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Agenda amazônica
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005009/00024
 Material Information
Title: Agenda amazônica
Physical Description: v. : ill. ; 33 cm.
Language: Portuguese
Publisher: Agenda Amazônica
Place of Publication: Belém, PA
Publication Date: 1999-
Frequency: monthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note: Title from caption.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification: lcc - F2546 .A26
System ID: AA00005009:00024

Full Text








amaIa onl1ca

ANO III NQ24 BELEM, AGOSTODE 2001 R$ 3,00 L ci c o .F dl v i o Pi r tp

HIDRELETRICAS



0 dilivio energ6tico


O Brasil 6 um pals
com larga tradigao .....
como construtor de
barragens. Mas elas
estao sendo
construidas na
Amaz6nia sem se
ajustar as condig6es
caracteristicas da
regido. 0 resultado 64 k
um anacronismo
que cobrard um
prego elevado pelos
customs ecol gicos
que acarreta. E
econ6micos
tamb6m. 0
problema ja existe
em Tucuruf e poder6 .,.. ,, ,,
se repetir com Belo
Monte, no Xingu. -..-.""


I C





maior resposta de m6dio prazo a crise
brasileira de energia estA em Tucurui, re-
pete a tecnocracia do setor. Corn tal enfa-
se que as obras de duplica{lo da capaci-
ade da hidreletrica foram aceleradas ao
miximo. No final do pr6ximo ano a primeira das 11
novas turbines j. poderia come{ar a gerar o sufici-
ente para abastecer um mercado equivalent a meta-
de do Para, que tem seis milh6es de habitantes. Tri-
mestralmente uma nova mAquina seria posta em ati-
vidade. Ao final da complete motoriza{ao, a usina
teria 4,2 milh6es de quilowatts acrescidos a sua atu-
al potencia, ou 8% do consume national de energia.
Finalizada em 2004, a capacidade instalada de Tucu-
rui pularia para mais de 8 milh6es de kw, s6 um
pouco abaixo dos 12 milh6es de kw de Itaipu, a bi-
nacional da qual apenas metade da potencia consti-
tui a parte brasileira.
O investimento necessirio para dobrar a casa de
maquinas da hidrel6trica nao e pequeno, em terms
nominais: 1,4 bilhao de reais. Mas na relagAo R$/kw,
o valor proporcional 6 insignificant. Uma usina nova
com capacidade para 4,2 milh6es de kw exigiria, na
melhor das hip6teses, quatro vezes esse valor. E nao
poderia entrar em operaiao em menos do que o do-
bro do tempo. A duplicacao de Tucurui seria um mand
do c6u na conjuntura de vacas magras do pais.
Em tese, sim. Na checagem, nem tanto. Os tecno-
cratas enchem a boca e inflam os pulm6es para subli-
nhar os 4,2 milh6es de kw que serAo agregados aos
4,1 milh6es atuais que Tucurui ji produz. Nao real-
cam uma circunstancia: apenas quatro das 11 maqui-
nas adicionais da usina poderiam operar a plena car-
ga no period de estiagem do rio Tocantins. Faltaria
Agua para as outras sete turbines. Entre o record
possivel no inverno e o decrescimo maximo do verAo,
a vazAo do Tocantins pode diminuir 60 vezes.
Para nao ser vitimada por tal deplegio, a enorme
hidrel6trica precisa acumular o maximo possivel de
Agua no semestre de chuvas mais intensas, utilizan-
do-o como reserve no moment em que as miquinas
passarem a exigir muito mais Agua do que a quantida-
de que chega ao reservat6rio. Gerando a plena carga,
a usina engole atualmente seis milhoes de litros de
agua por segundo. Com as 11 novas m.quinas, que
demandam um pouco mais de agua, essa necessidade
ser~ de 12,5 milh6es de litros de agua por segundo -
ou 2,5 bilh6es de litros por minute.
O reservat6rio da hidrel6trica armazena 55 tri-
lh6es de litros numa drea de 2.850 quil6metros qua-
drados, que constitui o segundo maior lago artifi-
cial do pais. Com a pressdo do consume de ener-


gia, a Eletronorte decidiu elevar em mais dois me-
tros o nivel mrfximo operacional do reservat6rio,
que estava na cota de 72 metros. O impact dessa
provid&ncia esti sendo avaliado antes que ela pos-
sa ser executada, mas o acr6scimo na geragco sera
de apenas 110 mil kw, menos de 3% da capacidade
de produgao da usina.
O contrast entire um reservat6rio de Agua que
chegou ao Apice e a duplicaito do seu uso para ge-
rag~o de energia explica a diferenga entire a poten-
cia nominal da usina e sua pot&ncia firme. Poden-
do gerar hoje 4,1 milh6es de kw, Tucurui s6 garan-
te 2,1 milh6es medios no period de estiagem do
Tocantins, um "fator de capacidade" de 50%. Essa
diferenga torna dificil convencer os paraenses de
que no period critic de chuvas a hidreletrica te-
nha que receber suplementagao do Nordeste parn
dar conta dos seus clients.
A situagao ficard mais deficitiria corn a amplia-
g.o da usina: dos novos 4,2 milh6es de kw que ela
podera gerar no pique das chuvas, a capacidade fir-
me baixarA para meros 1,1 milhao de kw no auge
do verao. Assim, se no total Tucurui terA maquinas
para produzir 8,3 milh6es de kw, na estiagem ela
s6 podera gerar 3,3 milh6es. O fator de capacidade
estari bem abaixo do minimo de padrao internaci-
onal, que 6 de 50%.
Qual a solucao para o problema? Aumentar a
oferta de Aguas do rio. Naturalmente, essa solucao
esta alem das possibilidades do reservat6rio de Tu-
curui, cujo novo nivel maximo operacional coinci-
dird corn a crista da barrage, na cota um pouco
acima de 74 metros. Mais um pouco de Agua, ap6s a
elevacao de dois metros, a ser concluida ainda nes-
te ano, e o Tocantins cobriria a barragem. Eviden-
temente, nao 6 hip6tese a considerar. Correspon-
deria a um desastre. A inica alternative seria re-
presar o rio mais acima, atrav6s de barragens cons-
truidas corn o prop6sito de simples regularizag~o.
Uma operag.o conjunta permitiria segurar mais
aguas e complementary as carencias de Tucurui.
Mas seria plausivel construir barragens enor-
mes e caras sem agregar-lhes maquinas de gera{go
de energia? Sobretudo corn a privatizagio do setor
energ6tico, essa 6 uma hip6tese tdo pouco plausi-
vel quanto a do crescimento do reservat6rio da hi-
drel6trica. Tucurui s6 atingird um tamanho econ6-
mico maduro se uma ou mais barragens forem cons-
truidas rio acima, seja o pr6prio Tocantins ou o seu
afluente principal, o Araguaia, no pr6prio Para ou
nos Estados vizinhos, o Tocantins e o MaranhAo.
Essa 6 a contingencia indesejada, mas inevi-


2 AGOSTO/2001 AGENDA AMAZ6NICA





tivel da visao superfi-
cial que definiu o uso dos O Brasil, o
caudalosos rios amaz6ni-
cos para grandes aprovei- sua tra
tamentos energ6ticos. Os eximio *
rios da regiao t&m duas
caracteristicas basicas: de bar
um acentuado desequili-
brio de vaz6es entire o particul
inverno e o verao, e uma
baixa declividade. ComH 0
Para compensar o de pos
discreto desnivel natural
do Tocantins, os barragis- hidrelet
tas tiveram que levantar
em seu leito um enorme e Un
paredao de concrete, de
74 metros, para criar uma tremen
queda artificial com a atrasr
qual fosse possivel gerar
energia em alta escala. A abordagen
nova barreira fez a agua
voltar sobre seu curso, dessal
encorpado, numa exten-
sAo de quase 200 quil6-
metros, espraiando-se pelas laterais, /-
afogando terras, Irvores e animals,
al6m de deslocar gente que vivia as
suas margens. -
Criou um lago artificial com peri-
metro de mais de sete mil quil6metros,
quase quatro vezes o percurso da ro- I
dovia Bel6m-Brasilia (ou 17 vezes a
Rio-Sao Paulo). Mas agora 6 precise
former outros lagos semelhantes para
que o paroxismo energ6tico se enquadre em cAlcu-
los econ6micos de viabilidade, que certamente se
tornardo ainda mais rigorosos se (e quando) a pri-
vatizacgo do setor energ6tico se consumer.
A conclusio amarga desse raciocinio 6 que o
Brasil, orgulhoso de sua tradigAo de eximio cons-
trutor de barragens, particularmente cor o objeti-
vo de possibilitar hidreletricidade, 6 um pais tre-
mendamente atrasado na abordagem cientifica des-
sas obras, na compatibilizacgo dessas realizag6es
da engenharia cor as condig6es da natureza. Esse
anacronismo haveri de cobrar um custo ainda mai-
or porque, sem correcgo de concepgAo, Tucurui vai
ser ultrapassada em dimensAo por um novo grande
projeto energ6tico cor as mesmas caracteristicas: a
usina de Belo Monte, projetada para 11 milhoes-de
kw no Xingu, um rio talvez ainda mais complicado


r

d

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O

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a


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do que o Tocantins. O
gulhoso de Xingu desigua no que tal-
i* vez seja o Lnico delta in-
i o de terior do planet, um in-
nstrutor trincado sistema hfdrico
que ficard abaixo da fu-
agens, tura barrage, sofrendo
seus efeitos.
Lrmente 0 que aconteceu no
Sbjet Araguaia-Tocantins com
jetio Tucurui se repetird no
ibilitar Xingu com Belo Monte: a
primeira hidrel6trica seri
icidade, iniciada sem um plano de
aproveitamento definido
pais para toda a bacia. No pri-
meiro caso, o erro foi jus-
amente tificado pelo pioneirismo:

do na sabia-se pouco sobre a
Amaz6nia, muito menos
cientifica do que o necessirio para
assegurar a seguranca de
obras um empreendimento do
porte da grande hidrel6-
trica. Mas a situagao atu-
al jd 6 bem diferente. Tanto que dois
dos aproveitamentos previstos inicial-
mente pela Eletronorte para o Ara-
guaia-Tocantins, as barragens de Mara-
bd e de Santa Isabel, haviam sido des-
cartadas por seu enorme custo ecol6gi-
co. A pr6pria estatal aceitou essa con-
denagao. O problema 6 que entAo se
imaginava que Tucuruf nao tinha qual-
quer dependencia das duas novas hi-
drel6tricas. Hoje, 6 impossivel negar que a eleva-
cgo do fator de capacidade da primeira usina s6 sera
possivel cor as regularizaq6es de montante.
Nao se pode especular no mesmo sentido em re-
lagAo a Belo Monte? A Eletronorte cancelou o desas-
troso conjunto de barragens complementares, Baba-
quara eJurui, que provocariam o alagamento de mais
de sete mil quil6metros quadrados. Mas quando a
grande usina do Xingu comegar a operar, tendo que
ficar completamente inativa durante um quarto do
ano por falta de agua, nao comegard o jogo de pres-
s.o para construir barragens a montante do rio?
Refletindo sobre o problema racial no seu pais
na d6cada de 60, o escritor americano James Bal-
dwin previu que da pr6xima vez seria o future. Na
Amaz6nia, diante da busca desenfreada a energia
nos rios, seri o dilivio. A


AGOSTO/2001 AGENDA AMAZ6NICA 3






VIOLENCIA


Uma temporada


infernal


Ha pelo menos quatro decadas o verao e marcado,
na Amaz6nia, por uma safra de fogo e de sangue. A estiagem
serve de c6digo para o pioneiro avancar sobre a mata, abrin-
do novas clareiras, penetrando sobre territ6rios at6 entdo do-
minados pela floresta. Mas a constituigao de um im6vel rural
na frente pioneira nio 6 um ato pacifico, nem um procedi-
mento meramente legal, um neg6cio. Sempre envolve um com-
ponente de incerteza e de tensao. Costuma gerar confrontos
e mortes. A regiao que deveria ser o 6den fundidrio, ofere-
cendo um lote para cada um dos emigrantes que penetrasse
em suas divisas, tornou-se a
camped brasileira de conflitos.
A uma media de 15 mil
quil8metros quadrados ao
ano, o desmatamento ji se es-
palhou por 700 mil quil6me-
tros quadrados, o equivalent
a 17% da Amazonia Legal e
quase 10% do territ6rio nacio-
nal. Aproximadamente 15%
dessa area sao pastagens,
plantios, cultivos agricolas e
outras formas convencionais
de uso do solo que se degra-
daram e foram abandonados.
Esses 10 milh6es de hectares
seriam suficientes para fazer a
Amaz6nia escalar posig6es nos
indicadores de produgao, ali-
mentando-se a si, ao pais e
ainda exportando.
Desde algum tempo atras
a "recuperacao de areas degra-
dadas" ocupa lugar cativo no
rol dos estribilhos e jarg6es que sao repetidos ad nauseam,
sem outro sentido que nio o experimental, ou academico.
Basta raciocinar cor um pouco de bom senso para chegar a
conclusao que 6 muito mais saudAvel reaproveitar a irea ji
desmatada do que p6r abaixo novas dreas ainda florestadas.
Quando o enunciado 6 levado A planilha de cilculos do pi-
oneiro, por6m, 6 que o 16gico se distancia do real. O bom
senso raramente 6 bem-vindo nos arraiais amazonicos.
Como regra, sai mais barato desmatar uma area virgem
do que criar condig6es de novo aproveitamento econ6mico
para uma Area que se degradou por mau uso ou baixa ferti-
lidade natural do solo. Essa regra nAo admite exceg6es quando
a primeira atividade foi implantada com a colaboragio do


Estado, numa forma mais ou menos generosa, conforme o
padrao da relagao e da 6poca. Os fazendeiros que coloca-
ram a mata abaixo para permitir o "amansamento" da terra
amaz6nica com base na criacgo do boi, a forma mais barata
que se usa no Brasil, puderam receber do poder p6blico at6
75% do capital requerido pelo empreendimento. Foi a parce-
ria que prevaleceu entire 1967 e 1982, quando a Sudam desti-
nou a maior parte dos recursos dos incentives fiscais para
apoiar a expansio da pecuiria de corte na regiao.
Colocando no seu neg6cio (e quando chegava a colo-
car) apenas um quarto do volume do investimento, o empre-
endedor sentia pouco (se sentia) o peso do risco de se insta-
lar numa Area desconhecida. O metodo prevalecente era o
ensaio e erro. Alguns milh6es de hectares sdo pastos mal
formados ou mal manejados, nos quais a juquira se infiltrou,
sufocando o capim com a praga, ou onde a erosao e com-
pactacgo do solo impossibilitaram a continuidade do cultivo.
Por conta do "risco amaz6nico", o dinheiro do governor nio
retornou e as areas sujas fo-
ram abandonadas. O que nao
faltava era terra pela frente
nessa "corrida ao oeste" mo-
vida a base de especulasn o.
Com o avango do co-
nhecimento e um melhor
acompanhamento da expan-
sao das frentes econ6micas,
o financiamento estatal ao
pioneiro foi murchando.
NAo exatamente por uma
diretriz political, mas princi-
palmente por escassez de
recursos. O Estado ainda

tdncia t6cnica e difusio,
mas acabou a era de cola-
boragao financeira na base
de tres reais do poder p6-
blico para cada real do ca-
pitalista (sem capital).
Como, entio, ji sem essa re-
lal-o original, recuperar as
dreas que se degradaram exatamente quando (e porque)
do eririo jorravam verbas para a atividade produtiva?
O desafio 6 maior exatamente porque o restabelecimen-
to da capacidade de suporte das dreas mal usadas na Ama-
z6nia exige investimento muito mais elevado. Uma terra que
perdeu a sua cobertura vegetal original precisari ficar em
repouso por largo tempo at6 que a natureza cicatrize as feri-
das e restabelega um ciclo de reciclagem de nutrients pare-
cido com o que antes funcionava. Para antecipar esse tempo
natural, que ainda nao tem escala econ6mica, o home pre-
cisa de muito dinheiro para aplicar em ciencia e tecnologia.
O que mais falta nessa etapa 6 justamente o conhecimento
sobre a natureza.


4 AGOSTO/2001 AGENDA AMAZONICA





Definir um ponto de equilibrio entire as necessidades
do home e as da natureza continue a ser 6 uma utopia
na Amaz6nia. A presuniao de que a region 6 uma frontei-
ra sem fim e que sempre haverd uma terra virgem mais A
frente do ponto em que estancou a frente econ6mica adia
para depois o moment desse ajuste. Uma proporcao de
desmatamento que, sendo infima no inicio da d6cada de
70 (menos de 1%), ja 6 assustadora hoje (17%), 6 o produ-
to dessa transferencia de responsabilidades, dessa recusa
i contemporaneidade.
As seqtielas na natureza, em varios pontos da region,
ji se tornaram irreversiveis. Quem mora ao long da estra-
da que liga a Bel6m-Brasilia a Maraba, no sudeste do Para,
enfrenta um problema que se apresenta tAo pouco amaz8-
nico: a falta de agua. Os pogos artesianos ji precisam ser
de grandes profundidades para alcangar os leng6is fredti-
cos. Cursos d'agua simplesmente evaporaram. A temperatu-
ra do solo 6 cada vez mais quente. As nuvens estdo migran-
do do c6u dessa area e, corn elas, as chuvas. As tempora-
das de chuvas e de estiagem sdo cada vez mais nitidas e
fortes. Muito aguaceiro seguido de seca inclemente.


Se a natureza sofre, o home tamb6m padece. Se cor
o sol cada um trata de expandir suas benfeitorias, o que
costuma acarretar expandi-la sobre terras vizinhas, sempre
mal definidas, essa 6 a estaAio na qual voltam a predomi-
nar formulas antigas de resolucgo dos litigios e diferencas,
pela violencia, sem a mediacao do poder ptblico. A ordem
legal e juridica ainda 6 uma abstragao em boa parte do
sertao amaz6nico, onde cabe a advertancia que Guimaraes
Rosa faz na abertura do seu Grande Sertao: Veredas: mesmo
Deus, se quiser entrar nesses dominios, que venha armado;
ningu6m Ihe dara garantias s6 por ser Deus.
As perspectives, que pareciam ter melhorado nos il-
timos tempos, com uma baforada de modernizagao sobre
os ermos amaz6nicos, estao voltando a ser ruins. Voltou a
haver mortes de encomenda, corn pistoleiros em largo uso
no mercado, e os antagonistas ja nAo querem (ou se can-
saram de querer) a participagAo do Estado, partindo para
o confront direto. E assim que o tom dominant da Ama-
z6nia na temporada das chuvas, o verde, 6 substituido
pelas marcas da saison que agora comeca: o vermelho do
sangue e o amarelo do fogo. A


ESTRADA


Transamaz6nica,


ano 30


Do alto de suas naves espaciais, os astronauts podi-
am ver, no inicio da d6cada de 70, apenas duas obras huma-
nas na Terra: a muralha da China e a Transamaz6nica, am-
bas corn seus 2.500 quil6metros de extensao e uma diferenga
de idade de quase dois mil anos. Intensamente divulgada
pelo service de propaganda do regime military, a Transama-
z6nica chegou a ser uma atraiAo turistica para estrangeiros
ji entao intetessados na jungle. Ironicamente, por6m, al6m
de tender a emergencia de mais uma grande seca no Nor-
deste, para a qual o governor s6 tinha (mais uma vez) como
solugAo transferir nordestinos famintos para a fronteira, no
Norte do pais, a estrada teve inspiragao geopolitica: serviria
para integrar definitivamente ao Brasil a grande Amaz6nia,
com 60% do territ6rio national. Afastando, assim, a ameaqa
da cobica international.
Trinta anos depois que o general Emilio Garrastazu
M6dici inaugurou-a, a Transamaz6nica continue a ser mais
uma fonte de frustrag6es do que de realizaq6es, embora te-
nha havido, ao long da semana que passou, tentativas de
comemorar a data. Ha cada vez menos rainforest para turis-
tas e cientistas estrangeiros verem. As espinhas de peixe ini-


ciais, registros descontinuos do avango do colono pelo inte-
rior da mata, em estradas vicinais que partiam do eixo cen-
tral, deram passage para um mar de desmatamento.
As altas e numerosas arvores foram postas abaixo aos
milhares. Em seu lugar, pastagens pobres, campos de cultivo
de baixa produtividade, Areas ja degradadas e, o que 6 pior
para os pioneiros, mercado comprador distant, pela lonjura
do espaco e pelo calculo econ6mico desfavordvel.
No verAo, a poeira 6 a fonte de perigo para quem trafe-
ga pela estrada. A visibilidade 6 minima, o desconforto 6
maximo. No inverno, o leito da rodovia fica ensaboado pelas
chuvas, que formam atoleiros ao long de toda o percurso,
aprisionando os audaciosos ou incautos. S6 homes e mA-
quinas fortes vencem essa ginkana involuntdria: O preco da
faganha, por6m, 6 alto: as mercadorias chegam caras as ci-
dades da regiao e os produtos que por ela sao escoados tmrn
baixa competitividade no mercado.
Esse panorama poderia ser modificado se a Transama-
z6nica fosse finalmente asfaltada, pensam os nativos. O cus-
to do servigo 6 estimado em 800 milh6es de reais. No Piano
Plurianual do governor federal a rubrica conta com R$ 175
milh6es. No orcamento da UniAo foram consignados R$ 77
milh6es. Os tres nuimeros dao uma id6ia do grau de priorida-
de que Brasilia confere a estrada.
Para mais de um milhdo de pessoas que vivem ao
long dela, o investimento se justifica pela intensidade
do volume de trAfego e pelas perspectives que se abriri-
am cor a melhoria das condig6es de transport e os seus
a-


AGOSTO/2001 AGENDA AMAZONICA 5


111 '1 I II II It. I






efeitos sobre a redugao
do frete. De fato, apesar
de sua precariedade, a
rodovia ja tem um movi-
mento que recomenda
tecnicamente o asfalta-
mento. Mas o que por
uma 6tica pode ser inter-
pretado como uma forma
de acelerar o desenvolvi-
mento, por outra se tra-
duz tambem por incre-
mento do desmatamento.
Na 6poca em que a
Transamaz6nica foi cons-
truida nio havia a exigen-
cia de estudo de impact
ecol6gico. O mal que ela i
provocou, assim como as
demais estradas integran-
tes do tronco principal,
que rasgou o interior da Amaz6nia, dominado at6 entio
pela floresta, esti acima de qualquer controversial. Mas a
necessidade de Eia-Rima nio deveria ser feita para o as-
faltamento, que multiplicard o efeito decorrente de uma
via de revestimento primdrio, que afeta tanto a maquina,
agravando seu desgaste normal, quanto a disposicio do
home, que se brutaliza na adaptagio a um meio hostile
e desconhecido?
E uma questao que ainda nao foi bem definida do
ponto de vista legal e normativo. O asfaltamento de uma
estrada de penetragio numa regido como a Amaz6nia tern
a amplitude e a profundidade de uma nova estrada. O
fluxo migrat6rio, que se estabilizou ou decresceu at6 in-
voluir em certas dreas, sofrerd um novo impulso. Mais
gente chegando significard novas areas de abertura na
mata. Levard a quebra do precario control derivado do
relative isolamento em que fica uma area mal servida por
meio de transport.
O sistema de estradas do Piano de Integragdo Nacio-
nal dos militares representou a mais traumitica interven-
iAo nos dominios amaz6nicos uma intervenaio irreme-
diavel. Exp6s subitamente as terras altas, inacessiveis aos
ocupantes primitivos, cuja tecnologia s6 lhes permitia ocu-
par as faixas marginais aos rios navegaveis e avangar
pouco alem. Os indios chamam essa terra de kaaet6, flo-
resta verdadeira. Precisavam conhece-la melhor antes de
avangar sobre ela, que era a grande reserve para o future.
Quando o colono branco chegou, mal informado e mal
aparelhado, a primeira coisa que fez foi colocar a mata
abaixo. Na esmagadora maioria dos casos, o que veio de-
pois valia muito menos do que o destruido. In&s ja estava
morta. E seu grau de sustentabilidade 6 pequeno.
Sob o lema de "integrar para nao entregar", a inte-
gragio devia ser feita a qualquer custo. O da Transama-


z6nica em si, ninguem mais sabe a quanto chegou. Mas
deve ter ultrapassado todos os parfmetros aceitiveis.
Tocada manu military em 22 meses, mas tendo a frente
empreiteiras privadas, ela se inseria na il6gica 16gica
daqueles dias. Uma rodovia foi rasgada em paralelo ao
Madeira, rio navegavel o ano inteiro, para ligar Porto
Velho a Manaus. Nao havia uma 6nica jazida de brita a
menos de 600 quil6metros. A pedra era levada para a
obra em avi6es DC-3, o frete mais caro do mundo. Nio
importa. A Uniao bancaria. Do contrario, os estrangeiros
iam tomar a Amaz6nia.
Para serem o instrument da soberania national, as
estradas se tornaram a principal ferramenta da descarac-
terizacgo da Amaz6nia, fazendo multiplicar o desmata-
mento (de menos de 1% em 1976 para os 17% atuais),
criando as fontes do conflito fundidrio sangrento, do mau
uso da terra, de indices de desenvolvimento human tri-
gicos e fator de agravamento das demands sociais, que
os governor locais nao trn condicges de tender. Na
ponta do lipis, o saldo 6 negative.
Quando assumiu a presidencia da Rep6blica, em 1961,
Jinio Quadros disse que nio ia continuar a construgio da
Belem-Brasilia, obra do seu antecessor, Juscelino Kubits-
check, a primeira ligagio fisica da Amazonia corn o res-
tante do Brasil. "t uma estrada de ongas", debochou. Leva
o nada a coisa alguma, completou a imprensa.
Em menos de 20 anos a BR-10 estava asfaltada e
hoje ninguem contest sua viabilidade econ6mica, mes-
mo sem ter motives para louvar seus efeitos positives.
Ha tres d6cadas a Transamaz6nica espera por melhoria
semelhante. Ainda vai ter que esperar muito pelo asfalto,
marca final de um process no curso do qual a Amaz6-
nia se vincularn ao mundo exterior. Sendo, contudo, cada
vez menos Amaz6nia. A


6 AGOSTO/2001 AGENDA AMAZONICA








Forma ao o .

E'. ..-. . ...
Em 1965 o Col6gio Estadu-
al Paes de Carvalho ainda era um rn.x. :.. .
centro de formacgo da elite local, :.- ..
que deixaria de ser corn a deterio-::.::": :.:'"'"" :.... .
raqio do ensino puiblico no Brasil : :: ..:-.:.: .
e no Pari. Uma prova 6 a foto dai
comissao de alunos que foi a re- c! ... .:'. ::-..:-:.
dagio da Folha do Norte em junho .. ... ..X
daquele ano, integrantes do Clube : : : :
da Despedida e do Centro Civico .
Honorato Filgueiras. Convidavam o
journal para a festa tipica denomi- .
nada "Samba, Quadrilha e Bai.o", .:: .:. : .
que seria realizada na sede do :
Bancr6vea, corn a orquestra de
Alberto Mota. No centro, a candi-
data a "miss Caipira" pelo Clube .
de Geografia, Tereza Coelho, la-
deada por Regina Bezerra e Nair
Solano. Atrns, os irmros Ladrcio e
Francisco Brasil Monteiro, Harol-
do Silva e Geraldo do 6, futures
advogados e professors.




Ver-o-Peso

Foto por um angulo incomum do Ver-o-Peso no inicio de 1972, quando ainda estavam
de p6 os clippers, terminals de 6nibus e pontos de venda. Eles certamente atravancavam o
trinsito e se tornaram lugares anti-higienicos pelo mau uso. Mas certamente teria sido
melhor que fossem mantidos, desde que submetidos a nova regulamentaglo. Eram um
element de 6poca, de que davam testemunho suas linhas arquitet6nicas. O maior proble-
ma nao eram essas construg6es, mas o ca6tico transport coletivo, ontem e hoje.


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AGOSTO/2001 AGENDA AMAZ6NICA- 7





PASSADO


A inven ao da


historia


Nem todos que repetem o velho aforismo filos6fico
(o povo que nao tem passado estl condenado a repeti-lo)
sabem como aplici-lo na pratica. Revolver o passado pode
naio ser mais do que passadismo, melancolia imobilista, sau-
dade desfiguradora. Nio se v& o passado real, por inteiro,
corn seus aspects bons e ruins, sua totalidade dial6tica, mas
aquele passado que 6 a retroprojegio dos nossos desejos e
frustra6oes, na busca do tempo perdido, sem a fantasia imor-
talizadora de um Marcel Proust.
O Pard nrio ter passado. Hi uma barreira de interes-
ses se interpondo entire os contemporineos e os seus ante-
cedentes hist6ricos. A porta da hist6ria estio os guardifes
do tempo, uma elite que fez a hist6ria anterior (e dela se
aproveitou) e quer manter seus privil6gios, hoje e amanhd.
Para tanto, 6 necessArio ter o control do novelo para des-
fiar seus fios conforme seus pr6prios interesses. O ingresso
na mrnquina do tempo s6 6 permitido aos s6cios desse clu-
be fechado, que ter suas agancias nos institutes hist6ri-
cos, nas academias de letras, nas colaborac6es peri6dicas
na imprensa, no direito a voz nas solenidades p6blicas. Por
isso, a hist6ria 6 apenas a expressfo dos her6is, imortaliza-
dos nos monumentos, nos pr6dios, nas vias p6blicas. A his-
t6ria real dormita em pap6is empoeirados dos arquivos de
fontes primirias ou na voz do citadino, aquele que faz a
hist6ria sem saber e dela, naturalmente, 6 excluido.
Este reviver do passado se circunscreve a um ilbum
de fotografias ou a uma aqgo entire amigos. E agradivel ver
as fotos e hf prazer na leitura do auto-elogio. S6 que quem
estava dentro nio sai e quem estava fora nfo entra. A men-
sagem ter linguagem cifrada e o usufruto do tempo 6 ex-
clusivista. Logo, sem identidade nessa hist6ria, o cidadio
comum prefer percorrer hist6rias alheias, trazendo-as para
o seu universe, no velho mimetismo (ou macaqueagio) co-
lonial. B6falo Bill ou o general Custer sio os her6is. O ma-
rechal CAndido Mariano Rondon, quem conhece?
Corn todas as suas deformar6es e desvirtuamentos, a
revisAo hist6rica 6 um dos grandes desafios que o home
do seu tempo precisa enfrentar se quiser se tornar persona-
gem da hist6ria e nio apenas mero figurante. Da mesma
maneira como os integrantes do clube do establishment re-
constroem o passado a partir de personagens jA esculpidos
no mirmore ou no bronze, uma corrente revisionista ter in-
cidido no erro de tentar entender o passado pelo present. O
elitista ignora o context dos fatos (e at6 os pr6prios fatos),
enquanto o contestador costuma aplicar seus conceitos con-
temporaneos a um mundo que era diferente. Ou a colocar
circunstAncias e pessoas debaixo dos blocos monoliticos das


as tais das infraestrutura iluminadas por Karl Marx (entida-
des de came e osso resgatadas pelos escavadores arqueol6-
gicos, como os da corrente dos Annales franceses, levados a
certos paroxismos por seus seguidores).
O passado 6 uma vaga referencia ou um marco vicia-
do para os belenenses. Quando se quer percorrer as galeri-
as do tempo, 6 precise pedir autorizaaio ao "historiador da
cidade" e acompanha-lo corn a devocao que Dante tinha
por Virgilio, seu guia na divina com6dia. Quem sai da trilha
ou contest os ensinamentos do condutor 6 punido, no
minimo corn uma admoestagao. Deve-se repetir o que as
gerag es v&m sucessivamente repetindo, em oragao mono-
c6rdia, a partir de uma base dada, que pode ser verdadeira
ou falsa, mas 6, acima de tudo, pressuposta, conforme a
definigio do guia.
Os que nao aceitam essa situagio costumam contestar
as hist6rias secundirias, novo livro escrito a partir do livro
anterior, colocado de cabega para baixo, nao sobre uma
base documental nova, as vezes inexistente, 6 certo, mas,
em numerosos casos, simplesmente deixada de lado, nao
procurada ou nao consultada. O ramerrao torna a hist6ria
insossa. Panela mexida por muitas mdos. O resultado, qual-
quer cozinheiro ou conaisseur sabe.
As sec6es hist6ricas desta Agenda (retrato, publicida-
de e mem6ria do cotidiano) tem a intencao de colocar o
leitor belenense em particular e o paraense em geral di-
ante de uma hist6ria sem formalidades, sem fraque (ou nao
necessariamente enfatiotada), em estado mais ou menos bru-
to, pren6ncio de hist6ria, cotidiano. Ha os que suspiram de
saudosismo, e isso 6 bom, porque viveram o que estao re-
vendo. Ha os que se surpreendem corn a novidade e vAo
atrAs de mais informac6es, e isso 6 necessirio. Hi os que se
deliciam corn o inusitado e riem, e isso 6 bom porque o
home nao 6 s6 feito de coisas 6picas ou dramiticas.
Em qualquer situag o, essas sao as parties mais lidas
desta publica io, nas outras piginas empenhada em abrir
os olhos dos seus leitores (ou afiar suas vontades) para
os fatos decisivos de hoje, para sua agenda contempor5-
nea. Interligando passado e present, ansiamos por futu-
ro, um future que nao esteja escrito nos c6us de Nova
York ou T6quio.
Quando aparecem resultados, como os questionamen-
tos que a leitora Laura Nogueira faz nesta ediAio (ver car-
tas), sentimos que vale a pena continuar revirando arqui-
vos para reforcar no nosso leitor a necessiria conviccao
de que a inteligencia nio foi trazida para a Amaz6nia pe-
las recentes estradas de "integragio national" que tem
servido de catapulta para a destruiaio do seu interior e o
lan'amento de suas riquezas para o exterior, como, de
resto, quase todas as grandes obras de infra-estrutura. A
inteligencia ter existencia muito mais antiga na regiao. E
muito mais complex do que pretendem nossos atuais
bwanas, os guias para uma Amaz6nia que nio 6 a nossa,
nem exprime nossa hist6ria. A


8 -AGOSTO/2001 AGENDA AMAZONICA






CARTAS


Hidrel6trica
Prezado Lucio Flivio,
Lendo a Agenda AmazBnica de julho, fiquei passado
cor as informag6es sobre a pol6mica sobre o EIA-Rima da
usina de Belo Monte. Lembro-me que ja em 1989, nos idos
do tal Encontro de Altamira, o questionamento que se fazia
era precisamente o de se saber se discutiamos uma usina ou
um sistema de usinas. O projeto de Belo Monte (entaio Kara-
ra6, para horror dos Kaiap6) ji apresentava um custo bene-
ficio impecivel, do ponto de vista de um empreendimento
energ6tico. Mas haveria agua o ano todo para manter este
custo beneficio, ou seriam necessarios outros lagos (e usi-
nas) rio acima para bancar essa producao?
No anincio da retomada das suas obras, mais de dez
anos depois, fui informado que o projeto de Belo Monte havia
sido ainda mais refinado do ponto de vista tecnico, que o
lago seria ainda menor (ja nao era tao grande no projeto
original), nao chegaria a afetar diretamente nenhuma terra
inligena, embora afete outras populag6es ribeirinhas, etc.
Supus que, se agora o lago pode ser ainda menor, estariam
resolvidas as demands de agua. Mas a polemica que a Agen-
da report demonstra que nao ha garantia disso, que o custo
beneficio se limit a metade do ano, e que portanto a
hip6tese de que depois haver, outros empreendimentos, at6
p: a dar sentido a este, ainda paira no horizonte.
Em 89 os Kaiap6-nos diziam que hi mais de dez anos
vinham send realizados estuclos nas suas terras, Xingu aci-
m;, sem que eles fossem informados que se pretenclia cons-
truir barragens em s6rie. Ento serao mais de vinte anos que
se pesquisa o aproveitamento hidreletrico do-Xingu. E curi-
oso que neste tempo todo nao se tenha investido em conhe-
cer o Rio, as implicag6es dos projetos, etc. Parece que n0o
h1i um estado empreendedor nessa terra, s6 uma instincia
contratadora de licitag6es. Nfio ha mem6ria institutional que
ld continuidade no conhecimento sobre o pais. Esta obra
nem deveria precisar de EIA-Rima. O tanto que o estado ja
investiu nessa drea deveria ser suficiente para conhec&-la e
para prever, evitar ou compensar os danos proviveis. Ou
paraLresponder se estamos diante de um projeto de uma hi-
drel6trica, ou de um sistema. Se temos que repensar um tre-
cho, ou o Xingu inteiro.
Neste context, o papel do EIA-Rima pode ser, de novo,
pat6tico. A dispute em curso indica que, sob a pressao da
cruise energ6tica, se vai produzir um papel6rio incapaz de
\sponder a questJio central: qual e o custo-beneficio real do
empreendimento?
Abraco,
Mircio Santilli
Consultor para Assuntos de Clima
IPAM Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazonia


Passado
Sempre que Bel6m 6 o tema de conversas, apresenta-
g6es artisticas e debates, eu identifico um saudosismo que
por bastante tempo me foi inc6modo e negative. Inc6modo
por se manifestar demasiado romantico em areas como a li-
teratura, por exemplo. Negative por limitar-se muito a um
passado (glorioso ou nao) e quase nunca servir de lente para
analise precisa e profunda da cidade nos dias atuais. Mas
depois de vivenciar a capital do Pard por dois anos, a pessoa
passa a ver que este saudosismo nao 6 negative ou positive.
E apenas o caracteristico (e at6 necessirio?) "choro pelo on-
tem" a- nos delinear uma Belem nas fronteiras (ou limits)
de si mesma, enquanto busca resgatar-se. Freudianamente se
falaria numa constant procura pela sua "natureza original"
Bel6m parece dizer toda hora "nao sou esta", ou "nao quero
ser esta"
Entao quem 6 ela? A que foi, ou a que diz nao querer
ser ? E a que se perde quase- inteira a cada dia. A que tem
mais verde e odor puro de mangueira na literature, pintura e
misica do que em si mesma. Real, como aparece na descri-
c.o verdadeira e sensivel de Jocelyn Brasil.
Aos poucos se descobre que um dos caminhos para
enxergar e entender melhor Belem, 6 olhar nos seus7 saudo-
sos olhos. Neles a saudade se manifesta encantadora. Claro,
este encanto deve clarear e nao ofuscar a visao. Atrav6s dele,
algu6m que for mais o observador curioso do que o filho
gerado e amamentado por esta cidade perguntara: o que es-
tari reduzido a mera saudade daqui a dez ou vinte anos? O
que se esta perdendo hoje e se vai tentar recuperar num
moment posterior, quando ji se estiver passando por novas
perdas?_Langar o olhar analitico do observador em vez do
apaixonado do filho, nalgumas situac6es, pode ser um pass
para diferenciar o que se deve conservar, do que se pode
dispensar no atual context belenense, nas diversas dreas.
Entao se vai definir o que este grao do Para e at6 todo
o Grafo-Pard ter hoje que nao deve ser apenas mais um
motive de saudade nas d6cadas vinlouras. O que precisa ser
cultivado ou podado agora,_ nos aspects politico, econ6-
mico, social, cultural e cientifico.
Isto, para depois nao se chorar sobre o leite, a agua e o
pr6prio grao derramado.
Laura Nogueira


Data
A Agenda Amaz6nica complete neste nimero, sem
comemoraaio, dois anos de vida. Uma exist&ncia ainda cur-
ta, mas customs O0 que significaram esses 24 nOmeros, 6 um
balango que cabe ao leitor fazer. O future, 6 uma decisao a
ser enfrentada a cada nOmero. Com o reconhecimento aos
que nos honraram ao long desse period corn sua leitura.


AGOSTO/2001 -AGENDA AMAZONICA 9












Estudantes


Terminou em "grossa pancadaria", como se dizia, a prin-
cipal sessao do III Conselho Regional Secundarista, realiza-
do em Belem, em setembro de 1952. Tudo comegou quando
os adeptos do sistema parlamentarista para a diregAo da Uecsp
(Unido dos Estudantes dos Cursos Secundaristas do Pard) ve-
rificaram que os pr6-parlamentarismo venceriam a eleigio.
Comegaram a convocar por telefone estudantes afinados. O
estudante Irawaldyr Rocha denunciou a manobra e
Roberto Uchoa props o imediato encerramento da
inscrigio no livro de presenga da reuniAo.
O secundarista Gerson Peres ndo aceitou a deci-
sao, mas seu protest nao foi acolhido. Para tentar
suspender a sessao, Roberto Rayol langou um tin-
teiro contra o president do encontro, Kolivan Lima,
que reagiu com "dois bem aplicados bofet6es em
seu agressor". A briga que dai derivou arrastou to-
dos os estudantes, levando a suspensAo da sessao
por tempo indeterminado.


At6 esse moment os estudantes jd haviam aprovados mo-
g6es como a repulsa a criagdo do Instituto Internacional da
Hil6ia Amaz6nica, ao envio de tropas brasileiras para atuar
fora do territ6rio national, ao Pacto de Ajuda Mitua firmado
pelos governor brasileiro e americano, al6m de pedido para a
criagdo de uma nova es-...
cola de comercio em Be-
16m e transfer&ncia da que
existia, funcionando nos
altos do Paldcio do Comer-


Epoca
A ingenuidade 6 prova de
insensibilidade, disse Bertolt
Brecht num poema. O ing&-
nuo 6 o desinformado. En-
tao 6ramos todos ingenuos
em 1954, quando os jornais
publicavam um anincio do
Bitrofosfato, garantindo que
acabaria com a ins6nia dos
que tomassem tres dos seus
comprimidos todos os dias.
Contendo cAlcio e f6sforo,
"os restauradores nervinos",
o rem6dio reporia as energi-
as e tonificaria todo o siste-
ma nervoso. O tratamento a
base de Bitrofosfato podia
ser feito "at6 que as intermi-
nAveis noites de ins6nia se
tornem coisa do passado".
O rem6dio milagroso esta-
va a venda em qualquer far-
mdcia e drogaria, sem recei-
ta ou tarja de restrigAo. Era
um autentico BO (Bom para
Otario), ou um veneno toma-
do inadvertidamente?


Independentemente da
resposta, era uma prova da
6poca, em que consumido-
res eram cr6dulos e produ-
tores eram quase agents di-
vinos. Uma 6poca que pode
ter passado tanto quanto a
ins6nia combatida pelo Bi-
trofosfato.


Hidroterapico
As modas vao e voltam.
Vao de uma maneira e vol-
tam de outra. Em 1954 jA se
falava no fechamento do ser-
vico de hidroterapia da Bene-
ficente Portuguesa do Para,
instalado na avenida Genera-
lissimo Deodoro. O custo dos
banhos terapeuticos era alto.
A renda do servigo nao era
suficiente para empatar corn
as despesas. Mesmo assim, o
president da sociedade,
Eduardo Salazar da Silva, ga-
rantia naquele ano que o ser-
vigo continuaria a ser banca-
do. Havia uma grande clien-


tela a tender. Se a Beneficen-
te decidisse construir uma
maternidade no local, o hidro-
terIpico passaria para os fun-
dos do novo pr6dio. Mas nao
desapareceria jamais.
De fato, o famoso hidro-
terApico ali permaneceu at6
que um incendio violentt,
conforme a monoc6rdia cr6-
nica policial) arrasou suas
belas instalag6es. Mas voltou
a funcionar algumas quadras
adiante.
E verdade que seus usua-
rios nao ligavam a minima
para os efeitos dos banhos
(hidroterapia, na linguagem
de hoje): o que queriam mes-
mo era "rosetar", como se
dizia. Ou seja: falar mal da
vida alheia. As dguas serviri-
am para atenuar o fogo das
fofocas, talvez a causa peri-
pat6tica do incendio que la-
vrou na "rocinha" do hidro-
terdpico, simbolo de uma
6poca em que Bel6m era ge-
nuinamente de muros baixos.


Mulheres


A JIC (Juventude Indepen-
dente Cat6lica) era um movi-
mento "que agrupa mogas do
meio independent a fim de
que estudando os problems
do ambiente, encontrem
uma nocao verdadeira de
vida, procurando dar a vida
um sentido eminentemente
social, baseado na doutrina
cristd".
No final de 1957 a JIC pro-
moveu uma "assembl6ia po-
pular" para debater o tema
"N6s e o dinheiro", no audi-
t6rio da SAI (Sociedade Ar-
tistica Independente), sob a
coordenagao de Maria Euni-
ce Reimao e Maria de Lour-
des Pinho da Mota.
Conclus6es do encontro: a
maioria das mogas nao estava
satisfeita com seus orgamen-
tos domesticos, insuficientes
para suportar suas despesas
at6 o final do mes; cada moga
necessitava, para sua pr6pria


10 AGOSTO/2001 AGENDA AMAZONICA












organizagio financeira, estabe-
lecer uma hierarquia nos gas-
tos; as mogas que dispunham
de alguma receita pr6pria ou
mesada "devem pensar em aju-
dar o pr6ximo cor um pouco
do que ganham".
A independencia ainda era
uma meta.


Endemia

Em novembro de 1957 o
chefe da Circunscrigdo Para
do DNERu (Departamento
Nacional de Endemias Rurais),
Luiz Miguel Scaff (depois di-
retor do Museu Goeldi), assi-
nou um aviso comunicando
ao ptblico o prosseguimento
da campanha contra a filari-
ose em Belem. Os guards iri-
am tirar sangue de toda a po-
pulagio do bairro de Nazar6,
o top da cidade, entire 10 e
22,30 horas, todos os dias,
exceto sibados e domingos.
"E necessiria a cooperagdo
de todos os moradores para
o ixito deste trabalho, que
visa exclusivamente o bene-
ficio da coletividade", ressal-
tava o m6dico, ja prevendo os
gritos, choros e fugas quan-
do os "tira-sangue" apareces-
sem com sua sacola cheia de
vidrinhos e agulhas para san-
grar adults e criangas.
"Os casos positives que fo-
rem encontrados serAo sub-
metidos a tratamento inteira-
mente gratuito", no ambula-
t6rio do DNERu, que ficava no
mesmo bairro, entire 7 e 13
horas. Ja os pedidos de exa-
me de sangue para outros
bairros continuariam a ser
atendidos pelo telefone 23-16.
Belem tinha um dos maiores
indices de filaria do pais, um
indicador das precarias condi-


c6es de saneamento da cidade.
Mas a dedicagao dos sanitaris-
tas piblicos da saudade a noso-
tros que vivemos numa 6poca
em que a mistica do servigo p6-
blico evapora. O combat a en-
demias rurais enclausuradas
numa cidade dava-se ao luxo de
ter um poeta no expediente, o
bardo Max Martins.

Indios

Em fevereiro de 1964 um
DC-4 da Paraense Transpor-
tes A&reos que fazia o v6o
entire Manaus e Porto Velho
foi obrigado a fazer um pou-
so forgado em plena selva.
Nenhum dos cinco tripulan-
tes e 34 passageiros que es-
tavam a bordo se feriu.
Dias depois, ao ser resgata-
do e voltar para Bel6m, onde
morava, o comerciante Leon
(ou Lto?) Serruya disse que,
alem dos terriveis insetos, o que
preocupava os sobreviventes
era a possivel vizinhanca de
indios "faixa-larga" (cinta-larga,
na verdade), antrop6fagos que
gostavam "de apreciar a came
humana com mel".
Uma vez, quando pergun-
tado sobre a existencia de in-
dios antrop6fagos no Brasil,
o celebre m6dico Noel Nutels
responded com humor: "No


Brasil ningudm come nin-
guem por via oral".


Lanqamento
A Livraria Dom Quixote,
de Haroldo Maranhao, rea-
lizou sua primeira tarde de
aut6grafos em 31 de janei-
ro de 1959. Foi para o lan-
gamento da coletanea de
contos do c6nego Apio
Campos, Olhos dentro da
noite, premiada pela Acade-
mia Paraense de Letras.
A galeria do Palacio do
Radio, onde ficava a livra-
ria, foi tomada por convida-
dos. Entre os quais estavam
Abelardo Conduru, Aloysio
Chaves, Georgenor Franco,
Levy Hall de Moura, Eldo-
nor Lima, Aliudio Melo,
Cliudio Barradas, Pedro Tu-
pinambi, Jocelyn Brasil,
Cursino Silva, Ruy Barata e
Maria Brigido. "Foi registra-
do grande movimento de
aquisiCgo de livros", com-
provou a imprensa.


Bar
Houve polemica no assim
chamado meio juridico quan-
do os academicos Ali Jezini
e Sergio Couto resolveram ba-


tizar de Rui Bar Bossa a can-
tina da Faculdade de Direito
da Universidade Federal do
Pari, a 6poca funcionando no
Largo da Trindade.
Os tradicionalistas achavam
que era uma ofensa ao baiano,
o nome mais cultuado entire os
advogados. Os promotores re-
trucaram que era apenas uma
forma bem humorada para se-
diar as feijoadas de sibado dos
alunos. O pr6prio Rui talvez
desse i cantina o nome de Jose
Bar Nificio, imaginaram.


Elei9ao

Votaram 244.455 eleitores
para o governor do Para em
1965. Alacid Nunes, ex-prefei-
to de Bel6m, eleito indireta-
mente pelos vereadores, e
candidate da situag~o, teve
163.527 votos. O ex-governa-
dor e ex-senador Alexandre
Zacharias de AssumpgAo, pela
oposigco, ficou cor 67.166
votos. Houve 5.056 votos em
branco e 8.806 nulos.
Foi o moment de maior
popularidade do rec6m-esta-
belecido regime military. O en-
tao governador, Jarbas Passa-
rinho, apoiou seu ex-colega de
caserna. Depois se afastariam
ate o rompimento total.


Jarbas Passarinho ainda era major, no inicio de 1962, quan- -
do foi sorteado cor uma passage de ida e volta ao Chile para
assistir a Copa do Mundo daquele ano, que seria realizada em
junho. A promorgo era da Importadora Braga, uma loja de ele-
trodomesticos que funcionava no tdrreo do mesmo Palicio do
Radio que abrigava a livraria de Haroldo Maranhao.
O sorteio foi realizado "ao vivo" pela TV Marajoara. Carlos
Braga, director da firma, conferiu o talAo sorteado do official da 8-
RegiAo Militar (que se tomaria governador dois anos e meio de-
pois), 6331, quando Passarinho apareceu para receber o premio.


AGOSTO/2001 -AGENDA AMAZONICA- 11


w


remio


~ ...
""






PUBLICIDADE

Ah, o mar!

Todo belenense vai sempre suspirar de
melancolia quando estiver em Salin6p- .li,
bem que a capital do Estado podia ter d.-,
instalada ali, de frente para o mar, ao in\ L-
de ficar num pantano. Harmonizaria o in-
consolavel paraoara com seus sonhos di
vida litoranea, projetados para a antiga <..-
pital federal, o onirico Rio de Janeiro. \a
ao encontro do sol", convidava a pega, pu-
blicada hi 40 anos, em julho de 1971, c._in
um texto bem "bossa nova", de um pc'u.i
sob a roupagem do publicitario.


Vd ao encontro do sol,

em SalinopolIs.
., .. 2 .


iri a 10 r Il
i'.311 ,.1 1 . ."i '







..i Ii s 1 ..
-, . g I' Zi


A FLORESTA AMAZONICA ESTA
SE TRANSFORMANDO EM PAPEL.
A floresta amaa6nica i uma eceeate fntoe t'de Ina ta da Am~ rnia, a acepa a
matria-prima para celulos e papel. rinvestindotoos mhnicalroena regio.
E qucm dscobriu iso foi uma inddatrit Amplia .cu parque induttida, am dc maab
4maz6nic., a Faccpa modernoa do pats.
P'equiando a mladeira da Amazbnia, a Pacepl E dinatmiza as pcsqisaseo a maderTo amiaz6n a,
verificou que utilitando pasna nc.:nica e celulose & para o que maantc un eompleteto lixrattrio.
bat de madeira brancas tropicaia podia fabric Con sdo imo, aVa.pa plauja dupir dntroda
papel de, quaiidiad superior e com.matri-prim. um no aao saproduso e rudhorar ada ai a
de c;usto 50% mais econ6mico. qualidade da .ua clllose. do RU papel.
H ;i, i ,.. .', .I. .l' I t, i dI q .]-. a1. .- is AliUs, outracoia a-Toespoderin. aperr derima
S ,a ... i- J.. ,,hrJla i',. : in(d.sllsia quecrser.u39vo-emSnan<
-..Lr.i i. a. .' I l.., ..... r ,.; i-l.laL. E que ent tranabrmn.mdo a maiu floreta tropical
Siii i.. -. i '*. Lajd' t uluondo it ira lotra f"ertt
Belim o U terior do P-rS. E export o restant loia flrcata de prrm-g*o.
para todo o NNore e Nordrsce, do Acre a Permambuce.
u, imnr, s m.-:-. d-. d,,. prl Par pi a I
-. -. . "", 1 n.ae TU .

SI .,.p r. oa d-at.- IF_'=
rt ,' . r&..,-
~rif ArtI- MAi- PA


A floresta


Apenas a metade da producgo da FHbrica de Celulose
e Papel da Amaz6nia, de 4 mil toneladas anuais, era su-
ficiente para abastecer, no inicio de 1972, o Para inteiro
de papel de embrulho, papel de embalagem, papel higi-
enico e papel-toalha. A outra metade era mandada para
o Norte e a parte mais pr6xima do Nordeste, a partir de
Pernambuco, um'"imenso mercado dominado pela Fa-
cepa". A fibrica ji havia crescido "39 vezes em 8 anos",
mas em 1973 estaria produzindo o dobro, como prome-
tia o anincio. Utilizando pasta mecanica e celulose a
base de madeiras brancas amaz6nicas, a Facepa dizia
produzir "papel de qualidade superior e com mat6ria-
prima de custo 50% mais econ6mico". Transformaria a
floresta tropical em "floresta de progresso.
Desde entao o mercado cresceu enormemente. A flo-
resta tropical 6 que diminuiu. Em escala ainda maior.


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Travessa Benjamin Constant 845/203 BelIm/PA- 66.053-040 e-mail: jomal@amazon.com hr Tplrpfnnpeo. ? -7 on 961-4284 e 261-4827
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