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araz onica ANO III NO 26 OUTUBRO DE 2001 R$ 3,00 L u c i o F li v i o Pinto ALBRAS Fdbrica pode sair do Pard por problema de energia? 4 -* --1 -' -. -. ',- , Opresidente da Companhia Vale do Rio Doce, Roger Ag- nelli, fez, na semana passada, uma declaragio que devia provocar um grande impact, mas nao chegou a ecoar dos espantados gabinetes, onde foi recebida cor muda perple- xidade, para as ruas e a opiniao public. Agnelli disse que se o suprimento de energia a Albras nao for assegurado em volume e tarifa compativeis cor as necessidades da empresa, a CVRD, sua principal acionista, podera transferi-la para a Africa ou a Amer- rica Central, onde contaria cor energia abundante e barata. A Albras, instalada a 40 quil6metros de Belem, represen- ta um investimento associado nipo-brasileiro de 1,4 bilhao de d6lares. Sozinha, e responsavel por 1,5% do consume de ener- gia de todo o Brasil porque produz lingote de aluminio, o pro- duto industrial mais eletrointensivo que ha. I mais energia do que a que atende as necessidades da populaiao da capital para- ense, a 10a maior do pals, corn 1,2 milhao de habitantes. A Albras 6 a 130a empresa brasileira em faturamento e a segunda da Amaz6nia, cor 540 milh6es de d6lares de receita no ano passado, quase integralmente decorrente de exportaqao do metal, sobretudo para o Japao. A empresa atende 15% das ne- cessidades japonesas de aluminio. O Japao e o maior importa- dor de aluminio primario do mundo. A Albras pretendia se tornar neste ano a maior empresa aluminifera do continent, elevando sua producao, de 370 mil toneladas anuais (do tamanho da Alumar, a empresa que a Al- coa, a Shell e a Billiton instalaram em Sao Luis do Maranhao na mesma epoca, metade da decada de 80) para 410 mil toneladas. Para poder mandar-lhe mais energia, a Eletronorte decidiu ele- var em mais dois metros o nivel maximo operacional do reser- vat6rio da hidreletrica de Tucurui, acrescentando 110 megawat- ts a potencia nominal da usina, de 4,2 milh6es de MW. Albras e Alumar ficam com um terco da energia fire de Tucurui, a mai- or hidrel6trica inteiramente national (s6 superada por Itaipu, que 6 binacional, brasileiro-paraguaia). Ter um client desse porte, corn um elevadissimo consu- mo de energia constant, 6 o sonho de toda empresa energetica. O problema e que a Albras foi beneficiada pela menor tarifa de energia praticada no pais, inferior a da pr6pria Alumar, tambem incentivada pelo governor federal porter se estabelecido na area do Program Grande Carajas. A tarifa, inferior ao custo de gera- WL. c rr, *^ ......... iiimi-.- _.._ifciim._, -_ ,. = .= .*..., ,. .. _. & .,l- ?~ f DAN A pc.= & It. Sio da energia fornecida, representara, ao final do contrato, de 20 anos, um subsidio de valor equivalent ao de uma fabrica nova igual a da Albras. A Eletronorte s6 nao quebrou porque o governor federal assumiu esse custo. Aplicado is duas metalurgi- cas, devera ultrapassar US$ 2 bilh6es. Em 2004 o contrato chegara ao fim. A inc6gnita de future result da necessidade de conciliar duas variaveis: a tarifa anteri- or nao podera ser mantida, sob pena de continuar abrindo um rombo considerivel nas contas do setor energetico, mas a Al- bras e a Alumar tambem- exigem uma energia barata para manter sua capacidade de competir no mercado international. O jogo de pressio nos bastidores ter sido pesado por causa do tamanho dos valores e dos significados envolvidos nessa defi- niiao. A Albras vem estudando a alternative de recorrer a uma termeletrica a gis, importado, caso a tarifa de Tucurui suba alem do que esti disposta a aceitar. Outra hip6tese seria participar de um cons6rcio, junto com a Alumar e a Camargo Correa, para cons- truir sua pr6pria hidreletrica, ou entao participar da concorrencia para a compra de Tucurui, quando e se a usina foi privatizada. Ate a semana passada, porem, a possibilidade de a fabrica fechar suas portas e se mudar para o continent africano ou a America Central, como admitiu o president da CVRD, nao ha- via sido cogitada, nem nos moments de imaginaq~o mais fe- bril. Por isso, nenhum executive, tecnico ou pesquisador sabia responder se essa hip6tese ter mesmo viabilidade econ6mica, simplesmente por ela jamais ter sido suscitada. Raciocinando em tese, algumas fontes consultadas duvi- daram que a Vale, detentora de 51% do capital da Albras, possa levar a serio esse prop6sito. "Esse e o tipo da situaq o embara- qosa. Somos levados a raciocinar a partir de um absurdo", rea- giu uma das fontes do setor, preferindo, por enquanto, nao se identificar. "Vamos esperar mais alguns dias para ver se a afir- mativa ter alguma conseqiiencia", ponderou. O pressuposto da fonte e de que Agnelli, um executive oriundo do setor financeiro, tendo deixado o Bradesco para as- sumir o comando da privatizada CVRD, haja blefado ou coloca- do para fora a irritaqio da empresa. Exatamente quando con- clula o investimento de expansao, a Albras foi obrigada a redu- zir em 20% a produiao corrente, de 370 mil toneladas, que ha- via alcangado no ano passado, graqas a melhorias no process produtivo. Esse complicador adveio exatamente no period de esgotamento do contrato, que chegara ao fim em 2004. Mesmo assim, esta em andamento a obra de duplicaiao da linha de transmissao da energia de Tucurui para a Albras, corn 300 quilometros de extensao e custo de US$ 160 milh6es, a ser concluida na metade do pr6ximo ano. Durante as duas d6cadas de opera~io commercial, a Albras prometeu e postergou assumir essa obra, sem a qual a fibrica esta exposta a riscos de acidente como o ocorrido em 1991, quando um curto-circuito em uma das tor- res provocou a maior paralisacao ji sofrida por uma ind6stria de aluminio em todo o mundo pela falta de energia. Parada por 12 horas, a fabrica esteve a beira de perder toda a sua linha de fornos. Perdeu US$ 50 milh6es, alem do que foi coberto pelo seguro. Ironicamente, o projeto de deslocar para a fronteira ama- zonica um grande pblo international de alumni s6 se tornou possivel em fungao da oferta abundante e barata de energia, cri- ada pela hidreletrica de Tucurui, fase que a declaracio de Agne- lli pie em xeque. Em 1974, quando o Brasil e oJapao assinaram um protocolo de inten6oes para dar partida a esse empreendimento casado, a Al- bras era a maior fibrica de aluminio at6 entao projetada em todo o mundo e Tucurui, uma enorme usina de energia cor custo de US$ 2,1 bilh6es, que cederia 60% da potencia firme i fibrica de alumi- nio. O tamanho da Albras acabou sendo reduzido a metade, mas suas 320 mil toneladas de entao equivaliam a cinco vezes a produ- gio brasileira de aluminio. Ja Tucurui teve seu orgamento multipli- cado, segundo clculos nao-oficiais, para US$ 7,5 bilh6es. Embora seja o quinto maior produtor de energia e o ter- ceiro Estado exportador de energia do pais, o Para foi obrigado a entrar no program national de racionamento para poder con- tinuar transferindo energia para o Nordeste. Para desempenhar essa fungio exportadora, nao disp6e mais de excedentes de ener- gia hidraulica utilizaveis internamente. Alem disso, os pr6ximos grandes aproveitamentos, com o de Belo Monte (cor 11 mil MW, apenas 20% menor do que Itaipu) e Maraba, sao totalmen- te voltados para mercados externos, conectados a linhas de trans- missio em alta tensao, cujo custo de rebaixamento pode ser proi- bitivopara chegar ao pequeno consumidor local. E nesse context que a primeira grande sideruirgica do Norte e Nordeste esti sendo implantada ao lado de Fortaleza, no Ceara, e nao na area da maior provincia mineral do planet, em Carajas, que tambem manda grandes volumes de minerio de ferro para o Japao. Embora esteja a 500 quil6metros de distan- cia, Tucurui nao ter mais energia para ceder para o beneficia- mento de minerio em Carajas, que vai seguir na sua vida de fon- te de materias primas para beneficiamento alem-mar. Essa paradoxal situag~o e capaz de dar alguma verossimi- lhanqa a aparentemente absurda declaragio feita pelo president da CVRD, se ela nio e apenas uma ameaga, ou algo um pouco abaixo desse conceito. O governor federal reagiu a possibilidade corn superior desdem: se a Albras quer ir embora, tudo bem. A energia que ela absorve atualmente teri uso melhor, favorecendo produto dotado de maior valor agregado do que o lingote de alu- minio, que e apenas a primeira escala na transforma~ao da energia primaria. A posiSio 6 correta. So esta atrasada em pelo menos tres d6cadas: vem quando o p61o de aluminio de Parai uma realidade e sua desmobilizagao acarretari danos consideraveis. O caos ou pelo menos a irracionalidade que se estabe- leceu no front amaz6nico, onde esti a maior fonte de energia identificivel do planet, mas se usa a falta de energia como fer- ramenta de pressao ou instrument de chantagem, comp6e um pano de fundo adequado para esse tipo de epis6dio. Ja que as regras nao sao claras e a 16gica nem sempre prevalece, uma dose a mais de audacia, oportunismo, sagacidade ou loucura pode nio ser excessive. Pode, ate, ser providencial. Ao menos para quem esta em condic6es de tomar iniciativas nessa seara, sem ser obri- gado a pagar a conta devida por esse impulse. Algumas vezes, por ter a seu favor acosta larga de um maravilhoso subsidio. Que, como se esti cansado de saber, vai onerar um velho e c6- modo suporte: a sociedade. 2 OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA IGREJA O grande Tiago do Tapajos Toda vez que chegava ao seu gabinete, ao lado da parcial- mente descaracterizada (pelo pragmatismo missionirio america- no) e secular matriz de Santarim, na praga de Nossa Senhora da Concei~io, ele se levantava, energico, fazia soar seu grito de sau- dag~o ("naaao digaaa"), corn o sotaque de gringo que sobreviveu a decadas de Amaz6nia, dava-me um abraco de urso dos Grandes Lagos e se postava do outro lado da mesa cor o olhar atento, a disposiiao para uma boa conversa. Algumas grandes xicaras de caf6 depois, das muito grandes, d. Tiago Ryan, ainda completa- mente energico e otimista, mesmo quando nos defrontavamos corn problems cabeludos (ao menos para mim), me dava mais alguns tapas de desmontar ossos, concluia o par de abracos e me levava ate a porta. Para eu voltar sempre, naturalmente. Hi alguns anos nao o vejo. Minhas idas a Santarem tenm sido poucas e ripidas, como a confirmar aquele velho ditado sobre santo de casa que nao faz milagre (situacio ainda mais complicada quando o indigitado nao e santo, muito pelo con- trario). Mas sempre acompa- nho a trajet6ria daquele grande home grande, corn mais de um metro e 80, um gigante para a epoca em que o vi pela primeira vez, lal pelo final da decada de 50. No final dos anos 60, a pa- ran6ia de alguns esquerdis- j tas atribuia a ele o papel de . agent infiltrado do imperi- alismo americano na jungle. Um deles me cobrou a ami- zade com o bispo conserva- .:. dor, cumplice da ditadura. Do outro lado, ele era olhado com a mesma desconfianqa e pelo mesmo motivo, embora cor outros prop6sitos. Ceguei- ras de uma epoca. Os critics talvez ignorassem que d. Tiago se vira obrigado a pedir a intervenqio do bispo de Detroit junto a Henry Ford para que padres pudessem dormir na sede do proje- to, no Tapaj6s. Ate 1943, dois anos antes do colapso do empre- endimento, que visava a auto-suficiencia de borracha para a fa- mosa ind6stria de autom6vel, os religiosos tinham que fazer tudo o que previam na agenda e ir embora no mesmo dia. Ford que- ria padres i distancia do seu universe fechado na selva. Como outros antes dele e, certamente, muitos ainda por vir, d. Tiago foi um present valioso da solidariedade inter- nacional. Podia-se discordar de suas ideias e do seu apostola- do, mas nao da sua sinceridade, honestidade, devogao e com- petencia no trabalho missionirio. Nos 60 anos de pioneiris- mo, 25 dos quais como bispo, ele atuou com paixio e fez os que ouviam sua voz e testemunhavam seu compromisso se apaixonarem tamb6m pela regiao. Aplicou nesse missionarismo o miximo de si, respeitando as posiq6es divergentes. Essa tolerancia explica ter adotado Joao Santos como secretario, alguem apontado como comunista, um detalhe irrelevant para o superior diante das suas qualidades para o cargo e para, a margem dele, escrever suas hist6rias da regiao, das melhores disponiveis na pobre bibliografia de extra- iao local. D. Tiago recolheu-se a uma casa humilde no alto Ta- paj6s quando a idade Ihe imp6s a aposentadoria compuls6ria. Continuou a procurar seus amigos, de todas as origens e posi- c6es socials, espalhados pela vastidio da sua antiga jurisdiqio, com o mesmo interesse e a mesa dedicagao. Passados 15 anos da sua retirada official do oficio, d. Tiago ainda nao mereceu o reconhe- cimento devido. A reportagem a seguir, escrita pelo corres- pondente do New York Times no Brasil, um registro correto e simpitico, pode motivar os santarenos e todos os habitan- (. tes do Baixo Amazonas, e tam- -1 bemr do Para inteiro, a prepa- rar comemorag6es a altura dos Si merecimentos do bispo eme- Srito e dos 90 anos que ira com- pletar, em 2002. Por isso, re- produzo na pigina seguinte o artigo de Larry Rohter. OUTUBRO/2001 AGENDAAMAZONICA 3 Brasil Missionario americano vira lenda na floresta amazonica Larry Rohter Santar6m, Brasil Durante os 27 anos em que ser- viu aqui como bispo cat6lico, James M. Ryan teve que visitar Roma periodicamente para resolver questoes eclesiasticas. Ao se encontrar cor o papa Paulo 60, em 1970, ele abriu um mapa que mostrava os 323,625 quilometros quadrados de flo- resta amazonica sob sua jurisdigao e disse, "Santo Padre, esta e a minha diocese, a maior do mundo" "Mamma mia!", ele se lembra de ter ouvido o papa excla- mar, admirado. "E uma Area maior do que toda a Italia". Pres- tes a fazer 89 anos de idade, Ryan atualmente usa uma bengala e um aparelho de surdez e esti aposentado desde 1985, de for- ma que nao circula muito pela regiao in6spita como costuma- va fazer no passado. Mas, ap6s ter passado quase 60 anos na regiao, nao hi uma curva do rio que o bispo nao conhega. Nem tampouco um vilarejo onde nio seja conhecido. "Ele 6 um personagem lendirio nesta regiao, o iltimo e talvez o maior dos missionarios clissicos da Amazonia, e a per- sonificag~o de toda uma era que chega ao fim nesse pedaqo do Brasil", afirma Manuel Dutra, professor da Universidade Fede- ral do Para, em Belem, e autor de um livro e de numerosos arti- gos sobre a vida na Amazonia. Durante os primeiros anos que passou aqui, quando os barcos a motor eram raros e nao havia servigos aereos regulars, Ryan, que na epoca era um jovem frade norte-americano, corta- va as iguas do Amazonas e seus afluentes em uma canoa movi- da a remo. Ele teve dez crises de malaria no decorrer desses anos, mas nao Ihes di importancia, dizendo, "Nesta regilo, pe- gar malaria e como ficar resfriado" Ryan se lembra de ter viajado muito de barco para visitar cerca de 50 capelas em areas remotas. A maioria delas s6 podia ser visitada cinco vezes por ano, de forma que, quando ele che- gava, tinha nao s6 que celebrar a missa, mas tambem realizar casamentos, batizados e primeiras-comunh6es. 0 bispo e personagem de inumeriveis hist6rias, virias de- las decorrentes da sua lingua ripida e, algumas vezes, bastante critical. Por exemplo, durante a ditadura military, que vigorou no Brasil entire 1964 e 1985, o entio president da Republica, gene- ral Ernesto Geisel, visitou Santarem e perguntou ao bispo, "Re- verendo, como esti o seu rebanho?" "Meu rebanho vai bem", responded Ryan. Ap6s uma pau- sa, ele perguntou ao general, "E o seu, como vai?" Geisel enca- rou a pergunta de forma bem humorada, mas outros oficiais militares viram Ryan como uma ameaga. Quando um coronel do Exercito que servia aqui o acusou de estar a servico de uma potencia estrangeira, e deu a entender que ele deveria ser expul- so do pals, aqueles que apoiavam Ryan fizeram um abaixo-assi- nado. Mais de 32 mil pessoas pediram que ele ficasse. Centenas de medicos, juizes, escritores e engenheiros da regiao Ihe slo gratos, pois comegaram os seus estudos sob a sua prote~ao, trabalhando como coroinhas ou catequistas. Ryan - que e conhecido aqui como Dom Tiago supervisionou a cons- tru~io de clinics, igrejas, um seminirio uma estagio de radio e escolas de radio para comunidades do interior. Tudo isso contri- buiu para a sua grande popularidade. "Durante d6cadas ele chegou a ser o psic6logo de toda a cidade", afirma Lucio Flivio Pinto, editor da "Agenda Amazoni- ca", o principal journal da regilo. "As pessoas o procuravam para resolver todo tipo de problema, dos pessoais aos politicos" Ele nasceu em um bairro irlandes na zona sul de Chicago e dava aulas de ret6rica em um seminirio de Illinois, em 1943, quan- do, em companhia de virios outros franciscanos do meio-oeste dos Estados Unidos, teve a chance de vir ao Brasil. Demorou um mes para que alcangassem a regilo e, assim que chegaram, incapa- zes de falar o portugu&s, tentaram se fazer entender em latim. No inicio, ele foi designado para Fordlandia, a fazenda de se- ringueiras da Ford, is margens do Rio Tapaj6s. Mas os administra- dores da fazenda, argumentando que o empreendimento era uma propriedade privada, nio permitiram que ele ficasse na irea. Foi necessaria muita diplomacia eclesial exercida em Detroit para que a empresa cedesse. Ele conquistou os seus paroquianos ao defender o direito desses em beber cachaga, que era proibida na fazenda da Ford. "Os norte-americanos podiam tomar seu uisque, mas queri- am exercer um control moral sobre aqueles cujo dinheiro s6 dava para comprar cachaga", explica Ryan. "Tratava-se de puritanismo, e n6s tivemos uma dose suficiente disso nos Estados Unidos" A Ford partiu ao termino da Segunda Guerra Mundial, e, cor o passar do tempo, Ryan presenciou o fracasso de virios gran- des projetos industrials e desenvolvimentistas na sua diocese, in- cluindo a proposta de uma estrada que atravessaria a Amaz6nia. Esses epis6dios o tornaram um cetico cor rela~io aos sonhos e ambig6es megalomaniacos que a regiao costuma inspirar. "Tudo leva muito tempo na Amaz6nia, e a primeira coisa que se ter que a aprender e a arte da paciencia", diz ele. "No entanto, todos querem ficar ricos em um piscar de olhos" Ryan, que atualmente e o bispo emerito da cidade, tentou por um curto period viver em uma instituigio para aposenta- dos em Chicago, aconselhado por seus medicos. No entanto, ele terminou retornando, ao descobrir que o seu coraiao e o seu lar estavam irrevogavelmente ligados a Amazonia. Apesar da sua saude preciria, Ryan ainda faz um program semanal de ridio, di conselhos is families, orienta os jovens padres e seminaristas, dirige um fusca 1984 e tenta celebrar a missa diariamente. O rebanho ter diminuido com o passar dos anos, mas os seus membros continuam leais ao velho bispo. 4 OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA HISTORIC A pergunta no ar, ha 35 anos: Escrevi este artigo especialmente para o livro Conhecimento e fronteira: hist6ria do ci6ncia no Amaz6nia, que Priscila Faulharb e Peter Mann de Toledo organizaram, para comemorar os 735 anos do Museu Paraense Emilio Goeldi e o cinquenten6rio do CNPq. 0 livro, com quase 800 p6ginos e 24 artigos, foi lanagdo neste m6s, em Beelm. Pretendo coment6-lo na pr6xima edigo. Comecei no jornalismo professional com 16 anos de ida- de. Foi numa Belem do Para com 500 mil habitantes, 40% do que ter hoje. Nesse mesmo ano, a cidade assis- tia impassivel ao encerramento das atividades do Grande Hotel, instalado num sofisticado predio art-nouveau que assegurava aque- le ponto central da cidade, numa das mais belas pracas do pais, o toque da civiliza~io europeia (com seu colonialismo e suas lu- zes), ji esmaecente, as vesperas de eclipsar de vez, substituida por um modelo made in USA. Dois outros fatos entraram na minha pauta de "foca", ini- ciante nos misterios da cotidianidade. Um, era o fim da SPVEA, a Superintendencia do Plano de Valoriza~io Economica da Amaz6nia, substituida pela Sudam, a Superintendencia do De- senvolvimento da Amazonia (morta tambem neste 2001 para dar lugar a ADA Agencia de Desenvolvimento da Amaz6nia, no jogo de cadeiras burocraticas de uma elite para a qual a imen- sa Amazonia e um detalhe, ou um residue). A SPVEA devia ter surgido em 1946. Sua mission seria ge- rir um fundo de desenvolvimento amaz6nico, formado pelo des- conto de 3% da receita tributiria federal, estadual e municipal, que os constituintes recriados das cinzas do Estado Novo havi- am instituido (esse mesmo percentual viria a ser dividido, pelos constituintes de 1988, com o Nordeste e o Centro-Oeste, am- bos subdesenvolvidos, o segundo ji nem tanto, ambas regi6es atrasadas, mas nio propriamente como a Amaz6nia). S6 em 1953, contudo, a superintendencia emergiu da pe- pelada estatal. Nos sete anos intermediarios, a aplicaao do fun- do seguiu um piano de emergencia. A era de planejamento cen- tralizado acabou 13 anos depois, sem que a lei tivesse sido apro- vada. Ainda navegava entire as corredeiras do parlamento. Certidao negative da prioridade amaz6nica nos prospects brasileiros, era o significado desse enredo. Menos mal, porem, nessa fase: os donos do poder admitiam que a Amazonia, antes de ser definitivamente incorporada ao process produtivo do "outro Brasil", mais velho, mais adiantado, hegem6nico, destrui- dor de florestas, amansador de terra (principalmente pela pata do boi), predador de gente primitive, como indios e caboclos, devia ser "valorizada", o jargao desse period (no seguinte seria o desenvolvimento e a integraiao). Para chegar a essa valoriza- iao economic, precisava ser conhecida. Nao alcancaria tal ob- jetivo sem uma presenca forte da ciencia. O empreendimento cientifico mais significativo do p6s- guerra concebido para a regilo foi o Instituto Internacional da Hileia Amaz6nica. Era para ser national. Sem apoio em sua ter- ra, Paulo Carneiro levou-o para o uitero da Unesco, o brago ci- entifico da recem-criada ONU. Ao voltar de Paris carimbado de internacional,o institute foi recebido pelos nacionais como um cavalo de Tr6ia. Serviria de instrument em favor da internacio- naliza~io da Amazonia, cobigada por nac6es imperialistas ou, mesmo sem esse r6tulo, por pauses pressionados pela inc6moda relag~o de territ6rio limitado cor excess de populagio, a ser deslocada para outras ireas (era, principalmente, o "perigo ama- relo"). O maior e mais disponivel desses anecumenos sendo a Amazonia. Hoje, o projeto da Hileia Amazonica esta sendo revisado com maior rigor, despojado do tom emotional da campanha political, comandada pelo ex-presidente da Republica (e entio senador) Arthur Bernardes. Independentemente do seu merito intrinseco, porem, ele teve a fungao positive de forgar o gover- no federal, em resposta, a criar o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia), deslocando a ci&ncia para o interior Amaz6nico, de Belem, que a centralizava e monopolizava, para Manaus. A existencia, real ou ficticia, bem avaliada ou superdimen- sionada, da cobiga international sobre a Amazonia sempre teve esse condo: de despertar o Estado national da letargia em rela- ao ai sua maior fronteira, tratada sempre como residuo ou deri- vativo do todo. Foi assim tambem quando o Hudson Institute, de Nova York, a frente o celebre na epoca Herman Kahn, pro- p6s a construaio de um sistema de grandes lagos, o principal dos quais seria formado pelo represamento do rio Amazonas em Obidos, o ponto em que o mitol6gico Mal Dulce mais se estreita (por dois quil6metros). A resposta de Brasilia foi contrapor o sistema das grandes rodovias de integraCgo national. Outra caracteristica desse dia- logo (as vezes involuntirio, outras vezes compuls6rio) e que, na necessaria interlocugo com a ameaca externa, a resposta nacio- nal nem sempre e mais articulada, mais just, mais adequada is caracteristicas amaz6nicas. A criago do tronco rodoviario que rasgou o interior da floresta e um desses erros, talvez o mais grave de todos. Inegavelmente, uma das percepq6es do p6s-guerra havia sido essa imensa fronteira, dominada pela maior floresta e a OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 5 mais extensa bacia hidrografica do planet, corn um terco das arvores existentes nos tr6picos e 20% da agua em circulaaio nos rios do globo terrestre, mas ate entao considerada como uma reserve para o moment adequado, ora um paraiso das delicias ora o "inferno verde". Mal os canh6es se calaram, a Comissao Mista Militar Bra- sil-Estados Unidos deu nova utilizacio a avi6es belicos. Coman- dou o primeiro levantamento aerofotogrametrica na calha do maior dos rios do mundo, o Amazonas, em cuja bacia sedimen- tar de geologia recent parecia 6bvio ter que haver acumulago de hidrocarbonetos, sobretudo o popular petr6leo. Houve frustragao nessa busca, mas a segunda maior si- deruirgica americana, a Bethlehem Steel, se tornou co-proprie- tiria (ao lado do parceiro ideal de multinacionais, o mineiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Icomi), de uma das melhores jazidas manganes que ja houve no mundo, no Ama- pf (exaurida em suas 30 milh6es de toneladas antes de chegar ao fim o contrato de concessao, de 50 anos). O manganes, essencial para os altos-fornos, mas mine- rio insuficientemente acumulado no rico territorio americano, exi- .. gindo pesadas e complicadas - importa5es. As corporag6es petroliferas -. e siderurgicas, que sairam na fren- te, haviam descoberto que a ba- cia sedimentar, uma das terras mais novas do planet, nao era alvo economic imediato. Era di- - ficil chegar aos alvos geologica- mente determinados a partir dos' pontos navegaveis dos rios, ven- cendo a barreira das grandes Ar- vores e sua vegetaiao secundaria. Chegado la, tio dificil seria per- furar e manter uma equipe no campo. E, definitive complexidade, mais dificil seria a extragao do 6leo eventualmente descoberto. Ainda nao estava consolidada e muito menos disponi- vel a tecnologia para vencer esses elements naturais. Mais ainda: o prego do petrbleo nao sustentaria o custo dos inves- timentos exigidos. Ainda nao havia ocorrido o choque de prego do petr6leo e a tecnologia, que adviria das prospec- g6es em alto mar, ainda se ensaiava. Mesmo que parecesse temeriria ou inexeqiiivel, a alterna- tiva de cobrir corn agua essa grande depressao terciaria nao seria o melhor caminho para chegar aos altos espinhaqos do Pre- Cambriano, onde estavam as mineralizac6es? Era essa a 16gica aparentemente il6gica do Grande Lago amazonico: fazer a agua chegar as bordas das areas que ja eram avaliadas como alvos muito mais imediatos para fazer os recursos minerals da Ama- zonia se transformarem em mercadoria. Sem chegar a encarar essa polemica, o governor brasileiro simplesmente contrap6s a um projeto mal amadurecido do Hu- dson uma diretriz categ6rica do centro hegem6nico: as estradas, vias convencionais para que o colono estabelecesse sua fisiono- mia e seus interesses na regiao, uma ferramenta de destruir flo- restas e converter paisagem ex6tica em moldura colonial. Nio importa o preco social e o custo ecol6gico dessa op- tio: a partir de um determinado ponto, os pioneiros de van- guarda desse period, as empresas sideruirgicas e sua fauna acom- panhante, as mineradoras, haviam encontrado o instrument adequado para alcanpar as futuras jazidas de alto valor. Essa tec- nologia exata era o helic6ptero, que permitiu atingir o alto das serras e estabelecer ali uma base para a coleta de amostras de rochas, que seriam interpretados nos laborat6rios mais bem apa- relhados e melhor informados. O que explicaria o estrondoso sucesso da United States Steel em Carajas, no sul do Para, revelan- / do a mais important provincia / mineral do planet, e o fracasso S/ do agent national que a antece- A/ dera, o DNPM (Departamento S/ Nacional da Produq~o Mineral), / mas nao conseguira fazer a des- ./ coberta. 'F A complexidade amazani- Sca era maior e mais profunda do S que a relatada na bibliografia ate Sentao produzida. Era, por isso, um desafio que transbordava os S^ meios de revelaio e valorizaaio disponiveis no pais (que ainda iiC- destina a regiao 2% da parca ver- ba national de ciencia e tecno- -3 logia). Dai a inevitavel e neces- S" saria interpolacao cor o mundo 1 na agenda amazonica, um ponto / 'de aproximaSao, de toque e de conflito, mas inescapavel se se pretend responder ao desafio, num tempo que vislumbre a escala da destruigio provocada pela atividade produtiva ou meramente especulativa, de me- nos de 1% da floresta em 1966 para os 17% atuais. Foi uma impressao ainda confusa que tive ao cruzar salas, ouvir exposig6es e tentar provocar entrevistas cor os partici- pantes do Simp6sio sobre a Biota Amaz6nica, entire 6 e 11 de junho de 1966.. O event comemorava o centenario do Museu Paraense Emilio Goeldi, renascido das cinzas de quase tres de- cadas 12 anos antes, quando foi federalizado. Mas a Associagio de Biologia Tropical e que o havia organizado, cor a colabora- gao do Conselho Nacional de Pesquisas do Brasil, ao qual o museum estava subordinado (ate 2000, quando passou para a 6r- bita do Ministerio da Ciencia e da Tecnologia). Era um autentico supermercado da ciencia. O program previa 201 conferencias e comunicaq6es, sendo que 52 haviam sido escritas em ingles (sem contar outras linguas, de baixa fre- 6 OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA qiiencia). Brasileiros eram os responsiveis por 89 dessas apre- sentacqes, os estrangeiros por 74 e os "amaz6nicos" por 38. No entanto, 36 expositores que falavam por instituiq6es sediadas na regiao nela nao haviam nascido: 25 eram de outras regioes e 11 eram estrangeiros. Dessas instituic6es, 11 intervenc6es eram do "Goeldi", 9 do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Ama- z6nia), 5 do Instituto Evandro Chagas, 4 do Ipean (Instituto de Pesquisa Agropecuaria do Norte, hoje Embrapa) e 3 do Sum- mer Institute of Linguistics, americano, apesar de instalado na Amazonia, entire os mais atuantes. Mas lider no encontro foi a Universidade de Sao Paulo, com 17 trabalhos apresentados. Seguiu-a o Museu Nacional, do Rio de Janeiro, com 15 interven56es. Depois, o DNPM (ainda na antiga capital brasileira), com 13, o Smithsonian, de Nova York, com 7, e o Institute Max Planck, da Alemanha, com 5 intervenq6es no sim- p6sio. Dentre os estrangeiros, os Estados Unidos foram o pais cor mais representantes, 32. Muito atris, a Venezuela, com 9. A Alemanha tinha sete participants, a Argentina levou 5, o Uruguai 4 e o Japao, 3. No total, 223 participants com trabalhos inscritos (no total, 592 freqiientaram o simp6sio), dos quais apenas 24 (ou 10%) eram mulheres. O paulista Paulo Vanzolini e G. H. Bergold, do Institute Venezuelano de Investigac6es Cientificas, foram os que mais comunicaq6es apresentaram, 4. Fizeram tres interven- q6es: Aziz Ab'Saber, Jose Candido de Carvalho, Luiz Laborian, Manoel Lobo, Horst Schwassmann e Harald Sioli. No final, carreguei os sete volumes das atas. Alguns dos trabalhos, li e consegui entender. Outros, eram etrusco para mim. Passados 35 anos, revisar esses registros todos para esta pequena memoria teve a fungio de reforcar em mim a convic- qao ja entao emergente: a Amaz6nia precisa enfrentar o co- nhecimento mundial, para incorporar o que lhe for uitil e para rejeitar o que seja danoso, ganhando tempo, vencendo etapas e tentando recuperar o tempo perdido para, se possivel, pular i frente do terrivel pioneiro. S6 podera fazer essa vital separaiao se, mais do que qual- quer um, for quem melhor conhecer a si. Nao sera capaz de faze-lo se nao contar com a solidariedade do saber universal. Com o capital international, essa relaiao lhe tem sido franca- mente deficitaria (de resto, com o capital national tambem). Tera que ser exatamente assim ou basicamente assim com a cien- cia mundial? Estamos condenados a andar como jabutis na terra em porfia corn a lebre selvagem, sem a maquilagem da propa- ganda? E uma pergunta ainda carente de resposta, passadas qua- se quatro decadas. S6 que o drama amaz6nico nao resistirai espera do pr6ximo seculo do Museu Emilio Goeldi. Um novo simposio sobre a biota amaz6nica seria feito a semelhanqa do event de 1966? Depois de 35 anos de ativida- de professional, eu teria outras expectativas. Gostaria de ver representantes de todas as instituiqes que lidam sistematica- mente com temas amaz6nicos reunidas para apresentar suas agendas de trabalho, compatibilizi-las entire si, preencher la- cunas, fazer uma consistencia do que estio fazendo e consoli- dar tudo num plano director capaz de eliminar as superposi- c6es, os paralelismos, os conflitos estereis, o desperdicio de recursos e a sub-utilizacio de talents. Esse plano director da ciencia na Amaz6nia, englobando instituig6es locals, nacionais e estrangeiras, nao seria apenas o produto da racionalizag~o do que esti send feito, aceitando-o como pressuposto. Os participants de tal rede se compromete- riam a orientar o seu esforgo para objetivos capazes de center a expansao da destruig~o na regilo, introduzir tecnologia de pon- ta compativel com a natureza, qualificar o habitante local para receber os valores adicionados de conhecimento e saber e utili- zi-los em sua pr6pria vida, e contribuir para a retenalo na Ama- z6nia dos frutos da sua utiliza~io produtiva. E claro que esses prop6sitos nao se consumarao apenas com boa vontade. Sera precise definir os meios de viabilizag~o. Uma vez definido o plano director, os parceiros internacionais aduzirao seus recursos materials de tal maneira que eles funcio- nem como contrapressao ao crescente enriquecimento dos mais ricos. O governor brasileiro, de sua parte, abandara um percen- tual (pelo menos de 10%) dos dois funds federal, o FNO (Fun- do Constitucional Norte) e Finam (Fundo de Investimentos da Amazonia) para um orgamento de ciencia e tecnologia, a ser administrado por um comite gestor, no qual os aliados estran- geiros terao direito a voz, sem voto. A colonizaaio da Amaz6nia devia ser feita como se faz a ocupagio da Antartida: com a ciencia a frente. Para sua infelici- dade, porem, a Amaz6nia nao coloca, diante do colonizador, as adversidades naturals do continent gelado. Ao contrario, pode ser considerada, pelo miope, que e o pioneiro padrio, como uma porta escancarada, facil de atravessar. Mesmo sua portentosa flo- resta, ainda o seu trago definidor, ao lado da vastidio de aguas, uma vez sangrada, e posta abaixo sem exigir maiores esforcos ou investimentos. O vento pode derrubar uma castanheira de 50 metros que tenha perdido a protegio das irvores original- mente circundantes. Quem esteve no topo da serra de Carajis, no final dos anos 60, quando ali comerava a se delinear o que viria a ser a maior provincia mineral do planet, nao podia prever mudangas tao drasticas na paisagem em menos de quatro decadas: ao inves da mata densa e alta, com o maior indice de concentragio de casta- nheiras da regilo (um sintoma da fertilidade do solo, acima da m6dia), agora toda a irea em torno do plat6 e dominada por palmeiras. O babagu proliferou como praga no rastro do fogo, que consumiu a fina camada de humus e abriu espago para a recolonizagio florestal secundaria, visivelmente inferior. Mas que chegou para ficar, sujando definitivamente o lugar. O verde monotonamente dominant ou o solo acido e ge- neticamente fraco, enquanto elements de generalizagio, fomen- tam a presunqao de uma uniformidade amaz6nica, que serve de suporte e remissao de culpas para o colonizador, disposto a trans- formar a paisagem a sua imagem e semelhanga, prolongamento da terra que deixou e com a qual busca a reconciliagio no ponto de destiny, i custa de desfigura-lo. A ciencia pode esperar a sua vez, na retaguarda, quando convocada pelo amansador da terra, que a ela chega com expec- tativas enraizadas e formulas prontas. Quando ouve o chamado, contudo, a ciencia nem sempre pode fazer mais do que lamentar os danos consumados e, muitas vezes, incorrigiveis. Fazer ci- OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 7 encia 6 quase sinAnimo de martiriologia nofrontamaz6nico. Um poema dodecaf6nico sobre o leite derramado e a Ines morta. No entanto, poucas das fronteiras ja abertas pelo home necessitariam tanto do conhecimento cientificamente matura- do ou de hip6teses solidamente formuladas quanto a Amaz6- nia, o reduto que mais floresta tropical, agua e biodiversidade contem no globo terrestre. O mais angustiante e que boa part desse conhecimento e uma quantidade imensa das ferramen- tas necessarias para testar dados novos e fazer novas formula- g6es ja estao acumuladas em almoxarifados do saber espalha- dos por diversos pauses, inclusive o Brasil e ate mesmo a Amaz6nia. O problema e transferi-los para a regiao, torni-los disponiveis para uso e convencer quem toca as frentes de avan- go economic a sincronizar seu ritmo ao da informagao (e, atraves dela, a norma coativa, na forma de leis boas na propo- sicao e eficazes na execucao). Como gerar uma ciencia de vanguard se a Amaz6nia conta com apenas 2% do orcamento na- \ cional de ciencia e tecnologia, ja em descompasso com os melho- \ res parametros internacionais? Como permitir que o conhecimen- to cientifico enquadre a agao do home nas areas amaz6nicas vir- gens se dinheiro que podia ir para centros de formanio e qualificacao - de mio-de-obra, laborat6rios ou " experiments de campo vai ali- mentar empreendimentos de po- - lemica matriz geopolitica, como os - 1,4 bilhao de d6lares do Projeto - Sivam (Sistema de Vigilancia da - Amaz6nia), a serem gastos em cin- co anos (o equivalent a 20 anos de verba de ciencia e tecnologia)? - A curto e m6dio prazo (o tempo corn que conta uma gera- cao para fazer valer seus atos), a Amaz6nia parece ser um de- safio grande demais para as possibilidades e o interesse real (nao s6 o ret6rico) do Brasil em dar uma direg~o inteligente, racional e em resume cientifica ao process de ocupacio da Amaz8nia. Em suas linhas definidoras, tern sido impossivel impedir que ele siga em paralela corn o conhecimento, em de- sacordo corn o projeto (ainda mal definido, mas ja existente) de conciliar a necessidade de produzir cor o imperative de nio faze-lo a custa do patrimonio natural da regiao. Uma avaliaio rigorosa do balango entire construcao e destruisio, aferindo o grau de sustentabilidade (ou renova- gao em face das materias primas) das atividades economicas, devera resultar num balango negative, numa relaFio de troca desfavoravel. Para a inversao desse resultado, a cooperaaio international se apresenta quase inevitavel. O preqo a pagar seria o da internacionalizacio do nosso maior recurso de fu- turo? Num raciocinio simplista e esquematico, sim. Numa consideracio mais rica, e uma hip6tese. E, como qualquer hip6tese cientifica, precisa ser testada, tendo-se o maior grau de control possivel sobre as variiveis envolvidas. Atrair pessoas, entidades, instituic6es, empresas e ate mes- mo governor para a tarefa de revelar em que consiste realmen- te a Amazonia, por tras de aparencias enganadoras, pode ser um pass para abrir mao da sua soberania. Mas pode ser tam- bem, na contra-mao do process, uma maneira de equilibrar a situaq~o na regiao, onde muitos desses personagens ji la se encontram, agindo dentro das normas legais, mas nem por isso deixando de representar um element de agressao e de ameaca para a mesma soberania, senao em terms formais, ao menos na pritica. As medidas de control e ordenaiao que tnm falta- do no acompanhamento do fluxo de capital deveriam ser ado- tadas para balizar o incremento de outro fluxo: o da ciencia. So assim os amazonidas em particular, e os brasileiros em ge- 1 ral, estariam aptos para acompa- I nhar criticamente o que ja se faz . / em materia de ciencia e tecnolo- / / gia atraves de cooperacao inter- / national, freqiientemente defini- S/ da de forma desatenta, e o que se /. deve ampliar. A avaliacao de uma / avaliaq~o como a que os sete pai- / ses mais ricos (o G-7) estao fa- S zendo neste moment do progra- S ma piloto de proteiao a floresta Samazonica, antes de definir se (e S como) ele vai continuar. SUns dizem que esse progra- S ma e uma ponta de lanqa do im- P perialismo, um reduto do neoli- S beralismo globalizante, uma me- -, dida de relaq6es publicas sem / maior efeito, um boi de piranha para permitir a manada de inte- resses comerciais na biodiversida- de amaz6nica passar por outro caminho, uma prova da nossa incapacidade de corresponder, cor recursos pr6prios, a con- trapartida international de maior monta (como os US$ 250 milh6es desse program) e muitas coisas mais. Todas corn alguma pitada de verdade, mas distantes da verdade por inteiro. Porque sem muita informa~ao, capaci- dade de entende-la, processa-la, difundi-la e coloca-la em pra- tica, nao seremos capazes de discernir a verdade na Amaz6- nia. Nela, a escala cientifica em vigor e a do ensaio e erro, o que di uma media do atraso mental e intellectual nessa que e a maior fronteira de recursos naturais do planet. Sio ideias gerais e imperfeitas, muito embrionarias, mas atraves das quais o observador de 1966 tenta dar alguma con- tribuiqSo a paisagem de observaiao de 2001. Ainda esperan- ;oso de que o capitulo amaz6nico nao se encaixe simetrica- mente no livro da espoliaqao dos povos colonizados nas no- vas fronteiras do planet Terra. 8 OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA FOTOGRAFIA Mosqueiro Em 1966, o governor precisava escolher uma opcao para garantir o acesso dos paraenses a ilha de Mosqueiro: ou comprava duas balsas novas para fazer a travessia do Furo das Marinhas, ou construia logo uma ponte de concrete de 1.450 metros de comprimento. No moment em que foi feita esta foto, num domingo de veraneio, apenas uma balsa, cedida pela Petrobras, sem pro- pulsao pr6pria (necessitava de um rebocador), transportava 20 carros com seus ocupantes de cada vez. A demora para chegar ao balneirio era um desafio deJo. Suas balsas novas custariam 1,5 bilhao de cruzeiros (valor da epoca), com capacidade para transportar 600 veiculos por dia, funcionando 12 horas. Ja a ponte custaria Cr$ 6 bilh6es e poderia estar pronta em dois anos. Custou e demorou muito mais, na verdade. Mas foi a opio escolhida. A melhor? Livraria Todo mes a Livraria Globo, entao a maior da praca, sorteava maquinas datilograficas entire os seus clients. Em outubro de 1962 o felizardo foi Jose Ferrei- ra, que morava no ainda distant quilometro 122 da Belem-Brasi- lia, a recem-aberta estrada de li- ga~io corn o restante do pals que mudaria a feig~o da cidade (e, se- guida pelo tronco rodoviario na- cional, de toda a regiao). A entre- ga da maquina de escrever, hoje peqa de museu, foi feita pelo ele- gante ex-boxeador AlLino Pinhei- ro, envergando camisa social e gravata corn prendedor de metal, um dos donos da livraria, junta- mente com o irmlo Alfredo. Ao fundo, o retrato do fundador da empresa, Alberto Pinheiro, fixa- do em parede divis6ria de Euca- tex. Retrato de uma epoca. Bel6m ainda era camped naci- onal de filariose, em 1962, quan- do o DNERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais) re- alizava uma campanha de comba- te i doenca na cidade. A principal acio consistia em aplicar 6leo queimado de carro adicionado de nafta solvente nos focos ou luga- res suspeitos, sobretudo nas areas alagadas. A populagao colaborava doando o 6leo inutilizado e os clu- bes de servigo, como o Lions, da- vam apoio. Como nesta foto, feita na Passagem Leonor, na Travessa do Chaco, no bairro do Marco. Ao fundo, um element caracterlsti- co da paisagem da Belem de en- tao: as cercas de madeira dos quin- tais, com a extremidade pontiagu- da. E o popular guard sanitirio, com seu chapeu duro a moda in- glesa, armado de borrifador e de laminas para a coleta do sangue, um terror para criangas apanhadas desprevenidas em casa. Nao s6 para criangas, alias. Teatro O ano de 1962 foi de gl6ria para os alunos do Curso de Iniciacao Tea- tral da Universidade Federal do Pari, coordenado pelo professor Benedito Nunes. Eles encenaram peas de Gil Vicente, Martins Pena, Tchecov e Ber- tolt Brecht, uma temporada de fazer inveja a qualquer centro. De O velho da horta, do autor portugues do inicio do seculo XVI, participariam Maria de Belem Negrio Guimaries, interpre- tando a moga, e Maria de Lourdes Martins, como a alcoviteira, flagradas nesta foto durante um ensaio. O ve- lho da hora era Cliudio Barradas. OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 9 ~FL;!SI3 i., Mem6ria do Gotidlano Teatro O Para participou do I Fes- tival de Teatro Amador, reali- zado em janeiro de 1957, no Rio de Janeiro, atraves do gru- po "Os Novos", que encenou a pepa Nopopo dofalcao, do au- tor irland&s W. B. Yeats. O gru- po tinha sete integrantes, che- fiados pelo ator (hoje padre) Claudio Barradas. A direao artistic era de Margarida Schi- vazappa. Os outros membros eram Bernadette Oliveira, Car- los Pereira, Loris Pereira, As- sis Filho e Sa Leal. "Os No- vos" foi formado atraves da reunido do Teatro do Estudan- te de Belem, comandado por Schivazappa, do Movimento Renovador do Teatro, dirigido por Barradas, e daJuventude Franciscana, presidida por As- sis. Ver-o-Peso Em julho de 1958 o prefei- to Lopo de Castro mandou fa- zer uma grande limpeza na "praia do Ver-o-Peso", como o lugar ainda era entao conhe- cido, "onde a imundicie ali se misturava com os generos ali- menticios que slo vendidos ao publico. Depois da "recupe- ragao da praia, a prefeitura ins- talaria "barracas standardiza- das, a exemplo de outras capi- tais do pals". Uma melhora seguida de piora, na ciclica his- t6ria das boas ou bem intenci- onadas interven6es do poder Spiblico no cartio postal de Belem, nao con- tinuadas. Cinema Em 1958 havia 13 cinemas em Belem: Olimpia, Iracema, Nazare, Moderno, Indepen- dencia, Guarani, Vit6ria, Cine Brazilandia, Paraiso, Cine PC- rola, Aldeia do Radio, Cine Art e Popular. A populag~o era um terco da atual. Hoje, a cidade conta cor 10 cinemas. Barraca A comunidade japonesa do Para patrocinou uma das noi- tes na Barraca da Santa, no ar- raial de Nazare, o ponto alto da festividade para os socialites (e candidates a) na epoca. Fo- ram distribuidos cart6es para o sorteio de premios, o mais destacado sendo um autentico quimono. Alias, o que nao fal- tou nessa noite foram trajes e comidas tipicas japoneses, a ponto de o cronista ter regis- trado esse aspecto bizarre, diferente das demais noites, gragas ao colorido dos trajes tipicos da na ao niponica". Por bizarre devia ter queri- do dizer original. Calouros O conselho paroquial da igreja da Trindade decidiu ho- menagear os "neo-universitari- os" de 1966 corn uma missa de aqao de gracas "pela vit6ria al- canqada", celebrada pelo padre Carlos Coimbra (hoje, ex). Ap6s a missa, na Casa Paroqui- al, seria servido "um ligeiro caf6 de confraternizagao, ou- vindo-se a palavra do ilustre prof. Aldebaro Klautau". Os familiares tambem participari- am da festa para os calouros. Tiio Em dezembro de 1964 Sebastiao Tapaj6s retornou de um curso de aperfeicoamento em Portugal e na Espanha, realizado gragas a uma bolsa de estudo do governor portugues, e fez uma apresentaqao especial na sede do Gremio Literirio Portugues. O convite ji o consagrava como "um dos mais eximios e perfei- tos executores do dificil instrument musical, que o violio". Ferrovia A Estrada de Ferro de Braganca suspended o tri- fego dos seus trens de carga e passageiros em 1 de janeiro de 1965, cumprindo determina- qgo imposta pela Rede Ferroviiria Federal, que considerou invivel manter a linha, cri- Sao da regiao bra- gantina, a mais densamen- te habitada da Amazonia. Na ocasiao estava exercendo a su- perintendencia da ferrovia, como substitute, o engenheiro Loriwal Rei de Magalhaes (que viria a ser prefeito de Belem, nome- ado, e permanece em atividade) Churrascaria Quem freqiientasse a Churrascaria Jardineira do Grande Ho- tel, na avenida Presidente Vargas (onde esta agora o Hilton Be- lem), a partir de outubro de 1965, ja podia entrar corn seu carro pela rua Carlos Gomes, na lateral do predio. No restaurant en- contraria "um ambiente diferente e acolhedor" para saborear as especialidades da casa: galeto ao primo canto, churrasco misto ou gaucho, filet mignon assado na brasa, cerveja em canecas e vinhos selecionados. A churrascaria, na calgada frontal do hotel, abria das 19,30 as 23,30, exceto as segundas-feiras. O telefone automaticico) era 4593. 10 OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA ^^-r-^ 4' ci3 CARTAS Jurunas "Elementos representatives da nossa sociedade" criaram, em abril de 1964, o Grupo de Agao Social do Bairro do Ju- runas. A entidade iria funcio- nar "em colaboraqio estreita" cor a Par6quia de Santa Tere- zinha". Seu objetivo era aten- der os 35 mil moradores dos bairros do Jurunas e da Estra- da Nova, proporcionando-lhes escolas primarias e de alfabe- tizacao de adults, pequenos ambulat6rios medicos, biblio- tecas particulares, exibia6es artisticas e diversos. Os membros fundadores eram Egidio Salles, Alberto Va- lente do Couto, Heber Mongao, Alirio Cesar de Oliveira, Gas- tao Santos, Orlando Pinto, Rai- mundo Cosme de Oliveira, Manoel Rolla, Oriente Vascon- celos, Orlando Vianna e Laer- cio Marques da Silva. O coor- denador era o padre Theodoro Jaspers, vigario da paroquia. Trote Nesse ano, alias, os calouros ainda podiam fazer livremente seu trote pelas ruas da cidade, desfilando atras de uma cha- ranga. O trote dos futures den- tistas, por exemplo, saiu da sede da Faculdade de Odonto- logia, na praga Batista Campos, percorreu o comercio e foi ter- minar em frente a sede do go- verno, no PalAcio Lauro Sodre, sem incidents, parando dian- te do predio do journal Folha do Norte para as arengas costu- meiras e o registro de direito. Sergio Haroldo Barros-foi quem falou, reivindicando pro- vas mensais para favorecer os estudantes que trabalhavam "e nio podem assimilar as diver- sas materias, para realizar pro- vas num period de 6 em 6 meses". Os cartazes, usados para transmitir a mensagem dos novos universitArios, traziam dizeres como "pensar pode, mas se falar vai em cana", "contrabandistas e que e a solucio, nao vai preso porque esta cheio de bilhao", ou "lo- tacao e a solucao: quem so- bra vai a pe". O trote "comeqou e termi- nou em ordem", atestou a imprensa. Jardim Em outubro de 1962 Gen- ciano Fernandes da Luz e o engenheiro Alcyr Meira assi- naram a escritura de cor um grande terreno corn frentes para a avenida Gentil Bitten- court e a Independencia (atu- al Magalhaes Barata), onde funcionara a Fabrica de Cer- veja Paraense, mas que estava abandonado. Ali iria surgir o Jardim Independencia, corn 200 lotes "para construg6es re- sidenciais de primeira classes, que serao vendidos em trinta prestac6es mensais". Tres ala- medas cortariam a area, home- nageando o jornalista e profes- sor Paulo Maranhao, o empre- srio Jose Faciola e o engenhei- ro Lucio Amaral. Os compradores dos lotes 6 que ficariam responsaveis pelos servings de urbanizacao do loteamento, incluindo mei- os-fios, pavimentaiao do lei- to das alamedas, abastecimen- to de Agua, esgotos e posters de iluminaq'o. " 4rf, O ESTIGMABARBALHO Prezado Licio, Sobre a materia de capa da Agen- da Amaz6nica no 25, de set/01, desejo fazer alguns comentirios: nota-se, ap6s deflagrada a 'des- bragada campanha' da imprensa con- tra o SenadorJader Barbalho, uma in- questionivel condescendencia de sua parte, quando se trata de assunto re- lacionado corn esse parlamentar. O verbo no condicional tern sido a mar- ca registrada. Outrora, ojoralista era mais pragmatico e objetivo nas suas avaliaq6es. Nao venha me dizer que, hoje, voce integra o terpo que 'aguar- da a evolucao dos acontecimentos'. Ora, se temos a metade da histdria, e sinal que ela existe; nao concordo com a assertive de que o Senador Jader Barbalho fez oposifao ao regime military, ainda que assim ele se apresente, hoje, nos seus pronunciamentos dema- g6gicos na imprensa escrita, falada e no plenario do Congresso. Ate porque e voce quem informa - na fase estudantil ele fazia sauda- cao ao Coronel Passarinho, chefe da quartelada no Para, obviamente ja antevendo os favors do poder. A este tipo de agao costuma-se cha- mar de oportunismo. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA Tenho me esforqado para transformer Ja- der Barbalho em um tema suscetivel a tra- tamento 16gico, racional, analitico, objeti- vo. Essa perspective 6 um desafio inclusive para mim. Faco porte, como membro um pouco mais jovem, do gerac6o do ex-sena- dor, daquele grupo de cepeceanos que es- tavam ao lodo dele quando assumiu a pre- sid6ncia do Centro Civico Honorato Filguei- ras e se tornaram seu apparatchick quando ocupou o governor pela primeira vez, em 1983. Convidado pelo pr6prio Jader a in- tegrar o staff estadual, recusei. Meu lugar continuaria a ser na imprensa. E no critical. E o que tenho procurado fazer at6 hoje. Acho injusto o leitor me incluir entire os "mu- ristas", que aguardam o desfecho da sorte do ex-governador para se decidir a atac6- lo abertamente ou carreg6-lo no colo. H6 v6rios meses o Jornal Pessoal (e at6 mesmo a Agenda, com outra diretriz editorial) vem se ocupando de Jader, com seguidas ma- t6rias de capa. Impropriamente, a meu ver, o leitor interpret como condescen- d6ncia a opg6o que fiz de mostrar tam- b6m o outro lado da briga, onde nao est6 o mocinho, como ele se intitula, mas pessoas ou instituic6es t6o ou mais noci- vas do que o lider do PMDB. Os pecados de Jader, at6 h6 pouco exube- rontemente divulgados pela grande impren- sa national, e por mim j6 apontados tantos anos atr6s,com o risco que os jomalistas in- vestigativos n6o correm mais, continual a OUTUBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 11 ser tratados como tal no JP e nesta Agenda, tanto quanto os omitidos ou ignorados pe- cados dos seus advers6rios. Claro que mi- nhas pobres publicac6es nao fazem o con- tracanto ao coro esmagador, mas delimitam o compo das muitas vozes, nenhuma dos quais faz o solil6quio do verdade. Aqui, h6 orgumento a favor e contra Jader, noo s6 a favor e nem s6 contra (a realidade 6 muito mais complex do que admitem os catecismos politicos, filos6ficos, ideol6gicos ou morais). Tanto que o leitor usa esta pu- blicaqoo como argument contra o discur- so de combatente do ditadura assumido pelo ex-senador, discurso que aqui nunca foi endossado. Jader foi um opositor popu- lista do regime, ora batendo mais forte, ora mais froco, ora compondo interesses, como 6 do essencia e do mec6nico do populis- mo. Por isso, nunca deixou o PMDB, antes MDB ou Modebra. No poder, usou o povo como instrument de bargonha para ficar n6o s6 com a ca- neta usado nos atos oficiais, mas tamb6m com a have do cofre do er6rio. No uso, como j6 mostrei 6 larga, abusou. E agora paga pelo que fez, pelo que n6o fez e pelo que dizem que fez. Ao menos agora est6 pagando, algo raro para seus h6bitos. Mas 6 s6 ele o pecador? S6 seus pecados me- recem uma campanha como a que a gran- de midio armou para ele e agoro, desfeita a tenda, parece ter sido remetida ao ar- quivo morto? Depois de Jader, que venham os outros como ele e n6o hajo mais po- liticos assim (utopia?). Se reler os Gltimos 10 ou 15 JP, talvez o leitor concorde comigo. Se noo concor- dar, tudo bem. Cada um ficar6 com seu ponto de vista e a sociedade que decide com quem est6 a razdo. Talvez ela esteja corn ambos e o leitor nao haja percebido isso claramente. O niimero anterior era para ser o ultimo da exist&ncia da Agenda Amaz6nica. Mas como um pai faz tudo pela vida do seu filho, aqui estou eu buscando oxigenio para minha frigil publicacao. Mais este numero alcanca a vida. Seu prolongamento vai defender do leitor, exclusivamente. O que ele pode fazer? Divulgar este mensario, comprar mais de um exemplar e distribui-lo. Sacrificar-se um pouco e ir a banca mais pr6xima ou mais facil de encontrar. Se a circulago nao melhorar, terei que aceitar entregar este filho muito amado na pedra do sacrificio. Mas sem a dor de consciencia de nao haver feito por ele todo o possivel. E um pouco do impossivel tambem. PUBLICIDADE Ariqueza e a originalidade do Cirio advem da combina- ao de sua face religiosa corn a dimensio profana, nem sempre dissociaveis ou claramente identificaveis. Como m quase toda festa popular, o religioso pode servir de conduto ou disfarce para as necessidades seculares, num sincre- tismo as vezes extremamente sutil, quando nio malicioso. Nao por acaso, algumas rebeli6es populares foram precedidas de uma festa religiosa, tomada como salvaguarda para a concentracio dos insurgentes, como na Cabanagem. De outra maneira, seri- am reprimidos no nascedouro. Na maior da festa religiosa da Amazonia (tambem do pals e, sem excess de patriotada, das maiores do mundo), esse hi- bridismo pode ser visualizado no .. _ moment em que a imagem de Nossa Senhora de Nazare chega a basilia que leva o seu nome (e, agora, ao conjunto arquitetonico de gosto duvidoso), na culmina- ~io da procissao do Cirio, enquan- to os atividades no arraial ji sao intensas. De um lado, a berlinda. Ao fundo, a roda-gigante em mo- vimento. Elementos de demarca- gao difusa de uma manifestagao popular complex. Ate alguns anos, esse lado pro- fano era simbolizado pelo Teatro Variedades, criado por Felix Rocque, pai do jornalista e historiador Car- los Rocque, que tambem associaria seu nome ao Cirio atraves da pro- cissao fluvial da vespera, sua feliz inspiragao. O pai equivaleu, para n6s, ao Carlos Manga do Rio deJa- neiro. A festa no largo de Nazare nao teria graca sem os espetacu- los que ele importava, mesmo que nao fossem exatamente comr pariveis aos shows de Manga no Copacabana Palace. No Cirio de 1945, as apresentag6es eram feitas simulta- neamente no Moderno e no Coliseu, cor nuimeros para todos os gostos e "um pouco de tudo". O nome dos artists sempre complementados por um titulo bombastico. Carlos Gil era "o Carmen Miranda". Ja Araujo e Ze Gamela formavam "a dupla que nao deixa ninguem ficar serio". Carmen Pinto era "a sam- bista-atracao". Nem sempre o titulo correspondia a verdade, mas esse era um detalhe irrelevant. O que interessava era a fantasia. Estendida aos artists locais, tambem patrocinados. O Teatro Variedades de 1957 nao tinha mais Felix Rocque , Teatro VARIEDADES - Doming Di 13 Domingo SAs 20 e 22 hours , .,,* gA . --r t ,- /* J j -. ..... ..I ;.. ..i . t A. 4 W, I CLAa)k A PUrf 4.4-0. N T. I "..- m . I* 4-4*, 4 4.4 *. IT -. .. ... - r-fs* ~ - *fna pa--u-w^ -- - :: r .r ........ ., - w4 1T -T | -- o I x -i--i & .. .. ': (4 e fora deslocado para a lateral do Moderno, a inica digamos assim - casa de espeticulos usada. La es- tava a apetitosa foto de Mirim Do- lores, "as mais belas pernas de 1955, la vedete do Teatro Carlos Go- mes", como a de Mara Abrantes, "a 'Marlyn Monroe' em negative, grande atracao dos palcos e boites cariocas. Todos os artists haviam viajado pela Paraense Transportes Aereos, inaugurando sua linha de passageiros Rio-Belem. Em 1958 era Lucio Mauro, ainda em plena atividade, que vinha para apresentar "Ou vai ou racha", pela Companhia de Revistas Valen- ga Filho, corn 25 artists e 12 garo- tas, entire as quais a maior atragao era a vedete Lolita Batista. Isso tudo em vesperal, is quatro da tarde. Faz tempo, naquele tempo. O r. t-,Tr.-Sa FELUx I-OCQUF n;wn.l noa-. qarai- pEcl S t s "'W 9 A. D A i C re .. ..- u V.' SM O D E R NO co" Iw E U - Wul|- aNl o lM" H-lai-- oltr* M.-II As. 2u hora. -- P (%Ft ": A Ic.'On ra de lvrilu N (I V A E 5 T U L I A C UM FVA STACHIN'O "A al fabeto' Continua Aoresntando An a b .BOMBA ATOMICA- 1-- 44145, I I 4 i, ..i 4 4 u '" I '.~LYJ.- Z rLi.E II L.. I l* I II ,- 1+1 I2i M 1 4 F VA 4 i I T.. A 1"1. a I.40 4I. 4I.. a %4 ,~I*s..*-, .,*I .4 i' AI I rl. Y ,.,l. .1 4 .- li S44-r. Jil ,I*4.4l A4 ,l.i r l AP.. 4 i A'I ..A. 4 -5a. 4.' i m ll4 u. I V-d Ir. : r'I l' E II. A ' i-4 .1 .I. ii. I ,a rI 0 llrl ,0~.4 4* irl.l l *.N I ( ' 444,l ; ..!AjLtA. li. .AIo n44. l f I .. 4i K.l [ t rI l'.. 1 .l.* , : I. Al i;u.. -I.r- ,,,. .l I*. l ..4 |.h.fl *.1 L 1 @ Cdnturid Lf1 A o"NO P6de Ser" ... . ..C !: .. I -- ... IS.0 0. . 9, V _ I &iY-2 Hagonais Ern Agenda Axnaz6nica Travessa Benjamin Constant, 845/203 Bel6m Par6/66.053 040 e-mail: iornal@amazon.com.br- Fones: 241 7626 Editorac6o/ilustraq6es: LuizAFPinto |
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