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O Livro da Cestaria Kaiabi - Yrupema Re Je Mu'e
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 Material Information
Title: O Livro da Cestaria Kaiabi - Yrupema Re Je Mu'e
Series Title: Project Kaiabi Araa
Physical Description: Educational Book
Language: Brazilian Portuguese
Creator: Athayde, Simone ( Author, Primary )
Kaiabi, Aturi ( Author, Secondary )
Publisher: Instituto Socioambiental and ATIX
Place of Publication: Canarana
Publication Date: 2006
Copyright Date: 2006
Edition: Second Version
 Notes
Acquisition: Collected for University of Florida's Institutional Repository by the UFIR Self-Submittal tool. Submitted by Simone Athayde.
Publication Status: Unpublished
 Record Information
Source Institution: University of Florida Institutional Repository
Holding Location: University of Florida
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Athayde 2006 Livro Cestaria Kaiabi ( PDF )


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i O LIVRO DA CESTARIA KAIABI YRUPEMA RE JE MUE ( SEGUNDA VERSO ) PROJETO KAIABI ARAA ASSOCIAO TERRA INDGENA XINGU ATIX PROJETOS DEMONSTRATIVOS DOS POVOS INDGENAS PDPI INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ISA Canarana 2006

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ii O LIVRO DA CESTARIA KAIABI Direitos Autorais Povo Kaiabi, representado pela Associao Terra Indgena Xingu ATIX Projeto Kaiabi Araa Tecelagem Kaiabi no Parque Indgena do Xingu MT e Terra Indgena Kayabi Coordenao do projeto : Professor Aturi Kaiabi Cacique da Aldeia Tuiarar. Professores, alun os e agentes de manejo de recursos naturais participantes na elaborao do livro: Aturi Kaiabi, Awasiuu Kaiabi, Awatat Kaiabi, Eroit Kaiabi, Iw Kaiabi, Jamanary Kaiabi, Janin Kaiabi, Jar Kaiabi, Jawakatu Kaiabi, Jawarete Kaiabi, Jawutari Kaiabi, Jemy Kai abi, Jewyt Kaiabi, Juporajup Kaiabi, Kaku Junior Kaiabi Namikwara, Katuryp Kaiabi, Kwaryp Kaiabi, Mairasing Kaiabi, Matarekatu Kaiabi, Matari Kaiabi, Maure Kaiabi, uap Kaiabi, Myauiup Kaiabi, Kaiabi, Sirawejup Kaiabi, Sirawan Kaiabi, Tamakari Kaiabi Tangeakatu Thizil Kaiabi, Tymakari Kaiabi, Wyrakatu Kaiabi, W yrawat Kaiabi

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iii Orientadores e lideranas: Tuim Kaiabi, Karauu Kaiabi, Tarumani Kaiabi, Jywafuku Kaiabi, Kupeap Kaiabi, Takapeianim Kaiabi, Awatare Kaiabi, Kaiabi e Kawintaii Kaiabi. Aldeias : Tuiarare, Kwaruja C apiv ara, Kururu, Samama, 3 irmos, Barranco Alto, Kururuzinho (Par, Rio Teles Pires) Assessoria, pesquisa em museus, organizao e editorao eletrnica: Simone Ferreira de Athayde Universidade da Flrida/ Pesquisadora Associada Instituto Socioambiental (ISA). Colabora o: Angelise Nadal Pimenta Ktia Yukari Ono, Geraldo Mosimann da Silva, Paulo Pedroso Junqueira e Paula Mendona de Menezes Programa Xingu Instituto Socioambiental Realizao: Associao Terra Indgena Xingu ATIX Diretoria: Makup Kaiabi Presi dente Alup Kaiabi Vice Presidente Tariaiup Kaiabi Diretor Administrativo Ianukul Kaiabi Suy Diretor de Projetos Tani Kaiabi Secretrio Mayuri Kaiabi Assistente Apoio financeiro : Projetos Demonstrativos dos Povos Indgenas PDPI Apoio pe squisa e elaborao do livro : Fundao Rainforest da Noruega Museu das Culturas Basilia Sua Museu de Etnologia de Berlin Alemanha Instituto Socioambiental ISA www.socioambiental.org

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iv Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de So Paulo MAE/USP Museu Nacional d o Rio de Janeiro Universi dade da Flrida Centro de Estudos Latino Americanos Contato: Associao Terra Indgena Xingu ATIX Av. Mato Grosso, 607. 78640 000, Canarana, MT. Fone: (66)3478 1948 e mail: atix@brturbo.com.br ; atix@primeisp.com.br Povo Kaiabi Proibida a reproduo parcial ou total do contedo deste livro sem consulta prvia e autorizao do Povo Kaiabi, representado juridicamente pele Associao Terra Indgena Xingu. Canar ana, Novembro de 2006.

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v APRESENTAO O povo Kaiabi teve a idia de organizar um livro sobre as suas peneiras, para que fique registrado no papel este conhecimento to antigo e importante da arte de fazer peneiras desenhadas. Alm disso, deixar os vrios desenhos de peneira que o povo conhece documentados no papel, uma ajuda para que este conhecimento no v sendo esquecido com o tempo, para as novas geraes que vm por a. Novos desenhos e combinaes vo continuar a ser criados. Cada pessoa pode cria r outras combinaes e at outros desenhos. assim que o conhecimento vai aumentando e ficando mais rico. Por exemplo, os desenhos das peneiras Kaiabi passaram a ser usados nas redes e agora tambm a ser pintados nos bancos de madeira que esto sendo vend idos para os no ndios. Esta segunda verso do Livro da Cestaria Kaiabi uma coletnea de todos os textos e desenhos existentes sobre o assunto. Uma parte do material apresentado foi coletado na Aldeia Kururu, onde realizou se um trabalho sobre as pene iras Kaiabi em 1999. Outros textos e desenhos foram feitos pelos professores Kaiabi do Parque Indgena do Xingu, durante os Cursos de Formao de Professores Indgenas. Outra parte do livro composta de fotografias tiradas em vrias aldeias Kaiabi e tamb m registradas em Museus etnogrficos do Brasil e do ext erior. possvel para os arteso s mais experientes tranar os desenhos nas peneiras apenas copiando das fotografias. Sendo assim, este livro destina se a todos os interessados na arte da cestaria ind gena, tanto para alunos e professores como para os mais velhos e tranadores de peneira experientes.

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vi O Projeto Kaiabi Araa que tem por objetivo revitalizar o conhecimento da cestaria e da tecelagem entre os Kaiabi do Xingu e os Kaiabi do Par, iniciou s e em 2004 por iniciativa do Professor Aturi Kaiabi, atravs da Associao terra Indgena Xingu, com apoio do PDPI (Projetos Demonstrativos dos Povos Indgenas). Atravs deste projeto, foram realizadas vrias oficinas prticas de cestaria e tecelagem nas al deias Kururuzinho (Par) e Tuiarar (Parque do Xingu). Tambm foi includo neste livro o material trabalhado pelos alunos e professores Kaiabi durante a oficina de materiais didticos do Projeto Kaiabi Araa realizada na Aldeia Tuiarar em agosto de 2006. Finalmente, cabe lembrar que esta ainda uma verso do livro a ser revisada e trabalhada, principalmente na parte da lngua indgena. A idia que este livro seja inteiramente bilngue, com finalidade educativa e ao mesmo tempo de divulgao cultural, para ndios e no ndios.

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vii SUMRIO HIST"RI A DA ORIGEM DO POVO KAIABI 10 A CESTARIA DO POVO KAIABI 32 Tapekwap abanador 32 Tamakari cesto 33 Muap borduna 34 cesto paneiro 35 cesto comprido 36 cesto 37 Pinosing esteira 38 Juyp cesto para guardar amendoim 39 Araa peneira desenhada 40 41 peneira de palha de tucum 42 Yrupewai peneira de rabo 43 Yrupefuku peneira comprida 44 peneira de malha fina 45 cesto cargueiro 46 Arapi enfeite de flecha 47 Kangytaryta armao de cocar 48 Jes armadilha para peixes 49 Levantamento dos itens da cestaria Kaiabi 50 KAIABI ARAA AS PENEIRAS DESENHADAS 53 ETAPAS DE CONFECO DA PENEIRA 54 DESENHADA

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viii HIST"RIA DA ORIGEM DOS DESENHOS DE PENEIRA 58 OS DESENHOS DE PENEIRA 67 1 67 2 Awasiayj 68 3 Awasiayj (variao) 69 4 Ipirien, Jarukang 70 5 Awarapypot 72 6 73 7 Jowiterian 74 8 Moiafu'a 75 9 Janipap wuu 76 10 Kwasiarapat 77 11 Kwasiapiayj 78 12 Jowosiape 7 9 13 Yogajurat 80 14 Inimo eta 81 15 Iwirapyj e inimo eta 82 16 Iwirapyj 83 17 Ta'agawoku 85 18 86 19 Taangap jakunaap 87 20 Ta'agap tayt 8 8 21 Jywa pekangerowat 8 9 22 Ta'agap jopep 90 23 91 24 Ta'agafu'a tayt 92 25 Kwasiaruu 9 4 26 Panak Kwasiarapat 9 5 27 Ipirien e/ou Jarukang 97 28 Kwasiarapat or Kwasiapiayj 9 8 29 Kwasiarapat 99 30 100 31 Awarapypot 101 32 Kwasiaruu, Kwasiarapat 103 33 Jarukang e Ipirien 104 OS RECURSOS NATURAIS USADOS 105 NA CESTARIA KAIABI Tuiarar quem cuida do arum 106

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ix Uruyp arum 108 Taquarinha 110 Antes do contato com os no ndios o uruyp era usado normalmente 111 Atualmente o pessoal faz pene ira mais para vender 113 Quais so as partes do arum? 114 Pequeno texto sobre (jequitib) 116 118 Amyneju algodo 119 Yrupepepoyta 120 Ywyjupe tinta para cuia e p eneira 121 Pinowa palha de inaj 122 cabo da folha de inaj 123 Wuywa cana brava 124 Desenho em papel quadriculado de Wareajup Kaiabi. Padro Awarapypot.

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10 HIST"RIA DA ORIGEM DO POVO KAIABI Pesquisa e redao: Aturi Kaiabi (Jowosipep) Orientao: Tuim Kaiabi O uso da matria prima (Arum Uruyp ) e o cesto c onhecido como peneira so ilustrados pela nossa histria. Janerup foi um paj que deu origem ao povo Kaiabi. Em certo momento o Janerup iras. Quando ele chegou ao local, foi colhendo o Arum e de repente viu uma cor (lagarta que d rvore) e a trouxe para casa. Ele escondeu a cor embaixo dos restos de Arum que ele havia deixado embaixo de sua rede. Toda noite ela se transformava em uma mulher bonita e se deitava com ele, namoravam (faziam relaes sexuais) era uma vida muito boa e divertida, mas era um segredo de Janerup. Todas s vezes que Janerup saa para o mato ele falava para sua me: Me, no pode limpar o lixo que est embaixo da minha rede. E sua me se perguntava: Porque ser que meu filho no deixa var rer o lixo debaixo de sua rede? Um dia a sua me no quis mais obedecer a ele e foi varrendo o monto de lixo que estava debaixo da rede. Ela foi tirando o lixo at cheg ar onde a cor estava. A mulher levou um susto e bateu com o cabo da vassoura na coro. A me de Janerup falou: por isso que meu filho no deixa varrer o lixo que estava debaixo da rede dele!

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11 Desenhos: Janin Kaiabi

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12 Desenho: Matarekatu Kaiabi

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13 No demorou e Janerup voltou e viu logo que sua me havia limpado todo o lixo que estava debaixo de sua rede. Ele ficou muito bravo com sua me. Pela segunda vez, ele trouxe uma cera do mato (araity) e transformou em mulher Essa mulher ti nha que fic ar em casa toda a vida O rapaz, marido del a, falava toda vez para sua me: Me no deixa a mulher sair. Um dia a velha me de Janerup cansou de fazer tud o sozinha e disse para sua nora: Vai buscar gua no rio, minha nora. Ela pegou a cabaa e foi e mb ora buscar gua no rio, mas antes de chegar no rio ela derreteu. A me de Janerup esperou e esperou, e nada dela chegar. Ento ela foi ver o que havia acontecido com sua nora. Quando chegou no meio do caminho viu a mulher derretida Pela terceira vez Janerup arrumou uma mulher que era ariranha. Aconteceu a mesma coisa, ele falou para a me dele no deixar ela sair sozinha para o rio, mas um dia a me dele falou para ela ir buscar gua sozinha no rio. Quando ela chegou no rio, encontrou com os parentes ariranha e fugiu com eles. Pela quarta vez, Tuiarar casou com uma mulher que era um matrich (um peixe). Aconteceu a mesma coisa, ela foi buscar gua no rio, e quando chegou l no rio caiu na gua e se transformou em peixe e, infelizmente, foi embora pel o fundo da gua.

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14 Texto e desenho: Jamanary Kaiabi. Pia uruu kuj. Tuiarare remireko. Ypiaramu ojoa imanaw, piraramu ojemujnga awaw, na jewyrujawi ogipe.

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15 Texto e desenho : Tamakari Kaiabi e Thizil Kaiabi.

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16 Sendo assim, Janerup pensou : Acho que tenho que ir embora para bem longe da minha me, porque todas as coisas qu e eu fao no esto dando certo Janerup ento lembrou da sua tia que morava muito longe da sua aldeia, junto com seu marido que se c hamava Kapinoa. A tia tinha uma filha muito bonita, e ele estava interessado em se casar com ela. Ele avisou sua me que ia fazer uma viagem muito longe a procura de uma mulher. Janerup ento sumiu no mundo dos insetos e animais. Foi na poca que existiam muitos animais e poucos seres humanos, mas os animais e insetos viviam como os seres humanos, falavam, viviam em aldeia, trabalhavam e produziam. Janerup viajou muito tempo e chegou na primeira aldeia, dos povos Tei L ele viu o ho mem se transformar em pilo e as mulheres us lo como se fosse um pilo de madeira. Outro dia continuou sua viagem e chegou na aldeia dos besouros (Pyrerem, nome para besouro na lngua indgena Kaiabi). O homem foi bem recebido e forneceram comida para ele mas a comida dos Pyrerem era muito estranha, era beiju de fezes de gente. Assim toda vez que ele chegava numa aldeia ele pousava e observava as coisas diferentes.

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17 opouwe kujmera ng aare arerekoi jau ng jau kujmeraupe teneajee je erooi ipyeita rane. Weikuara pyei pawire ng futat ng ywau amowyjeko jau ng kujmera upe.

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18 Na manh seguinte, conheceu a aldeia dos povos Jotowosi (Martim pescador). Na aldeia dos Martim pescador havia uma moa que queria se cas ar com Janerup, mas ele no quiz se casar com ela. No dia seguint e ele continuou viajando e chegou na aldeia do povo Pyrep (pica pau). O povo Pyrep era um povo muito trabalhador, eles tinham uma variedade de produtos da roa. Foi onde o Janerup considerou as pessoas mais organizadas. Mais para frente ele cheg ou aldeia undurucu), ele era um povo canibal onde Janerup quase foi comido, mas e le escapou e foi embora. A prxima aldeia foi aldeia do povo Anyra (morcego). L, Janerup chegou numa casa que parecia no ter ningum morando nela e pousou l, porque j era noite. Quando escureceu o homem dormiu sozinho na casa grande dos morcegos. Nessa hora, os morcegos comearam a aparecer e foram cumprimentar Janerup, fa zendo festa para ele at o dia clarear Durante o dia, os morcegos sempre dormiam embaixo do teto da casa. Janerup continuou viajando novamente e chegou aldeia do povo Urubu. Na aldeia dos urubus eles comiam s farinha com pena queimada. Finalmente Janerup conseguiu chegar aldeia que ele estava m. Era um povo que pensava muito diferente, era l que a tia de Janerup morava, a esposa do Kapinoa. Afinal Janerup realizou seu sonho, casou com grupo que considerava os animais como seres h umanos. Chamavam com eles, Janerup os ensinou muita coisa. em matava os macacos e tiravam a cabea do macaco para fazer a festa Jow osi. Eles pareciam at um subgrupo do povo Kaiabi, porque

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19 eles tinham uma cultura como a dos Kaiabi. O povo do Kapinoa no comia os animais e nem as aves, as pessoas se alimentavam de peixinhos. Pois da Janerup ensinou o nome dos animais, das aves, e tambm a receita culinria dos produtos d a roa, de carne, e ensinou tambm a fazer festa de verdade. Levou o grupo para guerrear contra ouros povos e foi passando o tempo. Ele e a mulher tiveram dois filhos, um dia o homem resolveu sair com Kapinoa e seus filhos para fazer guerra com outros povo s. Saram da aldeia e foram caminhando pelo mato. Quando chegaram a um acampamento pousaram e Janerup resolveu dar uma sada com o seu grupo para matar macaco. Antes de sair para caar, ele falou murmurando no ouvido do seu filho para fazer de conta que el e havia sado e o deixou como vigia. Quando eles comearam a sair, o Kapinoa e seu grupo se reuniram porque todas as vezes que eles saam para guerrear contra ouros grupos o Janerup no deixava ningum matar as pessoas. Pois da que ocorreu a inveja. O Ka pinoa ento falou para o seu grupo que desta vez se ele no deixasse ele matar nenhuma pessoa iam voltar contra o Janerup. O filho de Janerup estava ouvindo tudo o que eles estavam falando. Quando o Janerup chegou ele perguntou para seu filho se ele tinha ouvido alguma coisa e o filho afirmou que o Kapinoa estava querendo mat lo. Janerup ento resolveu voltar para a aldeia com o seu filho. Ele falou para o garoto fazer de conta que teve um acidente, um corte no p. O Janerup teve uma pequena conversa com Kapinoa, dizendo que ele iria voltar com seu filho pelo motivo do acidente. O Kapinoa respondeu, tudo bem que ele deveria ir cuidar do menino. Janerup colocou o seu filho em cima do ombro e foi embora pelo caminho. Chegando aldeia ele mentiu para sua

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20 es posa, dizendo que voltou da caada porque o garoto no deu conta de andar muito longe, e disse que o pai dela no ia demorar para chegar, pediu a ela que preparasse mingau para tomar quando ele chegasse. No dia seguinte, a mulher pediu para o marido ir roa com ela. Ele respondeu: Po de ir na frente, depois eu vou, e ficou preparando sua flecha. Texto e desenho: Muap Kaiabi

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21 A esposa do Janerup tinha um namorado, quando ela saiu de casa a mulher fez o sinal pedindo para o namorado ir atrs dela. O marido estava observando a sua esposa, passaram alguns minutos o amante dela saiu atrs da mulher e Janerup fez de conta que n o estava observando nada. Aps alguns minutos Janerup foi atrs da sua mulher. Quando ele chegou na entrada do caminho da roa, viu o Maiaco (cesto de carregar objetos) no caminho e andou devagarzinho. Quando Janerup viu o homem em cima da sua mulher, ele no teve mais pacincia e tacou flecha no homem. A mulher levantou e falou assim: Voc no pode fazer isso! E ele respondeu: Eu no tive mais pacincia, voc andou me traindo e eu vou te matar tamb m. Janerup meteu flecha na mulher, matou e deixou a mulher de pernas aberta, colocou o homem em cima dela. Ele cortou o brao da mulher e embrulhou com folha de banana brava e foi embora para casa. Desenho: Mairasing Kaiabi

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22 Texto e desenho: Jawarete Kaiabi

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23 Texto e desenho: Wyrawat Kaiabi i

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24 Quando chegou na casa, colocou o brao da mulher em cima do jirau e foi deitar. Depois que o Janerup matou a sua mulher ele trocou seu no me, passou a ser chamado de Tuiarar. Tuiarar ento pediu para sua sogra varrer a casa pois ela estava muito suja. A sogra foi varrendo os cantos da casa at chegar onde estava e ficou assustada. Ela f alou: Ami que s er que est pingando? Tuiarar no quis esconder: J que voc viu, eu vou contar, a sua filha vivia me trado eu sabia de tudo, mas fui deixando passar. Hoje no tive mais pacincia e matei sua filha l na roa, cortei o brao de la e trouxe, o sangue que voc est vendo. A velha saiu correndo e chorando pelo caminho da roa. oi embora para a roa o Tuiarar foi arrumando suas coisas para ir embora para a aldeia do seu pai. A sogra j estava chorando com o corpo de sua filha, e o Tuiarar disse para sua sogra: P ode entregar o brao da sua filha para os seus filhos e a sogra disse para ele que esperasse os seus cun hados chegarem. Ele respondeu: No, eu j vou. A sogra pediu que deixasse os filhos del e para a lembrana, ele negou.

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25 Texto e desenho: Jamanary Kaiabi ia poje wyaa

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26 Eu no vou deixar as crianas aqui, eles vo comigo. O Tuiarar no deu satisfao para sua sogra e saiu com os filhos para a beira do rio, e a sogra ficou chorando. Quando ele chegou ao porto tirou a gua da canoa rapidamente, colocou suas coisas na canoa e tambm as crianas. Da empurrou a canoa para o meio do rio. Desenho: Moreaat Kaiabi

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27 Foi hora em que os seus cunhados e o pai estavam chegando. Os cunh ados do Tuiarar pediram que ele volt asse porque ele estava levando os sobrinhos, e disseram que iam sentir saudades. O Tuiarar respondeu que ia levar as crianas, mas pediu para eles irem buscar as crianas na aldeia do seu pai. E pediu tambm para eles darem tempo para que pudessem se prep arar p ara atend los. A final Tuiarar conseguiu escapar e foi para a aldeia do seu pai. Quando ele chegou no porto do seu pai deixou as crianas no caminho e foi sozinho para a aldeia. L ele foi bem recebido pelo pai. O pai do Tuiarar perguntou para o filho se ele tinha casado, ele disse que sim e que tivera dois filhos e foi at o caminho buscar as crianas. O av das crianas colocou as no colo e chorou de emoo. Na volta para a aldeia Tuiarar contou toda a histria do casamento e por fim a morte de sua mulher assassinada por ele mesmo, devido traio e seu amante. Tuiarar comeou a se organizar. Ele deixou uma marca para que seu cunhado achasse o porto da aldeia, um sinal, e ficou vigiando o porto de manh e de tarde para ver se o pessoal do K apinoa estava chegando. Toda tarde ele perguntava para o seu pai se ele escutava alguma coisa estranha por perto da al deia. O pai respondeu que sim: Toda tarde aparece alguma coisa roubando amendoim. Tuiarar disse: T bom ama nh eu vou esperar. No di a seguinte ele foi l, viu um bando de raposas e comeou a transformar elas em pessoas. Esse grupo de raposas que foram transformados em pessoas so ladres, sempre roubam alguma coisa das pessoas.

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28 Desenho: Muap Kaiabi No outro dia, ele perguntou de n ovo para seu pai, se ele estava escutando alguma coisa. O pai respondeu: Estou ouvindo alguma coisa no meio do local que j foi queimado. Ele falou: Ta bom, amanh de manh de madrugada eu vou l ver. No outro dia de madrugada, Tuiarar levantou e foi ver. Era um grupo de razes queimadas (Ywopopawet). Ele chamou, elas vieram na sua direo e ele as transformou em gente. Essas pessoas tm a pele mais escura do que os outros. Cada grupo que ele criou tinha um comportamento diferente como caracters tica, signo e as coisas que eles gostam de fazer. Por exemplo, quem do signo da taquarinha, gosta de fazer flecha, e assim por diante. No outro dia, foi a vez dos tucanos (Tukanifet). O pai dele disse que estava escutando alguma coisa cantando na rvore. De manh ele foi l ver, chamou os tucanos e transformou em gente tambm. A caracterstica do grupo dos

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29 tucanos de gostar de arrotar toda vez que eles comem, e tambm eles possuem o cabelo meio enrolado. No dia seguinte, Tuiarar perguintou para seu p ai de novo, e ele respondeu que tinha alguma coisa embaixo do p de tucum. Tuiarar foi l de manh e viu o grupo de tucuns chamou, eles vieram na sua direo e os transformou em gente. A caracterstica deste grupo gostar de se enfeitar com colares de tucum. Tuiarar continuou fazendo perguntas para seu pai e ele respondeu que tinha alguma coisa sujando o ri o. Tuiarar foi l ver no dia seguinte e encontrou um grupo de sujeira da gua transformados em gente. A caracterstica de pessoas deste grupo ter a pele mais clara e gostar muito de se ali mentar de mingau. O prximo foi a ona. Tuiarar perguntou para o seu pai e ele disse que havia alguma coisa estranha pelo caminho. No dia seguinte ele foi l e encontrou um grupo de onas (Miaret). Ele chamou e elas vieram em sua direo. Quando chegara m perto, ele as transformou em pessoas. As pessoas deste grupo tm os dentes bons e so peludos. No outro dia, Tuiarar fez a mesma pergunt a para o pai, o pai respondeu: Ouo alguma coisa puxando cip. Tuiarar respondeu: T bom amanh eu vou l ver. No dia seguinte, ele foi ver, era o grupo de cip e os transformou em pessoas. Os seres cip gostam de trabalhar e construir casas. No dia seguinte foi a vez dos sapos. Tuiarar perguntou para o pai:

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30 Voc est escutando alguma cois a estranha no tio? O pai dele respondeu: Sim, estou ouvindo alguma coisa cantando no lago. Tuiarar falou: Ta bom, de manh eu vou l. De manh foi l, encontrou o direo e ele os transfor mou em gente. A caracterstica dos sapos de conversar muito, pode conversar at amanhecer. Eles tambm gostam de fazer xixi nos outros. No outro dia, Tuiarar perguntou se ele ouvia alguma coisa estranha no mato. O pai respondeu: Sim, tem um barulh o estranho no mato. No dia seguinte, Tuiarar foi l ver e encontrou um grupo de taquarinha (Takwatywera) que um bambuzinho, e os levou para a aldeia. A caracterstica deles possuir um joelho grande e tambm de gostar de cortar o cabelo dos outros. Finalmente, foi a vez da Jacutinga. Tuiarar perguntou se ele estava escutando alguma coisa. O pai respondeu: Toda noite eu escuto alguma coisa batendo asas. No dia seguinte ele viu o grupo de Jacutinga que so pssaros. Tuiarar os chamou e eles v ieram em sua direo. Quando chegou perto o Tuiarar transformou o grupo de Jacutinga em gente e os levou para a aldeia. Assim o Tuiarar conseguiu aumentar o nmero de pessoas na sua comunidade. Foi dessa forma que ele continuou uma aldeia com muita gent e. A partir da ele ensinou para os grupos a cultura, a lngua, o comportamento, o trabalho, a construo de casas, fazer roa, fazer artesanato, a festa, a guerrear contra outros povos e demais co nhecimentos culturais.

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31 Por sua vez o Tuiarar j estava pr onto para esperar o grupo de Kapino a. Numa hora da tarde o Tuiarar ficou com o seu grupo no porto para ver se o pessoal j estava chegando e viu que eles j estavam se aproximand o da aldeia, mas como o Tuiarar era paj ele fez a tarde escurecer rapidamen te, e o grupo s conseguiu chegar ao porto da aldeia e pousaram l. Q uando foi de madrugada, Tuiarar levou seu pessoal para atacar a turma do Kapinoa. A turma do Tuiarar acabou com eles. E foi assim que Janerup, nosso pai, deu origem ao povo Kaiabi. Desenho: Moraiup Kaiabi

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32 A CESTARIA DO POVO KAIABI TAPEKWAP ABANADOR Texto e desenho : Kwaryp Kaiabi

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33 TAMAKARI CESTO

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34 MUAP BORDUNA Texto e desenho: Jamanary Kaiabi uruywa m

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35 MYAYTA CESTO MAIACO

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36 PANEIR CESTO PANEIRO Texto e desenho: Sirawan Kaiabi Pan

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37 CESTO COMPRIDO Texto e desenho: Aturi Kaiabi prdouzem mais. Mas est em condies de recuperar. O cesto usado para guardar objetos midos. Este produto feito de palha de tucum e quem faz so os homens.

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38 CESTO Texto e desenho : Jawarete Kaiabi iparaw.

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39 PINOSING ESTEIRA

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40 JUYP CESTO PARA GUARDAR AMENDOIM Texto e desenho: Tymakari Kaiabi Ma

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41 ARAA PENEIRA DESENHADA Texto e desenho Amywejua apytukiawa kuj maea yrupepypy yrupema yrupejuap, tapekwap jowai, yrupe iapytukap kuj maea aywha wososusokawa

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42 Texto e desenho : Matarekatu Kaiabi ipywu.

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43 PENEIRA DE PALHA DE TUCUM Texto e desenho : Tamakari Kaiabi

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44 YRUPEWAI PENEIRA DE RABO Texto e desenho : Juporaiup Kaiabi

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45 YRUPEFUKU PENEIRA COMPRIDA Texto e desenho: Pikuruk Kaiabi

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46 PENEIRA DE MAL HA FINA Texto e desenho: Wyrawat Kaiabi

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47 CESTO CARGUEIRO Texto e desenho: Mairasing Kaiabi tepawire ae i pi

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48 ARAPI ENFEITE DE FLECHA Texto e desenho: Pikuruk Kaiabi

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49 KANGYTARYTA ARMAO DE COCAR Texto e des enho: Awasiuu Kaiabi

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50 ARMADILHA PARA PEIXES Texto e desenho: Jamanary Kaiabi

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51 Levantamento dos itens da cestaria Kaiabi. NOME DO OBJETO QUEM FAZ RECURSOS NATURAIS USOS Tapekwap / abanador Homens Juap / Broto de Tucum; 'Ypo / Cip; Inimo / Barbante; Amyneju / Algodo Mulheres usam para abanar o fogo e virar o beiju; Homens usam para abanar e os Pajs usam para rezar e espantar espritos maus. Tamakari / Cesto Cilndrico Homens Juap / Broto de Tucum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo; Juy'Wi / Agulha de Palito de Palha Mulher guarda objetos pequenos. Muap / Borduna Homens Tukum / Tucum; Yp / Pau; Pino'Wa / Bacaba; Uruyp / Arum; Amyneju / Algodo; Jemore'Yp / Jequitib; Ywyjupe / Tinta Guerrear, Danar na s festas, caar. Myayta / Maiaco Homens 'Ypo / Cip; Ywit / Embira Mulheres e Homens usam para carregar produtos da roa, rede, caa, frutas, peixes moqueados. Homens Ameywit / Imb Mulheres e Homens usam para carregar produtos da roa rede, caa, frutas, peixes moqueados. de Palha de Tucum Homens Juap / Broto de Tucum Fazem simpatias para o mudo e carregar coisas midas. Homens Pinop / Palha de Inaj Carregar caa e fruta. Yrupewai / Peneir a Homens Uruyp / Arum Paj usa para rezar e trazer a alma dos doentes. Ta kape jowai / Abanador de Dois Cabos Homens Wuy'wa / Cana Brava; Inimo / Barbante; Juy'Wi / Agulha Mulheres usam para tampar alimentos e abanar fogo. Kangytaryta / Armao para Coca r Homens Uruyp / Arum; Amyneju / Algodo Para armao de cocar. Usado para enfeitar em festas e cerimoniais.

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52 Levantamento dos itens da cestaria Kaiabi Continuao. NOME DO OBJETO QUEM FAZ RECURSOS NATURAIS USOS Arapi / Enfeite da Flecha Homens Ini mo / Barbante; Juy'Wi / Agulha Caar. Pinosing / Esteira Homens Pinop / Palha de Inaj Fazer Cermica. Yrupemeauu / Peneira de Malha Grossa Homens Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo Mulheres coam massa de mandioca, Pajs usam para tirar espr itos maus. Yrupemeai'i / Peneira de Malha Fina Homens Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo Coar lquidos, massa de mandioca e milho. Homens Pokop / Banana Brava; Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Amyneju / Algodo Carregar rede e comida. de Tucum Homens Juap / Palha de Tucum Guardar algodo, fuso, barro. Araa / Peneira Desenhada Homens Uruyp / Arum; Amyneju / Al godo; 'Ypo / Cip; Jemore'yp / Tinta de Jequitib Usam para fiar algodo, guardar barbante e bola de barro. Comprido Homens Juap / Broto de Tucum Mulheres usam para guardar objeto. Cesto para guardar amendoim Homens Juy 'wi Ywit / Talo de Inaj Mulheres e Homens usam para guardar amendoim. Yrupefuku / Peneira oblonga Homens Uruyp / Arum; 'Ypo / Cip; Ameneju / Algodo; Para preparar os alimentos; pegar peixinhos na pescaria. Jesi'a / Armadilha para Peixes Homens Juy'wi / Talo de Inaj; Ywit / Embira; 'Ypo / Cip; Armadilha para pegar peixe.

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53 KAIABI ARAA AS PENEIRAS DESENHADAS Texto: Makup Kaiabi Quando pensamos em fazer peneira para uso ou para vender p rimeiramente procuramos arum no lugar onde tem. Depois de localizar onde tem arum, as pessoas fazem caminho at o local. Depois de descobrir o arum, a pessoa sai para coletar material e trazer para a aldeia Aps chegar na aldeia, comea a partir o arum e coloca no sol para secar. Depois de seco, a pe ssoa tira a fibra e inicia a fazer peneira. Demora entre7 a 10 dias para fazer uma peneira pintada, dependendo do tamanho. Se for tamanho pequeno menos tempo. Depois de terminar de tranar e pass ar a armao, tem que amarrar, buscar tinta e depois de trazer, comea r a pintar. Depois, tem que c olocar no sol para a tinta pegar bem. No finalzinho, pendura dentro da casa bem em cima de onde sempre acende o fogo, para a fumaa ajudar a tinta pegar bem na peneira. Desenho: Myauiup Kaiabi

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54 yuyri. Texto e desenho: Jawarete Kaiabi ETAPAS DE CONFECO DA PENEIRA DESENHADA Yrupem pitupawa piaramu nga oi Texto e desenho: Mairasing Kaiabi

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55 iywyteroka. Iywyterongire ae yrupema iapau iopopawire ae iatywa ype ikangire ae imopiririka. Texto e desenho: Jari Kaiabi

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56 Yrupema ng a wusng uj. Nan ae yrupemaa apoi, kuj nuapoi, Texto e desenho: Matarekatu Kaiabi

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57 Texto e desenho: Tamakari Kaiabi Texto e desenho: Muap Kaiabi

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58 HIST"RIA DA ORIGEM DOS DESENHOS DE PENEIRA O HOMEM QUE FOI BUSCAR CANA BRAVA Narrador : Tarumani Kaiab i. Histria contada no dia 25/06/1999, na Aldeia Kururu. Tradutor e escritor : Professor Tarupi Kaiabi. Um certo dia, muitas pessoas saram do Rio Peixoto de Azevedo para outros lugares, procurar os inimigos para guerrear. Durante a viagem no mato, as pessoas foram morrendo, porque em outros lugares dos matos existiam muitos bichos bravos como: murioco, cobra faco e outros. Ento, primeiro o pessoal foi atacado pelo murioco; no outro acampamento o pessoal foi cortado pela cobra faco e sobrou s u ma pessoa. Essa pessoa era um homem muito sabido, ele era prevenido. Onde ele dormia, ele fazia uma cerca com muitas varas para se proteger do bicho barbo. Quando o pessoal dele acabou, ele ficou sozinho caminhando no mato. Ele ficou muito tempo no mato, a mulher dele j ficou com outro homem, j tinha casado com outro marido. Ela tinha filha e filho, todos os filhos e filhas cresceram, casaram tambm. Porque o primeiro marido ficou muitos meses no mato. Esse homem continuou caminhando at que ele chego u no rio da canabrava, que o Rio Xingu, porque s neste rio existe muita canabrava at hoje. Quando ele chegou neste riozo, ele comeou a procurar transporte para atravessar para o outro lado do rio e ele

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59 comeou a andar na beira do rio at chegar no ja , era bem de tardezinha. A ele falou para a ja: ___ Oi, vov, como que est, tudo bem? ___ Oi, meu sobrinho, comigo est bom, e voc, sobrinho, tudo bem com voc? ___ Tudo bem comigo, vov. Quando foi s oito horas da noite, ele falou para a ja assi m: ___ Vov, eu vou deitar com voc, t? ___ No, sobrinho; minha rede muito pequena e a corda da rede tambm muito fina; seno, vai arrebentar para ns. ___ Vov, eu fiquei muitos meses no mato sem deitar numa rede, porisso eu quero me deitar com voc vov. ___ No, sobrinho, deita a na beira do fogo para esquentar seu corpo, t sobrinho? ___ No, vov, l vou eu deitar. Desenho: Kamilita Kaiabi

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60 Essa pessoa tentou, tentou, mas a ja tambm negou, negou, at que ele foi para perto da ja e comeou a deitar com ela. Quando ele deitou a rede arrebentou, caiu tudo no cho e a ja voou com tudo: fogo, rede e a casinha tambm ela levou. A ja atravessou para o outro lado do rio e l ela ficou assobiando para ele de novo, mas o homem no foi l porque estava muito escuro e ele a manheceu l mesmo. Bem cedo ele comeou a gritar de novo. Ele gritou, gritou, a veio um urubu, sentou perto dele e falou assim: --O que que voc quer? ___ Eu estou procurando algum para me atravessar. ___ Ah! Eu levo voc para o outro lado do rio. __ , ento vai pousar naquele barranco limpo, t? A o urubu voou, mas o vo dele era muito doido. O urubu voltou, sentou perto dele e falou para ele: ___ E a, voc vem comigo? ___ No, eu no vou, seu vo muito doido. A o urubu foi embora. Ele gritou de novo, gritou, gritou, a veio o mutum, sentou perto dele, falou assim para ele: Desenh o: Jawutari Kaiabi

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61 ___ Oi, companheiro, o que voc manda? ___ Eu estou gritando para vocs, para vocs me atravessarem para o outro lado do rio. ___ Ah! Eu levo voc, t bom? ___ Ento v oc vai primeiro, eu quero ver voc. A o mutum voou e foi sentar na boca do camaro enorme, que comeu o mutum. A ele ficou olhando o mutum que foi comido pelo bicho da gua. Depois disso ele gritou de novo: gritou, gritou e o jacar borbulhou a gua, jun to com o borbulho, um jacar muito grande boiou. O jacar respondeu assim: ___ O que foi, meu amigo? ___ No, eu estou procurando uma pessoa para me atravessar para o outro lado do rio. ___ Muito bem pode vir, eu vou levar voc, t bom? ___ Ento vai sozi nho primeiro, eu vou colocar pau seco em cima de voc, t? ___ T bom. A o jacar saiu com pau seco nas costas, at chegar na beira do outro lado. O jacar voltou com esse pau seco de novo e falou para ele: ___ Pode vir, eu vou atravessar com voc tranqi lo. ___ T bom, eu vou sim. Ele foi e sentou encima do pau seco. A, o jacar perguntou para ele: ___ E a, voc j sentou? ___ Sim, j est pronto, pode ir.

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62 O jacar comeou a andar com ele, quando foi bem no meio do rio, o jacar falou para ele assim: ___ Oi, eu quero que voc me xingue, pode falar do meu olho, do meu corpo, t? ___ Olhe, eu no vou xingar o senhor, voc gente boa. O jacar ouviu tudo o que ele falou, andou com ele de novo e repetiu a mesma coisa: ___ Oi, companheiro, eu quero que voc me xingue, t? ___ Oi, gente boa, eu no vou xingar voc no, t? Porque que eu vou falar mal de voc? Desenho: Jawutari Kaiabi

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63 No, pode me xingar, pode falar do meu nariz, do meu rabo feio, pode falar do meu olho, pode falar do meu corpo feio, t? ___ No, eu agrado v oc, voc gente legal, s voc que est me salvando, me atravessando para o outro lado do rio, ento eu no posso falar mal de gente boa. A o jacar andou com ele at chagar na beira e ele pulou no galho da rvore, desceu l no cho e a ele comeou a xingar o jacar, ele falou tudo o que o jacar pediu para xingar ele. O jacar ficou ouvindo e quando ele acabou de falar, o jacar ficou bravo, com tanta raiva que o jacar quebrou tudo o que ele tinha. Pronto, ele atravessou para o outro lado do rio e f icou tranqilo, ficou contente. A ele ficou s caminhando e quando foi escurecendo, ele chegou no sapo. Ele ficou embaixo dele, quando foi meia noite, o sapo virou a cara para o rumo da aldeia dele. O sapo, quando virou para o rumo do lugar dele, falou o nome do rio que ele mora. A ele comeou a perguntar para o sapo, mas o sapo no respondeu mais. Quando foi de madrugada, o sapo se afastou dele e ele ficou sozinho at amanhecer. Bem cedo ele partiu no rumo que o sapo falou, caminhou, caminhou e e scureceu novamente. Ele fez acampamento e deitou. Quando foi sete horas, o cupinzeiro comeou a falar e deu medo nele, o cupinzeiro ficou falando at amanhecer o dia. Bem cedo, ele foi l e avistou s cupinzeiro.

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64 A ele caminhou de novo, at escu recer. A ele fez acampamento e deitou. Quando estava bem escuro, a taquara comeou a falar de novo at amanhecer. Bem cedo, ele foi l de novo e avistou s taquara, a ele cortou dois metros de taquara e caminhou de novo para o rumo da aldeia dele. Escur eceu novamente, ele fez acampamento, deitou e quando foi sete hortas, a madeira comeou a falar de novo. Essa madeira se chama araity na lngua Kaiabi, esse araity ficou falando at amanhecer o dia, para tirar a ramela do olho dele. Bem cedo, ele foi l e viu que era cera que o povo Kaiabi usa para colar flecha. A ele tirou cera e caminhou de novo at escurecer, ele fez acampamento, deitou e quando foi de noite, o car comeou a falar perto dele de novo e ele ficou ouvindo at amanhecer o dia. Bem cedo ele foi l, viu que era o car. Ele tirou bastante, ele fez cesto, colocou car na cesta, caminhou de novo at chegar numa aldeia. Desenho: Katuryp Kaiabi

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65 Essa aldeia que ele chegou era a aldeia da cobra, as coisas que ele levou, deixou l no caminho. Ele foi sozinho e entrou num a casa grande. Quando ele foi no meio da casa, a cobra fechou as duas portas, tinha muitas cobras grandes l, a ele ficou no meio da casa. O homem falou todos os nomes de bichos para a cobra, mas a cobra falava que ela comia todos os bichos, at escurecer Quando foi de noite, apareceram muitos bichos e ele comeou a falar o nome de cada bicho que anda de noite, como: anta, veado, cutia, paca e outros, para que viessem salvar ele da cobra. Amanheceu, o gavio cantou, mas a cobra no ficou com medo. Quando o acau cantou, a cobra se afastou da porta e essa pessoa correu e pegou um pedao de pele da cobra que parecia uma peneira desenhada, levou e chegou na aldeia com essa peneira. Quando ele chegou l na aldeia dele, ele deu taquara para o homem que casou c om a esposa dele. Na hora que a esposa dele o viu, largou do outro e ficou com ele. Esse homem que tinha casado com a esposa dele ficou xingando ele com a flauta, mas o dono da mulher no sentiu nada. Ele s falou para o outro que quem no anda assim mes mo, fica engordando dentro da casa. Foi assim que o povo Kaiabi descobriu os desenhos das peneiras, que at hoje eles fazem. Alm disso, esse homem descobriu a cana brava usada para fazer flecha, a cera para colar os enfeites na flecha, a taquara e o car . Assim termina essa histria.

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66 um pedao de couro de cobra da casa das cobras jararacas.

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67 OS DESENHOS DE PENEIRA 1 Nome : Primeiro desenho que os homens jovens aprendem. usado nas peneir as de uso, que no so pintadas. Desenho feito por Pirapy, Tamakari Peneira feita por Kupeianin, Aldeia Capivara, 2001. Fotografia: Simone Athayde.

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68 2. Nome : Awasiayj, gro de milho. Peneira de buriti feita por Tymari Kaiabi, aldeia Kururu, 1998. Fotografia: Patrcia Di Filippi.

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69 3. N ome : Awasiayj gro de milho. Peneira da coleo do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de So Paulo MAE/ USP. Coletada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes (MT) em 1966. Fotografia: Patrcia Di Filippi.

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70 4. Nome : Ipirien, Jaruk ang. Mais usado em peneiras de uso, no pintadas. Peneira feita por Kawe Kaiabi, aldeia Arraias, 1998. Fotografia: Patrcia Di Filippi.

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71 4 Nome: Jarukang e Ipirien (desenho composto variao do anterior ). Peneira da coleo do Museu de Etno logia de Berlin, Alemanha. Coletada por Gnter Hartmann no Parque do Xingu em 1984. Registro: VB 18353. Fotografia cedida pelo museu.

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72 5. Nome : Awarapypot (pegada de raposa ou cachorro do mato). Nome dado por Kupeap Kaiabi: Awasiayj (gro de milho) Peneira irupefuku, autor desconhecido. Fotografia: Patrcia Di Filippi.

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73 6. Nome : Peneira de buriti feita por Tari Kaiabi, aldeia Kururu, 1998. Fotografia: Patrcia Di Filippi.

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74 7 Nome : Jowiterian. Peneira coletad a por Berta Ribeiro, no Parque Indgena do Xingu, em 1977. Museu Nacional, Rio de Janeiro, Registro MN 39642. Foto: Klinton Senra.

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75 8 Nome : Moiafu'a (cobra enrolada). Peneira feita por Kawe Kaiabi, aldeia Arraias, Parque do Xingu, 1998. Fotografi a: Patrcia Di Filippi.

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76 9 Nome : Janipap wuu, Kwasiarapat (fruto de jenipapo, desenho de braos). Peneira feita por Kawe Kaiabi, aldeia Arraias, Parque do Xingu, 1998. Fotografia: Patrcia Di Filippi.

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77 10 Nome : Kwasiarapat. Peneira da cole o do Museu Nacional do Rio de Janeiro, coletada por Berta Ribeiro no Parque do Xingu em 1977. Nmero de registro: MN 39642. Foto: Klinton Senra.

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78 11 Nome : Kwasiapiayj (desenho tortinho). Peneira feita por Miaracaja Kaiabi, aldeia Tuiarar, Parque d o Xingu, 1997. Foto: Patrcia Di Filippi.

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79 12 Nome : Jowosiape (casco de jabuti). Acima, peneira feita por Tymari Kaiabi, da Aldeia Kururu. Ao lado, (Careca), PI Diauarum. Fotos: Simone Athayde

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80 13 Nome : Yogajurat (lagarta ou cor com o corpo dobrado). Foto: Simone Athayde.

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81 14 Nomes: Jowiterian, Inimo eta, Yogajurat, Yok Yogii. Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes 1966. Peneira feita por Kupeap, aldeia Capivara, 2002. Foto: Simone Athayde.

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82 15 Nomes : Iwirapyj e inimo eta, Iwirapyj, Iwirapyj e yogajurat, Iwirapyj e Yogii. Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966. Peneira feita por Owit Kaiabi (in memoriam) na aldeia Marak, Parque do Xingu, 1998 Foto: Simone Athayde

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83 16 Nome: Iwirapyj (envira ou cip). Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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84 16 Nome : Iwirapyj (envira ou cip), c ontinuao. Variao do desenho Iwirapyj. Peneira coletada por Paulo Junqueira no Parque do Xingu, 2001. Autor desconhecido. Fotos: Simone Athayde

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85 17 Nomes : pessoa com braos). Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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8 6 18 Nome: (dese nho de pessoa com braos abertos). Autor desconhecido, Parque Indgena do Xingu, 1998. Foto: Patrcia Di Filippi.

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87 19 Nomes : Taangap jakunaap (desenho de pessoa com braos abertos em forma de cruz). Peneira da coleo do Museu de Arqueo logia e Etnologia da Universidade de So Paulo MAE/ USP. Coletada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, MT, 1966. Foto: Patrcia Di Filippi. Ao lado, peneira feita por Kawintaii Kaiabi, Aldeia Kururu, 2002. Foto: Simone Athayde

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88 20 Nomes : Araa, abertos). Peneira coletada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes em 1966. Coleo do Museu das Culturas da cidade de Basilia, na Sua, continent e Europa. Registro: Ivc 12056. Fotografia: Peter Horner, 2004, cedida pelo museu.

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89 21 Nomes : Jywa pekangerowat (desenho de pessoa com braos e garras ou dedos dobrados). Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos P eixes, 1966

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90 22 Nomes : pessoa, tipo gmeos). Peneira feita por Preajup Kaiabi, Aldeia Kururu, 1999. Foto: Simone Athayde.

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91 23 Nomes : (desenho de pessoa). Pene ira da coleo do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de So Paulo MAE/ USP. Coletada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, MT, 1966. Foto: Patrcia Di Filippi.

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92 24 Nomes: Ta'agafu'a tayt, Ta'agap tayt (desenho de pessoa com filho s). Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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93 24 Nomes : desenho composto, combinao dos desenhos Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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94 25 Nome: Kwasiaruu (desenho grande). Acima, peneira feita por Owit Kaiabi (in memoriam), aldeia Marak. Abaixo, duas peneiras feitas por Jywafuku Kaiabi do PIV Manito, 2002. Fotos: S imone Athayde.

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95 Cesto Cargueiro 26 Nome : Kwasiarapat (Braos abertos). Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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96 26 Nome : Kwasiarapat (Braos abertos). Vista lateral. Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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97 27 Nome Ipirien e/ou Jarukang (caminho ou costelas/osso). Parte de baixo do cesto. Fotografia tirada por Georg Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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98 28 Nomes : Kwasiarapat or Kwasiapiayj. Parte de baixo do cesto. Fotografia tirada por Ge org Grnberg no Rio dos Peixes, 1966.

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99 29 Nome : Kwasiarapat. Cesto cargueiro da coleo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, coletada no Rio Teles Pires em 1955. Registro: MN 6307. Foto: Klinton Senra.

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100 30 Nome : Panakukupe (costas do Panak Cesto cargueiro da coleo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, coletada no Rio Teles Pires em 1955. Registro: MN 6307. Foto: Klinton Senra.

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101 31 Nome : Awarapypot (Pegada de raposa variao, padro de desenho aberto). Cesto cargueiro da coleo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, coletada no Rio Teles Pires em 1955. Registro: MN 6307. Parte de baixo do cesto. Foto: Klinton Senra.

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102 31 Nome : Awarapypot (Pegada de raposa variao, padro de desenho aberto ). Peneira feita por Owit Kaiabi (in memoriam), aldeia Marak, Parque Indgena do Xingu, 2000. Foto: Simone Athayde.

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103 32 Nome : Kwasiaruu, Kwasiarapat (desenho grande, braos grandes ). Cesto coletado por Georg G rnberg no Rio dos Peixes em 1966. Coleo do Museu das Culturas da cidade de Basilia, na Sua, continente Europa. Registro: Ivc 12001. Fotografia: Peter Horner, 2004, cedida pelo museu.

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104 33 Nome : Jarukang e Ipirien (variao) Cesto coletado p or Georg Grnberg no Rio dos Peixes em 1966. Coleo do Museu das Culturas da cidade de Basilia, na Sua, continente Europa. Registro: Ivc 12001. Fotografia: Peter Horner, 2004, cedida pelo museu. Parte de baixo do cesto.

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105 OS RECURSOS NATURAIS USADOS N A CESTARIA KAIABI Desenho: Wareajup Kaiabi Recursos naturais usados para fazer a peneira desenhada Araa : 1) Arum uruyp corpo da peneira 2) Cip yrupepoyta cabo 3) Algodo amyneju amarrao e ala 4) Jequitib tinta para pintar.

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106 TUIA RAR QUEM CUIDA DO ARUM Matari Kaiabi O uruyp nasce na cabeceira dos crregos, eu no sei se ele tem semente, mas ele brota na terra molhada, no Kofet e no Yataran. O Kaiabi no planta o arum, ele nativo da natureza, mas antigamente o deus Tuiarar era quem utilizava o uruyp e cuidava para fazer peneira. Atualmente, creio que ele ainda cuida e planta esse recurso natural que o arum. Ns no cuidamos do arum, talvez o dono que Tuiarar quem cuida dele. O uruyp tem dono. Quando o Tuiarar ut ilizava o arum, ele encontrou a dona, uma mulher. O Tuiarar transformou essa mulher em uma mulher humana para ser sua esposa. O nome dela uruywoog (lagarta) que mora dentro do arum. O arum se encontra no crrego, no Kofet, no Yataran. Depende do lu gar, tem aldeia que fica longe do ecossistema onde tem arum. Para chegar at o local tem que caar para encontrar, abrir picadinha na beira do crrego at achar. O que usado do recurso a fibra dele, que resistente para o produto. Se usa tambm a pa rte da carne dele. Usamos a peneira feita de arum para coar mingau, peneirar a massa de mandioca e o p do milho para fazer mingau. Guardamos tambm comida, objetos e algodo dentro. Atualmente o uso do arum (uruyp) mudou, se usa muito e antigamente no usava muito. Antigamente tambm no se vendiam os produtos de arum, mas quando o meu povo veio para Parque do Xingu comeou a venda.

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107 Na rea dos nossos ancestrais tinha muito esse recurso natural e aqui no PIX tinha pouco. Aqui nas regies do PIX o arum est cada vez mais difcil de achar. Alguns jovens tambm no utilizam muito o arum, porque no aprenderam a fazer o produto (peneira) tirado desse recurso natural. Dizem que alguns motivos para os mais novos no fazerem peneira so a falta do recurso na tural arum, e outro problema a falta de interesse dos jovens ou se envolveram mais em outras coisas. Nesse ano veio um estudioso de So Paulo para pesquisar o arum. Se a pesquisa nos trouxer um bom resultado, talvez futuramente ns vamos cuidar ou pla ntar esse recurso natural para que ele no se acabe. Desenho: Myauiup Kaiabi.

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108 URUYP ARUM Maure Kaiabi e Awatat Kaiabi Na sociedade Kaiabi usamos muito um recurso natural que chamamos uruyp um tipo de taquarinha que usamos p ara fazer peneira. As peneiras que fazemos servem para fazer farinha e mingau, para guardar objetos da casa, como fuso e algodo e para enfeitar a casa. Ns tambm fazemos peneiras para vender. So os homens que sabem fazer peneira. Aqui no Xingu no tem b astante, por isso os Kaiabi fazem pouca peneira, falta material. Na rea ancestral Kaiabi tem dois tipos de uruyp: uruywete e uruykuruk, mas aqui no Xingu s existe uruykuruk Para encontrar uruyp muito difcil, porque aqui no Xingu tem muito pouco. Ur uyp fica na beira dos crregos, em locais frescos, geralmente muito Desenho: Tangeakatu Kaiabi

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109 distantes das aldeias, por isso ns precisamos procurar muito at achar. A folha dela igual a folha de taquarinha, s que ela bem pequenininha. Quando ns encontramos uruyp cortamos as taquarinhas, depois amarramos com embira. Quando chegamos em casa rachamos com faquinha e colocamos no sol para secar. Depois de seca, tiramos as carnes delas e tranamos. Antes de comear a pessoa precisa pensar no desenho que vai fazer na peneira. Antes de terminar precisa ir novamente ao mato para tirar o cip, para amarrar e firmar a peneira. Para pintar a peneira usamos uma tinta que tiramos de uma rvore. A pessoa que for tirar uruyp deve tirar s a metade, para elas nascerem de novo. Se tirar vrias vezes, sem cuidado, o recurso fica fraco e morre. Devemos tirar s o que est maduro, deixando o verde para se renovar. Assim teremos para sempre esse recurso. Se queimarmos as taquarinhas, elas no vo crescer mais, correndo o perigo delas se tornarem um recurso no renovvel. Desenho: Yasariku Yudja

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110 TAQUARINHA Jemy Kaiabi Taquarinha um recurso natural para a sociedade Kaiabi, que o povo nunca deixou de usar. usada para fazer peneira, e chamada por ns de uruyp. Para fazer peneira tem que ir no mato em busca de uruyp, procurar na beira do crrego, dentro do mato. Uruyp gosta de lugar fresco. Ela no gosta muito de viver no mato bruto, elas ficam amontoadas, s num p. Para cortar taquarinha no pode cortar tudo seno morre tudo. Tem que de ixar pelo menos cinco ou dez ps para taquarinha se renovar. O povo Kaiabi, depois de tirar taquarinha, pode trazer na casa e depois rachar com faquinha e colocar no sol para secar. Depois de secar pode tirar as carnes delas quando acaba de terminar, pod e comear a fazer peneira, antes de comear pode pensar qual o tipo de desenho que voc vai desenhar na peneira. Assim que a peneira ficar quase pronta, a pessoa pode ir novamente no mato cortar cip e trazer para amarrar na peneira para firmar. Cip que trazido do mato a gente amarra junto com a peneira, firmando a beira da peneira. Depois que a peneira ficar pronta, a mulher usa para fazer mingau, coar suco de mel, etc.

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111 ANTES DO CONTATO COM OS NO NDIOS O URUYP ERA USADO NORMALMENTE Sirawan Kaiab i Uruyp nasce sozinho, tambm no tem ningum para criar, tambm no tem pessoa para cuidar de recurso uruyp. O recurso fica no pantanalzinho e na mata alta, ele fica na beira do crrego. Esse recurso sempre fica longe da aldeia porque meio difcil de encontrar. Tem muito lugar que uruyp gosta, mais sempre o lugar pobre de uruyp. Onde se encontra tem que sempre caminhar pelo caminho ou ir de canoa para chegar at o local. E sempre tem que frequentar o lugar para buscar andando. A parte do uruyp que us amos feito casquinha do caule, isso que pessoal faz para fazer peneira. Tambm precisa s cortar cerca de 20 cm, um pouco alto, assim no morrer. Se cortar no fundo do p do recurso, pode desaparecer o recurso natural. A casquinha do caule do uruyp pod e servir para tranar enfeite da borduna e do cocar. O caule tambm a pessoa aproveita para fazer peneira para coar farinha, coar fub de milho e para guardar algodo. Assim que usamos peneira, outras peneiras pessoa vende, tambm aquele que para vender pintado com jemoreyp. Antes de contato com no ndio o uruyp era usado normalmente. Porque existia muito recurso natural que o povo utilizava pouco, s para consumo. Algumas pessoas controlavam o recurso que ficava perto da aldeia dele. Mas depois do cont ato ningum quer pensar em controlar mais o recurso.

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112 Tem alguns lugares que pessoa no deixa uruyp crescer direito, cortar, cresce e corta. Ento isso perigoso. Isso acontece porque ele precisa utilizar para consumo dele. Existe o jeito de manejar este recurso natural para que ele no se acabe, seja extinto. Se ningum aprender a usar este recurso natural mais utilizado, ele poder morrer. Tambm se a pessoa corta de qualquer jeito sem pensar no futuro da natureza vai acabar. Por isso, que bom cortar d ireitinho uruyp para no morrer. Ele deve ser cortado sempre deixando um metro plantado no cho. identificada) e Jujywa (aa). Desenho: Jewyt Kaiabi.

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113 ATUALMENTE O PESSOAL FAZ PENEIRA MA IS PARA VENDER Tari Kaiabi, Jewyt Kaiabi, Sirawan Kaiabi, Wareajup Kaiabi Atualmente o arum nasce sozinho, deve ter dono s que a gente no conhece, todo recurso natural que existe na natureza tem seu dono ou esprito. Eles tambm cuidam dos recursos nat urais. O modo de cortar o arum mudou porque cortamos de qualquer jeito, antes no, cortvamos com faca, somente quebrvamos para tirar, o jeito de usar era assim. Mas, atualmente, a pessoa que tira corta com faca. Tambm o produto no era vendido. Produz ia somente para uso e enfeite da casa, presenteava o sogro quando casava com a filha de alguma pessoa. Agora no se faz mais isso, porque o uso no mais daquele jeito. A pessoa faz mais para vender. O arum fica mais no brejo, na mata alta, na beira do c rrego e tem pouco nas outras matas. Este recurso tem pouco, por isso que muitas pessoas procuram mas, difcil para eles produzirem. Porque este recurso fica longe, no fica perto da aldeia, mesmo assim a pessoa tem que ir buscar. Se em outro lugar, a pessoa vai de barco, o sofrimento muito para apanhar o recurso natural. A parte que a gente usa do arum tudo, as vezes a pessoa usa o caule para peneira de peneirar farinha, isso para no perder o recurso natural. Tem um jeito certo de tirar uruyp, t em que cortar direitinho, no cortar de qualquer jeito, porque assim ele pode morrer, por isso tem que ter a medida de cortar uruyp.

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114 QUAIS SO AS PARTES DO ARUM? Iw Kaiabi

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115 Existem trs tipos de uruyp: uruyp kuruk uruyp wete uruyp wuu Aqui no Xingu s existe um tipo de uruyp, que o uruyp kuruk. AS PARTES DO ARUM : Professor Tarupi explicando as partes do arum para os alunos na aldeia Kururu. nome geral para galho joelho, diviso principal de onde saem os galhos galho que nasce depois do joelho Ak j diviso do galho Iypy a perna da planta, que nasce antes de formar o joelho. o caule da planta antes de separar, porque no divide, no separa, sempre fica quando a planta cortada. Oop folha Ejujyau broto Ejui gema da folha Apo raiz

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116 Pequeno texto sobre (jequitib) T exto e desenhos: Myauiup Kaiabi Quando agente vai tirar tinta de jequitib, tem que levar uma panelinha de 5 litros para colocar tinta. Mas antigamente, dizem que os Kaiabi colocavam a tinta dentro de uma cabaa ou tatusi Esta tinta tiramos assim: Primeiro tem que l impar em volta e depois tem que ver onde vai comear a bater. A vai batendo com o machado de cima para baixo, vai batendo, batendo e vai saindo a fibra, quando chegar at o p tem que cortar. Depois do corte, tem que colocar a fibra no cho para espremer para tirar a tinta. Para tirar a tinta um pouco difcil, mas mesmo assim tem que enfrentar o servio. Essa rvore gosta de ficar no ecossistema que se chama yataran (lugar que inunda).

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117 Desenhos: Myauiup Kaiabi

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118 Texto e desenho: Jamanary Kaiabi ityamiau, erua yrupema pitupa ipyw. Au Tuiarar pe nitywi,

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119 AMYNEJU ALGODO Texto e desenho: Kaku Junior Kaiabi Nambikwara Amyneju um pr oduto da roa. Esse produto usado para amarrar o aro da peneira, fiado para fazer a rede, amarrar abanador, tipia etc. O ecossistema do amyneju e na terra preta, pois se ele for plantado na terra vermelha, ele pode nascer, crescer e dar o fruto, mais fi ca muito fraco. Esse produto era muito utilizado pelos nossos ancestrais na confeco de redes e outras coisas usadas pelos ndios Kaiabi. J agora o amyneju est sendo cada vez menos utilizado, alis, est desaparecendo, no est mais sendo usado como era antes. Mas mesmo assim ainda utilizado pelas mulheres e homens do povo Kaiabi.

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120 PEPEPOYTA CIP" Texto e desenho: Tamakari Kaiabi capoeira, nesses dois ecossistemas que ela vive, ela no plantada pelas pessoas, ela do mato mesmo. A densidade alta, porque ns no usamos no dia a dia, s quando precisamos que pegamos ele. O recurso usado para fazer o aro da peneira, ele no utilizado para fazer outras coisas.

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121 YWYJUPE TINTA PARA CUIA E PENEIRA Texto e desenho: Jawarete Kaiabi Ywyjupea ojemongy japopewa pype. Jane ipina japepo pype aw Tuiarar pe.

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122 PINOWA PALHA DE INAJ Texto e desenho: Tamakari Kaiabi aparu oga

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123 JU CABO DA FOLHA DE INAJ

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124 W YWA CANA BRAVA