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TRANÇANDO O PODER: DESLOCAMENTO GEOGRÁFICO, TERRITÓRIO E SISTEMAS DE CONHECIMENTO INDÍGENA ENTRE TRÊS GRUPOS KAIABI NA A...
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Title: TRANÇANDO O PODER: DESLOCAMENTO GEOGRÁFICO, TERRITÓRIO E SISTEMAS DE CONHECIMENTO INDÍGENA ENTRE TRÊS GRUPOS KAIABI NA AMAZÔNIA BRASILEIRA
Physical Description: Technical Reports
Creator: Athayde, Simone
Publisher: Instituto Socioambiental
Place of Publication: Brasilia
Publication Date: 2012
 Notes
Abstract: Este relato tem por objetivo apresentar ao Povo Kaiabi um resumo dos resultados de minhas pesquisas de mestrado e doutorado, que envolveram uma análise comparativa do conhecimento dos homens e mulheres sobre a cestaria e a tecelagem entre quatro aldeias e três terras indígenas: Parque do Xingu-MT, TI Apiaká-Kaiabi do Rio dos Peixes-MT e TI Kayabi-PA. A pesquisa de mestrado foi realizada entre 2000 e 2003, nas aldeias Capivara e Tuiararé no Xingu, envolvendo entrevistas somente com os homens, integrada com as atividades preparatórias do Projeto Kaiabi Araa. O mestrado em Etnobotânica foi concluído em 2003, pela Universidade de Kent, na Inglaterra. O programa de doutorado foi realizado na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, no curso de Ecologia Interdisciplinar. Para a pesquisa de doutorado, além das aldeias Capivara e Tuiararé no Parque do Xingu, foram incluídas as aldeias Rio dos Peixes e Novo Horizonte (Tatuy) na TI Apiaká-Kaiabi, e a aldeia Kururuzinho na TI Kayabi no Pará. Nestas quatro aldeias, foram entrevistados todos os homens e mulheres acima de 15 anos de idade, sobre o conhecimento dos objetos e desenhos gráficos que formam o rico repertório cultural dos Kaiabi. Esta é a primeira pesquisa realizada envolvendo homens e mulheres nas três áreas atualmente ocupadas pelos Kaiabi na Amazônia. Também, é um dos poucos trabalhos de caráter longitudinal, ou seja, que acompanham um período de tempo prolongado no entendimento e interpretação das mudanças ocorridas na cultura de povos indígenas. Espero que este trabalho seja uma contribuição à memória cultural e uma referência para as futuras gerações Kaiabi.
Acquisition: Collected for University of Florida's Institutional Repository by the UFIR Self-Submittal tool. Submitted by Simone Athayde.
Publication Status: Unpublished
 Record Information
Source Institution: University of Florida Institutional Repository
Holding Location: University of Florida
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System ID: IR00001195:00001

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Relato de Pesquisa de Doutorado TRANANDO O PODER: DESLOCAMENTO GEOGRFICO, TERRIT"RIO E SISTEMAS DE CONHECIMENTO INDGENA ENTRE TRS GRUPOS KAIABI NA AMAZNIA BRASILEIRA Pesquisadora: Dra. Simone Ferreira de Athayde Pesquisadora de Ps do utorado, Programa de Conservao e Desenvolvimento Tropical, Centro de Estudos Latino americanos, Universidade da Flrida, Estados Unidos. Pesquisadora Associada, Instituto Socioambiental ISA Brasil Braslia J ulho de 2012

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Dedico este trabalho bem como o prmio recebido pela minha dissertao de doutorado (Prmio Marianne Schmink do Programa de Conservao e Desenvolvimento Tropical da Universidade da Flrida ) ao Povo Kaiabi representado por meu s amigo s Jowosipep e Mytang do Parque do Xingu interesse, ningum obrigava as pessoas a aprenderem. Eles aprendiam com os seus familiares, acompanhando as atividades do dia a dia da cultura do povo. Essa forma de aprendizado dos antigos era valorizada porque no existia o contato com os no ndios e tambm os Kaiabi moravam onde existiam recursos suficientes para fa zer artesanato. Hoje no podemos mais depender somente do jeito de aprender de antigamente. Temos que criar novas atividades que deixem os Aturi (Jowosipep) Kaiabi, 2004.

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SUMRIO APRESENTAO ................................ ................................ ................................ ................................ ...... 1 AGRADECIMENTOS ................................ ................................ ................................ ................................ 2 1. INTRODUO: A CESTARIA E A TECELAGEM KAIABI COMO PATRIMNIO IMATERIAL INDGENA BRASILEIRO ................................ ................................ ................................ ................................ .............. 3 2. ESTRUTURA DA DISSERTAO DE D OUTORADO ................................ ................................ ............ 5 Objetivos ................................ ................................ ................................ ................................ ............. 7 3. DESLOCAMENTO TERRITORIAL E MUDANAS SOCIOAMBIENTAIS ................................ ................ 8 4. TERRIT"RIOS ANCESTRAIS E LUTAS PELA DEMARCAO DE TERRAS ................................ .......... 10 5. CONTRASTE ENTRE AMBIENTES E MECANISMOS DE ADAPTAO ................................ .............. 16 6. EMPODERAMENTO POLTICO E ASSOCIA'ES INDGENAS ................................ .......................... 20 7. ASPECTOS SOCIO ECONMICOS EM QUATRO ALDEIAS ................................ ............................... 25 8. O CONHECIMENT O ARTSTICO DA CESTARIA E TECELAGEM ENTRE AS TRS REAS KAIABI ....... 29 9. APRENDIZAGEM TRADICIONAL E O PROJETO KAIABI ARAA ................................ ......................... 42 10. A P ESQUISA NOS MUSEUS E A MEM"RIA CULTURAL ................................ .............................. 45 11. SNTESE E CONCLUS'ES ................................ ................................ ................................ ............ 47 12. CONTRIBUI'ES, RECOMENDA'ES E PR"XIMOS PASSOS ................................ ..................... 54 13. FONTES DE INFORMAO ................................ ................................ ................................ ......... 58 ANEXOS ................................ ................................ ................................ ................................ ................. 59 1. Cdigos e nomes dos desenh os de cestaria e tecelagem ................................ ......................... 59 2. Desenhos grficos da cestaria Kaiabi e cdigos utilizados na pesquisa ................................ ... 61 3. Desenhos grficos d a cestaria Kaiabi transferidos para a tecelagem pelas mulheres ............. 65 4. Coleo particular de cestos de Simone Athayde proposta para possvel parceria com museus e tombamento como patrimnio do Povo Kaiabi ................................ ............................... 68

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1 APRESENTAO Este relato tem por objetivo apresentar ao Povo Kaiabi um resumo dos resultados de minha s pesquisa s de mestrado e doutorado, que envolveram uma anlise comparativa do conhecimento dos homens e mulheres sobre a cestaria e a tecelagem entre quatro aldeias e trs terras indgenas: Parque do Xingu MT, TI Apiak Kaiabi do Rio dos Peixes MT e TI Kayabi PA. A pesquisa de mestrado foi realizada entre 2000 e 2003, nas aldeias Capivara e Tuiarar no X ingu, envolvendo entrevistas somente com os homens integrada com as atividades preparatrias do Projeto Kaiabi Araa O mestrado em Etnobotnica foi concludo em 2003, pela Universidade de Kent, na Inglaterra. O programa de doutorado foi realizado na Unive rsidade da Flrida, nos Estados Unidos, no curso de Ecologia Interdisciplinar. Para a pesquisa de doutorado, alm das aldeias Capivara e Tuiarar no Parque do Xingu, foram includas as aldeias Rio dos Peixes e Novo Horizonte (Tatuy) na TI Apiak Kaiabi, e a aldeia Kururuzinho na TI Kayabi no Par. Nestas quatro aldeias, foram entrevistados todos os homens e mulheres acima de 15 anos de idade, sobre o conhecimento dos objetos e desenhos grficos que formam o rico repertrio cultural dos Kaiabi. Esta a p rimeira pesquisa realizada envolvendo homens e mulheres nas trs reas atualmente ocupadas pelos Kaiabi na Amaznia. Tambm, um dos poucos trabalhos de carter longitudinal, ou seja, que acompanham um perodo de tempo prolongado no entendimento e interpr etao das mudanas ocorridas na cultura de povos indgenas Espero que este trabalho seja uma contribuio memria cultural e uma referncia para as futuras geraes Kaiabi. Sou muito grata aos Kaiabi pelo privilgio de contar com todo o carinho e a poio das comunidades no Xingu, Rio dos Peixes e Teles Pires nestes mais de dez anos de trabalho e convivncia Simone

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2 AGRADECIMENTOS Quero agradecer ao Povo Kaiabi pela oportunidade de fazer este trabalho junto aos grupos do Xingu, do Rio dos Peixes e do Teles Pires. Meus agradecimentos s Associaes Indgenas ATIX do Xingu, Itaok no Rio dos Peixes e Kawaip no Par pelo apoio Agradecimentos s comunidades das aldeias Capivara e Tuiarar no Xingu, Tatuy e Novo Horizonte no Rio dos Peixes e Kururuzinho no Teles Pires, pela hospitalidade e carinho. Agradecimentos especiais meu amigo Jowosipep (Aturi) Kaiabi e sua esposa Mytang Kaiabi, por ter em iniciado este trabalho de revitalizao cultural da cestaria e tecelagem entre as comunidades no Xingu e na TI Kayabi do Par. Agradeo a amizade, a confiana, o carinho e a hospitalidade em me receber na sua aldeia e na sua casa. Agradecimentos a Eroit Kaiabi, Coron Kaiabi, Cunhaete Kaiabi, Pirapy Kaiabi, Sirakup Kaiabi, Tamakari Kaiabi, Josiane Kaiabi e toda s as pessoas que participaram das entrevistas e trabalho de campo nas aldeias do Xingu, no Rio dos Peixes e no Teles Pires A Mairaw Kaiabi e sua famlia, pelo apoio e amizade durante meus 10 anos de trabalho e convivncia no Xingu Ao ISA e colegas A ndr Villas Bas, Paulo Junqueira, Ktia Ono, Paula Menezes, Rosana Gasparini, Geraldo Mosimann da Silva, Maria Crist ina Troncarelli, Estela W rker e Eduardo Biral pelo apoio e amizade. A os meus professores Roy Ellen, Marianne Schmink e Robert Buschbache r, pela ateno e apoio. minha famlia, Mauro, Eunice, Miriam, Beto, Paulo e Joo pelo carinho e apoio. Ao meu filho Adriano, pelo amor, amizade e companhia durante o trabalho de campo e todas as viagens de nibus, carro, barco, avio e bicicleta envol vidas. Ao meu marido G ary pelo amor e apoio. A todas as instituies que de alguma forma apoiaram estas pesquisas com destaque para : PDPI, FUNAI, Conselho Britnico, CNPq Universidade da Flrida (Programas TCD e ACLI), The Global Diversity Foundation, American Association of University Women e Instituto de Educao do Brasil.

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3 1. INTRODUO: A CESTARIA E A TECELAGEM KAIABI COMO PATRIMNIO IMATERIAL INDGENA BRASILEIRO A cestaria e a tecelagem so elementos da cultura material de importncia destacada n a identidade do Povo Kaiabi ou Kawaiwete, auto denominao de uso recente Os kaiabi so exmios agricultores e fazedores de cestos com um repertrio de aproximadamente 26 itens diferentes entre os quais se destacam as peneiras adornadas com desenhos gr ficos. Araa o nome Kaiabi para desenho de peneira. Os homens kaiabi conhecem aproximadamente 30 padres grficos, cada um designado com um nome especfico e um significado, alguns deles codific ados na mitologia do grupo Estas representaes grficas t ranadas pelos homens representam uma linguagem grfica e simblica nica para o Povo Kaiabi, que vm transferindo diversos destes padres grficos para outros meios e objetos, como pintura corporal, bancos de madeira pintados, cabaas, bordunas, e princip almente para a tecelagem, com a apropriao d e alguns desenhos grficos pelas mulheres. No entanto, esta representao artstica est ameaada de desaparecimento, devido principalmente escassez da fibra arum, matria prima de alta qualidade usada nas pe neiras, com significado espiritual para os kaiabi. De acordo com Wareajup, a habilidade de transferir os desenhos da cestaria para a tecelagem um fator importante na preservao do conhecimento e da linguagem contida neste conjunto de smbolos. As penei ras desenhadas so feitas pelos homens e utilizadas pelas mulheres para fiar algodo, e tambm so utilizadas pelos pajs para rezar doentes e afastar os maus espritos. A tcnica de pintura posterior empregada pelos homens na confeco de peneiras rara na Amaznia, sendo empregada somente pelos povos Kaiabi e Pareci. As peneiras desenhadas so tambm altamente valorizadas no mercado, e comercializadas em pequena escala. Um homem com habilidade para tranar cestos tem status diferenciado na comunidade, se ndo capaz de prover a indumentria necessria para o trabalho de sua esposa e parentes mulheres. De maneira complementar cestaria, a tecelagem produzida pelas mulheres Kaiabi constitui patrimnio cultural do grupo e motivo de orgulho. As mulheres fazem redes desenhadas de algodo, tipias, cintos e bolsas

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4 coloridas, adornadas com os padres grficos da cestaria, que aprenderam dos homens. Estes objetos so utilizados no dia a dia, mas tambm comercializados no mercado externo. Este conhecimento est sen do transmitido para as jovens, uma vez que tranar redes uma condio importante na passagem da adolescncia para a fase adulta e casamento. Trabalhos de pesquisa, revitalizao cultural e documentao da cestaria e tecelagem Kaiabi foram iniciados h 15 anos, inicialmente no mbito do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), e posteriormente atravs do Resgate Cultural da Cestaria e Tecelagem Kaiabi no do PDPI (Projetos Demonstrativos dos Povos Indgenas) coordenado pelo Professor Jowosipep Kaiabi e gerido pela ATIX, com assessoria de Simone Athayde e Ktia Ono do ISA. Este projeto foi um dos vencedores do Prmio Culturas Indgenas do Ministrio da Cultura em 2007 1 Foi produzido um vdeo documentrio deste projeto 2 (Kaiabi Araa), distribudo s aldeias Kaiabi no Parque do Xingu, na TI Kayabi do Par e na TI Apiak Kaiabi no Rio dos Peixes. Este projeto tambm propiciou a realiza o de pesquisas cientfica s, e o trabalho de concluso de curso do Professor Jowosipep Kaiabi para graduao no 3 Grau Indgena da UNEMAT (ver fontes de informao no final) Tambm, gerou o desenvolvimento de pesquisas de mestrado e doutorado de Simone Athayde, cuja dissertao d e doutorado pela Universidade da Flrida recebeu o prmio Conservao e Desenvolvimento Tropical da Universidade da Flrida 3 De forma integrada ao projeto do PDPI e s iniciativas de revitalizao cultural da cestaria e tecelagem entre homens e mulheres no Parque do Xingu e TI Kayabi do Par, trabalhos de levantamento da cultura material kaiabi em museus no Brasil e no exterior esto em andamento desde 1999. Colees de importncia des tacada esto depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro, no MAE em So Paulo, no Museu de Etnologia de Ber lin e no Museu das Culturas em Basilia Sua. Este levantamento e a repatriao visual de 1 http://culturasindigenas.org/initiatives/837 2 http://vimeo.com/26896495 3 http://www.tcd.ufl.edu/documents/Athaydeflyer2011_001.pdf

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5 fotos dos objetos dos kaiabi tm sido extremamente va liosos para a manuteno e revitalizao do conhecimento dos desenhos grficos, uma vez que as pessoas mais experientes, tanto homens como mulheres, conseguem reproduzir os desenhos grficos a partir d e fotografias Livros e catlogos educativos sobre a ce staria e tecelagem Kaiabi vm sendo elaborados em conjunto com idosos e professores indgenas no Parque do Xingu desde 1999, com destaque para o Livro da Cestaria Kaiabi, cuja reviso final ser efetuada em 2012, e estar pronto para publicao, para a qua l ainda dependemos de recursos externos. 2. ESTRUTURA DA DISSERTAO DE DOUTORADO A dissertao 4 apresentada para obteno do ttulo de doutor pela Universidade da Flrida est organizada em formato de livro, estruturado em duas partes e nove captulos, qu e seguem nveis progressivos em termos de cronologia e escala s geogrficas a partir do territrio ancestral Kaiabi at as terras atuais, aldeias, famlias e indivduos. Eu adotei uma abordagem de sistemas para explorar e compreender a dinmica do conhecim ento entre trs grupos Kaiabi, analisando fatores histricos, ambientais, scio econmicos, polticos e culturais que influenciam a persistncia, perda e mudana do conhecimento indgena atravs do tempo. A primeira parte inclui os captulos 1 a 5 e cont m uma introduo geral dissertao, onde so apresentadas as teorias, mtodos e o contexto hi strico, territorial e ecolgico antes e aps o deslocamento geogrfico e transferncia da maioria do povo Kaiabi para o Parque Indgena do Xingu. Os captulos 1 e 2 incluem abordagens tericas, campos de investigao e possveis aplicaes da pesquisa, bem como os mtodos utilizados na recolha de dados e anlise, os argumentos discutidos e as hipteses testadas. Os captulos seguintes so organizados em uma estru tura similar, contendo uma introduo, na qual apresent o os principais aspectos, argumentos e questes discutidas no captulo, e uma concluso pequena no final, resumindo resultados e discusso. 4 Disponivel on line em: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000694/00001

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6 No ca ptulo 3 apresentada uma descrio do estilo de vida dos k aiabi na regio do Tapajs antes de seu contato com os irmos Villas Boas, a criao do Parque Indgena do Xingu pelo governo brasileiro eo processo de transferncia da maioria do grupo ao Parque Indgena do Xingu entre 1960 e 1970 O Captulo 4 con tm uma descrio do processo de adaptao ao ambiente social, poltico e ecolgico no Xingu, bem como a luta dos dois grupos que permaneceram nos territrios ancestrais no Rio dos Peixes e Teles Pires. Neste captulo, eu tambm inclu uma viso geral do p rocesso de demarcao de terras indgenas no Brasil, e como isso se relaciona com as reivindicaes de terras atuais pelos k aiabi. No captulo 5, eu inclu uma descrio do contexto ambiental e de contrastes entre as trs terras Kaiabi consideradas neste estudo: Parque Indgena do Xingu, TI Apiak Kaiabi no Rio dos Peixes e Terra Indgena Kayabi no Teles Pires. Neste captulo, apresento uma anlise dos mecanismos de adaptao ecolgica que os Kaiabi do Xingu desenvolveram aps a sua transferncia para uma nova rea e ambiente distinto. A segunda parte da dissertao abrange os captulos 6 a 8, nos quais so apresentados resultados de estudos transversais e longitudinais sobre empoderamento poltico e sistemas de conhecimento indgena entre quatro aldeias K aiabi e o Captulo 9, que a concluso geral. O Captulo 6 descreve a a tual organizao territorial e configurao poltic a n as trs terras Kaiabi. A principal questo explorada neste captulo refere se aos fatores que levaram expanso demogrfica e concomitante emancipao poltica do s Kaiabi n o Xingu, em contraste com os outros dois grupos. Eu descrevo o processo de empoderamento poltico do Kaiabi do Xingu, no que se refere aos movimentos indgenas de base no Brasil. Eu apresent o informaes sobr e as organizaes polticas entre os trs grupos Kaiabi, nomeadamente a A TIX no Xingu, a associao Itaok no Rio dos Peixes e a associao Kawaip no Teles Pires. Eu descrevo alguns projetos comunitrios desenvolvidos pelas comunidades do Xingu, incluindo o projeto Kaiabi Araa (PDPI) relacionado com a revitalizao d o conhecimento da cestaria e da tecelagem entre o grupo do Xingu e do Teles Pires Finalmente, eu apresento

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7 os resultados de entrevistas sobre as percepes e expectativas das pessoas sobre o p apel e o trabalho das associaes indgenas em cada aldeia. O Captulo 7 inclui uma anlise scio econmica das quatro aldeias includas no estudo: Capivara e Tuiarar no Xingu, Tatuy no Rio dos Peixes e Kururuzinho no Teles Pires. Neste captulo, apresen to uma anlise comparativa das variveis scio econmicas que possam ter influncia nos sistemas de conhecimento e, portanto, na resi lincia cultural do povo Kaiabi. Eu quero contribuir para a compreenso dos fatores socioeconmicos que fundamentam os proc essos de mudana cultural entre os Kaiabi, e dos mecanismos atravs dos quais eles funcionam. Eu test ei hipteses relacionadas com os efeitos da integra o a o mercado e escolaridade formal sobre si stemas de conhecimento indgena No captulo 8, eu explor ei as especificidades ligadas ao domnio do conhecimento da cestaria e da tecelagem entre homens e mulheres em quatro aldeias. Concentro me em mecanismos de criao tran smisso, distribuio e mudana no conhecimento e a influncia das instituies ocide ntais sobre a dinmica do conhecimento atravs do tempo Eu apresento resultados de um estudo longitudinal comparando dados coletados em 2002 e 2007 entre os homens em duas aldeias do Xingu. O captulo 9 uma concluso geral da dissertao, na qual fao uma reviso de teorias mtodos, argumentos e questes trazidas na introduo luz dos resultados e informaes apresentadas ao longo do documento. Eu inclu o discusses pertinentes a cada campo abordado bem como as implicaes da minha pesquisa para a te oria, pesquisa, prtica e formulao de polticas pblicas relacionadas aos povos indgenas na Amaznia Objetivos 1. Contribuir para a compreenso dos fatores e processos relacionados criao, conservao, distribuio e mudana do conhecimento artstic o entre as sociedades indgenas na Amaznia 2. Comparar os efeitos do deslocamento geogrfico sobre a dinmica do conhecimento indgena, empoderamento poltico e controle territorial entre trs grupos Kaiabi.

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8 3. Avaliar o impacto de proje tos comunitrios sobre a transmisso e distribuio do conhecimento da cestaria e tecelagem entre dois grupos Kaiabi (Parque Indgena do Xingu e Teles Pires). 4. Contribuir para os processos de revitalizao cultural e as reivindicaes de terras em que os Kaiabi esto e nv olvidos. 3. DESLOCAMENTO TERRITORIAL E MUDANAS SOCIOAMBIENTAIS O s Kaiabi ocupavam uma grande parcela de terra na poro norte ocidental do Estado de Mato Grosso. No entanto, impossvel traar uma linha marcando dos limites exatos de sua terra natal, poi s esses so fluidos e sujeitos a alteraes. Primeiro, os recursos naturais necessrios para sua reproduo cultural e fsica estavam espalhados em uma paisagem em que, s vezes, eles viajavam dias para coletar Segundo, guerras e contatos com outros povos indgenas caus aram alteraes no estabelecimento de aldeias e acampamentos temporrios. O contato com os brasile iros, inicialmente exploradores e seringueiros seguido por agentes do SPI e culminando com o encontro com os irmos Villas Bas caus aram vrio s processos de mudana geogrfica e reterritorializ ao entre os Kaiabi Polticas do governo brasileiro para os povos indgenas na dcada de 1950 e 1960 eram (e ainda so) contraditria s e basea das na idia de sua assimilao pela sociedade brasileira. Isto teve consequncias na histria da criao das terras indgenas no pas, que no incio eram pequenos pedaos de terra capaz es de fornecer as condies mnimas para a reproduo fsica dos grupos em processo de aculturao Neste contexto, a criao do Xingu como um parque onde os ndios e a natureza se riam protegidos foi uma exceo e uma vitria relativa, devido ao esforo dos irmos Villas Bas e de outros colaboradores. Isso aconteceu no meio de uma "marcha para o oeste", onde os planos do governo er am a ocupao do vazio imagin rio da grande regio amaznica o mais rpido possvel. A transferncia do Kaiabi para o P arque do Xingu no foi consensual, nem um passo fcil de tomar. Il udidos com a promessa de "uma terra sem mal es ", onde tudo era dado co mo presente, muitos Kaiabi lament aram ter

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9 abandonado sua terra tradicional no Rio dos Peixes e Teles Pires. O retorno de alguns no foi fcil e nem recomendado pelos Villas Bas. Portanto, a nica opo era construir uma nova vida na nova terra, que perten cia a outros povos indgenas. Para aqueles que se recusaram a ir, o episdio da transferncia tambm representou o comeo de outra etapa de suas vidas, em que encontros com caadores de tesouros atrados pela riqueza natural da Amaznia continuaria de form a mais rpida e permanente. Figura 1 Mapa mostrando a localizao do territrio ancestral Kaiabi e da situao demogrfica do grupo entre 1955 e 1966. Fonte: Dornstauder (1985), reimpresso em Grnberg (2004).

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10 4. TERRIT"RIOS ANCESTRAIS E L UTAS PELA DEMARCAO DE TERRAS Enquanto o s Kaiabi que foram transferidos para Parque Indgena do Xingu estavam lutando para se adaptar s novas condies scio culturais e ambientais, os outros dois grupos que se mantiveram na bacia do Tapajs o s Kaia bi do Rio dos Peixes ou Tatuy e o grupo do Teles Pires foram lutando para sobreviver e resistir ocupao de suas terras por no ndios invasores, como madeireiros, mineiros, fazendeiros e c aadores. Os trs grupos comearam um novo captulo em sua his tria com a transferncia. O s Kaiabi do Xingu tornaram se mais isolado s do contato com a sociedade no indgena do que os outros dois grupos. Esta foi a poltica implementada pelos irmos Villa s Bas na poca, e que seguida at hoje. O grupo do Rio dos Peixes sofria com a falta de apoio, especialmente depois da morte do padre Joo Dornstauder que os apoiou antes e durante a transferncia O grupo do Teles Pires foi o que mais sofreu depois que se recus ou a mudar, especialmente aps a empresa de mi nera o So Benedito estabelecer se na regio que costumava m ocupar. Ambos os grupos que permaneceram continuaram a trabalhar como auxiliares de agentes no indgenas que vieram para a Amaznia para explorar a s sua s riqueza s naturais : caadores, garimpeiros, ma deireiros e recentemente, usineiros As modalidades d e trabalho foram semelhantes a dos patronos seringueiros, portanto os Kaiabi no sentir am uma grande diferena entre a poca da borracha e as novas oportunidades para ganhar dinheiro ou bens em troca de trabalho. Em contraste, as pessoas realoja das no Xingu inicialmente sofreram com a falta de escolha e o trabalho remunerado o que lhes permiti a comprar bens

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11 industrializados como estavam habituados O Kaiabi do Xingu come aram a viver sob um regime alta mente paternalista, recebendo mercadorias como presentes ou troca de artesanato com outros grupos indgenas ou indivduos no indgenas. Uma concluso prel iminar possvel neste momento de que uma das razes que levaram a Kaiabi a manter e inovar seu co nhecimento do artesanato foi a falta de opo na obteno de dinheiro ou bens atravs do trabalho, que eles estavam habituados com a extrao da borracha na sua rea ancestra l Podemos considerar que nenhum dos grupos Kaiabi vive atualmente no seu territ rio tradicional ocupado antes do contato com no indgenas brasileiros. O grupo mais prximo o do Rio dos Peixes uma vez que a terra atual inclui uma pequena poro de terra tradicional, que est localizada mais acima do rio, alm da cachoeira do Rio d os Peixes. O s Kaiabi do Teles Pires esto vivendo em uma rea em que eles foram empurrados por seringueiros da borracha, co lonos e fazendeiros, localizada mais abaixo do rio Teles Pires a partir das reas que ocupavam mais acima na bacia do Teles Pires por ocasio do contato com os no ndios O s trs grupos Kaiabi re construram a sua histria inscrita nas novas paisagens que ocupavam antes e depois do des locamento Jywatu e Mairawe re feriram se "construo da histria" em um determinado local duran te um determinado perodo de tempo. Esta "escrita da histria na pais agem" ou faz pode ser comparada com a idia de uso tradicional, no necessariamente imemorial, mas que est vivo na memria e tradio oral.

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12 No caso Kaiabi, mobilidade e sed entarismo intera gem atravs da histria, antes e aps o contato com os ocidentais, onde o conceito de territorialidade em si pode ser interpretado como em constante movimento O s Kaiabi tm configurado novos territrios, inseridos em espaos altamente poli tizados, institucionalizados e contestados como o Parque Indgena do Xing u Processos de reivindica o de terras ancestrais tm sido experincias muito traumticas, longas e frustrante s entre os Kaiabi. Cemitrios ancestrais e lugares sagrados so agora de ntro de fazendas e vilas. Por outro lado, essas lutas pelo reconhecimento de suas terras ancestrais tm permitido novas alianas, fortalecido as instituies locais, e ajud ado a construir liderana s entre os trs grupos.

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13 Figura 2. Localizao das ter ras indgenas no Brasil. No polgono vermelho a localizao do Parque Indgena do Xingu (PIX) Terra Indgena Apiak Kaiabi, e TI Kayabi no Teles Pires PIX TI Apiaka Kaiab i TI Kayabi Teles Pires

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14 Figura 3. Mapa de delimitao da TI Batelo na regio do Rio dos Peixes mostrando a localizao de antigas aldeias Kaiabi

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15 Figura 4. Mapa de delimitao da TI Kayabi na regio do rio Teles Pires, Par.

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16 5. CONTRASTE ENTRE AMBIENTES E MECANISMOS DE ADAPTAO O d eslocamento geogrfico apresentou desafios para os trs grupos Kaiabi, em termos de con servao ambiental e gesto dos recursos naturais. As condies climticas, a aparncia e a estrutura da vegetao diferem muito entre a bacia do Tapajs, onde o Kaiabi viviam, e a bacia do Xingu para onde foram deslocados No Xingu, o clima mais seco e faltam muitos elementos importantes para a reproduo fsica e cultural do grupo A conservao ambiental uma preocupao para as trs reas, mas mais crtica no Rio dos Peixes e Teles Pires, visto que a s rea s demarcadas so menores do que o Xingu, e falta apoio institucional para o monitoramento e patrulha mento do territrio. No Xingu, o esforo coordenado das instituies e dos ndios resultaram em parcerias de relativo sucesso para o controle e monitoramento territorial. As principais ameaas co nservao enfrentados por grupos Kaiabi hoje so a explorao madeireira, a pecuria, a expanso da soja, a minerao e a construo d e usina s hidreltrica s O Kaiabi desenvolveram pelo menos sete mecanismos diferentes de adaptao para lidar com as restr ies ambientais enfrentada s no Xingu aps a transferncia: 1) I novao ou criao de conhecimento com novos nomes para tipos de matas e novos recursos utilizados ; 2) A umento na diversidade de recursos utilizados para vrios produtos, devido escassez no Xingu e sedentarizao das aldeia s (a aldeia fica sempre no mesmo lugar)

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17 3) P roteo consciente, multiplicao e desenvolvimento de novas variedades de plantas da roa, reforada por proje tos comuni trios, como o Projeto Muno wi ; 4) S ubstituio de r ecursos estratgicos por outros de qualidade similar como as plantas usadas para substituir o arum principal fibra usada na cestaria ; 5) Viagem para terras ancestrais ou para outras reas para coletar recursos estratgicos como viagem ao Teles Pires para coletar siriva e arum e viagem ao Rio dos Peixes para buscar flecha ; 6) I ntercmbio de variedades de plantas da roa entre os trs grupos; 7) D esenvolvimento de prticas de manejo de recursos especficos, atravs de apoio institucional e pesquisas colaborativas envolvendo o conhecimento ocidental e o conhecimento tradicional indgena E stes mecanismos combinados conferiram resilincia ecolgica para os Kaiabi do Xingu. Alm disso, o isolamento e a distncia de produtos industrializados e de agen tes no indgenas reforou a dependncia dos recursos naturais entre o grupo Xingu, em contraste com os outros dois grupos. I sto particularmente verdade em relao s plantas da roa: os Kaiabi do Xingu no s conserva ram as variedades de amendoim trad ic ionais, mas tambm desenvolveram novas variedades atravs de liderana e organizao social Nas demais reas, os dois grupos tiveram perda de variedades tradicionais, uma vez que as comunidades tornaram se mais dependente s de alimentos industrializados co mprados em cidades prximas. Os resultados de um exerccio de lista gem livre realizado com homens e mulheres nas trs reas mostram uma diferena de espcies de plantas citadas

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18 pelos homens e mulheres O resultado comum que os recursos utilizados para a fabricao de produtos voltados para o mercado pontuaram mais alto em comparao aos recursos utilizados exclusivamente para a subsistncia, especialmente no caso dos homens. No entanto, o m ercado muitas vezes se sobrepe ao valor de uso. Alguns recursos que pontuaram alto para ambos os sexos foram a castanha do Brasil, o "aa ", a siriva usada para arcos, o arum usado na cestaria e frutos como o cacau selvagem e o api No passado, as sociedades indgenas da Amaznia eram muito mveis mas hoje em dia el a s esto se tornando cada vez mais sedentria s. O problema da sedentarizao dos povos indgenas traz novos desafios para os antroplogos e ecologistas humanos que tentam entender as respostas scio culturais s caractersticas ecolgicas e vice versa. Qua nto ao s Kaiabi, a sua adaptao ecolgica para Parque Indgena do Xingu tambm um exemplo de inovao, conhecimento e adaptao, apesar das restries ecolgicas aumentada s pela sedentarizao das aldeias. Entre os Kaiabi do Xingu, a gesto adaptativa do s recursos naturais tem ocorrido atravs de um desenvolvimento de novas prticas de manejo atravs da colaborao com pesquisa s da cincia ocidental tais como o projeto Mu nowi, para a recuperao de variedades de amendoim, e o projeto Kaiabi Araa, que env olveu pesquisa e manejo do arum usado na cestaria Mesmo com essas iniciativas em curso, as comunidades do Xingu, Teles Pires e Rio dos Peixes tem um futuro desafiador pela frente, com ameaas para sua segurana alimentar devido exausto de solos frtei s prximo s as aldeias, e presses crescentes sobre os seus territrios, seja na disputa por terras, ou na implantao de projetos e obras de minerao, hidreltricas e extra o madeireira.

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19 Figu ra 5 Plantas mais citada s pelas mulheres e pelos homens e ntrevistados em quatro aldeias Kaiabi Homens em cor preta e mulheres em cor branca. 0.00 5.00 10.00 15.00 20.00 25.00 30.00 35.00 40.00 45.00 50.00 55.00 60.00 65.00 Tukuma'yp Jujywa Ywaete Akusikanafu Api Inata Pataua Ka'au wywa Nga Simuku'a Pinowa Ywapiruru Uruyp wete Kwae'ma Y'ryp Myrysy'wa Akusityrywa Uxi Wyrawuru'a Kamai'yp Uruyp piremi frequncia de citaes (%) Tipos de plantas homem mulher

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20 6. EMPODERAMENTO POLTICO E ASSOCIA'ES INDGENAS A transferncia do Kaiabi para Parque Indgena d o Xingu permitiu lhes o acesso a conhecimento s recursos tcnicos e rec ursos financeiros, proporcionando lhes uma plataforma para a renovao da sua identidade e para o seu fortalecimento poltico. Atravs de liderana e persistncia, os Kaiabi tm sido relativamente bem sucedido s na apropriao de instituies ocidentais e n o aproveitamento de oportunidades oferecidas pelo desenvolvimento concomitante de movimentos polticos indgenas e do movimento ambientalista n o Brasil Alguns lderes, atravs de sua experi ncia tiveram o conhecimento e a liderana necessri os para mel hor aproveitar as oportunidades que lhes foram oferecid a s. A experincia anterior com seringueiros foi importante para tornar os Kaiabi instrumentalizados no apoio aos irmos Villas Bas na administrao do Parque Indgena do Xingu. Ao mesmo tempo, o cresc ente contato com o mundo exterior, facil itado pela reputao emblemtica do Parque Indgena do Xingu, bem como as experincias resultantes do envolvimento com outros grupos in dgenas (principalmente Kayap ) nas lutas polticas a nve l nacional, contribuiu para a "capacitao e fortalecimento de lderes Kaiabi, como mostra o exemplo de Mairaw. O crescimento demogrfico dos Kaiabi do Xingu algum as dcadas aps a transferncia ajuda a explicar as difere nas entre os trs grupos. Abrigados e assistidos por u m bom servio de sade, talvez um dos melhores disponveis para os povos indgenas no pas, os Kaiabi so a maior populao no Parque Indgena do Xingu. Isto tem implicaes tambm para a persistncia cultural do grupo, uma vez no Xingu h uma reserva de p essoas que ainda falam a lngua nativa e mant m as tradies culturais. A criao da ATIX foi um marco histrico para os Kaiabi com o uma experincia scio poltica em que novos papis, identidades e atores interagem Isso foi possvel atravs do momento poltico favorvel com a oportunidade proporcionada pela multiplicao de organizaes indgenas amaznicas aps a Constituio de 1988 e d a aliana dos povos indgenas com o movimento am bientalista A ATIX contou com o apoio tcnico do ISA e apoio

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21 finan ceiro da Fundao Rainforest da Noruega desde a sua criao. Este relacionamento de longo prazo com os parceiros e instituies doadoras foi fundamental para fornecer os recursos financeiros e capacitao necessrias para sustentar e empoderar a ATIX desde a sua criao, h catorze anos. No entanto, a assimilao d e estruturas e instituies ocidentais tem potencial tant o para o bem como para o mal. Ao mesmo tempo que os Kaiabi esto melhor preparados para lidar com as circunstncias externas, eles so exp ostos a conflitos internos devido aos confrontos entre o tradicional e as novas formas de poder atravs de mudanas na organizao social e poltica, e entre velhas e novas geraes As a ssociaes ATIX, Itaok e K a waip tambm so dependentes de fundos inte rnacionais para sobreviver, e muito poucos doadores esto dispostos a prestar apoio institucional ao invs de aplicar recursos em projetos especficos. De certa forma, a parceria entre os povos indgenas e a conservao ambiental tem significado tanto a li berdade (do estado) como a dependncia (em conjunturas polticas internacionais). Como Bruce Albert afirmou: "as estratgias indgenas em relao identidade e territrio esto inscritas dentro de conjecturas polticas internacionais que estabelecem as suas condies de possibilidade, sustenta m o seu surgimento, e deline iam o leque de sua implementao." As p ercepes das pessoas sobre o papel das organizaes indgenas Kaiabi em quatro aldeias diferem entre os sexos e aldeias. Uma caracterstica comum entr e todas as aldeias analisadas a falta de participao e acesso informao pel as mulheres relacionada com o trabalho d as organizaes indgenas, bem como sobre a preferncia para futuros projetos a serem desenvolvidos em suas aldeias. No Xingu, o traba lho de patrulhamento das fronteiras do Parque reconhecido tanto n a Capivara quanto no Tuiarar, alm d o desenvolvimento de projetos e comercializao do produto s No Rio dos Peixes, o trabalho da associao Itaok muito incipiente para ser reconhecido p ela comunidade, e no Teles Pires, o trabalho da associao Kawaip visto principalmente ligado a projetos e lutas pela demarcao da terra. Considerando que a ATIX teve acess o a diferentes tipos de recursos durante os seus quatorze anos de existncia, as outras duas associaes no Rio dos Peixes (Itaok) e Teles Pires (Kawaip) tm se esforado para continuar

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22 existindo, apesar da falta de acesso a oportunidades de fin anciamento, formao e aconselhamento tcnico e de pessoal qualificado. No caso d a ATIX, a liderana de Mairaw foi fundamental para garantir boas relaes polticas com grupos vizinhos no Xingu, apesar dos conflitos e cimes que acompanham qualquer escalada ao poder. Concluo que o acesso aos recursos, por si s no garantia de empoderamento poltico de povos indgenas. Liderana, formao persistncia, transparncia e financiamento a longo prazo so ingredientes importantes na formao, fortalecimento e persistncia das organizaes indgenas na Amaznia brasileira. Figura 6 Evoluo da populao Kaiabi nas trs reas ocupadas pelo grupo de 1955 a 2007. 341 308 1102 1647 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 Numero de pessoas Ano/periodo Parque do Xingu Rio dos Peixes Teles Pires Outros Total

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23 Tabela 1. Evoluo da populao Kaiabi atravs do tempo. Anos/perodo Nmero de pessoas Xingu Park Rio dos Peixes Teles Pires O utros Total 1955 40 108 148 45 341 1966 179 53 56 20 308 1970 213 70 1979 330 95 1985 435 1989 526 130 1995 656 1999 767 265 70 1102 2002 958 2003/2004 1000 121 2006/2007 1226 266 155 1647

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24 Figura 7 Preferncia das comunidades para fut uros projetos a serem desenvolvidos por organizaes indgenas em quatro aldeias Kaiabi em 2007 CA Capivara; TU Tuiarar; RP Rio dos Peixes ; TP Teles Pires 0.00 10.00 20.00 30.00 40.00 50.00 60.00 Artesanato Nao sabe Manejo de recursos naturais Politicos Apicultura/criacao de abelhas Revitalizacao musical Festivais Castanha-do-Para Criacao de gado Educacao Pesca Pimenta indigena Sal indigena Percentagem de pessoas entrevistadas em cada aldeia (%) Preferencia por projetos TP RP TU CA

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25 7. ASPECTOS SOCIO ECONMICOS EM QUATRO ALDEIAS As aldeias consideradas neste estudo apresentam algumas semelhanas e diferenas interessantes, em termos de organizao social e perfil socioeconmico. No Xingu, Capivara e Tuiarar mostram semelhanas em relao s variveis socioeconmicas analisadas tais como escolaridade, estabilidade de renda e p roficincia na lngua indgena No entanto, ela s tambm apresentam diferenas com base em laos de parentesco, liderana, participao poltica das mulheres e acesso a recursos. Dentro de cada uma das quatro aldeias, h uma grande heterogeneidade em termos de acesso a salrios, escolaridade e oportunidades polticas. Portanto, quando da realizao de trabalho s ou de investigao com qualquer "comunidade", importante estar ciente da heterogeneidade com a qual estamos lidando. A travs das entrevistas e res ultados, possvel visualizar as diferenas entre homens e mulheres, e entre as mulheres, para as diferentes aldeias e variveis consideradas Mulheres no Xingu no trabalham como funcionrios assalariados e tamb m no tm acesso renda, como bolsa faml ia e aposentadoria como acontece no Rio dos Peixes e no Kururuzinho. Alm disso, as mulheres viajam menos que os ho mens, e no caso do Xingu, no t m educao formal, com exceo de alguns casos na Capivara. Mulheres no Rio dos Peixes mostram menos profici ncia na lngua nativa quando comparadas aos homens, porm com nveis mais elevados de escolaridade formal. Os fatores socioeconmicos de mudana cultural e perda de resilincia interagem em diferentes escalas e intensidades entre as aldeias. A idade a varivel mais importante e influente. Os ancios so os que apresentam mais fluncia no idioma, mas, em contrapartida no tem estabilidade de renda e nem escolaridade formal O fosso entre as geraes parece ser maior no Rio dos Peixes e no Kururuzinho em comparao com o Xingu. A estabilidade da renda foi a melhor varivel para prever a eroso cultural, medida pela proficincia na lngua nativa. A escola ridade no foi estatisticamente significativa no modelo de regresso logstica desenvolvida para esses d ados, mas podemos perceber pelos resultados que quanto a maior estabilidade de renda escolaridade e mistura intertnica menor a proficincia na lngua nativa. Quanto maior a heterogeneidade socioeconmica dentro de um grupo

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26 social, mais integrado econo mia de me rcado ele est Isto especialmente verdadeir o quando comparam os os dois extremos: Rio dos Peixes e Xingu. No Rio dos Peixes, a mistura de atividades econmicas e origem tnica e cultural variada de moradores indicam uma transio do estilo de vi da tradicional para a adoo de um estilo de vida no indgena Dentre algumas caractersticas que indicam um processo de mudana cultural ou de perda de resi lincia cultural tradicional para o grupo Rio dos Peixes, podemos citar a nuclearizao das famli as, a perda da linguagem tradicional, a substituio de hortas pelos quintais, a p erda da biodiversidade agrcola, a maior integrao economia de mercado, e da venda de produtos ou servios para parentes. Tomando o caso do Rio dos Peixes como um extremo no significa que no Teles Pires ou no Xingu o proce sso de mudana cultural no esteja ocorrendo. inevitvel que os povos indgenas sejam integrados na economia de mercado, como (quase) todo mundo precisa de dinheiro para comprar os produtos necessrios para o dia a dia. No entanto, os filtros institucionais, poltico s e geogrfic o s, bem como o orgul ho cultural presente no Xingu dificulta m mudanas mais profundas e, portanto, perda de resilincia. No Teles Pires, a situao intermediria entre o Rio d os Peixes e Xingu. Laos de parentesco so mais fortes por causa do tamanho da aldeia e comp osio familiar, apesar de alguma mistura intertnica Alm disso, no Xingu e no Teles Pires os laos de parentesco tm sido fortemente reforad os com a participa o de parentes do Xingu no processo de luta pela demarcao no Teles Pires, bem como os casamentos entre Ilha Grande e os moradores do Kururuzinho, o que no acontece na mesma intensidade entre Rio dos Peixes e Capivara. O processo de transformao cult ural que est acontecendo no Rio dos Peixes no deve ser considerado como linear e prev isvel Alteraes nas configuraes polticas e institucionais, bem como contatos e trocas dentro de um grupo cultural pode afetar e em alguns casos, mudar o curso da h istria. O s Kaiabi do Xingu so a prova viva disso. Apesar de stes resultados serem interessantes, o fato de que nas aldeias do Xingu quase todos os moradores so proficientes na lngua traz limites para nossas comparaes Alm disso, a proficincia na ln gua indgena, da maneira como foi medida e analisada em duas categorias, muito ampla e vaga. Para melhor estimativa da proficincia

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27 na l ngua teramos de desenvolver um instrumento para testar e aplicar entre os vrios participantes. Apesar da limita e s dos nossos dados esta anlise socioeconmica valiosa porque, em primeiro lugar, ela fornece um panorama scio econmico de todas as aldeias, estabelecendo bases para futuras pesquisas e comparaes. Em segundo lugar, ela nos d pistas sobre os fator es que sustentam os processos de mudana cultura l e os mecanismos associados.

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28 Figura 8 R enda mensal por aldeia em reais dos funcionrios assalariados aposentadorias e penses familiares. CA = Capivara ; TU = Tuiarar ; RP = Rio dos Peixes ; TP = Tel es Pires Figura 9. Fontes de renda para as pessoas entrevistadas em quatro aldeias Ka iabi CA=Capivara; TU=Tuiarar; RP=Rio dos Peixes; TP=Teles Pires. 3450.32 2280.5 7879.64 3629.3 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 9000 CA TU RP TP Renda mensal (R$) Aldeia 0.00 20.00 40.00 60.00 80.00 Artesanato Salario Agricultura Bolsa familia Aposentadoria Trabalho temporario Apoio familiar Producao de mel Castanha do Para % de pessoas em cada aldeia Fontes de renda TP RP TU CA

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29 8. O CONHECIMENTO ARTSTICO DA CESTARIA E TECELAGEM ENTRE AS TRS REAS KAIABI Os resultados aprese ntados nas diferentes sees deste captulo apoia m o argumento de que o conhecimento artstico dos tranados foi ao mesmo tempo preservado, inovado e perdido entre os Kaiabi como grupo. Inovaes foram desenvolvidas com a poss ibilidade de comercializar ces to s, tecidos e outros objetos que transportam insgnias ou smbolos Kaiabi, e atravs de novas instituies, como organi zaes indgenas e projetos O conhecimento pode ser adquirido, transformado, transmitido recuperado e ero dido entre as sociedades ind genas at r a vs de diferentes mecanismos e estratgias, alguns mais visveis e tangveis, outros menos. Considerando que nas aldeias do Xingu o conhecimento da cestaria pelos homens tem sido limitado pela falta de arum e pela falta de interesse em aprender de muitos jovens, no Rio dos Peixes a situao mais crtica, j que no h incentivo para a aprendizagem e os homens e mulheres mais jovens no esto aprendendo com o seu parentes. Tanto a lngua Kaiabi quanto o conhecimento da cestaria e da tecelagem esto seriamente ameaados de desaparecer no Rio dos Peixes. Pode se inclusive considerar que a lngua Kaiabi est em perigo de extino no Rio dos P eixes, uma vez que as crianas no esto aprendendo a lngua indgena e falam portugus desde cedo. No Xi ngu e no Teles Pires, h algumas pessoas mais jovens que ainda esto aprendendo os tranados especialmente aps o desenvolvimento do projeto Kaiabi Araa. Essa uma condio importante para a resilincia cultural ou manuteno de um domnio especfico de conhecimento indgena Qualquer sociedade indgena pode ser capaz de manter seu s sistemas de conhecimento, desde que haja gente jovem aprendendo e transmitindo mesmo com todas as inovaes. Eu considero que inovaes so manifestaes da criatividade e es tratgias de se adaptar e sobreviver. No Xingu, mesmo com a falta de arum, a capacidade de inovao do conhecimento da cestaria e da tecelagem foi desenvolvid a atravs da aplicao de vrias estratgias como o uso de substitutos, aplicando os smbolos da cestaria em outros objetos, pelo desenvolvimento de uma "indstria" txtil,

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30 utilizando desenhos da cestaria, e tambm pela estruturao do projeto Kaiabi Araa, de iniciativa indgena, para a revitalizao cultural entre dois grupos Kaiabi separados geograf icamente. Atravs deste estudo, confirmo a hiptese que as pessoas idosas detm conhecimento mais profundo sobre cestaria em comparao aos mais jovens No entanto, os domnios culturais podem diferir em seus padres de distribuio do conhecimento e int erao com outras variveis. Assim, a idade menos importante como determinante de nvel do conhecimento de tranados entre os Kaiabi, em comparao com proficincia na lngua indgena ou escolaridade. Proficincia na lngua indgena e conhec imento do tra nado de cestos e tecidos como esperado, esto fortemente correlacionados. A escolarid ade tambm afeta o conhecimento dos tranados de uma forma negativa, levando se em conta que no Rio dos Peixes a escola t em incentivado a utilizao da lngua portugue s a ao invs d a lngua nativa. No entanto, os efeitos das variveis nunca so lineares ou de mo nica como exemplificado pela integrao ao mercado, que pode ter impactos positivos e negativos sobre o conhecimento indgena. Descobri que homens e mulheres a presentam mecanismos diferentes de criao e transmisso de conhecimento: enquanto a transmisso de conhecimento das mulheres mais integrado na famlia e na dinmica de parentesco, entre os homens no processo de aprendizagem mais disperso e individual Assim, o conhecimento das mulheres pode ser mais resiliente ou menos propenso a desaparecer, uma vez que mais incorporado em parentesco e estrutura social. Alm disso, o fato de que as mulheres podem usar o algodo industrializado para a produo d a t ec elagem uma vantagem em relao aos homens que precisam colher e processar recursos naturais para produzir os cestos Um dos resultados interessantes deste estudo foi que os mecanismos de transmisso do conhecimento parece m ter mudado entre o Xingu e Tel es Pires Kaiabi aps o desenvolvimento do projeto Kaiabi Araa. U m outro mecanismo para a aprendizagem, o qual eu denomino de comunidade de prtica foi inventado por eles nas oficina s Para o domnio especializado do conhecimento dos tranados com desenhos grficos h sete mecanismos de transmisso adotados entre os Kaiabi do Xingu hoje. No Rio dos Peixes, o nico mecanismo

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31 usado por homens para aprender novos desenhos foi o livro Kaiabi Araa que algum do Xingu trouxe para eles. Assim, o Xingu , parece fu ncionar ao mesmo tempo como um laboratrio para experincias culturais inovadoras e como um repositrio e fonte de conhecimento para os outros grupos No Kururuzinho, o projeto produziu bons resultados, uma vez que existem alguns homens e mu lheres jovens que aprenderam e esto a tivamente a tecer cestos e t ecidos para venda aos turistas. Finalmente, o xamanismo tem desempenhado um papel importante na criao e transmisso d o conhecimento relacionado cestaria e tecelagem entre os Kaiabi. O fato de que h menos xams hoje em dia em comparao com tempos passados pode interferir na resilincia dos significados espirituais mais profundos e inovaes artsticas que so ligados a xams e sonhos como novos desenhos grficos e nomes dados pelos xams, recebido s de entidades espirituais em sonhos

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32 Tabela 2. Levantamento dos itens da cestaria Kaiabi. NOME DO OBJETO QUEM FAZ RECURSOS NATURAIS USOS Tapekwap / abanador Homens Juap / Broto de Tucum; 'Ypo / Cip; Inimo / Barbante; Amyneju / Algodo Mulheres usam par a abanar o fogo e virar o beiju; Homens usam para abanar e os Pajs usam para rezar e espantar espritos maus. Tamakari / Cesto Cilndrico Homens Juap / Broto de Tucum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo; Juy'Wi / Agulha de Palito de Palha Mulher guarda obje tos pequenos. Muap / Borduna Homens Tukum / Tucum; Yp / Pau; Pino'Wa / Bacaba; Uruyp / Arum; Amyneju / Algodo; Jemore'Yp / Jequitib; Ywyjupe / Tinta Guerrear, Danar nas festas, caar. Myayta / Maiaco Homens 'Ypo / Cip; Ywit / Embira Mulheres e Ho mens usam para carregar produtos da roa, rede, caa, frutas, peixes moqueados. Homens Ameywit / Imb Mulheres e Homens usam para carregar produtos da roa, rede, caa, frutas, peixes moqueados. Bolsinha de Palha de Tucum Homens Juap / Broto de Tucum Fazem simpatias para o mudo e carregar coisas midas Homens Pinop / Palha de Inaj Carregar caa e fruta. Yrupewai / Peneira Homens Uruyp / Arum Paj usa para rezar e trazer a alma dos doentes. Tapekwajowai / Abanador de Dois Cabos Homens Wuy'wa / Cana Brava; Inimo / Barbante; Juy'Wi / Agulha Mulheres usam para tampar alimentos e abanar fogo. Kangytaryta / Armao para Cocar Homens Uruyp / Arum; Amyneju / Algodo Para armao de cocar. Usado para enfeitar em festas e cerimoniais. Arapi / Enfeite da Flecha Homens Inimo / Barbante; Juy'Wi / Agulha Caar. Pinosing / Esteira Homens Pinop / Palha de Inaj Fazer Cermica.

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33 NOME DO OBJETO QUEM FAZ RECURSOS NATURAIS USOS Yrupemeauu / Peneira de Malha Grossa Homens Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo Mulheres coam massa de mandioca, Pajs usam para tirar espritos maus. Yr upemeai'i / Peneira de Malha Fina Homens Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo Coar lquidos, massa de mandioca e milho. Homens Pokop / Banana Brava; Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo Carregar rede e comida. Peneir a de Tucum Homens Juap / Palha de Tucum Guardar algodo, fuso, barro. Araa / Peneira Desenhada Homens Uruyp / Arum; Amyneju / Algodo; 'Ypo / Cip; Jemore'yp / Tinta de Jequitib Usam para fiar algodo, guardar barbante e bola de barro. Comprido Homens Juap / Broto de Tucum Mulheres usam para guardar objeto. Cesto para guardar amendoim Homens Juy'wi Ywit / Talo de Inaj Mulheres e Homens usam para guardar amendoim. Yrupefuku / Peneira oblonga Homens Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Ameneju / Algodo; Para preparar os alimentos; pegar peixinhos na pescaria. Jesi'a / Armadilha para Peixes Homens Juy'wi / Talo de Inaj; Ywit / Embira; 'Ypo / Cip; Armadilha para pegar peixe.

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34 Tabela 3. Levantamento dos itens da tecelagem Kaiabi. NOME DO OBJETO QUEM FAZ RECURSOS NATURAIS USOS Tupai / Tipia Mulheres Amyneju / Algodo; Ywewujyp / Madeira; Ywit / Embira Mulheres usam para carregar crianas. Taityrete / Rede de Casal Mulheres Amyneju /Algodo; Ywewujup / Madeira; Ywit / Embira Para deitar Mulheres Colher de Pau Serve para carregar objetos midos. E'ym/fuso Homens Yrip / Siriva; Jowosipewa Py'Afet / Casco de Tracaj Mulheres usam para fiar algodo. Taityjewak / Redes de senhadas Mulheres e Homens Amyneju /Algodo; Ywewujup / Madeira; Ywit / Embira Para deitar homens e mulheres. Taity Pypykap / Pente para Tecelagem Homens Ypirangi / Madeira Pororogi' yp / madeira Usam para fazer trama da rede e tipia. Ku'afaap/cinto M ulheres e Homens Amyneju / Algodo; Tapi'ira Pyp met / Unha de Anta; Y'wa Pefet / Casca de Semente de Castanha Homens usam para festas Tupaam/corda Homens Ywit / Embira; Ama'yp / Tipo de Embira. Usam para amarrar rede. Awanifu'am/peruca Homens Wyraap /Penas de aves; Amenaju / algodo; Enfeitar Homens para as festas.

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35 Figura 10 Estgios de confeco da cestaria A. e B. Coleta e transporte de arum ( Pirapy Coron e Popo ). C. Osmar preparando a fibra de arum D. Arum secando ao sol. E. Atur i p reparando a tinta F. Eroit tece ndo o corpo do cesto. G. Pi'u preparando a aba. H. Tu'i e seu neto pintando as peneiras I. Peneira pronta coletada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes em 1966. B A C D E G H I F

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36 Figura 1 1 Distribuio de homens que tecem cada tipo de item de cestaria por aldeia. CA Capivara; TU Tuiarar ; RP Rio dos Peixes ; TP Teles Pires 0% 20% 40% 60% 80% 100% Tapekwap Tamakari Muap Myayta Paneyru Yruokote'em Panakuawet Yrupewai Tapekwajowai Kangytaryta Arapi Pinosing Yrupemeauu Yrupemeai'i Panaku Yrupe Juap Araa Yrufuku Juyp Munuwi Yru Yrupefuku Jesi'a % de homens em cada aldeia Tipos de Cestos CA TU RP TP

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37 Figura 12 Distribuio d e mulheres que fazem cada tipo de tecelagem por aldeia. CA Capivara; TU Tuiarar ; RP Rio dos Peixes ; TP Teles Pires 0% 20% 40% 60% 80% 100% 1 Tupai 2 Tepyru 3 Taity Jepe 4 Taity pypyk 5 Taityjewak 6 Ku'afaap % de mulheres em cada aldeia Tipos de tecidos CA TU RP TP

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38 Figura 13 P o rcent agem de homens em todas as aldeias, que tecem cada tipo de item da cestaria 0.91 0.91 5.45 7.27 8.18 8.18 10.00 13.64 15.45 17.27 17.27 20.00 20.91 23.64 25.45 28.18 30.00 32.73 36.36 50.91 55.45 0 10 20 30 40 50 60 Panaku Yruokote'em Yrufuku Yrupefuku Tapekwajowai Yrupewai Kangytaryta Paneyru Tamakari Arapi Pinosing Yrupe Juap Panakuawet Jesi'a Araa Juyp Munuwi Yru Tapekwap Yrupemeauu Yrupemeai'i Muap Myayta % de homens em todas as aldeias Tipos de cestos

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39 Figura 14 P o rcentagem de mulheres em todas as aldeias, que fazem cada tipo de tecelagem Figura 15 Percentagem de mulheres e homens que t ranam cestos e t ecidos desenhados em quatro aldeias CA Capivara; TU Tuiarar ; RP Rio dos Peixes ; TP Teles Pires Mulheres: cinza claro. Homens: preto. 17.54 18.42 19.30 31.58 41.23 52.63 0.00 10.00 20.00 30.00 40.00 50.00 60.00 Tepyru / Bolsa Ku'afaap/Cinto Taity Jepe/Rede tradicional Taityjewak / Rede desenhada Taity pypyk/Rede lisa Tupai /Faixa para carregar bebe % de mulheres em todas as aldeias Tipos de tecido 79.17 81.82 7.50 32.14 68.00 65.22 13.89 34.62 0.00 10.00 20.00 30.00 40.00 50.00 60.00 70.00 80.00 90.00 Capivara Tuiarare Rio dos Peixes Teles Pires % de pessoas tecedores de desenhos Aldeias Mulheres Homens

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40 Figura 1 6 Formas de aprender a fazer cestos entre os homens nas aldeias Capivara e Tuiarar (Parque do Xingu ) em 2002. P o rcentagem de homens que responderam a cada forma de aprendizado, diretamente dos pais, ou sozinho ou atravs de parentes. Figura 1 7 Formas de aprender a fazer cestos e tecelagem entre os homens e mulheres em todas as aldeias em 2007, aps a s oficinas do Projeto Kaiabi Araa. Mulheres: cinza claro. Homens: preto. 30 30 20 10 5 5 0 5 10 15 20 25 30 35 % de homens que tecem cestos 30.77 26.15 20.00 15.38 12.31 4.62 3.08 3.08 3.08 0.00 28.89 22.22 26.67 22.22 13.33 0 8.89 4.44 2.22 4.44 0.00 5.00 10.00 15.00 20.00 25.00 30.00 35.00 % de pessoas que tecem cestos e tecidos Maneiras de aprender Mulheres Homens

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41 Figura 1 8 Uma comparao entre variveis socioeconmicas incluindo proficincia na lngua indgena e conhecimento de cestaria e tecelagem (capacidade de tecer ) entre quatro alde ias Kaiabi CA Capivara; TU Tuiarar; RP Rio dos Peixes ; TP Teles Pires 0.00 20.00 40.00 60.00 80.00 100.00 120.00 CA TU RP TP % de pessoas entrevistadas em cada aldeia ALDEIAS Participacao em reunioes politicas Mistura etnica Grau de escolaridade Abilidade de tecer cestos e tecidos Proficiencia na lingua indigena (proficiente) Estabilidade de renda (estavel)

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42 9. APRENDIZAGEM TRADICIONAL E O PROJETO KAIABI ARAA A prender a tecer acontece nas fases iniciais da transio da infncia para a adolescncia tanto para homens e mulheres sendo qu e para as mulheres esse aprendizado acontece mais cedo do que para os homens. Alm disso, h mudanas na idade de aprendizagem em aldeias onde outras estratgias alm dos mecanismos tradicionais tm sido utilizados para incentivar a aprendizagem, tais como as oficinas promovidas pelo projeto Kaiabi Araa no Tuiarar e Kururuzinho De acordo com os os homens entrevistados em cada aldeia a maioria das pessoas aprendem entre 10 e 15 anos de idade, e a grande maioria aprendeu antes de 21 anos de idade. Na alde ia T uiarar aps as oficinas do projeto Kaiabi Araa, as idades de aprendizagem so mais distribuda s entre as faixas etrias e h uma mulher que aprendeu a tecer redes com 40 anos, durante uma oficina do projeto Quanto ao conhecimento das mulheres da t ecelagem em 2007 haviam dezoito mulheres que sab ia m tecer redes desenhadas na Capivara e no Tuiarar oito no Kururuzinho e apenas duas no Rio dos Peixes Parece que quando as mulheres comearam a copiar os desenhos da cestaria na tecelagem ela s aprender am o desenho mais fcil chamado awasiayj (milho ou semente ou gro de milho ). Em 2007, uma nova categoria chamada aprendizado na oficina aparece em terceiro lugar para a aprendizagem de cestaria e tecelagem entre os Kaiabi, com uma pontuao relativamen te alta ( 20,04% para as mulheres e 26,67% para os homens) considerando que este modo de aprender foi mencionado em apenas duas aldeias. Esta categoria relaciona se com as oficinas de tecelagem promovida s pelo projeto Kaiabi Araa nas aldeias Tuiarar e Kur uruzinho de 2004 a 2006 Nestas oficinas organizad a s pelos moradores sob a superviso do coordenador Aturi Kaiabi ( Jowosipep), o processo de aprendizagem ocorreu de uma forma inovador a e interessante. Estou nomeando este modo de transmisso como muitos para muitos" em que muitos professores idosos ou no, independentemente da idade, ensinam os alunos e tambm podem aprender uns

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43 com os outros Este modo de aprendizagem pode ser tambm chamado de aprendizagem colaborativa", uma vez que isso acontece em uma comunidade de prtica cujos membros esto conscientemente participando de uma atividade de aprendizagem com um sentimento comum de identidade de grupo intrigante pensar que em primeiro lugar, este modelo de aprendizagem colaborativa foi desenvolvi do pelos prprios ndios. Em segundo lugar, n este tipo de oficina h mais liberdade para inovar e tambm para aprender sozinho possvel para uma pessoa mais velha aprender com um jovem professor que pode ser mais experiente em uma tcnica ou em algum ti po de cestaria ou tecelagem ou desenhos grficos Finalmente, este modelo fornece oportunidades sociais de aprendizagem de outra forma no disponveis no sistema tradicional de transmisso de conhecimento que geralmente ocorre na famlia entre pais e filh os dentro dos grupos de parentesco entre parentes ou no relacionado s mas nunca dentro de um grupo maior de especialistas e aprendizes que se unem conscientemente para compartilhar o conhecimento de um domnio especfico. Aps o projeto Kaiabi Araa, na s aldeias Capivara e Tuiarar houve um aumento de homens que sabem tranar 25 tipos diferentes de desenhos, para 8 tipos de desenhos a quantidade de teceles permaneceu a mesma, e para 7 desenhos, o conhecimento diminuiu. O Kaiabi projeto Araa foi respons vel por um aumento do nmero de pessoas que sabem tecer cestos entre as geraes mais jovens e tambm p or um maior conhecimento sobre saber tranar e nomear os desenhos reforada pelo livro educacional da cestaria Kaiabi, em elaborao O Projeto Kaiabi Araa foi um dos vencedores do Prmio Culturas Indgenas ngelo Cret em 2006. Deste projeto resultaram vrias publicaes e um vdeo documentrio (conferir nas fontes de informa o no final deste relato).

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44 Figura 19 Distribuio do conhecimento dos de senhos de peneira entre os homens na Capivara e no Tuiarar entrevistados em 2002 antes do Projeto kaiabi Araa, e e m 2007 aps a finalizao do projeto 0.00 10.00 20.00 30.00 40.00 50.00 60.00 70.00 80.00 PA1 PA2 PA3 PA4 PA5 PA6 PE1 PE2 PE3 PE4 PE5 PE6 PE7 PE8 PE9 PE10 PE11 PE12 PE13 PE14 PE15 PE16 PE17 PE18 PE19 PE20 PE21 PE22 PE23 PE24 PE25 PE26 PE27 Porcentagem de homens que sabem tecer os desenhos de peneira Araa nas Aldeias Capivara e Tuiarare Codigos de desenhos de peneira 2007 2002

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45 10. A PESQUISA NOS MUSEUS E A MEM"RIA CULTURAL De forma integrada a esta pesquisa, esforos vm sendo dirigidos para a documentao e registro das colees etnogrficas (colees de objetos) dos Kaiabi existentes em museus do Brasil e do exterior. Esta documentao j foi realizada no Rio de Janeiro, em So Paulo e Goinia no Brasil, e nas cidades de Berli n (Alema nha) e Basilia (Sua), localizadas na Europa (ver Tabela 4) Atravs do contato com os responsveis pelas colees sul america nas dos museus de Berlin e Basilia conseguimos a documentao dos objetos dos Kaiabi existentes em formato de fotograf ia digital. Estas fotografias e livretos foram entregues aos Kaibi em 2005. Especificamente com relao cestaria e a tecelagem, eu venho realizando a documentao fotogrfica de diferentes objetos e desenhos grficos do patrimnio Kaiabi nas aldeias e n os museus etnogrficos. Apostilas contendo uma coleo dos desenhos da cestaria, distribudas aos Kaiabi desde 1999, vem contribuindodo para que este conhecimento no seja esquecido, uma vez que artesos mais experientes podem reproduzir os desenhos apenas observando as fotografias. As mulheres tambm utilizam o livro para reproduzir os desenhos da cestaria na tecelagem.

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46 Tabela 4. Levantamento das colees de objetos Kaiabi nos museus etnogrficos Local Museu Coleo Obs Rio de Janeiro Museu Nacional Co leo Pyrineus d e Souza Rio Paranatinga e Rio Verde, 1916 Levantamento realizado por Klinton Senra, 1997 Rio de Janeiro Museu do ndio Coleo Cndido Rondon Levantamento realizado por Klinton Senra, 1997 Rio de Janeiro Museu Nacional Coleo Berta R ibeiro Parque Indgena do Xingu, 1977 e 1981 Levantamento realizado por Klinton Senra, 1997 So Paulo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de So Paulo MAE/USP Coleo Georg Grnberg, Rio dos Peixes, 1966 Levantamento realizado por Simon e Athayde, 1999 So Paulo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de So Paulo MAE/USP C oleo Harald S chultz Levantamento realizado por Simone Athayde, 1999 Goinia Museu Antropolgico da Universidade Federal de Gois Coleo Acary Passos de Oliveira, Parque do Xingu, 1970 Levantamento realizado por Jowosipep Kaiabi, 2006 Goinia IGPA Instituto Goiano de Pr histria e Arqueologia, da Universidade Catlica de Gois Coleo Jesco Puttkamer, de fotos antigas dos Kaiabi Levantamento reali zado por Jowosipep Kaiabi, 2006 Berlin, Alemanha Museu de Etnologia de Berlin Coleo Max Schmidt. Rio dos Peixes, Posto Indgena Pedro Dantas, 1929. Mato Grosso, Brasil. 38 peas. Levantamento realizado por Simone Athayde, 2003 Berlin, Alemanha Museu de Etnologia de Berlin Coleo Gnter Hartmann Parque Indgena do Xingu, 1984. Mato Grosso, Brasil. 15 peas Levantamento realizado por Simone Athayde, 2003 Basilia Sua Museu das Culturas Coleo Georg Grnberg. Rio dos Peixes, 1966. Mato Grosso, Bra sil. 100 peas. Levantamento realizado por Simone Athayde, 2003

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47 11. SNTESE E CONCLUS'ES Esta pesquisa envolveu dois campos principais de investigao inter relacionados: um estudo da dinmica do conhecimento indgena entre as mulheres e os homens em quat ro aldeias (mecanismos de distribuio, transmisso, eroso e inovao do conhecimento indgena ), e uma anlise exploratria das relaes entre di menses histricas, polticas, scio econmicas e o conhecimento artstico indgena. As principais contribu ies desta pesquisa para campos tericos de investigao sobre sistemas de conhecimento indgenas so: 1. Reviso e adaptao de modelos explorando mecanismos de transmisso de conhecimento nas sociedades indgenas (pai para filho, entre parentes, na ofic ina) ; 2. Avaliao do papel e d os efeitos das instituies ocidentais e projetos comunitrios nos si stemas de conhecimento indgena ; 3. Melhor compreenso dos padres de reteno transmisso e eroso de conhecimento, quando se considera domnios especiali zados (como a cestaria e tecelagem com desenhos grficos) ; 4. Explorao das relaes de gnero (relaes entre homens e mulheres) nos mecanismos de transmisso e de distribuio do conhecimento; 5. Ado o de uma abordagem de sistemas para o e studo do con hecimento indgena, como parte de um sistema scio ecolgico multi dimensional O c onhecimento da cestaria e t ecelagem com desenhos grficos pode ser considerado um tipo de conhecimento especializado, j que no necessariamente compartilhado por todos o s indivduos de uma populao. Este domnio foi abordado como um sub sistema incorporado em um sistema so cio ambiental mais amplo no qual fatores histrico s, territoriais, ambientais e polticos interagem em diferentes escalas e velocidades. O conheciment o da cestaria e da tecelagem foi dividido em cinco sub domnios ou mdulos,

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48 nomeadamente form a (tcnicas), funo (usos, incluindo a produo para o mercado), materiais (recursos naturais utilizados na cestaria e tecelagem), sentido (significado social, si mblico e espiritual) e linguagem grfica (conhecimento de diferentes desenhos grfi cos tranados nos cestos e tecidos) As variveis socio econmicas foram selecionadas a fim de estudar as variaes na distribuio e transmisso de conhecimento da cestar ia e tecelagem entre homens e mulheres n as aldeias de acordo com fatores como idade, sexo, proficincia na lngua Kaiabi, escolaridade e integrao com a economia de mercado. A p roficincia na lngua indgena (capacidade de falar e entender a lngua) tem s ido muitas vez es utilizada como um indicador para entender a diversidade cultural e a vitalidade dos sist emas de conhecimento indgena Neste estudo, eu comparei o comportamento estatstico da proficincia do conhecimento dos tranados em relao outras variveis, pa ra verificar em que medida um poderia ser usado como um indicador sobre o estado do outro. Atravs d o estudo processual, foi possvel registrar as mudanas que ocorreram em um domnio cultural, como resultado do empoderamento pol tico e, por tanto, maior a cesso a recursos financeiros e tcnicos pelos Kaiabi do Xingu. O desenvolvimento de um projeto comunitrio (Kaiabi Araa) para a revitalizao cultural da cestaria e tecelagem entre homens e mulheres no Xingu e na aldeia Kururuzinho no Teles P ires desencadeou mudanas na distribuio e transmisso do conhecimento entre as comunidades envolvidas. Para esta pesquisa, estabeleci cinco hipteses relacionadas com a distribuio intracultural do conhecimento indgena e o efeito d e instituies ocide ntais (escola, mercado acesso a salrio ) neste conhecimento como segue: H1: Idosos ret m conhecimento mais detalhado e diferente quando comparados aos mais jovens; H2: Homens e mulheres usam mecanismos diferentes na criao e transmisso de conhecimento; H3: Maiores nveis de integrao no mercado esto ligados eroso do conhecimento artstico entre trs grupos Kaiabi;

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49 H4: A e scolaridade formal corri o conhecimento indgena: nveis mais elevados de escolari dade formal leva m a nveis mais baixos de co nhecimento dos tranados entre homens e mulheres; H5: Papel de proje tos comunitrios: o projeto Kaiabi Araa responsvel por um aumento do nmero de teceles de cestaria e t ecelagem entre as geraes mais jovens. Regist rei que o conhecimento da tecelagem foi tanto inov ado como erodido ou perdido entre os Kaiabi como um grupo. Enquanto no Xingu e no Teles Pires o conhecimento tem sido ao mesmo tempo mant ido e re criado, no Rio dos Peixes este pode ser considerado ameaado de extino, juntamente com a lng ua nativa Kaiabi Curiosamente, comunicao e interaes entre as aldeias, principalmente atravs de parentesco, tm permitido a transferncia de conhecimento entre os residentes nas tr s reas de maneira inesperada Por exemplo, alguns homens no Rio dos P eixes aprenderam com o livro Kaiabi Araa (que contm um catlogo fotogrfico de desenhos ) que um parente do Xingu levou para l A idade o fator mais importante como determinante de proficincia na lngua. Alm disso, o conhecimento geral sobre diferent es tipos de cestos mais influenciado pela idade do que o conhecimento especializado sobre os usos ou nomes de desenhos grficos, principalmente entre os homens Este resultado tambm um indicativo de mudanas nos mecanismos de aprendizagem e transmiss o trazida s pelo projeto Kaiabi Araa e com a noo de orgulho cultural e status ligado a cestaria e tecelagem no Xingu e no Teles Pires. Os testes estatsticos executados envolvendo a proficincia na lngua indgena e o nvel do conhecimento dos tranad os no revel aram influncia significativa do sexo sobre as variveis que indicam a robustez do conhecimento indgena. Apesar da falta de significncia estatstica, eu encontrei diferenas importantes entre homens e mulheres nas aldeias, a respeito do perf il scio econmico e d os mecanismos de transmisso de conhecimento. Mulheres no Rio dos Peixes mostrar am menos proficincia na lngua Kaiabi e maior participao na educao formal em relao aos homens. O conhecimento da cestaria e

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50 tecelagem no Rio dos Pe ixes mantido nas mos de poucos ancios e entre as mulheres que viveram e aprenderam no Xingu. A falta de aprendizagem entre jovens no Rio dos Peixes um outro indicador de eroso e perda de conhecimento em contraste com Xingu e Teles Pires. Os dados q ualitativ os indicam que o conhecimento da tecelagem entre as mulheres est mais integrado na famlia e na dinmica de parentesco em compara o ao conhecimento da cestaria entre os homens. Alm disso, o desenvolvimento de novos objetos comercializveis, com o bolsas pelas mulheres, juntamente com o uso de algodo industrializado e a transferncia de novos desenhos da cestaria para a tecelagem, conferem maior resi lincia ao conhecimento das mulheres em contraste com o dos homens. O a lgodo industrializado fa cilmente comprado nas cidades, em contraste com o escasso arum preferi do pelos homens para tecer cesto s des enhados Assim, concluo que o conhecimento da tecelagem entre as mulheres pode ser mais resistente do que o da cestaria entre homens, e que as m ulh eres desempenham um papel (por vezes esquecido ) importante para manter e inovar conhecimentos nas sociedades indgenas. Eu esperava qu e maiores nveis de integrao a o mercado levaria m eroso do conhecimento artstico entre os Kaiabi. Relacionado a isso eu encontrei, similar a outros autores que a integrao a o mercado pode produzir resultados ambguos sobre o conhecimento indgena. A integrao ao mercado (medida atravs do nvel de estabilidade de renda entre os entrevistados) mostrou significncia e statstica no modelo de regresso logstica em que eu tinha a proficincia como varivel dependente. Assim, maiores nveis d e estabilidade de renda conduzem a uma menor proficincia na lngua nativa entre os Kaiabi. Este resultado refere se explicitamente situao no Rio dos Peixes, onde h mais heterogeneidade socioeconmica atravs do acesso renda. Apesar da influncia significativa na proficincia na lngua, eu no encontrei nenhum significado para a integrao de mercad o relacionada com o conhecime nto dos tranados A tentativa de medir quantitativamente a integrao do mercado e transformar a diversidade de possibilidades de interao

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51 com as diferentes instncias de mercado entre os povos indgenas em uma nica varivel tambm pode ser uma restri o metodolgica. Eu encontrei para o ca so Kaiabi que a interao com o mercado pode trazer tanto a inovao e a eroso do conhecimento indgena, dependendo do tipo de relacionamento e da proximidade geogrfica s oportunidades de mercado. Nas economias pred ominantemente orientada s para a subsistncia, como no Xingu, a interao do mercado pode levar inova o do IK e, ao mesmo tempo, a o aprofundamento de conhecimentos relacionados aos itens comercializveis em detrimento de outros, tal como acontece com a c estaria e a tecelagem O n vel de escolaridade formal mostr ou um comportamento estatstico oposto em comparao estabilidade de renda nos modelos de regresso logstica desenvolvidos para explorar as interaes entre as variveis de proficinc ia na l ng u a e conhecimento dos tranados consideradas variveis dependentes indicativas de resilincia cultural. No houve significncia para a escolaridade em relao proficincia na lngua. No entanto, foi estatisticamente corr elacionada com o conhecimento da tecelagem, no qual os nveis mais elevados de instruo formal esto ligado s a nveis mais baixos de conhecimento dos tranados Eu concluo que a escolarizao pode causar a eroso d o conhecimento indgena. No entanto, assim como a integrao do mercado, n o devemos considerar a influncia das instituies ocidentais como um processo de mo nica direcional e previsvel O tipo de sistema educacional desenvolvido em escolas situadas em terras indgenas pode incentivar ou restringir a continuidade da lngua indgena e tradies entre as comunidades. A situao em todas as aldeias que as pessoas que tm maior acesso educao formal tambm pode m ter outras fontes de renda e acesso a mercados o que em conjunto significa menores nveis de conhec imento tradi cional Comparando a situao do conhecimento dos tranados no Xingu e no Teles Pires, entre 2002, 2004 e 2007, descobri que houve um aumento significativo do conhecimento da cestaria e tecelagem com desenhos grficos por homens e mulheres no Tuiarar (Xi ngu) e Kururuzinho (Teles Pires), as aldeias participantes. O projeto Kaiabi Araa levou tanto revitalizao como inovao do conhecimento dos tranados entre os participantes. Os resultados deste

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52 proje to trazem importantes questes tericas para o estu do dos si stemas de conhecimento indgena Em primeiro lugar as comunidades desenvolveram uma nova forma de transmitir conhecimento nas oficinas do projeto, atravs de um mecanismo que chamei de "muitos para muitos" ou de aprendizagem colaborativa. Neste n ovo mecanismo, o aprendizado pode acontecer entre duas ou mais pessoas, independentemente da sua idade ou parentesco. Alm disso, os Kaiabi copi aram e aprenderam desenhos da cestaria de um livro (Kaiabi Araa), contendo fotografias de cestas tomadas nas a ldeias Kaiabi e museus nacionais e internacionais. O livro serve como um instrumento de memria para os Kaiabi, em que desenhos mais complexos ameaado s de desaparecer tm sido novamente produzido s por teceles mais experientes. Assim, o livro outra inov ao que veio da minha parceria com o Kaiabi, resultante das alianas polticas com o movimento de conservao da Amaznia que permitiu o meu trabalho a longo prazo e o compromisso com o grupo. interessante notar que, semelhana de inovaes produzida s exclusivamente para o mercado, a transmisso dentro das instituies ocidentais (como projetos) pode permitir formas inovadoras de transmisso que s eriam de outra forma inaceitveis dentro do sistema tradicional de organizao social. Explorando o sub d omnio ligado ao significado espiritual da cestaria e da tecelagem, eu percebo que o conhecimento, o xamanismo indgena e a diversidade de plantas e objetos (neste caso os desenhos de cestaria) e sto intrinsecamente relacionado s, e que muitos atos de desco berta, criao e nomeao de pla ntas e objetos entre os povos indgenas so desenvolvidos atravs de xamanismo e sonh os O principal mecanismo utilizado para a aprendizagem de desenhos da cestaria o da observao de cestas prontas feitas (e ul timamente d e fotografias contida s em um livro) reproduz um mito no qual o heri ancestral Tuiarar copi ou um desenho de cestaria da pele de uma cobra que havia roubado da casa desta cobra anaconda O mecanismo de aprender com os outros, muitas vezes inimigos, ou t ransformar o conhecimento dos outros e habilidades ou algo prprio uma caracterstica importante das sociedades Tupi que est presente na organizao social e nos estilo de aprendizagem entre os Kaiabi at hoje H indicadores de que o grupo mais comple xo de desenhos da

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53 cestaria, aqueles que representam uma figura mtica chamada ta'agap foram aprendidas com os povos Apiak, inimigos ferozes do Kaiabi no passado. A proficincia na lngua Kaiabi e o conhecimento dos tranados esto fortemente correla cion ada s. Proficincia na lngua foi a varivel mais importante que influencia o conhecimento dos tranados no modelo de regresso logstica, incluindo todas as variveis. Uma pessoa que proficiente na lngua Kaiabi tem 71,16% de chance a mais de saber tran ar peneiras e cestos desenhados em comparao com algum que no proficiente. Eu comparei o comportamento estatstico dessas duas variveis, para verificar em que medida eles poderiam ser usados como indicadoras do estado de conhecimento indgena entre u m determinado grupo. Descobri que existem algumas diferenas sobre a relao entre estas e as outras variveis selecionadas. Neste caso, dado o fato de que os tranados (cestos e tecidos) representam um donnio de conhecimento especializado, sugiro que as diferenas encontradas podem no seguir a mesma tendncia, se considerarmos um domnio de conhecimento diferente. Isto especialmente verdade quando se considera a relao entre a idade e o conhecimento de t ranados na anlise de regresso linear, que foi significativa apenas para o nmero de tens da cestaria conhecidos pelos homens em todas as aldeias. Concluo que a proficincia na lngua pode ser usada como um bom indicador da capacidade de resi li ncia cultural, mas no deve ser aplicado como um indicad or para cada domnio de conhecimento, uma vez que estes podem apresentar as suas prprias especificidades relativas interao com outros fatores. Os resultados apiam o argumento de que pode haver diferenas nos padres de distribuio e transmisso de conhecimento entre os domnios de conhecimentos especializados (por exemplo cestas desenhadas ), em contraste com outros domnios mais gerais, como a cestaria em geral e o conhecimento de variedades da roa por exemplo. O utros autores encontraram que o par entesco, idade e sexo so determinantes importantes no conhecimento das plantas da roa entre sociedades indgenas : mulheres mais velhas no mesmo grupo de parentes co so as que detm um conhecimento mais aprofundado sobre variedades de mandioca e amen doim Neste estudo, descobri que o sexo e o

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54 parentesco no so expressivamente influente s na distribuio do conhecimento dos cestos e tecidos desenhados e que as pessoas jovens e de meia idade tambm podem reter um conhecimento aprofundado dos desenhos, de ac ordo com o interesse Sugiro que os estudos sobre sistemas de conhecimento indgena no pode m ignorar o papel que as instituies ocidentais, incluindo mercados, escolas, projetos e associaes pode estar desempenhando na mudana de mecanismos de distribu io e transmisso de conhecimento. Os principais fatores que permitiram a inovao e a resili ncia do conhecimento dos tranados entre os Kaiabi do Xingu foram : 1) tipo de integrao ao mercado existente l, em que o artesanato ainda representa uma das p rincipais fonte s de renda fami liar; 2) o processo de empoderamento poltico e conseqente de senvolvimento de proje tos comunitrios orientados para a revitalizao cultural; 3) a liderana e persistncia de Aturi (Jowosipep) Kaiabi, que coordenou o projeto e 4) a adoo de desenhos de cestaria como smbolo da identidade Kaiabi, incluindo sua transferncia para outros objetos, como t ecidos bancos de madeira, livros e at mesmo pintura corporal e 5) o uso de substitutos para a fibra vegetal de arum p rincipa l matria prima utilizada na cestaria Sugiro que a inovao um fa tor essencial para a permitir a resilincia dos sistemas indgenas de conhecimento em tempos de globalizao e aumento da sua participao e a doo d e instituies ocidentais. Sendo assim, concluo que a cestaria Kaiabi e a diversidade de desenhos associados foi transformada de u m conjunto de smbolos de prestgio indivdual, especialmente ligados ao tecelo e sua famlia para um smbolo de identidade coletiva ligado a uma coletividade maior no contexto da dinmica social, poltica e de mercado que vem caracterizando a gesto de terras indgenas na Amaznia ps Constituio e ps polticas de desenvolvimento sustentvel 12. CONTRIBUI'ES, RECOMENDA'ES E PR"XIMOS PASSOS Esta pesquisa most rou que os fat ores mais relevantes p a ra a auto determinao ent re os Kaiabi so a capacidade de agncia e a liderana combinada s com o acesso de longo prazo a recursos financeiros e tcnicos

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55 trazidos pela aliana entre os povos indgenas e conservao amb iental Assim, um papel importante a ser desempenhado pelos profissionais, pesquisadores e formuladores de polticas seria apoiar e facilitar o processo de formao e capacitao poltica dos povos indgenas, de modo que eles sejam capazes de gestionar as suas prprias associaes e projetos de acordo com sua agenda e interesses. Um senso de propriedade fundamental para o sucesso de qualquer iniciativa entre os povos indgenas: o que vem de fora projeto de outra pessoa mas o que desenvolvido a partir de dentro ou da base o seu projeto. Isso no significa que eles no dependem do apoio externo na forma de projetos, recursos financeiros e tcnicos, mas que devemos trabalhar sob a premissa de transferncia de poder para as mos dos povos indgenas A c onstruo de plataformas que permitem aos povos indgenas aprender com as experincias em programas de gesto territorial tambm deve ser apoiada e reforada por agncias de fomento e outras instituies. Este estudo apresenta implicaes prticas para pr ogramas de desenvolvimento e conservao a serem im plementado s na Amaznia. Sugiro que mai s flexibilidade poderia ser dada a iniciativas baseadas na comunidade, na qual as pessoas pode m querer priorizar processos de revitalizao cultural sobre aes de co n servao ambiental No longo prazo, os fundos so melhor aplicado s s e forem relevantes para os obje tivos dos povos indgenas, nos quais a conservao ambiental pode s er uma consequncia de controle e gesto territorial e orgulho cultural O processo de ca pacitao que vem de colaborao, planejamento e execuo de um projeto baseado na comunidade, muitas vezes esquecido, pode ser mais valioso do que seus resultados prticos a longo prazo Esta pesquisa tem aplicaes potenciais em processos de reivindica es por terras e lutas nas quais os trs grupos Kaiabi esto envolvidos, bem como no desenvolvimento de parcerias entre os trs grupos na execuo de suas associaes e projetos e no processo de estabelecer o controle sobre seus territrios. Esforos poder iam ser dirigidos para apoiar uma maior conexo entre os lderes da s comunidade s do Xingu, do Rio dos Peixes e do Teles Pires talvez atra vs do desenvolvimento de proje tos de interesse comum, tais como o envolvimento tanto do Xingu e Teles Pires grupos em torno do projeto Kaiabi

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56 Araa A maior inte g r ao entre esses grupos poderi a ajudar o grupo do Rio dos Peixes a melhorar su a organizao e capacidade para executar projetos de interesse das comunidades, tais como a comercializao da casta nha do Brasil, o artesanato ou a apicultura. Parcerias entre o grupo Xingu, ATIX e Kawaip tambm devem ser incentivadas, e um projeto de apicultura para a regio Teles Pires poder ia ser desenvolvido em parceria ou sob a superviso de alguns lderes Kaiabi. Outra recomenda o que mais a teno e oportunidades devem ser dadas s mulheres para acessar informaes relativas ao papel das organizaes polticas, bem como em processos decisrios sobre o desenvolvimento de projetos de gesto territorial. Deve m haver mais esforos para formar as mulheres para liderana em arenas polticas. Esforos poderiam ser dirigidos para promover a revitalizao da lngua Kaiabi e conhecimento associado nas escolas indgenas, como est sendo feito no Xingu. Isto especialmente srio n o Rio d os Peixes, onde a escola pode desempenhar um papel na valorizao da lngua Kaiabi entre os jovens. Livros didticos produzidos para as escolas indgenas do Xingu poderia m ser usado s no Rio do s Peixes, e os professores poderiam ter oportunidade de interagi r mais com os professores do Xingu. Eventos conjuntos, tais como ofici nas de artesanato e feiras poderiam ser promovidas ligando os trs grupos, aumentando a s plataformas para a aprendizagem e aes conjunta s Nesta pesquisa, foram desenvolvidos alguns modelos e abordagens para os sistemas de conhecimento indge na que poderiam ser aplicados n o estudo de outras reas do conhecimento, a fim de comparar semelhanas e diferenas que possam existir entre os domnios em relao aos fatores scio econmicos, po lticos e ambientais. Isso proporcionaria uma melhor compreenso de contrastes e tendncias entre os domnios de conhecimento mais gerais ou especializados dentro de um determinado grupo cultural ou entre os grupos. Sugiro que uma comparao mais aprofunda da entre os domnios do conhecimento dos tranados e das plantas da roa poderia ser realizada entre os

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57 Kaiabi. Sugiro tambm que a investigao sobre o conhecimento e manejo de plantas da roa pode ser estendido para o s grupos do Rio dos Peixes e Teles Pi res. Alm de proporcionar o retorno dos resultados desta pesquisa para todas as trs comunidades Kaiabi, sugiro que sejam dipendidos esforos para a finalizao do livro didtico Kaiabi Araa, public lo e distribu lo para os moradores nas trs reas Iss o ser um a grande contribuio para a resilincia do conhecimento da cestaria e tecelagem entre os trs grupos C omo esta investigao foi centrada em uma comparao entr e os trs grupos Kaiabi, levanto a necessidade premente de uma anlise mais cuidados a sobre os efeitos da expanso Kaiabi na nova configurao do Parque Indgena do Xingu, por exemplo, como eles ocuparam o espao dentro do Parque e como suas alianas e aes polticas afetaram a paisagem no Xingu e entre outros grupo s xinguano s nos ltimo s quarenta anos O mesmo verdadeiro para o Rio dos Peixes e Teles Pires, nas quais que o territrio compartilhado com grupos Apiak e Munduruku. Compreender as relaes entre os Kaiabi e outros grupos indgenas com os quais eles compartilham o territr io, bem como entre eles e outros atores sociais no indgenas que habitam os arr edores de suas terras atuais outro passo importante a tomar para apoiar os processos de reinvindicao por terra s e as perspectivas para uma melhor gesto e controle de seus territrios. Mesmo com todos os desafios que se avizinham, a histria Kaiabi um exemp lo inspirador de auto determinao e inovao em resposta aos grandes impactos sofridos pelos povos da Amaznia em seu contato e convivncia com os no ndios. Porque am bos f uturos de ndios e no ndios esto tranados como as fibras de arum ou de algodo que tranam o poder de criar destruir, conservar e sonhar

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58 13. FONTES DE INFORMAO Principais d ocumentos e publicaes disponveis on line: Athayde, S. F. (org). 2 004. Uruyp Porongyta O Manejo do Arum no Xingu. Livro Educativo. Programa Xingu, Projeto Formao de agentes indgenas de manejo de recursos naturais. So Paulo e Canarana, Instituto Socioambiental e ATIX. On line: http://ufdc.ufl.edu/IR00000690/00001 Athayde, S. F.; G. M. Silva; J. Kaiabi; M. Kaiabi; H. R. Souza; K. Ono and E. M. Bruna. 2006. Amazon. Journal of Et hnobiology 26 (1): 36 59 Cover article. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000635/00001 Athayde, S. F.; Kaiabi, A.; Ono, K. Y. and Alexiades, M. 2009. Weaving power: displacement and the dynamics of b asketry knowledge amongst the Kaiabi in the Brazilian Amazon. Chapter of Book. In: M. Alexiades (ed.) Mobility and Migration in Indigenous Amazonia: Contemporary Ethnoecological Perspectives London : Berghan Books. Ch 11, 249 274 p. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000634/00001 Athayde, S. F. (org). 2006 O Livro da Cestaria Kaiabi. Segunda verso. So Paulo e Canarana, Instituto Socioambiental e ATIX. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000692/00001 Athayde, S. F. (org). 2007. Ere Kwa Te Taity Apoo? Voce Sabe Fazer Rede? O Livro da Tecelagem Kaiabi. So Paulo e Canarana, Instituto Socioambiental e ATIX. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000693/00001 Athayde, S. F. 2010. Weaving power: displacement, territory and indigenous knowledge systems across three Kaiabi groups in the Brazilian Amazon. Tese de doutorado, Programa de Doutorado em Ecologia Interdisciplinar, Gainesville, Universidade da Flrida. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000694/00001 ATIX (1) Associao Terra Indgena Xingu. 2004. Relatrio Tcnico do Projeto Kaiabi Araa 2004 Organizao Simone Athayde e Aturi Kaiabi. Canarana e So Paulo : ATIX e ISA. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00001136/00001 ATIX (2) Associao Terra Indgena Xingu. 2005. Relatrio Tcnico do Projeto Kaiabi Araa 2005 Organizao Simone Athayde e Aturi Kaiabi. Canarana e So Paulo : ATIX e ISA. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00001137/00001

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59 ATIX (3) Associao Terra Indgena Xingu. 2006. Relatrio Tcnico do Projeto Kaiabi Araa 2006 Organizao Simone Athayde e Aturi Kaiabi. Canarana e So Paulo : ATIX e ISA. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00001138/00001 Grn berg. G. 2004. Os Kaiabi do Brasil Central Histria e Etnografia So Paulo: Instituto Socioambiental. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00000742/00001 Kaiabi, A. 2006. A Cestaria e Tecelagem Kaiabi Trabalho de concluso de curso, Lienciatura em Lnguas, Artes e Literatura. 3 Grau Indgena, UNEMAT, Barra do Bugres, 2006. On line: http://ufdc.ufl.edu/l/IR00001121/00001 ANEXO S 1. Cdigos e nomes do s desenhos de cestaria e tecelagem C odigo tipo Nome C odigo tipo Nome PA1 Kwasiarapat PE23 Awara pypot PA2_A Ipirien and or Jarukang PE24_A Ipiren PA2_B Ta'agafu'a jarukang PE24_B Jarukang PA2_C Jeywyu PE24_C Ta'agafu'a jarukang PA3 Kwasiarapat P E25_A Jowosiape PA4 Kwasiarapat PE25_B E'a japorymo PA5_A Panakukupe PE26 I'yp PA5_B Irujerap PE27_A Yogajurat PA6_A Awara pypot PE27_B Yowawat PA6_B Awara'i pypot fuku'i PE28 Ipirien e Jarukang PA7 Kwasiaruu, kwasiarapat PE29 Kwasiaruu (CF) P E1_A Ta'agap tayt PE3_A Taangap fw eok PE1_B Araa PE3_B Kwasiaruu jopep PE1_C Ta'agafu'a PE3_C Ta'agap fu'a jopep PE1_D Ta'agawoku tayt PE3_D Ta'agap jopep PE1_E Ta'agap fu'a tayt re in PE3_E Taangap PE10_A Inimo eta PE3_F Ta'agafu'a ea'em PE 10_B Yok PE4_A Taangap PE10_C Jowiterian PE4_B Ta'agawoku jopep PE10_D Ta'agafu'a jarukang PE4_C Ta'agap jopep ifw fuku PE10_E Yogii PE4_D Ta'agap jopep PE10_F Apiywo'ok PE5_A Taangap jakunaap PE11 Iwirapyj PE5_B Ta'agafu'a tayt PE12_A Iwirapy j,Inimo eta PE5_C Ta'agawoku jakunaap PE12_B Iwirapyj, yogajurat PE5_D Ta'agafu'a fuku tayt PE12_C Iwirapyj e Yog'ii PE6 Ta'agafu'a PE12_D Yogii, iwirapyj PE7_A Kwasiat PE13 Inimo eta PE7_B Ta'agafu'a ea'em PE14_A Taangap PE7_C Ta'agawoku PE14_ B Ta'agawoku jakunaap PE7_D Panakukang

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60 PE14_C Ta'agap fu'a iru PE8 Kwasiarapat PE15 Taangap,iwirapyj,awasiayj PE9 Awasiayj PE16 Kururu'i PE17 Awasiayj TECELAGEM PE18_A Awasiayj PE18_B Awasiayj iru TE1 Awasiayj PE19 Kwasiapiayj TE10 Ind PE2_A Taangap fw eok TE2 Jarukang PE2_B Ta'agap fu'a fw eok TE3 Awarapypot PE2_C Jywa pekangerowat TE4 Jowiterian PE2_D Kupekang Jyrowak TE5 Kwasiapiayj PE20 Kwasiarapat TE6 Kururu'i PE21_A Moiafu'a TE7 Pirapeku, Kangytat pit PE21_B Iwi rafu'a TE8 Kwasiarapat PE22_A Janipap wuu TE9 Yok, Yogajurat PE22_B Kwasiaruu

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61 2. Desenhos grficos da cestaria Kaiabi e cdigos utilizados na pesquisa PE 24 Ipirien, Jarukang PE 24 Ipirien, Jarukang PE 23 Awarapypot PE 16 PE 13 Jowiterian PE 21 PE 26 PE 17, PE 18 Awasia j, Awasia PE 9 Awasia j

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62 PE 22 Janipap wuu, Kwasiaruu PE 8 Kwasiarapat PE 19 Kwasiapia j PE 25 Jowosiape PE 27 Yogajurat, Yowawat PE 10 Jowiterian, Inimo eta, Yogajurat, Yok, Yogii PE 12 Iwir apyj e inimo eta, Iwirapyj, Iwirapyj e yogajurat, Iwirapyj e yogii PE 11 Iwirap j PE 7 Kwasiat, Ta'agafu'a, Ta'agawoku

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63 PE 6 PE 5 a jak PE 1 PE 2 Jywa pekangerowat PE 3 PE 4 jopep ifw fuku PE 14 Ta'agafu'a, Ta'agafu'a tayt, Ta'agafu'a jakunap, Ta'agafu'a jak, Ta'agafu'a fuku PE 15 T awarapypot PE 29 Kwasiaruu

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64 Panak PA 1 Kwasiarapat PA 2 Ipirien, Jarukang ou Pirapek PA 3 Kwasiarapat no fundo do cesto PA 4 Kwasiarapat PA 5 PA 6 Awarapypot, PA 7 Kwasiaruu, Kwasiarapat PA 8 Jarukang and Ipirien variao

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65 3. Desenhos grficos da cestaria Kaiabi transferidos p ara a tecelagem pelas mulheres TE 1 Awasiayj TE 2 Jarukang TE 3 Awarapypot TE 4 Jowiterian

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66 TE 5 Kwasiapia j TE 6 TE 7 Pirapek

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67 TE 8 Kwasiara pat TE 9 Yogajurat

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68 4. Coleo particular de cestos de Simone Athayde proposta para possvel parceria com museus e tombamento como patrimnio do Povo Kaiabi

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