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Agenda amazônica
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 Material Information
Title: Agenda amazônica
Physical Description: v. : ill. ; 33 cm.
Language: Portuguese
Publisher: Agenda Amazônica
Place of Publication: Belém, PA
Publication Date: 1999-
Frequency: monthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note: Title from caption.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification: lcc - F2546 .A26
System ID: AA00005009:00025

Full Text






arna onica
ANO III N 25 SETEMBRO DE 2001 R$ 3,00 L u F I v i Fl vio P into







de um

ciclo?

Jarbas Passarinho e Jader
Barbalho foram os politicos
mais influences no segunda
metade do seculo XX no Pard. A
participagao de Passarinho
Schegou ao fim. A de Jader, ainda
.tem mais um capitulo pela frente?
Ele caiu da posigao de um dos homes
mais fortes da RepOblica para a de
politico proscrito da cena national.
Conseguir6 ressuscitar na political paraense?
N nguem, no inicio do ano, podia imaginar o que acon- Um dos homes fortes da Republica em fevereiro, o ex-go-
teceu no iltimo dia 9: Jader Barbalho ausentando-se vernador do Para estava tao estigmatizado em setembro que pre-
voluntariamente da conveniao national que escolheu feriu permanecer em Belem a se desgastar ainda mais como uma
o novo president do PMDB, cargo que ele havia ocupado ati fonte de polemicas e conflitos em Brasilia. Exatamente quando o
recentemente, acumulando-o corn a presidencia do Senado e do seu partido, o unico que teve em toda a sua carreira political, ja
poder legislative, o terceiro na hierarquia do poder. cor 35 anos (primeiramente sob a sigla de MDB), dava um pass






decisive para a pr6xima eleigao geral, de 2002. No inicio de 2001,
Jader chegou a ser apontado como candidate potential a vice-
presidente, ou quem sabe, ate, president do Brasil.
A estrela de Jader Fontenele Barbalho no universe politico
do pais se apagou de vez? Sete meses depois que ele realizou a
facanha de se eleger president do Senado contra a vontade do
seu antecessor, o todo-poderoso Antonio Carlos Magalhies, sao
crescentes as respostas positivas a essa pergunta. A maioria das
pessoas consultadas nas pesquisas de opiniio acha que Jader 6
culpado dos crimes que, em campanha maci;a, a grande im-
prensa brasileira Ihe atribui. Por isso deve ser cassado, o que
s6 nao aconteceri se renunciar antes da instauraiao de um pro-
cesso formal contra ele no Senado.
A renincia sera a admissao tacita das acusacoes e o reco-
nhecimento da improbidade no trato do dinheiro public, a ca-
racteristica marcante da sua imagem junto a sociedade. O ex-
ministro ate poderia conseguir eleger-se novamente senador, mas
seria recebido no parlamento como um reprobo. E novamente a
opiniao public poderia ser mobilizada contra ele, mesmo que
jamais a imprensa possa restabelecer uma ofensiva tao macica e
ostensiva quanto a atual, talvez a maior da hist6ria do jornalis-
mo contemporaneo no Brasil.
A condenaiao s6 nao e definitive porque Jader Barbalho
ainda se recusa a seguir o caminho que lhe indicam, o da said
de emergencia. A desbragada campanha contra ele nos princi-
pais jornais, revistas e emissoras de radio e televisao esta aca-
bando por ajuda-lo um pouco, ao apresentar denuncias incon-
sistentes, tomando como provas definitivas fatos e situa6oes que
sio apenas indicios de culpa, a metade da hist6ria e nio o enre-
do complete. Empenhada em provocar um desfecho mais rapi-
do da situacio, a imprensa deixa um rastro de imprecisao e exa-
geros pelo qual o president licenciado do Senado se lanca, de-
senvolvendo seus arguments de defesa.
Mas s6 havera future para Jader Barbalho no cenario poli-
tico national se ele, alem de resistir ao combat junto a opiniao
p'blica e aos procedimentos contra ele estabelecidos na justi'a,
no Ministerio Publico e em 6rglos do executive, conseguir de-
monstrar que todos os ataques foram orquestrados e tem a mes-
ma mi-f~, uma inspiraiao escusa e um prop6sito desonesto. Ou
seja: que foi injusticado. Que e essencialmente inocente.
Tal faqanha esta nos limits do possivel? Mais factivel 6
supor que, ao menos por enquanto, Jader Barbalho deixara de
ser um nome da linha de frente do poder no Brasil, um interlo-
cutor necessario para as decis6es mais importantes, retornando
ao seu papel secundario anterior. Mas ele conseguira reconquis-
tar a posiiao que foi inquestionavelmente sua na political para-
ense? Jader pode voltar a ser o nuimero um do poder no Para? A
derrota de 2000 para Almir Gabriel foi apenas um acidente de
percurso ou demarcou o terreno, tornando-o um plano inclina-
do em relacio aos objetivos do lider do PMDB? Ele seguira nes-
sa inclinaiao rumo ao ocaso?
Boa parte da opiniio piblica no Para se divide passional-
mente nessa avaliaiao. Aproximadamente um quarto do eleito-
rado estadual parece nao ter duivida de que o ex-governador re-
conquistara uma posiqCo que seria sua, considerada ate mesmo


natural na partilha do poder lo-
cal. Sao aqueles que continua-
rio sendo Jader Barbalho inde-
pendentemente do que ele fi-
zer ou do que dele falarem,
como foram adhemaristas em
Sao Paulo os que seguiram
Adhemar de Barros ate o fim.
Uma fatia equivalent, ou um
pouco maior do que esse con-
tingente barbalbista, quer que,
enfim, a era Jader Barbalho
chegue ao fim. Um tergo ou
pouco mais do espectro aguar-
da a evolugao dos aconteci-
mentos, sem posigio firmada.
Ou em cima do muro, poden-
do pegar as pedras da agressio
ou os louros da consagragio.
Na hora de fazer um
progn6stico mais consistent
verifica-se a ausencia de in-
formacqes atualizadas sobre


Passarinho
cometeu
alguns errors
prim6rios,
mas ndo foi acusado
de enriquecimento
il/cito como J6der.
Porem foram
liderannas positives
para o Estado?


o estado da opiniao puiblica paraense. Tradicionalmente o
exercicio do poder no Parai plebiscitario, na base do tudo
ou nada, da division frontal, do sectarismo e, por conseqiiUn-
cia, da falta de uma instancia arbitral, analitica, objetiva. Faz-
se muita political, mas estuda-se pouco a political. E as institui-
c6es do saber, como as universidades, se alheiam da realidade,
do dia-a-dia, das pessoas e dos seus atos.
Neste moment crucial da vida political, um observador 6
tentado a fazer analises comparativas para tentar ver um pouco
alem da mecanica cotidiana, enxergando os elements de persis-
tencia e continuidade na n6voa do fogo-fatuo e da fumaca seca.
Estara mesmo se consumando um ciclo da political paraense, que
se seguiu ao desaparecimento de Magalhaes Barata, o vertice do
que aconteceu no Estado entire 1930 e 1959?
Na verdade, a presence de Barata continuou intense mes-
mo depois da sua morte, no exercicio do cargo de governador.
Surgido do golpe military de 1964, o coronel Jarbas Goncalves
Passarinho deveria selar o fim do baratismo. Ele tinha poderes
assemelhados aos do tenente de 1930, que tambem chegara ao
poder com prop6sitos reformistas, mas ajustara seu nasserismo
ao exercicio do poder nos anos seguintes, deixando de lado os
temas para privilegiar os interesses. Foi essa marginalia baratista
o que o cesarista Passarinho encontrou quando assumiu o gover-
no, em junho de 1964, perseguindo bicheiros contrabandistas,
duas laranjas do pomar das delicias pessedistas (do velho PSD),
como hoje se diria.
Mas ele deve ter percebido que uma ruptura radical era
impossivel, ate mesmo porque faltavam quadros aos novos do-
nos do poder e algumas engrenagens s6 podiam ser movimenta-
das por aqueles que ja detinham know-how a respeito. Alguns ba-
ratistas foram preservados e certos canals foram mantidos aber-
tos para um entendimento de bastidores. Nao surpreende, as-


2 SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA






sim, que uma terceira geracio de seguidores de Barata, ji incor-
porada a uma frente de oposi io ao novo regime, tenha conse-
guido certo entendimento cor os revolucionarios no period
de paz armada, de 1964-68.
E o que explica a saudaqao ao governador Passarinho feita
pelo lider estudantilJader Barbalho, filho do deputado baratista
(cassado quatro anos depois) Laercio Barbalho, na inaugural
do Colegio Augusto Meira, em 1965. Havia uma diferenra de
idade de 25 anos entire os dois. Passarinho ji era official reforma-
do do Exercito eJader trocaria no ano seguinte a political estu-
dantil pela political partidaria, evoluindo no campo da oposiaio
ao regime military.
Em 1982 Jader parecia ter dado o golpe de mestre em
Passarinho, derrotando o candidate dele ao governor do Esta-
do, Oziel Carneiro, e impondo-lhe a primeira derrota electoral,
com ela interrompendo sua carreira no Senado. Dois fatores
foram fundamentals para essa vit6ria: o uso da maquina official
do Estado, cedida por Alacid Nunes, que rompera de vez corn
o governor federal, sem um motivo sequer, politico ou ideol6-
gico, que o distinguisse do regime military; e a utilizacio de um
mote de campanha, de que Passarinho se isolara em Brasilia,
deixando o Para entregue a pr6pria sorte, o minerio de ferro
de Carajis saindo pelo Maranhao.
O arremate dessa estrategia sagaz veio poucos meses depois
deJader se tornar um dos primeiros governadores oposicionistas
no Brasil ainda controlado pelos militares, dois anos antes de se
consumer a abertura idealizada pelo general Golbery do Couto e
Silva, corn a entrega da presidencia da Republica aos civis (previs-
ta para Tancredo Neves, acabaria corn Jose Sarney). Para nio dei-
xar seu patrono eleitoral se tornar uma eminencia parda do seu
governor, mal se assentou na cadeira de governadorJader tratou
de se livrar dos alacidistas, encontrando um pretexto (a escolha de
Tancredo Neves como candidate do partido) para despachar seus
incomodos aliados. E neste aspect o golpe foi de uma eficiencia
cirurgica: Alacid Nunes deixou de contar para valer na political
paraense. Uma trama de dar inveja a Shakespeare.
Mesmo cor uma administraiao ca6tica, cheia de infiltra-
F6es e vazamentos, que sao explorados ate hoje, Jader Barbalho
podia ter elegido quem quisesse como seu successor em 1986,
quando mandava e desmandava no Para (os desmandos se tor-
naram letais agora, quando ecoados intensamente no palco na-
cional). Escolheu Helio Gueiros, um baratista da segunda gera-
cao, ponte entire o caudilho e os que o seguiram sem ter um
contato direto cor ele, apenas ensinamentos de terceira mao.
Gueiros nem precisou fazer campanha para se eleger, na reedi-
cao da pratica dos carcomidos que os revolucionarios de 30 imagi-
naram eliminar dos costumes nacionais.
Uma vez no poder, Helio Gueiros quis nele permanecer
atraves de um candidate inpectore, o medico Henry Kayath,
outro baratista da segunda geraiao. Mas Jader sabia que tal es-
quema significaria o seu fim, mesmo que Gueiros e Kayath lhe
fizessem todas as juras possiveis e imaginiveis de fidelidade e
amizade. Tratou de inviabilizar a candidatura do entio supe-
rintendente da Sudam (por ele colocado no cargo), em mais
uma ardilosa trama de bastidores.


Sem o seu candidate preferido e despojado de sua estrate-
gia de combat, Helio Gueiros recorreu ao ex-prefeito Sahid
Xerfan e a uma guerra total contra Jader. Na undecima hora da
campanha eleitoral de 1990, porem, pode ter falado mais alto o
espirito corporativo do velho PSD. Uns poucos observadores
ainda acham que o apoio de Gueiros podia ter sido maior nos
moments finals da campanha, engendrando uma serie de inter-
pretao6es sobre o comportamento dubio do entao governador,
tambem despejado da arvore do poder uma decada depois.
Alcangado pelos morteiros anti-corrupcio da refrega elei-
toral, foi entao que Jader comeqou a se aproximar do seu ex-
inimigo Jarbas Passarinho para traze-lo de volta i ribalta. Assu-
miu o papel de tutor de Passarinho, quando o ex-ministro estava
completamente envolvido cor a grave doenga da mulher, que
viria a morrer. "Trate de dona Ruth que eu trato dos votos", foi
a frase de Jader, que se tornaria celebre na ocasiio.
Teria sido um neg6cio como o que Fausto fez para con-
seguir a eterna juventude? Mais um mandate de senador foi o
preco que Passarinho aceitou pagar para ficar i mercer do seu
ex-adversario, emoprestando-lhe sua imagem de honradez? Se
nio foi uma decisao consciente, foi o resultado concrete da
relaio. Nesse moment, o home que se tornara a maior li-
deranqa political do regime military se transformou em lideran-
ca auxiliar do centro gravitacional de Jader Barbalho, seu apa-
rente oposto. Mesmo reagindo ao convite-intimag o, Passari-
nho nao p6de deixar de sair candidate ao governor do Estado
em 1996, sofrendo sua ultima derrota, que antecipou o fim de
sua carreira political.
Hoje a margem do p61o decis6rio, talvez reste como con-
solo ao outrora poderoso Passarinho ver sua biografia resistir
ao tempo e atravessar inc6lume a onda de revisio moralista
que ter marcado os ltimos moments da political national. A
borrasca caiu como diluvio sobre o seu tutor final, exatamente
quando ele chegou ao ponto mais alto de toda a sua trajet6ria,
dando razio ao velho ditado popular sobre o tombo maior
quando maior e a altura.
Passarinho pode ser reavaliado, hoje, como um home
public que cometeu muitos erros, alguns dos quais primarios,
mas em quem nao colou nenhuma acusaqio de improbidade
pessoal, de enriquecimento ilicito, a base do eririo, como as nu-
merosas pechas atiradas contra Jader Barbalho. Tirando essa sen-
sivel diferenca, entretanto, resta uma pergunta a procura da res-
posta satisfatoria: os dois homes mais influentes na segunda
metade do seculo XX no Para foram liderancas positivas para o
Estado? O balango de suas atuac6es, no piano especifico dos
interesses estaduais (ou mesmo regionais), foi positive? A ex-
cepcional influencia que eles tiveram na esfera federal foi exer-
cida em beneficio das mais elevadas causes paraenses?
Quanto a Passarinho, ja da para fazer uma avaliag o defi-
nitiva. Quanto a Jader, a resposta a essas demands ainda vai
defender de uma outra definiio: o ciclo da sua presenpa hege-
monica na political paraense acompanhou o eclipse da sua parti-
cipa~o national? Ou ainda hi um novo capituloJader Barbalho
na hist6ria political do Para?
Quem quiser uma prenda que conte o conto.


SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 3






DESMATAMENTO


Aval a


destrui ao


Hi exatamente 35 anos nascia a cidade de Xinguara, 700
quilometros ao sul de Belem, num estrategico entroncamento
de estradas de penetracio a algumas das areas mais valiosas do
Para, o segundo maior Estado brasileiro, cor 1,2 milhao de qui-
l6metros quadrados, 15% do territ6rio national. Xinguara sur-
giu como "a capital do mogno", por possuir em abundancia a
mais valiosa das tres mil especies de arvores da Amazonia.
Dizia-se que naquela regilo havia mogno de nunca mais
acabar. De la chegaram a sair dois terqos do mogno produzido
no Brasil, que se tornou o maior produtor mundial dessa madei-
ra, dono da mais important de todas as reserves dessa esp6cie
vegetal. Um metro cubico exportado podia valer mais de 800
d6lares. Num period de 20 anos foram exportados, segundo
registros oficiais, 3,3 milh6es de metros cubicos de madeira ser-
rada. Rendimento superior a 2,5 bilh6es de d6lares em duas de-
cadas, US$ 130 milh6es ao ano.
Hoje, nao ha mais um inico pe de arvore native de mog-
no em toda a regiao de influencia de Xinguara. As serrarias
remanescentes no local que quiserem usar mogno precisam
ir buscar a materia prima a mais de 600 quil6metros de dis-
tancia. Ficou mais economic se mudar de vez para onde es-
tio as ultimas concentrates da margem direita do rio Ama-
zonas, em territ6rio paraense, mais para oeste, entire os vales
do Xingu e do Tapaj6s.
Ao contririo do que aconteceu no Araguaia-Tocantins,
entire as decadas de 60 e 80 do seculo passado, porem, nessa
nova frente pioneira a presence governmental e minima ou pra-
ticamente nula. Os madeireiros e fazendeiros ali que estio se
instalando ja abriram mais de 500 quilometros de estrada seme-
lhante a BR-163, a Cuiaba-Santarem, em precirias condices de
trafego a partir do seu km 800, quando entra no Para, o Iltimo
traqo da presenca federal naqueles rinc6es.
Outras centenas de quilometros de ramais levam ao interi-
or da mata, onde se multiplicam as clareiras abertas para a extra-
~io de mogno. No verao, todos os dias dezenas de caminh6es
cruzam a divisa entire o Para e o Mato Grosso carregando cente-
nas de metros cubicos de mogno, retirado ilicitamente de terras
devolutas publicas ou de reserves indigenas e comercializado
geralmente sem o pagamento de imposto. Dentro de alguns anos
ocorreri no Xingu/Tapaj6s o que ji aconteceu no Araguaia-To-
cantins: a arvore native desapareceri de todo.
Claro, ha algumas tentativas de manuteniao da especie
ameacada. Visitantes apressados podem ate se impressionar com
certos experiments que grupos madeireiros estio fazendo e
costumam apresentar como a contraprova ao esfor9o de incluir


o mogno no apendice II do Cites (Convenaio sobre o comercio
international de especies silvestres da fauna e flora). O que sig-
nificaria reconhecer a ameaqa de extingao da especie e a necessi-
dade de ser protegida por esforqo international. Os mercados
consumidores s6 aceitariam receber madeira de areas maneja-
das, o que, hoje, nao existe.
Mas nenhum tecnico de credibilidade dara o seu aval a es-
ses plantios. Sao tantos os problems ja detectados, sobretudo
por causa das condiqdes hostis a propagacio e consolidaaio das
sementes, que, por enquanto, as iniciativas nao passam de ensai-
os experimentais mesmo. Respostas is duvidas suscitadas ainda
terao que esperar pela maturaqao dos plantios e por observa-
56es mais sistemiticas no interior da floresta.
O que se sabe e que para se poder fazer um segundo corte
de mogno numa area original seria precise esperar pelo menos
um seculo. Durante esse tempo, o lugar teria que permanecer sob
absolute descanso para que a especie pudesse se regenerar. Algo
inviavel numa Amazonia em que a taxa minima de desmatamento,
hi quatro decadas, ter sido de 10 mil quil6metros quadrados a
cada ano, por pressao de quem ja esta na regilo e quer aumentar
sua produqio e de quem acaba de chegar, nos incessantes fluxos
migrat6rios, inviabilizando uma morat6ria amaz6nica.
Mas nio valia a pena reduzir a ofensiva sobre os ultimos
refugios de mogno para tentar assegurar a perenidade da espe-
cie e uma exploraq~o mais racional no future? No raciocinio
l6gico, no calculo economic e na analise do custo/beneficio, e
6bvio que sim. Mas ainda e intense a tentaiao no mercado por
um m6vel ou um painel de mogno. Quem teve o privilegio de
ver uma arvore de mogno na mata, ou sob a forma de uma mer-
cadoria qualquer, hi de suspirar de saudade ou se estarrecer de
preocupag~o cor a perspective do desaparecimento de vez da
especie no pais que tinha tudo para ser o seu maior produtor e
depositario por muito tempo mais, ou para sempre, se desenvol-
vimento sustentavel ji fosse mais do que um r6tulo.
O mogno e um raro present da natureza. Arvore de gran-
de altura e porte ereto, pode ser cortada e transformada em
mobilia sem precisar levar uma demao de tinta, que, se for pas-
sada sobre sua superficie, significara condenivel heresia, detes-
tivel falta de gosto e sensibilidade. Resiste aos piores fungos e
parasitas. Suas propriedades fisicas e mecanicas permitem uma
diversidade de usos, sempre nobres. Por que transformi-la em
dominio de antiguidades, em museu da natureza?
E o que me tenho perguntado. Fui uma das testemunhas
da inauguraiao de Xinguara e ouvi os discursos inspirados na
rela~io entire o rio Nilo e o Egito, sabida dos mais remotos ban-
cos escolares. Assim seria o mogno para a nova cidade. O mun-
do aprenderia tambem que a nova cidade era a capital do mog-
no. Mas o titulo durou pouco. Os pioneiros, que haviam desbra-
vado a mata considerada hostile, uma vez extraido o seu mais
valioso patrim6nio, faziam sua avalia~io rudimentar e chegavam
a conclusio de que o remanescente vegetal nao compensaria
deixa-lo como estava. Punham entio tudo abaixo para former
past, atras do qual vinha (ou nio) o rebanho bovino e uma
cultural estranha aquele mundo antes dominado pela floresta. Esse
mundo original, o mundo da floresta amazonica, era rapidamente


4 SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA





substituido pelo universe trazido pelo colonizador. Seus terms
de referencia ja nio incluiam matas nativas, de hi muito supri-
midas por ocupa6es muito mais antigas do que as da nova ter-
ra, neste Brasil que firmou sua tradigao comegando por destruir
a propria irvore que Ihe deu o nome.
No meio daqueles discursos de palanque official jamais
imagine que ainda testemunharia a extinio de uma irvore tio
nobre, tio exuberantemente preciosa. Ja vi isso ocorrer no mal-
tratado vale do Araguaia-Tocantins, no curso da juventude. Na
alta maturidade, testemunho a repetiio do fenomeno mais para
oeste, no rastro de destruigio que partiu da costa atlantica e
chegara nos pr6ximos anos para os lados do Pacifico. Arrastara
consigo a essencia do ser amazonico, esse equilibrio unico pro-
cessado pela natureza no ciclo fechado que a agua e o sol man-
tem cor a floresta, produzindo maravilhas como o mogno.


Para reverter esse process letal, seria precise mudar a
cabeqa de quem decide sobre a Amaz6nia sem conhece-la, de
quem a ela chega cor uma mentalidade externa e de defi-
nitivo estranho. Seria precise escrever um c6digo de leis como
o florestal, produzido no dificil diilogo entire o governor e a
sociedade civil, que resultou numa Medida Provis6ria de res-
guardo do centro nevrilgico da base triangular (agua-sol-flo-
resta) de sustentaqio da Amaz6nia. C6digo que esta agora
ameaqado pela emenda Micheletto, um aval ao prosseguimen-
to da derrubada da mata native amazonica, ja sangrada em
profundidade, e o grito de morte as suas mais cobiqadas cri-
a6oes, como o mogno.
Resta agora apenas saber quem dita as regras do jogo
na maior fronteira de recursos naturais do planet: Behemo-
th ou Leviata.


SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA 5


SEEMRO201 AENA MAONCA-


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HISTORIC


O Par


segundo


a obra de


Benedicto


& Maiorana


No dia 6, O Liberal deu inicio a um dos maiores en-
godos editorials dos ultimos anos. Nesse dia, o journal de
maior circulaqao no norte do pais trouxe encartado o pri-
meiro fasciculo de uma hist6ria do Para escrita pelo ficci-
onista Benedicto Monteiro, a se prolongar por outras 14
edic6es. O sucesso do lancamento teria sido retumbante,
comemorou o journal no dia seguinte, garantindo que o fas-
ciculo se esgotara. Em varias bancas, entretanto, ainda ha-
via nos dias seguintes exemplares da publicag~o. Quem
quisesse, podia compri-la.
Devia, porem, adquiri-la? Cada fasciculo custa 4,50 re-
ais. A coleiao toda, corn 15 fasciculos, saira por R$ 67,70.
Acrescentando a esse preco os R$ 1,70 do journal, serao mais
R$ 25,50. Valor final: R$ 93,00. Ou seja: praticamente meio
salario minimo. E um preco exorbitante, abusive. Se o pri-
meiro fasciculo, com 24 piginas, serve de padrio para as 14
edic6es que se lhe seguirao, a hist6ria toda tera 360 paginas.
O numero de paginas ja contrast cor o preco da coleqio,
nio se ter, rigorosamente, de 360 paginas.
0 texto do autor propriamente dito comega na pagina 9
e vai a 23, 14 piginas em 24. Mas o texto nao vai alem de um
tergo dessas 14 piginas, ocupadas em sua maior parte por ilus-
trag6es, titulos e "olhos". Para quem se interessa pelo conteu-
do, ha ainda outra circunstancia: as letras sao graidas, des-
propositadamente grandes mesmo para uma obra didatica,
ocupando mais espaco. Sem press, li todo o texto do primei-
ro fasciculo em 15 minutes. Nada mais do que uma reporta-
gem de divulgacao de caderno cultural. Ripida e rasteira.
Para se ter uma ideia de proporiao, o Quem i quem na his-
toria do Brasil, da Editora Abril, em format apenas um pouco
menor do que o fasciculo de O Liberal, mas cor texto compac-
to, abrangendo 500 biografias em 512 paginas, custa R$ 35. Ja o
quarto, 6ltimo e mais substancioso volume da Historia da Vida


Privada no Brasil, obra coletiva publicada pela Companhia das
Letras, com capa dura, papel topprint da melhor qualidade, far-
tamente ilustrado e cor 821 paginas, custou 48 reais.
Hi um outro agravante para considerar o prego extorsivo:
a publicacio tem cinco patrocinios governoro do Estado, Maga-
zan, Unama, Castanheira e Rede/Celpa). Nao sei de quanto foi a
cota de cada patrocinador, mas e de se supor que O Liberalco-
briu todos os custos de produg~o com o dinheiro dos patrocina-
dores. A venda avulsa seria lucro liquid. Lucro, por isso, ainda
mais desmedido, abusive.
O que nao e de estranhar, tratando-se das Organizag6es
Romulo Maiorana: quando entraram na onda das fitas de video,
deram is suas o prego mais alto do mercado, mesmo tendo rece-
bido R$ 100 mil de patrocinio da prefeitura de Belem, num gesto
de claro puxa-saquismo do prefeito Edmilson Rodrigues, na epoca
flertando cor os Maiorana e aceitando seu jogo: de obter apoio
nio por sua agio administrative, mas pelo comparecimento ao
balcio de neg6cios da empresa..
Puxa-saquismo porque o criterio de selegao dos filmes era
puramente commercial, sem nenhuma preocupag~o cultural, este-
tica ou educational capaz de justificar a parceria de um ente pu-
blico. Alias, s6 em Belem essa inusitada associaqao ocorreu. No
Brasil inteiro as empresas privadas bancaram sua promogao. Nao
se atreveram ao cinismo que, aqui, se tornou rotineiro.
Por todos esses aspects, a nova promog~o do grupo Libe-
ral e mais tema de Procon do que de academias cientificas. Mas
hi uma outra dimensao sofrivel: a qualidade do produto. Ro-
mancista de um grande livro, o Verde vagomundo, prolongado cor
insuficiencias no romance seguinte, Minossauro, Benedicto Mon-
teiro tentou extrair novas riquezas de uma fonte que se esgotou.
Seus livros de ficg~o posteriores sao um pastiche do pr6prio au-
tor ou frustradas tentativas de explorer novos veios, que inexisti-
am.
Benedicto enveredou entao pela hist6ria. Mesmo sem for-
magco academica ou uma especializag~o especifica, ele podia, cor
sua sensibilidade, dar uma contribuiqio positive a um setor tao
desfalcado de obras de referencia. Mas o primeiro fasciculo 6
uma decepgio. Repete os mesmos esquemas mecanicos e insos-
sos das obras didaticas e de divulgaqio.
A hist6ria e uma sucessao de epis6dios sem encadeamento,
de lugares comuns e cliches, da falta de uma verdadeira perspec-
tiva hist6rica, capaz de permitir o entendimento de cada 6poca
no que ela foi, nao de um ponto de vista horizontal, que modela
o passado pelo entendimento que temos atualmente. A falha ja
comega no titulo do fasciculo, que promete estudar "a insergao
do Para no cenario europeu", sem dizer uma linha sobre o con-
texto europeu, nem definir o Para da epoca.
E completamente errado (ou a-hist6rico) dizer que no
seculo XVII, a epoca do "descobrimento" da Amaz6nia, "o
Estado do Para incluia todo o territ6rio amazonico, desco-
berto e conquistado da foz do Amazonas ate o extremo-oes-
te" O que havia entao era o Estado do Maranhao, ao qual se
incorporaria e, depois, se desanexaria o Grao-Park.


6 SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA






A linguagem do autor nao e a linguagem de um histori-
ador quando ele diz que, atendendo ao projeto colonial por-
tugues, surgem na regiao "novas igrejas", como os francisca-
nos, os jesuitas, os carmelitas ou os capuchos. Sao ordens,
evidentemente, e nao igrejas, entidades pluralistas sob a mes-
ma organizacao central. S6 a falta de atencao e cuidado pode
explicar a afirmativa do autor de que Caldeira Castelo Branco
"construiu o fortim do Presepio, no dia 12 de janeiro de 1616".
Nem a OAS, do genro de Antonio Carlos Magalhies, se reme-
tida aquela da a epoca, conseguiria a faganha de iniciar e con-
cluir a obra em um unico dia. Bastaria a Benedicto dizer que
o fortim comeqou a ser levantado naquele dia.
O primeiro fasciculo da sua obra sugere que ele se limitou
a compilar fatos de fontes diversas, sem submeter o que apu-
rou a um teste de consistencia elementary, nem sendo minima-
mente rigoroso na bibliografia, ora impr6pria ora desatualiza-
da. A Grande Enciclopidia da Amazdnia, de Carlos Rocque, por
exemplo, nao pode servir de aval para afirmag6es em quest6es
arqueol6gicas, invariavel-
mente ji ultrapassa-
das por pesquisas
mais recentes e
A consistentes.


Mas o que se podia esperar de uma iniciativa cultural do
grupo Liberal senio mais um instrument de neg6cio? Quem
quiser uma hist6ria simples, mas abrangente e elucidativa, pode
escolher outra colegio. Em 1966 a editor Cultrix, de Sao
Paulo, langou uma Historia do Brasilem seis volumes. O pri-
meiro foi dedicado i Amazonia.
Ernani Silva Bruno escreveu esse texto sem ter vindo a re-
giao, mas entendeu seu process hist6rico melhor do que muitos
dos autores locais, o que nao chega a ser novidade (o alemao
Heinrich Handelmann produziu uma interessantissima Histdria
do Brasilno seculo XIX, com luminosas referencias amazonicas,
sem ter posto os seus pes na terra do Pau Brasil). Para facilitar a
compreensao do leitor, dividiu a hist6ria em periods cognitivos
(a "conquista" da historiografia conventional, como a de Bene-
dicto, virou "conquista e exploragio", para dar um exemplo).
Com didatismo mais produtivo, o que s6 6 possivel cor
tempo, aplicagFo e conhecimento, o livro e enriquecido com
um resume cronol6gico, um vocabulario regional, uma exce-
lente bibliografia e tres esmerados indices (de assuntos, de
lugares e de nomes). E uma pena que jamais tenha sido reedi-
tado. Merecia. Ernani, que conheci na redagao do extinto (e
em vias de ser ressuscitado pela familiar Marinho) Didrio de S.
Paulo, dos Diarios Associados, era um historiador a moda an-
tiga: discrete, humilde, sem grandes ambig6es, mas um ver-
dadeiro pesquisador de fatos, paciente, disciplinado e
rigoroso. Seu livro para no ciclo da crise da borra-
cha e da recomposi~io da economic regional, com
u umadendo de atualizagio para o period seguin-
te, de 1943 a era das estradas de integraqfo do
inicio da decada de 60.
", Uma empreitada de melhores conseqiien-
cias seria a republicagao desse livro, mesmo
corn seus erros (que Ernani identificara ou
para o qual foi alertado por terceiros, como
reconheceu em uma de nossas conversas de
redag~o de journal) e o patrocinio de uma con-
tinuaq~o da hist6ria ate os nossos dias, en-
tregue a quem apresentasse o melhor
projeto em um concurso puiblico de-
limitado por um bom term de re-
Sferencia. A necessidade dessa
obra e sentida por todos, in-
clusive pelos muitos que, atra-
idos por propaganda enganosa,
estao comprando gato por lebre nas
piginas de O Liberal. Nao pela
primeira vez. E, provavelmente,
nio pela ultima vez.



.--- -,- --- -----. -.


SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 7






Memona.

.do Co.tidiaino^..


Vestuario
A loja Paris Londres (tam-
bem Paris n'America), entio
uma firma de Verbicaro & Bas-
tos (agora de Bechara Mattar),
ainda resistindo imponente-
mente na Praga Visconde do
Rio Branco, na interseqeo da
rua de Santo Antonio com a
Joao Alfredo, no deteriorado
centro commercial de Belem, se
orgulhava, em anuncio do fi-
nal de 1952, de lancar sema-
nalmente "os uiltimos mode-
los em artigos confecciona-
dos", como as saias de linho
volta ao mundo. Mas em suas
belas montras e prateleiras as
damas e senhoritas elegantes
podiam encontrar vestidos
Efece, Ibe e Finostil; saias,
calkas, shorts, boleros, robes,
peignoirs, roup6es, pijamas,
maillots, manteaux, casacos,
soutiens, sueters, capas, com-
pletos de Jersey e lingerie,
combinac6es, camisolas, liseu-
ses, cintas modeladoras, meias,
luvas e muito mais.
De tudo isso, o que as mu-
lheres continuam a usar, hoje?


Eter
A direq~o
do Grande
Hotel (posto
abaixo na Pra-
a da Repuibli-
ca para em seu
lugar surgir o
Hilton Belem)
pediu a policia
para impedir
que no carnaval de 1953 fosse
impedido o uso de lanCa-per-
fume no Amazon Bar, a boate
do estabelecimento. Nao, nio
era nenhuma media moraliza-


dora (que s6 viria 11 anos de-
pois, corn o marechal Castelo
Branco): as bisnagas metilicas
estavam completamente libera-
das no Palace Theatre, tambem
do hotel, onde se realizavam as
grandes festas.
A preocupagio era cor a
saude das pessoas: como o
Amazon Room era um recin-
to fechado, o ar ficava satura-
do cor o cheiro do 6ter e corn
a fumaca dos cigarros, que se
acumulavam no salio por nio
haver nenhuma "corrente de
ar natural". Afinal, lembrava
o gerente do hotel, "todos sa-
bem que os vapores do eter,
acrescentados a fumaca de ci-
garros, formam uma especie
de envolt6rio gasoso, prejudi-
cial a saude".
Ah, sim, deve ter pensa-
do o foliao armado de lan-
ga-perfume para incremen-
tar o ziriguidum.


Tinta
Em novembro de 1965 a
SPVEA, antecessora da Su-
dam (que seria criada no ano
seguinte), aprovou empresti-
mo para a instalagSo da pri-
meira industria de tintas e ver-
nizes. A Atinco (Amaz6-
nia Tintas, Ind6stria e Co-
mercio) ja estava montan-
do sua fabrica do quilb-
metro oito da BR-316, em
Ananindeua. A Superin-
tendencia do Plano de Va-
lorizagco Economica da
Amazonia liberou para a
empresa 100 milh6es de
cruzeiros (valor da epoca),
que seriam pagos em quatro
prestagSes de Cr$ 25 milh6es,
entire 1967 e 1970, sempre no
mes de novembro, cor um


Roteiro
As colunas de journal ofereciam, para quem morava em
Belem em janeiro de 1970, um roteiro de opgSes para um
program noturno.
Entre os restaurants, a Marisqueira do Luiz, cujas lagos-
tas deixam saudade ate hoje, na avenida Senador Lemos, perto
do Cine Art (igualmente desaparecido), na Praga Brasil, corn
"otimo ambiente e uma freqiiencia das melhores", alem de con-
tar cor boate "cor excelente musica e super-refrigeraqoo".
Ja quem fosse ao Adegao, na 28 de Setembro corn a Presi-
dente Vargas, desfrutar de um churrasco "ao gosto do fregues",
podia ouvir, aos sabados e domingos, "o grande pianist Joao
Bosco Figueiredo cor um repert6rio de musicas selecionadas".
NaJardineira (Pariquis cor Alcindo Cacela), o churras-
co era danqante, espeto pra la, espeto pra ca, corn "boa musi-
ca", naturalmente. O Hotel Vanja, na Benjamin Constant, re-
servara seu quarto andar para o restaurant refrigerado e o
terreo para a boate Carimbo, onde o must era a "luz psicodeli-
ca", um ultimo grito de entao.
Entre os "night-clubs", a Shangrilla, na esquina da Angus-
tura corn a Pedro Miranda, era o "ninho do amor", movimenta-
do pelo "imperador da madrugada", Wilson Neves, e o violino
de Mario Rocha "emocionando os coraq6es romnticos".
Na Kaverna, na Senador Lemos pr6ximo i Praga Brasil, a
especialidade seria o melhor drinque da cidade e o ambiente de
"uma das casas mais pra frente de Belem". Ja a Tapera, do Biri-
ba, era "uma das casas que Belem mostra aos turistas". Eles se
esbaldavam em suas pistas de danqa (e os natives tambem, cla-
ro), na Alcindo Cacela, entire Mundurucus e Pariquis.
Mas quem nao iria mais alem, ate o Palacio dos Bares, na
Condor? La, a frente da animaqr o estava exatamente um pa-
lhaqo, o Alegria (o nome artistic de Erastos Banhos), e o res-
taurante funcionava 24 horas, "sendo o almoco geralmente ser-
vido para families e turistas". Quanto ao jantar, ah, o jantar!
Quem se importava?
Program menos agitado estava na Tic-Tac, tambem na
Alcindo Cacela, entire Independencia e GovernadorJose Mal-
cher, onde a musica era ao vivo e era boa, com Alvaro ao piano,
disposto a canjas (nao de galinha, evidentemente) ate a madru-
gada, desde que o copo nao ficasse vazio.


ano de carencia e juros anuais
de 4%. O superintendent da
SPVEA era o general Mario
de Barros Cavalcanti. O pre-
sidente da Atinco era o coro-
nel Newton Barreira (que se
tornaria vice-governador do


Estado em 1971, quando Fer-
nando Guilhon assumiu o go-
verno). Da diretoria faziam
parte Fulton de Paula, Alber-
to Pinto Leite e Fernando
Castelo Branco.
A fibrica nao existe mais.


8 SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA












Radio
Em maio de 1966 estreou na
Ridio Marajoara (na epoca dos
Diarios Associados, de Assis
Chateaubriand) o program
"Ciranda da Alegria", cor du-
ra~io de 60 minutes, escrito e
produzido por Raymundo Ma-
rio Sobral, cor o patrocinio
exclusive de Radiolux. O pon-
to alto seria a seqiiencia Brasas
& Fofocas, na qual as comedi-
antes Valeria Oliveira e Tacimar
Cantuaria interpretavam duas
comadres fofoqueiras, abordan-
do todos os temas possiveis.
Haveria ainda o Tete-a-Tete
Informal, Gira o Mundo Gira,
Cine-Bizus (dicas, para nao ini-
ciados na giria de entao) e Ao
Balanco do Ie-Ie-Ie.
O radio era uma brasa, mora.


Consulta
Em julho de 1969 o Idesp
(extinto na administration Al-
mir Gabriel) publicou edital
abrindo prazo de 15 dias para
quem quisesse impugnar a so-
licita~io feita ao governor pela
Cibrasa, a fabrica de cimento
do grupo Joao Santos em Ca-
panema, de isengao total do
Imposto de Circulacio de Mer-
cadoria (o ICMS de hoje) para
o cimento Portland comum,
que produzia.
Quem quisesse, poderia
protocolar sua impugnacio
na sede do Idesp, na aveni-
da Nazare (hoje, consorcio
das secretaries especiais do
Estado). Era uma boa prati-
ca em epoca errada (quem
teria peito para fazer a im-
pugna~io?). Agora que esta-
mos numa epoca boa, a pri-
tica nao existe: o governor


Cadillacs
Ate 1964 Belem era considerada a capital national do contrabando, introduzido e absor-
vido nos usos e costumes locais. Mas se tornou um dos alvos principals dos militares que
assumiram o poder no Para, nao s6 como meta de moralizagio, mas porque atingiria uma
das bases de sustentacio de alguns dos poderosos de ate entao.
Em novembro de 1965, um mes e meio depois de estabelecidos os novos poderosos, o
inspector da alfandega de Belem informou, em nota official, que seria admitida a regulariza-
gao fiscal "de todos os autom6veis de procedencia estrangeira, introduzidos irregularmente
no pais, desde que plaqueados ate 31 de dezembro de 1964".
O prazo para essa regularizag~o seria considerado extinto em
31 de dezembro de 1965. A partir do mes seguinte, "os automb-
veis ainda nao regularizados serao apreendidos e submetidos a
process regular para aplicagao de penalidade cabivel, inclusive a
perda do veiculo e conseqiiente venda em leilao".
0 inspector da alfandega esclarecia ainda que "mesmo
os autom6veis liberados em virtude de media
judicial passivel de reform nas instan-
cias superiores (caso em que se-
rio apreendidos), poderio
ser regularizados".
Era o fim anunciado dos co-
tias, como os cadillacs ficaram
conhecidos entire n6s, e de uma
era. Ou seu prosseguimento sob
outras formas e outros nomes.


decide sobre isencao e favor
fiscal entire quatro paredes,
sem ouvir (e nem, depois,
avisar) a sociedade, que ban-
cara a conta do beneficio.
Que tal restaurar esse pro-
cedimento? Ou democracia e
apenas decoraSio?
Avenida
No dia 28 de janeiro de
1970 a prefeitura de Belem
comegou a demolir a velha es-
taio de passageiros da Estra-
da de Ferro de Braganca no
Entroncamento de Belem.
Cor isso, seria possivel ampli-
ar a pista em concrete arma-
do, como orgulhosamente era
destacado da avenida Almi-
rante Barroso, a antiga Tito


Franco (a "estrada da moree,
como era conhecida pelos aci-
dentes ali freqiientes), que es-
tancara naquele ponto. Com a
extinglo da ferrovia, que fazia
a ligagio entire Belem e Bragan-
ca, feita manu military pelo go-
verno Castelo Branco, o acer-
vo passou para os Correios.
Para ficar cor a estaiao do
Entroncamento, a PMB cedeu
um imovel que possuia as pro-
ximidades do porto. Stelio
Maroja era o prefeito.


Fabricas
Em 1968, duas fabricas de
f6sforos de seguranCa insta-
ladas na area industrial da
Arthur Bernardes comemo-


raram uma facanha: estavam
exportando os seus produto-
res. A Fosnor (F6sforos do
Norte) mandava seus f6sfo-
ros para o Acre, enquanto a
Fasa (F6sforo da Amazonia)
mandava uma primeira parti-
da para Sao Luis e Fortaleza
e, em seguida, Natal e Forta-
leza. A Fasa chegou ate o fe-
chado mercado paulista com
seus f6sforos coloridos e te-
maticos, entestando a pode-
rosa Fiat Lux. Mas a chama
dos sonhos de grandeza du-
rou pouco. Logo Secundino
Portela vendeu sua empresa (e
em seguida seria assassinado,
num dos crimes que mais aba-
laram Belem). E o gigante do
setor engoliu tudo.


SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA 9


tltn y






RETRATO
Cheia
A cheia de 1953 do rio Amazonas foi uma das
maiores do seculo. A maior de todas, garantem al-
guns. Outros apostam na de 1976. Os mais velhos, "
porem, quando inquiridos, tim a resposta na ponta
da lingua: foi mesmo a de 1953. As duas fotografias,
batidas em Santarem, dio uma ideia da inundag~o.
Na foto a esquerda, duas lavadeiras trabalham na
porta de uma das mais antigas casas da cidade, sem
precisar descer varios metros para chegar a praia,
como faziam em tempos normais. Na foto a direita, lo ".
o barco atraca sobre o cais antigo, que ficou sub- "
merso. O grande Amazonas inchou como nunca.


Zepelins
Os belenenses mais velhos ouviram
"falar ou andaram nos zepelins da empresa
~Sul-Americana, que faziam linha pelos bair-
S -, .. ros mais centrais da cidade. Foi uma cria-
.., *. &'^ u Mgo Finica da inventive local, adaptando os
Vw'.- ,r dirigiveis do ar como 6nibus de luxo em
r terra. Como no poema de Vinicius de Mo-
. j raes, foram eternos enquanto duraram.
S. .. Quatro zepelins aparecem nesta foto, feita
num dep6sito da empresa, em Marituba,
,*v junto com quatro "bulldogs" e um 6nibus
comum. Ficaram escondidos de possiveis
ataques e vandalismos durante uma greve
dos proprietarios de 6nibus, um dos nem
tio raros locautes de patrao por melhores -
precos, irritando usuirios. Os veiculos es-
tavam sob a guard de motorists e meca-
...nicos quando o fotografo lez o flagrante.





--IN
'< -. . .... '








'y'^^ ^^BB B^^~


10 SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZ6NICA






Predio
O edificio-sede do Banco
do Brasil em Belem foi inaugu- 0
radio em 8 de outubro de 1965.
Era um dos mais imponentes f
edificios da ainda aristocratic
avenida Presidente Vargas, em-
bora, vendo-o noite num giro
noturno por Belem, depois de
um show, em 1967, Caetano
Veloso o tenha achado feio. "
uma melancia quadrada", disse,
chocado corn o tom verde das
pastilhas. As mangueiras em
frente ainda se desenvolviam.
Mas quem olhar o mesmo ce-
nirio hoje ficari chocado com
a mudanqa: a bela avenida se L i
transformou num mercado per-
sa, feio e sujo..


SContrabando
Se Mal tomaram o powder no Para, os
militares colocaram a Comisseo de Repres-
sao ao Contrabando para agir. Foram apre-
endendo os cadillacs americanos que in-
gressaram ilicitamente no pais, atravs de
contrabando. Algumas vezes de forma
grosseira. Na maioria, porem, com saga-
cidade: o contrabandista retirava uma peqa
vital do carro e denunciava a chegada do
S' contraband is autoridades. Feita a apre-
S.... . ensao, o veiculo ia a leilio. O contraban-
dista, que tinha a peqa, era o inico inte-
,ressado na arremataqio, legalizando o car-
Sro. Sete deles aparecem na foto em fren-
te a ji demolida sede da Comara (Comissio de Construgio
de Aeroportos da Amaz6nia), substituida pelo pr'dio de
apartamentos de luxo Diamond Tower. Muito Belrm.

Boliche
Os academicos de direito deram um banho nos de engenharia
no primeiro torneio paraense de boliche, realizado no dia 21 de maio
de 1965, na primeira casa especializada nesse tipo de esporte, a co-
queluche daqueles dias, que surgiu em Belem, o Poli-Boliche, na rua -v .
Santo Ant6nio (hoje um shopping popular). A dupla de futures advo-
gados Jorge Gaby e Salim Chady derrotou os engenheirandos Paulo
Chermont e Tito Livio, enquanto Ubiratan de Aguiar (o nome da car- 1
teira de identidade de Pierre Beltrand) e Sergio Couto derrubaram
Rossetti e Leite. A Pierre foi conferido o privilkgio de segurar o mi-
nuisculo trof6u na foto hist6rica, em companhia dos tres companhei-
ros da vitoriosa equipe da Faculdade de Direito, Sergio, Gaby e Salim.
Ainda eram os tempos da brilhantina.
SETEMBRO/2001 AGENDA AMAZONICA 11
























































oI.IJ,... IV ATRATOR DIESEL
MOTOR SCRAPER
xv. ttmasfr leass,it ALLIS-CHALMIRS
SE eL M 0 RASIL CROtSEt


Pioneirismo
A rodovia Belem-Brasilia era, em abril de
1961, mote publicitario da poderosa multinaci-
onal americana Allis-Chalmers. Brasilia, recem-
inaugurada, era uma novidade latu senso. Be-
lem era uma quase-novidade: referencia distan-
te e vaga para os brasileiros das regi6es mais
ricas e integradas, s6 entao se tornava acessivel
por terra ao restante do territ6rio national, jus-
tamente atravs da estrada que Juscelino Ku-
bitscheck mandara rasgar na selva, tendo como
ponto de apoio a nova capital federal do pais.
A obra cicl6pica se tornaria possivel pela com-
binacio da pericia do home (nem tanto,
com o desmatamento desenfreado mostraria)
corn a robustez das maquinas (os tratores die-
sel e as motor scrapers da Allis-Chalmers, na-
turalmente). O distribuidor exclusive das ma-
quinas em Belem era a Cimaq, empresa que,
para nao variar, ja nao existe mais.


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O slack de Janio

O espoletado e imprevisivel Janio Quadros, um paulista de
Mato Grosso com pronuncia indefectivel, popularizou na
presidencia da Republica o slack. Era o traje que os
colonizadores britanicos levaram para suas possesses no mundo
tropical, adaptando-se ao clima, sem perder o aplomb de suditos
da rainha. Talvez a novidade pudesse ter-se tornado mais
duradoura se dentro do conjunto esportivo estivesse uma pessoa
relaxada e bem humorada. Mas a combinacgo de informalidade
na indumentaria com a pretensao de sisudez e solenidade de JQ
fariam mal a imagem do slack. Nao pegou.
Mesmo assim, em abril de 1961 Romulo Maiorana, na epoca
um comerciante inovador e colunista social bem informado,
langou a roupa, "em absolute primeira mao", na sua loja Republica
(na avenida Presidente Vargas, e claro). Tinha models nas cores
areia, bege e gelo. Para atrair compradores, o slack (oupiy nio,
como se popularizaria na verve de rua) exibia suas vantagens:
secagem rapida, nao encolhia na lavagem, melhor caimento, maior
resistencia e, acima de tudo, permitia a lavagem em casa.
Janio foi para casa muito antes do tempo, renunciando a
presidencia quatro meses depois. E levando consigo a onda do slack.


Agenda Arnaz6nica
Travessa Benjamin Constant, 845/203 Bel6m Para/66.053 040 e-mail: iornal@amazon.com.br Fones: 223 7690/261 4284/261 4827 Editora;6o/
ilustra;oes: LuizAFPinto


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