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amazOnica ANO II NO23 BELEM, JULHO DE 2001 R$ 3,00 CIENCIA No contrape da coloniza9ao L z cio Fl vio Pinto A colonizagao da Amaz6nia devia ser feita como se faz a ocupagao da Antartida: com a ciencia a frente. Para sua infelicidade, por6m, a Amaz6nia ndo coloca, diante do colonizador, as adversidades naturals do continent gelado. Ao contrario, pode ser considerada, pelo mfope, que o o pioneiro padrao, como uma porta escancarada, facil de atravessar Mesmo sua portentosa floresta, ainda o seu trago definidor ao lado da vastidao de aguas, uma vez sangrada, e posta abaixo sem exigir maiores esforgos ou investimentos. 0 vento pode derrubar uma castanheira de 50 metros que tenha perdido a protegio das arvores ) originalmente circundantes. Quem esteve no topo da serra de Caraj' no final dos anos 60, quando ali comegava a se delinear o que viria a ser aior provincia mineral do planet, nLao podia prever mu- clang: ao dcr 'as na p, 'agem em menos de quatro decl das: ao inv6s cia mata clensa e alta, corn o maior indice de concentragao cle castanheiras da regiao (um sintoma da fer- tilidade do solo, acima cia media), agora today: ; rea em tor- no do plat6 6 dominada por palmeiras. O b1 a'u proliferou como praga no rastro do fogo, que consumiu a fina camada de hm61us e abriu espago para a recolonizagfo florestal se- cundciria, visivelmente inferior. Mas que chegou para ficar, sujando definitivamente o lugar. O verde monotonamente dominante ou o solo icido e geneticamente fraco, enquanto elements cle generalizacgfo, fomentam a presungflo de uma uniformidadce amaz6nic: que serve de suporte e remissto de culpas para o colonizador, disposto a transform; a paisagem agem e semelhan- ga, prolongamento cla terra que deixou e corn a qual busc; reconciliagio no ponto de destino, a custa de desfigura-lo. A ciencia pode esperar a vez, na retaguarcla, quan- do convocada pelo amansaclor ca terra, que a ela chega corn expectativas enraizaclas e formulas prontas. Quando ouve o chamado, contuclo, a ciencia nem sempre pode fazer mais do que lamentar os clanos consumados e, muitas vezes, incorrigiveis. Fazer ciencia 6 quase sin6nimo de martiriolo- gia no front az6nico. Um poema dodecaf6nico sobre o leite derramado e a Ines morta. No entanto, poucas clas fronteiras jai abertas pelo ho- mem necessitariam tanto do conhecimento cientificamente ado ou de hip6teses solidamente formuladas quanto a Amaz6ni o reduto que mais floresta tropical, igua e biodi- versildade cont6m no globo terrestre. O mais angustiante 6 que boa parte clesse conhecimento e uma quantidacle imensa das ferramentas necessairias para testar laclos novos e fazer novas formulacbes ja estaio acumuladas em almoxarifados do saber espalhados por diversos paises, inclusive o Brasil - e at6 mesmo a Amaz6nia. O problema 6 transferi-los par. regifio, torni-los disponiveis para uso e convencer quem toca as frentes de avango econ6mico a sincronizar seu ritmo ao cla information (e, atrav6s dela, i norma coativ: na forma de leis boas na proposigio e eficazes na execugIio). Como gern a ciencia de vanguarda se a Amazonia conta corn apenas 5% do orpamento national de ciencia e tecnologki 'i em descompasso corn os melhores p amie- tros internacionais? Como permitir que o conhecimento ci- entifico enquadre acgio do home nas ireas amaz6nicas virgens se dinheiro que podia ir para centros ce formacgao e qualificac'go dte mto-de-obra, laborat6rios ou experimen- tos de campo vai alimentar empreencimnentos de polemica atriz geopolitica, como os 1,4 bilhao de d6lares do Proje- to Sivam (Sistema de Vigilancia cda Amaz6nia), a serem gas- tos em cinco anos (o equivalent a 20 anos de verba tde ciencia e tecnologia)? A curto e m6clio prazo (o tempo corn que conta uma gera~io para fazer valer seus atos), a Amaz6nia parece ser um desafio grande demais p: as possibilildades e o inte- resse real (nao s6 o ret6rico) do Brasil em dar uma cliregio inteligente, racional e em resume cientifica ao process de ocupacJao cla Amaz6nia. Em suas linhas definidoras, ter sico impossivel impecir que ele siga em paralela corn o conhecimento, em clesacorclo com o projeto (aincla mal cle- finido, ai existente) de conciliar a necessidade de pro- duzir com o imperative de nao faz&-lo a custa do patrim6- nio natural da regiaio. Uma avaliag-ao rigorosa do balanco entire construgao e clestruigio, aferindo o grau de sustentabiliclacle (ou renova- gio em face das materias primas) das ativildades econ6mi- cas, devera resultar num balango negative, numa relagio cle troca desfavorivel. Para a inversfo desse resultado, a coope- ragao international se apresenta quase inevitivel. O prego a pagar seria o da internacionalizagaio do nosso maior recurso de future? Num raciocinio simplista e esquemiitico, sim. Numa consideragFto mais rica, 6 uma hip6tese. E, como qualquer hip6tese cientifica, precisa ser testacla, tendo-se o maior gr de control possivel sobre as variaveis envolvidas. Atrair pesso; entildades, instituig6es, empresas e ate mesmo governor pi *a a tarefa de revelar em que consiste realmente a Amaz6ni; por tras de apar&ncias enganaldor pode ser um pass para abrir maio da sua soberanik Mas pode ser tamb6m, na contrn 'o do process, a maneira de equilibr; a situagio na regiato, once muitos clesses per- sonagens jai la se encontram, agindo dentro das normas le- gais, mas nem por isso cleixanclo de representar um element tie agressaio e de ameaga para a mesma soberani; senao em terms formais, ao menos na praitica. As meclidas die control e ordenacgio que tOm faltadclo no acompanhamento do fluxo de capital cleveriam ser aclotadas pi a balizar o incremento de outro fluxo: o da ciencia. S6 assim os amaz6nidas em particular, e os brasilei- ros em geral, aptos para acompanhar criticamen- te o que ja se faz em mat6ria de ciincia e tecnologik v6s de cooperajgio international, freqiientemente lefinida de forma lesatenta, e o que se cleve amplik A 'aliagi o dce um avaliagio como a que os sete paises mais ricos (o G-7) estao fazenclo neste moment do prognr a piloto de protecgo at floresta az6nica, antes de definir se (e como) ele vai continue Uns dizem que esse program 6 uma ponta de langa do imperialismo, um reduto do neoliberalismo globalizante, uma meclida de relag6es poblicas sem maior efeito, um boi de piranha para permitir a manada de interesses comerciais n; biodiversidade amaz6nica passar por outro caminho, prova da nossa incapacidade de corresponder, corn recursos pr6prios, i contrapartida international de maior monta (como os US$ 250 milhoes desse program) e muitas coisas mais. Tolas corn alguma pitada de verclacle, mas distantes da ver- dade por inteiro. Porque sem muita informagio, capaciclale de entencl-la, processa-la, difundi-la e coloca-la em pritica, nao seremos capazes de cliscernir a verdacle na Amaz6nia. Nela, a escala cientifica em vigor e a do ensaio e erro, o que cld uma media do atraso mental e intellectual nessa que e a maior fronteira de recursos n; ais do planet. A 2 JULHO/2001 AGENDA AMAZONICA POLEMICA A lirao das hidreletricas A Procuradoria da Repiblica no Para e a Eletronorte, empresa estatal subsididiria da Eletrobris, irrio a travar, a par- tir deste mes, a terceira batalha de uma guerra declarada em torno da construgao da hidreletrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pari. F uma obra de 6,5 bilh6es de d6lares (16 bilh6es de reais, ao cambio do dia), cor previsao de come- car no pr6ximo ano para que em 2007 entire em '~' i.'.. -' a primeira das 20 gigantescas turbines. Cor todas as maiquinas instaladas, a usina teri potencia de 11 milh6es de kw, o equi- valente a 20% da atual capacidade de energia do Brasil. Serfi inferior apenas a Itaipu. Juntas, corresponderiam a quase metade da geragto brasileira. A primeira batalha foi ganha pelo Minist6rio Piiblico Federal. Tres procuradores propuseram, no final de maio, ura acgo civil p6blica para sustar os es- tudos contratados pela Eletronorte no ano passado, sobre o impact ambiental do empreendimento. Conseguiram que o juiz federal Rubens Rollo d'Oliveira determi- . nasse liminarmente a interrupci o dos tra- balhos. Na semana passada, a empresa re- correu para Brasilia e tambem conseguiu . antecipar o julgamento do feito pelo Tri- bunal Regional Federal. Urn juiz do tribu- nal, Jirair Aram Megueriam, igualmente atrav6s de liminar, autorizou a retomada dos estudos pela Fadesp (a Fundagio de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa da Universidade Fe- deral do Para). A guerra ficou empatada em um a um. Uma liminar anulada pela outra, agora o colegiado da junti... federal vai apreciar o merito da questao e proporcio- nar o terceiro confront entire as parties. Os procuradores da Republica no Pari estAo certos de que sairlo vencedores. Sabem que estfo diante de uma conjuntura desfavorivel, corn o piano national de contencgo do consume de energia em pleno vigor e o receio do governor de que a escassez no fornecimento se prolongue por mais tempo. Todos querem abrir e nao fechar o leque de opg6es de geragao. Os mem- bros do MP ressaltam que nao sao contra o projeto da hidre- 16trica. O que combatem 6 a forma de construi-la. Continuam a sustentar que a Eletronorte 6 obrigada a abrir concorrnncia p6blica para contratar o responsavel pela elaboraglo do Eia-Rima, que mede o impact ecol6gico da obra e propoe as medidas mitigadoras dos efeitos negatives inevitaveis. Nem mesmo uma fundagao universitAria, como a Fadesp, poderia ser contratada diretamente, por ser enti- dade de direito privado, ainda que nao-lucrativa. O MP observa que a fundagao da UFPA, contratada atrav6s de convenio e nao por um contrato regular, no valor de R$ 3,8 milh6es, nao tem not6rio saber e especializagfo em Rimas. Os dois que ji fez, para as hidrovias Araguaia-Tocantins e do Tapaj6s, de taro deficientes, provocaram o embargo de ambas as obras na justi'a. Estao paradas ate hoje. Os estu- dos terao que ser refeitos. Ademais, preparar os terms de referencia para a re- .,l.l..j,,> do Eia-Rima 6 tarefa do 6rgao federal competen- te, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renoviveis), e nao de uma secretaria estadual do Parn, como ocorreu, porque o Xingu 6 um rio que corre em dois Estados (dois tergos em territ6rio para- ense e um tergo, a partir das nascentes, em Mato Grosso). Se o 6rgao equivalent do governo matogrossense, quan- do (e se) consultado, n.o chegar a mesma decisao do cor- respondente paraense, quem dirimiria o impasse? Prova- velmente o Ibama, que acabarn tendo que decidir sobre o pr6prio licenciamento ambiental da hidrel6trica. Por que nao comecar o process? A Eletronorte, de sua parte, alega que optou pela Fa- desp para prestigiar uma instituigio local, ao inv6s de ir buscar um 6rgao de fora. Seria um item da nova political geral que estaria adotando, de multipli- car os efeitos do empreendimento na pr6- pria regiao, ao inv6s de aceitdi-lo como S um enclave, condenado apenas a mini- .. mizar seus impacts negatives, quando r poderia potencializar os efeitos positives. w 8.0 Argumenta tamb6m que alguns dos t6c- SVIUONTE nicos envolvidos nas pesquisas tim li- cenga do Ibama para atuar, o que supri- ria a ausencia do institute. A estatal nega ainda que simples es- S. tudos tenham que ser autorizados pelo Congress Nacional, como sustentou a proposta de acgo civil piblica. Proclama tamb6m que as pes- quisas estao sendo conduzidas cor rigor e serao submetidas a consultores, se apresentarem alguma deficiencia. Ademais, v~o ser discutidas em audiencias pdblicas antes que o gover- no conceda o licenciamento ambiental. A Eletronorte insisted que a reacao a Belo Monte result do desconhecimento do projeto, inclusive por part dos procuradores e do juiz fede- ral que endossou sua posiglo. As duas parties t&m arguments suficientes (estes e viri- os outros) para ocupar dezenas de p~ginas das peas que iraio apresentar no contencioso judicial, obrigando os magis- trados a um esforgo de analise na apreciagio e sentencia- mento da causa. O que impression 6 a discrepancia nas linguagens adotadas pelos dois entes publicos federal, o fis- cal da lei e uma concessionaria de services p6blicos. A Eletronorte apregoa aos quatro ventos que um aprovei- tamento hidrel6trico como o de Belo Monte 6 um present 6ni- co dos c6us. Desperdigi-lo, ou, pior ainda, ignor~-lo, seria pe- cado mortal. Por um capricho geogrAfico, o Xingu tem um des- nivel de quase 100 metros numa pequena distancia. m,- JULHO/2001 AGENDA AMAZONICA 3 Canalizando suas aiguas por cuas adutoras de concrete, 'a possivel aclicionar um quinto de energik ao sister: national, ando um reservat6rio que sern s menor do cque o dce Tucuruf, a potencia final chegarn apenas clois tercos da ce Belo Monte. N'; squecendo que em Tucuruf o lago artificial formal pelo repre,-amento do rio Tocantins se tornou o segundo maior do p, corn 2.850 quil6metros qu: drados dce I Ji os representantes do Ministerio Publico alertarn parn a form a lde conduck'o do projeto pela Eletronor- que estaria interessada em aproveitar o impact do risco de faltar energia no Brasil p; -ansforml seus projetos em fatos consumados, 'aixas pretas refratirii ao interesse 'xterno. A contrataCfio direta de uma fundac'ao university( a coerente corn e. at6gi; obrigada aceitar um cronogr a extremamente curto e a se submeter is con- tingencias do ): sso a uma verba que represent quase 20% de todo o orcamento annual cla Universicdade, a Fadesp apre- sentaria o Eia-Reima ainda neste ano p *a que o governor do Pari o aprovasse e a Eletronorte come; a constru- gao ji em 2002, podendo iniciar a motorizaaio da usin; final de 2007 O procurador Felicio Pontes Jonior tern dlvidas quanto a dimensfto vercadeira do lago, que inicialmente estava pre- visto para ter 1.200 quil6metros quadrados e ; aboutu sencdo reduzido para 400 km2, ja que os canais dispensary a inun- claio da Grande Volta do Xingu. A Eletronorte cliz que esse 'at6rio corresponderra ao nivel cia chei: 'azonal do rio. Ele simplesmente cleix a de v: perenizando ala- gada.. Mas nalo chegarik a submergir Altamira? E o que Feli- cio question: A hip6tese 6 gr mas certamente pole 'sclareci- da por estucdos previous satisfat6rios. Sern entretanto, que : Faclesp esti em conldig6es de faze-los? Ainda que contasse corn qualros em n0mrero e qualidade suficiente. poclerfi re- alizar uma pesquisa segura em menos de um ano de campa- nha? Embora o convenio tenha siclo assinado em outubro do ano p; ado, 'agens ao Xingu s6 cormegara em novenm- bro ou clezembro. O levantamento, portanto, n. -angerl um ciclo hicrol6gico complete. Diviclas suscitadas pelos procuraclores se transforma- -'am em quest6es acacldmicas, que fic; am pz a ser resol- vidas em ambientes acacldmicos, sem interferir na operosi- dade dos executives, donos das decis6es no mundo real, que 6 o que conta. Mas os homes do Minist6rio Publico Federal nio pensam assim. O procuraclor Felicio Pontes Junior ji clisse que encara as batalhas judiciais em perspec- tiva como parties de uma grande guerra a ser travada contra a Eletronorte. Nio p; a inviabilizar a hiclreletrica de Belo Monte, "mas para permitir que ela seja construida clentro dos paraimetros cla lei e das melhores expectativas da soci- ecldae" Apesar dos desastres que ficaram no rastro de ou- aproveitamentos energ6ticos na Amaz6ni como Tu- curui e Balbina, a Eletronorte parece pretender fazer de conta que aprencleu as lives e nao vai repeti-las. Os pro- curadores prometem cobrar a prova dos nove. BELO MONTE Um present de Deus (ou um cavalo de Tr6ia?) Quem poce ser contra um investimento de 3,8 bilhoes de d6lares no interior do Pari? Esse valor, consiclerando ape- a construgCao da usina de Belo Monte. Se for incluicdo o seu sistema de trz ado, o oramento pula par: US$ 6,5 bilh6e. o equivalent ais de 10 anos cle cdaCio cle ICMS do Par, Em te, ningu6m cometeriu stupidez de vir, a um empreendimento clesse porte. Mas n; 's6 pelo anho do gasto, a ser feito em 7 ou 8 anos pela empress (ou cons6rcio le empress) que sucelerai a Eletronorte no comando do projeto cia hidreletrica, quanco ela for privati- zacla, que se cldeixari de 'alii-la corn rigor. Ele pole ser bom ou ruim, nio suficientemente bom ou nto necess: mente t; conforme forem as decis6es tomadas quanto a sua concept; execuiao e uso. V; as clessas clecis6e. tmrn que ser aclotadas agor: enquanto e tempo. A primeira question e o model de Belo Monte. A Eletro- norte d ; sponsivel pelos estudos de viabiliclace e de impact s6cio-economico. Ela so p; a obra em frente quando ela ja *stiver em andamento. O que : antar ate ent; no limited die 30% do valor global do projeto, "arciclo pelo venceclor da concorrencia. Nao 6 um modelo desnecessariamente tortuo- so? Nio seria melhor; -statal simplesmente elaborar os terms ce referencia pl a licitaclo da conce. to do aproveitamento hidreletrico? Ou o que se busca 6 uma composicto de intere. ,s entire a Eletronorte e os possiveis parceiros na usina? Ou a-la como ativo patrimonial na venda cla pr6pri; statal? A segunda cluestio dciz respeito i; studo dos impacts ambientais. Se a inten'ai)o da Eletronorte era valorizar Io- de-obra local, por clue nio fez um convenio h; ais tempo p: -a former e qualificar gene na universicdade, atrav6s ca Fa- desp, possibilitando-lhe concorrer corn outros pretencentes numa licitagao piblica? Mesmo que a funcla'ifo perdesse, a Eletronorte poderia recorrer a ela como sua consultora parti- cular, enquanto o vencedor cia concorr&ncia prestaria contas diretamente ao 6rgio licenciador, abrindo par; a triangulac'ao um entendimento bilateral que acaba sendo amplamente do- minado por quem paga a conta dos estudos (e, quase sempre, espera que eles sirvam ; alizagCao dos seus prop6sitos). Uma terceira questito: o aproveitamento de Belo Monte 6 ou nio umr present da natureza (ou de Deus), ao qual os homes deram o delineamento mais inteligente? Aparentenen- , sim. O lago foi recluzido a um tergo da previsao do projeto original. Em Tucurui, cada quil6metro quadrado submerso no 4 JULHO/2001 AGENDA AMAZ6NICA reservat6rio possibilitard, na etapa final (de 8 milh6es de kw) a instalacgo de 3 mil kw na usina. Em Belo Monte a relagAo sera quase 10 vezes maior: praticamente 30 mil kw para cada km2 afogado. Este 6 um aspect inquestionavelmente positive. Mas sera que os 400 km2 de espelho d'agua serao mantidos permanentemente? Quando a descarga do Xingu tiver volume de agua menor do que o necessirio para acionar uma s6 das turbi- nas (ou 700 mil litros por segundo), o vertedouro mantera o fluxo normal pela volta do Xingu, que passard a ser um dos dois cami- nhos de drenagem (o outro serao os dois canais, que a Eletronor- te pretend rasgar a partir do leito de dois cursos d'agua que se ligam diretamente com o local onde ficara a casa de miquinas). HI outros aspects ainda a esclarecer sobre a operagao do reservat6rio, mas se tudo nele fosse a maravilha que a Eletro- norte Ihe atribui, o fato de que durante um quarto do ano a usina ficard completamente parada por falta de agua para acio- nar uma s6 das suas miquinas, e que num semestre inteiro pro- duzira pouca energia, p6e em causa a decisao de investor tanto dinheiro numa usina de grande porte na Amaz6nia, que s6 con- tari mesmo durante metade do ano. Cor seus crit6rios t6cnicos, os engenheiros ainda assim encontram n6meros para viabilizar a obra pelo calculo do custo do kw instalado. Mas essa matematica minimize os aspects ecol6gicos, sociais e econ6micos do empreendimento. Ela in- duz o otimista incondicional, que pensa pelo raciocinio inverso do pessimista contumaz: todo investimento feito na regiao 6 bom, ao deslocar para ela dinheiro vindo de fora (e ainda mais tanto dinheiro quanto o que uma grande barragem movimenta). Nao interessa se, em terms relatives, na relagao custo/beneficio, no estabelecimento de relac6es de troca, o que vai sair sera muito maior do que o que ira entrar. Ou o que entrard sera uma forma de consolidacao da desvantagem relative da regiao. Como ser uma provincia energ6tica, por exemplo. Na fase de implantagao, um grande projeto cria empre- gos e promove a circulaglo de dinheiro. Mas tamb6m atrai muito mais gente do que 6 capaz de absorver, corn todos os problems sociais decorrentes, transferidos para os largos costados do governor, que nio recebe impostos na escala proporcional dos novos encargos. Depois, a estrutura vicia- da que esses projetos engendram desafia a capacidade dos natives de desfazer o n6 g6rdio que foi atado. Estamos ha 15 ou 20 anos exportando mat6rias primas c insumos basicos (min6rio de ferro, manganes, bauxita, alu- mina, aluminio, caulim, celulose, al6m da pr6pria energia, em forma bruta ou semi-transformada) que no period tive- ram seus pregos relatives desvalorizados e nao conseguiram criar os "efeitos para frente", que constitui sua parte nobre, sem serviram de impulse (o "input" dos t6cnicos) para outras atividades de maior valor agregado. Uma hidrel6trica, portanto, nao 6 boa nem ma em si mes- ma. Mas s6 a partir da andlise intrinseca dela, com o maximo possivel de detalhes, 6 que se chegard ao context que as define. E se checa a nova ret6rica da Eletronorte sobre a in- sergao regional e o "desenclavamento" de mamutes como Belo Monte, que nao mais repetiriam os erros dos antepassados re- centes. Recebidos com flores, deixaram a horta arrasada. A TESTEMUNHO A Belem de Jocelyn (que a estrada come) Um retrato amoroso e moleque de Belim em 1952, entire o "esforco deguerra", de 1942-45, e antes das "estradas de integracdo national", apartir do final da d6cada de 50, foi o queJocelyn Brasilfixou ("Atd a vista Belem do Pard")para a Foliia do Norte, quandosepreparava para viajarpara Viena, na Austria, para um encontro international sobre apaz. Cor um jeitinho bem brasileiro, Jocelyn conseguiu conciliarsua carreira na Aerondutica, aonde chegou a coronel, cor a milidncia na esquerda, primeiro como socialist e, depois, assumidamente comunista. Pelo menos at6 1964, quandofoi cassado como subversive, preso e expulso da corpora~do. Ndoperdeu o humor e a alegria de viver, porim, dedicando-se a viajar, escrever egozara vida- e, sempre quepossivel, a suas atividadespoliticas, ate a morte, jd avanfando aldm dos oitenta anos. Transcrevo aprimeiraparte do texto, que trata especificamente de Belem, tal comopublicado na Folha de 7de dezembro de 1952, cor algumas notaspara o esclarecimento do leitor de hoje. Tu 6s minha bronquite, Bel6m do Pard. Estas 1i dentro do meu intimo. Sei que nio 6s li essas cousas. Mas te quero assim mesmo. Tal qual 6s. Corn as ruas por cuidar. Com as valas entupidas. Cor o forastei- ro passeando pelas tuas ruas sua improficuidade. Cor os "lacerdismos" do Padre Serra. Cor o LeAo na COAP [Comissdo deAbastecimento e PreCos do Estado, a Sunab da dpoca, subordinada a COFAPfederal]. Cor a came sumindo e subindo. Sem chefe de Policia. Cor comissarios Lauros. Sem legalizar o jogo, mas o jogo comendo feio e solto pelos clubes. Cor o Reis Ferreira (entdo deputado estadual epresidente de umafederado rural mandando. Com o Miguel Silva a morrer de sauda- des do Mimi [MagalhdesBarata]. Cor os Bai6es do Epilogo [de Cam- pos]. Corn besteiras do Menez lodo Menezes nosingulart. Eu te quero assim mesmo. Da-me uma saudade louca o estar long de ti. Saudade desse cheiro de manga. Dias e noites frias e cheias de encantamento do Amazon Bar. Das conversas da terrasse do Grande Hotel. Dessa comodidade provinciana que teus costumes nos proporci- onam. Das peladas com entrada paga que dao em Ant6nio Baena e Curuzi. Do "aqui pra n6s" do velhinho Edgard [Proenca]. Das sess6es pulguentas do Olimpia. Dos bilhetes eternamente brancos da Loteria. Do "footing" na JoAo Alfredo. Do encalhe do "Rebate". Do papo no Manduca [um cafel. Das tesourinhas afiadas do Poti [Fernandes] e do Santa Rosa. Da malicia ingenua do Santana Marques. Saudades do mara- cuji do Central misturado corn as piadas do Faganha. Da calvila do Amazon de envolto cor os tangos de Mario Rocha na voz buligosa do Baratinha. Do cognac espanhol que serve no El Marroco. Do Cl6o [Bernardo] me convidando para almofar, li em casa. Das garotas que nos serve no com6rcio. E das que passeiam seus encantos pelas ruas. Das criangas amigas que me sorriem. De tudo e de todos que estio ai. E maior ainda de quem ji nao esti mais. JULHO/2001 AGENDA AMAZONICA 5 RIOS Para todos? Nenhuma hidrel6trica foi mais discutida no Brasil do que a de Tucurui, no rio Tocantins, em 1984. Provocada ape- nas alguns meses antes da formagao do reservat6rio da usi- na, o segundo maior do pais, a controversial perdeu seu efei- to pratico quando foram fechadas todas as comportas da enorme barragem, comegando entio a contagem regressiva para o inicio de sua operagao, que ocorreu cinco meses de- pois do represamento total do Tocantins. Mesmo assim, gragas a essa discussao publica, a Ele- tronorte teve que patrocinar o primeiro estudo dos efeitos a jusante (abaixo do ponto de fechamento do rio) de uma barrage at6 entao feito no Brasil, apesar da extensa tra- digao que o pais j~ possuia nesse ramo da engenharia. Desde a d6cada de 50, corn a construgao de AssuA, no rio Nilo, e de Boneville, no Columbia, no extreme noroeste dos Estados Unidos, sabia-se que a retengio das Aguas de um rio que desdgua em um delta ou golfo tern efeitos po- derosos a jusante (a expansAo da salinizagao 6 um deles). Mas s6 corn Tucurui essa percepgao chegou finalmente ao Brasil, corn tres d6cadas de atraso. O Tocantins 6 um dos principals contribuintes de um complex estuario no qual Bel6m estu localizada. Quase 20 anos depois que a usina de Tucurui foi inau- gurada, tornando-se a segunda principal fonte individual de energia do pais (responsivel por 8% da oferta total), a anunciada retomada do program hidrel6trico na Amaz6- nia, como uma das mais vigorosas respostas possiveis a cri- se energetica national, deixa evidence uma situagio de cer- ta forma desconcertante: houve pouca evolug5o prntica na regulamentagAo do uso da agua na regido que abriga um quarto de todas as Aguas contidas nas bacias hidrogrdficas do planet. Isto quer dizer que as contribuicges da polemi- ca travada em Tucurui praticamente se perderam e os erros cometidos na construg5o dessa hidrel6trica, que ji absor- veu quase 10 bilh6es de d6lares, nao foram corrigidos numa norma para uso regular. Para que novos represamentos nao continue acar- retando efeitos nocivos a Amaz6nia, capazes de incidir inclusive sobre os seus recursos hidricos, vArias medidas precisam ser adotadas, cor urgencia proporcional ao cro- nograma de obras do setor eldtrico. A primeira 6 dar vida aos comites de bacia, criados apenas na letra da lei, que existe como figure decorative. No Tocantins ji ha duas hidrel6tricas em atividade sem que as empresas operado- ras se sujeitam ao comite dessa bacia. Ha agencies nacio- nais e estaduais em funcionamento, mas tudo indica que os comites foram previstos porque cada bacia exige uma agao especifica, uma atengio que estA al6m do alcance das agencies reguladoras. Tal previsao 6 sAbia. Esti atrasada (e, em alguns ca- sos, irremediavelmente atrasada, ao que parece) a defi- nicgo global do uso da bacia atrav6s de um piano de desenvolvimento. Nao um piano concebido como docu- mento para ingles ver e adornar prateleira. Um piano sub- I V I, ^*^ ^ s a^ ^ ,t^ ^. ,, _ ,. .I -".- ^ ?'-i ,i 4 *'Sm '. L ,m _', Oro-_r.C' r f r ,r- .5 I WJVT17 d. 6*6 6 JULHO/2001 AGENDA AMAZONICA I.. . metido ao parlamento e transformado em lei, de aplica- cio obrigat6ria. Um piano tera que dispor do inventario complete do rio, definindo em quantos pontos, exata- mente once e que de maneira ele serfi represado. Nao s6 para gerar energia, por6m, o que seria uma estultice. As iguas de um rio serve i navegagio, a irrigaiao, ~ cole- ta e extracao de peixes, ao turismo e fungio cada vez mais important ao fornecimento de fgua potivel, para consume human, naturalmente. 0 uso miltiplo de um rio 6 tarefa que excede as fina- liclades e a competencia de uma empresa de energia, bito- lada pela relacio otimizada entire metros cubicos de figua e kWh. Logo, a concessioniria de energia deve ter sua aaio subordinada ao comite de bacih, o verdadeiro executor do piano de desenvolvimento. O que exigira, evidentemente, pianos diretores especificos para cada uso do mesmo re- curso natural, a figua, um ajuste entire cada um deles e a previsato global e, de preferencia, integradora. Expostas dessa maneira, as exigencias podem ter uma entonafio academica. Nio 6 assim, contudo. E na praitica que suas virtues serao demonstradas. No Tocantins, por exemplo, a Eletronorte conseguiu vender i opiniio pbbli- ca sua polimica hidrel6trica de Tucurui a partir da pre- sun 'io de que seria o inico aproveitamento ao long de todo o curso do rio em territ6rio paraense. Hoje, come, a ficar evidence que o rendimento da usina s6 se torn; vantajoso quando um represamento que jai havia sido can- celado, o de Marabk 200 quil6metros a montante, for cons- truido. Nio s6 para acumular mais aiguas para usar duran- te a estiagem do verio, como para receber novas mriqui- nas de gerato. Um piano corn status die lei especial naio permitirir a tal mudanga no que estava originalmente programaldo. No Tocantins a tarefa 6 mais ingrata e menos factivel: corrigir os erros no cursor de sua materializag- No Xingu, a pr6xima back a ser 'ada pelos bI -ageiros, fivel porque ali ainda nao h( a s6 repres; No entanto, os erros previsiveis s' primeiro um; grande bi -agem, levantaca apenas p. a gerac ao de ener- gii sem unm dominio seguro sobre aguas de today depois, -as consideradas indispensaiveis porque apre- sentaclas como complementares ao que inicialmente foi fei- to. E assim ser(, em cada uma das bacias dos rios amaz6ni- cos cor potential hidrel6trico, se o modelo adotado em Tucurui, ainda o vigente, se mantiver por uma das m; "adigies brasileir; a da letargi. Se o risco dos apagoes em algumas das maiores cida- des brasileiras levou ao rompimento dessa nefasta aiitude em beneficio da retomada a plena carga do progrn a de expansao da procluaio energ6tica, deve-se fazer o que for possivel para estender esse dinamismo atd o outro lado da moeda, as medidas de contrapress'to que o a busct ais kws a necessidade de que os caudalosos rios cda Amaz6nia sejam melhor usados e sejam preservados dos exageros e desvios da engenharia hidriulica, presence mo- nopolista em nossos cursos d'JiguL A Carta.................. Prezado Lucio Flivio, Demorou, sim, mas nem por isso perde em intensi- dace o meu agradecimento ao generoso comentirio que voce fez na Agenda AmazOnica, prop6sito dos 40 anos da Mendes. Recebi as duas piginas do seu registry como um depo- imento de quem 6 testemunha, ainda que um pouco a dis- tancia, da nossa hist6ria, que, um dia, nao sei quando, ainda you encontrar tempo para contar. Foi uma surpresa. Uma agracldvel surpresa. Obrigado, muito obrigado! Abragos, Oswaldo Mendes Nao tern de que, Oswaldo: voce e a Mendes merecem. In- clusive men desagravopelas critics injuslas que Ibe fez o Mi- guel Arraes, em A Provincia do Pard. Miguel tern Id sels moti- vospara protester contra o Banco da Amazdnia e sua agencia, por conta da exclusdo do journal da midia comemorativa dos 59 anos da instituiido. 0 banco tambCm terd seus motivospara evitar novas rela6des corn unia empresa inadimplente em sna carteira, ainda que a origem do ddbito seja anterior e atual gesto do oornal (que a elapassa, entretanto, porforaa de urma ,ssdo legal). Tudo bemn: aspartes ais armas dos fatospara esclarecer a verdade. As agressoes de Miguel a (e ao) Mendes, contudo, sdo mera retaliagdo. Oswaldo passou pouco tempoem A Pro- mas o suficiente para deixar registrada ali utma boa presenga. Basla ver suas reportagens, publicadas coin desta- que no. ornal, numa epoca em que J)i-ente da redacdio esla- rcami pessoas qualificadas para comandc-la, algumas trazi- das da matriz carioca para estabelecer a base dos Dicrios Associados no Pari. Quantlo a suia atlaiCo na piublicidade, independente- menite do sen cardcier pollmic, coin seus prds e contras, algo defCnilirainente incorporado. Osialdo MendesJjazparle de iuma histdria que nem desavenFas evenilais e chores e ranger de denies podem mais desfazer Que a controver: porlanto, ndo passe por sobre o elementary no jornalismo: informacdo correta. Caro leitor: Esta pocle ser considerada uma edigio de fdrias, pan ser lida na ultima semana do mes em que os paraenses (mas especialmente os belenenses) se dedicam cor competcncia incomum aofarniente. Uma ediciio que combine mat6rias temfitic: cor enfoque no uso da agua na Amaz6niC corn um ilbum de fotos e velhos anfncios que certamente irao agradar os mais velhos, mesmo que pouquinha coisa. Espero que os leitores apreciem os criterios desta edigio. E bom fim de fdrias. JULHO/2001 -AGENDA AMAZ6NICA- 7 IU RETAT Orquestra O maestro Orlando Pereira, recentemente falecido, posou para esta foto, em outubro de 1953, a frente de uma orquestra cor 13 figures, sendo sete de sopro, tres de cordas, um de percussao, um croonere o pr6prio band-leader, a frente do "conjunto harmonioso, animado e vibrante".Depois de percorrer todos os clubes de Bel6m, a orquestra se exibiu em Sao Luis do Maranhfo, para tocar no Litero Clube, "o mais granfino clube da capital maranhense". Orlando Perei- ra nao chegava a ser um Benny Goodmann, mas nao ficava long de um Valdir Calmon. Paisagem Esta era a fisionomia, no final de 1953, da esquina da rua Mano- el Barata corn a travessa Padre Eutiquo. Era definida por pequenos estabelecimentos comerciais, como o Bar Ponto Centro, ben no can- to, como entao se dizia, e outros predios que a Fenix Caixeiral Paraen- se adquiriu para expandir suas instalaiges. Ela se c.rI'Ill ..1 de ser uma "universidade-mirim", de ambito commercial, com cursos que iam desde a alfabetizacgo ate o bacharelado em ciencias econ6micas. Na 6poca, o piano da instituigio era colocar abaixo todos os pr6dios antigos ("um pardieiro", segundo uma nota de journal substituindo- os por "um edificio digno de estudantes e professorss, na tendencia de (duvidosa) modernizagto que assolou Belem no period. Mas os pianos nao chegaram a ser executados. Ou, ao menos, nao pela Finix, que acabaria fechando suas instalagoes no centro velho de Belem. Hoje, ali hd modernosas instalacges comerciais. Bel6m perdeu o que tinha e deixou de ganhar o que podia ter. I 3 A `4. Omnibus fw.-- ".. ... chassis era importado das fabricas, no sul do fI, 1' roceria era feita nas oficinas de Belmr mesmo, y._ _-.lin ... -m padrao tipico dos 6nibus da cidade, muito 3 .-.I I .it ,,i-vel, pouco seguro, mas facilitando o contato S, I-"-. '" ,al. Nesta foto, de maio de 1954, umLa fila deles em frente ao Departamento Estadual de Seguranga Publica, na rua Santo Ant6nio, durante urma vistoria. Pode-se perceber os pr6dios antigos vizi- nhos a antiga Central de Policia, ja denubados. O Hospital da Ordem Ter- ceira antes da "reforma". E o Col6gio Santo Ant6nio ao fundo. Passado Uma foto que provavelmenteJarbas Passarinho e Alacid Nunes nao tmn e nern devem fazer muita question de ter em seus ilbuns. E do inicio de 1966, quando ainda sentavam juntos (Alacid, de qualquer modo, avesso ao sorriso). Jarbas havia acabado de passar o governor do Estado ao successor que ajudara a eleger, ex-prefeito de Belem, cor uma consagradora vit6ria eleitoral, e ainda nao se elegera senador. Tinham said para a political da 82 Regiao Militar e Comando Militar da Amaz6nia, Jarbas uma patente acima do major Alacid, que se torna- ra tenente-coronel ja na reserve (prormogao que entao ocorria automa- ticamente). O encontro era um jantar de despedida dos oficiais da Policia Militar ao comandante que estava deixando a corporagao, co- ronel Evilicio Pereira. Alacid, o Onico de roupa escura, nao parece estar bem na foto, como hoje se diz. 8 JULHO/2001 AGENDA AMAZ6NICA ~f~r '' 91 RETRAT A Grande Novidade do Ano! Touradas Tipicas Espanholas ESTR~IA, DIA 25, AS 16,00 HORAS NA PRAVA DE TOUROS PARA' (Antigo Largo do Congrcsso) PROMOCAO DA FEIRA DA AMAZONIA 4 FIGURES INTERNACIONAIS Junn -av. Silvio Romero orgse DoegaCd PRECIOS: El indio Apache 6 BRAVISSIMOS TOUROS 6 Arquibancadas Numeradas... (crais. ................ Estudantes e Crianas.. .... 150,00 100.1)0 6 ,'JO Ingressos i icnda em ,S F\'ro.I (EId'ficio Pahicio do Radio) Juan Bravo em uma "VeroiIa" Postal O fot6grafo da Folha do Norte foi a esquina da avenida Almirante Tamandare com a 16 de Novembro, em pleno fim de junho de 1960, para mostrar que a cidade nao resistiu is chuvas ja fora de epoca e ficara ala- gada. Tudo porque o prefeito Lopo de Castro nao tinha mandado desen- tupir os bueiros. Na Tamandare, o DNOS (Departamento Nacional de Obras de Saneamento) ainda havia construido o canal de drenagem. A recent arborizagao crescia no cen- tro da pista, de mao dupla, como era a 16 de Novembro, com as suas palmeiras imperiais de porte elegan- te, que viriam a ser sacrificadas. No fund da Tamandare, apenas dois "arranha-c6us": o Manoel Pinto da Silva em destaque. Nenhuma e muita mudanga de la para ci. Ol1! Como se fosse uma cidade de cultural hispanica, Belem tamb6m teve suas touradas em 1960. No melhor es- tilo espanhol, elas foram apresenta- das como "a grande novidade do ano" na "Praga de Touros do Para", que havia sido o Largo do Congresso (por causa do Congresso Eucaristico Naci- onal, de 1953), e viria ser a Praga Ken- nedy e, agora, Waldemar Henrique. A maior atragao era o Indio Apache, que se defrontava com seis touros furio- sos, naturalmente. Quem viu, n0o esquece. Quem nao viu, nunca mais vera. JULHO/2001 AGENDA AMAZONICA 9 3 '* A I ""'' *^ f . ",,L\ 'j."- '.: :;'; ** :*" ': ' .,..... ,0 .AN O., Ausencia O guaranai ficou esquentando na taga, no salao nobre do palicio do governor, a espera do ministry do trabalho, Joao Goulart, naquele 15 de outubro de 1953, mas ele nao apareceu. Desde as 8 horas da manha, o governador Ale- xandre Zacharias de Assumpgao reunira os integrantes do seu staffpara recepcionar o ministry do president Gettlio Vargas, que visitava Belrm, algo nao muito freqOente ai po- ca. Da prefeitura, por6m, Jango preferiu seguir cdieto para a arquidiocese, ignorando a parada na bela construgao edi- ficada por Ant6nio Landi. Depois de esperar por mais de duas horas, o governa- dor saiu para outro compromisso, mas obrigou seus auxili- ares a manter a vigilia pela visit que n~o houve. Como compensagio, os anfitri6es tiveram direito a saborear o guaranai, que fica mais gostoso em tagas. Como represilia, o general-governador fez-se representar no embarque do ministry por seu official de gabinete, Raimundo Maues. Hildrio Muitos deputados se ausentavam do plenmrio da Assem- bl6ia Legislativa do Estado antes das votag6es. Impediam a casa de deliberar sobre as materias em pauta, mas nem por isso deixavam de receber o jeton pela sessao. Contra esse estado de coisas se manifestou o deputado Armando Men- des, da oposicgo, que apresentou uma resolucgo moraliza- dora. Foi o bastante para discusses sem fim e procrastina- c6es pelo partido situacionista, o PSD (o Partido Social De- mocritico dos "baratistas"). Um dos seus mais destacados membros. Joao Camargo, achou que nao havia nada demais que os parlamentares faltosos nao s6 recebessem o paga- mento da sessio de que nao tinham participado, como rece- bessem a grana em suas residencias. Todos riram. Ainda riem, simbolicamente falando. Ridio Noticiario da Radio Clube do Pari em 13 de maio de 1954: "PRC-5 langar i, amanha, mais um grande cartaz de radio novela. Sera apresentado, diariamente, as 11,30 e as 22,15, O Amor de Sinhazinha, um magnifico trabalho de Aldo Madureira. .,,>...... * ;,. t.cat.Ae...t 2, .*... -.4S S .j.* ., . Saibado, durante a apresentagao do program Cock-Tail de kn't,,, ', Avelino Henrique apresenta- ra, numa das seqTincias, vocOejdfoi ao Mosquei- ro, corn cenas c6micas, nmrneros musicals e cr6- nicas sobre a aprazivel vila balneiria do Estado. A partir da semana, corn o seu novo piano de programagao para a segunda quinzena de maio, a PRC-5 voltar' a apresentar o seu famoso e vete- rano program de calouros, Navio-Escola, sob a diregio de Lourival Penalber e Guiaes de Barros". Aviso aos navegantes: a television ainda nao existia nessa 6poca. Rainha Uma das datas mais comemoradas do carnm social de 1954 foram os 15 anos de Silvia Mutran, filha do casual Bene- dito-Maria Jos6 Mutran, ele "do alto com6rcio paraense", um dos maiores exportadores de castanha-do-Pard. Dois anos antes Silvia ja havia sido Rainha da Imprensa e Radio. E na- quele 1954 mesmo "alcangou o titulo mfiximo de Rainha das Rainhas do Carnaval, no sensacional concurso promovido pelos cronistas carnavalescos". Depois casaria corn o advo- gado Otavio Mendonga, de outra das influentes families cor suas raizes political e ... .n,"'ini>., no vale do Tocantins. Teatro Em janeiro de 1957 o Teatro de Estudantes do Para en- cenou, no audit6rio da SAI (Sociedade Artistica Internacio- nal), a pepa Nopopo dofalcdo, de W. B. Yeats, baseada numa lenda da idade her6ica da Irlanda, com tradugao da profes- sora Angelita Silva (irma, ji falecida, de Maria Silvia Nunes). Seria a "avant-pr6miere" do espeticulo que participaria, no Rio de Janeiro, do 10 Festival de Amadores Nacionais. Estavam no elenco: Cliudio Barradas, Carlos Pereira e Bernadete Oliveira. O coro era formado por Sd Leal, Loris Pereira e Assis Filho. A direcao era de Margarida Schivaza- ppa e Peter Paul Hilbert. A coreografia, de Felicitas e Frances Beery. Cenirio, de Joao Pinto. Figurinista: Jos6 Luiz. Execu- gio de Nestorino. No patrocinio do espetaiculo, Caixa Econ6- mica, Associagco Comercial do Pari, G. M. Rocha e Irmano e Livraria Globo. PRC-5 apresentard amanha, a partir de 21,05, Festa na Universidade Aldeia, o grande 'show' variado das sextas-feiras, no Ao ser criada, em 2 de julho de 1957 (esti completando qual aparecerao a orquestra da PRC-5, com todos os 44 anos, portanto), a Universidade do Parai (ainda sem o Fe- seus solistas, Virginia deMoraes, Augusto Silva e os Comedian- deral no nome) era formada por apenas sete faculdades: tesda C-5. Festa na Aldeia, uma produgAo de GuiAes de Barros. odontologia, a mais antiga (de 1940), engenharia (1941), me- 10 JULHO/2001 AGENDA AMAZ6NICA '- '-f : A : I i . : IA .. .I. .. -!I ....i. ,. dicina, direito e farmacia (todas de 1950), e de filosofia, ci- encias e letras, e de ciincias econ6micas e atuariais, as mais novas. O custeio da nova universidade durante 10 anos seria feito cor recursos da Spvea (Superintendencia do Piano de Valorizagio Econ6mica da Amaz6nia). Com um detalhe: a Spvea acabou antes. Cantora No dia 9 de agosto de 1959, com a Bossa Nova crescen- do, Silvinha Teles veio cantar numa festa dangante na sede campestre da Assembl6ia Paraense, acompanhada por Gui- aes de Barros ao piano. Foi apresentada como "graciosa in- t6rprete expoente do radio e televisao national". Para quem quis sair da sede social, no centro da cidade, houve trans- porte especial a partir das sete e meia da noite. O show co- megaria cedo, is 8. A piscina ficou "franqueada". Servigo de bar e restaurant funcionando. Mas cor Silvinha cantando, quem se interessaria? Juizes Este foi o resultado do concurso para juiz estadual em Belem, em setembro de 1962, conforme as notas dadas pela comissao, integrada pelo president do tribunal, Oswaldo Pojucam Tavares, os desembargadores Eduardo Mendes Pa- triarca e Hamilton Ferreira de Souza, e o advogado Egydio Sales (o unico vivo e em plena atividade): Anselmo Santiago (depois juiz federal), nota 8,37; Alfredo Toscano, 8,06; Adalberto Ambr6sio de Sousa, 7,58; Ossian Almeida, 7,50; Maria Lucia Ferreira, 7,25; Joao Paulo de Almeida Alves, 7,00; Nelson Amorim, 6,64; Rai- mundo Chagas, 6,58; Plaut~o Barros, 6,33; Italzira Rodri- gues, 6,28; Izabel Vidal de Ngreiros, 6,22; Carlos Segadi- lha, 6,14. Ossian, Maria LOcia, Nelson e Izabel chegariam ao desembargo. Apenas tres candidates foram reprovados, dois dos quais pretores e um advogado. TV Programagio de sibado da TV Marajoara em 23 de maio de 1964: 15,00 Padrao 15,25 Abertura 15,30 Cinema em sua casa (filme de longa metragem) 16,55 Luvas de ouro Patrocinio da Conama (Construtora da Amaz6nia) 17,45 Disneylandia Pat. Produtos Wilson e A. F. Co- elho & Cia. 18,40 M6sica ao cair da noite Pat. Jad Industria e Comercio . . . .. .. . 19,20 Todos os esportes- Pat. Importadora Braga 19,25 A marca do Zorro Pat. Toddy do Brasil 19,55 O fato em foco Pat. A. M. Fidalgo & Cia. 20,25 Rep6rter Marajoara Pat. Banco Comercial do Pard 20,40 Nossa vida cor mamre Pat. Karib& 21,10 Diirio de um Rep6rter Escrito por David Nasser 21,15 Rota 66 Pat. F. Aguiar & Cia. ColchIo de mo- las Ypiranga 22,10 Reportagem social RM Pat. RM 22,40 Imagens do dia 23,10 Encerramento Oito horas de programagao. Sete programs locais (200 minutes), cinco enlatados americanos (255 minutes) e um program national (5 minutes). Sete patrocinado- res locals (nenhuma dessas empresas sobreviveu) e qua- tro nacionais. Todos os noticiosos produzidos em Be- l6m. Tudo "ao vivo". NAo havia VT, s6 telecine. Nem, naturalmente, sinal de satelite. Restaurant Quem, na d6cada de 50, cor pouco dinheiro no bol- so, n~o passou pelo restaurant popular do SAPS, que ficava na praga Magalhies (ou Largo do Reduto) cor a rua Municipalidade, onde hoje 6 o almoxarifado da pre- feitura de Belem? Em 22 de outubro de 1975 o cardipio previa bife na chapa com farofa, salada de vegetais, feijao com legu- mes, arroz, leite, pao, manteiga, melancia e cafe. Tudo muito simples, mas com um prego realmente camarada. Nem por isso o concorrido restaurant teve a longa vida que seus clients Ihe desejavam. Fechou na onda de dis- tanciamento do Estado dos cidadAos mais humildes e necessitados. Predio Em outubro de 1957, Artur Lima inaugurou o edifi- cio Sao Miguel, na avenida Independencia (atual Maga- lhaes Barata), entire 9 de janeiro e 3 de maio, onde fora a sede do Asas Esporte Clube. O bloco residential, susten- tado por pilots, representava um projeto "verdadeiramen- te revoluciondrio", inddito at6 entao em Belem, concebi- do pelos engenheiros Agenor Pena de Carvalho e Osmar Pinheiro de Sousa. Cada apartamento teria direito a uma garagem, uma la- vanderia e um quintal. Os moradores usufruiriam de um play-ground para a recreacgo das families, "afastando, as- sim, a sensagao desagradivel de confinamento que tao pre- judicial 6 a infAncia". O predio, felizmente, permanece intact. JULHO/2001 AGENDA AMAZONICA 11 PUBLICIDADE '"" Os anos 50 l O Pani na d6cada de 50 do seculo passado, uma especie de pais, no qual as distancias funcionavarn como barreiras alfandegirias. Tinha in- dustrias com alto padrao de qualidade, quase artesanais, como a SAo L0 OI[ Vicente, de M. Santos & Cia, corn seus doces de massa, compotas, geldias 0 I & . e sucos de frutas regionais, al6m de farinhas, tudo saindo do coragjo da 00 a logistica para transportar os produtos numa regi~o tao exten- sa. No teo dificil porque usa- EM TODA A AMAZONIA vam-se os caminhos naturais, os rios, antesdorodoviarismodoi- REFRIGERADORES A QUEROSENE divanas, como mostra o anln- cio de 1954 de Pereira Pinto & C N Cia, revendedor da C6nsul, ain- da no modelo preferencial no interior, a querosene. t " O Pani ficava long e vi- via isolado, mas estava mental- '' mente sintonizado corn a "ci- " cdde maravilhosa", o Rio deJa-, neiro, a projegfao do sonho do w m . parense m6dio. Nem por aca- so o "mais famoso" cafe da ci- dade se chamava carioca, "tra- dicional pelo asseio e confor- to". Saudando o ano de 1956, r ! C o13UL parecia desejar que todos con- - seguissem comprar seu im6vel na terra paradisfaca, ao lado L da natureza:,urj:. IlII.. da di- . versro e do poder. Se pudes- a . se, o Caf6 Carioca abriria suas " portas no dia seguinte numa 5; .., TAU das ruelas do centro antigo do ---- Agen ton -- Rio. Na falta do cendrio real, PEREIRA PINTO & CIA. End. Telgr&flco: LUZO fiu o dsTnh rav. 7 do Setembro. 81 Telifone: 1381 fcouo.desenho. Bel do Par (3a. E. 16.6101 Tudo muito Belem. Agenda AmnazOnica Travessa Benjamin Constant 845/203- Belni//PA 66.053-040 e-mail: jornalamazonn.cm hr Telefones: 223-7690, 261-4284 e 261-4827 Produio gnffica: luizantoniodefariapinto |
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