Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00022

Full Text










amazonica


ANO II NO22 BELEM, JUNHO DE 2001 R$ 3,00


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0 Para tem a maior fonte de energia hidriulica do Brasil porque tem muita agua nos seus rios. E por isso
que se tornou o quinto maior produtor de energia. Mas porque a export na forma bruta, energia nao tem
sido sinonimo de desenvolvimento. Para acabar com essa contradigio, o Estado tem que usar melhor o
formidivel recurso natural que possui.


A Amaz6nia abriga um quinto da agua de todas as bacias hidro
grificas do planet, mas seus habitantes ainda nao conseguem
lidar satisfatoriamente cor esse fantastico recurso. S6 agora os
araenses estao se dando conta de que possuir tanta agua
acarreta in i.i r -.i'i.l .i I..i' ,-..i.ili erequer ula abordagem extrenmmente
sofisticada para que se consiga o maior rendimento possivel desse trunfo.


A imposicgo, a partir do pr6ximo mes, pelo governor federal, de
uma redugrio de 15% no consumo de energia do Estado, apesar de sua
condigco de o terceiro que mais export energia para outras unidades
federativas do pais, esta provocando um debate ao mesmo tempo inten-
so e ca6tico. O governador Almir Gabriel, do PSDB, foi criticado ate
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mesmo pelos seus aliados politicos locais por ter aceitado a determina-
gfo do seu correligionirio, o president Fernando Henrique Cardoso,
de impor 6nus aos consumidores que naio se ajustarem a recdugfo lde
15%, definida em Brasili,
Os critics acharam inconcebivel que um Estado exportador seja
obrigado a se privar de seu baixo consume, inferior ii media national,
apenas por solidariedade federativa (esquecendo, entretanto, que o
rio Tocantins atravessa outros tres Estados e a usina foi construida
corn recursos feder, a partir de uma concessio privativa cla Uniao,
-a interligar um sistema de transmissaio national). Critic: ainda
a cota de 15% (reduzida de uma pretensio inicial de Br:
20%), quando ai regiao sul, tambem super: a em energy essa
exigencia foi de 7%. O governador se considlerou vitorioso por ter
conseguido a redugiao de 20% para 15%, embora de contrapeso tenha
antecipado o inicio do calenckirio de corte, de 15 de julho p:
o primeiro dia desse mes.
O que m: 'ao provocou foi um anuncio do governor estadu-
al reconhecendo que, no period de estiagem do rio Tocantins, o Nor-
deste remote p: a hidreletrica de Tucurui 500 mil kw, o equivalent:
iarto da energia filrme que a usina gera (e um oitavo ca sua poten-
al), exatamente por ser a epoca de cheia nos rios nordestinos.
Seria sempre assim no segundo semestre do ano. S6 naio agora,
quando o Nordeste sofre a pior de su; 'adas. Nada
mais sensato do que, em funcio dessa conjuntura clesfavorivel, o Par'
poup: Nio s6 p: -a compens, a energy: ao receber:, pela coin-
cidencia das estiagens n: como pl ainda conseguir
"ansferir energia para a Chesf, minorando i adversidade los nossos
vizinhos de geografi hist6ria e pobreza.
O governo paraense estai tendo que ouvir, em coro unissono,
agcao de mentiroso. De fato, mesmo em seus moments de maior
redu.io no volume de agua, entire setembro e outubro, o reservat6rio cda
hicreletrica de Tucurui consegue tender as necessidades do Pard. No
pique, elas alcancam 750 mil quilow: Essa demand pode ser supri-
da por apenas duas das 12 gigantesc: as em operaiao na usina,
a segunda maior do Brasil. Para permitir essa potencit "fo suficientes
1,2 milhiao de litros de :igua por segundo. Nesse sentido, o Para nao
precise cle uma gota sequer de igua dos reservat6rios nordestinos.
Mas as coisas come a se complicar quando, ao consume de
60% da popula.io do Estado, interligada ao sistema energetico nacio-
nal atrav6s de Tucurui (os 40% restantes recebem energia de termicas a
6leo diesel, isoladas), se adiciona a fabrica de aluminio da Albris,
instalada em territ6rio p: -aense, a segunda maior do continent. O
consume da indtistria nipo-brasileira represent praticamente a mesma
quantidade de energia que atende quatro milhaes de pessoas, ou 1,5%
ca dlemanda national.
Em periodos de estiagem mais rigorous o balanco de carga de
Tucurui pode requerer complementagio de energia da vizinha Chesf. O
Pari torna-se, entao, dependent do Nordeste. Por pouco tempo e por
um volume menor de energi: Ainda assim, sujeito a essa dependencia.
No entanto, no auge do period cle chei:, o Tocantins pode
contribuir, em micldi, coin ate 35 milh6es de litros de aigua por se-
gundo p: a o reservat6rio da usina (o record de vaziao registrada e
de 68 milh6es de litros), enquanto as 12 maquinas s6 conseguem
engolir ate sete milhies de litros i ada segundo. Quanlo o lago
artificial, que foi formado pelo represamento do rio em 1984, atinge
apacidade maxima de estocagem, de pouco mais de 50 trilhbes
de litros de igu: e precise abrir as comportas dos vertedouros e
deixar passar aigua excessive. Para os barrageiros, isto signific:
energia perclida, que ird faltar no verao.


E por isso que a potencia da usina cai dos 4,3 milh6es de kw
nominais para 2,1 milh6es firmes, que ela e capaz de gerar o ano
inteiro. A situagfo vai fic; ainda pior quando ; ampliacao for con-
cluida, no final do pr6ximo ano, corn mais 11 m:iquinas instaladas
na casa de forca. Teoricamente, a potenciz para 8,3 mi-
lhoes de kw, mas esses novos 4,1 milh6es nominais se reduzirlo :
1,1 milhao no auge do veraio, o que darl a soma de potencia fire
de apenas 3,3 milh6es de kw, corn uma deple'io bem a do
limited recomenldavel, de 50%.
A Eletronorte vai tentar atenuar esse problema, 'ado pela
"a nem sempre percebida do regime hidrol6gico dos
rios amaz6nicos, caudalosos no inverno, a brutal redu-
cao de volume no verao. A empresa jIi protocolou o pedido p;
elevar em mais dois metros (da cota 72 p: a 74) o nivel operation:
do reservat6rio, permitindo-lhe reter um pouco mais de aguia.
A Sectam (Secretaria de Ciencih Tecnologia e Meio Ambien-
te) ainla nao aprovou a solicitaa5o. Quer mais informan6es sobre
o impact ecol6gico e social da media, que acarretarfi novos :
gamentos e, talvez, remogao de mais pesso: Mlas
apenas cosmetic; O reservatorio lde Tucurui, que formou o segun-
do maior lago artificial do Brasil, corn 2.875 quil6metros quadr:
dos, s6 inferior ao da hidrel6trica de Sobradinho, no Nordeste,
'apacidade no limited, e ji represent um n: "spre-
zfvel desafio pl a uma oper: 'ao saudfivel. 0 aumnento da cap:
dade firme de Tucuruf exigiri novas regularizac6es a montante n:
bx a Araguaia-Tocantins.
Coin a duplicac'i as 23 turbines em operacao precis:
mais de 14 milh6es de litros de aigua por segundo. Isto signific:
o volume efetivamente itil de agua do reservat6rio,
aquela :igua que esti num nivel ao alcance lda tomada de :guL
iquinas (correspondendo a 35 trilh6es dos 50 trilhbe.
litros de a:guL azenados, que constitueem o volume total), seri;
comprometido em 14 hor: n: almente se o Tocantins nao conti-
nuasse dando sua contribuici
Sempre o rio estar:i vertendo igua, 6 claro. Mas a partir de
julhoo balango do lago come: a ser negative, coin maior saida de
a:gua pelas 23 turbines (cada uma engolindo de 580 mil, as antig:
a 680 mil litros por segundo, as novas mnquinas) do que a chegada
de igu:; azida pelo rio. O nivel do lago baix: a um tal ponto que,
sem um reservat6rio mais acima, a procducio cle energia poder:i che-
gar a um minimo critico em setembro/outubro, mesmo que a esti:
gem nao seja rigorosa.
O problema e que quando a Eletronorte inventariou essa b;
cia, que drena 10% do territ6rio brasileiro, o estado da conscienci:
ecol6gica national (e international) lhe permitiu projetar obras que
hoje dificilmente serato aceitas, tal seu impact sobre o meio ambi-
ente. Tucurui se complementaria corn uma outra barrage, a cle Ma-
rabi, 200 quil6metros rio acima, criando um outro grande lago.
Os dois reservat6rios seriam operados buscando sinergi: o
que permitiria segur; agua para os periods de estiagem.
Provavelnente esse planejamento energetico jamais s: a dlos estu-
dos que a Eletronorte fez, corn uma determinacJio caracteristic:
claqueles tempos de autoritarismo, na decada de 70. O que e preci-
so agora 6 que a Amaz6nia se atualize e se ajuste ao sinal dos
tempos no inicio deste novo milenio, no qual a humanildade come-
ca a tomar consciencia de um problema que, na Amaz6ni ainda 6
encarado intuitivamente como uma solucio espontfnea: o manejo
desse volume de agu de dimens6es simplesmente biblicas, caren-
te, as corn desafios ben terrenos.


2 JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA





BIOGRAFIA


0 her6i sem



rosto

Nio hai um s6 personagem que se equipare, na hist6ria do Para, a
Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente. Hi mesmo raros desse
porte na hist6ria brasileira. E nao sio tao numerosos assim os especimes
do gfnero em qualquer outro lugar deste mundo vasto mundo no qual
Drummond fez o seu pousio. Ainda assim, para a maioria dos paraenses,
Patroni nao e mais do que o nome de uma praga pequena em torno da
qual carros estacionam na demand por compromissos nos pr6dios fron-
teirigos do Ministerio Piblico do Estado, do f6rum de Belem e da pre-
feitura municipal, na Cidade Velha.
Haroldo Maranhao, que o tomou por motivo central no seu ro-
mance monumental, Cabelos no corardo, define Patroni como "o maior
dos paraenses e uma das mais excitantes presengas no Brasil colonial e
no Imperio". Depois de haver editado um livro com dois textos de Patro-
ni ( Dissertagao sobre o direito de cagoare Carta a Salvador Rodrigues
do Couto), Haroldo promete saldar uma divida de dois seculos: escrever
uma biografia a altura do homenageado. Para isso indo vasculhar, nos
ricos arquivos portugueses, um element totalmente ausente das poucas
reconstituicbes hist6ricas que foram empreendidas em torno do perso-
nagem: uma image dele.
Nenhum document conhecido deixou gravado o rosto desse he-
r6i semi-an6nimo, que introduziu a imprensa no Par'a em 22 de maio de
1822, quase 180 anos atris, sendo perseguido por esse feito, preso diver-
sas vezes e obrigado a ir morar na capital imperial e, posteriormente, em
Lisboa, nunca mais se reconciliando cor a terra que tanto amou. Era
um home de estatura median, rosto redondo, olhos pardos, nariz e
boca regulates, cor branca e barba cerrada na alta maturidade, quando
essa descrigio foi registrada no seu passaporte.
Tirou o document ao se transferir do Rio de Janeiro para Lisboa,
em 1850, levando consigo a mulher, Maria Anna de Sousa e Azevedo
Patroni, e cinco criadas (Bibiana, Theofila, Anna, Angelica e Feliare-
mi). Morreu na antiga sede metropolitan da col6nia brasileira 16 anos
depois. Com quantos anos? Nao se sabe exatamente. Cor uma idade
entire 66 e 77 anos, cor tendencia mais forte para cima.
Diz a tradiaio que ele nasceu na Vila do Acara, 120 quil6metros a
sudoeste de Belem, em 1789, o glorioso ano da Revolugao Francesa e da
Inconfidencia Mineira. 0 passaporte de 1850 Ihe confere, porem, 50
anos, atribuindo-lhe 1800 como a data de nascimento. O que se pode
dizer 6 que, ao morrer, ele nao tinha menos do que 66 anos nem mais do
que 77.
A amplitude da variag; o 6 grande e complicadora. Se a primeira
hip6tese fosse verdadeira, Patroni teria conseguido matricula na Facul-
dade de Canones da Universidade de Coimbra, em Portugal, corn apenas
16 anos, em 1816, e recebido o titulo de bacharel corn 20 anos. Tal
precocidade e praticamente impossivel. A outra alternative leva a con-
clusio de que Patroni formou-se bacharel ji corn mais de 30 anos, corn
certo atraso, mesmo para os padres da 6poca.
Parte do dinheiro da venda de sua biblioteca, adquirida por 150
mil reais pela Companhia Vale do Rio Doce e doada pela empresa i
Biblioteca Piblica do Pard, Haroldo Maranhao pretend aplicar numa
viagem a Portugal. Quer vasculhar arquivos portugueses, recolhendo
tudo o que por li houver sobre Patroni, inclusive uma image dele,
repondo, finalmente, a face do her6i. Corn esse material, Haroldo espera


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powder escrever uma biografia que faga jus a importincia do personagem
e seja capaz de abarcar toda a sua complexidade, reconciliando-o corn
a hist6ria do Pari.
A ideia mais forte que ficou dele nos registros historiogrdificos 6 a
de um louco. Esse estere6tipo foi repetido e consagrado em 1975, quan-
do o Conselho Estadual de Cultura editou as suas Obras Escolhidas,
que o Bario de Guajari (Domingos Antinio Rayol) havia organizado,
incluindo a Biblia dojusto Meio, Cartilha Imperiale as duas primeiras
parties da Viagem de Patronipelasprovincias bri',,il I, ,, em quatro
parties na versio integral, que saiu em 1836.
S6 essa viagem ji garante a singularidade de Patroni. No dia 19 de
janeiro de 1829 ele embarcou corn sua mulher na escuna Amizade para
uma viagem ao Rio deJaneiro, onde iria assumir o cargo de juiz de fora
na Vila Real da Praia Grande (a atual Niter6i), para o qual fora nomeado
quase dois anos antes. Patroni interrompeu a viagem um mes depois e
permaneceu quatro meses no CearA preparando a retomada da jornada,
nao mais pelo mar, entretanto. Decidiu continuar por terra, algo inima-
gindvel na epoca. Chegou ao Rio a 12 de junho de 1830, quase um ano
e meio ap6s deixar Belem. O relate dessa incrivel peregrinagio pelo
sertao brasileiro, ao long de cinco provincias do imperio, 6 memori-

JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA 3
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vel. Haroldo a recomp6s em Cabelos no coragio.
Quem assume ulma tal empreitada nio e uma pessoa comum, nem
"normal" Este ponto fora cle duvida. Mas a insanidade 6 uima sentenga
que parece ditada menos por uma criterios; avaliacgfo da hist6ria do
home do que por rangos e rancores que se perpetuaram no tempo,
desafiando um juizo correto. A engenhosidade e a paixao que movik
Patroni pelos temas intelectuais levaram-no a um paroxismo incontest'-
vel, de que saio exemplos suas obras a partir do final dos anos de 1830
e, sobretudo, na dclada seguinte. Ele aplicava toda a su; atividade
na busca de uma conciliaaio entire as ciencias exatas, a magia (ou o
agico) e o mundo da etic:, da moral e ca politic, a empreitacla
condenada previamente ao fracasso. Mesmo nesses delfrios, porem, ele
nao perdeu sua maior identiclade: a causa public:
Todos os impulses de Filippe Patroni foram direcionaclos para o
interesse coletivo, o progress dds povos, o aperfeigoamento das insti-
tuigies e o aprimoramento do home. Desoneraco de maiores preocu-
pacoes materials por nao ter ticlo filho e ter acesso a um bom dote
quando casou cor uma prima, ele nio se prendeu aos cargos publicos
que conquistou, exercendo-os por pouco tempo. Nao chegou a fic:
ais do que cois anos como juiz de fora da atual Niter6i, cemitindo-se
voluntariamente para dedicar seu ardor a um projeto que havia concebi-
do: criar em Minas Gerais um colegio que poderia ser consicerado como
precursor das escolas tecnicas e profissionalizantes, os Colegios cie
Ecluc:; 'io cor Trabalho. Atou como voluntario dessa causa em Formi-
gas. Suas escolas acab: am sendo encampadas pelo governor local.
Logo em seguida ja estava envolvido corn outr: pediu aI
Caim; a dos Deputados o privilegio de explore; a navegaaio; apor na
bacia do rio Paragu; convencido de que essa regiao terin a impor-
tancia estrategica p: a o Brasil. Se pudesse abrir uma linha de transport
n: are:, se comprometia a coloniza-la, promovendo "a civilizacao e :
progressividade da Provincia de Mato Grosso, fundando a Agricultura, o
Com6rcio, as Artes, a Mineraclo, a Coloniza;io incligena e europei:,
Indlustria em ger: a Explorac;lo da Navegacio dos rios, e sobretudo a
Instruwco Piblic;
De olho no future e vendo o Brasil num context mais amplo,
Patron defended tambm numa nova redivisao territorial do pais, crian-
do 52 provincias no lugar das 18 que entafo havi: A provincia do Grao-
Pari e Rio Negro seria desmembrada em quatro novas provincias: o
Parl, cor capital em Belm; o Alto Amazonas, tendo a Barra do Rio
Negro (Manaus) como sede; o Baixo Amazonas, capitanealo por Santa-
rem, e o Maraj6, corn sua capital em Cachoeira do Arari. Uma perspecti-
portanto, que nao esta muito clistante das diretrizes contemporfine
sobre a territorialidade national e, particularmente, ; amaz6nica.
Pensar, criar e agir eram o mote continue de Patroni, sua obses-
sao, como observa Haroldo Maranhao, nas notas de introducao, bibli-
ografia e cronologia que escreveu p; a o livrinho da Editora Giorda-
no: "Conhecia na intimidade o grego, o latim e o sinscrito. Recitava
no romano, velozmente, os livros da Biblia e os quatro Evangelhos.
Chegou a redigir jornais bissemanais, ele s6, da primeira a ultima
piginas. Foi jornalista e advogado militant, no Par:, em Minas e na
Corte, magistrado, deputado na legislature de 1842 logo dissolvida e
patriota a vida inteira"
A paixao foi a marca da sua vida. Tirou dinheiro do pr6prio bolso
para comprar em Lisboa uma tipografia, que trouxe para BelCm, nela
rodando o primeiro journal nascido em terras paraenses. Mas nem p6de
acompanhar a nova criatura, al recebida pelos poderosos: tres dias
cepois da primeira edic~o ji estava preso, em cumprimento a uma or-
dem da metr6pole. O discurso que fizera como deputado as cortes havi:
sido considerado ofensivo ao rei, cobrado sobre suas responsabilida-


des de corpo present, assim como seus ministros, por um paraense sem
freios nem medidas. Um desabusado, como se diria.
Treze anos depois, ele j;i estava, sozinho, I test de um novo
journal, Ojusto Meio da Politica Verdadeira, agora na capital imperial, o
Rio de Janeiro. Ao final, consicerando as cluas publicagoes precursor:
que editou ainda em Portugal, em 1821 (a Gazeta do Pard e 0 Indicador
Constitucional), Patroni criou cinco jornais, nos quais quase tuco o
que foi publicado saiu de sua pen: Ela era uma arma poderos:
vezes indisciplinada, caotica, o instrument de uma cabega oprimida
por seu tempo, i frente dele, e que s6 agora somos capazes de bem
entencer. Ou seremos, se Haroldo Maranhao, indo alem cde Cabelos no
coracdo, nos trouxer agem e a ; a do bravo aense que a
hist6ria dos homes ter maltratado.




ENCHENTE


Ogalo

Hd uns cinco anos, "acossado por essas lembrangas da infancia"
Ademar A.yres do A mrarl escreteu "um peqieno texo que eii comelo a
ousadia dc e l mandar", juntamente corn ima calta, apropdsito de urn
arligo que publiquei noJornalPessoal, falando das enchentes do
A mazonas (a carta sair d d mesmo). Pelo valor documental que essas
reminiscencias t/i, abro umra excegdo e a divulgo nestaAgenda E
permitem visualizar um dos acontecimentos mais marcantes na
Amaz6nia do seculopassado. E compreend2-lo melhor

Muita coisa nao ancava bem naquele inicio de inverno. Preta
Ervina parou sem explicacao cor o vicio de mascar tabaco, enquanto
adrugava capinando terreiro corn luz de lamparini Demnnio do Al-
cool e Dia Porre pass: a semana sem beber uma gota sequer da
aldita, e uma cunhant clescuicdaca, pra azar dela, acabou deixanclo
escapulir, na correnteza do igarape, o enorme penico de aluminio da
minha v6. Este, um objeto de estimagao com regalia de habitar o
quarto principal da c; "c dormia de pronticdao num: adura de ma-
deira de lei em format de trono, p: -a receber toda cinco horas da
anh; a infalivel descarga barulhenta de duas pilulas cia vida torn
das a boca ca noite. A cunhanta sern prestimo foi castigada corn dlu
diizias de palmatoadas.
Grandes toigas de capim, desprendidas pela forca das aguas,
desciam mansamente o rio e os caminhos torn; am-se dificeis de an-
car pela freqCiencia perigosa da venenosa surucucu pico de jaca. O
urud colocava seus ovos mais alto que de costume, como que adivi-
nhando o nivel que a cheia ia atingir naquele ano. E o pom-pom,
patinho selvagem que tern fama de cantar chamando enchente, come-
cou a se acasalar mais cedo, tudo indicando que 1953 seri; como
aliis foi, um s6 muncareu de agua.
Tao logo o ciluvio levou :; a de terrn, foi inici;
construgao da avantajacla maromb: a parte mais rasa da resting: A
boiada era avistada da cozinha e p: 'a e noite emitindo mugidos
de fome e sofrimento que mais pareciam uma canlao de more. Em
forma de quadrilitero, tinhi a sustenti-la fileiras superpostas de toras
que se cruzavam por cada etapa do soerguimento, utilizando-se o apui-
zeiro e outras especimes flutuantes de faicil reboque por canoa, impor-
tando apenas que durassem o tempo necessario para o sustento do gaclo
naqueles meses critics da invernada.
Cor dois metros acima da limina d'igua, altura certa para evi-


4 JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA





tar uma nova e trabalhosa tarefa de levanta-
mento, a maromba acomodava por cima um
vasto tabuado com divis6es para gado adul-
to, cavalos e outra de tamanho acanhado,
mas coberta de palha, para o melhor confor-
to dos bezerros. Em volta, e abrangendo toda
a periferia, havia urna cerca forte cor portei-
ra de rampa, por onde a boiada descia toda
semana para se proceder a limpeza. Nesse cur- .
to tempo, fora e quase de bubuia, as vacas
tinham suas mamas decepadas pelo ataque das
piranhas e algumas linguas eram cortadas pelo \ J
dente afiado da trairamb6ia. As canoas enfi-
leiradas partiam cedo no reboque de um mo-
torzinho de popa, sempre em busca da cana-
rana, cada dia mais escassa e distant.
PorCm, se a cheia foi um mal para o gado, se trouxe grandes
prejuizos para os criadores e juteiros, trouxe tambem outro verao de
pastos renovados por causa da revitalizagao da camada de humus que o
sabio rio carrega e hi milenios deposit.
Bom para a floresta submersa, pois 6 durante a cheia que frutifi-
cam os marajazeiros, socorozeiros, pupunharanas e montes de outras
irvores frutiferas, nativas do igap6, onde se cruzam cardumes de tamba-
quis e pirapitingas na busca do alimento que despenca, ou, quando
atraidos pela armadilha da gaponga, acabam esbarrando num traigoeiro
anzol disfargado de fruta.
Bom para o menino que fazia pescaria de sardinha, bastando que
seu Z6 Preto batesse num galho seco ou enfiasse o remo, derrubando
uma casa de cupim. Logo a agua ficava minada de reflexes prateados
desses peixinhos, facilmente logrados com isca de pirAo de farinha ou
larva de caba de igreja.
Mal para os cupins que, al6m de atrag~o para as sardinhas, tive-
ram suas casas esburacadas e invadidas pelos periquitos testa amarela,
em epoca de desova.
Bom para as vorazes piranhas, que deceparam as tetas das vacas,
que transformaram garrotes maravilhosos, futures reprodutores, em avan-
tajados bois de corte.
Mal para a preta Ervina. que nunca foi de dispensar um bom
culhao guisado de garrote.
Mal para as formigas de fogo, juntando-se desesperadamente umas
sobre as outras, formando bolas nas guias dos juquirizeiros.
Tempo de boa vida para o manhoso sucuriju, que teve maior
beneficio e liberdade de agir junto aos galhinheiros e chiqueiros
dos porcos.
Bom para os urubus, perseguidores da came no varal, mesmo com
risco de serem apanhados no anzol do seu Z6 Preto.
Mal para os ratos, obrigados a procurar esconderijo mais alto e
ficando i mercer dos gatos.
Mal para os gatos, prisioneiros dos telhados, contra os caes impa-
cientes no assoalho.
Mal para os plantadores de juta.Perderam o jutal e o credito da
pr6xima safra.
Bom, incrivelmente bom para os criadores. Depois de 53, muitos
anos se passaram sem que houvesse outra cheia grande, havendo total
recuperagio dos rebanhos. A cheia fez desaparecer no seu bojo, a raiva,
as pestes, os carrapatos e mil pragas que a terra acumula. As duas deca-
das seguintes foram de muita fartura para os fazendeiros.
Excelente para o garoto que brincava de barquinho, de con-
tar os animals mortos descendo o rio de bubtia e apinhados de


- -- -


urubus; que amava o filhote de capivara trazido por seu Z6 Preto
no comego da cheia.
Ai veio um lento comego de vazante. A igua baixava uma polega-
da por dia, as vezes subia meia, numa indecisao irritante. Certa manha
apareceu o primeiro torrao mais afoito. O limo do fundo, de cor verde-
musgo e em forma de rabo de cavalo, ja aparecia coberto por leve peli-
cula de agua, que piriricava ao sabor da brisa, penteando aquela farta
cabeleira na suave corrente. Logo estaria lama
Que dizer do triste galo pedres, empoleirado o inverno inteiri-
nho, que amanheceu cantando como hi muito nao fazia? Tres meses e
tanto sem ver urna crista de terra pra ciscar. Cantava, cantava desespera-
damente para o terreiro que safa lamacento, acolhendo com amor as
andangas do galo e saboreando o bater das asas como lufada que revi-
gora. O galo nao parava um minute. As dez da manhi, ouvia-se ainda
um som diifano mas veemente de cantoria, como se fosse um artist
embriagado no aplauso da multidao. Seu palco, o terreiro lamacento.
O garoto apreciava sem entender os motives do galo naquela lama espe-
rangosa de poeira. Nao entendeu, sobretudo, a corda de envira roida, a
fuga do filhote de capivara.
Fica triste nao, filho, a capivara foi pra casa.
Capivara ter casa, mae?
Todos os bichos tem.
Seu Z6 Preto tambem?
Seu Ze Preto nfo 6 bicho!
Mas ele ter casa?
Bor, deveria ter.
Permaneceu minutes na mesma posicio. Apenas cor os olhos,
acompanhava o galo no seu desastrado mas constant canto de alegria,
vendo afundar os pes da ave andarilha e teimosa, que ia deixando um
caminho de pegadas no tijuco. Ergueu a cabega lamentando o ceu azul
de julho: "Bem podia dar outra chuvarada, encher o rio, quem sabe
minha capivara voltava". Aperta cor forca a ponta roida da corda: "Todo
mundo indo embora, parecendo aquela hist6ria da arca de No6 que
mam5e contou. Os bichos indo pra casa, os homes tamb6m".
Imaginou mais um pouco e entendeu a alegria do galo, en-
tendeu o filhote de capivara, pensou que o igap6 6 vida, que a
agua desse Amazonas pode ser tanto um grande fim como um gran-
de comeco, que o mundo e um sempre perder e ganhar. Pulou ate
onde o galo estava e sentou-se partilhando a lama corn ele. Ali
posto, baixou a cabega entire os joelhos e ficou um tempo parade,
cheio de sil&ncio. Depois, meio lacrimoso, entendeu tambem que
um pedago feliz da sua infancia tinha sido levado junto cor a
vazante da cheia para nunca mais. A


JUNHO/2001 AGENDA AMAZ6NICA 5





MEMORIAL


Os anos de



sangue



e do fogo


Aparentemente, a vida transcorria normalmente. Mas
aquele period, de junho de 1987 a dezembro de 1988, foi
'ante na hist6ria recent da Amaz6nia, e do Pari. Come-
gou corn a morte do ex-deputado estadual Paulo Fonteles de
Lima, no dia 11 de junho de 1987, e terminou corn o ass;
nato do deputado Joao Carlos Batista, um ano e meio de-
pois. Talvez nunca antes dois politicos paraenses tenham sido
mortos em tao pouco tempo. Nafo era mera coincidencia se-
ren de esquerda, advogados, jovens, atuando no meio rural,
em defesa de posseiros.
O campo literalmente pegou fogo em 1987 No Congres-
so Nacional, os parlamentares preparavam a nova constitui-
caio brasileira, que sepultarik as aberrac6es juridicas inscri-
as na ordem legal durante o regime military, de 1964 a 1985.
Um dos capitulos mais polemicos na nova Carta Magna, como
gostam de dizer os advogados, era sobre a hipoteca social
que deveria onerar cada propriedade privada, relativizando-
A exigenci 'a era corrente nas enciclicas papais, reafir-
ada com nnfase pelo polones Karol Wojtyla, o popular Joao
Paulo II. Em tese, ninguem mais se atrevia a contestar. Na
pratic; por6m, ; aceitagfao sumia.
A esquerda queria que todos os in6veis rurais fossem
suscetiveis a desapropriatao, inclusive os produtivos. A di-
reita reagia com foria: a terra sob cultivo era sagrada; o Esta-
do devia ser mantido at distancia. No paroxismo, o texto afi-
nal aprovado acabou significando uma regressJo em relacao
ao c6digo agritrio em uso corrente entao, como ainda hoje:
o Estatuto da Terra.
O document tinha sido elaborado a vl aos, as
principals sendo as de Roberto de Oliveira Campos, o Bob
Fields ironizado pela esquerda, e Paulo de Assis Ribeiro.
Todos ainda viviam assustados pela mem6ria das Ligas Cam-
ponesas, de Francisco Juli'io. O perigo de serem um rastilho
de p6lvora no terreno esturricado do sertao nordestino, ais
sofrido pelos desajustes dos homes do que pela inclemen-
cia da natureza, ainda ecoav: apesar da dura repress'ao de-
sencadeada pelos militares contra o dragao vermelho da
aldade, mais imaginado (e imaginirio), inclusive por seus
militants, do que real. Mesmo cor esse component ideo-
16gico, entretanto, a estrutura fundiafria brasileira naio muda-
ra muito lesde que as primeiras sesmarias conmearam ;
formadas. S6 n'ao era um estorvo pl -a seus beneficiarios de
cinco seculos.
Inspirados no pragmatismo americano, estendido at6e


estrutura secular dos senhores rurais japoneses pelo gene-
ral MacArthur, o vitorioso senhor da guerra, os ide6logos
do Estatuto da Terra brasileiro desejavam modernizar o
dominion e a posse nos grot6es onde conviviam o arcaismo
e a contemporaneidade, a harmonia que se mantinha
gra:as ao contrast social, a expropria,-o social. Lidas e
aplicadas na integrn as normas da lei especial, aprovada
em novembro dte 1964 (quando os militares ainda eram po-
pulares), representavam um basta no latifindio, o panteio
do Brasil atrasado. Tendo o cuidado previo, contudo, de
nfo atrair todos os inimigos.
O latifuindio fora dividido em dois. Haveria um latifcin-
lio por exploraglo. Era, em sintese, o im6vel rural mal ex-
plorado, no qual apenas uma fra'ao menor da area total es-
tava produzindo. Este, ainda subsistiria, porque podia evo-
luir para a condigfAo desejada do modelo reformista, .
presa rural. O intolerado era o latifundio por dimensiao, aque-
le que excedesse em 600 vezes o m6dulo rural especifico.
Havia um m6dulo para cada tipo de atividade produti-
va. O m6dulo para hortas, por exemplo, era de um hectare.
Logo, o im6vel dedicado a cria'ao de legumes e hortaligas
que tivesse mais de 600 hectares era um latifindio por di-
mensao. O maior dos m6dulos era o destinado ao refloresta-
mento, corn 120 hectares. Logo, uma propriedade refloresta-
da de mais de 72 mil hectares era um latifindio por dimen-
sao. Todo im6vel rural corn mais de 72 mil hectares era ile-
gal. Cumpria ao Estado elimin'i-lo, atrav6s da desaproprii
Cao. O que seria facil de realizar se o Brasil dispusesse de
um cadastro rural.
Mas o pais nato s6 nato tinha esse instrument, usual
entire os nossos vizinhos acima do rio Grande desde a meta-
de do s6culo XIX (e, na Europa, uns dois ou tres seculos
antes), como os militares se desintere. -aram pelo lado social
do projeto de reform corn o qual haviam procurado legiti-
mr a deposigio do president Joao Goulart, listinguindo-.
dos ciclicos golpes militares que infernizavam as repiblicas
latino-i 'an,
A moderniza~'to do Brasil passaria a ser feita autoritari-
amente pela elite em beneficio pr6prio, prep; *ando um enor-
me bolo de concentratao de renda, adornado por um glace
de cosmopolitismo, corn a promessa de oferecer algumas fa-
tias ao pov, sim, mas depois. Um depois registrado em
papel estampilhado, e que, sem nunca haver saido do papel,
foi esquecido, empoeirou.
O delineamento modernizante, por6m, -stava mantido
na letra da lei. At6 que "constituigio cidad; do cloutor
Ulysses Guimarl negociada ao largo do front entire neou-
denistas e neopessedistas, restabelecesse a unidade do lati-
ftndio, faganha comemorada corn churrascada e tiros pela
neolitica UDR, a Uniito Democritica Ruralista, de Ronaldo
Caiado, ada exclusivamente para impedir que a limin.
da expropriagio pudesse ser levantada contr; a proprieda-
de privada. Nao que os latifundiirios ainda quisessem fa-
zer crer na origem divina da propriedade. O que eles dese-
javam era o monop6lio da disponibilidade sobre seus dco-


6 -JUNHO/2001 AGENDA AMAZ6NICA





minios, quaisquer que eles fossem, indepenclentemente cda
fita m6trica de um Stolypin i brasileira.
Mal o capitulo cla propriecade era redigido e o princi-
pio que provocara tantas sess6es tensas na Assembl6ia Na-
cional Constituinte era colocado abaixo pelos fazendeiros.
O novo ministry da reform, agrarii, Jader Barbalho, come-
cou a comprar im6veis invadidos por valores reais de mer-
cado (ou superfaturados), ou a fazer desapropria:6es alta-
mente favoraiveis aos expropriados. Logo, os corredores do
Incra se encheram de fazendeiros, at6 entaio dispostos
chupar o sangue da car6tida dos seus adversirios, ofere-
cendo suas terras para o governor federal desapropriar. O
diabo foi deificado.
Poucos imaginariam que o ex-governador cdo Para con-
seguiria clesfazer aquele clima de 6lios, que contaminara o
ambient do Mirad desde sua crianLio, em 1985, sob o batu-
que neomaranhense da Nova Repoblic dle Jos6 Sarney, o
Ubiquo. Fora assim com o primeiro ministry, o mais cardina-
licio dos leigos da Igreja, Nelson Ribeiro, continuando corn
o pernambucano Marcos Freire, morto num acidente de aviio
em Car 'is, em torno do qual medrn am teorias conspirati-
vas. S6 que Jader, expert no assunto, tinha um segredo no
cofre: o vil metal, o som mais puro para ouviclos capitalistas.
Ao inv6s de enfrentar e resolver o problem o novo ministry
comprou-o. Em operag6es um tanto heterodoxas, para dizer
o minimo. Na 6poca, nenhum jornalo fez campanha contra
ele, embora jai estivessem clisponiveis as informac6es trom-
beteadas hoje, aquecidas, atualizadas e enriqueciclas de fa-
tos, verses e imaginagio.
At6 que a voz alteracla do mercado se fizesse ouvir,
entretanto, o sangue comerou a correr. O primeiro sacrificio
foi o de Paulo Fonteles. Querido, respeitado, temido ou odi-
ado pela cleclicagto pioneira i causa dos posseiros no con-
flagrado sul do ParC conforme a posigao no tabuleiro cla
luta social e politics ele considerou que esse patrim6nio era
s6lido e intocivel. Sem uma revisio critical das transform;
6es que haviam ocorrido na regiLto, da fase em que ele era
o inico defensor dos hoje sem-terra, tI era mais recent, de
division e fragmentaltio nesse campo, ele tentou vo
alto, pl andato de deputado federal. Derrotado e j,
a imunicdade do mandato parlamentar, deu um segundo
pass taticamente em also, trocando a legend do PMDB,
mais protetorn pela do PC do B, que o expunha mi embo-
ra fosse a sua verdadeira bandeirn Sem imunidadce e estig-
atizaco, ele se tornou um alvo tentaclor.
Passados 14 anos de sua morte, at6 parece que o cri-
me foi punido. O organizador cdo assassinate, o paulista
James Vita Lopes, foi preso, julgado, condenaco a 21 anos
de prisao e libertado, depois de cumprir um tergo da pent
Voltou Li sua Braganga Paulista. Nto admitiu uma vez se-
quer sua participagio no atentaclo. Proclamou-se inocente
sempre. Mas se nito conseguiu convencer o corpo de jurn
dos e a opiniio poiblica, o enredo que terminou nele,
assim se encerrou, como se manipulado por control re-
moto, tambem nao e convincente. Essa hist6riL ainda nito


foi encerraca. Talvez os principals responsiveis pela more
de Paulo ner foram incomodados.
O maior suspeito de ter sido o andante do crime e o
fazendeiro mineiro Helio FLibio Vieira Lopes, um home de
antececentes criminals e liga:6es corn os pistoleiros que exe-
cutaram o "servigo" cor eficiencia professional, as que nio
foi convocado urma vez sequer para cepor no inqu6rito poli-
cial. A concdugiho das investigac6es, iniciada com todo o im-
peto que o impact da morte de um membro de familiar local
bem estabelecida costuma provocar, desancdou intencional-
mente, ie media que foram minguando os meios institucio-
nais e a vontacle de apurar tudo esmaeceu.
Quem reli corn atenglo e imparcialicdace os autos do
process nao pode deixar cie concluir pela fragiliclace cda
sociedade civil, mesmo na vig&ncia cie um regime formal-
mente democritico. Dezenas de perguntas procluzidas pela
instruciao deixi *am de ser respondilas. Mesmo aqueles que
se solidarizaram com a vitima e se empenharam na eluci-
ldagio clos fatos, 'ab; atrapalhanclo a investigaiiio,
ainda que sem querer, desviando-a cle pistas verdadceiras
p; a pistas falsi
Em tais situac6es, pessoas emocionalmente envolvidas
nos fatos devem ser substituilas no acompanhamento do tra-
balho official por pessoas competentes nesse tipo de tarefa. E
sempre tentadora a perspective de uma investigagio parale-
la, algo que sem uma socieclade forte compete ao Minist6rio
PCblico, que Lt 6poca inexistia para esses efeitos (e hoje?).
Sem essa providcncia elementary, nato s6 os criminosos sen-
tem-se estimulados ; agir, como poclem 'ab; atuando de-
cisivamente no moment seguinte, o da apura'iao.
Esses sLo dois components cdo epis6dio seguinte, do
assassinate deJomlo Batista, a 6 de dezembro cle 1988, ato
de ousadia ainda maior: o atentaco foi cometiclo na entrada
da resicldncia do cleputado, em Belem, ele no pleno exerci-
cio do seu mandato. Como acontecera no caso Fonteles, nesse
os pistoleiros foram press e o principal deles condenado.
Mas serfi que toda a verdade foi revelada?
Quando a uns a revelaaio signific; a responsabilizagaio
pelo crime, a conden: .-io e a punigio devida por um ato
human que nio tern equivalent de maior gravicade, o i
sassinato de um semelhante, e a outros pode c; "ar embl
cos, ou nao servir ao de. 'ado proselitismo, cificilmente today
a verdade emergirai. Os corpos de Paulo Fonteles eJoflo Ba-
tista ainda permanecem apen; -sepultos. Suas mem6ri-
as continue; a cobrar cleclicagto e coragem na elucidagfto
complete das trn que os levou tao cedo e taio violenta-
mente par; a morte anunciada.
Muito sangue correu na Amaz6nia daqueles meses.
Muito fogo tambem. Sangue e fogo quase de parceria para
imprimir arca claquele tempo. Se era precise eliminar per-
sonagens inc6modos, tambem a muitos proprietairios rurL
pareceu necessfirio investor contri a natureza p; a garantir o
que julgavam como send seus direitos. Talvez nunc; em
toda a hist6ria da humanidade, se haja queimado tanta flo-
resta quanto na Amaz6niu no verfio de 87


JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA 7





O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, sedi-
ado em Sto Jose dos Campos, Saio Paulo) divulgou seu rela-
anual de desmatamentos, aio de 1988, sobre o
period anterior. Em meia dizia de paigin: franciscanamente
pobres, cor todas e as poucas letras que usou: em
1987 hl am sido queimados 200 mil quilimetros quadrados
de cobertura vegetal na Amaz6nia Legal, send que 80 mil
quil6metros quadrados eram floresta original. A m6dia dos
alucinados anos 80 tinha sido de 10% do que nesse 6nico
ano hl a sido queimado, ou 20 mil km2 (na decada de 90,
em torno de 12 mil km2). Considerando apen; ata nr
vi o incremento havia sido de 400%.
Os t6cnicos do Inpe nato desconheciam uma certa fragi-
lidade no trabalho lue haviam realizado. Alegando falta de
deix;. am de utilizar o sat6lite Landsat, j" -adicio-
nal nesse tipo de pesquisa, trocando-o pelo NOAA-9. Mesmo
abendo que o NOAA era um satelite meteorol6gico, eficien-
te pI -a cletectar pontos de fogo, as incapaz de medir-lhes c
extensio. Para contrabalanyg a impropriedade metodol6gi-
o relat6rio do Inpe admitik argem de erro de 30%
nos dados que estav; apresentando.
Academicamente, era um procedimento pouco recomen-
clivel: qual a confiabilidade de um trabalho cientifico corn
tal margem de erro? Mesmo que fosse aceito o limited manximo
de erro, entretanto, a cobertura vegetal queimada teria sido
de 140 mil km2 e a floresta native destruida, de 56 mil km2.
Bem menos, ainda quase 300% de incremento sobre a
media dos anos 80, a dicada do fogo na Amaz6nia, sem
paralelo nos anais hist6ricos univer.-
Corn toda a polimica que se seguiu, os dois lados pare-
cem ter aceitado um: acomodacaio natural. O Inpe naio faz
ais remissIo a 1987 especificamente. E quando engloba os
desmatamentos na dlcada de 80, 6 como se aqueles nOme-
ros colossais nato existissem. Seria o reconhecimento da im-
propriedade absolute do m6todo que adotou, exigindo a anu-
lagito complete do relat6rio reference a 1987? Se for assim,
por que nao faz o mea culpa e revel tudo? Se naio for assim,
por que nao se cobrn a responsabilidade do institute?
O silencio conivente s6 serve a uma coisa: contribuir
para apagar da mem6ria aquele terrivel 1987, em que os fa-
zendeiros desandaram loucamente a queimar e derrubar flo-
resta, assim criando benfeitorias em suas fazendas (ji que o
crit6rio de avaliagao da benfeitoria era o VTN, Valor da Terra
Nua), imunizando-as contri a desapropriagao, que ainda as
ameagavas nos violentos debates dos constituintes, penden-
tes de conclusion naquele moment.
Ao inv6s de latifcindios por dimensao, teriam latifcindi-
os por exploragio. A diferenga os desoneraria do risco. Ain-
da que o prego fosse a destruigro de recursos naturais muito
mais valiosos e insubstituiveis. Mas quern se importa corn o
component organicamente amaz6nico de mais essa frontei-
ra, circunstancialmente chamada de Amaz6nia? Posta a flo-
resta abaixo, ela fica igual a todas as fronteiras. Como quer o
pioneiro. Que nato 6 amaz6nico e estd achando esse detalhe
de um preciosismo bizantino, sem sentido pritico.


E assim se p; aqueles terriveis anos de 1987 e
1988. Antes que 1988 termin: ', ali ainda houve o ass;
sinato do seringueiro Chico Mendes, no Acre, repercutindo
muito mais por c; -a dos seus amigos e. -angeiros, alguns
bem influentes. Mas essa j -a hist6ria, sem deixar de
ser a mesma de antes, de agora e, ao que parece, ate que
possa antecipar a hist6ria e nao permitir que ela escape da
nossa mao com o odor de perfume barato, sempre.



CARNAVAL

Foi no bairro


do Jurunas


que nasceu a


primeira escola de


samba de Bel6m


Vicente Salles

Esta edicdo daAgenda jd estava pronta quando deparei
corn esta preciosidade que Vicente Salles me mandou de
Braslia, algum tempo alrds, epermanecia oculla noposta-
restante eletr6nico. Abrindo mais mna exceido, abro tambem
alas para o lexto que o grande istoriadorparaense escreveu,
sempre atento as coisas do seupovo.

Joaio Jurandir Manito escreveu um dos capitulos m.
importantes da hist6ria da cultural e da vida popular de
Bel6m, o livro recem langado Foi no Bairro dojurunas: a
traiet6ria do Rancho Ndo Posso Me A nofind, 1934-1999. Cer-
tamente, capitulo esse brilhante e espalhafatoso do carn;
val paraoar; Alfredo Oliveira, sambista da velha guard,
escreveu o preficio.
Um livro de revelac6es. Tantas, que parece tumultuado.
O estilo simples, direto, a busca da informarao precisa, tor-
na-o pordm bastante confiivel. O author confess suas difi-
culdades, modestamente reconhece falhas, falta de talent
para escrever, mas... vamos Id, quanta lembranga, quanta
hist6ria e quanta emoflo nos dcl neste volume de quase 500
piginas! Aldm de repleto de informagaes dignas de credit
ele fica autorizado a falar da hist6ria do nosso carnival num
largo period. Na verclade inaugura, na bibliografia paraen-
se, a resenha hist6rica das escolas de samba e o seu vinculo
cor a comunidade.
No Rio de Janeiro, berco das escolas de samba, a bibli-
ografia ja vai crescida, e nao deixa de ser important, par,
n6s, o fato de tamb6m contar, o Rio de Janeiro, corn o pio-
neirismo da nossa Eneida, a maior carnavalesca do Brasil,


8 JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA





que inaugurou, ela tambem, a bibliografia especifica cor a
Hisl6ria do Carnaval Carioca, 1968.
Manito lembra o escritor e pesquisador S6rgio Cabral
que melhor conta a Hist6ria das Escolas de Samba do Rio de
Janeiro. Pego licenga aos dois, a S6rgio Cabral e a Manito,
para a transcrigao que vale para n6s:
"Sem a pretensao de valorizar o meu trabalho, o leitor
hi de convir que nao e ficil contar a hist6ria do povo.
De um povo de esmagadora maioria negra, vitim.- do
injustigas seculares, criador de uma cultur.i 'pit' en-
frentaria todas as formas de preconceitos d.j, ..I i,-
ses dominantes. A pr6pria hist6ria das escol.- '
de samba confirm essa abominivel trading,
brasileira. O povo que as criou viu-se obri-
gado a afastar-se delas por raz6es de ca- '
rater econ6mico"...
E Sergio Cabral li da terra cario-
ca bem pode ouvir a voz de Manito, o
confrade do Para, da mesma forma
que Jos6 Ramos Tinhorio, li da pauli-
c6ia desvairada.
Pois S6rgio, Tinhorao, tanmbem
somos da fuzarca! Corn uma hist6ria lin-
da e cheia de emoc6es, contada pela pri-
meira vez por este carnavalesco que
nasceu e se criou no bairro do Jurunas e decidiu contar o
que sabe cor grandes detalhes.
Joao Manito esclarece a questao controvertida do "ran-
cho" que foi "escola", corn caracteristicas tao nossas desde
o ano do seu langamento, 1934, mas ficou sem explicacao o
nome do batismo da escola.
"Nio posso me amofina" 6 expressao carioca, de des-
prezo, pouco caso, e 6, com esse sentido, o titulo de urn
samba carnavalesco de Sinh6, lancado cerca de 1921 por
uma pequena gravadora, a Popular, em duas verses, uma
orquestral, corn a Banda da Fibrica Popular, e outra vocal,
cor o Coro, ostentando o selo "Jurity", da mesma gravadora.
A "Popular", dizem os escritores da discografia brasi-
leira 78 rpm, foi um empreendimento meio aventureiro de
Joao Gonzaga, filho de Chiquinha Gonzaga, associado tam-
b6m a outro aventureiro famoso, Zeca Patrocinio, filho de
Jos6 do Patrocinio.
Pois 6. Aguca-me a curiosidade quando verifico que
a mosica de Sinh6 acabou inspirando a denominagao de
duas famosas escolas de samba do Para, pelo titulo e
pelos motives de seus sambas carnavalescos: "Nao pos-
so me amofind", a pioneira, 1934, e "Quem sao eles?",
criada em 1946 por remanescentes da desaparecida Ti
Feio e que logo se colocaria como advers~ria do Ran-
cho. Dois sambas polamicos de Sinh6 estenderam as ruas
de Bel6m as marcas das polemicas e rivalidades grande
sambista carioca.
Falar do Rancho e lembrar principalmente os irmaos
Joio e Raimundo Manito, recrutas do Ex6rcito do Para, no
Rio de Janeiro. Ao contrario dos muito vitoriosos ou fracas-


sados que 1i ficaram definitivamente, Raimundo voltou e
trouxe na sua bagagem cultural boas ideias e iniciativas de
brincar o carnaval.
A grande novidade que Manito trouxe do Rio de Janei-
ro, a base de percussao, foi causa da maior confus.o entire
seus critics e piadas dos despeitados: chamaram-no boi do
Manito. Despique que, por tabela, mexia com o boi mais c6-
lebre da cidade, o boi do Neni Pai do Campo. E que, pela
percussio, aparentemente se identificavam o velho boi para-
ense e a nova tendencia da mOsica carnavalesca carioca.
Compositor intuitive, Manito produziu notiveis compo-
sic6es, como o samba Alma Perdida, lancado no carnaval de
1935 e que foi cantado durante anos pela escola jurunense.
Antol6gico, seu samba Nossa Escola foi rebatizado como Foi
no bairro dojurunas, gravado por Dominguinhos do Esticio.
Outros compositores jurunenses sao revelados no de-
correr da trajet6ria do Rancho, tornando bastante atraente a
perspectives de ampliar as pesquisas de hist6rias de vida a
partir das pistas levantadas pelo escritor do Rancho. O seu
livro pode portanto ter efeitos multiplicadores.
Joio Jurandir Manito nao contou com o apoio official.
Bancou sozinho a edigao do seu livro. Os recursos nio
deram para trabalhar o excelente arquivo fotogrnfico que
possui, de sorte que a precariedade das reprodug6es preju-
dica a grande forga informative das ilustrac6es. Mas os afi-
cionados do carnaval ou da hist6ria das festas populares
nao devem perder a oportunidade do encontro com essa
hist6ria e as cenas incriveis, algumas ressaltadas por Alfre-
do Oliveira, expostas neste bal de mem6rias do Rancho e
do povo do bairro do Jurunas. A


JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA 9






M..--,.., ".C, .*-.0-... .I ..I

.'.. ..:_,:.. .*.....:. i v~~ w -^.. ,5. $ ^*lfalc..d,,?^ **^ ,^ ^ .<


Visita


Em outubro de 1953, Joao Goulart, na 6poca ministry do Traba-
Iho, fez sua primeira visit a Belem, cor agenda cheia. Visitou a escola
do Senai no Marco, inaugurou o posto de beneficios do lapi (Instituto
de Aposentadoria dos Industriarios, na era dos ipa&s, encerrada em
1964), no conjunto residential da autarquia, em Sao Braz, e inspecio-
nou a sede da delegacia regional do ministerio.
Ali, testemunhou a inauguragio do seu retrato, um ritual tipico
do period, e um lance ainda mais caracteristico: o delegado da DRT,
Arminio Pinho, entregou ao ministry um present, oferta dos funcioni-
rios, destinado nao a ele, mas a sua acompanhante e noiva, Maria Tere-
za. Que viria a ser, oito anos depois, a mais bela primeira-dama que o
Brasil j. teve. Por menos tempo, infelizmente, do que desejariam os
estetas I lr.-il ir. ...


Navegaqio
Em 1955 os SNAPP (Servigos de Navegagao da Amaz6nia e Admi-
nistragao do Porto do Para), depois desmembrados em Enasa e CDP,
reiniciou a linha Belem-Iquitos com um dos navios da sua nova frota,
construida na Holanda do ano anterior, que ficou conhecida como "a
frota branca". O "Augusto Montenegro" faria escalas em Santar6m, Obi-
dos, Parintins, Itacoatiara, Manaus, Tef6, Santo Ant6nio do Iea, Sao
Paulo de Olivenga, Benjamin Constant, Tabatinga, Leticia, Ramon Cas-
tilho e Chambote, antes de chegar a Iquitos, no Peru. Um viajio.


Alerta
Sob o titulo "Aten0ao", fez furor na cidade uma materia paga com
uma "declaracao social as pessoas de minha amizade e ao pbblico em
geral", publicada na Folha do Norte, nos seguintes terms:
"Tendo lido ontem neste journal uma nota sobre o casamento da
srta. Elizabeth Costa Busby, cor o sr. Isidro Santos Pinto Filho, tendo
said o nome de seu pai prof. Thomaz Henrique Busby e sua mae a sra.
Maria Failache Costa (BUSBY), venho em piblico declarar que a nuben-
te e apenas filha reconhecida deste senhor, e nao tendo sua mie D.
Mauricia, direito algum de acrescentar em seu nome a palavra Busby,
pois nAo 6, e nunca foi casada cor o professor Thomaz Henrique Bus-
by; declare em pOblico que a abaixo assinada e a verdadeira e legitima
esposa do professor de ingles Thomaz Henrique Busby, e tendo desta
uniao matrimonial, o nosso primogenito, o pequeno Elmoss Brito Bus-
by, de 6 anos de idade, sendo resid&ncia do casal Busby, a rua Bragan-
Ca, 46, onde vivem felizes.
A esposa declarante
CECiIfA BRITO BUSBY".
Tao Belem...


Barraca
Celina Proenga, Olga Chamii, Dulce Marques, Maria da Conceigao
Santiago e May Teixeira eram, juntamente com as Industrias Jorge Correa
S/A, da Palmeira, as responsAveis pela barraca da santa numa das notes
do quinzenario do arraial de Nossa Senhora de Nazard de 1955. Toda


Belem colunivel de entao comparecia as instalacges um tanto rusticas
da principal barraca da festividade. Nesse caso, colaborando para o
atendimento "ao grande numero de velhinhos amparados pela Pia Uniao
do Pao de Santo Ant6nio", em carreira ascendente at6 hoje.


Telefone
Em outubro de 1956 os telefones de Icoaraci (a "cidade-sorriso",
sempre empenhada em nao ser cidade-dormit6rio) ficaram mudos. O
motive: 200 metros de fio instalados ao long de 13 postes que faziam
a ligagao entire Belem e sua vila haviam sido roubados. A Companhia de
Telefones do Parn, mais conhecida como Part Telefone, pediu a ajuda
da policia. O delegado Ant6nio Bonfim prometeu colocar investigado-
res de "campana" no local para flagrar os atrevidos ladr6es de fios.


Banco
Nesse mesmo mes e igual ano o Banco de Cr6dito da Amaz6nia
comunicava ao public a expansao da sua rede de agencies corn a
instalagao de filiais em Benjamin Constant, Coari e Eirunep6, no Amazo-
nas, Tocantin6polis e Porto Nacional, em Goias, Xapuri, no Acre (ainda
territ6rio federal nessa 6poca), e Soure, no Pari.


Eleiqao
O coronel Moura Carvalho se elegeu govemador do Para, em 1947,
com 68.302 votos. Augusto Meira conquistou a terceira cadeira de sena-
dor com 68.040 votos, tendo como suplente Acilino de Leao, que rece-
beu 67.200 votos. Eduardo Ribeiro ficou na suplincia do ja entio sena-
dor Magalhaes Barata (com 65.942 votos) e Sinval Coutinho se tornou
suplente do senador Alvaro Adolfo da Silveira cor 65.785 votos.
Dos 36 deputados eleitos para a Assembleia Legislativa, 23 eram
do PSD (o Partido Social Democrdtico dos baratistas), 9 do PSP (Par-
tido Social Progressista), 2 do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), e
da UDN (Uniao Democratica Nacional) e umn do Partido Comunista do
Brasil, o velho PCB, Henrique Santiago, que teve 897 votos (e viria a
ser cassado, na onda anti-comunista que se seguiu ao desencadea-
mento da "guerra fria".
Apesar da maioria folgada do PSD, o deputado estadual mais
votado foi o velho Aldebaro Klautau, do PSP, cor 4.394 votos. O
segundo foi o pessedista Mendes Pereira, corn 3.602 votos, vindo a
seguir Ney Peixoto, cor 3.521 votos, e Rosa Pereira, cor exatos 3 mil
votos, ambos do PSD.


Fidel
Estudantes universitarios a favor e contra Fidel Castro se enfrenta-
ram na Praga do Rel6gio, hi 40 anos, em 22 de abril de 1961. A UAP
(Uniao Acadimica Paraense) organizara o Comicio Popular Pr6-Fidel
Castro, que assumira o poder em Cuba dois anos antes. Mas outros
universitdrios se reuniram no mesmo local para tumultuar o encontro.
As vaias comeearam de dentro de um carro, estacionado as proximida-
des, quando subiu ao palanque o primeiro orador, o deputado Cleo
Bernardo, do PSB (Partido Socialista Brasileiro).


10 JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA











Os ouvintes reagiram e comegou o conflito. Insultos eram troca-
dos pelos alto-falantes e bombs juninas comegaram a estourar, na ten-
tativa de afugentar os :n.iiif:-.i.inii,-. Mas eles resistiram e o ato conti-
nuou. Ainda falaram no palanque: o deputado Benedito Monteiro, do
PTB (Partido Trabalhista lir., r iii..1, o lider sindicalJos6 On6rio, o
escritor Nazareno Tourinho, o universitirio Ramiro Bentes (atual secre-
tirio de industria, comercio e mineracgo do Estado, que disputou corn
Edmilson Rodrigues a prefeitura de Belem) e o entao secundarista (e
hoje empresario) Andre Nunes, dentre outros oradores.
Apesar cda tensao e da presenga da policia, que garantiu a seguranga
sem bater em ninguem, ao final, entire mortos e feridos, todos se salvaram.
Como devia acontecer em todo em tredo de regime democi-rtico.


Escorregador
Bel6m ficou chocada e revoltada em novembro de 1965: ura cri-
anga se feriu ao deslizar pelo popular "escorrega-bunda". Maos crimino-
sas haviam colocado e. till ... .; de lamina de barbear no leito do escor-
regador instalado na praga Batista Campos. A Anazion Representaoges
sentiu-se obrigada a publicar uma nota official na imprensa para dizer
que nao haviam sido vendido por ela aquele aparelho. Os seus escorre-
gadores, instalados em outras quatro pracas (Brasil, Trindade, Floriano
Peixoto e do Carmo), tinham leito metalico, em duraluminio, e n~o de
madeira, como o de Batista Campos, "assim fabricados para evitar tais
ocorrencias". Cor evidence falta de tato, a nota finalizava: "O que
ainda justifica a preferencia corn que nos distinguiram as autoridades
municipais em Belem".


Os mais
Listas de "10 mais" ainda eram uma atraciao em 1964, quando, nas
paginas do semanario Flash, de Ivan Maranhao, o colunista social Gui-
Iherme Penna montou o seu decalogo. O destaque daquele ano, segun-
do ele, era o advogado Aldebaro Klautau (pai de Bair, de Paulo, de
Afonso e de uma extensa prole, jai falecido), pela campanha "Amaz6nia
6 Brasil" (bem antes de "integrar para nao entregar", do regime military ,
que entao desenvolvia.
Os outros destaques: como banqueiro, Ant6nio Bemardo Dias Maia,
que havia fundado o Banco da America do Sul em Saio Luis, no Mara-
nhao, instalando uma agencia em Belem e outra no Rio de Janeiro;
como administrator, o entao prefeito de Bel6m, Alacid Nunes; como
comerciante, Romulo Maiorana, que havia reformado esse setor; como
industrial, Nelson Souza, que ja instalara a Ceramica Maraj6 e a Agua
Nazar6 e anunciava a Olpasa, fibrica de 6leos vegetais.
A filantropa do ano era Maria Eunice Dantas Ribeiro, uma das
grandes locomotives dos acontecimentos sociais na cidade, ao lado do
marido, Deusdedith, pela Campanha de Combate ao Cancer, que lidera-
va; o educador era Amilcar Freire, professor e director da Faculdade de
Arquitetura; ja o sacerdote era o padre Lourenco Bertolusso, que havia
fundado a Escola Salesiana do Trabalho; o desportista do ano era Jl6io
Bendahan, por ter realizado em Beldm o campeonato brasileiro juvenile
de basquetebol; Jose Reymao, reporter policial da Folha do Norte, foi
escolhido como jornalista de destaque, enquanto o desembargador Ro-
berto Cardoso Freire da Silva era o magistrado do ano.


RETRATO

Um moment

Em decadencia a explora5ao da borracha, a partir de 1912, o mun-
do que surgira em fungao da renda do setor comegou a perder sua
sustentagao. Os palicios e pr6dios luxuosos foram fechando ou mudan-
do de uso. Essa mutagao era bem visivel no antigo centro commercial. Em
1954, o que fora um enderego de sofisticacao, na rua Joio Alfredo,
passou a abrigar i mais popular loja", a Casa Ouvidor, que fazia entio
uma promogfio "do barulho", garantindo: "nesta loja entram e saem
diariamente I1Ih ic- .. de pessoas". Certamente um exagero, como exage-
rada ficara a fachada do estabelecimento. Ainda assim, um oisis com-
parativamente a paisagem atual.


Outro moment

Em setembro de 1961 Romulo Maiorana inaugurou "a mais bonita
loja de Belem", na rua Joao Alfredo, entire Campos Sales e Padre Euti-
quio, o Magazine RM. Era uma loja "ampla, espagosa e confortavel",
que havia superado "todas as outras ate agora montadas em nossa cida-
de". Dois anos depois, para animar as vendas, Romulo apresentava uma
novidade: a orquestra de Alberto Mota tocando na sobreloja, uma "ori-
ginal promogFao" que viria criar "muito movimento para a nossa cidade".


JUNHO/2001 AGENDA AMAZONICA 11





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Tempos da descontraq o


Duas faces da comunicacgo no Pard em 1963. Em hori-
rio nobre, Joaquim Antunes, o rei dos trocadilhos, apresen-
tava a sua "Conversa franca" pela Ridio Difusora, ja extinta,
cor todo o prestigio que o veiculo entao conferia ao radio-
rep6rter, em horario nobre, 22:30 horas. Nesse dia o entre-
vistado era o deputado Gilberto Mestrinho (tres vezes gover-
nador do Amazonas, atualmente senator) e o tema, natural-
mente, era political. Cor o patrocinio de Eccir, Pavinorte e
Macon, tries empresas que nao mais existem.
Jfi na TV Marajoara, igualmente desaparecida, mas en-
tao a Onica emissora de televisao de Beldm, do Para e de
todo o norte do pais, Pierre Beltrand (nosso ainda vivissimo
Ubiratan de Aguiar) apresentava, em horirio semelhante (22,10
hs), "ao vivo", com tudo o que isso implicava de criativida-
de e improvisacao, a "Noite Social RM", uma "oferta das Lo-
jas RM", de Ronmulo Maiorana, que s6 se tornaria empresfirio
da comunicaciao tres anos depois (embora ja escrevesse uma
ecletica coluna social na Folba do Norle).
Nesse program, Pierre tinha na pauta uma entrevista
corn a elegant Alberina Tieixeira recentemente falecida),
"moga e samba bossa nova" (ou o que isso significasse),
a miss Nilda Medeiros, urn dos casais que melhor recebe-
ram nos anais do "grand monde" belensense, Alberto e

ASSISTAM HOJE

"NOITE SOCIAL RM"
PIERRE BELTRAND apresentando:

Entrevista, corn
a Sra. Alberi-
na Teixeira.
Mona e samba
bossa nova.
Nilda Medei-
ros e assunto.
Recepcio Al-
berto (Mirian)
Bendahan...
E outras infor-
Smaoes s6bre
a alta socceda-

Oferla das LOJAS RM
s 22,10 boras, na T V MARAJOARA
(3a. Paig. E. 7990)
ClAKkrAKA rrkA kAI.kA w A h AkAk d A%


Mirian Bendahan (ela ainda pontificando seu cosmopoli-
tismo, ele urma eterna saudade), "e outras informag6es sobre
a alta sociedade", lidas nos pap6is avulsos que o nosso
Ibrahim Sued portava.
Se nao eram os anos dourados, eram anos de descon-
tragio, otimismo e bom humor. Um pouco antes de uma des-
sas torrentes de exceg;o que sempre conseguem anuviar a
bela paisagem i 1r. 1 Ii.


ou:ctl hojei al



CONVERSA
coM o
f-cicio-
c FRANCA
reporterFRANCA
Joclquim Antunes
.. g w= m ,* l

SEntrevistando: 0 Deputado Giberto
l Mestrinno 9
+ d
4+ Tcrnia: Politica

I 22:30
urn horas RADIO
oferecment DIFUSORA

ECCIR- PAVINORTE-MACON


Agenda AmazOnica
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