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A Cestaria e Tecelagem Kaiabi
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 Material Information
Title: A Cestaria e Tecelagem Kaiabi
Series Title: Indigenous University, Brazil
Physical Description: Monograph
Creator: Kaiabi, Aturi
Publisher: UNEMAT - Universidade do Estado do Mato Grosso
Place of Publication: Barra do Bugres, Brazil
Publication Date: 2006
 Notes
Acquisition: Collected for University of Florida's Institutional Repository by the UFIR Self-Submittal tool. Submitted by Simone Athayde.
Publication Status: Unpublished
 Record Information
Source Institution: University of Florida Institutional Repository
Holding Location: University of Florida
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ATURI KAIABI A CESTARIA E TECELAGEM KAIABI TRABALHO DE CONCLUSO DE CURSO LICENCIATURA EM LINGUAS, ARTES E LITERATURA BARRA DO BUGRES MT 2006

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II ATURI KAIABI A CESTARIA E TECELAGEM KAIABI Governo do Estado de Mato Grosso S ecretaria de Estado de Educao Universidade do Estado de Mato Grosso Fundao Nacional do ndio Prefeitura Municipal de Barra do Bugres Campus Universitrio Deputado Estadual Rene Barbour Projeto de Formao de Professores Indgenas 3 Grau Indgena Orientao: Equipe de Docentes do 3 Grau Indgena BARRA DO BUGRES MT 2006

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III ATURI KAIABI A CESTARIA E TECELAGEM KAIABI Banca Examinadora ______________________________ Prof. Ms. Maria Aparecida Re z ende Presidente ______________________________ Prof. Ms. Francisca Novantino Paresi Convidada ______________________________ Prof. Maria Margarete Noronha Valenti m Convidada ______________________________ Prof. Elza das Dores Ferreira Convidada _______________ ______________ Prof. Sandra Regina Gutierres Convidada _____________________________ Prof. Ms. Lucimar Luisa Ferreira Convidada ______________________________ Prof. Dr. Elias Janurio Coordenador do 3 Grau Indgena Barra do Bugres MT, 16 de ja neiro de 2006.

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IV Dedico est e trabalho para os Kaiabi da minha comunidade, da aldeia Tuiarare, Xingu Mato Grosso, TI Kururuzinho Par, professores e coordenadores do projeto de formao de professores indgenas da UNEMA T Barra do Bugres, Simone Atade do ISA e, especialmente, para o prefeito Arnaldo Pereira que nos deu muito apoio durante o seu mandato.

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V AGRADECIMENTOS Eu quero agradecer ao povo Kaiabi da aldeia Kururuzinho, Tuiarare no Xingu, aos alunos do 3 grau indgena, aos membros da Associao Terra Indgena do Xingu, ao coordenador do Projeto de Formao de Professores Indgenas, Doutor Elias Janurio e tambm aos professores que tiveram toda a pacincia de trabalhar com os acadmicos no 3 Grau Indge na Unemat.

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VI SUMRIO AGRADECIMENTOS ................................ ................................ ................................ .............. V INTRODUO ................................ ................................ ................................ .......................... 7 CAPTUL O I ARUM E A HIST"RIA DO POVO KAIABI ................................ ............... 8 CAPTULO II CESTARIA E TECELAGEM KAIABI ................................ ........................ 14 2.1 COMO APRENDEMOS A FAZER PENEIRA ................................ .......................... 21 CAPTULO III ORIGEM DA CESTARIA ................................ ................................ ........... 26 CONSIDERA'ES FINAIS ................................ ................................ ................................ ... 31 FON TES E BIBLIOGRAFIA ................................ ................................ ................................ .. 32 ANEXO ................................ ................................ ................................ ................................ .... 33

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7 INTRODUO A cestaria e a tecelagem Kaiabi so muito importantes na cultura; sendo que elas so usadas para preparar os alimentos do dia a dia, oferenda espiritual dos pajs, sendo uma fonte de renda para o benefcio da comunidade. Alm disso, a arte de tecer e fazer cesto constitui uma grande ferramenta de conhecimento e sabedoria para o ensinamento prtico na cultura K aiabi. A minha pesquisa sobre a cestaria e a tecelagem do povo Kaiabi, que tem o objetivo de buscar revitalizao do conhecimento sobre cestaria e tecelagem, atravs de fotos antigas, histria escrita pelos antroplogos sobre a arte dos Kaiabi. Nesse tra balho consegui coletar fotos, alguns livros de pesquisa atravs da assessoria tcnica Simoni do ISA e tambm fizemos entrevistas com as pessoas de 25 a 80 anos de idade sobre a importncia da cestaria e da tecelagem Kaiabi. Acompanhei todos os processos de produo de tranado e tambm o tear de linhas para fazer diferentes tipos de rede de dormir. Foram feitas tambm observaes sobre o uso do cesto em cada casa de famlia e acompanhamento do processo de produo e a coleta de matria prima no ecossistema que o arum 1 mais se adapta. O trabalho est organizado em trs captulos: no primeiro, falamos sobre o arum e a histria de origem do povo Kaiabi, no segundo, trazemos a histria da cestaria e da tecelagem Kaiabi, com fotografias e, no terceiro, contamo s a histria da origem da cestaria do povo Kaiabi. 1 Planta que se desenvolve em lugar mido prximo dos crregos da regio da Reserva indgena Cururuzinho, Par, usada para confecc ionar vrios tipos de cestaria.

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8 CAP TULO I ARUM E A HIST"RIA DO POVO KAIABI O uso da matria prima (Arum) e o cesto conhecido como peneira so ilustrados pela nossa histria. Janerup foi um paj que deu origem ao povo Ka iabi. Em certo momento o mato atrs de Arums para fazer peneiras. Quando ele chegou ao local, foi colhendo o Arum e de repente viu uma cor (lagarta que d rvore ) e a trouxe para casa. Ele escondeu a cor embaixo dos restos de Arum que ele havia deixado embaixo de sua rede. Toda noite ela se transformava em uma mulher bonita e se deitava com ele, namoravam (faziam relaes sexuais) era uma vida muito boa e divert ida, mas era um segredo de Janerup. Todas meu filho no deixa varrer o lixo debaixo de su obedecer a ele e foi varrendo o monto de lixo que estava debaixo da rede. Ela foi tirando o lixo at chegar onde a cor estava. A mulher levou um susto e bateu com o cabo da vassoura na coro. A me de Janerup falou No demorou e Janerup voltou e viu logo que sua me havia limpado todo o lixo que estava debaixo de sua rede. Ele ficou muito bravo com sua me. Pela segunda vez, ele tr ouxe uma mulher de cera. Essa foi originada de uma mulher, s que toda a vida ela tinha que ficar Um dia a velha me de Janerup cansou de fazer tudo sozinha e dis se para sua nora, Ela conseguiu chegar ao porto, pegou gua e voltou. Quando estava no meio do caminho a mulher de cera de Janerup derreteu e quebrou a cabaa. A me de Janerup esperou e esperou, e nada dela chegar. Ento ela foi ver o que havia acontecido com sua nora. Quando chegou no meio do caminho viu a mulher de cera derretida e a cabaa toda quebrada.

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9 Pela terceira vez Janerup arrumou uma mulher que era matric h (um peixe). Aconteceu a mesma coisa, ela foi buscar gua no rio, e quando chegou l no rio caiu na gua e se transformou em peixe e, infelizmente, foi embora pelo fundo da gua. Sendo assim, minha me, porque todas muito longe da sua aldeia, junto com seu marido que se chamava Kapinoa. A tia tinha uma filha muito bonita, e ele estava interessado em se ca sar com ela. Ele avisou sua me que ia fazer uma viagem muito longe a procura de uma mulher. Janerup ento sumiu no mundo dos insetos e animais. Foi na poca que existiam muitos animais e poucos seres humanos, mas os animais e insetos viviam como os seres humanos, falavam, viviam em aldeia, trabalhavam e produziam. Janerup viajou muito tempo e chegou na primeira aldeia, dos besouros (Pyrerem, nome para besouro na lngua indgena Kaiabi). O homem foi bem recebido e forneceram comida para ele, mas a comida do s Pyrerem era muito estranha, era beiju de fezes de gente. Assim toda vez que ele chegava numa aldeia ele pousava. Outro dia continuou sua viagem e chegou na aldeia nos povos iferentes. L ele viu o homem se transformar em pilo e as mulheres us lo como se fosse um pilo de madeira. Na manh seguinte, conheceu a aldeia dos povos Jotowosi (Martim pescador). Na aldeia dos Martim pescador havia uma moa que queria se casar com Ja nerup, mas ele no quis se casar com ela. No dia seguinte ele continuou viajando e chegou na aldeia do povo Pyrep (pica pau). O povo Pyrep era um povo muito trabalhador, eles tinham uma variedade de produtos da roa. Foi onde o Janerup considerou as pesso as mais organizadas. Mais para frente ele chegou comido pelos mundurucu, mas ele escapou e foi embora, a prxima aldeia foi aldeia do povo Anyra (morcego). L, Janerup chegou numa casa que parecia no ter ningum morando nela e pousou l, porque j era noite. Quando escureceu o homem dormiu sozinho na casa grande dos morcegos. Quando foi de manh os morcegos comearam a aparecer e foram cumprimentar Janerup, fazendo fes ta para ele at a noite. Assim sempre foi a noite, os morcegos dormiam embaixo do teto da casa. Janerup continua viajando novamente e chegou aldeia do povo Urubu. Na aldeia dos urubus eles comiam s farinha com pena queimada. Ento Janerup continua viaj ando, e chegou aldeia do povo Sucuri. L ele quase foi devorado pelas sucuris, mas Janerup era um paj, portanto ele tinha muito conhecimento. Ele sabia, por exemplo, que a sucuri tem muito

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10 medo do gavio. Na hora que a sucuri queria engolir Janerup, ele se escondeu. O janerup aproveitou essa oportunidade e fo i embora. Finalmente Janerup conseguiu chegar aldeia que ele estava querendo chegar, a aldeia morava, a esposa do Kapinoa. Afinal Janerup realizou seu sonho, casou com uma menina e em era um grupo que considerava os animais Janerup ficou com eles, Janerup os ensinou muita coisa. O povo Kawaikwa em matavam os macacos e tiravam a cabea do macaco para fazer a festa Joyosi. Eles pareciam at um subgrupo do povo Kaiabi, porque eles tinham uma cultura como a dos Kaiabi. O povo do Kapinoa no comia os animais e nem as aves, as pessoas se alimenta vam de peixinhos. Pois da Janerup ensinou o nome dos animais, das aves, e tambm a receita culinria dos produtos da roa, de carne, e ensinou tambm a fazer festa de verdade. Levou o grupo para guerrear contra ouros povos e foi passando o tempo. Ele e a mulher tiveram dois filhos, um dia o homem resolveu sair com Kapinoa e seus filhos para fazer guerra com outros povos. Saram da aldeia e foram caminhando pelo mato. Quando chegaram a um acampamento pousaram e Janerup resolveu dar uma sada com o seu grupo para matar macaco. Antes de sair para caar, ele falou murmurando no ouvido do seu filho para fazer de conta que ele havia sado e o deixou como vigia. Quando eles comearam a sair, o Kapinoa e seu grupo se reuniram porque todas as vezes que eles saam p ara guerrear contra ouros grupos o Janerup no deixava ningum matar as pessoas. Pois da que ocorreu a inveja. O Kapinoa ento falou para o seu grupo que desta vez se ele no deixasse ele matar nenhuma pessoa iam voltar contra o Janerup. O filho de Janeru p estava ouvindo tudo o que eles estavam falando. Quando o Janerup chegou ele perguntou para seu filho se ele tinha ouvido alguma coisa e o filho afirmou que o Kapinoa estava querendo mat lo. Janerup ento resolveu voltar para a aldeia com o seu filho. Ele falou para o garoto fazer de conta que teve um acidente, um corte no p. O Janerup teve uma pequena conversa com Kapinoa, dizendo que ele iria voltar com seu filho pelo motivo do acidente. O Kapinoa respondeu, tudo bem que ele deveria ir cuidar do meni no. Janerup colocou o seu filho em cima do ombro e foi embora pelo caminho. Chegando aldeia ele mentiu para sua esposa, dizendo que voltou da caada porque o garoto no deu conta de

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11 andar muito longe, e disse que o pai dela no ia demorar para chegar, pe diu a ela que preparasse mingau, o chicha, para tomar quando ele chegasse. nam orado, quando ela saiu de casa a mulher fez o sinal pedindo para o namorado ir atrs dela. O marido estava observando a sua esposa, passaram alguns minutos o amante dela saiu atrs da mulher e Janerup fez de conta que no estava observando nada. Aps algun s minutos Janerup foi atrs da sua mulher. Quando ele chegou na entrada do caminho da roa, viu o Maiaco (cesto de carregar objetos) no caminho e andou devagarzinho. Quando Janerup viu o homem em cima da sua mulher, ele no teve mais pacincia e tacou flec ha no homem. A mulher, matou e deixou a mulher de pernas aberta, colocou o hom em em cima dela. Ele cortou o brao da mulher e embrulhou com folha de banana brava e foi embora para casa. Quando chegou na casa, colocou o brao da mulher em cima do jirau e foi deitar. Depois que o Janerup matou a sua mulher ele trocou seu nome, passo u a ser chamado de Tuiarare. Tuiarare ento pediu para sua sogra varrer a casa pois ela estava muito suja. A sogra tudo, mas fui deixando passar. Hoje no tive mais pacincia e matei sua filha l na roa, cortei o brao dela e trouxe, o Enquanto a sogra foi embora para a roa o Tuiarare foi arrumando suas coisas para ir embora para a aldeia do seu pai. A sogra j estava chorando com o corpo de sua filha, e o Tuiarare disse para sua sogra, pode entregar o brao da sua filha para os seus filhos e a sogra disse para que deixasse os filhos dele O Tuiarare no deu satisfao para sua sogra e saiu com os filhos para a beira do rio, e a sogra ficou chorando. Quando ele chegou ao porto tirou a gua da canoa rapidame nte, colocou suas coisas na canoa e tambm as crianas. Da empurrou a canoa para o meio do rio. Foi hora em que os seus cunhados e o pai estavam chegando. Os cunhados do Tuiarare pediram que ele voltasse porque ele estava levando os sobrinhos, e dissera m que iam sentir

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12 saudades. O Tuiarare respondeu que ia levar as crianas, mas pediu para eles irem buscar as crianas na aldeia do seu pai. E pediu tambm para eles darem tempo para que pudessem se preparar para atend los. A final Tuiarare conseguiu escap ar e foi para a aldeia do seu pai. Quando ele chegou no porto do seu pai deixou as crianas na canoa e foi sozinho para a aldeia. L ele foi bem recebido pelo pai. O pai do Tuiarare perguntou para o filho se ele tinha casado, ele disse que sim e que tive ra dois filhos e foi at o porto buscar as crianas. O av das crianas colocou as no colo e chorou de emoo. Na volta para a aldeia Tuiarare contou toda a histria do casamento e por fim a morte de sua mulher assassinada por ele mesmo, devido traio e seu amante. Tuiarare comeou a se organizar. Ele deixou uma marca para que seu cunhado achasse o porto da aldeia, um sinal, e ficou vigiando o porto de manh e de tarde para ver se o pessoal do Kapinoa estava chegando. Toda tarde ele perguntava para o se u pai se ele escutava alguma No outro dia de madrugada, Tuiarare levantou e foi ver. L na frent e viu o grupo de Jacutinga, que so pssaros. Tuiarare os chamou e eles vieram em sua direo. Quando chegou perto o Tuiarare transformou o grupo de Jacutinga em gente e os levou para a aldeia. Todos os dias Tuiarare fazia a mesma pergunta para o pai, o pa ele foi ver, era o grupo de cip e os transformou em pessoas. No outro dia, trouxe o grupo de taquarinha, que um bambuzinho, e os levou par a a aldeia. A seguir ele trouxe o grupo de porcos queixada, e, por fim, ele trouxe o grupo de tucanos. Assim o Tuiarare conseguiu aumentar o grupo em uma comunidade. Foi dessa forma que ele continuou uma aldeia com muita gente. A partir da ele ensinou pa ra os grupos a cultura, a lngua, o comportamento, o trabalho, a construo de casas, fazer roa, fazer artesanato, a festa, a guerrear contra outros povos e demais conhecimentos culturais. Cada grupo que ele criou tinha um comportamento diferente como ca racterstica, signo e as coisas que eles gostam de fazer. Por exemplo, quem do signo da taquarinha, gosta de fazer flecha, e assim por diante. Por sua vez o Tuiarare j estava pronto para esperar o grupo de Kapinoa. Numa hora da tarde o Tuiarare ficou co m o seu grupo no porto para ver se o pessoal j estava chegando e viu que eles j estavam se aproximando da aldeia, mas como o Tuiarare era paj ele fez a tarde escurecer rapidamente, e o grupo s conseguiu chegar ao porto da aldeia e pousaram l.

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13 Quando foi de madrugada, Tuiarare levou seu pessoal para atacar a turma do Kapinoa. A turma do Tuiarare acabou com eles. E foi assim que Janerup, nosso pai, deu origem ao povo Kaiabi.

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14 CAP TULO II CESTARIA E TECELAGEM KAIABI O povo Kaiabi tem vrios desenhos usados nas cestarias, feitos desde o incio da vida Inimoeta, Yw As peneiras simples transparentes (fot o1), so usadas para peneirar as massas de milho caldo de mandioca doce, massa de mandioca para fazer farinha, polvilho de fazer beiju, pimenta moda, paoca de farinha de amendoim com milho, alimentos lquidos, para pegar peixe e girinos. Foto: Simon e 1 peneira simples.

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15 Foto: Ktia 2 peneira simples.; Awarapypot peneira desenhada, sendo usada para colocar paoca. As peneiras trabalhada s com desenhos (fotos 3, 4 e 5) so utilizadas para guardar os objetos secos como algodo e fari nha, e tambm para tampar os alimentos nas panelas e nas cuias. Foto: Simone 3

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16 Foto: Simone 4 Yogajurat Foto: Simone 5

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17 Tem um tipo de peneira que os pajs utilizam para espantar os espritos maus das pessoas doent es. E tambm tem outro tipo, que so aquelas usadas para receber a alma da pessoa doente. Outro tipo de cesto, o Panaku, utilizado para carregar os objetos de viagem. Esse cesto est quase extinto, pois no tem mais que o faa, mas estamos tentando rec uper lo. Existe tambm outro tipo de peneira como, por exemplo, Yrupejuap e Tamakari. Esses so feitos com material de palha de tucum, e tambm no temos fotos. O Tamakari utilizado para guardar objetos midos, e Yrupejuap usado para guardar algodo barbante, e tambm serve para abanar. Os recursos utilizados para fazer as peneiras so: fibra de banana brava, buriti, taquarinha de dois tipos, variedades de arum e palha de tucum. Foto: Simone Atade 6 Arum O material mais utilizado para faz er as peneiras o arum, porque tem durabilidade. O arum uma planta (foto 6) que gosta de lugares frescos e gua, pantanal, mata fechada, terra frtil e ribeiro regional. Ele encontrado no pantanal, em lugares com bastante palmeiras de aa, buriti, patoa, paxiba, e outros tipos de recursos. No Xingu no existe o mesmo tipo de vegetao que no Par. Talvez por esse motivo no tenha arum suficiente no Xingu.

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18 Foto: Simone Atade 7 Colheita do arum No processo preparativo para fazer peneira, pr imeiro vai ao mato buscar arum, chegando l no local vai cortando um pouco de arum de cada touceira. Vai cortando at fechar um feixe de arum com caule. Os velhos sabem muito bem fazer a coleta do arum. Eles sabem e conhecem o caule que est pronto par a colher e no tiram o caule verde e nem o caule muito velho. Quando termina de colher volta para a casa, depois que chegar em casa o material preparado em pedaos, em seguida estes so colocados no sol durante um dia. Uma quantidade aproximada, 28 peda os de comprimento um metro rendem cerca de 230 talas antes de tirar o miolo as 230 talas rendem 300 talinhas preparadas. Com estas 300 talinhas possvel fazer uma peneira de 50 cm de dimetro. Assim, uma cana de 4m de altura rende cerca de 45 talinhas, p reparadas com mais ou menos 65 cm de comprimento

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19 Foto: Simone 8 Talinhos de arum No dia seguinte, os talinhos j esto prontos para tirar as fibras de entre casca, e muitas vezes aproveitamos os talinhos entre casca e a parte de cima de entre miolo p ara fazer peneira mais transparente. Dos talinhos mais finos so feitos os cestos mais especiais com os desenhos e tambm so tranados em peneiras mais comuns para o uso no dia a dia. Geralmente quaisquer tipos de cesto so feitos pelos homens. Tem cert os cestos que so usados pelos homens e as mulheres. Por exemplo, a maior parte de atividades que as mulheres fazem com a peneira (fotos 9 e10) preparar os alimentos. As peneiras so utilizadas tambm para fazer os rituais e cerimnias dos pajs.

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20 Fot o: Ktia 9 Preparao de alimentos Foto: Ktia 10 Preparao de alimentos O homem faz o trabalho ritual com as peneiras e dificilmente as usam para preparar os alimentos. O cesto Panaku usado pelo homem para transportar os objetos de viagem. Na

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21 c ultura Kaiabi as pessoas que no tm conhecimento sobre a produo de peneira so consideradas analfabetas e as pessoas que sabem fazer peneiras so consideradas formadas, tendo a capacidade de fazer alguma coisa, no sobre cestaria, mas sobre outros conhe cimentos culturais. Os jovens que no passaram por todo esse processo de conhecimento sobre a cestaria no podem ter uma famlia. Ele tem que ter o conhecimento para poder casar com uma mulher. O homem que no tem esse conhecimento no capacitado para su stentar uma famlia. 2.1 COMO APRENDEMOS A FAZER PENEIRA Na cultura indgena Kaiabi, aprendemos a fazer peneira com os pais, irmo, velhos avs, atravs da observao de peneiras que no so mais usadas. As pessoas podem pegar uma peneira velha e de smanchar para observar como ela foi tranada. Aprender fazer peneira no uma coisa simples, mas um trabalho, uma tcnica que as pessoas adquirem e so formadas nesse conhecimento cultural que a cestaria. Elas so conhecedoras que fazem culturalmente a contagem e a produo do artesanato. Foto: Simone 11 Jovem confeccionando a peneira

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22 Tem momento que a peneira um objeto sagrado para o povo Kaiabi, por exemplo, na hora que o paj estiver usando a peneira em uma cerimnia para tratar de sade de uma pessoa, tirar esprito mau ou espantar, receber a alma do paciente e para fazer oferenda espiritual. A peneira um objeto muito importante na vida do dia a dia do povo Kaiabi. Ela tem uma histria da sua origem e ns valorizamos este conhecimento qu e faz parte do ensino cultural da tribo. Desde o tempo dos ancestrais, o povo Kaiabi sabe muito bem fazer o manejo de recursos naturais para fazer o artesanato, peneira. Foto: Ktia 12 Preparao de mingau.

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23 Foto: Ktia 13 Colheita da folha da man dioca. No incio do aprendizado sobre cestaria Kaiabi, normalmente o aluno comea o seu m desenho simples. Existe um desenho chamado Inimoeta, ele pode destruir o conhecimento da pessoa, uma vez que a pessoa aprendeu o desenho Inimoeta ela no conseguir mais dominar outros desenhos, ela s pensa naquele desenho e nunca mais consegue aprender outros desenhos. Antes de aprender o desenho Inimoeta preciso aprender os outros desenhos, e s ento aprender este, assim a pessoa pode ter o conhecimento de todos. Caso contrrio, ela no vai conseguir aprender os outros desenhos. Na aldeia Tuiarare existem duas pessoas que aprenderam a fazer o desenho Inimoeta, e elas s sabem fazer um tipo de desenho, da eu observei que a pessoa que aprende primeiro o desenho Inimoeta realmente no sabe fazer outros. Na segunda etapa do aprendizado so confeccio nadas peneiras, com desenhos

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24 Foto: Simone 14 Peneira Janypawou Foto: Simone 15 Peneira Janypawou E na terceira etapa do aprendizado so feitos os desenhos do Panaku que so os trabalhos mais difce is. Passando essa etapa a pessoa pode concluir o seu aprendizado e

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25 considerar o seu conhecimento completo. Essas pessoas so consideradas como famlias capacitadas e profissionais em conhecimento. Segundo o pesquisador Adalberto Holanda Pereira ( 1995 ), q ue fez uma pesquisa sobre a origem do povo Kaiabi, Janerup, considerado o pai e criador do povo, antes de dar a origem para os Kaiabi, ele j sabia fazer a peneira simples.

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26 CAPTULO III ORIGEM DA CESTARIA Esse captulo que fala sobre a origem da cestaria dos Kaiabi, foi organizado a partir da transcrio de uma entrevista feita com Xup Kaiabi de 80 anos de idade, na aldeia Tuiarare, no parque indgena do Xingu Mato Grosso, em 20 de outubro de 2004. A opo por transcrever a entrevista diret amente, foi devido ao fato de que a fala de um ancio tem para o povo, um maior valor, j que ele quem tem o conhecimento sobre a histria e a origem da cestaria. A entrevista foi realizada atravs de algumas perguntas planejadas e respostas orais, trans critas em seguida. Pesquisador Voc sabe a histria de origem da cestaria Kaiabi? Xup Kaiabi Era uma vez um grupo de pessoas para buscar flecha de cana brava na regio do Rio Xingu. Eles foram caminhando pelo mato e pousaram vrias vezes no acampament (Mojkye). As cobras cortavam feito tesoura; em uma hora da madrugada os homens foram atacados pelas serpentes que restou s sangue. Apenas escapou uma pessoa que ganhou o nome de WU nico a ser esperto, ficou acordado no silncio da noite e ouviu o barulho estranho; porm comeou evacuar fora do acampamento e subiu na rvore e ficou o resto da noite em cima. No clarear do dia, o moo desceu da rvore e meteu o p na carreira no mato O caador comeou caminhar mais para frente, tentando voltar para sua aldeia. Quando ele chegou na beira do Paran, encontrou com o ja cantando na sua rede e com fogo ace so. No entanto o caador estava muito cansado de tanto andar pelo mato e queria deitar junto com o ja. O homem falou assim com o ja: Oi ja, como vai, tudo bem? Tudo bem, tem fogo ai pode sentar para esquentar. Eu no quero saber de sentar, eu que ro deitar com voc. A minha corda no agenta, vai arrebentar.

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27 Mais no tem problema eu quero deitar. A o homem deitou com o ja e arrebentou a corda da rede. O ja voou e foi sentar novamente. O ja ficou piando outra vez e o moo seguiu na direo d o canto do ja. Ele chegou onde estava o ja e fez a mesma coisa com ele. A segunda vez o ja foi embora atravessando o rio grande e o caador ficou do outro lado do rio.No entanto o moo resolveu gritar para ver se havia algum por perto dele. Ele deu o O que voc est gritando homem? Eu estou gritando para alguns de vocs me atravessar para outro lado do rio grande. Ento venha, que eu vou te levar para o outro lado. Vamos testar a sua fora. Ele colocou um pedao de pau em cima dele e tentou voar, mas no conseguiu levantar. O homem ficou observando e falou para o urubu; voc muito fraquinho, eu no aceito voc me levar. O moo gritou novamente: A veio o jacar e falou assim: O que que voc est gritando garoto? Eu estou chamando alguns de vocs para me atravessar do outro lado do Paran. O caador fez o mesmo teste com o jacar, colocou o pau em cima do jacar, e ele deu conta de carregar o pau at o meio do rio, e o moo ficou olhando para o jacar. Porm o O caador montou em cima do jacar e comeou a levar o homem para o meio do rio e parou no meio da correnteza. O Jac Voc pode me xingar! O homem respondeu: Ento t bom! O jacar continuou nadando com ele e parou novamente. O jacar repetiu a mesma palavra p ara o homem. Agora voc vai me xingar assim: homem respondeu:

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28 Ento t bom: Da continuou ind o mais para frente com ele e parou novamente. O jacar repete a mesma palavra e o moo respondeu que no. Porm o jacar foi mais para frente at encostar embaixo de uma rvore. Afinal o caador pulou no galho da rvore e foi descendo at a terra. Quando e le chegou em cima do barranco, o homem comeou a xingar o jacar e o bicho ficou muito bravo e at hoje ele no gosta dos seres humanos, porque foi xingado pelo homem. Entretanto o homem escapou do perigo e seguiu a sua viagem com a esperana de chegar na sua aldeia. pelo mato. Porm j era noite e acampou em lugar onde havia car. O car passou a noite l ver o que que estava cantando a noite toda e ele viu que era o car. Ele pegou uma e foi mais para frente. Em todo lugar que ele pausava ouvia alguma coisa estranha. J era tarde, porm parou para acampar. Quando foi noite ele escutou o canto de uma coisa, pois ele ficou ouvindo o canto a noite toda. Quando foi de manh ele viu que eram os cupins que estavam cantando assim. Eram os cupins que estavam me incomodando a noite. Assim, ele foi descobrindo cada coisa durante a sua viagem. O homem ento continuou viajando e teve u ma hora que choveu para ele, j era tempo da chuva e ele pegou o carrapato, transformou em guarda chuva e foi at passar a chuva. Depois que a chuva passou ele continuou caminhando e viu um sapo bem grande. Ento o homem perguntou para o sapo. Sapo, voc sabe me dizer a direo da minha aldeia? MOJEYRATY TEJEROWAKA. (Viro minhas costas para regio do Rio Peixoto) Porm o moo seguiu na direo que o sapo tinha ensinado para ele. No entanto, seguiu para frente at chegar em uma casa isolada. Ento entro u na casa sem saber quem era o dono.

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29 Quando o homem entrou na casa, ele avistou muitas peneiras desenhadas penduradas no teto da casa. Foto: Aturi Kaiabi 16 Peneiras desenhadas. De repente comearam sair as serpentes do teto da casa e cercaram o homem no meio da sala. Veio uma cobra bem grande e sentou na porta para ele no escapar. Ele ficou muito preocupado e com medo das cobras. Entretanto no teve outro jeito para ele escapar, comeou contar a histria para as serpentes, contava os nomes das aves q ue comem as cobras. Em cada minuto contava um pssaro diferente e de repente contou um gavio que comia a cobra. O caador pediu silncio para as cobras. Escutam o canto do gavio que come vocs. Da as cobras se esconderam embaixo do teto da casa. O gav io cantava assim: MAKW, MAKW, MAKW, enquanto as cobras se escondiam, o homem aproveitou e pegou uma peneira desenhada e saiu correndo pelo caminho e j estava aproximando de sua aldeia. Quando chegou na sua aldeia, encontrou a sua kuj com outro hom em. Entretanto a sua esposa no reconheceu o seu marido, mas depois reconheceu ele e ela separou do outro marido. Os homens discutiram entre eles devido que o outro havia casado com sua mulher.

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30 Com o tempo, o moo foi copiando os desenhos da peneira, os qu ais ele foi ensinando para os outros kaiabi. Dessa forma, expandiu peneiras desenhadas nas aldeias do povo Kaiabi. As mulheres ento ficaram felizes da vida e foi assim que foi a origem do povo e a origem da cestaria Kaiabi.

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31 CONSIDERA'ES FINAIS Eu fiz este trabalho sobre a cestaria Kaiabi, porque o meu povo estava deixando de valorizar este conhecimento muito importante na cultura. A pe squisa teve o perodo de um ano ; n a qual colaboraram dos arteses os alunos (produo do cesto), as mulheres d a comunidade, professores no indgenas, assessoria tcnica e apoio financeiro do proj eto cestaria e tecelagem Kaiabi com apoio do PDPI. Est e trabalho muito importante para a minha experincia n a produo de material didtico como pesquisador da pr pri a comunidade O livro ser utilizado na sala de aula, como leitura sendo pesquisado pelos futuros alunos Kaiabi e tambm para revitalizao do conhecimento da etnia Kaiabi. A realizao das oficinas sobre cestaria e tecelagem nas Aldeias Kururuzinho Par e Tuiarare Xingu/ Mato Grosso, despertou os velhos, os jovens e as mulheres em valorizao e quer er reconstruir os conhecimentos tradicionais dos Kaiabi. A maioria dos ancies ficaram emocionados por ver o trabalho de cestaria e tecelagem. Eles lembrar am dos seus tempos passados e fizeram discurso falando para as jovens continuarem valorizando os conh ecimentos tradicionais da etnia Kaiabi.

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32 FONTES E BIBLIOGRAFIA HOLANDO, Adalberto Pereira. O pensamento mtico Kaiabi. 1995, RS. KAIABI, Aramut. A gente Indgena de Sade Bucal, tem 22 anos. Entrevistado. KAIABI, Jamanary. Apicultor, tem 30 anos. Entrevistado. KAIABI, Pikuruk. Professor de 1 a 4 srie do Ensino Fundamental, tem 25 anos. Entrevistado. KAIABI, Sirawiup. Vice cacique Kaiabi, tem 29 anos. Entrevistado. KAIABI, Tuiarayup. Cacique da aldeia Guaruj, tem 54 anos. Entrevistado. KAIABI, Tymain. Auxili ar de enfermagem, tem 37 anos. Entrevistado. KAIABI, Mojup. Chefe de posto, tem 38 anos. Entrevistado. KAIABI, Maikatu. Chefe de famlia, tem 51 anos. Entrevistado. KAIABI, Xup. Chefe de famli a, tem 80 anos. Entrevistado. KAIABI, Mytang representante de mulheres na comunidade, tem 39 anos. Entrevistado. KAIABI, Jakap chefa da famlia tem 43 anos. ENTREVISTADO.

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33 ANEXO

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34 QUESTIONRIO: 1. Voc sabe fazer uma peneira? 2. Como o nome do desenho? 3. Quem te ensinou a fazer peneira? 4. Voc sabe a origem da cestaria? 5. Como voc aprendeu a fazer rede desenhada?

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