Dr. Henry W. Furniss, Consul Afro-Norte-Americano Na Bahia, 1898-1905

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Dr. Henry W. Furniss, Consul Afro-Norte-Americano Na Bahia, 1898-1905
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Afro-Ásia
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Mixed Material
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Losch, Paul S.
Publisher:
Afro-Ásia
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Bahia- Brasil
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University of Florida
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University of Florida
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AA00010428:00001


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Afro-sia, 40 (2009), 223-258223DR. HENRY W. FURNISS, CNSUL AFRO-NORTE-AMERICANO NA BAHIA, 1898-1905 Paul S. Losch*Foi um desejo pessoal vir Bahia. Tinha ouvido falar dela por anos, e de Salvador, uma grande cidade, e tambm por causa da comunidade afro-brasileira daqui, a expresso da sua cultura. E, claro, sou descendente de africanos e sempre acreditei que Brasil e Estados Unidos, em alguns aspectos, se parecem mais entre si do que quaisquer outros dois pases no mundo. A tradio da grande dispora europeia, latina e africana, todos vivendo lado a lado, ento eu quis vir Bahia. E posso ver que no estava errada. lindo aqui. Eu s sinto ter demorado tanto a conhec-la (Condoleezza Rice, 13 de maro, 2008).1A Secretria de Estado dos Estados Unidos, ao fazer essa declarao durante sua visita Bahia, em 2008, no foi a primeira diplomata afro-norte-americana a emitir semelhantes afirmaes.2 Mais de um *Vice-Diretor, da Biblioteca Latino-americana, Universidade da Flrida (Gainesville). Mestre em Estudos Latino americanos pela Universidade da Flrida. Mestre em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Floridiense (Tallahassee). Foi professor da Escola Panamericana da Bahia, onde morou por trs anos. Agradeo a Diego Silva Ribeiro, estudante do Instituto de Letras da UFBA, pela ajuda na redao em portugus, e tambm a Diane Furniss Happy, pelas informaes fornecidas sobre o av. 1“Entrevista da Secretria de Estado Condoleezza Rice a William Waack, da TV Globo”, http://www.embaixadaamericana.org.br/index.php?action=materia&id=6625, acessado em 03/09/2009. Essa a traduo que aparece no site oficial. Todas as outras citaes neste trabalho, de fontes em ingls, foram traduzidas por mim .2Existem estudos de como o Brasil tem sido visto por negros nos Estados Unidos: um “paraso racial” e os problemas relativos a essa viso. David J. Hellwig, “Racial Paradise Or Run-Around? Afro-North American V iews of Race Relations in Brazil”, American Studies Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 223

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224Afro-sia, 40 (2010), 223-258sculo antes, o Dr. Henry Watson Furniss (1868-1955) foi cnsul dos Estados Unidos em Salvador e tinha impresses parecidas sobre a convivncia racial na cidade. A histria de Furniss, hoje quase esquecida, interessante por vrios motivos. Ele passou oito anos (1898-1905) no consulado, at ser promovido ao cargo de Ministro Plenipotencirio dos Estados Unidos no Haiti. A extensa documentao que deixou da sua passagem pela Bahia serve hoje como uma rica fonte para quem estuda a histria daquele estado na Velha Repblica ou dos Estados Unidos na sua ascenso potncia mundial. Alm de diplomata, Furniss era um cientista, com vrios cursos de ps-graduao em medicina e farmcia, e isso permitiu que pudesse participar da vida intelectual da poca e anotar detalhadamente vrios aspectos naturais e sociais da Bahia. O que torna o caso de Furniss fora do comum o fato de ele ser negro.3 Isso porque, em primeiro lugar, ele era um dos poucos diplomatas negros dos Estados Unidos nessa poca.4 Por motivos polticos, a raa a que pertencia teve um peso grande na sua carreira diplomtica, ajudando-o em alguns momentos e, em outros, prejudicando-o. Em segundo lugar, o fato de ele ser um norte-americano negro conferiu-lhe uma perspectiva especial, de quem teve a oportunidade de conhecer de perto as diferenas entre os Estados Unidos e o Brasil, no que diz respeito s questes raciais. (Lawrence) vol. 31, n 2 (1990), pp. 43-60; Hellwig, African-American Reflections on Brazil’s Racial Paradise Philadelphia: Temple University Press, 1992; Robert Fikes Jr., “U.S. Blacks’ Perceptions, Experiences and Scholarship regarding Central and South America, 1822-1959", Negro Educational Review, vol. 57, n 3/4 (2006), pp. 171-86.3A categorizao racial de Furniss, no Brasil e nos Estados Unidos, tratada em detalhe mais adiante. Em geral, o identificamos como “negro”, porque, durante muitos anos, foi assim reconhecido nos Estados Unidos.4A escassa presena afro-norte-americana na diplomacia dos Estados Unidos tema de vrios trabalhos. James A. Padgett, “Diplomats to Haiti and their Diplomacy”, Journal of Negro History vol. 25, n 3 (1940), pp. 265-330; Laurence John Wesley Hayes, The Negro Federal Government Worker; a Study of His Classification Status in the District of Columbia, 1883-1938 Washington: Howard University, 1941; Michael L. Krenn, Race and U.S. Foreign Policy from 1900 through World War II New York: Garland Publishers, 1998. O grupo de cnsules negros nomeados na mesma poca que Furniss tema de Benjamin R. Justesen, “African-American Consuls Abroad, 1897-1909”, Foreign Service Journal (September 2004), pp. 72-6. A carreira de Furniss no Haiti, em particular, tema de Charles E. Wynes, “Black Diplomats to Haiti, Prejudice and Henry Watson Furniss”, Midwest Quarterly vol. 24, n 2 (1983), pp. 189-98. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 224

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258225A famlia e a educao de Henry Watson FurnissA juventude de Furniss foi marcada pela luta dos negros para se estabelecerem na poca aps a guerra entre os estados americanos do Norte e os do Sul (1861-1865). Seus pais eram negros livres, criados e educados no Norte. O pai, William H. Furniss, fazia o curso superior em New Hampshire, antes de partir para a guerra.5 De volta a Nova York, casou-se com a professora Mary Elizabeth Williams, em 1867, e o primeiro filho deles, Henry, nasceu no Brooklyn, no dia 14 de fevereiro de 1868.6 J no ano de 1870, o pai, a me e o pequeno “Harry” (como era chamado na famlia), se encontravam em Jackson, Mississipi, onde William foi oficial do “Freedmen’s Bureau,” a agncia do Governo Federal, criada principalmente para ajudar os escravos recm-libertados.7 No Mississipi, teve vrias funes, entre elas a direo de escolas para a populao negra, e o cadastramento de eleitores negros.8 Com a eventual retirada do Exrcito Federal e o fim do projeto de “Reconstruo” do Sul, a famlia Furniss, acrescentada por mais um filho, Sumner, se mudou do Mississipi para longe das represlias contra o regime nortista. Por um tempo, o pai foi professor de matemtica no Lincoln Institute (hoje Lincoln University), colgio para negros no Missouri. Posteriormente, estabeleceram-se em Indianpolis, onde ele conseguiu um emprego na agncia dos Correios. Foi nessa cidade que o jovem Henry terminou o colgio e iniciou 5O nome de William H. Furniss consta na lista de estudantes do Curso Cientfico de Dartmouth College, em New Hampshire (1859-1860). Ele acompanhou um regimento do norte para a ocupao de Carolina do Sul, no como combatente, mas como vivandeiro, segundo as lembranas de um companheiro de guerra, Samuel R. Scottron, “Manufacturing Household Articles” (Reprinted from the Colored American Magazine October 1904)”, in A Hammer in their Hands: A Documentary History of Technology and the African-American Experience Cambridge: Ed. Carroll W. Pursell, MIT Press, 2005, pp. 397-400. Como a participao de soldados negros ainda era restrita no exrcito do norte, muitos tiveram que se conformar com trabalhos de vivandeiro, enfermeiro e outras funes de apoio ao combatente.6At o seu nome, “Henry Watson”, parece ser inspirado nas lutas abolicionistas. Havia um escravo fugido, com esse nome, que ficou famoso por ter sua autobiografia publicada por grupos abolicionistas. Henry Watson, Narrative of Henry Watson Boston: Bela Marsh, 1848.7“1870 United States Federal Census,” www.ancestrylibrary.com, accessado em 07/09/2009.8Era oficial dos Arquivos Administrativos do Estado (“Assistant Secretary of State”). Sua firma tambm aparece como testemunha nos depoimentos de negros analfabetos que davam queixa sobre a Ku Klux Klan. Report of the Joint Select Committee to Inquire into the Condition of the Late Insurrectionary States vol. XI, Washington: Government Printing Office, 1872. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 225

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226Afro-sia, 40 (2010), 223-258o estudo da medicina, mas completou o curso em Washington, porque l conseguiu um emprego na agncia do Censo. Os trabalhos do recenseamento nacional o ocuparam de 1889 at 1892, e, durante esse perodo, em 1891, se tornou mdico pela Howard University, uma instituio de ensino superior criada no fim da guerra especificamente para a populao negra. Henry se mostrou um estudante brilhante e continuou os estudos na Harvard University, onde fez o curso de mestrado em 1893.9Entre 1893 e 1894, fez especializao na Faculdade de Medicina de Nova York, e, em 1895, de volta quela Universidade, completou o doutorado em Farmcia. Tambm em Washington, fez o internato no Freedmen’s Hospital, em 1895-1896, sob a orientao do reconhecido cirurgio negro Dr. Daniel Hale Williams, primo da sua me.10Enquanto Henry estudava e trabalhava nas grandes cidades do Leste, o irmo Sumner tambm se tinha formado em Medicina, na Faculdade de Indianpolis. Henry voltou para essa cidade e l tiveram um consultrio em conjunto durante um breve perodo.11 A sociedade no durou muito tempo, pois, em 1897, apareceu mais uma oportunidade tentadora para Henry Furniss, o convite para o consulado na Bahia.Os ossos do ofcioA nomeao de Furniss para o cargo na Bahia foi resultado de uma indicao poltica e de uma desistncia por parte de outro. Saiu no Washing9Furniss identificado como o primeiro afrodescendente a fazer o curso de pos-graduao na Faculdade de Medicina de Harvard, segundo Nora N. Nercessian, Against all Odds: the Legacy of Students of African Descent at Harvard Medical School Before Affirmative Action, 1850-1968 Boston: Harvard Medical School, 2004.10Williams tido por alguns autores como o primeiro norte-americano a fazer uma cirurgia cardaca. Sua vida e o tempo de Furniss no Freedmen’s Hospital so contados em Helen Buckler, Doctor Dan, Pioneer in American Surgery Boston: Little-Brown, 1954.11O irmo de Henry recebeu o nome “Sumner” em homenagem ao famoso senador abolicionista de Massachusetts, Charles Sumner. Como o irmo, Sumner tambm acabou destacando-se na medicina e no servio pblico durante a sua vida, mas sempre radicado em Indianpolis. Consta que havia protestos contra a sua contratao pelo Hospital Municipal em 1893, porque havia pacientes brancos que no queriam ser atendidos por um mdico negro. Eventualmente, ele ajudou a estabelecer o Lincoln Hospital, que atendia principalmente comunidade negra, e foi o primeiro diretor dessa instituio. Chegou a ser um dos primeiros vereadores negros da cidade, ocupando lugares de destaque na organizao local do Partido Republicano e em vrios grupos manicos. Emma Lou Thornburgh, The Negro in Indiana Before 1900: A Study of a Minority Bloomington: Indiana University Press, 1993. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 226

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258227ton Post do dia 7 de agosto 1897, que o Dr. Samuel A. Elbert, de Indianpolis, tinha sido escolhido para o cargo, mas o tinha recusado.12 Foi o primeiro mdico negro no estado e era muito respeitado pela sua comunidade. Mas, no momento em que foi indicado, j tinha 66 anos de idade, e voltou de Washington certo de que o cargo na Bahia no era para ele. A escolha passou para o jovem Furniss, que s tinha 29 anos quando foi formalmente nomeado para o consulado, em novembro de 1897, pelo Presidente William McKinley, republicano. Furniss foi um dos onze cnsules negros nomeados por McKinley. O interesse do governo em escolher um negro de Indiana se devia a dois importantes republicanos desse estado, o Senador Charles W. Fairbanks e o Deputado Federal Jesse Overstreet.13 A ajuda desses dois no passou despercebida ao Colored American jornal da comunidade negra de Washington, que, em 1902, lembrou aos leitores que foram eles que indicaram Furniss para o consulado, e que isso era prova da sua boa vontade para com a populao negra.14Conforme a declarao formal que fez, ao aceitar o cargo, Furniss nunca tinha viajado para fora dos Estados Unidos antes de embarcar para a Bahia, onde chegou no incio de maro de 1898.15 Ocupou o cargo durante o perodo da expanso comercial e militar dos Estados Unidos na Amrica Latina. S um ms depois da sua chegada comeou a guerra entre os Estados Unidos e a Espanha, e Furniss at teve uma pequena participao na sua histria naval.16 A esquadra norte-americana no Caribe esperava a chegada do encouraado Oregon para co12“Doesn’t Care to Go to Bahia”. The Washington Post 07/08/1897, p. 1, “Dr. Elbert, Colored, Declines Office”, New York Times 07/08/1897, p. 3. Elbert morreu em 1902.13Fairbanks foi eleito para o Senado pelo Estado de Indiana em 1896, e continuou no cargo at ganhar a Vice-Presidncia, em 1904. Os seus documentos pessoais esto arquivados na Biblioteca Lilly, da Universidade de Indiana, em Bloomington, e nessa correspondncia existe uma pasta de cartas recebidas de Henry Furniss. Doravante, essa fonte ser identificada como “Arquivo Fairbanks.”14“Indiana to the Fore”, The Colored American Washington, D.C., 18/10/1902, p. 3.15United States National Archives (doravante USNA), Record Group (doravante RG) 59, Despatches from United States Consuls in Bahia, 1850-1906, T-331:7, U.S. Consul H. W. Furniss to Second Assistant Secretary of State Alvey A. Adee Indianpolis, 30/01/1898.16Foi essa guerra que resultou na ocupao norte-americana de vrias ex-colnias espanholas, como Cuba, Porto Rico e as Filipinas, deixando os Estados Unidos com um novo imprio ultramarino. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 227

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228Afro-sia, 40 (2010), 223-258mear o ataque contra os espanhis em Cuba.17 Vindo a todo vapor da Califrnia, pelo Cabo de Hornos, o Oregon fez uma escala rpida na Bahia, e ficaram para Furniss vrias contas deixadas sem pagar pela Marinha, tendo ele passado um telegrama furtivo a Washington, confirmando a partida do navio rumo ao Caribe. Coube tambm a Furniss receber os psames da sociedade baiana na ocasio do assassinato de McKinley, em 1902, e de organizar as visitas formais de vrios altos oficiais navais e diplomticos dos Estados Unidos que passaram pela Bahia.18 Durante os seus oito anos no consulado, ele chegou a conhecer os governadores Luis Vianna, Severino Vieira e Jos Marcelino de Souza, em vrios atos oficiais. Seu nome foi relacionado s notcias internacionais numa outra ocasio, em agosto de 1905, quando um estelionatrio francs muito procurado foi detido num iate, na Bahia. Furniss serviu de correspondente telegrfico, enviando as notcias do caso a pedido da imprensa de Nova York.19Entretanto, no trabalho cotidiano do consulado, tratava-se pouco de assuntos graves de Estado, de visitas cerimoniais ou de escndalos internacionais. Para Furniss, como para os outros que tinham ocupado o cargo antes dele, o principal no dia a dia foi cuidar da documentao de navios 17O Oregon tinha zarpado de So Francisco, na Califrnia, em maro e teve que circumnavegar o continente sul-americano em prazo record para chegar a tempo para o combate, em maio. Foi essa corrida que convenceu o presidente seguinte, Theodore Roosevelt, da necessidade de garantir, at pela fora, a construo do Canal do Panam. O governo brasileiro soube que havia uma esquadra espanhola na costa, procura do Oregon obrigado a sair do porto apressadamente, depois de abastecer, talvez querendo evitar um confronto naval nas guas da Bahia, como aconteceu entre o Wachusett e o Florida em 1864, durante a Guerra entre os Estados. O Oregon saiu da Bahia noite, sem luzes e com uma nova capa de tinta escura que nem teve tempo de secar. Sanford Sternlicht, McKinley’s Bulldog, the Battleship Oregon, Chicago: Nelson-Hall, 1977.18Entre os mais notveis desses visitantes estavam o Ministro Charles P. Bryan, em 1899, e o Almirante W. S. Schley, em 1900. A calorosa recepo de Bryan pelas autoridades baianas causou especulao num jornal norte-americano, ou seja, que pudesse haver uma aproximao entre ele e o Senador Ruy Barbosa, baiano tido como no simptico aos Estados Unidos. “Fete in Honor of Roca”, Washington Post 09/08/1899, p. 3.19O falso “Baro de Gravald” tinha defraudado um banco parisiense, alugando um iate de luxo e fugindo para a Bahia com uma atriz casada. Pericles Madureira de Pinho, So Assim Os Baianos Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1960, p. 175. Pinho, filho do ento Chefe da Polcia baiana, diz que Furniss enviou as reportagens sobre o caso Jean Gallay para o Sun de New York, mas parece que, de fato, foi para o concorrente, o Herald O nome do correspondente no aparece nas reportagens do Herald repassadas para vrios jornais dos Estados Unidos. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 228

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258229que partiam para os Estados Unidos ou que de l chegavam. No balano geral para 1902, ele indica que, em doze meses, havia 17 sadas de navios da Bahia para os Estados Unidos, e que ele tinha preparado 85 atestados de sade para passageiros que embarcavam para l.20 Tambm disse ter certificado 351 listas de envios de produtos que estavam sendo exportados para os Estados Unidos (principalmente o acar, o caf e o cacau), mas s 24 listas de produtos norte-americanos importados pela Bahia. Alm do cotidiano, temos registros de naufrgios, disputas trabalhistas de marinheiros, problemas alfandegrios e outros assuntos do comrcio martimo que ocuparam muito o tempo de Furniss.21Zelou muito para dar uma aparncia digna s instalaes do consulado, que achou “piores do que as das potncias de segunda categoria nesta cidade, como as do Chile e da Noruega”.22 No primeiro ms, queixou-se do estado sujo da repartio, que ficava dentro de uma casa norteamericana de importao e exportao na Rua das Princesas (hoje Avenida Portugal, no Comrcio). Mandou para Washington vrios pedidos de mobilirio, livros, mapas e outros melhoramentos. Solicitou vrias vezes a troca do escudo e da bandeira da porta, que estavam avariados pelo clima.23Em 1899, um norte-americano que passou pela Bahia escreveu uma crnica de viagem para o Washington Post em que elogiou a habilidade do cnsul Furniss e desprezou o estado fsico do consulado.24 Pouco depois, o cnsul conseguiu autorizao para alugar um gabinete mais caro na Cidade Alta, em frente ao Elevador Lacerda e aos palcios dos governos estadual e municipal. O nico defeito que achou nesse novo endereo nobre era o sol forte da tarde, e encomendou persianas de Nova York para diminuir a claridade. Supe-se que ele aprendeu pelo menos a ler o portugus, porque tambm pediu dinheiro para assinar jornais da Bahia e 20Henry W. Furniss, “Bahia”, Commercial Relations of the United States with Foreign Countries, vol. 1 Washington: Government Printing Office, 1902, pp. 688-718.21Duas vezes Furniss reclamou de Washington que havia navios brasileiros usando bandeiras muito parecidas com a dos Estados Unidos, e esses casos chegaram a ser tratados pelo prprio Baro do Rio Branco. Foreign Relations of the United States (1904), pp. 1013; e Foreign Relations of the United States (1905), pp. 97-9.22USNA, RG 59, T-331:7, Despatches from United States Consuls in Bahia, H. W. Furniss to Third Assistant Secretary of State Thomas W. Cridler Bahia, 28/03/1898.23USNA, RG 59, T-331:8, Furniss to Hill Bahia, 04/08/1902.24Joseph I. Muentzer, “Scenes in Busy Bahia”, The Washington Post, 11/06/1899, p. 22. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 229

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230Afro-sia, 40 (2010), 223-258do Rio, para se manter em dia com os acontecimentos polticos e comerciais. Os seus superiores, em Washington, estavam aparentemente satisfeitos com o trabalho dele e, em geral, aprovavam os pedidos que fazia. Interessava-se muito pela nova tecnologia. Foi o primeiro cnsul norte-americano na Bahia a datilografar a sua correspondncia. Logo ao chegar, alugou uma mquina de escrever e pediu autorizao para comprar uma. Infelizmente, o navio que a trazia afundou, e ele teve que pedir outra. Antes de deixar o cargo, mandou uma carta a Washington, justificando a instalao de um telefone no consulado, porque, com isso, ia economizar o tempo e o dinheiro que gastava descendo para a Cidade Baixa para se comunicar com os comerciantes e os capites de navio.25Tambm era adepto da fotografia e ele mesmo revelava as fotos que tirava. Mandou para Washington vrios relatrios, com fotos anexadas, e ainda escreveu duas matrias sobre as excurses que fez pela Bahia, amplamente ilustradas com imagens feitas por ele, que saram no Boletim do Bureau das Repblicas Americanas.26Furniss como promotor de comrcioNesse perodo, a economia norte-americana estava numa fase de pleno crescimento e, portanto, havia grande interesse em descobrir novos mercados para a produo nacional no exterior. Tambm, em menor escala, os capitalistas norte-americanos buscavam encontrar oportunidades para investimento em outros pases.27 Com essas tendncias, os consulados comearam a atender a muitos pedidos de informao, vindos de empresas norte-americanas. Ele informa, por exemplo, ter recebido, em 1902, 426 correspondncias e escrito umas 515, na maioria, 25USNA, RG 59, T-331:8, Furniss to Loomis Bahia, 20/09/1905.26Henry W. Furniss, “Whaling in Brazil”, Bulletin of the International Union of the American Republics vol. 29, n 6 (June 1909), pp. 1048-54; “A Trip to Paulo Affonso Falls”, Bulletin vol. 30, n 1 (1910), pp. 66-82. O Bureau hoje a Organizao dos Estados Americanos (OEA).27Um grande investimento de capital norte-americano na Bahia foi anunciado no ms em que Furniss deixou o consulado. Em novembro de 1905, a Bahia Gas and Electric Company, de Portland, Maine, recebeu a concesso para as obras energticas na cidade. Poucos anos depois, em 1909, a concorrncia entre essa empresa (do Grupo Percival Farquhar) e a de Guilherme Guinle levaria a violncia s ruas de Salvador. Supe-se que Furniss tinha algum papel em ajudar a empresa norte-americana a se estabelecer na Bahia. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 230

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258231relativas informao comercial. Parece ter-se dedicado muito a essa funo, que lhe permitia estudar os gostos, os costumes e as prticas da populao local.28 Por causa da sua formao cientfica e sua experincia, adquirida trabalhando no censo, foi muito habilidoso na preparao de detalhados registros sobre a oferta e a demanda de vrios produtos na praa. Quase quarenta desses informes foram to bem elaborados que saram em jornais e revistas dos Estados Unidos, alm de resultarem em elogios a Furniss por oficiais e comerciantes. Alguns dos informes que ele preparava resumiam as notcias econmicas e polticas, ou comunicavam dicas prticas sobre os mtodos comerciais na praa. Tambm enviava notcias de outras oportunidades para empresas norte-americanas, como avisos de licitaes traduzidos para o ingls.29 A maioria dos informes tratava ou da demanda por determinado produto especfico, que algum fabricante norte-americano queria vender, ou da oferta de alguma matria-prima baiana que pudesse interessar aos importadores nos Estados Unidos. Muita informao Furniss conseguia em primeira mo, s vezes viajando para o interior. Descreve em detalhes o aproveitamento de vrios recursos naturais, como os carbonatos da Chapada Diamantina, o mangans de Santo Antnio de Jesus, e a areia monazita, de Prado.30 Tambm informava sobre a o cultivo da “borracha de manioba”, em Jequi, sobre os engenhos de acar em Sergipe, e sobre os vrios tipos de indstrias que se tinham instalado em Salvador.31No era uma boa poca para a economia brasileira, e isso deprimia a demanda para as mercadorias norte-americanas. Furniss comentou, por exemplo, que o mercado para implementos agrcolas deveria ser maior, j 28Furniss sugeriu que pudesse ter um vice-cnsul de tempo integral, que cuidasse da documentao de navios e que lhe permitisse dedicar mais tempo s pesquisas comerciais. Promotion of Trade Interests, Washington: Government Printing Office, 1905, pp. 197-8.29“Bids for Coal in Brazil”, Consular Reports, vol. LX, n 225 (1899), pp. 351-2; “New Road in Bahia”, Consular Reports vol. LXX, n 267 (1902), pp. 473-4; “Agricultural Banking System in Bahia”, Consular Reports vol. LXXI, n 269 (1903), pp.206-8.30“Monazite Concession in Brazil”, Consular Reports vol. LX, n 224 (1899), pp. 143-5; “Manganese Mining in Bahia”, Consular Reports vol. LXI, n 229 (1899), pp. 226-8; “Diamonds and Carbons in Bahia”, Consular Reports vol. LXX, n 265 (1902), pp. 145-54.31“Discovery of Manioba Rubber Forests in Brazil”, Monthly Consular Reports vol. LXXVI, n 287, (1904), pp. 52-7; “Production of Sugar in Sergipe”, Consular Reports vol. LXIX, n 263 (1902), pp. 577-84; “Trade and Industrial Conditions in Bahia”, Consular Reports vol. LXX, n 264 (1902), pp. 90-105. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 231

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232Afro-sia, 40 (2010), 223-258que a Bahia era uma regio agrria, e culpou, em parte, a seca que castigava o agricultor baiano e a falta de crdito no Brasil, em geral.32 Disse que s os mais simples e baratos, como o arame farpado e as enxadas, iam vender bem na Bahia, e que no teria muita demanda para equipamentos mais modernos, como a bomba d’gua movida a vento, por exemplo.33 Mas, para ele, isso no era s por causa da situao financeira, mas tambm pelos costumes da praa. Segundo ele, o agricultor baiano no investia em tecnologia para economizar na mo de obra, que j era muito barata. Nem o arado, pensava ele, era muito utilizado. Mesmo quando havia dinheiro, os homens de negcios estavam satisfeitos em tirar q ualquer lucro fcil, em vez de pensar em melhorias. Apesar dos problemas, Furniss achou que havia, sim, mercado para uma variedade de produtos norte-americanos na Bahia. Observou, por exemplo, que haveria uma crescente demanda de carvo, com a nova iluminao a gs de Salvador, e que os ingleses ainda no tinham concorrncia para o seu produto.34 Informou que tinha mercado para sapatos importados, mas que ainda no havia o costume, entre os baianos, de usar roupas pr-fabricadas.35 Achou que os aparelhos fotogrficos dos Estados Unidos seriam uma novidade bem-vinda no mercado, e que as vrias escolas de missionrios norte-americanos que estavam sendo abertas na regio iriam precisar de um fornecedor de material.36 Disse 32Para Furniss, as quebras bancrias que se seguiram ao Encilhamento brasileiro serviam como prova da importncia do “Gold Standard” do Partido Republicano nos Estados Unidos. O deputado Overstreet, um dos padrinhos polticos de Furniss, era um dos mais fervorosos defensores dessa poltica monetria, que obrigava o Governo dos Estados Unidos a manter sempre uma quantia de ouro para respaldar as notas de papel que emitia. Era considerada como uma maneira de controlar a inflao, mas a oposio reclamava que tambm inibia o crescimento econmico e o acesso ao crdito por pequenos agricultores e comerciantes. Furniss observou muitas vezes que a inflao e a especulao cambial tinham um efeito muito desestabilizante na economia, e tambm que o povo valorizava muito os dlares de ouro americano, porque no confiava no papel nacional.33“Agricultural Implements in Eastern Brazil”, Consular Reports vol. LXIII, n 236 (1900), pp. 7-8. “Bahia”, in Windmills in Foreign Countries Special Consular Reports, vol. XXXI (1904), pp. 104-5.34“Bahia”, in Foreign Markets for American Coal Special Consular Reports vol. XXI, Part I (1900), pp. 253-6.35“Shoes in Brazil”, Consular Reports vol. LXIII, n 236 (1900), pp. 6-7. “Bahia”, in Ready Made Clothing in Latin America Special Consular Reports vol. XX, Part I (1900), p. 61.36“Photographic Apparatus and Supplies in Brazil”, Consular Reports vol. LXVIII, n 257 (1902), pp. 256-9. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 232

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258233que os sabonetes e perfumes da Colgate vendiam bem nas farmcias, e que j se produziam na Bahia imitaes de alguns remdios norte-americanos, vendidos em embalagens to parecidas com as importadas que enganavam os clientes desatentos.37Observou, ainda, que havia outros produtos que no valiam a pena ser exportados para a Bahia. A cervejaria Miller, de Milwaukee, por exemplo, escreveu para saber se existia um mercado para o seu produto, mas ele no foi muito animador na resposta.38 Disse que a cerveja norte-americana teria muita concorrncia com o produto nacional, o ingls e o alemo entre os consumidores mais abastados, j que a cachaa era barata e atendia s faixas menos privilegiadas da populao. Opinou que as frutas enlatadas dos Estados Unidos no iam vender bem, pois a abundncia do produto, ainda fresco, inibia a demanda.39 Sobre a importao de plvora, disse que as regras de segurana eram muito complicadas, e que a demanda era principalmente para foguetes baratos, queimados em festas de santos.40Por razes bvias, achou uma perda de tempo e dinheiro tentar vender na Bahia os grandes foges de ferro que esquentavam as cozinhas nos Estados Unidos.41 A bicicleta no ia ter muita aceitao na cidade, segundo ele, por causa da topografia e da condio das ruas.42 Em grande parte, suas observaes parecem acertadas, mas nem sempre. A um fabricante de equipamentos para fazer gelo, disse que teria pouca demanda, porque o brasileiro no gostava de bebidas geladas.43Criticava muito os comerciantes norte-americanos por no aprenderem mais sobre o mercado brasileiro, e por no procurarem ter noes da lngua portuguesa. “Os folhetos em portugus so pouco lidos 37“Bahia”, in Drug Trade in Foreign Countries, Special Consular Reports vol. XIV (1898), pp. 279-98.38“Beer Trade in Bahia”, Consular Reports vol. LXIII, n 236 (1900), pp. 8-10.39“Fruits in the Bahia Market”, in Foreign Markets for American Fruits, Special Consular Reports vol. XXXII (1904), pp. 193-4.40“Gunpowder in Bahia”, Consular Reports vol. LVIII, n 219 (1898), pp. 602-3; “Importation of Explosives Into Brazil: Bahia”, Monthly Consular Reports n 295 (1905), pp. 253-4.41“Bahia”, in Foreign Trade in Cooking and Heating Stoves, Special Consular Reports vol. XXII, Part III (1901), pp. 318-21.42“Bahia”, in Commercial Relations of the United States with Foreign Countries (1899) vol. 1, p. 597-614.43“Manufacture of Ice in Latin America: Brazil”, Consular Reports vol. LXIII, n 238 (1900), pp. 269-70. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 233

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234Afro-sia, 40 (2010), 223-258aqui. Os em ingls vo diretamente para o lixo”.44 Reclamou que os exportadores norte-americanos tinham muitos problemas por desconhecerem as regras da alfndega brasileira, e tambm porque no havia concorrncia entre as empresas de navegao para o comrcio dos Estados Unidos com a Bahia.45 Com frequncia, observava que os europeus tinham muito mais jeito para o comrcio internacional. Entendiam, por exemplo, que o lojista baiano s podia comprar a prazo, mas que, geralmente, pagava as dvidas. Os Yankees mais inexperientes, perdiam muitas oportunidades por s quererem vender vista.Furniss como cientistaAlm do comrcio, em vrias ocasies Furniss contribuiu para promover o intercmbio intelectual entre o Brasil e os Estados Unidos. Por exemplo, comprou livros brasileiros para enviar Library of Congress (Biblioteca Nacional) em Washington, e encaminhou para o acervo paleontolgico da Smithsonian Institution (Museu Nacional) um peixe fossilizado que recebeu na Bahia.46 Tambm demonstrou grande interesse em receber pesquisadores cientficos que vinham de fora e, muitas vezes, reconheciam nos trabalhos publicados a ajuda prestada pelo cnsul. O gelogo Orville Derby, no seu artigo sobre a Chapada Diamantina, agradece a Furniss por ter servido de fotgrafo na sua expedio a essa regio, em 1904.47 Dois entomlogos rivais, George Compere e Charles Lounsbury, visitaram a Bahia em 1905, em busca de uma variedade de besouros que queriam testar como um inimigo natural da mosca-das44“Trade and Industrial Conditions in Bahia”, Consular Reports vol. LXX, n 264 (sept. 1902), p. 101.45As observaes de Furniss foram citadas no Congresso dos Estados Unidos, numa investigao sobre os cartis de navegao e o seu prejuzo para a exportao norte-americana Hearings Before the Committee on Merchant Marine and Fisheries House of Representatives, April 4 to 13, 1906, Washington: Government Printing Office, 1906.46Sobre os livros, veja USNA, RG 59, T-331:7, Furniss to Cridler Bahia, 05/05/1898. Consta que o fssil n 43695 foi doado pelo Sr. lvaro Guimares, por intermdio do cnsul H. W. Furniss, no Annual Report of the Board of Regents for the Smithsonian Institution for the Year Ending June 30, 1905, Washington: Government Printing Office, 1906, p. 82.47Orville Derby, “The Serra do Espinhao, Brazil”, Journal of Geology vol. XIV, no 5 (1906), p. 374. Outra fonte que cita a colaborao entre Furniss e Derby Marieta Lopes de Sousa, “Um Estadista quase desconhecido”, Salvador: Imprensa Oficial da Bahia, 1948. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 234

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258235frutas.48 Cada um relata que Furniss era um naturalista dedicado, que saiu com eles para catar os insetos das laranjeiras da cidade e que ajudou na criao de larvas. O psiquiatra W. H. Kidder, no seu trabalho sobre a doena mental no Brasil, tambm agradeceu a ele por lhe ter conseguido informao sobre o Asilo de So Joo de Deus, na Bahia.49Embora tivesse interesse em vrias disciplinas cientficas, a especialidade de Furniss era mesmo a rea da sade pblica. Era dever de todo cnsul estar atento possibilidade de contaminao de navios indo para os Estados Unidos. O fato que, na condio de mdico, levou ainda mais a srio essa obrigao.50 O governo norte-americano pediu que os cnsules enviassem informes quinzenais sobre o nmero de bitos, discriminando-os segundo a causa. Nem todos cumpriam esse dever, mas Furniss os preparou fielmente, no incio, base de fontes oficiais, e, posteriormente, com a ajuda de um assistente, que ele mandava, de quinze em quinze dias, conferir o nmero de enterros nos vrios cemitrios da cidade.51Em 1900, escreveu um informe especial sobre o tratamento dos leprosos na Bahia, e forneceu dados sobre o Hospital dos Lzaros, na Baixa de Quintas, aparentemente colhidos quando de uma visita ao local.52 48Charles Lounsbury, Natural Enemies of the Fruit Fly Cape Town: Department of Agriculture, 1905, pp. 8-22; George Compere, “A Few Facts Concerning the Fruit Flies of the World”, Part II, Monthly Bulletin of the State Commission on Horticulture [California], vol. 1, n 11 (1912), p. 842.49O trabalho de Kidder, “The Insane in Brazil”, foi publicado uma vez em Proceedings of the American Medico-Psychological Association (1902), pp. 194-211, e de novo em American Journal of Insanity 59, no 3 (1903), p. 377-92.50Nos atestados de sade que Furniss enviava pelos navios norte-americanos, sempre anotava a presena de qualquer doena contagiosa que soubesse estar presente na cidade. s vezes, criava confuso. As autoridades sanitrias em Barbados queriam saber por que, nos atestados preparados por Furniss, sempre constavam doenas que o cnsul ingls no tinha anotado nos atestados dele. A resposta de Furniss foi que o cnsul ingls dependia das fontes oficiais, enquanto ele mesmo coletava dados diretamente dos hospitais e nos necrotrios da cidade. Henry W. Furniss, “Sanitary Report from Bahia”, Public Health Reports vol. 13, n 41 (1898), pp. 1150-1.51O seriado Public Health Reports arquivado em http://www.pubmedcentral.nih.gov/, acessado em 07/09/2009, contm os relatrios quinzenais de Furniss sobre a Bahia, de 1898 a 1905.52Lugar onde hoje funciona o Arquivo Pblico do Estado da Bahia. Henry W. Furniss, “Leprosy in Bahia, Brazil”, Annual Report of the Supervising Surgeon General of the Marine Hospital Service of the United States Washington: Government Printing Office, 1899, pp. 420-1. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 235

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236Afro-sia, 40 (2010), 223-258Durante os surtos da febre amarela, em 1899, e da peste bubnica, em 1904, acrescentou aos dados numricos de costume alguns detalhes sobre a chegada das doenas cidade e as reaes dos mdicos.53 Por exemplo, informou que ele mesmo “teve o prazer” de participar da autopsia da primeira vtima da peste, a convite das autoridades sanitrias da cidade.54 Examinou pelo microscpio as amostras que confirmavam o diagnstico. Elogiou a rpida resposta dos oficiais, que isolaram os infectados, impuseram medidas de quarentena e desinfetaram os locais afetados. Lamentou a resistncia do pblico em receber a vacina, mas observou que estavam comeando a aderir campanha.55 Nesse mesmo ano, recebeu uma delegao de mdicos navais dos Estados Unidos, e os levou para conhecerem o hospital especial que tinha sido montado para tratar os infectados.56Uma correspondncia muito significativa que Furniss teve sobre a sade pblica foi com o Major Ronald Ross, o cientista ingls que recebeu o Prmio Nobel da Medicina em 1904, por ter identificado o mosquito como vetor da malria. Nos arquivos de Ross, acham-se duas cartas escritas por Furniss, em 1901.57 Na primeira, ele diz estar preparando um artigo em portugus para divulgar as descobertas de Ross no Brasil, e pede cpias dos trabalhos para poder traduzir trechos do autor diretamente do original. Na segunda carta, agradece a Ross por ter enviado os trabalhos, e tambm oferece encaminhar-lhe amostras do anopheles que havia coletado em gua parada nos jardins das casas na Bahia. No achamos nem o artigo de Furniss sobre Ross, em portugus, nem qualquer referncia s amostras dele no trabalho de Ross. Parece 53Henry W. Furniss, “Report of Yellow Fever in Bahia”, Public Health Reports vol. 14, n 23 (1899), pp. 876-8; “The Epidemic of Yellow Fever in Bahia, May 7 to July 31, 1899”, Public Health Reports vol. 14, n 8 (1899), pp. 1590-2; “Reports from Bahia – History of Plague Outbreak,” vol. 19, n 33 (1899), pp. 1624-5.54USNA RG 59 T-331:8, “Furniss to Loomis, Bahia”, 16/07/1904,55Para citar um exemplo, “Plague Conditions at Bahia”, Public Health Reports, vol. 19, n 38 (16/09/1904), pp. 1893-4. “A morte de um estudante muito querido da Faculdade de Direito tem motivado os integrantes da classe universitria a correr para o Instituto Bacteriolgico para serem inoculados”.56Frank Anderson, “Report on the U.S.S. Brooklyn”, Annual Report of the Surgeon General, U.S. Navy Washington: Government Printing Office, 1904, p. 115.57Arquivo Sir Ronald Ross, London School of Hygiene and Tropical Medicine, Series 146, Subseries 3, Henry W. Furniss to Ronald Ross, 30/03/1901, 15/06/1901. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 236

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258237que o tempo de que o cnsul dispunha para as pesquisas era limitado s horas vagas, e ele afirma exatamente isso na sua segunda carta a Ross. Em outra carta, uma das vrias que mandou ao Senador Fairbanks, pedindo ajuda para conseguir um aumento de salrio, Furniss diz que s conseguia justificar a sua permanncia to mal-remunerada no consulado pela oportunidade que a Bahia oferecia para o estudo das doenas contagiosas.58 A sua experincia na Bahia com tais doenas no se limitou pesquisa cientfica, j que ele mesmo foi infectado pelo mosquito da febre amarela e pelo da malria, em 1899.59Furniss como negroMesmo que Furniss se identificasse principalmente como oficial norteamericano ou como cientista profissional, impossvel negar a importncia do fato de ele ser negro. O “ser negro” depende mais de uma definio social do que biolgica, que pode variar de uma sociedade para outra. Muitos estudiosos j notaram que o Brasil tem uma grande diversidade de categorias raciais, enquanto, nos Estados Unidos, o vocabulrio se limita geralmente s categorias “branco” e “negro”.60 Pelas fotos que temos de Furniss, mesmo no sendo muito ntidas, sabemos que ele no se encaixaria facilmente na categoria de branco, nem no Brasil nem nos Estados Unidos. Pelo costume norte-americano, simplesmente por ser visivelmente “no branco,” seria chamado de “negro.” Enquanto na Bahia, provvel que fosse chamado de “moreno,” de “pardo,” ou de alguma outra forma. Isso no quer no dizer que havia alguma percepo da variedade de mistura racial por parte dos norte-americanos. Em 1900, um jor58Arquivo Fairbanks, “Furniss to Sen. Charles W. Fairbanks”, Bahia, 12/12/190259Arquivo Fairbanks, Furniss to Sen. Charles W. Fairbanks, Bahia, 12/12/1902. Segunda a neta, Diane Furniss Happy, ele se queixou, durante o resto da vida, de pedras nas rins, que resultaram da malria que teve na Bahia.60Vrias pesquisas so resumidas em Carl N. Degler, Neither Black nor White; Slavery and Race Relations in Brazil and the United States New York: Macmillan, 1971. Um resumo mais atual se acha em Edward E. Telles, Race in Another America: The Significance of Skin Color in Brazil Princeton: Princeton University Press, 2004, e em G. Reginald Daniel, Race and Multiraciality in Brazil in the United States: Converging Paths? University Park: Pennsylvania State University Press, 2006. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 237

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238Afro-sia, 40 (2010), 223-258nalista do Washington Post que o entrevistou sobre o comrcio na Bahia, notou que o cnsul era “um cavalheiro suficientemente escuro para ser confundido com um sul-americano”.61 Um cientista norte-americano que o conheceu no Haiti lembrou dele, muitos anos depois, como uma mistura de negro com ndio.62 At nos censos nacionais de 1850 a 1920 (com exceo do de 1900), o governo dos Estados Unidos usou as trs categorias: branco, negro e mulato. Furniss aparece como mulato nas listas de 1870, 1880 e 1920, como negro, nas listas de 1900 e 1910, e como branco, na de 1930!63Mesmo que a categoria de mulato existisse na estatstica, o que contava social e politicamente nos Estados Unidos era o fato de Furniss ser negro, o que, geralmente se voltava contra ele, mas que, em algumas raras situaes, se colocava a seu favor. Apesar da sua indiscutvel inteligncia e capacidade, conseguiu o cargo na Bahia, em grande medida, por ser negro num sistema clientelista, em que polticos brancos do Partido Republicano reservavam alguns cargos para garantir o voto negro. O Partido e seus aliados, nos jornais da comunidade negra, fizeram muita questo de a raa dele ser definida como “negra” ou colored (de cor). Nessas palavras, estabelecia-se que ele fazia parte da comunidade negra e que a sua conquista era da comunidade, e vice-versa. Tambm sabemos que o Department of State (Ministrio de Relaes Exteriores) enviava seus poucos funcionrios negros para lugares onde seriam bem-recebidos, principalmente no Caribe e na frica. Por exemplo, os cargos mais altos no Haiti e na Libria, durante muitos anos, eram reservados aos negros, como, por exemplo, o famoso abolicionista Frederick Douglass (Haiti, 1889-1891). A escolha da Bahia como lugar apropriado para um cnsul negro no aconteceu por casualidade. Houve 61“Men Met in the Hotel Lobbies”, Washington Post 15/11/1900, p. 6.62William M. Mann, Ant Hill Odyssey Boston: Little-Brown, 1948, p. 338.63Dados de “United States Federal Census,” www.ancestrylibrary.com, acessado em 07/09/ 2009. Ser que, nesse ltimo ano, a mulher dele, Anna, nascida na Alemanha, foi quem atendeu chamada, na porta, do recenseador, e que esse oficial imaginou que, por ela ser branca, mulher de um mdico, em Connecticut (estado com poucos negros), todos os moradores da casa deveriam ser brancos, e marcou o formulrio assim? Podemos tambm notar que, em 1920, os filhos do mulato Henry (tido como filho de dois mulatos, em 1870) com a branca Anna so classificados como mulatos. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 238

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258239certa sensibilidade por parte do governo dos Estados Unidos quanto ao fato de a Bahia ser um lugar passvel de aceitar um cnsul negro, devido histrica presena africana na cidade e tambm ascenso poltica dos abolicionistas. Como j assinalamos, Furniss foi o segundo negro indicado para o cargo (depois do Dr. Elbert), e sabemos que outros negros desejavam o cargo, quando ele partiu para o Haiti, em 1905. Como Furniss tinha sido bem recebido na Bahia, havia a ideia de que esse consulado poderia tornar-se mais um cargo “reservado” para os negros.64 O Presidente Theodore Roosevelt encomendou uma lista de candidatos para o consulado na Bahia a um dos mais importantes lderes afro-norte-americanos da poca, o educador Booker T. Washington, Diretor do Tuskegee Institute, em Alabama. A pedido de Roosevelt, ele indicou trs homens negros para tomar o lugar de Furniss, e cada um acabou desistindo, na esperana de conseguir outro cargo mais desejado. Entre os escolhidos estava Ralph Waldo Tyler, jornalista de Ohio. Ao declarar, inicialmente, que aceitaria o cargo, escreveu que teria um significado especial para ele ir Bahia como cnsul, j que sua bisav tinha sido uma escrava baiana, levada fora para Connecticut, no sculo XVIII.65Vale a pena notar que Furniss no foi o primeiro cnsul negro dos Estados Unidos no Brasil. Em 1893, Henry Clay Smith foi nomeado pelo Presidente Grover Cleveland para ser cnsul em Santos, numa tentativa de agradar o pequeno bloco negro dentro do Partido Democrata. Em 1896, houve um escndalo, quando saiu nos jornais que Smith tinha deixado a mulher e os cinco filhos desamparados em Washington, e ele renunciou ao cargo pouco antes de ser demitido.66 Furniss, sem dvida, 64Richard W. Thompson to Emmett Jay Scott, New Albany, Indiana, 15/10/1905, Booker T. Washington Papers Urbana: University of Illinois Press, 1972, vol. 8, pp. 410-3; Charles W. Anderson to Booker T. Washington, New York, 08/01/1906, in BTW Papers vol. 8, pp. 488-9. Finalmente um branco, Albert Morawetz, j cnsul de carreira em vrios outros lugares, foi enviado para o lugar.65Ralph Waldo Tyler to Booker T. Washington, BTW Papers, vol. 8, pp. 502-3.66“Not a Success as Consul”. The Washington Post 10/10/1896, p. 3. provvel que houvesse outros fatores na sua renncia forada. Gilberto Freyre repete uma histria de que a colnia de ex-Confederados (sulistas) em So Paulo tinha convidado o cnsul Smith, democrata de Alabama, a fazer uma visita de honra. Segundo a lenda, ficaram incrdulos quando, ao Smith descer do trem, descobriram que ele era negro! Gilberto Freyre, New World in the Tropics New York: Vintage Books, 1959, p. 33. Freyre cita como fonte Lilian Elwyn Elliott Joyce, Brazil Today and Tomorrow New York: Macmillan, 1917, p. 65. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 239

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240Afro-sia, 40 (2010), 223-258sabia do caso de Smith, e procurou evitar chamar ateno para problemas pessoais. O nico registro de Furniss possivelmente ter-se sentido discriminado no cargo tem a ver com uma visita da marinha norte-americana, em outubro e novembro de 1898. O Oregon o mesmo navio que tinha feito escala na Bahia rumo a Cuba, meses depois fez outra escala, na volta para o Oceano Pacfico. Na sua visita ao navio, no dia 31 de outubro, explicou ao Capito Albert S. Barker que, de acordo com o protocolo formal, ele o apresentaria ao governador, mas s depois dos dias primeiro e dois de novembro, que eram feriados na Bahia, e no apropriados para visitas.67 Como Furniss era o oficial mais alto do governo norte-americano diante das autoridades locais, cabia-lhe apresent-lo ao Governador. Mesmo assim, no dia primeiro, Dia de Todos os Santos, o vicecnsul levou o Capito Barker residncia do Governador Luis Vianna, onde foi recebido com certo constrangimento. O vice-cnsul, Louis McKay, um comerciante ingls nascido no Brasil, tinha sido nomeado para o cargo antes da chegada de Furniss. Sentindo que esses dois o tinham deixado sem moral diante do governador, redigiu um protesto contra o capito, enviado tambm ao Ministro Charles Bryan, no Rio, o mais alto funcionrio do governo dos Estados Unidos no Brasil. O capito lhe respondeu, dizendo que tudo era um mal-entendido, e que ele no tinha a inteno de ofender. Bryan, por sua parte, escreveu ao oficial, pedindo que desculpasse a “supersensibilidade” de Furniss em relao ao assunto.68De certa maneira, Furniss saiu ganhando nessa histria. Deixou claro que era ele quem comandava o consulado agora, e ainda obteve uma prova de respeito da colnia norte-americana. Os compatriotas, em apoio a ele e em repdio ao Capito Barker, cancelaram a recepo que iam oferecer para os oficiais da Marinha. Depois de conseguir ganhar a confiana de Bryan na visita oficial desse Bahia, em julho de 1899, Furniss conseguiu destituir McKay do seu cargo, e colocar um 67USNA, RG 59, T-331:7, Furniss to Captain A. S. Barker, Bahia, 04/11/1898; Furniss to Cridler Bahia, 28/01/ 1899.68USNA, RG 59, “Diplomatic Despatches From Brazil,” M-121:65, Minister Charles Page Bryan to Secretary of State John Hay Petrpolis, 25/11/1898. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 240

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258241dos principais comerciantes da colnia norte-americana, Adolph Hirsch, no seu lugar.69 Tambm demitiu o secretario ingls do consulado e contratou um norte-americano para o seu posto.70Trs escritores brancos dos Estados Unidos, que tinham viajado pelo Brasil no incio do Sculo XX, usaram uma histria de um cnsul negro para explicar a posio social do negro no Brasil ao leitor americano. Reinsch (1907), querendo mostrar os limites da democracia racial brasileira, menciona o exemplo de Furniss (sem lhe citar o nome), quando afirma queDe fato no h linchamentos, e o Brasil recebeu um cnsul negro dos Estados Unidos sem protesto [...] no obstante, um fato que as esferas mais altas da vida social e poltica da repblica so praticamente to livres de presena negra como no nosso pas.71Winter (1910), argumentando de modo parecido, conta o contrrio, o que parece ser um mal-entendido por parte dele.As estatsticas mostram que pelo menos oitenta por cento da populao da Bahia tem umas gotas de sangue negra nas veias. Mesmo assim, com a preponderncia de negros, a tentativa dos Estados Unidos de enviar um cnsul negro para este porto quase ocasionou um furaco tropical h poucos anos.72 Stephens (1914) parece ter-se baseado em Winter, e distorcido ainda mais a histria, quando escreveu que “Os Estados Unidos da Amrica praticamente causou um escndalo entre os brancos de Per69O vice-cnsul no recebia salrio, mas podia receber os emolumentos especificados por carimbar documentos na ausncia do cnsul. Hirsch deixou a Bahia em 1903 para abrir, em Nova York, uma bem sucedida empresa de importao de diamantes e carbonatos, graas a uma concesso extrativa que recebeu do governo baiano. “Adolph Hirsch Dies, Importing Firm Head”, New York Times 07/03/1930, p. 21.70Um dos assistentes bilingues de Furniss era George Chamberlain, natural de So Paulo e filho de missionrios norte-americanos. O pai dele tinha fundado a escola que hoje se chama Universidade Presbiteriana Mackenzie. Na Bahia, com Furniss, comeou uma carreira de mais de 20 anos em consulados dos Estados Unidos. Eventualmente, teve sucesso comercial como escritor de romances e roteirista de Hollywood, e deixou o servio consular. A Bahia figura como local de vrias obras de Chamberlain. “George A. Chamberlain Is Dead; Writer of ‘Scudda Hoo!’ Was 86", New York Times 05/03/1966, p. 20.71Paul S. Reinsch, “The New Brazil”, World Today vol. 12, n 5 (1907), pp. 518-25.72Nevin Otto Winter, Brazil and Her People of to-Day Boston: L. C. Page, 1910, p. 388. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 241

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242Afro-sia, 40 (2010), 223-258nambuco quando o governo contemplou enviar um cnsul negro para esse porto”.73 Ser que a elite baiana estava contente de a Bahia ficar na mesma categoria, do ponto de vista do governo norte-americano, que Porto Prncipe no Haiti, ou Monrvia na Libria? Mesmo se no estivesse, por tudo que sabemos, parece que Furniss foi bem recebido na Bahia. De certa forma, o tema racial notvel pela sua quase invisibilidade nos registros oficiais que temos da sua passagem pela cidade. No de surpreender que no achemos, nos relatrios de Furniss, muito material que revele a sua perspectiva particular como negro. S se identifica como oficial norte-americano, comprometido com o progresso material do pas natal, e quase nunca mostra interesse por temas africanos ou pelas questes raciais da poca, por exemplo. Parece ter sido muito consciente do dever de o diplomata ser discreto, e sabia que tinha que provar ainda mais, sendo negro. No seu relatrio geral de 1902, observa que pelo menos oitenta por cento dos baianos eram negros ou de raa mista, mas no diz quase nada mais a respeito da presena africana na populao.74 Em tudo que escreveu sobre as atividades econmicas na Bahia, h apenas uma referncia passageira aos costumes africanos. Num trabalho sobre o cultivo e o aproveitamento do coco, observa que “os africanos aqui residentes usam o leo para o cabelo e tambm para ungir o corpo”.75Em um dos seus informes sanitrios, achamos uma observao que talvez revele um pouco da opinio de Furniss sobre o determinismo racial. Ao falar do efeito da febre amarela em 1899, observa que todos que vinham de fora da cidade eram igualmente suscetveis, fossem estrangeiros brancos ou retirantes brasileiros de raa branca, negra ou mista, por no terem a imunidade adquirida pelos soteropolitanos.76 Informa 73Henry Stephens, South American Travels New York: Knickerbocker Press, 1914, p. 663.74“A sua populao de um carter muito misto, e consiste em aproximadamente de 20 por cento de negros puramente africanos, de 60 por cento de graus variados de mistura, e de, no mximo, 20 por cento de brancos puros, geralmente estrangeiros, incluindo os portugueses de sangue puro, espanhis, alemes, ingleses, etc., e os descendentes desses.” Furniss, “Bahia”, in Commercial Relations of the United States with Foreign Countries (1902), p. 688.75“Production of Cocoanuts and Copra in South America: Brazil”, Consular Reports vol. LXVII, n 252 (1901), pp. 113-5.76“The Epidemic of Yellow Fever in Bahia, May 7 to July 31, 1899”, Public Health Reports vol. 14, n 8, (1899), pp. 1590-2. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 242

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258243saber de pelo menos dois casos de negros do interior que tinham contrado a doena em Salvador, o que era significativo, porque existia na poca uma polmica cientfica sobre a suposta imunidade do negro febre amarela.77 Parece querer afirmar que a imunidade depende do ambiente e no da gentica, e promete analisar melhor os dados oficiais quando estiverem disponveis, mas infelizmente no achamos essa detalhada anlise. Fora dessas comunicaes oficiais, temos algumas outras pistas que revelam o interesse de Furniss pelo papel do negro na sociedade brasileira. Em dois livros, citado pelos autores como fonte sobre os costumes africanos na Bahia. Frank Carpenter, relatando sua visita Bahia, em 1899, agradece a Furniss por lhe ter indicado um costume extico da cidade: o uso de dlares de ouro dos Estados Unidos pelos habitantes de Salvador, como ornamentao. Segundo Carpenter, Furniss estimava que pudesse haver $10,000 de moedas norte-americanas na Bahia, muitas delas usadas pelas mulheres negras como balangands, ou nos filhos delas, como proteo contra o mau-olhado. Carpenter escreve, com base na informao de Furniss, que o apreo pelas moedas norte-americanas se devia, em parte, tradio africana de usar amuletos, e tambm falta de confiana, por parte do pblico, no dinheiro de papel, emitido pelo governo brasileiro.78 Sir Harry Johnston, gegrafo ingls, tambm nos faz uma observao reveladora no seu livro The Negro in the New World. Agradece a Furniss por lhe ter mostrado, no Haiti, uma coleo de orixs de madeira pintada, que tinha adquirido na Bahia. Johnston cita isso apenas como uma prova da influncia da religio africana nas Amricas, mas a referncia dele sugere que Furniss tinha, sim, uma discreta curiosidade pela cultura africana na Bahia.79Johnston no informa como ou por que ele tinha adquirido as estatuetas. 77Sidney Chalhoub, “The Politics of Disease Control: Yellow Fever and Race in Nineteenth Century Rio de Janeiro”, Journal of Latin American Studies vol. 25, n 3 (1993), pp. 441-63.78Frank G. Carpenter, South America : A Geographical Reader New York: American Book Company (1899), p. 352; “In the Diamond Mines”, St. Paul Globe 14/05/1899, p. 14. Carpenter era um jornalista dos Estados Unidos que vivia dos “dirios de viagem”, que escrevia de lugares exticos ao redor do mundo. Suas crnicas eram publicadas de forma seriada em jornais, e tambm eram compiladas em livros didticos, ilustrados com as fotografias que ele mesmo tirava. Na matria, elogia Furniss, chamando ateno para o fato de ele ser inteligente e tambm colored, como se essa combinao de qualidades fosse algo improvvel.79Harry Hamilton Johnston, The Negro in the New World New York: Johnson Reprint Corp., 1910/1969, p. 499. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 243

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244Afro-sia, 40 (2010), 223-258As declaraes de Furniss imprensa norte-americana sobre o Brasil geralmente se limitavam a assuntos comerciais, e raramente achamos nelas alguma expresso de opinio pessoal relativa populao. As duas excees que temos so as matrias que saram no jornal The Freeman rgo da comunidade negra de Indianpolis, por ocasio das duas visitas que fez famlia, em sua casa, nos Estados Unidos. Pelas palavras resumidas do jornal, sabemos que, em geral, Furniss falava bem do povo brasileiro e, especialmente, da liberdade social que havia para homens como ele. Em novembro 1900, durante a sua primeira volta aos Estados Unidos, em quase trs anos, a coluna social do jornal informa que houve um jantar em homenagem a ele, na casa do irmo. Segundo a matria, estiveram presentes os homens principais da comunidade negra, desfrutando de excelentes charutos baianos, enquanto Furniss contava sobre suas viagens e mostrava um grande nmero de fotos do Brasil e da sua travessia dos Andes, entre a Argentina e o Chile. Relata que, quando os convidados perguntaram por que ele no tirou nenhuma foto das “lindas signoritas ” de “raa pura e de sangue misto,” respondeu que elas no costumavam sair de dia. O jornalista disse ter desconfiado de que houvesse provas ao contrrio na mala do cnsul.Sobre alguns temas, o doutor ficou to mudo quanto uma ostra fechada. Podemos inferir que para ser um diplomata, to importante saber o que no se deve falar, tanto como o que se deve. Ele tem uma opinio muito alta do carter moral de todas as classes na Bahia. No h distino [de raa], alm do mrito puro. Acham-se todas as cores em todos os aspectos da vida.80Em 1903, em outra visita a Indianpolis, Furniss concedeu uma extensa entrevista sobre o Brasil ao mesmo jornal. Nesse texto, apresenta algumas ideias mais complexas, e talvez contraditrias. De novo elogia o Brasil pela falta do racismo formal que existia nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, diz que o negro ainda vive melhor nos Estados Unidos, graas s condies de trabalho que existem na Amrica do Norte. Critica o baiano pela falta de iniciativa, mas tambm observa que vrios deles tinham ganhado grandes fortunas pelo esforo prprio. Mais 80“Dr. Sumner Furniss” The Freeman Indianpolis, 11/11/1900, p. 6. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 244

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258245uma vez, no temos as palavras dele mesmo, mas uma verso redigida pelo jornalista, da qual o seguinte trecho foi extrado.Falando do povo do Brasil, o Dr. Furniss disse que, apesar de a escravido ter sido recentemente abolida l, em 1888, as linhas divisrias [entre as raas], que so to fortes aqui, nem parecem existir l. As pessoas so do melhor tipo de amalgamao, uma condio que no tem sido agitada, mas que resulta de uma convivncia familiar, que parece ser mais tpica nos pases latinos do que nos anglo-saxes. Por isso, homens de sangues misturados se acham em todo lugar, e em toda a situao, a instruo e a educao tm sido o nico critrio de distino entre eles. O carter do povo de l totalmente diferente do daqui. Eles so indiferentes ao trabalho, at entre as classes mais favorecidas. A corrida e a agitao nos negcios so ausentes. O comerciante se submete vontade do cliente s se no exigir muito esforo mental ou fsico. As classes inferiores so pouco trabalhadoras e no pensam no futuro. Isso resultado da fartura que a terra generosa oferece. O trabalhador no zela pela sua funo, e folgaria se tivesse essa escolha. Ele tem as bananas que crescem no quintal, e tem a rocinha dele, e no se importa com mais do que isso. A emigrao [do negro dos Estados Unidos para o Brasil] no deve ser incentivada, devido s condies totalmente opostas de clima, etc., de l, que no teriam bons efeitos para os cidados deste pas, que se tm formado na melhor ‘escola’ do mundo. Os salrios, mesmo sendo parecidos com os dos trabalhadores deste pas, rendem s a metade do poder adquisitivo, como o caso no Mxico e em outros pases, e isso faz com que os salrios reais sejam muito menores do que neste pas. O homem de sangue misto pode aspirar a qualquer objetivo, sendo necessrios s a vontade e o conhecimento, como qualquer outra pessoa, para alcan-lo. A Bahia tem quase 250.000 habitantes, e a grande maioria deles ‘amalgamada’ e, nela, alguns so muito ricos. O doutor falou em vrios desses homens que se tornaram bem-sucedidos na minerao de diamantes e que gozam de fortunas em centenas de milhares. Ele falou que tem sido tratado bem pelos brasileiros, e fica muito impressionado com o jeito simptico das pessoas. O governo dos Estados Unidos o tem tratado com muita considerao, s vezes confiando-lhe misses importantes, que ele geralmente tem cumprido com sucesso.81 81“Dr. Henry W. Furniss”, The Freeman Indianpolis, 15/08/1903, p. 6. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 245

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246Afro-sia, 40 (2010), 223-258 bem provvel que o prprio Furniss se qualificasse como uma pessoa que tinha conseguido o seu lugar graas ao esforo e ao conhecimento, e tudo indica que gostava de estar num pas onde esses eram os critrios principais pelos quais seria julgado. Parece ter desfrutado do livre acesso que tinha aos vrios nveis da sociedade baiana, sem obstculos raciais. Conheceu as pessoas mais diversas, desde os governadores at os humildes canoeiros do Rio So Francisco, os quais descreve com respeito numa crnica de viagem.82 Parece ter-se sentido bem entre os baianos, mesmo se a experincia no exterior tambm o tenha deixado consciente do quo norte-americano ele era. Sem dvida, o seu cargo oficial lhe abriu certas portas, e isso pode ter influenciado a perspectiva que teve sobre as relaes raciais. Mas quem foi que ele conheceu na Bahia?Furniss e a sociedade baianaFurniss no escreveu quase nada sobre suas amizades na Bahia, e, at agora, encontramos muito poucas referncias a ele nos escritos dos baianos da poca. Fazia parte, em primeiro lugar, da colnia estrangeira da cidade e, naturalmente, muitas relaes sociais se formariam dentro dessa comunidade parte.83 Sabemos que, ao chegar ao Brasil, se hospedara numa penso na Rua Vitria, nmero 2.84 A colnia inglesa, que se concentrava no bairro da Vitria, era muito maior que a norte-americana e tinha suas prprias instituies religiosas, sociais, desportivas, etc.85 Ele era anglicano, e se supe que poderia ter frequentado a capela inglesa de So Jorge, que ficava no Campo Grande. Tambm era maom, tendo sido promovido ao grau mais alto da Maonaria Negra dos Estados Unidos, mas no sabemos se participou de alguma loja na 82Furniss, “A Trip to Paulo Affonso Falls”. Na crnica, ele lembra com saudade as modas de viola, cantadas pelos sertanejos em noites de lua cheia.83A colnia estrangeira assunto de Moema Parente Augel, Visitantes Estrangeiros na Bahia Oitocentista So Paulo: Editora Cultrix, 1980, e de Louise H. Guenther, British Merchants in Nineteenth-Century Brazil: Business, Culture and Identity in Bahia, 1808– 1850 Oxford: Centre for Brazilian Studies, 2004.84USNA, RG 59, T-331:7, Furniss to Cridler Bahia, 28/01/1899.85Em 1902, informou que em todo o distrito consular (os Estados da Bahia e de Sergipe), s havia 48 cidados norte-americanos residentes, principalmente missionrios e comerciantes. “Bahia”, in Commerical Relations of the United States with Foreign Countries 1902. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 246

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258247Bahia.86 Era adepto do tnis nos Estados Unidos, e possvel que tenha achado com quem praticar o esporte na Bahia, talvez algum desportista do “Club de Cricket Victoria,” fundado por anglfilos baianos em 1899.87Sabemos pelo menos de uma relao que tinha dentro da comunidade de estrangeiros na Bahia. Em 1903, na volta ao Brasil, depois da sua visita aos Estados Unidos, fez uma escala de algumas semanas em Londres. Nessa cidade, no dia 19 de outubro, casou-se com a alem Anna Lthge Wichmann, ele com 35 anos e ela com 34.88 Tinham-se conhecido na Bahia, onde as tias dela, as irms Kloppenburg, possuam uma penso na Vitria, nmero 21.89 Anna tinha vindo de Hamburgo para a Bahia em 1897, para ajudar as tias. Furniss e ela moraram nessa penso, depois de casados. Tiveram trs filhos no Haiti (um deles morreu ainda na infncia), alm de vrios netos. Um ms antes de se casar, Furniss esteve em Indianpolis, mas no revelou nada sobre os planos de casamento para os jornais. Tinha bom motivo para ser discreto. Nessa poca, o casamento entre brancos e negros ainda era ilegal em Indiana e em muitos outros estados da Unio Norte-Americana. Parece que Furniss quis manter o casamento como um segredo ainda depois de realizado. Em 1905, escre veu para o ento Vice-Presidente Fairbanks, tentando justificar um aumento de salrio. Numa carta detalhada, reclama que no ganhava o suficiente para alugar e equipar uma casa. S d como motivo querer mais espao e estar cansado de morar com gente estranha, mas nunca menciona o fato de estar casado ou de estar morando na penso da famlia da esposa.90Tentou manter o casamento inter-racial fora das notcias, mas, 86Nos Estados Unidos, os negros eram excludos de muitas lojas manicas e estabeleceram uma organizao prpria, a maonaria “Prince Hall.” Os iniciados nessas lojas no eram reconhecidos pela maioria branca. Furniss era maom do 33o grau, segundo vrias fontes.87Hoje, o Esporte Club Vitria.88“England, Free Birth Marriage Death Records”, www.ancestrylibrary.com, acessado em 07/09/2009.89Ficava no Corredor da Vitria, no 21. O “Hotel Kloppenburg” recomendado em um guia turstico da poca. J. C. Oakenfull, Brazil in 1913 Frome: Selwood Press, 1914. No se sabe de nenhum parentesco entre as irms e Dom Boaventura Kloppenburg, O.F.M., falecido bispo auxiliar da Arquidiocese de So Salvador.90Arquivo Fairbanks, “Furniss to Fairbanks”, Bahia, 26/06/1905. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 247

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248Afro-sia, 40 (2010), 223-258quando foi nomeado para o cargo no Haiti, em 1905, a imprensa ligada ao Partido Democrata viu a oportunidade de criar uma polmica. Apareceu uma reportagem, alegando que ele tinha aprontado um escndalo na Bahia, por ter-se casado com uma mulher branca, uma alem, de famlia rica e importante na cidade.91 Tambm informou que ele no se atrevia a levar a nova esposa para Indianpolis. Enquanto a parte sobre Indianpolis pode muito ser verdade, sobre a Bahia parece inveno dos jornalistas, pois l um casamento assim no chamaria muita ateno. Mesmo havendo um tipo de democracia racial, por um lado, vrios historiadores descrevem Salvador daqueles tempos como uma cidade em que cada um tinha o seu lugar bem definido na estrutura social.92As distines de classe estabeleciam outras linhas divisrias, como tambm as redes de parentela e as instituies profissionais, como a Associao Comercial e a Faculdade de Medicina. Furniss tinha certo privilgio de acesso s pessoas importantes, por cortesia e por respeito condio de oficial estrangeiro, mas no possua nem o prestgio, nem os laos familiares, nem as condies econmicas necessrias para uma 91“Negro Threatened for Marrying a White Woman”, Landmark Statesville, Carolina do Norte, 23/01/1906, p. 4.92As divises raciais na poca ps-abolio so tratadas em Kim D. Butler, Freedoms Given, Freedoms Won: Afro-Brazilians in Post-Abolition So Paulo and Salvador New Brunswick: Rutgers University Press, 1998; Jeferson Bacelar, A hierarquia das raas Rio de Janeiro: Pallas, 2001; e Dale Torston Graden, From Slavery to Freedom in Brazil: Bahia, 18351900 Albuquerque: University of New Mexico Press, 2006. O papel da famlia tratado em detalhes em Ktia M. de Queirs Mattoso, Familia e sociedade na Bahia do sculo XIX So Paulo: Corrupio, 1988, e em Dain Edward Borges, The Family in Bahia, Brazil, 1870-1945 Stanford: Stanford University Press, 1992. O sistema poltico tratado em Eul-Soo Pang, Bahia in the First Brazilian Republic: coronelismo and oligarchies, 18891934 Gainesville: University Presses of Florida, 1979; Consuelo Novais Sampaio, “Crisis in the Brazilian oligarchical system: a case study on Bahia, 1889-1937”, (Tese de Doutorado. The Johns Hopkins University, 1979), e Robert M. Levine, Vale of tears: revisiting the Canudos massacre in northeastern Brazil, 1893-1897 Berkeley: University of California Press, 1992. Eugene Ridings estuda o papel da Associao Comercial em “The Bahian Commercial Association, 1840-1889: A Pressure Group in an Underdeveloped Area”, (Tese de Doutorado, University of Florida, 1970) e em Business Interest Groups in Nineteenth-Century Brazil New York: Cambridge University Press, 1994. A Faculdade de Medicina tema de Julyan G. Peard, Race, Place, and Medicine: The Idea of the Tropics in Nineteenth-Century Brazilian Medicine Durham: Duke University Press, 1999, e de Lilia Moritz Schwarcz, O espetculo das raas: cientistas, instituies e questo racial no Brasil, 1870-1930 So Paulo: Companhia das Letras, 1993. Jorge Amado, em Tenda dos Milagres, So Paulo: Martins, 1969, representa de forma literria a vida intelectual da Faculdade de Medicina da poca. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 248

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258249participao plena nas mais altas esferas da sociedade baiana.93 A sua perspectiva a de uma pessoa que conhecia a elite da Bahia, mas que no fazia parte dela. claro que tambm chegou a conhecer muitos baianos que no eram da elite. Em vrios textos, mostra preocupao com a sorte do pequeno agricultor, flagelado pela seca e sem condies para participar da economia de exportao. Em documentos confidenciais, culpa os governantes, que cobravam impostos altos, mas levavam poucas melhorias para o interior e usavam a fraude eleitoral e a violncia para manter a sua posio. Fora da comunidade de estrangeiros, que amizades teve Furniss na Bahia? Qual seria o intercmbio de ideias que manteve com os baianos da poca?94 Em 1905, escreveu, com certo orgulho, que recebia dados estatsticos aos quais os outros cnsules da cidade no tinham acesso, graas intimidade que mantinha com vrios oficiais do governo.95 Com certeza, um desses oficiais foi o jovem engenheiro Miguel Calmon du Pin e Almeida (1879-1935), nomeado Secretrio de Agricultura e Indstria da Bahia, em 1902.96 Tinha muito contato com a Secretaria, nos seus deveres oficiais e nas suas pesquisas econmicas, e chegou a servir, de forma extraoficial, como assessor tcnico desse rgo. Em 1904, o “digno [...] inteligente [e] dedicado Dr. Furniss” foi elogiado na fala do governador Severino Vieira Assembleia Legislativa, por ter ajudado a Secretaria a procurar especialistas norte-americanos em minerao e 93Furniss reclamava muito do salrio que recebia. No arquivo de correspondncia do Senador Fairbanks, na Biblioteca da Universidade de Indiana, h cinco cartas de Furniss para Fairbanks, todas escritas para pedir ou para agradecer a ajuda do Senador para conseguir um aumento do salrio para o consulado da Bahia. Ele diz que a flutuao do valor em mil ris do salrio dele em dlar no lhe permitia muita estabilidade econmica. Pela insistncia dele, o seu salrio foi aumentado de 2.000 dlares por ano em 1898, para 3.500 dlares, em 1905. Parece que Furniss sabia mostrar a devida gratido: em uma das cartas, pergunta se o Fairbanks (agora Vice-Presidente) tinha recebido o presente que ele mandou, “a pele de um tigre brasileiro”, que deve ter sido, de fato, a de uma ona pintada.94Imaginamos que Furniss tinha noes bsicas de portugus, pelo menos, j que assinava jornais e citava livros brasileiros. Tambm criticava frequentemente os comerciantes norte-americanos no Brasil que no falavam portugus.95Promotion of Trade Interests, Washington: Government Printing Office, 1905, pp. 197-8.96Ministro da Repblica, primeiro de Transportes e Obras Publicas (1906-1909) e, mais tarde, da Agricultura, Indstria e Comrcio (1922-1926). Era sobrinho-neto homnimo do Marqus de Abrantes e primo do historiador Pedro Calmon. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 249

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250Afro-sia, 40 (2010), 223-258agronomia.97 Em dezembro do mesmo ano, Calmon e Furniss acompanharam o novo governador, Jos Marcelino de Souza, numa excurso oficial de um ms pelo Vale do Rio So Francisco.98 Durante essa viagem, numa cerimnia formal, os dois plantaram juntos uma variedade de uva norte-americana no vinhedo modelo de Juazeiro. Entre ele e Calmon havia certa simpatia filosfica, dado que os dois compartilhavam uma crena na capacidade da tecnologia para melhorar a condio humana. O fato de Furniss ter sido mdico deve ter facilitado a sua entrada na sociedade baiana, desde que alguns dos mais ilustres de seus membros poca tambm eram mdicos. Elogiou muito a Faculdade de Medicina durante sua visita a Indianpolis, em 1900, e disse, no seu relatrio sobre a febre amarela, contar com vrios amigos entre a classe mdica da cidade.99 Especificamente, agradece ao Dr. Arthur Rios, Inspetor de Sade do porto e filho do ento Senador, pelos dados fornecidos. Tambm cita extensamente, como fonte sobre o tratamento da doena, o Dr. Frederico de Castro Rebello, catedrtico da Faculdade, conhecido por falar bem o ingls e por atender comunidade anglfona da cidade.100 Podemos imaginar que Furniss e Castro Rebello conversavam sobre outros temas, alm da medicina, porque, durante a visita do Secretrio de Estado Elihu Root Faculdade de Medicina, em 1906, esse professor foi escolhido pela Congregao da Faculdade para fazer um discurso de boas-vindas e, na sua fala, disse ser admirador, desde muito tempo, de Root e da sua obra diplomtica.101 97Mensagem apresentada Assemblia Geral Legislativa do Estado da Bahia na abertura da 2a Sesso Ordinria da 7a Legislatura pelo Dr. Severino Vieira, Governador da Bahia, Salvador: Oficinas do Dirio da Bahia, 1904, pp. 50-1; “Professor of Mining Wanted in Brazil”, Monthly Consular Reports, vol. LXXV, n 284 (1904), p. 508.98Em homenagem a Furniss, a dos Estados Unidos foi uma das bandeiras que ornamentavam o Mata Machado vapor oficial da comitiva, segundo Maria Mercedes Lopes de Souza, Jos Marcelino de Souza e sua obra administrativa no So Francisco Rio de Janeiro: Cmara de Deputados, 1958. No ms anterior a essa viagem, Souza pessoalmente encarregou Furniss de conseguir livros dos Estados Unidos sobre irrigao e energia hidroeltrica. USNA, RG 59, T-331:8, “Furniss to Loomis”, Bahia, 15/11/1904.99“The Epidemic of Yellow Fever in Bahia, May 7 to July 31, 1899,” Public Health Reports vol. 14, n 8 (1899), pp. 1590-2100Afrnio Peixoto, “Os Castro Rebello”, Livro de horas Rio de Janeiro: Agir, 1947, pp. 312-3.101“Breve notcia sobre as festas em homenagem ao Exm. Sr. Dr. Elihu Root por ocasio de sua visita capital da Bahia, em 24 de julho de 1906”, Dirio da Bahia 1906 [reproduzido em Pamphlets in American History Series microfiche B 1949, 1978]. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 250

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258251Mesmo assim, no achamos o nome de Furniss nos anais da medicina baiana, nem na Gazeta Mdica da Bahia nem na obra do grande cronista daqueles tempos, o Dr. Afrnio Peixoto, nem sequer numa crnica em que ele cita a visita do Oregon Bahia.102 Talvez o mdico mais importante na Bahia daquela poca tenha sido o Dr. Raymundo Nina Rodrigues, e no de surpreender que tampouco na obra deste achemos alguma referncia a Furniss. Mesmo se eles no chegaram a se encontrar pessoalmente, com certeza era fato notrio que o cnsul norte-americano na cidade era pardo.103 Ser que a presena de Furniss no explica, em parte, a preocupao, manifestada por Rodrigues no livro Os Africanos no Brasil (obra terminada em 1905), com a ideia de que os Estados Unidos buscavam exportar a sua populao negra para o Brasil?104 Furniss tambm achou uma m ideia, por motivos bem diferentes dos que colocava Rodrigues. Tambm, quando esse escreveu “[...] entregando o pas aos Mestios, acabar privando-o, por longo prazo pelo menos, da direo suprema da Raa Branca. E esta foi a garantia da civilizao nos Estados Unidos”,105 ser que no pensou que o mais alto representante, na Bahia, da repblica que ele elogiava pela sua hierarquia racial, era justamente um mdico mestio muito civilizado? Nas suas duas entrevistas ao jornal The Freeman Furniss chamou ateno quanto falta de impedimentos para a participao do homem negro na vida intelectual do Brasil. Quais foram os intelectuais de cor que ele conheceu? Pela familiaridade que tinha com a Secretaria de Agricultura, provvel que conhecesse Manuel Querino, funcionrio desse rgo e autor de muitos estudos pioneiros sobre os costumes africanos na Bahia. Ser que foi Querino que ajudou Furniss a colecionar e a identificar as figuras africanas que levou da Bahia?106 Sabemos tambm que ele 102Peixoto, “Os Estados Unidos e a Bahia”, Livro de horas pp. 150-1.103O scio de consultrio de Nina Rodrigues foi o Dr. Frederico Koch, sobrinho e assistente do tio, na Faculdade do j citado Dr. Frederico de Castro Rebello. Assim, podemos afirmar que houve laos sociais indiretos, se no diretos.104Nina Rodrigues, Os africanos no Brasil, So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932 (original de 1905), p. 20.105Nina Rodrigues, Os africanos no Brasil p. 18.106Querino se identificou como admirador de Booker T. Washington, o lder afro-norteamericano e um dos padrinhos polticos de Furniss. Costumes Africanos no Brasil, Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1938, p. 16. Ser que essa admirao no era resultado da influncia de Furniss? Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 251

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252Afro-sia, 40 (2010), 223-258colaborou com Orville Derby, o gelogo norte-americano que se naturalizou brasileiro, e que era amigo de muitos anos do famoso engenheiro, gegrafo e poltico Teodoro Sampaio, filho de uma escrava. Dificilmente no se teriam conhecido. Tambm sabemos que ajudou um pesquisador norte-americano a conseguir informaes sobre o Asilo So Joo de Deus, e que o Dr. Juliano Moreira era o psiquiatra principal dessa instituio (que hoje leva o seu nome), professor da Faculdade de Medicina – outro exemplo de um afrodescendente bem sucedido na vida intelectual. tentador o desejo de afirmar que Furniss tivesse alguma ligao com essas pessoas, mas no temos nenhuma prova concreta a respeito. Tanto Furniss quanto eles mostravam que, atravs da educao, algumas das desvantagens criadas pela escravido poderiam ser revertidas.107Furniss esteve na Bahia durante um tempo em que a presena negra no estava sendo s estudada por acadmicos, mas tambm celebrada nas festas populares. Os primeiros afoxs comearam a sair no Carnaval nessa mesma poca e Querino era diretor de um deles, os “Pndegos d’frica”. Qual era a relao de Furniss com esses movimentos, ou frente s outras manifestaes de orgulho na cultura africana? No podemos imaginar que o cnsul norte-americano sairia na Embaixada Africana, outro afox da poca. No Carnaval de 1901, esse grupo usou seu desfile para fazer uma dura crtica ao imperialismo norte-americano, mostrando o Tio Sam e suas vtimas filipinas, cubanas, mexicanas, haitianas e indgenas, e advertindo sobre a cobia do Acre pelos Estados Unidos.108 Ser que essa crtica tinha algum carter pessoal ligado a Furniss?Furniss depois da BahiaConsta que Furniss embarcou para Nova York sem a sua esposa, quando partiu da Bahia no dia 7 de novembro de 1905.109 O Presidente Theodore 107O grande industrialista Luis Tarqunio, que buscava na Inglaterra e nos Estados Unidos modelos para a “Vila Operria” que construa no Bonfim, contratou uma professora do Hampton Institute, instituio para negros na Virgnia, para dirigir a escola da Vila. Pinho, So assim os baianos, p. 93. Ser que Furniss no tinha algum papel nisso?108Citado em Butler, Freedoms Given p. 184.109A base de dados “New York Passenger Lists, 1870-1957” (www.ancestrylibrary.com, accessado 07/09/2009) contm uma lista de passageiros para o navio “S. S. Tennyson Sailing from Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 252

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258253Roosevelt o nomeou para o cargo de Ministro Plenipotencirio e Enviado Extraordinrio no Haiti, o mais alto representante do governo norte-americano naquele pas.110 Sem dvida, o Vice-Presidente Fairbanks teve algum papel na escolha. Segundo os jornais republicanos da poca, a escolha de Furniss foi resultado dos elogios dos comerciantes pela sua dedicao em atender aos pedidos de informao durante os oito anos na Bahia.111Um jornalista negro de Indianpolis observou que a escolha tinha que ser por mrito mesmo, e no uma indicao poltica, porque Furniss no tinha muito jeito para trabalhos eleitoreiros.112 Havia outros pretendentes ao cargo com mais peso poltico, e um deles at tentou tomar o lugar de Furniss em 1911, que acabou mantido no cargo, com o apoio de Booker T. Washington, o mesmo que tinha participado da escolha do seu sucessor na Bahia.113 Mas em 1913, o democrata Woodrow Wilson assumiu a presidncia e afastou quase todos os negros dos cargos de prestgio no Governo Federal, os quais, na sua maioria, tinham, como Furniss, ligaes com o Partido Republicano.114No cabe aqui analisar a fundo o trabalho de Furniss no Haiti, mas, segundo vrios historiadores, foi de grande sucesso, no sentido de fazer avanar os interesses norte-americanos nesse pas.115 Como tinha Bahia 7th November 1905 Arriving in the Port of New York 20th November 1905.” Henry Furniss aparece como o nico passageiro embarcado na Bahia. No temos informao de que ele tenha voltado alguma vez, apesar de as tias da esposa continuarem l por vrios anos.110O uso do termo “embaixador,” hoje muito comum, ainda era muito restrito. O salrio inicial do cargo em Porto Prncipe era de $7,500 (mais do dobro do que ele ganhava na Bahia) e subiu at $10,000 em 1913.111“ Furniss Made Good”, Fort Wayne Journal-Gazette, 01/12/1905, p. 5.112Richard W. Thompson to Emmett Jay Scott, New Albany, Indiana, 15/10/ 1905, in BTW Papers vol. 8, pp. 410-3.113Booker T. Washington to Sumner A. Furniss, Tuskegee, 08/05/ 1911 in BTW Papers, vol. 11, p. 141, Sumner A. Furniss to Washington, Indianapolis, 10/05/1911, in BTW Papers, vol. 11, p. 145; Henry W. Furniss to Booker T. Washington, Port au Prince, 03/06/1911, in BTW Papers vol. 11, p. 189. Henry W. Furniss to Washington, Port au Prince, 19/06/ 1911, BTW Papers, vol. 11, p. 233.114O novo governo ainda manteve Furniss provisoriamente no cargo durante nove meses, porque a situao no Haiti era muito delicada. Os republicanos fizeram questo disso pelo fato de o democrata que antecedeu a Furniss no cargo, em Haiti, ser um ex-deputado branco de pouca capacidade.115Hans Schmidt, The United States Occupation of Haiti, 1915-1934 New Brunswick, N.J.: Rutgers University Press, 1971; Michel-Rolph Trouillot. Haiti, State Against Nation: The Origins and Legacy of Duvalierism, New York, Monthly Review Press, 1990 ; Brenda Gayle Plummer, Haiti and the United States: The Psychological Moment Athens: University of Georgia Press, 1992. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 253

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254Afro-sia, 40 (2010), 223-258feito na Bahia, esforou-se em defender a posio dos Estados Unidos diante dos rivais europeus, mais experientes na diplomacia e no comrcio. A diferena que a concorrncia no Haiti tinha um forte aspecto geopoltico, porque vrias potncias procuravam estabelecer um protetorado sobre o pequeno pas, na vspera da Primeira Guerra Mundial. O Haiti no s oferecia oportunidades comerciais para o capital estrangeiro, mas tambm um ponto estratgico para dominar as guas do Caribe. Furniss justificou a crescente influncia econmica e militar dos Estados Unidos no Haiti pela necessidade de fazer valer a famosa Doutrina de Monroe contra o imperialismo europeu nas Amricas. Mas h indcios de que Furniss, no fim de sua permanncia no cargo no Haiti, comeou a desconfiar dos representantes das empresas norte-americanas no pas. Es pecificamente, reclamou que os agentes do National City Bank (hoje Citibank), que tinham negociado o financiamento do banco nacional haitiano, estavam abusando dos seus poderes para influir na poltica haitiana, deixando-o ao lado.116 Em julho de 1915, a Marinha Norte-americana comeou uma ocupao militar da repblica do Haiti, que durou quase vinte anos, em parte para garantir ao banco a recuperao de seu emprstimo. Mesmo fora do governo, Furniss manteve uma casa no Haiti durante alguns anos, e atuou como intermedirio entre os haitianos e os norte-americanos. Foi assessor financeiro do governo do General Davilmar Theodore (1914-1915) e era em casa de Furniss que os militares norte-americanos se reuniram com o Senador Philippe Sudre Dartiguenave, para negociar uma transferncia do poder para esse, depois da invaso, em 1915.117 Eventualmente, Furniss ficou decepcionado com a situao no Haiti e voltou para os Estados Unidos. Como no tinha mais cargo oficial, agora era livre para expressar suas ideias e, em 1917, fez uma palestra na Howard University, sobre o “Haiti e seus problemas”.118Em 1928, seu nome aparece num abaixo-assinado pacifista, pedindo ao Senado que renunciasse a qualquer interveno armada dos Estados Unidos na poltica interna de outro pas.119 116USNA, RG 59, Decimal File 838.51/291, M-610: 51, “Furniss to Secretary of State”, Port au Prince, 11/11/1911.117“Protests Filed Over Haiti Note Issue”, Salt Lake Tribune 13/02/1915, p. 4.118Catalogue of Howard University 1916-1917, Washington: Howard University, 1917.119John A. H. Hopkins, Machine Gun Diplomacy New York: Lewis Copeland Company, 1928. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 254

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258255Fora isso, o nome de Furniss praticamente desapareceu do mundo poltico depois da sua volta do Haiti. triste notar que ele chegou a sofrer desconfiana do prprio Departamento de Estado, ao qual tinha servido com tanta dedicao por dezesseis anos. Documentos internos revelam que, durante uma poca de parania e racismo, depois da Primeira Guerra Mundial, foi investigado como um subversivo “antiamericano”, com ligaes com uma conspirao internacional no Haiti, por ter criticado a ocupao militar desse pas.120 importante notar que ele nunca foi formalmente acusado, mas, sem dvida, esse tipo de boato impediu sua volta diplomacia. O seu exemplo voltava a ser citado na imprensa negra, de vez em quando, em matrias que lamentavam a falta de representao negra na diplomacia norte-americana.121Com a mulher e os dois filhos, Furniss se estabeleceu em Hartford, Connecticut, e se dedicou medicina, a sua primeira profisso, atendendo pacientes quase at a sua morte, em 1955. Connecticut, diferena de Indiana, no tinha nenhuma lei contra o casamento inter-racial. Mesmo assim, uma neta dele conta que foram criados sem falar na sua categoria racial, e que ele nunca, na frente deles, se identificava como negro.122 S descobriu a historia completa anos depois da sua morte, quando, passeando com o marido e os filhos em Washington, resolveram pesquisar nos Arquivos Nacionais para descobrir alguma coisa sobre a carreira diplomtica do falecido av, e se surpreenderam ao ver, na documentao oficial, referncias a ele como negro. Ela sups que um dos motivos que ele teve para esconder ou mudar a sua identidade 120Supostamente, ele participava de um compl ingls, que envolvia os capitalistas do Royal Bank of Canada e os radicais negros seguidores do jamaicano Marcus Garvey, com o propsito de ferir os interesses dos Estados Unidos no Haiti. Tudo parece muito improvvel e, especialmente, a ideia de que Furniss servisse de intermedirio entre esses grupos. Robert A. Hill and Marcus Garvey, The Marcus Garvey and Universal Negro Improvement Association Papers, Berkeley: University of California Press, 1983. Entre os documentos da investigao h o seguinte: William L. Hurley to J. Edgar Hoover, Washington, 11/01/1921, pp. 130-1. Hoover, poucos anos depois, se tornou o famoso chefe da FBI (Federal Bureau of Investigation). A neta de Furniss opina que, como ele viajara para a Alemanha, entre as Guerras Mundiais, para fazer cursos de medicina e para visitar a famlia da esposa, isso tambm poderia ter levantado suspeita sobre a sua lealdade.121Lester A. Walton, “Negro Editor Questions Wilson Administration’s Consistency”, New York Times 14/08/1913, p. 8; Lucius C. Harper, “Dustin’ Off the News: Have We Lost or Have We Gained?”, Chicago Defender 11/12/1937, p. 16.122Entrevista com a neta de Furniss, Diane Furniss Happy, Gainesville, 31/08/2009. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 255

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256Afro-sia, 40 (2010), 223-258racial era para proteger Dr. William Furniss, o pai dela. Como William era mdico obstetra, ele poderia ter sofrido uma desconfiana por parte de algumas pacientes brancas, se soubessem que ele era, pelos conceitos norte-americanos, “negro.” A neta conta ser muito orgulhosa do av, por ter vivido to dignamente, apesar de tantos obstculos. Durante a sua vida, Furniss conseguiu adotar identidades diferentes, dependendo das vantagens que elas traziam nos lugares onde estava. Em Indianpolis e em Washington, ele era negro, especialmente para os fins do Partido Republicano. Em Connecticut, era branco, ou pelo menos foi assim que entenderam os netos. Na Bahia, era mestio, conheceu a liberdade e gozou de um prestgio que ele no tinha no pas natal. O caso especial de Furniss no serve nem para confirmar nem para negar a discutida hiptese de que a Bahia seja um “paraso racial.” Por ser um oficial estrangeiro, era isento, de certa forma, de classificao no sistema local. Mas, com certeza, a experincia de Furniss na Bahia marcou a sua vida.Concluso – Dos tempos de Furniss para hojeH vrias coisas que podemos observar, comparando as passagens dos diplomatas Furniss e Rice pela Bahia. A primeira que, nesta poca atual, em que polticos negros ocupam at os cargos mais altos da repblica norte-americana, importante lembrar como foi limitada a participao do negro no governo dos Estados Unidos durante tanto tempo. Foram pioneiros como Furniss que abriram as portas para os polticos de hoje, como Condoleezza Rice, Colin Powell e Barack Obama. Uma segunda coisa que nos chama a ateno que Rice tem a mesma filiao partidria que Furniss tinha. Mas esse fato s serve para mostrar o quanto tem mudado a posio do Partido Republicano nos ltimos cem anos. Naquela poca, diferente de hoje, eram os republicanos que contavam com o apoio em massa do eleitor negro, devido s suas origens abolicionistas, enquanto o Partido Democrata era uma unio difcil entre os ruralistas brancos do Sul e os trabalhistas (muitas vezes imigrantes) das cidades do Norte. Essa unio teve seu momento mximo na poltica social de Franklin Delano Roosevelt, mas, a partir dos anos 40, os Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 256

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Afro-sia, 40 (2009), 223-258257partidos comearam a trocar as suas bases geogrficas. Os republicanos, hoje, tm seu apoio mais firme no Sul, e os democratas, no Norte. A mudana no s geogrfica, mas tambm filosfica. Os republicanos do tempo de Furniss usavam o poder pblico para promover a igualdade de oportunidades de participao na economia, coisa que os ortodoxos do partido hoje questionam, por serem contra o ideal do “mercado livre.” Mesmo se os programas para melhorar a sade, a educao e a participao poltica da populao negra aps a Guerra Civil fossem organizados para fins partidrios, e o alcance deles fosse muito restrito, fizeram uma grande diferena na vida da famlia Furniss. Pelo estudo e pelo trabalho, eles aproveitaram as poucas oportunidades que tiveram. Essa experincia prpria junto com a formao cientfica dele e o clima de otimismo nos Estados Unidos sobre o progresso econmico e tecnolgico deram a Furniss uma viso positiva da capacidade da organizao social, para melhorar a qualidade de vida. Hoje, o Partido Republicano tem uma viso muito mais tmida dessa capacidade. Uma terceira coisa que chama a ateno que, para Rice, era importante afirmar a sua identidade de afrodescendente ao falar sobre a Bahia, em parte para influenciar a opinio pblica, mas, para Furniss, parece que foi preciso evitar chamar ateno para essa parte, pelo menos quando no estava entre os amigos em Indianpolis. Podemos ver, ao longo do sculo XX, o crescimento da aceitao da cultura negra nos dois pases, como “cultura” e tambm como papel importante de assuntos culturais nas relaes internacionais.123 Os temas raciais deixaram de ser quase indiscutveis para se tornarem um assunto de importncia oficial. Texto r ecebido em 24/09/09 e aprovado em 26/05/10 123Essas ligaes transnacionais so tratadas em Livio Sansone, Blackness Without Ethnicity New York: Palgrave, 2003. Vale a pena observar que o interesse na cultura afro-baiana, por parte de Franklin Frazier (da Howard University), Donald Pierson, Charles Wagley, Ruth Landes e outros estudiosos dos Estados Unidos, ajudou na sua valorizao dentro da prpria Bahia, como foi retratado por Jorge Amado no romance Tenda dos Milagres Eventualmente, o Consulado dos Estados Unidos na Bahia tambm participou dessa aproximao, atravs da Associao Cultural Brasil-Estados Unidos. Ali, nas dcadas de 1970 e 1980, a adida cultural Frances Switt fez muito para promover o intercmbio de escritores, artistas e msicos, interessados em temas de cultura africana no Brasil e nos Estados Unidos. Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 257

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258Afro-sia, 40 (2010), 223-258Resumo O Dr. Henry Watson Furniss serviu como Cnsul dos Estados Unidos na Bahia, de 1898 a 1905, e se distinguiu no cargo pela sua dedicao a melhorar as relaes comerciais e cientficas entre o Brasil e o seu pas natal. O que faz ainda mais notvel a sua carreira diplomtica o fato de ele ser um dos poucos funcionrios do Departamento de Estado dessa poca que se identificava como afro-norte-americano. O tempo que passou na Bahia permitiu que observasse e comparasse os sistemas de distino racial prevalentes nos Estados Unidos e no Brasil. Na sua prpria vida, Furniss muitas vezes teve que adotar diferentes identidades raciais, conforme as circunstncias. A sua identificao como diplomata afro-norte-americano teve importncia poltica, mas tambm apresentou certas dificuldades. Examinar sua vida nos permite identificar algumas mudanas em questes raciais nos ltimos cem anos. Palavras-chave: Bahia, Brasil, Estados Unidos da America, relaes internacionais, Afro-norteamericano, classificao racial, medicina tropical Abstract Dr. Henry Watson Furniss served as United States Consul in Bahia, Brazil from 1898 to 1905, and he distinguished himself in the post through his dedication to improved commercial and scientific relations between the two countries. His diplomatic career was especially remarkable because he was one of very few employees of the U.S. State Department during this time period who was identified as African-American. His time in Bahia allowed him to observe and compare the systems of racial distinctions used in the United States and Brazil. In his own life, Furniss often had to adopt different racial identities as required by his circumstances. His identification as an African-American diplomat was important for political purposes, but also presented him with certain difficulties. By examining his life and work today, we are able to identify some of the changes related to racial issues that have taken place during the last century. Keywords: Bahia, Brazil, United States of America, international relations, African-American, racial classification, tropical medicine Paul.pmd 20/1/2011, 10:06 258