parte antes de ir adiante. Porisso mesnio, o pas-
quineiro 6 objeto de admiracao da comunidade: "' precise ter
cadeca" 6 a expressao local para designer a sua habilidade.
Ao tirador de pasquim nao 6 indiferente o efeito artistic e mu-
sical do que canta. Embora seja capaz de ditar os versos sem
cantar, condiciona-se a se fazer acompanhar, ao cantar, pela sua
pr6pria viola, por mais uma e -uma rabeca. Berra com t6da a forga
dos pulm6es e se vale do recurso do estribilho, meramente musical
(como no improvise), quando a mem6ria Ihe falha na sequEncia
dos versos. Quando canta para expectadores que possam merecer a
sua atencao, vai explicando, no moment dos estribilhos, o signifi-
cado de suas metAforas.
A difusio dos pasquins se da, principalmente, por ocasiio das
festas de bairro. O tirador 6 ao mesmo tempo o tocador, tendo oca-
siao de desenrolar, perante os dC.,lnXjis, os versos arquitetados.
Quando o pasquim 6 novidade, os ouvintes Ihe prestam muita aten-
qgo, trocando impresses s6bre as ditercntes passagens. Os nomes
pr6prios aparecem corn grande frequencia, mas muitas vezes a dis-
creaio do pasquineiro oculta os personagens, usando do subterffugio:
"Teve um cidadio que disse" tal ou tal coisa. A comum, entdo,
que o anonimato nao consiga efeito e a assistincia explique a quem
se referem os fatos.
O estribilho repetido, da um tom mon6tono A produgao e a torna
mais longa. Assim, por exemplo, canta-se da seguinte forma:

"Me preste atengdo sinhores
Du causo qu'eu v6 contd
Das tristeza que passamo
Aqui no nosso lugd
Balanceado aqui no nosso lugi
A falta de querozene,
Do aguca e do sd.


Outras vezes entremeia-se corn "Roda morena" e repete-se
o quarto verso (uso no Bairro do Perequ6, por exemplo). HA ou-
tras variaq6es ainda como no caso de Joao da Cruz, que gostava,
de rematar corn um estribilho cada uma das sextilhas: possivel-








REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


mente se prenda isso ao fato de ser le ao "versista" da folia do
Divino e portanto, incorporar a seus versos aquela mesma termi-
naqco chorosa que depois se prolonga no grito agudo do tipi, cada
vez que o versista acaba de improvisar nas "folias".
Uma certa orientacao geogrAfica pode ser depreendida. ndo
apenas na "area de atencqo" abrangida pelo pasquim, como na sua
difusio. Seguem no geral as rotas traqadas da circula~io. A Ilha
em seu conjunto pode ser vista como uma constelacio de diferen-
tes tipos de aglomeraqSes, alguns diles isolados e esparsos, outros
mais centralizados e focos de circulaIo humana mais intense;
a.guns atingindo em sua expansion, por condiq6es da pr6pria topo-
grafia, areas circunvizinhas, enquanto outi-os, distanciados por ver-
dadeiras muralhas de pedra "cost6es" como se diz no local -
fechados mais s6bre si e entregues mais nitidamente a uma eco-
nomia de subsistEncia, quebrada por contacts esporidicos corn um
ou outro centro pr6ximo.
De uma maneira geral, depreendem-se algumas orientaq6es
tipicas condicionadas principalmente pela vizinhanqa de um centro
maior de escoamento dos parcos produtos regionais: de um modo
geral, Ilhabela represent um centro de dominfncia principalmente
para as povoaq5es da zona norte do canal e at6 mesmo, de fora
dile; quanto ao sul, Sao Sebastiio lhe rouba a primazia.
Prov6m desta constelaqao de relagqes decalcadas em fat6res
de comunicacqo que o pessoal dos varios pontos defina, para alem
do pequeno mundo da vizinhanga, a que chamam "o nosso lugar",
um mundo menos imediato.
Pode-se constatar perfeitamente que este padrao de relaeqes
se reflete no pasquim. Compreende-se que assim o seja, porquanto,
dependendo da transmisso oral, condiciona-se As possibilidades
de comunicaco. Ademais, referinco-se a acontecimentos locais,
6 cheio de alus6es locais, uma esp6cie de peqa teatral na qual se
move sempre pessoas conhecidas.
A evidence que tendo os moradores dca Ilha fundamentalmente
o mesmo tipo de cultural e os mesmos padres bAsicos de rela6ses,
o pasquim 6 um tipo bastante uniform e de molde a interessar a
qualquer pessoa, cor excessio talvez das mais sofisticadas de
Ilhabela. Contudo, limita-se grandemente a sua possibilidade de
circulacao pelo fato de ser nas festas de cada uin dos pequenos
bairros, quando afluem os moradores dos bairros pr6ximos (os que
caem dentro de uma certa area de influEncia, mesmo porque pro-
ximidade e para o caiqara um conceito bem relative, a julgar pelos
nossos padres de distancia) que os pasquins tim oportunidade
de se difundir pelos cantadores de viola. Uma outra forma de









O:S "PASQ.hTTN" NO TTO'RAL NORTE DE SAO PAULO 37


sua difusao 6 por intermedio dos "foli6es" que correm a Ilha anga-
riando donativos para o Divino e que cantam pasquim na hora em
que se realize a ciranda, a parte profana de sua missao.
Porisso, os pasquins da zona sul, principalmente a partir da
Praia Grande e chegando ate o Bairro do Bonete, limitam-se quase
que exclusivamente a esta area e atingem Sao Sebastiio; os do
Bairro de Sao Francisco tornam-se conhecidos na parte norte da
Ilha e se irradiam tambem para Sao Sebastiao e Caraguatatuba, por
ocupar o Bairro uma posicqo intermediAria entire os dois pontos.
De uma forma geral, o habitat dos pasquins sao as "margens",
fato que o pessoal do centroo" geralmente salienta apontando que
os pasquins "sao coisa de sitio", opini5o endossada, aliis, pelos
pr6prios moradores dos bairros. R de preferencia na zona sul que
parece residir realmente o centro de sua difusio atual.
O aparecimento dos pasquins em S.Sebastiao continentt,
cabega da comarca), por volta das eleicoes de novembro de 1947,
coincidiu cor o fervilhamento da opiniao p6blica naquela 6poca.
Sintomhticamente, a irradiaqCo dos pasquins e a atencqo que mo-
tivaram, nao seguiram as rotas comuns das relaq5es de Sao Sebas-
tifo cor os bairros que Ihes sao satelites, mas definiu-se em termos
de interesse de outra ordem, alcanqando Caraguatatuba e Ilhabela.
Nao atingiu a consciencia ou atencqo dos moradores de bairros.
Abrangia um campo de esperi&ncias mais amplas, do qual, de certa
forma, istes se encontram excluidos.
Porisso mesmo, observa-se na produgqo de pasquins de Sao
Sebastiio, uma variedade de formas, condizente cor a ausencia
de um estilo definido e expressando exposiafo do autor a duas or-
dens de influencias: de um lado, moldando-se A forma peculiar ao
"folk" local, numa imita~io forqada do linguajar do povo iletrado;
de outro, parodiando as modinhas carnavalescas e as iltimas novi-
dades populares.
O aspect mais important do pasquim, na Ilha, reside na sua
feic~o nitidamente comunitAria. Dir-se-ia que ele possui uma esp6-
cie de "individualidade coletiva".
Pode-se depreender &ste fato de virios pormenores: em pri-
meiro lugar, dos chamados "palpites" nos quais t6da a comunidade
participa, levando ao pasquineiro a sua colaboraq~b. Rste tamb6m
apela para esta colaboracqo.
Pode-se, a rigor, consideri-los como expresses de consenso:
formam-se os pasquins por "palpites" da comunidade, expressio
do que todos sentem a respeito de um fato e nio o que pensa
um determinado individuo. Este process da fatura do pas-
quim 6 bastante important e marca realmente o seu cunho comu-









38 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

nitArio. Assim se expressou um tirador a respeito: "Chega um e
di um palpite consoante. A gente guard. Quando terminal o acon-
tecimento, sai o pasquim".
A respeito do que era "acontecimento" expressaram-se unani-
memcnte todos os que estavam presents no moment em que eu
interrogava:. "Para dar pasquim 6 precise que seja um aconteci-
mento. Uma coisa que s6 duas pess6as viram, nao serve para pas-
quim. Nfo pode haver concordagdo. S6 quando movimenta o povo.
Todos precisam ver. Depois podem dizer se esta certo".
Porisso mesmo, Tido Reis me explicou: "Quanto maior o
acontecimento melhor prA pasquim".
Um outro pormenor pelo qual se marca o carter coletivo do
pasquim reside na reacio da comunidade em face de uma nova
producgo. Nao se trata apenas de focalizar um assunto que tenha
interisse comunitario, como tambbm de vasA-lo nos moldes de uma
critical aceitavel no local.
Se bem que, como diz Amadeu Amaral, "a sitira... na grande
maioria dos casos, tenha muito de pueril, tanto na estreiteza, quan-
to na crueldade" (1), a comunidade control a sua expansdo. A
precise saber dizer. Quanto mais os fatos se prendem A comuni-
dade imediata, maior e o contr6le exercido s6bre o pasquineiro.
Um novo pasquim 6 objeto de observa6es e de reaq6es. Tive
oportunidade de ver um pasquim surgindo. Referia-se a um barco
que quase "foi dar nas pedras", segundo o pasquineiro, por negli-
gencia do mestre. Os palpites eram os mais diversos. Havia os
pr6-mestre e os pr6-pasquineiro. A atuaaLo dos que nao apro-
vavam plenamente o pasquim, por6m, expressava-se em forma de
conselhos e de raz6es. A verdade e que o pasquineiro teve bastante
dirvida em me fornecer a sua composiqdo, fato lamentavel por-
quanto seria o finico pasquim que eu teria recolhido diretamente
no nascedouro. Limitou-se a canta-lo para eu ouvir.
Na media em que o pasquim corresponde As forqas sociais
operates na comunidade, inovaq6es e tradig6es, empr6stimos de
fora, etc., d'eixam sua marca nos versos. Num certo sentido, o pas-
quim tambem nao 6 mero registro. Baseando-se na experiincia do
grupo, deve corresponder a mudangas sociais, porquanto estas mu-
dangas implicam em redefiniqdo da concepqAo de vida. O pasquinei-
ro, quer express o que esta subjacente, quer adiantando-se s6bre
a comunidade, projeta-se, desta forma, s6bre seus ouvintes. ou
leitores. O pasquim se torna, entao, um element que pelo menos
visaria moldar o comportamento. Porisso, faz propaganda, cons-
ciente ou inconscientemente, desempenha seu papel em combater


(1) Amadeu Amaral, Op. cit pdg. 85









OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 39

ou sancionar uma ordem de coisas existent ou uma nova ordem
que se anuncie. Assim, por exemplo, na media em que a auto-
ridade da tradigqo se est. quebrando e a substituicao dela se apre-
goa em tirmos ide alfabetizaqao, explica-se a visdo do pasquineiro
s6bre o significado profundo que atribui ao conhecimento da arte
da leitura e da escrita, expressando a voz geral da comunidade,
numa verdadeira etapa de "mistica" da alfabetizacqo:

"Pessoa que sabe IM
Nesti mundo e bem guiado
Pelas vinte-cinco letra
Qui o a-b-c trais marcado
2 future para si
A progress para o Istado".


Outras vizes, por6m, nao 6 a comunidade imediata que Ihe
dita os moldes: se os 6cos do mundo de fora chegam, hesitantes,
ao local, cumpre ao pasquineiro buscar defini-los melhor, para p6-
los ao alcance dos demais. Sente-se, entao, mais a vontade para
expressar suas critics e a "liberdade" de sua composicqo 6 bem
visivel (Pasquim dTa Guerra).
E na media em que o mesmo pasquineiro atribuia certas ati-
tudes condenAveis de sua comunidade A ausincia do que Ele chamava
de "id6ia fixa" (modo de pensar correto, fire, bem baseado) e as
filiava ao fato do pessoal dali ser "gente de experiEncia fraca",
continue o seu pasquim:

"... Aonde hai orde, hai progress,
T6 farto de comprede
Hoje o bairro de Sao Pedro
Paga pena a gente vO.

Uma e que ter escola
Aqui no nosso lugd
Psses chefes de familiar
Mais tarde vao se alegrd
Di ve seus filho inducado
Conservando um bom pensd"


Na sua fungio de organizer a experiEncia do grupo em terms
dos padres estabelecidos pelas convenqSes do pasquim, o pasqui-
neiro age, dentro de suas modestas possibilidades, como um literate:









40 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL

seleciona e p6e em relEvo valores evocativos que nem sempre apa-
recem a superficie ou atingem a consciencia dos menos advertidos.
No meio dos fatos que enumera, demonstra ele uma preocupaqgo
pelo lalo dramatic e significativo do comportamento human, uma
filosofia de vida posta em tirmos expresses.
Consciente disso, explicou-me um pasquineiro: "P precise que
a gente se isole para pensar. Eu quando estou s6sinho, trabalho na
iddia. A precise pensar para elevar o pensamento meditative. Quem
nao concentra no que faz nao pode fazer nada que preste: 6 uma
canoa, 6 um caibro, 6 um pasquim". E ile deu mostras disso, nao
apenas se negando a cantar um pasquim que nao estava pronto,
como me fornecendo um piano s6bre como iria desenvolv6-lo, pon-
tuando as id6ias centrais.
Nenhum outro produto do folclore da Ilha reflete tanto, como
o pasquim, as caracteristicas da vida comunitaria. Seus temas e pro-
blemas emerge diretamente das atividades e situaq6es do grupo
e principalmente daquelas que se define como problemiticas ou
importantes. Pocfer-se-ia caracterizi-lo, pelo menos em part, como
uma forma de "auto consciencia" do pr6prio grupo.
Mas ainda esti em processes integragio do pasquim aquela
cultural. Porisso mesmo, o padrao de sua fatura limita-lhe a 6rbita
de interesses (dos muitos em potential que a "situagqo social" ofe-
rece): "nem tudo da pasquim" diz a comunidade e confirm o
pasquineiro.
Na sua caracteristica de produto hibrido, que serve a uma por-
qgo de funq6es, vArias perspectives 1hef sdo possiveis.
Contudo, por aquele aspect que Varagnac chamou de "trans-
fert folklorique" pelo qual um fato folcl6rico pode mudar de funqdo
no decorrer de sua hist6ria sern que sua forma se tome irreconheci-
vel (2), as possibilidades do pasquim ainda sao limitadas. Porisso
mesmo, embora Tido Reis, pretend, como me anunciou, "deixar
de falar de gente" para "falar nas consequencias" (e que suas cogi-
taq6es s6bre a guerra motivaram) mostrou-se surpr6so quando Ihe
perguntei porque nao tirava um pasquim de Santos, para onde se
afastou: "Mas como, se nao ha acontecimento?
Mle bern um representante de sua sociedade, apesar de tudo,
sociedade a quem cabe promover a seleqio dos acontecimentos con-
siderados significativos e que ainda esta endicisa entire o traditional
e as perspectives novas nesta definiqao.


(2) Andr6 Varagnac, Op. Cit. p&g. 26













OS "PASQUINS'I NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 41


PASQUIM DO POMBO BRANCO (*)

(Autor desconhecido. Tirado na Ilha de SAo SebastiKo. Fragmento de
um pasquim outrora long. Colhido em Cambaquara.)


Vista crepe, vista seda,
Mais num vista estacio (1)
Que a fazenda 6 muito fria
Da muita empanturragao.
Que a fazenda 6 muito fria,
Da muita empanturrag-o.

Va... u... 6...
Olha que eu tenho amO... 8.
Que de rOpa (2)
Da fazenda do vap6... 6.


II

Cheg0 o maiora da Ilha
Pelo nome capitao
Ele foi compr& fazenda
Mais num achd em condig.o.
Ele foi compra fazenda
Mais num ach6 em condigao.
Comprd um corte de carea
Veiu sacudindo a mao.

Va... u... e...
Olha que eu tenho amO... 6.
Etc., etc..


III

Quern quiz6 comprA fazenda
VA no Sombrio e Castelhano (3)
Que tiraro do vapb
".Pombo Branco" americano.
Que tiraro do vap6
"Pombo Branco" americano.

Va... u... 8...
Etc., etc..


O pessoA se apegarom (4)
Que o vap6 pr& pedra suba
Onde ter muita fazenda
No Bonete e Indaiauba, (5)
Onde ter muita fazenda
No Bonete e Indaiauba.

Va... u... 8...
Etc., etc..



V

Nesta minha p8ca idade (6)
Tenho visto coisas boa:
Moca pobre vesti seda,
Mulhe rema na canoa.
Moga pobre vestl seda,
Mulh6 rem& na canoa.
Celestino no vap6
A corr6 de popa a proa.

Va... u... e...
Etc., etc..



VI

Garceano Ia na praia,
Redondo que nem um pao,
Dizia pros seus patricio
Que tir6 grande porgao.
Olhava para o navio
E danCava o charlestAo.

Va... u... e...
Etc., etc..


(1) Possivelmente astracl.
(2) "Que quantidade de roupal" Expressio muito comum no litoral norte, onde
se ouve constantemente: "Mas que de gente!" por "Mas quanta gente!"
(3) Bairros da Ilha pr6ximos do lugar do naufragio.
(4) Fizeram promessa. ContraCao da frase: "Se apegaram cor tal santo."
(5) Bairros da Ilha pr6ximos do lugar do naufragio.
(6) Expressio comum, empregada ate por velhos.

0. O navio em question, chamado "West World" (Veste V6rde no dizer local) era
americano. Na Ilha ficou conhecido por "Pombo Branco". Trazia grande car-
regamento de seda, de que ainda existem restos no bairro do Sombrio, apesar
de datar o naufrigio de uns vinte anos. Nio raro se encontram "reliquias" de
antigos naufrigios nas casas caicaras, como lougas, sedas, etc.. Muitos navios
foram a pique na Ilha, como o Principe de Astdrias, o Velasquez, e varios outros.











42 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


PASQUIM DO BOI BAHIA

(Autor desoonhecido. Tirado no Bairro do Perequ6, Ilha de Sio
,Sebastfio. Collido no Pereque).


Eu passed 1& no engenho
Minha carca de orf6r (?)
Dei co Bahia morto
M'enganei que era um lencor


II

Amigo Joao Ogenio
Sua-perna vale dois
Veiu na carrgra grande
Pulo por cima do boi.


III

Emidio velu de cima
Veiu busc seu quinhio.
De tanto povo que tinha,
Tomarom a faca da m~o.


IV

No caminho d'Agua Branca
Fizerom a unlio
Crespim e Joao AntOnio
Repartiro o coraao.


V

"Bom dia, Pedro Carnero,
LA na praia tdo dizeno
Na repartiCAo da came
Lograste a AntOnio Pequeno".


Eu jA tenho came fresca
VO manda compr& o feijao.
A savelha que mataram (1)
Vendo a quatro pr'um tostao.


VII
Santinho de Joao Estebo (Este-
vao)
Traga de lI os talher
Venha prA cima armogar
Num percisa pincin6r.

VIII

Quando o Bahia morreu
O TeutOnio deu um grito
Que tamb6m queria o chifro
Pr, canudo de pito.


IX

Messia trOxi a care
Oz6rio correu foi ve.
"Oz6rio voc6 num conte,

Qu'eu reparto com voce".

X

Este pasquim foi tirado
Por duas moga soltgra
Binidita Luciana,
Cor Francelina Viera. (2)


(1) Na Ilha. se diz "matar peixe" em lugar de pesear. Assim por exemplo se diz:
"0 peixe que ele matou" e nao "0 peixe que l&e pescou."
(2) Maneira ingenua de disfarce, porquanto as mulheres nio tiram pasquim.











OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO' 43




PASQUIM DO AIMORi

(Autor desconhecido. Tirado na part sul da Ilha de Sio Sebastlio.
Fragmento de um pasquim j4 esquecido em parte. Colhido em
Cambaquara).

I VI


Vinha um vapO do sul
A meia nolte seria
Vinha na linha de terra (1)
Para o Rio se dirigia
Foi encalhA lA na Ilha
Num far6 qu'em terra havia.

II
Quando o vapd encalho
Fal6 no radiograma
Resposta veiu do Rio
Isso foi por telegram
O povo quando sdbero
De alegre batero palma.

III
O seu nome era Aimor6
Trazia mercadoria
Came sdca, leite e banha
E 6tras mais iguaria
FcrfD e mate derramado
No porao C que se via.

IV
De manhtL chegO Laguna
Junto c'um rebocado
J& viero co destino
Para tira o vap8.
Foi debalde, num saiu
Do luga onde encalh8.


SenhO Joao de Alfaia
Como mais espertalhao
Trabalh6 de zangarblho (2)
Foi 1. dentro no porao
Licenra do comandante
Mandado do capitdo.

VII
"Escolha treis quilo bio
Da melh6 came que houv4
Que eu quero mand& pr& mae
Que arreparta com Jos6
Pr& v6 se ela acha bao
A care do Aimor6".

VIII
Agora as coisa mud6-se:
A costdra agora 6 praia (3)
Vai-se pr& 18 6 Conrado,
Vem-se pr6, c 4 Alfaia
0 povo de 18 de terra (4)
Cor certeza num trabaia.

IX
Gente do "Cabelo Gordo" (5)
Isto que 6 bem de se v6 (6)
Quando 6 tempo de savelha
Aqui num venhom vendA
Porque 4 porto de pedra
Tenhom medo de morr4.


Resposta da companhia O senh6 Pedro Botelho (7)
Se 8ste vapO num saisse J& num venda mais fiado
A care sdca que tivesse BotO a. praca na porta
Cos pobres arrepartisse PrA vendA por atacado
O comandante de bordo E por causo desta care
Em palabras alta disse. Ja and6 bem machucado.

(1) Pr6ximo da costa.
(2) Aparlho utilizado para ferrar tainhas. Consta de uma haste terminada em
pontas recurvadas. E' amarrado a uma corda e langado no meio de u'a manta
de tainhas. Consegue-se As vezes fisgar mais de uma num s6 lance. Foi
utilizado, devido as pontas recurvadas, para fisgar os sacos do porao do navio.
(3) Significa que o pessoal se movimentava na costeira corn tanta desenvoltura,
que parecia estar andando numa praia.
(4) Do continent.
(5) Bairro situado no continent fronteiro.
(6) Deve-se tomar nota, observer bem.
(7) Morador do bairro do Cabelo Gordo.












44 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


PASQUIM DA REVOLUCAO (1932)

(Autor desconhecido. Tirado no sul da Ilha de Sfo Sebastiao. Colhido
no Perequ)).


Senhores e senhorita
Preste bem atengQo
No causo que v6 cont&
Com dO no meu coragao
As tristezas dessa Ilha
Durante a revoluu&o



II

ChegO a revolug o
E nois comecemo a sofrS
Diziam um para o Otro:
"Que habemo de faz6?"
Dizia os negociante:
"Nois num temo o que vend6".



III

No dia nove de julho
Se aproximando o serao
Na praia do Curra (1)
Encontrel dois cidadao
E eles conversava
Afim da revoluclo (2).



IV

O senh8 Dono Rodrigo
Sofreu que num foi brinquedo:
Embarc8 numa canoa
E foi pr& Santos sem medo.
De Ia trOxi mantimento
Pro pessoA de Sao Pedro. (3)


O senhO Dono Rodrigo
Por sG um home cangado, (4)
Por sG muito cavadb,
Num podendo esta parado,
A bordo do "Belmonte"
SEle foi desfeiteado.



VI

Sofremo farta de tudo
Foi de querozene e fumo,
Houve uma mortandade
E um silencio tAo profundo,
Se temo que sofrr mais
Ant-S que Pso innhe o mundo.



VII

Sobremo falta de tudo
Do sabao e querozene.
Dizia os negociante:
"Isso aqui ja num se vende".
Dizia os chefe de familiar:
"Llis em casa num se acende".



VIII

Na venda do Zacharia.
Nio se pode mais par.
Por causo do tiroteio
Que t6da noite havia 1l.
Tern morrido tante gente
Daya d6 ints de olha. (5)


(1) Bairro da Ilha, situado na part sul, mas antes da "Ponta do Sul".
(2) A respeito.
(3) Nome local de Cambaquara, por possuir a capelinha de Pedro, o padroeiro
do bairro.
(4) Homem que faz servigo pesado.
(5) HA muito exagero do tirador de pasquim. A movimentacio da Ilha no tempo
da revolugpo foi grande devido & presenga dos navios de guerra. Nada mais.












OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO


Vamo fala num rapais
Que morrava no CurrA
Ele era muito rico
Dono de banana
A bordo do "Belmonte"
Quizerom Ihe amarr&.



X

Vai-se cont& 6tro causo
Que se deu em Sao Sebastiao
A prisio de dois tenente
Que vinhom que nem fujao.
Quasi que entraram na chave (6)
Por falta de batelao.


XI

Vai-se fal& nesse povo
La de Sao Sebastiao:
Todos sao revoltoso,
Todos sao valentao,
Mais num pervp na arma
Porque temia o canhao.



XII

Pessoa de terra fire
Sofrerom calamidade
Por causo de aguca e banha
Pode cre que foi verdade
Ainda langarom mao
Na guararema do Trindade. (7)



XIII

No meio desses senhores,
Veiu um home valentao:
Dizia que se atrevia faze,
Uma esquadra de avio.
Pr& bombarded Sao Paulo
E ganh& a revolugao.


Este valentao senh6
V6 lhe conta quem 6:
Umn t& de Santos Dumond
Por nome-Man6 Ab6
Durante a revolugao,
Ele bancava mulh6.



XV

Comandante arrespondeu:
"Meu nobre senhO Joao.
D6xa o prego mais barato
E d6xa de exploragao
Senao eu Ihe mando prend6
Aqui nessa prisao".


XVI

Um ta de Joao Batista
Dava parpite sem sab6
Dizia para Boboca:
"Nois habemo de vence!"
Mais quando via marinheiro,
Bota perna pra corr6!



XVII

Vai-se conta 6tro causo
Que se deu em Vilabela (8):
Tanta mocinha bonita
Se faziam de donzela,
O marinharo cheg6 (9)
Dexo nome na costela.



XVIII

Senhores e senhoras
Me qu4rom me descurp&
Pego a todos que me lerem, (10)
Os erros num repar&.
Num 6 de ofende ninguem
Carqu6 um pode cant&.


(6) Foran para a prisio.
(7) Cana, Refere-se a sua utilizaeio para o "cafe de garapa" feito em substi-.
tuigio ao "cafe de aeucar".
(8) Atualmente Ilhabela. O centro administrative da Ilha.
(9) Refere-se aos marinheiros dos navios de guerra que, ao que me informaram,
"criaram muitos casos" no tempo da revolucao.
(10) Nunca se pode saber, ao ouvir-se cantar um pasquim, se o remate corresponde
ao original. Os violeiros nao raro adaptam a terminagto As circunstancias
do moment. No present caso, eu estava tomando nota enquanto o pasquim
era cantado.












46 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


PASQUIM DA PRAIA GRANDE (*)

(Autor desconhecido. Tirado na Praia Grande, Ilha de Sio Sebastlio.
Oolhido em Jabaquara).


Pois & assim meus senhorea
Eu falei e vou falar
Praia Grande desta vez (1)
S6 tern a se levantar
Depois do barco Oceano
Esses grande banana.



II

A quatro anos atrais
Viajavam no Margal (2)
Depois do barco Oceano
Nao ha outro barco igual
Joao de Sebastiana
Pra ele 6 todo o ideal.



III

Praia Grande antigamente
Era porto do Margal
Agora nao chega mals
Con Campo Grande esta mal. (3)
O Apolo por acaso (4)
Qu6 voltar no lugar.



IV

Mas nao slo todas viagem
u uma 16 outra cA,
O mestre jia est& avisado
Pra olh, sempre o sinal.
Se no porto do Chico Branco
Tem cachaga pra embarcar. (5)


Chico Branco quando v6
0 Apolo apit&
Corre logo de carreira
Os meus barris vem la.
Vou avisa pra Christovam,
Que tern pinga pra embarcA.


VI

Fala seu Chico outra vez
De outro barco nao m'importa
S6 goato do Apolo
Por ser barco de proposta
Me cobra 15$000 reis
De passage ida e volta.



VII

Fala seu Chico outra vez:
Eu podia viaj&
Corn Maneco no- Oceano
Por ser filho do lugar
Mas tem um socio p6o duro
Que a gente qud descascA (6).



VIII

Antonio Gomes falado
P de Santos naturar
i um pao duro de chapa
Isto 6 o que vi falar
Se ole for sabedor
Eu tenho provas a dar.


* fste foi o -lnico pasquim que consegui obter na forma escrita. Deu-me esta e6pia
a senhorita Clarice Tag6, do bairro de Jabaquara (norte da Ilha), que a havia
tirado no bairro da Fome (norte da Ilha). Tratando-se de uma familiar de mais
recursos, cujos filhos estudaram em Santos (uma das filhas 6 professor) poe-
sivelmente esta c6pia tenha sido retocada.

(1) Priia Grande 6 um bairro da Ilha.
(2) Marcal: barco de cabotagem.
(8) Campo Grande: barco de eabotagem.
(4) Apolo: barco de cabotaiem.
(5) Aguardente.
(6) Esfolar, explorer.











OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 47


Ix

E um P1o duro de chapa
Isto 6 o que vi falar
Antonio nZo 6 pao duro
Tern seus filhos pra criar
Ganha corn dificuldade
Nas brabas ondas do mar.


X

Se Antonio 6 pao duro
Isto la 6 que nao sei
Confesso a minha verdade
Corn ele nunca tratel
Conhego a ele de vista
Se ele 6 pao duro nSo sel.


XI

O barquinho leva em Santos
S6 3 dias na semana
Domingo, segunda e terga
E quarta se nio me engana
J& est, na Praia Grande
Nsta terra de banana.


XII

Quando a praga est& boa
Eles comegam a court&
Um diz eu tenho dez duzias,
Outro diz eu tenho igua.
Fala um gajo no meio.
Agora 6 pra marrotd. (7)


XIII

Joao de Sebastiana
Fica falando s6zinho
Eu agora you cort&
Nem que seja um macaquinho (8)
Vou escrever a Saguerosa
Que me faga um bom precinho.


XIV

Falemos na Praia Grande
Na nossa terra natal
Onde mora alguns rapais
Que s.o dono de banana.
Argentino e seu irm.o
Tern banana pra cortA.


XV

Os bananeiros mais forte
LA daquele quarteirdo
Joao Lucas e Argentino
Chico tamb6m e JoAo
O Joao ja perdeu uma
Diz ele que est& na mao.


XVI

Falemo no outro rapais
Que tamb6m plant banana
Ele 6 muito conhecido
i Joao Correia Santana
No dia que o Oceano chega
Diz ele: VO v6 as grana.


XVII

Joao Correia de Santana
Tambem se habilitO
Quando vW a rotagao (9)
Fala com grande rancO
Vai perguntando a quem passa
Se o Oceano j6 chegO.


XVIII

No porto do Juca Torres
Da prazer de si olhi
No dia que o Oceano chega
t movimento'sem iguA
Uma carrega, outro carrega,
Quint6 chega a se esbarra.


(7) Para fazer poueo caso, para se desfazer na afirmagSo de outrem.
(8) Cacho de banana mirrado.
(9) Barulho do motor do barco.











48 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


XIX

Defoncio ainda nao tern
Um ramo pra viv6 (10)
Pro ano ele Ja tern
Bananas para vend6
Por enquanto ele s6 corta
Macaco. com saporem (11).


XX

Falemo noutro rapals
Que aqui nao. se fal6
i Ollmpio de Frederico
Da Praia Grande morad6
Toda a sua produqo .
Con Maneco contract.


XXI

A 9$500 a duzia (12)
Assim ele me fal6
Olimpio corta e carrega
E poe no embarcad8 (13)
Delxando a disposigao
Do Maneco comprado.


XXII

Maneco leva pra bordo
86 diz eu pago depois
Nao tenho nenhum trocado
O que eu tinha j& foi.
Val dizendo em viagem:
Desta vez eu mato boi.


XXIII

Defoncio tamb6m plant
No territ6rio de seu pai (14)
E dele e mais dois socio
Diz ele que nao d& pra trais.
Acabando esta batida
Havemo de roca mais.


XXIV

O Defoncio ja tem
800 pgs plantado
P dele cor mais dois socio
Man6 Leste falado.
Reside I1 na Bexiga (15)
E pra roc& e um desastrado.


XXV

Pois 6 assim meus senhores
JA falei e vo fala
Praia Grande desta vez
86 tern a se levant
A plantacio de banana
Esta sendo colossal.


XXVI

Me descurpe meus senhores
Esta minha m& ousadia
De tira esses versinhos
E clamar sobre o dia:
FaCa uma boa cstrada
E former uma companhia.


XXVII

Se formarem uma companhia
VO resa, a Slo Jos6
Que a banana fique boa
De dois cacho cada p6.
Se quizerem me pag&,
Eu trabalho de chofe.


XXVIII

Me disculpe meus senhores
E me queiram desculp&
Se o pasquim nao est& bem bom
Minha memoria nao d&
Isso foi uma brincadeira
Co pesso& de meu lugA.


(10) Uma ocupagco.
(11) Saporem A um p6 esbranquicado que da na banana e na mandioca. "E' a
doenga da banana, que deixa os caebos mirrados". Portanto, macaco corn
saporem significa cacho de banana miuda, atacada pelo saporem.
13i) Vendem-se os cachos de banana por dlzia, cor exceCAo da banana da terra,
que e vendida por cacho. .
(13) Lugar de embarque.
(M) Terreno.
(15) Bexiga: bairro da Ilha, pr6ximo da Praia Grande.












OS "PASQUTINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 49


PASQUIM DO ROSA

(Autor desconhecido. Tirado na-"Ponta do Sul", Ilha de Sao SebastiSo.
Colhido em Cambaquara).


Naquele ventqo passado,
Naquele tempo que deu (1),
O barco Rosa, do sul,
Nos Borrifos pereceu (2).
O pessoa la dos Frade(3)
De naufragado s'encheu.


II

Meu senh6 Mane Andr6 (4)
Roi quem prest6 boas agao:
Leb6 o caso em justice
Intim8 a Papai TAo
Pra comunica os caso
Ao inspet6 de quarterAo.


III

Arrespondeu Papal Tao:
"Seu Mauricio aqui'st6
Hoje me acho intimado
Mandado do professO (5)
Benho Ihe comunica
Que o barco Rosa encalh8.


IV

O Mauricio arrespondeu:
"Aqui 'st& na minha mao,
Daqui vai a Ilhabela,
De 1& a Sao Sebastiho,
De 18 vai comunicado
Vai fosto em radiacto". (6)


O radiograma falO
As seis hora da manh.
A resposta que veio do sul
Pra pega o que boi8.
- Mais num me coma esta banha
Que 6 artigo intistinu (7).


VI

Arrespondeu Jos6 Rosa
A senh6 Manu4 Maria:
"Essa porquera num presta
Bamo dexa a riviria (8)
Que a banha era intestinA
Que tempo eu jA sabia!"


VII

As duas hora da noite
Estava o povo em suti (9),
Beiu umas b6ze diz6:
"Messia a banha ta. .
Passe o dinhero prd ca
Que nois queremo sal".


VIII

Meu senh6 Man6 Faustino
JA tinha o barco por seu.
AchO pOco nesse dia
Do disastre que se deu.
Inda quiz mete o gorne (10)
Na cara dum primo seu.


(1) Tempestade.
(2) Bairro da Ilha, de acesso dificilimo. Para desembarcar-se, 4 precise puxar a
canoa pela pedra acima, por meio de um cabo. Cor mar agitado 4 impossivel
aportar.
(3) Bairro da Ilha, pr6ximo de Borrifos.
(4) Inspetor de quarteir8o de Borrifos.
(5) 0 professor 4 o pr6prio Man6 Andre, inspector de quarteirio, que ja lecionou
como leigo na escola local.
(6) Quando se di um "acontecimento" num bairro, imediatamente o inspector de
quarteirio "toma as providncias" 'e a noticia passa de bairro em bairro,
at6 chegar a Ilhabela, "pela mao do inspet6", como se diz pitorescamente
no local.
(7) De a (8) Ao relento. A frase significa abandonar, deixar de lado.
(9) Descansado, calmo.
(10) Moitio. Especie de roldana de madeira.












50 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


IX

Quem me cont8 fol Lilera
Mais eu num quiz creditt:
Que caquele sudoeste,
Caquele frio de mata. (11),
De media noite em diante
O far6 rondava 1& (12).



X

Aquele barco bateu
Naquela braba costera,
Que muita gente tir6 cobre
Que at6 fizero-frigiddra,
Arrumaro forno Velho
Que 'stava que nem penera.



XI

Este barco que bateu
L. na Pontinha do Sul
Quem fic8 mais protegido (13)
Fol Ramiro, Lessa e Lulfi.
Andavom em cima das pedra
Qu'int6 parecia urubfi.


XII

Bamo fala no Fravio
Como se diz Impust6.
Fof se mete cu'aquilo,
Que de nada adiant6.
Para ansim v& no inferno
A alma de SarvadO.



XIII

Ele fof no Perequ6 (14)
E contd pra Pedro feita,
Que a chapa do barco Rosa
Sarvad8 foi quem tir6.
"Me processed esse home
Que esse home 6 marfeitS."



XIV

O future foi terrive (15)
Do caterinenso Rosa (16).
HilArio fic6 na chave (17)
E Sarvad8 vetu s'imbora.
EscapO de trumhbic (18)
0 povo de la de fora.


Falemo em Papal Tao
Que comeu a came podre.
Tird do fundo do mA,
Num sei como int8 ele pode.
Acabb cos intistino,
Disgragc corn a saude.



(11) Dizem que o frio que fez na nolte do naufrigio foi "o maior que jA viu".
Porisso na part sul da Ilha a expressao "frio do Rosa" significa um frio
muito intense.
(12) Lampeio. Significa que havia gente saqueando o barco.
(13) Quem aproveitou mais, tirou maior vantagem.
(14) Bairro da Ilha, pr6ximo de Ilhabela.
(15) 0 resultado, o desf8cho.
(16) O barco Rosa, a vela, era de Santa Catarina.
(17) Foi preso.
(18) Trumbici e enganar, passar a perna. A frase significa: foi impedido de
enganar.












OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 51


PASQUIM DO ENGENHO OU DO RODAMONTE

(Da autoria de Joaio da Cruz e Sebastlio Reis. Cambaquara, Rha de
Sao Sebastiko. Colhido em Combaquara).


Me preste atengqo senhores
Do casu que eu v6 cont&
Deste grande tromentao
Que caiu nesse luga
O engenho do Rodamante (1)
Vird de perna pro A.

II

Quem tiv6 suas fazenda
Em luga particular
Corn nome de Rodamonte
Faga geito de tired
Rodamonte ta rodando
Num se sabe que vai da.

III

Sinh6 Joaquim Roque
Arrend6 aquilo aI
PrA onze ano de prazo
E mais si si acostuma
Saiu de rota batida (2)
Sem o geito de andS.

IV

Sinh6 Jos6 Mateus
Tamb6m queria atrenda
Pra desmancha em rapadura
Aqueles canavi6.
'Foi desmanchado o contrato
Na hora de assinA.

V

Onde tinha um cidadaio
Que cinco mil reis I ganbh
Foi pago por seu Mateus
Em trico de lhe amostra
Casa d'engenho 6 morada
Mata virgem, banana.


Tudo isso e tnhaca (3)
Que egiste naquil6 lI
Messia por sua veis
Foi corn dinhdro pr& comprt:
Quinhentos mil reis em nique
Que nem podia carregf.

VII

O Lilinho arrespondeu:
"Num podemo conversA.
Va-s'imbora descangado
Qu'eu num vendo aquilo l .
Eu mais perfiro qui caia
Que o povo vA se gosa."

VIII

O Messia feis promessa
Cum dO no seu coragEo
Que Sao Rufo lhe mandasse (4)
Um dos mai6 tromentio,
Que quiria v8 o engenho,
Estrondando contra o chio. (5)

XI

Sao Rufo entao mand8
A dizessete de abri
Um tromentao qui nem esse
Neste mundo inda num vi.
A m6de que foi mandado.
Pro engenho destrui.

X

Caiu um grande tromentio
No nosso lugA aqui
Eu me alembrei de Aguiar
Que andava na Sahy
Sobre a praia da Enseada
Ia enconstando a Iraty.


(1) Bairro da Ilha, situado na part sul, fora do canal.
(2) Caminho costumeiro, corn o qual se ter familiaridade. Em sentido figurado.
mudar de hAbitos.
(3) Ma sorte, "azar".
(4) Acredita-se que S. Rufo seja o responsfvel pelos ventos e tormentas, pelo
fato de haver caido um temporal, que ficou na mem6ria do povo. no dia
diste santo -(27 de agosto).
(5) Caido corn estrondo.












52 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


Bamo fala no engenho
Qu'inda num se. acabA
Que hoje si acha no chio
Que a tromenta derrubO.
Foi milagre de Sao Rufo
Quem cum 6le se apego. (6)

XII

86 a 4gua do Arcide
t s6 quem pode conta
Que quando o ingenho caiu
Escape de lhe mata
Se viu tio pricipitada (7)
No meio do capinz&.

XIII

Desmanzelo disse home
De dexa a 6gua 1&
'Cinco dia degradada
No meio do capinz&.
Uma viga do engenho
Escape de lhe matA.

XIV

Quando 8sse engenho calu
A m6de que ate voO
JogO telha at( no porto
Pra cima dum sartad8 (8)
A m6de que quiz dizO:
"Bernardino, eu aqui v6".


(6) Apegar-se cor um santo,
(7) Desnorteado.
(8) Pedra que, num lugar de
outras.


Sinh6 Joaquim Floriza
Foi pr& fora caceA (9)
E horas tarde da noite
EnxergO um far6 lI.
De certo era os manata (10)
Que as telha iam robA.

XVI

Isto num 6 roba:
Isto 6 se defend!
Quem do muito tira pdco,
Qul farta pode faz8?
Tolo de quem ingnora
Daquilo qui pode s8!

XVII

O engenho ta no chao
As telha pela metade
Quem roba 6 porque percisa
Na sua necessidade
Pra faz8 o seu chatO
Embora seja mais tarde. (11)

XVIII

O engenho ja caiu
Farta a casa da morada
A consolagao qui tenho
Que aquilo se acaba em nada
Bai lebi a mesma derrota (12)
Do Rafael ca boiada. (13)


significa fazer promessa.

costeira, serve de trampolim para se atingirem as


(9) Na pesca a palavra cacear se aplica exclusivamente ao uso da rede chamada
minjoada. Esta 4 langada de dentro da canoa e deixada suspense por meio
de bias numa das extremidades. Da outra extremidade, sai um pequeno cabo
que o pescador mantem seguro, dentro da canoa. A rede fica esticada. O
peixe bate na rede e fica "emalhado". Pelo movimento que o pescador senate
cada vez que um peixe se emalha, pode avaliar a amplitude de sua pesearia.
Outras vAzes, em lugar de ficar segurando o cabo, o pescador o amarra A
costeira. A rede fica fundeada e depois gle vai visiti-la. Neste caso nio se
emprega a palavra cacear. Quando estA caceando, o pescador segue corn a
canoa o movimento da rede que se desloca dentro d'Agua.
(10) Manata, que o pasquineiro explicou-me significar "aquiles que gostam de se
aproveitar dos outros, de roubar", possivelmente venha de magnata.
(11) E' comum desfazerem-se as casas velhas e vender o material. lste 6 com-
prado para a construgLo de casas menores. Nao raro se adquirem aos poucos
restos de demolioqes que sio guardados para quando se prcsa .levantar casa
pr6pria.
(12) No literal norte 4 frequent a troca do b pelo v.
(13) Refere-se a um senhor de S. Sebastifo que tentou criar gado na Ilha num
local deominado Lage e que nio conseguiu levar adiante seu empreendimento
porque "havia muita erva de rato que deu cabo de tudo", segundo a infor-
mag1o.









OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 53


XIX

Inda tem um cidadao
Qui de 1I foi moradO
Saiu pro porto se rium (?)
Que as canela machucO
Hoje veiu pra Sio Pedro,
Sua vida melhoro.


XX

O engenho j. caiu
De nada se aproveita
Temos gentes que senate a farta
At6 na hora que deita
De passes frios pro corpo
Que parece uma maleita.


XXI

De telha e porta e mad@ra
Tudo mundo se gos6 (14)
56 o buraco do inferno (15)
S6 64e qui 1& fic6
S6 serve pra interra
Quem 1 as telha rob8.


XXII

O Arcide n6tro dia
Peg6 no seu batelao
Arranj6 treis cutnar-ada (16)
E foi a Sao Sebastiio
Foi contA para o Lilinho
Que o engenho tava no chio.


XXIII

0 Lilinho arrespondeu:
"Olhe bem aquilo 1&!
Me ponha bem arreparo (17)
N.o d6xe ningu6m roba,
Que o trabalho que tiveres,
Muito bem te hei de pag-A".


XXIV

Mais de nada adiant6,
Tudo tornO-se em asn6ra.
NOtro dia ja egistia
Telha pelas capuera
Tinha porta e mIo-a-prumo (18)
AtM das melh6 madera.


XXV

O senhO Binidito Ledo
Por s6 uma boa pessoa,
Cubig6 aquele cocho (19)
Pra faz8 uma canoa
Por que tinha na certeza
Que era madera boa.


XXVI

Agora bamo fala
No nosso amigo Correia:
Do engenho num qu6 nada
Porque a coisa vai se feia.
Qu6ra Deus qu'6sses qui robam,
Num vo parA na cadela!


XXVII

Bamo fal em Menino
Que 6 irmio do Capit.io
Do engenho num quiz nada
Que 6 pr& libra de questdo (20)
Que 6 mesmo conselho d&
O seu genro Mane Joao.


XXVIII

Acab6-se aquele engenho
Que as mulh6 se mardizia
Por causes de seus marido
Que tPntos dia perdia
Chegava em casa no porre (21)
Que nem cumr num pudia.


(14) Aproveitou.
(15) Cavidade feita no chio, na parte exterior do engenho, dentro da qual pass
a roda d'Agua de eixo horizontal, fixada a parede. Olhando-se a distfneia,
a roda so apresenta truncada, porque uma parte sempre esta oculta dentro
do "Buraco do inferno".
(16) Remadores.
(17) Tome bem conta.
(18) Partes laterais da armaglo de madeira das portas e janelas.
(19) Reservat6rio de garapa nos engenhos. Ter a forma de canoa.
(20) Para evitar complicac6es.
(21) Embriagados.










54 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


PASQUIM AMERICANO (*)

(Da autoria de SebastiAo Reis. Cambaquara, Iha de Sfio SebastiAo.
Colhido em Cambaquara).


Me preste atengco senhores
No caso qu'eu v6 cont&
Deste grande tiroteio
Que se deu nesse luga.
Gente nessas capuera
Dava horrd int6 se olh&.

II

Primeiro foi Papal Teo,
Segundo foi Wardema,
Cos tiros das balada, (1)
Chegava ate se abaxi
Chegava apert6 garganta:
Pras crianga num chord.

III

O tiroteio era tanto,
Que as brabas onda tremia.
Canhao de 6 polegada
Que rombera num fazia! (2)
Pr& cab& cos alemAo
Que na profundidade havia.

IV

Eu tinha vindo da roga
Tava tomando cafe
Quando vi o tiroteio
SObre o mar do Tobat6 (3)
Quando foi prAs oito hora,
Pra terra velu escalM.

V

SentO-se numa cadgra
ProfessO Man6 Andre.
O mestre tamb6m sent6-se,
E os, 8tro fic6 de p6.
Maneco foi prigunt6:
"0 vap6 que nago e?"


* Tern por tema o naufrigio de um
(I) Tiroteio, "grande quantidade
(2) Buraco grande.
(3) Bairro da Ilha.
(4) Frades. Bairro da Ilha.
(5) Abandona.
(6) Bairros da Ilha.


"Navio 6 americano
Carregamento 6 caf6
Dois lanchdo veiu pros Frade (4)
E dois foi pr& Tobat6.
Nao pense o profess
Que nois somo de ma f6".

VII

Ai responded Maneco
Cum palavras muito ixato
Dizendo pro comandante
E para este imediato:
"Entio v6 chamA meu povo
Que correro para o mato".

VIII

Sraspondeu-lhe o mestre:
"Me descurpe a 8sadia:
Meces que sio brasilaro,
'Tenham que s& home um dia.
Quem dispreza sua casa (5)
Num pass de covardia".

XI

Fala Maneco 6tra veis:
"Julgava que era alemho.
O povo correu pro mato,
Eu fiz comonicag o.
Pra Tatambora e Curr, (6)
Pirciparmentes entio.

X

Tatambora e Serraria
Formaro um batalh.o.
Quem cum foice, quem cum faca,
Cada um co' seu bordao.
Diziam que derrotavom
Si acaso fosse alemao.


navio americano na Ilha, na epoca da guerra.










OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 55


XI

Tatambora e Serraria
Formaro um arranzi. (7),
Gritavom: "Viva o Brasil!
Que alemao se mete o p6.
Vamo d. nossa coragi
Ao povo de Tobat6".


XII

Chegano 1& encontraro
A Silverio e a Manu0,
Americano no porto
E este povo em arranz6.
Mesa de pao e manteiga,
Mortandelas e cafe.



XII

As duas da madrugada,
O imediato falO
Pra faze novos cafe
Que o mestre foi quem mandd.
Arrespondeu Bernardino:
"Artur, v& lava o quad6".



XIV

No meio existia um,
Que pulava que nem viado:
Uma foice de 3 palmo
Cum metro e meio de cabo,
O dedo de seu Messia
Nessa note foi cortado.



XV

Senhor Joaquim Floriza
Corria como indiota.
MedrontO esse povo todo
De Praia Grande a Ilhota. (8)
Fez a Nano arriba (9)
C'uma sanfona nas costa.


XVI

Santinho de Bindito Jorge
AlarmO seu quarterio
Logo priviu de acend8 (10)
Faxilaite e lampeqo.
DexO o povo nas escura,
Correno sem direcgo.


XVII

O que'stava em alegria,
TornO-se em africo.
Tava o "Oceano" na prala
Tava o mestre na fungao,
Quando o Santinho grito:
"La fora tern alemio!"


XVIII

O mestre pass pra bordo
Nesta mesma ocasido.
Motorista e marinhrro
JA cum nova intimacgo.
Para cont& este caso,
La em Sio Sebasti.o.


XIX

O pessoa de Purtinho (11)
Correro prum lamardo.
Ate o tA de pernilongo
Apric6 muita injegao.
Os mosquito feis faxina
Na cara dos bobalho.



XX

Ja comuniquemo os caso
Pela mho dos inspeto;
De Santos pra Norte-America
Radiograma j, levO;
Bamo fala nos artigo
Que americano dex6.


(7) Barulho, confusfo, grande movimento.
(8) Bairros da Ilha (Ilhote).
(9) Voltar, retroceder.
(10) Proibiu.
(11) Bairro da Ilha.










56 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


XXI

Canivete anavalhado,
Faxilaite e covert,
Inceriados de prim6ra, (12)
Artigos de bom val8.
A vida de certas gentes,
Pode cr6 que amelhor8.


XXII

Saude queremos nois
Na corrida deste ano, (13)
Festa no corr6 da ilha,
Qui o tempo nao haja engano. (14)
Quero v6 negro festa
Cum terno de americano.


XXIII


Esse pessoai fais tudo
Tudo qui da no pensA:
Os artigo americano
Fizero narcionA:
Os terno que era de fecho,
Fizero pra butu&.


XXIV

Agulha qul custurava,
E a tisora que recortO,
Esses terno americano,
Povo jA modificO:
De terno fizero brusa
No tipo de aviadO,


XXV

Esse dito faxllaite (15)
Veiu dentro d'um barri.
Teve um cidadgo que disse:
"Meu filho: num bula af!
Isso sEo colsa inframave,
Olha que num va esprudi".


XXVI

"Papai: isso 6 faxilaite!
Venh'aqui conhece".
Artur apertO o botao
E feis o faxi acend6:
"Ta bom de levA um bocado
Mais tarde pra nois vend6".


XXVII


Jos6eRosa a mim me disse:
"Vente. l cumo vent&,
Pode vim um frio do Rosa, (16)
Corn sintomas de mata,
Covert6 americano
Em casa ter pra farta". (17)


XXVIII

Aonde teve um cidadao
Que ele mesmo me cont6 -
Que artigo americano
Tern uns cinco covert
TA esperano um grande inverne,
Quando pass esse cal6.


XXIX


Senhores e senhoras
Me qu6ram me descurpA
Si o pasquim num tA bern b5io
Minha memorial num dA.
Num 6 de agravA ninguem:
Carqu4 um pods canta.



(12) Encerados.
(13) No decorrer.
(14) Que o tempo nao o impeea.
(15) Lanterna elitrica. (Flashlight)
(16) Expressio local que significa frio intense, porque na noite em que naufragou
o barco Rosa (de que hM tambem um .pasquim) "fez o frio mais cortante
que se conheceu na Ilha". Muitas expresses surgiram da mema forma.
Por exemplo, por ter soprado um sudoeste muito forte, que fez virar a canoa
em que viajava um padre, em Ilhabela o sudoeste 6 "o vento do padre".
(17) Cor fartura.













OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 57


PASQUIM AMERICANO

(Outra versio. Autor desconhecido. Tirado na "Ponta do Sul", Ilha de
Sao SebastiMo. Colhido no Boneto).


Senhores preste atenvgo
Num causo que assucedeu
La naqueles mares do sul
Quando o americano pereceu
Submarine alemao
Cum dois tiro Ihe ofendeu.


II


Arrearam os escala
Uma bat@ra, pro Frade
E outra prA Tobat6
Trazendo covert pros home
E mpdalha pr&s mulh6.


III


Batera no Tobate,
Deu pra gatos e cachorro,
MoSo que bancO granfino
GanhO relojo de Oro.
Como e triste t& as coisa
Sem custA o seu tezOro!


IV

Batgra no Tobate
Fic6 toda escangalhada
Co' marinheiro de horas
Que la tinha namorada
A qual partiu pros Frade
Fic6 disafundiada.


Senh6 Severino Borge
Ele parece um dot6:
Na casa dele egiste
Um cento de covertO;'
Adespois do americano
At6 sapato ganh6.


VI

Falemo no Jos6 Rosa
Ele j& viu coisa feio
Naquele porto dos Frade
Por via dos tiroteio (1)
Num correu, num foi pro mate
Mais dormiu cum arreceio.


VII


Pedro Faustino fal:
"Professo, o que se fais"?
"Milh6 6 ofici pra Vila (2)
Quem vai lev& 6 Ticai.
Ja vem bale@ra em terra
Num se sabe aonde vai".


VIII

0 culpado disso tudo
Fol o seu Istimiano
Que amostra os dois .porto
Pro malvado americano.




IX


Encontrei cum Bento L@do
Falando intusiasmado:
"Trabalhel a note intera
Trabalhei feit'um danado
Num level nada pra casa
Tirante que um cereado. (3)



(1) Devido so, por causa de.
(2) Comunicar o caso A Vila (Ilhabela).
(3) Exceto, a nio ser. Encerado.













58 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


PASQUIM DO LIMO

(Autor desconhecido. Tirado em Borrifos, Ilha de Sio Sebastiio. Colhido
no Bonete e Cambaquara).

I V


Dizessete de abrf
Minha gente eu aqui'st6
Vim mandado da pulicia
PrA prende o disertO. (1)
Do limo que tio tirano
Eu quero se comprad6.


II

Amigos tem muito limo
Af por esta costgra. (2)
E pode tir& prA mim.
E disse dessas asnera:
Trago dinhero em pap6,
E miudo na cartera.


Est8 chegano ao lugrA,
S8 amigo de voceis.
Quero que voceis me digom:
- Onde esta o japoneis?
Trago orde da pollcia,
Quero intima outra veis.


IV

Esses tA de japoneis,
Nao pode est& no luga.
S&o umas gente comprensive (3)
Fais asngra sem pensa.
Mandem a eles embora,
Que nao venhom mais pra ca.


Mais eles sao boa gentes,
Fazem sua obrigagio.
Estao comprando o limo todo,
LA do Bairro do Simao. (4)
J& tenham casa alugada
E vio faz6 barracao.


VI

Assim eles me digs6rom
Qui o povo desse luga,
Que para tira o limo,
Nao percisa o ma vasa.
Nho percisa de muita colsa
Pra arranja seu capital.


S6 se v6 mui6 de carga
Em todo o lugri qu'eu vO.
Co'a perna tao comprida
Que ate parece soc6.
JA tem dinhero guardado
Do limo qu'ela tir6.


VIII

O pessoal j. num importa
Da compra da farinha (5).
ChegArom de la tio long,
Velu para no Juquinha,
Quando vejam a pedra cheia
JA responded: "Esta 6 minha".


(1) Refere-se & retirada dos japoneses do litoral, por ocasiio da guerra. Foram
os japoneses que iniciaram a compra do "limo", ensinando ao pessoal do
local como colhb-lo e trata-lo.
(2) "P6rto de pedra", lugar sem praia.
(3) Incompreensiveis, esquesitos.
(4) Bairro da 1ha.
(5) A farinha de mandioca, alimento basico, de producio domestic, 6 um indice
de auto-suficinncia. Compra-la 6 quase desdouro. A "decadencia" da Ilha 6
posta muitas vezes em termos de "aquisioio de farinha" de fora.













OS "PASQUINS" NO LTTOPAL NORTE DE SAO PAULO 59


IX

Jos6 Rosa arrespondeu:
"Limo num se tira ansim
Vocels fique a bemr perto,
Mas oiando aqui pra mim.
Que o limo teve principio,
Mas nao ha de t6 mais fim."


X

As gentes deste lug&
Ja num s'importa do mundo.
Quem era trabalhadO.
Tao ficano vagabundo.
Tao tirano o limo s6rto
Que 6 aquele 1a do fundo.


XI

O bote do Kinz61
JA anda muito, carregado.
O pesso& IA de fora (6)
JA estno acostumado.
O limo no Tobat6
Quase deu pra mati o Bernardo.
(7)


XII

Coitado dessas velhinha
Que nao pode nem and&.
VEo se rastando na pedra,
Para o limo ir tired.
Vendendo a cinco cruz6ro,
Inda da pra ganhA.


XIII,

Vamo falA no Jos6 Rosa
E o seu cunhado Joio,
Que from tira o limo
Que tava Ia no fundlo.
Logo deu um trem6 na perna
E uma dO no coracao.


XIV

Vamo fala em Jos6
Que 6 um rapais orgulhoso.
Respondeu pr& mim chorano:
"Ai! esta escorregoso"
Se pegO cum todo o santo (8)
E nosso Pal Poderoso.


XV

VO falA no seu Negrinho
Que C um senhO de mal pensa
Quando chega na costera,
D& vontade de choral,
Por causa que o mar num vasa
Para o limo ir tira


XVI

Quem me contO foi Matias
- Nao sei se 6 bem certo on
nao -
Que o pessoA 1& dos Buzio
Pr& descerem no costao (9)
Descem por uma grande corda
Pra traz6 o limo na mao.


(6) Todos os moradores da zona situada fora do canal sio "pessoas de IU de
fora". A zona do Canal se referem como "esta frente".
(7) Refere-se a um doente do Bairro de Taubat6 que ningulm quiz conduzir para
S. Sebastiio, na faina de colher limo.
(8) Fez promessa.
(9) Costio 6 a designacgo local para as costas altas, escarpadas, que caem abrup-
tamente no mar. A rocha inteiriga nio permit acesso como nas costeiras.















60 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


XVII XVIII

Bamo fal em Manequinho 0 limo da peragica (11)

Que mora na Sepituba (10) 3 o liho ido guaia (12)

Carreg6 limo nas costa Por causo desse limo

Que nem carga de sauva Ninguem mais que trabalhA.

Ja gast6 vinte cruzgro E o Pedro do Matimoto

Pra compra um par de luva. Veiu par& no luga.



XIX

Um dizia pro 6tro:

"Quando o m& vasA, me avisa".
(13)
S6 si v6 mulhd de carga (14)

E home sem camisa.

Atd 6 bonito de v4

Que nem corvo na carnica.










(10) Bairro da Ilha.
(11) Limo da peragica 4 assim chamado por dar noa lugares em que se encontra
o peixe desse nome. E' o limo preto.
(12) Lime do guaia 6 o limo vermelho, de menor valor que o da peragica.
(18) A coleta do limo se faz quando baixa a mare.
(14) Para colher o limo, as mulheres usam callas compridas por baixo dos ves-
tidos, o que lhes dA um aspect muito pitoresco. Porisso hi alusio neste
pasquim As pernas compridas como as de soe6. O fato causa estranheza,
porque nio 4 costume usarem as mulheres da terra calgas compridas.
Nota: A extragio do limo algaa marinha) iniciou-se no literal norte hi uns oito
anos, mais ou menos. Dando muito nos lugares de pedras (costeiras e cos-
toes), estendeu-se a coleta para todos os bairros situados fora do canal. De
coleta e tratamento f.cil, alcangando bom prego, comprado por barcos (ge-
ralmente japoneses) no pr6prio local, compreende-se o interesse que desperta.
Um dia em que cheguei ao bairro dos Frades, nao havia um fnico morador:
todos tinham ido apanhar limo. Atribui-se a ele, em grande part, a deca-
d&ncia da agriculture em certos pontos do litoral. Na Ilha dos Buzios tive
oportunidade de constatar a veracidade desta afirmaCao. (Ver a referancia
na sextilha n.o X d4ste pasquim). Kinzol foi o primeiro a comprar o limo
e, juntamente cor outros japoneses, ensinou ao pessoal como colh--lo e
trata-lo. Revendem-no em Santos para ftbricas de does. Ouvi dizer tambem
que tern empr8go em farmacias. Colhido na vazante, 4 exposto ao sol (limo
preto) e ao sol e chuva (limo vermelho, para branquear). Atualmente parece
que estA a ca orz- cruzeiros o quilo (preco local).













OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 61


PASQUIM DA GUERRA

(Da autoria de Sebastio Reis. Cambaquara, IIha de SRo Sebastliqo.
Colhido em Camlbquara).


Me preste atenqgo senhores
Do causo qu'eu v6 cont&
Das tristezas que passamo
Aquf no nosso lug,
A falta do querozene,
Do aquca e do s,.



II

Sofremo necessidade
Por essa primeira veis
Por causa da malvada Russia
Do alemdo e do ingleis
Comemo comida. doeo
Fazendo as veis de japoneis. (1)



III

Teve um cidadao que disse:
"Chega de tanto sofr6!
domida sem sh num c6mo
Mais prefiro perece!"
Pediu que acabasse o mundo
Para v6 tudo morr6.



IV

O povo tinha remorso (2)
Da tristeza que havia
Da misdria em Europa
Do sangue que 1& corria
Do que os j6rna anunciavom
Dos c6rpo que 1S morria.


O tiroteio era tanto,
Que sobre os ares atingia.
Aviho de bombardeio
Tudo isso ele fazia
Pra acab& cos alemio
Que na profundidade havia.



VI

Nas revista 6 que se via
As maiores invengio:
Milhares de boca de fogo
Na capital alemao
Na maior profundidade
Em trinta metros de chgo.



VII

Mais de nada adiantO
Tudo tornO-se asnera,
Que na hora dos combat
Ardeu que nem capuera
Porque as bomba incendidria
Caia que nem chuv6ra.



VIII

Os russos e os americano
li que soberam manobrA
Que deram fim dos alemao
E tamb6m da Capita:
Pegaram a bomba at6nica (3)
Antes de aperfeico&.


(1) Como se fSssemos.
-(2) D6, piedade, compaixio.
(3) Bomba at6mica.













REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


IX

Pegaram a bomba at6nica
E foram arrea em Japao,
Foi posto por paraqueda
PrA num v6 a desrtuigSo.
Pra nao verem os inocente
Sofrerem tanta afrigao.



X

Esta dita bomba at6nica
- Assim no jorna nos marca'-
Que fais ronca, fails fuzil&,
E onde cai nada escapa.
Uma parte do Japao
Ela tir6 fora do mapa.



XI


Vamo fala na Italia
Qu'inda nos farta fala
E no tar de Murssolino
Que era o rei da Capita:
Ele foi prisionado
Corn sentenga de mat&.


Arrastaram pela rua,
Amarraram pelo p6.
Teve sentencia terrive
Por se um mostro cru6.
O russo arrast6 e disse:
"Conheceu, seu Gabri"?


XIII

"Paga ai o que tu fizesses
Nessa tua Capita
Que distruisses cum teu povo
Antes da hora cheg&.
Seu monstro, seu condenado,
O coraSgo de anima"!



XIV

O sem-vergonha amarrado
Inda bot8 pra puliA (4)
Teve sentencia terrive
- Assim nos diz o jorna -
Dexd as pele das costa
Nas ruas da Capita.



XV

Vamo nols fala no Hitre
No oonsumo que lev8. (5)
Dizem que ele fugiu,
Mais por onde 6ie pass?
Num se sabe se l8e 6 vivo
Ou se o diabo carreg6!


XVI


Um. home com o o itre
Num se deve de aceita,
Num deve ter preferdncia (6)
Em nenhuma Capita
Porque deu que faze ao mundo
E a cabO nosso luga.


(4) "Bot6 pra pulA" 6 uma contraqKo da frase "Bot6 perna pra pulA" ,ou seja,
tentou fugir.
(5) Fim.
(6) AceitaCgo, reconhecimento. (Possivelmente por achar que o povo elegeu Mus-
solini).













OS "PASQUINS" N,6 LTTTORAL NORTE DE SAO PAUTLO 63


XVII

Me cream cidadLo
Que tudo isso nois sofria:
De noite num se viajava
E os far6 num acendia.
Foi a guerra mais pior
Que depots da monarquia. (7)


XVIII

Querozene num egistia
Carne sica terming
Olhem bem que o bacalhau
A mode que intd acab6 (8)
O peixinho deste cdrco
Foi quem nos auxiliO.


XIX

LA na venda do Santinho
A reclamaego era ger.:
"Como 6 que imos come
Peixe que vem do m&,
Sem a liis do querozene
Sem um temprro de sA?"


XX

"Vamo 1l na Praia Grande" (9)
Arrespondeu Pinant&,
"Que o barco do Pedro Rita
Vem carregado de sa
i "19 de abri"
Tenho certeza de arranja".


XXI

Af responded o Joao
Quitandgro do lugA:
"O 19 de abri s6 serve
E pr 81les de 1a
Nois tambem temos a cota
Que o Santinho vai buscA".


XXII

Responded um gajo no. meio,
Ja fal6 pra marrotA: (10)
"Tu vals atrais de Santinho
Que tu vais cum6 senm s..
Ele fais como as fazenda
Dos artigo populd". (11)


XXIII

Teve um Cidadao que disse:
"Essa vida 6 gosado!
As coisa t& muito bao
Por todos canto dos Estado.
Os artigo popul&
Serve ate para o noivado". (12)


XXIV

Senhores e senhoras
Me queiram me descurpS
Se o pasquim num tA bem b5o
Minha mem6ria num d&
Num 6 de agravA ninguem: (13)
Carqu6 um pode canta.


(7) Explicou-me o pasquineiro que as guerras do tempo da monarquia (designa-
gio geral que inclui tddas as guerras, corn exceelo da ifltima) "nio foram
tio terriveis por nao ter tanto aperfeipoamento".
(8) "A mode que" 6 expressio muito corrente, cujo sentido preciso me escape.
Nio me satisfaz muito a explicaglo do pasquineiro de que queira dizer "pa-
rece".
(9) Bairro da Ilha.
(10) Segundo explicaglo do pasquineiro, "marroti" 6 "escangalhl com a palavra
do outro". Desfazer-se numa afirmaf8o feita per outrem.
(11) Refere-se As fazendas do tipo popular que o vendeiro do bairro nio providen-
ciou para vender.
(12) Fala-se do noivado pelo esmdro que se pde no vestido da noiva no dia do
casamento. Possivelmente a guerra tenha reduzido as "pretensBes".
(13) Ofender.
NOTA: As refereneias a jornais e revistas sao devidas ao fato de ter o pasquineiro ido a
Sao Sebastiao para colher informes maia precisos sobre a guerra, pedindo ex-
plicadses e folheando revistas.













64 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


PASQUIM DA ESCOLA

(Da autoria de Sebasti~to Reis. Cambaquara, Ilha de Sio Sebastio.
Colhido em Cambaquara).


Me preste atengao senhores
Do caso que eu v8 diz6:
Aonde hai orde, hai progress,
TO farto de comprende.
Hoje o balrro de Sio Pedro
Paga pena a gente v6.



II

Uma 6 que tem escola
Aqul no nosso lug..
Esses chefte de familiar
Mais tarde vao se alegrft
De v6 seus filho inducado,
Conservando um born pensA.



III


Criancas que num conhecia
Nem o o nem o a,
HoJe JA escreve o seu nome,
Escola mistica rural,
Conhece as letra, vogagi,
Tudas ela por igu&.



IV

Isso num vem das crianga
Mas vem de quem ensin8,
Dessa linda professor
Que nesse luga chegO,
Que prestO boas licgo
E a sua crasse melhorO.

(1) revelia. Significa, local


Pessoa que sabe 18,
Neste mundo 6 bem gulado
fPelas vint6 cinco letra
Que o a-b-c trais marcado.
P future para si,
E melhora pro Estado.



VI

Inda est8 bem alembrado
Quando as carter chegO.
Que o barco "Sahy" 6 que tr&xe
E o povo que desimbarcO.
Gritava as crianca em terra:
"Minha vida melhor6"!


VII

O vento era suduese.
Neste dia o mr& ingrossO.
Os areas fic8 enubrado,
Pois o s6r nem crariO.
Foi compricado este caso,
Me acredite, meu senhO.


VIII

Na chegada. das cartera,
O mA quarji nos comia.
Foi p6sto tudo num rancho,
PrA conduzi n6tro dia.
Foi muito bem agasalhado,
Num ficO & riviria. (1)


ente, ao relento.











OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO 65


No vard de uma rede,
Essas cartera fic;
Quando chegO notro dia,
O povo a ela tranzit6. (2)
Na casa que ia s8 a aula,
Um carpinteiro preg8.


X

Esse dito carpintdro,
V6 Ihe diz8 6tra vets:
O nome 6 SebastiAo,
O sobrenome 6 de Reis.
Foi muito bem agradecido,
Pelo servigo que feis.


XI

Eu num tiro mais pasquim.
Minha memorial num que
Ja fiz os meu juramento
Enquanto vida tiv6,
Fiz isso prt contentA,
Qui Dna. Maria Jos6. (3)


XII

O povo entao diz
Que ela sabe se arrum&:
P6e sempre frori no cabelo,
Paga a pena a gente olh&!
Fica multo bem ornada,
C'a fro do nature.


Ela si da co' crima
E gosta de viajA.
Conhece este distrito,
A diz8 todo lugA.
Ate Ia em Boigucanga (4)
Ela ja foi passed.


XIV

Vamos nois fala nesses barco.
Que corre o nosso litora:
P "Campo 'Grande", e o "Sahy",
E Otro que ta pr& chega
O nome deste 6 "Macedo"
DA medo int6 viajA.


XV

Quem me cont6 foi um senhO,
A mim com multo segredo:
Que o barco 6 multo pequeno,
Prd viaj& mete medo,
Tern mais de 50 s6cio, (5)
Que o nome dele 6 "Macedo".


XVI

O pesso& do Bonete
Tgo fazeno novos praino:
Que esse barco caia nAgua,
A primero desse ano,
Pra, corr8 o litor&,
Sombrius e Castelhano. (6)


(2) Expressdo comum no literal: "O povo a ela tranzitd", "Disse a ela", "Mandou
a .ee", "Chamou a eles", em lugar de transitou-a, disse-lhe, mandou-o, cha-
mou-os.
(3) E' quando cantam, colocar Qui no inicio das frases, possivelmente para per-
fazer o nimero de silabas. Ndo lhe vejo outra funfio.
(4) Boi`ucanga. Bairro situado no continent fronteiro.
(5) Barco adquirido pelo pessoal do Bairro do Bonete. Quase todos os moradores
do bairro sFo s6cios. Dizem que "muitos pagaram com cachos de banana."
(6) Sombrio e Castelhano: dois bairros da Ilha, situados na Bahia dos Castelhanos.









REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL


XVII

Seu Rafa6 a mim me disse:
"Meu barquinho ista I
Pra peg& fruita e passagero,
Aqueles que quizerem i.
Quem num quiz( ter o "S. Paulo"
Tern "Campo Grande" e a "Sahy".


XVIII

Esses barco tgo em Santos,
Quatro dia da semana:
Domingo, segunda e terga,
E quarta, si num m'engana.
Chega o barquinho de Santos,
Nesta terra de banana.


XIX

Ainda tern um sinh6,
Como se diz cidadio,
Que quando v6 a "Sahy"
Na ponta do Boquirdo, (7)
Ja val corta suas fruita,
Qu'egiste 1& pro sertio.


XX

JA fallemo nesses barco,
Nas crianCa e na escola,
Nessa linda professor,
Que nosso corac~o adora.
Que farta num vai faze
Quando ela f6 s'imbora!


XXI

Da pdca coisa qu'eu sei,
Disto mesmo o povo que.
Senhora Dona Gioconda,
E dona Maria Jos.6
TA'qui o pasquim que pediu.
Guarda ele o que pude.


XXII

T.Teu nor-ie n^hastlGo.
Tudo o que me pede eu fals.
Senhora dona Gioconda,
No dia que ela eaiu,
Deixo sOdade pra mim,
Pr. professor inda mais.


XXIII


Qu8ra me descurp8
Senhoras e cidaddo
Esses caso qu'estao escrito, (8)
Se o pasquim num tiv6 bdo.
Olhem que eu num tive estudo,
Das artas reparticgo!





(7) Ponta do Boqueirao, no continent, situada defronte da Ilha do mesmo nome
e pela qual passam os barcos pequenos quando entram no canal. E' not.vel
como se identifica, a grande distancia, o barco que vem entrando. Comega,
entao, o movimento de transport de frutas para os pontos de embarque.
(8) 3ste remate do pasquim, que nio 6 o usual, represent uma adaptagio feita
pelo pasquineiro para corresponder as "expectativas" da professor local e
mifihas. Sio bem sintomtticos os dois dlitimos versos. Refere-se B escrita do
pasquim porque o fez corn a intengbo de n&-lo oferecer, sabendo, portanto, que
iria ser escrito. NBo sabe escrever.










OS "PASQUINS" NO LITORAL NORTE DE SAO PAULO


PASQUIM'

(Anonimo. SAo Sebastiao, novembro de 1947).


I
Z6 Taoca, meu compare,
Se mec6 6 de verdade
Amigo deste lugar,
Mec6 ent&o adesista
Do Partido Comunista,
Mec6 fique imparcia.

II
Eu sei que mec6 6 bao,
Honesto, bao cidadao
Mais que tA cos comunista.
Mais da tempo de pira
Dessa gente se afastA
Eu Ihe aconselho: desista.

III
Quem qu6 bem a esse lug&
Nao sedeve se ajunta
Con esses mau, esses marvado,
Gente que sem respeito
Quando deu posse ao prefeito,
Nem repeit6 os finado.

IV
Que grande patifaria
Eles fizeram no dia
Respeitado pros cristoo!
Pra prova que sao ateus
E que nao respeita Deus,
Sortaram salva e rojao.

V
Que val6 tem essa gente?
Beb6. Assis e Tenente?
O DiretO e Agnelo?
O Zino, Osvardo Quinteiro?
Batista, Dito Barbeiro?
E o Jayme Escaramelo?

VI
O Santinho nao tem gelto
Pra s6 o nosso prefeito!
Parece polichinelo:
O Beb6 pucha as cordinha
E ele danca na rodinha
Do partido do martelo.

VII
Santinho, o t& dito nobre,
O que quiz foi v8 os cobre
E pro sul faz6 viage.
Levou para companhia
O t& da capitania,
O tenente de bobage.


VIII
O Zino que 6 letrado
Acompanh6 seu cunhado
Coin grande satisfacqo
Pois ele tA convencido
Que sera bem sucedido
No dia das inleig&o.

IX
Coitado que nao se iluda
Pois ele 6 pior que Juda
Que vendeu Nosso Sinh6.
Agora ele 6 comunista
E J& figure na lista
Dos treze veread8.

X
Tambem 6 seu companheiro
O ta de Osvardo Quinteiro
Tipo sujo sem igua
Que na costa foi vaiado
E tambem escorracado
Da sua terra nata.

XI
Essa gente sekn val6
Que querem s6 veread6
E nesta terra mand&
O que percisa 6 uniao
E no dia da inleiEio
Ninguem seus v6to Ihe dA.

XII
Na Prefeitura o Beb6
Cheg6 a dizZ int6
Certas coisa de amarga
Mais se esqueceu o coitado
Que tambem 6 enjeitado
De sua tera nath.

XIII
Arquimedes e Joao Batista
Ja viraro comunista
S6 para se vereadb.
1Mais ninguem vai Ihe vota
Tudo deve despresa
Essis tipo sem val6

XIV
Terminado esses versinhos
V6 pedir pros meus visinhos
Que se incumba de espaiM.
E pego a todos que lerem
Paciencia para terem
E uma copia tirA.









68 REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL



OBRAS CITADAS


1. ALBIG, W. Public Opinion. Nova York Londres, 1939.
2. AMARAL, AMADEU. Tradicfes Populares. Sao Paulo, 1948.
3. BECKER, HOWARD. "Constructive Typology in the Social Scien-
ces", in Barnes, H., Becker, H. and Becker, F. B. (eds). Con-
temporary Social Theory. Nova York Londres, 1940.
4. BENEDICT, RUTH. "Folklore", in Encyclopaedia of the Social
Sciences, Vol. IV, pags. 288-293.
5. BOAS, FRANZ. Race, Language and Culture. Nova York, 1940.
6. BOAS, FRANZ e Outros. General Anthropology. Boston, 1938.
7. BOTKIN, B. A. (ed.). A Treasury of American Folklore. Nova
York, 1944.
8. Documentos Interessantes para a Hist6ria e Costumes de S5o
Paulo. Vol. XXIII, (1766-1768), pags. 182-189.
9. GOLDENWEISER, ALEXANDER. "Leading Contributions of An-
thropology to Social Theory", in Barnes, H.. Becker, H. and
Becker, F. B. (eds). Contemporary Social Theory. Nova York
Londres, 1940.
10. ,GOMME, LAURENCE, Ethnology in Folklore, Londres, 1892.
11. HERSKOVITS, M. J. "Folklore after a Hundred Years: a Pro-
blem in Redefinition", Journal of American Folklore, Vol. 59,
232 (1946); pAgs. 89-100.
12. HERSKOVITS, M. J. Man and His Works. The Science of Cul-
tural Anthropology. Nova York. 1948.
13. Leis de S. Paulo. C6digo de Posturas da CAmara Municipal de
Vila Bela da Princesa, 1868, Titulo V. Idem, 1889.
14. "PASQUINO PASQUINATE", in Enciclopedia Italiana, Vol.
XXVI, p1gs. 451-452.
15. REDFIELD, ROBERT. Tepoztlin: A Mexican Village. (3.a edi-
cao). Chicago, 1941.
16. REDFIELD, ROBERT. "The Folk Society", The American Jour-
nal of Sociology, Vol. LII, N. 4 (1947); pags. 294 e segs.
17. RIZZINI, CARLOS. O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil
(1500-1822). S. Paulo, 1947.
18. SAINS, L. H. e SANCHO, N. H. Manual de Folklore. Madri, 1947.
19. SAPIR,, EDWARD. "Communication", in Encyclopaedia of the
Social Sciences, Vol. IV, pAgs. 78-80.
20. SUMMER, W. G. Folways. Boston, 1906.
21. TAUNAY, A. E. Hist6ria Seiscentista da Villa de S. Paulo. Toino
II (1653-1660). SAo Paulo, 1929.
22. TYLOR, EDWARD. Primitive Culture. 2 vols. Nova York, 1874.
23. VARAGNAC, ANDRE. Definition du Folklore. Paris, 1938.
24. VIANNA, HPLIO. Contribuiiho A Hist6ria da Impreasa Brasileira
(1812-1869). Rio de Janeiro, 1945.
25. WINCH, ROBERT E. "Heuristic and Empirical Tipologies: A
Job for Factor Analysis", American Sociological Review, Vol.
12, N.o 1 (1947); pigs. 68-75.



















































































COMPOSTO E
IMPRESSO NA
GRAFICA
DA PREFEITURA




University of Florida Home Page
© 2004 - 2010 University of Florida George A. Smathers Libraries.
All rights reserved.

Acceptable Use, Copyright, and Disclaimer Statement
Last updated October 10, 2010 - - mvs