História das missões orientais do Uruguai

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Material Information

Title:
História das missões orientais do Uruguai
Series Title:
Publicações do Serviço do patrimônio histórico e artístico nacional
Uncontrolled:
Missões orientais do Uruguai
Physical Description:
v. : maps, facsims., fold. tables. ; 29cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pôrto, Aurélio, 1879-1945
Brazil -- Ministério da Educação e Saúde Pública
Publisher:
Imprensa nacional
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Missions -- Brazil   ( lcsh )
Jesuítas
Jesuítas -- missões
Jesuítas no Brasil
Missões -- Brasil
Período Colonial (1500-1822) -- Brasil
Sete Povos das Missões Orientais do Uruguai (Brazil)   ( lcsh )
History -- Rio Grande do Sul (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Bibliography:
"Bibliografia": v. 1, p. 613-621
General Note:
At head of title: Ministério da educação e saude. Serviço do patrimônio histórico e artístico nacional.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 01452703
lccn - a 44000713
ocm01452703
Classification:
lcc - F2621 .P677
ddc - 981
System ID:
AA00011461:00001


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Full Text

M INISTtRIO DA EDUCA<.AO E SAUDE


-I


PUBLICACOES DO


SERVI;O DO PATRIMONIO HIST6RICO
E ARTISTIC. NATIONAL

/ AURILIO PORTO
HISTORIC DAS MISSOES /
ORIENTAIS DO URUGUAI/


N. 9


RIO 1DE JANEIRO
1943










t I *~/




MINISTERIO DA EDUCACAO E SAUDE
'SERVIQO DO PATRIMONIO HISTORIC E ARTISTICO NATIONAL




AURELIO PORTO



HISTORIC

DAS

MISSOES ORIENTAIS

DO


URUGUAI


VOLUME I


IMPRENSA NATIONAL
RIO DE JANEIRO 1943



















Desta edtpaojoram tirado' 100 exemplares em papel especial
que vio numeradox e rubricador pelo autor





F




VI

LATW
AMERIOR


























A TERRA MISSIONEIRA


NA PESSOA DO MAIS ILUSTRE DE SEUS FILHOS

DR. GETULIO DORNELLES VARGAS

RESTAURADOR DO PATRIM6NIO ARTISTIC E
HIST6RICO DO BRASIL


HOMENA GEM


DO AUTOR






















Este trabalho, que inicialmente deveria obedecer as res-
tritas proporc6es de um modesto estudo sobre a "Arte na
civilizagdo jesuitica das Miss6es", em virtude de um convite
endereqado ao autor pelo director do Servigo do Patrim6nio
Hist6rico e Artistico Nacional, Dr. Rodrigo de Mello Franco
de Andrade, pelas injun6es do pr6prio assunto, excedeu os
limits que se Ihe tracaram. Sem um estudo previo da civili-
zagao jesuitica, que floresceu nas Miss6es Orientais do Uruguai
e sua conexao corn os lineamentos da fundacgo do Rio Grande
do Sul, dificil seria compreender, em suas linhas estruturais,
a arte jesuitica-colonial, cujos monumentos vetustos se reer-
guem, agora, na regiao missioneira, reconstituidos pelo Servigo
do Patrim6nio Hist6rico, por determinaqio do Senhor Getulio
Vargas, que assim integra ao patrim6nio artistic national
uma das mais belas pdginas da Hist6ria do Brasil.
Ao iniciar as pesquisas documentais sobre que assenta
este trabalho, que tern como principal fonte a preciosa Colegaio
de Angelis, mal vislumbrada pelos historiadores que versaram
sobre as Miss6es jesuiticas, compreendemos, desde logo, a
arduidade da tarefa que pesaria sobre os nossos ombros nesta
tentative de nos distanciarmos das obras clAssicas, que ate
hoje teem sido o veio quase finico de que se teem abeberado os
estudiosos desse ciclo de civilizaqdo aborigene do sul. No
prosseguimento dessas pesquisas em milhares de documents,
em sua maior parte originals e ineditos, que constituem essa
colecao da opulenta Secgfo de Manuscritos da Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro, revelag6es surpreendentes enche-
ram-nos de admiraqao e respeito por esses homes admiraveis
que foram os jesuitas e compreendemos a verdade que encerra
as palavras de Capistrano de Abreu, quando afirmava que eles
realizaram "uma obra sem exemplo na Hist6ria".





MINISTARIO DA EDUCA(AO E SAUDE


Nio nos tentava, porem, a pretensio de tragar os linea-
mentos dessa hist6ria, senao carrear os materials abundantes
que a pesquisa nos desvendava. Ai estavam as mat&rias primas
para construir o arcabouco definitive da etnografia indigena
do extremo sul, a penetracgo branca, a catequese jesuitica, a
expansao do bandeirismo paulista, lutas, horas construtoras de
paz, e as origens da economic e da civilizagio jesuiticas. Outros,
muitos outros aspects afloravam dessas fontes prodigiosas,
finicas pelo seu ineditismo, de que somos os detentores e que
mal vamos conhecendo agora.
Revestimo-nos de coragem, de paciencia e de tenacidade.
A arte missioneira, que queriamos estudar em seus principals
stores, nao poderia cifrar-se, unicamente, na apreciacao dos
monumentos que se adivinhavam nas ruinas vetustas das
Misses, nem nas estdtuas, ou na colecgo de peas dessa origem,
recolhidas aos nossos museus. Faltar-lhe-ia alguma coisa.
E essa seria a pr6pria alma que vitalizara esses mudos atesta-
dos de um mundo diferente em que palpitara a vida em estos
admiraveis de fe, em vibrac6es inspiradoras e fortes. Atraves
da mudez secular desses escombros, que reviviam agora, adivi-
nhava-se o jesuita, tocado pela divina intuiaio da sua fe
imensa, a transmitir as chusmas incultas de pobres indios um
pouco de si mesmo, com a piedade infinita que se Ihe extra-
vasava da alma.
Nao pretendemos fazer hist6ria e simplesmente nesta
serie de monografias sobre vArios assuntos que se entrosam,
enquanto nAo se divulgam mais amplos horizonteg A pesquisa
das nossas coisas, oferecer elements ao future historiador.
A este, sobre as proporg6es de um just criterio, cabera langar
as bases definitivas da hist6ria da civilizagao jesuitica das
Misses.
Para fazer os seus templos, imensas catedrais que langam
para os c6us americanos as suas torres altas, numa afirmagao
admiravel de fe, a frente das chusmas de indios que mal com-
preendiam as finalidades espirituais desses monumentos, os
padres percorriam distancias imensas, sob a canicula dos s6is
abrasadores e as inclemencias das intemp&ries, para trazer
aos ombros uma pouca de terra, um madeiro pesado, uma
pedra de singular valor que ficasse nos alicerces do temple,
como exemplo de sua contribuigio A obra que se erigia. E', no


VIII





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


moment, o que cabe ainda a n6s, pesquisadores do passado,
no carreamento desse material corn que outros, operdrios
insignes e mestres consumados, levantarao os templos indes-
trutiveis da nossa hist6ria.
Sentir-nos-emos felizes se esta contribuicio de largos e
afanosos trabalhos de pesquisa puder de qualquer modo ser
util aos construtores dessa obra.
Divide-se este trabalho em dois volumes:
1.o, o Ciclo da Civilizacgo Jesuitica das Miss6es;
2.0, a Arte na Civilizaqio Jesuitica das Miss6es.
Como salientamos, tem como fundo principal a Colegdo
de Angelis, magnifico e quase inedito reposit6rio documental
de hist6ria sul-americana, existente na Biblioteca Nacional.
Ampliam outros assuntos, alem de elements documentais da
pr6pria Biblioteca e do Arquivo Nacional, fontes bibliograficas
citadas no texto.


Rio, 1941-1942.


A. P.








HISTORIC DAS MISSOES ORIENTAIS DO URUGUAI


VOLUME I




0 CICLO


DA
CIVILIZAQAO


JESUITICA


DAS
MISSES








0 CICLO DA CIVILIZACAO JESUITICA DAS MISSES


INTRODUQAO


A COMPANHIA DE


JESUS

























A COMPANHIA DE JESUS


1. Fundagio da Companhia de Jesus. 2. Os Jesuitas
no Brasil. 3. Provincia do Paraguai. 4. A catequese.
5. Civilizagao jesuitica-colonial.

1. Fundacgo da Companhia de Jesus

Quando, para maior gl6ria de Deus, Ignacio de Loyola escreveu os
seus Exercicios Espirituais, ji nao mais ecoava pela terra a doce voz do
pobrezinho de Assis, a Caridade Perfeita. A F6 periclitava entire os es-
combros da Idade Media. E a Igreja de Cristo, o monument mais s6-
lido de todos os tempos, sentia em seus alicerces o choque tempestuoso
das correntes solapadoras de falsos preceitos cristAos. Corn Sao Fran-
cisco extinguia-se a pratica do bem, a caridade, a pobreza, virtudes ele-
mentares corn que Cristo cimentara a sua Igreja, na terra. A ambicao dos
bens terrenos, o egoismo que dividia os homes, a inveja que corrompia
as concidncias, as perseguig6es e as injustigas iam-se infiltrando no or-
ganismo religioso da epoca. 0 missionario de Cristo alijara do coracgo
o sentiment da fraternidade. E a Igreja, que procurava se aproximar
de Deus pelo exercicio da oragao, se afastava dos homes pela pratica
da iniquidade.
Corn a Inquisicgo, pelo terror, implantam-se o 6dio, a mentira, a
delagdo, o suplicio. Em nome da F6 despenham-se cachoeiras de sangue
inocente, enodoando a Cruz de Cristo. E a violencia, com o surto de
todos os seus horrores, invade a conciencia religiosa do tempo. Ao prin-
cipio condenam-se hereges ao fogo purificador, aos martirios, cujo refi-
namento atinge inimaginadas culminancias. Mais tarde, a perseguiqao
se estende a maometanos e judeus. E comeqam essas hecatombes que
a Hist6ria regista corn seus requintes de crueldade e de injustiga. E o
home, o filho de um Deus misericordioso e just, inquire, corn olhos
espavoridos, os escombros de sua pr6pria f6, vendo tenuamente dela se
levantar a luz de uma esperanca que lhe acena corn a Caridade que de-
sertou do coracgo human.
A Reforma, que surge corn Lutero, solapa ainda mais os cimentos
da Igreja. Sente-se que ela oscila em suas multisseculares raizes, como





MINISTiRIO DA EDUCAAO E SAUDE


ao sopro de um vendaval desenfreado. S6 nao cai, porque 6 eterna e a
alimenta ainda o bafejo do espirito do Senhor.
E, para salvar o seu prestigio, integra-la aos principios da verdadeira
caridade, retornar A pureza da Fe, obnublada no espirito human e rea-
lizar a pritica de todas as suas virtudes, surge Ignacio de Loyola, arvo-
rando a cruz redentora, sob cuja guard congrega os companheiros in-
signes.
Soldado e fidalgo temperou a rija infibratura de seu espirito no
exercicio das guerras, no heroismo das refregas sangrentas, nas resis-
tbncias da pr6pria bravura. Em luta contra os franceses, que invadem a
Navarra, onde, em Pamplona, era capitdo da guarnicgo military, recolhe-
se a uma fortaleza e ai resisted corn denodada energia. Ferido, transpor-
ta-se ao -castelo de Loyola, nas Vascongadas, onde nascera, e ali se sub-
mete a duas intervenV6es dificeis para evitar ficasse claudicando de uma
perna.
Ja na convalescenqa, para deleitar o espirito, pede lhe deem algum
livro de Cavalaria. Mas, trazem, por falta destes, uma Vida de Cristo
e um Florildgio de Santos. Foram estes livros a ponte spiritual que se
lhe estendeu para um 'ideal mais perfeito, porque eterno. E, desde entao,
se p6s incondicionalmente ao servigo de Deus, o Rei dos Reis, relegando
o dos principles da terra.
"Apenas se ergueu do leito, Ignacio p6s-se a caminho. Visitou as
ermidas de Nossa Senhora. Piassou por Montesserrate e deteve-se em
Manresa, na Catalunha, um ano. Pedindo esmola, dormindo onde a ca-
ridade dos outros lho consentia, ia de vez em quando orar a um lugar
retirado, especie de gruta na escarpa de uma ligeira encosta. Jejuns,
orac;o, reflexdo, assistencia divina. Neste seu retiro de Manresa teve a
primeira id6ia dos Exercicios Espirituais e aqui redigiu o primeiro esboco
desta sua grande arma de combat. De Manresa seguiu para Barcelona;
de Barcelona para a Palestina (1523). Nao podendo ficar em Jerusalem
(1524), voltou, resolvido a pregar os Exercicios Espirituais atrav6s do
mundo. Verificando que lhe faltavam letras e teologia, p6e-se, home
decidido, depois dos 30 anos, a aprender latim nos bancos da escola.
Dirige-se depois para as Universidades de Alcali e Salamanca. Come-
gando a dar os Exercicios, sem estudos, atrai sobre si a atenqgo dos in-
quisidores, naquelas duas cidades. R preso. Em Alcala teve os grilh6es
aos pes durante 42 dias; em Salamanca durante 22. 0 process, que lhe
formaram, declarou-o, e certo, isento de erro, na vida e doutrina; toda-
via, persistindo as peias que Ihe tolhiam a pregagdo, resolve acabar os
estudos em Paris (1528). Ainda o molestou ,ali a Inquisigio. Mas, den-
tro em breve, impondo-se pela sua pessoa e pela sua doutrina, a Inqui-
sigao permitiu a atividade apost61lica de Ignacio, sobretudo o dos Exer-
cicios Espirituais. Respirou. Em Paris estudou primeiro no Col1gio de
Montaigu e, em outubro de 1529, passou para o de Santa Barbara, de
que era director o celebre pedagogo portugues Diogo de Gouveia. Igna-
cio de Loyola recebeu o grau de mestre em Artes em 1534. E dando-se
ainda A Teologia, concluiu, enfim, a sua carreira de estudos (1).

(1) Serafim Leite S. J. Histo6ria da Companhia de Jesus no Brasil.
I vol., 3.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Os Exercicios Espirituais d2o "corpo e alma" a Companhia. Sua
miss2o e restaurar no coraqco human a fe perdida. E levar por todos os
recantos do mundo, com bondade e corn amor fraternal, a palavra de
Cristo, os seus ensinamentos, os esplendores de sua divma Caridade, a
conquista das almas perdidas no desconhecimento da verdade eterna.
Atraves a propagagdo desses principios novamente Deus desceria ate
os homes, envolvendo-os na paz de sua gl6ria infinite.
Em sintese, os Exercicios Espirituais, essencia das Constituiq6es
que dio molde a Companhia de Jesus, sao um pequeno livro que "as-
senta em dois principios: um, como fundamento, na razio esclarecida
pela f6, a criaqao do home e o fim para que foi criado; outro, fundado
na fe, a Incarnago do Filho de Deus, cuja imitacio deve ser a maior
ambicio humana. Sup6e-se o pecado e, portanto, a reacqo contra o pra-
zer. A mortificaqdo e a grande liqio de Jesus. E ela, dada por amor dos
homes, pede ao home a correspondencia da imitaq~o e do amor. Cristo
apresenta-se como rei a conquista do mundo sobrenatural e convida to-
dos os homes de boa vontade a participar desta conquista. Os Exerci-
cios acomodam-se a todos os generous de pessoas, mas para os que se-
guem ou escolhem a perfeicAo relig'iosa, Santo Ignacio da-lhes dela um
conceito novo. Ate entao a vida religiosa considerava-se como afasta-
mento do mundo. Santo Ignacio integra a sua Ordem no mundo e faz
dela uma campanha ativa: coro, jejuns, capitulo, habito pr6prio. A abne-
ga~io interior e a forga da Companhia de Jesus. Fundada nos Exerci-
cios, a sua espiritualidcade reveste carter magnifico de unidade, precisdo
largueza de vistas, flexibilidade e seguranga. A espiritualidade da Com-
panhia estA na base de quase todos os Institutos Religiosos, fundados
depois dela (1).
Em torno de Ignacio de Loyola reune-se uma pleiade de homes
notaveis. Sao Pedro Fabro, Sao Francisco Xavier, Diogo Laines, Afon-
so Salmeron, Simro Rodrigues e Nicolau Bobadilha. Para realizar os
objetivos a que se propunham resolve a 15 de agosto de 153,4 orga-
nizar a sua vida spiritual. E, em Paris, na capela de Nossa Senhora,
ereta na colina de Montmatre, em honra de Sao Dinis, fazem os seus
votos solenes de castidade, de pobreza, "de ir em peregrinaqio a Jeru-
salem e ocupar a vida e forqas na salvacgo do pr6ximo, administrator
dos sacramentos da confissao e comunhdo, pregaqAo e celebracqo da mis-
sa, tudo sem estipendio".
Depois de uma serie de viagens pela Espanha, Veneza e Roma,
onde sao vitimas de perseguic6es, Santo Ignacio e seus discipulos con-
certam a fundacqo da Companhia de Jesus, aprovada pela bula Regimini
Militantis Ecclesiae de 27 de setembro de 1540. No ano seguinte era
Santo Ignacio eleito Geral da Ordem.
Perfeita a organizagno do Instituto religioso que iria encher s&-
culos de obras edificantes na dilata4ao da fe e purificag~o dos pr6prios
costumes clericais. Assentava sobre a obediencia, a pobreza, a castidade.
E dentro desse triangulo basico da virtude sacerdotal, apurava-se a per-
feiqio, "primeiro cuidado do verdadeiro jesuita, que include o de viver na

(1) Serafim Leite. Hist. cit. I, 15.


101.306


P. 2





MINISTiRIO DA EDUCAgAO E SAUDE


uniao de uns para corn os outros, com espirito de generosidade para com
Deus, numa perfeita e total abnega;io de si mesmo. Para este alto ideal
disp6e de meios de santificaqdo adequados, alem dos especificamente re-
ligiosos, que sao os votos: a oraqgo, a meditaqao, os sacramentos, a mor-
tifica;ido dos sentidos e penitEncias discretas".
"Santo Ignacio, corn a sua clarividencia meticulosa, nao deixa nada
ao acaso. 0 cuidado da saude; as relacoes corn as pessoas da familiar e
de fora; a abertura de conciencia corn os superiores: tudo se regular na
vida, externa e internal, dum filho da Companhia que, sendo field, dili-
gente e generoso, fica apto para realizar o duplo fim da sua vocacao:
.santificar-se a si pr6prio e santificar os outros (1).
Organizada a Companhia iniciam-se os seus trabalhos apost61licos.
Francisco Xavier segue para o Oriente a predicar o Evangelho, reco-
Ihendo ao redil de Cristo, sob a bandeira de Portugal, rebanhos inume-
raveis de almas. Elevado aos altares torna-se o padroeiro universal das
misses, Simao Rodrigues funda a Provincia de Portugal, que vai dar
origem a catequese entire os brasis. Outros seguem para regi6es distan-
tes, abrasados pela mesma f&, movidos pela mesma virtude, orientados
pelos rumos da fraternidade humana, sofrendo horrores, padecendo fo-
mes, mas firmes e fortes, quer na consagragio do Senhor nas selvas
inh6spitas, nos descampados safaros, quer nos martirios gloriosos em que
exalaam a gl6ria de Ueus.

2 Os jesuitas no Brasil

Coube ao padre-mestre Sim2io Rodrigues que, como Sio Francisco
Xavier, se destinava a India, ser o fundador da Assistencia Jesuitica de
Portugal, uma das seis em qud se dividia a Companhia. Compreendia
essa Assistencia, "alem da Metr6pole, a Provincia da India, que se des-
dobrou depois em duas Goa e Malabar -, o Japdo, a vice-Provincia
da China, a Provincia do Brasil e a vice-Provincia do Maranhio".
Campo imenso para a colheita de frutos opimos, abria-se o Brasil
para os trabalhos- da Companhia. Quis o padre Simao, em pessoa, ser
o desbravador do caminho. E havia resolvido partir para esse destino,
em meados de janeiro de 1549, corn 10 ou 12 companheiros, o que nao
chegou a realizar pela dificuldade momentAnea de sua substituiqco no
provincialato de Portugal. A Manuel da Nobrega fora reservada a gl6-
ria de ser o Ap6stolo do Brasil.
Em 29 de margo de 1549, em companhia do governador-geral Tho-
me de Souza, Nobrega e mais cinco companhe'ros aportam a Baia. Eram
estes os padres Leonardo Nunes, Antonio Pires, Jogo de Aspilcueta
Navarro e os irmdos Vicente Rodrigues e Diogo Jacome, nomes que se
tornaram ilustres pelos trabalhos e pelas virtudes.
Ia-se abrir para o Brasil essa pagina de sua Hist6ria que 6, em
sintese, toda a sua pr6pria hist6ria. Toda a vida da col6nia, as raizes de
sua economic; os principios de sua cultural moral, spiritual, educacio-
nal; a catequese dos indios e a moralizaiAo dos costumes dos colonos; as

(1) S. Leite. Obra cit. I, 14.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


forcas de coesto e unidade da rata e da lingua dai decorrem e se es-
pandem. 0 Jesuita, honra Ihe seja, pela sua tenacidade e feitio moral,
pela sua fe inabalavel, pela sua abnegagao e bravura, como soldado de
Cristo, realizou no Brasil a obra mais notavel que alicerca seus funda-
mentos hist6ricos.
Comeqou na Baia, corn a chegada de Nobrega, a aqgo desses pio-
neiros insignes. 0 que foram os primeiros tempos de lutas, de sacrificios,
de renfincias e de gl6ria nao nos compete dizer. A obra dos Jesuitas, no
Brasil, ja tern o seu historiador. 0 padre Serafim Leite S. J., em sua mo-
numental Hist6ria, dentro de um crit&rio just, descortina seus longin-
quos horizontes.
Da Baia espande-se o trabalho apost61lico dos companheiros de
Jesus. Ja sao mais em nfimero, mas os mesmos em virtudes, os inclitos
soldados da Fe. Entre eles ja se conta Jose de Anchieta, b Ap6stolo
perfeito. Fundam-se os colgios de Sao Vicente, Espirito Santo, Rio de
Janeiro, Pernambuco e outros. E por toda a parte a mesma assistencia, o
mesmo amor pelos oprimidos e pelos humildes, o mesmo combat aos
prejuizos e aos vicios, a mesma abnega;ao construtora e exemplificadora.
Corn a fundacio de Sao Vicente, ruma para o sul a atividade apos-
t6lica dos jesuitas. Dilatam-se os trabalhos da catequese por terras ainda
inexploradas, onde farta serial a messe de almas do gentio. A frente da
missio, que ira integrar a Col6nia imensa extensao territorial completa-
mente desconhecida, estio Nobrega e Anchieta. 0 Colegio de Sao Vi-
cente fora fundado por Leonardo Nunes em principios de 1550 e atin-
gira notavel prestigio. Em 1554 transfere-se para Sao Paulo de Pirati-
ninga, povoaqio que exerceria predominante influencia na expansgo da
col6nia para o centro e para o sul.
Em Sao Vicente ingressa na Companhia o irmao Pero Correa. A
quem acompanha o padre Leonardo Nunes na fundacao de Piratininga.
Era, entao, ali, o finico jesuita que pregava na lingua dos indios, conhe-
cendo-a a maravilha. Falaya horas a fio, pela madrugada, como os pages.
E a sua palavra quente e persuasive acudiam as chusmas de silvicolas e
abriam-se amplas estradas ao trabalho da catequese. Era Pero Correa
um element de exceiAo. Muito mogo aportara ao Brasil, indo conviver
estreitamente corn o gentio. Preador de indios, que vendia como escra-
vos, devassara quase todos os sert6es, ate o extreme sul. Palmilhara as
terras mais distantes, subindo levas de cativos que apresava cruelmente.
Antes de Villegaignon estivera na baia de Guanabara. Preso pelos in-
dios e destinado a morte, usou de um estratagema, fazendo-se passar
por filho de uma india e de um home branco. E a india se convenceu
de que isto era real e obstou a que o matassem.
Quando os jesuitas chegaram a Sao Vicente, Pero Correa era um
dos potentados da aldeia. Terras, gados e escravos constituiam-lhe bens
apreciaveis. Tocou-lhe o coraqio a pobreza dos jesuitas, a sua carida-
de imensa, o seu amor pelo gentio. Processou-se em seu espirito uma
sfibita transformaqAo. E o preador cruel, o senhor de terras e gados,
numa renfincia de todos os bens da vida, doando aos meninos do Colk-
gio tudo quanto possuia, foi tambem ser o ap6stolo dos indios e, coracao
inundado pela f6 e pelo amor, morreu, protomartir da catequese, em
terras do extreme sul, para corn seu sangue abrir fontes inexauriveis de





MINISTtRIO DA EDUCAgAO E SAUDE


piedade crista. Precursor dos insignes mArtires e pioneiros da civilizagco
jesuitica nas terras em que floresceram as Miss6es, o irmao Pero Correa
e o simbolo dessa civilizacao em sua etapa inicial.
Ja entio a influencia decisive da Companhia de Jesus se estendia
por quase todos os recantos da vasta col6nia portuguesa. E corn ela ado-
gavam-se os costumes, difundia-se a instrugo, moralizava-se o clero des-
prestigiado, que nio soubera se impor por essas virtudes que era o mais
belo apanagio da Companhia. De norte ao sul, expondo a vida, derra-
mando bens, cuidando da vida material e spiritual dos indios, diligente,
probo, o jesuita tornava-se o fator preponderante na superstrutura or-
ganica da Col6nia. Ia conquistar a terra imensa, uni-la pela lingua, pelos
costumes e pela religigo, preparando-a para o Brasil do future.

3 Provincia do Paraguai

A fundagio da Provincia Jesuitica do Paraguai decorre, natural-
mente, da expansgo dos trabalhos da Companhia no Brasil. Muito in-
fluiu para a missao apost61lica que se pretendeu levar a essa longinqua
terra, considerada entao dentro das raias portuguesas, as primeiras no-
ticias dali trazidas por expedic6es que, pelo sertao, chegavam a Sao Vi-
cente. Antonio Rodrigues, soldado portugues, que depois ingressou na
Companhia, tendo, corn D. Pedro de Mendoza, sido um dos fundadores
de Buenos Aires (1536) e, mais tarde, companheiro de Juan de Salazar
na fundagco de Assuncao do Paraguai (1537), foi um dos primeiros que
informaram aos padres de Sao Vicente sobre "as tribus e costumes dos
indios e a catequese de um sacerdote virtuoso, chamado Gabriel, na ci-
dade de Assuncgo e, como este, desgostado do proceder dos espanh6is,
se retirou da cidade, indo numa nova entrada pelo Paraguai acima".
Antonio Rodrigues falou corn o padre Nobrega "que fosse ou enviasse
li um da Companhia, porque ali perto ha outros gentios, que nao come
care humana, gente mais piedosa e preparada para receber a nossa san-
ta fe, por terem grande estima e credito dos cristAos" (1).
Mais tarde o capitAo Rui Diaz Melgarejo e o aventureiro alemdo
Ulrico Schmidel completam essas noticias. Um filho de Melgarejo, Ro-
drigo, em 1573, ingressa na Companhia. E "Rui Diaz de Melgarejo,
observa o padre Serafim Leite (2), tendo um filho jesuita no Brasil, nao
seria estranho As negociaq6es e pedidos que depois se multiplicaram, no
Paraguai, para a ida dos padres".
Ja o padre Leonardo Nunes, em 1551, pretendia por em pratica essa
ideia. Levaria consigo alguns linguas, entire os quais o irmio Pero Cor-
rea. Nobrega, no ano seguinte, refere-se a essa missao. E, em pessoa,
resolve executA-la. Mas, o governador-geral Thomrn de Souza, que, a
principio, aprovara o cometimento, ponderando melhor no assunto, e
vendo os inconvenientes que resultariam do afastamento de Nobrega e
o desfalque de elements de escol que enfraqueceria a aqao jesuitica no

(1) Serafim Leite. Carta de Antonio Rodrigues. Anais da Biblioteca Nacional
- Rio. XLIX. Hist. da Comp. I, 335.
(2) Serafim Leite. Hist. cit. I, 335.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGU4I


litoral, op6s-se, depois, tenazmente, a ida da mission ao Paraguai. Mas,
Nobrega nao desiste do intent, adiando, para melhor epoca, a sua exe-
cugqo. Devia tender as necessidades espirituais daquela dilatada- Pro-
vincia, porque tanto para ele como para Thom6 de Souza, como ate
para Anchieta, o Paraguai era parte integrante da mesma expresso geo-
grafica, o Brasil (1).
Nao obstante acontecimentos que desaconselham a partida para o
Paraguai, surge, para Nobrega, o moment que Ihe parece oportuno fi-
xa-la. Os irmios Pero Correa e Joao de Souza que, em missao aos ca-
rij6s, abririam o caminho a Joao de Salazar, foram martirizados por es-
tes, quando entravam em terras dos ibirajaras (1554). Com a grande
expediqgo de Joao de Salazar, em que iam os irmaos Gois, que introdu-
ziram o pn"meiro gado vacum no Paraguai, Nobrega poderia seguir em
condig6es de seguranga. Mas, em maio de 1555, quando se aprestava a
expedicqo, chega o padre Luiz da Gra, s6 por quem Nobrega esperava.
E Luiz da Gra, contra a expectativa do Ap6stolo, desaprova a providencia.
Submete-se o jesuita a determinaqco do companheiro. Adia novamente,
renovando outras tentativas que nio surtem efeito em face de proibig6es
taxativas de Roma. E como era necessaria a sua presenga no Brasil, ha-
via-se mesmo resolvido a ida, ao Paraguai, do padre Gra, que parece
ter ate iniciado a viag-m.
Mas. a missao ao Paraguai estava reservada a padres da Provin-
cia do Brasil. Em 1583, reunidas as duas coroas peninsulares, foi suge-
rido que, aproveitando as armas espanholas, se mandassem padres ao
"Rio da Prata, Paraguai e aos Patos, e a outras parties que se contem no
ininterrupto litoral brasileiro". No ano seguinte aprovava o padre geral
Claudio Aquaviva essa sugestdo. Em 1585, o bispo de Tucuma, D.
Francisco Victoria, tambem portuguEs, intercede junto ao governador da
Baia e provincial do Brasil para a ida ao Paraguai de uma missao da
Companhia.
Depois de seis meses na Baia, tempo em que se construiu um na-
vio, voltam os emissArios do bispo, levando em sua companhia, cornm des-
tino a Buenos Aires, os padres Leonardo Arminio, superior, Manuel
Ortega, Joio Saloni, Tomaz Fields e Estevio da Gra.
Ate o Rio da Prata a viagem correu normalmente, mas, ai, foram os
navios apresados pelo corsario ingles Roberto Withrington, que os sa-
queou, maltratando e prendendo os padres. Sofreram estes verdadeiros
horrores, sendo o padre Ortega atirado A agua. Depois de vArias peri-
p6cias conseguiram entrar no porto de Buenos Aires, em janeiro de 1587.
Ao chegarem a C6rdoba de Tucuma, ali encontraram j& dois padres
da Companhia, procedentes do Peril. Decepcionados por terem de re-
partir tdo gloriosos trabalhos em seara que Ihes parecia competir, comu-
nicaram ao Brasil as impresses recebidas e nao tardou a ordem do ge-
ral ao provincial do Brasil para que se recolhessem a sua sede. Voltou
o padre Leonardo Arminio e logo depois faleceu o padre Joao Saloni.
Os outros tries ficaram, seduzidos pela terra e pela gente, depois da res-
pectiva licenga. Nao haviam iniciado ainda a sua missio quando o visi-
tador do Peril ordena que se retirem do Paraguai. Ortega & levado preso

(1) Idem, idem, I, 338.





MINISTtRIO DA EDUCAAO E SAUIE


para Lima, e Fields, doente, fica ali provisoriamente. Ha falta de gente
para a catequese que urge e aquele visitador, o padre Paes, pensa en-
tregar a miss2o, definitivamente, a Provincia do Brasil. "Fields, diz o
padre Serafim Leite, interpretando a opiniAo corrente, dirigiu-se ao ge-
ral, de Assuncao, a 27 de janeiro de 1601, insistindo por aquela entrega,
alegando a facilidade de comunicac6es corn o Brasil, contraposta as di-
ficeis e demoradas corn o Perut" (1).
Esse alvitre, porem, nao foi aceito. A dilatacgo dos trabalhos da
Companhia, no Brasil, que ja estendera suas misses para o norte, nao
aconselhava maior dispersao de esforcos. Em 1604, por ordem do geral,
terminara-se a criacgo de uma provincia independent do Paraguai, o
que se levou a efeito em 1607.
"A missao, porem, ja tinha sido fundada desde 1588, e essa e a gl6-
ria dos tres padres vindos do Brasil, Ortega, Saloni e Fields, que foram
os primeiros a regar corn os seus suores apost6licos aquelas hist6ricas
paragens. Ficaram algum tempo esses padres, depois de chegar em San-
tiago del Estero, corn o padre Barsana. Tendo, porem, adoecido este pa-
dre e nio sabendo eles a lingua de Tucuma, trasladaram-se todos os
tres ao Paraguai, com a anuencia do padre Angulo, superior daquela
missao. Os padres Saloni, Fields e Ortega foram recebidos festivamente
pelo governador e gente principal na cidade de Assunqco, no dia 11
de agosto de 1588, verdadeira data initial da missao do Paraguai.
"A diversidade de nac6es de seus fundadores, um portugues, um
cataldo e um irlandes, C a imagem previa da universalidade que havia de
ter mais tarde essa cd1ebre Provincia" (2).

4 A Catequese

Estabelecida ,a missio e tendo o padre Saloni ficado na capital, como
superior, seguiram os outros dois para Guaira, onde iniciaram traba-
1hos de catequese do gentio.
0 padre Barzana, que se reuniu ao padre Saloni, em Assuncao, em
carta datada de 8 de setembro de 1594, relata esse auspicioso inicio: "Em
Santa F6 esteve o padre Arminio onde fez grande fruto corn os espanh6;s
antes de regressar ao Brasil e, em Vila Rica do Espirito Santo, traba-
lharam, mais de dois anos, dois da Companhia, tanto corn indios como
com espanh6is, acudindo tambem A Guaira, que se achava sem sacer-
dote, e aos espanh6is que tinham fundado nova povoaco, havia coisa de
dois anos nos Niguaras. Os tres padres, que vieram do Brasil, sabem
muito bem o guarani, pouco diferente do tupi; e o padre Manuel de Or-
tega tomou a peito na Guaira o estudo da lingua ibirajara, nacgo nu-
merosa e valente" (3).
Falecendo o padre Saloni, em 1599, recaiu todo o pesu da missao
sobre os ombros dos padres Fields e Ortega. 0 primeiro trabalhou prin-
cipalmente corn os espanh6is, mas ao segundo, verdadeiro fundador da

(1) Serafim Leite Hist. da Comp. I, 349.
(2) Idem, idem, I, 350.
(3) Serafim Leite. Hist. cit. I, 351.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


catequese, no Paraguai, coube a gl6ria de recrutar milhares de almas.
para o gremio da Cruz.
Era o padre Tomaz Fields natural de Irlanda, tendo nascido em
1549. Depois de estudos que realizou em Paris, Douai e em Lovaina, foi
a Roma, onde ingressou na Companhia, em 6 de outubro de 1574. Indo
a Portugal, embarcou em Lisboa, em 1578, para o Brasil. Percorreu os
sertbes brasileiros e estava em Sao Paulo de Piratininga em 1584. No
Paraguai prestou relevantes servigos a catequese do gentio e "alem dos
ministerios comuns a todos, coube-lhe a gl6ria de ser o trago de uniAo
entire a missAo fundada pelos padres do Brasil e a provincia do Para-
guai, ereta em 1607".
8, porem, o padre Ortega, um dos grandes da America, no dizer
do padre Serafim Leite, o iniciador da catequese entire os ibirajaras, cuja
grande naqgo (guananas) se estende de Guaira ate o Rio Grande do
Sul. E, mais tarde, nas tribus dessa procedEncia, iremos encontrar; quase
desfigurada pelo tempo, a tradigAo dos trabalhos do grande ap6stolo que
se reflete nas ideias religiosas que esses silvicolas conservam.
"Manuel Ortega nasceu em Portugal, na diocese de Lamego, em
1561. Diz Lozano que o bispo de Lamego era irmAo de sua mae, senho-
ra nobre e insigne benfeitora da Companhia. Entrou na Companhia de
Jesus, no Rio de Janeiro, a 8 de setembro de 1580. Indo muito novo para
o Brasil, aprendeu com facilidade a lingua indigena, que Ihe serviu a
maravilha no Brasil e no Paraguai. Entre as suas inimeras excurs6es
apost61licas correu graves perigos. Enquanto esteve em Tucumr com o
padre Barzana faltou-lhe de comer e chegaram a estar "cinco dias na-
turais continues sem provar bocado". Disseram-lhes que, dai a oito dias
de caminho, havia espanh6is que os poderiam socorrer. E o padre Bar-
zana ordenou ao padre Ortega que fosse la. Fez a viagem corn um in-
dio em boas cavalgaduras, gastando apenas 11 dias. S6 pur milagre nao
caiu nas mios dos indios. Ele mesmo conta o caso, pormenorizadamente,
em carta sua que Lozano. diz transcrever "a la letra". Certo dia, em 1597,
para acudir aos indios numa grande enchente do rio, na regito de San-
tiago de Jerez (no atual Mato Grosso), picou-se numa perna. Quando
Ihe arrancaram o espinho, no dia seguinte, era tarde e ficou a sofrer dis-
so o resto da vida. Visitou tres vezes aquela cidade. 0 campo principal
de seu apostolado foram, no entanto, as cidades de Ciudad Real e Vila
Rica no Guaira. Nesta iltima acusaram-no de violar o segredo sacra-
mental. Levado para Lima esteve preso, stupente tota Peruvia, em ri-
goroso circere, suspense dos ministerios sacerdotais, as ordens da In-
quisigio, durante cinco meses. Consentiu depois o Santo Oficio que fi-
casse preso no Col&gio de Sao Paulo, em Lima. Felizmente o delator e
caluniador, arrependido, confessou, antes de morrer, a falsidade da
acusacgo. E, para mais eficacia, chamou um notirio ptiblico de Vila Rica
que reduziu a auto as suas declarag6es. Quando estes documents juri-
dicos chegaram a Lima, onde residia o penitenciado, o padre Manuel de
Ortega foi conduzido ao Tribunal da Inquisigdo e declarado livre. Ao
voltar, num carro corn o padre Cabredo, reitor do Colegio, o povo, que
soube logo a novidade, aclamou corn efusiva alegria pelas ruas da ca-
pital do Peri a inocencia do padre Ortega".





MINISTiRIO DA EDUCAgAO E SAUDE


"Em 1607, foi escolhido para a missao de Tarija, onde prestou gran-
des servigos aos cheriguanas. Faleceu no dia 21 de outubro de 1622,
no Col6gio de Chuquisaca. Tinha 61 anos de idade e 42 de Companhia,
passados mais de 35 nas missess.
"Manuel de Ortega, sofrido e obediente, cativo dos pirates, con-
fessor da f&, ap6stolo dos ibirajaras, converted milhares de almas e per-
correu imensos territ6rios, entAo inexplorados, que se repartem hoje pe-
las repiblicas do Brasil, Argentina, Paraguai (Uruguai?), Bolivia e
Perfi. E um dos grandes da America: adeo ut inter Americae Heroes iure
merito computaretur" (1).
0 Paraguai se abria num vasto campo de batalha para os insignes
soldados da F6. A missio do Brasil viera desvendar o caminho da con-
quista spiritual, que ndo tardaria em acrescentar aos trabalhos da Com-
panhia gloriosas oportunidades de integrar A civilizagio cristi multid6es
de almas redimidas pela fe. Mas, para isso, mister seriam moments de
sofrimento inenarravel, fomes e dores e muito sangue vertido nos pade-
cimentos do martirio que coroaria de santidade a front serena desses
grandes ap6stolos de Cristo.
Chegara ao conhecimento do padre geral Claudio Aquaviva a nu-
ticia dos frutos que a missao ia colhendo em sua catequese pela dilatada
provincia do Paraguai. Necessario se fazia desmembrA-la da do Peru,
dando-lhe autonomia pr6pria para que melhor se desenvolvesse. E, nesse
sentido, em data de 9 de fevereiro de 1604, em carta dirigida ao padre
Diego de Torres, determine se faga de Tucuma e do Paraguai uma pro-
vincia independent e, para dirigi-la, elege o padre Torres, cujas nobres
qualidades e virtudes eram assas conhecidas. Traslada-se este para Lima,
mas, ali chegando, encontra-se a bragos corn o conflito originado pela
denfincia levada ao Santo Oficio contra o padre Ortega, acusado, calu-
niosamente, de ter revelado o sigilo sacerdotal. E isto levou-o a sobres-
tar a execuqao das ordens que recebera do padre geral para a fundagao
da nova provincia. Desaprovando a dilaqco, renovou este a determi-
naqgo anterior, mandando que o padre Diego de Torres seguisse, sem
demora, para o Paraguai, afim de p6r em pratica a ordem recebida.
Levando uma escolhida pleiade de companheiros, cujos nomes fica-
rao perpetuados por trabalhos de relevAncia, na nova provincia, o padre
Diego de Torres segu'u para C6rdova, onde fundou o noviciado da Com-
panhia, passando logo depois a Santiago do Chile, para celebrar a pri-
meira Congregagio Provincial, que teve lugar a 12 de marco de 1607.
Em companhia do provincial iam os irmdos noviqos Pedro Romero e
Antonio Ruiz de Montoya, cujos nomes sao padres eternos na civili-
zacao jesuitica das Miss6es do Uruguai.
Dando noticia dos primeiros passes que se intentavam para inau-
gurar aquela obra, o padre Torres escrevia, em 22 de marco de 1608, de
Santiago de Chile, ao padre geral, nos seguintes terms: "Encontrei nas
duas governag6es de Tucuma e Paraguai somente oito dos nossos; cinco
em Tucumi, a saber: o padre Jodo Romero, superior, padre Joao de Viana,


(1) Serafim Leite. Obra cit. I, 357.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


padre Joao Dario, padre Horicio Moreli e irmdo Eugenio de Baltodono,
e tres em Assuncao, que assim se chama a cidade metr6pole daquela go-
vernacgo: padre Marcial de Lorenzana, superior, padre Tomaz Fields e
padre Joao Cataldino ...
Os tres padres, que estao em Assungio, teem trabalhado sem sair
dali, a pe firme, por ser uma cidade de muitos indios e espanh6is que nos
amam e estimam muito" (1).
Neste ano recebe Assungeio mais tres dedicados obreiros que se des-
tinam ao aprendizado da lingua guarani e entire os quais se encontra o
padre Simao Maceta, que deveria antes terminar os votos do bienio em
C6rdova.
Recomendac6es especiais de S. M. sugerem a necessidade de or-
denar em sacerdotes os filhos da terra para que acudam as doutrinas que
se forem estabelecendo entire o gentio.
Em fins de 1609 estende o padre Diego de Torres o ambito dos
trabalhos de catequese, sendo fundadas as redug6es iniciais de Guaira.
Vao para ali os padres Jose Cataldino e Simao Maceta, a que se vao
juntar, em seguida, outros ilustres desbravadores daquela vasta seara de
Cristo, trabalhada ji, nove anos consecutivos, pelos padres Tomaz Fields
e Manuel Ortega, da missao do Brasil. Outras regi6es recebem tambem
os beneficios da evangelizaqao. A missao do Parana, que e fundada pe-
los padres Marcial de Lorenzana e Francisco de San Martin, apresenta
progresses dignos de nota, depois de uma resistencia tenaz dos indios.
Diz o padre Torres que essa mission "- uma plant de muita estimag~o,
onde padeceram esses dois obreiros muitos trabalhos para ganhar, tra-
zer e persuadir corn raz6es a esta naqao (guaicuri), que e mui barbara
c feroz, e que somente deixou de comer care humana por persuassao
dos nossos". A perseveranca dos padres, a sua piedade para corn esses
infelizes, iam-nos reduzindo aos poucos. Ja haviam sido doutrinados 200,
principalmente criancas, por cujo conduto se ganhavam os adults. Mais
tarde conquistam certos caciques de prestigio, o que aumenta os resulta-
dos da missao. Os padres sao ameacados, infimeras vezes, pelos infieis.
Os catectimenos preparam-se para a guerra, mas o temor impede que os
inimigos os assaltem. Em 1611, escrevia ao provincial o padre Loren-
zana: "Estao chegando a minha reducio, cada dia, novos caciques corn
sua gente. Outros 10 virAo corn sua chusma dentro de 10 dias e um de-
les 6 Tabacambi, capitao-general do Parana, e todo Parana esta movi-
do para vir dentro de dois ou tres meses, espero cornm o favor de Deus ter
em minha reducao mais de 1.000 indios, que serao 6.000 almas e
mais" (2).
Designado reitor do Colegio de Assuncgo, o padre Lorenzana deixa
a miss5o e 6 substituido pelo padre Roque Gonzalez de Santa Cruz, ten-
do como companheiro o padre Pedro Romero, mais tarde fundadores
das reduces do Uruguai e martires da fe as maos dos indios, em terras
do Rio Grande do Sul e Paraguai. E informa o padre Diego de Torres,
dando noticia da substituiqao: "Escreve-me o padre Roque Gonza-

(1) R. P. Pablo Pastells. Historia d: 1/ Compaiiia de Jesus, I, 131.
(2) Pastells. Obra cit. I. 166.





MINISTrRIO DA EDUCA(;O E SAUDE


lez... que ha de ser esta reducao de grande proveito e muito povoada
por aqueles indios; porque esta na passage para todo o Parana, e o
que & mais, 6 que dali se pode fazer miss2o para a provincia do Uru-
guai, onde ha muito tempo se hi desejado entrar para acudir a mais de
50.000 indios" (1). 0 padre Roque ji tem assim os olhos e o coracgo
voltados para a terra missioneira, onde receberd a palma do martirio e
far& de seu sangue a sementeira da fe.
E assim vai se estendendo, numa irradiagao continue, para todos os
lados, a obra da catequese jesuitica, levada a efeito por esses admiraveis
precursores. Guaira, Parana, Uruguai e Tape recebem, pouco a pouco,
corn a cruz que plantam em todos os seus mais rec6nditos rinc6es, a luz
da religiAo, os fundamentos da civilizacgo crista. Muitos tombardo na
jornada, exhaustos pelo trabalho, acabados pelos padecimentos, mina-
dos pelas enfermidades, ou martirizados pelos indios. Mas, cada ap6stolo
que cai, para nao mais se levantar, e um simbolo da gl6ria que os reveste
de um halo de benemerencia eterna. So6 a Companhia de Jesus, corn as
suas leis de obediencia, corn o recrutamento de verdadeiros predestina-
dos, corn a fe imensa de seus pros'litos, corn a ren7incia absolute de
tudo pelo bem de todos, corn a caridade inegualavel que enche o cora-
cao de seus s6cios, poderia real;'zar essa obra gigantesca, bafejada pela
vontade do Senhor.

5 Civilizaco jesuitica-colonial

A civilizagao jesuitica-colonial, que floresceu nas Miss6es Orien-
tais do Uruguai, divide-se em duas fases perfeitamente distintas, en-
tre as quais ha um interregno de capital importancia para a hist6ria
econ6mica do sul do Brasil.
A primeira fase em que se inicia a catequese do gentio e de curta
duragio, pois compreende somente 10 anos (1627-1637), que decorrem
entire o estabelecimento das primeiras redug6es e expulsao dos jesuitas
pelas bandeiras paulistas. Ate o retorno dos jesuitas e fundagAo do pri-
meiro dos Sete Povos, em territ6rio riograndense, transcorrem 45 anos
(1637-1682), e 6 nesse entretempo que os primeiros rebanhos de gado,
ai langados pelos padres, se desenvolvem assombrosamente, constituindo
o fundo nuclear da opulenta riqueza econ6mica, razao de ser do future
povoamento do Rio Grande do Sul, entreposto que se fixa entire a Co-
16nia do Sacramento e Laguna. A segunda fase, caracteristica da mais
alta civilizag2o jesuitica-colonial, em que se firmam elements artisticos
que perduram at( em nossos tempos, nas ruinas grandiosas dos templos
e nas peas escult6ricas que enriquecem nosso patrim6nio cultural hist6-
rico, ocupa 85 anos que medeam entire 1682 e 1767, data da expulsao dos
jesuitas.
Cpmega, entio, o declinio da civilizacgo jesuitica das Miss6es.
As administrag6es leigas, a falta de discipline que os padres sabiam im-
por, o relaxamento dos costumes cristdos e a dissiminagco dos vicios
corrompem o carter das populag6es missioneiras. Em 1801 tern lugar


(1) Idem, idem.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


a Conquista das Miss6es levada a efeito por Jos6 Borges do Canto e um
reduzido grupo de riograndenses. Encorporada ao domino portugues, a
Provincia de Miss6es, que se torna teatro de lutas, & depredada por um
ou outro dos contendores que nela se entrechocam. Suas riquezas ma-
ravilhosas, em alfaias dos templos, prataria incontavel e estatuas magni-
ficas, foram dispersas em saques consecutivos. Brasileiros e orientals, a
porfia, em dezenas de carretas, transportaram para toda parte o riquis-
simo esp61lio das Miss6es. E, dentro em breve, relegados ao descaso,
ruiam os templos majestosos, sob as intemperies, e os pr6prios moradores
dos Povos os iam sistematicamente destruindo para aproveitar seu ma-
terial em construg6es particulares.
Gongalves Chaves, em suas Mem6rias publicadas em 1822, apre-
ciando o fim melanc61lico da civilizagio missioneira, nos diz que "nossos
governadores portugueses em Miss6es (ao menos alguns deles), segui-
ram as regras dos padres nao deixar os brancos comunicar corn os
indios e isto talvez para melhor se apropriarem dos produtos do tra-
balho daqueles miseraveis, mas nio atinaram corn a economic, que no go-
verno dos ditos padres fazia prosperar aqueles Povos e por isto se pode
dizer que aproveitamos dos padres o mau e desprezamos o bom.
Concluimos, pois, dizendo que todos os Povos estio em ruinas, in-
clusive os suntuosissimos templos e colkgios magnificos, dos quais ja
muitos deles estao por terra e a populacgo quase extinta". Urgia, para
atalhar a complete destruigqo dos Povos, emancipar essas populag6es
e consentir o comercio dos brancos, como teem feito alguns comandantes.
Criar localidades sob administrag6es que regulem a economic e o go-
verno dos pr6prios habitantes, "deixando cada indio trabalhar por si e
gozar da protecgo das leis, a que teem direito como o mais povo do
Brasil" (1).
Quando o Brasil proclama a sua emancipacao political, em 1822,
ja quase nada existe dessa civilizacao que floresceu nas Miss6es. Su-
gestivo 6 o confront entire a populagao existente por ocasido da con-
quista dos Sete Povos em 1801 e a de 1822, representada a primeira
por 14.010 e a segunda por 2.350 indios, em toda a regiao missioneira.
Com os templos que se esboroavam, com o patrim6nio artistic e
cultural que se dispersava e consumia, corn o eco longinquo das ladai-
nhas litfirgicas que nao mais soavam nas igrejas e nas pobres casas dos
indios, extinguia-se a civilizacgo jesuitica, simbolo admiravel da her6ica
tenacidade desses operdrios formidaveis que plasma-Kam no barro bruto
das populag6es selvagens geracqes de artists e realizadores inconfun-
diveis.






(1) Hum portugues (Antonio Jose Gonqalves Chaves Mem6rias Economo-
politicas sobre a administragao ptiblica do Brasil. Rio de Janeiro na Tipografia Nacional
- 1822. Reeditadas pela Rev. I. H. G. do Rio Grande do Sul. 1922 Ano II 2. e
3.o trim. Porto Alegre.




















I PART




REDUG ES JESUITICAS


























CAPITULO I


PRIMITIVOS HABITANTES DO RIO GRANDE DO SUL

1 Unidade racial de um povo primitive. 2 Ensaio
de classificagio aborigene. 3 Grupo guaicura do sul.
4 Grupo tape. 5 Grupo guaianas. 6 0 indio das
Redug6es.

1 Unidade racial de um povo primitive.

Temos como provavel, consoante documentacio etnol6gica e lin-
guistica que nos depararam demoradas pesquisas, serem os silvicolas que
povoaram o continent sul ate o Rio da Prata, antes da invasdo tupi-
guaranitica, em tempos prehist6ricos, originarios de um tronco comum
(1). Estabelecida a grande corrente migrat6ria corn que se derramaram
para sul e oeste, estes povos foram subjugando outros, legitimos aut6cto-
nes, quiqa contemporaneos do homem das cavernas", ou das ostreiras
litorAneas do sul, assinalados por Lund nos dep6sitos fosseis da Lagoa
Santa e por various etn6logos que estudaram esses curiosos remanescen-
tes de uma rata primitivissima.
Constata F. Ameghino que "a America esteve povoada por uma
raga dolicocefala, cujos representantes atuais parecem ser os esquimaus,
os botucudos e quiga tambem os indigenas da Terra do Fogo. Essa raga
foi, pouco a pouco, expulsa por outra braquicefala, cuja origem ainda
ignoramos, mas que suplantou quase completamente a raga primitive"
(2). E Carlos von Koseritz, estudioso de vArios aspects da prehist6ria
do sul para investigar sobre a idade dos sambaquis, que supoe atingir a
7.000 anos, verificou que entire as conchas nele encontradas hi algu-
mas especies que ha muito desapareceram do Atlantico e que os cranios
de extraordinaria grossura, desenvolvimento normal dos queixos e pro-
nunciado prognatismo indicam antiguidade remota. E conclue que os
ossos que se encontram nos sambaquis e nas igagabas mais antigas pro-

(1) Aurelio Porto. Prehist6ria do R. G. do Sul Terra Farroupilha I, 8.
(2) F. Ameghino La anteguedad del hombre en el Plata, 93.





MINISTERIO DA EDUCACXO E SAUDE


vam que o home primitive desta parte da America nao excedia A esta-
tura median, que tinha cabega pequena, mais comprida do que redonda,
cranio de imensa grossura, queixos fortemente desenvolvidos corn regu-
lar inclinagao para o prognatismo, "mais ou menos os mesmos tragos ca-
racteristicos que Lund achou no home da Lagoa Santa, por ele quali-
ficado como oriundo da 6poca terciaria" (1).
Confirma essas conclus6es o estudo que, em cranios provenientes
dos sambaquis de Santa Catarina e Parana, fez o Dr. J. B. de Lacer-
da, que diz:
"Nas duas primeiras series (cranios referidos) o tipo destaca-se
por estes caracteres salientes dolicocefalia ocipital exagerada com
depressAo consideravel da front, grande desenvolvimento facial corn
esbatimento de toda regiao infra-orbitiria e notavel projeqgo lateral dos
pomos. O.conjunto desses caracteres imprime ao semblante do individuo
um aspect bestial e revela instintos ferozes de animalidade.
A um cranio assim conformado deverA corresponder um cerebro de
l6bulos anteriores rudimentares compensado pelo desenvolvimento rela-
tivamente exagerado dos 16bulos parieto-ocipitais.
Por outro lado, as asperezas e os relevos 6sseos que serve de pon-
to de insergio aos mfisculos da face e da nuca indicam qual a potEncia
muscular de que dispunham esses individuos. ,Tudo, pois, leva a admitir
que esse tipo, cujos restos foram exumados dos sambaquis de Parana
e Santa Catarina ocupava um nivel muito baixo na escala humana; e que
ele pode ser equiparado aos povos mais selvagens que hoje conhece-
mos" (2).
Nesse tipo racial, cuja primitividade e incontestavel, encontraremos
possivelmente o "homo-americanus" ou, mais propriamente, o aut6ctone
do sul. E o mesmo que iremos achar ainda, em seu pr6prio habitat, ja
um tanto modificado em seus habitos de ferocidade pelo contact corn
outra rata de caracteristicas superiores. E o que faz supor a existencia
do grupo racial, completamente deslocado entire duas correntes invaso-
ras em choque, que os primeiros brancos vAo encontrar, ao norte, na re-
giao lacustre do Rio Grande do Sul e. mais tarde. na Serra do Nordeste.
a cavaleiro do litoral atlAntico.
t o Ges, "grupo de povos etnograficamente muito singulares que,
de carter sobremodo arcaico, mais que todos os outros dessa regiao,
merecem ser considerados aut6ctones" (3). Distinguem-se "pelo carter
fonktico das linguas, o costume de batoques ou rolhas de folha no libio
inferior ou nos 16bulos auriculares, pela falta de redes de dormir, a igno-
rancia da olaria, assim como certas peculiaridades nas armas, segundo
a designagao de Martius. Estiveram geograficamente derramados por
toda a metade oriental do planalto brasileiro desde seu declive ao nor-
te, marcado pelas uiltimas cabeceiras do Xingii, e do Tocantins, at& cer-

(1) C. von Koseritz. Subsidios etnograficos, 47.
(2) Anais do Museu Nacional, IV..
(3) Dr. Paulo Erhenreich A etnogralia da. America do Sul. Rev. Inst.
S.. Paulo. XI, 296.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


ca de 300 sul; para o poente at6 o alto Xingdi, nao alcangaram, em com-
pensagdo, o vale do Amazonas" (1)
Dominando esse grupo e impondo, quiga, a alguns de seus ramos
novas condic6es de vida, constata-se a passage de uma onda invasora,
vinda, provavelmente, do norte, que deixa vestigios em monumentos li-
ticos encontrados no sul. Que migrago foi esta? Em que idade milenar
realizou a sua penetracio? Nada sabemos. P de supor que a grande
nagco tape proceda dos remanescentes dessa onda invasora, que ali es-
tacionasse, seduzida pela terra apta para a agriculture que dominava,
enquanto outras avangadas fortes do mesmo povo, em sua march para
oeste, se dirigisse ate esbarrar nas altas muralhas dos Andes.
Encontram-se no municipio de Montenegro e em outros pontos do
Rio Grande do Sul, em lajes de gr6s durissimo, ferruginoso, algumas
series de escavag6es de diferentes digmetros e profundidades, dispos-
tas simetricamente, que se comunicam entire si por canaletes superficiais
ou furos internos. Sao as celebres "piedras de tacitas", ou crisis, des-
tinadas a um culto totemico de uma velha rata ainda nio identificada,
mas que devera ter-se expandido por toda Am&rica do Sul, onde se en-
contram os tragos de sua passage. Essas pedras de crisis, que ser-
viam nas comemoraq6es totemicas para guardar o sangue das vitimas
imoladas e onde se molhavam as armas para que tivessem maior eficien-
cia na guerra e na caqa, sao encontradas em quase todos os paises da
America meridional, do Atlantico ao Pacifico (2). As perfuraqBes si-
milares, que existem na Serra de Baturite, Ceard, registadas pelo Dr. C.
Studart Filho, sao inegavelmente pedras de crisis.
Confirmando, ainda, a unidade de uma rava desconhecida, que dei-
xou grupos representatives no Rio Grande do Sul, e cuja passage deve
ser anterior 2 invasao guaranitica, constata-se, entire os nossos achados
arqueol6gicos, a existEncia de estatuetas e outros petrefatos simboli-
zando o "phalus", bemrn como formidavel quantidade de cachimbos de
barro, de formas bizarras, recolhidos ao Museu do Estado.
Referindo-se ao uso dos cachimbos, de que 6 notavel a coleqgo exis-
tente no Museu Julio de Castilhos, o Dr. H. von Ihering diz que os po-
vos sub-andinos, da Argentina, exerceram influencia sobre o Brasil me-
ridional e, particularmente, sobre o Rio Grande do Sul, por esse uso que
era comum entire os indigenas prehist6ricos do Estado, pois que os tu-
pis fumavam charuto, ao passo que os calchaquis (diaguitas) usavam
cachimbo" (3).
Em seu magnifico estudo sobre Tembetas e outros petrefatos de
inequivoca forma filica, conclue o Dr. R. Simch que "a variedade de
objetos encontrados no Rio Grande do Sul leva a crer na existencia de
um povo desaparecido do Brasil, anteriormente ao aparecimento dos
tupis-guaranis" (4)

(1) Idem, idem, 297.
(2) Aurelio Porto Prehist6ria cit.
(3) Dr. Hermann v. Ihering. A etnografia do Brasil Meridional Rev. Inst.
S. Paulo. Vol. XI, 236.
(4) Dr. F. R. Simch Tembetas. Rev. Inst. Hist. R. Grande do Sul, 1924-40.


101.306


F. 3





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0 grande americanista Max Uhle, que estuda as civilizac6es ata-
camenhas, nos mostra que as "pedras de tacitas" eram quiga "caracte-
ristico para os atacamenhos" e conclue: "piedras y pefias de tacitas, o
morteros en pefias, se encuentran, por una grande parte, en regions
donde notoriamente en tiempo antiguo habitaron diaguitas y atacame-
iios" (1). Sao procedentes, diz, da epoca epigonal das antigas civili-
zag6es.
Estamos, pois, em face de vestigios de uma grande corrente mi-
grat6ria do Ceara ao Rio Grande do Sul, da Argentina ao Chile, Boli-
via, Peru, Equador e Col6mbia, onde se constata a distribuigco geogra-
fica desse monument litico uniform.
Que povo foi esse e qual sua trajet6ria ndo 6 possivel dize-lo. Dele
ficaram tambem indeleveis traqos linguisticos que foram mais tarde opu-
lentar de novas formas verbais o guarani do sul, lingua que dominou
mais tarde o sul do Continente, quando da invasgo desse ramo tupi. Em
outro estudo fica esbogada a hip6tese dessa influencia (2).
Em epoca ainda remota uma nova migracgo penetra o territ6rio sul-
riograndense impondo, aos elements que all encontra, lingua, usos e cos-
tumes. R o guarani que se despeja do norte e vai at( o Prata, em cujas
ilhas e encontrado pelos primeiros exploradores brancos. Uma grande
onda deste povo, em sua march para oeste, cruza o Chaco e vai-se cho-
car corn a civilizagao incaica. Sgo mais tarde os denominados cherigua-
nas, pertencentes A familiar linguistica tupi-guarani e descendentes das
tribus guaranis emigradas aos contrafortes andinos e de tribus changes,
de lingua arawak, indios que os cheriguanas escravizavam. R interes-
sante register a existencia no Rio Grande do Sul de uma grande tribu
denominada arachanes, que tinha seu habitat nas proximidades da lagoa
dos Patos e que, ainda, nas linguas das' civilizag6es diaguitas, o 6timo
ara se poderia traduzir por lagoa, o que nos daria para designago desse
povo changes da lagoa. "Os changes sAo de origem arawak, outro ramo
dos tupis guaranis, e emigraram para as' proximidades dos contrafortes
andinos em uma 6poca desconhecida" (3).
Diz o provecto historiador Enrique de Gandia que "os guaranis que
se estabeleceram nos contrafortes andinos emigraram do Brasil e do
Paraguai em uma data anterior ao ano de 1471 em que, aproximada-
mente, comegou a reinar o inca Tupac Yupanqui: o primeiro monarca
alto-peruano do qual temos noticia que combateu contra eles".
A hist6ria conserve a lembranqa das seguintes migrag6es guaranis
aos contrafortes andinos:
1, uma primeira migrag5o anterior ao ano de 1471;
II, uma segunda migrago realizada entire os anos 1513-1518;
III, uma terceira migracao realizada entire os anos 1513-1518 e
1521-1526;
IV, uma quarta migracio capitaneada por um naufrago de Solis
chamado Aleixo Garcia, realizada entire os anos 1521-1526;

(1) Dr. Max Uhle. Fundamentos atnicos de Arica Equador, 1922.
(2) Aurelio Porto. Car6. Journal do Comercio, Rio, 22-VII-1934.
(3) Enrique de Gandia Historia de Santa Cruz de la Sierra Buenos
Aires, 1935-49.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


V, uma quinta migraqio de 3.000 indios guaranis que seguiram a
expedic2o de Domingos de Irala, realizada no ano 1548;
VI, uma sexta migrag~o que seguiu a Nufrio de Chaves em sua
viagem do ano 1558;
VII, uma setima migracao de 3.000 indios itatines que formaram
parte da segunda expedicgo de Nufrio de Chaves do ano 1564 (1).
i, quica, a primeira dessas migrag6es, ou outras nao conhecidas
ainda, de origem guarani ou, mais propriamente, tupi, que imp6e ao tape,
pelo cruzamento e pela lingua, a sua civilizacao e os seus costumes, em-
bora pareqa nao ter deixado tipos puros no territ6rio riograndense. Nao
obstante releva notar que os jesuitas espanh6is distinguiam dos tapes
os indios das regi6es que mediavam entire o Alto Uruguai e o Ibicui,
como diremos adiante, dando aos ultimos o designativo de guaranis.
Mas, o idioma guarani, no sul, que parece ter recebido o influxo de uma
outra lingua falada pelos povos primitivos que ai viviam, se distancia
grandemente do tupi do norte.

2 Ensaio de classificagio aborigene.

0 territ6rio compreendido por todo o curso do Uruguai, "desde que
se pobl6 la ciudad de la Assunci6n" (1537), ja era conhecido, pois, "se
tubo noticia de las prouincias del uruguay porque los antiguos la fue-
ron atrabesando desde uiaza (Ibiaga) y nunca la pudieron conquistar
auendo quedado noticia entire los suzerores el gouernador hernando arias
de saauedra hizo entrada a ella" (2).
Em carta ao Rei, datada de 12 de maio de 1609, dizia Hernanda-
rias de Saavedra sobre esse territ6rio que fora o primeiro governador
do Prata a percorrer, que, "da ilha de Castilhos, ao Rio Grande, que
chamam Rio de Sao Pedro que esta em 320 e meio havera 35 leguas,
indo pela costa ao norte desse rio at& o de D. Rodrigo, havera 50 l6guas,
do de D. Rodrigo a Ilha de Santa Catarina que chamam os Patos pro-
vincia de Viaqa havera 30 leguas ate a ponta da Ilha da banda do
sul" (3).
Pelos vicentistas tambem a terra ja era conhecida desde os primei-
ros tempos do estabelecimento daquela povoacdo. Em caravel6es de
costa entravam pela barra do Rio Grande (Rio de Sao Pedro) e iam
resgatar corn os tapuias. Gabriel Soares em seu precioso Roteiro do
Brasil, escrito em 1587, assinala o fato "Esta costa, desde o Rio dos
Patos (Santa Catarina) ate a boca do Rio da Prata e povoada de ta-
puias, gente domestica e bern acondicionada, que nao come came hu-
mana, nem faz mal a gente branca que os comunica, como sao os mo-
radores da capitania de S2o Vicente, que vdo em caravel6es resgatar
pela costa corn este gentio alguns escravos, cera da terra, porcos, gali-
nhas e outras coisas, corn quem nio tern nunca desavenga; e porque a
terra e muito rara e descoberta aos ventos e nao tern matas nem abri-

(1) Idem, idem.
(2) L. E. Azarola Gil Los origenes de Montevideo B. Aires, 1933.
(3) Anais do Museu Paulista. S. Paulo, 1922, tomo I, 299.





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gadas, nao vivem estes tapuias ao long do mar e teem suas povoag6es
afastadas para o sertao ao abrigo da terra e veem pescar e mariscar pela
costa" (1). Entravam os vicentistas ate o Taquari, diz mais tarde o
padre Roque Gonzalez, e iam resgatar, com os indios, panos, cha-
peus, etc., em troca de escravos que levavam em suas embarcaq6es para
Sao Vicente.
Confinavam dentro do atual territ6rio riograndense, tripartindo-o,
as provincias abragadas pelo rio Uruguai, cujos designativos, desde os
primeiros passes da penetracao espanhola, ornaram os titulos dos ade-
lantados e governadores do Prata: Uruguai, Tape e Ibiaga.
Serviam essas designag6es para assinalar regimes distintas, ja per-
feitamente delimitadas, quer por acidentes geograficos, quer pela exis-
tEncia de uma naqo aborigene, a Tape, metida entire ia primeira e a fil-
tima como uma grande cunha territorial.
Encontraram os primeiros penetradores noticia dessas provincias
etnogrificas, nao obstante o desconhecimento geografico do territ6rio
que elas abrangiam desde o Prata ate a Laguna. A primeira, entao,
Uruai, que compreendia todas as mais, inicialmente, estendendo-se des-
de as margens orientais do Prata ate confrontar com a de Vera (Guaira)
e a linha oscilante de Tordesilhas, 6 denominagio ja registada pelos pri-
meiros desbravadores e navegantes do grande rio de Solis.
Este que lhe dera o nome, que pouco perdura, Gaboto e outros via-
jantes, referem-se ja iao rio que dara, mais tarde, denominacgo a todo o
territ6rio. Diego Garcia, em 1527, diz que "de all luego me parti en ber-
gantin armado por el rio arriba, porque allamos rastio de cristianos, e
andado por el rio grande se llama Ouriay ques donde se juntan todos los
rios que tiene este grande rio dende el cabo de S. Maria ate el cabo
Blanco" (2). As duas outras designac6es se vulgarizam em meados do
seculo I, recolhidas pelos adelantados Alvar Nufiez Cabeza de Vaca
(1541) e Juan Ortiz de ZArate (1572), que as aduz a seus titulos gover-
namentais. Por muitos anos conservam nao s6 os governadores de Bue-
nos Aires e Paraguai, como mesmo os provinciais da Companhia de
Jesuis esse predicament (3) .
Coube a Ilh.a de Santa Catarina e depois a Laguna, desde 1504, se-
rem frequentadas pelas expedic6es que se sucediam, buscando o sul do
litoral atlantico. Vem dai a fixagio de alguns top6nimos como Porto dos
Patos, Rio dos Patos, Laguna de los Patos (Laguna) (Cristovgo de
Haro 1514); Rio de Sao Pedro (Pero Lopes de Souza) para o Rio
Grande cujo nome primitive & Igai, Iguai, que ainda perdura em I-guai-
be (Guaiba); Ibiaca (Cabeza de Vaca). 0 primeiro e o iltimo vdo sen-
do trasladados, por erros cartogrificos, para acidentes geograficos di-
versos dos da nomenclatura inicial. Subsiste em Santa Catarina o de
Laguna, mas Laguna de los Patos (Lagoa dos Patos) se desloca para
o Rio de Sao Pedro (Rio Grande); Ibiaga, que abrange a region de Ibia

(1) Gabriel Soares de Souza Roteiro do Brasil Rev. I. H. G. B.,
tomo XIV, 107.
(2) Diego Garcia Rev. I. H. B. Tomo XV. Parte III, 11.
(3) Ainda em 1638 o padre Diego de Alfaro, da Companhia, se intitulava
"Superior de las Reducciones de Parand, Uruguai, Sierra del Tape y Biasa". Teschauer,
Hist. R. G. S. I, 359.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


deixa seus vestigios em Viamao, de Ibiamon, Biamon, Viamon, isto e,
junto a Ibia (Ibia-moon).
Em 1554, quando Cabeza de Vaca desembarcou em Santa Catarina
para prosseguir sua viagem por terra ate o Paraguai, apresentaram-se-
lhe varios naturais da regiao e "por via deles soube que na distancia
de 14 klguas em um lugar denominado Biaga (Laguna) existiam dois
grades franciscanos, um chamado frei Bernardo. de Armenta e outro frei
Alonso Lebron, oriundos da Gran Canaria. Haviam naufragado em 1538,
no porto dos Patos, e ai ji acharam tres castelhanos que falavam o gua-
rani, segundo informa Jaboatam. Hans Staden que, em 1549, fazendo
parte da armada de Senabria, aportou a Santa Catarina, regista o forte
de Imbiassupe, lugar na extremidade sul da ilha (1) .
0 designativo de Tape, como provincia ocupada por essa nacqo, ji
era conhecido tambem na segunda metade do secuio I. Em margo de 1573
o adelantado Juan Ortiz de Zarate, que se destinava ao Prata, desembar-
cou em Santa Catarina. Grande era a falta de viveres que ai se sentia e
tendo ele ciencia de que, no porto de Mbiaza, ou dos Patos (Laguna),
tinham os indios provis6es, para ali se dirigiu com 80 soldados, saquean-
do a aldeia. Na.o obstante isto, os selvicolas trataram bem os espanh6is,
pedindo-lhes que fundassem ali uma cidade, ao que nao anuiu o adelan-
tado porque estava resolvido a passar ao Rio da Prata. Em seguida, por
mar, se transportou a ilha de Sao Gabriel, Juan Diaz de Melgarejo que,
de volta do Paraguai, tinha ido a Sao Vicente, voltou a Santa Catarina
afim de se encontrar corn Zarate. Na ilha s6 achou os destrogos da ex-
pedicgo e, querendo levar socorro ao governador, acelerou a march por
terra, indo sair em frente as ilhas de Sao Gabriel, no Prata, cruzando,
dessa forma, as provincias de Ibiaga, Tape e Uruguai (2). Melgarejo
teria levado ao adelantado noticia dessas tris provincias etnogrAficas em
que se dividiam os atuais territ6rios riograndense e oriental, porque, to-
mando posse do governor do Prata, encorporava ele os designativos das
novas provincias aos titulos de seu governor, que assim transmitiria a seus
sucessores. Constava ainda desse predicativo a provincia de Vera, fun-
dada por Cabeza de Vaca ao firmar paz corn os indios do Parana e que
"latamente se estende ate & costa, ilha de Santa Catarina e terras de
Mbiaza" (3).
A Jayme Resquin, segundo Lozano (4), fora concedido o titulo de
"Governador das Provincias de Sao Francisco e de Mbiaza, que por ou-
tro nome chamam o Porto dos Patos, de Sao Gabriel, Sancti Spiritus, e
o de Guaira e tudo mais que povoasse". Contesta-o, porem, Azarola Gil,
provecto historiador uruguaio, que diz nao ter Carlos V concedido a Jay-
me Resquin "um governor distinto", e sim autorizaqgo para erigir povoa-
c6es, e entire elas uma em Sao Gabriel, prop6sito que nao poude reali-
zar (5). Refere o padre Nicolas Mastrili Duran, em sua Anua de 1628,
que o governador D. Francisco de Cespedes projetara fundar na Pro-

(1) Hans Staden Viagem ao Brasil. Ed. 1930, pag. 50.
(2) P. Pedro Lozano. Historia de la conquista del Paraguai, Rio de la Plata
y Tucuman, III, 135.
(3) P. Pedro J. Guevara Hist. de la Prov. del Paraguay, 174.
(4) Lozano. Op. cit., III, 131.
(5) Azarola Gil, Origenes cit., 28.





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vincia de Mbiaza uma cidade e abrir um porto de grande movimento
afim de impetrar do trono espanhol o titulo de "Marques de Ibiaga, Tape
e Uruguai" (1)
D. Pedro Esteban Davila, governador do Rio da Prata, em do-
cumento existente na Biblioteca Nacional (2), assim descreve esse ter-
rit6rio: "Tienen por confinantes las dichas Provincias (Uruguai, Tape
e Ibiaca) por una parte las del rio de la Plata y Paraguai y por otras la
mar del norte, Santos, San Vicente y San Pablo, estados del Brasil y al-
gunos pueblos que estan reducidos y que doctrinan los Padres de la
Compafiia de Jesus, estan los mas cercanos a la mar del norte dos 6 tres
dias de camino y desde la ciudad de San Juan de Vera de las Siete Cor-
rientes que esta fundada a la orilla del rio de la Plata ay quarenta a la
primer poblaci6n del Uruguay." La tierra destes Indios toda esta en me-
nos altura la moda de la tierra es templada y abunda de semillas y
legumbres y lo que sea sembrado de legumbres y semillas de Castilla y
arboleda que sea plantada se da bien algodon de muchas parties ay tierra
liana montosa lomas y sierros muchos arroyos que entra en el principal
del Uruguai y otros que desaguan al mar del norte e del que se forma
el que llaman Uiaza que por lo que se tiene noticia podia ser puerto ca-
paz de bajeles grandes y esta en la costa del mar del norte y distant de
San Vicente y Santos ultimas poblaciones del Brasil asia el sur en 28
grades y de esta ciudad por r'umbro derecho yendo por la tierra firme
de los charruas 190 leguas."
Dentro do atual territ6rio riograndense a Provincia do Uruguai,
etnograficamente considerada e assim designada pelos primeiros pene-
tradores brancos, lindava corn a do Tape pelas fraldas mais meridionais
da Serra do Mar indo ate as nascentes setentrionais do Jacui. E dai pelas
cabeceiras do Uruguai-pita, hodierno rio da Virzea, ia ate o Uruguai,
limitando-se por ele corn a provincia de Guaira. A primeira vez que o
padre Roque Gonzalez entrou nesta provincia, pelo Ibicui, andou por
este rio 80 lguas para se aproximar do Tape, mas da reduqco de Sao
Nicolau, a primeira que fundara, fez, por terra, o percurso em cinco l-
guas, "de sorte que, diz ele, se vem a economizar mais de 100 leguas,
porque desde Conceigco para chegar ao posto donde se fundou a pri-
meira vez esta reduqco (Sio Nicolau, entire Ibicui e Jaguari) se andavam
mais de 100 leguas e ao posto em que agora esta fundada ha menos de
20" (3).
Compreendidas nessa provincia ficavam as regi6es de que eram ca-
ciques supremos Tabaca e Nhequm. A primeira se estendia do Ibicui ao
Ijui e a segunda deste rio ate o Uruguai-pitg. Do sul do Ibicui ate o Pra-
ta, limitando corn a provincia do Tape, dominavam os guaicurfis do sul,
como melhor se dird adiante.
A provincia do Tape ficava entire as do Uruguai e Ibiaga. A norte
e leste, dividindo-se corn esta 61tima, tinha por limits o curso do Jacui,
desde suas nascentes mais setentrionais ate a lagoa dos Patos. A sul e

(1) J. M. Blanco Hist. documentada de los martires del Car6 e de Ijui.
1929, pag. 618.
(2) Bibl. Nac. Manuscritos, I, 29, 3, 1.
(3) P. Roque Gonzalez Carta de 14 de novembro de 1627. B. N. I. 29, 7, 19.





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oeste extremava-se da provincia do Uruguai pela Serra Geral, desde a
seccio ainda hoje denominada serra dos Tapes ate as origens do Jacui.
Dominavam os tapes toda essa vasta regiao abrangida pela Serra Geral,
cujos i~ltimos contrafortes a oeste iam morrer entire os rios Ibicui e Itt,
isto e, na coxilha do Boqueirdo, ponto inicial da primeira penetragAo do
padre Roque Gonzalez, no Tape.
A provincia de Ibiaga se deveria estender desde Laguna cabeceiras
do Pelotas (rio Uruguai), baixando pelo afluente do Uruguai, o Uru-
guai-pitd ou rio da Varzea, por este atingindo as cabeceiras mais seten-
trionais do Jacui e todo seu percurso ate a lagoa dos Patos, canal do
Rio Grande, litoral ate o seu ponto inicial, na Laguna.
Esta divisio etnografica em provincias raciais distintas, que o au-
tor deste trabalho foi o primeiro a esboqar, para melhor compreensao da
etnografia do Rio Grande do Sul, ressalta do copioso material documen-
tal, em maior parte inedito, constant de Anuas dos jesuitas espanh6is,
existentes na Biblioteca Nacional (Colec.o de Angelis) e de outros tra-
balhos citados no texto.
Como se verifica do mapa etnografico que esboqamos, o territ6rio do
atual Estado do Rio Grande do Sul estava em grande parte povoado por
indigenas oriundos de tres grandes grupos raciais perfeitamente distin-


GRUPO RACIAL


MBAYA...........


RAMOS NACOES


TRIBUS OU PAR-
CIALIDADES


Aut6ctone Caigua Caaguaras


Guaianases
(Gualachos ou Ibirajara
Coroados)


Guaranizados.


Caamoguaras
Caatiguaras
Cariroiguaras
Tebiquariguaras
Piraiubiguaras
Taiaguapeguaras
leiquiguaras
Ibianguaras
Guaibiguaras


Tapes
TArachanes
Tape Caroguaras
Tabacanguaras


Guaicur6s do C
sul Chana


Guenoas
Chants
Mboanes
laros
Charruas
Minuanos


PROVINCIA
ETNOGR&FICA







Provincia de
Ibiaga



Provincia do
Tape.





Provincia do
Uruguai.


tos, que podem ser identificados pela diversidade de seus caracteres so-
maticos. Eram os caaguas, talvez, os filtimos representantes da raga pri-
mitivissima dos sambaquis do sul; os guaianazes, os tapes e os guaicurds





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do sul, sendo que os tapes, embora parecendo provir de origem diverse,
apresentavam, pela lingua e pelos costumes, tracos indeleveis de remota
guaranizagao.
Consoante larga pesquisa em material hist6rico etnogrAfico, que nos
foi dado realizar, ndo estamos de acordo com os autores que afirmam a
existencia de guaranis puros dentro do territ6rio riograndense. Os pr6-
prios caroguaras e tabacanguaras, que os jesuitas diferenqavam dos ta-
pes, chamando-os de guaranis, eram afins dos tapes, segundo nos pa-
rece. Para melhor compreensdo deste trabalho procuraremos sintetizar
no quadro da pagina anterior um ensaio de classificaqgo dos primitivos
habitantes do Rio Grande do Sul.

3 Grupo racial ge.

No primeiro seculo do descobrimento, segundo pesquisas a que pro-
cedemos, ocupavam a region compreendida pela provinci-a de Ibiaga as
nac6es Caagua e Ibirajara, oriundas do mesmo tronco racial, mas pro-
fundamente diferenciadas pela lingua e cultural.
a) Caagua Esta regiao que cortava a provincia de Ibiaqa, lin-
dando a sul e oeste com a regiao de Ibia, ocupava toda a extensAo da
Serra Geral que se estende entire o litoral e o vale do Taquari, pois como
se verifica de R1elaci6n de lo sucedido (1), "estava da outra parte do Ti-
biquari para eo mar, em umas serranias muito ferteis e abundantes de
comida, que 6 como que outra provincia distinta da da Serra, que cha-
mam Caagua, onde ha infinita gente".
Pode-se mesmo, corn mais precisio, localizar o Caagua no atual
municipio de Sao Francisco de Paula de Cima da Serra, cuja cidade, an-
tiga estdncia de Pedro da Silva Chaves, por onde passava a estrada das
bandeiras, fica na altitude de 922 metros, e entire 29 20' 0" de lat. S. e
7 31' 21" de Long. 0. R. Janeiro. Esta regiao estaria compreendida en-
tre as nascentes do Rolante, ao sul, do Santa Cruz (Cai) a oeste, e La-
jeado Grande e Tainhas, tributario do Antas, ao norte. Este filtimo seria
o Caagua-ri-apipe (cabeceiras do Caagua), referido pela documentaqio
jesuitica espanhola, perto do qual ficava o Caati (Erval). A leste en-
testa nas cabeceiras do Maquine. Estudando essa region informa o pa-
dre Balduino Rambo S. J.: "Resta pouco a dizer sobre os campos de Sao
Francisco de Cima da Serra. Cornm seus 900-1.000 metros de altura sao
um resto maior e coerente do planalto primitive. Entre suas coxilhas mais
elevadas nascem as cabeceiras do rio dos Sinos, ao sul e ao sudoeste, do
Cai ao noroeste, do rio das Antas ao nordeste e do Maquine a leste" (2).
Os caaguaras, gente do mato, silvestre, que parecem ser os filtimos
representantes do povo aut6ctone da regiao, talvez os remanescentes dos
primitivos homes dos sambaquis do sul, tinham caracteres singulares e
eram de uma rusticidade primitivissima. Os tupis o designavam por Irai-
ti-inhacame, que significa cera na cabega, pois sobre as largas coroas

(1) Biblioteca Nacional Mss. I 29, 1, 55.
(2) P. Balduino Rambo A estrutura da Serra. "Anais do 2. Congresso
de Hist. do R. G. do Sul", 1937, vol. I, 109.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


que usavam punham cera e, por isto, eram tambem conhecidos por
cerados.
Inimigos dos portugueses que os escravizavam e dos ibirajaras que
acometiam as suas aldeias para vend-los aos paulistas, tornaram-se
logo amigos dos jesuitas espanh6is. Ganhou-os a bondade do padre Cris-
tovaio de Mendoza. Tendo noticia dessa nacgo, por cujas terras passava
o caminho do rio (Ibia), pelo qual deveriam fatalmente cruzar os ban-
deirantes que mais tarde invadiram as redug6es do Tape, foi o padre
combinar corn os iraitis os mais eficientes meios de defesa. Em 1635, an-
tecendo A primeira bandeira que entrou em terras do Rio Grande do
Sul, e que tinha por chefe Antonio Raposo Tavares, alguns paulistas e
tupis que baixaram pelo caminho A cata de indios haviam sido desbara-
tados e mortos pelos caaguaras. E, na volta do Caagua, depois de con-
certar corn esses indios a defesa da regiao, o padre Cristovao foi
martirizado pelos ibianguaras, no Ibia, a 26 de abril de 1635 (1).
De "boa condigdo" e pacificos, tornaram-se amigos e aliados dos
padres e atenderam o convite do padre Cristovao para irem se aldear jun-
to ao Tape, o que nao levaram a efeito, no moment, por nao haver, na-
quele ano, comida suficiente no local que se lhes destinava. Quando, no
and seguinte, entraram as grandes bandeiras paulistas, foram os caagua-
ras, em quase sua totalidade, reduzidos a escraviddo e levados para as
paliqadas que os portugueses ergueram junto ao Taquari, sendo condu-
zidos a volta da bandeira de Raposo Tavares, para os campos de Pira-
tininga. Os que puderam fugir embrenharam-se pelos matos da Serra
Geral, ficando, assim, destruidas as suas aldeias. Muitos anos depois,
em pleno estado de selvajaria, muitos caaguaras eram encontrados nas
matas quase impenetraveis do Alto Uruguai, onde se chocavam com os
tapes que ali iam a procura de erva-mate, nos ervais de Nhucora (2).
De sua lingua, diz Hervas que o Caaiagua, falado pela nagao do
mesmo nome, estabelecida a oriented do rio Uruguai ate seu nascimento a
oeste, e idioma particular, de dificil pronunciagio, como observa Techo,
que dele diz: "Os Caaiaguas (ou Caagua-silvestre) usam lingua pr6-
pria, dificil de entender, pois quando pronunciam suas palavras nao pa-
recem falar, senio dar assobios ou formam acentos confusos na gar-
ganta. Os caaiaguas, colhidos ou press, nio costumam falar quando es-
tao fora de sua nacgo por mais que os atormentem, porque poucos sao os
missionarios que puderam escrever palavras caaiaguas" (3).
b) Ibiraiara A primeira noticia que se tern sobre esta grande na-
cao e a de que ocupavam a vasta regiao compreendida ao sul do rio
Iguassfi, no atual Estado do Parana. Sao encontrados tambem, trans-
posto o Alto-Uruguai, dentro do Rio Grande do Sul, na regiao compre-
endida entire o rio Uruguai-pit5, ou rio da Varzea, ate as suas cabeceiras
e dai, entroncando nas cabeceiras do Jacui, por este ate se langar no
oceano. Pelo litoral ate o Mampituba e ao norte o rio Pelotas, Uruguai,
ate o ponto de partida. Dentro desta regiao riograndense exclue-se a

(1) Aurelio Porto Martirio do ven. P. Cristovao de Mendoza P. Alegre.
Sep. Anais III Cong. de Hist. sul-riograndense, 1940.
(2) Aurelio Porto Terra Farroupilha I, 27. Tanto autorizado B. N.
Mss. I, 29, 3, 43.
*(3) Hervas Catal. de lenguas.





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Serra Geral, na altura do atual municipio de Sdo Francisco de Paula,
cujas serranias constituiam, como que "uma provincia distinta", ocupa-
da pelos caaguas. Ao norte e oeste, onde comegam os grandes pinhei-
rais que vdo entestar no rio Iguassfi, ou para o literal ate o rio Mampi-
tuba, lindavam os ibiraiaras corn os carij6s, "pois a comarca destes cari-
j6s", informa o padre Jeronimo Rodrigues, em carta de 1605", que es-
tdo por estes campos ao long do mar, e que 6 deste porto de D. Rodri-
go (Imbituba) ate o Boipetibla (Mampituba), pode ser de 40 leguas,
pouco mais ou menos" (1).
De origem tapuia-ges meridionais e conhecidos tambem pelo nome
generico de guaianazes, os ibiraiaras, cuja designacio se traduz poz
senhores do pau, devido aos grandes tacapes que usavam, eram tambem
apelidados pelos portugueses de bilreiros, dos compridos batoques em
forma de bilros que Ihes pendiam do labio inferior. Informa o ilustre
etn6logo Dr. Rodolfo Garcia, que "os bilreiros eram o mesmo que os
caiap6s, conhecidos tambem pelo nome de Ubiraiaras (ibiraiaras), lo-
calizados entire o rio Parand e as cabeceiras orientais do Paraguai".
Descrevendo o martirio dos irmdos Pero Correa e Joao de Souza,
ocorrido na fronteira entire carij6s e ibiraiaras, depois do natal do ano
de 1554, em sua Cr6nica da Companhia, Baltazar Teles diz "que teve no-
ticia nesse tempo o padre Manuel da Nobrega de uma nano de gentios
que esta alem dos carij6s que, em sua lingua, se chamam ibiraiaras (aos
quais os portugueses comumente chamam bilreiros), dos quais dizem
ser algum tanto mais domesticos e disciplinaveis que os indios da costa
do Brasil, post que divirjam alguma coisa na lingua, o irmao Pero Cor-
rea cornm seu grande zelo tinha ja alcangado o conhecimento de seus vo-
cabulos e modo de falar, por via de um indio que muito tempo cativara
entire eles" (2).
A o veneravel Jose de Anchieta, porem, quem nos da precisas no-
ticias sobre os ibiraiaras e sua localizaqgo, informando que se havia man-
dado o irmao Pero Correa "a umas povoag6es de indios que estgo situa-
das perto do mar, a pregar entire eles a palavra de Deus, e, maxime, se
puder, manifesta-la em certos povos, a que apelidam ibiraiaras, os quais
cremos que se avantaj.am a todos estes nio s6 no uso da razao, como na
inteligencia e brandura de costumes" (3). Depois de predigar entire os
carij6s, provavelmente na Laguna, acompanhados por 10 ou 12 princi-
pais destes, indo ate a fronteira de seus inimigos ao entrar em uma re-
giao de pinheirais, em que comegavam as terras dos ibiraiaras, os ir-
maos Pero Correa e Joao de Souza foram ai mortos a flechadas pelos.
carij6s (4).
Trinta anos depois, o padre Manuel de Ortega, que fundou a Pro-
vincia jesuitica do Paraguai, a mandado de Anchieta, teve, ao sul de

(1) P. Fernmo Guerreiro Relagao annual das coisas, etc. Lisboa 1609-306.
Mem6rias para o extinto Estado do Maranhao. Candido Mendes de Almeida, Rio,
1874, II, 542.
(2) Baltazar Teles Cr6nica da Companhia de Jesds, etc. Lisboa 1647,
2.' vol., 501.
(3) P. Jose de Anchieta Cartas Jesuiticas. Ed. Civ. Bras., 1933-48.
(4) Idem, idem, 81.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Guaira, transposto o Iguassft, novo contact com os ibiraiaras. Foi depois
da peste que, em 1589, assolou os povos do Paraguai, que o missionario,
sem acompanhamento algum, desceu de Vila Rica e se dirigiu aos ibi-
raiaras, julgando quebrantado seu animo selvagem pela irrupcdo do mal.
O padre Ortega conhecia "ja a maravilha o idioma que falavam", di-
verso da lingua geral. Essa naqgo se compunha de umas 10.000 almas
e se sustentava da caga. Alguns deles haviam recebido o batismo nio se
sabe quando, mas o certo 6 que ignoravam os misterios da religiao e ti-
nham de cristios somente o nome. Inimigos ferozes dos espanh6is, ha-
viam rechagado o jugo que estes queriam Ihes impor, e eram terriveis
em sua ferocidade. Combatiam com grandes paus (tacapes) de que lhes
adveio o nome (senhores do pau) ibiraiaras. Grande exito teve a missao
do padre Ortega. Conseguiu batizar 2.800 indios atacados de peste. Os
outros solicitavam insistentemente os instruisse na religiao, mas o padre
protelou a satisfaqco desse desejo at& que eles, pela sua bondade, mo-
dificassem seus barbaros costumes, abandonando praticas antigas. Pas-
sado algum tempo foram cristianizados mais de 300 indios que se sub-
meteram ao dominio espanhol. Insistiram os outros corn os padres para
que fossem ao seu pais ensinar a doutrina cat61lica e administrar os sa-
cramentos, dizendo que haviam ja construido templos e levantado cru-
zes (1).
Em 1605, entrando at4 o Tramandai, corn eles tiveram relac6es os
padres Joio Lobato e Jer6nimo Rodrigues, em sua missao a Laguna. E
quando o padre Roque Gonzalez entra no Tape, pela primeira vez, nao
Ihe faltam noticias dos ibiraiaras que se estendiam alem do Iguai (Ai),
atual Jacui, ate o litoral. Em sua citada carta de 1627 diz o beato padre
que, depois de Piratini e Ijui, seguem-se 50 l~guas de montanhas que
entestam corn o Uruguai e ha ai "otros tres mil indios", "y entire estos
entran los Birayaras, que son labradores y estan en las mon.tafias di-
chas" (2).
Antonio Serrano, em magnifico trabalho, dando aos ibiraiaras o
nome generico de guaianazes, e dividindo as suas tribus em bates, cho-
vas e pinards, dentro do Rio Grande do Sul, fornece-nos, atraves das in-
formaq6es de Azara, alguns traqos dos caracteres fisicos dos ibiraiaras.
Seja, porem, dito de passage que de toda a documentaqgo, quer portu-
guesa, quer espanhola contempordnea da epoca a que nos referimos, nada
encontramos que autorize a dar a esses indios tal denominaqao, exceto a
61ltima, encontrada em alguns mapas antigos, que se refere A localizaqio,
pois os pinards "ocupavam as cabeceiras do Uruguai, onde existem bos-
ques de araucaria, de cujos frutos se alimentavam" (3).
Tinham estes selvicolas uma estatura proporcionada que nao exce-
dia a dos espanh6is e era a pele de cor clara e olhos azues.

(1) Aurelio Porto Bandeiras paulistas. "Terra Farroupilha", I, 53.
(2) B. N. Mss. Col. Angelis, Calvo. Recueils complete, vol. II. Na c6pia
original (B. N.) o rio citado pelo P. Roque esta grafado Ai e n5o Aix, como se
encontra em todas as publicaq6es da citada carta.
(3) Antonio Serrano Etnografia de la antigua provincia del Uruguay.
Parana. 1936-40.





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Falavam os ibiraiaras lingua diferente do guarani. Observa Lozano
que essa lingua era "muito elegant, nao faltando o F, J e H, de que
carecem os guaranis, e admite muda com liquid, e dobrada, o que nao se
encontra em outro idioma" (1). Essa lingua pode identificar-se com o
kaingang, hoje ainda falado pelos bugres do Rio Grande do Sul, que
descendem dos guaianazes. Na toponimia riograndense, alem de outros
etimos que se poderiam filiar ao kaingang, encontram-se alguns tipica-
mente dessa origem, como, no Alto Uruguai: CapoerE, Erechim, Ereban-
go, Guapor6, etc. No nome dos caciques da regido dos ibiraiaras encon-
traremos varias palavras kaingang, como T6pen (Deus, santo); Yakua-
caporu, Yakua, cabelo capuru, preto); Yopepoyeca (brago que da
pancada) e outros muitos.
Kaingang era designativo dos coroados, palavra que tambem signi-
fica home. Foram tambem conhecidos por cabeludos, porque deixavam
crescer os cabelos em redor da coroa.
Andavam geralmente nus, mas as mulheres traziam uma especie
de saiote, feito de fibra de urtigas, ou manta do mesmo material, que
Ihes cobria o corpo dos peitos aos pes.
Eram os ibiraiaras indios guerreiros e valentes, e acerrimos inimigos
de seus vizinhos, os tapes. Ca;avam-nos como se caqam os javalis. De
suas incurs6es a margem direita do Guaiba e do Jacui, traziam sempre
grande presa de tapes, que vendiam aos paulistas. Ao principio, alguns
ibiraiaras, usando da maior cautela, conseguiam localizar uma aldeia ou
grupo de silvicolas inimigos. Voltavam, dando aviso ao povo que, em
chusma, armados de arcos e tacapes, cercavam a aldeia e surpreendiam
a todos, levando-os prisioneiros.
O process de cacadas foi adotado mais tarde pelos catecoimenos
cristdos para levar aos padres jesuitas selvagens infieis que eram cate-
quizados nas aldeias.
Para reunir o povo, o cacique principal dava aos outros uma porqgo
de suas flechas de guerra, que eram levadas a toda parte, concitando os
guerreiros das tribus. Vinham os indios armados de arcos e tacapes com-
pridos, enfeitados todos com seus cocares de plumas vistosas e, tendo os
chefes a frente, em fileiras, caminhavam um atras do outro. Ainda nos
combates conservavam essa formaqio com que envolviam os inimigos,
cercando-os ao som de seus instruments de guerra e de uma gritaria
infernal. Apertado o cerco, sucedia, muitas vezes, tornarem-se os pr6-
prios companheiros alvos de suas flechas.
Os ibiraiaras nio eram antrop6fagos. Mas os seus feiticeiros sacri-
ficavam as vitimas, que comiam como prdtica litfirgica. As informaq6es
dos jesuitas espanh6is sio acordes em apontar muitos casos de antropo-
fagia desses feiticeiros, principalmente daqueles que eram chamados
apicaires.
Eram estes geralmente temidos e obedecidos por todo o povo, tor-
nando-se assim os seus verdadeiros caciques. Eram indios terriveis, de
aspect medonho, insensiveis A dor e a qualquer sofrimento fisico. To-
mavam nas mios enormes brasas que comiam, como se saboreassem aque-

(1) Padre Pedro Lozano. Hist. de la Conquista del Paraguay. Ed. Lamas
Buenos Aires. 1874, I, 423.





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les manjares incandescentes. Outras vezes se transformavam em tigres,
cujos bramidos imitavam e como se tivessem verdadeiras garras espeda-
cavam, em poucos moments, os indios que se Ihes aproximavam. Al-
guns, para atrair a chusma, dansavam e cantavam, armados de itaice
(faca afiadissima de pedra), e quando se acercavam da roda que se
formava em torno, procuravam atingir o indio mais gordo, que abatiam
com certeiro golpe e, ali mesmo, o estracalhavam, comendo corn voraci-
dade incrivel as carnes ainda quentes da vitima. Eram talvez esses api-
caires os filtimos remanescentes do home selvagem das pedras de cri-
s6is (tacitas), de que se encontram no Rio Grande do Sul vestigios sin-
gulares (1).
Os feiticeiros foram os mais encarnicados inimigos dos jesuitas es-
panh6is, para o que grandemente influira o memorial contact corn os
portugueses com quem tinham os ibiraiaras constant intercambio de es-
cravos e frutos da terra. Havia, mesmo, entire eles, prepostos dos pau-
listas que faziam larga prea de indios que, em levas, subiam para Pi-
ratininga.
Depois de terem martirizado, em Ibia, o padre Cristovao de Men-
doza, resolveram dar cabo de todas as reduq6es espanholas. "Para con-
seguir esse seu diab61lico intento, informa o padre Boroa, "fizeram uma
trama infernal que foi remedar e contrafazer todas as aq6es dos padres,
fazendo umas especies de igrejas onde se juntavam e tinham pfilpitos e
batisterio, onde pregavam os seus serm6es e batizavam a seu modo, pon-
do nomes nos batizandos, e o que predicavam tudo era contra os padres,
fazendo burla do que ensinavam e predicavam estes, atemorizando os
que se reduziam e assistiam no povo, e publicando que todos os cristios
haviam de se acabar e os povos e reduces consumir-se. Porque, diziam,
tinham ji convocado os tigres que haviam de assola-los, e estavam para
sair de suas cavernas os itaquiceas e os ibipitas, que sao uns pseudo-
fantasmas que o vulgo e chusma imagine horrendos, e aos quais todos te-
mem muito e dizem que vivem nas furnas e buracos que fazem e teem os
cerros e montes altos em seu centro e trazem nas mios uns montantes de
pedra, muito compridos, como se fossem grandes colunas, de cujas pon-
tas pendem fios cortantes, que, mesmo de muito long, matam a todos
que atingem. E, para confirmar tal embuste, dao a entender aos indios
que os ecos dos montes, que trazem as palavras e os gritos que se dao
junto a eles, sao as vozes destes fantasmas que repetem o que o outros
dizem para sair atras dos que gritam. Estes fantasmas, dizem os feiti-
ceiros, obedecem a seu mandado e estavam all escondidos, mas eles po-
deriam solti-los quando Ihes aprouvessem" (2).
A dansa e o canto exerciam grande atragAo sobre o animo dos ibi-
raiaras. As festas com que solenizavam as suas vit6rias, e em que as mu-
Iheres preparavam as bebidas, mas s6 os homes bebiam ate se embria-
garem, eram entretecidas corn cantos e dansas. Usavam, principalmente,
os feiticeiros, uma esp6cie de entorpecente, feito de erva-mate em p6 que
aspiravam pelas narinas, caindo em transe.
Seus dansadores, hieroquiaras (senhores da dansa), tornaram-se ce-
lebres na hist6ria das reduq6es. Eram geralmente rapazes, vestidos de
(1) Aurelio Porto Prehist6ria do Rio Grande do Sul. "Terra Farroupilha"
- I, 7-31.
(2) Relaci6n de lo sucedido. B. N. Mss. 1-29, 1, 55.





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formas bizarras, que atraiam a chusma e, dansando, improvisavam can-
tos de facanhas guerreiras, entremeados de conselhos a que nao dessem
ouvidos aos padres a quem invetivavam, mostrando o castigo que ihes
estava reservado quando os tigres, os itaquiceas, os i1ipitas, saissem das
cavernas para destruir as aldeias e as comidas das rogas. Foram os hiero-
quiaras os guards avangados dos bandeirantes. De um deles ficou me-
m6ria nos documents jesuiticos. Referiu aos padres o capitdo Ariya, ca-
cique de Sdo Joaquim, "que querian dar sobre estes tres pueblos y que
los autores son Yakuacapori, Yaguarobi y Chembiabat6 mui insignes
de los lucitanos, y que traian consigo un muchacho gran dancador, con
un colete de anta, que era de los acemorigaba, e que se dicia que este
muchacho era hijo de los portugueses aunque era indio, debe de ser al-
gun mestiguelo hijo de alguna india de Yakuacaporfi" (1).
Embora n~o se possa afirmar que praticassem alguma especie de re-
ligido, os ibiraiaras acreditavam na imortalidade da alma. Guardavam de
tempos primitivissimos certas priticas religiosas que haviam recebido de
missionarios cat61licos portugueses e espanh6is que, em meados do se-
culo XVI, entire eles haviam estado. Referem documents que, em algu-
mas aldeias, encontravam-se umas casas como igrejas cornm pfilpitos e ba-
tist&rios, onde pregavam e desbatizavam os catectfmenos dos jesuitas.
Chamavam a alma Weikupri (coisa branca) ou acupli. Deus, T&-
pen e o demonio Det kori (coisa ruim). "De suas priticas funerArias,
diz Lozano, que cada aldeia possuia um cemiterio. Ali enterravam seus
mortos diretamente ou em uma sanga aberta de prop6sito, cobrindo a se-
pultura cornm um monticulo de terra de forma piramidal. Na cfispide desse
monticulo colocavam uma vasilha e junto a ela acendiam um fogo lento
de que os parents do defunto cuidavam e alimentavam, dia a dia. 0 re-
cipiente servia para que o morto bebesse e o fogo "para afugentar as
moscas". Os pinarts, da regiao de Caamo (caamoguaras) tiravam os
moribundos para fora da choga, afim de que nao morressem dentro dela.
Informa o padre Bor6a que os ibianguaras, que deixaram por mor-
to o padre Cristovdo, voltaram no dia seguinte para abrir-lhe o venture e
queimar o corpo, como costumam, "porque tienen estes barbaros una
superstici6n, que dice que se el matador no romper el vientre del muerto,
asi como el cadaver se va inchando se incha el matador tambien y mue-
re" (2).
A designagdo das tribus ou parcialidades da classificagdo que en-
saiamos, decorre da localizagAo dos diversos grupos em que estavam di-
vididos os ibiraiaras, segundo noticias de fontes jesuitica-espanholas.
Os caamoguaras, ou pinares de outros autores, sio os moradores de
Caamo, regiao que se pode localizar nos campos de Vacaria, pelo que,
como a outros selvagens que ocupavam regi6es identicas, dava-se tam-
bem o nome de campeiros. Cornm suas seiscentas l6guas quadradas de pla-
nalto, e altitude m6dia de 1.080 metros, era o ponto inicial, transposto o
Uruguai, da velha estrada de penetragdo para o centro do Rio Grande
do Sul. E 6 por ai, pelo Caamo, que passaram as bandeiras paulistas que

(1) Carta do padre Francisco Diaz Tafio. B. N. Mss. 1-29, 1, 53.
(2) Aurelio Porto Martirio do veneravel padre Cristovfo de Mendoza. Rio
- 1940. Sep. do III Cong. de Hist. do R. G. do Sul 12.





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investiram contra as reduces do Tape. A pr6pria significacgo do to-
p6nimo indica a localizagdo, pois cai, quer em guarani, quer em kain-
gang, que seria a lingua dos ibiraiaras, tapuias de origem guaiand, se
traduz por mato e mo, junto, ligado, isto 6, junto ao mato, que cercava
essa grande extensdo de campos.
Na documentagio jesuitica espanhola encontra-se tambem a forma
Caamome, quando se quer referir os que moram nas proximidades de
Caamo. Quando os padres fundaram Santa Teresa, que ficava nas ime-
diag6es da hoje cidade de Passo Fundo, em 1634, avangou a fronteira das
redug6es, que era pelo Jacui, ate o rio Taquari, GuaporE, a entroncar no
rio Ligeiro, que desagua no Uruguai limitss da lagoa Vermelha), e
dai a observagao do padre Diaz Tafio que, em carta de 6 de setembro de
1635, dizia parecer que "temos toda fronteira contra n6s: os ibianguaras
que mataram o padre Cristovao, e esses de Caatime (junto ao Caati) e
de Caamome, e os de Taiaguape, Piraiubi e Taquari, aos quais ajudam os
de Guaibe-renda, tambem muito dos portugueses" (1).
Os caamoguaras foram grandes inimigos dos jesuitas espanh6is que,
corn suas aldeias, haviam transposto as fronteiras de Ibiaga. Explica-se
naturalmente essa hostilidade, conhecendo-se as suas ligag6es corn os
portugueses e paulistas que, desde tempos imemoriais, por ali passavam,
resgatando indios que, em grandes levas, faziam subir para Piratininga.
E foi principalmente em Caamo, quando os indios resolveram dar
sobre as reduces, que se reuniram as grandes juntas de feiticeiros, de-
pois da morte do padre- Cristovao, e s6 nio levaram a efeito esse intent
porque os indios cristAos sairam-lhes ao encontro e dispersaram a junta.
Caati (Erval), onde havia uma grande parcialidade, ficava junto a
Caamo, entire este e Caagua, isto 6, nas cabeceiras do rio de Caagua
(Caigua-ri-apipe). Os caatiguaras aderiram logo as juntas de Caamo e
deram sobre a aldeia de Apece, cacique amigo dos jesuitas, que, corn sua
chusma, se preparava para reduzir-se. Morto Apec&, no assalto dos caati-
guaras, foram seus indios escravizados e vendidos aos paulistas.
Para nao alongar estas notas sobre as diversas parcialidades em que
se dividia a naqgo ibiraiara, notaremos os moradores de Ibia, region
compreendida entire a serra de nordeste e campos de ViamAo (Ibiamon
- junto, ligado, pegado a Ibia), que martirizaram o padre Cristovao de
Mendoza, e os guaibeguaras que ocupavam a regiio de Guaibe-renda
(porto de Guaiba, atual cidade de Porto Alegre.)
Eram os guaibeguaras acerrimos inimigos dos Tapes, corn os quais
defrontavam pelas alturas de Itapua e margem direita do grande es-
tudrio. E tais eram as razias de seus vizinhos que, quando o padre Ro-
que entrou no Tape, estes estavam grandemente diminuidos no nfimero
que devia ter sido consideravel. Diz Lozano que essa diminuigio se "ve-
rificava pelo comercio que seus vizinhos (guaibeguaras) faziam de escra-
vos corn os portugueses e mamelucos que entravam em lanchas e botes
pelo Iguai, (Guaiba), "adonde llegaban los fronterizos tapes" (2).
A primeira noticia que se conhece desse comercio que se exercia in-
tensamente pelo porto do Guaiba (Porto Alegre), nos transmite o rela-

(1) Carta cit. Mss. B. N. 1-29, 1, 53.
(2) Padre Pedro Lozano Hist. cit. I, 32





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t6rio do padre Roque Gonzalez, citado anteriormente: "Entre eles (rios),
ha um principal que chama Ai (Iguai) por onde me disseram os indios
entravam portugueses em navios pequenos, deixando os grandes em alto
mar, para comerciar corn eles, trazendo-lhes muita roupa do mesmo pano
que era feita a minha, que e de feltro, e muitos chapdus, que e como eles
chamaram-me os sombreiros".
As relac6es que esses indios mantinham corn os paulistas ressaltam
a todo instapte dos informes dos padres jesuitas, temerosos do mal que
ihes adviria por essa entrada, uma das duas por onde os inimigos pode-
riam assaltar o Tape. Informa o padre Tafio que muitas parcialidades de
Ibia estdo rebeladas contra a cristianizaqdo dos indios. E acrescenta: "Y
los ayudan los de Guaibe-renda, tambien mui de los portugueses, con que
hemos dudado muchas vezes si esto es traza dellos" (1). E o padre Pe-
dro Mola informa que "ha certos indicios de que os portugueses podem
nos vir do "pueblo de gue-bi renda" (2).

4 Grupo Tape.

0 Dr. Jose de Saldanha, que muito de perto estudou, em seu pr6-
prio habitat, os nossos silvicolas, traz um precioso informed sobre a lati-
tude dessa grande nado, ainda vultosa na 4poca da conquista. "Estes
indios habitavam, diz, o que n6s chamamos presentemente Continente
do Sul, ou desde a costa leste do Parana (porque do outro lado ja sao
os paraguaios) ate a praia do mar oceano e desde o Rio da Prata at& os
pontos meridionais da cordilheira geral da costa do Brasil" (3).
Quais as origens do grupo Tape que vai aos poucos se circunscre-
vendo entire a bacia meridional do Jacui e os contrafortes mais extre-
mados do sul da Serra Geral ? Nao seria certamente possivel precisar sem
estudo mais acurado para o que ainda escasseiam elements etnografi-
cos. Entretanto, nao erraremos se o filiar a troncos setentrionais, quiqg,
ao grande tronco dos maias que se derramaram, em epocas milenares,
pelo continent do sul. Elementos linguisticos, alias escassissimos, que
nos foi dado conseguir, induzem a essa aproximagAo (4). 8 possivel que
as avangadas dessa migraqco hajam, em sua march para o ocidente, as-
sentado suas tendas na regido de Atacama, onde receberiam influxos
das civilizag6es andinas.
Diz o Dr. Jose de Saldanha que os tapes "teem as ventas dos nari-
zes grandes, e como inchadas, as faces altas e cheias, os cabelos somente
no extremo da barba e no beico superior: nao sao de estatura mui alta, e
as mulheres quase do mesmo tamanho que eles, e maiores do que os mi-
nuanos" (5).
Nao resta dfivida que possuiam uma lingua pr6pria, corn cujos &ti-
mos opulentaram o guarani do sul, que se distancia do tupi do norte,

(1) B. N. Mss. 1-29, 1, 53.
(2) B. N. Mss. 1-29, 7, 29.
(3) Dr. Jose de Saldanha Diario Resumido. Anais da Biblioteca Nacional.
Vol. LI Rio 1938.
(4) Aurelio Porto Prehist6ria cit. Caro. Journal do Comercio. Rio, citado.
(5) Saldanha Diario citado.





HISTORIC DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


ambos oriundos da mesma matriz. Quando da invasao da onda guarani-
tica, que os dominou, muito antes dos tempos hist6ricos, receberam dos
dominadores parte de seus usos, costumes e lingua.
Eram os tapes eximios agricultores, tendo grandes rogas de milho,
mandioca e outros graos. Quando os jesuitas espanh6is penetraram em
suas aldeias constataram que ja nao tinham quase terras para plantio,
pelas grandes derribadas que haviam feito nos matos, para lavouras. 8
o padre Roque Gonzalez em sua primeira visit A terra que nos noticia:
"E assim livremente andei por ela (terra), posto que com bastante dor,
porque em todo o Tape nao ha lugar para reduzir nem sequer duzentas
families, porque, como antigamente a gente era muita, acabaram os ma-
tos, e assim lavram entire cerros e penhascos, e estao em pequenas povoa-
goes, das quais as maiores sao de cem indios" (1).
Dividiam-se os tapes em varias parcialidades que tomavam as de-
signaq6es de seus caciques ou dos lugares em que se encontravam. Diz
Rui Diaz de Guzman, na Argentina, que nas imedia;6es da lagoa dos
Patos, existia uma grande naaio denominada Arachanes, que significa
em guarani "povo que vE assomar o dia", ou "povo de este". Mas, como
deixamos registado, pode-se tambem traduzir por changess da lagoa",
levantando a hip6tese que fossem estes, como os tapes, os remanescentes
da grande naaio change, de cuja migragao para leste temos noticias em
estudos de modernos etn6grafos. Estes changes, de lingua arawak, foram
escravizados pelos guaranis, e se encontravam profundamente mescla-
dos corn os cheriguanas, ainda nos contrafortes andinos. Os bandeiran-
tes, que, em 1636, iniciam as suas entradas no territ6rio riograndense,
generalizaram a denominagao, pois em grande nfimero de inventarios e
testamentos de paulistas se encontra a designagco de "sertao dos ara-
chanes", "terra dos arachanes" etc., dada a regiao em que viviam os ta-
pes e as redug6es em que indiferentemente se tinham aldeado (2).
Nao s6 Rui Diaz como outros historiadores (3) que se referem
aos arachanes nada de particular nos dizem sobre estes indios. As Anuas
dos jesuitas espanh6is nem sequer lhes mencionaram o nome. Entretanto,
diz a Argentina que os arachanes se contariam por 20.000, no que ha
visivel excess. De tudo isto se depreende que tapes e arachanes seriam
o mesmo povo, designados de acordo corn a situagao local.
Outra nacao que alguns historiadores e mesmo os antigos bandei-
rantes colocavam nessa regiao do territ6rio riograndense, por visivel erro
de deslocagao toponimica, 6 a dos carij6s, tambem denominados patos.
Como vimos, os carij6s lindavam com os ibiraiaras, ao norte, pelo Mam-
pituba. 0 erro que deu margem a essa afirmativa provem da cartogra-
fia antiga que deslocou a designaqao de Laguna de los Patos (Laguna,
Santa Catarina) para o Iguai (Rio de Sao Pedro, Rio Grande). E como
os carij6s, ou patos, demoravam pelas imediac6es da Laguna de los Pa-
tos, quiseram os cronistas situar na hodierna lagoa dos Patos (Rio Gran-
de) o habitat desses indios que s6 penetrariam em territ6rio riogranden-
se quando das guerras que levavam a seus fronteiriqos inimigos, os ibi-

(1) J.' M. Blanco Hist. Docum. de los martires del Car6. 635.
(2) Vide Inventarios e Testamentos. Col. public, do Arquivo de S. Paulo.
(3) Techo, Charlevoix, Lozano, Guevara, etc.


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raiaras, ou quando, corn os aliados paulistas, fazendo parte das bandei-
ras, salientavam-se como preadores de indios.
Em seu Mapa etnografico (1) Teschauer localiza os guaranis no
territ6rio compreendido entire os rios Ibicui e o da Varzea, em que se fun-
daram as primeiras reduq6es, territ6rio pertencente a antiga provincia
etnografica do Uruguai, extremado a leste pelas provincias do Tape e de
Ibiaga.
Quando all entrou o padre Roque encontrou duas parcialidades dis-
tintas que delimitam duas regi6es, tendo por chefes principals Tabacan
e Nhequm. Em Car6, recebeu-o afavelmente o cacique Carobai. Outro
indio, Taiubai era ai principal e, sendo castigado pelo padre Cristovdo de
Mendoza, foi para Ibia e ali instigou os ibianguaras a martirizarem este
santo jesuita. Todos esses nomes sao de pura origem tape, conforme
estudo detalhado ja feito em torno do assunto (2). A pr6pria toponi-
mia da region estd indicando a identidade de nomenclatura da bacia do
Uruguai e a do Jacui e Lagoas. Basta assinalar o Cebolati, ou Turvo,
no Uruguai e Cebolati, na lagoa Mirim;. Piratini, afluente do Uruguai
e Sao Gonqalo; Camaqui, no Uruguai e lagoa dos Patos; Taquari,
no Ibicui e Jacui.
Ora, essas afiriidades flagrantes, os mesmos costumes, a identidade
de lingua, fazem classificar os silvicolas que povoaram essa regiio como
parents pr6ximos dos tapes, sendo propriamente tapes, j& largamente
guaranizados. Seriam, naturalmente, hordas ali radicadas da grande na-
qao invasora, preguaranitica, quando de sua passage para o ocidente.
Mais tarde atinge-a tambem a onda avassaladora do guarani que atra-
vessa o Continente e vai ate os contrafortes sub-andinos, e Chaco para-
guaio.
Entretanto, embora isto nos parega, classificamo-los interrogativa-
mente guaranis, pois os pr6prios jesuitas em sua vasta documentacio,
quando se referem a estes indios, os designam como guaranis, diferentes
do stapes, em cuja provincia entra o padre Roque pela serra do Boquei-
rao.

5 Grupo guaicurfr do sul.

Na provincia do Uruguai, isto e, ao sul da Cordilheira Geral e rio
Ibicui, da atual serra dos Tapes, litoral, at& o rio da Prata, dominava a
grande nacgo Guenoa, ai ja encontrada, no seculo XVI, pelos desbra-
vadores do grande rio. Semissedentarios antes da introducao do gado,
estendiam-se pela costa, povoando desde a lagoa Mirim e vertentes do
rio Negro, os campos que se desdobravam ate o rio Uruguai.
Dando-lhe procedencia do ramo guaicurf (Mbaya), Rodolfo Schul-
ler, notavel etn6grafo, assim se refere ao "habitat" dessas tribus que, de
acordo tambem corn o trabalho de Antonio Serrano (3), classificamos de

(1) C. Teschauer Hist. do R. G. do Sul I, 154-155.
(2) Aurelio Porto. Prehist6ria Car6 cits.
(3) A. Serrano. Primitivos habitantes del territorio argentino, 78.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


nacao guenoa e subnag~o chani: "0 grupo do sul da familiar guaicurui
do nosso sistema de classificaqio habitava os campos situados entire o
Rio Negro e a costa atlAntica, que hoje forma parte da Repfiblica Ori-
ental do Uruguai; em toda a extensao norte-sul da mesopotamia sul-
americana, pois "ate o rio Corrientes, alcanqavam as toldarias dos valen-
tes charruas," diz Quesada; nas terras ribeirinhas ocidentais do Parana.
desde o arroio Carcaranac, limited norte natural do pais dos Querandiac,
ate a Frent6nia do p. N. del Techo, que comegava A altura da confluEn-
cia dos rios Paraguai e Parana. "Os guaicurfs do sul se estendiam, pois,
desde os 270 at6 os 35 de latitude sul e desde os 620 at6 os 540 de longi-
tude ocidental de Greenwich, e em direcao sudeste" (1).
Dividia-se este grupo, que tao larga influencia exerceu na formagao
gaucha, corn a introduqao do gado, em guenoas, chants, iaros, mboanes,
charruas e minuanos.
Nao obstante as incurs6es que todos faziam ao territ6rio sul rio-
grandense e, mesmo, o ensaio de catequese e colonizaqao de um grupo
em Santa Maria dos Guenoas (Sao Borja), s6 nos importa direta-
mente o filtimo, amigo dos portugueses, desde a primeira hora, e que mais
tarde se radica no Rio Grande do Sul, erguendo ai as suas toldarias.
No filtimo quartel do seculo III do descobrimento, demoravam os
minuanos pelas alturas da lagoa Mirim. Aproximam-se do Rio Grande
por ocasiao da entrada de Joao de Magalhaes e sao fornecedores de gado
aos lagunistas. Antes, mesmo, seus caciques visitam Laguna e ai recebem,
corn nomes batismais portugueses, varas de comando. D. Cacildo, D.
Bartolomeu e outros sao grandes amigos do coronel Cristovao Pereira e
seus s6cios nas vacarias iniciais da Colonia do Sacramento. Quando da
expansio do povoamento do Continente, localizam-se novos grupos na
serra do Vaverd, dominando os campos do Jarau e do Quarai. E ai que
se process a formaqdo do gaucho do campo, tipo semibArbaro da Pam-
pa, cujos usos, costumes, indumentaria e lingua ficam como patrim6nio
da etnia riograndense e difundem-se tambem no Prata, criando esse fa-
tor 6tnico comum.
Viu-os muito de perto o Dr. Jose de Saldanha, que deles nos dei-
xou os principals tracos: "Os minuanos nao teem as ventas do nariz e as
macas do rosto tao entumescidas como geralmente todos os indios; estes
sao, pela maior parte, corpulentos e bem feitos, porem as mulheres quase
todas de meia estatura. As mais feiq6es sao iguais as do Americano."
Referindo-se a seus trajos, e comidas, diz: "Os cabelos soltos e erirados
de que procede nio crescerem muito, cobertos pelas costas at6 os calca-
nhares com os caipis, ou grandes mantas de couros descarnados e sova-
dos corn o pelo para o corpo e o carnal para a parte de fora, atado com
uma tira do mesmo couro por cima dos ombros e por diante do pescogo
(poncho primitive); envolvidos desde a cintura ate o joelho corn volta
e meia de pano de algoddo (xiripa) sao estas as suas gerais vestimentas.
Aos caipis que eles fazem de pele de veado ou de vitelas sovadas des-
carnadas e cosidas umas As outras, ou enfim de couro de uma nova vaca
pintam pela parte exterior que 6 a do carnal, corn umas listras ao com-
prido e atravessadas, de encarnado e cinzento, aquela cor tiram da ter-
ra de ocra de ferro" encontrada nos regatos do rio Cacequi.

(1) R. Schuller. Sobre el origen del charrua. Chile 1906. 237.





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"Parcos sao no alimento, porem de sua demasiada preguiga pro-
cede a sua parcim6nia; eles teem que ir ao campo carnear as reses, ou
traze-las para o p& das Toldarias: esta care ou de veados, pouco as-
sada (churrasco) e ainda os caracaras e outras semelhantes aves de ra-
pina, ou alguns avestruzes, sao a sua usual comida. A bebida do mate
(chimarrio) nio a deixam enquanto teem desta erva, como tambem de
mascar o tabaco de fumo e conservar a masca entire o beigo superior e os
dentes, ou tirando-a da boca e pondo-a atras da orelha, onde a guardam
ate que a tornam a mastigar; poucos sio os que pitam ou cachimbam e
todos muito amigos de beber aguardente e importunos para que lha
deem corn a qual ficam finalmente bebedos."
De suas armas e religido diz Saldanha: "As flechas'que em uma al-
java de couro trazem e a tiracolo pelas costas sao por eles somente usa-
das na ocasido da peleja, pouco se servem para cagar e a razdo deve ser
porque como tudo que & de ferro lhes custa alcangar e trabalhar para
fazerem os farp6es das setas, as reservam como instruments de sua
maior seguranga: elas nao teem mais de trEs palmos de comprido, e o
arco tambem a proporqao nao 6 muito grande, a pe e a cavalo as sabem
disparar. As suas lanqas sio umas varas compridas e direitas que aca-
bam em uma das extremidades com um palmo ou dois de punhal, ou es-
pada, e antes de seu encaixe, na madeira, as guarnecem de uma flor de
penas de avestruz: tem coisa de duas alturas deles, veloz e ligeiramente
as movem a cavalo e a todo o galope. Estas, alem de serem tambem de seus
instruments belicos se serve algumas vezes para chugar as reses ou
touros no campo, ou ainda os tigres. As bolas e lagos, instruments co-
muns e necessarios aos campeiros, que estes campos vadeiam, neles ti-
veram a sua origem, corn estas apanham no campo varias eguas, potros
bravos, e tambem os cavalos mansos, que nestas alvorotadas manadas
encontram, com trabalhos os chegam a amansar, tendo-os atados e de-
beis, pela falta de sustento, servindo-se deles depois em pelo, s6 corn um
pequeno couro no lugar onde montam. A faca flamenga, corn uma bainha
de couro cru, sempre a trazem entalada entire a tanga de algoddo e a cin-
tura pela parte das costas."
"Costumam estes indios minuanos, em sinal de sentiment quando
morrem alguns dos parents mais chegados, ferir as costas corn golpes
ou pequenas picadas; algumas das mres chegam a maior excess na sua
magua pela falta dos filhos, cortando as falanges ou parties extremes dos
dedos minimos pelas juntas. Agco tdo barbara, se foi obrigat6ria, se tern
desvanecido muito, de sorte que presentemente (1785) raros executam.
Sao casados corn vArias mulheres, em o nfimero de duas ate cinco, as
mais velhas vio desprezando, e s6 trazem consigo, nas avulsas jornadas,
as mais mogas: pelo ajuste e convengAo entire o noivo e os pais da noiva
se efetua o casamento, ou entrega da esposa ao marido, tendo procedido
uma pratica, ou larga conversa de sua mrae a minuana, sobre as obriga-
q6es daquele estado: elas teem de servir ao marido, ajuntar lenha para o
fogo, em fazerem os assados para comerem, em Ihe ensilharem os cava-
los aos que teem os prepares para isso, que somente sio os caciques e
suas mulheres."
Vivem os minuanos em um estado propriamente livre entire os es-
panh6is e portugueses: Aqueles se queixam destes, principalmente quan-

























MAPA DAS PROVINCIAS ETNOGRAFICAS NO

TERRITORIO DO RIO GRANDE DO SUL



Organizado por Aureilio Porto


C/


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44
I ,
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HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


do dao com pessoas de inferior qualidade que Ihe gostam de ouvir esses
errados sofismas. Contudo, ou pelas dadivas que corn mais frequencia
encontram nos portugueses, ou por outra qualquer causa, pende mais a
sua inclinacgo para esta naqio. Quem poderA haver tao falto de razao
que do Ente Supremo negue a existencia? Se o mesmo Bata (um dos ca-
ciques), da gema dos minuanos, falto de discursos e combinacges, res-
ponde apontando para o c6u, s6 quem ali existe senhor 6 das vidas e
humanas mortes. R certo que eles nao sao tao cru&is como os indios ta-
pes, nao consta que os minuanos jamais matassem algum portugues, ou
espanhol, posto que os encontrassem s6, ou perdidos pela campanha,
como costumam varias vezes fazer os guaranis."
Quanto ao idioma que falam, diz o ilustre observador: "Agradavel
e veloz e a sua linguagem, muito diferente da dos tapes, e bem seme-
Ihante e talvez identica a dos indios da America setentrional, aos quais
se assemelham bastante nas feic6es. Quem sabe se eles sao os mesmos ?
Quem sabe se esta pequena porgao de minuanos, que hoje habitam as
terras austrais do Brasil, de la trouxe a origem?"
Quando o Dr. Saldanha teve contact corn estes indios, "divididos
em various bandos ou tribus", formavam seus cacicados. Havia entire eles
alguns que, pela descendencia ou mfituo acordo, eram os caciques dos
bandos que obedeciam a um cacique geral, ou rei. Eram esses caciques,
em 1785, Maulein, Saltein, Batf e Tajui, e rei D. Miguel Carai, que foi
o filtimo dos minuanos e o primeiro gaucho do campo.
Interessante retracar a figure deste produto inicial do cruzamento
que sera o ponto de transi4ao entire a barbaria minuana e a civilizagao
nascente do branco, em terras do Rio Grande do Sul. Quando os pri-
meiros portugueses palmilharam o litoral, para da Laguna alcangar a
Col6nia do Sacramento, recem-fundada no Prata (1680) em um dos
afluentes do Cebolati, conhecido por Zapata ou Ayala, que fica a 36 6'
37" de lat. S., encontraram estabelecido um paraguaio de origem espa-
nhola desse nome e apelido, D. Miguel Ayala, mais conhecido por Ve-
lho Zapata. Era filho desse Velho Zapata e de uma minuana, D. Miguel
Ayala, ou D. Miguel Carai, altimo rei dos minuanos, referido tambem
por Saldanha, Alvear, Azara e outros demarcadores.
Quando o depois coronel Francisco Pinto Bandeira estabeleceu sua
estancia nas imediaq6es do Capivari, antes de 1730, foi peao dela este
mestigo de espanhol e de minuano. Rafael Pinto Bandeira, filho de Fran-
cisco, que foi o primeiro general riograndense, teve de uma filha de
D. Miguel Carai, tambem uma filha a quem mais tarde legitimou e ca-
sou corn o official miliciano Rodrigues Lima, tronco de um ramo dessa
familiar, que teve representantes de importancia no Rio Grande do Sul.
Mais tarde, D. Miguel Carai, que fora criado pelos minuanos, foi
recebido como rei deles, levando porem do contact corn os brancos no-
g6es de humanidade. R sob a sua dominagao que se process, entire os
minuanos, o acolhimento hospitaleiro que dispensavam aos brancos e
pretos, quer espanh6is, quer portugueses, seus companheiros de guerri-
!has corn os outros indios, s6cios nas arreadas de gado, que vendiam aos
lagunistas e colonistas, e comparticipes no contrabando que campeava
nas imprecisas fronteiras entire as colonias de Portugal e Castela.
0 que se diz dos minuanos, corn pequenas modificac6es, pode-se
aplicar aos charruas, mboanes, iaros, guenoas, parcialidades ou peque-





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nas tribus, de origem guaicurfi do sul. Destes os charruas, principalmen-
te, tiveram grande influencia na formacgo do povo oriental, pois sem-
pre demoraram no hoje territ6rio do Uruguai, sendo seus iltimos re-
manescentes puros trucidados por ordem dos caudilhos orientais, e al-
guns vendidos, mesmo para a Europa, como esses de que Paulo Richet
reproduz estampas do Muzeu de Paris. Os iaros, mboanes, extingui-
ram-se em guerras corn os outros indios e os guenoas, de que falaremos,
alias designacAo generica, fundaram ainda o Povo de Santa Maria dos
Guenoas, de vida efEmera, em SAo Borja. Os minuanos ,trazidos A civi-
lizag~o, por cruzamento, contribuiram grandemente na formacgo do in-
dio mestigo do Rio Grande do Sul. Devem-se-lhe os nossos usos e cos-
tumes campeiros, grande parte da indumentaria gaucha, e o vocabula-
rio referente a vida pastoril do Estado.

6 0 indio das reduf6es

0 material human corn que os jesuitas criaram a civilizacgo cristA
das Miss6es, que teve seu relative esplendor, nio era facil de plasmar.
0 indio Tape, element principal em seus trabalhos de catequese, no
territ6rio riograndense, ainda dois seculos depois de seu contact inicial
corn os jesuitas, ao ser aldeados em Gravatai (Aldeia dos Anjos), apre-
sentava os mesmos caracteristicos de origem, entire os quais sobressaiam
a preguiga traditional, a imprevidencia avoenga e os maus instintos de
sua primitividade barbara. Continuavam a ser as mesmas "criangas gran-
des" que os primeiros jesuitas encontraram nas matarias selvagens, e
das quais jamais puderam fazer um homeem, que soubesse dirigir as
suas pr6prias ac6es.
Embora reduzidos em grandes povos, onde gozavam das vantagens
de uma incipiente civilizagco, sob o regime severissimo imposto pelos
jesuitas, os Tapes jamais se adaptaram a vida de traballo e de iniciati-
vas pr6prias que caracteriza a atividade humana. Conhecendo-os perfei-
feitamente, desde os primeiros tempos, estabeleceram os padres um re-
gime de comunidade, sob o qual se desenvolvia todo o trabalho dos ho-
mens, das mulheres e das pr6prias criangas. Poucos tinham as suas la-
vouras privativas, pois a incapacidade de trabalho'nao permitia que pros-
perassem. 0 mesmo se dava corn a criagao de animals dom6sticos para
a alimentaqgo e para transport. Os alimentos que colhiam, em suas ro-
gas, quando conseguiam levi-las ao bom termo das colheitas, sob a ins-
pecro dos padres; os gados que criavam, ou os bois de arado, tudo
devoravam num s6 dia, sem que Ihes sobrassem grio para sementeiras
futuras, ou came para os dias seguintes. Por sua natural preguiga, dei-
xavam morrer A sede e a fome os animals que Ihes eram confiados.
Seculo e meio mais tarde, nio se modificara ainda esse modo de ser.
Foi esse o motivo por que os padres estabeleceram o regime comu-
nal que abrangia a lavoura, a indfistria e a pecuhria. S6 mesmo uma dis-
ciplina ferrea, exercida material e espiritualmente, poderia fazer desses
pobres indios elements de utilidade humana. E sob a constant vigilan-
cia dos curas e o exemplo admiravel de virtudes cristas corn que se im-
p6e A versatilidade dos indios, podem eles, esses admiraveis fautores de





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


uma civilizagao que nos causa admiraqAo e espanto, conseguir o fruto
de acurados esforqos.
"0 padre & a alma de tudo: faz no Povo o que a alma faz no corpo",
nos diz o padre Jose Cardiel (1). E, realmente, qualquer descuido em seu
zelo vigilante e atento, 6 o bastante para destruir, at6 seus alicerces, uma
obra de tenacidade e esforgo incalculaveis. "Deus N. S., por sua altis-
sima Providencia, acrescenta, deu a estes pobres indios um respeito e uma
obediEncia muito especiais para com os padres; de outra maneira era im-
possivel governa-los, bem como escolher os mais capazes para os various
oficios e os encarregados de dirigi-los, por meio dos quais podem perfei-
tamente zelar pelo cumprimento das obrigag6es comuns."
Apreciando o ciclo da civilizacgo missioneira que, sob a diregAo dos
jesuitas, se desenvolve por quatro geraq6es consecutivas de indigenas e
que, durante 140 anos, floresce nas misses que fundaram, imp6e-se-nos
reconhecer a soma de dedicacgo e de sacrificios em que ela importou
para esses homes abnegados e her6icos. S6 eles poderiam realizar essa
obra gigantesca com os elements materials e humans de que dispu-
nham. E quando, expulsos e arrancados ao convivio dos indios, se inau-
gura o regime leigo hispano-colonial, de um dia para outro, tudo desmo-
rona e se destr6i. 0 home, dominado pela preguiga, sem o control sa-
lutar do padre, atira-se a embriaguez e retorna A vida semisselvagem que
Ihe mata no espirito os germes da virtude cristi, e os pr6prios templos
vio se envolvendo em escombros de ruinas.
Mas, nao obstante essa incapacidade do silvicola riograndense, de
se dirigir por si pr6prio, ficaram, na hist6ria das Miss6es, documents
impereciveis que atestam qualidades superiores de inteligencia, dedicacgo
e heroismo.
Embora lhe faltasse o engenho criador tinha o indio, em alto grau,
desenvolvidas, suas faculdades de imitacgo. De uma ceramica tosca e
pobre que revela o atraso de sua cultural, passa, mais tarde, o indio das
Misses, sob a inspiragio artistic dos jesuitas, a lavrar essas admira-
veis Pegas, cuja cinzeladura marca o apogeu da civilizagio jesuitico-
colonial que mais demoradamente apreciaremos.
Referindo-se a essa capacidade de imitacgo, diz Charlevoix que os
indios aprendem, com o instinto, as artes a que se aplicam. "Basta, por
exemplo, mostrar-lhes uma cruz, um candelabro, um turibulo, e dar-lhes
a matEria de que esses objetos se fazem, para que eles fagam outro de tal
modo semelhante que dificil seria distinguir a sua obra do model que
Ihe foi apresentado. Fazem e tocam muito bem todos os instruments;
fazem orgios, os mais complicados, e para isto foi bastante que vissem
um; fazem, da mesma forma, esferas astron6micas; tapetes que imitam
os turcos, e o que ha de mais dificil nas manufaturas. Pulem e gravam,
sobre o bronze tudo quanto Ihes mandam; possuem excelente ouvido para
a mfisica e teem, por esta arte, um gosto muito singular" (2).
E nio s6 os tapes tinham essa faculdade de imitagio. Os ibiraiaras.
segundo o depoimento do padre Bor8a, eram grandes imitadores. Quando

(1) Padre Jose Cardiel. Relaci6n veridica de las Misiones de la Comp. de JHS.
en la Prova que fu6 del Paraguay. Faenza, 1772. Cod. mss. B. N. 11-5, 1, 52.
(2) Charlevoix Hist.





















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os padres entraram em suas terras, para catequisA-los, encontraram umas
choupanas que imitavam perfeitamente os templos cat6licos. Nada Ihes
faltava, pois tinham altares, batisterios e piflpitos. Era ai que pregavam
aos indios contra os sacerdotes cristAos; era ai que desbatizavam os ca-
tecfimenos, impondo-lhes nomes diferentes e contrafaziam os atos reli-
giosos que haviam assistido nas igrejas missioneiras. Quanto aos guai-
curfis do sul (charruas, minuanos etc.), nio era menos notavel a ten-
dencia para a imitavgo. Sao os criadores da idade do couro, no Rio Gran-
de do Sul. Introduzido o gado, tornam-se cavaleiros inimitaveis. Inven-
tam o lago, as bolas, o tirador, a guaiaca, e bota de couro, feita de per-
nas de animal cavalar ou vacum, garroteado ou sovado. Suas casas teem
paredes de couro e teto do mesmo material. Nas pelotas feitas de um
couro, atravessam os rios a nado. Seus trabalhos, neste material, princi-
palmente os entrangados, em que foram eximios, sao dignos de aprego.
Ha, entire os tapes, cujo fundo de ferocidade era traditional, exem-
plos admiraveis de humanidade, de dedicagio e mesmo de heroismo. Al-
guns ate revelaram tal piedade cristd que os jesuitas, sempre severos e
zelosos dos principios morais que pregavam, nao trepidaram em Ihes dar
"cheiro de santidade", proclamando-os insignes entire os que mais o fo-
ram a servigo de Deus.
Estdo, em primeira plana, os her6is que se santificaram pelas suas
acrisoladas virtudes cristas e pela defesa her6ica da terra. Um desses in-
dios recebe mesmo a canonizaqgo do povo: Sao Sep(. Outros dois que
marcam o inicio e fim do ciclo jesuitico-colonial das Miss6es, passam A
hist6ria com aureolas de santidade, a pr6pria lenda Ihes dd, como ao ill-
timo, o titulo pomposo de imperador das Miss6es. E por uma notavel co-
incidencia, ambos, afastados quase um seculo e mejo um do outro, tra-
zem o mesmo nome: Nicolau Neenguirti.






















CAPITULO II


REDU(gOES DO URUGUAI

1 Conquista spiritual do Uruguai. 2 Sao Nicolau
de Piratini. 3 Expansao da catequese jesuitica. 4 -
altimas reduV6es fundadas na provincia do Uruguai.

1 Conquista spiritual do Uruguai.

No primeiro quartel do seculo-XVII a fama dos jesuitas, que haviam
fundado as primeiras reduces do Paraguai, alastrara-se pelas extensas
gentilidades que povoavam a bacia do Uruguai. Na reducio de N. S. da
Encarnawio, de Itapua, em fins de 1619, estava o padre Diego de Bor6a,
varao apost61lico que foi, mais tarde (1634-1641), reitor de Assungao e
provincial do Paraguai, e alma da conquista spiritual do Uruguai e do
Tape.
Foi ao paire Bor6a que se dirigiram os indios do Uruguai, "pero
especialmente uno del mesmo rio, cacique principal", que solicitava "los
recebiessemos tambien a ellos por hijos y los ayudassemos y assi que
en complimiento desso les aueria yr auer a sus tierras" (1). Era este
"cacique principal" Nicolau Neenguirfi, largamente referido, que abria
assim as portas do Uruguai A catequese e A civilizacgo jesuitica.
Entre os operarios que mais se distinguiam, por suas qualidades
excepcionais, nessa vinha que o padre Bor6a cultivava, contava-se o padre
Roque Gonqalez de Santa Cruz, que, varias vezes, propusera ji se
dilatasse o ambito dos trabalhos apost61licos do Paraguai, a eles encor-
porando a vasta regido oriental do Uruguai, por onde se abriria caminho
para o mar Oceano.
Oportunissima a ocasiho para tentar o empreendimento projetado.
Voltando de uma excursio recebeu o padre Roque a noticia auspiciosa.
E aprestou-se "cornm grande fervor e espirito para a partida que foi
ontem, 25 deste (outubro de 1619), dia dos santos martires Crisanto e

(1) Anua do padre Bor6a de 16-X-1619. Mss. B. N. 1-29, 7, 9.





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David, dia alegre e felicissimo para esta extensa provincia do Uruguai
e para V. Rma. por cujo intermedio N. Senhor Ihes fez tdo insigne
beneficio e para o padre Roque, que 6 o primeiro a trabalhar nesta vinha
e para mim, cujos olhos se turvam, quando escrevo isto, pela ternura
que senate o coracao" (1) .
Depois da missa solene que o padre Roque cantou e das despe-
didas que todos Ihe levaram, beijando-lhe as mAos, sairam processio-
nalmente do povo, acompanhando o desbravador cristao, ate um riacho,
de onde, s6 em companhia de um menino, seguiu rumo ao Uruguai
desconhecido.
Em 8 de dezembro, depois de ter atraido muitos caciques e indios
das circunvizinhangas, "que Ihe vinham dar as boas vindas e dizer-lhe
se alegravam corn sua chegada", langou o padre Roque os fundamentos
da primeira reducio do Uruguai, a que deu a invocagqo de Conceigao,
a uma 16gua escassa da margem direita desse rio. Contava o padre
com 500 families de indios que, num perimetro de oito 16guas, se pode-
riam juntar, ou sejam aproximadamente 2.500 almas.
Em Conceicgo onde, antes de vadear o Uruguai e penetrar em
territ6rio de sua banda oriental, esteve o padre Roque seis anos, tendo
ao principio como companheiro o padre Alonso de Aragana, substituido,
mais tarde, pelo padre Diogo de Alfaro, notavel evangelizador das selvas
riograndenses e um dos martires, em 1639, do bandeirismo paulista.
Cercado de perigos, tendo contra si feiticeiros e selvagens que nao viam
corn bons olhos a intromissdo dos padres em suas terras, impondo-lhes
normas novas de vida, coagindo-os em sua liberdade native, passou o
padre Roque horas amargas que s6 sua her6ica tenacidade poude
suportar.
Foi nos filtimos dias de abril ou em principios de maio que, contando
corn a boa disposiqco dos tapes que demoravam sobre a margem esquerda
do Uruguai, conseguiu o veneravel padre transport o grande rio (2).
Muito contribuiu para esse resultado Nicolau Neenguirf, "capitan no
solo de aquel pueblo (Conceicgo) sino general de todo el Uruguai y
de toda la tierra del Tape" (3), a cuja prestigiosa propaganda se deve a
aproximagAo de caciques. como Tabacan, Guaracica e outros que domi-
navam as tribus a oriented do Uruguai.
Atravessou o padre Roque este rio, nas alturas da confluencia do
lbicui, onde nao encontrou povoag4o nenhuma de indios quer numa quer
noutra margem. E, por este rio, em uma canoa, penetrou 50 leguas e,
s6 depois desse percurso, chegou a primeira aldeia do cacique Tabacan,
um dos companheiros na entrada que fazia. Bern recebido, ganhou logo
a afeig~o dos selvagens, a quem distribuiu as missangas que trazia. E
foi ai que ergueu, em terras do Rio Grande, a primeira cruz, que os
pr6prios indios ajudaram a fazer e plantar, como simbolo da primeira
aldeia cristi que se erigia. Uma capela tosca, feita de pau a pique e

(1) Anua cit. 1-29, 7, 9.
(2) Padre Luiz Gonzaga Jaeger S. J. Os herois de Caar6 e Pirap6. Ed.
Globo. P. Alegre 1940, pag. 167.
(3) Anua cit. B. N. 1-29, 7, 36.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


coberta de palha, recebeu no seu altar a imagem de Maria Santissima,
sob a invocagdo de N. S. da Candelaria e, em breve, o padre dizia a
primeira missa que se rezou na terra missioneira.
Nao poude, porem, ai permanecer. Nomeado superior das novas
redug6es que se iam fundando, regressou o padre Roque a Conceicgo.
Voltava novamente ao Ibicui quando, em Reis (Japeji), pouco antes
fundada, soube que os indios comarcdos do Ibicui, tendo feito uma
grande junta, haviam dado sobre Candelaria e destruido a capela e
queimado a cruz. Animoso, nao obstante o perigo que corria, o beato
Roque retorna a redugdo e, "assim que cheguei ao porto, onde havia
comegado a redugco, mandei chamar os caciques vizinhos que logo
vieram, entire eles Tabacan, em cuja aldeia se cometera o sacrilegio,
e interroguei-o sobre o caso. Responderam-me que era verdade. Cen-
surei-os com severidade; mas eles se desculparam, alegando que aquilo
havia acontecido estando eles ausentes e long dali, pelo que, sendo
grande a multidao de indios malfeitores, podiam cometer a salvo o
delito" (1) .
Depois de agravar-lhes o cabo, declarando que nao mais voltaria
ao local em que se havia praticado tal insult, o padre Roque resolve
mandar chamar os caciques do Tape, para que o levassem as suas
terras, pois havia fama de ali existir muita gente. 0 pr6prio nome da
provincia estava-o indicando : "povoagao grande".
Tape era a dilatada regiao confinada pelas serras do mar e geral,
a entestar no alto Jacui e, pelo curso deste, ate se langar no mar, cf.
Mapa Etnografico. Ao principio, para atingir o Tape pelo Tebiquari,
afluente do Ibicui (2), levou o padre cinco dias e, mais tarde, entrando
pela porta natural da cordilheira, o Boqueirao (Serra de Santiago), a
distancia se reduziu de muito.
Atendendo A solicita(io do padre Roque acorreram varios caciques
do Tape, corn muita gente, ao seu chamamento. Estavam indecisos
quanto a entrada que o veneravel ap6stolo pretendia fazer em suas terras,
mas soube ele persuadi-los. E, assim, conseguiu que Ihe dessem rema-
dores para prosseguir por via fluvial a sua jornada, enquanto os caci-
ques, por terra, penetravam o Tape. De chegada ao porto, onde deveria
arribar a canoa, encontrou o jesuita um casebre ji feito, pois os indios
queriam evitar que os caciques de terra t dentro o hostilizassem, se ele
fosse acolhido na aldeia.
,"Acomodei-me corn eles naquele dia, diz o padre Roque. Mas, no
seguinte, depois de muitas persuas6es e (alegando) exemplos de outros
caciques, alcancei que me deixassem entrar em suas terras. Consen-
tiram-no ainda que com muito medo dos indios comarc6es e dos da
terra, os quais vieram depois para ver-me, trazendo seus filhos e
mulheres com muita afabilidade, e a todos os quais procurei ganhar e

(1) Carta do padre Roque. Cf. traducAo do padre L. G. Jaeger. Corn pe.
quenas variantes encontra-se este relat6rio. Mss. B. N.; Martires. J. M. Blanco;
Doc. Hist. Argentina, XX, 373; Calvo Recs. Compls. Parece mais exata, porem, a
c6pia existente na B. N.
(2) Pensa o padre Jaeger seja este o hodierno Jaguari, principal tributirio
do Ibicui,





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afeigoar as cousas d'e nossa santa f6; mas, por mais empenho que
fizesse, nao pude lograr que me deixassem ficar em suas terras. Toda-
via, eu estava fire, entretendo-os corn a promessa de ir-me embora
depressa, mas que isso nao havia de ser sem primeiro eu ter reconhecido
todas as suas terras e procurado sitio para em algum tempo "reduzi-los".
Isso mo concederam eles, e assim andei livremente por elas, embora
corn bastante dor, porque em todo o Tape nao se encontra posto para
reduzir nem sequer 200 families, que, como antigamente fosse muita
a gente, acabaram corn os matos e assim plantam entire cerros e pe-
nhascos e vivem em aldeolas, cujas maiores sao de cem indios".
Estava o ap6stolo empenhado em percorrer e observer a dilatada
provincia do Tape quando, quase ao voltar, soube que os indios "da
outra banda da cordilheira" (1), haviam feito uma junta em que se
conluiaram para dar sobre ele e rouba-lo. A essa noticia, sairam os
indios amigos, que o haviam trazido e conseguiram aquietar os suble-
vados corn a promessa de que fariam sair imediatamente o padre de
suas terras, impedindo assim o ataque projetado.
Mas tudo, trabalhos, riscos, privag6es, deu o padre Roque por
bemrn empregado. Era o primeiro jesuita espanhol que conhecera o Tape
e podia, agora, corn os elements de que dispunha, organizer um plano
geral de catequese da regido. Ao mesmo tempo desencantara-se o Ibicui,
sobre cuja region corriam fantasiosas noticias. Toda a terra do Uruguai,
observa, nao 6 mais do que uma provincia extensissima, que mede 300
leguas de comprimento por 100 de largura. "Porque, acrescenta, desde
o porto de Buenos Aires at& a nossa primeira redugAo de Reis (Japejf)
ha 100 16guas; desta ate a cordilheira que fica a 10 leguas mais acima
da reducio de Sao Nicolau (Serra geral), que 6 a filtima, ha 50 leguas,
e & a melhor de toda a provincia; logo seguem outras 50 de bosque
cerrado ate sair As planuras em direg2o a Guaira (o antigo Contestado
das Miss6es) e daqui aos confins do Brasil ha outras 100 leguas,
dando todas o nirnmero de 300".
Refere-se o padre Roque, corn detalhe, ao sistema hidrografico da
bacia do Jadui que se estende pelo Tape. Sao estes o Tebiquari, o
Cayyi e o Jai, corn Aguas vertentes ao mar. 0 Jai (Ai = Igai =Jacui),
& o principal e por ele, segundo lhe disseram os indios, entravam os por-
tugueses em navios pequenos, ficando os grandes em alto mar, a res-
gatar corn os indios. Traziam os portugueses roupas de pano, como a
que usava, que era feltro, e muitos chapEus, nome que em portugues
davam aos sombreiros.
E' falso houvesse a quantidade de indios que se dizia. No Ibicui,
principalmente, nao se encontram esses milhares que as falsas infor-
mag6es dos governadores consignam. Existem, ja reduzidos, 1.000
selvagens em Conceig5o, Sao Nicolau e Sao Xavier e mais 1.000 a
reduzir nos rios Piratini e Ijui acima ate a cordilheira do Tape (Serra
geral). Seguem-se 50 l6guas de mataria onde hA mais 3.000 indios

(1) Padre Jaeger. Os her6is, etc. de quem seguimos a tradugio, diz em nota
6, pag. 193 que essa cordilheira deve ser a Serra de S. Xavier, ou, talvez, corn maior
probabilidade a Serra de S. Martinho, que se estende entire S. Maria e Jaguari.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


que trafegam o Uruguai. Os ibiraiaras, que sao de lingua diferente da
do guarani, estio nessas serras e sao lavradores. Seguem-se logo os
indios que dizem do campo, abamiris homess pequenos), cujas terras
ndo viu nem a eles, mas 6 certo que sao muitos, o maior nfimero da
provincia, isto e, pouco mais ou menos, uns 10.000 que, corn os outros,
perfazem uns 20.000 indios lavradores.
Tragava, assim, o padre Roque, as linhas gerais da etnografia
dessa vasta region. E releva notar a exatidio de que se revestem as suas
informag6es. Mais tarde os nossos historiadores, induzidos por erro,
multiplicaram esses aborigenes, dando nomes bizarros de tribus e nao6es
inexistentes. E, tries seculos depois, procurando classificar os primitives
habitantes da antiga provincia do Uruguai, chegamos as mesmas con-
clus6es do veneravel sacerdote, encontrando somente os tries grupos
raciais a que ele se refere : tapes, ibiraiaras e abamiris (guaicurfis-do-
sul).
Esse relat6rio do padre Roque Gongales de Santa Cruz foi escrito
na reducgo de Reis (Japejfi, hoje San Martin) (1), e tern a data de 15
de novembro de 1627.

2 S5o Nicolau do Piratini

Foi Sao Nicolau do Piratini, praticamente, a primeira reducio fun-
dada pelo padre Roque que prosperou, pois vimos que a de Candelaria
(1.a), no Ibicui, destruidas capela e cruz pelos tapes, teve vida efemera.
A ela ja se refere aquele insigne missionario na carta referida, datando
a sua erecio de 3 de maio de 1626, data em que se celebra a InvenqAo
da Cruz. Estava assente sobre a margem sul do rio Piratini, perto de
sua foz no Uruguai. E Rego Monteiro, cujo magnifico trabalho sera
aqui citado a todo moment, pois esta profunda e saudosamente ligado
a pesquisas comuns (2), localiza-a, como provavel, a 28026' de lat. S. e
a 12024' Long. 0. Rio de Janeiro e, tomando por base a informagAo do
seu beato fundador que diz ficar ela a 40 leguas de Japejui, deduz, feita
a conversao dessa antiga media linear castelhana, que distaria 91
milhas, pelo rio Uruguai.
No ano seguinte ao da sua fundaqdo foi Sio Nicolau oficializada
pelo governador D. Francisco de Cespedes que a aprovou por ato go-
vernamental de 27 de margo de 1627. E ao mesmo tempo mandava Ihe
socorrer com 466 pesos m/c., subveng~o que se dava a cada uma das
reduc6es da provincia (3).
E' dai que se irradia e desenvolve por toda a parte o trabalho
initial de catequese. Entregou-a o seu fundador ao padre Afonso de
Aragona que logo se fez querer e respeitar pelos indios. Entre estes
sobressai o capitdo Anton Guaracica, cacique principal, que ira acom-

(1) Nasceu ai o general San Martin, em 23 de fevereiro de 1778.
(2) Jonatas da Costa Rego Monteiro As primeiras redug6es jesuiticas no
Rio Grande do Sul. Rev. Inst. Hist. R. G. Sul. 1. XIX, 15.
(3) B. N. Mss. Anua 1-29,3,3.





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panhar de perto todos os sucessos e nas horas boas e mas estar sempre
pronto ao servigo de Deus e da civilizagao de seus irmaos.
Sao Nicolau, que foi fundada com 280 families, prosperou grande-
mente, de sorte que, dentro em breve, contava corn mais de 500 families,
ou sejam mais de 2.500 almas. E como o trabalho era intenso e o padre
Roque, superior das reduq6es do Uruguai, era solicitado por outros ser-
vigos, foi-lhe dado como companheiro o padre Miguel de Ampuero a
quem ficou afeta a reducgo (1) .
Grandes atribulag6es para os padres e indios presidiram o inicio
da reduqio. Uma fome terrivel sobreveio em seguida, consequente da
nova organizacdo que se dava aos selvagens e do prepare das semen-
teiras, pois, imprevidentes e ociosos, nao guardavam viveres para subsis-
tencia comum, estando acostumados a prove-la individualmente corn a
caga, frutos, etc. Grande nuimero de indios, ainda nio catequizados,
moviam perseguiq6es aos amigos dos padres, procurando, assim, pre-
judicar os trabalhos de organizacao do povo.
Em sua Anua de 12 de novembro de 1628, o provincial padre
Nicolau Mastrilli Duran (2) da detalhadas noticias sobre essa funda-
(do : "0 padre Afonso de Aragona, pela confianga que conquistou
entire os indios, fez algumas entradas por terra, descobrindo gente bas-
tante e bom sitio para fundar outra reducgo, que nao principiou entao,
embora Iho pedissem os indios, por motivo de nao haver nenhum padre
para nela p6r. Quando cheguei afim de visitar essa reducgo, foi tal a
alegria de todos os indios que, forqando-me a noite a passA-la um pouco
long do povoado, gastaram-na totalmente em festas e regozijos que
atroavam os campos corn o estrondo de seus instruments. Pela manha
sairam todos a receber-me, e tao atropeladamente se atiraram a beijar-
me a mio, que me vi no perigo de ser sufocado no tumulto, se dois
padres que iam a meu lado nao os moderassem. As mulheres estiveram
sempre escondidas em suas casas; somente tres das dos caciques, pot
grande favor, sairam para me ver. Porque corn tanto cuidado as ocultam
os indios, e elas mesmas sao tao ariscas, que sempre se acham recolhidas
sem permitir que alguem as veja, ate que, pelo trato dos padres, vao
perdendo aquele acanhamento; e, nesta reducao, escreve-me o padre
Aragona, ja lhe consentem a entrada em suas casas e a visit aos enfer-
mos e enfermas, que ao comeco era um caro custo pela dificuldade corn
que o concedem".
E terminal o padre provincial Nicolau Mastrilli, que inuimeros sao
os trabalhos por que passa ali o padre Aragona, bastando referir que
s6 tern para alimentagao uma espfcie de feij6es e um pouco de charque
velho, que Ihe mandam de outras reduces e, quando nada tem, passa as
noites em oraqao continue, depois de trabalhar o dia inteiro.

(1) 0 padre Miguel de Ampuero, designado pelo governador D. Francisco
de CGspedes em 4 de julho de 1626 para companheiro do padre Roque, era "persona
de muchas letras, religion e pulpito, que ha asistido en este puerto", diz o gover-
nador. (B. N. 1-29,1,27). Natural da Espanha esteve em B. Aires e nas reduces
do Paraguai e Uruguai. Em 1636 era reitor do Colegio de Assunq5o.
(2) Anua aut6grafa B. N. 1-29,7,19. Traz no indice : "Este cuaderno es el
original de las anuas que tradujo y public el P. Jacobo Ranconier en 1636 em 8. le
falta s6mente el primer cuadernillo".





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Indo para o Paraguai o padre Aragona, foram nomeados para
dirigir a redugfo, que ja atingira a grande desenvolvimento, os padres
Adriano Crespo, Vicente Badia e Silverio Pastor. Os dois primeiros
sao depois retirados para outras redug6es e permanece all o filtimo a
que se vem reunir o padre Joio Batista Mexia. Em 1634, por ocasiao
da construgco do templo de Sio Nicolau, ali permanece o irmio Barto-
lomeu Cardenosa, notavel arquiteto jesuita, de que falaremos oportu-
namente.
Corn a invasio dos paulistas, em 1638, a reducio, que ja contava
corn mais de 4.000 almas, muda-se para a margem ocidental do Uruguai,
junto ao arroio Agarapucai, e dai para o povo de Ap6stoles, de onde,
em 1687, se traslada novamente, vindo fundar a 2.a redugco de Sao
Nicolau, no territ6rio dos Sete Povos, um pouco distant da primitive,
mas ainda ao norte do rio Piratini.


3 Expansio da catequese jesuitica

Fundada a primeira reducao de Sio Nicolau, ja confiada ao padre
Aragona, recebeu o padre Roque noticia de que ao norte do rio Piratini,.
em um post magnifico para estabelecer uma nova mission, havia
grande quantidade de indios que estariam dispostos a receber as se-
mentes do Evangelho.
Por este tempo havia sido designado para auxiliar o padre Roque,
em seus trabalhos apost61licos, o padre Pedro Romero, uma das maiores
expresses da catequese sul-americana *e cujo nome esta fortemente
vinculado A hist6ria das reduces do Uruguai e do Tape.
Em companhia deste penetrou o fundador aquela terra, send
recebidos por selvagens em armas, que procuraram hostiliza-los, mas tais
foram as raz6es-do padre Roque, que o cacique principal, Aguaraguavi,
mostrou-se disposto a auxilid-lo, convertendo-se a fe cristd. Era o lugar
conhecido por Caagapamini e ai, depois de aplainadas todas as difi-
culdades, fundou o padre Roque Nossa Senhora da Candelaria, a 2
de fevereiro de 1627, data em que a igreja celelrava a festa da Purifi-
cag o de Nossa Senhora.
Solicitado por outros trabalhos, deixou em Candelaria o padre
Romero, que ai ainda se encontrava quando foi martirizado o seu com-
panheiro, em Car6. Sabedores da noticia os candelaristas se congre-
garam para vingar a morte do padre Roque, no que foram obstados
pelas solicitag6es do padre Romero que s6 permitiu fossem eles reco-
Iher o corpo do martir, partindo dai 200 indios armados, sob o comando
do capitgo Mbacaba. Mais tarde, os indios de Car6, cornm Carupe a
frente, procuraram dar sobre Candelaria para matar o padre Romero
que, montando a cavalo, cornm dois ne6fitos, os espantou. Vieram, entio,
os indios que estavam nas chdcaras e depois de um combat puseram
em fuga os 300 indios de Car6.
101.306 F. 5





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Candelaria que estaria localizada, provavelmente, a 28032' de lat. S
e 11052' de Long. 0 do Rio de Janeiro (1), ficou a cargo do padre
Pedro Romero que iniciou logo os seus trabalhos de evangeliza(co.
Informa o padre Roque que em fevereiro de 1629 foram feitos os pri-
meiros batismos de criangas e adults, dos quais 176 pelo padre Roque.
Outros mais tarde, cabendo ao padre Romero batizar 498 catect(menos,
e os padres Alonso Rodrigues e Juan del Castillo 10 cada um. Foram
reduzidos ali 3.000 indios e dentro de pouco tempo ji se contavam os
seus moradores por 7.000 almas. Por ato de 28 de margo de 1628 era,
pelo governador D. Francisco de Cespedes, aprovada essa fundaco,
que vencia por ano 466 pesos.
Substituiu o padre Romero, logo destinado a outros trabalhos, o
padre Manuel Bertot. Em 1630 uma peste assolou a reducao. Por esta
ocasilo foram batizados 400 adults in periculo mortis e enterrados por
este padre 1.000 indios entire criancas e adults vitimados pela peste (2).
A este sucederam os padres Francisco de Molina e Juan de Salas que
muito trabalharam naquela vinha.
Em setembro de 1633 um grande incendio, que teve origem em
uma casa do povo, quase devorou a reduaio inteira. Na ocasiao um
padre dizia missa e, quando ouviu o alarma que o fogo produziu no
povo, nao quis interromper o oficio comegado, achando mais eficaz
pedir a intercessao da Virgem em socorro de sua reducio. E o fogo
que tentava envolver a igreja foi dominado dentro em pouco. Quatorze
.casas de indios foram reduzidas a cinzas, sendo elas as maiores e me-
Ihores da povoaaio (3).
Em 1636, ao receber a noticia da invasdo bandeirante no Tape, o
povo de Candelaria, para mais de 1.000 almas, tendo a frente o padre
Jose Domeneck, foi o primeiro a abandonar as suas terras, passando
para Itapua, alem-Uruguai (4).
Prosseguindo o seu intent de ampliar a agdo da catequese entire
os selvicolas riograndenses, o padre Roque, em conpanhia do padre
Juan de Castillo, se embrenha pelas selvas ao norte do Ijui grande,
na fralda da Serra e ai langa, em 1628, os fundamentos de Assuncio,
cuja localizagco provavel seria aos 27058', de lat. S e 12000' long. 0 do
Rio de Janeiro.
Era a regigo perigosissima para a atividade dos padres, pois era
all a estancia de Nhecum, celebre cacique e feiticeiro que foi o chefe da
conjuragco em que pereceram depois como martires o padre Roque e
seus companheiros.

(1) Rego Monteiro. Op. cit.
(2) Padre Manuel Bertot Visita y testemonio de las reduciones de Guaira,
Pirap6 e Paranapand B. N. Mss. 1-29,1,52.
(3) Anua da Candelaria Padre Pedro Romero, S. J. B. N. Mss. 1-29,7,25.
(4) A prop6sito dessa precipitada fuga, diz o padre Diego de Bor6a "que las
reduciones de Candelaria e de los Martires uiendo su peligro (si bien que no era tan
proximo como de otras reduciones) se mudaran en este tiempo a el rio Parana" etc.
B. N. Mss. 1-29,1,66.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


0 erudito historiador dos Her6is de Caar6 e Pirap6 (1), diz que
foi com os fundadores de Assuncao o indio Felipe Yaguacabai, carpin-
teiro de S. Nicolau, e o joven Francisco Nhequm, que seria o cozinheiro
do padre Castillo. Cita a Anua do padre Ferrufino, cujos t6picos
transcrevemos : "Escolheu o padre Roque ou melhor a mdo divina, para
a nova redugco (Pirap6) ao padre Juan del Castillo, e assim os dois
partiram a tomar posse em nome de Jesus Cristo, pondo o titulo de
seu glorioso estandarte nas terras de Nhequm. No dia da Assuncgo
de Nossa Senhora, 15 de agosto de 1628, que deu nome aquele povoado,
viram aqueles campos os raios do Evangelho, levantando o sagrado
trof6u das gl6rias de Cristo e consagrando-os corn o santo sacrificio
da missa". Levaram os padres muitas cunhas e distribuidas pelos indios
logo estes trataram de fazer as suas chacaras e as sementeiras, de sorte
que em breve a reduqco se apresentava florescente. Por algum tempo
ficou ainda ali o padre Roque, n5o s6 cuidando de aplainar dificuldades
que surgiam, como dando ao pr6prio padre Castillo os melhores exemplos
da sua abnegavdo e virtudes.
Corn a morte do padre Juan del Castillo essa reducgo foi abando-
'nada, pois as anuas posteriores nao mais se referem a ela.
A ideia da fundacao de Car6 (2), que dominava a vasta regiao
que se estende entire os rios Piratini e Ijui, ja ocorrera ao padre Roque
mesmo antes de langar os alicerces da reducgo de Assunqio. Estabe-
lecida a reducgo de Candelaria, que distava umas seis 1kguas daquela
regiao, isto e, do Campoo rodeado de matos e pequenas aldeias", a
que particularmente se dava essa designagco havia o veneravel desbra-
vador das terras missioneiras recebido continues visits de car6guaras
que solicitavam levassem os jesuitas ate aquele post a cruz civilizadora
de Cristo.
Convidou-os o padre Roque a irem se estabelecer em Candelaria,
ao que nao anuiram os caciques, pois nao queriam abandonar as suas
terras onde, insistiam, desejavam ter um povo cristdo. Vendo, pois, o
santo padre Roque, informa o padre Pedro Romero, tao boa disposiaio
na gente de Car6, nos levou consigo, a mim e ao santo padre Afonso
Rodrigues para que vissemos o sitio e a disposi~io da gente e a todos

(1) P. L. G. Jaeger. Op. cit. Corn ressalvas nossas quanto a grafia de Car6,
pelas raz6es expostas na seguinte nota.
(2) Em sua "Conquista Espiritual" (ed. Bilbau, 1892, 227), diz o padre
Antonio Ruiz de Montoya, que "cerca de le reduction de la Candelaria (que atras
dejamos) habia un cacique llamado Cuarobay, ganado corn dadivas de poco valor,
la voluntad de aqueste facility la entrad del padre a su tierra, llamada Car6, que
quiere decir Casa de avispas, que aun el nombre del lugar concorri6 al dichoso hado
de los padres; casa de auispas fud, pues con sus aguijones apresuraron el paso A la
corona". Os que pretendem se grafe o atimo pela forma Caar6, queriam ver, nessa
regiao, grandes bpsques de erva-mate native, amarga, (caa = erva-mate e rob = amar-
Va). Em estudo exhaustive sobre o assunto (Jornal do Comercio Rio julho 1934)
coube-nos provar que nessa regiao jamais houve erva-mate native e, portanto, os
Indios sempre precisos em sua nomenclatura nao Ihe teriam dado uma designagao de
cousa inexistente. Car6 (cab = vespa e r6, casa) provavelmente significando grandes
lechiguanas ali encontradas pelos indios, 6 a grafia certa e assim se deve escrever, nao
s6 em atenoao a verdade hist6rica, como pela just significagao do term. Persistir em
erro concientemente prejudice essa verdade que deve ser o escopo da hist6ria e a sua
pr6pria razao de ser.





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nos pareceu que era quanto se podia desejar. E para a gente que ali
se reuniu afim de ouvir a nossa palavra, marcou o santo padre um lugar
onde deviam fazer uma choupana com dois langos : um que servisse
de capela e outro para sua pr6pria vivenda (1).
Foi a 1 de novembro de 1628 que o padre Roque Goncales de
Santa Cruz, em companhia do padre Afonso Rodrigues, demandou a
regiio de Car6, onde ia fundar a redu~co. Caminhava para o marco
terminal das suas grandes atividades apostolares que deveriam ser coroa-
das pelo martirio.
Rego Monteiro localizou Car6 a 28026' de Lat. S. e 11032' de Long.
0. do Rio de Janeiro, com cujos elements o padre Jaeger poude de-
terminar essa redu4co na posicgo exata de 28026'01"1 de Lat. S. e
5441'56"3 de long. 0 de Greenwich que coincide perfeitamente corn.
as indicag6es daquele saudoso companheiro de pesquisas, e insigne histo-
riador da Col6nia do Sacramento.
No dia seguinte, 2 de novembro, dia de Todos os Santos, foi
erguida a cruz que marcava a nova redu4co. Deu-lhe o padre o nome
de Todos os Santos do Car6, ou Mirtires, sendo seus oragos os tries
martires da Companhia no Japdo : S. Paulo Miki, S. Joio de Goto
e S. Diogo Chisai, que haviam sido pela igreja beatificados no ano
anterior.
Nos dias seguintes, ate 15 desse mes, data em que foi martirizado
juntamente corn Afonso Rodrigues, o padre Roque nao descangou um
instant na faina de fazer da redu4Ao uma povoag~o modelar. Coin
o auxilio dos indios, ergueu uma capelinha modest para a celebra;io
dos oficios divinos. Entre as cousas que levara estava um pequeno
sino para chamar A prece os catectrmenos. E jA havia providenciado
para erguer o campanirio em um poste de madeira corn o comprimento
de 17 metros que, no dia anterior, festivamente, os indios haviam trans-
portado para a praga, de um mato pr6ximo.
Foi na ocasido em que, inclinado sobre o pau, amarrava uma corda
ao badalo do pequeno sino que um escravo do indio CarupE, de nome
Maragua, a um sinal daquele, desfechou sobre a cabega de Roque um
golpe de itaifg. Outro indio tambem desferiu-lhe mais uma pancada.
E o padre, sem um gemido, teve morte instantanea, terminando, assim,
as suas gloriosas atividades apostolares, regando com seu sangue, ma-
gnifica semente, a terra que conquistara para Deus. Com o alvoroto
que se produziu o padre Afonso Rodrigues acorre ao local em que jazia
morto o padre Roque, mas, mal poude dar alguns passes, pois sobre
ele se atiram os indios conjurados, o arrastam, desferindo-lhe golpes
sobre golpes ate o prostarem tambem sem vida, pouco distant do com-
panheiro martirizado.
Mortos os padres, entregaram-se os selvagens ao saque da capelinha,
dividindo entire si as pobres alfaias que nela havia e ainda ate as vestes
dos padres que cortaram em pedagos. Depois queimaram a capelinha e
a casa dos padres. E sobre a fogueira deitaram tambem o corpo do

(1) J. M. Blanco Hist. documentada. 469. Cf. trad. padre Jaeger. Os
her6is 236.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


veneravel padre Roque que, mal queimado, depois retiraram dali para
abrir e tirar-lhe o corawio. Cravam-no de setas e novamente o atiram
ao fogo. E E esse coragio que, salvo mais tarde, fica como reliquia,
sendo ate hoje venerado. Foi, mesmo, ha pouco, trazido de Buenos
Aires, onde se encontra, e pelas mios de seus devotos, percorreu as
terras do Rio Grande, desde Car6, onde foi ereta uma capelinha em
seu louvor.
A conjuragio para matar os padres, que tinha como chefe o cacique
Nhequ, alastrou-se, depois desses acontecimentos. EmissArios deste
sairam em demand do padre Juan del Castillo que estava em Assuncao
do Pirap6. No dia 17 de novembro, depois de o agredirem a golpes de
itaida, ferindo-o no rosto, amarraiam o joven sacerdote a uma corda de
cip6. E o arrastaram, assim, durante largo tempo, numa distancia de mais
de quatro quil6metros. No trajeto, indios que acompanhavam, desferiram-
ihe infimeros golpes com pedras agudas, crivando-o de feridas de que
o sangue escorria.
Mortos os padres, resolveram os indios dar sobre as mais reduc6es,
afim de destrui-las. Chegaram mesmo a Sio Nicolau, onde estavam
os padres Afonso de Aragona e Francisco Clavijo, que ali dirigiam a
reducio. Conseguiram deitar fogo na igrejinha coberta de palha, que
nao puderam queimar e, ante a resistencia que encontraram dos mocos
selvagens que ali se encontravam, desistiram do intent, voltando a Car6.
C&lere correu a noticia pelas reduces da outra banda do Uruguai.
Os padres Diogo de Alfaro e Tomaz de Urefia, que assistiam em Concei-
cao, convocaram os caciques principals do povo para socorrer os nico-
laistas. Apresenta-se, entao, D. Nicolau Neenguirfi, o piedoso amigo
dos jesuitas, que resolve organizer um contingent de indios guerreiros e
a frente deles segue para S. Nicolau corn o intuito de castigar os suble-
vados. Foram estes em nimero de 200. Tambem na Candelaria onde
estava o padre Pedro Romero haviam aparecido varios indios de Car6
e Pirap6, em attitude agressiva. Foram, porem, detidos pelos catecime-
nos e pelo padre Romero que corajosamente os enfrentou.
A forga de Neenguirfi segue ate o Pirap6, onde era a aldeia de
Nhegfi. Como auxiliar estrategico vem o irmio Antonio Bernal que,
quando secular, estivera em vArias campanhas e que, mais tarde ainda,
encontraremos opondo-se a invasio bandeirante. Em companhia do
padre Clavijo que fora solicitar recursos em Corrientes, vai ate as redu-
;6es o capitio Manuel Cabral de Alpoim, portugues (1), opulento
fazendeiro da regigo que leva consigo alguns soldados espanh6is. E a
Alpoim 6 confiado o comando da expedicqo. Da-se o choque corn os

(1) Entre o grande nfimero de portugueses, provavelmente judeus que estao
entire os primeiros povoadores de Buenos Aires, conta-se Amador Pais de Alpoim,
natural da freguesia de Santa Maria, da ilha Terceira, e filho de outro de igual
nome e de D. Isabel Vella. Era casado corn D. Margarida Luiz de Cabral tambem
natural da mesma ilha e filha legitima de Matias Nunes Cabral e neta de Nuno
Lourenqo. Teve o casal vArios filhos, entire os quais Manuel Cabral de Alpoim, nascido
na ilha Terceira e que foi para Buenos Aires corn oito anos de idade. Manuel Cabral,
que teve larga atuagao em varios sucessos das redug6es e, especialmente, na resistencia
aos bandeirantes, havia ocupado postos de destaque, como alcaide da Irmandade,





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indios conjurados aos quais foi inflingida terrivel derrota. Muitos foram
mortos, sendo press os principals assassinos dos padres. E assim ficou
pacificada aquela region.
Depois destes acontecimentos Car6 foi abandonada pelos jesuitas
e, mais tarde, restabelecida. 0 ato do governador C6spedes, que reco-
nhece a reducio dos Tres Martires do Japdo de Car6, tem a data de
23 de julho de 1630. Em sua segunda fase vio dirigi-la o padre Joseph
Oregio que tern como auxiliar o padre Jeronimo Porcel.
Anos terriveis teriam de passar os caroenses. A fome devastou as
populaq6es. A peste dizimou muitas almas. S6 em 1633 tiveram algum
desafogo. Neste ano foi tambem para ali o padre Pedro de Espinosa, que
ensinava o catecismo. E o fruto foi exc~elente, pois batizaram-se 880
adults e 343 infants. Recebiam os selvagens com boa disposicio os
ensinamentos dos padres, de sorte que muitos, alem das praticas reli-
giosas, haviam deixado muitas de suas mulheres, casando-se corn a que
preferiam. Em 1633 foram assim realizados 400 casamentos.
Quatro anos depois, por ocasigo da invasdo bandeirante, Car6 foi
abandonada e seus indios, conduzidos pelos padres Porcel e Pasqual
Garcia, passaram o Uruguai, localizando-se na reduqao de Corpus.

4 Ultimas redug6es fundadas na Provincia do Uruguai.

Sao Carlos do Caapi foi fundada pelos padres Pedro Mola e
Felipe Viveros em principios de 1631, e em 23 de agosto deste mesmo,
ano era reconhecida e aprovada pelo governador D. Francisco de Ces-
pedes. Segundo Rego Monteiro, estava localizada no atual Campo de
Santo Cristo, ao norte da povoacgo de Santo Angelo nas fraldas da serra,
ao norte do Ijui grande, sendo suas coordenadas provaveis 28028' lat. S.
e 100 43' Long. 0. do Rio de Janeiro.
Estava o povo ao principio em lugar ameno e aprazivel A vista, mas,
muito castigado pelos ventos que sopravam corn tal intensidade a ponto
de destruir as casas dos indios e uma vez mesmo levou pelos ares o teta
da igreja, que era de palha. 0 frio tambem era intense e isto fazia corn
que os indios abandonassem o povoado, fugindo constantemente. Des-
coberta que essa era a causa da desercgo, foi a reduqco mudada para
posto mais abrigado e logo voltaram todos os indios, construiram a igreja
e as suas casas e ficaram contentissimos em sua nova situagqo.
Muito devia a prosperidade em que se encontrava o povo ao antigo
cacique, ora capitao, chamado Apicabiyia "indio terrivel e mui temido

em Buenos Aires, e mais tarde, indo residir em Corrientes, onde foi grande accionero,
foi ali tenente de governador da Provincia, e mestre-de-campo-general. Casou pri-
meiro corn D. Inas Arias de Mansilla, descendente de Hernandarias e, por morte desta,
corn D. Juana Delgado de Espinosa, filha de conquistadores. Foi criador de infinite
gado e o maior terratenente da provincia. E faz parte desse gado, adquirido pelos.
jesuitas, o primeiro rebanho que entra no Rio Grande do Sul e constitute a riqueza
pecuaria da terra. (V. sobre os Alpoim R. de Lafuente Machain Los Portu-
gueses en Buenos Aires. 125, 126, 127, 128).





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


entire eles por sua eloquencia e valentia. Anteriormente havia ameaqado
o padre porque queria Ihe tirar as suas mancebas, mas, por fim, chegou
a sua hora e de ledo se fez manso cordeiro, pedindo corn muita instancia
o Santo Batismo, porque, dizia, queria ser filho de Deus. E o padre,
conhecendo seu bom coracao, o batizou e casou as suas mancebas, que
eram sete ao todo, e ele tomou sua pr6pria e verdadeira mulher, que era
uma velha e corn a graga de Deus poderosa para realizar estes milagres,
deixou totalmente as outras, alias mocas e de bom parecer, particular-
mente uma que ele havia criado desde crianga e queria com extreme,
tendo dela um filhinho de um ano" (1). E isto contribuiu muitissimo
para firmar no povo a moral cristd que os padres pregavam.
0 exemplo serviu para abrir a porta dessa reduao a outros indios,
entire os quais seis caciques de que se destacava o afamado cacique
Jandeya que se converted e foi para o povo fazer as suas sementeiras.
Havia na igreja a image de Sao Carlos devida ao pincel do insigne
artist irmdo Luiz Vergel que foi colocada no altar com muito gosto e
alegria de todos.
Em 1636 foram nomeados para dirigir o povo os padres Pedro
Mola, Diogo Ferrer e Nicolas Inicio e tinha ja a reducgo mais de
6.000 almas quando, em 1638, foi destruida e abandonada, pela ago
deshumana das bandeiras paulistas.
A redugco de Santos Ap6stolos Sao Pedro e Sao Paulo, de Caqa-
paguassi, 6 dada por Teschauer e Rego Monteiro como tendo sido
fundada em 1633. Pode-se, entretanto, recuar essa data para 1631, pois
que o ato de 23 de agosto desse ano, do governador CGspedes jA apro-
vava a sua fundagio. Teria as coordenadas provaveis de 28028' de Lat.
S. e 1106' de Long. 0. do Rio de Janeiro, deduzidas pelo provecto
Rego Monteiro, da carta de Carrafa. Estaria, assim, situada entire os
Ijuis, grande e mirim, nas pontas da coxilha que divide as aguas desses
dois rios.
A anua referida do padre Romero da varias noticias sobre essa
povoaco. Em 1633, por falta de operArios, ali estava somente o padre
Adriano Crespo, de saude escassa e cheio de achaques. E a regido era
bastante trabalhosa porque ali vivia o celebre feiticeiro Ibapiri, que muito
prejudicou a catequese. Morto este, melhorou a situacio e os indios
livres de sua influencia chegavam aos poucos para receber a palavra de
Cristo. Assim, em pouco tempo, ja podia contar a povoacao corn 600
almas de batismo, das quais 200 criancas.
Era o padre Adriano o medico do povo. Acudia a todos com no-
tavel zelo e caridade. Do que tinha para si distraia a maior parte para
fazer remedios e beberagens corn que curava a muitos enfermos, sofrendo
as suas impertinencias e bobagens pelas quais sdo mais facilmente cura-
dos, porque, nao aturando os remedies que Ihes dio, ou aplicag6es que
fazem, as tiram, embora vejam claramente que Ihes causam bem. Nao se
absteem de cousas nocivas a sua saude, nem os de casa se atrevem
negar o que pedem ; se precisam ter resguardo, nao se conformam.

(1) Anua do padre Pedro Romero, superior. B. N. Mss. 1-29,7,25.





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Assim 6 mister muita paciencia para cura-los. Teve-a o padre Adriano
e conseguiu cura-los corporal e espiritualmente, pelo que foi sempre
muito querido pelos indios (1).
Em 1636 foram tomar conta da reduco os padres Jose Oregio,
Luiz Ernot e Francisco Ximenes. Em 1638, atemorizados ante o avanco
paulista, foi essa redugo abandonada. Tinha, ela, entio uma populacao
superior a 3.000 almas.


(1) Anua 1633. B. N. Mss. 1-29,7.25.






















CAPITULO III


REDUgOES DO TAPE

1 Penetraggo jesuitica no Tape. 2 Redug5es do
alto Ibicui. 3 Redug6es da bacia do Jacui. 4 Mar-
tirio do veneravel padre Cristovwo de Mendoza. 5 -
A "Junta" dos feiticeiros.

1 Penetragao jesuitica no Tape

A dilatada provincia do Tape, desde as primeiras horas da pene-
tracqo jesuitica em territ6rio aquem-Uruguai, tinha sido uma das maiores
preocupag6es desses abnegados caqadores de almas. Dadivosa e fertil a
terra, que se estendia ate o mar, era cortada de rios que constituiam
um sistema hidrografico que a tornava apta para a exploraqio exten-
siva da agriculture e da pecuAria ; de condiq6es orograficas que a cir-
cunscreviam entire altitudes e depresses de climas variados e amenos ;
de vasta extensdo de campos corn excelentes pastagens que corriam para
o sul desde os contrafortes extremados da Serra, e de matarias virgens
alcandorando as serras e bordando as margens dos rios que, ora se
despenhavam em quedas fortes dos altos desniveis do planalto, ora, des-
lisando suavemente, espraiavam-se em vArzeas extensas pelas planuras
fecundas.
Alem da disposicgo geofisica que singularizava a terra, o home
que nela habitava seria, trabalhado pela catequese, umn 6timo element,
n2o obstante a sua incapacidade native para o trabalho. Pequeno ndo
seria o esforgo para adapti-lo A civiliza(go crista, mas o resultado com-
pensador das primeiras tentativas induziu os padres a tenti-lo, corn a
coragem caracteristica que sempre singularizou a sua aao.
Em 1626 ja o padre Roque Goncalez, atraido pela fama do Tape,
entrara pelo rio Ibicui, depois de um percurso de 40 leguas, ate a aldeia
de Tabacan, cacique poderoso daquela regiAo. E ali, como vimos, lancou
os lineamentos da reducio de Candelaria, a primeira, logo destruida por
selvagens vizinhos que nao queriam aceitar o dominion da Cruz. 0 su-
cesso s6 serviu para dar mais animo ao heroico evangelizador, pois,





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voltando ao Tape, conseguiu o levassem terra a dentro ate Itayasaco
onde, mais tarde, o padre Cristovio de Mendoza funda Sao Miguel, nas
proximidades da hoje cidade de Santa Maria.
A tragedia de Car6, em que perdeu a vida, nao permitiu realizasse
o ap6stolo a aspiracgo de expandir a catequese e fixar marcos de civili-
zagdo cristd ate o Tape longinquo. Coube aos seus sucessores, principal-
mente um de seus discipulos e companheiro de trabalho, o veneravel
padre Pedro Romero, quando superior das Miss6es, a tarefa de levar a
afamada provincia a avao benfaseja dos inclitos soldados de Cristo.
Em um depoimento do padre Manuel Bertot, um dos desbravadores
do Tape, encontra-se a noticia do dia exato em que, sob a diregio do
padre Pedro Romero, os padres Luiz Ernot e Paulo Benavides, por via
fluvial e os padres Cristovao de Mendoza e Manuel Bertot, por terra,
encontraram-se na aldeia do cacique Guaimica, ponto inicial da cate-
quese do Tape. "Foi servido Nosso Senhor, dep6e o padre Bertot, abrir
a porta da extensa e povoada provincia do Tape a seu Santo Evangelho,
na Serra que corre ate o mar, cerca de cem leguas, a qual me levou o
veneravel padre Pedro Romero, superior que era das Reduc6es. Entra-
mos nela a 13 de junho do ano de 1632, e achamos, na outra banda da
Serra, nos campos que correm ate Buenos Aires, cerca de 150 16guas,
um povo de 400 indios juntos, ao qual nao faltava senao igreja e
cruz" (1).
Ate fins do ano 1631 poucos eram os sacerdotes de que dispunha
a Companhia, corn as condic6es exigidas para os trabalhos de catequese
no Uruguai. Alem das condicoes morais e de comprovada abnegaqgo,
resistencia fisica e outros atributos indispensaveis ao bom desempenho
da missdo, mister se fazia que fossem "buenos lenguas, y experimen-
tados en el ministerio de los indios, personas doctas y de toda satis-
facci6n".
E isto s6 foi possivel quando, destruida a provincia de Guaira pelos
mamalucos de Sao Paulo, nove padres, tendo a frente essa compleihao
formidavel de ap6stolo que foi o padre Antonio Ruiz de Montoya,
desceram corn seu povo no exodo de 12.000 almas, Parana abaixo,
sofrendo as maiores provag6es, foram ate o Paraguai onde se localiza-
ram. Alem do pr6prio Montoya outros missionarios insignes virao
regar corn seu suor aquela vinha promissora. Recebe-os o Tape em
que se multiplicam as povoaS6es. Ha, entire esses homes fadados ao
trabalho e ao martirio, figures gloriosas que ficam circundadas de halos
impereciveis de santidade. Os novos operarios sdo os padres Simio
Maceta, Paulo Benavides, Luiz Ernot, Pedro Mola, Jose Cataldino,
Jose Domenech, Pedro Alvarez e Cristovao de Mendoza. Veteranos
de Guaira, trazem ainda no coraqio o travor dos dias dolorosos, da
destruigio, dos incendios, das mortes e da escravizaqAo do povo guaire-
nho, e dessa formidavel migrag(o para a liberdade que, fugindo ao
barbarismo dos bandeirantes, grande parte dos indios foi encontrar na
morte.


(1) Visifa e testemonio cit. B. N. Mss. 1-29,1,52.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Sao estes os desbravadores do Tape. Penetram pelas serras, nave-
gam pelos rios, transp6em o Jacui, o Guaiba, o rio Pardo, o Taquari, o
Antas, e palmilham a terra em todas as direg6es e vio levar a cruz re-
dentora a todos os seus quadrantes. Surgem pelas aberturas das flo-
restas, cavalgam pelos campos de coxilhas dobradas, sobem as escarpas
do planalto, baixam as profundas depresses das valadas verdes e, por
toda a parte, condutores formidaveis da vontade do Senhor, deixam um
traVo de bondade, um raio de fe, um cintico de louvor ao Criador
Supremo e, muitas vezes, ali ficam, olhos postos no cEu, coroados pelo
martirio, glorificados pela santidade de uma vida exemplarissima de
virtudes e de uma morte de inigualaveis torturas.

2 Reduc6es do Alto-Ibicui

As redug6es do alto-Ibicui, fundadas ji na provincia do Tape, foram,
por ordem cronol6gica :
a) S5o Tome. Foi, como se disse, a 13 de junho de 1632, que o
padre Pedro Romero, superior das reduc6es do Uruguai, corn os padres
Manuel Bertot, _Luiz Ernot a que vieram se reunir os padres Cristovao
de Mendoza e Paulo Benavides, o inico portugues que trabalhou no
Uruguai, chegaram ao rio Jacuzinho, afluente do Jaguari, em cuja
margem direita levantaram cruz. Ficava ai o povo de 400 almas, a
"quienes no faltava sino iglesia y cruz", a que se refere o padre Bertot.
Erguida esta, que tinha 40 pes de altura, naquele mesmo dia batizava-se
Sao Tom(, a primeira redugco da provincia do Tape.
Localiza-a Rego Monteiro na lat. de 29022' S. e Long. 0. Rio de
Janeiro de 11034'.
Informa o padre Bertot no Testemonio citado. que "no primeiro
ano da reduwgo de Sao Tom( reduziram-se outros 400 indios e nos
anos seguintes mais, de sorte que o povo atingiu a 1 .400 e mais families
e entraram para a escola 900 criancas". Batizaram-se naquele povo
mais de 3.000 almas. A reducio ficou ao cuidado do padre Luiz
Ernot que batizou outras mais, bem como seu companheiro padre
Bertot.
A anua do padre Romero, referente a 1633, da-nos preciosos
informes sobre as atividades apost61licas desses dois padres, naquele
nficleo inicial do cristianismo no Tape, designagAo vetusta da pr6pria
aldeia (Tape = cidade grande), de onde se irradiaria pela provincia
dilatada, numa expansio notavel, a catequese jesuitica.
Antes do segundo ano da fundagio, Sao Tom6 ja contava corn
cerca de 1.800 habitantes. Haviam-se realizado 70 casamentos, resultado
acima do comum, tendo em vista a dificuldade que sempre se encontrou
em convencer os indios a abandonar as suas muitas mulheres e entrar
no regime da monogamia.
Entre os muitos indios que se batizaram refere-se a Anua a um
capitfio velho e cacique principal do povo, ao qual sendo' perguntado
pelo nome que queria adotar disse que Ihe dessem o de Roque, em
louvor do padre Roque, que ali estivera por amor deles.





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Um dos primeiros cuidados dos padres foi organizer uma orquestra
e ensinar o canto aos indios, entire os quais um revelou tais aptidoes que
em pouco tempo era escolhido para maestro.
Duas provag6es crueis estavam destinadas a reduzir de muito a
populaco da incipiente aldeia. A primeira foi a peste que dizimou
grande parte do povo, pois morreram, por essa ocasido, 770 criancas
e 160 adults. Seguiu-se-lhe uma praga de tigres. Irrompiam de todos
os lados, atacavam a redu(co e vinham cevar-se nos pobres indios
que devoravam as dezenas. Isto sucedeu por duas vezes, o que deu
margem a que fugissem muitos selvagens que recairam nas prdticas
pagas.
Em 1638 foi Sao Tome, corn receio das incurs6es bandeirantes,
mudada para a margem direita do Uruguai, quase em frente a atual
cidade de Sao Borja.
b) Sao Miguel. Dias depois da fundacgo de Sao Tome, ainda
no mes de junho de 1632, dai seguiu o padre Romero em companhia
dos padres Cristovao de Mendoza e Paulo Benavides para langar os
fundamentos da reducao de Sao Miguel, que distava daquela treze
l6guas. Ficaria (cf. Rego Monteiro) a margem direita do rio Ibicui,
proximidades da atual vila de Sao Martinho, na serra do mesmo nome,
sendo suas coordenadas provaveis 29o32' Lat. S. e 10040' Long. 0. Rio
de Janeiro.
0 lugar em que foi fundada S. Miguel era conhecido dos indios
pela designaqio de Itaiacec6. Era uma grande aldeia que poderia
congregar umas 5.000 almas da regiao que abrangia, gente docil e de
boa condigio, pronta a receber a semente do evangelho. Edificada a
igrejinha, de pau a pique,' de que os pr6prios indios se encarregaram,
sob a direqgo do padre Cristovao, em poucos dias poude este iniciar
as suas atividades. Um ano depois de sua fundacgo, Sao Miguel ja
contava corn 843 .catecimenos batizados, sendo 408 adults e 435
criancas. Morreram nesse period 95 pessoas.
Alguns maus elements vieram, dentro em pouco, perturbar a har-
monia da povoaqgo. "Um destes, que estivera entire os matadores do
padre Juan del Castillo, quando soube da chegada do santo jesuita,
fugiu para os matos e ali se ocultou, temeroso de castigo. Sabendo
disto, o padre Cristovio, embrenhando-se na mataria, conseguiu encon-
tra-lo e, corn boas falas, lhe fez ver a bondade d'o Senhor que perdoava
aos que se arrependiam. 0 indio voltou para a reduco, recebeu o ba-
tismo e viveu cristimente. Outro, que nio foi passivel de emenda e
que se chamava Tayubai, feiticeiro e inimigo dos padres, apareceu em
Sio Miguel quando a reduco ji florescia, procurando destruir a obra
da catequese. Dizia-se Deus e que a seu mando desencadear-se-iam
pragas terriveis sobre o povo, se este nao abandonasse os padres que
destruiam os velhos habitos da vida livre dos selvagens. Capturado
por indios cristdos, foi levado A presenoa do padre Cristovio que, para
desenganar os que acreditavam no feiticeiro, teve-o um dia preso,
mandando, em seguida, saisse da povoagao. Tayubai foi para a terra





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de Ibia, onde, um ano mais tarde, promove a conjuraqio de que resultou
a morte do padre Cristovio" (1).
Era cacique principal de Sao Miguel o capitio Guaimica, que se
singularizou pela sua dedicaqio A catequese de seus irmros e pela bra-
vura e resoluciao pronta em todas as ocasi6es em que foi necessario
sair a frente de forcas em defesa das reduces, como se deu na ocasiio
da invasio bandeirante e outras.
Solicitado para novas fundac6es e outros trabalhos de penetradio
no Tape o padre Cristovio deixou a reducao que havia fundado, sendo
substituido ao principio pelo padre Benavides e depois pelo padre
Manuel Bertot. Ali, em 1638, estava o padre Oregio, retirante de
S. Ana, assolada pelos mamalucos, e se dispunha a encaminhar o
povo para o Uruguai quando, distanciando-se dos vaqueanos, perdeu-
se na floresta, onde esteve por alguns dias sofrendo as maiores privac6es.
0 povo de Sao Miguel emigrou para Conceigio, na margem
direita do Uruguai, donde voltou, em 1687, para fundar a segunda
Sao Miguel.
c) So jose. Informa o padre Bertot, no Testemonio citado que
"a sete leguas de Sao Tome, caminho de Sao Miguel, fundou-se a
redugdo de Sao Jose, alguns meses depois da de Sao Tome, e porque
nao havia padres o padre Luiz Ernot e eu procuramos reduzir os indios
comarcios naquele posto; fizemos igreja e casa, indo alternativamente
cada mes, batizar os criancas e, quando avisados, os enfermos. Ai se
reduziram perto de 400 indios e continuamos corn essa tarefa at& que
o padre Jose Cataldino foi encarregado do curato daquele Povo" (2).
Ficava Sao Jose (cf. Rego Monteiro) a margem direita do Ibicui,
entire o Toropi e o Jaguari, na encosta da coxilha de Sao Xavier.
Tinha as coordenadas provaveis de Lat. 29036' S. e Long. 0. Rio de
Janeiro 11016'.
Cansados estavam os indios ha quase um ano ja aldeados e so-
mente recebendo a visit peri6dica dos padres de Sao Tome, e por
isto resolveram mandar seus caciques ao superior que sabiam andava
em viagem pelas reduces, afim de Ihe pedir designasse um padre
efetivo para sua aldeia. Encontraram em caminho o padre Cataldino,
especialmente mandado para cura de Sao Jose, e festivamente o levaram
A sua aldeia, depois de passarem por Sao Tome, onde os esperava o
capitio e mais autoridades do povo.
Quando o padre Cataldino entrou na aldeia, achou ai ji cons-
truida uma igreja com capacidade para a gente que entio existia, que
eram 350 families. Ja se tinha iniciado o levantamento dos esteios
da casa do padre. Alem disto, os indios haviam cercado um pequeno
curral para as vacas que a reducio devia receber e a chacara para as
sementeiras estava quase pronta.
Era notavel a boa vontade corn que todos acudiam corn fervor e
gosto As praticas religiosas, pois, "tocando o sino, saiam logo de suas

(1) Aurelio Porto. Martirio do veneravel padre Cristovao de Mendoza S.
1. Sep. Anais 3.o Cong. de Hist. Riograndense. Porto Alegre, 1940. 25.
(2) Test. cit. B. N. Mss. 1-29,1,52.





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casas para entrar na igreja, e era tal a press a que alguns se davam
que deixavam os seus companheiros e saiam correndo, e entire outros
um menino quis correr corn tal impeto que, tropegando, na carreira, caiu
e feriu-se gravemente, do que veio a morrer" (1) .
Um ano depois ja Sao Jose apresentava desenvolvimento digno
de nota, e o padre Romero, em sua Anua citada, observava que "ia-se
reduzindo a gente muito depressa, sendo ja mais de 600 families, e as
criangas comegam a ler, cantar e dansar, com prazer seu e alegria de
seus pais".
d) Sao Cosme e Sao Damido. Foi fundada esta reduqgo, segundo
Azara em 24 de janeiro de 1634 e ficaria a margem direita do Ibicui,
pontas da serra de Sao Martinho, nas proximidades da vila deste nome.
Rego Monteiro da para coordenadas provaveis 29032' Lat. S. e 10040'
Long. 0. Rio de Janeiro.
Foi designado para dirigi-la o padre Adriano Formoso, ou Crespo,
que pouco depois ja havia ali congregado mais de 1. 000 families, nfimero
que, em 1637, elevava-se a 2.200. Assolada pela peste e pela fome
muito sofreu a reduqco. Iludidos pelos apicaires, terriveis feiticeiros,
muitos indios fugiram, encarregando-se de suas lavouras o pr6prio
padre para que, ao voltarem, nio sentissem fome.

3 Reducoes da bacia do Jacui

Foi em principios de 1633 que, ampliando a agdo da catequese,
penetraram os jesuitas na bacia do Jacui, fundando ali varias redug6es
que tiveram desenvolvimento notavel. Era a regiAo a grande porta que
se abria para ligar o Uruguai ao litoral e essas fundag6es facilitariam
as comunicac6es pelo Iguai, ou Rio Grande, uma das vias de penetraqio
dos inimigos de Sao Paulo, de que ji havia veementes indicios de apro-
ximagio. E era tambem ali o campo de acgo dos preadores de indios
e seus prepostos, os ibiraiaras, amigos dos tupis, que entravam pela
Laguna, descendo ate ao Tibiquari, onde assaltavam os tapes para
resgate corn os paulistas. Logo que foi possivel dispor de maior nfimero
de padres, alguns mesmos retirados das aldeias antigas, tratou o padre
Romero, superior das redug6es, de estender para leste do Jacui a linha
de penetragio missioneira.
Entretanto, veterans consumados na obra da catequese, estendiam,
cruzando o Taquari e o Rio das Antas, a exploraqgo das terras ainda nio
palmilhadas pelos padres espanh6is, indo, como os jesuitas Cristoviio de
Mendoza, Francisco Ximenes e Jodo Soares ate a bacia do Cai. Urgia
a providEncia, pois era voz corrente que, em Piratininga, aprestavam-
se bandeiras para reproduzir no Tape a depredagAo que tio viva ainda
estava na mem6ria dos retirantes de Guaira.
a) Santa Teresa. A primeira povoacio dessa nova s&rie foi Santa
Teresa, localizada nas terras do cacique Guarae, nas pontas do rio
Passo Fundo, antigo Uruguai-mirim., Ereta a cruz, em fins de 1632,

'(1) B. N. Mss. 1-29,7,25.





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aldeados os indios, nada mais se poude fazer, devido as dificuldades
que os padres encontravam de ir ate all. De vez em quando, muito
solicitados pelos catecimenos, um ou outro das redug6es mais pr6ximas
se aventurava afim de tender as prAticas religiosas.
Para obviar essas dificuldades que contribuiam para o relaxamento
dos costumes cristdos, ja em bom caminho, resolve o superior fosse
Santa Teresa mudada para posto de mais facil acesso, conforme a su-
gestdo do padre Francisco Ximenes, cura de Ap6stolos, e fundador da
primeira Santa Teresa.
Facil nao foi, depois de escolhido o novo local, convencer o cacique
Guarae e seus indios abandonassem a antiga terra em que haviam nascido
e vivido seus antepassados. Venceu-os, porem, o desejo de terem padres
efetivos, o que nao se daria se persistissem na regido em que tinham
as suas aldeias.
Vencida a resistencia dos indios e feita a transmigrago do povo, a
22 de marco de 1633, erguia o padre Ximenes a cruz que marcava o
local da nova reducio. Da Rego Monteiro para esta as coordenadas
provaveis de 28012' Lat. S. e 908' de Long. 0. do Rio de Janeiro, coin-
cidentes, mais ou menos, com as da atual cidade de Passo Fundo, e nas
pontas da vertente mais ocidental do Jacui.
A carta que o padre Francisco Ximenes dirige ao Superior, rela-
tando essa fundaqdo, nos da interessantes noticias motivo pelo qual se
a reproduz na integra : "Parti, como V. Rma. me ordenou, para visitar
Santa Teresa e no tempo precise em que corn a graqa do Senhor pude
fazer a mudanca do Povo, muito embora estivesse a parcialidade do
cacique Guarae sem vontade para isto, por amor de suas terras e por
lhe haverem dito que tambem teria padres ali; contudo o venci e de-
senganei, dizendo-lhe que nao havia tantos padres que pudessem ir a
sua terra, e, corn isto, foram voando e se deram a tal gana para fazer
as suas casas que antes que eu viesse, as tinham quase acabadas com
que ficou ja o lugar corn forma de povoaaio ; logo comegou a chegar
gente de Mbocarir6i, e matriculei 250 families, batizei 50 criancas, e
alguns enfermos que corriam perigo. Dali parti para Sao Joaquim e
no caminho nao faltou o que padecer, porque me colheu um temporal
tao rigoroso que me deteve seis dias, em que estivemos para morrer
de frio e de fome. Nos dois ultimos dias estivemos sem comer ate
que, vendo a cousa mal parada, e que nao havia senio erva para
tomar, e o tempo nio se aplacava, nem cessava de cair neve e granizos,
disse aos indios : "Filhos, voces se sustentam dormindo e bebendo erva
(mate), mas eu nio posso mais padecer a fome e tenho a obrigacao
de me cuidar e nao me deixar morrer A mingua, portanto, quero seguir
muito embora faqa o frio mais intense". E sai do rancho sob o forte
granizo e os indios me seguiram. Faziamos fogo a miudo porque nos
cortava o frio, e com este trabalho chegamos a um rancho onde a
Providencia divina fez-nos esperar um alcaide de Sao Joaquim corn
muita comida de milho e lenha guardada para fazer fogo, o que nos
confortou um pouco.
A gente do povo nos recebeu muito bem; batizei as criancas que
havia e matriculei 100 families novas que vieram. Querendo fazer a





MINISTARIO DA EDUCAQAO E SAUDE


igreja, como me mandou S. revma., mandei abrir os buracos para os
esteios, mas o terreno era todo pedrA viva, com o que desisti da obra
dizendo aos indios que ia procurar melhor local para a construgao.
Ficaram eles muito tristes cornm isto e, havendo eu me recolhido a uma
choga, saiu uma india varonil, mulher do capitdo Camay, e comegou
a repreender os indios, chamando-os de indolentes e por tio pouco, e
era de apreciar a energia cornm que a boa india dizia que quebrassem
as pedras e as furassem para fincar os paus para a igreja. Eles, corn
isto, cansaram-se algum tempo em querer quebrar as pedras sem que
o conseguissem, mas nao desistiam do intent e, de pena deles, sai e
mandei que cavassem em outro lugar onde havia ate tres palmos de
terra sobre as pedras. Ali, como foi possivel, armei a igrejinha onde
se pode doutrinar os indios por enquanto, cornm que ficaram consoladis-
simos e eu ainda mais por ver seu bom coragco.
Nao pude atravessar em diregio a Ap6stolos, por nio estar aberto
o caminho, nem haver canoa no Igai e assim baixei por Santa Ana, onde
matriculei mais 100 families e batizei as criangas" (1).
S6 em 6 de agosto, entretanto, o padre Francisco Ximenes foi
efetivamente residir na reducao de Santa Teresa. Torna-se a povoagio
conhecida, principalmente dos paulistas bandeirantes, pelas suas extensas
florestas de araucaria e de erva-mate : Santa Teresa dos Pinhais e
Ervagais. E ali, mais tarde, estabelece Andre Fernandes um post de
aprovisionamento para as bandeiras em que fica um filho seu, o padre
Francisco.
No ano seguinte tinha ji Santa Teresa 800 habitantes, tendo sido
batizadas 400 criangas e quando foi destruida pelos paulistas sua popu-
lagdo passava de 4.000 almas, inclusive grande nfimero de ibiraiaras que
haviam sido atraidos pelo padre Ximenes.
Dessa redugco em 3 de janeiro de 1635 partiu o padre Ximenes
em companhia do padre Jogo Suarez para fazer um reconhecimento
pelo rio Taquari, cuja bacia percorreram longamente. Consta a explo-
ragdo de uma interessante carta do padre Ximenes ao superior padre
Pedro Romero (2).
b) Santa Ana. A penetraqgo na bacia oriental do Jacui, magnifico
campo para a catequese jesuitica, deu-se naturalmente, pelas alturas do
Vacacaizinho, antigo Ararici, onde foi fundada a redugco de Santa Ana.
Ficava esta, segundo Rego Monteiro, na Lat. S. de 29055', e acima da
foz do atual arroio Paredao.
Foi em meados de 1633 que o padre Inicio Martinez, por determi-
naggo do superior, tendo ido aquele local, ai ja encontrou gente reunida
e, levantando a cruz, deu inicio A redugco que ja estava em franco desen-
volvimento, quando o padre Romero, em companhia do padre Adriano
Formoso, ali chegou, de volta do Paraguai. Sendo o padre Inacio man-
dado no ano seguinte para o Pert, em companhia do padre Pedro
Alvarez, substituiu-o o padre Manuel Bertot, que ai esteve quase um ano
tendo reduzido mais de 1. 000 indios. Mais tarde a sua populaggo atingiu

(1) Anua citada Mss. B. N. 1-29,7,25.
(2) B. N. Mss. 1-29,1,47.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


a 7.700 almas. 0 cacique principal chamava-se Ayerobia, recebendo
no batismo o de Bartolomeu. Muito auxiliou os padres no recrutamento
de catecfimenos e, tendo aprendido o oficio de carpinteiro, empregou-se
na construg.o da igreja.
c) So Joaquim. Ficava situada na serra de Butucarai (Ibiti-
carai), nas pontas do rio Pardo, provavelmente entire 29010' de Lat. S. e
9018' de Long. 0. Rio de Janeiro, cf. Rego Monteiro. Determinou a sua
fundag~o nao s6 uma aldeia populosa de indios que havia no local, como,
principalmente a facilidade de explorac;o de ervais nativos que ali se
estendiam.
Foi em 1633, logo depois da fundacao de Santa Ana, que a erigiu
o padre Juan Suarez, "tao pobre de coisas e alfaias que, perguntando-
Ihe um padre o que levava para dar principio a sua reducqo e para
ganhar os indios, resp6ndeu que nao levava mais do que a semente do
Evangelho para semear em suas almas e que com ela levava uma ri-
queza" (1). E corn sua humildade e pobreza, dentro em pouco, ganhou
realmente para Deus os pobres indios, nao obstante os inc6modos a que
deu causa semelhante pobreza.
Muito sofreu o padre corn a alimentaqgo de milho e uma esp&cie
de feije6s a que se via obrigado. E enquanto nao podia colher o trigo,
que todos plantavam nao s6 para h6stias como para seu sustento, s6 se
alimentava quando os padres vizinhos Ihe mandavam um pouco de pao,
embora tambem escasso nas reduc6es novas.
Isto nao obstou porem que desenvolvesse uma atividade digna de
nota, pois, em pouco tempo, havia levantado a sua pequena igreja e a
pobre casa em que ia viver. Segundo o padre Romero, era esta uma
das reduces mais trabalhosas da serra, porque a gente dela esta metida
pelos matos e asperas serranias. Muito auxiliou o padre Suarez o seu
companheiro Cristovio de Arenas que por matos e serras quase inaces-
siveis conseguiu em dois dias, descendo o planalto, ir ate a Jesus-Maria,
que ligou, por um pique, a Sao Joaquim, facilitando assim as comuni-
cag6es entire ambas, ate entdo inexistentes. Sao Joaquim prosperou
grandemente, congregando mais de 1.000 families catequizadas (2).
d) Natividade. Foi localizada esta reducio nas fraldas da serra
de S. Martinho, entire as vertentes do Ivai e do Jacui, segundo Rego
Monteiro "a indicardo topogrifica de Carrafa faz ver que essa redulao
ficava A margem. direita de um afluente forte do Igai (Jacui), muito
acima de sua forte deflexio para o norte, cerca de meia distancia entire
a forqueta Jacuizinho-Jacui e essa deflexao". Seriam suas provaveis
coordenadas 29014' lat. S. e 10014' Long. 0. Rio de Janeiro.
Foi em agosto de 1633 que o padre Pedro Alvarez, depois de
haver auxiliado a baixar os indios de Iguassfi, deu inicio a essa reducio
a que denominou Natividade de Nossa Senhora. Varias vezes haviam
os indios, que ali demoravam, solicitado aos jesuitas fizessem uma aldeia
em suas terras, aproveitando a que ali ja existia e, como demorasse a

(1) B. N. Mss. 1-29,7,25.
(2) B. N. Mss. 1-29,7,31.


F. 6


101.306





MINISTERIO DA EDUCAgAO E SAUDE


vinda dos padres, levavam as outras redug6es os seus filhos, afim de
serem batizados. 0 padre Pedro foi recebido com as maiores demons-
trag6es de alegria, mas o local em que os indios estavam ja aldeados,
muito exposto aos ventos e ao frio, nao atendia As necessidades de
uma boa povoagio, sendo assim mister muda-la para outro local. Feita
a mudanqa, embora corn sentiment de alguns que ali estavam arraigados,
inaugurou-se Natividade em 8 de setembro.
"Fizeram logo sua igreja e a casa para o padre, melhor do que se
fossem indios ha muito ja reduzidos, de sorte que o padre Pedro
Alvares, que muitos anos estivera no Parana entire indios ha muito
cristianizados, confessa que estes excedem Aqueles em capacidade e em
um natural mais brando e docil para as coisas da Fe" (1). Assim, em
pouco tempo Natividade tornou-se uma reducgo notavel pelo seu desen-
volvimento, pois, no ano seguinte, ja contava corn mais de 800 families
e corn o tempo se iam descobrindo mais "pois parece que os indios sao
como mina e em cada dia se descobrem mais veias de ouro puro e finis-
simo, capaz de bem-aventuranga" '(2) .
e) Jesus-Maria. Foi Jesus Maria a redugao mais avangada para
leste que os jesuitas fundaram no Rio Grande do Sul. Nao pertenceria
mesmo A Provincia do Tape que tinha por fronteira o rio Jacui, e cuja
sentinela extremada seria a reducgo de Santa Ana. Ficava a margem
direita do rio Pardo e acima da foz do rio Pardinho cerca de 20 a 25
quilometros. Rego Monteiro encontrou para Jesus Maria as coordena-
das provaveis de 29045' Lat. S. e 9022' Long. 0. Rio de Janeiro.
Coincide essa posigdo corn o filtimo contraforte da serra do Butucarai e
por ela passava a linha dos ervais nativos, grandemente explorados pelos
indios.
Estava o padre Pedro Mola, virtuoso varAo apost61lico, em Sao
Carlos, quando recebeu ordem do superior a que atendesse A solicitagio
dos indios das cercanias do Yequi (Rio Pardo), que insistiam pela
fundaggo de uma povoagio crista em suas terras. Em novembro de
1633, cumprindo essa ordem, seguiu o padre em um animal cavalar, mas
tao fraco e imprestavel que teve de fazer a pe quase todo o caminho,
sob fortes calories e perseguido de motucas e outros insetos. Em Sao
Joaquim, detido por uma enchente, esteve tres dias, sendo obsequiado
pelos catecumenos com cagas de veado e batatas.
Souberam os de Jesus-Maria que o padre se dirigia para suas
terras e, corn grande acompanhamento, foram os caciques encontrA-lo,
tendo a frente o seu capitio que lhe ofereceu presents de mbocayiy, uma
especie de linho muito apreciado da regido. E todos o cumprimentaram a
seu modo e seguiram em companhia do padre Mola que, mais adiante,
surpreso, viu que outra turma de indios melhorava e enfeitava o caminho
por onde ele devia passar. A entrada do povo estava engalanada de
arcos de folhagens, E, chegando o padre, todos a porfia apresentavam
seus filhos, para que os batizasse e, nessa ocupag2o, gastou muitos dias,
pois era muita a gente que desejava o batismo.

(1) Anua cit. 1-29,7,25.
(2) Idem, idem.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Em quatro dias somente, quase sem assistencia do padre Pedro, os
indios construiram uma casa de 24 p6s de altura e relativamente boa. Ao
mesmo tempo deram comego A igreja com 34 pes de altura por 50 de
largura, onde se dissesse missa e se ministrassem os Santos Sacra-
mentos (1) .
Nessa ocasiao chegou o padre Cristovao de Arenas que levou algu-
mas vacas para a redugco e ficou em companhia do padre Mola.
Mais tarde para ali foi o padre Cristovao de Mendoza, que fez
varias explorag6es na bacia oriental do Taquari, onde, em ibia, em
1635, recebeu a palma do martirio. Houve mesmo intengao de ampliar
alem-rio Pardo a linha das reduces, afim de opor resistencia aos pira-
tininganos, preadores de indios que entravam pelo Caagua e por Guaibe-
renda (Guaiba), levando da regiao numerosos escravos. Seria cura
dessas novas redug6es o padre Cristovao de Mendoza, que conseguira
matricular 2.200 indios prontos a reduzir-se, em tres povos ja existentes
com 100 casas cada um.
Diz o padre Mola que contava, no ano de 1635, colher 100 fanegas
de trigo que os indios haviam cultivado em suas chacaras e outras tantas
de milho. As vacas e os porcos estavam muito gordos e iam aumentando,
sendo diariamente encerrados em potreiros, sem que houvesse faltado
uma cabega sequer. Em 1636, alem do gado vacum, em Jesus Maria
havia ja um bom rebanho de ovelhas (2) .
Foi a primeira reduqgo, devido A sua posicgc geografica. que sofreu
o ataque dos paulistas, sendo por eles tomada e destruida em 1636.
Nessa pagina sombria, largamente descrita no capitulo seguinte, ressal-
tam outros informes sobre a vida de Jesus Maria, uma das mais pr6s-
peras e florescentes reduces da serra. E' dai, ap6s a invasao bandeirante,
que se inicia o largo exodo de catecuimenos que terminal pelo complete
abandon de todas as povoag6es cristis do Tape e do Uruguai.
f) So Cristovao. Foi erguida esta redugio a margem direita do
rio Pardo, abaixo da foz xdo rio Pardinho, a sueste da atual povoaaio
de Cruz Alta, tendo, (cf. Rego Monteiro), a posicgo de 30o22' Lat. S. e
928, Long. 0. Rio de Janeiro.
E' a filtima das redug6es do Tape e foi confiada ao zelo do padre
Agustin Contreras que, em 1634, elevou a cruz e demarcou a povoacgo.
Ao capitao Antoni Caraichure, que era o cacique principal da region,
deveram os padres os fundamentos desta povoagao que atingiu em dois
anos apenas grande desenvolvimento. Por falta de sacerdotes que os
atendesse mandavam os indios que seus filhos fossem a outras reduces
afim de serem instruidos na religion e batizados. Estes, voltando, tor-
navam-se mestres dos pr6prios pais, aos quais, em suas aldeias, ensinavam
as praticas religiosas que corn os padres haviam aprendido. Entre os que
mais aproveitaram corn essas lig6es, contava-se D. Antonio, o cacique
principal que, em pouco tempo, reunindo os iArdios, pregava-lhes a dou-
trina cristi.

(1) Anua cit. 1-29,7,25.
(2) Anua de Jesus Maria. Padre Pedro Mola, I, 29, 7, 28.





MINISTARIO DA EDUCAgAO E SAUDE


Foi corn prazer, assim, que receberam o padre e fundaram a redu-
qao de Sao Cristovio, que 6 a filtima das povoac6es erguidas na pro-
vincia do Tape, pelos jesuitas.
Como veremos, foi de pouca dura4go a vida desta pr6spera missio,
pois, em 1636, assediada pela bandeira de Raposo Tavares, foi destruida,
depois de um combat corn os indios que durou de 4 a 5 horas. A
igreja foi queimada e saqueada a povoaaio.

4 Martirio do veneravel padre Cristovao de Mendoza

Veneravel ap6stolo da cri.standade, em terras do Rio Grande do
Sul, o padre Cristovio de Mendoza e uma das mais singulares figures
que surgem nesse cenario, enchendo-o corn a projecao de uma vida admi-
ravel de abnega(6es e de virtudes e corn a pr6pria morte que se reveste
de tragico martirio.
Nasceu em 1589 em. Santa Cruz de la Sierra, sendo vinculado as
mais nobres families de Espanha, que. se desdobram dos Manrique de
Lara aos Mendoza Orellana e direto descendente dos primeiros condes de
Castroxeriz ; filho e neto de conquistadores do Prata e primeiros go-
vernadores daquela cidade, recebeu o padre Cristovao, no batismo, o
nome de D. Rodrigo de Mendoza Orellana.
Piedoso e human, desde a infancia sentiu-se dominado por um
profundo sentiment de amor aos pobres indios, cujos inenarraveis mar-
tirios, escravidio e exterminio enchiam-no de magua, despertando-1he
pendores da caridade crist& com que essa plaiade de soldados da Com-
panhia de Jesus, corn abnega;io e heroismo, combatia os prejuizos do
tempo, em' nome da fraternidade humana.
Foi assim que, podendo aspirar altas dignidades e posiq6es brilhantes,
contrariando a vontade da familiar, desertou de casa e, depois de muitos
meses de penosa viagem, atingiu Tucuman e o Colegio dos Jesuitas em
que ingressou em 1616, com 27 anos de idade, adotando o nome de
Cristovio, pela devoqao que consagrava a este santo.
Seu noviciado foi um largo exemplo de virtudes e de vocaigo sacer-
dotal. Uma caridade imensa, uma abnegacio ilimitada, uma coragem,
que raiava pelo heroismo, e uma fe iluminada, transbordavam dos recessos
de sua alma consagrada, integra e pura, a gl6ria do Senhor, naquelas
searas enormes que eles, humildes operirios, andavam cultivando nas
terras selvagens da America.
Ressoavam ainda os ecos de sua primeira missa e ja, amparado
ao bordio de missionario, seguia para Guaira onde um punhado de insi-
gnes companheiros, sacrificando todos os dias a vida e padecendo tor-
mentos e fome, congregava os indios infieis, em populosos redutos hu-
manos para lhes incutir no fraco entendimento a ideia de Deus, criador
supremo dos homes e das coisas.
Foi nesse aprendizado que demandava qualidades excepcionais de
fortaleza de animo e de altas virtudes cristis que, tendo como mestre o
insigne padre Antonio Ruiz de Montoya, poude Cristovao de Mendoza
temperar a sua alma e enrijece-la nos duros combates pela fe, destacando-
se, desde logo, entire os pr6prios veterans da catequese.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI 73
0
Ao principio junto a Montoya, depois s6, embrenha-se pelos sert6es,
tern contato corn as mais ferozes tribus da mata e do campo, domina-as
pela sua coragem e pelas suas virtudes, fontes inexhauriveis de um poder
formidavel e funda reduc6es e incute no espirito quase inacessivel dos
indios essa luz maravilhosa que revestia o seu corado de fe, de ternura
e de piedade humana.
Um dia baixam de Piratininga, A prea de indios, as hordas dos
bandeirantes, que caem sobre as povoag6es cristgs de Guaira, maltratam
os sacerdotes, e levam cativos infindaveis chusmas de cateccimenos,
arrazando e queimando as suas aldeias, torturando criancas e mulheres.
E' o padre Cristovao, na sua Ansia de defendc-los, uma das vitimas da
furiosa envestida das bandeiras. Ferido duas vezes, nem por isto, mal-
baratando a vida, deixa de socorrer com seu auxilio spiritual, ante a
ineficacia do esforgo material, esses infelizes que, press a correntes de
ferro, seguem, gotejando sangue das feridas, para serem vendidos nos
mercados humans de Sao Paulo.
Reproduzem-se novos atentados a liberdade dos indios. Concertam,
entgo, os jesuitas, essa providencia extrema do exodo de milhares de
indios que baixam, pelo Parani, reduzidos pela fome, pela peste e pelas
feras, ate as velhas povoag6es do Paraguai, onde estario em maior se-
guranga. E, a frente desses homes, o padre Cristovao, multiplicando-se
em abnegag6es e coragem, di-se inteiro a seu povo, acrisolando ainda
mais os sentiments dessa caridade que, levando-o ao martirio, dar-lhe-a
os resplendores da santidade.
Feita a transmigracgo dos guairenhos, novos campos de acAo espe-
ram a atividade do veteran soldado de Cristo. Abre-se o Tape aos
trabalhos da catequese. Milhares de almas esperam ali o bafejo da
civiliza4go crista. Dificil a tarefa que se lhe imp6e. Como em Guaira,
designa-o a obediEncia para desbravar incultos caminhos e trazer ao
redil as ovelhas perdidas que o rebanho do Senhor integrara.
Entrando no Tape o padre Cristovao funda Sao Miguel. Os
indios, tocados pelo seu singular encanto de predestinado, adoram-no.
Pai Quirito o chamam. Padre corajoso, valente, destemido. De Sao
Miguel passa a outras redug6es. E por toda parte, onde mesmo nio
vai, seu nome corre, sua fama transborda e os indios se acolhem a sua
sombra benfaseja e amiga.
Uns tupis, que vanguardeam bandeiras paulistas que nao tardam
aparecem na serra do Nordeste, outros sobem pelo Guaiba em canoas
ligeiras, resgatando tapes que os ibiraiaras cativavam. E o padre Cristovao
para livrar os pobres indios, corre em seu socorro, percorre a bacia do
Cai, e alicia numerosas tribus para reduzir nas aldeias fundadas no Tape.
Esta, em 1635, em Jesus Maria quando se avolumam rumors do
pr6ximo surto de bandeirantes paulistas, capitaneados por Antonio
Raposo Tavares, o destruidor das reduces de Guaira. Corre, entao,
valente, destemeroso, no intuito de organizer a resistancia, alias impro-
ficua, ao Ca&gua, por onde necessariamente deveriam descer os inimigos
temidos.
2, nessa ocasiao, de volta do Caagua, onde consegue se impor Aqueles
selvagens primitivos e simples que, junto ao arroio de Ibia, e martirizado





74 MINISTtRIO DA EDUCAgAO E SAUDE

e morto pelos ibitnguaras, tribu dos ibirajaras, que dominam a-provincia
de Ibiaga.
Grandioso como sua vida foi seu martirio, junto ao arroio de Ibia,
local que se pode identificar nas proximidades do rio Piai, municipio
do Cai, par6quia de Santa Lfcia do Piai, na region da serra do Nordeste.
Cabe perfeitamente aqui essa pagina her6ica, vasada em documen-
tagao inedita e preciosa, sem que se Ihe tire o sabor primitive que a
emogao profunda de seus primeiros cronistas, companheiros de gl6ria
e de dor, Ihe dio, na hora mesma em que, coroado pelo martirio, o
padre Cristovao de Mendoza santificava corn seu sangue a terra rio-
grandense.
"Quando o padre chegou junto ao arroio comegara a cover. Re-
lampagos continues cortavam o ceu com zigue-zagues de fogo. E, ali
mesmo, desmontando do cavalo em que viajava, procurou abrigar-se,
para o que, os indios amigos de sua comitiva, "comegaram logo uns a
erguer o rancho e outros a trazer lenha para fazer a comida e alguns a
arrancar a palha para fazer as suas chogas". Poucos eram esses com-
panheiros, mas valentes, pois os caaguaras, certos de que nada aconte-
ceria ao bom padre, haviam ficado em suas aldeias.
Voltavam os catecfumenos carregados de lenha e de palha, quando
do mato surdiram as chusmas de indios, armados em guerra, que Ihe
tomaram o passo. Alguns conseguiram chegar ate o lugar em que estava
o sacerdote, avisando-o aos gritos do perigo que corria. Desarmados,
tentaram se opor a investida dos infieis, mas, ante a superioridade nu-
m&rica dos inimigos, a maior parte, sob nuvens de flechas, fugiu para
os matos. Poucos ficaram, arrostando a morte, junto a Cristovao. Este,
ao primeiro alarma, tornara a montar o seu cavalo, tomando de um
escudo que um indio lhe dera, para se defender das flechas de que era
alvo. E, preocupado com os indios infieis que o acompanhavam, para
que nao morressem sem batismo, gritava-lhes que fugissem e corn ele
s6 ficassem os cristaos. Nao queria perder aquelas almas em caminho
do ceu. Moribundo, cai um dos pagaos que o acompanhavam, crivado
de flechas. Indizivel a afligio do padre, "Agua, gritava, tragam-me agua
para batiza-lo". Mas, naquela confusgo horrivel, ninguem atendia a
seus rogos. E assim, andava escaramugando o cavalo, de uma parte
para outra, at& que a chusma enfurecida o cercou por todos os lados,
brandindo tacapes e lhe atirando setas. Junto, um tremedal colheu o
cavalo que dele nao se poude desvencilhar. Entregue a furia dos ini-
migos, o padre apeou. Poderia ter fugido, mas nao quis. Que se cum-
prisse essa destinagao ancestral que ha um seculo pesava sobre a estirpe
dos velhos avoengos. Seu sangue era a redencgo porque Deus o acolhe-
ria em suas mAos misericordiosas. "E vendo que era impossivel livrar-se
corn a vida, quis antes morrer e perder a sua temporal, para que nio per-
dessem a eterna os que estavam em sua companhia".
Instintivamente, defendia-se, corn a rodela, das flechas que lhe eram
dirigidas. "Mas, pesando ja muito, por estar coberta de setas, e que-
rendo o padre quebra-las, para aliviar o peso, descobriu o corpo e entgo
deram-lhe um flechago na face, corn que meio o aturdiram" e um indio,
que lhe veio pelas costas, tirou-lhe o chaptu da cabeca e um outro,





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


vibrando um tacape, derribou-o por terra. Novos golpes, novos fle-
chagos e assim o tiveram por morto. E para que efetivamente nio Ihe
restasse resquicio de vida, deram-lhe alternativamente muitos golpes pelo
corpo, e um dos feiticeiros, como trofeu de vit6ria, cortou-lhe uma das
orelhas.
Desnudaram-no completamente. Um Cristo pendia-lhe do pescogo.
Arrancaram-no, blasfemando. "Salva-o, diziam-lhe escarnecendo." Mas,
a chuva apertara. Copiosa, em fortes bitegas, caia dos ceus escuros e
tristes. Para fugir A intemperie correram as suas aldeias. Voltariam no
dia segiuinte para queimar o corpo e furar o venture, porque, se assim nio
o fizessem, quando o corpo do morto inchasse, o mesmo sucederia ao do
matador que, inchado, morreria. Levaram consigo as vestes do padre
e as dos meninos, ajudantes de missa que, mortos, jaziam junto ao corpo
de Cristovao a quem nio quiseram abandonar, porque corn ele preferiam
subir a bemaventuranca eterna.
Mas, Pai Quirito nio morrera ainda. E naquela noite tornou nova-
mente a si, no silencio do descampado. Chovia, e um frio terrivel sobre-
viera. Estava estendido na terra fofa do banhado e o sangue lhe escorria
de mil feridas. Doia-lhe, como grande ferida, o pudor de sua nudez.
Procurava em torno alguma cousa corn que cobrir-se. S6 o ceu negro e
profundo, estendia-se-lhe do alto, como imensa batina, naquela agonia
indizivel.
Estava s6, "a cabega partida em duas parties, uma orelha decepada,
que os indios levaram como trofeu, as faces em sangue, o olho vasado,
o corpo. moido a pancadas, completamente nu, molhado, inteirigado de
frio, e banhado em seu pr6prio sangue. E levantou-se a custo, arrastan-
do-se; andou um trecho em busca de um abrigo, procurando ver se
encontrava algum de seus companhieros. Mas, nio podendo continuar,
estendeu-se novamente sobre a terra dura, cheio de dores das feridas,
moido pelos golpes, tiritando de frio, que a noite alta aumentava".
S6 Deus velava-o naquela agonia. "E o que o padre passaria
naquela noite, os col6quios que teria corn Nosso Senhor, os atos he-
r6icos e fervorosos que faria, e como se ofereceria de novo para padecer
maiores trabalhos e tormentos por seu amor e pela salvacao das almas",
s6 Deus o saberL.
Pela manhi voltaram os indios e nio o achando no lugar em que o
haviam deixado, pelo rasto de sangue conseguiram descobrir o corpo.
Cristovio ainda vivia. Ergueram-no, mofando de Deus, escarnecendo e
novamente o martirizando. *Diziam-lhe : "Oroyuca mbae catupae tupa ?"
(Ferimos-te e matamos-te, porque teu Deus nio te livrou das nossas
mdos ?) E o padre responded corn mansiddo : "Viera para faze-los
filhos do verdadeiro Deus e Deus permitira que fosse assim tratado para
sua pr6pria gl6ria e para a salvagio deles". E disse-lhe muitas outras
coisas, que os indios nao sabiam reproduzir, falando sempre manso e
doce, na sua gloriosa agonia.
Mandaram-no calar e ele continuou na sua predica. Deram-lhe
novos golpes, de que o sangue jorrava. Corn um deles, arrancaram-lhe
os dentes que um rapaz, mais tarde, recolheu, entregando-os aos padres
em Jesus Maria.





MINISTmRIO DA EDUCAgXO E SAUDE


"Mas, nem por isto deixou de lhes predicar e lhes dar a entender
as coisas e os mist&rios da F6, recebendo, por isto, mais pauladas e
golpes e vendo eles que o padre nao morria nem deixava de lhes falar,
disseram uns aos outros : "Este nio deve morrer no campo, levemo-lo
ao mato para que morra la". Atravessaram-lhe o corpo num pau com-
prido, de cabega para baixo, e assim o conduziram at6 o lugar em que
fizeram uma choca de palha para abriga-lo, por compaixio ou, talvez,
para melhor queima-lo ali, e ouvindo que ainda lhes dizia nao lhe causar
d6 que Ihe despedagassem o seu corpo, porque a alma nenhum mal pode-
riam fazer, e logo subiria para gozar da paz do Senhor, eles, loucos de,
fiiria, cortaram-lhe o nariz, a outra orelha, os libios e, como ainda falava,
abrindo-lhe a garganta, tiraram-lhe a lingua e foram-lhe a golpes ras-
gando e cortando o peito e o venture, enquanto o padre, olhos no ceu para
onde sua alma havia de subir logo, agonizava ainda. Acabaram, arran-
cando-lhe as entranhas e o coragco que cravaram de flechas para ver
se morria assim" (1).
Teve lugar o martirio do padre Cristovao de Mendoza no dia 26 de
abril de 1635, em pleno coracao da serra do Nordeste (2). Tinha 46
anos de idade e 19 de Companhia (3).

5 A "Junta" dos feiticeiros

A noticia da morte do padre Cristovao de Mendoza que c6lere
correu pelas reduces do Tape, fez com que os indios catecuimenos se
aprestassem nio s6 para ir em busca do corpo do jesuita martirizado
pelos ibianguaras, como tambem exercer sobre estes a vinganca merecida.
Exortaram os padres de Jesus Maria e outros que ali se haviam reunido
nio se expusessem os cristios A sanha enfurecida dos infieis. Mas, de
Sio Miguel, reducgo que Cristovao fundara, baixou logo, sob o mando
do capitgo do povo, um forte destacamento de indios que, ao som de
guerra, se propunha a arriscada empresa. De outras reduc6es tambem
acorreram guerreiros a Jesus Maria, escolhido para ponto de concentra-
qgo do exercito cristdo e, em poucos dias, uma forqa de mais de 1.600
catecfimenos ali se reunia.
Nao podendo obstar a determinacio express dos caciques de irem
resgatar o corpo do martir, pregaram, entretanto, os padres se absti-
vessem eles de uma vinganca que atentava contra os principios da reli-
gi5o crista. Vencidos por estas exortag6es, formalmente prometeram nio
se excederem no cumprimento dessa missio.
E com este prop6sito partiram de Jesus Maria e chegaram ao arroio
de Ibia em 15 de maio. Ao aproximarem-se do local em que estava o
corpo do padre Cristovao sairam-lhe A frente, organizados para combate-
los ao som de seus instruments de guerra, os ibianguaras que receberam

(1) Anua do padre Diego de Bor6a B. N. Mss. I, 29, 1, 55.
(2) Aurelio Porto Martirio do ven. padre Cristovao de Mendoza -
Sep. Anais 3. Cong. de Hist. Sul-riograndense. P. Alegre 1940. Estudos, Ano
III, vol, V, 220.
(3) Padre Mathia Tanner Societa Jesi, etc. Praga, 1675.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


os cristios sob nuvens de flechas. Intentaram os indios cristios dizer-
Ihes que nao iam com o intuito de combater e somente levar os despojos
do jesuita para sepultura condigna.
"Mas, os malfeitores, mostrando-1hes pedacos da sotaina do padre,
lhes diziam : "Matamos o vosso aguela (1) (que assim chamam os
feiticeiros os padres por escArneo), vinde tambem para que vossos ossos
fiquem com os dele". E acometendo os nossos corn ffiria, foram rechas-
sados valorosamente, morrendo muitos e sendo outros press. Procura-
ram novamente os malfeitores impedir que trouxessem o santo corpo do
martir, juntando-se corn maior nfimero que ia chegando onde estavam
os nossos" (2). Organizaram os infi6is corn sua tatica de guerra, o
cerco que, em forma de anel, vai se estreitando para colher dentro dele
os inimigos, perigosa manobra em que eram eximios. Mas, os cristaos,
exercendo a mesma tatica, romperam o cerco, "colhendo nele os inimi-
gos da mesma forma" e assim mataram muitos, principalmente Aqueles
que mais encarnicados se haviam mostrado na morte do padre". Outros
muitos foram press, "e entire eles o feiticeiro Tayubai, autor dessa
maldade, capturado pelo cacique principal de SAo Miguel, Guaimica,
que, levando-o ao lugar em que o tirano havia maltratado e morto o
santo martir, "ali o prostrou a golpes de macana".
Transportaram o corpo para Jesus Maria mas, assediados sempre
por numerosos bandos de infi6is que os inquietavam corn suas arre-
metidas.
Deu isto lugar a novos acontecimentos. Convocadas pelos feiti-
ceiros e caciques principals da serra, reuniram-se as Juntas das aldeias
de toda a region. E, nelas, ficou assentado se congressassem todos
:s indios para destruir as reduces do Tape e matar os padres que
nelas assistiam.
Inicialmente, "em umas como igrejas em que se juntavam, e tinham
uns como pfilpitos e batisterios, onde faziam predicas e batizavam a seu
modo" (3), comegaram a arremedar e contrafazer as ages dos padres.
E ali diziam que as reduces deviam ser arrazadas. Tinham ji convo-
cado os tigres, que as teriam de assolar ; os itaquiceas, que estavam para
sair de suas cavernas ; e os ibipitas", que sdo uns pseudos fantasmas,
que o vulgo e chusma imagine horrendos e aos quais todos temem".
Obedecia a Junta ao mando dos terriveis feiticeiros Chemboabate
e seus filhos Yeguacaporfi e Yaguarobi e outro nao menos afamado,
Ibapiri que tomara o nome de um feiticeiro morto nas pontas do Igai,
querendo fazer crer aos indios fosse ele morto ressucitado.
Convocados, reuniram-se em Tayaguap6 (caminho do porco do
mato) os indios de diversos lugares, principalmente os de Carir6i, Pirai-
ubi, Tibiquari e outros, que logo atingiram a centenas. Formada a
Junta que obedecia a tres feiticeiros, entire os quais uma india gigante de
estatura disforme, despacharam logo para todas as parties hieroquiaras
(dangadores) para avisar os indios infi6is e atemorizar os cristios, o que

(1) Abuela = av6.
(2) B. N. Mss. I, 29, 1, 55, n. 1.
(3) B. N. Mss. I, 29, 1, 55, n. 2.





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faziam com dansas e cantos, em que diziam que breve se acabariam as
redug6es e seriam expulsos e mortos os catecfimenos e os padres.
Muitas aldeias foram, pelo temor incutido nos pr6prios cristaos,
aos poucos, se despovoando. Era costume, quando abandonavam as
casas, desfaze-las e- queimar a madeira e, assim, aldeias inteiras iam
sendo desfeitas e seus moradores desaparecendo do convivio cristao.
As rogas tambem eram abandonadas e as sementeiras perdidas.
Entretanto crescia a multiddo que em torno dos feiticeiros se con-
gregava para as juntas de Tayaquape. Foi quando, por iniciativa
pr6pria, resolveram alguns capities dos povos, finis aos principios cris-
taos, tomar providencias para coibir esse mnal que daria cabo de todo o
trabalho de catequese dos jesuitas. Reunidos os indios, armados em
guerra, e cobertos de plumas, como era usual nas guerras, foram, tendo
seus capitaes a frente, dar caga aos hieroquiaras que eram os promotores
daquela desordem. Conseguiram prender muitos desses emissarios da
Junta, sendo alguns mortos e outros aprisionados e levados para a reduqgo
onde, nao obstante, os rogos dos padres eram duramente castigados
como exemplo para o povo. Diziam-se deuses e, para desengano dos que
neles acreditavam, entregaram-nos as criangas que os enchiam de lodo
e deles escarneciam, fazendo-os dansar sob os mais ridiculous apodos.
Foi o capitao Aria, cacique de Sao Joaquim, quem conseguiu levar
as reduces exata noticia da extensdo do perigo que sobre elas pairava.
Disfargado como selvagem, levando suas armas, e tendo o corpo pintado
como os infieis, conseguiu entrar em Tayaguapf, que ficava nas proxi-
midades de Sao Joaquim e ali observou que os feiticeiros aprestavam os
indios para que dessem sobre as reduces de Sao Cristovio, Sao Joaquim
e Jesus Maria, matassem os padres e destruissem as povoaq6es.
Reuniram-se logo para organizer a defesa os jesuitas sob cuja diregdo
estavam aqueles povos e os capitaes Antoni, Guirarague e Ariya, tendo
se resolvido concentrar em Jesus Maria o maior nfimero de indios guer-
reiros das reduces da serra. A 29 de setembro, feita a concentragdo,
contavam-se ali 500 indios de guerra, tendo para isto contribuido Santa
Ana corn 108, Sao Cristovao corn 96, Sao Joaquim corn 50, alem do
contingent de Jesus Maria e de seus arredores, o que elevou o total do
exercito cristao a mais de 1.000 combatentes.
Estavam ja os infieis entrincheirados a margem direita do Yequi-
mini (Rio Pardinho) que, tendo crescido muito devido as chuvas que
cairam A noite, nao dava passo franco, sendo necessario fazer uma
ponte. E nem todos haviam transposto o rio quando os infi6is, que os
aperceberam, cairam sobre eles corn grande firia. Ouvida a gritaria que
fazem em combat, o resto do ex&rcito cristao, a nado, vadeou a cor-
rente, dando sobre as paligadas fortes em que os inimigos se acoitavam.
Em pouco tempo estavam vencidos, em fuga precipitada uns, outros
prisioneiros, muitos feridos e os principals pagaram com a vida essa
tentative de ex-pulsar de suas terras os jesuitas que vinham destruir os
seus costumes antigos, a sua vida livre, a pratica de primitivas usangas,
para ihes impor uma civilizaqgo que nao compreendiam ainda.























CAPITULO IV


BANDEIRAS PAULISTAS NO SUL
(1636-1669)

1 0 bandeirismo paulista. 2 A bandeira de
Aracambi. 3 A bandeira de Raposo Tavares. 4 -
Bandeira de Andr6 Fernandes. 5 Bandeira 'de Caagapa-
guasst. 6 0 desbarato de Mboror6. 7 Outras ativi-
dades do bandeirismo paulista. 8 0 dxodo das popu-
lag5es aborigenes.

1 0 bandeirismo paulista

0 ciclo da caga ao indio, que da origem a eclosAo do bandeirismo,
surge corn as exigencias econ6micas que logo se deparam aos povoadores
de Sio Vicente. Precisavam de bragos para as suas incipientes lavouras,
de escravos para organizer os seus contingentes de homess de arco"
afeitos a guerra e, dai, esse movimento inicial que realizou a expansdo
por terras dilatadas. 0 vicentista, o piratiningano, cujas bandeiras
assolam as populag6es pacificas de indios selvagens, ou os aglomerados
humans trabalhados pela civilizagAo cristai que os jesuitas impbem, em
terras do sul, nada mais fazem do que continuar, corn melhor aparelha-
mento, a usanga primitive das hordas selvagens em suas guerras de
escravizagAo das tribus inimigas.
Nao houve, inicialmente, nem quiga depois, um pr6posito precon-
cebido de expansionismo territorial. E a mesma investida contra os
inacianos espanh6is, que dominam as posig6es alem da linha de Torde-
silhas, nao represent uma aqgo de reivindicagco patri6tica e, sim, pura-
mente, a certeza de que all era facil fazerem-se as largas provisoes de
peas 6timas que adquiriam pregos mais elevados nos mercados do
centro-sul.
Documentos modernamente exumados dos arquivos autorizam recuar
para 6pocas anteriores as fixadas pelos historiadores do bandeirismo
paulista esse surto de atividades concernentes a prea de indios, que
deu origem ao ciclo das bandeiras.





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Em meados do seculo XVI, intense ja era este comercio, no extreme
sul, de onde os vicentistas levavam infimeros escravos, resgatados ou
tomados das aldeias em que passavam.
Antonio de la Trinidad, resident em Assunrgo, em carta que
escreve aos membros do Conselho das indias, datada de 2 de julho de
1556, nos revela que "uino un portuges q' se dize fulano farina de san
vicente, pueblo de portugal y a la vuelta q' se uoluyo le dieron lugar
q' Ilevase yndios de la tierra ciertos onbres q' yvan con elle y aif le
vendieron a ello otros y los llevo a san vicente y los vendi a los otros
portoges y pago su decima a los oficiales del rey por esclabos fueron
hasta treinta sin otros muchos q' por el camino se le murieron /uino
despues otro portoges q' se dize diego dias y diole el gobernador licen-
cia q' le vendiesen en el pueblo muchos yndios ororocotoquies y de otras
naciones los quales auia traydo de una entrada y Ilevolos a san vicente
con otros yndios que en el camino tomo don diego esclabos los vendi
y pago los derechos a su Rey /otros tres o quatro cristianos viendo q'
esto se consintiese salieron de aqui y Ilevaron /de qui/ cada uno su
media dozen y venidos nynguna cosa les dixeron vinyendi de los
tupies ciertos onbres q' es otra nacion de yndios en un rio toparon
quinze canoas y cargados de yndios de los q' con nosostros estan
Ilevanlos atados otros muertos y asados y cosidos dixolos esto onbre
a uno principal de los tupies q' porq' Ilevavan y hazian gera a los
nuestros Respondiole estos andan huyendo de vosotros y fizo a uno
de los q' yuan atados y dixolo porq' huyen de nosotros pues los trataron
estos asi Respondiole el yndio preso dexalos maten y comanos q' mas
q'remos q' nos coman estos q' no sufriros a vosotros" (1) .
Muitos outros nomes poder-se-iam acrescentar A lista desses pre-
cursores do bandeirismo, entire os quais sobreleva Pero Correa, grande
preador de silvicolas, entire carij6s e ibiraiaras. Potente em arcos, ses-
meiro de dilatadas terras em Sao Vicente, onde contend corn Braz
Cubas, um dia, edificado pelas predicas de Manuel da N6brega, pela
piedade de Jose de Anchieta, a tudo renuncia, seguindo-lhes o exemplo,
e ingressa como novico na Companhia. Doa aos meninos do Colkgio
terras e vacas, di liberdade aos indios que apresara e, lingua admiravel,
pela madrugada alta, acorda os selvagens nas aldeias distantes, falando-
lhes, horas a fio, de um Deus misericordioso, que era o senhor supremo
de tudo e, atras de si, eloquente e persuasive, arrasta multid6es de abo-
rigenes que se convertem A fe de Cristo. Palmilha de novo os sert6es
e As mAos dos carij6s encontra o martirio e a gl6ria, em terras do
extreme sul.
Mas, as bandeiras propriamente ditas, organizag6es regulars che-
fiadas por homes de prol e auxiliadas por indios aliados e, mais tarde,
por mamalucos, teem suas origens na segunda metade do seculo XVI.
Quase todas sio dirigidas ao sul, principalmente contra os carij6s. 0
erudito Basilio de Magalhaes as relaciona (2). Abre o ciclo, em 1561,

(1) B. N. Mss. I, 26, 30, 13. Cf. Campafia del Brasil, 1.* vol.
(2) Basilio de Magalhaies Expansgo Geografica do Brasil Colonial -
2.' ed. 1935. Ed. Nacional. 107/121.





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a celebre bandeira de Anhebi, que leva a guerra a esses silvicolas. Vai
como interprete Jose de Anchieta. No ano seguinte, sob a chefia de
Jodo Ramalho, outra se apresta contra os indios do Paraiba. A1 corn
a bandeira sob o comando de Jeronimo Leitio, capitio-mor de Sdo Vi-
cente, que se iniciam, em 1585, as guerras contra os carij6s. Em 1594 Jorge
Correa marchou a guerrear estes indios. De 1600, em diante, ja as
bandeiras se organizam para a ostensiva descida de indios do sertao.
E entire estas, visando o sul, seguem a prea dos carij6s Nicolau Bar-
reto (1602), Belchior Dias (1607), Fernio Paes de Barros (1611).
Outro rumo, porem, tomam logo as bandeiras paulistas. Ampliando
a ag o catequista, haviam os jesuitas estendido as suas aldeias ate Guaira,
onde contavam ji corn reduS6es florescentes. Por esse caminho, a cata
de indios, palmilhara Fernio Paes de Barros (1611), que teve a sua ban-
deira quase completamente destroqada. E, no ano seguinte, Sebastido
Preto renova a facanha, encontrando tambem a resistencia do gover-
nador de Ciudad Real, que ihe toma mais de 500 guaranis que apresara.
Pi Manuel Preto "o her6i de Guaira", o primeiro bandeirante que
invested contra as aldeias que os jesuitas haviam fundado naquela region.
Em 1619, 1623 e 1624 apresou nessas aldeias grande quantidade de
indios que levou para sua fazenda da Expectacgo.
"Nio se imagine, escreve Capistrano, presa mais tentadora para
cagadores de escravos. Por que aventurar-se a terras desvairadas, entire
gente bogal e rara, falando linguas travadas e incompreensiveis, se perto
demoravam aldeamentos numerosos, iniciados na arte da paz, afeitos
ao jugo da autoridade, doutrinados no abi-nheen ? Houve alguns sal-
teios contra as redug6es desde o seu comego, mas a energia e o sangue
frio dos jesuitas contiveram os arreganhos dos mamalucos, que se reti-
raram proferindo ameagas. Para p6-las em pritica precisavam, porem
da conivencia da gente de Assung5o. Isso conseguiram em fins de 1628
e muito concorreu para asseguri-la Luiz Cespedes Xeria, governador
do Paraguai, casado em familiar fluminense, senhor de engenho no Rio.
Fez por terra a viagem para seu governor ; esteve em Loreto do Pirap6 e
,Santo Inacio de Ypa-umbu;i, admirou as igrejas, hermosisimas iglesias,
que no las he visto mejores en las Indias que he corrido de Pert! y Chile,
- e fez sinal aos bandeirantes para avangarem" (1).
E estes, corn uma grande bandeira composta de "900 mamalucos,
2.000 indios auxiliares, dirigidos por 69 paulistas qdialificados como
loco-tenentes de Antonio Raposo Tavares" (2), atacam as reduces
de Guaira, "bradando aos jesuitas, consoante relata Montoya, "que iam
expulsi-los de toda aquela regiao, porque era dos portugueses e nio do
rei de Espanha" (3), e destroem, depois de duros combates, as aldeias
cristas. 1i quando resolve os jesuitas, a frente dos catecfimenos que
restam, abandonar aquela regiio e emigrar para o Parana.

(1) Capistrano de Abreu Cap. Hist. Colonial, 102.
(2) Basilio de Magalhaes Ob. cit., 120.
(3) Basilio de Magalhies Ob. cit. 120.





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2 A bandeira de Aracambi

A primeira bandeira que assola o territ6rio riograndense, ainda sob
o comando do grande Raposo Tavares, nele penetra em fins de 1636.
0 erudito historiador paulista, Dr. Alfredo Ellis Junior, assinala
o ano de 1635 para a penetraqo da primeira bandeira piratiningana nos
sert6es do Rio Grande do Sul, tendo como chefe o ousado bandeirante
Ferngo de Camargo, o Tigre (1). Aceitando essa assertive, o mestre
do bandeirismo, Dr. Affonso d'E. Taunay, em sua obra monumental,
transcreve largamente o trabalho do Dr. Ellis, que recebe, assim, o con-
senso do notavel historiador das Bandeiras (2).
Em pesquisas levadas a efeito, na Biblioteca Nacional, cuja divul-
gag~o serviu para outros trabalhos que se ha feito posteriormente (3),
encontramos, especialmente nas Anuas jesuiticas, referentes a esse pe-
riodo (4), interessantissimos informes (5), que veem modificar, em parte,
a opinido do historiador paulista e restabelecer a verdade sobre o objetivo
dessa bandeira (a de Aracambi), que rumou para os sert6es do sul, corn
o intuito de escravizar os indios Patos.
Conjugando elements da preciosa documentaqgo official de Sio
Paulo, o Dr. Alfredo Ellis reconstitue essa bandeira, que, em principios
de 1635, se dirigiu aos "ditos Patos". Alem de indios de arco compunha-
se ela de "200 homess, que levavam p61lvora, chumbo.e correntes, e
deveria ter partido de Sao Paulo nas proximidades de 17 de margo de
1635. "Vinte dias, mais ou menos, diz o Dr. Ellis, deveriam os barcos ter
levado na rota de Santos ao Rio Grande do Sul, pois que eram meios de
transport infinitamente mais rapidos do que as longas caminhadas pelos
sert6es agrestes da via terrestre (6).
Deveria a bandeira em questao ter desembarcado na Laguna, em
Santa Catarina, justamente onde passava o meridiano de Tordesilhas, e
que desta data em diante foi muito frequentada pelos bandeirantes pau-
lisas, como faz certo o inventario do paulista Cust6dio Gomes (1638)
(Inv. e Test., vol. XII-253), ou na lagoa dos Patos, no pr6prio Rio
Grande do Sul, lugar muito em uso, tambem, por bandeirantes maritimos,
paulistas, como as que sao referidas em uma carta de Felipe IV, dirigida
de Madri ao vice-rei do Perfi, marquis de Monera, em 16 de setembro'
de 1639, na qual dizia que os moradores e vizinhos de Sao Paulo haviam
realizado desde 1614 varias entradas por terras do Brasil a dentro,
"como por el puerto de Patos y Rio Grande" (7).

(1) Alfredo Ellis Junior. 0 bandeirismo paulista e o recuo do meridiano -
2.' ed. S. Paulo, 1934.
(2) Affonso de E. Taunay Historia Geral das Bandeiras. S. Paulo, 1924.
(3) Olinto Sanmartin A bandeira de Aracambi Anais 2. Cong. de
Hist. do Rio Grande do Sul, 1937, III, vol. 7.
(4) P. Luiz Gonzaga Jaeger S. J. As invasoes bandeirantes no Rio
Grande do Sul (1635-1641).
(5) Colaeo de Angelis.
(6) Aurelio Porto Bandeiras paulistas do Rio Grande do Sul. "Terra
Farroupilha" P. Alegre, 1937. I vol. 52.
(6) Dr. A. Ellis Bandeirismo cit., 142.
(7) A. Taunay Hist. Geral cit., II, 229.





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Assinalando isto, o provecto autor da Hist6ria Geral das Bandeiras
acha provavel que esta entrada se tivesse realizado "pelo Rio Grande,
na lagoa dos Patos, e dai rumando o norte, houvesse, mesmo, penetrado
pelas bocas adentro do Jacui, para no curso baixo desse caudal, quais
normandos da America, assaltar as malocas dos patos ou araxanes e
quigi ameaqar as primeiras redug6es do Tape, que margeiam esse rio.
Saindo em 17 de marco, de Sao Paulo, essa bandeira "em principios
de junho do mesmo ano estava acampada em arraial, junto a aldeia do
principal Aracambi, no sertio dos Patos, em pleno Rio Grande do Sul".
Faleceu ai o bandeirante Juzarte Lopes, e de seu testamento sao identifi-
cados varios paulistas que dela faziam parte. Acrescenta o Dr. Ellis :
"Ignoramos, infelizmente, por falta de referencia nos documents, por
n6s analisados, quais os feitos dessa bandeira no sul e se chegou ela a
atacar as reduq6es do Tape, curta, porem, foi a permanencia dela fora
do povoado paulistano, pois, oito meses depois de t&-lo abandonado,
a ele tornava, novamente, de regresso de seu long percurso, pois que
encontramos a Fernio de Camargo, o Tigre, da lista supra novamente
em Camara, a 10 de novembro de 1635 (Atas, vol. IV, 268), prova
evidence de que a bandeira tambem se encontrava em Sao Paulo". Ter-
mina o autor desse estudo dizendo ter sido "essa a bandeira iniciadora
da invasso do Rio Grande do Sul, pelos paulistas".
Determinados, assim, os pontos cardiais da assergdo do erudito
historiador quanto a bandeira de Aracambi, procuraremos, mercer da
larga documentaqgo consultada, expor os motivos da nossa discordancia
no que diz respeito a entrada dessa bandeira nos sert6es riograndenses,
se bem que pequeno niumero de seus components possa ter vindo ate
o Caagua, como se dira.
Ela deveria, aportando a Laguna, ter-se dirigido aos "sert6es dos
Patos", isto 6, ao pr6prio territ6rio lagunense, em direqgo a oeste, se-
guindo pela margem direita o curso do rio Pelotas, que da origem ao
Uruguai. A designacqo de "sertao dos Patos" nao abrangia o Rio
Grande do Sul. S6 a recebeu, isto mesmo corn aplicacgo a lagoa (lagoa
dos Patos), muito mais tarde, quando, por um erro cartogrAfico, se
estendeu ela a essa massa d'agua e aos indios circunvizinhos que eram ibi-
raiaras e tapes, ditos arachanes changess da lagoa ? = ara, lagoa). Laguna
de los Patos, sert6es dos patos, sertao dos carij6s, foram sempre a atual
Laguna e seus sert6es de sul e oeste. A fronteira, pelo sul, no litoral,
dos carij6s ou patos, corn os ibiraiaras, estendia-se pelo rio Mampituba.
a o que nos diz, em 1605, em sua carta de 26 de novembro, o padre
Jeronimo Rodrigues, que naquele ano, juntamente corn o padre Joao
Lobato, havia estado na Laguna, em missao aos carij6s. "A comarca
desses carij6s, que estio por estes campos ao long do mar e que e
deste porto de D. Rodrigo (Imbituba) ate Boipetibla (Mampituba), pode
ser de 40 1guas, pouco mais ou menos, terra mui baixa, campinas de
area, que correm entire o mar e umas serras que ndo ha ser um palmo





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de terra nem de barro; no inverno muito fria, no verso muito quente, e
de muitas ruins aguas e daqui vem de ser muito doentia" (1).
Afim de restabelecer a verdade sobre os acontecimentos ocorridos
nesse ano de 1635, no territ6rio riograndense, procuraremos estudar,
detidamente, este period obscuro da nossa hist6ria, afastando para os
fins do ano seguinte a entrada de bandeiras regulars que iniciaram a
destruigao das reduv6es jesuiticas.
Grandes amigos' dos tupis, mamalucos e paulistas, os bilreiros ou
ibiraiaras eram insignes mercadores de indios que resgatavam com aque-
les preadores insaciaveis. Organizaram eles, em fins de 1634, uma junta
(especie de bandeira), corn o intuito de cativar indios e ate mesmo os
catecfmenos das nascentes redug6es do Tape, principalmente os que
demoravam por Jesfis-Maria, onde, com o padre Pedro Mola, cura da
aldeia, se encontrava o veneravel padre Cristovao de Mendoza. Correu
c6lere a noticia desse sucesso, dizendo-se que essa razzia seria feita pelos
bandeirantes paulistas, o que depois se verificou nio ser exato. A frente
de grande nfimero de indios cristianizados, os padres Cristovio e Mola
conseguiram dispersar parte do bando, aprisionando os principals que
foram mandados para as reduc6es do Parana, e libertando os cativos
destinados a serem vendidos na costa do mar, aonde os vinham buscat
os paulistas, que faziam incurs6es peri6dicas ate Laguna. Outras noti-
cias sobre atividades escravagistas do ibianguaras e guaibiguaras levam
o padre Cristovao a empreender larga entrada pela regiao do Cai e da
serra geral, transpondo o rio Taquari.
Avolumavam-se, porem, rumors de que os 'bandeirantes se apres-
tavam em S2o Paulo para destruir as reduces do Tape, a exemplo do
que haviam praticado em Guaira. Ao provincial padre Diego de Bor6a,
que se dirigia a Buenos Aires, chegaram precisos informes "que los brasi-
lefos de S. Pablo estaban alistando una invasion a la Provincia del
Uruguay, para que, como los habian hecho, hace poco, en el Guaira,
recogiesen una buena porcion de cautivos". Tomou o padre Bor6a ime-
diatas providencias para evitar a destrui4co das reduces. Em conselho
com outros padres, governador da provincia e reitor do Colegio foi
acordado que "se devia opor a invasao com forga armada". "Despa-
chose en consequencia por de pronto, para tomar a su cargo las medidas
del caso en el Uruguay al padre Francisco Diaz Tafio, veteran y insi-
gne misionero y en su compaiiia los dos hermanos coadjutores Antonio
Bernal y Juan de Cardenas, los dos antes de entrar en la Compafiia, por
largo tiempo, ejercitados en el arte military "Ao mesmo tempo, acres-
centa o provincial Bor6a, dei aos mesmos plenos poderes para comprar
todas as armas e apetrechos que se precisavam para essa empresa". (2).
O padre Diaz Tafio, que foi nomeado superior daquelas reduces, partiu
para o Uruguai a 15 de maio de 1635, levando consigo armamentos e
outros petrechos necessarios a defesa das reduces.

(1) P. Fernao Guerreiro Relagao annual das cousas que fiserao etc.
Lisboa 1609 306. Mem6rias para o extinto Estado etc. Candido Mendes de
Almeida Rio, 1874, II, 542.
(2) Documentos para la Historia Argentina Iglesia Cartas anuas de
la Provincia del Paraguay etc. B. Aires. 1929 II, 549-550.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Antes, porem, que chegasse a seu destino, graves acontecimentos
haviam ocorrido na provincia do Tape, promovidos pelos ibiraiaras e
outros indios infieis, inimigos dos padres, mas absolutamente sem inter-
ferencia dos paulistas.
Fundada, como vimos, a reduqco de Santa Teresa, pelo padre
Francisco Ximenes, iniciou este, em companhia do padre Juan Suarez
e indfos vaqueanos, a exploracgo da vasta regido a que ia servir, esten-
dendo sua excursdo a bacia oriental do Taquari ate o litoral. Nessa
viagem empregou o padre 24 dias, tendo partido de Santa Teresa a 3
de janeiro de 1635.
Entrou o padre Ximenes pelo Caapi (pontas do rio raquari), nove
dias distant de Santa Teresa, e, embarcando ai em uma canoa, corn mais
meio dia de viagem, atingiu o Mbocarir6i (Guapor6), pelo qual em dois
dias saiu no Tibiquari (Taquari) e tendo navegado mais tries dias entrou
no Mboapari (rio das Antas) onde deixou as canoas, voltando, cinco
dias depois, A sua reduco.
Encontrou o missionArio, nos lugares visitados, aproximadamente
2.000 indios que poderiam ser reduzidos em tres pontos : Caapi, Yuti,
(serras que ficam sobre o Taquari), e na boca do Mboapari (Antas).
Havia em outros lugares grande nimero de gente reunida, mas nao
convinha localizar neles qualquer reducgo, "porq' la tierra es fragosissima,
sus caminos infernales, no ai campo onde tener 4 bacas".
0 padre foi bem recebido de todos. Acompanharam-no, em 34
canoas, perto de 200 indios, "que, embisados y emplumados a su usanga,
esparcidas por el rio las canoas, causaban agradavel vista". Tentou o
padre Ximenes localizar parte dessa gente nas redug6es ja existentes no
Tape, prometendo 300 deles irem para Santa Teresa. Os outros, natural-
mente, acompanhariam, mais tarde, os seus parents. Sentiu o jesuita,
entretanto, que a "gente de Taquari estava mui pouco disposta e nada
afeta a n6s outros e assim nio tratei muito de ganh,-los ; falei e pro-
curei atrair os caciques de mais nome (nao me custou pouco alcanga-los,
porque toda a gente quando eu chegava fugia para os matos) e trouxe
alguns comigo, tendo-os presenteado e despachado satisfeitos. Entre o
Jequi (Jacui) e Mboapari (Antas) sobre o Tibiquari (Taquari) e os
matos adentro, onde & cacique principal Nace, que mandei a Piratini
falar corn V. R. [padre Pedro Romero] (ainda que por tardar V. R.,
voltou sem faze-lo), havia muita gente e confiavam que Ihes havia eu
de levantar cruz eu Ihes mostrei as dificuldades que havia, e que se quises-
sem ter padres saissem dessa parte do mato, eles ficaram de juntar os
caciques e procurar ver onde melhor fazer o seu povo e creio que o
fardo, porque eles ja conhecem o mal que os espera, e que &'forroso deixar
suas terras e vir buscar seu remedio". "Ficava-lhes, acrescenta o des-
bravador, por ver os principios [origens] do Tibiquari, Caramatai [Gra-
vatai] e Jequi [Jacui], etc., onde estava a maior forga da gente que da
parte do mar se ha retirado, mas eu e meus companheiros estavamos
cansados e tendo-se-me dito que Tapeci que vanguardeia toda esta gente
havia said para ver-me (embora nio fora assim s6 me mandando boas
palavras) me pareceu voltar para tratar corn ele que fizesse esse povo
que se pretend entire esta redugio e de S5o Carlos (Visitaqgo), porque


101.306


F. 7





MINISTERIO DA EDUCArAO E SAUDE


s6 ele me parece o pode fazer, mas h&-de ser necessario darmos algum
principio, de forma porque tratei com V. R., porque de outra maneira
quem h&-de querer vir a este desterro ? Sem base alguma de comida ?"
A carta do padre Francisco Ximenes, datada de 4 de fevereiro
de 1635, se bem que assinale que a regiao percorrida era "el cutidero de
los tupis", ngo noticia ainda a existencia de bandeirantes (paulistas) em
territ6rio riograndense. Havia, sim, tupis, mercadores de indios, pre-
postos dos piratininganos, que iam resgatar corn eles, levando-os cativos
a Laguna. E interessante, neste sentido, um t6pico da carta do jesuita,
que transcrevemos na integra :
"Dos mercadores o mas de los Portuguezes hall& por estas tierras,
el uno estava sobre el Mbocarir6i [Guapore] y se llama Ibiraperobi, esto
enfadado dellos dexo ya su mal trato, hablele y ganele de manera que
me acompafio tres dias con muestras de grande amor y queriendole el
assi matricul6 la gente que se le habia allegado para la visitacion donde
me di6 palabra de reducirse y creo lo compriri. El otro se llama Para-
popi, y esta en el Tibiquari, 4 l6guas mas baxo de la boca de Mboapari,
esto es grandissimo bellaco y q' ha Vendido toda esta Nacion, a el
venian a parar todos los tupis assi por el rio [Guaiba] como por tierra
[Laguna] (y los que V. R. cogio a el venian y ya yo tenia noticia
de su venida) del fian los portugueses todos sus resgates, e de su casa
parten todos los afios las flotas de miserables cautibos que Ilevan los
tupis por tierra (por donde me dicen solo tardan cinco dias hasta al mar).
Yo iba con intent de traerlo por fuerza si de su voluntad no quisiese
venir con migo, mas no se que indio se me adelanto y de noche le dio
aviso y se fuyo con algunos tupis q' con sigo tenia, hisolo quemar la
casa y destruyr q.to le pudo la comida p.a q' se vaya de alli" (1) .
Duas eram as entradas "por donde pueden venir [os paulistas] a
nuestras reduciones : la una es el Caagua y otra el pueblo de Guebi-
renda [pouso, sitio do Guaiba = Porto Alegre] e disto ay ciertos indi-
cios", diz o padre Pedro Mola, na Anua, de Jesus Maria, de 22 de
outubro de 1635 (2).
E foram esses "indicios" e a noticia de que alguns mamalucos que
aportaram a Guaibe-renda haviam sido mortos pelos indios, e o desejo
de despertar nos caaguaras o sentiment da defesa de suas terras, por
onde "fatalmente teriam de passar os inimigos" para assaltar as redug6es
do Tape, que moveu o padre Cristovao de Mendoza a ir aquela regiao,
como fica historiado.
Nada encontrou o padre, em toda serra, que autorizasse a supor a
presenga ali de piratininganos. Em 25 de abril, ao deixar o Caagua,
alem de instrug6es detalhadas sobre o modo de defender aquelas terras e
delas expulsar os invasores, o padre Cristovao encarregou a alguns
varistas de Jesfis Maria e Sdo Miguel, que consigo levara, de ali ficarem
para vigiar o passo dos inimigos e dar aviso as redug6es, se eles apa-
recessem.

(1) Carta do padre Francisco Ximenes ao prov. padre Bor6a, I, 29, 1, 47.
(2) Anua do padre Pedro Mola. B. N. Mss. I, 29, 7, 28.





HISTCRIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


Em seguida ddo-se os trdgicos sucessos de Ibia, a expediqdo armada
de indios catecfimenos que vai buscar o corpo do padre e vingar a sua
morte, e os consequences acontecimentos da Junta de feiticeiros que se
organize em Carir6i, avanva para Tayavuap6, ate o Rio Pardinho, onde
e destrocada pelos cristdos.
Nesse entretempo, porem, isto 6, entire junho e agosto, forte indicio
da aproxima~co de uma bandeira, na regiio do Caagua, nos induz a
modificar estudo anterior (1) e aceitar, em parte, as observaq6es do
Dr. Alfredo Ellis Junior, no que se refere a "Bandeira de Aracambi (2).
Mediante pesquisas mais completes, nos documents jesuiticos da 6poca
(3), pela coincidencia das datas e pelo nimero de "portugueses" mortos
pelos caaguas, admitimos, senio a entrada dessa bandeira de Aracambi
no territ6rio riograndense, pelo menos o de um destacamento que A
mesma pertencesse e que, baixando da Laguna, em julho ou agosto,
houvesse sido trucidado pelos caaguaras, sob o comando dos varistas
que o padre Cristovio ali deixara.
Em sua carta Anua de 6 de setembro de 1635, ao receber as pri-
meiras noticias sobre a "Junta de feiticeiros" que se formava na pro-
vincia de Ibiaca e referindo-se ao CaAgua, diz o padre Bor6a que "como
ali estio tres varistas, dois daqui (Jesuis Maria) e um de Sio Miguel,
critdos todos e estes foram os que ajudaram a matar os portugueses,
pelos quais (caaguaras) & necessArio passar primeiro, parece que nao e
(a Junta) coisa de portugueses" (4). Os indios de Guaibe-renda (Porto
Alegre) haviam tambem, mais ou menos na mesma ocasigo, se defendido
e morto outros portugueses que ali tinham aportado (5).
S6 em fins de setembro os varistas que estavam no Caagua, dei-
xados pelo padre Cristovio, voltaram com grande perigo e "afirmam que
foi certa a matanca dos portugueses". Em uma nota, s6 agora encon-
trada, aposta pelo padre Romero em uma carta do prov. Bor6a, datada
de 14 de junho de 1636, encontra-se a seguinte revelagio : "29 fueron
los portugueses que mataron los indios del Caagua" e os portugueses do
Rio de Janeiro nao se deram por sentidos, porque dizem que eles tiveram
a culpa de meter-se serra a dentro e fazer agravo as suas rovas" (6).
Como se verifica, o nimero de mortos e assaz grande para que
se despreze a possibilidade de pertencerem a uma bandeira, que estaria
nas proximidades. Esta seria, provavelmente, a de Aracambi, que o Dr.
Ellis identifica, em principios de julho de 1635, acampada no "sertio
dos Patos", isto 6, no sertio da Laguna, quiq& A margem direita do rio
das Pelotas. Releve-se-nos notar, a simples titulo de curiosidade, que,
nesse sertio, hA um rio Arambari (Aracambi) afluente da margem direita

(1) Aurelio Porto Terra Farroupilha, I, 55/61.
(2) Alfredo Ellis Junior 0 bandeirismo paulista etc., 1., ed., 69-77.
(3) B. N. Coleggo de Angelis. Anuas das Reduq6es, etc.
(4) B. N. I, 29, 1, 53.
(5) B. N. I, 29, 7, 28.
(6) B. N. Nota do padre Romero a carta do padre Diogo de Bor6a,
1, 29, 1, 59.





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do Pelotas, cortado pela estrada antiga das bandeiras, e assinalado no
mapa do padre Diogo Soares, em 1738.
Ha, tambem, a hip6tese de que esses portugueses houvessem entrado
por via maritima, sabendo-se que eram continues as incurs6es desse
genero, justificadas no pr6prio trabalho do Dr. Ellis Junior, que trans-
creve do Registo Geral referencia a barcos aos patos, "corn polvora e
pelouros e correntes a dar guerra ao gentio dos Patos que esta ha tantos
anos de paz e alguns cristios, o que protestamos" (1).
Autoriza a hip6tese a referencia, em varios documents jesuiticos
de 1635, a portugueses que os indios guaibirenhos teriam matado ao
chegarem .as suas terras, de onde subiriam "a meter-se serra a dentro"
sendo ai, por "varistas e caaguaras", mortos os 29 restantes. Seria um
dos barcos da bandeira de Aracambi que, da Laguna, tivesse demandado
a barra do Iguai (Rio Grande, lagoa, Guaiba) ?
Os jesuitas nao deram maior importancia ao acontecimento e nem
consideraram como bandeira esses grupos isolados de preadores de
indios que desciam de Sdo Vicente, Piratininga e outros lugares da costa
do Brasil. Aquele ano de 1635 era o terceiro em que, na provincia de
Ibiaga, haviam sido destrogados pelos indios infi6is e pelos padres, como
se depreende da afirmagio do padre Boroa "que Ihes deram na cabega,
por tres vezes, por aquela parte".
Supuseram, a principio, os jesuitas, que a morte do padre Cristovao
e os acontecimentos que a ela sucederam fossem "traga de los portugue-
ses". Seus matadores, principalmente os feiticeiros Yaguacaport, Ya-
guarobi e Chemboabate, "eran mui insignes de los lucitanos, y q' train
con sigo un muchacho, gran dangador (hieroquiara) con un colete de
anta q' era de los aferocicaba y q' se decia q' esto muchacho era hijo
de los portugueses aunq' era indio, debe de ser algun mestiquelo hijo
de alguna india de Yaguacaporu" (2). Corn este primeiro mamaluco
riograndense comecara o process de mestigagem que antecede de quase
um s&culo a nossa formagco etnica.
Nao obstante, porem, a guerra pregada contra os jesuitas espa-
nh6is, por este hieroquiara, em suas dansas e cantos, as indagag6es feitas
pelos indios amigos nao autorizaram a afirmar que nesses acontecimentos,
quer antes, quer depois do martirio do veneravel Cristovao, houvesse
intervengco de bandeirantes, isto 6, "en estas juntas de bellacos no an
intervenido Portuguezes, ni tupis, sino solamente .indios bellacos come-
dores de came humana, y hechiceros", reconhecia em sua carta anua
de 26 de setembro de 1635 o padre Francisco Diaz Tafio, superior
das redug6es (3) .
Ficam historiados os sucessos que determinaram a acgo da "Junta
de Feiticeiros", a organizacgo do exErcito cristio que foi combate-la e
a derrota que se seguiu dos indios coligados. Nessa ocasiao quiseram os
padres acoinpanhar os catecfimenos que iam a guerra, temerosos de que

(1) Alfredo Ellis Junior Bandeirismo. I." ed., 73, Reg. Geral, I, 499.
(2) Carta padre Diaz Tafio, original e inedita. B. N. Mss. I, 29, 1, 53.
(3) Carta cit.





HIST6RIA DAS MISSES ORIENTAIS DO URUGUAI


essa sublevacgo que se estendia ate as fronteiras do Tape, abrangendo
toda a provincia dos ibiraiaras, fosse promovida pelos piratininganos.
Os indios, entretanto, nio permitiram a interferencia dos religiosos da
Companhia, preferindo ir somente sob o comando de seus capities :
"ellos querian ir solos, q' indios contra indios mejor se auian sin padres,
q' se hubiesen Portuguezes q' entonces nos auisarian". Sabendo o padre
superior (Diaz Tafio) que se faziam juntas em Carir6i (em frente a
Santa Tereza) e em Piraiubi (m. d. do Taquari), mas ignorando a
intengdo corn que eram feitas escreveu ao irmdo Cardenas que lhe
avisasse qualquer "rumor de portugueses", mas at& 20 de setembro de
1635, data da carta, nada averiguara nesse sentido. Segundo o padre
Pedro Mola, em carta datada de 22 de outubro do mesmo ano, "ay
ciertos indicios" de que os bandeirantes desceriam sobre as redug6es
por um dos dois caminhos a que nos referimos.
Transcorreu, assim, o ano de 1635 sem que entrasse no territ6rio
riograndense nenhuma bandeira paulista, nao obstante as continues no-
ticias de que se preparavam elas para dar sobre as redug6es e destrui-
las, cativando, alem dos infi6is, os indios cristios. Grande parte do ano
seguinte, 1636, passa, sem que aparegam os terriveis inimigos. A inua
do padre Pedro Romero, datada de 3 de abril de 1636, dirigida ao
provincial padre Diego Bor6a ainda nio se refere a entrada de bandei-
rantes. S6 mais tarde, em novembro, como se vera, teem os padres
conhecimento da passage, pelo Caagua, da primeira bandeira que
penetra o Rio Grande do Sul e a cuja frente vein o insigne Antonio
Raposo Tavares, o mesmo que, em Guaira, ja tivera contact com muitos
dos missiondrios que catequizavam nas doutrinas do Uruguai e do Tape.
Mas, qual a direcgo dessa bandeira, composta de 200 homes bran-
cos, assinalada pelo Dr. Alfredo Ellis, que esteve no "sertio dos Patos",
de marco a junho de 1635 ? N.o foi, por certo, como documentamos, no
Rio Grande do Sul, porque os patos eram os mesmos indios carij6s,
cujas fronteiras, ao sul, corn os ibiraiaras, iam ate o Mampituba. S6
nos principios do seculo XVIII e que Laguna de los Patos (atual La-
guna) perde essa designaco que, por extensdo e erro cartogrdfico, se
estende a hodierna lagoa dos Patos, chamada entio Iguai, como todo o
curso de Guaiba (I-guai-be) e Jacui inferior. Apesar de alguns documen-
tos paulistas, de origem bandeirante, se referirem a "Jesuas Maria de Ibiti-
caraiba no sertao dos patos ou arachanes (1), nio nos parece exata a
dsignacao, tendo em vista que Jesfis Maria, que ficava junto ao Ibiti-
caralba (Butucarai), poderia ter sido fundada por arachanes, que assim
tambem eram chamados os tapes, mas, nunca por patos, isto E, carij6s,
que n2o estavam localizados dentro do territ6rio riograndense. Toda a
documentag4o jesuitica-espanhola da 6poca desautoriza essa designacgo.
0 sertao dos Patos, onde esteve, na aldeia do principal Aracambi,
acampada a bandeira, que o Dr. Ellis assinala, E o sertio de Santa
Catarina, que se estende ao norte do Uruguai, provavelmente.


(1) Inv. e Test. de Sao Paulo, vol. XI, 143.