Folha Feminista

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Title:
Folha Feminista
Physical Description:
Serial
Language:
Spanish
Creator:
Sempreviva Organizacao Feminista
Publication Date:

Subjects

Genre:
serial   ( sobekcm )

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
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Resource Identifier:
issn - 1516-8042
System ID:
AA00016329:00001


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folhafeminiqsta
Boletim da SOF na luta feminist maio 2000 no 12 ISSN 1516-8042


editorial



Esta Folha Feminista sai num
moment em que presenciamos
uma escalada de repressio por
parte do governor Fernando Hen-
rique Cardoso (FHC), que mostra
cada vez mais sua verdadeira face
autoritaria.
A insensibilidade dos tecnocra-
tas a servigo do capital financei-
ro que decretaram um salirio mi-
nimo de R$151, 00, se junta a
intolerancia com manifestag6es de
descontentamento e protest, cul-
minando no assassinate de um
agricultor no Parana.
A questao social voltou a set
tratada como caso de policia:
estudantes, indios, servidores pii-
blicos, sem-terra sao alvos de
bombas, balas de borracha etc.
como nos tempos da ditadura.
Para as mulheres, presenga de
destaque nas lutas por salario, edu-
cacao, terra e trabalho fica claro a
justeza de nossa campanha na Mar-
cha Mundial de Mulheres. Os cor-
tes do orgamento nas dreas socials,
para satisfazer os representantes do
capital financeiro, mostram clara-
mente o que isso tern a ver corn a
pobreza, a violencia e o cercea-
mento da possibilidade de future
de mulheres e homes, sejam cri-
angas, jovens e idosos.
N6s feministas, que lutamos
contra as desigualdades socials e
de genero devemos marcar nos-
so protest. Esse tamb6m 6 um
assunto de mulheres.

SOF


Passeata da 'larcha realizada em Jobo Pessoa (PB)


Um othar sobre o Encontro Feminista
por Nalu Faria


Os Encontros Nacionais Fe-
ministas, no Brasil e na America
Latina, durante os anos 80 signi-
ficaram o espaqo miximo de dis-
cussio e mesmo de experiencia
feminist. No Brasil, ate o inicio
dos anos 90, apareciam duas de
tens6es em relagio ao carter
organizativo desses encontros.
Uma tensAo era se os encon-
tros poderiam ou nao aprovar e
tomar decis6es. A outra era sobre
como organizer as discusses. Pre-
valecia a proposta de que o En-
contro nio deveria ter pauta prd-
via, e que os conteuidos eram or-
ganizados a partir das oficinas e
grupos de reflexao propostos
pelas pr6prias participants.
Mesmo com todas as diver-


gencias, diferentes analises, em
relagio a organizagdo e papel des-
ses encontros, havia uma avaliagao
comum de sua importincia como
o maior event feminist no pais.
Hoje estas tenses nao aparecem
mais. Atualmente, tampouco os En-
contros term mais o sentido de ser o
espago onde 6 possivel conhecer
as novidades e o modo criativo como
os grupos e as mulheres estio en-
frentando o machismo.
Agora, a maioria das discusses
se dA a partir de virias mesas,
com convidadas, especialistas, nas
quais o que mais se discute 6 so-
bre a necessidade de contemplar
a diversidade. Mas quais foram de
fato os debates? 0 que enfrenta-
mos? 0 que demonstramos?


SI.W .inua nW i ni 2









continuagdo da capa


Escultura exposta, e posteriormente sorteada, durante o 13o ENF

Prevalece a id6ia de que o fe-
minismo vai bem, obrigada! De um
lado, predomina uma fala triunfal
sobre o que conseguimos, o quanto
crescemos, o quantf o movimen-
to ficou mais complex. De outro
lado, nao falamos de nossas der-
rotas, dos retrocessos, da falta de
radicalidade. Quando falamos dos
problems, estes aparecem asso-
ciados, de forma abstrata, a pode-
rosa e inevitivel globalizagco.
No entanto, ainda paira sobre
n6s a expectativa de que it a um
Encontro Nacional Feminista que
nos fortalece, nos emociona, nos
mostra saidas, nos interpela...
No 13 ENF, em todas as ofi-
cinas e grupos havia uma ficha
de avaliacao, em que pergunta-
vam o que aquela atividade trou-
xe para a vida pessoal e profissi-
onal de cada uma. Assustei-me
com as duas dimens6es pergun-
tadas. E a militincia de a luta?
Como isto estava implicito? Na
vida pessoal? Na professional? Nas
duas? 0 que 6 vida professional?
A media que o Encontro pas-
sava nao percebia emogao ou


entusiasmo, ao contrario, em de-
terminados moments, havia tris-
teza. Claro que me perguntei se
isto estava se passando apenas
comigo, ou se eu estava proje-
tando nas outras pessoas.
E de fato, escutei uma mulher,
que estava participando pela primeira
vez, dizer que estava sendo muito
bom para ela. Nos seus comenttrios
percebi a emogco de estar num en-
contro entire mulheres, de enxergar
coisas que nao enxergava antes. Nao
sei se foi assim para todas que parti-
cipavam pela primeira vez. Mas isto
nao se configurou como algo do En-
contro, do coletivo.

Para onde foi a emo0o?
A pleniria final esvaziada, as
partidas antes do fim, creio que
sao alguns dos indicadores disso.
Nem mesmo a 6tima programa-
0ao cultural conseguiu potenci-
alizar o que seria o espago cole-
tivo comum do Encontro. Nemr
mesmos os shows com mulheres
artists, em especial a divina Lia
de Itamaraci, conseguiram juntar
todas. Fomos nos perdendo pelo


caminho, ou pelo avangar das
horas. Em nenhum destes momen-
tos estavamos todas juntas para
ver tanta beleza.
A radio foi a maior novidade do
Encontro. Com suas musicas lindis-
simas, noticias das atividades que
ocorriam e do movimento feminis-
ta no Brasil humanizavam um pou-
co o Hotel Tambau, um ambiente
meio estranho para muitas de n6s.
E af entao uma pergunta se co-
loca: pra onde foi a emogao dos
Encontros Feministas? Essa emogao
era fruto da esperanga de mudan-
ga, do engajamento para transfor-
mar prAticas, valores, posturas. Da
certeza que estavamos questionan-
do profundamente todas as relac6es
de dominaqao, para mudar o mun-
do e todas/os que nele habitam.
Mas nesses ultimos anos, em
nome da volta da democracia, do
crescimento do movimento, da
complexidade, da diversidade, da
crise econ6mica e social se pas-
sou de um movimento de pres-
sao para o consenso, e deste para
o conformismo.
E assim, no Encontro nio houve
indignacqo, nem confront de id6i-
as, nem propostas de novas estra-
tegias. Parece que estavamos ali,
burocraticamente. Ficou o clima de
que faltava algo. E faltou. Faltou
refletir nossos impasses hoje como
feministas em nossas prAticas coti-
dianas, nossas contradic6es e am-
bigiiidades. Faltou discutir uma res-
posta ao governor de Fernando
Henrique Cardoso, sua political
antidemocrAtica e subordinada ao
imperialismo. Faltou se indignar
pelo que aconteceu em Porto Se-
guro (BA). Faltou discutir a atuali-
dade do control sobre o corpo das
mulheres. E tantas outras coisas.


folhafeminista 2


I moB[!vfflenBH|H





*itic Pi a


Ter documents e um direito
par Emma Siliprandi*


Hi muitos anos o Movimento
de Mulheres Trabalhadoras Rurais
- MMTR, assim como outras
organizac6es sindicais de agricul-
tores como a Contag e a CUT vem
promovendo diversas campanhas
em vArios estados para regulari-
zagao da documentagao das mu-
lheres trabalhadoras rurais.
As mulheres agricultoras geral-
mente nao se reconhecem e nao
sao reconhecidas como trabalha-
doras rurais. Sao identificadas nas
atividades produtivas como "aju-
dantes" ou simplesmente dom6s-
ticas, "do lar", mesmo quando
participam das atividades da agri-
cultura familiar em pe de igual-
dade com os homes.
Algumas das conseqiiencias da
ausencia de documentagao sao o
dificil acesso aos beneficios da
Previdencia Social (aposentadoria,
salario maternidade etc.), a impos-
sibilidade de obter financiamentos
bancirios independents dos ma-
ridos, alem da situagqo vexat6ria
de serem consideradas "cidadas
de segunda categoria".
Atendendo a uma reivindicacqo
do movimento, o governor do Rio
Grande do Sul criou o Programa de
Documentafdo e Valorizafao da
Mulher Trabalhadora Rural langado
em setembro do ano passado. Esse
program tern o objetivo de pro-
porcionar as mulheres trabalhadoras
rurais o acesso a sua documentagao
bisica; desenvolver um process de
sensibilizagAo da sociedade civil e
dos 6rgaos responsiveis acerca da
importancia da mulher possuir seus
documents; criar uma dinamica de
parceria entire os 6rgaos responsai-
veis para constituir um process per-


manente; fortalecer a organizagao
das mulheres.
Com base na experiencia dos
Mutir6es pela Cidadania, realiza-
dos desde.1996, pelos Sindicatos
de Trabalhadores Rurais no Espf-
rito Santo, foi definida a seguinte
sistemartica de atuaqao no progra-
ma: escolha da regiao prioritiria
de agqo; apresentagio da proposta
As instituig6es do municipio (pre-
feitura, sindicato, associaq6es);
formaqio de um grupo de traba-
Iho que efetua um levantamento
acerca do nirmero de mulheres
trabalhadoras rurais no municipio
e o tipo de documentagAo que jA
possuem. Com base no levan-
tamento, a Secretaria de Seguran-
ga estipula a infra-estrutura e o
numero de funcionArios necessi-
rios para a confecqao de carteiras
de identidade; a empresa estadu-
al de processamento de dados
estipula a infra-estrutura necessaria
para cadastro do CPF; e assim por
diante; efetua-se uma negociagdo
com os diversos stores locals para
divisao dos custos das fotografias
e fotoc6pias, bem como do trans-
porte das mulheres das comuni-
dades rurais para o local do even-
to; realiza-se uma ampla divul-
gagco do event pela midia e jun-
to As organizag6es do municipio.
No dia marcado, as mulheres tra-
balhadoras rurais corn mais de 16
anos, e que ate entao ainda nao ti-
veram documents, podem fazer: a
Carteira de Identidade; o Cadastro
de Pessoa Fisica (CPF); a inscrigao
no INSS; a elaboraqao do Bloco da
Produtora e a Carteira de Trabalho.
0 MMTR tern sua preocupagao
centrada principalmente na confecqio


do bloco do produtor, mas na verda-
de, a maior demand das mulheres
ternm sido por Carteira de Identidade
e CPE Muitas mulheres ja ternm o seu
nome no bloco em conjunto com o
marido hi alguns anos, quando ain-
da nao eram exigidos os documen-
tos individuals para a confeccgo do
bloco. Hoje isso nao e mais possivel,
e assim a documentagao individual
ganha maior relevincia.

Resultados
Entre agosto e dezembro de
1999 foram realizados mutir6es
atingindo 20 municipios, onde
foram atendidas 5521 mulheres,
sendo feitos 7729 documents.
Estes sio os mutir6es realiza-
das diretamente sob o trabalho da
Coordenadoria Estadual da Mulher.
Mas pretende-se que estes muti-
r6es encorajem outros atores a
procederem da mesma forma, o
que vem sendo feito, por exem-
plo, pelas extensionistas da Ema-
ter (empresas de assistencia t6c-
nica e extensao rural) em reuni-
6es com diversas prefeituras. A
ideia e que as prefeituras inte-
ressadas utilize a experi&ncia
acumulada ate agora para reali-
zarem seus proprios mutiroes.
A experiencia tern mostrado
que as mulheres saem do event
encantadas com sua documenta-
gao, satisfeitas em sua nova con-
digao de cidadds legalmente re-
conhecidas e legalmente aptas a
executarem iniciativas proprias,
por exemplo, no acesso ao siste-
ma bancirio.

*Engenheira agr6noma, especialista em economic alimentar e
assessora da Coordenadoria Ticnica da Secretaria de Agricultura e
Abastecimento do estado do Rio Grande do Sul.


folhafeminista 3










A arte de fotografar a vida
por Maria L6cia Silveira


A exposigao reuine 360 foto-
grafias, resultado de quatro anos
de trabalho em mais de 40 pai-
ses, dispostas em cinco capitulos:
Refugiados do mundo; 0 drama
africano; Exodos rurais e urbani-
!zafao; Novas met#dpoles do pla-
neta; Crianfas de hoje: homes e
mulheres do novo siculo.
Visitando essa exposigio com-
preende-se bem a definigao de Se-
bastido Salgado como "um militant
da esp6cie humana". Ao fazer da
arte de fotografar um modo de vida,
a sua visao militant produz um
grande impact ao nos interpelar
para enfrentar o olhar do outro que,
apesar de destituido ou excluido,
express a riqueza das diferentes
formas de vida e cultures.
Sua arte de fotografar estA
especialmente voltada para resga-
tar a dignidade humana em meio
is conseqii&ncias atrozes da explo-
raqio, das guerras e injustigas soci-
ais neste mundo globalizado, pro-
vocando dentre outras coisas, os
grandes deslocamentos de popu-
lag6es inteiras, principalmente de
migrants e refugiados: os exodos.
As fotos que fez das criangas,
que em todos os lugares onde per-
correu o cercavam corn sua inqui-
etante curiosidade, sao particular-
mente tocantes. Salgado negociou
corn elas que trabalharia sem inter-
rupg6es em troca de que seriamrn
fotografadas como quisessem. 0
resultado compensou: as fotos ex-
pressam m6ltiplos olhares infants,
doces e trigicos ao mesmo tempo;
de uma tristeza inocente e de umrn
sofrimento que nio corrompeu o
desejo de future. Somente o regis-
tro desses rostos de criangas po-
bres, algumas sujas, outras feridas

folhafeminista 4


Campo de Polh6 para indios zapatistas
deslocados. Chiapas, Mlxico, 1998


de todas as parties, cultures e cren-
gas vale a visit a exposig~o.
Tamb6m as mulheres sao desta-
cadas nas fotos, ficando evidentes
os enormes sacrificios a que estao
submetidas para garantirem a so-
brevivEncia em situag6es limited.
Se uma exposigao de Sebastiao
Salgado chegar perto de voc6 faga
o possivel para v8-la e se nao pu-
der va-la nas cidades em que esti-
ver exposta, veja os livros resul-
tantes desse grandioso trabalho.
Outra alternative 6 visitar o site do
Sesc www. sescsp.com. br e conhe-
cer o Programa educational do Pro-
jeto Exodos.
0 olhar militant de Sebastiao
Salgado, em muitos moments,
capturou a esperanga em meio A
desolag~o e nos coloca corn deli-
cadeza diante da necessidade da
utopia e da solidariedade.

EXODOS: Exposifao de fotos de
Sebastido Salgado'
Exposiado simultanea em Sao Pau-
lo, Paris, Londres, Lisboa, Nova
York, Berlim, Hamburgo.
IIVROS DE FOTOS: Exodos; Retrato
de Crianfas dos Exodos; Migra-
foes, Cia. das Letras, 2000.


Icuttura


folhafeminista

n 12 maio de 2000 ISSN 1516-8042

CONSELHO EDITORIAL
Andrea Butto, Francisca Rocicleide
da Silva (Roci), Helena Bonumi,
Ivete Garcia, Marcia Camargo, Maria
Amelia de Almeida Teles (Ameli-
nha), Maria Ednalva Bezerra de Lima,
Maria Emilia Lisboa Pacheco, Maria
de Fitima da Costa, Maria Otilia
Bocchini, Martha de la Fuente, Mary
Garcia Castro, Matilde Ribeiro,
Raimunda Celestino de Macena e
Tatau Godinho

A folha feminist, ISSN 1516-8042, 6
um boletim da SOF na luta feminist.
Este ndmero tem apoio financeiro
da ICCO.

EQUIPE EDrroRIAL
Diretora Responsivel: Nalu Faria
Editora: Maria Luiza da Costa
Colaboraglo: Thais Brianezi
Projeto GrAfico: Alexandre Bessa
Diagramag(o: Mariingela Araujo
Fotolito: Forma 3
Impressio: RWC Artes Grificas
Tiragem: 1000 exemplares
NAmero avulso: R$ 1,00


s(f

SEMPREVIVA ORGANIZACAO FCMINISTA

Assinatura annual (10 numeros):
R$ 10,00
Assinatura de apoio: R$ 20,00

Rua Ministro Costa e Silva, 36,
Pinheiros 05417-080 -Sio Paulo SP
Tel/fax: (11) 870-3876
Correio eletr6nico: sof@sof.org.br
Pigina na internet:
http://www.sof.org.br



proximo numero


CLAUDIA LHANI escreve so-
bre mulher e imprensa sindical

MARIA LiciA Silveira faz uma
anilise feminista do Programa
de Sa6de da Familia




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