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Agenda amazônica
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 Material Information
Title: Agenda amazônica
Physical Description: v. : ill. ; 33 cm.
Language: Portuguese
Publisher: Agenda Amazônica
Place of Publication: Belém, PA
Publication Date: 1999-
Frequency: monthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note: Title from caption.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification: lcc - F2546 .A26
System ID: AA00005009:00014

Full Text






/ ama Zonica
ANO II No 14 BEL M, OUTUBRO DE 2000 R$ 3,00 LU cio Fld vio Pinto


CONTINENT

0 Vietnam esta aqui?
Foi mais ou menos assim que tudo comegou no Vietnam, quatro decadas atras. Agora,
na Colombia, o president Bill Clinton diz que vai ser diferente. Diz que trata-se apenas
de ajuda para o pals vizinho vencer o desafio do narcotrafico e da guerrilha. Mas, como
na lenda do Chapeuzinho Vermelho, cabem as perguntas perigosas: por que tanto
dinheiro? por que tantas armas? por que tropa americana? Enquanto ainda e possivel
evitar uma resposta de lobo mau, os lideres do continent t6m que buscar outro
caminho que nao o da tragedia, como a do Vietnam.





6iltimo dia 30 de agosto, o president Andres Pastrana
Arango deslocou sua corte palaciana ate Cartagena, quinta
maior cidade da Col6mbia, cor seus 900 mil habitantes,
debru'ada sobre o mar do Caribe, para ali receber a visit do
president Bill Clinton, dos Estados Unidos. 0 local do encontro
sugeria aos observadores atentos simbolismos, certamente nao
previstos pelos anfitribes.
A comegar pelo nome complete da cidade, Cartagena de
Indias, reminiscencia do seu passado colonial. Hoje patrim6nio
cultural da humanidade, declarada pela Unesco (6rgdo da ONU),
ela foi fundada em 1538 para ser o ponto de apoio do poderoso
imperio espanhol nas Americas, no unico territ6rio de um pais
latino-americano espalhado entire o oceano Pacifico e o mar do
Caribe, entire praias litordneas e a floresta tropical, montanhas e
depresses, um verdadeiro paraiso.
Clinton s6 iria permanecer seis horas em territ6rio colombi-
ano, mas sua visit estava fadada a provocar fortes impacts. A
seguranga era garantida por 10 mil homes atentos e bern arma-
dos, muitos deles americanos, preocupados com atos de protes-
to de cidaddos e atentados de guerrilheiros.
Clinton anunciaria em Cartagena o "Piano Col6mbia", fi-
nanciado corn 1,3 bilhdo de d61lares dos EUA, 600 milh6es trans-
feridos em dinheiro vivo As autoridades colombianas em cinco
anos, os restantes 700 milh6es em equipamentos e outros instru-
mentos materials americanos, principalmente armas, como 60
helic6pteros de ataque, e tropas das Forcas Especiais para treinar
os militares colombianos na luta contra-insurgente.
Todo esse aparato seria exclusivamente para destruir, ao
long do pr6ximo quinquenio, 200 mil hectares de plantag6es
de coca e papoula, interrompendo na origem o fluxo de 80%
da droga que entra nos Estados Unidos (e vai tamb6m para
quase todo o mundo), um neg6cio que rende bilhoes de d61la-
res A custa de um dos grandes dramas individuals e sociais do
nosso tempo.
Esse seria o objetivo da guerra bacteriol6gica prevista no
piano, A base de fumigagbes corn glifosfato, que afetariam ape-
nas as plants visadas, sem prejudicar as demais. Mas como o
cultivo da coca e sua transformaqgo em pasta base constituiriam
a principal fonte de recursos para a guerrilla, sobretudo para a
principal delas, as Farc-EP (Forgas Armadas Revolucionirias da
Col6mbia-Ex&rcito do Povo), inevitavelmente se tornava neces-
sirio ataci-las.
"Isto nao 6 Vietnam", declarou, enfitico, o president Bill
Clinton. Ja seu colega Pastrana assegurou que enquanto for pre-
sidente da Repfiblica (esti na metade do seu mandate), "nao
haveri intervengdo military estrangeira na Col6mbia". As palavras
visavam tranqtiilizar a crescente preocupagdo continental e, jd
agora, international de que a ampliacgo da participagao ame-
ricana no combat ao narcotrifico e A guerrilha acabe langando
a mais poderosa nagdo no planet em outra participagao military
direta. 0 paralelo mais evidence 6 corn o Vietnam.
No inicio da escalada americana no sudeste da Asia, inicia-
da corn a guerra da Coreia, na decada de 50, o president John
Kennedy tamb6m prometera nao ir alem da assistencia military As
tropas do Vietnam do Sul, enquanto o president Ngo Diem em-
penhava sua palavra corn a manutengao do carAter national do
conflito, at6 ser assassinado um piano de eliminagao concebi-
do pela CIA (a Agencia Central de Informag6es dos EUA, mais
famosa por suas operag6es sujas do que por sua clarivid&ncia).


2 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


Ao cabo de uma guerra de quase uma d6cada e meia, na
qual chegaram a utilizar 500 mil homes (10% deles morreram
nos combates), os Estados Unidos foram obrigados a deixar me-
lancolicamente o pais invadido sem chegar A vit6ria. Muitos dos
soldados sequer sabiam exatamente o que estavam fazendo ali.
Ja os vietnamitas choraram dois milh6es de mortos, tres milh6es
de mutilados e um territ6rio destruido, sendo alguns milh6es de
hectares de floresta numa guerra bacteriol6gica que guard algu-
ma semelhanga corn a que agora se anuncia para a Col6mbia.
Mas a Col6mbia tem nimeros muito mais grandiosos do
que os do Vietnam. t o segundo maior (quase o mesmo tama-
nho do Pari, 1,2 milhdo de quil6metros quadrados) e mais po-
puloso (42 milh6es de habitantes) pais da America do Sul, abai-
xo apenas do Brasil, corn quem possui a mais extensa fronteira
continental, toda ela em plena selva amaz6nica, e afinidades
materials (sdo dois dos maiores produtores de cafe) e culturais
(uma relacao de rivalidade e admiragao futebolistica).
Como o Brasil, a Col6mbia parece ter um ideal de grandeza
derivado de sua pr6pria dimensdo territorial, capaz de abrigar
riquezas de valor estrat6gico (como gis natural, petr61leo e car-
vdo mineral), e de sua hist6ria. Sob o dominion colonial espa-
nhol, ela era a Gra-Col6mbia, estendendo-se por Areas vizinhas
que formam, hoje, a Venezuela, o Equador e o Panami.
Os sonhos imperiais espanh6is acabaram, mas uma elite
crioula (como aconteceria na Africa do Sul e na Australia) esta-
va empenhada em tomar conta deles, afastando toda e qual-
quer alternative de poder fora dos seus quadros. Um pais gran-
de e rico gravita desde entao entire dois grupos, alinhados nos
partidos conservador e liberal, implacAveis na delimitagio de
um poder concentrico.
Para penetrar na cunha de privil6gios, que confere o tom de
cosmopolitismo e afluencia a essa elite contra um pano de fund
de miseria e desesperanga, os excluidos tem se langado em ofen-
sivas tamb6m violentas. Os sucessivos choques contabilizam bai-
xas aos milhares, em sangrentas guerras civis. Na dos "mil dias",
por exemplo, entire 1899 e 1903, elas somaram 130 mil. A partir do
"Bogotazo", em 1962, desencadeado pelo assassinate do liberal
Jorge Gaitin, alcangaram 200 mil pessoas mortas.
De um lado, as elites nao estao dispostas a ceder o poder
que arrancaram dos espanh6is. De outro, seus adversirios nio
abrem mao de suas armas. A negociagao e os intervals de vida
regular entire escaramugas generalizadas tem que ser simultaneos
aos combates, como esti acontecendo agora, entire as tropas do
governor e os guerrilheiros, que ji controlam quase metade do
territ6rio colombiano. As Farc ja completaram 35 anos de exis-
tencia. 0 ELN (Ex6rcito de Libertagdo Nacional), 30 anos. 0 fa-
moso M-19 aceitou larger as armas e se transformar em partido
politico. Seus lideres foram todos assassinados. 0 movimento
desapareceu. Nao 6 uma boa licao moral em favor da paz.
Mesmo o visitante desatento fica abalado pela sensagao de
estar numa nagao em process auto-destrutivo e feroz. tI uma
sensacgo de pesar que cresce juntamente corn o deslumbramen-
to pela beleza desse pais e admiracao por sua hist6ria repleta de
energia, por sua gente, seus costumes, sua alegria a despeito de
tanto sangue acumulado ao long das 6pocas. Nio deixa de ter
algum ponto de ligagao, apesar das distincias no espago e das
diferengas no tempo, cornm o Vietnam.
A convivencia de opostos radicais 6 a causa de tanto des-
compasso e de uma irracionalidade que, depois de romper elos





hist6ricos, parece se alimentar de sua pr6pria vol6pia, envolven-
do grupos formalmente armados como ex6rcitos e milicias para-
militares, traficantes de drogas e ide6logos politicos, criminosos
comuns e ativistas politicos.
Os americanos estao se estabelecendo perigosamente nes-
se vulcao ensandecido, provides de sua tecnologia de ponta e
da crenga, nunca superada, de que o "big stick" (o porrete) cons-
titui sempre a melhor diplomacia para o "Tio Sam" Seus bragos
operacionais sao dois generals: McCaffrey, chefe do combat ao
narcotrafico, e Keith Huler, chefe do Comando Sul e responsdvel
pela parte military do "Plano Col6mbia" Ha um cheiro de West-
moreland na hist6ria, um cheiro que ja produziu aquela frase
famosa do lider frances (*1841+1929) Georges Cl6menceau ("a
guerra 6 coisa grave demais para ser confiada aos militares").
Com toda a sua paraferndlia de espionage e informag6es,
corn a vasta retaguarda analitica, os americanos nunca consegui-
ram entender o que acontece abaixo do rio Grande, do M6xico A
Patag6nia. Nem precisaram mesmo disso, alias, para continuar
avangando sobre territ6rios vizinhos para deles tirar proveito
pessoal: no Panama e na Venezuela, por exemplo, que ja inte-
graram a Grd-Col6mbia espanhola. Mas se enredaram em dramas
em relaqgo aos quais, A falta de compreensio, o epilogo tern
sido transferido para o future, engrossando o novelo de compli-
cac6es, aumentando o valor da conta de chegada.
A Venezuela, que ja funcionou quase como a 511 estrela
da bandeira americana (papel rejeitado por Cuba e agora refor-
mado pelo Panama), experiment atualmente um novo cami-
nho sob a lideranga (populista? bonapartista? bolivarista? nas-
serista? esquerdista? socialista) de Hugo Chavez, trilha que dis-
crepa do modelo made in Washington, mas tem a ver com a
especificidade latino-americana.
Se a Col6mbia pode vir a ser um novo Vietnam na America
do Sul (como queria Che Guevara, sem seguir seu figurino, po-
r6m), nesse caso a Venezuela desempenhard o papel do Cambo-
dja, onde os EUA mataram dois milh6es de pessoas sem nunca
ter-lhes declarado guerra, e fizeram surgir um personagem do
horror, o general Pol Pot, depois execrado como se o m6dico
nada tivesse a ver com o monstro, para usar a alegoria do escri-
tor americano Robert Louis Stvenson.
As coisas nunca sao exatamente as mesmas na hist6ria,
mas estudA-las e compard-las sempre ajuda a nao repetir os
erros do passado, seja os do mero mimetismo, seja os da vi
indiferenga. Vietnamizacgo ou nao, o que estd acontecendo na
Col6mbia 6 suficientemente grande para merecer a atencao de
todos, mas sobretudo dos seus vizinhos, inevitavelmente atin-
gidos pelo que ali vier a acontecer, mesmo que pretendam vol-
tar as costas ao drama em curso.
A bela nagao colombiana represent, hoje, para toda a
humanidade, um desafio de amplo espectro. Um deles, tratado
inadequadamente na esfera policial, 6 social. Do territ6rio co-
lombiano sai a esmagadora parcela da cocaine em circulacgo
pelo planet. Mas se no ponto final de consume ela 6 um alu-
cin6geno capaz de destruir o ser human, no local de origem 6
uma plant incorporada a uma cultural e um element da natu-
reza. Mesmo em sua dimenso criminal, ela constitui element
de sobrevivencia para 400 mil families na selva amaz6nica co-
lombiana. Desprovidas subitamente dessa fonte de renda, elas
cairdo no circulo final da exclusdo. 0 desemprego aberto ja
escalou os 20% no pais


Sob esse ingulo social, o combat As plantacbes de coca
(que s6 se transform em cocaine ap6s um long e caro pro-
cesso de transformagao quimica) nao pode ter um tratamento
cirurgico, s6bito. Precisa ser gradual, em process, inclusive
junto aos dependents e mesmo ao narcotrifico (ofensivas como
a que os EUA lanc.aram sobre o comercio do alcool, a partir da
lei seca, na d6cada de 20, sao infrutiferas ou tem efeito contri-
rio ao desejado).
Mas tamb6m do ponto de vista ecol6gico: a guerra bacteri-
ol6gica, que tantos danos causou ao sudeste asidtico, especial-
mente ao Vietnam, 6 uma liqdo amarga e cara demais para ser
deixada de lado. Mesmo paises distantes da Asia sofreram corn a
invencao do terrivel agente laranja", desfolhante que chegou a
ser trazido para o Brasil quando os americanos nao puderam
mais dar uso b6lico aos seus estoques. Alguns desmatamentos
na Amaz6nia foram feitos dessa maneira
Uma vez reinventada, essa nova bomba seri letal se pene-
trar na maior bacia hidrogrAfica do planet, patrim6nio de nove
paises do continent. Embora os defensores do "Plano Col6m-
bia" assegurem que o 6nico efeito negative ser; sobre as plants
especificas, 6 evidence que o veneno escoard pelas drenagens
comunicantes, chegando a comunidades distantes dos alvos e
provavelmente desencadeando efeitos fora de control.
Logo, se nao quiserem ter o destino da avestruz, s6 falsa-
mente salva quando esconde a visAo no buraco mais pr6ximo
do perigo, os paises latino-americanos tem que assumir a lide-
ranca do problema, que os Estados Unidos estao arrancando
para si, artificialmente, "latino-americanizando" definitivamente
a Col6mbia antes que ela seja vietnamizada pela political do "big
stick", corn resultados nefastos para todos.
Se a inteligencia, o discernimento, o bom senso e a sensibi-
lidade nao forem banidos durante os pr6ximos desdobramentos
dessa hist6ria, 6 possivel que os paises latino-americanos, sobre-
tudo os vizinhos da Col6mbia, encontrem, atrav6s do reforgo de
relaq6es comerciais e do entendimento politico, um arco de pro-
tegao contra os efeitos de uma desastrosa escalada americana no
continent, com o efeito-domin6 teorizado pelos mais celebra-
dos guerreiros frios, como os ex-secretirios de Estado Robert
McNamara e Henry Kissinger.
Papel fundamental ha de desempenhar o Brasil nesse qua-
dro de entendimento, aumentando o com6rcio exterior tanto com
a Col6mbia (principalmente atrav6s de projetos utilizando car-
vao mineral) como corn a Venezuela (petr61leo e gas), alargando
parcerias ja iniciadas, e estabelecendo political comuns para suas
areas amaz6nicas sem que para sua garantia, em meio a histerias
geopoliticas, seja preciso destruir mais florestas, abrir novas es-
tradas, implantar nucleos coloniais, instalar unidades militares e
os elements de um process destrutivo que ja pos embaixo 500
mil km2 de florestas, o equivalent a quase metade do territ6rio
da Col6mbia. Nem fazer renascer na Am6rica do Sul uma hist6ria
absurdamente trigica, como a do Sudeste da Asia.
Se tal coisa for possivel, a id6ia da Pan-Amaz6nia talvez
saia do papel e emerja da ret6rica para a realidade, buscando
pontos de identidade, como a integragao de bacias (Orenoco-
Negro, por exemplo) e de recursos naturais (o gis natural e de-
mais energ6ticos), que se projetarao internacionalmente como
contraposicgo a pianos idealizados em Washington, como se,
abaixo do rio Grande, tudo fosse extensao ou quintal dos
EUA. 0 que, decididamente, nao somos. A


OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 3




















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N. ^ --


COLONIZAQAO


0 avan o


sobre


a terra


indigena


1 uase sete mil indios do alto rio Xingu sao os legitimos
proprietarios de 12,3 milhoes de hectares de terras con-
inuas entire o sul do Para e o norte de Mato Grosso. O0
teerono pode aumentar ainda para quase 14 milhAes de hecta-
res se a reserve indigena do Bafi, uma das seis que formam esse
todo, for realmente demarcada corn 1,8 milhao de hectares (um
milhao a mais do que pretendia o governor) e os Panara, os temi-

4 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


dos indios gigantes do passado (que nem eram gigantes, nem se
chamavam Kreenakarore, designagao dada pelos inimigos tribais
e incorporada pela imprensa), ganharem sua pr6pria area, de
quase 500 mil hectares.
Nesse caso, a soma das areas dos indios xinguanos seria
equivalent, na Amaz6nia, ao Estado do Amapa, que tem 450 mil
habitantes. A m6dia "per capital" seria de dois mil hectares por
indio, ou 20 m6dulos rurais que cada familiar de lavrador recebia
ao ser assentada pelo governor nos projetos oficiais de coloniza-
qao da regiao (extintos ha mais de 20 anos) para se dedicar a
produgAo agricola. S6 as reserves indigenas do Xingu represen-
tam 8% do territ6rio paraense.
At6 meados da d6cada de 80, os pioneiros que conviviam
ou conflitavam corn os indios nessa re;iao, entire os rios Ara-
guaia e Xingu, no centro geografico do Brasil, usaram de todos
os recursos para impedir que as areas dispersas e isoladas em
poder dos indios se aglutinassem, formando uma reserve 6ni-
ca, a maior do pais, equivalent ao mais extenso de todos os
municipios nacionais de entao, o de Itaituba (hoje desmembra-
do em varios outros). Ao sul, no Mato Grosso, desde 1961 vi-
nha sendo organizado o Parque Nacional do Xingu, um projeto
dos irmaos Vilas Boas para reunir todas as tribes espalhadas
pela area antes que ela fosse alcangada pelas rodovias de pe-
netragao. Ao norte, os virios grupos Kayap6 tamb6m tentavam
agrupar suas cinco areas.





Enquanto constituiam os personagens locais mais ativos,
corn capacidade de influir sobre o poder central, os fazendeiros
impediram o reconhecimento legal das pretensoes indigenas. Cada
palmo de terra conferida aos indios representava um palmo de
terra a menos que eles podiam incorporar ao seu patrim6nio,
numa 6poca em que a expansdo dos im6veis rurais era obtida
principalmente atrav6s da "grilagem", a apropriacgo ilicita de ter-
ras p6blicas e dos indios.
Mas para os atores que foram evoluindo de pap6is secun-
darios para os mais destacados, nem sempre a demarcagao de
terras indigenas significava uma perda. Podia ate proporcionar
ganhos maiores. Era a perspective de madeireiros, garimpeiros e
pequenas empresas de mineragAo. Os madeireiros podiam entrar
na mata pagando pregos irris6rios pela madeira em p6, mesmo
as mais valiosas, como o mogno e o cedro, e nao ficavam sujei-
tos a qualquer tipo de piano de manejo, exigido pelo 6rgao am-
biental (primeiro o IBDF, depois o Ibama o Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente) dos donos de im6veis rurais regulars. Basta-
va convencer os indios a autorizi-los a fazer a extracao. E deixar
a area ser saqueada impunemente.
Os garimpeiros tamb6m ficavam a margem das exigencias e
sang6es legais quando acertavam com os indios lavrar minerios,
em contratos que Ihes eram leoninos em fungao da inexperien-
cia ou desajuste cultural dos indios. Assim, quanto mais eles
tivessem terras, maior era o raio de abrangencia dessas rentAveis
atividades clandestinas.
Tal circunstancia ajuda a explicar o sucesso relativamente
rdpido e significativo dos indios na ampliacao do reconheci-
mento as suas pretens6es territorials, nao s6 as isoladas, como o
conjunto das quatro reserves Kayap6 no extreme sul do Pard. A
composigAo de interesses usualmente antag6nicos se deu numrn
context especial: a antiga Area pioneira jd estava consolidada,
principalmente do lado oriental do territ6rio Kayap6, com fazen-
das que se estabilizaram atrav6s do hibil registro imobiliirio em
cart6rio. Santana do Araguaia foi o primeiro municipio do sul do
Para a eliminar as "sobras de terra", nas quais os posseiros con-
seguiam se instalar para former suas propriedades. Toda a exten-
sdo do municipio foi ocupada por grandes e m6dias fazendas.
A conjuntura que prevaleceu do lado ocidental da reserve
Kayap6, por6m nao 6 mais a mesma, hoje. Os indios da reserve
Ba6 precisaram manter 16 pescadores (10 de Sao Paulo e seis do
pr6prio municipio de Novo Progresso) como ref6ns por uma se-
mana, em agosto, para o governor federal assumir formalmente o
compromisso de respeitar a demarcacgo de 1,8 milhao de hecta-
res de sua reserve. Pressionada, Brasilia estava retrocedendo da
posigAo inicial para um ponto mais pr6ximo do interesse dos
colonos do que dos indios, recuando os limits da reserve para
o rio Curud e reduzindo-a em um milhao de hectares.
Para libertar os ref6ns, foi precise o ministry da Justiga,
Jos6 Gregori, mandar um fax para um procurador da Reptiblica,
deslocado para a Area, assegurando a demarcaco integral. Mas
os colonos de Novo Progresso reagiram prometendo combater
judicialmente essa media e, se derrotados nos tribunais, resistir
no local, corn armas, literalmente.
Logo depois, um novo incident, no mes passado, desta


vez envolvendo agents da Policia Federal e fiscais do Ibama,
que foram A reserve Kayap6 verificar a extragao illegal de mog-
no e, constatando-a, impedir que ela prosseguisse. Foram im-
pedidos de cumprir essa missAo de uma tal maneira que ficou
parecendo a opinido piblica terem sido mantidos como ref6m
at6 suas chefias se comprometerem a nao interferir nas ques-
t6es internal. Por trds dos indios foi identificada a mao invisi-
vel de madeireiros.
Essa area estd numa condicgo bern pr6xima daquela que
havia no alto Xingu, entire as d6cadas de 60 e 70, quando o
Parque Nacional idealizado pelos Vilas-Boas saiu do papel, e
at6 a d6cada seguinte, quando os Kayap6 realizaram a conso-
lidag~o do seu territ6rio.
0 vale do m6dio Xingu vemn sendo penetrado nos 6ltimos
anos pelos tipicos colonos aventureiros, que se anteciparam as
iniciativas oficiais e se aproveitaram do vdcuo dessa presenga,
forte nos anos 70 e acanhada nestes tempos de Estado minimo,
para former suas fazendas, estabelecer seus cultivos e abrir pica-
das de acesso aos 61timos grandes mananciais de madeira do
lado sul do rio Amazonas, dentro do Para.
Mas tamb6m ha um novo tipo de empreitada, como a da C.
R. Almeida, a construtora que mais lucrou no Brasil no primeiro
semestre deste ano (600 milh6es de reais de lucro liquido, que
tenta se apossar de 4,7 milh6es de hectares alegando que ird
utilizA-la em projetos ecol6gicos e turisticos, no seqiiestro de
carbon e em manejo ambiental.
Todos esperam ganhos considerdveis dessa auddcia nos
pr6ximos anos, quando for ativada realmente a hidrovia do Ta-
paj6s, at6 o porto de Santar6m, e asfaltada a metade paraense da
BR-163, de Cuiabd a Santar6m, corn 1.500 quil6metros de exten-
sao. 0 valor da terra e a avaliagdo das benfeitorias existentes se
multiplicarao virias vezes. 0 valor potential dos recursos co-
nhecidos, sondados ou imaginados tamb6m, talvez numa esca-
la ampliada. E um argument bastante forte para que os vizinhos
dos indios nao concordem corn seus pianos territorials. Mesmo
que Brasilia tenha dito sim, a voz do poder demora a chegar aos
sert6es amaz6nicos bravios. Quando chega.
Nao chegard a ser surpresa, pordm, se no period de aco-
modagAo dos dois pianos, o central e o periferico, o de reconhe-
cer os direitos imemoriais dos indios e o de tirar proveito de sua
procrastinagAo, o de usar mais inteligentemente os recursos na-
turais e o de chegar ao lucro fAcil o mais rapidamente possivel, a
aproximacao se fizer A custa de tensao, choque e sangue.
A quantidade desses ingredients, que pareciam reminis-
cencias de um triste passado que o tempo se encarregou de ar-
quivar, vai defender do grau de evolugdo da sociedade brasilei-
ra, sendo, ao mesmo tempo, uma media desse tipo de civiliza-
go, se civilizagdo 6, diante de desafios como o que a ocupagco
indigena do coracgo geogrdfico do pais imp6em, exigindo mu-
dangas profundas na postura da sociedade national.
A Amaz6nia ainda nao deixou de ser selvagem, qualquer
que seja a interpretagdo dada a essa expressao, carregada de
sentidos (As vezes duplos e d6bios). A Amaz6nia ainda 6 um
mundo distant do Brasil. A aproximagao implicard sempre a
destruigao de um pelo outro? A


OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZNICA 5





MEMORIAL



Sob a



fioresta



que cai


0 que se segue e, em essencia, o text
que escrevi, a pedido de Alberto Dines,
para seu boletim eletronico
Observat6rio da Imprensa. Reproduzo-
o aqui, com ligeiras alteragdes para o
pOblico paraense. Espero que seja uma
maneira de a publicag9o-irma mais
nova, esta Agenda, registrar, a sua
maneira, o aniversario do irmbo mais
velho, o Jornal Pessoal, na esperanga
de contribuir para a germinagao de
novas especies de uma matriz que, ao
longo do tempo e em diferentes
espagos, tem servido de renovagao
para o jornalismo que interessa: o
critico e independent.

E m 1975 fiz um journal alternative

em Bel6m, o Bandeira 3, toman-
do por base minha experiancia de
outsider num suplemento corn o mesmo
nome feito em A Provfncia do Pard, journal
da grande imprensa local, em 0 Pasquim e
no Opinido, do qual participara intensa-
mente como correspondent em Sdo Pau- *. l
lo, entire 1972 e 1974. Nosso Bandeira 3,
feito em equipe, que pode ser exibido sem 'e
constrangimento ate hoje, em qualquer re-
dacgo, durou sete n6meros (o restos a pa-
gar sobrou para mim, exigindo sete meses de trabalho ate a
complete quitagAo da divida).
Para conseguir publicidade, era precise ir diretamente
aos anunciantes, amigos ou simpatizantes, muito poucos.
As agencies ndo nos programavam. Resistiam ao interesse
manifestado pelos clients sobre a nova midia, mesmo corn
sua cota de 20% garantida. A incompatibilidade era political,
ideol6gica ou pessoal, tdo ou mais forte do que o retinir das

6 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


moedas sonantes no caixa. As agencies, que nada contribu-
iram para o surgimento do nosso tabl6ide de 24 piginas,
embelezado pelos recursos grificos entao de vanguard (corn
a adog~o da impressao offset), devem ter mandado rezar o
dobre de finados pelo fim da experiencia.
Dediquei-me entao, integralmente, ao projeto que me
fizera retornar de Sdo Paulo para Bel6m: implantar a primei-
ra sucursal regional de O Estado de S. Paulo. 0 projeto, eu o
apresentara pessoalmente ao doutorJiilio de Mesquita Neto,
dono do journal. Ele gostara e aprovara.
0 Estado teria uma sucursal em Belem e correspon-
dentes em todas as capitals da maior fronteira de recursos
naturais do planet, corn dois tergos do territ6rio national,
inclusive em algumas cidades menores, como Santar6m e
Marabi. Os textos chegariam a capital paulista no tamanho
certo, previamente acertado corn a sede e definido na pau-
ta. Uma vez reconhecido o enquadramento t&cnico da ma-
teria, ningu6m tocaria nela, que passaria diretamente para
a oficina. Nada de cobra gigante no meio da rua ou onga
engolindo caboclo.
Em que consistia a inovacgo? Em expurgar do trata-
mento jornalistico da Amaz6nia o tom de exotismo, de colo-
nialismo, de superficialidade e de preconceito da grande
imprensa national (e international), inclusive o preconceito
que evoluiria, com todas as boas inteng6es que pavimentam
o caminho do inferno, para um vies ecol6gico (criando na
opinido p6blica sensibilidade para corn o destino da fauna
e da flora, mas a anestesiando em relagao a maior fAbrica
de aluminio do continent, a melhor mina de minerio de
ferro do mundo, a maior mina de bauxita em operaqdo e
outros artefatos economicos complexos, numa estrutura mi-
nero-industrial de significado international, capaz de atirar
o home de ontem no mundo de amanhd
sem um finico esquadro ou compasso, 6r-
f~io na hist6ria).
SDurante os anos iniciais do avanqo
das fronteiras econ6micas sobre o vasto
territ6rio amaz6nico, 0 Estado de S. Paulo
registrou em suas paginas a melhor cr6ni-
ca desses dias incriveis. Tornou-se fonte
_.__ de refer&ncia para tLdo o que se escreveu
B sobre o period, inclusive em clhssicos
dessa literature da colonizaqgo, como o li-
vro escrito em 1977 pelo nosso president
a 6poca, apenas soci6logo Fernando Henrique Cardoso,
que usou na bibliografia, A larga, reportagens do traditional
diArio da plutocracia paulistana.
Eu tinha sonhos de que o Estaddo consolidaria esse
papel, A sombra de um liberalism sem igual na imprensa
brasileira. Mas aos poucos a linha editorial foi mudando: ao
inv6s de abrigar tanto a voz dos colonizadores quanto a dos
colonizados, foi-se deixando ficar apenas corn aqueles, quase





todos em casa, eternos bandeirantes der-
rubando matas e amansando brabos.
A execucgo do projeto foi sendo adi-
ada, mas nao cancelada: a cada viagem a
Sdo Paulo, o doutorJtilio pedia paci&ncia. _--_
A empresa realmente vivia tempos dificeis.
Mas a id6ia nao fora descartada. Seria rea-
quecida quando vacas gordas mostrassem rn
seu desejado focinho no departamento fi-
nanceiro, posto em risco pela geraco de
"engenheiros", os irmaos siameses, na em-
presa privada, dos tecnoburocratas do apa-
relho de Estado. EU ac1
Em 1981 transformei numa newsletter dois I
quinzenal o InformeAmazonico, a coluna maIS 1
diAria que durante vdrios anos escrevi no Estado
maior journal da Amaz6nia, 0 Liberal. Des-
ta vez, a empreitada era do eu-sozinho. A mentidc
circulagAo, entire assinantes. A distribuicao, depoin
por mim mesmo. A duracao? 12 n6meros. dessa
Quase nada diante da intencgo, mas um favor
pouco al6m da investida anterior. acober
Continue a girar por toda a Amaz6- dos
nia, enviado especial do Estaddo, e a dre-
nar minhas reflexes sobre essa itineran- inteleC
cia numa coluna de acento pessoal em assassin
0 Liberal. Assuntos que eram tabus no ta
mais influence peri6dico do pais podiam conhe
ser tratados sem-cerim6nia na maior fo-
lha informative da Amaz6nia e vice-
versa. E assim o mundo girava, enquan-
to a Lusitana rodava.
Em junho de 1987 vi o corpo ensangfientado de um
amigo, morto com tres tiros num posto de gasoline a said
de Bel6m, cidade que chegou a ser a terceira mais impor-
tante do Brasil no inicio do seculo, quando s6 a Amaz6nia
fornecia borracha, mat6ria prima fundamental para o cres-
cente parque industrial do mundo. 0 primeiro tiro, na tem-
pora, foi fatal. Os outros dois foram apenas excess de zelo,
ou de profissionalismo, do pistoleiro.
Paulo Fonteles nem teve tempo de se espantar. Conti-
nuou corn a perna cruzada, sentado do lado do carona do
carro, no lugar em que o motorist o deixara para ir atris de
agua para o carro, que nao precisava de agua para resfriar o
motor. 0 cigarro nem caiu de entire os dedos dele. Do lado
da entrada das balas, apenas pontos negros na cabega. Do
outro lado, sangria desatada.
Dias antes eu tivera uma longa e excepcionalmente in-
tima conversa com Paulo, depois de terms participado jun-
tos de um debate no Col6gio Lauro Sodr6 (exatamente onde
houve o desabamento, pouco tempo atras). Uns meses antes
ele deixara de ser deputado estadual, eleito pelo PMDB.


isava os
omens
ricos do
de terem
em seus
lentos e,
maneira,
ecido o
tamento
stores
tuais do
iato, que
Ivez
cessem


seu Grande Sertdo: Veredas.
Achei que a imprensa nao podia permitir essa barbdrie.
Durante tres meses me apliquei integralmente a investigagao
do crime, como uma questao pessoal, professional, political,
de cidadania, de honra. Quando tinha uma hist6ria comple-
ta, da reconstituicgo do atentado at6 os seus mandantes, tentei
publicar a reportagem no journal no qual entao tambem tra-
balhava, 0 Liberal. Mas "eles" tiveram medo.
Eu acusava os dois homes mais ricos do Estado de
terem mentido em seus depoimentos e, dessa maneira, favo-
recido o acobertamento dos autores intelectuais do assassi-
nato, que talvez conhecessem. Uma das proprietirias da em-
presa jornalistica, depois de ler o long texto e lamentar
nao poder publica-lo, se disp6s a me ajudar na solugao do
impasse que sempre se cria quando um jornalista quer pu-
blicar e o dono do journal nao quer: fiz o meu pr6prio jor-
nal, mais uma vez sozinho, dispensando publicidade (80%
do faturamento de uma empresa jornalistica conventional),
vivendo exclusivamente da venda avulsa, indo para as ban-
cas de rua e nao restrito a assinantes. Ela o imprimiria, e de
graga, desde que eu nao citasse a grdfica, para nao transfe-

OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 7


Tentara um v6o mais alto, para a CAmara
Federal. Complicac6es e mudangas na sua
base de atuagao, o violent sul do Para,
recordista national em conflitos de terra,
onde era advogado de posseiros, trunca-
ram sua carreira. Voltou ao seu partido
subterrfneo, o PC do B, e a atividade mili-
tante. Fazendeiros juraram-no de morte, no
ajuste de contas que a perda da imunida-
de parlamentar estimulara. Um deles, sele-
cionado pelas regras de uma confraria mis-
teriosa, mandou matA-lo.
Crimes de encomenda jd nao eram
propriamente novidade na Amaz6nia, mas
a morte de Paulo foi o primeiro crime po-
litico cometido nos limits da capital, sede
dos poderes constitucionais. Ate entao, a
lei da selva, sancionada pela colonizacgo
definitive da Amaz6nia (as anteriores ndo
se haviam estabelecido de vez), vigorava
apenas no sertao, no hinterland, a distAn-
cia dos residuos de modernidade que che-
gavam a jungle.
Desde entao, o darwinismo social se
generalizou. Os matadores estavam libera-
dos. Ningu6m tinha mais nenhuma daque-
las garantias que os advogados e os legis-
ladores plantam na constituicgo e nas leis
em geral, mas que nao medram no sertao.
Deus, se quiser vir, que se arme, como diz
o feiticeiro Guimardes Rosa na abertura do





rir-lhe responsabilidade (detalhe da repressora Lei de Im-
prensa, de 1967, para inibir grdficas de abrigar publicag6es
independents e inc6modas, que a empresdria utilizaria seis
anos depois, para tentar calar o mesmo journal que ajudara,
quando jd estdvamos em lados opostos).
Essa materia inaugural me deu um dos dois Premios
Fenaj (da Federaqdo Nacional dos Jornalistas), que ganharia
no ano seguinte, e provocou um impact local significativo.
Mas para fazer a materia principal do segundo n6mero, per-
di a grdfica e passed a perder a proximidade corn a poderosa


meira quinzena de setembro, revela um fato inquietante: al-
gumas das suas principals materias jamais apareceram, pou-
co apareceram ou s6 emergiram nas paginas da grande im-
prensa sob pesada maquilagem ou profunda distorcgo. Para
saber o que de fato aconteceu na regiao que constitui a
segunda preocupacgo mundial (conforme pesquisa da Unes-
co, depois do efeito estufa), sera preciso recuperar dos ar-
quivos essa publicacgo em pequeno format, oito paginas,
sem an6ncio, sem fotografia, sem o bric-a-brac de pho-
toshops e outros penduricalhos eletr6nicos de enfeite.


familiar Maiorana, dona de 0 Liberal, ate
me tornar um de seus mais perseguidos
oponentes, processado cinco vezes para
calar, sem que calado me tenha feito.
Fui informado de que o president in-
terino do Banco da Amaz6nia, Augusto Bar-
reira Pereira, comandava uma quadrilha
que agia dentro da instituicgo, a maior da
rede financeira regional. Eles haviam pro-
vocado um "rombo" equivalent a 30 mi-
lhoes de d61lares, em valor da 6poca. Mas
nem uma s6 linha a respeito saia nos tres
jornais didrios de Belem. Barreira Pereira
era procurador de 0 Liberal e tinha apoio
politico do hoje senador Jader Barbalho,
dono do Didrio do Pard. Um dos envolvi-
dos no desfalque, o delicioso compositor
paraense (radicado no Rio de Janeiro), Bi-
lly Blanco, era irmao do superintendent
de A Provincia do Pard, Milton Trindade,
meu querido padrinho na imprensa.
Poucos dias antes, o secretdrio de fi-
nangas da Pensilvania, nos Estados Uni-
dos, no curso de uma campanha de de-
nuincias da imprensa local, se suicidara
com um tiro de rev61lver na boca, diante


Durante meses
publiquei
sozinho fatos
que me
impressionavam,
atingindo
pessoas que
conhecia,
contrariando
interesses
poderosos



'OL


Dou um 6nico exemplo. Em dezem-
bro de 1991 um rapaz elegant e simpiti-
co, membro de uma das mais tradicionais
families da sociedade, colundvel por ber-
go, foi assassinado quando dirigia seu carro
pela estrada de acesso a Belem. Uma ca-
minhonete emparelhou corn o autom6vel
dele, a 90 quil6metros por hora. Uma pes-
soa fez um 6nico disparo, atingindo Bru-
no Meira Mattos na cabeqa. Ele morreu na
hora. Seu carro, desgovernado, foi parar
no meio-fio. Ninguem viu os ocupantes do
veiculo que serviu ao crime.
Nem viu mat6rias a respeito na gran-
de imprensa. A partir dessa situacgo estra-
nha, investiguei. Na verdade, Bruno usava
sua empresa de cAmbio e turismo como fa-
chada para o seu principal neg6cio: a co-
bertura do narcotrdfico international. Em
1991, ele pode ter intermediado a passa-
gem de 100 milh6es de d61lares em cocai-
na para a Europa e os Estados Unidos. Um
mundo aparentemente limpo ocultava o
submundo delinqilente, corn tenticulos su-
bindo aos patamares do poder e da cha-
mada alta sociedade.


das cameras de televised e de rep6rteres chocados. Ele era
acusado de desviar US$ 300 mil. Ou seja: 100 vezes menos
do que o rombo no Basa, banco essencial de uma terra bem
menos rica do que o traditional Estado americano.
Mas agora, nao: 0 Liberal nao cederia suas maquinas,
nem que eu pagasse. Fui para outra grafica, onde rodei o JP
nQ 2, na segunda quinzena de setembro de 1987, o ano re-
corde de queimadas e desmatamentos na Amaz6nia, uma
destruigio de floresta native (80 mil quil6metros quadrados
postos abaixo em seis meses) sem igual em toda a hist6ria
humana. Mas o nfimero tres eu tive que passar para outra
grifica. E assim migrei de grifica em grafica, conforme os
problems e os temas inc6modos iam aparecendo. Hoje, co-
memoro a 11a, sem me perguntar sobre o tempo da festa.
Nem mesmo ha tempo para comemorar. Infelizmente, a
trajet6ria do Jornal Pessoal, que chegou a 13 anos na pri-

8 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


Durante meses publiquei sozinho fatos que me impres-
sipnavam, atingindo pessoas que conhecia, criando proble-
mas, incomodando, contrariando interesses poderosos, dei-
xando feridas A mostra, num total desconforto pessoal. Ten-
tei passar informag6es para colegas, dividindo o alvo. Nada.
Cada fechamento do JP era uma fonte de angtistia. Diante
do volume e da qualidade do meu noticiArio, edicgo ap6s
edigco, certo dia os tres jornais deram corn destaque mate-
ria corn o mesmo texto: a viuiva, vasculhando roupas do
marido, encontrara um bilhete perdido no qual Bruno anun-
ciava que se suicidaria.
Era isso: ele nao fora morto, se matara. Nao importa-
vam as circunstAncias, que colocavam esse "suicidio" como
Onico na cr6nica mundial em todos os tempos: tiro dispara-
do da esquerda para a direita da vitima, de uma distAncia
minima de tries metros, dado de cima para baixo, Bruno,





que era destroy e nao era atirador, dirigindo seu carro a 90
quil6metros por hora, em plena rodovia federal, e fulmina-
do cirurgicamente por uma inica bala.
Assim ficaria at6 que a Policia Federal apreendeu, no
Pard e no Amazonas, uma tonelada de cocaine, a maior
feita no Brasil at6 entao, de uma quadrilha international
que usava a Amaz6nia como caminho de passage da dro-
ga. A imprensa, entao, regurgitou. A televisao toda foi para
cima do delegado Jos6 Sales, numa concorrida entrevista
coletiva. Eu estava li. Ouvi tudo em sil&ncio. Apagados os


de entes queridos. 0 que nao pode haver 6 esse sil&ncio
conivente e oportunista da imprensa.
0 moment professional mais feliz desse period, eu
o vivi em Roma, numa iluminada noite de verao de junho
de 1997, quando recebi o Colombe d'oro per la Pace, uma
escultura moldada em ouro puro, com sua base em pedra
lazfili, para o reconhecimento, pelo Archivio Disarmo, ONG
chefiada pelo senador socialist Anderlini, a quatro perso-
nalidades destacadas do ano. Fui indicado para o comite
de selegqo por Maurizio Chierici, um dos principals envia-


refletores, desmobilizadas as equipes, con-
tinuei sentado e calado. Um colega per-
guntou o que eu ia fazer. Disse que ia
trocar figurinhas com o delegado, hi anos
no setor. 0 colega voltou a se sentar:
"Bom, agora 6 que vai ser bom", anun-
ciou para os outros.
Ponderei que nio ha off coletivo. A
conversa reservada s6 existe por uma rela-
0go de confianga a dois. Mas eu aceitaria
a presenga de todos, desde que se obri-
gassem a publicar as informac6es que sur-
giriam nesse papo informal. Automatica-
mente, todos se levantaram e sumiram. 0
delegado, boquiaberto, se virou para mim:
"Sdo teus amigos, hein?".
Foi um dos moments mais tristes da
minha carreira. Meus colegas, em 6poca de
democracia plena, rara no nosso pais, fa-
ziam (e parecem fazer cada vez mais) a
auto-censura, tentando advinhar o que
delas espera o patrao, livrando-os do peso
do conflito que purga consci6ncias e rela-
tiviza o control particular da informaqgo,
impedindo a total manipulaqdo da opinion
pviblica, a sociedade unidimensional que


Nao hi off
coletivo; a
conversa
reservada so
existe por uma
relacRo de
confianqa. Foi
um dos
moments mais
tristes da minha
carreira


ee*


nos ameaga, o pensamento finico que nos inquieta.
Com isso, os mandantes da morte de Paulo Fonteles
permanecem impunes at6 hoje, todos os envolvidos no es-
candalo do Basa estdo soltos (depois de terem sofrido a
primeira pristo no Brasil por crime do colarinho branco,
determinada por uma juiza federal do Rio de Janeiro), o
assassinate de Bruno permanece um absolute mist6rio e os
motivos que levaram ao seu fim foram devidamente sepulta-
dos, mesmo que desde entao o narcotrAfico tenha se torna-
do uma das maiores preocupagoes mundiais (e uma bomba-
rel6gio desastradamente acionada em nosso continente.
Cada um dos personagens tem o direito de fazer valer
a sua voz e apresentar a sua versio da verdade. E possivel
que eu haja publicado alguma informacao sujeita a questio-
namentos, ou haja pisado em calo sensivel, contrariando
pessoas amigas, melindradas ao verem expostas as chagas


m6veis e utensilios, pedi demissao de 0 Estado de S. Paulo.
0 projeto da sucursal regional, contracanto ao unissono so-
lil6quio do poder, evolara. Com o cosmopolita FHC, nossos
barges da informagio viriam a sentir-se um pouco no poder
tamb6m. A Amaz6nia era a selva selvaggia aspra e forte, re-
duto menor, apesar de geograficamente maior, miticamente
imensa, utilitariamente vital.
Dei adeus a grande imprensa. Tornei-me ousiderat6 a
medula. E quem vai para a chuva tem mesmo 6 que se mo-
lhar, como muito sabemos, n6s, habitantes deste outro pais
nomeadamente brasileiro, no qual as chuvas sdo constantes
e abundantes. Ou ao menos o serio enquanto permitir o
grande bwana, em sua face crua no QG ou atrav6s das mis-
caras do fantasma-que-anda e que depreda, que explore,
que mata e que faz esquecer com sua hist6ria official. Ou, o
que 6 ainda pior: o seu silencio official A

OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 9


dos especiais do Corriere de la Sera, o
maior journal italiano. Segundo ele, meu
jornalzinho contribui para combater as
injustigas sociais e a violacao dos direi-
tos humans. Recebi o premio ao lado do
deputado irlandes John Hume, no ano se-
guinte novamente premiado, dessa vez
com o Premio Nobel da Paz.
Na belissima solenidade estavam os
embaixadores da Irlanda do Norte e da
Inglaterra, lado a lado, fato lembrado
pelo apresentador e aplaudido intensa-
mente pela plat6ia. Tamb6m li estava o
embaixador da Albania, junto ao jorna-
lista Fatos Lubonja, mantido no circere
de Enver Hoxha durante 19 anos, por
causa das poesias her6ticas que escre-
via. 0 embaixador do Brasil mandou um
obscuro representante. Tinha coisas mais
importantes a fazer. De Brasilia, A qual
recorreu para saber quem eu era, disse-
ram que eu era um jornalista irritante-
mente chato, critico demais. Nao mere-
cia a palma verde-amarela.
Talvez nao merega mesmo. Em 1998,
depois de 17 anos na casa, da qual ji era











Broadway aqui
Em outubro de 1953 Belem passou a ter mais um "elegan-
te clube", o Broadway Club, formado "por senhorinhas e
rapazes da nossa melhor sociedade" que nascia "sob o
signo da elegincia e do bom gosto" para promover "gran-
des realiza6oes sociais"- festas dan'antes, sobretudo. Os
presidents de honra da diretoria eram Ivan Maranhdo,
Jos6 Bastos, Alberto Carlos Chady e Acicio Humberto. 0
president executive era Isaac Soares, tendo como vice
Salim Carlos Chady. Uma mulher na 1a secretaria: Terezi-
nha Miranda. Jos6 Luiz Alves ocupava a 2a secretaria. Cui-
dando das finanqas, Raimundo Fidalgo. Maria Odete Bra-
sil era a diretora social, Maria Jos6 Viana a diretora de
esportes e Djalma Moller, directorr public" (o que seria?).
A reunido de fundaqdo tinha sido na residencia de Maria
Odete Brasil.
"A ideia [do clube] ndo podia ser de outra maneira -
partiu dos cerebros das garotas, e, como elas possuem ma-
neiras para conseguir o que desejam, tudo foi arranjado corn
perfeiqdo, registrava a nota da imprensa.


No balnedrio
Com apresentagAo da "famosa orquestra Maqaneta", o Praia
Bar foi reinaugurado em novembro de 1953", no "maior acon-
tecimento social do pitoresco balneario" de Mosqueiro. A
casa prometia "'shows' maravilhosos, iluminacgo deslum-
brante, rigorosamente familiar, conforte, higiene, cardipios
deliciosos"
Quem se lembra do Praia Bar?


Forqa salesiana
Em novembro de 1955, os Cooperadores Salesianos do Para
realizaram sua segunda conferencia annual, no salao de fes-
tas do Col6gio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, na Ci-
dade Velha. Duas missas sucessivas, a primeira no altar-
m6r da igreja do Carmo e a segunda no altar de Nossa
Senhora Auxiliadora, em mem6ria dos pais falecidos dos
padres e dos cooperadores salesianos que ja haviam mor-
rido, abriram o dia.
No encerramento, conferencia do advogado Orlando
Costa, entdo dirigente da Aqao Cat61lica (viria a ser presiden-
te do Tribunal Regional do Trabalho e ministry do Tribunal
Superior do Trabalho), sobre o div6rcio, sob os olhares do
president de honra da conferencia, o arcebispo D. Mario
de Miranda Vilas Boas antecessorr de D. Alberto Ramos), e
do president dos cooperadores salesianos, o desembarga-
dor Augusto Rangel de Borborema.
A ordem de Dom Bosco ji foi mais ativa em Belem.

10 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


Pio fresco
No mesmo novembro de 1955 a Fdbrica Palmeira (aquela pode-
rosa organizagao que ocupava toda uma quadra no centro co-
mercial, reduzida a um buraco constrangedor nos nossos dias)
assumia a lideranga do "movimento que vai dar, novamente, a
popula'ao o pao fresco para o caf6 matinal"
A empresa anunciava estar esperando a chegada de "um
dos maiores tecnicos em biscoitaria, panificacao e outras especi-
alidades do seu comercio", para giudio da imprensa, certamente
sedenta do bom caf6 da manhd complete: "Volta, assim, a 'Pal-
meira', aos seus tempos aureos, sob o impulso do sangue novo
que lhe estd correndo nas arterias"


Para no Rio
Em janeiro de 1957 o grupo teatral paraense "Os Novos" apre-
sentou a peqa "No Polo do Falcdo', do ingles W B. Yeats, no
Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, como parte do festival do
teatro amador no Brasil. 0 texto da pega foi traduzido por Ange-
lita Silva, ji falecida, irma de Maria Sylvia Nunes, a esposa do
professor Benedito Nunes.
A direg o era de Margarida Schivazzappa (que empresta
seu nome ao teatro do Centur) e Peter Paul Hilbert (cientista do
Museu Emilio Goeldi). Coreografia de Felicitas e da sra. Francis
Beery. Figurinos de Jos6 Luiz. CenArio de Jodo Pinto, executado
por Nestorino. No elenco: Claudio Barradas (no papel do velho);
Carlos Pereira (o jovem), Bernadete Oliveira (a guardian do pogo),
Loris Pereira, Luis Fernando Sa Leal (irmao do jornalista Claudio
Augusto de Sa Leal) e Assis Filho (coro).
A apresentagdo carioca compareceram paraenses ilustres,
como a escritora Eneida, o poeta Mirio Faustino e a artist Mara
Rtbia, todos ji radicados na entdo capital federal.


Vanguarda retardada
Inadvertidamente, como s6i acontecer, os "intelectuais de van-
guarda" de Belmr marcaram para 23 de julho de 1960 o lanca-
mento official do grupo Gestalt, que, entire outras atividades,
planejava realizar a primeira exposicgo de pintura abstrata no
Pari, mais de meio s6culo depois do seu surgimento. Mas a
festa teve que ser adiada porque virios dos integrantes do
movimento estavam de ferias: o poeta Jodo de Jesus Paes Lou-
reiro, por exemplo, divertia-se em Abaetetuba, enquanto o cri-
tico (e depois advogado) L6cio Vespasiano do Amaral verane-
ava na ilha de Mosqueiro.
Constatando as lacunas, o lider do Gestalt, o santareno Eliston
Altmann, filho de alemdes (morreu no inicio da d&cada de 70 no
Rio de Janeiro), deixou BelIm ao amanhecer do dia marcado
para o ato solene. Tudo ficou adiado. Nada estranho: em julho,
ningu6m 6 de ferro em Bel6m.


sd
:1, D

JT
M'E











Bife de ouro


A partir do dia 3 de outubro de 1959 "ja se come bem" em Be-
1em, proclamava o an6ncio da inauguracgo do restaurant "Bife
de Ouro", no terreo do edificio Piedade, na Praga da Repuiblica.
0 restaurant ia oferecer pratos regionais e internacionais, "num
ambiente agradavel, de higiene absolute, a preqos acessiveis"
Diariamente, "um amplo sortimento de verduras frescas, prove-
nientes de plantac6es pr6prias" Tudo isso para criar "um esta-
belecimento A altura do progress do Pard" Embora, em certos
restaurants, o ponto em comum entire o bife e o outro que ser-
viu-lhe de inspiracAo era a dureza de ambos.


Som da boate
Em setembro de 1962 a "boite Studium", do Grande Hotel
(demolido; em seu lugar, na Praga da Rep6blica, foi cons-
truido o Hilton Belem) inaugurava "a mais perfeita instala-
gAo em Hi-Fi", prometendo "as melhores m6sicas, os melho-
res drinks, as melhores comidas" Nao era exigida consuma-
go, mas pagava-se entao 100 cruzeiros de consumacgo. 0
hotel, no estilo europeu, era da rede Intercontinental. Ja
estava na vazante de prestigio.


Era do jato
Ainda em setembro de 1962 a Panair fazia pousar em Belem,
pela primeira vez, o seu Caravelle 6R, o 6ltimo dos jatos aerodi-
nimicos e talvez o mais belo de todos, inaugurando a linha Rio-
Brasilia-Belem-Manaus, com uma frequiencia semanal. 0 aviAo
mais sofisticado a freqtientar o aeroporto de Val-de-Cans ate entao
era o Constellation, corn motor a explosdo.
A Panair, A 6poca a mais important das companhias areas
(iria perder a posigao com o regime military havia comprado cin-
co jatos do tipo Caravelle, para 68 passageiros e seis tripulantes,
capazes de cobrir o percurso direto do Rio a Belem (o que inicia-
ria em 6 de outubro) em 2 horas e 45 minutes. 0 primeiro desses
avi6es a fazer a linha foi o batizado de Bandeirante Antdo Leme
da Silva. Ele pousou As 20,35 do dia 27 de setembro. Lotado.


Taximetros na praga
Em novembro de 1962 comegaram a circular os primeiros ti-
xis corn taximetros em Belem, da marca Capelinha. Enquanto
alguns motorists resistiam a utilizar os aparelhos, preferindo
definir o prego das corridas pelos m6todos tradicionais, atra-
v6s de acerto corn o client antes da partida, espontaneamen-
te seis "profissionais do volante" colocaram o medidor e co-
megaram a circular corn a novidade. Eram dos pontos da "Avei-
rense", do Ponto Popular e de Sao Brns, todos ja corn veicu-
los nacionais.


Os do piano
Nesse mesmo mes e ano, a Lojas Salevy (no terreo do edificio
Palacio do Radio, na avenida Presidente Vargas) anunciava ji ter
vendido 39 pianos "mundialmente famosos" Behar, os preferidos
"por professors de piano e pela alta sociedade". Entre os com-
pradores relacionados: Maria Leonora Menezes, Maria Helena Co-
elho, Alberto Bendahan, Pedro Moura Palha, Oscar Castro, Jean
Bitar, Gervdsio de Brito Melo, Mario Sampaio, Dilermando Menes-
cal, Jorge Malcher, Raul Boulhosa, Augusto Ara6jo, Ulysses Vieira,
Miguel de Luca, Samuel Levy, Hilirio Ferreira Filho, Armenio Bar-
bosa, Te6filo Conduru, Ossian Brito, Jose Maria Pinheiro de Sou-
za, Ana Maria Nobre Rio, Helena Miranda. Detalhe: quem compra-
va era a mulher. Mas o nome registrado era o do marido.


Twist again
Enquanto uns iam de clissico, outros pulavam para o mo-
demo. 0 Autom6vel Clube, aquele instalado nos altos do mesmo
Palicio do Radio (e que jamais promoveu uma dispute automo-
bilistica), realizava em novembro de 1962 o 2Q concurso de twist,
a danca da moda entire os jovens da 6poca. Responsivel pela
animacgo, a orquestra de Orlando Pereira, "corn seu vibrafone e
guitarra havaiana", que eram novidade entire n6s. As "localida-
des" podiam ser reservadas pelo telefone 2071.


Baixada Um
No dia 6 de maio de 1964 a prefeitura retirou da Marechal Hermes
(hoje mais conhecida como Doca Souza Franco, a avenida vizinha)
50 casebres de madeira e remanejou os seus habitantes para "uma
area desocupada" no entao distance bairro da Marambaia.
Comegava assim a intervencgo ptblica nas baixadas de
Belem. Prefeitura e SNAPP (Servicos de Navegagao e Adminis-
tragdo dos Portos do Park, hoje Enasa e CDP) fizeram um con-
venio para a remocgo dos moradores, "onde se constituiam, a
par de um conglomerado de families pobres e honradas, um
foco de malfeitores e desajustados", dizia o noticiArio da im-
prensa. Ele garantia que a Policia Federal e a prefeitura de hf
muito pretendiam acabar com essa favela, "antro de vagabun-
dos e maconheiros, embora morassem tamb6m ali pessoas hu-
mildes e honestas", em funcgo dos crimes que eram cometi-
dos, "inclusive de morte"
Mesmo desalojadas, as families "mostravam-se compreen-
sivas corn a operagao, por saberem, sobretudo, que nao Jam
ficar desamparadas" Nao houve qualquer incident durante a
realizacgo dos trabalhos de desmontagem dos casebres da Mare-
chal Hermes e sua remontagem na Marambaia, mas tres fuzilei-
ros navais "vigiavam para qualquer emergencia" Urn dos objeti-
vos era justamente a "desobstrugao da orla maritima", alem de
acabar corn essa favela.

OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA- 11






PROPAGANDA


Arraial



do Cirio

Mal a image de Nossa Senhora de Na-
zar6 entrava na basilica que a homena-
geia, para a missa de encerramento da
procissdo (hoje, fica no desajeitado con-
junto arquitet6nico, ao ar livre), no segun-
do domingo de outubro, comegava a par-
te profana do Cirio no arraial montado na
praga agora gradeada (oficialmente bati-
zada dejusto Chermont). Fieis e romeiros,
corn sua troupe familiar e amigos, ja se
encarapitavam nos brinquedos e zanza-
vam pelas barracas de madeira antes mes-
mo do moment religioso derradeiro. A
"quadra nazarena" duraria 15 dias noi-
tes, para ser mais fiel aos fatos.
Animados por um alto consume de be-
bida alco61lica, mas forrados de comida
regional, os festeiros usufruiriam ao mdxi-
mo dessa quinzena no "arraial". Durante
muitos anos, as grandes atragoes eram tra-
zidas pelo empresario Fdlix Rocque (pai
do jomalista Carlos Rocque, recentemente
falecido) para se apresentar nos teatros
Moderno e Coliseu. Eram espetkculos de
variedades, como os da Companhia de
Revistas Eva Stachino, vinda de fora, ou

TEATRO (OLISEU
LARGO DE NAZARE'
Sesational Temproda do Empnesa
Dr.KardoAliKhan
Hoije Domingo, Vesperal s 16 horses
PrI, *.ou C 5001
S...s.,.- -. N,.[ ....A. A.".",.


CARMEM COSTA
Estrela do Raddi, Televisa e Cinema
.GENESIO ARRUDA

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NOEMI 'A C.-ri Podigio'.
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GERALDO ABRUDA V0 Giguoe d, 0l 0 W 0.
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Teatro Variedades
HOJE Grande Estreia do "IGa. Vena RFilho"
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IR ao arraial 6 assumir obriga&Ao de chegar aos
U. = Teatros da Empresa Felix Rocque -

MODERNO co"ax 1wE| r
Jajie-.l-. o aBo"fiauw--Iolet, Hoje A's 20 horas Hoje
Novo Combiao Em Estriio Pelo companion De revistas Permanece no carlaz a hilarlante
i E A S A CHINi com6dla que obteve estrondoso
EVA STACHINO exio pOSSp. ^
0 Intitulada i- onem < S ZOMBA AlOMICAx lManezinho Araujo e Z6 Gamela, a dupia
ComoP articipasaodeHAYMOND, a artist que con- mrniga da tristeza-Rei do riso-E mais
quistoA o plottia poacense Eladir Porto, a morona 100 por cento brasilaira,
T RA RGIA, .v. que ,dos pludem ..z que todos aplaudemn. Roberto SantO.
SOSSOF, a core6graofo international o a -
MANUEL VIEIRA, o portuguis que troboaho come nm- Ivo Lloyd, Carmen Pinto, Francisco Mar- a
gum, no ginero auesounto vocalijta "Amantes do Ludr",
i E MAIS-JACQUELINE ROLAND, NAIR FARIAS, RO- H qa Cu B$i la "A a e Dotu
S MANITA, FELICITAS, BROADWAY, CARDONA, Zl i Otacillo e sua Bailarina a De --
C016,MALAGUETAeo"Ballet" inimitove de 10 eyos I ENTRADA: CrS 10,00 e CrS 5,00
"girls"' |I ATENCAO: AMANHA A empriso recebeu milhores
PIARTIR DAS 19, 30 HORAS | de pedidos paro o MODERNO Doar Vesperois Amonhii, IA
PRECOS: Entroda, CR512,00 e CR$6,00 a primeira vesperal aguardem o progroma L
a eatoo r-ABIEDoA-DEa g
i Cantua&iag Chefiando A Troupe
.antuariaDe Artistas Regions Sim, Pode Ser,...
Q A'w s oya, sB IV w w A o cr- 0 e C ,0 [


mobilizando artists locais. Cornm tanto su- apresentava a Cia. Valenga Filho, cornm sua
cesso que Rocque ampliava a agenda, revista carnavalesca abrilhantada pela ve-
dando espetAculos vesperais, por haver dete Lolita Batista, a "vedetinha"Creuza
recebido "milhares de pedidos". Silva e outras "girls", num total de 25 ar-
"Ir ao arraial 6 assumir a obrigacgo de tistas. Nesse mesmo ano, a cantora Car-
chegar aos teatros da empresa F6lix Roc- mem Costa, "estrela da radio, televisio e
que", proclama um anincio de 1945, pu- cinema", era a principal atragAo da "sen-
blicada na Folha do Notre, o grande jomal sacional temporada" da empresa do Dr.
da 6poca. Eva Stachino exibia a com6dia Kardo Ali Khan. Ela trazia Mata Hari,
"Bomba at6mica", que estreara mortifera- "rumbeira de estilo pr6prio", a bailarina
mente no ano anterior, langada pelos EUA Comnchita Luna, "satands em corpo de
sobre o Japdo, no epilogo da Segunda mulher", e o pr6prio Kardo, "o maior hip-
Guerra Mundial. Entre os participants, notizador dos 61timos tempos", um ho-
estava Manuel Vieira, "o portugues que mem "de mem6ria sobrenatural", tudo
trabalha como ningu6m, no genero". compondo "um espeticulo de familiar para
Treze anos depois, LOcio Mauro, "pre- as families de Bel6m".
miado o melhor ator do ano" de 1958, Ha 40 anos.


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