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Agenda amazônica
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 Material Information
Title: Agenda amazônica
Physical Description: v. : ill. ; 33 cm.
Language: Portuguese
Publisher: Agenda Amazônica
Place of Publication: Belém, PA
Publication Date: 1999-
Frequency: monthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note: Title from caption.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification: lcc - F2546 .A26
System ID: AA00005009:00015

Full Text








amlaz oica


ANO 11. No 15 BELEM, NOVEMBRO DE 2000 R$ 3,00 L C io F d vio Pinto


INTERNACIONALIZACAO


No fogo
A expansao da fronteira econ6mica na Amazonia tern
sido comparada a "corrida" ao oeste nos Estados-
Unidos. Nfo sem motivo. As cidades pioneiras que
urgiram ao long das estradas amaz6nicas guardam
semelhangas com as little towns do faroeste made in USA. As ruas
permanecem poeirentas por muito tempo, mais do que deveri-
am, se o crit6rio de asfaltamento das vias obedecesse ao indice
de intensidade de trifego dos 6rgaos oficiais encarregados do
assunto., Por essas ruas trafegam charretes, cavalos e at6 mesmo
pistoleiros corn sua arma no coldre. De vez em quando a popu-


cruzado
lagdo desses nrcleos 6 assombrada pelo anuncio de um ataque
de indios. Ou tem que enterrar uma vitima de conflito de terra.
Mas tamb6m festeja bamburro de garimpeiro em grotto minerali-
zado corn ouro, entire tiros e cachagadas em bord6is.
Essa similitude, por6m, 6 mais inconogrifica, digamos as-
sim, do que real. Desvia o interessado da verdadeira compreen-
sAo pela aparente convergencia que encerra. Embora jd tenha
entrado em verdadeiros saloons de vilarejos poeirentos, que John
Ford nao hesitaria em tomar como locagio para mais um dos





seus westerns, nao foi essa a impressio mais marcante para mim
do que se tornou a Amaz6nia corn o titanico (ou tiranico) esfor-
go cle "integragao national" desencadeado a partir de Brasilia,
sobretudo dos anos 60 para cli. As sensag6es mais fortes eu as
tive no sul do Par'a, ao cobrir acontecimentos como o conflito de
Itaipavas, do qual resultou como desclobramento a acusaiao (se-
guida de prisdao e indiciamento) dos padres franceses Camio e
Gouriou, denunciados por insular posseiros contra proprietari-
os rurais e autoridades publicas. Subversivos, portanto.
Numa das viagens a area, em 1981, acompanhei o senador
Teotonio Vilela e os deputados federais Cristina Tavares eJader
Barbalho, que iriam observer a situagio para relata-la aos seus
pares no Congresso Nacional. Nosso teco-teco pousou em Xam-
bio~, do lado (entao) goiano (hoje 6 tocantino). Atravessamos o
rio Araguaia para Sao Geraldo, do lado paraense. Mal descemos
da lancha, um soldado da Policia Militar se aproximou e pediu
nossas identidades. 0 senador, um nordestino tipico, encrespou-
se de imediato. Mesmo a Constituigio de entaio (desfigurada de
vez pelo "emendo" n6mero um, de 1969) assegurava o ir e vir
desimpedido do cidadao.
Tentei mediar, mostrando para o PM que aquelas eram au-
toridades federais. Nao adiantou. Sabendo que estava entire fo-
gos cruzados, a ordem do superior e a notoriedade das pessoas
que sabia estar constrangendo, o military suava enquanto tentava
center sua pr6pria tensao, a metralhadora empunhada, corn bala
no pente. Consegui que o senator Vilela, o "menestrel das Ala-
goas", mostrasse sua identidade. Jader e Cristina o seguiram, acei-
tando a violencia.
Ela naio se caracterizava apenas no ato hostile do PM: estava
disseminada no ar. No olhar amedrontado dos moradores do
local, em seu passo apressado, no seu silincio intimidado, for-
gado. Homens fardados desfilavam sua arrogancia. Outros, "bate-
paus" ou informants (uma praga em todo regime policialesco),
agiam nas sombras, mas sem qualquer pudor. Pernoitando na
casa dos padres dominicanos, sentimo-nos como se estiv6sse-
mos numa catacumba ainda que animada pelos "causos" narra-
dos madrugadas adentro pelo senador. Para Aristide e Francois
provavelmente Sao Geraldo poderia se assemelhar a uma das
possesses francesas na Indochina, mantida sob o chicote. Uma
tipica zona de ocupaciao.
A Amaz6nia tern sido uma area de ocupago, de colonialis-
mo mais do que de colonizac'ao, se precisamos trocar de concei-
tos para suprir nossa deficiente formagiao em semantica, etimo-
logia e sintaxe, tries das causes cla nossa decadencia como cultu-
ra, como sociedade capaz de bern se comunicar. Temos dois
tipos de senhores: um fala a nossa lingua; o outro 6 estrangeiro.
Um partilha conosco o territ6rio national. 0 outro vem de ultra-
mar. Um tern mais estreita associagao hist6rica conosco. 0 outro
6 de freqOencia sazonal. Mas n6s n.o somos nenhum deles.
Temos maior ou menor identidade corn eles, mas nao nos redu-
zimos a eles. Jai eles naio nos permitem sermos o que somos.
Temos que ser o que eles esperam que sejamos. Como coloniza-
dos, temos que ser e pensar pela cabeqa do colonizador.
A Amaz6nia estOi novamente sob o fogo cruzado desses
dois senhores coloniais, o national e o estrangeiro. 0 bwana
national quer continuar a integragao compuls6ria, estreitando

2 NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


os elos entire a Amaz6nia e o restante do territ6rio brasileiro, elo
fisico, econ6mico, social, cultural e mental. A alegagao 6 de que
o colonizador estrangeiro quer realizar a exploracao direta dos
recursos naturais amazonicos, sem a intermediagio da elite co-
lonial e do Estado national. A Amaz6nia esta em perigo. 0 risco
de perd&-la seria iminente.
Justificativas 6 o que naio falta. Os internautas estao send
continuamente bombardeados por petardos alarmistas. Um deles:
carros ja estariam circulando nos Estados Unidos corn um adesivo
recomendando a seus ocupantes matar um brasileiro a cada dia.
Outro: manuals de geografia usados nas escolas de Tio Sam con-
tem mapas nos quais a Amaz6nia ja 6 declarada como espago
internacionalizado. Terceiro: os marines ji estaio sendo adestrados
para que, uma vez estabelecidos na Col6mbia, prossigam o avan-
co por toda a floresta amaz6nica, fincando a bandeira estrelada
dos EUA num dos pedagos mais cobigados do planet.
Naio parece adiantar muito dizer que isso naio 6 verdade. A
histeria est'a sendo expandida. Ela tern campo f6rtil porque os
brasileiros costumam pensar sobre a Amaz6nia atraves das len-
tes alteradas da geopolitica. 0 Brasil passou a viver sob regime
democr'atico pleno a partir de 1985. A Amaz6nia, entretanto, ain-
da se encontra sob o jugo da doutrina de seguranga national, a
mesma que se tornou a Onica fonte da verdade em 1964.
Quando um tema amaz6nico relevant estai em causa, quem
estabelece a diretriz official a respeito sao os organismos milita-
res, para-militares ou extra-militares. Procedimentos excepcionais
so adotados. 0 Conselho de Defesa Nacional se redne para
aprovar um program de emerg&ncia ou para dispensar o saudi-
vel process de licitag~o publica. Cria-se uma atmosfera de des-
confianga favoraivel a germinacao de teorias conspirativas. 0
categ6rico se impbe ao racional. 0 ato subito atropela o proces-
so de geraiao de conhecimento e sabedoria.
Ningudm seria insensato de rejeitar um component geopo-
litico na "problemaitica" amaz6nica. A Amaz6nia latino-america-
na 6 quase do tamanho dos Estados Uniclos. Ela 6 o maior repo-
sit6rio de vida selvagem do planet. Tern a maior floresta tropical
da face da Terra. Drena 20% da fgua de todos os rios que con-
vergem para os oceanos. Independentemente do que signific-
,tais grandezas ji sfio relevantes por si mesmas. Logo, esse 6 um
dado geopolitico.
Mas ele nao 6 a chave da decifracao da Amaz6nia, nem
sua mais valiosa ferramenta do saber. Muitas vezes costuma ser-
vir 6 mesmo de empecilho para a solugao do problema ou um
element de deturpagio da sua identificagaio. E fdacil sair atrfis de
um estandarte ou de uma corneta. Ambos niao faltaram ao gene-
ral Custer no massacre de Little Big Horn, para ficar s6 num
incident referido no paralelismo de p6 quebrado entire as colo-
nizag6es do oeste americano e do sertao amaz6nico.
Nao sao declaracoes de guerra ou discursos patri6ticos que
devem servir de comando para a acio no front amaz6nico: 6 ,
voz do conhecimento e os arguments da razdfo, temperados
pela disposicao de trabalho e a dedicaiao a causa. E precise
despojar a Amaz6nia da vestimenta de guerra que Ihe impuse-
ram. E necessairio p6r fim a essa ofensiva de ocupagao, na qual
o comando 6 exercido por um dono da verdade, algu6m que
chega "a jungle com a taibua dos 10 mandamentos pronta e aca-





bada, que nao admite recalcitrancia, que penaliza a controversial
e que estabelece uma cronologia apressada pelas exclamac6es
disseminadas no discurso geopolitico do senhor da guerra.
Naio se trata de anti-militarismo, nem sequer de anti-militar.
E uma questao de essencia: a organizagilo military, necessaria-
mente assentada em principios rigidos de hierarquia, discipline e
voz de comando, 6 incompativel com a abertura de horizontes
da "questao amaz6nica" 0 exercicio da controversial at6 seus
limits extremos, o livre jogo dos arguments opostos, a pros-
peccio temitica, esses sao instruments da formag~o do conhe-
cimento que se ajustam a estrutura civil, nabo a military.
Em relag~o ia Amaz6nia, urn projeto para ela que valha a
pena precisa estabelecer a primazia da ciencia, da tecnologia, da
educacao, da cooperag~io, da multidisciplinaridade, da tolerin-
cia e tamb6m da melhor atualizagao possivel ao que hab de
mais avangado no mundo. Dentro do quadro existence, por isso,
6 louvivel a intenqgao anunciada do governor de desmilitarizar o
Sivam (Sistema de Vigilancia da Amaz6nia), deslocando-o do
Minist&rio da Aeronkutica para uma instiancia cientifica official e
democratizando os seus produtos atrav6s da internet.
A Amaz6nia precisa de um projeto democritico, mas nbo
somente a democracia formal e o sistema federativo que conti-
nuamos a adotar. Nossos constituintes de 1988 tiveram que tra-
balhar corn a premissa da federaciao atual, estabelecida como
cliusula p6trea pelo president, ao convocar uma assembl6ia
national derivada do parlamento ordinirio. Os constituintes-con-
gressistas apenas atenuaram o camuflado sistema republican
unitdrio. Nessa camisa-de-forga juridica, a Amaz6nia esti conde-
nada a nao ter vontade pr6pria, a ser col6nia, sat6lite de um
poder central e centralizador.
A rep6blica nao consider, naio respeita e nem valoriza a
nossa diversidade cultural. Estamos condenados a ser apenas
brasileiros, sem podermos ser, antes e sempre, amaz6nidas. Nes-
se aspect, nosso president nio precisa trair o seu passado para
fazer o que quer: seu marxismo ortodoxo de soci6logo prescre-
ve esse tipo de modernizagcao categ6rica, vendo em tudo que se
op6e ou resisted ia uniformizagio e padronizagio sobrevivencias
anacr6nicas do passado e de formas sociais primitivas, que pre-
cisam ser recuparadas.
0 conceito de "amaz6nida" s6 6 possivel se a federacaio
estb em condic6es de absorver as diversidades intranacionais e
se 6 sancionado um grau maior de auto-determinag~io regional,
algo que, com adaptac6es, talvez s6 caiba numa confederagbio.
Nio podemos continuar aceitando que floresta nabo constitua
espago de soberania national, que valores gen6ticos tenham que
sempre se transformar em mercadorias convencionais, que po-
pulac6es primitivas precise se subordinar ia regra da submissibo
e aculturagio, que s6 tenham legitimidade political p6blicas corn
o sinete imperial de Brasilia.
A Amaz6nia sempre manteve uma relagio international,
na maioria da sua hist6ria com intensidade superior ia do outro
Brasil, aquele corn o qual tinhamos ligaq6es muito tenues at6
meio s6culo atris. Em boa media, a Amaz6nia ji estb interna-
cionalizada. Boa parte do capital que circula na regiao foi e 6
international, mesmo que carimbado em Sio Paulo por nossos
feitores bandeirantes.


Grande parte do "modelo" que condiciona e regular o pro-
cesso produtivo regional foi apenas traduzido por nossos poliglo-
tas do Sul Maravilha e, frequentemente, mal traduzido (ou semi-
traduzido, jd que nos tornamos fluentes num patui americaniza-
do). InformagOes essenciais sobre a regiaio vao para sat6lites inter-
nacionais e deles descem para centros de processamento em ou-
tros territ6rios. 0 que falta 6 regionalizarmos essa internacionaliza-
ao. Ela precisa passar ao nosso control. Temos que nos tornar
cabegas desse sistema no qual, por enquanto, entramos "apenas"
com o sangue, alimentando inteligencia alheia.
Temos que ter aqui na Amaz6nia a base do conhecimento
sobre as nossas riquezas e a potencialidade da regiao e os meios
de transformaga'o. Essa nio 6 uma tarefa que se realize apenas
corn ret6rica. Exige vontade e dinheiro, vontade determinada e
muito dinheiro, mais do que at6 agora o Estado national nos tem
destinado. Temos que trazer para ci6 laborat6rios, equipamentos,
bases de dados, bibliotecas, professors e alunos do primeiro mun-
do, colocando-os sob o comando de gente que naio lhes seja inferi-
or, interlocutores vilidos, legitimados pelo que sabem e niao pelo
que gritam, n6s. Mas ningu6m vai nos passar o que sabe por nossos
belos olhos, ou de graga. Temos que conquistar esses bens.
t claro que essa combinaiao de elements materials e ima-
teriais necessirios a producio do conhecimento e da tecnologia
para implementdi-lo nibo subsistirdi numa bolha de cristal refratfa-
ria a agressoes externas. Ela requer uma na~iio organizada, em
funcionamento e respeitada. Mas, como lembrou o professor Jos6
de Souza Martins, tentando trazer 'a terra uma comovente mani-
festag~io do professor Christ6vam Buarque, panfletada via inter-
net, sobre a internacionaliza~dio da Amaz6nia, de que adiantaria
a bravura do marechal Floriano Peixoto se sua armada precisas-
se enfrentar a marinha britianica no inicio do s6culo?
Ningu6m 6 mais amaz6nico no mundo do que n6s, que
aqui nascemos ou moramos. Mas o oxigenio nabo transport con-
sigo a lucidez, nem ela emerge dos nutrients do solo, ou cai
junto corn as folhas das i.rvores, como parece imaginar o extra-
tivismo mental de muitas das nossas liderangas. Nem sempre quem
olha ao redor consegue ver al6m do pr6prio nariz. Uma pessoa
pode viver a vida toda na Amazonia sem perceber em que con-
siste a especificidade da regiaio, qual o seu mais valioso patrim6-
nio, de que maneira ela se tornard perene sem deixar de enri-
quecer, como se libertardi do falso problema de precisar destruir
primeiro para crescer e s6 depois pensar em recuperar os danos
causados, quando for rica.
0 bwana national diz que o bwana estrangeiro quer pre-
servar a natureza da Amaz6nia como pretexto, apenas para nos
impedir de nos tornarmos tao ricos quanto eles. 0 bwana inter-
nacional diz que somos pobres porque o bwana national nio
sabe como utilizar inteligentemente a biodiversidade amaz6nica.
S6 sabe cortar madeira, plantar graios e former capim para pasto.
Ambos term razito nos seus discursos acusat6rios. Cabe-nos ago-
ra construir a prfitica construtiva, utilizando as verdades de cada
um, sem nos deixamos seduzir por suas mentiras convenientes.
Para quem pensa que essa pode ser uma tarefa fibcil, con-
v6m alertar: sua complexidade 6 major do que o tamanho da
Amaz6nia. Mas os beneficios de sua realizag~io certamente serino
, superiores ao custo do desafio. A

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LIVRO


Um diario de provincial


e os anais da historia


Didrio de um convertido, de Emir Bemerguy, vale sobretudo
como uma contribuicdo a cronologia de Santardm entire 1968 e
1992. Apesar de ser a segunda maior cidade do Pard, a capital
do Baixo-Amazonas dispoe depoucasfontespara o registro da
sua hist6ria contemporanea. Ao long de um quarto de sdculo,
Emir fezanota9des em seu didrio quepodem ser uma referencia
vdlidapara o que aconteceu de relevant noperiodo.
Mas certamente elepoderia reduzira um terpo as 577pdginas do
seu livro (editadopelo Instituto Cultural Boanerges Sena e
apoiadopelaprefeitura municipal), corn ganhos para a leitura,


se expurgasse do texto para publicacdo as referencias de valor
meramente sentimental, pessoal ou familiar. Elas atipoderiam
preservar o peculiar gosto provinciano, ao qual ndofalta o
encanto das coisas originals, se a conversdo do autor ndo o
tivesse aproximado doparoxismo dofanatismo- ou da pieguice.
0 convertidoperdeu em qualidade literdriapara o herdtico.
Presume-se que o ganho em desfrute de vida baja sido
compensadorpara Emir. Para seus leitores, j duvidoso.
Citado duas vezes no didrio, gostaria defazer men contracanto
ao autor naquilo que pode interessar a opinido pdblica.


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ANOTACAO HIDRELETRICA


Em 5 de janeiro de
no seu dijrio:


1986, Bemerguy anotou


"Inaugurou-se, a 22 de novembro, a Hidrel6trica de Tucu-
rui, a fabulosa usina que vai gear oito milhbes de quilowatts. Ao
long dos tltimos seis meses a imprensa do Pard foi sacudida
por uma ardorosa polemica em torno da obra. Tudo se questio-
nava, tudo se condenava: as imprevid&ncias ecol6gicas, a insen-

4 NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZ)NICA


sibilidade social, a arrogancia da Eletronorte a estatal que co-
manda a construcAo do colosso. Um bloco de intelectuais, sob a
lideranga do inteligente, mas palavroso e dono da verdade Lucio
Flhvio Pinto, andou pondo o Estado em panico. As previs6es
eram as mais apocalipticas possiveis: o Tocantins ficaria total-
mente seco, os peixes morreriam todos, Bel6m teria a salinizagAo
insuportivel da agua potivel que consome!
Os arguments pareciam ponderiveis. Apoiei a campanha
em dois artigos dominicais. Veio, por6m, a inaugurag~o da obra


4 ~*:~./~-'W' ~-?~t'J





e nem dez por cento das profecias aconteceram... Indignado corn
os pregadores do caos, escrevi outra cr6nica em 'O Liberal' (man-
tenho hi oito anos a coluna) exigindo de Lticio e dos demais
't6cnicos' em hidrologia uma explicacdo p6blica, sob pena de
perderem a credibilidade ante o Pard inteiro. Terminei parabeni-
zando a Eletronorte pelo exito. E fui dormir em paz. Dias depois
o Paulo S6rgio, meu sobrinho, que hoje 6 um dos melhores re-
p6rteres de 'O0 Liberal', telefonava ao Eros, seu pai. Transmitiu
uma noticia que o seu, o nosso journal silenciara porque o Lucio
FlIvio faz parte da redacgo e seria humilhante para ele divulga-
rem o fato. A Eletronorte mandou reproduzir o meu artigo em
milhares de 'posters', num papel de excepcional qualidade, dis-
tribuindo-os fartamente no dia da inauguracgo, que atraiu auto-
ridades e povo de toda parte. Niao satisfeita, preparou imensos
'out-doors' colocados em pontos estrat6gicos, realqando as fra-
ses mais quentes de meu trabalho. Naturalmente, alegrei-me, es-
pantado, corn tudo isso"
Decidi responder a essa observacgo de Emir porque pou-
cos dias atrAs uma hist6ria semelhante foi publicada na Pri-
meira Coluna, de A Provincia do Pard, corn a intengdo de ser
uma resposta indireta a critical que fiz aquele journal atrav6s
do meuJornalPessoal. Eu seria "o home do sal", que previ-
ra a contaminaq.o dos mananciais de igua potivel de Belem
em conseqtiencia da retencAo das iguas do rio Tocantins na
barrage da hidrel6trica de Tucuruf. Que eu profetizara o
caos, como diz Emir.
Mas tanto a nota de A Provincia quanto a anotaciio de Emir
saio verses caricatas da hist6ria. Naio podemos deixar que essa
abordagem jocosa, colonizada e cortes, do epis6dio prevalega
sobre o que efetivamente ele represent: um dos moments mais
altivos e nobres da imprensa paraense e uma das mais felizes
mobilizac6es do povo deste Estado.
Assumo por inteiro minha parte nessa hist6ria, sern qual-
quer constrangimento. Fiz minha primeira viagem de cobertura
professional a Tucuruf (e Barcarena) em 1974, antes da instala-
Iaio dos empreiteiros principals nos canteiros de obras (a hidre-
l6trica e as f-bricas de alumina e aluminio). Na volta, escrevi
uma reportagem critical sobre o projeto, que desagradou a dire-
cao da Eletronorte e a da CVRD, mas foi entendida e aceita por
Claudiano Carneiro da Cunha, nosso excelente e democritico
(algo raro na 6poca) guia de excursao, em nome da Vale. Voltei
virias vezes a Tucurui at6 1983, quando uma bolsa concedida
pela Universidade da Fl6rida, em Gainesville, me permitiu passar
a mais estimulante temporada de estudos nos Estados Unidos.
Ao voltar, depois de rastrear o setor hidrel6trico americano
(logo, j;i n~o marinheiro de primeira viagem, irrespons;ivel ou
volivel, capaz de former sua opiniao corn o mesmo superficiali-
smo de muddi-la), eu estava convencido de que era meu dever
cobrar da Eletronorte todas as informag6es pendentes sobre Tu-
curui. Durante quatro meses escrevi sobre a usina todos os dias
na minha coluna de opini.ao em 0 Liberal. A maioria dos artigos
questionava as informac6es da Eletronorte e cobrava novos es-
clarecimentos, formulando ainda questbes inovadoras no nosso
contencioso, preenchendo uma agenda de discusses que tinha
permanecido quase vazia at6 entdao.


Em alguns artigos eu estava certo, em outros errado, mas
minha funcAo de auditor popular foi cumprida: a Eletronorte, a
mais arrogante (arrogante, sim, dr. Emir) empresa publica em
atividade na Amaz6nia, sobre a qual exerce jurisdigao, mas na
qual jamais estabeleceu sua sede (ao contrairio de todas as de-
mais estatais regionais do setor el6trico), resistente a todas as
tentativas feitas no sentido de deslocar seu QG de Brasilia para
c;i, teve que descer em Bel6m e responder as indagagoes, pro-
blematizac6es, critics e dentincias.
Al6m de escrever na minha coluna, eu era o respons;ivel
pela maioria das notas do Rep6rter 70 e atuava como comenta-
rista da TV Liberal. Era tamb6m correspondent de OEstado de S.
Paulo. Mas nunca usei esse poder eventual para constranger pes-
soas ou interditar temas. Houve um tempo em que a pressiao era
tanta e tao diversificada, da parte do governor e do lado dos
critics (v;irios dos quais usavam o problema como escada para
subir e se projetar, alcancando seus 15 minutes de fama ou algo
mais), que Romulo Maiorana me mandou um bilhete designan-
do-me para responder, em nome do journal, por tudo o que dis-
sesse respeito a Tucurui. Esse document, eu o juntei aos autos
das ag6es ajuizadas contra mim pela filha de Romulo, Rosange-
la, quando ela tamb6em me acusou de me favorecer da amizade
corn seu pai.
Ao contrario do que Emir diz que seu sobrinho teria dito
ao pai, em nenhuma vez 0 Liberal deixou de publicar qualquer
materia, do interesse da Eletronorte ou a mim desfavorivel na
polemica. Jamais algu6m mencionou a possibilidade de minha
desmoralizacao no duelo ser causa de proibidao de mat6ria. Os
arguments contra e a favor da obra foram escrupulosamente
divulgados pelo journal, como nunca antes acontecera (e, infeliz-
mente, nunca depois). Inclusive o artigo de Emir, que a Eletro-
norte reproduziu a larga, usando-o como arma publicitiria con-
tra n6s (sua sinceridade e desprendimento no imbroglio nao fo-
ram postas em d6vida, embora consideraissemos francamente equi-
vocada a sua posic~o). Tudo saiu. Quem tiver prova em contri-
rio que a apresente. Prova, nao falat6rio de esquina.
Foi a maior cobertura que a imprensa jdi deu a conclus.o
da obra de uma hidrel6trica, nio s6 no Parai, na Amaz6nia ou no
Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Nio sou eu quem es-
tou dizendo isso. E o que se depreende de um long artigo que
o professor americano Rolf Sternberg escreveu sobre Tucurui
(infelizmente nao traduzido para o portugu&s), utilizando como
sua principal fonte de referencia o material de journal, especial-
mente os meus artigos. E ele 6 insuspeito para fazer a avaliai.o:
sua posigio nao coincide corn a minha.
Pesquisadores da Universidade Federal do Parai, num le-
vantamento de tudo o que foi escrito sobre a usina, tamb6m
chegaram a conclusao de que fui quem mais tratou do tema, de
long. E claro que haveria de cometer impropriedades e erros ao
avancar sobre assuntos de vanguard, no moment mesmo em
que eles se revelavam. Muita gente mais habilitada no mundo
academico esquivou-se, fugiu do ass6dio ou esperou hora mais
oportuna para se manifestar. Tinha medo de errar. Ou medo pior
ainda. No entanto, o saldo dos erros e acertos de uma polemic:



NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 5





comandada pela imprensa 6, a meu
ver, altamente superavitArio.
Gramas a nossa cobranpa, Tucurui
foi a primeira hidrel6trica a ter estudos
sobre seus efeitos a jusante. Apesar da
longa tradico brasileira em construgao .
de barragens, o impact da obra rio abai-
xo era ignorado pelos engenheiros, mes-
mo havendo alentada bibliografia sobre
o que ocorreu no delta do Nilo corn a
represa de Assu. e na foz do Columbia,
no noroeste dos Estados Unidos, com os sucessivos aproveitamentos
energ6ticos do rio. Gragas a esse pioneirismo national, pudemos co-
nhecer melhor o estuArio do rio Pari, um dos mais ricos e complexos
do litoral brasileiro, mas sobre o qual nossas informagces eram pate-
ticamente limitadas. Tanto que foi necessirio reconstruir os pilares do
porto de Vila do Conde porque seus projetistas nao haviam considera-
do a salinidade das iguas, que provocou craca.
Fui o primeiro a suscitar a possibilidade de um rebaixa-
mento critic do leito do Tocantins corn a retengdo de suas Aguas
a montante da barrage de Tucurui e a possibilidade de o indice
de salinizag~o comprometer o abastecimento de agua potivel de
Beldm. Qualquer pessoa que repetir o trabalho dos pesquisado-
res da UFPA, comandados pela professor C61lia Coelho, vai veri-
ficar que eu comecei rigorosamente levantando hip6teses, o pri-
meiro passo para testar uma verdade cientifica.
Um dos seus principals fundamentos estava na decisAo da
Eletronorte de modificar o projeto original da barragem, cance-
lando o descarregador de fundo. Atrav6s dessa passage no p6
da represa, sempre haveria vertimento de agua de montante para
jusante, evitando os impacts negativos mais graves rio abaixo.
As hip6teses mais critics nio aconteceram, 6 verdade. Mas,
pelo menos no meu caso, s6 fui carregando nas tintas porque a
Eletronorte se mantinha em silencio sobre minhas d6vidas e co-
brangas, apresentadas de p6blico, corn toda a lealdade, com sin-
cero desejo de contribuir para que nio ocorressem os proble-
mas formulados. Finalmente, quando pude confrontar meus da-
dos e especulagOes corn os t6cnicos do cons6rcio Engevix-The-
mag, durante um exaustivo seminario patrocinado em Bel6m pelo
entAo deputado Fernando Coutinho Jorge, em nome da Cimara
Federal, verifiquei que a confianga dos t6cnicos se baseava num
sofisticado modelo matemitico e em simulag6es feitas em tama-
nho reduzido da barragem, adequadamente calibrado para res-
ponder a todas as d6vidas.
Depois de intensos debates corn os t6cnicos, as vezes fron-
tais, mas em tom respeitoso e civilizado, reconheci publicamente
que eles dispunham da melhor ferramenta corn que se poderia
contar, a falta dos estudos de campo, impossibilitados pela ca-
rancia de tempo (a andlise dos efeitos ecol6gicos a jusante foi
iniciada sete meses antes de comegar o enchimento do reserva-
t6rio da hidrel6trica). Mesmo assim, deve-se lembrar que a Ele-
tronorte antecipou o cronograma de formacio do lago para apro-
veitar-se de uma antecipagio imprevista das chuvas, que contri-
buiu para que as previsbes mais negras (nao foram as minhas,
por6m) nio se consumassem.


6 NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


Nio sou um catastrofista, nem tor-
go pelo insucesso alheio. Sou algu6m
que acredita nos m6todos cientificos do
conhecimento, impossiveis sem a formu-
SMlaoio de hip6teses, inertes a falta do pes-

.de de fazer). Havia muitas d6vidas em
*- -. relagio ao projeto de Tucurui porque a
Eletronorte era fechada, autorit"ria, auto-
suficiente. Nio queria prestar contas.
Reagia corn intolerancia provocaoio da
critical. As coisas teriam sido muito melhores se ela se tivesse aberto ao
diilogo desde o inicio. Problems de hoje nio existiriam ou estariam
atenuados se ela tivesse a humildade de ver e corrigir seus erros.
0 descarregador de fundo, por exemplo, onerava a barra-
gem (em orgamento e implicag6es de engenharia) e talvez sua
supressio tenha sido a melhor decision, de uma perspective de
curto prazo. Mas se ele tivesse sido construido, o baixo Tocantins
nio estaria amargando as consequencias da perda dos nutrients
anteriormente transportados pelo rio, que passaram a ficar retidos
pela barragem. As ilhas a jusante estio cada vez mais empobreci-
das porque suas terras deixaram de ser recicladas atrav6s da depo-
sigio natural de sediments do rio na cheia. Esse 6 um golpe
terrivel, de amplitude cultural, civilizat6ria. Os engenheiros s6 viam
o rio enquanto kw. Os caboclos, remanejados para a terra firme, o
cultuavam como vida.
Incumbida de executar uma tarefa que transcendia sua compe-
tencia especifica, segundo um cronograma sobre o qual nio era voz
determinante (ele dependia das obras do p6lo de aluminio acertado
pelo Brasil com oJapao), a Eletronorte nao queria ser perturbada na
sua missio, que era drdua, mas se limitava a uma obra de engenharia
hidrel6trica. N6s viamos Tucuruf num context mais amplo, de desen-
volvimento regional, para o qual o prospect da Eletronorte era uma
camisa-de-forga. Pagamos um alto prego por essa posigao. Manifesta-
G6es como a de Emir mostram que o prego continue a ser cobrado. S6
que a fatura est. errada. E o enredo da hist6ria, distorcido.


ANOTA AO POLITICAL
A primeira observaiAo de Bemerguy que gostaria de co-
mentar foi feita em 2 de abril de 1986:
"L6cio Flivio Pinto saiu de 'O Liberal', desgostoso por nao apoi-
arem sua campanha violent contra o govemadorJader Barbalho. E
um rapaz de valor, mas parece vaidoso e arrogante".
Primeiro: nio fiz uma "campanha violenta. Violentos e escan-
dalosos eram os fatos que eu revelava. Meu tom s6 subiu alguns
decib6is quando o jomal do govemador, acuado pelas minhas mat6-
rias, irrespondiveis, reagiu mentindo.
Disse que eu estava movendo uma campanha contra Jader
porque ele se havia recusado a me nomear para a superintendan-
cia da Sudam. Na verdade, eu havia dito ao governador, na Gltima
conversa em offcomo amigos que tivemos, em fevereiro de 1985,
que ele perderia meus 61timos cr6ditos se, consumando uma ame-
aga pendente no ar, trouxesse o doutor Henry Kayath do Rio de
Janeiro para assumir a Sudam.





Estimulado pela liberdade que me concedia para uma con-
versa absolutamente de confianca, lembrei ao governador que o
doutor Kayath conseguira se afirmar como medico em uma clini-
ca especializada no Rio, depois de uma acidentada said de Belem,
nos idos do golpe military de 1964 (ate hoje habeas corpus para
muita gente) e que seu retorno a uma funqio plblica, atendendo
a conveniencias political e pessoais, seria um retrocesso, seme-
lhante ao que Jader criticara quando Jarbas Passarinho era o
dono das indicaq6es federais no Para e colocara em cargos vi-
tais pessoas despreparadas para a tarefa.
Jader nao gostou do que eu disse, mas acho o tempo me deu
complete razaio. Ou ao menos nao estaria agora o doutor Kayath
cobrando cinco milhbes de reais, indenizagao do governor federal
por tC-lo trazido do Rio para a Sudam e o demitido sumariamente,
quando evolaram os interesses e as conveni&ncias que o haviam
colocado no comando da Sudam, nio para servir ao povo da
Amazonia, no meu ponto de vista.
Assim, nafo foi por me faltar o apoio do jomal para uma "campa-
nha violent" contra o govemador que deixei OLiberal. Alias, quando
minhas mat6rias (sobre os escnclalos do Aura, Banpari, Instituto Tec-
nol6gico de Brasilia, Maiamegate etcatetva) provocaram uma tensao
enorme nas relag6es do jomal com o poder baratista (e neobaratista),
que constitufa uma das origens do poder do pr6prio Romulo Maiora-
na, eu fui ao Rio de Janeiro, onde ele convalescia de sua doenga fatal,
e lhe entreguei todos os cargos que exercia no jomal, integralmente
todos, da minha coluna ao Rep6rter 70 e "a TV Liberal. Ele ficaria a
vontade para satisfazer Jader, Kayath e H6elio, naquele moment no
mesmo barco, e fazer a campanha do ultimo ao govemo.


Depois de almogarmos, corn a Onica companhia de Dea, Ro-
mulo me disse que voltasse a Bel6m como eu saira, corn todas as
funcoes e sua plena confianga. Eu nao sofreria qualquer censura
e ele agientaria todas as presses. Menos de um mes depois, ve-
tou um artigo que eu escrevera, menos frontal do que outros ji
publicados pelo journal. Nfio tive outra alternative senao pedir de-
missiao atirando. Afinal, eu fora alvejado por tris num moment
em que sustentava tiroteio pesado vindo da frente.
Se agir dessa maneira 6 ser arrogante e vaidoso, assume
esses defeitos. Pretendo ser assim at6 o fir dos meus dias. Naio
creio, entretanto, que se me faga justiqa imputando-me a preten-
sao de ser o dono da verdade. Sou uma pessoa de id6ias, que
defend cornm ardor. Mas duvido que alguem tenha se exposto
mais ao debate entire n6s. Vou as covas de todas as raposas e
lebes, submeto-me a todos os tipos de audit6rios, aceito con-
frontar-me com pessoas de todas as qualificag6es e formag6es
profissionais, sem escolher interlocutor. Vou cornm a disposiaio
de defender o que penso ser verdade. Mas disposto a submeter-
me "a verdade alheia, quando dela sou convencido no inico
teste que me interessa: o das ideias.
Perdi a conta dos seminarios, simp6sios e quetais de que
participei quando cheguei a 500, oito anos atris. Sei que errei,
erro e continuarei a errar no future. Gosto quando me apontam
os erros. Ainda acho que 6 a melhor maneira de corrigi-los. Mes-
mo quando me apontam erros cornm aquele tipo de falsa auto-
suficiencia que constitui o virus mortal do provincianismo. Por
isso ando tanto pelo mundo e os livros. E, entire outras coisA,
para tentar me livrar desse mal.


CRITICAL


0 virus de esquerda na



cabeqa da direita


Olavo de Carvalho, privilegiado ocupante de toda uma pil-
gina semanal de ensaio na revista tpoca, tonitroou em um dos
seus 6ltimos artigos que todos os esquerdistas "tomam posiqao
logo de cara na entrada da adolescencia, antes de saber coisa
alguma do mundo, e passam o resto da vida julgando tudo a luz
dessa opgio inicial", inaugurando, talvez, um novo genero de
pensamento: a political gen6tica (ou seria vir6tica?).
Nao me ofendo quando me chamam de esquerdista. Sem-
pre fui um gauche, a maneira do verso drummondiano, ou um
outsider, ao estilo de I. F. Stone. Nunca fui marxista. Devo, po-
rem, grande parte do que sei ao marxismo, especialmente a Karl
Marx. Sabendo, contudo, ser tio pouco o que sei, tenho me
esforgado para saber sempre urn pouco mais, desfazendo-me de
alguma coisa, incorporando outra, indagando ao conhecimento,
estudando sempre.
De fato, confirmando o "fil6sofo" de Carvalho, cheguei at6


Marx na adolescencia, em torno dos 15 anos. Atrav6s de La Pen-
see de KarlMarx, a monumental introdusito do jesuita Jean-Yvez
Calvez. Felizmente, o primeiro texto do alemfio que li foram os
"Manuscritos Econ6mico-Filos6ficos" Digo felizmente por dois
motivos: at6 duas geracoes antes, tal iniciacfo teria sido impossi-
vel: os manuscritos, considerados "da juventude" de Marx, s6
foram divulgados no final da d6cada de 30; e porque eu vinha
de um existencialismo avant la littre, corn Kierkegaard, e de uma
teologia passional, corn Urs von Balthazaar, numa 6poca em que
se vive o que se 1e. 0 "jovem" Marx casou corn minha inquieta-
cao existencial e fenomenol6gica, sem substitui-la jamais por um:
militancia political a qualquer prego, que atira a lata de lixo os
escripulos da consci&ncia, cornm a mio esquerda ou a direita.
Desde entao, tenho dialogado proveitosamente corn os au-
tores marxistas e marxianos. Eles me ajudaram a niio aceitar a



NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 7





verdade pronta, com entrega em domicilio. Foram fundamentals
ao exercicio da minha profissao de jornalista, fornecendo-me
ferramentas para ver a parte inserida no todo que ]he da signifi-
cado, a desfazer o discurso official e a encontrar o caminho at6
os fatos e, por derivagio, a verdade, que naio existe sem eles.
t verdade que, envolvido numa militincia feroz, o "velho"
Marx engendrou dogmatismos e pavimentou o caminho de tota-
litarismos ferozes a esquerda. No furor de debates visando a
conquista do poder, ele foi intolerant e tiranico, como muitos
dos que que, finalmente conquistado o poder a burguesia, exer-
ceram-no em nome do revolucionairio alemao reproduzindo, corn
outro discurso, a dominacgo a que pretendiam ser alternative
melhorada (mas, freqtientemente, apenas ampliada).
Ainda assim, o juizo que de publico o sr. de Carvalho faz
da obra dos intelectuais marxistas 6 de um primarismo e de uma
mi-f6 revoltantes, porque contririos aos fatos. Quando na ju-
ventude, Marx era filho dileto do poderoso pensamento de He-
gel. Mais crescidinho, juntou-se aos chamados "hegelianos de
esquerda" para colocar o mestre de cabega para baixo, fazendo
sua dial6tica mecanica e espiritualista aterrissar no mundo mate-
rial e numa dinamica internal de que ela era carente (razio do
paradoxo de uma filosofia revolucioniria ser abonada por go-
vernos conservadores).
Um pouquinho mais e o filho dileto de Tr6veris deixava
seus antigos companheiros de filosofia comendo a poeira do
tempo, ultrapassando-os num exercicio de pensamento maravi-
lhoso, capaz de adestrar o raciocinio e o estilo (de expor e argu-
mentar), em A Ideologia Alemd (nao a versao compact e detur-
pada dos ortodoxos marxistas, mas o texto original, jamais publi-


cado por complete no Brasil).
A aventura intellectual de Karl Marx tern poucos paralelos
na hist6ria do pensamento ocidental, enquanto filosofia voltada
para interpreter o mundo. Em mat6ria de praxis para transform"
lo, o resultado 6 inteiramente divers. Na o hd d6vida de que
serviu de encobrimento a alguns dos piores crimes cometidos ao
long deste s6culo que se fina.
Quando proclamou aquele principio generoso na "Ideolo-
gia", propondo, ao inv6s da simples interpretagilo do mundo ("sim-
ples", cara-pdlida?), a sua transformacao, ele comecou a trair seu
pr6prio pensamento, abrindo as portas ao autoritarismo, que havia
permanecido a soleira at6 entao (de rest, um element da cultu-
ra alema). Mas, nisso, nao esti s6, nem s6 haveri de ficar, como
podemos constatar olhando para dentro do nosso pais, especial-
mente ao seu Planalto.
0 artigo de Carvalho nao me incomodou por ser o oposto do
que penso, mas por s&-lo de uma forma vergonhosamente tenden-
ciosa, manipuladora, capaz de causar muitos danos aos que o
lem e podem ser tocados por seu tom estudadamente tendente
ao escandalo, a produzir sensag6es, na sua busca a meu ver,
infrutifera de ocupar o espago que foi de Paulo Francis.
Nio escrevo para reivindicar que tal fil6sofo de algibeira
seja eliminado das paginas da revista. Muito pelo contrario: de-
fendo sua permanencia. Lendo-o, alegro-me por nao ser como
ele. Mas acho que 3Epoca, fiel ao compromisso que uma pdigina
dessas imp6e, poderia areji-la e oxigen'-la adotando o demo-
critico m6todo do rodizio, da alternancia. Um dia, o sr. de Car-
valho. No outro, algu6m "do outro lado" Quem sabe, mais den-
so; quem sabe, mais honest.


PERGUNTA/RESPOSTA


Nesta segqo, respond a perguntas feitas em palestras e que nao pude tender por falta de tempo.
Embora o debate costume ser o melhor moment desse tipo de acontecimento, quando deixado
para o final fica inconcluso e insatisfat6rio. Nesta edigao, respond a perguntas feitas por alunos do
Col6gio Vera Cruz, durante mais um dos dias dedicados a Amaz6nia que aquela instituigio realizou
com o brilho dos tr6s events anteriores, alias.


RODA QUADRADA


No modelo de desenvolvimento ocidental capitalist,
os paises que hoje slo primeiro-mundistas
desmataram suas florestas para poderem se
desenvolver. Nao seria essa a alternative para os
paises terceiro-mundistas se desenvolverem?

Um 6dito do rei da Su6cia de quatro s6culos atris jAi
determinava a suspension, por 20 anos, da derrubada de fir-
vores para a producao de carvAo, que seria usado como
redutor para o ferro gusa. At6 hoje, somos o unico pais do
mundo a produzir gusa a base de carvao vegetal, atividade


8 NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


que se sustenta pelo desconhecimento do valor da econo-
mia natural.
Alguns paises mais adiantados tiveram mais cedo essa
percepq.o. Mas, a rigor, a ecologia s6 existe como fonte de
preocupacio mundial hfi menos de meio s6culo. Corn ela, o
home descobriu que faz mau uso dos recursos da nature-
za, antecipando a exaustio de alguns desses recursos e con-
denando ao desaparecimento outros, que poderiam ser re-
novados. Tamb6m estdi compreendendo que agredir a natu-
reza 6 como langar um bumerangue: a natureza pode ser
destruida, mas sentiremos na pele os efeitos desse dano, no
seu retorno inevitaivel. S6 os insensatos deixam de conside-
rar que a persistencia de um modelo baseado no desperdi-
cio e na irracionalidade no trato corn a natureza poder'i in-





viabilizar a nossa vida neste planet. A ecologia seri a cien-
cia do s6culo 21.
0 mundo evoluiu desde que a indtistria comecou a lan-
car poluentes por suas chamin6s e a expansdo da atividade
produtiva se fazia a custa da redugio do espago da nature-
za. Se nao evoluir, estara se condenando ao desaparecimento.
Diante do quadro, alguns suspiraraio sua profunda nostal-
gia, lamentando nao terem nascido numa 6poca em que as
emiss6es poluentes subiam a atmosfera sem qualquer con-
trole. Estardo agindo tao equivocadamente quanto aqueles
que, a partir dos padres de hoje,
langam a condenagco todos os .
que, no passado, nao seguiram -
esse "paradigma", quando, obvi-
amente, esses referencias sim-
plesmente inexistiam (s6 os pro- ... -'"
fetas as anteviam). / -
Se as normas ecol6gicas li-i 17
mitam os movimentos do capital,
alterando a formag~o do prego do
produto e o calculo da remunera- '-".
gio do investimento, al6m de afe-
tar o perfil das invers6es econ6micas produtivas, o conheci-
mento proporcionado ao home pela ecologia permitiu-lhe
ser mais criativo ao lidar corn a natureza, assegurar a susten-
tabilidade dos recursos naturais, perenizando atividades que
eram (e ainda sao) de curto f6lego, e ter um dominio mais
amplo dos efeitos em cascata de sua intervengio sobre a pai-
sagem, podendo at6 exercer um grande control sobre ela.
Querer voltar no tempo para, praticando os erros do
passado, usufruir dos seus rendimentos, 6 ignorar o avan-
go da hist6ria e desperdigar as conquistas do saber. Corn
ciencia e tecnologia de ponta, ajustadas is especificidades
locais, pode-se ganhar mais dinheiro ainda do que numa
economic organizada fordianamente, no taylorismo ou no
toyotismo, sem comprometer o estoque ou a reserve de
capital natural.
Sob uma miope concepcao de ganho, nao vamos dei-
xar de ser contemporaneos. Se assim for, estaremos refor-
cando nossa condenagio ao atraso, a dependencia, a sateli-
tiza~io. Nosso desafio nao 6 o de fazer a miquina do tem-
po regredir, mas sim nos anteciparmos ao future, para que
ele ji nao nos chegue com seu enredo escrito nas letras. Se
assim for, s6 nos restarA seguir a risca o conselho do belo
poema de Olavo Bilac. E ouvir as estrelas. Ora pois.



PRE O DO ATRASO


0 governor prega que a destruigAo da floresta 1 feita
para desenvolver a regiAo. Seri que devemos
acreditar nisso? Ou devemos trancafiar a floresta e
nao explorer os recursos naturais, pois qualquer
exploraqdo e destrutiva ambientalmente?


0 home ji alterou 15% da superficie da Amaz6nia, con-
siderando-se seus limits em 3,5 milh6es de quil6metros qua-
drados de floresta. Quase tudo isso foi executado nas ultimas
quatro d6cadas. Mais para tris, o indice 6 inferior a 1%. 0
efeito danoso dessa alteragao certamente vai muito al6m de
500 mil km2. Uma das grandes misses da ciencia contempo-
ranea jai nao e medir quantitativamente essa destruigdo, mas
avalii-la qualitativamente, inventariando o que foi destruido,
o que ainda esti sendo destruido, o que seri destruido no
future como ressonincia do que ji se fez e como se process
a adaptagio (se existence) da na-
tureza no cenirio transformado
.". pelo home.
Passar a corrente pela flores-
ta e tranca-la corn cadeado 6 im-
possivel. Penetrar nela a maneira
de d6cadas ou s6culos atris 6 in-
sensatez. Hoje, s6 uma pessoa de-
*v. Q .,J sinformada ou de mi-f6 acredita
'. que madeira s61lida 6 o melhor pro-
S' 'duto da floresta. No entanro, era
s6 para obt&-la que se fazia des-

matamento. E ainda se faz em muitas parties do planet, inclu-
sive nos Estados Unidos. Mas a ciencia ji acumulou conheci-
mentos suficientes para arquivar esse tipo de concepcgo.
Sabemos que o ecossistema amaz6nico result de um equi-
librio precirio, de um ciclo quase fechado. S6 6 recomendivel
penetrar nele corn conhecimento de causa, tendo algum contro-
le dos efeitos dessa intervencgo. E dispondo de um guia sobre
as aptidoes naturais da airea. Ou seja: o ensaio e erro 6 um m6to-
do inviivel na Amaz6nia. Na maioria das vezes, nao teremos
uma segunda alternative. 0 dano causado podera ser irreversi-
vel. Quando nada, porque 6 mais caro curar a natureza do que
prevenir sua doenga.
Os 500 mil km2 de areas alteradas ou degradadas ji consti-
tuem um universe formidivel. Pode-se explord-lo melhor, con-
solidar o que 6 saudavel e converter o que 6 gravoso, buscando
um novo ponto de equilibrio, que significa o maior grau possivel
de harmonia entire as necessidades do home e as da natureza
(contando-se corn dinheiro suficiente para tal, 6 claro). Mas nio
se deve expandir a fronteira econ6mica sem formamos um esto-
que satisfat6rio de informacges sobre a drea visada. Nenhuma
contingencia autoriza manter essas frentes pioneiras, nem mes-
mo as raz6es de seguranga national.
Nao 6 reanimando o cadaver insepulto do Projeto Calha
Norte que se vai criar uma zona de seguranga contra a expansao
da guerrilha e do narcotrifico pelas fronteiras amaz6nicas. 0
prego para converter o espaco da natureza no espaco da sobera-
nia national (entendida como pastagens, campos de cultivo, hi-
drel6tricas, estradas, cidades) 6 o sacrificio da condigio amaz6-
nica dessa area, anulando-se de vez a possibilidade de um de-
senvolvimento sustentAvel.
Seri que nossa condicao de terra de agua, floresta e
sol 6 incompativel com o nosso status juridico de territ6rio
national? A


NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA- 9






.. ..... -.. .....'.. ....."-.-.
__ ,/ F~" J ~ -"... -*=l


JAZZ
Anincio publicado pela Folba do Norte de 26 de ja-
neiro de 1945:
"Sociedade 20 de Margo
Havera nos sales desta sociedade um formid~vel baile ao
som do jazz nQ 1 da cidade, que executari os melhores sambas,
marchas e choros da 6poca.
Muita harmonia e boas morenas.
Nio percam. Todos a "20 de Margo"
Bonde da Cremagao".


INDUSTRIAL
Qual ind6stria oferece em seu catilogo de produtos doces
de bacuri, cupuassu, mangaba, abric6, cubio, graviola, muruci,
buriti, banana e abacaxi, al6m de uma goiabada "da pura, ini-
gualivel"? Pois em 1945 era o que a Fibrica Sao Vicente, de M.
Santos, Filho & Cia., oferecia, num anmncio de inicio de ano. Ela
se orgulhava de ser um "modernissimo estabelecimento de be-
neficiamento de castanha do Parn", especialista na fabricag o de
bananada e goiabada com essa castanha. Era tamb6m a "6nica
fabricante da deliciosa ameixa do Pard" em suas instalag6es, na
rua da Municipalidade 629. Hoje, mais uma sepultura no que
deveria ser um dos distritos industrials da capital paraense.


ANTI-TROTTOIR
0 delegado Dimas Teles assumiu o comando policial do cen-
tro de Belem, no inicio de 1957, com uma disposigio: retirar as
prostitutes de toda a area compreendida entire a sede dos Correios
e Tel6grafos e a Praga da Republica, onde o trottoir era intense.
Foram fichadas 600 prostitutes, 150 das quais exerciam ilegalmente
a profissao em "casas de c6modos" situadas naquele perimetro.
Na sua primeira "incerta", o polemico delegado prendeu
17 mulheres durante a madrugada, intimando-as a aparecer no
dia seguinte na delegacia para serem devidamente fichadas. A
ordem era naio deixar "mundanas" circulando pela drea at6 a
meia-noite, atendendo-se as reclamag6es das families que iam
ou vinham a pe dos cinemas, sendo abordadas pelas "maripo-
sas". De pronto, 20 prostitutes desistiram do duro oficio e de
continuar sujeitas as ofensivas de Dimas Teles. Ele considerou
o resultado uma vit6ria.


INTEGRALISMO
Camisas verdes de todo o pais (galinhas verdes para os
seus advers:rios) comemoraram, em 1957, o jubileu de prata do
integralismo, o movimento criado no Brasil por Plinio Salgado a
partir de inspiragao no nazismo de Adolf Hitler. Depois do fra-


10 NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


casso do putsch de 1938, quando os integralistas tentaram depor
e assassinar Gettlio Vargas, tirando-lhe o poder, a Agito Integra-
lista Brasileira virou AgAo Nacionalista Brasileira, jai sem o impe-
to inicial, mas ainda carismitica e messianica.
No Pard, as comemorag6es pelo 25- aniversirio do "grande
movimento cultural e politico" liderado por Plinio Salgado foram
realizadas numa resid&ncia na avenida 16 de novembro, no dia 7
de outubro. Funcionaram como anfitri6es dos festejos Jos6 da
Silva Castro, entdo president do PRP (Partido de Representagio
Popular, a sigla dos antigos integralistas), Marcos Hesketh Neto,
Jose Simnes Costa, Donato Cardoso de Souza, Werther Benedito
Coelho (atualmente desembargador) eJos6 Travassos Vieira, que
assinaram o convite publicado na imprensa.


CINEMA
Estava assim composta a diretoria do Cine-Clube "Os Es-
pectadores", eleita em 1957: president, Orlando Costa (jfi faleci-
do, depois de ter sido ministry do Tribunal Superior do Traba-
lho); 1- secretirio, Rafael Costa (jornalista e escritor); 2L secretfi-
rio, Acyr Castro (responsivel por coluna cultural em A Provincia
do Para); tesoureiro: Maria Sylvia Nunes; president da assem-
bleia geral, Benedito Nunes. A sede do cine-clube era na resi-
dencia do casal Benedito-Sylvia Nunes (ainda em plena ativida-
de intellectual na travessa da Estrela (hoje, infelizmente, muda-
da para Mariz e Barros).
A posse foi ap6s a exibigao do film A bela e afera, de Jean
Cocteau, com Jean Marais interpretando o papel principal, no
audit6rio da SAI (Sociedade Artistica Internacional, na rua Jolao
Diogo, onde hoje esti a sede da Academia Paraense de Letras).
Joaquim Francisco Coelho (ha muitos anos nos Estados Uniclos,
onde dai aulas de literature) fez a apresentag io do filme. Jd Acyr
Castro foi o responsivel pela oitava exposigio do "curso de ini-
ciagco ao cinema", tragando um "esbogo hist6rico do cinema".


SANFONA
0 acordeon era um instrument musical corn tal prestigio
na decada de 50 que havia uma academia dedicada exclusiva-
mente a ensind-lo a prendados rapazes e mogas, atraidos pelo
sucesso sorridente de Adelaide Chiozzo e sua (corn perddao da
palavra e da musicalidade) sofisticada sanfona. Era a Academia
Prof. Alencar Terra, dirigida por Milton Assis.
Em 1957, a traditional festa em homenagem as diploman-
das do ano anterior foi realizada no Palace Teatro, que ficava
atras do Grande Hotel (espago hoje ocupado integralmente pelo
Hilton Belem). Marly Santiago, concorrendo com Maria Erothyl-
des Maneschy e Maria de Nazare Dias, foi eleita "miss acordeon".
Recebeu a faixa das maos de Sylvia Mara Brasil, Jurt.inIcrm-
com um valioso brinde". E foi "vivamente aplaudida".








SRIA DO cOTO IA


NORDESTINOS
No ano seguinte, os professors Milton Assis e Gelmirez
Silva (patrono do inicio da carreira do violonista santareno Se-
bastilao Tapaj6s) comandaram um espeticulo na mesma SAI,
dessa vez para arrecadar dinheiro para os imigrantes nordestinos
instalados na terrivel Hospedaria do TapanA, na rodovia Arthur
Bernardes, flagelados da seca que assolava sua regiao. Uma sina
de s6culos, a vinculacgo das secas nordestinas h colonizagAio
amaz6nica, sem resolver nenhum dos dois problems. Mas a
noite musical em Bel6m foi um sucesso.


SANATORIO PO

A diretoria do Centro de Em 19'., 0 Jlubes de sc
Estudos do Sanat6rio Barros er.im d.- princip:us formadc,
Barreto, eleita para o ano de suas direru 1.a, pji,.lpa'v:m p
1971, era presidida por Lindolfo sr,: il-da.Jc buji reunimes er:
Ayres, tendo Alcyr Ara6jo como dc-I.quc- pel. injprt-nsa. SLi.is
tesoureiro, a assistente social uma nlmarci n:3 cidiJe.
Joaquina Barata Teixeira como A p.ii.iL Jd rc un.ilo d..j Ri
secretairia e a nutricionista Jose- de rm.n: Jic 19r:, pir ex:-cmplj
dira Carvalho como biblioteca- Oi land0 S,,-.uz, Filhi. 1' .1 f:tl.- i
ria. Os membros do conselho rn a-'.- idJ Na.'ird., ulg:iu
fiscal eramJos6 Vergolino, Elisa do q4ua.l 0 ado ulkural] .l .i cc
Viana e Almir Gabriel. Eram su- Beli, i outra marca daqueles t
plentes Valry Bittencourt Ferrei- dipli. u i.'iJ ..lui baw-J.i d.I 1. Vir
ra e Nilo Almeida. Ou seja: a rc c-a-ij i.i \ enrJ do L-u au
equipe que acompanharia (e, milhbes de cruzeiros, ele a apI
em alguns casos, desacompa- da cathedral de Belem, a igreja
nharia) o governador Almir Ga- pegou entire n6s: a do mecena
briel na ja demorada excur- esclarecido). Rotundo, um dip
sdo pelo poder. ser transferido do seu posto er
Bl. iti.i l u, U'-.r l un'lc ierila h..

BORRACHA N,'.In r,,:-:l uso" FJ rpesi
.indani-rnto a c.onsitru..'i dou m
Em 1945, em plena epoca eim linte n c .u.,:io dc p.as-. ig
de esforgo de guerra para o su- :eropoa.v. d- V\al-de-Cians o rr
primento das tropas aliadas, dJ.p.,isc rL-ei.ia' :ic iiuri
que combatiam contra o Eixo Tanl&-'.;i n hIn..rn.lc.
(Alemanha, Italia eJapao), fun- curlt-tai a "-: .'r1n. de exiC.-A
cionava em Belem uma Socie- .nnd m. T ci ali. idIdeC. sa udu U
dade dos Estivadores da Bor- TnbunJII.L Regi.na.I do TraLb.lh
racha. Mas nao s6 para produ- (que chegaria a ser ministry d
zir. Um an6ncio de janeiro con- Ele :rnbri'u ique a justiga traiJ
vidava para um "grande baile" apenas uma simples taxa emr
de sdibado, oferecendo "bom justk:.a crnmum se verifica o C(
'jazz'" e "boa misica", na sua elex ad.i- uiipo'rtincus aos esc
sede, na rua Boaventura da Sil- C .mo_ Jdiru ao c.,npositor
va, no Umarizal.


CASSINO
Nio muito distance dali, ji estava funcionando a pleno
vapor o Cassino Maraj6. Apresentava, em janeiro de 45, duas
atracoes internacionais: Juan Daniel, o "cantor de las Ame-
ricas", "celebrado tenor mexicano, criador de harmoniosas
cangOes tipicas e que vem precedido de um renome justifi-
cado", e Maria Monterrey, "a salerosa bailarina argentina, sem
rival na majestosa arte da danga e que sabe arrancar da assis-
tencia os mais vivos e entusiisticos aplausos pela originalida-
de do seu bailado, na interpretagAo dos compositores da
m6usica hispano-americana".
Outros cartazes do cassi-
-ER no eram Yara de Goiaz, "uma
i.o, RotarN e Lions, ainda sambista de cartaz muito co-
de opinilo na ciidde. Da.> nhecida nos meios teatrais ca-
,.oas dc gr.nde influnctia na riocas", e Budy, "o mdigico do
concurrid.s e rnoiiciadas con ilusionismo".
]i,:itm]as :,caiba 'Arn gerando Como Belem ainda vivia
isolada do restante do pais, era
ry Clube de Belem de,. inco dificil conferir tanta fama e su-
stava recheada 0 presidcnre, cesso. 0 melhor mesmo era,
, e nome de prc&io re-.dern.al como diriam os americanos,
:onteuido d unua canra itr.,'r- expandindo sua influencia
ulado dos Eai.idus- UnidJis em como nunca, relaxar e gozar as
npos: o peso da lepre-senutj;' atragaes do cassino.
ent Rotundo, cormunica\ aI que a
vel particular, no 'al.r de 2-,r COURO
aria nas obras de re-tO uraC.aio
Se (uma marca que jamais Sem qualquer constran-
, ou ao menos do despotismo gimento, que a ecologia nem
nata muito ativo na epoca, iria era sonhada, a Industria de
3elem e queria deixar uma Couros Tamoios, de Arman-
do Santos & Cia., anunciava
nteconImuLniou que eM..va em no inicio de 1945, em sua
umentro do) Rotiar\ na prac.a loja da Praga da Repiblica
os do % clho i nerti t.iniu, entrio (ndmeros 8 e 9), "grande sor-
numenio f:ti concludu- logo timento em carteiras para se-
nto d' no.i aeropurt.'j., nhoras, pulseiras, cintos, por-
a ustica tr:ba.Iillis.I, que ta-moedas, porta-c6dulas,
u. O ad -,gaIJoJhuli.' Alcncar fosforeiras, cigarreiras e todo
Laii e o president do e qualquer, beneficiamento
Raymund.i, de Suuz.a MNura de couro de cobra, lagarto e
TST, em Br.sili.a a, ajra.dec-u jacare". Dizia-se "sern rival
hi-ut era gratuita, ".obranidu nos pregos".
os no final, enquanto na Era s6 ligar para o "au-
r-irio, pagando as parties tomitico" 507 e se informar
.o;s". a respeito. Ou ir ao dep6si-
b Dylan, os teimp._i niudbr.mn. to, a "Beira-Mar", na rua dos
Tamoios.


NOVEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 11


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PROPAGANDA

Sim, a Pepsi-Cola, o refrigerante da
amizade", concorrente mundial da
Coca-Cola a partir do quartel-ge-
neral nos Estados Unidos, chegou a Be-
16m no dia 9 de setembro de 1958, depois
de se instalar em apenas outras cinco ci-
dades brasileiras (Manaus, Recife, Porto
Alegre, Pelotas e Belo Horizonte) e em


meio a uma das maiores campanhas de
publicidade ji realizadas at6 entfio. Na ca-
pital dos paraenses, o refrigerate seria en-
garrafado e distribuido por Produtos Vit6-
ria, corn sua fibrica instalada na entaio
distance avenida Almirante Barroso 1885.
Os fabricantes manifestavam a con-
viccqo de que o consumidor de Beldm iria
adorar o novo produto, "por sua alta qua-
lidade, por seu sabor inigualivel, por sua


pureza e integridade". Depois do "grande
lancamento", cujo sucesso "superou a ex-
pectativa", a Vit6ria prometia que a Pepsi
servida aos paraenses continuaria a ser "o
mesmo delicioso refrigerate, inalterivel,
purissimo, saudivel, refrescante".
Finalmente a bandeira do refrigeran-
te "preferido em todos os climas, em qual-
quer 6poca", fincava sua bandeira na Aci-
da terra dos tupinambis.


Pepsi-Cola
Avenida Almirante Sorroso, 18S
as


N6s saudamos

PRODUTOS VITORIA S. A.


IL FVram iBeiidaJdes supeordan, ago esorgo vtoriosot. Esti ooroa& de
W@ito a iniciativa de PRODUTOS VITORIA S. A. E em Bel6m. assim como
em P6rto Alegre. Pelotas. Recife, Belo Horizonte, Manaus, ja Be encon-
trea Pepsi-Cola. o retrigerante da amizad6.
A PRODUTOS VITORIA S. A. engarraladores distribuldores le Pepsi-
Cola nests cidado -apresentamos as nossas iais calorosas congratulactes,


Pepsi-Cola do Brasil.S.A.

lSCOUi6tMO CENTRAL, A.eldo Ftanklin Rooseve.lt 39, I~ 817 10 D1 JANEIRO
flUAJ E FABRICA.& a Dr. Alcide Crut, IS -P6TO ALEGqE


Agenda Amazonica
Travessa Benjamin Constant 845/203 Belen/PA 66.053-040 e-nmail: joml@amzo.cnm.br Telefones: 2237690/2417626 (fax) Produuio grfica: luizantoniodefariapinto