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Agenda amazônica
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 Material Information
Title: Agenda amazônica
Physical Description: v. : ill. ; 33 cm.
Language: Portuguese
Publisher: Agenda Amazônica
Place of Publication: Belém, PA
Publication Date: 1999-
Frequency: monthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note: Title from caption.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification: lcc - F2546 .A26
System ID: AA00005009:00021

Full Text



A6 e^ r



amnazonica


ANO II N 21 BELEM, MAIO DE 2001 R$ 3,00


Lz cio Fli vio Pinto


ENERGIA

Avanqando para o passado
Por causa do seu impact ambiental e social, as hidrel6tricas pareciam ter sido eliminadas do program
national de energia para a Amaz6nia, embora a regiao tenha a maior reserve de agua do planet. 0 risco de
colapso no fornecimento de energia para a regiao mais rica do pais pode mudar essa perspective. Sem dar
Stempo para maior reflexjo a respeito.





Un certo clima de histeria em torno da ameaga
de colapso no fornecimento de energy ai re-
giio m: 'a do pais, o Sucleste, pode ter o
efeito de abrir corn perdito do trocadilho -
as comportas para a construglio de novas hi-
dreletricas na Amaz6ni: A regiio tern uma vocacaao qu
6bvia p; a hidreletricidade: as bacias fluviais (do Ama-
zonas e do Tocantins) acumulam um quinto Cdo volume cde
aguia ce toclos os rios do planet juntos. Motorizando-as, a
atual capacidade brasileira cle gera'Jio poleri ser duplicada.
A monumental hidrel6trica de Tucurui, no Parl
obra cque mais absorveu concrete na hist6ria da enge-
nhl a brasileira (o suficiente para construir um Marac:
af por anm no auge da construgao), cleu partida
"a exploraato, na metade da clcacla de 70. Sozinha,
quando concluida (o que ocorrer: nos pr6ximos tras
anos), responderfi por 15% da oferta national cde ener-
gik Mas ficou como caso isolado. A usina 6 responskivel
por tudo o que a Amaz6nia transfer lie energia p;
as regimes (3% do consume national), onde os po-
tenciais hicdriulicos estato em vias de se esgot,
As grandes barragens que se seguiriam a Tucuruf fo-
'anceladas. As outras quatro usinas em funciona-
mento na regi;f rio de pequeno porte e atendem apenas
ao consume clos lugares oncle estto instaladlas (Coaracy
Nunes, no Amapai; Curua-Un, no Parl Balbina, no Am.
zonas; e Samuel, em Rondcnia), nao estao conectadas
ao sistema integrado national (cor o imprevisto efeito
benefico, agora, de que nato sofreriio entri -ao no pro-
grama de racionamento e corte). Somadas, equivalem
pouco mais de uma das 12 miaquinas jai em operac io em
Tucurui (na segunda etapa sere aduzidas outras 11,
partir do ano que vem).
Tucurui e Balbina, este o mais grave caso de agres-
sfo ambiental provocado por uma hidreletrica (ernbora de
pequena capacidade cde geracio), mostraram o outro lado
do nirvana de quilowatts embutidos nos enormes volumes
de figuas (los rios da baci amaz6nica. Por serem rios de
planicie, eles t&m pouca decliviladle natural. Como ener-
gia hicrica clecorre da combinag-o cde volume e/ou queda
de igu; 6 necessfirio criar um desnivel artificial para a
movimentaCgio das pis das turbines. O que acarreta a inun-
cdalFo de areas extensas. O reservat6rio cde Tucurui 6 o
segundo maior do pais, corn 2.850 quil6metros quadrados
e 53 trilh6es de litros de figu. acumulados.
O outro problema 6 a diferenga de vazfio dos rios ama-
z6nicos entire o inverno e o verio. De um pique de quase 70
milhies de litros de figua vertidos por segundo, o Tocantins,
barrado em Tucurui, pode baixar para pouco mais de um
milhfio ce litros por segundo. E precise estocar muita figua
p, lacas magras hidrol6gicas, que come'am em junho e
vfio at6 outubro.
0 problema 6 que a bi -agem jai possui mais de 70
metros de altur: o equivalent a um prclio de mais de
20 andares. Quanto mais alta a parede de concrete, ais


ela inunda a montante do rio animn solo, floresta,
riqueza biol6gica sequer inventariada numa regiao que
aior cliversidacle de violas no planet. NCio com-
porta m: figua. Justamente por isso, o volume que os
vertedouros de Tucurui estao cleixando pl sustent;
ria o dobro da su: al produCg
Todos esses complexes problems ambientais relati-
vizar; por fim, \stanc; a corrila aos kw hidricos,
tanto por percepclo end6gena quanto por pressio inter-
nacional. Mas afli'io corn o risco de apagg es, justa-
mente quando o Brasil parece comep'r a se libertar clas
*as financeiras p: -a volt; poem clesc;
'autela (e, junto cor ela, a inteligncii em favor
da retomada da corrida as hidrel6tricas, a qualquer prego.
Hi uma usina n; agulhl a de Belo Monte, no Xingu
(cle variacgio hidrol6gic; ainda mais extremada do que o
Tocantins e bem menos conhecido). O aproveitamento
energ6tico da nova back 400 quil6metros mais para oeste,
comegari corn um salto consilerfivel: at6 11 milhIes de kw
(contra pouco mais de 8 milh6es de Tucurui complete). Urnm
usina equivalent a Itaipu, das maiores do mundo.
Volt: t agenda dos b: ageiros um projeto que pa-
recia definitivamente cancelado: o de Santa Isabel, no
Araguaia, entire o Parai e o Tocantins, no valor aproxi-
acdo cle um bilhao ice d6lare. Com um potential ener-
g6tico oito vezes menor do que o dle Tucurui, ess;
na inundar;f a um tergo maior, ficando abaixo ape-
nas do reservat6rio de Sobradinho, no rio Sato Francis-
co, no Nordeste.
A retomada de Santa Isabel jai nato seri mais feita
pela Eletronorte, a subsidifiria da Eletrobrfis, que conce-
beu o polemico projeto, as pela americana Alco;
principal multinational do aluminio, o produto industri-
al mais eletrointensivo que existed. A maior fibrica da
empresa no Brasil, a Alumar (em associaglo corn a in-
glesa Billiton), consome quase duas vezes e meio mais
energia do que a ciclade onde foi implantacla, Sato Luis
do Maranhiio. R abastecida atualmente por Tucurui, atra-
v6s cde cluas extensas linhas de transmissio. Mas quer se
tornar auto-suficiente porque a tarifa privilegiada a que
teve acesso em 1984 (juntamente cor sua concorrente
vizinha, a AlbrKis), bem abaixo do custo de geraago, per-
clerf a validade clentro cie tris anos. Talvez s6 consiga
um kw parecido se tiver sua pr6pria usin;
Quando ficar provado que a elevazlao em clois me-
tros no lago de Tucurui (submergindo novas fireas e de-
'alojando mais gente) nio serai suficiente part anter
energia firme corn um fator de capacidade aceitaivel (ela
-i cle 8,2 milh6es de kw nominais p -ia 3,5 milh6es
firmss, ai virai imediatamente uma nova b; agem, cle
Marab' part acumular mais aigu: Tudo muito m:
pido do que recomenda uma bo: abordagem az6ni-
E, talvez, bem mais caro do que possibility; 'a closes
adequadas cde racionaliclade e inform oio, o anticoto
contra histerk A


2 MAIO/2001 AGENDA AMAZ6NICA






Jogo do


empurra



Quem possui alguma intimidate corn o sector el6trico
brasileiro deve ter ficado entire o perplexo e o chocado corn
a candida declararto do president da Repiblica de que
desconheci; a gravidade do balanco energ6tico do pais, res-
ponsivel pela crise, o racionamento e os iminentes colapsos
no fornecimento que ameagam uma nagao corn 170 milh6es
de cidadcios, ; aioria decididamente sub. Desconhecia por-
que nao o advertiram para o problema em vias de explosao,
disse, como se se desculpasse. Ou limpasse uma fuligem do
palet6 corn a ponta dos dedos bem cuildados.
As palavras e as expresses de Fernando Henrique
Cardoso eram um retrato do fim. O fim ce uma etapa da
hist6ria da energia el6trica no Brasil. Depois do pronunci-
amento presidential, confesso que me deixei afundar na
poltrona e fui relaxando. Retomei a consciencia deitado,
olhando a limpada no teto, e fui tomar o rotineiro banho
p6s-Jornal Nacional, como se da lavagem pudesse sair para
uma nova realidade, ou pelo menos me livrar do sujo que
o president atirou sobre n6s, na traditional forma de ta-
xas, multas e sacrificio por um pecado que nao comete-
mos. A figu: uma inspiraqfo biblica, talvez me livrasse da
anomia e, se isso fosse possivel, da entropia do boletim
informative da familiar Marinho.
Em seu period de republicanismo imperial, os milita-
res construiram hidrel6tricas como nunca antes, expandin-
do a capacidade instalada de gerai o de energia em indi-
ces records. Como energia tornou-se quase sin6nimo Cde
hidreletricidade, os experiments alternatives foram o ma-
carr6nico Profilcool e o teut6nico program nuclear associ-
ado a Alemanha, um present de grego do nosso prussiano
general Ernesto Geisel e seu Ueki muito louco. O resultado
s6 serviu para reforgar o monop6lio das barragens masto-
d6nticas nos rios e seus custos dinossaiuricos, se a geologia
e a lingua permitem o abuso neol6gico.
Os dados quantitativos desse period sio mesmo de
impressionar. Sua fraqueza derivava, entretanto, da circuns-
tfncia de que tudo o que niio desse certo, sobretudo em
at6ria de correaio orcamentirir era transferido, atrav6s
de um sistema de biombos, corn contas vinculadas e taxas
compuls6rias de fraca visibilidade, pi *a os cofres da viiva.
Esse aparato institutional chegou a fazer o deputado
Francelino Pereira proclamar a Arena como o maior partido
politico do ocidente, sem atentar para o artificialismo da
criatura. O fantiistico partido era como a carruagem, os ca-
valos e a guard de Cinderela: nfo resistiu ao badalar da
meia-noite democritica, 'i sem fantasia. Democracia que,
como num texto de Lewis Carrol, anunciou a a luz
do lia que permit distinguir os gatos pardos dos pretos


(ver a escuridclo pode ser o prego a pagar para cultivar
aquela tenra plantinha de Mlangabeir: a democracia).
S6 de superfaturarnento, o sistema eletrico que os mi-
litares entregarn aos civis, que os sucederam no control
da repoblica, trazia embutido uns 50 bilh6es de d6lares,
por conta da generosidade do subsidio estatal a empreitei-
ros, apaniguados e derivados. Havia ainda umra negra conta
de outros subsidies, como o que favoreceu leoninamente
industries eletrointensivas (como Albrats e Alumar, benefi-
ciadas corn algo em torno de 5 bilh6es de d6lares em 20
anos) e manteve as tarifas num patamar irreal.
Todos esses esqueletos pularam para fora dos armairios
quando comeeou a agodada privatizacao do setor eletrico.
Acodada porque as regras tie regulamentaaio e control es-
tavam saindo simultaneamente i venda das estatais, avalia-
das e modelaclas individualmente, sem uma adequada visao
de conjunto, sem um debate capaz de submeter a um teste
de consistencia tudo o que se fez no varejo, corn m6todo de
atacado. Algo como colocar o leio, as multinacionais e asso-
ciadas, sob o control do coelho, as agancias reguladoras.
De 10 anos de privatizao6es emergiu um monstro corn
macrocefali criatura coerente cor o perfil do criador, umrn
tecnocracia tucana que lida cor a realidade atrav6s de in-
terpolac6es, calibragem matemaitica, modelo reduzido e
outras ferramentas sofisticadas e, geralmente, est6reis. Essa
macrocefalia foi construida em camadas, como uma pirf-
mide engendrada pelo coelho maluco de Carrol. No alto
(ou na base?) estai o Minist6rio tie Minas e Energik Logo em
seguida, o Conselho Nacional de Politica Energ6tica. Ai vem
a Agencia Nacional de Energia El6trica. Depois, o Operador
Nacional do Sistema Eltrico. E ainda hfi as concessionirias
e suas respectivas agnncias reguladoras estaduais.
Pois bem: de nenhum desses escaninhos perfumados,
arrogantes e convencidos saiu um gritinho que fosse de
alerta para os ouvidos (se bem que agora freqiientemente
moucos) de sua excelencia, o president da rep6blica. Um
recado curto e grosso, comme-il-faut, para evitar que a ne-
cessidade de uma seria political de conservag~o e racionali-
zacfo de energia, lembrada s6 episodicamente na hist6ria
national, fosse atropelada pela horda historic; a servigo do
lobby de empreiteiros e barragistas, com suas obras panta-
gruelicas e orcamentos inchados, que vfo conduzir
nova conta sem resultado certo no future, quando haveri
menos lencol para o corpo de tanta divida, econ6mica e
social. Vai-se cobrir um santo para descobrir outro.
Ou o prop6sito dessa conspiracfio do silencio, da qual
participam os que nho falam e os que nfo ouvem, 6 exata-
mente para que a roda volte i sua quadratura de praxe, prati-
ca que explica o desencontro entire nossa vocali-o de grande-
za e nossa militancia de mediocridade? E o que talvez "eles"
os manipuladores da opinion piblica, querem. Mas nao 6 o
melhor para a sociedade. Nem o ineluttivel. A terrivel crise que
se aproxima pode acabar sendo mais positive do que a pas-
maceira maquilada que o tucanato vendeu i naclo at6 ontem.
Desde que da escuricdlo faca-se uma nova luz. A


MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA 3





HISTORIC



0 que mudou a


Amazonia


Se eu recebesse como tarefa indicar os dois fatos que
mudlaram a hist6ria da Amaz6ni danclo-lhe a feicio que ela
tern hoje, nao hesitaria um instance em apontar a Cabana-
gem, que irrompeu em 1835, em Bel6m, e a integragiio fisica
da regiio ao pais atrav6s de rodovias, iniciada pouco mais
de umr s6culo clepois.
A Cabanagem raramente aparece nos manuais de hist6-
-'a national. Quando citada, ainda 6 embrulhada no pacote
das sublevag6es do primeiro imp6rio, dlas menos importan-
tes, quase sem individualizagiio. Nenhuma novidade: a his-
t6ria da Amaz6nia (praticamente tudo, da Amaz6nia) 6 um
residue da hist6ria brasileira, um mero exemplo demonstrati-
vo, a favor ou contra.
No entanto, a Cabanagem algo excepcional e inico
para os padres de Pindorl o povo tomou o powder e go-
vernou (tres d6cadas antes da Comuna de Paris), corn uma
interrupg~'o de retomada legal entire as tres presidencias ca-
banas, ao long de um ano; nfio foi apenas um acerto entire
elites; ate ter sua champ: apagada, em 1840, a Cabanagem
'astou para a morte um quinto cla populaciIo da regiao. A
entaio provincia do Grfno-Pari e Rio Negro tinha 150 mil habi-
tantes. Devem ter morrido uns 30 mil. Se fosse hoje, isso
significaria clois milh6es cie mortos em cinco anos.
Houve muita sangria durante o period initial, brasilei-
ros correnclo ; is de portugue. -avos e inclios, n; 'aia
de senhores. Mas nada compC : -ivel 'acre clos c: anos
Cldu a 6poc: "pacifica:ico" comanclada pelo brigadei-
ro So: -s Ancdre: com total cobertura do Rio de Janeiro. Os
az6nicos queri; "ar dca domin: 'to colonial portu-
gues; que sobrevivera, inc61ume, ancipagfio politic:
p; como se ela naio tivesse ocorriCdo. Mas i capitall do no\vo
imp6rio achava que caboclos, inclios e negros clevi:
lquerendo mesmo er: ancipa;.'
Andr6a naio apen: ancdou matar todos os revoltosos
encontrados em as pelo vasto interior: centenas leles
"am de inaniCgfo nos pores da corveta imperial Defen-
ansformada em 16gubre calabougo flutuante em fren-
a Belem. Ingleses, france. ssmo portugueses po-
cleriam ter executado nacioni
O regente, Diogo Ant6nio Feij6, autorizou secretamente
os tr&s p; -s, inclusive Portugal, do qual m al ha 'amos nos
libertado, a entrar no Grao Pari cor tropa embalada e exter-
minar os rebeldes, que naio cram igu: O governor central
:ao se consider 'a em conclic'es de reprimir simult:
mente os cabanos e os farrapos, as no extre-
mo oposto do territ6rio da n; :io em former; 'io (ou em disso-


lug;io? Perguntar-se-i:, clepois, um dos nossos maiores histo-
Capistrano de Abreu).
A Cabanagem p6s fim ia oltima clas utopias do imp6rio
colonial portuguCs: preserve seu maior dominio no conti-
nente americano, \smo o Brasil se tornado independen-
te. Quando isso acontecesse, o novo pais se dividiria em
dois, porque fora duplo enquanto os capitaes-do-mato lu-
sitanos e seus vasqueiros estadlistas mandaram na col6ni:
Pombal, na metade do seculo 18, tentando levantar esse
sub-imp6rio na rain forest.
Visto de Lisboa, o Brasil s6 existia do Piauf para baixo.
Desse ponto para cimn, o que havia era o Estado do Mar:
nhao e, em seguida, o Grfo-Pard. Plenamente portugues, sem
qualquer ligagio com o restante da col6nii E assim prova-
velmente permaneceria, at6 um contragolpe reinol ~ procla-
magfio de Pedro I, nfo tivessem os caboclos custeado a san-
gue a separagFo. Que o poder central naio entendeu, num
pais demiasiado grande e demasiado mal representado parn
dispor de um verdadeiro Estado national.
A voz que soou na planicie foi captada cor interferen-
cias no Rio de Janeiro. Naio houve limpidez nem mesmo quan-
do a capital foi transferida para Brasili. no embalo ld miti-
c; "corrida para Oeste" Ningu6m, nos cargos de mando, ce-
deu seu ouvido p, a ret6rica da jungle. Corn um sculo de
atraso e complete defasagem geogrifici o centro do powder
national decidiu, na segunda metade da decada de 50 do
seculo pl -ado, que ji era hora cde a Amazini: 'air da su:
conldiFio de reserve e se tornar fonte de producgio.
De preferenci: de d6lares, corn os quais se suplemen-
a baixa taxa de poupanra cdo capital national, insufici-
ente par: alimentar 'aldeiras do Brasil grande ("pra fren-
durante os anos do milagre econ6mico do regime military,
"em atao" no reinado de um principe republican mal ins-
piraclo em Mlaquiavel).
Foi o que disse o entiio todo-poderoso ministry Delfim
Neto ao scu colega Naburo Okita, (doJap; quando o o PI
a anualmente num: 'a de dois dfgitos. O crescimento
exponencial s6 viri 's da velha formula: a frontei-
'ancari lancando platform: ataque,
as de circular' elos entire o almoxarifado de recursos
n; -ansform: rio (dit nature:
dori' o "sul" bergo do parquet industrial e tecnol6gico do
p: do saber.
Quando as primerr; adas rasgaram o venture flores-
tal, at6 entao absolutamente virgem, n; altas, distan-
\s dos talvegues dos rios, que er 'aminhos da civiliza-
g a aquele moment, o home h. 'ado em menos
de 0,5% da superficie \sponde
tercos do Brasil e se os sonhos dos portugue.
"alizado, um dos mi (s praises do planet. Hoje,
o de. atamento jC alcanga 16%, engolindo 78 milh6es de
hectares do que er: a das mi: s concentracges de gr:
dces ( *s do mundo.
Nunc: em toclos os tempos, um povo de. ais flo-
restas do que o brasileiro. Essa tendcencia prossegue ex,


4 MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA





mente quando a humanidade se conscientiza de que a com-
binacao de alta umidade, chuvas abundantes e extensos pe-
riodos de insolagao responded pela maior diversidade de
vida, animal e vegetal, na crosta terrestre nao coberta pelos
mares. A Amaz6nia 6 esse nicho privilegiado. As arvores silo
o elo vital desse ciclo de vida. Estao sendo premiadas corn
um massacre sem paralelo, que result num ganho econ6mi-
co liliputeano para umas dlzias de beneficidrios e um preju-
izo sem retorno para gerag6es inteiras.
A Amaz6nia tem uma hist6ria e e rica. A Amazonia
tem irirnli~^-nii.i, que pode nao ser (e nao e) suficiente para
resolver todos os seus problems, os maiores cor origem
ex6gena, mas tamb6m nao deve ser desprezada, qualquer
que seja o argument contra seu primitivismo ou provincia-
nismo. A Amaz6nia, alias, depend visceralmente, da solida-
riedade externa. Na forma de conhecimento cientifico, de
saber tecnol6gico, de inf. ,i m.,., de vontade.
Sozinha, nao conseguira reverter um process acelera-
dissimo que a colocou, de um lado, entire produtores em
escala de importancia international de bens eletrointensi-
vos, como o aluminio e a pr6pria energia, e, nacionalmente,
entire os principals fornecedores de insumos basicos, enquanto
v'irios dos seus indicadores sociais estao abaixo da media
national e, ate, das taxas nordestinas,
um padrao de pobreza que
avangou sobre aquela que de- (.
veria ser "a maior fronteira Ide
recursos naturais do globo" e vi-
rou o locus do saque.


A imprensa teria a important missao de colocar al-
gumas pedras na ponte de ligagio entire a Amaz6nia, o
Brasil e o mundo. De tal maneira que nao se continuasse
a pensar a regiao apenas como uma paisagem edenica,
mas tambem uma drea corn problems complexes, vrios
dos quais ja caracteristicos de uma sociedade avangada,
industrial (e p6s).
E precise revelar a complexidade ja assumida por vi-
rias estruturas de produgco montadas na regiao corn o ca-
rimbo do Primeiro Mundo. Ou que alguns niimeros e situa-
g6es impressionantes que pode exibir (a maior fibrica de
aluminio do continent, a maior hidrel6trica inteiramente
national, a maior provincia mineral do planet, etc.) nlo
sao garantia de future para a Amaz6nia.
E um privilegio viver n:. regiao, agora. Mas 6 tamb6m
uma fonte de angustias, tal o desafio de fazer a hist6ria
contempor'inea refletir o rosto e os anseios amazonicos,
expressar sua pr6pria vocagio quando florestas sao destru-
idas, rios sao aterrados e sua paisagem submetida a ativida-
des sem perenidade, ou sem sustentabilidade, para usar um
jargao da temporada, chocho, mas inevitivel.
Aqui, como observou um grande paulista e brasileiro,
Euclides da Cunha, no alvorecer do s6culo passado, escre-
ve-se a ultima paigina do Ginesis. Mas Deus cedeu esse
derradeiro copyright para os homes. Trans-
feriu-nos, portanto, uma
responsabilidade cuja mag-
nitude ningudm conseguir'i
aviltar. O tamanho da Amaz6-
nia e proporcional ao tamanho dos
seus problems. E ao tamanho do
merecimento dos que, enfrentando-os
com inteligencia, vencerem-nos.


MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA 5





JARI


Sai a




hidrel6trica?


Atd o final do pr6ximo mis, a Jari pretense inici,
construclo cla maior hidreletrica particular da Amaz6ni:, n;
clivisa entire o Parti e o Amap, 'apacidacle pl -a 100 mil
cluilowatts e custo previsto de 100 milh6es de re: A usinm
'star pronta no primeiro semestre de 2004, aten-
-i prioritariamente as necessicdades das fibricas de caulim
e de celulose da empire, al6m cia vila residential de Monte
Dourado. Se houver sobra, podlera tambdm alb a secle
do municipio vizinho de Laranjal do Jari, no Amap'
A energia sempre foi um dos graves problems do com-
plexo agroindustrial de 800 milhoes de d61a-
's que o milionario : 'ano Daniel Lu-
dwvig (jit falecido) comegou a implantar num:
proprieldade de 1,6 nilhafo de hectare, que
adquiriu em 1967, entire os clois Estacos. Em
1977 ele trouxe do Jap' a termeltric,
de 50 mil kw, ada sobre uml :
flutuante p; avegar por 20 mil quil6me-
tros de oce; ate o seu clestino : azonico.
A principio, ela funcionou a base de C:
'acos de macdeir: as sobras dos desm;
tamentos na floresta n: feitos p, a for-
C0o de um plantio exotico de 100 mil hec-
que supre dca matiria-primn a fabric;
de 290 mil toneladas anais de celulose. Quan-
adeira coImeIou ; "ar e enc:
o suprimento cia termica p; a ser fei-
to cor 6leo diesel, onerando o custo de pro-
cdu'ao da inclistria e 'imitando sua capacida-
de de prodIugLo. Aldm de significar um golpe
p: a os que defendli ; biomass como al-
ativo energetico. Os pianos originals de
Ludwig, de produzir papel, nunc 'anc':
Um dos seus enter -s foi a falta de energit
Em 1987, scoress do million' /
*ano, lideradcos pelo grupo Caemi, ide
Augusto Antunes (tamlbem ja falecido), cons-
a empire: : specialmente pl
clar da implantacito da hidreletric: Mas so
agora ela conseguiu resolve todas as pendcn-
cias p:; a obrl j aprovada pela Ane-
el (Agincia Nacional de Energia Eldtrica) e corn
a empreiteira selecionada.


A usina funcionari a fio cl'igua, alagar as margens
do rio Jari para a formaFlro ce reserve;
cebicla corn alivio pelos ecologistas, em virtue dos forte.
imp: ambientais c: 'ados pelos lagos artificiais das hi-
drel6tricas na Amaz6ni: No entanto, durante alguns me.
do ano achoeir: Santo Ant6nio, a das mais bonitas
da regi; fic, As Jiguas do rio serfo de, adas p:
movimentar as turbinas da usinm
Tamb6m hai d6vida de que o beneficio v' alim da pr6-
pria empire. que precis: sscer pl aumentar
assim powder enfrentar seu pe.ado custo financeiro,
ponsivel por 21 anos de operafao neg: corn prejuizo
acumuladio de quase 900 milhOe. Toda 'apacida-
de tie ger 'fio da hidreletric: Santo Ant6nio ser' absorvi-
da pelas duas ff as unicaldes complementares.
Mas ainda hi Tanto que a Jari Energetic:
j, assinou urm: 'arta de intend; t a Eletronorte pI
pra e vencla de energy, A estatal opern a hidreletric;
rio Araguari, no Amap., a primeira da Amazini.
cicdace um pouco inferior projetada p -a o Jari. A usin:
Pareld; altie. da explore 'aro do man-
gane., ambdm nao dia conta da clemanda na regiafo. A


-cC
-- -~j -
sC~ill


6 MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA





TUCURUI



Um lago maior


Para pocler ger:r mais energy a Eletronorte quer elevc
em dois metros o nivel do reservat6rio cla hidrel6trica lde
Tucurui, no Pari, a seguncla maior usina de energia do p;
O lago artificial, tamb6m o segundo m: -xtenso do Br:
(abaixo apenas do de Sobradinho, na Bahia), ocupa 2.850
quil6metros quaclraclos.
O reservat6rio, corn 53 bilhoes de litros de aigua em sua
'apaciclacle plena, vem senclo operaclo no seu limited maximo nor-
al, na cota de 72 metros, permitinclo ~i usina : ':an'ar um pique
de geracaio de 4.200 megawi a energia fire (que pole ser
oferecicla sempre ao mercaclo, indepenclentemente do nivel do
,at6rio) de 2.983 MlW Passanclo a opera no nivel Jiximo
aximorum", na cota 74, antes admiticlo apen: argem
le seguranga p: -a emergencies imprevisiveis, ai empresai dciz que
acrescentara 150 MW "apacidacle usin:, energia suficiente para
atencler uma nova clemanda que ji Ihe foi solicitacla.


- - - - -
I---
- -..---.


A Albr-s (formada pela associa : o da Companhia Vale do
Rio Doce corn um cons6rcio japones) quer aumentar al
procluc; o de aluminio primairio, de 370 mil tonelaclas para 410
mil tonelaclas anu Ness -ala, ela se torn; aior inclds-
a de aluminio do continent e umla das maiores do mundo,
superando sua concorrente mais pr6xim:, a Alumar (controlada
pela Alcoa e a Billiton), instalada em Sao Luis do Maranh`
Mas para isso a Albras precis: -i de mais 110 megawatts firmes
de energit Seu faturamento com aampliano cre, -'a 60 mi-
lhoes de cl6lares anuais, ;i que a quase totalidale do qlue pro-
duz e exportada. A empree sozinh: -sponsivel por 1,5% de
todo o consume national de energy: absorve 15% de tocla :
potencia de Tucurui, ai senclo a segunla principal client cda
Eletronorte. Consome umrn ais energia do que Be-
lem, cor seus 1,2 milhfo de habitante.
A Eletronorte solicitou ao governor dlo Estado do Par'
;rio p: alar vigas-espelho no verteclouro cia
*agem, as quL -i possivel elev o nivel do
A instalaca' o dos equipamentos poderi:
feit; adclos de setembro, aproveitando o period de
azante do Tocantins. Mas a Secretaria de Ci6nci: Tecno-
logia e Meio Ambiente do Estado conclicionou autoriz:
gio 'ao dos efeitos 1
bientais cla inici;
a inundacao de nov: argi-
i0i(toi lago e, eventualmente,
nejamento de populagi'
pouco provivel cque a Eletro-
.__- .... lnorlte consiga demonstr: a conveni-
a de fazer 'ao pelo pris-
/ / /ca dI relacao custo/beneficio. Mas
ainda que a propost:
S 'ai ser pouco significaco para a ge-
0rio total de energia da usin: A em-
pres: a evitanclo aborclar o proble-
a grande deplegao que exis-
te em Tucurui entire a enchente e
.ante do rio Tocantins. O fator de
'ap: atual de Tucurui, de 50%
'sultacdo cla quecla cda potenck
al, de 4,2 milhoes de kw, p;
potencia fire, de 2,1 milhoe.
aincla mn a segunda etap:
8,3 milhoes p: -a 3,3 milhoes de k\w).
Um. elev "cio signific;
possivel qutancdo outr: :agens
"scentarem novos reser-
a:gut qcue exercerio in-
fluencia reguladora sobre Tucurui.
Mas equal o prego social, ambi-
ental e econ6mica que seri precise
pagar p: \stabelecer uma mn6dit
geraito melhor par, a hiclreltric:
Esta 6 a pergunta que merece ser feita
antes dce qualquer nova obrl A


MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA 7






Estudantes LeO

Eo studrane L o"


Estudantes Leao


O governador Almir Gabriel era um dos integrantes da
comissao organizadora do XVI Congresso Estadual dos Estu-
dantes, realizado pela UAP (Uniao Acadrmica Paraense), em
1953. O president era Oziel Carneiro (ex-presidente do Ban-
co da Amaz6nia). Tamb6m integravam a comissao: Bernardo
Maia, Maria Virginia Gomes, Almir Nobre Saady, Nicolau
Eduardo Demetrio, Jose Brabo, Nazar Nasser, Walmir Hugo
dos Santos, Jose Maria Fonseca, Ruy Conduru, Jayme Spatz,
Geraldo Lima e Norival Lavigne.
Numa das sess6es, o estudante Isaac Barcessat, do
Diret6rio Acad&mico de Engenharia, props que o con-
gresso defendesse a definicao de um
limited minimo de aulas durante o ano
letivo. Argumentou que "muitos alu-
nos, principalmente na Escola de En-
genharia, estavam sendo prejudicados
porque alguns professors primavam
em faltar as aulas".
Mas a proposta acabou sendo re-
jeitada. Os estudantes verificaram que
as Bases e Diretrizes do Ensino Nacio-
nal nada previam contra a displicencia
do professor. O aluno 6 que teria de
pagar a conta. Como hoje.


Alfaiates
Em 1954 havia um ativo Sindicato
dos Oficiais de Alfaiate do Pari. Re-
presentando "centenas de colegas do
mesmo artifice", tentou elevar o salirio minimo, entao fi-
xado em 900 cruzeiros, para 1.200 cruzeiros. Seria a unica
maneira de evitar que a classes trabalhadora se tornasse
"uma fibrica de tuberculosos ou homes portadores de
outros males". Ou os "proletirios" se verem na situagao
de ter "que roubar os ricos".
Quem, hoje, faz roupa cor alfaiate?


Radio
Em 1954, a Radio Clube do Para realizava a "Festa na
Aldeia", na sua famosa sede, no bairro do Jurunas. Era um
"show variado", que comecava as 9 da noite, corn a partici-
palao "dos mais destacados elements do cast regional". As
atragbes eram Virginia de Moraes, Francelino Andrade, Ge-
rusa Souza, Comediantes C-5 (refer&ncia ao prefixo da emis-
sora, PRC-5), "Radiatro C6mico" e "jazz-orquestra", dirigida
pelo maestro Guiaes de Barros. A festa durava uma hora,
transmitida "ao vivo" pela ridio.


Anadu, o domador do Circo Romano, em excursaio por
Bel6m em 1955, achou pouco o picadeiro. Decidiu dar uma
(mal comparando) "canja" no Bosque Rodrigues Alves: entrou
numa jaula que abrigava um leao de um ano e seis meses de
idade, pesando 150 quilos. A fera, de propriedade do ban-
queiro Adalberto Marques, foi dominada pela habilidade de
Anadu, para espanto dos ficlii,-nr. I ..r-cs do bosque. Que acha-
vam completamente prosaico o fato de haver em Belem um
le'ao africano de propriedade particular, mantido num bosque
pLiblico. Muito Belem. Ao menos a cidade daquela epoca.


V6o


Em outubro de 1957 a Paraense Transportes Aereos, sob
o comando de Afonso Ramos Junior, inaugurou a linha Rio
de Janeiro-Brasilia-Belem, usando o "Curtiss Comander", um
aviao de dois (imensos) motors, adquirido um pouco antes
nos Estados Unidos. O percurso, de 2.500 quil6metros, qua-
se em linha reta, pelo Brasil Central e nfo pelo litoral, era
feito em "apenas" oito horas e meia. A freqtiincia do v6o era
de uma vez por semana, as tergas-feiras.


Hotel
O belo e famoso Grande Hotel encerrou suas ativida-
des em 1 de julho de 1966. Seus proprietirios, da cadeia
Grandes Hot6is S/A, explicaram, em nota official publica-
da na imprensa de Belem, que o hotel vinha operando
cor prejuizo havia vtrios anos.


8 MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA











Para uma drea construida de mais de 10 mil metros
quadrados, exigindo a mobilizagao de 140 empregados,
havia apenas 85 apartamentos. Corn uma taxa de ocupa-
gio de 60% no ano anterior, resultava "a proporgao,"quase
absurda, de tres serventes para cada apartamento ocupa-
do", 50 na media.
A receita fora seriamente prejudicada pelo fechamento
da Panair do Brasil, determinada pelo primeiro governor
do regime military, do marechal Castelo Branco. De um lado
da conta, o fim da Panair privava o hotel de acolher as
tripulacges dos avi6es que transitavam cor freqiiencia por
Belem. De outro lado, porque a massa falida da Panair
foram incorporados dois im6veis valiosos do Grande Ho-
tel, nas esquinas das ruas Carlos Gomes e Silva Santos,
que eram alugados 5 empresa. Com a imposiglo da falen-
cia, o valor dos alugudis pagos se tornou simb6lico.
Al6m disso, a boa aparencia externa do pr6dio, que
reforcava na Praca da Republica o clima de cidade euro-
p6ia que Beldm exibia, nao revelava "as graves deficien-
cias interiores" do hotel. As reforms que ele exigia, po-
rem, s6 poderiam ser feitas se o hotel paralisasse as ati-
vidades, deixando de gerar receita, o que os donos con-
sideraram inviavel.
Eles dizem que s6 decidiram mesmo parar quando
surgiram em Beldm "outros hoties da mesma classes tor-
nando "sem sentido os prejuizos que vinhamos supor-
tanco" e permitindo-lhes encerrar as atividades do Gran-
de Hotel.
Mesmo corn a decisto, estavam dispostos a levar "na
mais alta consideragco a importancia da area que ocu-
pamos centro de Beldm e, por nossa iniciativa, nela nada
se fari incompativel cor a beleza da cidade". Espera-
vam uma proposta nio s6 de particulares, mas se autori-
daces piblicas.
O aristocritico Grande Hotel acabou demolido, numa
hist6ria confusa, que merece outro capitulo. Em seu lu-
gar, anos depois, surgiria o Hilton Belem. Mas a bela Be-
lem referida ja era coi-
sa do passado.


Povo
Em junho de
1966, o articulista Car-
los A. de Mendonga
(que nfio era de es-
querda, muito pelo
contririo) saudava,
na Folha do Norte, a
restauragao do Teatro
da Paz como "o mai-


or empreendimento fisico da Revolugio no Para", ins-
talada dois anos antes. Elogiava tamb6m a programagao
feita no local pela Secretaria de Educagio (Sedec, hoje
Seduc), mas observava que os espeticulos tinham uma
plat6ia "de elite": "Necessirio se torna atrair os obrei-
ros, os empregados do comircio, o funcionalismo, en-
fir, o povo, convocando todos por meio de publicida-
de da imprensa e do ridio para tais festivals, aos siba-
dos de preferencia, sem a obrigatoriedade de vestidos
de noite e de palet6 e gravata".
Como o problema continue parecido, o rem6dio ain-
da 6 adequado.


Hidreletrica
Em agosto de 1968 o general Arthur da Costa e Silva
visitou Bel6m, na condigio de president da repiblica.
Assumiu o compromisso de concluir a hidrel6trica Coa-
racy Nunes, que avangava a pass de cagados no Ama-
pi, at6 o inicio de 1972. Um grupo de trabalho esteve na
area e voltou corn a proposta de ali construir aquela que
seria a quinta mais hidrel6trica do pais. Em quatro eta-
pas, a usina do Paredao, como era mais conhecida, teria
capacidade para produzir nada menos do que 500 mil
quilowatts.
A constru(o demorou muito mais do que previsto.
A hidreletrica acabou corn potencia apenas 10% maior
do que a comprometida. Mesmo assim, no verao sua pro-
dugao desce para um minimo.


Energia
Em 20 de junho de
1969 a Assembleia Geral
da Celpa (Centrais Eletri-
cas do Pari) decidiu ex- C E L P A
tinguir a Forluz (For.a e
Luz do Parui), incorpo-
rando-a. A partir de 1L
de julho seguinte a Cel-
pa passou a ser a Cinica
responsivel pelo setor
energ6tico do Estado. Os
acionistas da empresa
extinta tiveram o direito
de trocar as a6es cida
Forluz pelas da Celpa,
na proporaio de 100
ages da primeira para
cada lote de 108 a 6es
da segunda.


MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA 9





PUBLICIDADE


A festa do Mendes

Se quisesse reunir todos os ex-funcionfirios para come-
morar os 40 anos de vida de su; agencia, a Mendes Publici-
dade, completados no mrs passado, Oswaldo Mende,
que recorrer ao maior audit6rio de Belem. Caso existisse, o
aginado clube dos ex-funcionirios da Mences serih
dos mais numerosos da cidade.
Muita genre que continue a atuar no ramo ou dele se
deslocou para atividades afins, como o jornalismo, j i esteve
sob o mando de Oswaldo. Nato 6 incomum encontrar profis-
sionais que nio se ajustaram aos m6todos dele, mas 6 raro
que a dissonincia tenha involuido para o desapre'o. Vairios
discordam dele, outros nilo o aceit; mas todos o respei-
tam. E muitos o admiram.
Para quem naio 6 candidate a miss, nem e politico fisiol6-
gico, nio deixa de ser um galarcldo. A unanimidade, como insis-
tia Nilson Rodrigues (obsessivamente, para nio variar), 6 burra.
Como estiao cansados de saber os burros que citam a frase.
Num setor extremamente dificil, Oswaldo Mendes se
imp6s pela competencia e a dedicacao ao trabalho, fazenclo


o que faz corn gosto, impelido pela mania da perfeigio, que
a desgastar o author e incomoda concorrentes e opo-
nentes, as sem a qual a roda da hist6ria s6 avangaria aos
solavancos, cor lentidio.
Oswaldo conseguiu dar excepcional perenidade ~i agencik
que fundou em 1961, quando jai comegav; a imprimir su;
na propaganda paraense, depois de umra mete6rica passage pelo
jornalismo, ao lado do tambem brilhante irmaio, Armando, num
moment de saudosa fecundidade de A Provhicia do Pard.
A Mendes se tornou referencia national, uma das 50 do
topo da publicidade brasileira (em cujo ranking Sio Paulo,
com 32 agencies colocadas, exerce um monop6lio virtual).
Suas peas constituem um roteiro da hist6ria da regiaio nes-
tas quatro d6cadas, pela importincia do prot-f6lio da agen-
cia, como se mostra na pagina seguinte, reproduzindo al-
guns dos trabalhos da fase inicial ca Mendes.
0 registro 6 feito corn o desejo de longa vida, tanto i
empresa quanto ao seu timoneiro, que ji partilha o comando
ca empresa corn uma segunda geraiao aplicada. Um brinde
proposto por quem nao 6 um dos "ex-Mendes", nem seu cli-
ente (mesmo porque esta 6 uma publica~-ao que nao veicula
anoncios, exceto os que ja se tornaram hist6rk acautelados
nas asas do tempo). Mas um admirador confesso da sua obra.


Os ammmmmmmmios
Os antincios


Dois anincios de 1962 e outros dois de 1969 produzi-
dos pela Mendes estao na pagina seguinte. De duas empre-
sas privadas: a Paraense Transportes A6reos e a Bruynzeel
Maceiras. Ambas ji desaparecidas. E duas estatais: o Banco
de Crclito da Amaz6nia (BCA), que virou Basa (Banco da
Amaz6nia) em 1966, e ainda continue controlado pelo go-
verno, e a Celpa, privatizada pelo governor do Estado e arre-
matada pelo grupo Rede.
A PTA foi aior empresa area do Para, chegando a
ter mais freqiCncias entire Belem e algumas das capitals bra-
sileiras do que qualquer outra. Um traigico acidente, ocorrido
corn um Hirondelle (o Fairchild-Hiller, rebatizado a francesa
por Mendes), pouco antes de um pouso em Belem, serviu de
pretexto para a administraci(o federal fechar a companhi;
Nesse anuncio de 1962, a Mendes destaca as tarifas mais
baratas que a Paraense praticava, sua principal arma part
enfrentar os grades concorrentes nacionais (e compensar
um pouco o desgaste que os passageiros tinham em apare-
lhos menos modernos e submetidos ao espartano service de
bordo). E ainda havia o crediairio, sem seu acompanhante
predat6rio de juros extorsivos.
O an6ncio de 1969 da Brumasa a realcava como "a mais
modern fJibrica da Amaz6ni: que se instalou no Amap i para
produzir 24 mil metros cibicos por ano "de compensados de 1c
qualidade" O grupo holandcs havia aplicado na flibrica "o maior
volume de recursos jamais investido na industrializaclo da mn
deira na Amaz6nia e dos maiores at6 hoje aplicados em empre-
endimentos de qualquer natureza em todo o Norte"


Mas o empreendimento durou menos do que se espera-
va. E de que precisava o Amapa para desenvolver-se a partir
do combalido extrativismo mineral do manganes, praticado
pela vizinha da Bumast, a Icomi.
Do anCncio do Basa de 62, 6 precise destacar que das
47 agencies que o banco entio possuik, 40 funcionavam na
Amaz6nia Legal e eram, em vairias das cidades da regiao, sua
principal ou 6nica fonte de credit. O banco mantinha esse
dinheiro circulando na pr6pria Amaz6nia. Sua said de pr
gas como Benjamin Constant ou Alenquer, al6m de aumentar
as dificuldades no apoio a proclug3o, significou mais uma
vilvula de sangria financeira da regiIo. Sangria que pode
nio ter expressao proporcional, mas tern sido desatada.
Ji o antincio da Celpa de 1969 toca num problema lamenta-
velmente atual para os brasileiros: a falta de energia. Nessa 6poca,
havia duas empresas publicas no sector el6trico estadual: a Centrais
Eletricas do Parai (Celpa) e a For'a e Iuz do Parai (Forluz), que
haveriam de se fundir numa s6, passada final a iniciativa privada,
junto com um monop6lio virtual, pela administramlo Almir Gabriel.
Nessa 6poca, todas as usinas funcionavam a base de
6leo diesel. Celpa e Forluz esperavam concluir a primeira
hidreletrica p; aense, a do rio Curua-Una, em Santar6m, em
1969 mesmo (o que acabou nilo acontecendo, como quase
de regra nos orcamentos estatais). E o que niio faltava era
trabalho, ja qcue "esse neg6cio de energia para o desenvolvi-
mento nao dci folga mesmo"
A energia chegou. JJi o desenvolvimento ainda continue a
caminho, como se fora uma Pen6lope andante (ma non Iroppo).


10 MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA







ACA BANCO DE CRtDITO DA AMAZONIA S.A.
credilo para o povol
ACf IACIAS O tBPAS Ahtrnlba~ quer. Allenqu mira, oDaabaS.
Bali., rEtm. trm. Tlj n Conrtant. Boa Vist. a gana t r Bnlrha,, Brreve Cicere, Camt!, Capanema. C.smtha[, Coar. Cod6,
CoC 'SBat. Cr-' r d> Sri, CUah. bi. E rieP F oIrtalCa, Cuanjarai CiMi rm, G rnna, thlbus, Ita ai Macapi t Mn.lm's, Naraba,
MNue'. 'inpe 'i.;u. Oslim~,in, Parntnm, 1edro Afoi n.o, Pa1ro Alregr. Porto Naton VL,. Porto V Uho.R S 0. te, Ri de Jrdc s ,
Samnarmo. Sa Luw. So Paulo.. Se Saduruoa, Sourc, Ttran ua. Tocaloin6xltU. XsluaL










:j..
1











ABRA UMA CONOTA DE PROSrPIUADE N ANo&O NOVO E CAN11E JUIWOS DE FO.5CiBDSEl









PASSAIfNS








MA/SBARATAS




















NA SUA PROXIMA VIAGEM
P.ra o Riq Sio r., r. ,,
Sio Lai. P wrto o Veh ., b,.
use o / peg a pro, peloCEDIAREO
use 0 slri # s v. w o*ddg ili. rou REDREOE povi,
so pa .e'g eo e. i sose. i.o rma.i. ,
rnQ ^w d *"**' '^** < iso d. bord% waa .f&.
VOE MAIS, POR MENOSI....pero

-i
LUA la DB MA.LQ0B/1,- BOKES. 27853/147.
E. 4BM


Em 1968:
iluminomos a capitol eo ioteror,
Sornecemos energia h r ossr s inditr;ios,
ossegurando o ritmo de jua produoyo.
Sinlso!omos linhas de trarmrissro.
Sides de distribuiso e usinos diesel
em Santatlm, Costanhal, Bragon;o, Alen.uer,
SAboerefubo, Anonindevo, Motiubc, Benevides,
Igorop .ASu, (Ig9rop';Air/, aorab6, Inhongopi,
Moracond, Moroponim, Monte Alegre, Muand,
Breves, Paragominas, Currtainho, 56o Domingos
do Copim, Ahu6, Obidos, Solindpolis, So;,to Izcbel,
Soure, Vig'o, Cur d. Santo Antonio do Taud, Barcareno,
Irituao, Sonlarem Novo, Sdo Coetano de Cdivelas,
56o Miguel do Guom6, Mocojoto, Peixe So;,
Porter e Alenquer.
Mos nao vamo; dormir osbre csser louros.


E- 1969:
E0k outrot objet as, cioc:
*b A hido.enltoIc de C2,`d--DLo Em 7Ii
e arrenc pero conci. to 'dero do Cr..on gro..
P A A uino do Topond em Belm -. mear do, 130 md KW.
A linfa de rarnmiii Coldnhol Coponomo.
2o. tapi do linha .-rn.yBragono a.
A etrellfiro1do de moist sedes municpoi.
CELPA CENTRALS ELETRICAS DO PARA S. A.
FORLUZ FOR(A E LUZ DO PARA S. A.


MAIO/2001 AGENDA AMAZONICA 11





RETRATO

As


horas


da


agonia
Em 1960, um ano depois
da morte de Magalhaes Barata,
o segundo politico mais influ-
ente da republican no Pari, Da-
lila Ohana, sua companheira
ate pouco antes do suspiro fi-
nal, escreveu um livro de im-
pacto: "Eu e as l6timas 72 ho-


ras de Magalhaies Barata". Foi
um sucesso tao grande de ven-
da que a Livraria Dom Quixote, entao de pro-
priedade do escritor e jornalista Haroldo Mara-
nhao, trouxe para Bel6m uma nova remessa "por
via areaa, como informa o anOncio, publica-
do com destaque na Folba do Norte, do av6 de
Paulo, o temido Paulo Maranhao.
Era o ajuste de contas de I' lil., com os
que a haviam impedido de acompanhar a ulti-
ma .. -r... -,. de agonia vivida pelo governador,
simplesmente por nao ser sua esposa legal, mas
a derradeira companheira. Dalila reconstituiu
com crueza essas 72 horas, sem poupar ate
mesmo aqueles que se apresentavam como fi-
6is seguidores ou herdeiros do caudilho.
Barata nao conseguiu completar seu 6l-
timo mandate, aquele que assumira atraves


do voto popular, depois da famosa derrota
que Ihe foi imposta em 1950 pelo marechal
Alexandre Zacharias de Assumpiao, o candi-
dato da oposigio ao PSD (Partido Social De-
mocritico) e sua expressao oligirquica no
Estado, o baratismo.
Talvez Dalila, que morreu no mes passa-
do, 40 anos depois de Barata, nao tenha dese-
jado ou nao tenha podido completar sua tare-
fa, escrevendo sobre todo o period em que
acompanhou o mais poderoso dos homes que
viveu no Pard entire a revolugio de 1930 e o
golpe military de 1964. Seu livro de 1960, con-
tudo, e o que se props a ser: um document
verdadeiramente hist6rico. Apesar do seu tomn
passional. Ou justamente por isso.


*. ..,.,...:, ^
., .,di .' Y. -,a .i -. :. "' -. ."-" ,-',a
'- ..'''.. "_'..~."

-- --



S, -%N_
A;


UM LIVRO QUE E' UM LIBELO!




EU

E AS ULTIMAS 72 HORAS DE



MIGILHAES




de DALILA OHANA
Nova remessa chegada par via area 6 venda, com exclusividade, no
LIVRARIA DOM QUIXOTE
Rua de Almeida, 241 Loja 18


0 clown


no arco
As vezes eu olhava para o goleiro Carlos
Castilho e via Primo Camera, o gigantesco lu-
tador italiano que se tornaria o bandido prefe-
rido nas reconstituic6es hist6ricas de Cineci-
t-, sempre atrapalhando os her6is mitol6gicos
(e a si pr6prio, antes de mais nada). Ambos
eram homes imponentes, mas sua feifra nao
Ihes dava os dividends de tal constituicao
atl6tica. Feios e tristes.
O jogador de futebol mais do que o luta-
dor. Castilhos nao era um tipo fronteirico, como
Camera dava a impressao de ser. Mas sua difi-
culdade de relacionamento e seu jeito "esquisi-
t9o" o tornavam ainda mais infeliz. A despeito
do seu sucesso profissional.JO no declinio da
carreira, veio para "fechar o arco", como se di-
zia, de um dos mais eficientes times que o Pais-
sandu j! fonnou, numa fase em que ser remista
era viver um torment do primeiro minute do
jogo, em que os tres paus do gol bicolor encur-
tavam com Castilhos debaixo deles, at6 o ulti-
mo segundo, quando o urubu Carlos Alberto
fazia o gol da vit6ria, geralmente num espirro
da bola ou cor uma cabeqada milagrosa.
Esta e una image (de junho de 1965), bonita
e melanc6lica, agridoce, de Castilho diante da tra-
ve, postada a frente do pequeno muro do estkdio
da Curuzu, cidadela facilmente transposta pelos
chutes mais fortes de atacantes estouvados, como
o antologico Cacetio (ne Norman Percival Jose-
ph Davis, onomistica de diplomat desperdiga-
da entire quatro riscas de um gramado).
O goleiro posa com
seriedade, trajando ho-
nesto e s6brio uniform
i '''- (sem a propaganda de
hoje, nem suas frescuras
S decorativas, uma exten-
S sao da comuc6pia televi-
S..'',,' 6 siva), mas naio escape a
'aparencia de artist de
'' circo namlbembe.
Triste Castilho,
I que nao quis esperar
Spela solugao do proble-
'' ma e se suicidou, pulan-
.- .' "do de um apartamento
.como se saltasse para
.'- agarrar a bola, nos mo-
.-- .'.''.i, mentos que devem ter
.' .. sido os mais felizes da
"l ..: "*-. "....*. sua encurtada vida.


Agenda Amaz6nica
Travessa Benjamin Constant 845/203 Belem/PA 66.053-040 e-mail: jomal@aimazon.contbr Telefones: 2237690/2417626 (fax)
Produnfo grafica: luizantoniodefariapinto