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armazonica ANO III N 27 NOVEMBRO DE 2001 R$ 3,00 L ti c i o F l a v i o Pi n t o POLITICAL Carta aberta ao coronel Prezado coronel, governador, senador, ministry Jarbas Passarinho, S egundo aquele romance de Gabriel Garcia Mar- quez, ninguem escreve ao coronel. Eu escrevo. Mesmo que o coronel nao queira, ou nao lhe sejam agradaveis os ter- I mos da correspondencia. ; Gostaria de transmitir-lhe nesta carta apenas minha alegria por ve-lo bem disposto, agil mentalmente e no pleno dominio da expressao verbal aos 81 anos, depois de ter pas- sado por uma cirurgia delicada. De desejar-lhe muitos anos mais de vida nessa condigio, lucida, se possivel podendo desfrutar desse relacionamento afetuoso, mesmo (e sobre- tudo) quando diametralmente divergente, que temos tido Sem mais de 35 anos. Continuando a respeita-lo e admira-lo, na mesma intensidade da sua parcim6nia e tolerancia no acolhimento das minhas ousadias e impertinencias. S Embora diga que agora se restrinja a olhar da janela a banda passar, como na muisica de Chico Buarque de Hollanda, o sr. ainda e parte dessa folia. S6 recentemente surgiu no Pari um politico cor a importancia que o sr. teve, a segunda maior a partir da Repuiblica Nova, em 1930. O principal, nesse period, foi Magalhaes Barata, que se fez sentir, corn vais-e-vens, durante tres decadas, dividindo o Pard politicamente ao meio. A sua influencia tambem se estendeu por period seme- lhante, mas nao cor a mesma intensidade. 0 Para, dos anos 30 aos 60, nao fazia parte do Brasil. Barata administrou-o como uma satrapia. Provocou 6dios, entire os que prejudicou para fa- vorecer o Estado ou e cada vez mais, quando do antigo tenen- te lembrava apenas o relho a corte que se formou i sua som- bra e corn seu silencio. Barata esteve no poder ate a morte. O sr. dela foi retira- do pela segunda derrota na carreira political. Ambos sairam cor dignidade: pessoalmente, nao se favoreceram do poder de mando que tinham para enriquecer e o balanco do que haviam feito era positive. Barata fez mais ate se tornar um tirano e se deixar seduzir pela bajulaCio dos aulicos, em geral mediocres e mal intencionados. Fez mais do bom e do ruim, pelo que a sua media, coronel Passarinho, me parece bemp. i Smelhor. E bem acima daquele a quem o sr. acabou por se aliar, ainda que, em funcao de suas raizes hist6ricas e do que ambos pensavam, devessem ter permanecido em campos opostos: Jader Fontenelle Barbalho. Politico habil e sagaz, como nenhum outro em atividade no Para, Jader deu o golpe de mestre quando Ihe disse para cuidar de dona Ruth, atacada pelo cancer, e deixar que da sua volta ao Senado ele tratasse. Apenas Lauro Sodre foi um poli- tico federal tao brilhante quanto o sr. no Para. O Senado foi o melhor locus para a manifestaio das suas qualidades. Seus de- bates cor Paulo Brossard foram antol6gicos, dignos de ter um palco como o da Roma antiga. Mas o sr. voltou a Camara Alta como um politico da Re- publica Velha, eleito pelo coronel (este, como a maioria dos que aqui mandaram, sem dragonas), dono dos votos do sertao. Foi comunicado da vit6ria na capital federal, onde sofria pro- fundamente as dores da perda da mulher amada (e amada in- tensamente ate o fim), sem precisar submeter-se a desgastante vis crucis eleitoral em um Estado das dimens6es e das caracte- risticas do Para, que causa tanto prazer (pelo contato direto corn o povo, do qual o sr. diz ter saudades) e angustia (por poder-lhe retribuir tao pouco). Nio seria impr6prio comparar essa sua vit6ria ao trato de Fausto cor Mestist6felis. Reocupar sua cadeira senatorial devolveu-lhe a juventude e Ihe deu forcas para a travessia soli- taria que precisaria empreender, sem a companheira de todos os moments ate all, primeira e unica. Mas o sr. sabia que o prego seria cobrado, nao de uma forma grosseira ou cor vila- nia. Jader Barbalho sabia cor quem estava lidando e como lidar cor quem diferia dos outros interlocutores, trazidos do velho PSD ou formados no PMDB neobaratista. 0 preco foi o seu sil'ncio diante dos erros que Jader praticaria e sua submis- sao a decisao que ele adotaria, de landi-lo candidate ao gover- no contra Almir Gabriel, em 1994, o mesmo Almir que fugira da raia dois anos antes, sem explicaaio, e sem um ai se acomo- dara a greijaderista ate entao. Estive com o sr. em dois moments da campanha, um bem no inicio e outro, no segundo turno, quando o sr. ja esta- va ficando s6, os ratos tratando de pular para a nau vencedora. Na ultima vez, o retrato da derrota estava estampado com a nitidez que ainda nao se delineara de todo no primeiro conta- to. Inteligente como e, alem de experience, o sr. sabia que esta- va diante de duas derrotas: a real, na votaq~o, dura, mas que iria passar; e a simbolica, mas defintiva, que o aguardava se tivesse mais votos do que Almir Gabriel. J imaginou se tivesse ganhado? O sr. diria dos quase futures companheiros o que agora esta declarando, nao ten- do eles se tornado seus companheiros de governor? Iria aco- lhe-los em sua administration, como parties do compromisso politico, ou os refugaria, conforme tardiamente o faz agora, quando do beneficio desse expurgo outra geragio de Passa- rinhos e que poderi colher? Corn a primeira derrota, o sr. teria que pendurar as chu- teiras, como fez, nio cor prazer, e claro. Com a segunda, destruiria toda a sua biografia. O sr. seria um espectro do coronel intelectualizado, um hibrido entire a doutrina social da igreja enquanto inspiraaio e um conservadorismo refor- mista e autoritario como pratica, que assumiu cor todo gis o governor do Para, em junho de 1964. Por isso, talvez tenha preferido perder, sem que seus ini- migos mais cru'is pudessem verificar pessoalmente a condi- iao humana a que o sr. acabou reduzido ao final da dispute electoral. Se nio ficassem corn pena, iriam querer aproveitar-se para destroci-lo, aniquila-lo de uma forma que amesquinharia nao o derrotado, mas o vencedor (como acabaram se amesqui- nhando muitos dos vencedores de entio). E o sr. nio merecia nenhum dos tratamentos. Tinha todo o direito de recolher-se para purgar os erros cometidos summa cium laudae. Aos 81 anos, cor uma vida intense, um saldo positive no balango do que fez e um patrim6nio moral construido, que ninguem mais pode destruir, o sr. podia se permitir con- frontar a verdade. Sei que justamente a essa altura da vida tal autocritica e ainda mais dificil. Nem todos, sob o habeas cor- pus preventive dos cabelos brancos, se colocam a maneira como Thomas de Quincey relatou imaginariamente os uilti- mos dias do grande fil6sofo Immanuel Kant. Mas, se provo- cado, o sr. podia encarar sem meios-termos a verdade, fazen- do cor que dessa postura pudessem resultar mais contribui- c6es para as gerao6es que se seguirio neste Estado infelicita- do por suas pessimas elites. Nao foi o que sr. fez diante das perguntas do reporter Ronaldo Brasiliense, em entrevista ao journal O Paraense. A ver- sao que o sr. apresentou sobre os moments finals da sua car- reira political e nova, sem ser, contudo, verdadeira. Ou, se fos- se verdadeira, o sr. demorou tanto tempo para expressi-la, fa- zendo-o num moment ji nio mais apropriado. Sua verdade, por isso, soa c6moda, utilitaria. Como se o sr. ji nio estivesse numa altura olimpica, mas continuasse interessado politicamen- te na banda que passa i sua janela, encontrando uma forma menor de se "compor de acordo com a sociedade em que vivo", num ponto intermediario entire vestais e "surrupiadores, in- clusive do dinheiro publico, conforme sua delimitaaio dos extremes da vida puiblica. O sr. diz agora que nio se empenhou na campanha elei- toral para o governor, em 1994, por ter comegado a ver "o Para que eu ia receber, que era um Para comprometidissimo com questoes morals e dividas, que estavam send negociados, em alguns casos seletivamente com 50% para pessoas e 50% para alguem que dava ordem para receber" O sr. nio da os nomes aos bois, deixando-os pastar bo- vinamente i distancia de sua janela. Mas esse era o clima, de baile da ilha fiscal, nos nove meses do vice, Carlos Santos, que assumiu o lugar de Jader, desincompatibilizado para con- correr ao Senado (tendo como um dos avais a candidatura de Passarinho ao governor, na coligag~o que ardilosamente mon- tou). Realmente, o period final dessa interinidade, o pior moment da administrag~o puiblica em todo o Pari republi- cano, tal a voracidade e primariedade dos saqueadores dos cofres puiblicos (com a taxa de corrupaio de 50%, a que o sr. se refere), podia ter justificado a sua renuincia a candidatura. 2 NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA Ou uma den6ncia public dos fatos, como media acau- telat6ria de responsabilidade pessoal, sem trair os companhei- ros e coyeligionarios, fiel i causa, que devia ter sido coloca- da acima das circunstancias. Mas sr. se calou, mais uma vez. Alias, ja vinha se calan- do diante de outros descalabros, que certamente nao eram com- paraveis a sangria desatada do desgoverno Carlos Santos, mas deviam provocar a desaprovaiao ou mesmo o repudio de um home decent como o sr. O problema e a interfer&ncia dos interesses politicos, os mesmos que fizeram o sr. indicar pessoas para cargos impor- tantes no Para e no Brasil, is vezes na presuncao de que fos- sem preparadas para a missao, mas sem adotar as providencias adequadas quando a verdadeira face desses protegidos se re- velou no exercicio do poder de mando que adquiriram a sua custa. Hoje, o sr. pode constatar, por exemplo, que "houve corrupcao na Sudam". Mas nao faz o devido mea cu/pa por ha- ver indicado pessoas que tambem contribuiram para esse per- manente mar de lama que cercou o predio da Almirante Bar- roso, lama freqiientemente trazida desde a Avenida Paulista, sua origem, seu destiny final, ou principal. Como um home inteligente, experience, honest no tra- to do dinheiro piblico e poderoso pode se cercar de pessoas que encarnavam (ou continuam a encarnar) exatamente o opos- to dessas caracteristicas? Releve-se em seu favor a pobreza de quadros do Pari, o impeto de Aguia predadora que se esconde por tras da mascara de passarinho que muita gene usou e usa, pirataria que se manifesta ja no primeiro dia de exercicio do poder. O sr. sabe disso tudo. E, por saber, nao pode se permi- tir fazer declarac6es que pressup6em desconhecimento. Inge- nuidade e insensibilidade, advertiu o poeta Bertolt Brecht. Um home como o sr. nao ha de querer esse refrigerio para seus erros. S6 os mediocres o desejarao. Por tudo isso, caro amigo Jarbas Gonaalves Passarinho, es- crevo-lhe esta carta, ji que is suas palavras, como quase sempre fora das quadras eleitorais, seguiu-se o silencio dos coniventes, dos interesseiros, dos desmemoriados e dos covardes. Nao escre- vo esta carta para magoa-lo ou perturbar a tranqiiilidade de que necessita, tanto para convalescer como para manter-se no timao da familiar, ainda de si dependent, ao menos espiritualmente. Escrevo para servir ao meu Estado, ao qual tanto bem e tanto mal o sr. fez, sempre querendo bem, na esperanca de que leve mais a serio as palavras de um critic sincere do que as considerou seu ex-correligionario Jader Barbalho e corn menos raiva do que seu quase-correligionario Almir Gabriel, para o bem de todos, inclusive dos desavindos e divergentes, como e precise numa democracia. Cor meu desejo de longa e lucida vida, segue para o Pla- nalto, desta quitanda em que pretendem transformar o Para, o abraqo de quem teima em levar a serio ura brincadeira de Mi- llr Fernandes: jornalismo e oposiq~o, o resto e armazem de secos & molhados. Desta fragil trincheira, ergo um brinde i sua saude e a sau- de da democracia, que autoriza e estimula mais esta ousadia. Vida longa, senador. INTERNACIONALIZACAO A Amazonia no mundo Pensei que fosse auto-explicativo o texto que escrevi para o livro Conhecimento efronteira: historia da ciincia na Amazdnia, or- ganizado por Priscila Faulharb e Peter Mann de Toledo para comemorar os 135 anos do Museu Goeldi e os 50 anos do CNPq, reproduzido na edigio anterior desta Agenda. A pergunta que o prefeito de Tucurui, Parsifal Pontes, me fez logo em seguida, atraves de sua coluna semanal no Diario do Para, indagando se eu era a favor da internacionalizagao da Amaz6nia, contraditava essa minha conviccio, serena ate entao. De pronto enviei uma carta a Parsifal para dizer-lhe que sou contra a internacionalizag~o da AmazAnia, se era uma frase curta e grossa o que ele queria. No entanto, se escondia nesse format categ6rico, freqiiente em palanques, mas nao muito re- comendavel a certo tipo de exercicio intellectual, a complexida- de de uma questao que nao interessa aos brasileiros formular e os amazonicos receiam enfrentar. Hi muito tempo venho tentando desenvolve-la contra o dominant maniquelsmo, pobre e falso, que justap6e sobe- rania national a interesse mundial pela Amazonia. Temos, desse capitulo crucial da nossa hist6ria, uma visao caolha. O Brasil continue a exercer total soberania sobre o vasto terri- t6rio amaz6nico. Essa condigio nao perturba, porem, a es- polia~io dos recursos da regiao, dos tangiveis aos invisiveis (ao menos aos olhos de hoje). A porta national ao capital international foi aberta des- bragadamente e nossas leis, mais do que permissivas, sao coo- nestadoras do estupro, a razao dessa esquizofrenia que nos as- sola: crescemos para sermos cada vez mais pobres, em fungao de relag6es de troca desiguais contra n6s, e claro, que nio do- minamos processes produtivos nem temos qualquer ingerencia sobre os circuits do mercado mundial. Algo que Euclides da Cunha percebeu na atividade do se- ringueiro, o trabalhador que, quanto mais trabalhava, mais se escravizava, por ser explorado pelo dono do barracio, ao mes- mo tempo comprador exclusive do produto da sua monocultu- ra, com prego vilmente rebaixado, e supridor dos seus bens de consume e produ io, vendidos a pregos escorchantes. Hoje, os produtos mudaram: ao inv6s de virem das ar- vores, que os despejavam do alto ate o solo ou os ofertavam aos que fossem coleta-los em seus galhos ou sangra-los em seu lenho, agora saem do utero fertil do subsolo, levemente melhorados (ferro, manganes, bauxita) ou ligeiramente be- neficiados (alumina, lingote de aluminio, celulose, ferro gusa, silicio metilico). O circuit de comercializagio, contudo, e basicamente o mesmo: vende-se por baixo e compra-se por NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZ)NICA 3 cima. A relaiao de compra se estabelece com poucos, que nos imp6em preqos e quantidades. O que proponho e ever radicalmente (de radicare: ir a raiz) as rela6es entire nag~o e regiao. E, ao mesmo tempo, estabelecer um novo status nas nossas rela6es internacio- nais. De tal maneira que possamos controlar essa relagao corn o instrument da soberania, do qual nao renunciamos, e a forga da inteligencia, sem o que vamos estar formal- mente controlando tudo e, na verdade, servindo de instru- mento para os interesses metropolitanos, seja os de Brasilia (insensivel a n6s) ou Sao Paulo (que nos saqueia selvage- mente, como sempre fez cor o sertao brasileiro), seja os de Nova York, T6quio ou Londres, que agora douram a pl- lula para consume externo. Para fazer a pergunta provocative ("estaria al uma de- fesa da internacionalizag~o da Amazonia?"), Parsifal pin- gou do meu artigo este trecho: "Uma avaliaqao rigorosa do balango entire construgo e destruiio, aferindo o grau de sustentabilidade (ou renovacao em face das materias pri- mas) das atividades econ6micas, devera resultar num ba- lango negative, numa relaqao de troca desfavoravel. Para a inversio desse resultado, a cooperag~o international se apre- senta quase inevitivel. O preco a pagar seria o da internaci- onalizagao do nosso maior recurso de future? Num racio- cinio simplista e esquemitico, sim. Numa consideracao mais rica, e uma hip6tese. E, como qualquer hip6tese cientifica, precisa ser testada, tendo-se o maior grau de control pos- sivel sobre as variaveis envolvidas" A frase, evidentemente, se encaixava num conjunto. Par- sifal extraiu-a do seu context e interrompeu o fluxo do ra- ciocinio do artigo. Ainda assim, a frase nao amparava sua d6vida a respeito da minha posig~o. Nela, digo que devemos intensificar a cooperagao international (em padrao e linha distintos do movimento do capital, corn possibilidade de se antepor a essa "logica", que nos import o destino de colonia, como aconteceu na Africa e na Asia), acompanhando-a como se faz numa hip6tese cientifica, "tendo-se o maior grau de control possivel sobre as variaveis envolvidas" Isso significa dizer que precisamos dispor de um pro- grama cientifico e tecnol6gico muito maior, mais profundo e mais atualizado do que o que o Brasil nos lega, como residue da C&T national, que nos reserve 2% da verba brasileira, s6 abrindo excegao quando se trata de um desvio geopolitico, de uma sofistica~ao parvenu, como o Sivam (Sistema de Vigi- lIncia da Amaz6nia). E uma autonomia que o atual sistema federativo, clausula petrea imposta a Constituinte de 1988 pelo (ironia) maranhense Jose Sarney, nao nos possibility. Muitos dos companheiros nessa viagem sem fim visivel (ou previsivel) no horizonte, ou, dizendo melhor, sem o des- tino a que imaginavamos chegar, desistiram pelo meio do ca- minho, entraram num niilismo imobilizador ou ainda se res- tringem a critical apenas, sem que a negagio do que rejeitam ilumine o campo para a formulaCgo de propostas praticas sobre o que consideram melhor para a Amaz6nia. E claro que esse exercicio de construg~o e limitado pelo pouco ou nenhum acesso aos instruments de poder, com os quais se pode p6r em pratica o que se pensa. O tragico, nos casos tio restritos de conquista do poder politico, e o aban- dono das teses em proveito do exercicio do mando, numa subversao etica de valores, colocando-se o meio acima do fim e chegando-se a esquecer os fins, como pode-se constatar na gestao petista de Belem. Intelectuais que somos (condigio a que as tres refei- q6es diarias e o uso professional da cabega, mais do que as demais parties do corpo, nos imp6e), devemos continuar a sonhar uma combinag~o do possivel cor o necessario, des- cartando as formulas prontas e as alternatives estabelecidas quando elas forem insatisfat6rias, arriscando ir mais fundo e radicalmente (i raiz) para mudar um destino que nossos bwa- nas insinuam quando nao proclamam a plenos pulm6es - ser manifesto, haver nascido cor as estrelas. Sonhar, por exemplo, em criar uma Secretaria de Re- cursos Naturals do Pari, com quatro institutes subordina- dos: Instituto de Agua, Instituto de Floresta, Instituto de Mineracio, Siderurgia e Metalurgia e Instituto de Energia, que podem ter organogramas subdivididos para abrigar uma Escola de Minas, um N6cleo de Estudos de Mercado ou um Centro de Formaaio de Mao-de-Obra Superior, que pudesse criar uma elite pensante para esses varios escaninhos opera- cionais, fertilizando a formag~o de massa critical e consolida- gao de uma cultural nesses quatro stores estrategicos do Es- tado, ao inv6s de simplesmente referendar decisoes prontas e acabadas, ou colher migalhas. Os mensageiros dessa nova frente iriam apregoar nos lugares do mundo, onde esta acumulado o conhecimento de ponta nessas Areas. Nao s6 o conhecimento acastelado nas academias, mas aquele que surge na atividade produti- va, particularmente naquele escaninho do mercado que so- brevive como a ostra no mar, em choque com estruturas de poder e os circuitos monopolistas, aproveitando o fair tra- de, que usa mecanismos menos agressivos e abre uma porta para o entendimento mais amplo. Em suma: se o mundo todo vem a Amaz6nia realizar seus pr6prios interesses, que nem sempre coincidem corn os da regiao, ou sobre os quais nao temos qualquer domi- nio, a Amazonia ira ao mundo atras do que lhe interessa, do que pode vir a livra-la da bitola colonial e da subordinagio end6gena num pais que nio s6 nao a compreende, mas, no ora veja, a ignora. Claro que essa relagio s6 nos sera positive se souber- mos o que realmente queremos e se o que queremos for, de fato, o melhor para n6s. Esse esforgo de entendimento e de aplicag~o do saber ter sido mlnimo, desprezivel diante do tamanho do desafio que se nos imp6e a busca do mundo. Mas e o desafio mais important dos nossos dias. Ou nio, caro amigo Parsifal? Tucuruf bem que merece ser mais do que um enclave, que deixa um bom trocado, tmas nio a regua e o compasso para usa-lo a fim de se livrar do destino ingrato que lhe aguarda no future, impedindo-a de prepara-lo. 4 NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA HIDRELETRICA Em cronograma rational A Eletronorte reduziu a um terco da previsao original o tamanho do reservat6rio da hidreletrica de Belo Monte. Ao inves de alagar 1.200 quil6metros quadrados, a barrage pas- saria a afogar apenas 400 km2, a partir da calha do rio Xingu. Para uma usina projetada com capacidade nominal de produ- zir 11 mil megawatts, seria uma facanha. Afinal, a vizinha Tucurui, para ter uma potencia nominal de 8,4 mil MW, pre- cisou former um lago cor 2.850 km2 no Tocantins. Dos 2,9 MW por km2 em Tucurui, a relacao em Belo Monte chegaria a nove vezes mais, ou 27,5 MW/km2. Mais energia cor me- nos terra afogada, portanto. Quando anunciou o novo perfil do projeto para a ter- ceira maior hidreletrica do planet, a Eletronorte parecia certa de que todas as resistencias cessariam e os critics se calariam. A barragem nao provocaria mais o desapare- cimento da grande volta do rio Xingu, um ambiente com- plexo, nem afetaria diretamente as comunidades indige- nas. A agua que iria movimentar as turbines de energia seria desviada atraves de canais artificiais que aproveitari- am drenagens naturals do curso principal do Xingu e o desnivel de 90 metros. A barragem poderia ser construida sem problema e as miquinas seriam montadas na usina de forca sem desvio do rio. Mas se houve melhorias substanciais em relaiao ao pri- meiro projeto previsto para esse trecho do baixo Xingu, que levaria a uma agressao violent a natureza e aos seus mais antigos habitantes, a Eletronorte se aqodou quando montou um cronograma para o inicio da execuqio da obra a partir da premissa clara, ainda que nao declarada de uma passiva aceitaqao de todas as instancias da sociedade is suas ideias. Essa presunqao se transformou em convicaio plena quando um alegado desequilibrio hidrico criou um estado de alarme em torno de um possivel colapso no abasteci- mento de energia ao pais. Ninguem mais se atreveria a criar problems para esse mana energetico sair das belas aguas do Xingu e iluminar lares e nucleos de producao brasileiros cada vez mais carentes. Enquanto acelerava os estudos de viabilidade tecnica e eco- nomica da obra para apresenta-los a Aneel (a agencia reguladora do setor elitrico) e em seguida abrir licitagio para atrair s6cios privados, que poderiam entrar corn 70% do investimento neces- sirio, a Eletronorte atacou cor displicencia e alguma dose de leviandade a segunda frente, tao important quanto o fechamento do portfolio financeiro: a ecol6gica. Sem abrir licitacao public, contratou diretamente a Fa- desp (a fundaiao, da Universidade Federal do Pari) para ela- borar o Eia-Rima, estudos e relat6rios de impact ambiental, assinando cor ela um contrato no valor de 3,8 milh6es de re- ais. Nem o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovaveis) e nem o Iphan (Instituto do Patrim6nio Hist6rico e Artistico Nacional) foram consul- tados, ou chamados a acompanhar o trabalho da Fadesp. O Congress Nacional foi ignorado. Assim, ao contrario do que havia acontecido em rela- cao a Tucurui, a Eletronorte abriu-se aos debates em todos os niveis, atendendo os convites que Ihe eram feitos ou indo atras de audit6rios para apresentar seu show. Mas ao mesmo tempo ia atropelando as instancias legais no caminho da vi- abilizaqio da obra. Essa contradiq~o sugeria que a postura democratic, be- neficiando-se do despreparo do puiblico, era uma ferramenta de relaq6es publicas para induzir ou abreviar a aprovaq~o do projeto, contornando eventuais obsticulos antes que eles pu- dessem se apresentar. Se essa estrategia foi adotada consciente e deliberadamen- te, ela comegou a ruir quando o Ministerio Publico Federal props uma aq~o civil para anular o Eia-Rima que a Fadesp estava conduzindo. Eletronorte e MP passaram a travar uma dispute na justiqa federal que parece ter chegado virtualmente ao fim cor a confirmaq~o, no Tribunal Regional Federal da a Regiao, em Brasilia, da decisao de primeiro grau, que acolheu a pretensao da Procuradoria da Rep6blica no Pari. Embora a Eletronorte haja combatido a iniciativa do MP corn longos arrazoados, os arguments dos procuradores, aco- lhidos pelo TRF, parecem evidentes demais para resistirem i contradita da empresa. A Fadesp, responsivel por dois Eias-Ri- mas anteriores, nenhum dos quais foi aprovado, por absolute inconsistencia tecnica, nao tem a not6ria capacidade e a credibi- lidade necessaria para ser contratada cor dispense de concor- rencia p6blica, como fez a Eletronorte. E evidence a competencia legal do Ibama para o licencia- mento de uma obra de grande porte em um rio que banha dois Estados federativos, ato que nao se cinge ao moment final, mas result de um process em ciclo complete. A autorizacio do poder legislative federal e condi~io nio s6 para o leilao da obra, mas tambem para a realiza~io dos estudos previous de impact ambiental. Todos esses procedimentos tem como base comum o re- conhecimento de que o poder puiblico tem que estar na origem de todas as iniciativas para uma intervenqao desse porte num recurso natural cor a dimensao do rio Xingu, e que, quando possivel, e sempre que desejivel, deve-se prevenir os problems ao inves de remedii-los. Talvez por se considerar a detentora da melhor experi- encia nesse tipo de obra e ter promovido mudancas internal no projeto que melhoraram o seu perfil, tornando-o aparen- temente mais pr6ximo dos ideas da sociedade para esse tipo NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 5 de empreendimento, a Eletronorte pediu a opiniao public que, acreditando piamente na sua palavra, Ihe desse um cre- dito de confianpa. Na verdade, pediu mais do que isso: re- quisitou um cheque assinado em branco. O Ministerio Publi- co, atualmente a instituicio mais sensivel is cobrancas do ci- dadao, negou-lhe essa procuracao. O Eia-Rima vai ter que voltar ao ponto de partida, de- pois de nele terem sido aplicados R$ 3,5 milh6es dos R$ 3,8 milh6es previstos. Ou melhor: retornara a antes do ponto de partida estabelecido pela Eletronorte, que dera a largada sem considerar a necessidade de fazer a concorrencia public. En- quanto isso, os estudos economicos e de engenharia estao sendo arrematados para obter o sinete official e tornar possi- vel colocar a usina em funcionamento ji em 2008. A empresa diz que, se sofrer retardamento, o licencia- mento ambiental vai prejudicar a construgo da hidreletrica, atrasando o seu cronograma. Mas se for assim, o preqo nao parece ser demasiado. Uma vez desfeito o clima um tanto histerico criado pela ameaca do "apagao", pode-se raciocinar sobre a retomada de um planejamento energ6tico de long prazo sem os vicious e as limita56es da tradicao que tornou inevitiveis os grandes aproveitamentos hidreletricos, contro- lados com mao firme pelos "barrageiros". Pode-se pensar melhor a respeito deles, examiner outras alternatives e evitar que acabemos caindo de novo na monocultura hidreletrica. Por caminhos tortos, resistindo a seducao da reta, podemos chegar mais long. E melhor. IMPRENSA NY Times ve a hidreletrica do Xingu Em apenas um mes, Larry Rother, correspondent do New York Times no Brasil, conseguiu afafanha de colocar tres reportagens nas paiginas da sua publicafao, a mais influence do mundo, duas delas sobre o Xingu. Depois de ter reproduzido na edifao anterior a matbria de Rother sobre o bispo emerito do Tapajds, transcrevo agora seu relato sobre o projeto da hidreletrica de Belo Monte, um modo estrangeiro de verjuma questaojd exaustivamente tratada aqui, mas ainda long de uma abordagem complete. 0 texto dojornalista americano (aberto cor o titulo "Crise energitica no Brasil levanta questao da explorafdo da Amaznia"): A crise energ6tica no Brasil, que levou o governor a impor um sistema de racionamento obrigat6rio aos brasi- leiros, estimula agora a criagAo de novas fontes de ener- gia. Mas os novos projetos nio agradam a populagao das areas exploradas, especialmente da Amaz6nia, onde deve ser construida uma nova barrage A mais de tres mil quil6metros ao sul, nas enormes cida- Sdes do Rio de Janeiro e Sao Paulo, a energia esti sendo raciona- lizada e os apag6es sao uma grande ameaca. Mas os projetistas do governor vAem uma solucio no coracio da bacia amaz6nica, onde eles esperam utilizar sua cadeia de rios como uma nova fonte de energia. Como pioneiro, o Brasil esta acelerando os pianos de cons- I truir a terceira maior barrage do mundo, em uma curva do rio Xingu; se construida, a barragem pode aumentar a capacidade hidreletrica do pals em 15%. Ate agora, a unica coisa que o ambicioso program do go- verno conseguiu gerar e uma forte oposicao entire as pessoas que Svivem na regiao. O governor brasileiro esta a ponto de cometer outro crime contra a Amaz6nia, argumentaram grupos religiosos e ambientais locais no SOS Xingu, um manifesto de resistencia. Na reacao a crise energetica, dizem eles, o governor esta investin- do em mega-projetos cuja prioridade sao os rios da Amazonia, porque os rios de outras regi6es estao em estado de colapso. Os opositores do projeto da barragem insisted que ele e economicamente ineficiente e que pode devastar florestas, rios e a vida-selvagem, erradicar indios e moradores, e impedir a na- | vegagao. Pelo contrario, dizem os projetistas do governor, nao s6 as enormes fontes de energia da regiao podem ser utilizadas cor 6 NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA ^0r 0 seguranqa, como tambem a necessidade de fazer isso e enorme. Nos ultimos cinco anos, o consume de energia nessa na- cao de 170 milh6es de habitantes cresceu 5,3% anualmente, ex- cedendo muito o crescimento do fornecimento. Neste ano, uma grave seca reduziu os niveis da agua nos reservatorios usados para gerar eletricidade, e o racionamento obrigat6rio foi impos- to em junho. Ele requeria que os consumidores individuals e comerciais de toda a nacio reduzissem seu consurno em somas variaveis, ou encarassem multas ou uma suspensao do servi;o; na maior parte do pals a reduiao devia ser de 20%. Nem todo o potential da bacia amaz6nica pode ou deve ser desenvolvido, disse Paulo Cesar Magalhies Domingues, director de planejamento de energia da Eletronorte, companhia de energia estadual federala/ que esta supervisionando o projeto da barra- gem, que e conhecido como Complexo Hidreletrico Belo Monte. Mas ele afirmou que desde que o governor decidiu que pre- cisava de uma nova capacidade de gerar energia, Belo Monte se tornou uma parte indispensavel desse empenho. Tudo relacionado ao projeto esta em grande escala, come- cando cor uma producao annual de 11 mil megawatts. Alem dis- so, para minimizar a area a ser inundada, dois canals de cerca de 400 metros de largura e 11 quilometros de extensao serio cons- truidos para conectar duas sec6es do rio Xingu, no que adminis- tradores da companhia descrevem como talvez o maior projeto de escavaqao desde o Canal do Panamri. Belo Monte tem um orcamento de US$ 6,6 bilh6es e esta marcado para comeqar a produzir energia em 2008. Desse total, US$ 3,9 bilh6es sao para a construcao do pr6- prio complex e US$ 2,7 bilh6es slo para as linhas de transmis- sao as cidades industrials no sul, que serao as maiores consumi- doras do novo suprimento. Os critics do projeto afirmam que essas projeqoes sao otimistas demais e apontam o projeto Tucurui, tambem na Ama- z6nia, a 280 quil6metros do rio Tocantins. Cor um orcamento de US$ 4,7 bilh6es quando a construiao comerou no final da d6cada de 70, o projeto custa agora mais de US$ 10 bilh6es, de acordo cor estimativas independents. Alem disso, os opositores acreditam que e um artificio a declaraq o do governor de que Belo Monte vai gerar 11 mil mega- watts. Na verdade, sustentam eles, e confirmam os administrado- res da Eletronorte, a produiao da estaqio sera muito reduzida durante os cinco meses da temporada de seca da Amaz6nia, dan- do a estacao uma produiao annual de menos de cinco mil mega- watts e aumentando as duvidas sobre sua viabilidade economic. Em contrast aos gigantescos projetos anteriores no Bra- sil, como Itaipu, cor 12,6 mil megawatts, a maior usina de ener- gia hidreletrica do mundo, construida cor o Paraguai, e Tucu- rui, o governor espera manter os custos baixos trazendo investi- dores privados como s6cios majoritarios. Mas isso aumentou a d6vida sobre a disposiiao do governor de manter as promessas que esta fazendo e sua capacidade de controlar as atividades da companhia administradora. No norte, e mais complicado atrair capital para esse tipo de coisa, afirmou o president Fernando Henrique Cardoso em uma recent entrevista. "Mas queremos atrair investimentos para novas iniciativas como Belo Monte, que pode ser outra Itaipu e que estamos determinados a levar em frente" Os opositores do projeto tambem dizem que o Brasil, que depend das barragens para gerar mais de 90% de sua eletricida- de, precisa diversificar suas fontes de energia para outras, como a solar, a e6lica e a da biomassa. Mas administradores da Eletro- norte dizem que a energia hidreletrica e muito mais economic do que essas e mais segura que a energia nuclear, que o Brasil tambem esta desenvolvendo. Os administradores da companhia contam que fizeram um esforco de boa fe para minimizar a interrupgio no delicado ambiente da Amazonia e para resolver as preocupac6es locais, redesenhando, por exemplo, o projeto, por isso a area a ser inun- dada diminuiu mais que dois tergos, para 400 quilometros qua- drados. Eles tambbm diminuiram as reclamar6es locais sobre os danos ambientais que a construcao pode causar. A verdade e que grande parte da area que vai ser inundada ji foi desmatada, informou Silvia Goncalves Ramos, soci6loga e economist que esta como responsavel pela relacao cor a co- munidade durante o projeto. De fato, isso e verdade, dizem os critics. Eles temem que Belo Monte piore a devasta io. O novo empreendimento, di- zem eles, trara um influxo de investimentos comerciais do sul e aumentara a tensao social, como ocorreu do Tucurul. Belo Monte s6 vai conseguir acelerar o exodo de pequenos pecuaristas e desfazer todo um process no qual os interesses dos grandes fazendeiros entrariam, afirmou Bruno Kempner, coorde- nador do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazonica e do Xingu, um grupo de direitos dos produtores. Eles ja marcaram as parties de terra de um total de 2,5 milh6es de acres [pouco mais de um milhao de hectares] ao redor da area da barrage, alguns dos quais ocupados por moradores que ji vivem la por muitos anos. Tambem se fala em construir um parque industrial para atrair fibricas para a area, que 6 long da estrada principal e de outras vias de transport. O povo local conta que teme que as unicas companhias que se interessem sejam grandes usuarias de energia, como as produtoras de aluminio. Se esse projeto s6 vai produzir energia, entao n~o e bom para n6s, declarou Vilmar Soares, president da Associacao Comercial, Industrial e Agricola local. Deve haver mais alguma utilidade, como a gerag~o de novos empregos, o que melhora a qualidade de vida. Ele espera uma injeg~o de bons salirios e novos empregos. Apesar dessas objec6es, o governor nao parece determinado a se movimentar. O Conselho Nacional de Politica Energetica, que e responsavel por tratar da crise de energia, lanqou um decre- to no mes passado declarando Belo Monte de interesse estrategi- co do Brasil; e ordenou i Eletronorte para completar todos os estudos de impact e viabilidade ate meados de dezembro. Esse projeto realmente mostra o que o resto do Brasil quer da Amaz6nia na realidade, declarou Lucio Flavio Pinto, editor da Agenda Amaz6nica, uma newsletter independent que cobre a regiao. E um model colonial no qual nos fornecemos energia bruta e todos outros tipos de materia-prima para o sul, mas nao temos nenhum outro beneficio de desenvolvimento e continua- mos pobres e retr6grados. NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 7 FOTOGRAFIA Hist6ria Uma cena hist6rica, registra- da no dia 2 de fevereiro de 1959: o governador Magalhaes Barata (que viria a morrer tres meses depois, de cancer) encon- tra o prefeito de Belem, Lopo de Castro, durante o lanaamen- to da pedra fundamental do Hotel Grao Para (atualmente fechado, depois de ter sido o principal hotel de Belem por muitos anos). Inimigos radicals, os dois politicos haviam tido o primeiro contato cordial em virios anos na vespera, quando foram ao aeroporto de Val-de- Cans recepcionar o president Juscelino Kubitscheck, em visi- ta ao Para. A possibilidade de Ba- rata e Lopo se cumprimentarem era completamente descartada ate que o prefeito, um dos mais ativos anti-baratistas, num peri- odo de intensas paix6es politi- cas, acompanhou os funerals do senador Alvaro Adolfo da Silvei- ra, correligionario de Barata e um dos seus maiores amigos. Gesto de cortesia de um lado, re- ciprocidade do outro. Aparadas ~ECIC~RICCIIJ~ '' ~:":.:~ L "L~L~I~ ,, i w C I~siJ~c Y; .. r~ r 'i*!'~*"j~K' ~ ..i *J: f. -e rr. ' ~Or~c" i as arestas, os dois conversaram na solenidade que marcou o inicio da construcao do hotel, na avenida Presidente Vargas, sob o olhar atento do entao co- mandante military da Amaz6- nia, general Humberto de Alencar Castelo Branco, que, como e sabido, cinco anos de- pois assumiria a presidencia da Repuiblica com a deposicao do titular, Jolo Goulart, atraves de um golpe de estado. Via Um flagrante de 40 anos atris da entao avenida Tito Fran- co (hoje, Almirante Barroso), mais conhecida como "a pista da morte" em fungao dos constantes acidentes de transit, que suas pistas de alta velocidade estimulavam. O trecho e pr6xi- mo do cruzamento corn a travessa Humaita (uma "travessa" de padrao Ant6nio Lemos, o intendente municipal que tragou o bairro do Marco com vias largas), onde estava (e ainda esti) um post de gasoline da Texaco. O canteiro central (eliminado pelo PT de Edmilson Rodrigues), reservado ao ajardinamento, mas ocupado mesmo por capim. Ainda cor muita arborizagio do lado direito no sentido de said da cidade. Postes de trans- missao de energia sem luminarias. Um onibus tipico da 6poca: chassis produzidos no sul, aos quais eram adicionadas carrocerias de madeira e metal fabricadas aqui mesmo. A Tito Franco ainda era uma "estrada". 8 NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA Asserbl6ia Foi tao concorrido , Baile das ' Flores da Assembleia Paraense de . 1954 que,, * pela primeira . vez, houve I - fila para a.. compra das , mesas para a t festa. Mal abriu a tesouraria e comerou a dispute pelos melhores lugares, mas de uma forma adequada: os associados do (entao) aristocratico clube ocuparam as cadeiras de vime do salio para esperar sua vez, sem atropelos. 0 salio principal da AP estava sendo alargado para abrigar mais gene. Naquele ano, o traditional baile contaria cor a participag~o de "destacados elements artisticos da Radio Nacional, do Rio de Janeiro". Teatro Em 1961 o telhado do Teatro da Paz foi completamente reformado, exatamente 40 anos antes da ampla reform que esta sendo realizada no moment. Para dar a aprovacio official a obra, o governador e m exerclcii: dj: Est.do, o advogi,.oad Ncv. ton Miranda., subiu ao telhadh?, lev ndo c.;ns.-;o s d, Jeputados Abel Figueiredo, (pai de Matrilda Nunc, . mulher do e,-governad,:r Alac:id Nunesi, Milton Dantas e ' SAtu.ilpa Fcrnjndes, ciiLeroneados pelo engeonheiro S\ aldirsjn Pena. ex.ecuLrtr Jas ?bra c 0 S( i jg "govcrnador fetrio, Aurelio d o ( armo ,aia a. Co. n, de habio. .- < ^'* ***^ ' -.c.. . .,i < ' t r -< - * .. ." '/ > 2% 1. "t'4>4 Mem6ria- do Cotidiano Visita Lee Dickens, "conhecida e afamada atriz da televisao nos Estados Unidos", com participacio em um "popular programa, foi trazida a Be- lem em setembro de 1952 pela Aerovias Brasil, interes- sada em divulgar a capital dos paraenses na terra do Tio Sam. Na cidade, Dickens fil- mou e fotografou as "gran- dezas e miserias" de Belem, com seus "edificios suntuo- sos" na avenida 15 de Agos- to (atual Presidente Vargas), e a "vida agreste" na perife- ria, "com canoas, florestas, etc.". No ultimo dia da excur- sao, foi homenageada com um coquetel no Amazon Bar, do Grande Hotel. O que mostrou nos EUA, ninguem ficou sabendo. Remedios Uma rede de tres farmaci- as (naJoao Alfredo, 28 de Se- tembro e Senador Lemos) destacava em anuncio de 1955 seus produtos, prova- velmente os de maior venda: Capivarol, Dinidro Estrepto- micina, Vinho Reconstituin- te, Agua Inglesa, Xarope de Urup6 do Ceara, Saude da Mulher, Pondicilina (o mais caro) e Pilula de Matos. A hi- pocondria era outra. Journal Em outubro de 1952 come- pou a circular o Flash, sema- nirio de Ivan Maranhao, ir- mao (ji falecido) do escritor Haroldo Maranhao, ambos netos de Paulo Maranhao, o dono da Folba do Norte, o prin- cipal journal do Para durante pelo menos cinco decadas. O Flash tinha poucos pontos de venda no centro de Belem, mas estrategicos: Caf6 Alba- no, Livraria Vit6ria, Livraria Contemporanea, Livraria da Moda, Agencia Martins, Agencia Cultura, Salao Chic, Domenico e Caf6 Santos, que formavam o roteiro da eli- te da cidade. Jornaleiros le- vavam o journal apenas ao bairro do Reduto. Literature Em 1952 os premios de li- teratura da Academia Paraen- se de Letras foram concedidos a Mecenas Rocha, pelo ro- mance Pax;, a Max Martins, pelo livro de poesia 0 Estra- nho; e a Mirio Couto, pela pega teatral Ber long de Deus.... Cau- by Cruz recebeu mengao espe- cial por sua coletanea de poe- mas A palavra esquecida. A en- trega dos premios, incluindo quatro mil cruzeiros em di- nheiro, foi no ano seguinte, quando a APL completou 53 anos de fundagio, em soleni- dade no Teatro da Paz. Cinema Nesse mesmo mes e ano o Cine Palacio apresentou a avant-premirre do "colossal" filme Ben-Hur, o campe.o de Oscars de Cecil B. de Mille, patrocinada pelo Lions Clu- be de Belem. Gracas as "per- feitas instalag6es'" do cinema criado por Judah Levy, a Me- tro Goldwyn Mayer permiti- ra que fosse exibida em Be- lkm a "c6pia magnetic" da pelicula, "maravilha de som" Trovadores Em agosto de 195 a Radio Clu- be do Para, a PRC-5. estreou em seu auditorio um novo program na se- Squencia "Grandes EspetaiculosSM". Era o "Cantico dos Trovadores", -. tendo a frente "Os Trovadores", um grupo de declamaj~3 de po- esia orientado por Clau- dio Barradas, tambem um dos seus initeran- tes, juntamene iorn SMiguel Cohen, Lin- dolfo Pastana e Adilson Santos. Ino'rando na arte da declamaiao, eles fizeram uma dramarizaq o a quatro vozes, a Smaneira dos -, SJograis". o primeiro con- iunto do gc~ne- ,'; ro no pais, que . commeara em , Sa. Paulo e nessa ep:ca excursion\ a pela Europa. "Os Tro- -vadores" eram patrocinados pela Amaznia Turismo, "a pioneira do turismo na regiio". 0 priblico aprovou o p desempenho do quarter a .-. : .: &t '.'::;.','L '..7'.. : : ". que havia sido apresentada ate entao apenas no Rio de Janeiro e Sao Paulo.A direqio da casa de espetaculos avisa- va aos "portadores de perma- nentes e cart6es de acesso" que deviam contatar anteci- padamente com a gerencia, "ji que as lotaq6es serao nu- meradas e nao seri permiti- da a permanencia em pe, no salio de projeq~o". Ben-Hur rendeu enormes bilheterias por semanas. Professor Em junho de 1961 os tercei- ranistas do curso classico do Colegio Estadual Paes de Car- valho homenagearam o profes- sor Francisco Paulo do Nasci- mento Mendes, que estava dei- xando de lecionar no CEPC. A solenidade foi realizada na sede do Institute de Educagao do Para, o IEP, na sala onde fun- cionava o Grupo de Estudos Paladino, curso de vestibular 10 NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA .. .. . .'..s> organizado exatamente pelos terceiranistas. Falaram na oca- siao os alunos Roberto Cortez, Zuleide Silva, Tarcisio Pereira e Luiz Euclides Farias. O cur- so classico preparava os alunos para humanidades. O cientifi- co, para exatas e naturals. Fran- cisco Mendes, ja falecido, foi um dos mais importantes pro- fessores que o Para ja teve. Miisica Lelio e seu conjunto come- moraram, em 1963, seu se- gundo aniversario com mais uma movimentada festa na sede do Bancrevea, que fun- cionava nos funds do Gran- de Hotel (hoje, Belem Hil- ton). A festa teria dois con- juntos musicals e nela seria sorteado um LP, "gravado re- centemente, que sera o pri- meiro entregue em Belem ao felizardo". Lelio concorria com Alberto Mota, a frente das duas mais ativas bandas da cidade. Que nao eram ban- das: eram orquestras. Figurinhas Em abril de 1963 chegava is (ainda poucas) bancas de jor- nais e revistas de Belem e as livrarias Martins e Vit6ria o l- bum de figurinhas de Rin-Tin- Tin, "o cachorro mais famoso do mundo", contando "sua vida e suas aventuras" num re- gimento military americano, ao lado de um menino que era membro honorario da corpo- racio. Langamento dos Livros de Ouro daJuventude, aprovei- tando-se da serie de televisao. O album custava 20 cruzeiros e cada envelope de figurinhas, Senado A terrasse do ja demolido Grande Hotel abrigou um dos maiores e mais antigos "senadinhos" de Belem, que la se reunia para jantares de confraternizacao. O de comego de ano, em janeiro de 1966, porem, foi no restaurant do aeroporto de Val-de-Cans, numa longa mesa decorada corn flores em castigais. No cardapio, o previsivel file de peixe ao molho de camarao e file de care cor batatas francesas, tendo o pudim como sobremesa, tudo acompanhado de vinho e champanhe. O brinde foi puxado pelo advogado Joao Baptista Klautau de Araujo, seguindo-se uma homenagem ao president, Adriano Guimar5es, e breves palavras - como seria de desejar do entao universitario e corretor Eliezer Athias. Tambem estiveram nesse banquet os comerciantes Oswaldo Gurjao de Carvalho, Alirio Serruya e Armando Favacho Pereira, o industrial Ronaldo Romariz, o fazendeiro Oscar Bentes, o vereador Aldocir Cordeiro, os advogados Almerio Serruya e Geraldo Dantas, os universitarios Sergio Mattos e Sergio Couto, os secundaristas Jose Abraao Benchimol, Jose Alberto Ohana e Carlos Alberto Ohana, mais os funcionarios Francisco de Assis Farias e Rubens Oliveira. Todos "democraticamente unidos pela amizade e o gosto pela palestra inteligente". Como tem que ser com senadores honorarios. "* - \ z- \ Cirio Durante a "quadra nazare- na" de 1964, 13 pessoas (do Para e do Maranhao) vende- ram bales no Largo de Naza- re, utilizando 28 cilindros de gis. Gastaram 228 latas de soda caustica e 342 quilos de aluminio, enchendo 54.864 ba- lIes, comercializados entire os freqiientadores do animado arraial do Cirio. Nenhum aci- dente foi registrado, segundo o relat6rio do responsive pela fiscalizagao da atividade, Amil- car Cabral, perito toxicologis- ta da policia. Em 10 anos nes- sa missao, ele registrava taxa zero de acidente. Promoqao Jair Rodrigues e Dalva de Oliveira animaram a festa or- ganizada pelo colunista social Pierre Beltrand (Ubiratan de Aguiar) para proclamar Iza Neyde Moreira como a Miss Belem 1964 e apresentar as new faces daquele ano. Na Assem- bleia Paraense, cor traje pas- seio complete. NOVEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA 11 PUBLICIDADE Guaranas Alguma cidade do mesmo porte no Brasil teve mais marcas de refrigerantes do que Belem? Como a pergunta nunca foi feita, a resposta jamais foi dada. Mas essa e uma quest3o na qual .ale a pena pensar. Para estimular investiga- dores, publica-se nesta pagina antuncios de algumas dessas marcas, em circulaqao entre a segunda metade da dcada de 50 e os anos 60. De algumas quase nao ha mais registry. como os tris produtos (guarana, kola e, naturalmente, a "rainha das aguardentes" de cana, preferida "do Oiapoque ao Chui") da Fibrica Igarape-Miri, de Pereira & Araujo, que funcionava na Travessa Sao Francisco, bem no centro de Belem. Tao antigo e ainda competindo no mercado e o Guarana Soberano, que continue a ser produzido na mesma fEbrica, na rua Siqueira Mendes, a primeira aberta em Belem. Mereceu verso, como este, meio de pe quebrado: "Tua formula e o magico segre- do,' que refrigera, da satide, anima'." e quem te bebe ri\ e forte e ledo". Ja o sucessr de p6blico fez o Guarasuco deixar de ser estritamente refrigerate para ser uma expressao de giria. Algue-m era chamado de Guarasuco porque estava em um rei que 6 SOBERANO Ar wn nnr air a t.awi gn *nir d, b* rrj ..)*i aItal Ijr.tl I.r.r. Wt r .i ll i ..-V | taI anVnu*J.arr.* i JiaUl r r.do fkh-.., GL'.'LANA 5uu&JI LAS Vl0 or Beu L icap. pwn. nlj, 0. M-rtau k innk grewa "r. Dl A e.' l| o 4 rer ^ rf ta (^. pMr rar fa a ar or*A *lei adani Tiu Samasn u o mgnm aiflc.. Cq .rda'.r di ...r, ma unr. -nu w 1 .w I ruj iTan, r.i W inb rinn'. Aqr .Ji iin. Lan 4 Flo-. 0f 5ULR.ALV PuFA''NA IROJE Sdiad e t. .* . Y campeonato colegial GUARASUCO GenW Bitecoum# X Augusto eira Escola Induslri X Alrmo Chews TVee.dio Marjoara 1^--hJ ln nn(*- cAA-4 .0^^j 1'"" UU drrs av l a.i a ty todas. Para reforcar a image, o refrigeran- te patrocinava um campeonato colegial atraves da radio e tele- visao (a Marajoara ain- da era a 'inica). E tinha tambem o Sacy, que, talvez por se apresen- tar como guarana mesmo, se julgava "do outro mundo". Um brinde aos nossos muitos guara- nis, neste clima que ca- ma por um, desde ime- noriais eras indigenas. Agenda Axnaz6nica Travessa Benjamin Constant, 845/203 Bel6m Par6/66.053 040 e-mail: jornal@amazon.com.br- Fone: 241 7625 Editorar6o/ilustrar6es: LuizAFPinto Sacy 6 yWp a .m . I. 3n ". .-., .-- : 1 'It :. *: r v Sacu Yd aouatr murndo! iaM MMIn EIL Ai-wrr r --., -a- Il~;pra~r~ar~Faa~.~a3~;~ |
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