|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
lamaZ nica ANO II N20 BELiM, ABRILDE 2001 R$ 3,00 SIVAM A ciencia e a geopolitica 0 Brasil voltou a democracia em 1985. A A naz6nia, njo. A agao do governor na regiao ainda se orienta pela doutrina de seguranga national, urn produto tipico dos "anos de chumbo". Tudo e visto pela otica military, inclusive um projeto como o Sivam, apresentado como se fosse iniciativa cientifica. E a melhor maneira de abordar a complex questao amazonica? Em 1985 o Brasil voltou a democracia, depois de 20 anos de regi- me military. Mas o president Jos6 Sarney, que comandou a transigao political em nome da Nova Reptlblica, nesse mesmo ano inaugural criou o Projeto Calha Norte e, em seguida, seu complement, o Proffao (Pro- grama de Areas de Fronteira da Amaz6nia Ocidental). No vasto arco de fronteiras amaz6nicas, cor nove mil quil6metros de extensAo, tocando nos limits de sete pauses vizinhos, continuaria a prevalecer a doutrina de seguranca national, a matriz da acAo do governor nas duas decadas anteriores. Na Amaz6nia, a democracia ficaria para outra oportunidade. Esse devir nao chegou at6 hoje. Depois da onda de preocupalAo cor a possibilidade de tropas cubanas se infiltrarem por Roraima, a partir da Guiana ex-inglesa (uma repiblica cooperative ap6s a indepen- d&ncia), e das sempre anunciadas e nunca consumadas invasoes de guerrilheiros peruanos (do Sendero Luminoso) e colombianos (primeiro do M-19 e, agora, das Farc), o president Itamar Franco, vice e successor de Collor de Mello, o primeiro president eleito pelo voto popular desde 1964, langou o Sivam (Sistema de VigilAncia da Amaz6nia). Embora as fronteiras continuassem mansas e pacificas, apesar de um ou outro incident, previsivel num cendrio de floresta densa, fauna rica, indios, aventureiros e isolamento, o Conselho de Defesa Nacional foi convocado como se houvesse uma ameaga externa iminente. NMo uma, mas duas vezes (as duas 6nicas at6 agora), sempre corn a mesma pauta: a Amaz6nia insegura, cobi'ada por estrangeiros, violada por pirates, sempre na mira de satelites espi6es ou de agents disfarcados para cr mandados por nac6es imperialistas. E, agora, exposta a ser ponto de desembarque dos marines de Tio Sam. Um pano de fundo tAo carregado acabaria por estimular o govemo a tomar a iniciativa e o legislative a acata-la: o Sivam dispensaria a concorrencia piblica e a contratacao dos services se faria pela via dire- ta da tomada de precos, embora a conta de fechamento venha a bater em 1,4 bilhao de d6lares (R$ 3 bilhoes, ao cAmbio do dia, mais do que a soma da receita pr6pria annual de todos os Estados da regiao soma- dos). Nos bastidores comentava-se que havia um vencedor certo, o gru- po frances que implantou o sistema Dacta para control de trAfego a&- reo. Mas quem levou a prenda foi a americana Raytheon. Antes de comegar a implantacgo do projeto, que iria aprimorar o control sobre a circulacgo no espago aereo amaz6nico e monitorar praticamente todas as intervengces humans na regiao, o governor teve que limpar o Sivam da lama que Ihe respingou das escutas clandestinas e de suas conversas inc6modas, atribuindo manobras pouco recomen- ddveis para definir o vencedor. Mas o sistema, parte de uma entidade abrangente, o Sipam (Sistema de Protecao da Amaz6nia),, a despeito de alguma controversial em seu caminho, devera estar pronto no final do pr6ximo ano. Exatamente conforme o cronograma da largada, algo raro na lenta e impontual burocracia public. Para que os prazos fossem rigorosamente cumpridos, dinheiro nao faltou. Havia certas inibicges orcamentArias, mas elas foram vencidas com o uso, em larga media, de um produto que nao costuma ser abun- dante em Brasilia: a vontade de fazer. O Sivam comegou 2000 corn 13% do orgamento federal para a Amaz6nia. Terminou o exercicio aboca- nhando 44%. A rubrica pulara dos R$ 176 milhoes iniciais para R$ 731 milh6es executados, segundo levantamento realizado pelo Inesc (Insti- tuto de Estudos Socioecon6micos), uma ONG conceituada, corn base tambdm em Brasilia. A conclusAo 6bvia de tal informacAo 6 de que foi militarizada a a Ao da UniAo na maior, menos conhecida e (talvez por isso mesmo) mais valorizada regiao do pais. Porta-vozes do Sivam tentam atenuar a conclusao. Lembram que uma parte (nao dizem qual, mas 6 minoritd- ria) do dinheiro foi entregue as comunidades das .reas nas quais estAo sendo instaladas bases militares e de telecomunicag6es, que vAo apoiar os.n6cleos operacionais do sistema, tries nas maiores cida- des amaz6nicas (Bel6m, Manaus e Porto Velho) e o central em Brasi- lia, naturalmente. Argumentam ainda que esse percentual elevado de investimento de natureza military em 2000 deveu-se a ter coincidido corn o period de maiores investimentos na montagem do sistema. A mesma rubrica para o atual orgamento esti fixada em 9% dos R$ 2,7 bilhoes destinados a Amaz6nia. Resta esperar at6 o final do exercicio para verificar se a proporgAo vai ser coerente com o declinio do cronograma financeiro do program, ou se, como em 2000, algum motive relevant irA faze-lo crescer outra vez. Exponencialmente, quem sabe. Responslveis pelo Sivam gostam de ressaltar que o sistema cons- titui uma iniciativa de objetivos cientificos. Afinal, o monitoramento feito por suas equipes vai permitir ao govemo acompanhar os desmata- mentos, a poluicao dos rios, a evolugAo de atividades produtivas, as mudancas climiticas e outros fen6menos, naturals ou humans. Se ain- da nao 6 exatamente coisa consumada, tudo isso esta sendo prometido. O portof6lio apresentado nas exposig6es dos RP impression. No entanto, o comando do program 6 conduzido com mao forte pela Aeroniutica. Em seus laborat6rios foi que a id6ia nasceu. Os cientistas incorporados receberam uma tabua das leis pronta e acabada. Nao houve discussAo prdvia. O debate posterior tern servido para esclarecer questoes. Mas nao as engendrou. Nem as modificou. As instituicFes cientificas chamadas a emprestar sua colaboraqAo atu- am como caudatarias. Cumprem ordens. Ordens, na caserna, sAo dadas para ser cumpridas. No orcamento national de ciencia e tecnologia, a Amaz6nia ter direito a 2% do total destinado a todo o pais, embora corresponda a 44% do territ6rio brasileiro e encerre alguns dos maiores desafios ao conhecimento human, al6m da aplicacgo pratica, mais imediata. O Sivam corresponde, nos seus cinco anos de execugao, a 20 anos de orgamento amaz6nico de ciencia & tecnologia. E nio estard no fim em 2002, mesmo que isso esteja prometido nos folders. No mAximo, seri uma etapa para o moment seguinte, quando o funcionamento necessi- tar de novos instruments e ferramentas. E for verificado que para tal muitos passes ainda precisam ser dados. Bitolados por bolsas minguadas e verbas de pesquisa homeopiti- cas, os cientistas que acompanham A distAncia o Sivam invejam o que veem e nao tnm. Os que foram absorvidos pelo program tratam de ajustar-se a ele. Para completar a pintura do quadro, 6 ilustrativa uma compara- g~o. A General Dynamics construiu um missile que revolucionou a guerra area, o Side Winder, a partir de uma pesquisa bisica em herpetologia sobre a cascavel. Para reproduzir artificialmente o sensor infravermelho natural que existe no focinho da serpente, transformando-o no guia do missile, para faze-lo buscar o alvo seguindo o seu deslocamento de ca- lor, a empresa americana gastou quatro bilhoes de d6lares. Ou seja: quase tres vezes o privilegiado Sivam. Em mat6ria de ciencia para valer ou de geopolitico levada as ultimas conseqiiencias, o que o governor esta fazendo na Amaz6nia 6 impressionante para os parimetros interns, mas pifio num context mais amplo. O que ajuda a entender as possibilidades e as frustraOges no esforgo de integrar a imensa Amaz6nia ao necessitado Brasil. Man- tendo-a sob o pleno control national, contra as ameagas da cobiga international. Etemamente vigilante, que nem a UDN, partido no qual os politicos em farda se abrigaram at6 que os militares politicos puseram fim a Reptblica de 1946 e instauraram sua pr6pria ordem por duas d6ca- das. Na Amaz6nia, ainda em pleno vigor. A 2 -ABRIL/2001 -AGENDA AMAZONICA ALBRAS Agora, a n2 1 A Albras vai ter motives para comemorar em setembro. Ela entao se consolidard como a maior indistria de aluminio do continent, atingindo a capacidade de producgo de 410 mil toneladas de metal. A adig5o de 40 mil toneladas, atrav6s de um financiamento de 112 milhoes de reals do BNDES, colo- ca a Aluminio do Brasil S/A a frente da Alumar (Aluminio do Maranhao), sua concorrente mais pr6xima no mercado. A Al- bras, fruto de uma associagAo da Companhia Vale do Rio Doce com um cons6rcio japon&s, fica as proximidades de Bel6m, no Pard. A Alumar, na qual Shell e Billiton se associaram, funcio- na em Sao Luis do Maranhao. Juntas, as duas fibricas respon- dem atualmente por pouco mais de 700 mil toneladas de alu- minio primirio e 3% do consume de energia de todo o Brasil. No rec6m-divulgado relat6rio annual, a Albras exibe uma facanha: interrompeu a serie de 15 anos de prejuizos, marcan- tes nas suas contas desde o inicio de suas operates, em 1985. Substituiu o deficit de R$ 102 milh6es de 1999 por um lucro liquido de quase R$ 170 milh6es no ano passado. Conseguiu, assim, abater os prejuizos operacionais acumulados, de R$ 772 milhoes, para R$ 595 milhoes. Mas a Albris ainda integra o rol das empresas brasileiras de mais elevado endividamento, o dela de pouco mais de um bilhao de reais, metade dos quais vencerao entire 2003 e 2004, o period critic das amortizag6es. A empresa s6 conseguiu aliviar essa pressAo porque remodelou o perfil dos financia- mentos tomados no Japao, que suportou a implanta&go da sua primeira fase. A maior parte do d6bito 6 em moeda estrangeira. OJapao, o maior importador mundial, 6 tambem o maior comprador do aluminio produzido pela Albris, que Ihe garan- te 15% de todas as suas necessidades de metal. A empresa teve em 2000 um faturamento bruto equivalent a sua divida glo- bal, de R$ 1 bilhao, quase integralmente obtido atrav6s da exporta&go. A outra metade vai para a Europa. Os ativos da Albr-s estAo se aproximando dos R$ 2 bilh6es. Seu capital e de pouco mais de R$ 800 milh6es. Esses nimeros a colocam em primeiro lugar entire as empresas sediadas na Amaz6nia. JARI Nos bastidores Em 1982 o advogado Bulh6es Pedreira articulou a transferencia do control acionario do polemico Projeto Jari das mAos do miliondrio americano Daniel Ludwig para um cons6rcio formado as pressas por 23 empresas nacionais. Nenhum dos donos dessas corporac6es foi ver cor os pr6prios olhos o que estava adqui- rindo. Mas nenhum deles, a maioria empreiteiros de obras puiblicas, podia dizer um nao ao "convite" que lhes fez o entao ministry Delfim Neto (hoje deputado federal, do PPB de Sao Paulo) para entrar no lugar de Ludwig. Quase duas decadas depois, foi no escrit6rio do mesmo Bulh6es Pedreira, no Rio de Janeiro, no iltimo dia 15, que a CSN e a Companhia Vale do Rio Doce trocaram entire si dois cheques, no valor global de quase 4,4 bilh6es de reais, finalizando o descruzamento de suas participagdes aciondrias nas duas empresas. Foi uma operagao de engenharia juridica quase tao complex quanto a do Jari, embora, neste, nenhum dos controladores das 23 empresas admitidas na nova sociedade tivesse tirado na ocasiao um inico tostao do bolso. O govemo, respon- sAvel pelo arranjo criativo, que desentocou do texto da lei das sociedades an6ni- mas uma ferramenta pouco usada, as partiess do fundador", foi tamb6m quem bancou a conta de partida. A conta de chegada do acerto final do Jari, por6m, ainda esti a caminho. Desde o final de 1999 o complex agroindustrial esta sob a responsabilidade do grupo Orsa, do Parand, que tirou um inico real do bolso e assumiu mais de R$ 300 milhoes de dividas, assinando um compromisso de investimento plurianual para tentar revitalizar um empreendimento em vias de colapso. Que, para ser mantido em p6, ja fez evaporar o equivalent a 300 milhoes de d6lares (mais de R$ 600 milhoes) dos cofres do Banco do Brasil e do BNDES. Os dois bancos estatais quitaram as dividas externas deixadas por Ludwig no Jari, recebendo em troca agdes preferenciais, sem direito a voto, apenas cor preferencia no recebimento de dividends. Segundo previs6es otimistas, os divi- dendos, se um dia eles vierem a existir, s6 poderAo comegar a ser distribuidos quatro decadas depois do desembolso original. Em 20 anos de operaq~o, oJari - que produz principalmente celulose e caulim s6 teve lucro operacional em um inico exercicio. Assim, pelo important escrit6rio do advogado Bulhoes Pedreira passaram os destinos do mais polemico projeto da hist6ria recent da Amaz6nia, oJari do tycoon Ludwig, ji falecido, na 6poca tido como o home mais rico do planet, e a sorte da maior empresa da regiAo, a CVRD que, alias, nao tem sede na Amaz6nia. Coisa de brancos. ABRIL/2001 AGENDA AMAZNICA 3 LIVRO Desordem amaz6nica Batista Campos foi o mais ativo lider politico do period dos "motins politicos" no Para, entire 1821 e 1836. Percorreu masmorras por causa do que publicou nos primeiros jornais da provincia. Sua cabeca foi colocada na boca de um canhAo, pronto para disparar, com o morrAo aceso, quando a execugao foi mila- grosamente suspense. Escapou de atentados e espancamentos. Mas acabaria morrendo prosaicamente: um corte de navalha numa espinha carnal, quando fazia a barba, gangrenou. Fugindo pela mata a perseguicgo determinada pelo governador-geral, nao teve atendimento adequado. Morreu uma semana antes de estourar a Cabanagem, em 31 de dezembro de 1834. Deixou de colher o que havia plantado ao long de 13 anos. No olho do furacAo quem ficou foi um cearense de 21 anos, que havia chegado ao Park apenas oito anos antes, fugin- do de mais uma seca inclemente no agreste nordestino. Eduar- do era tdo valente, com sua coragem demonstrada no sangrento levante do comerciante portugues Jales, em 1833, que deixou de ser conhecido pelo sobrenome, Nogueira. Passou a ser Eduar- do Angelim, madeira rija da Amaz6nia, pau de dar em doido, como se diria depois. Antes de abandonar Bel6m, onde os revoltosos ji nao mais se podiam manter, por causa do rigoroso cerco das tropas do governor imperial, chamou o bispo, dom Romualdo. Entregou- Ihe mais de 95 contos de r6is, dinheiro do tesouro, para repas- sar ao marechal Soares de Andr6a, quando ele ocupasse a cida- de. O tiranico Andr6a recebeu o dinheiro. Outros 16 contos, que Angelim deixou com um outro religioso, que eram seus, foram confiscados. Grandes personagens, esses. Mas eles entram e saem ilesos de Desordem (Editora Record, Rio de Janeiro, 252 pdginas, R$ 25), o segundo romance da tetratologia concebida por Mircio Souza para retratar ficcionalmente esse period decisive da his- t6ria da Amaz6nia, um dos mais maltratados da hist6ria brasileira. O segundo livro 6 um pouco melhor do que Lealdade, o volume inaugural da s6rie, tamb6m relancado pela Record, que promete bancar os dois volumes que ainda faltam para completar o ciclo (Revolta e Derrota). Mas estd bem abaixo dos melhores moments do escritor amazonense, cada vez mais distantes. E 6 um pdlido reflexo literario dos acontecimentos e da gente do GrAo-Pard na decisive primeira metade do s6culo XIX. Como fez questAo de assinalar, Marcio Souza comecou a escrever Desordem em Manaus, no dia 2 de fevereiro de 1998, e o concluiu "no Delmonico Hotel, New York, no dia 26 de marco de 2000". Dispos, portanto, de mais de dois anos para realizar a obra. Mas ela da a impressao de texto apressado, sem uma pes- quisa documental correspondent a importancia e complexidade do tema e sem uma revisao a altura do conceito do autor. Revisao bem feita teria impedido que a um period termi- nado corn "final" sucedesse outra oracao, iniciada com "Final- mente", por exemplo, sem aliteracao, nem eufonia. Ou uma lin- guagem de dramalhao mexicano para descrever o estado de es- pirito de Anne-Marie Presle de Senna: "um vazio terrivel abria- se em meu peito como uma cratera e a realidade da perda me esbofeteava a cara". Pura dramaturgia SBT. Mas isso, para quem 1I Marcio Souza de hi muito, embora cor decrescente prazer nos trabalhos mais recentes, 6 o que menos conta. Ele nao 6 propriamente um mestre da lingua. O que impression 6 ve-lo colocar na boca de Batista Campos, um "filho da floresta", ciente de que "a selva tudo di", a observag o: "Em outubro as aguas iam baixando rapidamente e os rios come- cavam a secar nas suas cabeceiras". Em Bel6m, Barcarena ou no Acard, Batista Campos jamais poderia ver esse fen6meno em outubro, quando as aguas, ap6s o auge da vazante, ja estAo comegando movimento exatamente in- verso, do inicio da cheia, que ira durar um semestre. Transportado para Roraima pelas asas da imaginacAo, que tudo podem, 6 verda- de, mas nem tudo devem poder, Batista Campos talvez tivesse alguma credibilidade como personagem dizendo essas coisas. Confiando na sua boa mem6ria e no seu invejjvel conheci- mento, o director da Funarte se permit antecipar em 50 anos ou um s6culo inteiro a hist6ria da borracha na Amazonia. No seu romance, a Bel6m dos setecentos ja desabrocha como "uma floor branca de seringueira". No s6culo XVIII, "nos tempos do Marqu- es" (de Pombal), a borracha in natural ji dava "lucros fabulosos". Uma cultural tao afluente que o seringal no qual Eduardo Angelim trabalhara, o Nova Jerusal6m, foi bastante lucrative en- tre 1790 e 1820, "com suas manufaturas exportando um grande n6mero de produtos para diversos pauses". "No auge de sua pro- ducAo, nos idos de 1800, o seringal chegava a ter quase 50 se- ringueiros cortando a seringa, produzindo em cada safra quase 30 toneladas em p6las, que eram transformadas em chap6us, im- permerveis, instruments cirnrgicos, por uns 20 trabalhadores". E nobre a inteng~o do autor: mostrar que a cultural da borracha comerou mais cedo e teve importancia na Amaz6nia mesmo antes que a revolugao industrial Ihe desse utilizaqco massive, como fornecedora de pneumiticos para a ind6stria automobilistica, ji na passage para o s6culo seguinte. Talvez no afA de impressionar desatentos leitores, entretanto, Mircio exagerou na mao. Sua fantasia se desconectou de sua indispen- sdvel funAo pedag6gica. Em 1830, a Inglaterra, maior importadora da borracha ama- z6nica, comprou apenas 211 quilos. Quase 30 anos depois o salto ji era notavel, mas ainda se limitava a 10 toneladas. S6 em 1874, cor a aplicacgo da borracha aos fios telegraficos, 6 que sua aqui- sicao se aproximou de 60 toneladas, apenas o dobro do que ja obtinha o seringal Nova Jerusal6m seis d6cadas antes. E certo que os volumes se referem a borracha bruta. O Para ji ia se desenvolvendo nos artefatos a base Jo leite da seringuei- ra, a Arvore que chora (segundo o belo titulo que Vicki Baum deu ao seu excelente romance, escrito sem um conhecimento vivencial, como o do amazonense Marcio Souza, por6m muito mais pesquisado e bem finalizado). No entanto, o registro sobre 450 mil pares de sapatos vendidos refere-se ao ano de 1839, p6s-Cabanagem. Essa industria artesanal se sustentava na proximidade entire a fonte de suprimento e o local do beneficiamento. Os seringais estavam em torno de Bel6m, uma situacgo inimaginivel aos olhos do belenense de hoje, mas que pode-se reconstituir atrav6s dos vivissimos relates dos naturalistas Spix & Martius, em sua fasci- nante Viagem ao Brasil. 4 ABRIL/2001 -AGENDA AMAZONICA O incremento das importag6es de mat6ria bruta, fen6meno da segunda metade do s6culo XIX (e nao da era pombalina), quando a designagao da arvore como hevea brasiliensis se conso- lida (facilitando identificagAo, coleta e processamento) e esp6ci- mes completes sao levados para a Europa (nao como contraban- do, mas corn autorizaclo do governor brasileiro), acabariam corn o incremento desse parque manufatureiro, confirmando em mais esse caso a trag6dia derivada do descompasso entire a frente eco- n6mica e a fronteira do conhecimento. A assimetria hist6rica de A Desordem da a incipiente cultural da seringa o status de safra agricola regular bem antes de come- Car o s6culo XIX, quando seringueiras estavam sendo replantadas para substituir "as drvores cansadas, doentes e mortas, como vi- nha sendo ha muitas d6cadas", contadas pela principal persona- gem do livro, uma especie de Vov6 Zulmira (de Stanislaw Ponte Preta) avant la lettre, tais as aventuras, ventures e desventuras de sua biografia, a despeito disso eliptica, entire a Guiana, o Pard e a Franca. Seria tal o plantio e replantio "que s6 se continuava a chamar os seringais de toda a bacia de silvestres por uma questdo meramente de costume", embora Bel6m fosse o v6rtice do centro de produgAo em torno de si e "toda a bacia" fosse ainda uma inc6gnita. O descompromisso corn a cronologia hist6rica, talvez sustentada num habeas cor- pus preventive conferin- do arbitrariedade A cria- gao, permit ao ex-dire- tor da Biblioteca Naci- Sonal declarar que Eduardo Angelim vi- via em seringal "desde ,que se entendia por gente". Tal declaramo equi- vale a um atestado de Sretardamento mental ao maior dos perso- nagens da Cabana- gem, notivel exata- mente por sua pre- cocidade. Afinal, at6 Sos 13 anos ele vivia era em Aracati, no Ce- ari, de onde sua fami- lia foi tocada pela seca para o Pard em 1827. NAo foi portanto, aos sete anos que ele fez essa mi- grag o, como estd dito no romance, que claudica tanto numa face, a de his- t6ria de 6poca, quanto na outra, a de literature. Nem 6 um born romance em si, en- quanto obra r, literiria, com construwo de personagens, descricgo de paisagens, tessitura de trama. Nem como um guia para penetrar numa 6poca tao rica como a da transicgo entire o pais portugus e o pais brasileiro, na qual uma regiAo comegou a ser descarnada de sua identidade e transforma- da num hinterland dos centros hegem6nicos, national e interna- cional, assumindo a feigAo do colonizador, entronizando em si cabeca alheia, no velho e sempre trdgico mimetismo. A Desordem, como muitos outros romances de uma vertente ji exaustivamente explorada, ter sua origem num manuscrito encontrado muitos anos depois de ter sido escrito. Mais do que um didrio da muy original francesa Anne-Marie, seria um roman- ce embrionArio, a espera de autor para Ihe dar forma definitive. Pelas maos da organizadora do volume, Terezinha Chermont de Miranda, o verdadeiro criador de tudo se acautela contra os pre- visiveis critics de suas varias linhas cruzadas de criacgo, com meta-ficgdo, meta-discurso e meta-merchandising (sem falar nas meta-setas envenenadas, de veneno ji aquoso e seta empenada pela falta de destreza do arqueiro imagindrio). Assim, ele desdenha das restricGes dos "lingiiistas do NAEA", para os quais "a tradugao de um texto frances de meados do seculo XIX para o vernaculo atual descaracterizaria sua essencia sintdtica. E qualquer tentative de mimetizar um sabor sintdtico do s6culo XIX no vernaculo atual nao passaria de contrafacgo". A critical, admite Marcio, 6 "pertinaz, mas muito rigorosa". Ele pre- feriu dar ao leitor comum a possibilidade de chegar ao texto da personagem "e ter uma leitura sem ruidos, sem vocdbulos caidos em desuso ou referencias enigmAticas que o passado apagou". MArcio criou um falso problema, ja tantas vezes resolvido pela literature. Que ruido causaria ao ouvido hodierno ler 16guas como media de area, ao inves de hectare, expressao inexistente na fraseologia da 6poca? Mesmo uma francesa, anotaria em seu future romance haver classes m6dias na Belem daquele seu tempo? Quem quiser conhecer intimamente a gloriosa Franca, que chegou a grande revolucgo em 1789, e a Paris que serviu-lhe de 6tero, estara muito bem servido pelos romances de Alexandre Dumas. Seus livros sao uma experiencia marcante para o resto da vida, com suas minudentes descrig6es do mundo da nobreza e do mundo da rald, cada um a sua pr6pria moda, em seu context especifico. Mais do que por um tratado, manual ou qualquer ou- tra reconstrucqo intellectual. Nao 6 precise, contudo, retornar a tanto nem a tao long. Haroldo MaranhAo resolve todos os impasses nos quais Marcio Souza viu-se dividido, recompondo um passado posto em desuso (mas nunca apagado, 6 claro) para o entendimento dos seus lei- tores contemporAneos, sem desmerecer estes nem transformar aqueles em caricature. Se 6 simplesmente para dar a forma de narrative ao texto seminal do BarAo de Guajard, transformando seu relato linear numa sucessdo de epis6dios e didlogos, entAo Carlos Arruda nada fica a dever a Marcio Souza. O prego do falso problema, que deriva da nao assimilaglo do conhecimento hist6rico e da forja criativa de fogo baixo do autor, 6 nao ser capaz de reter os personagens, series que sur- gem e se evaporam no curso de A Desordem como perfume bara- to, neste caso nao por sua essencia bruta, que 6 marcante, mas pelo mau fixador que Ihe foi aplicado. Ainda assim, o dindi Marcio Souza, hoje um parvenu cario- ca-novaiorquino, nao conseguird destruir a obra definitive que o amazonense Marcio Souza assegurou para a posteridade, quando escrevia cor uma inteligencia afiada. E com uma alma viva. ABRIL/2001 -AGENDA AMAZONICA- 5 LINCHAMENTOS Um Brasil violent 0 Brasil pode estar entire os pauses onde ha mais linchamentos no mundo, superando os Estados Unidos, que vinham ocupando a primeira posigao nesse tipo de viol6ncia coletiva desde o seculo 18, quando surgiu a propria expressao linchamento, desconhecida at6 enteo. cuu6es sao realizadas com alegada motivagao cidada, de autopreservagao, cor o objetivo de restabelecer a ordem e a normalidade social, rompidas por pessoas agressivas. Estas sao algumas das conclusoes a que chegou o soci6logoJos6 de Souza Martins, ap6s 20 anos de pesquisas, no Brasil e no exterior, sobre linchamentos. Resultados parciais desse levantamento ja foram publicados se- paradamente. A integra da pesquisa, que ter carAter pioneiro, s6 apa- recerd em livro no final do pr6ximo ano. Ela se insere num vasto mosaico que Martins vem tecendo cor seus estudos sobre o meio rural, os pobres, a violencia e a fronteira, abordados em 19 livros (o iltimo dos quais, Reforma agrdria, o impossivel didlogo, que tem in- comodado sobretudo certas alas da esquerda). Aos 62 anos, conside- rado um dos mais importantes soci6logos em atividade no Brasil, corn honrarias como ocupar a citedra Sim6n Bolivar da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e ser fellow em Oxford, ele acumula uma intense produgao intellectual com uma decidida militAncia political e cidada, como diz. HA cinco anos, por designagco do secretArio-geral da ONU, inte- gra aJunta de Curadores do Fundo Voluntdrio das NagOes Uniclas contra as Formas Contemporaneas de EscravidAo, que funciona em Genebra, com cinco integrantes. A junta estima que hi 200 milhOes de escravos espalhados pelos cinco continents, sob diferentes formas de sujeigAo. A tendencia 6 de incremento na Europa, onde agem em escala crescente as mffias de traficantes de pessoas, levadas da Asia e da Africa, ou mesmo do leste europeu. Viajando pelo mundo para participar de atividades academicas ou fazer pesquisas, Martins me deu uma longa entrevista, na qual fala de um Brasil que 6, ao mesmo tempo, modemo e arcaico, poderoso e miserAvel.A integra foi reproduzido no site da Agencia Estado, de O Estado de S. Paulo. Aqui, reproduzo as parties que podem interessar mais diretamen- te ao leitor amaz6nico. Em que consiste sua pesquisa sobre linchamentos no Brasil? A pesquisa sobre linchamentos no Brasil vem sendo feita ha cerca de 20 anos. No inicio consistiu num levantamento explorat6rio de in- formacges sobre o tema e na criagdo de um prot6tipo de banco de dados. Durante anos fiz registros diArios das ocorrencias numa ficha computacional dinfmica que ia sendo modificada e adaptada a media que novos aspects dessa modalidade de violencia apareciam nos casos arrolados. Simultaneamente, aproveitando minhas viagens de trabalho ao exterior, procurei reservar uma parte do tempo para levantar material bibliogrifico a respeito do assunto. 0 estudo de linchamentos ter sempre como base a informacao documental, uma vez que nao ha possibilidade social nerm a disposicgo 6tica para que o pesquisador faca a observagAo direta. O linchamento tende a ser uma explosAo suibita de violencia contra uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas. Fiz, alias, vArias tentativas de estudar a previsibilidade dessas ocorrencias com base em dados que indicavam a constituigto de cendrios de linchamento. Nenhuma das previs6es se confimnou. Mesmo que se confirmassem, a inica alternative 6tica para o pesquisador seria a de atuar no sentido de evitar que o linchamento ocorresse. O pesquisador se toma, por isso, muito dependent de uma fonte de informagSo que muitas pessoas consideram irrelevant e incon- sistente: o noticiario dos jornais. Rigorosamente falando, nao existe o crime de linchamento. No C6digo Penal hi apenas a sugestAo do crime coletivo, justamente para consider5-lo atenuante em casos de homicidio ou tentative. Essa e, justamente, a classificacAo que aparece na documentacAo official. Por- tanto, o pesquisador nao ter como saber se determinado crime consti- tui ou nao um caso de linchamento. O journal ter a vantagem de que os jornalistas encarregados do noticirrio policial disp6em de um vocabulirio pr6prio e de uma classi- ficaao dos delitos referida A presumfvel expectativa dos leitores quan- to a necessidade de diferengar os crimes e dar-lhes os nomes mais reve- ladores de seu presumivel impact emotional. O banco de dados ji foi fechado e cont6m informaoges sobre dois mil linchamentos e tentativas de linchamento no conjunto do period. E se os dados nao permitem, em principio, concluir que os linchamentos brasileiros tme motivagio racial, consegui, no entanto, estabelecer indicadores de intensidade da violencia nas diferentes modalidades de linchamentos, indice de mortalidade, durabilidade do 6dio, dentre outros. Comparando esses dados, fica claro que os linchamentos se con- sumam de modo fatal em maior proporglo quando a vitima 6 negra do que quando 6 branca. A indicagAo 6, portanto, de que embora o racis- mo nao seja necessariamente a motivacqo primAria de muitos atos de linchar, ele estA fortemente present no modo de execugao da vitima e na maior facilidade cor que um negro 6 linchado em compara~go cor um branco sob o mesmo risco. Como chegou ao tema? Quando iniciei a pesquisa sobre os conflitos fundidrios, especi- almente na Amaz6nia, em 1977, eu estava interessado no estudo dos movimentos sociais. De fato, era esse o tema do projeto de pesquisa. Iniciei, simultaneamente, pesquisas explorat6ria, sobre o conflito fun- di&rio, sobre os linchamentos, sobre os quebra-quebra, sobre os sa- ques. A pesquisa sobre os movimentos sociais no campo era a mais vidvel e a mais interessante do ponto de vista cientifico porque reve- lava aspects novos na conflitividade social das populac6es rurais e o aparecimento do que chamei, num de meus trabalhos, de novos sujei- tos do process hist6rico. Em pouco tempo, por6m, me vi em face de uma realidade que ia sendo rapidamente absorvida por conflitos propriamente politicos e, ja hoje, partidfrios. Ficava muito dificil fazer interpretagoes sociol6gicas consistentes em cima de dados que estavam cada vez mais "contamina- dos" por outras dimensoes da realidade que nao estritamente os especi- ficos movimentos ditos camponeses. 6 ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA Eu precisava de um referencial comparative "mais autentico" para compreender certos aspects dos movimentos sociais das classes subal- ternas que apareciam idilizados e escamoteados por mediac6es estra- nhas aos fatos em si. Escolhi os linchamentos porque eles ainda dizem respeito, na hist6ria da teoria dos movimentos sociais, ao chamado comportamento coletivo. Formas precursoras e primitivas dos movimentos sociais, que tnm uma dimensAo poderosa de critical social, mas nao tern nenhuma carac- teristica formal de movimento social, sobretudo porque nao propoem um projeto social explicit. Eles contim, sem d6vida, uma critical soci- al, sobretudo a justiqa formal e institutional, mas essa critical nao se desdobra numa proposta de mudanca. Creio que acertei nessa opqAo, ja que estou interessado em traba- lhar numa contribuicqo te6rica ao conhecimento dos movimentos soci- ais enquanto manifestagdes conscientes ou nao de tensoes sociais e anomia social e formas espontaneas e, sobretudo, populares de identi- ficagdo dos fatores de desagregacgo da sociedade e de rearranjo das relac6es sociais. Quais os principals resultados obtidos at0 agora? O Brasil esti, provavelmente, entire os pauses que mais lincham no mundo, hoje muito mais do que os Estados Unidos. Em nosso caso, a motivag o basica 6 de natureza autodefensiva e, de certo modo, por incrivel que pareqa, motivag o cidadA. Na maioria dos casos, os lincha- dores sao pessoas preocupadas cor o restabelecimento da ordem e da normalidade social onde ela foi rompida pela aqo de algum de seus membros. Uma proporqAo muito significativa dos nossos linchamentos 6 praticada por grupos comunitarios, agents de formas primarias de solidariedade social. Isso, porem, nao exclui evidencias de linchamentos praticados por grupos numerosos de an6nimos que agem segundo a concepcgo de multidao de Le Bon, como se fosse um corpo especifico cor uma personalidade especifica, uma momentanea "possessao" do social. Isto 6, um grupo que age em estado de "loucura" sibita e temporaria. Ha claramente, em nossos linchamentos, a proclamaqAo de uma necessidade conser- vadora de ordem. Esse tema ter afinidade corn alguns que o sr. pesquisou anteriormente, como o trabalho escravo e a violencia no campo? O sr. estA escrevendo uma hist6ria subter- ranea do Brasil? Como disse, o tema esta estreitamen- - te ligado a varios t6picos de um projeto de , estudo abrangente sobre os movimentos i'. sociais, especialmente os movimentos po- . pulares. De certo modo, tern relaqgo tam- "... , bem com o tema do trabalho escravo, uma vez que, numa perspective ampla, minhas indagac6es sociol6gicas se ap6iam em si- tuag6es de anomia e nas mais an6malas ex- press6es do que se poderia definir como a crise estrutural da sociedade brasileira, o eixo oculto em que de fato ela se move. Certamente, nao estou escrevendo uma hist6ria subterrInea do Brasil, mas faco pesquisa na pressuposicAo clissica de que no subterraneo da sociedade estio elemen- tos constitutivos desta dupla e contradit6- ria orientag~o de uma sociedade como a nossa: de um lado, no sentido da ordem; de outro no sentido das transformag6es sociais. t nesse de- sencontro que estao os fundamentos de uma consciencia socialmente critical neste pais. E portanto, os referenciais mais densos e ricos para sua compreensao sociol6gica. Formas primitivas de exploracio e, de uma maneira geral, na relacao humana, subsistem em todo o pais ou estio confi- nadas atualmente a frentes pioneiras, como na Amaz6nia? Infelizmente, formas primitivas de exploragao do trabalho huma- no vem lentamente se difundindo por todo o pais a partir de ocorrenci- as mais sistemiticas e intensas na regiAo amaz6nica, nos anos70 e 80. Isso esta acontecendo nao s6 no Brasil, mas no mundo todo, incluindo Europa, Estados Unidos e a China Comunista. Por designagCo do Secre- tArio Geral da ONU, estou ha cinco anos no grupo de cinco membros da Junta de Curadores do Fundo Voluntario das Nag6es Unidas contra as Formas Contemporaneas de Escravidao, que funciona em Genebra. Esta- mos trabalhando cor a hip6tese de 200 milh6es de escravos no mundo atual, sob diferentes formas de sujeigco. Nos iltimos anos, casos cada vez mais numerosos comegaram a aparecer na Europa em conseqiiOncia da agPo das mifias de traficantes de pessoas que para ali as levam da Asia e da Africa e, mesmo, da Europa do leste. No Brasil, a tendencia nao 6 linearmente crescente, especial- mente no campo. Por duas raz6es: de um lado, pela reducgo na intensidade de expansao da fronteira econ6mica e, portanto, do desmatamento, atividade em que a peonagem, ou escravidao por divida, 6 a forma dominant de utilizagao da forca de trabalho. De outro lado, porque logo no inicio do atual governor foi criado o GERTRAF (Grupo Executivo de Repressio ao Trabalho Forgado), que atua atraves dos grupos m6veis de fiscalizaqgo, por meio de forgas tarefas que juntam desde o Minist&rio do Trabalho at6 a Policia Federal. Esses grupos ter sido exemplares na dedicagao ao seu de- ver e, apesar de dificuldades materials, tem contribuido poderosa- mente para reduzir o n6mero das ocorrencias. 0 Brasil 6 um pais socialmente arcaico? O Brasil 6, sobretudo, um pais con- tradit6rio de um modo particular. Aqui, o arcaico nao s6 sobrevive, mas se renova cor as energies da modernizagdo e da transformagAo social. A transiqao political, que tem como uma de suas consignas a Sr reform do Estado e a modemizacao poli- '. tica do pais, s6 pode ser feita mediante u umr pacto corn as forcas da tradigio e das oligarquias e cor sua anuencia. O MST, que ter como um de seus objetivos o socialismo, 6 encarado por suas bases mais populares de modo clientelista, como acontecia cor as Ligas Camponesas. A principal forga de apoio a uma transfor- magio revolucionaria da sociedade brasi- leira 6, hoje, a Igreja Cat6lica, que sempre foi considerada uma instituiqio basica do conservadorismo social e politico. Tenho sido um estudioso e pesqui- sador desses arcaismos persistentes e "mo- b demizados", das contradigdes que eles re- 0- ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA 7 presentam, e tenho constatado que eles nao s6 sao responsaveis por nossa hist6ria lenta, como tamb6m sao um dos elements referenciais de nossas possibilidades de mudanga. Aquele lema positivista na ban- deira national, "Ordem e Progresso", o progress na ordem, parece indi- car uma I6cida consciencia social e political da geracgo que implantou a repdblica: essa geracgo sabia quem somos. Em suas viagens ao exterior, o sr. tem procurado tra- balhar em arquivos e bibliotecas temas brasileiros. Pode- ria fazer um inventarios das mais importantes fontes para a hist6ria national? Tenho trabalhado sobretudo com os materials te6ricos disponi- veis em boas e grandes bibliotecas na Europa e nos Estados Unidos e nao necessariamente com materials especificos sobre o Brasil. Por isso, apenas em proporgao bem menor tenho desenvolvido parte de minhas pesquisas empiricas em arquivos e bibliotecas estrangeiros. Um tema com que tenho trabalhado e sobre o qual escrevi diversos livros e arti- gos 6 o da imigragFo europdia na formagao da forca de trabalho na agriculture brasileira quando se p6s o problema do fim da escravidao e da crise do trabalho escravo. Nesse caso, ha excelentes arquivos na Italia e na Inglaterra. E certamente em outros pauses. Na Itilia, n5o s6 os arquivos paroquiais das aldeias e pequenas localidades, mas os arquivos das congregagoes religiosas e o pr6prio Arquivo do Ministerio degliAffari Esteri, para o qual se precisa de uma permissAo official negociada atrav6s do embaixador do Brasil em Roma junto ao ministry respective. Nesse arquivo, A margem do que me inte- ressava especificamente, encontrei cartas dos embaixadores descreven- do minuciosamente, os parts da Princesa Isabel. A herdeira do trono era obrigada a ter seus filhos diante de testemunhas, para evitar que fossem trocados por criangas sem direito legitimo a sucessao. Numa ante-sala, al6m de outras testemunhas, os embaixadores acompanhavam "ao vivo" o nascimento de cada crianga da Princesa. As cartas, sao maravilhosos e completes relates sobre tudo que envolvia o epis6dio, desde a situagAo climatica naquele dia ate os detalhes m6dicos e sani- tarios da ocorrencia. De certo modo, a tagarelice diplomatic na ante- sala esti registrada nessa documentag5o. No Arquivo do Museu Maritimo, em Londres, hi documents que registram minuciosamente os deslocamentos dos navios segurados pela empresa Lloyds desde o s6culo XVIII. A pr6pria navegagco do rio Ama- zonas no s&culo XIX, sobretudo no apogeu da borracha, esti documen- tada, gracas especialmente ao tel6grafo submarine. Os comandantes dos navios enviavam periodicamente mensagens sobre as condig6es de navegagao e os riscos eventuais no trajeto de cada viagem de sua embar- caA:o. Cada navio tem all registrada a sua complete "biografia", desde a fabricaiao e o langamento ao mar, at6 o seu naufrgio ou sucateamento. Nas congregag6es religiosas, hi preciosos documents, como car- tas, fotografias e didrios relatives a emigragao para o Brasil e aos n6cle- os de imigrantes. Nem sempre, por6m, esses documents estao disponi- veis sem dificuldades para os pesquisadores leigos. Quais pesquisas podem ser desenvolvidas a partir do material existente nessas instituices estrangeiras? A economic e a imigragao, em especial, sao temas que ficariam enriquecidos com esse material, al6m, evidentemente, da hist6ria das mentalidades, atraves do que pensavam sobre o pais os missionaries e os navegadores. Tamb6m a questdo da escravidao no Brasil no seculo XIX pode ser tratada complementarmente atrav6s desses documents. A Antislavery, de Londres, que existe desde as primeiras decadas do s6cu- lo XIX, e envolveu-se na luta contra o cativeiro em nosso pafs, tern documents que nos interessam. Tem cartas de Joaquim Nabuco, que foi embaixador do Brasil na Inglaterra e dela participou como ativista. Incluo, tamb6m, a hist6ria da classes operiria. Ha uma boa documentagao no Instituto de Hist6ria Social, em Amsterdam, que visited. E uma instituig5o com 6timas condig6es de acolhimento de pesquisadores. Ha tamb6m o Arquivo Hist6rico do Mo- vimento Operdrio, da Editora Feltrinelli, em Milao, onde ha documen- tos sobretudo a respeito do Partido Comunista Brasileiro, um arquivo, alias, bem conhecido dos pesquisadores brasileiros. 0 que diferencia pesquisar em fontes estrangeiras, com- parativamente a fontes identicas brasileiras? As bibliotecas universitarias, certamente, no geral, sao mais ricas, modernas e acessiveis do que as nossas. Em vdrias bibliotecas em que estive na Franga, na Inglaterra, na Holanda, na Italia e nos Estados Uni- dos, o pesquisador tem acesso direto as estantes, o que poupa um tempo enorme. Mas, aqui tamb6m ha facilidades e dificuldades equivalentes. O nosso maior problema 6 que nossas bibliotecas padecem de uma indigencia cr6nica. Na area de ciencias humans, no conjunto do pais, sao raras as revistas cientificas relevantes de que dispomos de colleges completes. E comum que duma colegco tenha sido interrom- pida ou interrompida durante alguns anos nao s6 porque faltou dinheiro, mas at6 porque docentes universitarios momentaneamente encarregados de fazer a relagdo das revistas a terem sua assinatura renovada decidiram cancelar algumas para beneficiary outras de seu especifico interesse. Praticamente, nao hi condic6es de que um pesquisador brasileiro dessa area se dedique a um tema emergente ou proponha um tema novo unicamente porque ele nao tem acesso as colleges apropriadas e com- pletas de publicaqges cientificas. As melhores bibliotecas estao sucate- adas e custaria uma verdadeira fortune completar coleoges e dispor dos materials indispensaveis. Justamente a pesquisa sobre linchamentos exemplifica essa difi- culdade. Encontrei no Brasil menos de 20% dos materials bibliogrificos indispensaveis. Com o que dispomos aqui 6 praticamente impossivel planejar e executar uma pesquisa cientifica minimamente seria. Ela ji nasceria obsoleta. O pesquisador que nao quiser sucumbir deve encon- trar um meio de se deslocar para pauses que tenham bibliotecas boas e integras, sobretudo com excelentes colleges de revistas cientificas, lo- calizar e reproduzir o material para desenvolver aqui o seu trabalho. Acho, por6m, particularmente tenebrosa a dificuldade de um nao morador do Rio de Janeiro para ter acesso facil as colleges da Bibliote- ca Nacional. Aquilo 6 claramente um resquicio de colonialismo. Sugeri ao ministry da Cultura, meu colega Francisco Weffort, que proclamasse a independencia dessa biblioteca que nos foi legada por Dom Joao VI, criando bibliotecas nacionais em varios pontos do Brasil. Este 6 um pais continental e nao tern o menor cabimento que a Biblioteca Nacio- nal seja ainda, de fato, uma biblioteca de col6nia. Minha proposta era que bibliotecas nacionais fossem criadas nos campi universitarios mais importantes de diferentes Estados, aglutinan- do bibliotecas existentes e mal conservadas e fazendo delas bibliotecas de referencia, corn edificios e dotaoges especiais. E inadmissivel que para um pesquisador do Pard seja mais barato e facil utilizar a bibliote- ca da Universidade da Fl6rida, em Gainesville, nos Estados Unidos, do que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O ministry prometeu estudar a proposta, pela qual se interessou. Um ano mais tarde nos encontramos e ele, desanimado, me informou que houve resistencias dos pr6prios funcionarios. Dificuldades nao menores sao encontradas no Arquivo Nacional. A 8 ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA UNIVERSIDADE O carimbo cientifico O Minist6rio dos Transportes contratou sem licita~io p~blica a Fadesp (Fundag~o de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa, da Uni- versidade Federal do Pari) para fazer o Eia-Rima (Estudo de Impacto Ambiental-Relat6rio de Impacto Ambiental) da hidrovia Araguaia-To- cantins, que vai ligar o Centro-Oeste ao litoral Norte. O trabalho foi tio ruim que a justiga federal, al6m de suspender o uso da hidrovia, acolhendo ages de ONGs nesse sentido, durante virios meses proi- biu que um novo estudo fosse realizado. O embargo foi suspense no final do mns passado. Boa parte do Eia-Rima da Fadesp nio era mais do que compilag~o bibliografica. Houve pouca ou nenhuma verificagbo de campo. Nos raros casos de pesquisa in loco, a mais polemica delas foi na area antro- pol6gica: os pesquisadores acusaram os coordenadores do trabalho de censurar os trechos critics de seus pareceres. Neles, recomendavam virias providencias para prevenir o impact da navegaiAo nos trechos em territ6rio indigena e advertiam para riscos que ela representava para as comunidades estabelecidas ao long do rio. Um inqudrito policial instaurado pelo Ministerio P6blico federal esti apurando a hist6ria. Para fazer o projeto da hidrovia desempacar, o Ministdrio dos Transportes ja anunciou que contratard um novo Eia-Rima. Enquanto isso, outro braco do govemo, a Eletronorte, recomega a hist6ria por um novo capitulo: dispensando licitag~o, contratou a mes- ma Fadesp para fazer o Eia-Rima da hidrel6trica de Belo Monte, no rio Xingu, que deveri ser a maior usina de energia inteiramente national, de tamanho aproximado ao de Itaipu, com 11 milh6es de kw e custo de R$ 13 bilhbes. Desta vez, contando com os R$ 3,8 milh6es do convenio, a funda- cao universitaria contratou mais gente e esti mandando equipes para o local. Pro- mete nio repetir o vexame. Mesmo que consiga se reabilitar, do que os analistas mais bem informa- dos duvidam, essa hist6ria suscita ques- toes e da lig6es. Uma delas 6 sobre o aspect legal. Mesmo estando ligadas a universidades pdblicas, as fundacges de pesquisa sao entidades de direito priva- do. Qual o fundamento juridico e a legi- timidade social de contrati-las sem sub- meter a tarefa a uma concorrencia pdbli- ca? Mesmo quando tal procedimento fos- se dispensivel, ainda seria de bom prin-\ cipio fazer circular uma carta-convite pelo circuit academic, atraindo os in- teressados e fomentando o embate de , competencias. A explicaglo official para o proce- dimento desviado da melhor norma admi- - nistrativa 6 o apoio a instituigOes locais, fazendo-as desenvolver-se. Para a Fadesp e a Universidade Federal do Pari, viven- do na peniria de verbas do MEC, os R$ 3,8 chegaram como um mand dos c6us. Alm de responder por itens do custeio da UFPA, permitiram que professors e pesquisadoras refizessem suas equipes, colocassem estu- dantes para trabalhar e pudessem dar um fecho em teses de doutoramen- to que estavam encalhadas. Esta 6 a banda boa da magi. A banda podre: presa pelo dinheiro escasso do convenio a uma dependencia muito grande dos recursos do contratante, a Universidade fica praticamente sem poder de critical, sem independencia, sem autonomia. Quando aceita, por delegagio direta, fazer o Eia-Rima, estd automaticamente se desobrigando de uma missAo essencial: examiner se a obra 6 ou nao necessiria, se deve ou nio ser realizada. O estudo passa a ser feito para buscar "agces mitigadoras" e "in- serg~o regional", conforme o jargio do meio. Mas nio parte do que deveria ser a primeira das premissas: p6r em questio a validade da obra, ela em si, pelo valor intrinseco. Feita essa primeira e fundamental re- nmncia, as seguintes, no andamento da pesquisa, na discussao do do- cumento final e nas audiencias piblicas, sdo decorrentes. Da coonesta- cgo pelo contrato result a legitimagao do trabalho, independentemen- te do resultado. A contratada segue um silencio obsequioso e o contra- tante releva as insuficiencias do parceiro, mesmo quando evidentes. No caso da hidrovia Araguaia-Tocantins, o produto foi tAo ruim que fez desmoronar tudo o que havia sido feito. A Eletronorte, que soube lidar muito bem corn o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia, 6rgio do CNPq sediado em Manaus) quando construiu a hidrel6trica de Tucurui, no Tocantins, certamente nio repetird o erro grosseiro do Ministdrio dos Transportes, que aceitou um estudo flagran- temente primirio. Nao significa que faga algo muito melhor, de acordo cor o nivel de exigencia da consciencia national, hoje, para um licen- ciamento ambiental, principalmente de obras tio complexes quanto a hidrovia e a hidrel6trica amazonicas. Muito pelo contririo. Tamb6m no mundo da ecologia, da ciencia e do saber, di- nheiro 6 dinheiro. A ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA 9 Solteiro No inicio de 1947, Elmir Machado Guimaraes, brasileiro, funcio- nirio piblico, resident a avenida Tito Franco (hoje, Almirante Barro- so), 727, "a fim de evitar exploragbes cor nome identico ao seu", sen- tiu-se obrigado a divulgar pela imprensa um anincio, no qual declarava "que 6 solteiro, nunca tendo contraido matrrim6nio nem neste pais nem no estrangeiro" Poeta Ninguem menos do que o poeta Mario Faustino estava entire os tres primeiros funcionarios que a diregAo da SPVEA (Superintendincia do Piano de ValorizagAo da Amaz6nia) indicou para bolsistas da Escola Brasileira de Administragdo Plblica da Fundacgo Getilio Vargas, no Rio deJaneiro, em fevereiro de 1955. As bolsas faziam parte de um acordo cor a FGV, "objetivando proporcionar treinamento, nas atualizadas t6cnicas administrativas, de uma apreciavel percentage de jovens da regiao, de reconhecido talen- to e prepare cultural, assim atraindo-os para os servigos piblicos". Mas tamb6m tender "as necessidades presents e futures de pessoal compe- tente" para os quadros da superintendencia da Amaz6nia. Alem de Mario Faustino dos Santos, que trabalhava no Setor de Divulgacgo, foram selecionados Rubilar de Baraina e Raimundo Mon- teiro Malato. Na entao capital da rep6blica, o paraense adotivo (piau- iense de nascimento) se firmaria como um dos mais brilhantes inte- lectuais de sua 6poca, como poeta, critic literario e ensaista, al6m de tradutor. Casamento Antncio publicado como se fosse noticia na Folha do Norte de 30 de maio de 1961, sob o titulo Casou afilha e ndo vendeu, tal como foi escrito: "Sobre a noticia publicada no Flash de ontem cor o titulo 'Ven- deu a filha por cinco milh6es', estiveram em nossa redaglo os pais da jovem dr. Frederico Pinto e esposa, para desmentir a denincia. Na verdade a moca casou, por livre e espontAnea vontade, ap6s dez meses de namoro e noivado, tendo seus pais viajado para Goiania a fim de conhecerem a situagio do pretendente. Este 6 desquitado e sua ex-esposa tem tres filhos e ele pr6prio nao 6 filho inico, pois tem mais quatro irmaos. Tamb6m, possui fortune pr6pria nao dependendo de ningudm. O casamento realizado na Basilica de Nazar6 foi devidamente autorizado pelo Arcebispo Metropolitano de Belem. Quanto aos bens, passou-os exclusivamente em nome dela a fim de dar alguma garantia future. A transmissAo dos bens foi efetuada no Cart6rio Diniz em presen- Ca de testemunhas. O casamento foi presenciado pela familiar da noiva e pela mde do rapaz e muitos amigos de ambos". Confusio Quarenta anos antes de ser acusado pela Policia Federal de ser o mentor intellectual da maior grilagem de terras da hist6ria do Para (e uma das maiores do mundo), a frente da qual foi colocado um fantas- ma, um certo Carlos Medeiros, que jamais foi visto, inclusive por seus procuradores diretos, o advogado Flivio Titan Viegas ji andava envol- vido em confusao. Em janeiro de 1961 a Cia. Agricola e Industrial de Madeiras da Amaz6nia, de EliasJorge Sauma, atrav6s de seu advogado, Emesto Cha- ves Neto, registrou queixa na policia, acusando Viegas de ter-se apossa- do indevidamente de uma promiss6ria vencida em outubro de 1960. Mas ele tratou de transferir o document para Maria dos Anjos Ferreira, que admitiu a policia viver a custa dele, enquanto contratava o advogado Emestino Souza Filho para defend&lo administrativamente. Ao mesmo tempo, fez acusag6es contra o advogado perante a justiga criminal. O juiz Reinaldo Xerfan, diante da das confuses armadas, deu um despacho no qual aconselhava a preposta de Viegas a contratar um advogado "para defender o direito que porventura lhe assista, obser- vando ao fim que a providencia "custa dinheiro mas econ6mica tempo, pois 'time is money' no dizer dos ingleses". Ferrovia Em julho de 1961, a Estrada de Ferro de Braganga comunicava aos seus clients que estava colocando miquinas diesel-el6tricas na linha Belem-Icoaraci, "que encurtarAo para 30 minutes o tempo da viagem". Nos dias 6teis as saidas de Icoaraci seriam as 6 e 13,30 horas, enquanto os trens partiriam de Bel6m as 12 e 17,30hs. Nos domingos e feriados, as saidas de Bel6m seriam as 8 e 14hs e as de Icoaraci, 12 e 17,30hs. Os trens paravam no Entroncamento, Uma, Bengtii, Tapani, Tenon6 e Agulha. Se a populacAo de Icoaraci prestigiasse a iniciativa, a administra- gao da estrada de ferro poderia colocar em circulacao mais tres trens diarios, as 9, 15 e 21 horas. Quatro anos depois, o gato federal comeu a Estrada de Ferro de Braganga. Clinica Quem freqtientasse a Clinica do Dr. Luiz Barbosa, na Padre Euti- quio, vizinha do atual Shopping Iguatemi, tinha direito a ducha eldtri- ca, massagens eletricas, faixa eletro-vibrat6rias, forno triplex, focos re- dutores, bicicleta mecanica, rema-rema, rotociclo el6trico, leito magico relax, leito vibrat6rio eletrico, rolo moldador el6trico e outras maravi- lhas do tratamento do corpo, al6m de um "tratamento para emagrecer complete", ao custo de tres mil cruzeiros (de entao) por mis e acesso a toda a paraferndlia instalada na clinic, pioneira em Belem. Moleques pela frente clinic cor um misto de receio e admiragAo. Sentimentos que as novidades costumam provocar. Arte Ruy Meira conquistou o primeiro lugar em pintura no I SalAo de Artes Plisticas da Universidade do Para, realizado no final de 1963. O segundo lugar foi dividido entire Roberto de La Rocque So- ares e Benedicto Mello (com um retrato do jornalista Paulo Mara- nhAo, que ainda pertence ao neto dele, Haroldo). As menq6es hon- 10 ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA rosas foram concedidas a J. Figueiredo, F6lvio Juliano, Moacir An- drade e Dionnorte Drummond Nogueira. As bolsas de estudo para pintura ficaram corn Maria Jose Sampaio Costa, Mdrcio Guimarraes e Luigi Fazio Giandolfo. O primeiro primio em gravura foi conquistado por Yedo Saldanha (e ningu6m mais o acompanhou). Em desenho houve apenas uma men- gao honrosa, conferida a Andras Firesz. O primeiro primio em escultura foi de JoAo Pinto e a menglo honrosa, de Alvaro Piscoa. Da comissao organizadora do salao, presidida por Benedito Nunes, faziam parte Alcyr Meira, Eleyson Cardoso, Francisco Paulo do Nascimento Mendes, Mauricio Coelho de Souza e Inocenio Ma- chado Coelho. Ja os integrantes da comissao julgadora foram Edith Behring, professor do MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro e sua president, o critico de arte Quirino Campofiorito, os pintores Waldemar Costa e Armando Balloni e o mesmo Chiquinho Mendes, como representante da comissao organizadora. Artistas de outros Estados da Amaz6nia tamb6m participaram do salao. Maloca Um anincio em 19 de dezembro de 1963 anunciou a reabertura da Maloca, "o mais tipico, o mais original e invejado restaurant regional". A casa oferecia "a admiracAo ptiblica um painel extemo, feericamente iluminado, expondo uma variedade de plants ornamentais da Amaz6- nia". Ja a sua decoragAo intema era "de tal maneira impressionante que dificil 6 descrever". Cumprindo a sua "mais alta finalidade de difundir coisas e comidas da regiao, a Maloca oferecia a venda "os mais gostosos pratos regionais, destacando-se o pato no tucupi, o casquinho de caranguejo e o casquinho de mussuan, ao som das mais suaves e encantadoras mtsicas". Isso, antes de tudo virar pecado, fazer mal ou engordar. Director No final de 1967, quando era procurador das Caixas Econ6micas Federais, colocado a disposicto da Sasse, o jornalista e escritor Haroldo Maranhao foi nomeado para o cargo de director substitute do ensino superior, no lugar do professor Moura Ribeiro, que estava doente. A Folba do Norte registrou o fato. Haroldo era filho do diretor-gerente da empresa, JoAo Maranhao. Azulejo Em fevereiro de 1972 entrou em operagAo a primeira fAbrica de azulejos da Amaz6nia, a Azpa (Azulejos do Pard S/A). Cor capacidade para produzir 720 mil metros quadrados por ano, a empresa dizia garan- tir a auto-sufici&ncia do Estado no produto. Depois de conquistar os mercados da capital e do interior, se estenderia a Brasilia. Segura do maquindrio que estava utilizando, importado da Italia, gracas aos recur- sos dos incentives fiscais da Sudam. Houve uma canibalizacgo das mAquinas e, hoje, a Azpa 6 apenas um galpAo vazio na said de Belem. E como d6i. RETRATO Imigraqo Em fevereiro de 1955 uma "comissao de 'arig6s"' foi A redag~o do journal Folha do Norte, o mais important de entao, "solicitar que fosse- mos int6rpretes de um apelo As autoridades e a populaqCo paraense, no sentido de ser angariado fundo para que possam viajar em outro navio cor destino a Santarem, onde irAo trabalhar na agriculture". Esses imi- grantes cearenses, transportados de Fortaleza para Bel6m no navio Cam- pos Sales, do L6ide Brasileiro, estavam "sofrendo as maiores necessida- des, juntamente corn suas families, alguns deles doentes, sem recursos para adquirir medicamentos". Era uma rota de dor e sofrimento, ligando a seca nordestina a floresta tropical amaz6nica, cor um ponto de parada em Belem. Livro Os "meios artisticos e intelectuais" de Beldm viveram "uma de suas mais movimentadas tardes" no dia 2 de junho de 1961, quando o teatr6lo- go Nazareno Tourinho fez o lanqamento official da sua pega N6 de quatro pernas, que acabara de ser premiada no 1 Concurso Literario do Norte do Brasil. O langamento foi na acanhada (mas bem sortida) Livraria D. Qui- xote, na Galeria do Palacio do Radio. Entre as "dezenas de pessoas pre- sentes", o reporter anotou o representante do govemo do Estado, Wilson Ribeiro, o romancista Lbero Luxardo, o poeta Georgenor Franco, o ator Claudio Barradas, a atriz Aita Altmann, o contista Ildefonso Guimaraes, a cronista Lindanor Celina, o professor Francisco Paulo Mendes, a professo- ra Maria Sylvia Nunes e, aparecendo na foto cor o teatr6logo, o general Moura Carvalho (na 6poca candidate a prefeitura de Belem), o vereador Isaac Soares e o vereador Irawaldyr Rocha. ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA 11 PUBLICIDADE Desm atam ento Uma grande novidade para madeireiros: Desmatamento Em 1962 a Amaz6nia estava (precariamente ainda) ligada ao restante do Brasil por duas estradas de rodagem, a Bel6m-Brasilia e a Brasilia-Acre. Mas a mI A nA r IdII F, f t t" I A 11r I IlallJ Wll*ia esa 1 I lla6t-lio J oaa ia la I IL1L,1 oferecendo uma moderna mdquina", a "serra motorizada" (depois, infelizmente popularizada e massificada como motosserra), capaz de cortar uma drvore de at6 um metro de diAmetro. Em quatro d6cadas, a consciencia ecol6gica avangou. Mas a maquina mortifera j. deixou uma marca profunda de destruig~o. Corta Frvore f at de um metro de di6metro :Portitfl, de facil mancjo (10kg.), possuf gradingSo de velocida- de no pr6prio* cabo. ConheFa os detalhes dessa' moderaa rnmfuina na IMPORTADORA DE FERRAGENS, S/A. Av. Pres. Vargas, 189/227 - Fone: 4890 Padr o Hollywood Em junho de 1961 o Cine Palicio, o melhor da cidade, apresentava o pri- meiro "grande festival" de filmes pro- duzidos pela Paramount, um dos grandes estfdios cinematogrificos de Hollywood. Era "um filme por dia": Por quem os sinos dobram, 0 ho- mem dos olhosfrios, Trindade vi- olenta, 0 fruto do pecado, Aven- turas de Omar Kijayam, Sem lei e sem alma e 0 rei do lapo. Tudo em Technicolor e VistaVision, para encher os olhos do espectador no escurinho do cinema. Muito drama, trag6dia e tiroteio. E um pouco de bom humor, cor Jerry Lewis, e cafa- jestagem, cor Dean Martin. Agenda AmazOnica Travessa Benjamin Constant 845/203 Bel6m/PA 66.053-040 e-mail: jomal@amazon. com.r Telefones: 2237690/2417626 (fax) SProdugo grifica:-luizantoniodefariapinto |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 39 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |