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ANO Ill Na 28 DEZEMBRO DE 2001 R$ 3,00 Luzic io Flaiv i o Pi nt o .: J .0;. -,:sT~ ~u.;.e '' r: :~;:~"C r~rlr O Pard tem sido assolado pelo proga das fraudes fundidrias, ofravis dos quais quadrilhas de vigaristos se apossom de terras do patrim6nio do Estado. O problem dever6 se agrovar com a pressdo dos madeireiros, oumentoda pelos pregos do mogno no mercodo international. Se a justigo estadual n60 fizer uma limpeza e uma reform intemna, 0 combat a esse mal continuard a claudicar. Eoa ligao dos "casos" Carlos Medeiros e C. R. Almeida I~n a ZO DlC8 - 11,L~j~ '1)1 9CC8 Smaio do ano passado, com a autoridade de procu- rador regional da Repdblica, Felicio Pontes J~inior rntiu, em depoimento prestado aos membros da Comissio Parlamentar de Inqubrito da Cimara Fe- deral sobre a venda de terras p~blicas a particulares, na primeira das duas sessi~es realizadas em Bel~m, que toda fraude fundibria "tem inicio no Poder Judiciirio do Estado". A gravidade dessa declaragio nio podia ser minimiza- da. Felicio Pontes Jr. tem se destacado como um ativo inte- grante do Ministbrio Pbblico Federal, com atuagio particu- larmente decisive no combat is fraudes fundibrias. Alkm disso, C filho de um casal de desembargadores, fato absoluta- mente inbdito nos anais do judicilrio. Sua mie, Climenie Pon- tes, k a atual president do Tribunal de Justiga do Estado. Seu pai 6 0 desembargador Felicio Pontes. O Pari k o campelo nacional das grilagens de terra, segun- do o levantamento que 0 Ministkrio do Desenvolvimento Agrh- rio elaborou quando produziu, no inicio do ano, O idero Branco d'a Grilagem no Brasil. O mais notbrio dos muitos casos ji conhe- cidos de apropriagio criminosa de terras p~blicas tem como prin- cipal personagem um autintico fantasma, Carlos Medeiros. Todos, inclusive e sobretudo os que se apresentam como seus procuradores, sabem que Carlos Medeiros s6 existe no pa- pel, criado por alguns espertalhies primirios, cuja audicia se alimenta da inbrcia do poder pbiblico. Atrbs dele, porbm, virias quadrilhas estio tentando se apossar de algo como 35 milhdes de hectares, irea que corresponde a quase 30% de todo o terri- tbrio paraense (e que viria a ser superior ao qlue sobraria ao Park se dele fossem desmembrados os Estados do Tapaj6s e de Cara- jis). Usam nas suas transaq~es, consumadas com surpreendente desenvoltura, papkis carimbados em cartbrio, mas que todos, inclusive os tabeliles, sabem ser imprestiveis. Ano apbs ano, hist6rias inacreditiveis como essa se repe- tem, dando causa a transferincias ilicitas para particulares de extensas ireas que integravam o patriminio coletivo (e deveri- am continuar a integri-lo, por niao terem sido dele regularmente desmembradas). Felicio Pontes Jr. apontou a omissio, o desca- so, a morosidade e mesmo a conivtncia de alguns integrantes do poder judiciirio com os vicios qlue emergem no trato das gran- des questbes fundiirias, que tantos prejuizos e mortes causam anualmente ao Pari, como fatores da manutenglo de situagdes ilegais. Denuncion ainda 0 funcionamento de uma "inddistria de recursos", utilizada pelos fraudadores fundiirios para que "a im- punidade venga a todos nbs". Passado mais de um ano, em agosto 61timo, tomando por base testemunhos como o do representante do MP federal no Pari, 0 deputado Skrgio Carvalho, do PSDB de Rond~nia, apre- sentou 0 relatbrio final da CPI. O impact maior do trabalho no Parb foi a recomendaFio de que dois desembargadores, Jolo Alberto Castelo Branco de Paiva e Rosa Maria Celso Portugal Gueiros, fossem indiciados penalmente pelo crime de prevari- cagio, por terem contribuido, por omiss~io, para a pritica de gri- lagem de terras, segundo 0 relator da CPI. Por outras conclusdes e sugesties tio graves quanto essa, o extension relat~rio, de 606 piginas, apresentado pelo deputado Sirgio Carvalho, acabou nio sendo aprovado por seus colegas de comissio. Mesmo sem o endosso official, entretanto, provo- cou uma imediata reaqio do TJE. O Tribunal Pleno repeliu a manifestagio do parlamentar e se solidarizou, integral e unani- memente, com os dois magistrados. Niao faltavam motives aos pares dos dois desembarga- dores para considerar incorretas e infelizes algumas das con- siderag~es e conclusaes do relatbrio, al~m de descabido o pedido de indiciamento. No generoso impulse da solidarie- dade, contudo, os components da corte alta da justiga pa- raense podem ter desperdigado a oportunidade de encarar, com realismo e lucidez, a advert~ncia feita pelo procurador regional da Rep6blica sobre um dos mais graves impedi- mentos no desenvolvimento do Parb: sua estrutura fundid- ria distorcida, ineficaz, iniqua. Naturalmente, nio por ha- ver surgido assim, mas pelos erros cometidos por gente de carne e osso, ao contririo do sordidamente ficticio Carlos Medeiros. Mais do que um fantasma, ele se tornou um bi- ombo e um escudo para os pirates fundiirios e seus aliados, geralmente mais poderosos do que eles, quase tio invisi- veis quanto o fantasmagbrico Medeiros. O desembargador Jolo Alberto Paiva, secundado em unis- sono por seus pares, tinha todos os motives para expressar sua revolta e indignagio, na session de 21 de agosto do brgio pleno do TJE, contra 0 erro de que foi acusado, sem hav&-lo cometi- do: reter por tris anos, sem instrui-los, os autos de um process envolvendo litigio de terras em Altamira, dando-lhe 0 que os advogados chamam de "embargo de gaveta", passivel de enqua- dramento penal no crime de prevaricagio. De fato, em relagio a um dos incidents dessa demand, decorrente da argiiigio de suspeiCio do juiz daquela comarca, o procedimento do desembargador Jolo Alberto seguiu plena- mente as normas legals e processuals, cumprindo os prazos e sentenciando em coer~ncia com as informag6es contidas nos autos. O relator da CPI, confundindo autos distintos, errou ao atribuir ao magistrado falha que nio praticara, estendendo a pecha so ji falecido desembargador Calixtrato Alves de Ma- tos. E errara mais ainda ao sugeric media extrema, O indicia- mento criminal, sem base factual. O mesmo erro se aplica quando outro process foi consi- derado, resultante de uma agio de anulagio e cancelamento de registros imobiliirios proposta pelo Iterpa (Instituto de Terras do Pari) contra uma empresa agregada ao grupo C. R. Almeida, que tenta dar foros de legalidade a uma ji constatada (pelo Mi- nistkrio do Desenvolvimento Agrbtio, pela Funai, pela Policia Federal) grilagem do Xingu, comegando por 4,7 milhaes de hec- tares, mas podendo chegar a 7 milhdes. O deputado Skrgio Carvalho acusou o desembargador Joio Alberto "de ter antecipadamente decidido question da gleba Curui", cobigada pela C. R. Almeida, "e que em uma de minhas decis~es afirmei que as terras pertencem a parti- culares e nio sio terras p~iblicas", conforme a reconstituigiao feita pelo prbprio magistrado, no pronunciamento durante a session do Tribunal Pleno. Sustentou que nem ele prbprio, nem a 3a cimara civel iso- lada, que acompanhou seu voto, anteciparam a definigio, O que nio poderiam mesmo fazer, "ji qlue o agravo [proposto pela frma kigada b C R Almeida] visava, exclusivamente, a decision liminar do juiz [de Altamira] que concede a tutela antecipada", pedida pelo Iterpa, para impedir a empresa de dispor das terras, com base em um registro imobiliirio feito indevidamente no cartbrio de Altamira, at6 a justiga decidir se a propriedade C ou nfo legi- 2 DEZEMHBRO/2001 AGENDA AMAZONICA tima. Era uma attitude de cautela i espera do pronunciamento judicial sobre 0 mkrito da demand. Ao revogar a decision do entio juiz de Altamira, Josk Tor- quato Aradijo de Alencar, o desembargador Joio Alberto Paiva escreveu no seu despacho sobre a brea em litigio: "nio hi d~vida que, efetivamente, slo terras per- tencentes so dominio pr~ivedo, legalmente adquiridas, com ocupaSio mansa e pacifica e comn cadeia dominial, so long de mais de 80 anos. Tanto que foram dadas em hipoteca so Banco do Estado do Pard sem quaisquer contestagbes". Essa frase leva um observador isento a concluir que o de- sembargador Jolo Alberto, ao contritio do entendimento uni- nime do Ministkrio do Desenvolvimento Agririo, do Ministbrio Pliblico Federal, do Iterpa, da Policia Federal, do Incra ou da Funai, de todos os brgios publicos que atC agora ji se manifes- taram sobre a question, esti convencido de que a Incenxil, firma adquirida por vias e travessas pela C. R. Almeida, C mesmo a dona dos 4,7 milh~es ou 7 milhaes de hectares que reivindica. Ter essa posigio nio significa que 0 desembargador esteja em concluio comn a empresa, dela haja recebido qual- quer tipo de favorecimento ou que mantenha qualquer tipo de relagio, por mais remota que fosse, com seus represen- tantes ou prepostos. Nio hi provas ou evid~ncias de que 0 despacho dado pelo magistrado lhe haja rendido algum be- neficio. Sua boa-fk C presumida. Mas nio sua razio. Afinal, ela nio tem origem divina, nio lhe autorizando 0 poder absolute do papa da Igreja catblica quando decide sobre matbria de dogma e doutrina. Em um artigo que escrevi a respeito e que atraiu contra mim duas agdes (uma civel e outra criminal) movidas pelo de- sembargador, critiquei os terms da sua decision. Nenhuma ins- tincia official tem a mais remota d~ivida de que a C. R. Almeida esteja grilando terras p~iblicas, federals e estaduais, no Xingu. Quando 0 desembargador revogou a tutela antecipada concedi- da ao Iterpa pelo juiz de Altamira, esse incident fundiirio ji havia adquirido dimensio national e international. Os brgfos p~blicos dispunham em seus arquivos de informagdes suficien- tes para mostrar ao julgador do agravo qlue suas premissas eram, todas, infundadas, sem sustentagio fitica. Se, ao inv~s de conceder a media pleiteada pela Incenxil em sede de liminar, o desembargador tivesse pedido informa- 95es aos 6rgios competentes, certamente nio teria escrito que: 1 as terras reivindicadas pela empresa sio, sem qualquer dlivida, "pertencentes ao dominio privado". Nio hi um Ainico document vilido atestando qlue essas terras foram destacadas do patrim~nio privado. Hi apenas refe- rincia a um "titulo vilido", em abstrato, como origem do imb- vel, jamais apresentado pelos particulares e inexistente nos ar- quivos p~blicos (da mesma maneira como nunca Carlos Medei- ros se materializou em carne e osso). O direito dos ocupantes primitives a irea se baseava na posse que exerciam sobre minlis- cula parcela do todo, como beneficiro decnrao eo- cessio do Estado, dados a titulo precirio, para a exploracio de castanha e seringa. Essa posse foi transformada em propriedade pela escrivi do cart6rio de Altamira, de forma illegal, k claro. Uma posse nio pode virar propriedade, nem que um juiz faga a alquimia juridica, como fez 0 tristemente famoso Brbulio Paul da Silva em relagio ao caso Carlos Medeiros. Em boa hora 0 Tribunal anulou esse ato. 2 A cadeia dominial, por ter mais de 80 anos, comprova a propriedade. Nenhuma cadeia dominial, nem multissecular, pode se con- solidar com fundamento num ato nulo de pleno direito, nulo em terms absolutes. Qualquer estudante de direito sabe disso. 3 O Banco do Estado do Parb, ao aceitar as terras como hipoteca em garantia de um financiamento concedido ao deten- tor do im6vel, convalidou nesse ato o dominio do im6vel. Em primeiro lugar, a hipoteca nio tem esse poder de legitimagio. Em segundo, a arrematagio nio chegou a ser concluida, com a transfer~ncia do imbvel para 0 banco. Mas ainda qlue tivesse havido a adjudicagio, O Banpari teria que legitimar a propriedade, medindo-a e demarcando-a, O que geraria 0 mesmo process contraditbrio, em nivel adminis- trativo, atravks do qual o Iterpa tem afirmado que as terras pertencem ao Estado. A decision do desembargador Paiva foi tio problemitica em juizo e fora dele qune o Ministkrio P~iblico do Estado, ao ser ouvido sobre a decision, j6 adotada liminarmente, mani- festou-se contririo a revogaeio da tutela antecipada do juiz Torquato Alencar, cujo 6inico efeito pritico era impedir que a Incenxil passasse em frente o imbvel a um terceiro de boa fb ou a um aproveitador. Podia, contudo, dispor dela plenamente para a realizagio do projeto ecolbgico alardeado aos quatro ventos pela C. R. Almeida e que permanecem, ath hoje, no dominio dos ventos. Se os erros e precipitagies do relatbrio do deputado Skr- gio Carvalho mereciam ser contestados e repudiados, como foi feito pelo plenirio do TJE, o volumoso conjunto de pro- vas reunidas pela CPI e o extension relatbrio proposto pelo parlamentar condoniense teriam que ser abordados com mais vagar, inteligincia e coragem pelos integrantes da magistra- tura paraense. Ali hi elements suficientes para que a justiga, despoja- da de espirito corporative e norteada pela defesa dos mais elevados interesses p~blicos, finalmente se mova para se li- bertar da imagem negative sobre a qual o procurador Felicio Pontes Jr. manifestou avaliagio tio dura. Do contrbrio, em matkria fundiiria, pareceri que a instincia recursal, na qual o cidadio comum deposit suas esperaneas, poderi continuar a ser encarada como uma bacia das almas e seus papkis um material an6dino, que tudo aceita. Com a avolumagio dos males num memento em que selvagens frentes econ~micas avangam sobre as 61ltimas reserves de madeira de alto valor do Pari, criando uma autintica garimpagem vegetal, ou uma pirataria madeireira, para fazer a pilhagem do mogno, a ir- vore amaz~nica de melhor prego no mercado international, que a busca com avidez. A histbria juntamente com os con- temporineos cobrarb da justiga paraense uma attitude mais 16~cida e conseqiiente do que a adotada ath agora. DEZEMHBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 3 TRAGEDIA O velejador e o sermngusero neozeland&s Peter Blake, O maior velej ador de todos oos tempos, navegou o suficiente para dar 28 voltas em torno da Terra. Sobreviveu a muitas aventuras, acumu- ladas em sucessivas expedigdes, para poder comemorar a chega- da dos 53 anos, quando decidiu trocar as competigdes a vela por uma causa: a defesa da natureza. Mal iniciada, sua nova campa- nha chegou ao fim na semana passada, em frente a uma praia do Amapi, no literal norte do Brasil: ladrdes ribeirinhos, mais co- nhecidos como rats d'igua, invadiram o ultramoderno veleiro Seamaster para assaltar seus tripulantes. Um dos oito invasores deu dois tiros em Peter, qlue reagia, e o matou. A noticia provocou impact de amplitude international. Pelo fato em si e pela sua circunstincia: o sacrificio de uma pes- soa de tio grande influincia, a qual a rainha da Inglaterra havia concedido o titulo de sir, por um motive tio fitil: 0 roubo de um bote, um motor de popa, quatro rel6gios e duas cameras fotogrificas. Um prego vil por um ser humane do valor de Blake. Imediatamente a imprensa da Nova Zelindia, secundada em vbrias parties do mundo, associou a morte do herbi national a um outro assassinate ocorrido na Amaz~nia, o do seringueiro acreano Chico Mendes, quase 13 anos antes. O ataque ao veleiro comandado por Peter Blake nio teria sido o resultado da combinagio de um fato freqiiente em to- dos os curses d'igua navegiveis do mundo (e em qualquer outra via de transport, como as estradas de rodagem), 0 as- salto a viajantes estranhos ao local, com negligtncias que fa- cilitaram nio sb a execugio do ato de pilhagem, como dessa agressio haver resultado uma morte. A tripulagio do Seamaster relaxou as medidas de segu- ranga ao ancorar o barco a apenas 200 metros de uma praia de areas alvas e beleza pictbrica, mas intensamente freqiien- tada por banhistas e descuidistas, albm de assaltantes profis- sionais. Ji as autoridades do Amapi nio deram aos visitantes ilustres a atenglo que eles mereciam, independentemente de as terem solicitado ou nio. A parada de Peter Blake na foz do rio Amazonas, que drena quase 20% da igua qlue corre por todos os rios do planet, encerrando no limited setentrional brasi- leiro a expedigio pela maior das bacias fluviais, podia render dividends positives, se a arre- matagio da viagem fosse exitosa, ou negati- vos, se acontecesse um imprevisto desfavori- vel, como acabou sendo 0 caso. O ecossiste- ma mais rico da Terra, qlue atraira a atenglo do ovopaldisn da e solp gria cdioi t asvr'I condigio de um dos tris 6nicos embaixadores da ONU para 0 meio ambiente, serviu-lhe de t~imulo. Nesse context se explica 0 paralelo entire os dois assassi- natos, 0 de Blake e o de Chico Mendes. O que h6 de incontesta- velmente comum entire os dois fats k que os assassinos nio faziam a menor idkia da importincia das suas vitimas. O fazen- deiro Darly Alves da Silva tinha Chico Mendes como um cabo- clo estouvado, que se atrevia a impedi-lo de exercer o total po- der de arbitrio, que considerava natural naquelas paragens re- motas da 61ltima parcela incorporada ao territ6rio national (ad- quirida da Bolivia pelo Bario de Rio Branco no inicio do skculo XX). O donor de terras, como da vida e da morte em Xapuri, nio sabia que.o rijo Chico Mendes se tornara herbi para ambi- entalistas e ONGs de Nova York a Paris, que se mobilizaram para dar-lhe, p6s-morte, uma consagragio nio alcangada em vida. Os rats d'agua da praia da Fazendinha, a oito quilametros de Macapi, onde os viajantes deviam aportar e eram esperados, jamais imaginaram encontrar no veleiro a resistincia oposta por Blake, que devia ter-se comportado como um milionirio em fbri- as, disposto a ceder os ankis pela vida, nem uma repercussio do fato suficiente para fazer a policia agir com inusual rapidez e com- petincia, prendendo quase toda a quadrilha em 24 horas. Nio fi- caram com o produto da pilhagem e ainda causaram um grande estrago, sem paralelo nos 61timos tempos, a imagem da AmazG- nia, e ao que especificamente ela deveria render ao turismo. O que o fazendeiro acreano e os pirates amapaenses vi- saram nio foi, nos dois epis6dios, o paladino de uma causa nobre, capaz de sensibilizar pessoas e instituiS~es alkm-mar. Achavam que estavam se circunscrevendo a um fato localiza- do. Uma vez cessado o incident (a eliminagio de um inc6- modo adversirio dos desmatamentos e o roubo de objetos de valor encontriveis num veleiro de passeio), voltariam Is suas retinas provincianas. Nem com o seringueiro e nem com o velej ador, havia um conflito de idkias, duas vis~es de mun- do que necessitavam entestar-se para uma delas, a vitoriosa, se manter. E esse antagonismo que a opiniio p~iblica, procu- rando dar um significado nobre a uma infelicidade circuns- tancial, destacari sobre o pano de fundo dos dois aconteci- mentos, aproximados pela midia, numa operaqio cultural. O cenirio favorece essa aproximagio de idki- as. Ao long de toda a hist6ria amazbnica, ao menos aquela que o Scolonizador euro- i cr ever a 500 anos, 0 grande desaio teml regi 3o . 4 DEZEMBRO/2001 AGENDA AMHAZ(^)NCA como ela, de fato, b. O nome de batismo. Amaz~nia, ji b o produto de um valor atribuido, as guerreiras mitol6gicas que 0 espanhol trou- xe consigo e inseriu numa paisagem que, fisica e historicamente, niao tinha lugar para ela. Mulheres dao tinham funglo guerreira nas sociedades nativas, prb-cabralinas. E, se guerreassem, extirpando um dos seios para que ele nio estorvar o manejo do arco e flecha, nio 0 fariam sobre cavalos, de resto indteis, se existissem, para levar um guerreiro por entire uma selva espessa e intrincada. S6 depois da Segunda Guerra Mundial a Amazbnia deixou de ser, quase sempre, o que queria que ela fosse o ocupante es- trangeiro, ainda que s~idito do mesmo impkrio, falando a mesma lingua ou partilhando 0 mesmo territbrio e a mesma soberania national. Justapor a esse valor atribuido, a essa realidade criada, a essa cultural do exotismo, a plena geografia de uma regilao com- plexa, capaz de desfazer muitas das regras escritas pela simples aceitagio do que k (e nio o que se imagine que seja), C uma das tarefas superiores do conhecimento humane aplicado a essa bil- tima e maior fronteira do planet. O assassinate de Peter Blake, principalmente pelas cho- cantes circunstincias em que ocorreu, vai reforgar os precon- ceitos e as nog~es privias do inconsciente coletivo em relagio a essa regifo seminal do mundo, que hoje preocupa, fascina ou angustia gente em todos os quadrantes desta Terra azul, confor- me p~de constatar a Unesco, quatro anos atris, em uma pesqui- sa aphicada nos quatro continents. A pirataria, que traz de volta a imagem da sanguinolincia na hist6ria colonial (os modernos marinheiros do impirio briti- nico em atrito com pirates primitives dos quatro mares), talvez ofusque os problems reais e permanentes de uma bacia que, s6 na irea de drenagem do maior rio do mundo, O Amazo- nas, tem 3,5 milhaes de quilbmetros quadrados dentro do Bra- sil, sua parte maior e menos conhecida (e mais desprezada, a despeito de toda a retbrica em contritio). Por uma regra de probabilidades, a crimmnalidade que al- canga parcelas crescentes da populagio regional, no rastro de problems socials que se agravam com a implantagio de gran- des projetos econbmicos, para os quais deveriam ser a solugao, chegou tambb~m a um personagem estranho a esse circulo dan- tesco, o grande campelo neozelandis de iatismo. Mas seu corpo embalsamado nio arrastou consigo a teia de problems na qual, involuntariamente, se enredou. Ao inverse, sua membria deixa. ri plantadas na bela paisagem que o atraiu ideias e conceitos que ele estava comegando a se empenhar em desfazer, na condigio de embaixador mundial da ecologia. Peter Blake foi com seu sofisticado veleiro para a Amaz6- mia disposto a ver, com os pr6prios olhos, diretamente, uma re- gilo que um m'imero crescente de terriqueos s6 consegue ver comn a imaginagiao, a distincia, projetando sobre o objeto do in- teresse a imagem de suas prbprias necessidades. Desapacecendo de forma tio infeliz nesse loculs da passionalidade (e da paixio) mundial, Blake vai arrefecer o impulse bom e estimular o hibito negative, consagrando uma Amaz~nia que nito 6, em proveito de uma Amaz~nia que querem que seja. E que sacrificam, no altar da destruigio, em nome do progress, seguindo um roteiro que chega a region ja escrito, a partir de fora. g:3 I. E Na matbria sobre a future hidrelitrica de Belo Monte (Agen- da Amazanica no 27) ficou claro que 0 Ibama C que tem a compe- tincia legal para 0 icenciamento de obra dauela importincia, assim vocal afirma. Porbm, naquilo respeitante i Fadesp, faltou definir a sua exata funglo, porque os conceitos arrolados de absolu/ta inconsis- tincia ticnica, de n3o ter noldria capacidade e credibilidade necessdiria sim- plesmente confundem o leitor ao inv~s de esclarec&-lo. Afinal, ela tem ou nio tem competincia ticnica para elaborar o EIA/Rima? Por outro lado como ali estb implicito quando a entidade dispu- ser dos tris requisites acima de forma positive pode ser contratada sem licitagio? Ora, verifica-se nesse caso, como em multas outras questdes dessa natureza, opinides polarizadas de apoio e de rejei- 950 a projetos importantes, mormente se eles slo destinadds a pro- duzir energia ou tornar certos rios navegiveis. Como exemplos em- blemlticos temos a hidrovia Araguaia-Tocantins e a entio hidrelC- trica Belo Monte, principal objeto desta breve missiva. A louvbvel e athinteligente a defesa da fauna, da flora, dos rios, dos rios, enfim do patrim6nio national. Mas nio se pode negar o uso dos recursos naturals, sobretudo quando eles representam a sobreviv~ncia de seus habitantes, seja para ingestio pr6pria, seja para usufruirem do re- sultado de sua transformagio. A falta perene de planejamento es- tratigico redundou nesse inexplicivel "apagio". Coisas de FHC e de sua tropa, digo, toupe, e de seus antecessores. Em que pese a exacerbada histeria de algummas Ong's, de jornalistas, de acadimi- cos e de entidades afins, o projeto energi~tico k uma prioridade ab- soluta e irresistivel. Nio d6 para sustentar discusses estbreis so- bre meio ambiente, ecologia, biota, ecossistemas, etc. Sio temas oportunistas veiculados em textos recheados de vaidades ideol6gi- cas e acadimicas, e de interesses pecunibrios. Quanto i incumbin- cia de administrar e gerenciar esses disputadissimos pleitos, os ar- tigos 230 e 240 da Constituigio Cidadi dispdem que Ccompetincia da Uniio, dos Estados, dos Municipios e do Distrito Federal, por concorrincia, exclusao ou inexistencia de normas legals e especifi- cas, O exercicio pleno de legislar e decidir, quando for o caso. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA Algumas das critics que o leitor faz a certos stores que de- fendem o meio ambiente slo justas. O que, todavia, nao invalida a necessidade que todos temos de considerar e relevar a atencio e os cuidados com a repercussio ecolbgica da atividade humana. Essa C a consciencia que 0 seculo XX, tao repeodagsss min tais, muitas delas irreversiveis e danosas (ath mesmo para 0 bolso, a principal parte do corpo humane para diversos humans pouco hu- manos) de um e de outro lado dos fronts da guerra fria, nos legou. Da mesma maneira, hi oportunistas e mal intencionados do lado dos "pragmiticos" e "desenvolvimentistas". O critbrio da verdade se estabeleceri no diblogo e no confront de idbias, nio na conde- nagio intolerante e no primado do exclusivismo e da umilateralida- de.. t o que constitui o plus dos regimes democrbticos. Quanto i Fadesp, se pudesse provar os tris elements referidos pelo leitor, poderia ser contrato sem licitafio pliblica. Nio sendo notbrias es- sas suas qualidades, muito pelo contririo (conforme os dois casos concretes apresentados), deve se sujeitar a concorr~ncia pi~blica, a ser aberta para 0 EIA-Rima de Belo Monte. Quando a nagiao, bem informada, decidir construl-la, em beneficio da maior parcela pos- sivel da populagio, com resultados o mais eqilinimes que for pos- sivel, e nio para proveitos apenas de alguns. DEZEMBRO/2001 AGENDA AMA7A^NICA 5 de Pesquisas) e a criagio da Faculdade de Filosofia, nos anos 50, deram impulse intellectual capital amazonense porque "existia um movimento litericio muito forte na cidade, O 'Clube da ma- drugada', um movimento politico, social e literirio". Isso, porkm, assegura o autor de Galveg, nio houve em Be- lIm: "Belim foi sofrendo um process de decad~ncia logo apbs o fim do ciclo econ~mico da borracha e li nio houve nenhum beneficio do surto econbmico do litex no period da Segunda Guerra Mundial. O process de decadincia acelerou-se logo de- pois dos anos 60. O Pari foi perdendo sua identidade intellectual, a primazia do capital cultural e cientifico da regiio. Hoje, por exem- pl, o, ari nie em lteratura, o ari no sm msica, avri non tem nada. O Pari nio tem teatro, nio tem dramaturgia. Tem artes plisticas, tem fotografia, tem algumas coisas, mas foi perdendo a sua identidade, Nio ir dificil entender por qu& o Inpa foi fundado em Manaus e n3o em Belim. Porque o Pari tinha identidade poli- tica para manter os organismos econbmicos li. Mas essa identida- de political nfo era associada a uma perceppio suficiente para de- fender a criagio de um institute cientifico no Parb. Atk a oligar- quia amazonense acabou indo para Manaus, justamente porque havia, digamos, terreno ftbrtil", sentencia o mestre. Mircio encadeou uma sucessio de barbaridades nessa ora- glo descoordenada. Nio resisted i menor verificag~o documental a afirmativa de qlue Belkm nio teve "nenhum beneficio" com a economic de guerra da borracha, trazida pelos americanos quan- do as fontes de suprimento no oriented foram fechadas aos aliados a partic da adesio do Japio ao eixo de Hitler. Mircio podia dizer que os maleficios foram maiores do que os beneficios, mas nio ignorar as obras no aeroporto a partir da base area incrementada pelos EUA, por exemplo. Ou a sede dos novos servigos, qlue iriam se estender atk os altos rios, com seus seringais reativados, atravks da Sava, do Semta ou da Fundagio Sesp. AtC mesmo melhorias, como a avenida Bernardo Saylo, ori- ginada de um dique de protegio, qlue resisted sendo uma das mais sblidas obras de engenharia da cidade. Os ares democriticos, que a derrota dos regimes totalititios da kpoca fez soprar, chegaram aos enfumagados caf~s, onde gera- C5es de intelectuais e politicos conseguiram fermentar suas idbias, dal resultando obras como o suplemento litericio da Folha do Norte, um dos melhores no ginero no pais, catapulta para romances, con- tos, poesias ou ensaios de gene como Mirio Faustino, Max Mar- tins, Paulo Plinio Abreu, Francisco Paulo Mendes. Benedito Nunes e Haroldo Maranhio, sem contar com os ainteriores e ainda em ple- na atividade, como Bruno de Menezes e Dalcidio Jurandir. Colo- cando-os na balanga da qualidade (e tambibm da quantidade), pesa- riam menos do que os integrantes do Clulbe da Madrulgada? A question, evidentemente, ndo C essa. Belim k o que d, e continue sendo, apesar de tudo, por uma razio simples de enten- der: foi para ci, na segunda metade do sbculo XVII, que o 61ltimo dos grandes est-adistas portugueses, o Marquis de Pombal, man- dou o irmio, com um projeto na cabega e recursos i disposigio para coloci-lo em pritica: fazer de Belim a capital do impkrio remanescente portugubs na Ambrica, a ser mantido mesmo quan- do 0 Brasil se houvesse libertado da dominagio colonial metro- politana. Depois que Landi construiu palicios e igrejas, sem a con- 6 DEZEMBRO/2001 AGENDA AhfAZOINICA TESTEMUNHO 1Mar c t Souza e a Amazon xa: senteng as ditas a par tir do Rio (o de janeiro) escritor amazonense Mircio Souza parece empenhado nos 61timos anos em desfazer o que ajudou a realizar em Ofase mais remota: libertar Belim e Manaus, as maiores ci- dades amazbnicas, capitals das metades oriental e ocidental da re- giio, da rivalidade provinciana que as tem impedido de procurar os pontos de uniko, ao invis de estimular uma discbrdia superfici- al e contraproducente. Numa entrevist~a concedida a Priscila Faulhaber, para ser incorporada ao livro Conbedimento e fronteira: bistonia da disncia na Amatinia (edigio do Museu Paraense Emilio Goeldi, 795 pigi- nas), Mircio incorpora rangos do passado, tomando seu partido na dispute entire 0 jaraqui amazonense e a piramutaba paraense, empobrecedor cabo-de-guerra em relagio ao qual sua ironia e sua lucidez pareciam servir de imunizagio. Consagrado e burocrata, acomodado e yurppie, Mircio se permit jogar no lixo as palavras de outrora, a semelhanga do chefe mbximo, o soci610go Fernando Henrique Cardoso, e de- sanda a apresentar idkias e informaqdes irreais, num modo de encarar a realidade e a histbrica amaz~nica em contradigio com a important obra que produziu, aguada e empobrecida em anos mais recentes. Mircio merece ser criticado dio por dizer coisas que podem soar ofensivas aos brios paraenses, demasiadamente hipectrofia- dos para meras formalidades. Se suas palavras, apesar de duras ou mesmo sarcisticas, expressassem a verdade, nossa obrigagio seria sufocar o orgulho ferido e nos submeter a sua lucidez. Mas esse & um material que nio consegue mais sedimentar a attitude icono- clasta de um intellectual em busca de um patamar metropolitan, que nio se lhe acomoda bem, e empenhado em se desfazer de uma base regional, que avalizava sua atividade. O Mircio Souza da entrevista C um maneirista empolado e inconsistent, uivando para a lua, que julga seu lugar de direito e merecimento. Certamente b utilitiria a interpretation que faz dos caminhos trilhados por BelCbm e Manaus ap6s a Segunda Guerra Mundial, quando as duas capitals comegaram a veneer a inbrcia e o vicuo deixados pela decad~ncia da exploragio da borracha, a partic da metade da segunda dkcada do skculo XX, a tal "idade mkdia ama- zbnica", tio mal formulada e compreendida quanto a 4poca origi- nal, que lhe serviu de modelo e inspiragio. A implantagio do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz~nia) em Manaus pelo CNPq (o entio Conselho Nacional trapressio dos jesuitas, o que faltava era um projeto de civilizagio para dar estofo a essa armadura. Era o segundo pass, que claudi- cou. E claudica atk hoje. Mas & inegivel que em Belkm foi iniciada a montagem desse suporte. E estultice de Mircio afirmar que havia em Manaus, mas nio em Belbm, "percepgio suficiente para a criagio de um institu- to dientifico" aqui. Ora, Ferreira Pena conseguiu fazer da sua As- sociagio Filomitica, criada em 1866, o ndicleo do que viria a ser o Museu Goeldi. Bem ou mal, com seus erros e distorgies, essa instituigio, mantida com recursos estaduais, adquiriu states junto i comunidade cientifica e resistiu is intempiries political atih ser absorvida pelo governor federal, 80 anos depois, comnuma menta- lidade cientifica ou prb-cientifica estabelecida. A perda de identidade de Belkm (e do Pari), na qual 0 au- tor do Boto Tulcuxi tanto martela, sem muita precisio ou rigor conceitual, certamente esti relacionada ao seu esvaziamento eco- nbmico. Mais ath do que isso, pode decorrer da incapacidade que a cidade manifesta de reencontrar um papel econbmico, de redefinir uma vocagio no novo espago estadual, regional, nacio- nal e mundial. Essa crise econimica, facilmente visualizivel para quem caminha por suas ruas centrals, entupidas de camels, ou por sua periferia, assemelhada a Calcuti, deve afetar a quimica da criagio intellectual e artistica: enquanto a palavra se enfraque- ce, a mdsica e as artes plisticas sobem relativamente, e, acima delas, a fotografia, razio de um primio especifico no tal do Arte Liberal, que a nivelou i pintura e i escultura. Em parte, esse & tamb~m um fendmeno national e mundial. Tudo bem: mas onde nasceram Dina Oliveira, Emanoel Nassar, Luis Braga, Nilson Chaves, Sebastifo Tapajbs, Fafi de Belim, Leila Pinheiro e Jane Duboc, para ficar s6 nesses exemplos (quantos Mircio pode contrapor alkm do maravilhoso Milton Hatoum)? Nio quero, aceitando a armadilha de Mircio, puxar o ana- crbnico cabo-de-guerra que nos fez virar a costa e o nariz no passado. Os arguments sio apresentados apenas para mostrar que as palavras do president da Funarte slo incorretas e levi- ans. Nio tim a menor coer~ncia. Nem tim parentesco com a verdade. Ele elogia a perspicicia do Inpa ao aproveitar em seus quadros o excelente Mirio Ypiranga Monteiro, um autodidata em antropologia, mas manifesta desdkm pelo alemio Curt Ni- muendaju, um "operbido metal~rgico que gostava de indio", que "era bem intencionado, mas era amador. Nio tinha formagio". Como tamb~m nio tinha "formagio" Mirio Ypiranga. O que avaliza 0 just conceito de Nimuendaju, como um dos maiores antrop610gos brasileiros, b a sua produgio, que tornou irrele- vante a sua falta de formagio acadimica pelos resultados alcan- gados. Ele nio tem culpa de ter sido vinculado ao "Goeldi" e nio ao Inpa. Mas morreu no Amazonas de Mircio, entire os in- dios "que gostava" e tio bem descreveu, et pou/r cause. Alids, 4 mesmo tio ficil "de entender por qui o Inpa foi fundado em Manaus e nio em Belim", que C impossivel entender 0 que levou Mircio Souza a explicb-la como sendo uma percep- glo insuficiente "para defender a criagio de um institute clentcifi- co no Pari". Esse institute, como saberia qualquer colegial, ji exis- tia: era 0 Museu Goeldi. A instituigio, ainda custeada pelo Estado, vivia na mais negra miskria. Mas existia. O CNPq podia imediatamente encampi-la, como acabaria fazendo, tris anos depois. S6 nio o fez logo porque seu impulse tinha uma motivagio geopolitica: assustados com a proposta de criagio do Instituto Internacional da Hilbia Amazinica, os mili- tares, que moviam o CNPq, queriam fechar o (imenso) flanco Occidental da Amazinia aos perigosos cientistas estrangeiros, nor- malmente associados (entio como ainda hoje) a interesses co- merciais, ou politicos. Uma vez fincada a base federal na Amaz~nia, a partir do dominion sobre a sua metade mais isolada e vazia, com uma ins- tincia cumpridora das determinag~es do poder central, emana- das do Rio de Janeiro (e, em seguida, em Brasilia), de Manaus a Uniio se voltaria para tomar o "Goeldi" do Estado, mantendo- o sob a jurisdigio do Inpa, numa subordinagio qlue, com o tem- po, se mostraria negative, sob todos os pontos de vista, inclusive da doutrina de seguranga national, tambbm matriz intellectual do prbprio Inpa. Morreu de podre. Desde que assumiu algum poder de mando no mundo da cultural national, Mircio Souza parece comprometido em defen- der a primazia local sobre os destines amazanicos, porbm n~io mais com os ideals libertirios de ontem, que o mantinham atualizado comn o mundo, mas num termo de compromisso que the possibi- litou a reconciliagio com representantes da oligarquia atk entio postos ao alcance do seu litego verbal, como Gilberto Mestrinho, a fonte inspiradora do brilhante folhetim sobre 0 Boto Tucuxi. Os alvos, agora, sio os estrangeiros e seus mimetismos ama- z~nicos, um alvo ficil para uma critical reducionista, que s6 conse- gue ver "por tris desse discurso da conservagio e do retorno ao extrativismo" os interesses da ind~stria farmaciutica, uma "pa- lhagada" qlue concede ao native apenas o direito de "guardar a riqueza florestal". Esse tipo de exotismo, trazido pelo discurso ecolbgico, i considerado por Mircio pior do qlue o desmatamen- to. A defesa da floresta nio passaria de recurs titico para aumen- tar o lucro das grandes ind~istrias farmac~uticas mundiais. E triste constatar que um intellectual amazbnico do porte de Mircio Souza, para se contrapor a uma formal de pilhagem dos recursos e da cultural da regiio, originbria de outros pauses, acabe se incorporando, por sua forma arbitriria de combater o interesse ecol6gico por esta parte mais complexamente cheia de vida do planet, ao bando de pilhadores nacionais, nio se po- dendo distinguir com precisio, ao menos por enquanto, qual deles k mais devastador, ou mais ripido na destruigio. Um ponto de equilibrio parece fora do alcance para um parvenuldeslumbrado comn a possibilidade de ser a Anica pessoa sobre a face da terra "que chama a Adiblia Engricia de Oliveira de Adelinha". Adblia C uma antropbloga paulista que atuou por longs anos no "Goeldi" (do qual acabaria sendo diretora), prin- cipalmente ao tempo de Eduardo Galvio, que praticamente fun- dou a antropologia em bases cientificas no Museu, a quem Mir- dio diz ter conhecido "bastante" (sem haver provas de qlue a reciproca seja verdadeira). O qlue chamar Adtblia de "Adelinha" tem de relevant em relagio is opinibes de Mircio Souza k quase tio imponderivel e impenetrivel quanto, hoje, suas opini~es sobre o tudo e mais que vi a partir de sua tonre de marfim, no Rio de Janeiro. DEZEMVBRO/2001 AGENDA AMAZilNICA 7 Uma homenagem prestada em 1966 ao ex-vice-governa- dor e ex-deputado federal Agostinho Monteiro, que tambbm era um dos dirigentes da Rgdio Marajoara, reuniu o comando de A Provincia do Iara' na sede do journal, integrado arede dos Diirios e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand: os grificos Wilson Corria e Pedro Chagas, tendo o mbdico Agostinho Mon- teiro Filho a separb-los. O future senador Milton Trindade fa- zendo a saudagio. Agostinho Monteiro ouvindo-0, sorridente. Ao lado, os diretores Alfredo Sade, Arthbmio Scardino Guima- ries, Clbudio Augusto de SA Leal, Roberto Jares Martins e Ad- valdo Castro, mais e colunista Nilo Franco, todos empaletogados, como mandava 0 figurine de trabalho de entio. Ica. no . .. . .;. p -- ~ ' 5: k~s . Praga da Reptibli decade de 60. que aparece nesse ....::-!.:: Si- .:.:- : -c;.:: -: registro, de 1972, b a Praga Kennedy (W~Yaldemar seg~unda versio0 Ie- Henrique, d::pris Edmilson .. antada na Rodrigues), mas no mesmo es- -e en t 3 o tilo ruistico que fez sucesso. ...'Era uma boatel-restaurante, :-- quele tipo de irm~~irnibo que ? q - consumava a tentagao de uns --?-..-.com 0 praze~r de ourros. :~;rVe~ ~~Jn~w499= Marcou epoca. 8 DEZEMlBRO/2001 AGENDA AMAZONICA FOTOG RAF IA Redagio MaOCR A\maloca da ioto nio ea original, que~ Hamilton Mlorei- ci onItruiu num canto da L r I ROSERTO CARLOS CANTARA 8( CIPA DO RA f E M) RMO ~ --~ Satla feira, diaL A2 s. 10,30 hora, lo idolo dar juventude brarsileirlaem grande "show"', presented de) "Cerpar Chop"h .RVN~ INGR~ESSOS: No portar la de POINI DO PABRA, no PIERRE FOTOQ, na T'ESOUR:~lilA DOX CLUBE~I DOC REMOr, na ODAIP~SCA e las PORITARIA DA RADIO MARAL JOA~RA. IN'TEIR~A C: C: 3.000 EST'DA71T :CrS 2.000 1 ;O rei Roberto Carlos, "o brasa, mora", fez um show em Beltbm, em setembro de 1966, para milhares de fis reunidos no estidio de futebol do Clube do Remo, quase lotado. Ji era 0 "fdolo da Sjuventude brasileira", mas ainda nio exatamente 0 incontestivel rei da miisica popular. Dos quatro pontos de venda de ingresses para 0 espeticulo, apenas um ainda esti em atividade, a tesoura- ria do Remo. Os outros locals desapareceram. Algo nada inco- mum na terra do "ji teve". Ic I '" ~ 2* r --u ;1 1 i ~a~ DEZEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA 9 Coincid~ncia Num flagrante feliz, o fotbgrafo de Al Prov~inna~ldo Para pegou o president da Repl~blica, marechal Caste- lo Branco, e o governador do Parj., coronel Alacid Nunes, no auge do regime military, em 1966. Ao re- ceber o president, em visit ao Palbcio Lauro Sodrb (que era a sede do governor e agora k 0 Museu do Estado), Alacid levou Castelo para um sofi sob os retratos dos ex-presidentes Jbnio Quadros e Juscelino Kubitscheck, ambos cassados pelos cheles do nov~o ret- gime, estabelecido com a deposiSio de Jodo Goulart, dois anos antes. Cas- telo voltava a cidade em que vive- ra uma dbcada antes, quando es- teve h frente do Comando Mi- litar da Amaz~nia. Morreria num rumoroso acidente abreo um ano depois. ~5~t ~Eri~~ `1 .Y3 BI .u ; - -- - - - - (6,36), Josk Alberto So- ares Maia (6,30) e Isa- bel Vidal de Ne- greiros (5,80), e o ji falecido desembar- gador Ossi- an Almeida (6,22). Amilcar Tupiassu tambb m passou nes- se ano notaa 5,88), mas trocou o di- reito pela sociologia, como viri- os outros dos 68 candidatos ap rovados, dos quais ape- nas 50 po- deriam ser matricula- dos. Era o n~mero exato das vagas disponiveis. Escola Em l954ogovernador Zacharias deAssulmpgdo recebeue pedidos de quatro mil criangas que queriam se matricullar como internos na rede de ensino piblico estadual, mas sd pbde tender 51dos pedidos, deixando de fora 3.949 criangas. O estado contava com 11 vagas no cole'gio Antdnio Lemos, 10 no GentilBittencourt e30 no Institute Lauro Sodrd. O governador ficou de mandar alguns dos meninos para o Edu~candd'rioMonteiro Lobato, nra mal-afamada (para esses efeitos) ilha de Cotifuba. Merceania "~:. A partic do final de julho de 1954 as mercearias de Belim Guerra teriam que funcionar em dois expedientes, 0 primeiro come- Ji is proximidades do fim da Segunda Guerra Mundial, gando is 5,30 da manh8 e indo em julho de 1945, o coronel Ney Peixoto, chefe da segio de ath as 12 horas, e o segundo, abastecimento, distribuigio e control de carnes verdes, pes- entire 14 e 20 horas. Quem fun- cados e mariscos do Estado comunicava ao p~blico que "a cionasse fora do horicio, esta- carne de mamote e suas visceras" seriam vendidas exdluivamente belecido em lei municipal, se- em quatro talhos: na avenida Sio Jer~nimo (atual Governa- ria multado. Aos domingos, as dor Jose Malcher), entire Rui Barbosa e Quintino; na Benja- mercearias poderiam ficar min Constant canto com O) de Almeida; na 14 de Margo can- aber~tas entire 7 e 12 horas, pa- to com Boaventura da Silva, e na Manuel Barata canto com a gando uma licenga especial no Frei Gil de Vila Nova. primeiro ano de vigincia da Advertia que tais talhos iam vender livremente a carne e as nova lei, que revogava a ante- visceras de mamote, "isto k, fora do racionamento, ao prego rior, de 1951, mas inteiramen- de Cr$ 8,00". Qualquer um podia comprar essa carne, "inde- t e de graga a partir dal. Os pendente da quota a que tenham direito pelos car ties de raci- merceeiros, porkm, teriam que onamento destinados aos mercados ou talhos de rua". cumprir as leis federals sobre os regimes de trabalho. Amercearia era vital an- Im porta~go tes da era dos supermercados. Na mesma 6poca, Pickerell RepresentagBes S/A ofereci- Diet am orgamento a quem quisesse fazer importagio direta das D r io fibricas de artigos que representavam, como cimento cin- i zento americano Hercules, farinha de aveia Quaker, farinha As maiores notas alcanga- de trigo Northern King e Granada, azeites fins para mesa das pelos candidates ao ves- (Bela Albion e A Andaluza), uisque Balmoral, aguardentes tibular da Faculdade de Di- John Bull e Juizo, ou linotipos da Mergenthaler, de Nova reito em 1954 foram de Je- York. Tambkm aceitavam assinaturas para as revistas Time, rinimo de Noronha Serrao Life, Architetural Fbrum e Fortune. (9,11), Carmen L~cia Paes S(8,94), Maria Dulce de Pau- CeXSU~a ala (8,94), Raimundo Lobato CORSHER Teixeira (8,72), Wilson de Je- Uma pequena e vaga nota publicada na Folha doNorte de 5 sus Marques da Silva (que vi- de julho de 1945 informava que a circulagio da revista A ria a ser desembargador, Semana, que estava sendo editada "por nova diregio", fora comn 7,77), Helmo Hass suspense por determination do DEIP, a version estadual do Gongalves (7,72), Otivio famigerado DIP.(Departamento de Imprensa e Propagan- Sampaio Melo (7,63), leda da), criado por Lourival Fontes (0 Golbery do Couto e Silva Neri Ledo (7,55), Ivete Li- do Estado Novo) para censurar a imprensa, sob a ditadura cia Pinheiro (atualmente ju- (que ji agonizava) de Getblio Vargas. Segundo a explicagio . iza, 7,38), Ant~nio Pereira do censor, a revista estava circulando foraa da lei". Seus res- Mendes (7,36) e Francisco ponsiveis j6 estavam "entrando em entendimento com as au- Cindido da Silva (7,36). toridades do sul da Repdblica" para tentar liberar o semand- ne eTambulm fora aproados de rio, que voltaria a circular, com uma edigio especial, "assim neevstblrsauise- que fique resolvido 0 impasse". sembargadores Isabel Benone ;:::--~u ~ I~~r:;ruii; .i iuhM-~L,;~~.~ ~i- notata 6,63), Felicio Pontes 10-DEZEMBRO/2001 -AGENDAAMIAZf)NCA e . I; m r ta:::::.'.::':.::::::::.. de M-lnidiano -' .~1;= '1~~ CEPC Em 1957 a diretoria do Centro Civi- co Honorato Filgueiras, o gremio estu- CdP (Cod60 gio Estadual Paes de Car- valb 0) > con se - guiu fi- nalmen- te preen- cher to- dos os cargos de adminis- rro da en tt e .No departamento de esportes, o vilei ficou sob a responsabilidade de Emanu- el Rodrigues, enquanto o basquete foi entregue a An- t~nio Brasil, 0 futebol a Ma- noel Medeiros, o atletismo a Raimundo Ewerton e a nata- glo a Voltaire Hesketh. In- tegravam odepartamento ar- tistico Francisco de Assis Fi- lho, Maria Carvalho, Arman- do Rosa, Esther Serruya e Pedro Galvio. No departa- mento de imprensa atuavam Raimundo Maubs, Felipe Soares e Isaac Serruya. No departamento social: Marr- lene Viana, Celina Mendon- ga, Agis Belchior, Cblio Mirtires Coelho e Josh Ri- beiro. No departamento cultural: Joaquim Bastos, Floriano Barbosa, Skrgio Nascimento, Doralice Al- meida e Fernando Pena. A Ridio Educadora dava destaque, em sua propaganda de l964, ao fato de ser "a 6nica que com a PRC-5 [Ptidio Clube do Pard] 4 ouvid'a eficientemente" em todo o Estado, gragas 1 sua freqii~ncia tropical. Mas tambkm erra a 6nica "ouvida comn exclusividade em mais de 500 povoag~es paraenses", usando duas freqiiincias, em onda mbdia e tropical. EleiF~o A prefeitura indicou, em l9)66, spenas 11 pragas nas quais poderism ser afixados cartazes de propaganda eleitoral: Floriano Peixoto, do Operdrio, Brasil, Magalhies, da Bandeira, Princesa Isabel, Olavo Bilac, Palicio, Sao Joao, do Carmo e Cruzeiro. A portaria foi assinada pelo entio prefeito, Stelio Maroja, no desempenho de uma faculdade que cabia entio so municipio, delegada pelo Tribunal Superior Eleitoral. VocC sabe localizar todas essas pragas? Vestibular O cursor de vestibular H61io Dourado, que funcionave na antiga sede do Centro Cultural Brasil Estados Unidos, na avenida Nazar6 com a Benjamin Constant, comemorou, em an6ncio publicado na imprensa, o indice m~dio de aprovagio de 79% no vestibular da Universidade Federal do Pard de 1969. Conseguiu o primeiro lugar em sete curses, entire os quais o de Medicine (com Rui Dias Borborema), engenharia (com Renato Guerreiro, que agora dirige a Anatel, a agencia national de telecomunicagies) e arquitetura (com Ronaldo Marques de Carvalho). DEZEMBRO/2001 -AGENDAAMlAZOIJCA- 11 Crime A caixa d'igua instalada no centro de Belkm (ao lado do que hoje k conhecido como "o buraco da Palmei- ra"), que podia fazerT as ve- zes da nossa Torre Eifeel, foi vendida como sucata, em outubro de 1966. As 600 toneladas de ferro desmon- tadas foram compradas pela firma Alzinco Comkrcio Expontagioa report 0o bara na kpoca), e levadas pelo navio Areia Branca, dos Snapp (a empresa de navegagio que antecedeu a Enasa) para a Siderdirgica Algonete, em Recife, onde foram reprocessadas. Um crime contra o pa- trim~nio arquitet6nico da cidade, praticado aluz do dia, ou da inconsci&ncia p~iblica. rsg.ne. -..gu ....se.-- pr wm.o mn. ...l)Eamu-. -** I~kiBs~V1[11~~ sezLEM CLM Vb5PFEnA DE AEIRECLAR AC TV MARAJOARA a mals mo men nevenrsoam usera astermanfh do Bair.. Srr t~dl~dl ro a d elsin isg: veila aC peiY prr .~ :*** ;**,-**.**,** -**~ m~ lU~ r I~drnr piran~g 4,Or TVy MAotR AJOARA n ~lfDI( Agenda Aznaz~nica Travessa Beniomin Constant, 845/203 Bel~m Par6/66.053 040 -e-mail: iomnal~,amazon.com.br Fone: 241 7626 Editorago0/ilustragbes: LuizAFPinto 4940. 1e4e/e2k2 E a adquiric aqdes da nova emissora, com "facilidades totals". A negoci- agio podia ser feita "153 metros aci- ma, nos cbus do Pari, nos dois filti- mos andares do Edificio Manuel Pinto da Silva". No topo do prbdio mais alto do norte do pais ficaria a antena da television. A Guajari cresceu se associan- do a expansive Rede Globo. E dimi- nuiu ao perder os direitos de retrans- missio para a TV Liberal. Depois aca- bou se transferindo para onde a TV Marajoara funcionou atk que 0 presi- dente Castelo Branco obrigou os As- sociados a diminuir o tamanho de sua rede, sacrificando, entire as emissoras excedentes, a lucrative Marajoara. Pos- teriormente, a pr6pria Guajarb tam- bbm desapareceria. As pioneiras fo- ram engolidas pelo tempo. PUBLICIDADE a 6, ,n. ...-.... . O inicio da teleViSRO Em 1961, apenas 10 anos depois da sua introdugio no Brasil (por sua vez, apenas cinco anos apbs o inicio da histb- ria televisiva, nos Estados Unidos), a televisio chegava ao Pari trazida pelas mesmas maos que ja haviam criado a TV Tupi em Sio Paulo: Assis Chateaubriand. A TV Marajoara, canal 2, trazia a antena dos Diirios e Emissoras Associados, permitindo aos belenenses apreciar "a mais modern emis- sora de television do Brasil"., por um fato simples: era a mais recent. A rede tinha filiais apenas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, alkm da capital paulista. Beli~m estava, entio, na linha de frente. Quatro anos depois, Lopo de Castro montava a se- gunda estagio, a TV Guajari. Mas como "nio se torna real um empreendimento deste sem 0 dispindio de grandes somas o anuincio de langamento conclamava o paraense |
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