Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00016

Full Text








amazonica
ANO II No 16 BELEM, DEZEMBRO DE 2000 R$ 3,00 L a cio Fld vio Pinto


SECULO


Ainda h


esperan
,1s -. i |. '




A Aaz .n .'a chega ao ,-.,
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final do sculo XX comoa a
region o mais devastada '
em suas florestas, que .
representam um tergon, J /
das mats tropical da .
Terra. Mas se foi assim ao
longo destes 100 anos,'
sera assim no sgculo XXI?
Talvez ndo. Ha razdes
para ter esperanga. No .,.
comno algo metafssico, A
mas como produto do .
bem maior do servsa *" .. '.
human neste mundo: a ,.' .
Siencia. I -


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i .
l 1, t *- ...





A Amaz6nia comecou o s&culo corn nao mais do que
meio por cento da sua paisagem original alterada pelo ho-
mem, algo como 15 mil quil6metros quadrados. A natureza
era o element dominador. 0 home, um detalhe. 0 grande
massacre havia sido human, corn as matancas de indios,
algumas delas motivadas pelo expansionismo do coloniza-
dor, outras sem motivo algum.
Um seculo depois, a Area alterada passa de 15%, ultra-
passando meio milhAo de quil6metros quadrados. A razAo
da menor das densidades possiveis, significa que cinco bi-
lh6es de irvores foram colocadas abaixo, corn intensidade
maior quase total entire quatro d6cadas do period, de
1960 ao nosso atual 2000. Apenas uma fragao dessa devas-
tacao vegetal teve aproveitamento econ6mico. E o aprovei-
tamento dado foi o de menor valor relative: a producao de
madeira s61lida.
Este foi o principal fato amaz6nico do s6culo XX, que
agora chega ao fim, junto corn o segundo milenio depois de
Cristo, na virada ocidental da folhinha do calenddrio. No
inicio do s6culo, a Amaz6nia encantou o mais brilhante dos
brasileiros dessa 6poca, que a percorreu corn a ciencia de
engenheiro, mas sem perder a inventividade do escritor. Im-
pressionado corn uma natureza ainda por arrematar, arreba-
tadora, pelos rios que mudavam de curso e ilhas que se
movimentavam, como se andassem, por forca de sedimenta-
0ao, Euclides da Cunha percebeu que a Amaz6nia era o 61-
timo capitulo do Genesis, a ser escrito nao por uma mro
divina, mas, por delegagio dela, pelo home.
A selva selvaggia, aspra e forte, deveria provocar no
escritor paulista um livro tdo ou mais grandiose do que Os
Sert6es, na qual os personagens principals nao seriam ho-
mens, mas rios, arvores, solos, a terra invertendo a estrutura
do romance para ser-lhe o ~ipice, nao o preiambulo. E certo
que a perspicdcia ji fizera Euclides observer que o serin-
gueiro era o Onico ser que trabalhava para se escravizar.
Quanto mais trabalhasse, mais necessidade de suprimento
teria no barracdo do seringalista, seu aviador, onde os pre-
gos de venda estavam hiper-inflacionados. Maior, portanto,
seria sua divida, ja que a borracha entregue recebia pregos
aviltados, impostos pelo comprador monopolista, monop6-
lio esse baseado numa relag~io de inspiracgo e aparencia
medieval, por isso capaz de criar fantasias entire interpretes
de primeira viagem (e geralmente 61ltima, ainda mais em se
tratando de academicos).
Os homes j. estavam se dando mal entire si, mas esse
nao era um problema novo na hist6ria. A natureza, contu-
do, nao s6 continuava a estabelecer seu imperio, como ti-
nha condig es de lamber, at6 sarar, as poucas feridas que
ja entdo haviam sido abertas em seu corpo. A forma econ6-
mica de produzir na Amaz6nia era o extrativismo, sobrevi-
vente As poucas tentativas de estabelecer uma empresa co-
mercial na regiao, a mais notdvel no seculo XVIII, sob o
iluminismo desp6tico do Marques de Pombal.
O porta-voz, o interprete, o abre-alas da natureza era o
indio, em tendencia decrescente, e o caboclo, em ascensao
pela miscigenacgo. Suas lendas descreviam uma natureza

2 DEZEMBRO/2000 -AGENDA AMAZONICA


nao apenas prevalecente, mas m.gica. Um cip6 passava sem
problems de sua condigao natural A funcAo migica e assu-
mia uma fei~io antropom6rfica, como se os deuses gregos
tivessem ressuscitado em plena rainfoirest e encontrassem
nos nativos parceiros a altura.
Essa fisionomia permaneceu relativamente intacta at6 a
d6cada de 50. 0 mandonismo americano, sucedendo, em
versao ampliada, ao imperio britAnico de pr6-guerras mun-
diais, p6s fim a essa equacao em aberto que deslumbrara
Euclides (antes que uma bala intrusa antecipasse o fim de
seus dias). A Amaz6nia saia da seara da mitologia para ser
incorporada ao circuit da mercadoria. Qual era a primeira
potencialmente apta? A resposta, Aquela altura, era simples:
petr61leo. Nao estava ali, final, a maior bacia terciAria do
planet, onde se acumulam os hidrocarbonetos? Brotar 6leo
era uma questdo estatistica, proporcional A quantidade de
perfurag es.


N uma das primeiras, em Nova

Olinda, no Amazonas, o dleo jor-

rou bonito. Mas foi um jorro pre-

coce. Logo se amofinou. Sem boas

rochas armazenadoras e pressdo

adequada, ele migrava horizon-

talmente, mas ndo esguichavapara

a superficie. A regra da probabili-

dade teria que ser mais demorada.
Corn a tecnologia mais modern de entao, os americanos nao
demoraram a concluir que petr61leo era assunto para muito tem-
po depois, quando as t6cnicas de prospecqAo e extraqAo fossem
aperfeigoadas. 0 melhor, a curto prazo, estava atras dessas for-
mag6es geol6gicas mais recentes, nos espinhacos de prd-cam-
briano, de rica mineralizaqAo.
Soou como m6sica na ante-sala do gigantismo dos EUA,
suas usinas sider6rgicas, a informaqdo de que um caboclo
do Amapi tinha encontrado uma pedra preta valiosa, o man-
ganes, a maior parte do qual as ind6strias americanas im-
portavam da Africa (ja que o acesso aos maiores dep6sitos,
da Uniao Sovi6tica, estava bloqueado pela guerra fria). A
segunda maior das siderurgicas, a Bethlehem Steel, saiu na
frente na abertura do capitulo final da insercgo mundial da
Amazonia, explorando a jazida de Serra do Navio, que ha
dois anos chegou A sua exaustao, ap6s quatro d6cadas de
lavra intense, voraz. A primeira das gigantes (ou paquider-
mes), a United States Steel, arranchou-se, em seguida, do
outro lado do rio, em Carajis.
Mas se era para avancar por sobre a area de inundagao





do Amazonas e alcancar suas terras altas, por que nao inun-
dar essa depressao e chegar aos alvos por igua? Essa era a
conseqincia 16gica do piano dos grandes lagos amaz6ni-
cos, referendado por Herman Kahn, o home de QI mais
alto, e seu Instituto Hudson, que costuraram id6ias de liga-
56es isoladas apresentadas por terceiros. 0 maior de todos,
em Obidos, o trecho mais estreito do Amazonas (com dois
quil6metros de largura), inundaria Santar6m e Manaus, en-
tre virias cidades da bacia, mas permitiria gerar 100 milh6es
de kw (12 Tucuruis completes), atrav6s de uma barrage de
baixa queda.
Mas isso era jogo intellectual. A espinha dorsal do pro-
jeto estava nas as terras firmes. Essa era, at6 entdo, a parte
ignota da Amaz6nia. S6 as populag6es mais primitivas havi-
am enveredado por essas paragens, ou aqueles grupos indi-
genas tocados da beira do rio pela perseguiq.o dos colonos
europeus. Estes, se no litoral viviam arranhando praia, na
Amaz6nia s6 iam ate6 onde pudessem rolar madeira ate o
primeiro curso d'dagua. Era uma limitacgo ditada tanto pelo
mercado quanto pela tecnologia. Da margem nao se ia al6m
de uns 40/50 quil6metros. E, pelo rio, at6 o seu limited razo-
avelmente navegivel.
A partir da Bel6m-Brasilia, na vertente de uma diretriz
internal (ainda a saga da "corrida ao oeste"), e da Transama-
z6nica, que incorporou um principio geopolitico ("integrar
para nao entregar"), o element novo e irremedidvel 6 a
ocupac.o da terra fire amaz6nica por rodovia, uma veia
artificial rasgada no centro da regiao para ser um foco in-
discriminado de problems e um ponto de atracao de gente
e sonhos a maneira dos antigos mata-moscas. A abertura
dessa fronteira nao foi feita para realizar um projeto de des-
coberta do novo e sua incorporagao na devida media e
capacidade dos seus recursos. Era um projeto negative, contra
algo.
No iambito interno, uma resposta ao secular problema
(ou manipulag~o) da seca no Nordeste, de braqo dado corn
o latifOndio dominant na Zona da Mata, a terra rica e, des-
de sempre, controlada pelos mesmos usineiros (que recei-
tam para qualquer anomia social o rem6dio da migracbo
compuls6ria, acalentada por mitologias sebastianistas ou de
outro quilate, como a bandeira verde), corn o mesmo pro-
p6sito: mandar a riqueza para os associados de al6m-mar,
onde tamb6m estabelecem seu segundo (na verdade, o pri-
meiro) domicflio, fisico e mental.
No piano externo, estradas de penetrag~o no desco-
nhecido das florestas altas eram uma afirmaqio da sobera-
nia national contra a cobica international, sempre mais alerta
do que a UDN dos nossos antigos bachar6is (que seus disci-
pulos, os udenistas de espada, se encarregaram de arqui-
var). Os pirates de contador geiger (hoje, armados de GPS)
podiam se aproveitar de haver tantas matas para se ocultar e
tantos habitantes rudes para manipular. A imunizagio con-
tra eles consistiria em substituir floresta por pastagem, estra-
da, rogas, cidades, hidrel6tricas, enfim, impor a marca dc
home sobre a da natureza, marca estandardizada.
0 que perdessemos seria compensado por continuar-


mos a ser brasileiros, cada um dos (hoje 17 milh6es) habi-
tantes amaz6nicos e os 5 milh6es de km2 da Amaz6nia para
efeito administrative e dessa panac6ia duvidosa (quando nio
letal) conhecida como incentives fiscais. Por isso, ninguem
se importava quando milhares de drvores eram derrubadas e
queimadas para, no lugar, ser plantado capim, alimento para
um incerto boi depois, de uma incerta atividade produtiva
no future sem future (ou, como se diria a seguir, sem sus-
tentabilidade), ciclica, rotativa.
Afinal, a terra tinha tanto mais valor quanto mais nua
estivesse (daf o conceito operacional do VTN Valor da
Terra Nua), destituida de sua cobertura original para a for-
ma~io de benfeitorias, sem as quais ningu6m mais podia
ser detentor do im6vel (jd entio com valor de troca e nio
mais apenas de uso, como a forma prevalecente sob o ex-
trativismo vegetal). Por forta dessa 16gica da desintelig.n-
cia, garantimos nosso lugar na hist6ria universal, nao deste
seculo apenas, mas de todos os s6culos, passados e (prova-
velmente, a falta de materia prima corn a mesma abundan-
cia) futures, como o povo que mais destruiu floresta em tal
espaco de s6culo (quatro d6cadas representatives).
Os que sobre n6s escreverem a maior distAncia no tem-
po dificilmente conseguirdo entender tal irracionalidade.
Esse, alids, 6 o n6 g6rdio amaz6nico. Ou esta 6 uma regiio
igual as outras do planet, ou ha nela um component dife-
renciador, ao qual demos o nome de Amaz6nia a partir de
uma primeva fantasia espanhola do final do s6culo XV (pu-
lando para o XVI), sobre guerreiras amazonas, que o pri-
meiro colonizador europeu aqui chegado (antes de Cabral)
nio viu, mas quis ver (por falar nisso, uma das tradiq6es da
produg o intellectual sobre a Amaz6nia at6 hoje, ao menos
a produzida no Ocidente).
Esse especial "organismo harm6nico" que nos surpre-
ende 6 produto de uma rara sinergia entire aigua, sol e vege-
tais, em circuit absolutamente fechado, o solo sendo uma
circunstancia na maior parcela do territ6rio. Esse conjunto
nio tern espago para o home, mais intruso do que na mai-
oria dos outros lugares desta Terra azulada. 0 home at6
pode ser admitido no cendrio, mas pedindo licenca, tirando
os sapatos, jogando o cigarro lI fora, aceitando as regras do
jogo. Isso nio quer dizer que a Amaz6nia precisa ser deixa-
da na redoma, que deve virar museu ou santuirio. Mas que
a economic principal 6 a da natureza. E 6 exatamente ela
que devemos aprender para usa-la inteligentemente, com
ganhos.
A deducgbo 16gica desse pressuposto 6 de que a ciencia
tem uma importancia decisive, essencial na Amaz6nia. E ver-
dade que inexiste uma ciencia em abstrato, altruista, a servi-
co de uma humanidade gen6rica. Mas 6 na ciencia que a
margem de autonomia 6 maior do que nos outros ramos de
atuag~o do home (abaixo da arte apenas). A ciencia 6 quase
sempre utilitdiria, tem um roteiro pr6vio e pode servir ao anti-
humano (de que o nazismo 6 o exemplo mais assustador).
Mas nio sempre. Principalmente quando o home esta ocu-
pado corn outras coisas, ela pode ter um papel decisive.
Foi o que aconteceu no p6s-guerra corn o Instituto da

DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 3





Hileia Amaz6nica. Depois que o senador mineiro (e ex-pre-
sidente) Arthur Bernardes liderou uma campanha contra o
projeto (poderiamos dizer, a maneira de Emile Zola: ah, os
nossos compatriotas de boa vontade), ele passou a ser visto
como a quintessencia do entreguismo. Mas qual iniciativa
seria pr6-imperialista depois da Segunda Guerra Mundial sem
um patrocinio, apoio ou simpatia dos Estados Unidos? E ain-
da mais: enfrentando a aversdo dos americanos? Pois a Hi-
16ia, que primeiro seria national e se internacionalizou em
busca da solidariedade dos homes de boa vontade, conce-
bida por brasileiros, foi torpedeada por Tio Sam, nos basti-
dores e explicitamente.


N o interregno entire o alivio

mundial corn a derrota do Eixo

e o desencadeamento da guerra

fria, a Unesco, a bandeira ci-

entifica da ONU, era quase um

campo neutro, ou independen-

te o suficiente para nao servir

de biombo a um mero expansi-

onismo econ6mico ou cultural.
A bitola de um nacionalismo estreito, incapaz de abarcar uma
nagAo tao multifacetada como o Brasil, e sempre deixando de
fora uma regido exageradamente grande (em todos os senti-
dos) como a Amaz6nia, matou no nascedouro uma id6ia que
tinha sementes suficientemente boas para, ao menos, ser tes-
tada. Ainda sobreviveram germes dessa necessidade durante
o period (1953-66) em que a SPVEA (Superintendencia do
Piano de Valorizacao Econ6mica da Amaz6nia, antecessora
da Sudam) inaugurava o planejamento regional no Brasil corn
uma carta de cr6dito ou uma morat6ria: antes de dar o toque
de avancar, corn agudos nacionalistas ante a iminente amea-
ca da cobica international, estudar, revelar e valorizar.
Mas teve pouco tempo e fez pouco. Logo, bulldozers
avanqaram sob a frigil floresta da terra firme, esticando es-
pinhas de peixe por onde passavam, enquanto (1971-73) o
modelo de ocupacao foi a colonizacao official dirigida, ou
rasgando extensos descampados quando a parceria se fez
corn o grande capital, fechando a porteira do que se dese-
nhava como o Eden fundidrio national, onde, por forqa do
seu mero deslocamento espacial, o antigo parceiro ou ar-
rendatirio se tornaria proprietario rural.
Os indices de desmatamento recuaram daquelas marcas
dantescas da d6cada de 80, mas nao recuaram tanto, nem recu-
aram para sempre. Nao s6 nao ha uma crenga na sua positivi-
dade, como persiste uma desconfianga arraigada, de que o con-
4 DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


trole ou a limitag o da atividade produtiva, tal como ela 6 en-
tendida al6m-Amaz6nia, 6 um cavalo de Tr6ia, da qual brota-
rAo gregos inimigos na calada da noite, abocanhando a maior
part deste pais, internacionalizando ou, quem sabe, depois do
desastroso Piano Col6mbia de Clinton, americanizando-o.
Desconfia-se tanto da ecologia neste final de s6culo
quanto se desconfiava de antrop6logos no s4culo passado
(e ainda em meados deste). Muitos antrop6logos nada mais
eram do que pracistas dos seus patr6es imperialistas em ter-
ras ultramarinas. Mas a antropologia forneceu ao home
um espelho reflexivo e uma bOssola corn a qual p6de sair
de circulos concentricos limitadores, empobrecedores. A
ecologia tamb6m veio para ficar, a despeito de todas as bru-
xarias, manipulag6es e velhacarias, porque 6 uma das vil-
vulas de seguranca de um home que atingiu o poder de
destruir seu pr6prio universe, ou de sair de uma exploraAio
irracional para uma nova idade das cavernas.
Muito flibusteiro pode se escorar em arguments ecol6-
gicos para vender seu peixe ou saquear o pescado alheio.
Mas ele n~o seri imobilizado apenas nem principalmente -
com Sivams (de 1,4 bilhAo de d6lares, s6 pra dar partida no
projeto) ou exercitos, nem cornm uma ladainha desenvolvimen-
tista anacr6nica. Contra ele, a melhor forga 6 a do conheci-
mento e da informacao. Ningu6m nos fard maior mal na Ama-
z6nia se soubermos sobre ela mais do que o contender ou
adversdrio. Tdo bem armados assim, podemos enfrentar qual-
quer audit6rio, nos entestar em qualquer confront e nos abrir
A cooperacAo sem o risco de sermos usados, servindo de ins-
trumento a efeito multiplicador que sera exercido lI fora.
Hoje ainda somos plenamente territ6rio brasileiro e inte-
gralmente cidadaos brasileiros. Mas estamos mais ricos? Con-
seguimos diminuir a distAncia que cada vez mais nos separa
dos brasileiros mais ricos (nem cabe falar dos estrangeiros
mais e mais ricos)? Temos o dominio da nossa vontade (ou,
por outra, temos vontade)? Um ciclo de grandes projetos s6
resultou em empobrecimento relative, vis-a-vis nossos supos-
tos parceiros. No entanto, outro ciclo ji comega, cornm cobre,
caulim e soja, prometendo as mesmas coisas, carregando as
mesmas origens e os mesmos defeitos.
Num s6culo em que houve confianga quase cega na
ciencia e fascinio por fantAsticos incrementos de producao
e produtividade, capazes de sustentar consumismo desen-
freado, a Amaz6nia comegou a se descaracterizar e a se
apresentar como um problema de grandeza mundial. Num
s6culo que esta comecando, demarcado pela consciencia
de que a Terra se tornou suscetivel ao impeto destruidor do
seu habitante mais nobre (e mais devastador), talvez a eco-
logia deixe de ser considerada uma ciencia alquimica ou
um golpe de ilusionismo para assumir seu verdadeiro papel,
de instrument de aproximag o do home cornm a natureza,
de harmonia nas suas relac6es produtivas, centralizadas na
sensibilidade, no saber, na informacao e na inteligencia. Se
for assim, ainda haverd esperancas para a Amaz6nia. E, se
redivivo nesta passage milenar, Euclides da Cunha talvez
voltasse acreditar que esta iltima pagina do Genesis quem
vai escrever e bern ser. mesmo o home. A





COLONIALISM E INDUSTRIAL CULTURAL



Vicente



Salles

Abro espago nesta edigjo para reproduzir umrn
important texto que Vicente Salles escreveu
para apresentar na mesa redonda "Cultura e
Sociedade na Amaz6nia", no dia 16 do mes
passado. Problems de saude retiveram
Vicente em Brasflia. Ao receber cdpia do
document, achei que nao podia deixar de
repassa-lo a opinido public, pelas quest6es
que suscita e as provocag6es que faz a uma
analise mais aprofundada do problema
cultural na regiao. Vicente Salles 6 historiador
e musicologo, membro do Instituto Histdrico
e Geografico Brasileiro e da Academia
Brasileira de MWsica, com uma extensa e
sdlida obra produzida sobre temas
amazonicos.

1. Ha vida inteligente na Amazonia?
Eu venhopara esta mesa trazendo uma inquietante indagagdo
de Lhcio Fldvio Pinto: "Hd vida inteligente naAmaz6nia?" Ojorna-
lista afirma que muitagente "'d embaixo" tein apostado que ndo. Ndo
s6 apostado: se vale dessa crenca. Em muitos, ela efirme, ainda que
falsa. Nas mdos de outros, viraferrarnenta, as vezesgazua. Por isso,
ignoram a vontade dos que vivem naAmaz6nia, dos que realmente
fizeram sua opgdopela regido, tenham ou ndo nascido nela.
Navegando nas dguas turvas da modernidade nos guiamos
pela rosa-dos-ventos: ela indica quetambem Li. cinia'", nasregi-
des doprimeiro mundo, h n muita gente apostando ese valendo da
mesma crenga.
0 colonialism internopodeserapenas o bravo direito do colo-
nialismo externo.Juntos, cometem os maiores desatinos. Entre os eles
oprojeto de degradagdo cultural, que corrompe os valores eticos e
esteticos, destr6i a mem6ria e apr6pria identidade de umpovo.
Osprodutores culturais- aqueles que dumaforma ou doutra
provam que aqui temos, defato, vida inteligente-
comprometidos com a arte e opensamento reflexi-
vo, dotados de algum sentiment de amor-prtprio,
devem reagireexporabertamentesuaanimosida- ..
de irreconcilidvel em face da degradaido dosseus
bens culturais e em defesa de sua dignidade pro-
fissional. Suapostura ndo deve serpassiva, mas
ativa. Deve responder com firmeza e determina-
cdo a carta-circularde Lucio Fldvio Pinto, opor-
tuno chamamento aos brios do velbo caboclo.


Tal postura contriria ao conservadorismo cultural sempre
atrelado ao powder reflete o descontentamento, o inconformismo,
a certeza de que temos vida inteligente, estamos aptos para expri-
mir e defender nossos pr6prios interesses e ideas. A palavra 6 o
nosso tacape.

Quando o Govemador e Capitdo General Francisco Xavier
de Mendonga Furtado decidiu instalar-se na vila de Barcelos, hoje
Manaus, a fim de parlamentar corn autoridades coloniais espanho-
las as questoes de dominio da Amaz6nia e marcar as fronteiras,
em 1754, encomendou ao irmao, Marques de Pombal, primeiro
ministry do rei Jos6 I, nada menos de 500 berimbaus (de boca),
certamente para fazer escambo corn os gentios. Diz-se que os in-
dios eram loucos por berimbaus e trocavam qualquer coisa pelo
brinquedo sonoro.
Esta olhada para o s6culo XVIII tamb6m projetamos para o
s6culo XXI, considerando a sociedade em que vivemos e a cultural
que nela se ajusta. Mendonga Furtado veio para a Amaz6nia corn
a incumbencia de mudar o aparelho de Estado e promover verda-
deira revolucgo cultural.
Os berimbaus de Mendonga Furtado se transformaram no
seculo do capitalism triunfante em garrafas ou latas de coca-
cola.
Quando a coca-cola decidiu instalar-se em Manaus, corn in-
centivos fiscais da Suframa e outros generosos incentives, levou
consigo executives brasileiros e o projeto de promover verdadeira
revolucgo cultural na terra do guaranA. Decidiu patrocinar um fol-
guedo popular e escolheu uma comunidade regional, cujos habi-
tantes sao alegres festeiros, como cobaia de uma experiencia de
degradacgo cultural sem igual na Amaz6nia: o boi de Parintins. 0
sucesso da empresa servira de exemplo para projetos semelhantes
no vale.
Colonialismo e indistria cultural sao parties que se combi-
nam, ja que visam atrelar expresses da vida e dos costumes po-
pulares a indtstria. 0 bem cultural, expressao do folclore, que 6 o
dominio coletivo do conhecimento, pode afortunadamente se trans-
formar em produto de ficil manipulagAo, ja que 6 bern aceito em
toda a parte e por todos os membros da comunidade.
Todos sabemos que o folclore abrange a cultural popular,
mas o conceito de cultural popular nem sempre abrange o folclore.
0 conceito de cultural popular foi elaborado e s6 tern sen-
tido na sociedade de classes. 0 folclore, em tese, supera as
limitag6es de classes, permeia todos os estratos socials. 0 folcloris-
ta deve estar apto a fazer essa distingao e a concluir que o folclore
6 a cultural do povo: que, embora ele se deva, por agao e por
omissao, a toda a sociedade, dele apenas o povo se serve. (V.
Salles, Questionamento te6rico do folclore, Vo-
zes, Petr6polis, 1969, p. 883).
0 sucesso da ind6stria cultural estd portanto
estreitamente ligado as regras do jogo capitalist
na sociedade de classes. Uma aplicagao invertida
do conceito leninista revolugao cultural; e uma
reafirmagao da cultural analisada em terms do
"fetichismo da mercadoria" (Marx, 0 Capital, livro
I, cap. I, 4) a forma mais simples e universal de
usar a cultural como fonte do lucro (mais valia).

DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 5





2.A Arte como expressio da capacidade criadora de
um povo
O home, diz Marx corn simplicidade, 6 um ser social; o
individuo, um conjunto de replaces sociais. Os individuos se agru-
parn por aspirac6es e interesses comuns, mesmo sem ter disso
consciencia, formando assim as comunidades humans que cha-
mamos de classes, povos, naq6es ou sociedades.
Parafraseando Marx, pode-se afirmar: o home 6 um ser
artist. A arte em todas as manifestag6es, para Marx, 6 sempre uma
prova viva da existencia criadora do home.
O capitalism cria condic6es hostis ao florescimento da arte
popular na media em que limita Q seu Ambito e imp6e restrigOes
a iniciativa popular. Nao costuma ver a existencia criadora do ho-
mem enquanto ser social; s6 pode ve-lo enquanto individuo. Ten-
de, portanto, a considerar a obra de arte propriedade privada de
algu6m, merecedor de proteqgo, detentor de direitos (V. Salles, 0
folclore em face do direito de autor, 1999).
O Folclore, enquanto expressao da cultural, 6 o dominio co-
letivo do conhecimento. 0 ser social se identifica corn a arte po-
pular mediante o Folclore. E manifesta, pela arte, a opressdo e
expropriacao dos seus sentiments.
Entre os individuos, criador e consumidor, coloca-se o mer-
cado. Na sociedade de classes o mercado 6 regido pelas leis espe-
cificas desse tipo de organizacao social. Hi, al6m disso, os "ele-
mentos intermediarios" do process, os comerciantes, os capitalis-
tas, que se interessam apenas pelo venal, o curioso, o pitoresco,
por aquilo que pode ser explorado economicamente e dar lucros.
A cultural popular na sua maior parte 6 menosprezada e assim
aparece como uma expresso artistic degradada.
Tomemos o exemplo das relag6es do folclore corn o turismo
e corn os meios de comunicacgo de massa. Elas partem de cuida-
dos seletivos e julgamentos de valor segundo conceitos est6ticos
estereotipados, que excluem tudo aquilo que nao se adapta ao
interesse do mercado. Escolhem o "belo" e o "bom", o "6til" ou o
"agradavel" de ver e ouvir. 0 "resto" 6 desprezivel, vai para o
limbo. As "escolas" de artesanato e os "grupos" organizados de
danga e folguedos sao preferidos. E costumam ser expostos corn
o maior requinte. Na verdade, quem gosta do feio (ou da misdria)
6 intellectual, falou o fil6sofoJoaozinho Trinta, um dos batalhado-
res da projecao corn lucros pecunidrios ou simplesmente de
midia da arte popular. Talvez corn razdo. No mercado, onde se
exp6e a mercadoria cultural popular, os lucros justificam os meios.
Mas a matdria nao pode parar na fala dos comunicadores
sociais a servigo da indistria cultural. Ai mesmo 6 que deve come-
qar a discussed. Pois ela envolve mais do que o born e o belo, o
6til e o agradaivel. Envolve as concepc6es de vida e de ser do
artist popular.
Do ponto de vista da folcloristica, a materia tern sido objeto de
reflexes e preocupag6es. Ainda mais quando se assisted a prosperi-
dade dos neg6cios do turismo e dos empresiarios da indistria cultu-
ral, em detrimento de parcela considerivel da cultural popular e da
exclusao dos seus mais legitimos representantes. A animaco cultu-
ral ganha espago corn o empresariado cultural, corn os fabricantes
de festivals e carnavais extemporineos, que avanpam no bolso do
trabalhador, muitas vezes corn o apoio do poder publico.
Um dos resultados mais danosos da acao promiscua do

6 DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


poder piblico com o poder econ6mico, no caso da cultural
popular, consiste em verdadeiramente "profissionalizar" gru-
pos folcl6ricos, colocados a servico de instituig6es p6blicas
ou privadas, mobilizando plat6ias numerosas para espeti-
culos puramente comerciais em que palco e platdia se con-
fundem, conforme os conceitos da modern dramaturgia,
estimulados por uma parafernilia eletr6nica cada vez mais
ensurdecedora.
Essa questao do ponto de vista econ6mico leva a massa a se
desfazer de parte de seus salirios na compra dos chamados qui-
tes, al6m do pagamento de ingressos, largo consumo de bebidas,
o fumo de variado sabor e entorpecentes. Muitas pessoas se ren-
dem facilmente. t exigido apoio do Estado, no que diz respeito ao
espago e sua adequagAo e, em especial, h seguranga piblica, sa-
bendo-se que os grupos mais organizados s6 se movimentam corn
seus pr6prios esquemas de som, transport, hospedagem, services
de boca e de seguranca etc.
Chegamos ao ponto de ver conhecida multinational de
xarope se apossar do boi de Parintins numa guerra desigual
corn o native guarani, traditional e cultivado ali na vizinhan-
ca, no municipio de Mauls. A beberagem multinational insta-
lou-se em Manaus, corn generosos incentives fiscais e chega a
participar do aparelho de Estado, ampliando sua agAo e capita-
lizando maiores privil6gios.
Esta 6, portanto, a cultural vilipendiada e garroteada. Aquela
que chega a casa do brasileiro contabilizando lucros para os in-
dustriais de xaropes, aparelhos sonoros, cigarros... t verdade que
hi, de quebra, o estimulo a iniciativa privada aspirante de chegar
um dia ao andar de cima e que faz objeto do seu com&rcio perif6-
rico o artesanato de t6nicas, abadas, aderegos diversos, comes-e-
bebes, e at6 tatuagens.
A ind6stria do lazer tern pois a fungco delet&ria de favorecer
lucros ao capital, a iniciativa privada formal e informal. t um in-
vestimento de capitalistas. Os fins justificam os meios.
3. Os embustes culturais
McLuhan ji em 1951 mostrava todo um folclore imprevisivel
e esp6rio francamente em oposigio aquela esp6cie de folclore
emergenteestudado pelos folcloristas, e em cujo meio a cancao
popular, a cancao de protest inclusive, passou a viver. Muito do
folclore Ricardo M. Dorson cunhou a expressao correta:fake-
lore- da era industrial, diz McLuhan, vem dos laborat6rios, dos
studios, das agencies de publicidade.
Esse fil6sofo da era industrial, hoje um tanto fora de
moda, costuma apresentar os meios como agents ativos e os
series humans como simples recipients passivos no proces-
so de transformagio das sociedades. Suas teorias sobre -mei-
os de comunicagao. tiveram grande divulgacAo em v'arios pa-
ises, no Brasil tamb6m tidas entao como extremamente
-avangadas.. Essa Jfilosofia. faz da forga de persuasao uma
forga decisive na mudanca dos feitios sociais. Trata-se
simplesmente da degradagao da cultural pelo impact dos
meios de comunicacio. A capacidade inventive dos fabricantes
de folclore nao 6 tio limitada como pode parecer a primeira
vista. Eles descobriram algo novo e que no se deve subesti-
mar: a utilizagao de formulas publicitarias extremamente aces-
siveis a generalidade das populac6es.





A relative facilidade corn que esse fake-loreganha aceitacAo
popular por imposicao da mdquina publicitAria merece atengAo,
sem d6vida, porque atras de tudo isso, tutelada pela -ciencia da
comunicagAo., universaliza-se um de seus rebentos: a folc-comu-
nicago. Seu te6rico e seu fil6sofo: Marshall McLuhan...'
Verificou McLuhan que, a despeito da diversidade das in-
venc6es e das t6cnicas abstratas de produgao e distribuigAo,
ha no -folclore. da era industrial grande coeslo e unidade, que
nao sao conscientes -na sua origem ou nos seus efeitos., pare-
cendo originar-se duma esp6cie de sonho coletivo. Seu apelo 6
puramente subliminar, ou seja, abaixo do nivel da razao
consciente. Ele pode nao coincidir portanto com os desejos e
os interesses das classes subaltemas da sociedade, mas ao -emer-
gir. traz implicitos, ou rotulados, desejos e necessidades artifi-
ciais que logo se manifestardo.
0 folclorista deve estar atento e deve saber refutar fron-
talmente teorias, como a de McLuhan, para quern todos os
progresses tecnol6gicos industrials importantes do nosso tem-
po sao provenientes do militarismo e da guerra, procurando
englobar nela nao apenas todo o campo da cultural popular,
inclusive radio, antncios de televisAo, espor-
tes, programs c6micos e an6ncios de jor-
nal, como se tais coisas representassem a
mais important arte contemporanea. Nao de-
ve por6m desprezar os fatores que dco ori-
gem a estas concepg6es e aos embustes cul-
turais que delas decorrem. Na verdade, elas
partem de um fato concrete: de um process
de manipulag~o de mentes sem que as pes-
soas percebam que estao sendo manipuladas.
Para McLuhan, o meio de comunicao.o 6 a mensagem.
Ela visa aquilo que Edgar Morin denomina o .novo grande sin-
cretismo., resultante de verdadeiro -cracking. analitico que trans-
forma produtos naturais em produtos culturais homogeneiza-
dos para o consumo macico, corn uma finalidade imediata: o
lucro e uma vigorosa reafirmagAo da mais valia. Neste process
-certos temas folcl6ricos sao absorvidos pela cultural de massa
e, corn ou sem modificac6es, sao universalizados.. A cultural
industrial pode transformar os produtos naturais, alterd-los mais
ou menos profundamente em fungao do consumo universal.
Pouco importa a destruiqAo do conte6do qualitative da cultural.
O que manda 6 a lei do mercado, cinica na media em que se
imp6e na pr6pria lingua do capitalist. Festas tradicionais e
comuns a muitos povos se homogeneizaram, como o Natal de
Cristo no mundo cristio. Alguns focos de resistencia se mani-
festam em guetos culturais, a exemplo do pastoril de pastori-
nhas. Agora se expand novo produto de exportacao, visando
lucros financeiros, 6 o dia da bruxa. Que bruxa e em que lin-
gua?
Morin mostra como isso se process e conclui: -a cultural
industrial nega de modo dial6tico a cultural do impresso e a cultural
folcl6rica; desintegra-as integrando-as, integra o impresso e seus
conteddos, mas para metamorfosed-los; desintegra os folclores,
mas para corn eles universalizar certos temas. Acrescentemos: ela
sincretiza em si os temas e estruturas da cultural impressa e os da
cultural folcl6rico-arcaica..


4. Corromper e descaracterizar as peVas de
resistencia
A apropriagAo do folclore pelos meios de comunicagao de
massa, como mercadoria de consumo, 6 capaz de transformar datas
festival de cunho religioso e profano desrespeitando peculiarida-
des e identidades pr6prias de povos, cultures, minorias.
A universalizacao de certos temas da matriz tern seu corres-
pondente na maquiagem de certos temas dos povos colonizados.
Ai 6 que brota o embuste, a mentira artificiosa. 0 process progra-
mado que degrada, corrompe e descaracteriza as peas da resis-
tencia. Um tema 6 escolhido. Uma comunidade serve de cobaia. 0
tema mais expressive na Amaz6nia 6 o boi-bumbi, variante regio-
nal do bumba-meu-boi, o folguedo de maior expressao est6tica e
social no Brasil. Exprime luta de classes e nao luta tribal.
0 projeto de intemacionalizagAo da Amaz6nia passa neces-
sariamente pela degradacao dos valores culturais e a utilizacAo de
meios bem sucedidos da experiencia empresarial na cultural, como
o do camaval e dos festivals fora de 6poca. A verdadeira cultural
popular estd destinada a sobreviver em guetos.
A comunidade de Parintins, nas vizinhanqas de Mauds, a
terra native do guarani, transformou-se na co-
baia da coca-cola para implantar seu projeto de
degradacao de uma expressao do folclore ama-
znico e "universalizd-la" da mesma forma que
da matriz patte a universalizaco das bruxas. Ata-
car a cultural na sua raiz, pois os paises perten-
cem de fato aos seus credores. Como na estori-
nha neoliberal: os devedores lhes devem obedi-
encia e o born comportamento se demonstra pra-
ticando o socialismo, mas um socialismo as aves-
sas: privatizando os ganhos e socializando as perdas. Logo os
credores impacientes desalojarao os donos do poder local, e, como
no poema de Pablo Neruda, os sitrapas se sentarao em suas pol-
tronas aos gritos de: "Basta de intermediArios!"
Uma nota despreocupada do cronista Edwaldo Martins, em
0 Liberal, 12 de janeiro de 1997, narra sob o titulo "0 Amazonas
pela coca-cola":
"0 governor do Amazonas conseguiu a proeza de arran-
car o director de Assuntos Estrat6gicos da Coca-Cola no Brasil,
para transformd-lo em Secretirio de Indtstria e Com6rcio do
Estado, pagando-lhe 250 mil reais ao ano durante os quase
dois anos em que ainda durard o mandado do governador
Amazonino Mendes. Desde 1995 Correa coordenava o Projeto
Parintins, o patrocinio que a Coca-Cola presta ao Festival Fol-
cl6rico dos boia amazo-nenses Garantido e Caprichoso".
5. A Degradagao da Cultura e a Globalizacao
0 soci6logo alemao Roberto Kurz viu 4 moments da
degradacgo da cultural na sociedade capitalist:
1. A cultural, no sentido amplo, parecia ser uma ativida-
de "supra-economica" que, como simples subproduto da vida,
foi banida para o campo chamado "tempo livre". Essa a pri-
meira degradagdo: ela se transformou num assunto pouco
s6rio, num simples momento de lazer".
2. Mas tao logo o capitalism dominou integralmente
a reprodugao ma-terial, seu appetite insacidvel estendeu-se
tamb6m as configurac6es imateriais da vida e, na media

DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 7





do possivel, comegou a recolher pega por peca da engre-
nagem e submet&-las A sua peculiar racionalidade empre-
sarial. Essa foi a segunda degradagdo da cultural: ela pr6-
pria foi industrializada.
3. Repetiu-se, corn isso, o que Marx dissera sobre as mu-
dancas da produgao material, pois a cultural tamb6m passou
pela transigAo do estigio "formal" para o estagio "real" de
submissao ao capital. 0 capital nao queria mais ser apenas o
agent da circulagao de bens culturais, mas dominar todo o
process de reproducao. Arte e cultural de massas, ciencia e
esporte, religido e erotismo, cresceram de produgco como
carros, geladeiras ou sabres em p6. A produgao de cang6es e
romances, de descobertas cientificas e reflexes te6ricas, fil-
mes, quadros e sinfonias, de events esportivos e espirituais,
tudo isso 6 mercadoria de consumo. Essa foi a terceira degra-
dagao da cultural: s6 pode ocorrer como produgco de capital
(mais-valia).
4. 0 fim do socialismo e o keynesianismo abalou forte-
mente a cultural, pois ele se viu privada de seus meios. Os Esta-
dos nao se desarmaram militarmente, mas culturalmente. Numa
pequena parcela do espectro cultural, os investimentos priva-
dos tomaram o lugar dos incentives estatais. Nao hi mais direi-
tos sociais e civis, mas apenas o arbitrio cari-
cativo dos ganhadores do mercado. Os produ-
tores culturais viem-se expostos aos humores
pessoais dos rajas do capital e dos mandarins
da administragdo, para cujas esposas eles de-
vem servir de hobby e passatempo. Como bo-
bos da corte e os servigais da Idade M6dia,
eles sdo obrigados a portar os emblemas de
seus senhores, a fim de serem iteis ao marke-
ting. Essa 6 a quarta degradagdo da cultural.
Kurz mant6m uma postura de critical aos marxistas, mas parte
exatamente da visao marxista do process cultural, e os conceitos
de "indistria cultural" examinados por Adorno e Horkheime no
trabalho conjunto Dial6tica do esclarecimento, 1947.
Na indistria cultural o principio da mercadoria 6 levado a
seu extreme, nao apenas na producao "est6tica" mas, at6 mes-
mo, na esfera da personalidade. Marcuse viu nesse process
de "mercantilizagao" da cultural a transformagao da culturala
superior" em culturala material", onde a primeira perde seu po-
tencial critic. A cultural, como o sexo, torna-se mais acessivel,
mas sob uma formaa degradada" (Marcuse, Eros e a civiliza-
0do, cap. 3).
Essa 6 a fonte de inspiragAo de Kurz, fil6sofo caro aos
neoliberais.
Uma abordagem mais geral e vigorosa dos processes iden-
tificados anteriormente tern que levar em conta tamb6m o im-
perialismo visto como um fen6meno tanto cultural como do
exercicio do poder interdependente civil e military. A induistria
b6lica 6 sem divida o mais fantistico segment do capitalis-
mo. Segundo esse tipo de andlise o virtual monop61lio, por
parte dos pauses ricos, da televisAo, da produgao de livros e
revistas e das agencias noticiosas, 6 apenas um aspect de
um process no qual o Terceiro Mundo esti exposto como
cobaia de uma cultural industrial e commercial na esfera da

8 DEZEMBRO/2000 -AGENDA AMAZONICA


produgao e a uma manipulagao do consume que estimula a
mA distribuigco dos bens.
Questdo de tal amplitude 6 uma preocupagAo ut6pica do
Estado liberal burgues, o nosso, que escreve e nao aplica leis
de auto-defesa. Exemplifica-se corn o disposto no art. 215 da
Constituicgo de 1988, que garante a todos o pleno exercfcio
dos direitos culturais e acesso as fontes da cultural national,
acrescentando o apoio e incentive a valorizagao e A difusAo
das manifestag6es culturais. 0 paragrafo 1 explicit: "0 estado
protegerA as manifestag6es das cultures populares, indigenas e
afro-brasileiras, e das de outros grupos participants do pro-
cesso civilizat6rio national". 0 art. seguinte, parigrafo 40 6
taxativo: "Os danos e ameagas ao patrim6nio cultural serao
punidos, na forma da lei".
Indaga-se que Lei?
0 Estado se omitiu.
Em face da omissAo do Estado, banalizou-se a exploracao
indevida da cultural traditional do povo que, em muitos Estados,
est~ atingindo proporg6es calamitosas.
As preocupa6oes e advertancias dos folcloristas sao an-
tigas. JA em 1967 eles advertiam que o aspect mais odioso
da apropriagdo ind6bita da cultural popular 6 o aproveitamen-
to de temas folcl6ricos para fins de promo-
cAo ou de propaganda commercial. Se a lei o
nao proibir de modo terminante, correremos
o risco de que as formas literArias e musicals
da cultural traditional possam, corn a cum-
plicidade dos poderosos meios de comuni-
cag.o de massa de que disp6e a sociedade
modern, fixar-se na mem6ria coletiva divor-
ciados do seu conte6do original. Por isso
que no Amazonas, como no Par., em quase
todo o Brasil, prosperou a "ind6stria cultural", dela partici-
pando parcela expressive da sociedade e dos meios de comu-
nicacAo de massa.
Ponto final:
Dizem que a Amaz6nia, parte do planet em que vive-
mos, 6 um patrim6nio da humanidade. Assim 6 se Ihe parece.
Mas nao se pode ignorar a vontade dos que vivem nela, dos
que realmente fizeram sua opcgo pela regiao, responsdveis
portanto por sua preservagio. A estes cabe defender a sua
identidade cada vez mais violentada e ameagada de desca-
racterizagAo. A destruigdo da mem6ria de um povo 6 que
permit a sua expropriagAo, a espoliagao nao s6 de seus va-
lores como de suas riquezas. Um povo sem mem6ria vai de-
fender o que?
Para os mais atentos, recomendo a leitura do artigo "A Inter-
nacionalizagAo do mundo", do prof. Cristovam Buarque, publica-
do no 6ltimo n6mero do semandrio Bundas, p. 36-37.
Brasilia, 11 de novembro de 2000.

(1) Outra vertente da folc-comunicaoo desenvolveu-se no Brasil a partir das iddas do jomalista
pernaibucano Luiz Beltrao independent das conceploes de McLuhan. Luiz Beltrao rejeita ofake-
toree parte de umna visao inovadora, a estreita vinculagao entire foldore e comunicaoo popular,
centro das ideas que exp6s na sua tese de doutoramento defendida na Universidade de Brasilia em
1967- Fokomun icago- um estudo dos agentesedosmeispopularesdeinforma-do defatos e
expressadode ideas.





COLOMBIA




A guerrilla




na internet


"Desde o alto das montanhas da Col6mbia", a Red
Resistencia envia pela internet, numa media de tries a qua-
tro emiss6es digrias, material informative para o mundo
inteiro. Sao comunicados das Forgas Armadas Revolucio-
ndrias da Col6mbia-Exercito do Povo (Farc-EP) e textos de
interesse da guerrilha colombiana, em atividade continue
ha quatro decadas.
A Red Resistencia (com o subtitulo "Informagao Soli-
dariedade Coordenagio") 6 uma autentica agencia de no-
ticias digital, dispondo de virios endereqos eletr6nicos e pd-
ginas na internet, em portugues, frances, italiano e russo.
Conta tambem corn a Rddio Voz da Resistencia, "emissora
da cadeia radiof6nica bolivariana", que pode ser captada e
ouvida atrav6s da rede de computadores.
Eventualmente, chega a montar bases no exterior, como
aconteceu quando o president Bill Clinton foi a Cartagena
de las indias, em agosto, para o lancamento do "Piano Co-


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16mbia", de 1,3 bilhao de d61lares, visando o combat ao
narcotrifico e a pr6pria guerrilha. Em Nova York, o Interna-
tional Action Center, instalado numa pr6dio da 39 West 14th
Street, estimulou ades6es ~s manifestag6es de protest con-
tra a visit do president americano, inclusive atrav6s do e-
mail iacenter@iacenter.norg.
Desde o inicio deste ano, pessoas influentes junto ao
governor e a opinido ptiblica brasileira, dirigentes de Organi-
zag6es Nao Governamentais, intelectuais, jornalistas e at6
mesmo empres~rios tem recebido mensagens da Red Resis-
tencia em seus enderecos eletr6nicos, mesmo que nAo te-
nham feito nenhum contato nesse sentido. Uma das princi-
pais preocupag6es da agencia do maior grupo guerrilheiro
colombiano 6 mostrar que as Farc-EP jA funcionam como
um s61lido grupo politico alternative, corn a perspective de
assumir o governor do pais proximamente.
A ag&ncia transmite, no mesmo dia em que sdo pro-
duzidos, todos os comunicados resultantes das reunites
da Mesa Nacional de Dijlogos e do Comite Tematico Naci-
onal, "um espago hist6rico jamais visto na America Latina
e, modestamente, dos poucos existentes no concerto mun-
dial", segundo um desses comunicados. E que, indepen-
dentemente dos combates violentos e das muitas mortes
que deles resultam todas as semanas, no choque das for-
gas antag6nicas, seis representantes do governor mantem
essa instancia de negociaqao com seis representantes da
guerrilha, na zona desmilitarizada.
Ate o uiltimo comunicado, transmitido no final do mes pas-





















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DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 9


6. O





sado, a Mesa e o Comit jai haviam realizado 26 audiencias pi-
blicas em Vila Nova Col6mbia, no conflagrado sul do pais, tendo
como tema central o crescimento econ6mico e o emprego. Fa-
zendo um balango dessas audiencias, a agencia contabilizou a
participagao de 23.631 pessoas (incluindo representantes de 35
paises), das quais 1.042, livremente inscritas, intervieram e apre-
sentaram propostas sobre o tema, encaminhando 2.553 textos
por escrito para a secretaria. A partir dos encontros surgiu uma
agenda comum de 12 pontos acordados entire as parties.
Reuni6es tAo concorridas sao realizadas enquanto a au-
tentica guerra civil prossegue. Isso explica a alternancia de
material sobre o progress do diilogo, na frente political, e de
combates sangrentos entire as forgas armadas nacionais e os
guerrilheiros, nas selvas, povoados e cidades. Um comunicado
do inicio de novembro denunciou que unidades da 41 brigada
do Ex6rcito, disfargadas de tropas paramilitares, haviam assas-
sinado 21 pessoas em Alto del Palmar y La Maria. Esse tipo de
massacre ja teria resultado em 400 mortes em sete municipios,
tudo conforme a estrat6gia do general Eduardo Verbel. As Farc
investiam contra os militares, mas tamb6m criticavam o "silen-
cio c6mplice de stores como a Igreja e algumas ONGs, que
chamam para dialogar e se omitem de assumir uma posigAo de
defesa da vida da populacgo inocente".
Na agenda da Red Resistencia, um capitulo important 6
o das relacges corn os vizinhos latino-americanos. A preocu-
pacgo 6 de combater a imagem negative da guerrilha, como
uma fonte potential de ameaga para os demais pauses do con-
tinente, sobretudo os da Pan-Amaz6nia (um territ6rio equiva-
lente ao dos Estados Unidos). Um "comunicado urgente" foi
dirigido recentemente "ao povo irmao do Equador", com a
garantia de que as Fare, ao contrdrio das "provocac6es ten-
denciosas e mentirosas", dos que deram "apoio incondicio-
nal ao Piano Col6mbia para ganhar favors do Imp6rio" (como
os EUA sAo tratados), reiteravam sua "Politica de Fronteiras
de nAo realizar ages militares fora da Col6mbia".
A questao ecol6gica tamb6m merece atencgo especial
da Comissao Temditica das Farc. Em algumas de suas trans-
miss6es, a Red Resistencia informou sobre a audiencia p6-
blica sobre o meio ambiente, que reuniu 1.200 pessoas em
Vila Nova, entire as quais o ministry Juan Mayr e o porta-voz
da guerrilla, Ivain Rios, que "discutiram acaloradamente" o
Plano Col6mbia.
"Os pequenos cultivadores se pronunciaram a favor da
proposta das Fare de colocar em execugao um projeto piloto,
de erradicagIo alternative (de cultivos ilegais de coca)", que mo-
biliza 500 mil families, informava um dos comunicados. Lem-
brava que a Colombia tern a terceira maior reserve de agua
doce do planet e um fantdistico estoque de recursos gen6ticos,
do interesse direto das 700 mil pessoas que habitam a part
amazonica do pais, com 70% da sua extensAo territorial.
Pelo menos no mundo conectado as redes de compu-
tadores, a guerrilha esti ganhando de goleada do governor
colombiano. Pois se ji somam muitas dezenas os comuni-
cados da Red Resistencia, nenhum dos enderegos eletroni-
cos a que ela teve acesso recebeu uma s6 mensagem da
administraiAo de Andres Pastrana Aragon. A

10 DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


A%-. .


-I.


Familia
Andncio de saudagao do inicio de 1945 destacava as excelenci-
as da Pensio Universal, situada na rua Santo Antonio (continuagao da
JoAo Alfredo), 143, "pr6xima do porto de desembarque e do centro do
comercio, servida por onze linhas de bondes e auto-6nibus". Contra
eventuais interpretagoes ambiguas, a propaganda tratava de advertir
que o estabelecimento era "essencialmente familiar", pautando-se pelo
"respeito, ordem e moralidade". Tanto que recebia familiess de trata-
mento", certamente atraidas por sua cozinha "de primeira". A pensao
atendia "servigos de frios e bebidas geladas at6 as 24 horas, a todos os
seus h6spedes e fregueses". Quanto aos precos, ah, sim, eles estavam
"ao alcance de todos os viajantes".


Cachaga
Os "bons amigos e fregueses" da Aguardente Igarap--Miri foram
brindados, nesse mesmo alvorecer de 1945, corn uma poesia de res-
ponsabilidade da "casa", que assegurava: "Na travessa Sao Francisco/
cento e nove, faz-se f6/ na aguardente, que vem pura,/ do 'Retiro
NazarO'!" Sao dos melhores engenhos/ corn todo asseio e sabor,/ a
aguardente desta casa/ porisso 6 mesmo um primor!".
Depois da terceira dose, os versos deviam cair bern.


Estudantes
Um anuncio da Uniaio Academica Paraense (a extinta UAP, de
gloriosa hist6ria) convocava, no identico janeiro de 1945, para uma reu-
nilao em sua sede social, a travessa Padre Eutiquio, 206, um grupo de
universitarios, dentRe os quais estavam Pedro Pedroso, Carlos Lima, Paulo
Coelho, Felipe Condurn, Armnando Mendes, Angelita Silva, Rainero Ma-
roja, Wlibaldo Bibas, Jos6 Ribamar Soares, Adriano Menezes, Jean Bitar,
Chalu Pacheco, Acilino Leite, Raimundo Vianna, Higidio (na verdade, 6
Egydio) Sales, Jos6 Ferranti, Jos6 Femandes e Maria Assis.
Pelos nomes e pelas carreiras que fizeram esses persona-
gens, muitas vezes divergentes ou conflitantes, tem-se uma me-
dida do mal que cometem todos os que reprimem a atividade
political estudantil, a grande forja de liderangas de uma naqAo. a
favor, contra e muito pelo contrario.


Carnaval
Certamente convencida de que quem nAo gosta de samba 6
ruim da cabega, a saudosa Uniao dos Estudantes dos Cursos Secunda-
rios do Pari (a Uecsp leia-se: uesp), convocava todos os seus asso-
ciados para a "noitada camavalesca" de fevereiro de 1954, na sede do
Jockey Clube do Para (aquele que jamais promoveu um derby, mas
abrigava "todas", e agora estA se transformando em escola de linguas).
0 traje podia ser "passeio ou fantasia", mas o entao president, Irawal-
dyr Rocha (ji falecido, ap6s intense vida pdblica), advertia: "sera ex-
pressamente proibido o uso de lanpa-perfumes", aquele satanico rodo
metlico de vapores sensuais.
Ao que os denodados associados devem ter pontuado: pois sim.











Ignorancia
Em setembro de 1957, os trabalhadores que faziam a recupe-
ra5o da doca de Souza Franco e a retificacgo do Igarap6 das
Arnas (ou das Almas, na polemica que nunca chega ao fim), tive-
ram que suspender os servigos. Simplesmente por terem dado corn
uma tubulacgo de esgotos atravessando o igarap6 do bairro do
Reduto para o Umarizal, tubulagao essa que nao constava dos
arquivos da prefeitura. E por nao ser conhecida, de sua existencia
nao foram informados o Departamento Nacional de Endemias Rurais
e a Superintendencia do Piano de Valorizaqgo Econ6mica da
Amaz6nia (a SPVEA, antecessora da Sudam, criada nove anos de-
pois desse epis6dio), 6rgios executor e financiador da obra. Os
trabalhadores foram entao deslocados do trecho em que estavam,
ja pr6ximo da avenida Sao Jer6nimo (atual Govemador Jos6 Mal-
cher), para o outro lado, na diregco do cais do porto.
A desinformacqo 6 uma das regras de ouro da administra-
cgo pi3blica na capital dos paraenses.


Cinema
Em setembro de 1958, Judah Eliezer Levy, Wady Thom6
Chami6 e Eriberto Pio dos Santos, diretores da firma Cinemas e
Teatros Palicio S/A, comunicavam que as ages do Cine-Teatro
Palacio, "a ser inaugurado brevemente em Belem", ja podiam ser
encontradas corn o corretor Alberto Bendahan. Foi um sucesso
de venda. 0 Cine Palicio, que raramente foi teatro, 6 agora tem-
plo da igreja do "bispo" Edyr Macedo.


Seminario
Em fevereiro de 1961, o arcebispo metropolitan de Be-
16m, dom Alberto Ramos, nomeou reitor do Seminirio Ar-
quidiocesano Nossa Senhora da Conceicao (depois Arcebis-
pado e hoje Museu de Arte Sacra, ao lado da igreja de Santo
Alexandre) o padre Carlos Cardoso da Cunha Coimbra. Para
as vice-reitorias do seminario foram designados os padres
Artemio Trindade Ferreira e Luiz Silv6rio de Oliveira Maia.
Em seu curriculo, Carlos Coimbra tinha graduaqao em direi-
to pela UFPA, bacharelado em teologia pela Faculdade de
Nossa Senhora da Assung~o, em Sao Paulo, e doutorado em
teologia dogmritica pela Pontificia Universidade Gregoriana
de Roma.
D. Alberto ji morreu. Todos os tres dirigentes por ele
indicados para o seminario deixaram a batina. Silv6rio Maia
continue na ativa, dando aulas de mtisica na UFPA.


Aeroporto
A 18 de fevereiro de 1963, entrou em funcionamento ex-
perimental a nova pista construida no aeroporto international
de Val-de-Cans, para a aterrissagem de avi6es a jato. Era a prin-
cipal das melhorias ali introduzidas pelo Departamento de Avi-


ago Civil. 0 teto da estagAo de passageiros recebeu nova pin-
tura e o bar foi recuperado. Tamb6m foram colocados vidros
nos postes voltados para a pista de rolagem, "que se encontra-
vam em p6ssimo estado". As obras, acreditava o cronista da
Folha do Norte, fariam com que o aeroporto de Bel6m "nao
ficard a dever a nenhum do Brasil".


Pianistas
Foi um sucesso o concerto infantil de piano promovido
pelo Conservat6rio Carlos Gomes na v6spera do natal de 1964,
corn os alunos da professor Maria de Nazar6 Pinto Marques.
As peas musicals foram apresentadas por Silvia Maria de
Souza, os irmios Manoel Ayres Jr. e Helena Maria Ayres (fi-
Ihos do m6dico Manoel Ayres, que viria a ser conselheiro do
Tribunal de Contas do Estado), Lilian Contente, Raquel Mara-
nhao (filha do gerente da Folha do Norte, Jodo Maranhao, e
irmA do escritor Haroldo Maranhao), Marlene Duarte Rodri-
gues, Rosalva Muller de Figueiredo, Maria Cristina Cesar de
Oliveira (depois Cascaes Dourado), Adurilson Montes Ferreira
e Cylene Greidinger.


Defunto
Definitivamente, nao foi feliz aquele dia de janeiro de
1966 para o escrivio de policia Edson Pimentel de Sena. Em
servico na famosa (nem sempre por bons motivos) Perma-
nencia da Central (a atual Seccional do Comercio, na rua San-
to Ant6nio), ele oficiou aos seus superiores pedindo a remo-
cAo "do cadaver que falecera". Nao foi um feito, nem ajudou
na progressAo do servidor, que, antes de chegar A policia,
havia sido agente de pensao".

Secretariado com o qual o tenente-coronel Alacid da Silva Nunes
iniciou o seu primeiro mandato como govemador do Parai, em 1 de
fevereiro de 1966 (at6 1971, corn um novo mandato entire 1979 e 1983):
CHEFIA DE GABINETE Osvaldo Melo
FAZENDA Jos6 Jacinto Aben-Athar
EDUCA.AO Acy de Jesus Barros Pereira
AGRICULTURA Walmyr Hugo dos Santos
OBRAS -Jos6 Maria Barbosa
CONSULTORIA GERAL OtAvio Mendonga
DER Alyrio Cesar de Olivera
PROCURADORIA GERAL Ofir Coutinho
DEA (Departamento de Aguas e Esgotos) Luis Gonzaga Baganha
IDESP Adriano Veloso Menezes
POLICIA MILITAR Ant6nio Cdlvis Moreira
Os outros secretArios e auxiliares do primeiro escalAo, por
ainda nao terem sido colocados A disposigAo do Estado no
dia da posse, s6 seriam nomeados depois, como Carlos Gui-
marAes Pereira da Silva, Jos6 MagalhAes e Jos6 Maria Con-
duri Pinto Marques.

DEZEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 11


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414* H*wer 044;4 "s a.*. a'" li Rua Senador Manuel Barata, 648


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0 buraco da Palmeira


Num poema c6lebre, o mineiro Carlos
Drummond de Andrade lamentou que Ita-
bira, sua terra natal, tivesse se tornado umrn
doido retrato na parede depois que a Com-
panhia Vale do Rio Doce extraiu as mon-
tanhas de min6rio de ferro circundantes.
Parafraseando o mais c6lebre poeta brasi-
leiro, podiamos dizer que a Palmeira 6 um
buraco no centro de Bel6m e como d6i.
A dor veio primeiro com a demolicgo da
Fdbrica Palmeira, um tipico estabelecimen-
to europeu implantado na rua Manoel
Barata pelas Industrias Jorge Correa S/A.
Qualquer produto que tivesse a marca
Palmeira era bom at6 prova em contririo,
nao por um elementary principio de direi-
to, mas por uma fama arduamente cons-
truida. "A qualidade indiscutivel dos pro-
dutos Palmeira represent uma legend de
prestigio mantida ha quase 1 s6culo", pro-
clama um dos an6ncios reproduzidos nes-
ta pAgina, de outubro de 1964. Um outro,
de janeiro de 1966, exalta as qualidades
do macarrao fabricado pela empresa, corn


o qual a cozinheira (naturalmente, a "ma-
dame", ainda presa nos limits dom6sti-
cos) estava certa de que o prato ficard
exatamente no "ponto" desejado. E quem,
corn mais de 50 anos de Bel6m, nao se
lembra do traditional "Polar", o bolo de
piscoa da Palmeira? Ou os ovos de pis-
coa, pudins, bolos decorados, bombons,
caramelos, biscoitos e doces finos? E quern
esqueceri dos lanches que podiam ser
feitos na loja, no t6rreo, entire montras de
vidros finos e cobre ou bronze?
Mas os custos e a administraqio leva-
ram a empresa a uma situagAo dificil, in-
capaz de competir corn os concorrentes
menos sofisticados, menos atenciosos corn
a clientele, corn melhor escala de produ-
cgo. Se era inevitavel a trajet6ria da Pal-
meira at6 a bancarrota (era mesmo?), sa-
crificar seu belo pr6dio nao era inevitivel.
Como nao o eram o Grande Hotel ou a
caixa d'agua, bern atris da Palmeira. Pela
6tica da arquitetura e da hist6ria da cida-
de, foi uma 6poca lhgubre e destruidora a


do infcio dos governor militares em Be-
16m. Uma modemizagco a toque de caixa
e sem crit6rios descartou elements essen-
ciais de uma 6poca que chegava ao fim
sem levantar simbolos melhores de uma
era que comecava.
Hoje, a memorivel Palmeira 6 um imen-
so buraco num quadrilatero de vergonha,
cheio de lixo, de mato, de incivilidade. Para
o impasse atual, a prefeitura oferece uma
emenda que 6 pior do que o soneto: trans-
formar aquele buraco em mais um camel6-
dromo, institucionalizando o que ndo pas-
sa de uma chaga, social, urbanistica e ar-
quitet6nica. Transformar essa feitira numa
composigAo paisagistica capaz de integrar
as vizinhas igrejas de Santana e do Rosario
e, ao mesmo tempo, abrir um respiradouro
na cacofonia central, 6 delirio?
Sern aprender as lig6es de ontem, o al-
caide de hoje quer deixar suas marcas.
Talvez para dar motivo aos lamentos de
um Drummond ao tucupi. Preco, contu-
do, demasiadamente caro a pagar. Quem
ouviu falar de Nero tern, embora em esca-
la dramaticamente maior, uma no5o des-
ses impetos. A muy hermosa cidade de
Santa Maria de Bel6m do GrAo Para mere-
ce present melhor.


Agenda Amnazonica
Travessa Benjamin Constant 845/203 Belem/PA- 66.053-040 e-mail: jonmail@arzonncom Telefones: 2237690/2417626 (fax) Produao grafkica: luizantoniodefariapinto


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