Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00020

Full Text





lamaZ nica


ANO II N20 BELiM, ABRILDE 2001 R$ 3,00


SIVAM

A ciencia e a geopolitica
0 Brasil voltou a democracia em 1985. A A naz6nia, njo. A agao do governor na regiao ainda
se orienta pela doutrina de seguranga national, urn produto tipico dos "anos de chumbo".
Tudo e visto pela otica military, inclusive um projeto como o Sivam, apresentado como se
fosse iniciativa cientifica. E a melhor maneira de abordar a complex questao amazonica?





Em 1985 o Brasil voltou a democracia, depois de 20 anos de regi-
me military. Mas o president Jos6 Sarney, que comandou a transigao
political em nome da Nova Reptlblica, nesse mesmo ano inaugural criou
o Projeto Calha Norte e, em seguida, seu complement, o Proffao (Pro-
grama de Areas de Fronteira da Amaz6nia Ocidental). No vasto arco de
fronteiras amaz6nicas, cor nove mil quil6metros de extensAo, tocando
nos limits de sete pauses vizinhos, continuaria a prevalecer a doutrina
de seguranca national, a matriz da acAo do governor nas duas decadas
anteriores. Na Amaz6nia, a democracia ficaria para outra oportunidade.
Esse devir nao chegou at6 hoje. Depois da onda de preocupalAo
cor a possibilidade de tropas cubanas se infiltrarem por Roraima, a
partir da Guiana ex-inglesa (uma repiblica cooperative ap6s a indepen-
d&ncia), e das sempre anunciadas e nunca consumadas invasoes de
guerrilheiros peruanos (do Sendero Luminoso) e colombianos (primeiro
do M-19 e, agora, das Farc), o president Itamar Franco, vice e successor
de Collor de Mello, o primeiro president eleito pelo voto popular
desde 1964, langou o Sivam (Sistema de VigilAncia da Amaz6nia).
Embora as fronteiras continuassem mansas e pacificas, apesar de
um ou outro incident, previsivel num cendrio de floresta densa, fauna
rica, indios, aventureiros e isolamento, o Conselho de Defesa Nacional
foi convocado como se houvesse uma ameaga externa iminente. NMo
uma, mas duas vezes (as duas 6nicas at6 agora), sempre corn a mesma
pauta: a Amaz6nia insegura, cobi'ada por estrangeiros, violada por
pirates, sempre na mira de satelites espi6es ou de agents disfarcados
para cr mandados por nac6es imperialistas. E, agora, exposta a ser
ponto de desembarque dos marines de Tio Sam.
Um pano de fundo tAo carregado acabaria por estimular o govemo
a tomar a iniciativa e o legislative a acata-la: o Sivam dispensaria a
concorrencia piblica e a contratacao dos services se faria pela via dire-
ta da tomada de precos, embora a conta de fechamento venha a bater
em 1,4 bilhao de d6lares (R$ 3 bilhoes, ao cAmbio do dia, mais do que
a soma da receita pr6pria annual de todos os Estados da regiao soma-
dos). Nos bastidores comentava-se que havia um vencedor certo, o gru-
po frances que implantou o sistema Dacta para control de trAfego a&-
reo. Mas quem levou a prenda foi a americana Raytheon.
Antes de comegar a implantacgo do projeto, que iria aprimorar o
control sobre a circulacgo no espago aereo amaz6nico e monitorar
praticamente todas as intervengces humans na regiao, o governor teve
que limpar o Sivam da lama que Ihe respingou das escutas clandestinas
e de suas conversas inc6modas, atribuindo manobras pouco recomen-
ddveis para definir o vencedor. Mas o sistema, parte de uma entidade
abrangente, o Sipam (Sistema de Protecao da Amaz6nia),, a despeito
de alguma controversial em seu caminho, devera estar pronto no final do
pr6ximo ano. Exatamente conforme o cronograma da largada, algo raro
na lenta e impontual burocracia public.
Para que os prazos fossem rigorosamente cumpridos, dinheiro nao
faltou. Havia certas inibicges orcamentArias, mas elas foram vencidas
com o uso, em larga media, de um produto que nao costuma ser abun-
dante em Brasilia: a vontade de fazer. O Sivam comegou 2000 corn 13%
do orgamento federal para a Amaz6nia. Terminou o exercicio aboca-
nhando 44%. A rubrica pulara dos R$ 176 milhoes iniciais para R$ 731
milh6es executados, segundo levantamento realizado pelo Inesc (Insti-
tuto de Estudos Socioecon6micos), uma ONG conceituada, corn base
tambdm em Brasilia.
A conclusAo 6bvia de tal informacAo 6 de que foi militarizada a
a Ao da UniAo na maior, menos conhecida e (talvez por isso mesmo)
mais valorizada regiao do pais. Porta-vozes do Sivam tentam atenuar a
conclusao. Lembram que uma parte (nao dizem qual, mas 6 minoritd-
ria) do dinheiro foi entregue as comunidades das .reas nas quais


estAo sendo instaladas bases militares e de telecomunicag6es, que
vAo apoiar os.n6cleos operacionais do sistema, tries nas maiores cida-
des amaz6nicas (Bel6m, Manaus e Porto Velho) e o central em Brasi-
lia, naturalmente.
Argumentam ainda que esse percentual elevado de investimento
de natureza military em 2000 deveu-se a ter coincidido corn o period de
maiores investimentos na montagem do sistema. A mesma rubrica para o
atual orgamento esti fixada em 9% dos R$ 2,7 bilhoes destinados a
Amaz6nia. Resta esperar at6 o final do exercicio para verificar se a
proporgAo vai ser coerente com o declinio do cronograma financeiro do
program, ou se, como em 2000, algum motive relevant irA faze-lo
crescer outra vez. Exponencialmente, quem sabe.
Responslveis pelo Sivam gostam de ressaltar que o sistema cons-
titui uma iniciativa de objetivos cientificos. Afinal, o monitoramento
feito por suas equipes vai permitir ao govemo acompanhar os desmata-
mentos, a poluicao dos rios, a evolugAo de atividades produtivas, as
mudancas climiticas e outros fen6menos, naturals ou humans. Se ain-
da nao 6 exatamente coisa consumada, tudo isso esta sendo prometido.
O portof6lio apresentado nas exposig6es dos RP impression.
No entanto, o comando do program 6 conduzido com mao
forte pela Aeroniutica. Em seus laborat6rios foi que a id6ia nasceu.
Os cientistas incorporados receberam uma tabua das leis pronta e
acabada. Nao houve discussAo prdvia. O debate posterior tern servido
para esclarecer questoes. Mas nao as engendrou. Nem as modificou.
As instituicFes cientificas chamadas a emprestar sua colaboraqAo atu-
am como caudatarias. Cumprem ordens. Ordens, na caserna, sAo dadas
para ser cumpridas.
No orcamento national de ciencia e tecnologia, a Amaz6nia ter
direito a 2% do total destinado a todo o pais, embora corresponda a
44% do territ6rio brasileiro e encerre alguns dos maiores desafios ao
conhecimento human, al6m da aplicacgo pratica, mais imediata. O
Sivam corresponde, nos seus cinco anos de execugao, a 20 anos de
orgamento amaz6nico de ciencia & tecnologia. E nio estard no fim em
2002, mesmo que isso esteja prometido nos folders. No mAximo, seri
uma etapa para o moment seguinte, quando o funcionamento necessi-
tar de novos instruments e ferramentas. E for verificado que para tal
muitos passes ainda precisam ser dados.
Bitolados por bolsas minguadas e verbas de pesquisa homeopiti-
cas, os cientistas que acompanham A distAncia o Sivam invejam o que
veem e nao tnm. Os que foram absorvidos pelo program tratam de
ajustar-se a ele.
Para completar a pintura do quadro, 6 ilustrativa uma compara-
g~o. A General Dynamics construiu um missile que revolucionou a guerra
area, o Side Winder, a partir de uma pesquisa bisica em herpetologia
sobre a cascavel. Para reproduzir artificialmente o sensor infravermelho
natural que existe no focinho da serpente, transformando-o no guia do
missile, para faze-lo buscar o alvo seguindo o seu deslocamento de ca-
lor, a empresa americana gastou quatro bilhoes de d6lares. Ou seja:
quase tres vezes o privilegiado Sivam.
Em mat6ria de ciencia para valer ou de geopolitico levada as
ultimas conseqiiencias, o que o governor esta fazendo na Amaz6nia 6
impressionante para os parimetros interns, mas pifio num context
mais amplo. O que ajuda a entender as possibilidades e as frustraOges
no esforgo de integrar a imensa Amaz6nia ao necessitado Brasil. Man-
tendo-a sob o pleno control national, contra as ameagas da cobiga
international. Etemamente vigilante, que nem a UDN, partido no qual
os politicos em farda se abrigaram at6 que os militares politicos puseram
fim a Reptblica de 1946 e instauraram sua pr6pria ordem por duas d6ca-
das. Na Amaz6nia, ainda em pleno vigor. A


2 -ABRIL/2001 -AGENDA AMAZONICA





ALBRAS


Agora, a n2 1

A Albras vai ter motives para comemorar em setembro.
Ela entao se consolidard como a maior indistria de aluminio
do continent, atingindo a capacidade de producgo de 410
mil toneladas de metal. A adig5o de 40 mil toneladas, atrav6s
de um financiamento de 112 milhoes de reals do BNDES, colo-
ca a Aluminio do Brasil S/A a frente da Alumar (Aluminio do
Maranhao), sua concorrente mais pr6xima no mercado. A Al-
bras, fruto de uma associagAo da Companhia Vale do Rio Doce
com um cons6rcio japon&s, fica as proximidades de Bel6m, no
Pard. A Alumar, na qual Shell e Billiton se associaram, funcio-
na em Sao Luis do Maranhao. Juntas, as duas fibricas respon-
dem atualmente por pouco mais de 700 mil toneladas de alu-
minio primirio e 3% do consume de energia de todo o Brasil.
No rec6m-divulgado relat6rio annual, a Albras exibe uma
facanha: interrompeu a serie de 15 anos de prejuizos, marcan-
tes nas suas contas desde o inicio de suas operates, em 1985.
Substituiu o deficit de R$ 102 milh6es de 1999 por um lucro
liquido de quase R$ 170 milh6es no ano passado. Conseguiu,
assim, abater os prejuizos operacionais acumulados, de R$
772 milhoes, para R$ 595 milhoes.
Mas a Albris ainda integra o rol das empresas brasileiras
de mais elevado endividamento, o dela de pouco mais de um
bilhao de reais, metade dos quais vencerao entire 2003 e 2004,
o period critic das amortizag6es. A empresa s6 conseguiu
aliviar essa pressAo porque remodelou o perfil dos financia-
mentos tomados no Japao, que suportou a implanta&go da sua
primeira fase. A maior parte do d6bito 6 em moeda estrangeira.
OJapao, o maior importador mundial, 6 tambem o maior
comprador do aluminio produzido pela Albris, que Ihe garan-
te 15% de todas as suas necessidades de metal. A empresa teve
em 2000 um faturamento bruto equivalent a sua divida glo-
bal, de R$ 1 bilhao, quase integralmente obtido atrav6s da
exporta&go. A outra metade vai para a Europa. Os ativos da
Albr-s estAo se aproximando dos R$ 2 bilh6es. Seu capital e
de pouco mais de R$ 800 milh6es. Esses nimeros a colocam
em primeiro lugar entire as empresas sediadas na Amaz6nia.


JARI


Nos bastidores

Em 1982 o advogado Bulh6es Pedreira articulou a transferencia do control
acionario do polemico Projeto Jari das mAos do miliondrio americano Daniel
Ludwig para um cons6rcio formado as pressas por 23 empresas nacionais. Nenhum
dos donos dessas corporac6es foi ver cor os pr6prios olhos o que estava adqui-
rindo. Mas nenhum deles, a maioria empreiteiros de obras puiblicas, podia dizer
um nao ao "convite" que lhes fez o entao ministry Delfim Neto (hoje deputado
federal, do PPB de Sao Paulo) para entrar no lugar de Ludwig.
Quase duas decadas depois, foi no escrit6rio do mesmo Bulh6es Pedreira,
no Rio de Janeiro, no iltimo dia 15, que a CSN e a Companhia Vale do Rio Doce
trocaram entire si dois cheques, no valor global de quase 4,4 bilh6es de reais,
finalizando o descruzamento de suas participagdes aciondrias nas duas empresas.
Foi uma operagao de engenharia juridica quase tao complex quanto a do Jari,
embora, neste, nenhum dos controladores das 23 empresas admitidas na nova
sociedade tivesse tirado na ocasiao um inico tostao do bolso. O govemo, respon-
sAvel pelo arranjo criativo, que desentocou do texto da lei das sociedades an6ni-
mas uma ferramenta pouco usada, as partiess do fundador", foi tamb6m quem
bancou a conta de partida.
A conta de chegada do acerto final do Jari, por6m, ainda esti a caminho.
Desde o final de 1999 o complex agroindustrial esta sob a responsabilidade do
grupo Orsa, do Parand, que tirou um inico real do bolso e assumiu mais de R$ 300
milhoes de dividas, assinando um compromisso de investimento plurianual para
tentar revitalizar um empreendimento em vias de colapso. Que, para ser mantido
em p6, ja fez evaporar o equivalent a 300 milhoes de d6lares (mais de R$ 600
milhoes) dos cofres do Banco do Brasil e do BNDES.
Os dois bancos estatais quitaram as dividas externas deixadas por Ludwig
no Jari, recebendo em troca agdes preferenciais, sem direito a voto, apenas cor
preferencia no recebimento de dividends. Segundo previs6es otimistas, os divi-
dendos, se um dia eles vierem a existir, s6 poderAo comegar a ser distribuidos
quatro decadas depois do desembolso original. Em 20 anos de operaq~o, oJari -
que produz principalmente celulose e caulim s6 teve lucro operacional em um
inico exercicio.
Assim, pelo important escrit6rio do advogado Bulhoes Pedreira passaram os
destinos do mais polemico projeto da hist6ria recent da Amaz6nia, oJari do tycoon
Ludwig, ji falecido, na 6poca tido como o home mais rico do planet, e a sorte da
maior empresa da regiAo, a CVRD que, alias, nao tem sede na Amaz6nia.
Coisa de brancos.


ABRIL/2001 AGENDA AMAZNICA 3





LIVRO


Desordem


amaz6nica


Batista Campos foi o mais ativo lider politico do period
dos "motins politicos" no Para, entire 1821 e 1836. Percorreu
masmorras por causa do que publicou nos primeiros jornais da
provincia. Sua cabeca foi colocada na boca de um canhAo, pronto
para disparar, com o morrAo aceso, quando a execugao foi mila-
grosamente suspense. Escapou de atentados e espancamentos. Mas
acabaria morrendo prosaicamente: um corte de navalha numa
espinha carnal, quando fazia a barba, gangrenou. Fugindo pela
mata a perseguicgo determinada pelo governador-geral, nao teve
atendimento adequado. Morreu uma semana antes de estourar a
Cabanagem, em 31 de dezembro de 1834. Deixou de colher o
que havia plantado ao long de 13 anos.
No olho do furacAo quem ficou foi um cearense de 21
anos, que havia chegado ao Park apenas oito anos antes, fugin-
do de mais uma seca inclemente no agreste nordestino. Eduar-
do era tdo valente, com sua coragem demonstrada no sangrento
levante do comerciante portugues Jales, em 1833, que deixou
de ser conhecido pelo sobrenome, Nogueira. Passou a ser Eduar-
do Angelim, madeira rija da Amaz6nia, pau de dar em doido,
como se diria depois.
Antes de abandonar Bel6m, onde os revoltosos ji nao mais
se podiam manter, por causa do rigoroso cerco das tropas do
governor imperial, chamou o bispo, dom Romualdo. Entregou-
Ihe mais de 95 contos de r6is, dinheiro do tesouro, para repas-
sar ao marechal Soares de Andr6a, quando ele ocupasse a cida-
de. O tiranico Andr6a recebeu o dinheiro. Outros 16 contos,
que Angelim deixou com um outro religioso, que eram seus,
foram confiscados.
Grandes personagens, esses. Mas eles entram e saem ilesos
de Desordem (Editora Record, Rio de Janeiro, 252 pdginas, R$
25), o segundo romance da tetratologia concebida por Mircio
Souza para retratar ficcionalmente esse period decisive da his-
t6ria da Amaz6nia, um dos mais maltratados da hist6ria brasileira.
O segundo livro 6 um pouco melhor do que Lealdade, o
volume inaugural da s6rie, tamb6m relancado pela Record, que
promete bancar os dois volumes que ainda faltam para completar
o ciclo (Revolta e Derrota). Mas estd bem abaixo dos melhores
moments do escritor amazonense, cada vez mais distantes. E 6
um pdlido reflexo literario dos acontecimentos e da gente do
GrAo-Pard na decisive primeira metade do s6culo XIX.
Como fez questAo de assinalar, Marcio Souza comecou a
escrever Desordem em Manaus, no dia 2 de fevereiro de 1998, e
o concluiu "no Delmonico Hotel, New York, no dia 26 de marco
de 2000". Dispos, portanto, de mais de dois anos para realizar a
obra. Mas ela da a impressao de texto apressado, sem uma pes-
quisa documental correspondent a importancia e complexidade
do tema e sem uma revisao a altura do conceito do autor.
Revisao bem feita teria impedido que a um period termi-
nado corn "final" sucedesse outra oracao, iniciada com "Final-
mente", por exemplo, sem aliteracao, nem eufonia. Ou uma lin-
guagem de dramalhao mexicano para descrever o estado de es-


pirito de Anne-Marie Presle de Senna: "um vazio terrivel abria-
se em meu peito como uma cratera e a realidade da perda me
esbofeteava a cara". Pura dramaturgia SBT.
Mas isso, para quem 1I Marcio Souza de hi muito, embora
cor decrescente prazer nos trabalhos mais recentes, 6 o que
menos conta. Ele nao 6 propriamente um mestre da lingua. O
que impression 6 ve-lo colocar na boca de Batista Campos, um
"filho da floresta", ciente de que "a selva tudo di", a observag o:
"Em outubro as aguas iam baixando rapidamente e os rios come-
cavam a secar nas suas cabeceiras".
Em Bel6m, Barcarena ou no Acard, Batista Campos jamais
poderia ver esse fen6meno em outubro, quando as aguas, ap6s o
auge da vazante, ja estAo comegando movimento exatamente in-
verso, do inicio da cheia, que ira durar um semestre. Transportado
para Roraima pelas asas da imaginacAo, que tudo podem, 6 verda-
de, mas nem tudo devem poder, Batista Campos talvez tivesse
alguma credibilidade como personagem dizendo essas coisas.
Confiando na sua boa mem6ria e no seu invejjvel conheci-
mento, o director da Funarte se permit antecipar em 50 anos ou
um s6culo inteiro a hist6ria da borracha na Amazonia. No seu
romance, a Bel6m dos setecentos ja desabrocha como "uma floor
branca de seringueira". No s6culo XVIII, "nos tempos do Marqu-
es" (de Pombal), a borracha in natural ji dava "lucros fabulosos".
Uma cultural tao afluente que o seringal no qual Eduardo
Angelim trabalhara, o Nova Jerusal6m, foi bastante lucrative en-
tre 1790 e 1820, "com suas manufaturas exportando um grande
n6mero de produtos para diversos pauses". "No auge de sua pro-
ducAo, nos idos de 1800, o seringal chegava a ter quase 50 se-
ringueiros cortando a seringa, produzindo em cada safra quase
30 toneladas em p6las, que eram transformadas em chap6us, im-
permerveis, instruments cirnrgicos, por uns 20 trabalhadores".
E nobre a inteng~o do autor: mostrar que a cultural da
borracha comerou mais cedo e teve importancia na Amaz6nia
mesmo antes que a revolugao industrial Ihe desse utilizaqco
massive, como fornecedora de pneumiticos para a ind6stria
automobilistica, ji na passage para o s6culo seguinte. Talvez
no afA de impressionar desatentos leitores, entretanto, Mircio
exagerou na mao. Sua fantasia se desconectou de sua indispen-
sdvel funAo pedag6gica.
Em 1830, a Inglaterra, maior importadora da borracha ama-
z6nica, comprou apenas 211 quilos. Quase 30 anos depois o salto
ji era notavel, mas ainda se limitava a 10 toneladas. S6 em 1874,
cor a aplicacgo da borracha aos fios telegraficos, 6 que sua aqui-
sicao se aproximou de 60 toneladas, apenas o dobro do que ja
obtinha o seringal Nova Jerusal6m seis d6cadas antes.
E certo que os volumes se referem a borracha bruta. O Para
ji ia se desenvolvendo nos artefatos a base Jo leite da seringuei-
ra, a Arvore que chora (segundo o belo titulo que Vicki Baum
deu ao seu excelente romance, escrito sem um conhecimento
vivencial, como o do amazonense Marcio Souza, por6m muito
mais pesquisado e bem finalizado). No entanto, o registro sobre
450 mil pares de sapatos vendidos refere-se ao ano de 1839,
p6s-Cabanagem.
Essa industria artesanal se sustentava na proximidade entire
a fonte de suprimento e o local do beneficiamento. Os seringais
estavam em torno de Bel6m, uma situacgo inimaginivel aos olhos
do belenense de hoje, mas que pode-se reconstituir atrav6s dos
vivissimos relates dos naturalistas Spix & Martius, em sua fasci-
nante Viagem ao Brasil.


4 ABRIL/2001 -AGENDA AMAZONICA





O incremento das importag6es de mat6ria bruta, fen6meno
da segunda metade do s6culo XIX (e nao da era pombalina),
quando a designagao da arvore como hevea brasiliensis se conso-
lida (facilitando identificagAo, coleta e processamento) e esp6ci-
mes completes sao levados para a Europa (nao como contraban-
do, mas corn autorizaclo do governor brasileiro), acabariam corn
o incremento desse parque manufatureiro, confirmando em mais
esse caso a trag6dia derivada do descompasso entire a frente eco-
n6mica e a fronteira do conhecimento.
A assimetria hist6rica de A Desordem da a incipiente cultural
da seringa o status de safra agricola regular bem antes de come-
Car o s6culo XIX, quando seringueiras estavam sendo replantadas
para substituir "as drvores cansadas, doentes e mortas, como vi-
nha sendo ha muitas d6cadas", contadas pela principal persona-
gem do livro, uma especie de Vov6 Zulmira (de Stanislaw Ponte
Preta) avant la lettre, tais as aventuras, ventures e desventuras
de sua biografia, a despeito disso eliptica, entire a Guiana, o Pard
e a Franca. Seria tal o plantio e replantio "que s6 se continuava
a chamar os seringais de toda a bacia de silvestres por uma
questdo meramente de costume", embora Bel6m fosse o v6rtice
do centro de produgAo em torno de si e "toda a bacia" fosse
ainda uma inc6gnita.
O descompromisso corn a
cronologia hist6rica, talvez
sustentada num habeas cor-
pus preventive conferin-
do arbitrariedade A cria-
gao, permit ao ex-dire-
tor da Biblioteca Naci-
Sonal declarar que
Eduardo Angelim vi-
via em seringal "desde
,que se entendia por gente".
Tal declaramo equi-
vale a um atestado de
Sretardamento mental
ao maior dos perso-
nagens da Cabana-
gem, notivel exata-
mente por sua pre-
cocidade. Afinal, at6
Sos 13 anos ele vivia
era em Aracati, no Ce-
ari, de onde sua fami-
lia foi tocada pela seca
para o Pard em 1827.
NAo foi portanto, aos sete
anos que ele fez essa mi-
grag o, como estd dito no
romance, que claudica
tanto numa face, a de his-
t6ria de 6poca, quanto na
outra, a de literature.
Nem 6 um
born romance
em si, en-
quanto obra
r, literiria, com
construwo de


personagens, descricgo de paisagens, tessitura de trama. Nem
como um guia para penetrar numa 6poca tao rica como a da
transicgo entire o pais portugus e o pais brasileiro, na qual uma
regiAo comegou a ser descarnada de sua identidade e transforma-
da num hinterland dos centros hegem6nicos, national e interna-
cional, assumindo a feigAo do colonizador, entronizando em si
cabeca alheia, no velho e sempre trdgico mimetismo.
A Desordem, como muitos outros romances de uma vertente
ji exaustivamente explorada, ter sua origem num manuscrito
encontrado muitos anos depois de ter sido escrito. Mais do que
um didrio da muy original francesa Anne-Marie, seria um roman-
ce embrionArio, a espera de autor para Ihe dar forma definitive.
Pelas maos da organizadora do volume, Terezinha Chermont de
Miranda, o verdadeiro criador de tudo se acautela contra os pre-
visiveis critics de suas varias linhas cruzadas de criacgo, com
meta-ficgdo, meta-discurso e meta-merchandising (sem falar nas
meta-setas envenenadas, de veneno ji aquoso e seta empenada
pela falta de destreza do arqueiro imagindrio).
Assim, ele desdenha das restricGes dos "lingiiistas do NAEA",
para os quais "a tradugao de um texto frances de meados do
seculo XIX para o vernaculo atual descaracterizaria sua essencia
sintdtica. E qualquer tentative de mimetizar um sabor sintdtico do
s6culo XIX no vernaculo atual nao passaria de contrafacgo". A
critical, admite Marcio, 6 "pertinaz, mas muito rigorosa". Ele pre-
feriu dar ao leitor comum a possibilidade de chegar ao texto da
personagem "e ter uma leitura sem ruidos, sem vocdbulos caidos
em desuso ou referencias enigmAticas que o passado apagou".
MArcio criou um falso problema, ja tantas vezes resolvido
pela literature. Que ruido causaria ao ouvido hodierno ler 16guas
como media de area, ao inves de hectare, expressao inexistente
na fraseologia da 6poca? Mesmo uma francesa, anotaria em seu
future romance haver classes m6dias na Belem daquele seu tempo?
Quem quiser conhecer intimamente a gloriosa Franca, que
chegou a grande revolucgo em 1789, e a Paris que serviu-lhe de
6tero, estara muito bem servido pelos romances de Alexandre
Dumas. Seus livros sao uma experiencia marcante para o resto da
vida, com suas minudentes descrig6es do mundo da nobreza e do
mundo da rald, cada um a sua pr6pria moda, em seu context
especifico. Mais do que por um tratado, manual ou qualquer ou-
tra reconstrucqo intellectual.
Nao 6 precise, contudo, retornar a tanto nem a tao long.
Haroldo MaranhAo resolve todos os impasses nos quais Marcio
Souza viu-se dividido, recompondo um passado posto em desuso
(mas nunca apagado, 6 claro) para o entendimento dos seus lei-
tores contemporAneos, sem desmerecer estes nem transformar
aqueles em caricature. Se 6 simplesmente para dar a forma de
narrative ao texto seminal do BarAo de Guajard, transformando
seu relato linear numa sucessdo de epis6dios e didlogos, entAo
Carlos Arruda nada fica a dever a Marcio Souza.
O prego do falso problema, que deriva da nao assimilaglo
do conhecimento hist6rico e da forja criativa de fogo baixo do
autor, 6 nao ser capaz de reter os personagens, series que sur-
gem e se evaporam no curso de A Desordem como perfume bara-
to, neste caso nao por sua essencia bruta, que 6 marcante, mas
pelo mau fixador que Ihe foi aplicado.
Ainda assim, o dindi Marcio Souza, hoje um parvenu cario-
ca-novaiorquino, nao conseguird destruir a obra definitive que o
amazonense Marcio Souza assegurou para a posteridade, quando
escrevia cor uma inteligencia afiada. E com uma alma viva.


ABRIL/2001 -AGENDA AMAZONICA- 5





LINCHAMENTOS


Um Brasil



violent

0 Brasil pode estar entire os pauses onde ha
mais linchamentos no mundo, superando os
Estados Unidos, que vinham ocupando a
primeira posigao nesse tipo de viol6ncia
coletiva desde o seculo 18, quando surgiu a
propria expressao linchamento,
desconhecida at6 enteo.



cuu6es sao realizadas com alegada motivagao cidada, de
autopreservagao, cor o objetivo de restabelecer a ordem e a
normalidade social, rompidas por pessoas agressivas. Estas
sao algumas das conclusoes a que chegou o soci6logoJos6 de Souza
Martins, ap6s 20 anos de pesquisas, no Brasil e no exterior, sobre
linchamentos.
Resultados parciais desse levantamento ja foram publicados se-
paradamente. A integra da pesquisa, que ter carAter pioneiro, s6 apa-
recerd em livro no final do pr6ximo ano. Ela se insere num vasto
mosaico que Martins vem tecendo cor seus estudos sobre o meio
rural, os pobres, a violencia e a fronteira, abordados em 19 livros (o
iltimo dos quais, Reforma agrdria, o impossivel didlogo, que tem in-
comodado sobretudo certas alas da esquerda). Aos 62 anos, conside-
rado um dos mais importantes soci6logos em atividade no Brasil, corn
honrarias como ocupar a citedra Sim6n Bolivar da Universidade de
Cambridge, na Inglaterra, e ser fellow em Oxford, ele acumula uma
intense produgao intellectual com uma decidida militAncia political e
cidada, como diz.
HA cinco anos, por designagco do secretArio-geral da ONU, inte-
gra aJunta de Curadores do Fundo Voluntdrio das NagOes Uniclas contra
as Formas Contemporaneas de EscravidAo, que funciona em Genebra,
com cinco integrantes. A junta estima que hi 200 milhOes de escravos
espalhados pelos cinco continents, sob diferentes formas de sujeigAo.
A tendencia 6 de incremento na Europa, onde agem em escala crescente
as mffias de traficantes de pessoas, levadas da Asia e da Africa, ou
mesmo do leste europeu.
Viajando pelo mundo para participar de atividades academicas ou
fazer pesquisas,
Martins me deu uma longa entrevista, na qual fala de um Brasil
que 6, ao mesmo tempo, modemo e arcaico, poderoso e miserAvel.A
integra foi reproduzido no site da Agencia Estado, de O Estado de S.
Paulo. Aqui, reproduzo as parties que podem interessar mais diretamen-
te ao leitor amaz6nico.

Em que consiste sua pesquisa sobre linchamentos
no Brasil?
A pesquisa sobre linchamentos no Brasil vem sendo feita ha cerca
de 20 anos. No inicio consistiu num levantamento explorat6rio de in-
formacges sobre o tema e na criagdo de um prot6tipo de banco de
dados. Durante anos fiz registros diArios das ocorrencias numa ficha
computacional dinfmica que ia sendo modificada e adaptada a media


que novos aspects dessa modalidade de violencia apareciam nos casos
arrolados. Simultaneamente, aproveitando minhas viagens de trabalho
ao exterior, procurei reservar uma parte do tempo para levantar material
bibliogrifico a respeito do assunto.
0 estudo de linchamentos ter sempre como base a informacao
documental, uma vez que nao ha possibilidade social nerm a disposicgo
6tica para que o pesquisador faca a observagAo direta. O linchamento
tende a ser uma explosAo suibita de violencia contra uma pessoa ou um
pequeno grupo de pessoas. Fiz, alias, vArias tentativas de estudar a
previsibilidade dessas ocorrencias com base em dados que indicavam a
constituigto de cendrios de linchamento. Nenhuma das previs6es se
confimnou. Mesmo que se confirmassem, a inica alternative 6tica para o
pesquisador seria a de atuar no sentido de evitar que o linchamento
ocorresse. O pesquisador se toma, por isso, muito dependent de uma
fonte de informagSo que muitas pessoas consideram irrelevant e incon-
sistente: o noticiario dos jornais.
Rigorosamente falando, nao existe o crime de linchamento. No
C6digo Penal hi apenas a sugestAo do crime coletivo, justamente para
consider5-lo atenuante em casos de homicidio ou tentative. Essa e,
justamente, a classificacAo que aparece na documentacAo official. Por-
tanto, o pesquisador nao ter como saber se determinado crime consti-
tui ou nao um caso de linchamento.
O journal ter a vantagem de que os jornalistas encarregados do
noticirrio policial disp6em de um vocabulirio pr6prio e de uma classi-
ficaao dos delitos referida A presumfvel expectativa dos leitores quan-
to a necessidade de diferengar os crimes e dar-lhes os nomes mais reve-
ladores de seu presumivel impact emotional.
O banco de dados ji foi fechado e cont6m informaoges sobre
dois mil linchamentos e tentativas de linchamento no conjunto do
period. E se os dados nao permitem, em principio, concluir que os
linchamentos brasileiros tme motivagio racial, consegui, no entanto,
estabelecer indicadores de intensidade da violencia nas diferentes
modalidades de linchamentos, indice de mortalidade, durabilidade
do 6dio, dentre outros.
Comparando esses dados, fica claro que os linchamentos se con-
sumam de modo fatal em maior proporglo quando a vitima 6 negra do
que quando 6 branca. A indicagAo 6, portanto, de que embora o racis-
mo nao seja necessariamente a motivacqo primAria de muitos atos de
linchar, ele estA fortemente present no modo de execugao da vitima e
na maior facilidade cor que um negro 6 linchado em compara~go cor
um branco sob o mesmo risco.

Como chegou ao tema?
Quando iniciei a pesquisa sobre os conflitos fundidrios, especi-
almente na Amaz6nia, em 1977, eu estava interessado no estudo dos
movimentos sociais. De fato, era esse o tema do projeto de pesquisa.
Iniciei, simultaneamente, pesquisas explorat6ria, sobre o conflito fun-
di&rio, sobre os linchamentos, sobre os quebra-quebra, sobre os sa-
ques. A pesquisa sobre os movimentos sociais no campo era a mais
vidvel e a mais interessante do ponto de vista cientifico porque reve-
lava aspects novos na conflitividade social das populac6es rurais e o
aparecimento do que chamei, num de meus trabalhos, de novos sujei-
tos do process hist6rico.
Em pouco tempo, por6m, me vi em face de uma realidade que ia
sendo rapidamente absorvida por conflitos propriamente politicos e, ja
hoje, partidfrios. Ficava muito dificil fazer interpretagoes sociol6gicas
consistentes em cima de dados que estavam cada vez mais "contamina-
dos" por outras dimensoes da realidade que nao estritamente os especi-
ficos movimentos ditos camponeses.


6 ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA





Eu precisava de um referencial comparative "mais autentico" para
compreender certos aspects dos movimentos sociais das classes subal-
ternas que apareciam idilizados e escamoteados por mediac6es estra-
nhas aos fatos em si. Escolhi os linchamentos porque eles ainda dizem
respeito, na hist6ria da teoria dos movimentos sociais, ao chamado
comportamento coletivo.
Formas precursoras e primitivas dos movimentos sociais, que tnm
uma dimensAo poderosa de critical social, mas nao tern nenhuma carac-
teristica formal de movimento social, sobretudo porque nao propoem
um projeto social explicit. Eles contim, sem d6vida, uma critical soci-
al, sobretudo a justiqa formal e institutional, mas essa critical nao se
desdobra numa proposta de mudanca.
Creio que acertei nessa opqAo, ja que estou interessado em traba-
lhar numa contribuicqo te6rica ao conhecimento dos movimentos soci-
ais enquanto manifestagdes conscientes ou nao de tensoes sociais e
anomia social e formas espontaneas e, sobretudo, populares de identi-
ficagdo dos fatores de desagregacgo da sociedade e de rearranjo das
relac6es sociais.

Quais os principals resultados obtidos at0 agora?
O Brasil esti, provavelmente, entire os pauses que mais lincham no
mundo, hoje muito mais do que os Estados Unidos. Em nosso caso, a
motivag o basica 6 de natureza autodefensiva e, de certo modo, por
incrivel que pareqa, motivag o cidadA. Na maioria dos casos, os lincha-
dores sao pessoas preocupadas cor o restabelecimento da ordem e da
normalidade social onde ela foi rompida pela aqo de algum de seus
membros. Uma proporqAo muito significativa dos nossos linchamentos
6 praticada por grupos comunitarios, agents de formas primarias de
solidariedade social.
Isso, porem, nao exclui evidencias de linchamentos praticados
por grupos numerosos de an6nimos que agem segundo a concepcgo
de multidao de Le Bon, como se fosse um corpo especifico cor uma
personalidade especifica, uma momentanea "possessao" do social. Isto
6, um grupo que age em estado de "loucura" sibita e temporaria. Ha
claramente, em nossos linchamentos, a
proclamaqAo de uma necessidade conser-
vadora de ordem.
Esse tema ter afinidade corn alguns
que o sr. pesquisou anteriormente, como o
trabalho escravo e a violencia no campo?
O sr. estA escrevendo uma hist6ria subter-
ranea do Brasil?
Como disse, o tema esta estreitamen- -
te ligado a varios t6picos de um projeto de ,
estudo abrangente sobre os movimentos i'.
sociais, especialmente os movimentos po- .
pulares. De certo modo, tern relaqgo tam- "... ,
bem com o tema do trabalho escravo, uma
vez que, numa perspective ampla, minhas
indagac6es sociol6gicas se ap6iam em si-
tuag6es de anomia e nas mais an6malas ex-
press6es do que se poderia definir como a
crise estrutural da sociedade brasileira, o
eixo oculto em que de fato ela se move.
Certamente, nao estou escrevendo
uma hist6ria subterrInea do Brasil, mas faco
pesquisa na pressuposicAo clissica de que
no subterraneo da sociedade estio elemen-
tos constitutivos desta dupla e contradit6-


ria orientag~o de uma sociedade como a nossa: de um lado, no sentido
da ordem; de outro no sentido das transformag6es sociais. t nesse de-
sencontro que estao os fundamentos de uma consciencia socialmente
critical neste pais. E portanto, os referenciais mais densos e ricos para
sua compreensao sociol6gica.

Formas primitivas de exploracio e, de uma maneira geral,
na relacao humana, subsistem em todo o pais ou estio confi-
nadas atualmente a frentes pioneiras, como na Amaz6nia?
Infelizmente, formas primitivas de exploragao do trabalho huma-
no vem lentamente se difundindo por todo o pais a partir de ocorrenci-
as mais sistemiticas e intensas na regiAo amaz6nica, nos anos70 e 80.
Isso esta acontecendo nao s6 no Brasil, mas no mundo todo, incluindo
Europa, Estados Unidos e a China Comunista. Por designagCo do Secre-
tArio Geral da ONU, estou ha cinco anos no grupo de cinco membros da
Junta de Curadores do Fundo Voluntario das Nag6es Unidas contra as
Formas Contemporaneas de Escravidao, que funciona em Genebra. Esta-
mos trabalhando cor a hip6tese de 200 milh6es de escravos no mundo
atual, sob diferentes formas de sujeigco. Nos iltimos anos, casos cada
vez mais numerosos comegaram a aparecer na Europa em conseqiiOncia
da agPo das mifias de traficantes de pessoas que para ali as levam da
Asia e da Africa e, mesmo, da Europa do leste.
No Brasil, a tendencia nao 6 linearmente crescente, especial-
mente no campo. Por duas raz6es: de um lado, pela reducgo na
intensidade de expansao da fronteira econ6mica e, portanto, do
desmatamento, atividade em que a peonagem, ou escravidao por
divida, 6 a forma dominant de utilizagao da forca de trabalho. De
outro lado, porque logo no inicio do atual governor foi criado o
GERTRAF (Grupo Executivo de Repressio ao Trabalho Forgado), que
atua atraves dos grupos m6veis de fiscalizaqgo, por meio de forgas
tarefas que juntam desde o Minist&rio do Trabalho at6 a Policia
Federal. Esses grupos ter sido exemplares na dedicagao ao seu de-
ver e, apesar de dificuldades materials, tem contribuido poderosa-
mente para reduzir o n6mero das ocorrencias.

0 Brasil 6 um pais socialmente
arcaico?
O Brasil 6, sobretudo, um pais con-
tradit6rio de um modo particular. Aqui, o
arcaico nao s6 sobrevive, mas se renova
cor as energies da modernizagdo e da
transformagAo social. A transiqao political,
que tem como uma de suas consignas a
Sr reform do Estado e a modemizacao poli-
'. tica do pais, s6 pode ser feita mediante
u umr pacto corn as forcas da tradigio e das
oligarquias e cor sua anuencia.
O MST, que ter como um de seus
objetivos o socialismo, 6 encarado por suas
bases mais populares de modo clientelista,
como acontecia cor as Ligas Camponesas.
A principal forga de apoio a uma transfor-
magio revolucionaria da sociedade brasi-
leira 6, hoje, a Igreja Cat6lica, que sempre
foi considerada uma instituiqio basica do
conservadorismo social e politico.
Tenho sido um estudioso e pesqui-
sador desses arcaismos persistentes e "mo-
b demizados", das contradigdes que eles re-
0-


ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA 7





presentam, e tenho constatado que eles nao s6 sao responsaveis por
nossa hist6ria lenta, como tamb6m sao um dos elements referenciais
de nossas possibilidades de mudanga. Aquele lema positivista na ban-
deira national, "Ordem e Progresso", o progress na ordem, parece indi-
car uma I6cida consciencia social e political da geracgo que implantou
a repdblica: essa geracgo sabia quem somos.

Em suas viagens ao exterior, o sr. tem procurado tra-
balhar em arquivos e bibliotecas temas brasileiros. Pode-
ria fazer um inventarios das mais importantes fontes para a
hist6ria national?
Tenho trabalhado sobretudo com os materials te6ricos disponi-
veis em boas e grandes bibliotecas na Europa e nos Estados Unidos e
nao necessariamente com materials especificos sobre o Brasil. Por isso,
apenas em proporgao bem menor tenho desenvolvido parte de minhas
pesquisas empiricas em arquivos e bibliotecas estrangeiros. Um tema
com que tenho trabalhado e sobre o qual escrevi diversos livros e arti-
gos 6 o da imigragFo europdia na formagao da forca de trabalho na
agriculture brasileira quando se p6s o problema do fim da escravidao e
da crise do trabalho escravo. Nesse caso, ha excelentes arquivos na
Italia e na Inglaterra. E certamente em outros pauses.
Na Itilia, n5o s6 os arquivos paroquiais das aldeias e pequenas
localidades, mas os arquivos das congregagoes religiosas e o pr6prio
Arquivo do Ministerio degliAffari Esteri, para o qual se precisa de uma
permissAo official negociada atrav6s do embaixador do Brasil em Roma
junto ao ministry respective. Nesse arquivo, A margem do que me inte-
ressava especificamente, encontrei cartas dos embaixadores descreven-
do minuciosamente, os parts da Princesa Isabel. A herdeira do trono
era obrigada a ter seus filhos diante de testemunhas, para evitar que
fossem trocados por criangas sem direito legitimo a sucessao. Numa
ante-sala, al6m de outras testemunhas, os embaixadores acompanhavam
"ao vivo" o nascimento de cada crianga da Princesa. As cartas, sao
maravilhosos e completes relates sobre tudo que envolvia o epis6dio,
desde a situagAo climatica naquele dia ate os detalhes m6dicos e sani-
tarios da ocorrencia. De certo modo, a tagarelice diplomatic na ante-
sala esti registrada nessa documentag5o.
No Arquivo do Museu Maritimo, em Londres, hi documents que
registram minuciosamente os deslocamentos dos navios segurados pela
empresa Lloyds desde o s6culo XVIII. A pr6pria navegagco do rio Ama-
zonas no s&culo XIX, sobretudo no apogeu da borracha, esti documen-
tada, gracas especialmente ao tel6grafo submarine. Os comandantes
dos navios enviavam periodicamente mensagens sobre as condig6es de
navegagao e os riscos eventuais no trajeto de cada viagem de sua embar-
caA:o. Cada navio tem all registrada a sua complete "biografia", desde a
fabricaiao e o langamento ao mar, at6 o seu naufrgio ou sucateamento.
Nas congregag6es religiosas, hi preciosos documents, como car-
tas, fotografias e didrios relatives a emigragao para o Brasil e aos n6cle-
os de imigrantes. Nem sempre, por6m, esses documents estao disponi-
veis sem dificuldades para os pesquisadores leigos.

Quais pesquisas podem ser desenvolvidas a partir do
material existente nessas instituices estrangeiras?
A economic e a imigragao, em especial, sao temas que ficariam
enriquecidos com esse material, al6m, evidentemente, da hist6ria das
mentalidades, atraves do que pensavam sobre o pais os missionaries e
os navegadores. Tamb6m a questdo da escravidao no Brasil no seculo
XIX pode ser tratada complementarmente atrav6s desses documents. A
Antislavery, de Londres, que existe desde as primeiras decadas do s6cu-
lo XIX, e envolveu-se na luta contra o cativeiro em nosso pafs, tern


documents que nos interessam. Tem cartas de Joaquim Nabuco, que
foi embaixador do Brasil na Inglaterra e dela participou como ativista.
Incluo, tamb6m, a hist6ria da classes operiria.
Ha uma boa documentagao no Instituto de Hist6ria Social, em
Amsterdam, que visited. E uma instituig5o com 6timas condig6es de
acolhimento de pesquisadores. Ha tamb6m o Arquivo Hist6rico do Mo-
vimento Operdrio, da Editora Feltrinelli, em Milao, onde ha documen-
tos sobretudo a respeito do Partido Comunista Brasileiro, um arquivo,
alias, bem conhecido dos pesquisadores brasileiros.

0 que diferencia pesquisar em fontes estrangeiras, com-
parativamente a fontes identicas brasileiras?
As bibliotecas universitarias, certamente, no geral, sao mais ricas,
modernas e acessiveis do que as nossas. Em vdrias bibliotecas em que
estive na Franga, na Inglaterra, na Holanda, na Italia e nos Estados Uni-
dos, o pesquisador tem acesso direto as estantes, o que poupa um tempo
enorme. Mas, aqui tamb6m ha facilidades e dificuldades equivalentes.
O nosso maior problema 6 que nossas bibliotecas padecem de
uma indigencia cr6nica. Na area de ciencias humans, no conjunto do
pais, sao raras as revistas cientificas relevantes de que dispomos de
colleges completes. E comum que duma colegco tenha sido interrom-
pida ou interrompida durante alguns anos nao s6 porque faltou
dinheiro, mas at6 porque docentes universitarios momentaneamente
encarregados de fazer a relagdo das revistas a terem sua assinatura
renovada decidiram cancelar algumas para beneficiary outras de seu
especifico interesse.
Praticamente, nao hi condic6es de que um pesquisador brasileiro
dessa area se dedique a um tema emergente ou proponha um tema novo
unicamente porque ele nao tem acesso as colleges apropriadas e com-
pletas de publicaqges cientificas. As melhores bibliotecas estao sucate-
adas e custaria uma verdadeira fortune completar coleoges e dispor dos
materials indispensaveis.
Justamente a pesquisa sobre linchamentos exemplifica essa difi-
culdade. Encontrei no Brasil menos de 20% dos materials bibliogrificos
indispensaveis. Com o que dispomos aqui 6 praticamente impossivel
planejar e executar uma pesquisa cientifica minimamente seria. Ela ji
nasceria obsoleta. O pesquisador que nao quiser sucumbir deve encon-
trar um meio de se deslocar para pauses que tenham bibliotecas boas e
integras, sobretudo com excelentes colleges de revistas cientificas, lo-
calizar e reproduzir o material para desenvolver aqui o seu trabalho.
Acho, por6m, particularmente tenebrosa a dificuldade de um nao
morador do Rio de Janeiro para ter acesso facil as colleges da Bibliote-
ca Nacional. Aquilo 6 claramente um resquicio de colonialismo. Sugeri
ao ministry da Cultura, meu colega Francisco Weffort, que proclamasse
a independencia dessa biblioteca que nos foi legada por Dom Joao VI,
criando bibliotecas nacionais em varios pontos do Brasil. Este 6 um
pais continental e nao tern o menor cabimento que a Biblioteca Nacio-
nal seja ainda, de fato, uma biblioteca de col6nia.
Minha proposta era que bibliotecas nacionais fossem criadas nos
campi universitarios mais importantes de diferentes Estados, aglutinan-
do bibliotecas existentes e mal conservadas e fazendo delas bibliotecas
de referencia, corn edificios e dotaoges especiais. E inadmissivel que
para um pesquisador do Pard seja mais barato e facil utilizar a bibliote-
ca da Universidade da Fl6rida, em Gainesville, nos Estados Unidos, do
que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
O ministry prometeu estudar a proposta, pela qual se interessou.
Um ano mais tarde nos encontramos e ele, desanimado, me informou
que houve resistencias dos pr6prios funcionarios. Dificuldades nao
menores sao encontradas no Arquivo Nacional. A


8 ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA





UNIVERSIDADE


O carimbo



cientifico


O Minist6rio dos Transportes contratou sem licita~io p~blica a
Fadesp (Fundag~o de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa, da Uni-
versidade Federal do Pari) para fazer o Eia-Rima (Estudo de Impacto
Ambiental-Relat6rio de Impacto Ambiental) da hidrovia Araguaia-To-
cantins, que vai ligar o Centro-Oeste ao litoral Norte. O trabalho foi
tio ruim que a justiga federal, al6m de suspender o uso da hidrovia,
acolhendo ages de ONGs nesse sentido, durante virios meses proi-
biu que um novo estudo fosse realizado. O embargo foi suspense no
final do mns passado.
Boa parte do Eia-Rima da Fadesp nio era mais do que compilag~o
bibliografica. Houve pouca ou nenhuma verificagbo de campo. Nos
raros casos de pesquisa in loco, a mais polemica delas foi na area antro-
pol6gica: os pesquisadores acusaram os coordenadores do trabalho de
censurar os trechos critics de seus pareceres. Neles, recomendavam
virias providencias para prevenir o impact da navegaiAo nos trechos
em territ6rio indigena e advertiam para riscos que ela representava para
as comunidades estabelecidas ao long do rio. Um inqudrito policial
instaurado pelo Ministerio P6blico federal esti apurando a hist6ria.
Para fazer o projeto da hidrovia desempacar, o Ministdrio dos
Transportes ja anunciou que contratard um novo Eia-Rima.
Enquanto isso, outro braco do govemo, a Eletronorte, recomega a
hist6ria por um novo capitulo: dispensando licitag~o, contratou a mes-
ma Fadesp para fazer o Eia-Rima da hidrel6trica de Belo Monte, no rio
Xingu, que deveri ser a maior usina de energia inteiramente national,
de tamanho aproximado ao de Itaipu, com 11 milh6es de kw e custo de
R$ 13 bilhbes. Desta vez, contando com
os R$ 3,8 milh6es do convenio, a funda-
cao universitaria contratou mais gente e
esti mandando equipes para o local. Pro-
mete nio repetir o vexame.
Mesmo que consiga se reabilitar,
do que os analistas mais bem informa-
dos duvidam, essa hist6ria suscita ques-
toes e da lig6es. Uma delas 6 sobre o
aspect legal. Mesmo estando ligadas a
universidades pdblicas, as fundacges de
pesquisa sao entidades de direito priva-
do. Qual o fundamento juridico e a legi-
timidade social de contrati-las sem sub-
meter a tarefa a uma concorrencia pdbli-
ca? Mesmo quando tal procedimento fos-
se dispensivel, ainda seria de bom prin-\
cipio fazer circular uma carta-convite
pelo circuit academic, atraindo os in-
teressados e fomentando o embate de ,
competencias.
A explicaglo official para o proce-
dimento desviado da melhor norma admi- -
nistrativa 6 o apoio a instituigOes locais,
fazendo-as desenvolver-se. Para a Fadesp
e a Universidade Federal do Pari, viven-


do na peniria de verbas do MEC, os R$ 3,8 chegaram como um mand dos
c6us. Alm de responder por itens do custeio da UFPA, permitiram que
professors e pesquisadoras refizessem suas equipes, colocassem estu-
dantes para trabalhar e pudessem dar um fecho em teses de doutoramen-
to que estavam encalhadas.
Esta 6 a banda boa da magi. A banda podre: presa pelo dinheiro
escasso do convenio a uma dependencia muito grande dos recursos
do contratante, a Universidade fica praticamente sem poder de critical,
sem independencia, sem autonomia. Quando aceita, por delegagio
direta, fazer o Eia-Rima, estd automaticamente se desobrigando de
uma missAo essencial: examiner se a obra 6 ou nao necessiria, se deve
ou nio ser realizada.
O estudo passa a ser feito para buscar "agces mitigadoras" e "in-
serg~o regional", conforme o jargio do meio. Mas nio parte do que
deveria ser a primeira das premissas: p6r em questio a validade da obra,
ela em si, pelo valor intrinseco. Feita essa primeira e fundamental re-
nmncia, as seguintes, no andamento da pesquisa, na discussao do do-
cumento final e nas audiencias piblicas, sdo decorrentes. Da coonesta-
cgo pelo contrato result a legitimagao do trabalho, independentemen-
te do resultado. A contratada segue um silencio obsequioso e o contra-
tante releva as insuficiencias do parceiro, mesmo quando evidentes.
No caso da hidrovia Araguaia-Tocantins, o produto foi tAo ruim
que fez desmoronar tudo o que havia sido feito. A Eletronorte, que
soube lidar muito bem corn o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da
Amaz6nia, 6rgio do CNPq sediado em Manaus) quando construiu a
hidrel6trica de Tucurui, no Tocantins, certamente nio repetird o erro
grosseiro do Ministdrio dos Transportes, que aceitou um estudo flagran-
temente primirio. Nao significa que faga algo muito melhor, de acordo
cor o nivel de exigencia da consciencia national, hoje, para um licen-
ciamento ambiental, principalmente de obras tio complexes quanto a
hidrovia e a hidrel6trica amazonicas. Muito pelo contririo.
Tamb6m no mundo da ecologia, da ciencia e do saber, di-
nheiro 6 dinheiro. A


ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA 9












Solteiro
No inicio de 1947, Elmir Machado Guimaraes, brasileiro, funcio-
nirio piblico, resident a avenida Tito Franco (hoje, Almirante Barro-
so), 727, "a fim de evitar exploragbes cor nome identico ao seu", sen-
tiu-se obrigado a divulgar pela imprensa um anincio, no qual declarava
"que 6 solteiro, nunca tendo contraido matrrim6nio nem neste pais nem
no estrangeiro"


Poeta
Ninguem menos do que o poeta Mario Faustino estava entire os
tres primeiros funcionarios que a diregAo da SPVEA (Superintendincia
do Piano de ValorizagAo da Amaz6nia) indicou para bolsistas da Escola
Brasileira de Administragdo Plblica da Fundacgo Getilio Vargas, no Rio
deJaneiro, em fevereiro de 1955.
As bolsas faziam parte de um acordo cor a FGV, "objetivando
proporcionar treinamento, nas atualizadas t6cnicas administrativas, de
uma apreciavel percentage de jovens da regiao, de reconhecido talen-
to e prepare cultural, assim atraindo-os para os servigos piblicos". Mas
tamb6m tender "as necessidades presents e futures de pessoal compe-
tente" para os quadros da superintendencia da Amaz6nia.
Alem de Mario Faustino dos Santos, que trabalhava no Setor de
Divulgacgo, foram selecionados Rubilar de Baraina e Raimundo Mon-
teiro Malato. Na entao capital da rep6blica, o paraense adotivo (piau-
iense de nascimento) se firmaria como um dos mais brilhantes inte-
lectuais de sua 6poca, como poeta, critic literario e ensaista, al6m
de tradutor.

Casamento
Antncio publicado como se fosse noticia na Folha do Norte de
30 de maio de 1961, sob o titulo Casou afilha e ndo vendeu, tal como
foi escrito:
"Sobre a noticia publicada no Flash de ontem cor o titulo 'Ven-
deu a filha por cinco milh6es', estiveram em nossa redaglo os pais da
jovem dr. Frederico Pinto e esposa, para desmentir a denincia.
Na verdade a moca casou, por livre e espontAnea vontade, ap6s
dez meses de namoro e noivado, tendo seus pais viajado para Goiania a
fim de conhecerem a situagio do pretendente.
Este 6 desquitado e sua ex-esposa tem tres filhos e ele pr6prio nao
6 filho inico, pois tem mais quatro irmaos. Tamb6m, possui fortune
pr6pria nao dependendo de ningudm.
O casamento realizado na Basilica de Nazar6 foi devidamente
autorizado pelo Arcebispo Metropolitano de Belem.
Quanto aos bens, passou-os exclusivamente em nome dela a fim
de dar alguma garantia future.
A transmissAo dos bens foi efetuada no Cart6rio Diniz em presen-
Ca de testemunhas. O casamento foi presenciado pela familiar da noiva
e pela mde do rapaz e muitos amigos de ambos".


Confusio
Quarenta anos antes de ser acusado pela Policia Federal de ser o
mentor intellectual da maior grilagem de terras da hist6ria do Para (e


uma das maiores do mundo), a frente da qual foi colocado um fantas-
ma, um certo Carlos Medeiros, que jamais foi visto, inclusive por seus
procuradores diretos, o advogado Flivio Titan Viegas ji andava envol-
vido em confusao.
Em janeiro de 1961 a Cia. Agricola e Industrial de Madeiras da
Amaz6nia, de EliasJorge Sauma, atrav6s de seu advogado, Emesto Cha-
ves Neto, registrou queixa na policia, acusando Viegas de ter-se apossa-
do indevidamente de uma promiss6ria vencida em outubro de 1960. Mas
ele tratou de transferir o document para Maria dos Anjos Ferreira, que
admitiu a policia viver a custa dele, enquanto contratava o advogado
Emestino Souza Filho para defend&lo administrativamente. Ao mesmo
tempo, fez acusag6es contra o advogado perante a justiga criminal.
O juiz Reinaldo Xerfan, diante da das confuses armadas, deu um
despacho no qual aconselhava a preposta de Viegas a contratar um
advogado "para defender o direito que porventura lhe assista, obser-
vando ao fim que a providencia "custa dinheiro mas econ6mica tempo,
pois 'time is money' no dizer dos ingleses".


Ferrovia
Em julho de 1961, a Estrada de Ferro de Braganga comunicava
aos seus clients que estava colocando miquinas diesel-el6tricas na
linha Belem-Icoaraci, "que encurtarAo para 30 minutes o tempo da
viagem". Nos dias 6teis as saidas de Icoaraci seriam as 6 e 13,30 horas,
enquanto os trens partiriam de Bel6m as 12 e 17,30hs. Nos domingos e
feriados, as saidas de Bel6m seriam as 8 e 14hs e as de Icoaraci, 12 e
17,30hs. Os trens paravam no Entroncamento, Uma, Bengtii, Tapani,
Tenon6 e Agulha.
Se a populacAo de Icoaraci prestigiasse a iniciativa, a administra-
gao da estrada de ferro poderia colocar em circulacao mais tres trens
diarios, as 9, 15 e 21 horas.
Quatro anos depois, o gato federal comeu a Estrada de Ferro
de Braganga.


Clinica
Quem freqtientasse a Clinica do Dr. Luiz Barbosa, na Padre Euti-
quio, vizinha do atual Shopping Iguatemi, tinha direito a ducha eldtri-
ca, massagens eletricas, faixa eletro-vibrat6rias, forno triplex, focos re-
dutores, bicicleta mecanica, rema-rema, rotociclo el6trico, leito magico
relax, leito vibrat6rio eletrico, rolo moldador el6trico e outras maravi-
lhas do tratamento do corpo, al6m de um "tratamento para emagrecer
complete", ao custo de tres mil cruzeiros (de entao) por mis e acesso a
toda a paraferndlia instalada na clinic, pioneira em Belem.
Moleques pela frente clinic cor um misto de receio e admiragAo.
Sentimentos que as novidades costumam provocar.


Arte
Ruy Meira conquistou o primeiro lugar em pintura no I SalAo
de Artes Plisticas da Universidade do Para, realizado no final de
1963. O segundo lugar foi dividido entire Roberto de La Rocque So-
ares e Benedicto Mello (com um retrato do jornalista Paulo Mara-
nhAo, que ainda pertence ao neto dele, Haroldo). As menq6es hon-


10 ABRIL/2001 AGENDA AMAZONICA











rosas foram concedidas a J. Figueiredo, F6lvio Juliano, Moacir An-
drade e Dionnorte Drummond Nogueira. As bolsas de estudo para
pintura ficaram corn Maria Jose Sampaio Costa, Mdrcio Guimarraes e
Luigi Fazio Giandolfo.
O primeiro primio em gravura foi conquistado por Yedo Saldanha
(e ningu6m mais o acompanhou). Em desenho houve apenas uma men-
gao honrosa, conferida a Andras Firesz. O primeiro primio em escultura
foi de JoAo Pinto e a menglo honrosa, de Alvaro Piscoa.
Da comissao organizadora do salao, presidida por Benedito
Nunes, faziam parte Alcyr Meira, Eleyson Cardoso, Francisco Paulo
do Nascimento Mendes, Mauricio Coelho de Souza e Inocenio Ma-
chado Coelho. Ja os integrantes da comissao julgadora foram Edith
Behring, professor do MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de
Janeiro e sua president, o critico de arte Quirino Campofiorito, os
pintores Waldemar Costa e Armando Balloni e o mesmo Chiquinho
Mendes, como representante da comissao organizadora.
Artistas de outros Estados da Amaz6nia tamb6m participaram
do salao.


Maloca
Um anincio em 19 de dezembro de 1963 anunciou a reabertura da
Maloca, "o mais tipico, o mais original e invejado restaurant regional".
A casa oferecia "a admiracAo ptiblica um painel extemo, feericamente
iluminado, expondo uma variedade de plants ornamentais da Amaz6-
nia". Ja a sua decoragAo intema era "de tal maneira impressionante que
dificil 6 descrever".
Cumprindo a sua "mais alta finalidade de difundir coisas e
comidas da regiao, a Maloca oferecia a venda "os mais gostosos
pratos regionais, destacando-se o pato no tucupi, o casquinho de
caranguejo e o casquinho de mussuan, ao som das mais suaves e
encantadoras mtsicas".
Isso, antes de tudo virar pecado, fazer mal ou engordar.


Director
No final de 1967, quando era procurador das Caixas Econ6micas
Federais, colocado a disposicto da Sasse, o jornalista e escritor Haroldo
Maranhao foi nomeado para o cargo de director substitute do ensino
superior, no lugar do professor Moura Ribeiro, que estava doente. A
Folba do Norte registrou o fato. Haroldo era filho do diretor-gerente da
empresa, JoAo Maranhao.


Azulejo
Em fevereiro de 1972 entrou em operagAo a primeira fAbrica de
azulejos da Amaz6nia, a Azpa (Azulejos do Pard S/A). Cor capacidade
para produzir 720 mil metros quadrados por ano, a empresa dizia garan-
tir a auto-sufici&ncia do Estado no produto. Depois de conquistar os
mercados da capital e do interior, se estenderia a Brasilia. Segura do
maquindrio que estava utilizando, importado da Italia, gracas aos recur-
sos dos incentives fiscais da Sudam.
Houve uma canibalizacgo das mAquinas e, hoje, a Azpa 6 apenas
um galpAo vazio na said de Belem. E como d6i.


RETRATO


Imigraqo

Em fevereiro de 1955 uma "comissao de 'arig6s"' foi A redag~o do
journal Folha do Norte, o mais important de entao, "solicitar que fosse-
mos int6rpretes de um apelo As autoridades e a populaqCo paraense, no
sentido de ser angariado fundo para que possam viajar em outro navio
cor destino a Santarem, onde irAo trabalhar na agriculture". Esses imi-
grantes cearenses, transportados de Fortaleza para Bel6m no navio Cam-
pos Sales, do L6ide Brasileiro, estavam "sofrendo as maiores necessida-
des, juntamente corn suas families, alguns deles doentes, sem recursos
para adquirir medicamentos".
Era uma rota de dor e sofrimento, ligando a seca nordestina a
floresta tropical amaz6nica, cor um ponto de parada em Belem.


Livro


Os "meios artisticos e intelectuais" de Beldm viveram "uma de suas
mais movimentadas tardes" no dia 2 de junho de 1961, quando o teatr6lo-
go Nazareno Tourinho fez o lanqamento official da sua pega N6 de quatro
pernas, que acabara de ser premiada no 1 Concurso Literario do Norte do
Brasil. O langamento foi na acanhada (mas bem sortida) Livraria D. Qui-
xote, na Galeria do Palacio do Radio. Entre as "dezenas de pessoas pre-
sentes", o reporter anotou o representante do govemo do Estado, Wilson
Ribeiro, o romancista Lbero Luxardo, o poeta Georgenor Franco, o ator
Claudio Barradas, a atriz Aita Altmann, o contista Ildefonso Guimaraes, a
cronista Lindanor Celina, o professor Francisco Paulo Mendes, a professo-
ra Maria Sylvia Nunes e, aparecendo na foto cor o teatr6logo, o general
Moura Carvalho (na 6poca candidate a prefeitura de Belem), o vereador
Isaac Soares e o vereador Irawaldyr Rocha.


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Desm atam ento Uma grande novidade para madeireiros:
Desmatamento

Em 1962 a Amaz6nia estava
(precariamente ainda) ligada ao restante do
Brasil por duas estradas de rodagem, a
Bel6m-Brasilia e a Brasilia-Acre. Mas a
mI A nA r IdII F, f t t" I A 11r I


IlallJ Wll*ia esa 1 I lla6t-lio J oaa ia la I IL1L,1
oferecendo uma moderna mdquina", a "serra
motorizada" (depois, infelizmente
popularizada e massificada como motosserra),
capaz de cortar uma drvore de at6 um metro
de diAmetro.
Em quatro d6cadas, a consciencia
ecol6gica avangou. Mas a maquina mortifera
j. deixou uma marca profunda de destruig~o.


Corta Frvore f at
de um metro
de di6metro
:Portitfl, de facil
mancjo (10kg.), possuf
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de no pr6prio* cabo.
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Padr o


Hollywood

Em junho de 1961 o Cine Palicio,
o melhor da cidade, apresentava o pri-
meiro "grande festival" de filmes pro-
duzidos pela Paramount, um dos
grandes estfdios cinematogrificos de
Hollywood. Era "um filme por dia":
Por quem os sinos dobram, 0 ho-
mem dos olhosfrios, Trindade vi-
olenta, 0 fruto do pecado, Aven-
turas de Omar Kijayam, Sem lei
e sem alma e 0 rei do lapo. Tudo
em Technicolor e VistaVision, para
encher os olhos do espectador no
escurinho do cinema. Muito drama,
trag6dia e tiroteio. E um pouco de
bom humor, cor Jerry Lewis, e cafa-
jestagem, cor Dean Martin.


Agenda AmazOnica
Travessa Benjamin Constant 845/203 Bel6m/PA 66.053-040 e-mail: jomal@amazon. com.r Telefones: 2237690/2417626 (fax)
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