Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00019

Full Text










ANO II N'- l' f.ELEt., rVP'.1C' DE 200 1 : F I. ,31,;)


BELO MONTE


A maior


hidrel6trica


a fio d' gua


do mundo


0 rio Xingu esta entire os grandes cursos
d'jgua do planet. No seu trecho final a
Eletronorte projeta uma grande
hidreletrica, s6 menor no Brasil f de
Itaipu, com investimento de R$ 13 bilhees.
0 problema 6 que essa usina sd vai poder
gerar a plena capacidade em metade do
ano. Durante dois ou tr6s meses ela ficara
parada ou a baixissima produgao. Mesmo
sabendo que nao sera a dona da obra, a
Eletronorte anda as pressas para queimar
etapas. Isto e borm?


A visit de tres dias a Bel6m do president da Eletro-
norte, Jose Antonio Muniz Lopes, na primeira quin-
zena de marco, foi um sucesso de relag6es publicas.
le conseguiu convencer seus audit6rios de que o
novo desenho da hidrel6trica de Belo Monte 6 uma maravilha
da engenharia. Ela foi projetada para ser a segunda maior
usina do pais, abaixo apenas de Itaipu (que, como todos sa-
bem, 6 binacional, Brasil e Paraguai dividindo ao meio seus
14 milh6es de quilowatts), com potencia nominal de 11 mi-
Ih6es de kw (ou 11 mil megawatts). A hidreletrica custarA 6,5
bilh6es de d6lares, sendo US$ 3,8 bilh6es na geracgo e US$
2,7 bilh6es no sistema de transmisso da energia (corn 3.200
quil8metros, ate o consumidor paulista). Ou mais de 13 bi-
lhoes de reais na nossa combalida moeda.
Apesar desses nimeros paquid6rmicos, cada MWh transmi-
tido chegaria ao seu destino final, do outro lado do Brasil, a US$


I


L i c io F 'I 4 i o P i t o





27,3, quase tr-s vezes abaixo da tarifa que os especialistas consi-
deram suportivel pelo bolso do cidad-ao brasileiro (infelizmente,
6 quase a mesma tarifa paga pelo cidadaio californiano, que tern
uma renda per capital seis vezes maior).
Diantee cleputados estupefactos no plenirio cia Assem-
bl6ia Legislativa, Muniz Lopes contou esta historinha: certo di,
um engenheiro da Eletronorte, debrugaclo sobre um mapa da
region cia grande volta do Xingu, despertou de sua reflexto car-
togrfificapara um cletalhe da geografia que ate entalo apercebera.
Antes do rio dar a grande volta entire Altamira e Belo Monte, hf
clois canais naturals. Por que n0o draga-los, retifici-los e concre-
a-los para assumirem a fung o de canais de adug2io de Agua do
reservat6rio para a casa de forga da usina?
Corn essa id6ia na cabeqa, seria possivel fazer uma ligacgio
direta, sem precisar acompanhar o clesvio natural do rio e o
mais important sem inundar tocla aquela area cla grande volta.
Ao inv6s dos 1.200 quil6metros quadrados de lago artificial do
projeto entaio em vigor, apenas um tergo cde um semi-reservat6-
rio, digamos assim, corn os 400 km2 que j0i saio submersos n:
ralmente durante o period de cheia do rio. A natureza seri
preservaca, nas ilhas da volta poderia surgir uma reserve ecol6-
gica, o turismo e todos sairiam ganhando. Foram elogios
seguidos ao autentico ovo de Colombo.
Mas serai mesmo o projeto da hidrel6trica de Belo Monte
uma maravilha da engenharia, uma atualizacoo da centralizado-
a, autoritAria e arrogante Eletronorte aos novos tempos (embora
ainda corn sua sede teimosamente mantida em Brasilia, apesar
de todas as campanhas par; *ansferi-la para Bel6m)?
Sujeito ao risco de ser apedrejado por aqueles que apoiam
toda e qualquer iniciativa capaz de transferir recursos para a
regifo, ainda que eles correspondam ao troco do investimento
total, sejp as migalhas do banquet ou tenham seus beneficios
anulados por seus custos, devo dizer que recebi o projeto de
Belo Monte como um anacronismo. Uma prova de que a Eletro-
norte n;ao acompanhou a evolucao da sociedade, brasileira e
amazonics Desgracadamente, por6m, a sociedade nao disp6e
de instruments para enquadrar a Eletronorte a sua evoluc'o e
hist6rit al.
Ao contrario: corn um sorriso no rosto, mesuras, gentile-
zas e outros recursos de relag6es piblicas, a empresa esta, mais
a vez, atropelando a sociedade. O cronograma que estabe-
leceu para Belo Monte ja 6 apertado: antecipando o inicio da
motorizacao em um ano e meio, para margo de 2008 (e nao
ais para outubro de 2009), diz que terat um ganho de US$ 290
milh6es (mais do que o valor de todo program de macrodre-
nagem das baixadas de Belem). Os estudos de impact ambi-
ental deverAo estar prontos dentro de alguns meses. A licitagAo
da obra teria que ser feita no final deste ano ou no inicio de
2002. Dai a press. aquilada corn debates, exposig6es e visi-
S6 para dourar a pilula.
A Eletronorte esti realizando tudo, por enquanto. Mas ga-
rante que apropriard seus investimentos em curso para transfor-
i-los, junto corn as invers6es seguintes, em 30% do capital da
empresa privada que vencer a concorrencia para construir a hi-
dreldtrica e seu sistema associado de transmissao de energia. A


obra pronta, passarA em frente essa participacao, deixando tudo
corn a iniciativa privada.
Mas a Eletronorte nao ter capital sequer para as despesas
pr6-operacionais. Fechou as contas de 1999 corn um prejuizo de
700 milh6es de reals. As do ano passado, aincla niao divulgadas
oficialmente, iriam bater em R$ 1 bilhaio. O caixa de Belo Monte
estai sendo formado pela Eletrobribs, que tarmbm esti se respon-
sabilizando pelo subsiclio as indcstrias de aluminio, que custam
200 milh6es de d6lares ao ano.
Ora, se os recursos p6blicos sio escassos e se a UHE Belo
Monte vai ser privatizada, a Eletronorte nio deveria se restringir
a preparar os terms de referencia para o edital de licitacibo p6-
blica, devidamente submetidos i agencia estatal do setor, a Ane-
el? Ela diria o que exige para aprovagao da obra e a iniciativa
privada responcleria corn seu enquadramento as normas estabe-
lecidas, no casamento entire as condicionantes socials e as regras
do mercaclo, conforme o novo modelo international, clue o se-
tor el6trico brasileiro esta incorporando (devidamente reciclado
ap6s o trauma da Calif6rnia, nos Estados Uniclos espera-se).
Ao inv6s clisso, a Eletronorte ji; estai elaboranclo o projeto
bisico da obra (tanto cia geragito quanto da transmissao) e o
EIA-Rima. Para o levantamento do impact ambiental e suas
medidas "mitigadoras", a Fadesp, a funclaaolo de pesquisa da
Universidade Federal do Para, foi contratada diretamente. Nio
houve concorrencia piblica, emborl a Fadesp seja uma entida-
de de direito privado. A justificativa: valorizar Jio-de-obra
local, o saber existente na regiao.
A Fadesp teve uma participa~ibo obscura e desastrada no
melanc6lico EIA-Rima da hidrovia Aragu; 'a-Tocantins, niao apro-
vado e depois rejeitaclo, por sua total inconsist.ncia (era pouco
mais do que uma revisibo bibliogrfifica). Esse antecedente j;
taria sanado porque agora hfi um novo coordenador, hi equipes
e multidisciplinaridade, alem de supervision de consultores.
Mas a UFPA terif realmente se preparado para ficar a altun
do desafio, que se traduz na complexidade do trabalho e sua
dimensAo econ6mica, de R$ 3,8 milh6es? Conseguirli manter sua
autonomia cientifica, sem se submeter as vinculag6es invisiveis
de algumas clbusulas do convenio, corn suas abstratas algemas
douradas e seu cala-boca financeiro? A UFPA serf, para Belo
Monte, o que o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6-
nia, de Manaus) significou para Tucurui, uma esp6cie de carim-
bo de aprovagiao cientifica, devidamente enquadrado ls exigin-
cias do agent pagador?
A Eletronorte tamb6m esta avangando na definiailo da via-
bilidade do empreendimento, algo que deveria ser fungao de
quem vai construir e operar a obra. Alguns especialistas, o pro-
fessor Raymundo Ruy Bahia i frente, estaio contestando os nl-
meros que alimentam a equaibao de calculo da Eletronorte. Mas
a empresa, do seu imperial trono brasiliense (foi, e e parece
pretender continuar a ser a 6nica empresa regional de energia ;
nao se instalar na sua base de atua~ibo, ignorando que a quase
totalidade da sua geragao encontra-se em territ6rio paraense),
nio admit contestag~o aos seus nOmeros.
Foi o que disse o president da empresa no plenario da
AL. Sem nominar os destinatirios das suas alfinetadas (eu e,


2 MARCO/2001 AGENDA AMAZONICA





talvez, tambr m o professor Bahia, ambos presents a sessfo),
ele ironizou qualquer tentative ce tirar o custo ca primeira eta-
pa (12 mdiquinas) da hidrel6trica de Tucuruf cia bitola de US$
4,7 bilhoes (ou quase R$ 9 bilh6es). t isso e est: acabado foi
o que tentou dizer.
Ainda bem que o engenheiro Muniz Lopes elogiou a larga
(e at6 usou um dos seus trechos para finalizar sua palestra) o
relat6rio do estudo de caso feito pela Comissaio Munclial de Bar-
agens sobre Tucurui no ano passado (e premiado pela ONU),
para o qual fui convidado como consultor (detalhe que, evicen-
temente, o doutor Muniz Lopes nto citou). L, o custo total da
hidrel6trica de Tucurui estd calculado em US$ 7,5 bilh6es. Os
US$ 2,8 bilh6es de diferenga entire os valores ca Eletronorte e os
da comisslo nao poclem ser considerados "detalhe" S6 essa di-
ferenga corresponde a 5 anos de receita paraense de ICMS.
Mas, a rigor, a dciferenga e ainda maior. Nos US$ 7,5 bilh6es
nao esta incluido o sistema de transmissao de Tucurui, ca mes-
ma maneira como a Eletronorte o expurgou do seu oraamento. A
Comissaio Mundial de Barragens, calculando o custo da trans-
missao da energia em US$ 1,27 bilhao, chega a US$ 8,77 bilh6es
em Tucurui, "sem se considerarem os juros incidents sobre es-
ses 6ltimos investimentos"
Os juros computados pela CMB sio apenas aqueles pagos
durante a construcilo, de 1976 a 1984, restritos at obra de geramgo
de energia. Somente nesse period, eles ji chegaram a US$ 2
bilh6es, a taxa mdlia annual de US$ 250 milhies repassados aos
agents financeiros, num poolcomandaco por banqueiros fran-
ceses. Os juros de 1985 a 2000, jai na fase de operafao, certa-
mente foram mais pesados. Mas aincla que se adotasse a taxa
m6dlii anterior, o desembolso nessa conta terf sido de US$ 2,8
bilh6es at6 o ano passado. O que elevaria o custo atualizado de
Tucurui (sem o sistema de transmissao) para mais de US$ 10
bilh6es. Ou mais do que o clobro do que trombeteia a Eletronor-
te. E numa estimativa francamente conservadora. Corn as linhas
de transmissio e seus respectivos juros, falar em US$ 13 bilh6es
(ou R$ 26 bilh6es) como a conta de chegada da UHE Tucurui
nao 6 nada desproposital.
Nato 6 s6 o passado que recomenda cautela e caldo de
galinha diante das informagoes da Eletronorte: 6 a manutenaflo
do mesmo padrflo de comportamento ca empresa, hoje. Durante
a reuniibo do grupo do qual participei, na sessao da Comissao
Mundial de Barragens realizada em Belem, apresentei meus cdl-
culos diante de dois graduados e respeitaveis t6cnicos da Eletro-
norte, integrantes do mesmo grupo (a maior proporgio da em-
presa foi, por acaso, justamente nesse grupo). Nio houve con-
testacgio. Ambos endossaram o relat6rio do grupo, corn meus
ailculos incluidos e incorporados ao relat6rio final ca CMB.
No 6 s6 por assumir uma tarefa que nao mais Ihe caberia
e desempenhai-la corn os mesmos vicios do passado que a Ele-
tronorte torna o projeto tie Belo Monte um anacronismo. Como
Armando Ribeiro de Araijo havia feito em 1984, Muniz Lopes
foi a casa de leis do Estado declarar, 17 anos depois, que su;
empresa nao vai cumprir o C6cigo de Aguas, uma lei federal,
de 1943, em pleno vigor. Nto havera um sistema de transposi-
glio do Xingu em Belo Monte.


A Eletronorte diz que a navegaLio s6 chega naquele pon-
to, sem prosseguir rio acimi Isso e verldacle. Mas nao 6 toda a
verdace. Em alguns moments da evolucgo das aguas 6 possi-
vel avangar mais algumas cezenas de quil6metros. Mesmo corn
a interrupfLo da livre navegacgio na grande volta, rio acima h,
outros trechos plenamente navegaiveis. Se a magnifica enge-
nharia ca Eletronorte concebeu os dois canais de aclucao de
agua a casa de miiquinas, por que nflo poderia prepara-los
para serem eclusados?
Claro que clemandaria muito mais recursos e empenho, mas
a empresa, que jai corrigiu em 100% a previsaio de movimentaaito
de terra que iria fazer nos canais (de 77 milh6es de metros cibi-
cos para 150 milh6es de m3), no poceria fazer novo ajuste para
o sistema de transposiglio, aincla mais corn a perspective de mais
cinco bL amentos a montante do rio e sua esperada fungfLo de
regularizaLgfo hidric:
O tema ainda estL aberto aos questionamentos, mas algo
6 preliminary a qualquer controversial a respeito: a lei exige a
transposicgo do rio e a lei precisa ser cumprida. Voltamos no
tempo: a Eletronorte ciz que se a lei tern que ser cumprida, nfao
lhe cabe essa responsabilidade. Transfere- a um terceiro, ain-
da oculto na oragcao. Esse sujeito a descobrir seria o element
de atualizagfo do projeto hidrel6trico, sem o qual a sociedade
brasileira (e a amaz6nica ou a paraense em particular) nto pode
sancionar Belo Monte.
A missao transcende a competencia legal ca Eletronorte
e seu escopo t6cnico, al6m de sua cultural obtusa (que s6 ve
kw potenciais nas aguas de um rio). O Xingu tem como dre-
nagem uma area de 477 mil quil6metros quadrados, equiva-
lente a 5% do Brasil. Hi moments em que sua vazilo ultra-
passa 30 mil metros cibicos de agua por segundo. Nao se
pode permitir que um dos seus trechos seja barrado para fins
energeticos sem considerar a totalidade da bacia e a multipli-
cidade dos usos das fguas. Belo Monte s6 deve ser aprovada
se, antes, houver um piano de desenvolvimento do vale do
Xingu, no qual a hidreletrica forgosamente teril que ser inclu-
ida, mas integrada, nunca sozinha.
Para a realizagco desse piano 6 necessario criar um comi-
te de bacia, ajustando o uso da figua is novas concepg es que
surgiram sobre esse bem natural cada vez mais important no
planet. E colocar a Eletronorte debaixo da supremacia institu-
cional da Sudam, ou que nome venha a ter o 6rgLo determina-
do a tirar do sepulcro da g6lida letra da lei sua funcao de coor-
denagio do planejamento.
Visto por essa 6tica, o road show do president ca Eletro-
norte nao passa de um espetfculo antediluviano. O que deveria
ser a oitava maravilha, os canais, dispensando o uso cda grande
volta e poupando o afogamento de terras e florestas, torna-se
uma fonte de preocupagao, quando o projeto 6 examinado alnm
de um mapa, de uma plant ou de uma fotografia.
Belo Monte serai quase uma usina a fio d'aigua, sem re-
servat6rio, ou com um reservat6rio minimo. A estocagem de
figua vai ser o bastante para elevar a cota do pequeno lago
para a altura das cheias normais, que cobrem as parties mais
baixas de Altamira. Estas, ficarao submersas permanentemen-


MAR(O/2001 AGENDA AMAZONICA 3





te ("voces poem at6 fazer praias" sugeriu o engenheiro
Muniz) e nao mais apenas no auge da enchente pacdrio. Nas
super-cheias podera haver uma elevaglo do nivel do rio em
clois metros, para a cota 98.
Para se ter uma id6ia de grandeza, o reservat6rio cia hi-
drel6trica de Tucurui mantem em estoque quase 45 bilhoes de
metros cibicos de igua (ou 45 trilh6es de litros). Em Belo Monte,
o volume sera de 3,7 bilh6es, pouco mais de 8%. Um dado
ainda mais impressionante: enquanto o volume Citil em Tucurui
(considerando a -igua usada para a geracgo de energia) 6 de 32
hilh6es de m3, no Xingu esse volume 6 zero.
Dai a concluso, de certa forma alarmante, de que essa
portentosa hidrel6trica em apresentagio a uma sociedacle bo-
quiaberta sera a fio cl'dgua. Ou seja: a Agua que chega vai pas-
sanclo diretamente para as imensas turbines, beneficiando-se
de uma queda bruta de 89 metros (contra 63 metros em Tucu-
rui), que assegura a impressionante capacidacle nominal de 11
milhbes de kw.
Para as 20 maiquinas alcangarem sua rotagilo maxima de
fibrica, precisaraio de 14 mil metros cobicos de agua (14 mi-
lh6es de litros) por segundo (700 m3 por cada maiquina). As
vaz6es do Xingu variam entire um m~ximo de pouco mais de 30
mil m3/segundo (menos cia metade do record de vazfo do
Tocantins) e um minimo de 443 m3/s. Mas o rio costuma ter
estiagens rigorosas durante 2 a 3 meses. Isto significa que du-
rante esse period nenhuma das maravilhosas maquinas de Belo
Monte podceri funcionar. Em outros tr6s meses, o funciona-
mento sera de 2 a 4 miquinas. Ao long de seis meses o Xingu
verte menos do que os 14 mil m3 necessarios para manter a
capacidade nominal cia usina.
Para atenuar o impact, o president da Eletronorte diz
que nesse period Belo Monte vai se servir dos reservat6rios
das hiclreletricas do sul e sudeste do pais, com outro regime
hiclrol6gico, beneficianclo-se cia complete interligagio dos sis-
temas nacionais de energih Mas isso 6 um sofisma, tao convin-
cente quanto o do maravilhoso estalo mental do engenheiro
diante do mapa do Xingu.
Para que, entao, gastar fortunes corn enormes linhas de
transmiss.o, p. a as quais 6 precise estabelecer uma alta ten-
sio, complicando o aproveitamento nas zonas de passage
(sobretudo a eletrificag o rural), al6m de sofrerem perclas ex-
pressivas entire a geragio e o rebaixamento da energia? Com-
pensar a falta de figua na Amaz6nia, que ter 20% do que os
rios lanCam nos oceanos, com a cacla vez mais problemritica
igua do sul, niio 6 uma temericlade?
Muitas outras perguntas cabem. Por incrivel que pareca,
nenhuma palavra a Eletronorte disse at6 agora sobre os efeitos
a jusante da barragem, Ao encontrar sua foz, a menos de 300
quil6metros de distincia, o Xingu se espraia num delta, fen6-
meno excepcional em terms planetarios para um rio interior.
Qual sera o efeito do vertimento direto pelos canais, corn uma
queda bruta considerivel de 90 metros, e o vazamento natural
atrav6s cla grande volta, num percurso de 50 quil6metros, pas-
sando a ter algum grau de regulagem nos vertedouros que ali
serao construidos?


No haverri moments de descarga excepcionalmente inten-
sa ou, pelo contririo, cle fluxo excepcionalmente abaixo do que
seria a descarga natural do rio? Pode-se prever fortes impacts do
represamento a jusante, aspect at6 agora deixado de lado, como
se, a semelhanga da transposilao, fosse detalhe irrelevant.
Assim continuara se os terms cla equaao o nao form
invertidos. A Eletronorte nao pocle permanecer a frente do
process. Precisa estar subordinada a cluas inst'incias, uma
governmental e outra mais diretamente representative cia so-
ciedade, capazes de impor como premissa a inserlao do pro-
jeto da hidrel6trica num piano mais amplo e normativo cle
desenvolvimento do vale do Xingu, nao como referencia a
posteriori. Com sua competencia restrita e sua expertise con-
dicionada ao uso da barragem para fins de gerailo energ6ti-
ca, a Eletronorte vai servir de biombo inadequaclo de transi-
co para o control privado da obra.
Se o projeto encantou alguns ouvintes do engenheiro Ant6-
nio Muniz, deve ter estarrecido outros, entire os quais me incluo.
Querenclo induzir a melhor das expectativas, ele chegou a anun-
ciar o asfaltamento cla Transamaz6nica no trecho da obra (at6
um problema que viria a ter, quando fosse necessario reloca
estrada). Toclos os presents, inclusive os mais entusiastas da
exposicgio, contudo, naio pocliam desconhecer a misernivel situa-
cgo da rodovia, quase intrafegivel em alguns trechos.
Colocaco diante cia realidade, o engenheiro saiu-se corn
uma perola: atribuiu sua desinformagto a uma revista local e
justificou-se por repassar urna information inverossimil, alegan-
do que seu entusiasmo e tanto que o leva a crer de pronto nas
boas noticias. Mesmo que flagrantemente falsas.
Seguindo um orgamento de particla, corn toclas as caracte-
risticas de ter o rigor das coisas feitas no Brasil para ingles ver,
a Eletronorte projeta investimento de 13 bilhoes de reais num;
barragem motorizada a ser implantada num lugar de grande
complexidade ecol6gica, muito mais do que human:, para ter
uma monumental usina a fio d'igua, que s6 poderai funcionar
a plena carga clurante meio ano. Justamente por isso, a potin-
cia firme da usina clesaba dos 11 milh6es de kw nominais parn
4,7 milh6es de kw mdlios, com um factor de capacidade de
43%, abaixo da m6lia international aceitavel que 6 de 50%.
Sob este aspect, a hidrel6trica do Xingu comega num
nivel inferior f do Tocantins. A conclusao 16gica e de que ou-
tros barramentos terao que ser feitos a montante, quando nala
para garantir uma vaz3o 6til econ6mica (situalio que ja existe
em relaCio at segunda etapa de Tucurui, corn uma queda de 4,2
milh6es para 1 milhaio de kw firmes).
Mas, como estamos vendo nessa sutil ressurreig~o de Santa
Isabel, ao exumar seus armnirios velhos esqueletos acabam sen-
do trazidos para a vida artificial: se vai-se fazer uma parede de
concrete no leito do rio, por que nato instalar as maiquinas de
gerag o de energia na casa de forga? E a 16gica insinuante dos
barrageiros, no motocontinuo das obras enormes, sem as quais
n.o h~ grandes empreiteiros. E, sem eles, a predat6ria fauna
acompanhante.
Vai-se deixar que mais uma vez esse velho enredo
se consolide?


4 MARCO/2001 AGENDA AMAZONICA





TESE


Utopia cientifica ou


interacionalizacao


da Amazonia?



Concebida originalmentepara ser nm grande
braco da recnm-criada ONU(Organizacdo das Na-
Coes Unidas)para a educaCdo ea cultural, a Uneco
acabo setransfonnandoem Unesco, incorporando un
s descience, ciencia em ingl0s. Era a vitoria de uma
nij11 '!l tCi"tt, ,i,,:tiJJ.i. Jc cientistas, daqualJuli-
an Huxley era o principal representante, queficara
chocada corn un artefatoproduzidopela ciencia: a
bomba at6mica americana, que destnriu Hiroxima e
Nagaskdi, noJapdo. Eles queriam lima ciencia buma-
nista e universal, independent de interessesgovema-
mentais e econ6micos, empenbada em expandir o co-
nbecimento do homenmpor novasfronteiras
Umra dasprincipais era a Amazonia. Quando
selecionou quatroprogramansprioritriospara seu pri-
meiro ano complete de atuapdo, em 194 7, a Unesco
incliu entire eles a instalagdo de um laboratOrio ci-
S,.,i.i.. international em Manaus, a capital do Esta-
do doAmazonas. Portrds dessa ideia estava um bra-
sileiro inquieto, criativo eprolifico no trabalbo, o en-
genheiro quimico carioca Paulo Berrdo Carneiro (1901-1981).
Dois anos anos antes, ele tentara obter opatrocinio dogovero
brasileiro, ainda controladopor Getilio Vargas, para um Instit ito In-
temacionalda HileiaAmaz6nica. Ndo teve boa acolhida. Entdo vol-
tou-se, corn sucesso, para a Unesco, apoveitando-se dossets anos de
residOncia em Paris e do concerto que desfmntava em terrasfrancesas
(junto com o embaixadorSouza Dantas, conseguiu mandarpara o
Brasiljudeus quefugiam do nazismo).
Instalando um centro scientific de vanguard num local peri-
firico como a selva amaz6nica, Carneiro imaginava incorporara
Amazonia ao pais, para o qual ainda era umna ilustre desconbecida,
atraves de uma republicana universal dos ci nii, i., '", uma ,c -a M,.,
das utopias que ele j tentara criarjunto aos indios (ao lado do
marechal Candido Mariano Rondon) e nos laboratrios qu hnicos,
onde estudava o guarand e o curare, duasplantas essenciais na
culturaprinmitiva iL ,miA'I,
Mas a "HiliaAmazonica", c. ni,. isti.iitb ifl., i maisconbeci-
do, pi ,,it I r ,r n rtl, r Be, m l,. president naReptiblica Ve-
lba, e em diversosggpos nacionalistas. Eles viam all uma cunha atra-
ves da qualpenetraria a cobica estrangeira, desnacionalizando a
a li. .i i, extirpando-a do territdrio brasilero, entregando-a a gmu-


pos internacionais. Desfecharam urma campana verbal violent con-
tra oprojeto, conseguindo apoio ,,ilu pa, ,,tu ,i criticase, atraves
dele, o arquivamento doprojeto.
Mas havia mesmo o interesse internacionalpor tris do IIHA?A
responder estapergunta eque se dedica o cientista politico Marcos
ChorMaio, 45anos, pesquisadorda Fundacdo Oswaldo Cmrz, em
Manguinhos, noRio deJaneiro. Tendo dedicado is rpercussoes naci-
onais da criacdo da Unesco sua tese de doutorado, ele desenvolve,
desde final de 1998, oprojeto "Ciencia na Periferia: a Unesco, a
proposta de criao do InstitutoInternacional da Hilia Amaz6nica e
as origens do Inpa', com financianento daprOpria Fiocnize do CNPq
(ConselboNacional deDesenvolvimento ( iC L:jiLo., e Tecnol6gico).
Maio, autorde livros e artigos sobre relaKoes cientificas e raciais,
pretend denionstrarque o Instituto da Hileia s6p6de emergirno ambi-
ente internacionalpropicio que havia entdo, urma especie de trigua,
entire final da Segunda GuerraMundial, comn a humanidade ainda
chocadapelos hbores da camificina, eo inicioda GuerraFria, que
polarizou o mundo entire osEstados Unidos e a Unido Sovijtica.
Ndo havia mesmo governor nacionais ou multinacionaispor
trds da iniciativa da Unesco (os EUA ndo apoiaram efizeram o que
podiampara reduziras dinensoes do institutoproposto), mas cientis-
0--


MARCO/2001 -AGENDA AMAZNICA 5





tas corn luma conscincia morale uma preocupacdoplanetaria, no
meio dos quais se destacava Paulo Carneiro, umpersonagem ativo
daqueles tempos, hoje mal conhecido. Apesarde incompreensdes e er-
ros, sobretudopor causa do eucentrismo na sede da Unesco, e nafalta
de sensibilidade dospropriosgovernos latino-americanos, que queri-
am tirar resultados imediatos da cidncia, ao invis de estimularseu
fortalecimento, Maio cr que a contribuiedo da "Hilia "foipositivo.
Quando nada, porque surgiu, ainda que decorrente de uma
reaCdo dos que interpretarampeloprismageopolftico o que era um
projeto de ciencia pura, a segunda instituigdo depesquisa cientifica
da histdria da Amaz6nia, depots do Museu Emilio Goeldi, deBelim:
o Inpa, deManaus. Por ironia, criticado depois como um reduto de
cientistas estrangeiros.
Num artigopublicado no anopassado na revista Historia Ci&n-
cias Sadde, da Fundacgo Oswaldo Cruz, Marcos ChorMaiojd anteci-
pou alg ns dos resultados da longapesquisa que realizou nosarquivos
da Unesco, em Paris, e no valioso epraticamente in&dito acervo da
familiar Paulo Carneiro, noRio, queserd brevementeabertoa consult
puiblica. Na entrevista abaixo, elefala sobre o significado do IHA e as
liodes que oferece aos contempordneos.


Berr6do Carneiro, que pesquisou o principio ativo do guarana e do
curare no Instituto Pasteur de Paris, e quase chegou ao Pr6mio No-
bel. Alem disso, era um intellectual comprometido cor a ideia de
construgAo da naogo. Em contextos chamados perif6ricos, um inte-
lectual na vida ptblica, como Paulo Carneiro, assumia a missao
universalista de inserir o Brasil no concerto das nagOes modernas. A
Amaz6nia, na perspective euclidiana, inspirada em Euclides da Cu-
nha, de Paulo Cameiro era a via privilegiada atrav6s da qual a cien-
cia, como instrument de civilizagao, superaria os localismos, o atra-
so, a fragmentagao social, a dispersAo, o desconhecimento, a mis6-
ria do suposto "paraiso perdido".
A Unesco, por sua vez, dirigida na 6poca por uma intelligent-
sia internacionalista, cor nomes como os de Julian Huxley eJose-
ph Needham, e ainda sob o impact dos resultados catastr6ficos
da 2" Guerra Mundial, julgava que os afazeres cientificos nao de-
veriam continuar concentrados nos pauses desenvolvidos. Needham,
a partir de sua experi&ncia de cooperamo cientifica na China duran-
te a Grande Guerra, acreditava na possibilidade de realizagao do
"principio de periferia", uma proposta de descentralizagio das ati-
vidades no piano da ciencia, respeitando tradig6es cientificas das


O projeto do Instituto Inter-
nacional da Hileia Amazbnica
(IIHA) tinha mesmo um carter "im-
perialista", conforme a campanha
contra ele deslanchada no Brasil,
especialmente pelo ex-presidente
Arthur Bernardes?
A extensa documenta~io pesquisa-
da nos Arquivos da Unesco nao revela
qualquer indicio de ameaga imperialista.
Relat6rios de funciondrios da Unesco re-
clamavam da oposiCgo ou indiferenga
norte-americana e inglesa pelos destinos
do Institute da Hil6ia. Quando tomou-se
objeto de controversial no Brasil, no final
do ano de 1948, capitaneada por Arthur
Bernardes, a proposta do IIHA, aprova-
da dois antes na 1" sessao da Conferen-
cia Geral da Unesco, em 1946, ji se en-
contrava em descr6dito no interior da
ag6ncia intergovemamental. A "cobiga in-
ternacional" era fruto da obsessao naci-
onalista de Bernardes, em context de
Guerra Fria, e de enorme desconhecimen-
to acerca do projeto IIHA.

A ideia original de crii-lo foi
brasileira ou estrangeira?
A iddia foi do engenheiro quimico e
representante do Brasil junto A Unesco por
mais de duas d6cadas, Paulo Estevao de


A extensa documentagao
pesquisada nos Arquivos da
Unesco ndo revela qualquer
indfcio de ameaga imperialista.
Relatrios de funciondrios da
Unesco reclamavam da
oposig.o ou indiferenga norte-
americana e inglesa pelos
destinos do Instituto da HilMia


chamadas zonas perifericas, como era o
caso do Oriente. A Amaz6nia seria o "ou-
tro Oriente" a ser descortinado pelo "prin-
cipio de periferia".

Quais as causes do insucesso
do projeto?
Um dos pontos fortes de nossa pes-
quisa e precisamente a perspective de nao
analisarmos a proposta do IIHA a partir de
atributos como exito/fracasso. Assim, al-
cangamos uma visao mais rica e matizada
dos esforgos envidados para a criacao de
uma instituicgo cientifica na Amaz6nia no
p6s-2" Guerra Mundial. Afinal, o Instituto
Nacional de Pesquisas da Amaz6nia (Inpa)
emerge neste moment, como um efeito
nao previsto pelo mundo das conting&nci-
as que permeou a tentative de criagio do
primeiro laborat6rio cientifico intemacio-
nal na Amaz6nia.
Sem divida, o Inpa, a despeito de
seu "mito de origem", como contrapon-
to ao IIHA, incorporou diversas preocu-
pavdes do projeto original da Unesco,
como a &nfase na ciencia blsica e a ne-
cessidade de parcerias cor instituig6es
estrangeiras. Ap6s a criacao do Inpa,
Arthur Bernardes o cunhou de "Nova
Hil6ia". E curioso observer que ainda
hoje h~ uma certa percepqgo sobre o
INPA como "terra de estrangeiros".


6 MARQ0/2001 -AGENDA AMAZONICA





E possivel dizer-se que entire a
criaAo da Unesco e o desencadea-
mento da Guerra Fria houve um cli-
ma favorivel a um internacionalismo
cientifico, nio atrelado a interesses
governamentais ou empresariais?
O imediato p6s-22 Guerra Mundial
foi um cendrio em aberto, no qual as dis-
putas no campo international ainda nao
tinham gerado efeitos definitivos como veio
a ocorrer com a Guerra Fria. Acrescente-
se o fato de que havia, desde, pelo me-
nos, os anos 1930, uma tradigao de cien-
tistas, principalmente ingleses e franceses,
de centro-esquerda, preocupados com a
destinagio social dos afazeres cientificos
e que tiveram important papel na inser-
gao da ciencia na estrutura da Unesco. O
principal lider dessas articulagoes era o
bioquimico inglis Joseph Needham.
Needham nutria uma enorme descon-
fianga para cor as relag6es entire ciencia e
Estado. O Holocausto e as bombas at6mi-
cas de Hiroshima e Nagasaki. mobilizaram
essa rede de cientistas na busca do fortale-
cimento cdt autonomia da comunidade ci-
entifica international em face dos interes-
ses econ6micos, politicos e militares. Corn
efeito, essa comunidade, investida de um
those munida de uma estrutura material
s6lida, seria o grande baluarte da paz. A
Unesco deveria ser o locusprivilegiado deste


O s norte-americanos
tinham acumulado uma
serie de insucessos
econdmicos na
Amazonia. Consideravam
o IIHA uma proposta de
alto risco devido a
magnitude do piano, que
demandava vultosos


recursos


projeto. Podemos constatar, ap6s mais de meio s6culo, que a diregao
da Unesco estava investida de uma enorme dose de idealismo.

A criacgo do Inpa como alternative ao IIHA re-
sultou de uma alianca entire comunidade cientifica na-
cional e os militares?
A criagio do Inpa encontra-se no context de diversas apostas
no bin6mio ciencia-desenvolvimento na Amaz6nia. Congress Nacio-
nal, agnncias estatais, instituicges cientificas, sociedade civil, todas es-
tavam voltadas para esse debate, inclusive associado a discussion da
energia at6mica, que teve papel decisive, com a ,li.in. .i enr c i nir.ir e
e fisicos, na criagio do CNPq [ConselboNacionaldePesquisas, hoje
Conselbo NacionaldeDesenvolvimento Cientffico e Tecnol6gico]. Consi-
dero que a criagio do Inpa foi a reediciao da alianga entire militares
(principalmente o Almirante Alvaro Alberto) e cientistas.
O discurso da seguranca national foi associado a preocupa-
gbes com o desenvolvimento da regiio amaz6nica. Todavia, os ci-
entistas acreditavam que no bojo dessa discussao poderiam vir a
fortalecer sua pr6pria coletividade e ampliar a interlocugo corn a
comunidade cientifica interacional.


I I


proposta de alto risco devido a magnitude
do piano, que demandava vultosos recur-
sos. Cabe ressaltar que o IIHA foi conside-
rado um dos quatro principals projetos da Unesco em 1947 e rece-
beu 100 mil d61ares para o ano de 1948, quantia nada desprezivel
para a 6poca. Os EUA eram responsaveis por quase metade do orca-
mento da Unesco.
Quando o IIHA foi "antropofagizado", ao ser concebido como
um instrument de desenvolvimento econ6mico da Amaz6nia, a par-
tir de uma alianga entire representantes latino-americanos na Unesco,
cientistas e elites political locais, o govemo norte-americano reagiu. O
IIHA seria tolerado se se mantivesse como uma tinida instituigao de
ciencia bisica. Em perspective colonialista, o govemo norte-america-
no estava mais atento as matirias-primas estrategicas, como os mine-
rais. Procurou assim limitar ao maximo a p-.,ii l. Is:J- da Unesco no
projeto IIHA. No context de acirramento das disputes internacionais,
de reconstruiao europ6ia e de avanyo do socialismo, a Amaz6nia
ocupava piano secundirio na political extema norte-americana.

Os erros na condugAo do Instituto foram mais pro-
duto da centralizagio da Unesco em Paris ou dos dirigen-
tes da entidade no Brasil?
Centraliza~o, eurocentrismo, desconhecimento das instituic6es

MARQO/2001 AGENDA AMAZONICA 7


Os cientistas dos grandes cen-
tros nacionais de pesquisa boicota-
ram o projeto por nio liderarem-no?
Teria sido possivel um entendimen-
to entire as parties, a international e
a national?
Nao se trata de boicote, tampouco
de dispute pela liderana. Faltou maior di-
ilogo entire a equipe da Unesco e as insti-
tuig6es cientificas nacionais. Havia grande
expectativa de que a instituiiao trouxesse
recursos para pesquisas no Brasil. Grassa-
va, por outro lado, enonne desconhecimen-
to acerca dos prop6sitos da Unesco e do
projeto IIHA. A nao ser na Conferencia
Cientifica de Bel6m, em agosto de 1947,
corn pouca repercussao national, quando
foram convidados alguns cientistas para de-
finir as linhas gerais das pesquisas a serem
realizadas pelo Instituto da Hileia, nao ocor-
reu uma discussiao mais permanent corn
a comunidade cientifica brasileira sobre o
desenho da future instituigao.

Por que os Estados Unidos nao
apoiaram o projeto?
Os norte-americanos tinham acumu-
lado uma sdrie de insucessos econ6micos
na Amaz6nia. Consideravam o IIHA uma





e da produgio cientifica latino-americana, desconfianga da intelli-
gentsia universalista unesquiana quanto aos interesses particularistas
dos estaclos-membros, despreparo para um projeto de tal magnitu-
de. A Unesco pretendia se constituir numa instituigio "neutr, dian-
te e um mundo em crescentes disputes internacionais e regionais.
S6 a titulo de ilustnrai o: Needham, um cientista com aguqada
sensibilidade social, primeiro director do Departamento de Ciincias
Naturals da Unesco, cor larga experiencia de trabalho de interc^m-
bio na China, por meio da ber sucedidla atuacito do Escrit6rio Sino-
Britfinico de Cooperamcfo Cientifica, convidou o botinico EdredJohn
Henry Comer, especialista em flora tropical, que se notabilizou pela
presenrvaCio de umra s6rie de coleq6es doJardim Botlnico de Cinga-
pura durante a ocupaciio japonesa na 2 Guerra Mundial para dirigir
o projeto IIHA.
Enquanto Needham tinha conhecimento da hist6ria cultural e
cientifica da China e conheck a lingua chinesa, Corner naio falava
poitugu&s ou espanhol e tampouco conheci: algum pais latino-ameri-
cano e sua cultuni. Porter estudado em Cambridge, como Needham,
Ssupostamente por sua "her6ica" atuawaio em Cingapur, Comer foi
escollido para dirigir os trabalhos de implementacaio do IIHA.
Houve umal grita geral dos representantes latino-americanos.
Arinal, a Amaz6nia nfo era para principiantes e existiam instituig6es
e cientistas brasileiros que poderiam assumir a diregio do projeto
IIHA, como, por exemplo, Carlos Chagas Filho, que teve papel de
relevo na defesa da criacJio do IIHA nos f6runs da Unesco.
Acabou por prevalecer uma visaio eurocentrica. Ademais,
o calor das discusses no Brasil em context de fortes apelos
nacionalistas acabou por redirecionar o projeto IIHA, contribu-
indo assim par; a introducgio da Amazonia na agenda politico-
cientifica national.


O que mudou do final da decada de 1940 para hoje
em relagio A AmazOnia e is expectativas quanto aos be-
neficios da ciencia?
Na Conferencia Cientifica de Bel6m, em 1947, foi estabelecida
uma agenda de pesquisas para a Amaz6nia, incluindo a necessida-
de de amplo inventirio faunisitico e floristico, a criaflo de reserves
nature a descoberta e explorapao de plants de valor econ6mico,
a cultural em terras inundciveis, a pesquisa dos conhecimentos etno-
botainicos dos povos indigent a realizacioo de pesquisas antropo-
16gicas sobre as comunidades da regiaio e o fortalecimento de insti-
tuic6es cientificas locais.
Parece haver consenso at6 hoje sobre a relev'incia desses te-
as e os avancos nessc agenda de pesquisa ainda siio bastante
limitados, levando em conta as virias d6cadas que transcorreram.
Hi um descompasso entire a importincia mais recent que se atribui
a Amaz6nia, dentro e fora do Brasil, e a limitada capacidade cienti-
fica aut6ctone instalada na regifio. Apenas cerca de 500 doutores
dos mais de quatro mil existentes no Brasil moram e trabalham na
Amazonia, atualmente.


Ainda e possivel fazer ciencia pura na Amaz6nia, ou


os imperatives geopoliticos e econ6micos nao deixam mais
espaqo para o que tentaram os fundadores da Unesco? 0
cientista acaba sendo usado como linha de frente das
multinacionais?
Existe grande controversial em torno da quest; Hi os que
consideram a cooperaqio international no piano da ciencia blisica
um manto protetor para a imposigfo de agendas cientificas por par-
te das instituig6es dos pauses considerados centrais. Acho que ess:
perspective deva ser matizada. Fago parte de uma instituico Fio-
cruz [Fundaaoo Oswaldo Cru2z que ter urma long tradigio de
cooperagao cientifica international e nem por isso se pode depre-
encer que os cientistas foram ou siJo manipulados por interesses
estranhos aos seus proprios interesses cientificos.
Acredito que os pescquisadores do Inpa nao pensem de manei-
Sa clistinta. Par .:ro conspirativa da hist6ria, essa attitude n.
passa de mera ingenuidade. O incremento dos estudos nos campos
da hist6ria e da sociologia da ciencia poderao apresentar balangos
menos apaixonados sobre este tema.


E ainda possivel "usar as t6cnicas avancadas em
models aut6ctones" ao fazer ciencia num local periferi-
co, como a Amaz6nia, conforme reivindicava Carlos Cha-
gas Filho?
A ciencia tern uma linguagem universal. A comunicaflio dos
resultados dos afazeres cientificos faz part da pratica da interlocu-
ailo no interior da comunidade cientifica international. A fomma como
uma coletividade de cientistas de um pais denominado "perif6rico"
como o Brasil, estabelece essa comunicacaio sempre foi a partir de
temas e problems locais. O exemplo clissico 6 o das ciencias bio-
m6dicas, corn a experiincia no enfrentamento de endemias e epide-
mias. Nio 6 diferente em outros campos do conhecimento, como 6
o caso das ciencias sociais. Os classicos da sociologia saio produtos
do solo europeu, como Durkheim, Weber e Marx.
O exemplo de Florestan Femandes 6 paradigmitico: apesar de
sua fonnagio ser baseada no estudo dresses clissicos europeus, ele
decicou-se a estudar o indio, o negro, a depenldnci; enfim, os
problems brasileiros e ajudou a fonm1: as gemniges de cientis-
tas sociais igualmente comprometidos corn temas brasileiros e igual-
mente versados em teoria sociol6gica clissica europeia.


Quais as lic6es que ficaram da experiencia do IIHA?
Os cientistas brasileiros, em geral, sempre foram muito cio-
sos dos interesses e necessidades do pais e buscaram permanente-
mente a autonomia cientifica e urma sintonia fina cor os avan'os
da ciencia mundial. O projeto IIHA e um exemplo, entire muitos
outros, de tradugao local de um projeto international. Afinal,
criacio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia, em 1952,
gestado no interior do CNPq, criado apenas um ano antes, 6 um;
prova irrefutivel de que o "nacionalismo cientifico" foi um instru-
mento de pressAo dos cientistas da 6poca para se fazerem presen-
tes corn seus objetos e quest6es no interior da comunidade cienti-
fica international.


8 MARQO/2001 AGENDA AMAZONICA





HISTORIC


Sudam das


prateleiras


"A Sudam 6 apenas um 6rgao de incentives fiscais,
vale dizer, o que foi instituido como meio, passou a ser um
fim em si mesmo. Tal distorqlo 6 responsivel pela
disfungao ocorrente"
A observacio tern quase 30 anos. E de 1972 e integra
as conclus6es do Diagndstico preliminary da situagdo
organizacional da Sudam, preparado por um cons6rcio de
consultores, a frente a Planave, contratado pela pr6pria
Sudam. A Superintendencia do Desenvolvimento da
Amaz6nia tinha, entao, apenas seis anos de vida. Mas ji
acumulava vicios e distorcoes de uma ancia.
Sem as medidas corretivas, iria se afundar ao long de
uma hist6ria que ameaca acabar agora, melancolicamente,
corn a sua extincAo, determinada pelo president Fernando
Henrique Cardoso a partir de uma campanha desencadeada
pelo senador Antonio Carlos Magalhaes, no auge do seu
confront cor o tambem senadorJacer Barbalho, o
padrinho dos controvertidos dirigentes da Sudam nos
Cltimos anos..
Na abertura do trabalho, os consultores observaram:
"Na verdade, a raiz de toda a problematica
administrative da unidade, esti na incapacidade de
conciliar as exigencias de um sistema de planejamento
com a diluig1o do poder decis6rio, compartido por um
6rgao colegiado"
Esse 6rgao era o Condel (Conselho Deliberativo), na
epoca corn 30 membros, n6mero considerado excessive
pelos consultores: "A constituigao de um conselho desse
tipo e corn um nOmero de components tdo elevado, ou
tornari as decis6es extremamente lentas pelas inevittiveis
discusses e posic6es antag6nicas, geradas por assuntos
controversos, ou transformar-se-a em 6rgio decorative
meramente aprovador ou passive na considerago dos
problems e da materia que lhe forem submetidos"
Mas na.o era s6 uma deficiencia intrinseca que minava a
forca da Sudam. Os consultores salientavam tamb6m o fato
de o 6rgao "nao se caracterizar como element participativo
do process de planejamento national e de o sistema se
ressentir, evidentemente, de um mecanismo apropriado que
permit a participalao na tomada de decisoes, faz cor que o
6rgao seja apenas um agent passive desse process,
reduzindo essa capacidade criadora e renovadora, e
transformando-o num incorporador de ideias, um cumpridor
de decisOes e um mero sindico da programacao regional".


Para os t6cnicos, nao parecia aceitaivel, em principio,
que a Sudarn fosse concebida "nos mesmos moldes de
outros organismos de desenvolvimento regional. A
dimensao da regiao, a problematica amazonica, suas
peculiaridades sociais, econ6micas, ecol6gicas, political e
culturais exigem, pelo menos, um tipo de relaiao
diferenciativo, capaz de conduzir a solugbes inovadoras,
que atendam as condic6es da realidade regional. Um 6rgao
sob tantas injunc6es nao terd, por melhor que seja a sua
organizacgo administrative, condiy6es de desempenho
compativel cor as necessidades da pr6pria regiaio"
Talvez as deficiencias e limitacges da Sucdam fossem
inevitveis em fun'go do context de insergao do 6rgao
numa estrutura colonial determinant. Sabia-se como
corrigir os erros e evitar os problems, mas eles eram tidos
como inevitiveis no process de integrag.o da regiao i
economic externa, national e international. Mas as
condic6es poderiam ser mais favoriveis (ou ao menos a
Sudam disporia de uma alternative) se, na origem, em 1948,
o projeto de criaqAo da primeira agencia de planejamento
regional do pais, a Spvea, tivesse sido acatado.
O projeto que a Cimara Federal aprovou previa que a
administracao da Spvea, responsavel pela execuaio do
Piano de Valorizagcao Econ6mica da Amaz6nia, seria
composta por um superintendent e cinco assessores
tecnicos, todos nomeados pelo president da repiblica, os
tecnicos indicados diretamente pelo superintendent. Um
substitutivo inoculado no Senado criou a Comissio de
Planejamento, formada por 25 membros, seis deles
tecnicos e os demais representantes das unidades
federativas em territ6rio amazonico. O superintendent e
os membros tecnicos seriam nomeados em comiss~o e
demitidos ad nutum.
Dessa modificacao, que torpedeou a formagio de um
quadro t6cnico de carreira de alto nivel e subordinou a
anailise, avalia:ao e aprovagao de projetos a injung6es
political, resultou a salad de frutas do Condel, ja sob a
Sudam, que sucedeu a Spvea em 1966. Sem urma relac.o
de independencia na vinculagAo a presidencia da
Rep6blica e transformado em letra morta o dispositivo
legal que assegurava a Amaz6nia 3% da receita tributairia
national, a superintendencia involuiri, A rigor, deixou de
ser superintendencia da Amazonia para se reduzir a uma
6rgao repassador de ordens superiores dadas de Brasilia
para a Amaz6nia.
O enfraquecimento, que levou ao aniquilamento e ao
fim triste, em meio a denlncias de corrupqgo, foi registrado
nos muitos trabalhos de consultoria que a Sudam pagou ao
long do tempo e enfurnou nas prateleiras, onde mofaram a
falta de leitura e se tornaram bizantinices, a falta de
aplicagAo. Um desperdicio coerente cor o que pensa o
dono da voz sobre a Amaz6nia.


MARQO/2001 AGENDA AMAZONICA 9






IOO CO IHDIAN)


Society
Em 1953 os jornais ainda funcionavam como uma esp6cie
de mural para a elite local. As "notas mundanas" da Folha do
Norteeram a melhor opiao para essas comunicag6es aos pares e
ao p.blico em geral.
AnOncio publicado em 14 de janeiro de 1953:
"Otavio Mendonga, viajando pelo 'Constellation' de hoje,
para o Rio, em ausencia de pequena demora, despede-se de
amigos e clients, aos quais, previne que o escrit6rio de advoca-
cia, dirigido em conjunto com o dr. Orlando Bitar, continue in-
cumbido de todas as tarefas profissionais que vinha pessoal-
mente encaminhando".
Outro anOncio na mesma edi gio:
"No dia 2 do corrente, foi pelo dr. Eug&nio Soares, solicita-
da em casamento, para seu filho, sr. Jorge Soarees, a gentil se-
nhorinha Ana Licia Rodrigues, filha do casal Licia-Mario Rodri-
gues. O pedido foi aceito, cor agrado, devendo o enlace reali-
zar-se brevemente".


Contrabando
Foi concorridissimo o leilao da alfandega de Belem de 17
de outubro de 1953, o "mais vultoso" dos realizados at6 entao.
Milhares de canetas e lapiseiras Parker foram vendidas para ci-
daddos belenenses avidos por produtos da vitoriosa e florescen-
te industria americana do p6s-guerra. Os principals arrematantes
dos lotes foram a Importadora e Exportadora de Tecidos, que
adquiriu mais de Cr$ 1,3 milhao de produtos, Victor C. Portela
(Cr$ 554 mil) e a Importadora de Ferragens (Cr$ 396 mil). O ren-
dimento final do leilao foi de Cr$ 2,2 milh6es.


Anincios
"O mais puro e delicioso cafe que se vende no Pari"
podia ser encontrado na "Confeitaria Bar Sorveteria" Cafe
Santos, que fazia "importacio direta" e dava "descontos a
revendedores", conform anunciava pega de propaganda do
inicio de 1953. O Caf6 Santos, uma instituicio belenense,
continue resistindo na Padre Eutiquio, cercado de camels
por todos os lados.
Ji a "casa mais barateira de Belem" era a Casa Guerra,
de Marcos Guerra & Ltda., uma famosa loja de moda, na rua
Santo Ant6nio, 4.


Moralidade
Em maio de 1954, a Assembl6ia Legislativa do Estado rejei-
tou projeto atrav6s do qual o deputado Armando Mendes corta-
va o pagamento de "jeton" ao parlamentar que se ausentasse do
plenario antes de terminal a sessao, pr~tica tfo comum entio


quanto agora. Votaram contra a media moralizadora: Cunha
Coimbra, Efraim Bentes, Rosda Pereira e Humberto Vasconcelos,
do PTB; Rui Mendonga, Acindino Campos, C6lio Lobato e Lobio
da Silveira, do PSD; Elisio Pessoa de Carvalho e Wilson Amana-
j~s, da UDN.


Desproporgao
Os estudantes secundaristas do Par~ previam que o salkrio
minimo definido (em valores diferenciados por unidade federati-
va) para 1954 pelo president Getilio Vargas viria a ter em Belem
efeitos "os mais danosos possiveis, pela infame desproporciona-
lidade ao do Rio de Janeiro, de onde importamos a maior parte
dos nossos objetos de consume".
O novo salario minimo estabelecido para o Estado iria
"criar uma anulacao na poupanca das classes menos favoreci-
das, enfraquecendo-lhe a resistencia para dispender em bens
de consume, pelo declinio sofrido na categoria relative de ren-
da, e formando verdadeiro SNOBISMO social", conforme a
mogao apresentada por Ant6nio Carlos Simbes, secretirio artis-
tico e cultural da UECSP (Uniflo dos Estudantes dos Cursos Se-
cundaristas do Pari).
Essa mogao foi apresentada em reunilo da qual tamb6m
participaram o president da entidade, Ant6nio Failache, e os
secretfrios Itair Silva, Selma Castro de Lima, Rui Zacarias Mairtires
e Roberto Uchoa. O document justificava tanto empenho da
Uecsp corn o fato de "haverem nada menos de sete mil secunda-
ristas" trabalhando naquela ocasiao em Belem.


Obra
Jonas Brito foi o vencedor da concorrencia p6blica aberta
em 1954 pela Secretaria Municipal de Obras de Bel6m para o
"tratamento superficial asfiltico das travessas Lomas Valenti-
nas, Humaitd e Mauriti, no trecho compreendido entire as Ave-
nidas Almirante Barroso e Pedro Miranda". Por ordem de clas-
sificacAo, vieram a seguir Afonso Freire, Rui Almeida, Fortu-
nato Gabay, Otavio Pires e Urbano Costa. Enquanto Brito pro-
p6s executar a obra em 80 dias, a 1,2 milhao de cruzeiros, os
parametros de Costa foram 160 dias e Cr$ 4,6 milh6es. Foi o
fona. Manoel Cavaleiro de Macedo era o secretirio de obras
da prefeitura.


Antecedente
Quase meio seculo atras, em 1957, uma CPI foi instalada na
Camara Federal (ainda funcionando no Rio deJaneiro, a maravi-
Ihosa capital da repiblica litoranea) para investigar a Spvea (Su-
perintendencia do Piano de Valorizagio Econ6mica da Amaz6-
nia), antecessora da agonizante Sudam, que j, aprontava. Os
deputados estavam atris de irregularidades na aprovagFo de pro-


10 MARO0/2001 AGENDA AMAZONICA


^..I
;~.rL ~ r i -~ r. r-r.r-r.~w. -r-ncrr~r*i~ *~u...-~~nlT-l











jetos e concessao de recursos. Um dos alvos era a Empresa
de Pesca Frigorifico Paraense Limitada, de Mauricio Tamborini,
que havia recebido muito dinheiro da Spvea.
No dia 17 de outubro o depoente na comissio parla-
mentar foi Ricardo Borges, membro da comissio de planeja-
mento do 6rgio (pai do desembargador aposentado Ricardo
Borges e do procurador de justica C6sar Borges, com uma
longa ficha de servigos prestados a causa ptiblica). Ele disse
desconhecer a concessao de financiamentos com pareceres
posteriores (ou com data atrasada). Afirmou que os pedidos
de financiamento tnm interfer&ncia de politicos e at6 mesmo
de governadores, "mas nio tem influencia na decision dos
membros da comissao de planejamento".


Bale
O "Ballet de Belem", dirigido por Frances Beery e integra-
do por "garotas e adolescents" de Bel6m faria sua estr6ia no
Teatro da Paz a 21 de maio de 1954, ao som da orquestra da
Ridio Marajoara. Com sua existencia, "vem preencher uma gran-
de lacuna que se faz sentir aqui, ou seja, a inexistincia de um
grupo que possa exibir-se vez em quando para deleite de todos
n6s", registrava o cronista de journal.
Entre as bailarinas desse corpo de baile estavam Nilza
Cunha, Cl6a Chady, Eva Maria da Silva, Hedy Altman, Miriam
Serruya, Dolores Terezinha Lima, Graciete Cordovil, Ana Ma-
ria e Maria Helena da Silva, Isabel Oliveira Benone (hoje, de-
sembargadora), Waldemira Lopo de Castro, Liliam Caldeira e
Isolda Maria Neves.


Espetdculo
Em 1957 o Cine Teatro Paraizo (com z mesmo), na Pedrei-
ra, apresentou um "colossal espetuculo de tela e palco". Na tela,
o "formidivel filme Expresso de Shangai. Ja no palco seria apre-
sentado o "big" show com os melhores artists que se haviam
exibido na Ridio Marajoara e no "Variedades", o teatro de Felix
Rocque na Festa de Nazard. Abaixo de Picold e Clauthewes esta-
vam nomes sem qualquer expressao, mas puxados por Tontoli-
no, "o notdvel humorista" da TV Paulista canal 5.
Sem cao...


Moda
A sofisticada Lojas Salevy, na avenida Presidente Vargas
222 (t6rreo do edificio Palicio do Radio), vendia, em 1957, ani-
guas em nylon, nylon e renda (o produto mais caro, a 520 cru-
zeiros), soutiens, modeladores, cinturitas (Cr$ 260), calgas cintas
e calgas em nylon (a oferta mais barata, a R$ 60).
Ferramentas para apertar o que excedia, escondendo-o do
olhar masculine.


RETRATO

"Lauro Sodr6"

Diretores, funciondrios, professors, mestres e operirios do
Institute Lauro Sodre se sentavam a mesma mesa, pelo menos uma
vez por ano, para um almogo de confratemizacgo. O de 1953 foi no
dia 5 de janeiro, num dos grandes e arejados sales da instituigao,
fruto do pensamento reformist dos primeiros republicans no Pard
(como o pr6prio lider politico que deu seu nome ao institute).
Na mesa principal do "igape", ao fundo da foto, estavam o
govemador interino do Estado, Abel Figueiredo, o secretirio de agri-
cultura, Ant6nio Lopes Roberto, e o director do "Lauro Sodr6", Soler-
no Moreira, "al6m de pessoas gradas".
O institute deixou de ser uma escola profissionalizante e per-
deu sua importAncia original, entrando numa bolha de vacuo. Um
indicador da pouca importincia que atualmente Ihe 6 atribuida foi o
desabamento de parte de suas instalag6es, no ano passado.
Quanto aos encontros anuais, nunca mais ocorreram.

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ALMOCO DE CONFRATERNIZArAO NO INSTITUTE LAURC SODRE -
Foto do 6gape de fim de ano realisoad no traditional educanddrio do Sousa, em quo
tomaram part* sua diretoria, funciaonrios, professors, mestres e operarias, e que
ondtituiu urma bela festa do congra;amen to.
Na mesa principal, ladeando o director do .~tabelecimento, professor Soler-
mo Moreira, v4em-sa a governador, interino, dr. Abel Figueire3o, a a secretario de
Agriculture, dr. Antonio Lopes Roberto, alim de pessoas grades.


Chap u Virado
Os mais antigos veranistas de Mosqueiro devem lembrar des-
sa image: 6 a parte central do antigo Hotel do Chap6u Virado,
numa 6poca em que a ilha era, rigorosamente, buc6lica. Na parte
baixa do pr6dio, funcionava uma "sortida mercearia". Nos altos,
os apartamentos. Tudo foi reduzido a cinzas num inc&ndio, em
1953. Era uma tipica construgco da arquitetura mosqueirense, que
vai desaparecendo aos poucos, corn a mudanga de gostos e o fim
do isolamento insular.


Esta 4 a port central do Hotel do Cha peu Virado, onde nos baixos funciona.
va, inclusive, uma sortida merceoria. Tudo ficou reduzido a cinzas.


MARCO/2001 AGENDA AMAZONICA 11







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O trato com o caf6 no Para ter tres
seculos, comecando cor Francisco Palhe-
ta. Em todo esse period, a com perdao
da palavra, diria Z6 Trindade rubikcea
foi mais do que um simples produto. Em
determinados moments, funcionou como
moeda ou um instrument de troca cor
status elevado.
Ter caf6 significava estar em posicgo
privilegiada para oferecer um produto co-
bigado em troca de mercadorias importa-
das e colocadas ilegalmente dentro do pais.
Era o period de ouro do contrabando, que
sempre existiu (e permanece existindo) no
baixo curso dos rios que duo para o estud-
rio do Para, acessiveis aos importadores e
pr6ximos dos pontos de transbordo dos
produtos estrangeiros, sobretudo Paramari-
bo e a Guiana Francesa. Ter caf6 era a
melhor maneira de conseguir uisque, per-
fume, sandAlia japonesa e demais badula-
ques e quinquilharias, excepcionalmente
valorizadas do lado de ca da fronteira,
E havia ainda o paladar local a aten-
der, o vicio bem national de temperar tudo


SALI)AM A FAMILIA BRASILEI1A NO ALVOIlECER D.STE
NOVO ANO, DESEJANDO A TOI)OS PAZ. VENTURA E PROSE.
RLIIJADF l E SPEIANDO Q|1r OUTRAS OPORTUNDAII)DES SB
APRESENTEM PARA SERVIR MEIIOR BRUS CLIENTS
U PD O MIGO.
UIm ptODUTO DE

C ** i^.M A fcA


corn um bom caf6. Dai a propaganda, "Ja
tomou Caf6 Gl6ria hoje?", num antincio
de 1965, que virou selo popular. Mas "o
saboroso" caf6 Gl6ria era bem mais ve-
lho: em 1953, estabelecido na avenida
Portugal 17, ele se apresentava como "o
legitimo representante do caf6 brasileiro".
O Manduca, no "limiar do ano novo"
de 1960, se proclamava "o mais saboroso
caf6 do Pard", devidamente "analisado
pelo laborat6rio municipal". Sua torrefa-
gAo e moagem ficavam na rua 13 de maio
159, mas contatos podiam ser feitos pelo
telefone 4151.
Ja o nao menos saboroso Cafe Puro
preferia ser considerado famoso, em 1962,
"pela sua embalagem termica", algo ino-
vador na ocasiio.
Convenhamos que nem sempre os ca-
f6s torrados e moidos em Belem se impu-
nham por seu sabor, no qual os paladares
mais exigentes podiam descobrir laivos de
milho ou coisa que o valha. Com seus vicios
e suas qualidades, por6m, os cafes paraen-
ses tnm uma antiga e rica hist6ria, a espera
de quem se disponha a escreve-la.


No limiar do NOVO ANO agradece, sensl
bilizado, a preferincia dada em 1959 e deseja is
autoridades constituidas, ao clero, ao comirclo,
a industrial. aos bancos. a imprensa escrlta fwa
lada, e aos seus freguises e amigos perenes fell-
cidades no ANO de 1960.


RUA 13 DE MAIO. 159 FONE: 4151.


Agenda Arnazonica
Travessa Benjamin Constant 845/203 Belim/PA- 66.053-040 e-mail: nmaliama7nn mm.hr Telefones: 2237690/2417626 (fax) Produgao grafica: luizantoniodefariapinto