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/ ama Zonica ANO II No 14 BEL M, OUTUBRO DE 2000 R$ 3,00 LU cio Fld vio Pinto CONTINENT 0 Vietnam esta aqui? Foi mais ou menos assim que tudo comegou no Vietnam, quatro decadas atras. Agora, na Colombia, o president Bill Clinton diz que vai ser diferente. Diz que trata-se apenas de ajuda para o pals vizinho vencer o desafio do narcotrafico e da guerrilha. Mas, como na lenda do Chapeuzinho Vermelho, cabem as perguntas perigosas: por que tanto dinheiro? por que tantas armas? por que tropa americana? Enquanto ainda e possivel evitar uma resposta de lobo mau, os lideres do continent t6m que buscar outro caminho que nao o da tragedia, como a do Vietnam. 6iltimo dia 30 de agosto, o president Andres Pastrana Arango deslocou sua corte palaciana ate Cartagena, quinta maior cidade da Col6mbia, cor seus 900 mil habitantes, debru'ada sobre o mar do Caribe, para ali receber a visit do president Bill Clinton, dos Estados Unidos. 0 local do encontro sugeria aos observadores atentos simbolismos, certamente nao previstos pelos anfitribes. A comegar pelo nome complete da cidade, Cartagena de Indias, reminiscencia do seu passado colonial. Hoje patrim6nio cultural da humanidade, declarada pela Unesco (6rgdo da ONU), ela foi fundada em 1538 para ser o ponto de apoio do poderoso imperio espanhol nas Americas, no unico territ6rio de um pais latino-americano espalhado entire o oceano Pacifico e o mar do Caribe, entire praias litordneas e a floresta tropical, montanhas e depresses, um verdadeiro paraiso. Clinton s6 iria permanecer seis horas em territ6rio colombi- ano, mas sua visit estava fadada a provocar fortes impacts. A seguranga era garantida por 10 mil homes atentos e bern arma- dos, muitos deles americanos, preocupados com atos de protes- to de cidaddos e atentados de guerrilheiros. Clinton anunciaria em Cartagena o "Piano Col6mbia", fi- nanciado corn 1,3 bilhdo de d61lares dos EUA, 600 milh6es trans- feridos em dinheiro vivo As autoridades colombianas em cinco anos, os restantes 700 milh6es em equipamentos e outros instru- mentos materials americanos, principalmente armas, como 60 helic6pteros de ataque, e tropas das Forcas Especiais para treinar os militares colombianos na luta contra-insurgente. Todo esse aparato seria exclusivamente para destruir, ao long do pr6ximo quinquenio, 200 mil hectares de plantag6es de coca e papoula, interrompendo na origem o fluxo de 80% da droga que entra nos Estados Unidos (e vai tamb6m para quase todo o mundo), um neg6cio que rende bilhoes de d61la- res A custa de um dos grandes dramas individuals e sociais do nosso tempo. Esse seria o objetivo da guerra bacteriol6gica prevista no piano, A base de fumigagbes corn glifosfato, que afetariam ape- nas as plants visadas, sem prejudicar as demais. Mas como o cultivo da coca e sua transformaqgo em pasta base constituiriam a principal fonte de recursos para a guerrilla, sobretudo para a principal delas, as Farc-EP (Forgas Armadas Revolucionirias da Col6mbia-Ex&rcito do Povo), inevitavelmente se tornava neces- sirio ataci-las. "Isto nao 6 Vietnam", declarou, enfitico, o president Bill Clinton. Ja seu colega Pastrana assegurou que enquanto for pre- sidente da Repfiblica (esti na metade do seu mandate), "nao haveri intervengdo military estrangeira na Col6mbia". As palavras visavam tranqtiilizar a crescente preocupagdo continental e, jd agora, international de que a ampliacgo da participagao ame- ricana no combat ao narcotrifico e A guerrilha acabe langando a mais poderosa nagdo no planet em outra participagao military direta. 0 paralelo mais evidence 6 corn o Vietnam. No inicio da escalada americana no sudeste da Asia, inicia- da corn a guerra da Coreia, na decada de 50, o president John Kennedy tamb6m prometera nao ir alem da assistencia military As tropas do Vietnam do Sul, enquanto o president Ngo Diem em- penhava sua palavra corn a manutengao do carAter national do conflito, at6 ser assassinado um piano de eliminagao concebi- do pela CIA (a Agencia Central de Informag6es dos EUA, mais famosa por suas operag6es sujas do que por sua clarivid&ncia). 2 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA Ao cabo de uma guerra de quase uma d6cada e meia, na qual chegaram a utilizar 500 mil homes (10% deles morreram nos combates), os Estados Unidos foram obrigados a deixar me- lancolicamente o pais invadido sem chegar A vit6ria. Muitos dos soldados sequer sabiam exatamente o que estavam fazendo ali. Ja os vietnamitas choraram dois milh6es de mortos, tres milh6es de mutilados e um territ6rio destruido, sendo alguns milh6es de hectares de floresta numa guerra bacteriol6gica que guard algu- ma semelhanga corn a que agora se anuncia para a Col6mbia. Mas a Col6mbia tem nimeros muito mais grandiosos do que os do Vietnam. t o segundo maior (quase o mesmo tama- nho do Pari, 1,2 milhdo de quil6metros quadrados) e mais po- puloso (42 milh6es de habitantes) pais da America do Sul, abai- xo apenas do Brasil, corn quem possui a mais extensa fronteira continental, toda ela em plena selva amaz6nica, e afinidades materials (sdo dois dos maiores produtores de cafe) e culturais (uma relacao de rivalidade e admiragao futebolistica). Como o Brasil, a Col6mbia parece ter um ideal de grandeza derivado de sua pr6pria dimensdo territorial, capaz de abrigar riquezas de valor estrat6gico (como gis natural, petr61leo e car- vdo mineral), e de sua hist6ria. Sob o dominion colonial espa- nhol, ela era a Gra-Col6mbia, estendendo-se por Areas vizinhas que formam, hoje, a Venezuela, o Equador e o Panami. Os sonhos imperiais espanh6is acabaram, mas uma elite crioula (como aconteceria na Africa do Sul e na Australia) esta- va empenhada em tomar conta deles, afastando toda e qual- quer alternative de poder fora dos seus quadros. Um pais gran- de e rico gravita desde entao entire dois grupos, alinhados nos partidos conservador e liberal, implacAveis na delimitagio de um poder concentrico. Para penetrar na cunha de privil6gios, que confere o tom de cosmopolitismo e afluencia a essa elite contra um pano de fund de miseria e desesperanga, os excluidos tem se langado em ofen- sivas tamb6m violentas. Os sucessivos choques contabilizam bai- xas aos milhares, em sangrentas guerras civis. Na dos "mil dias", por exemplo, entire 1899 e 1903, elas somaram 130 mil. A partir do "Bogotazo", em 1962, desencadeado pelo assassinate do liberal Jorge Gaitin, alcangaram 200 mil pessoas mortas. De um lado, as elites nao estao dispostas a ceder o poder que arrancaram dos espanh6is. De outro, seus adversirios nio abrem mao de suas armas. A negociagao e os intervals de vida regular entire escaramugas generalizadas tem que ser simultaneos aos combates, como esti acontecendo agora, entire as tropas do governor e os guerrilheiros, que ji controlam quase metade do territ6rio colombiano. As Farc ja completaram 35 anos de exis- tencia. 0 ELN (Ex6rcito de Libertagdo Nacional), 30 anos. 0 fa- moso M-19 aceitou larger as armas e se transformar em partido politico. Seus lideres foram todos assassinados. 0 movimento desapareceu. Nao 6 uma boa licao moral em favor da paz. Mesmo o visitante desatento fica abalado pela sensagao de estar numa nagao em process auto-destrutivo e feroz. tI uma sensacgo de pesar que cresce juntamente corn o deslumbramen- to pela beleza desse pais e admiracao por sua hist6ria repleta de energia, por sua gente, seus costumes, sua alegria a despeito de tanto sangue acumulado ao long das 6pocas. Nio deixa de ter algum ponto de ligagao, apesar das distincias no espago e das diferengas no tempo, cornm o Vietnam. A convivencia de opostos radicais 6 a causa de tanto des- compasso e de uma irracionalidade que, depois de romper elos hist6ricos, parece se alimentar de sua pr6pria vol6pia, envolven- do grupos formalmente armados como ex6rcitos e milicias para- militares, traficantes de drogas e ide6logos politicos, criminosos comuns e ativistas politicos. Os americanos estao se estabelecendo perigosamente nes- se vulcao ensandecido, provides de sua tecnologia de ponta e da crenga, nunca superada, de que o "big stick" (o porrete) cons- titui sempre a melhor diplomacia para o "Tio Sam" Seus bragos operacionais sao dois generals: McCaffrey, chefe do combat ao narcotrafico, e Keith Huler, chefe do Comando Sul e responsdvel pela parte military do "Plano Col6mbia" Ha um cheiro de West- moreland na hist6ria, um cheiro que ja produziu aquela frase famosa do lider frances (*1841+1929) Georges Cl6menceau ("a guerra 6 coisa grave demais para ser confiada aos militares"). Com toda a sua paraferndlia de espionage e informag6es, corn a vasta retaguarda analitica, os americanos nunca consegui- ram entender o que acontece abaixo do rio Grande, do M6xico A Patag6nia. Nem precisaram mesmo disso, alias, para continuar avangando sobre territ6rios vizinhos para deles tirar proveito pessoal: no Panama e na Venezuela, por exemplo, que ja inte- graram a Grd-Col6mbia espanhola. Mas se enredaram em dramas em relaqgo aos quais, A falta de compreensio, o epilogo tern sido transferido para o future, engrossando o novelo de compli- cac6es, aumentando o valor da conta de chegada. A Venezuela, que ja funcionou quase como a 511 estrela da bandeira americana (papel rejeitado por Cuba e agora refor- mado pelo Panama), experiment atualmente um novo cami- nho sob a lideranga (populista? bonapartista? bolivarista? nas- serista? esquerdista? socialista) de Hugo Chavez, trilha que dis- crepa do modelo made in Washington, mas tem a ver com a especificidade latino-americana. Se a Col6mbia pode vir a ser um novo Vietnam na America do Sul (como queria Che Guevara, sem seguir seu figurino, po- r6m), nesse caso a Venezuela desempenhard o papel do Cambo- dja, onde os EUA mataram dois milh6es de pessoas sem nunca ter-lhes declarado guerra, e fizeram surgir um personagem do horror, o general Pol Pot, depois execrado como se o m6dico nada tivesse a ver com o monstro, para usar a alegoria do escri- tor americano Robert Louis Stvenson. As coisas nunca sao exatamente as mesmas na hist6ria, mas estudA-las e compard-las sempre ajuda a nao repetir os erros do passado, seja os do mero mimetismo, seja os da vi indiferenga. Vietnamizacgo ou nao, o que estd acontecendo na Col6mbia 6 suficientemente grande para merecer a atencao de todos, mas sobretudo dos seus vizinhos, inevitavelmente atin- gidos pelo que ali vier a acontecer, mesmo que pretendam vol- tar as costas ao drama em curso. A bela nagao colombiana represent, hoje, para toda a humanidade, um desafio de amplo espectro. Um deles, tratado inadequadamente na esfera policial, 6 social. Do territ6rio co- lombiano sai a esmagadora parcela da cocaine em circulacgo pelo planet. Mas se no ponto final de consume ela 6 um alu- cin6geno capaz de destruir o ser human, no local de origem 6 uma plant incorporada a uma cultural e um element da natu- reza. Mesmo em sua dimenso criminal, ela constitui element de sobrevivencia para 400 mil families na selva amaz6nica co- lombiana. Desprovidas subitamente dessa fonte de renda, elas cairdo no circulo final da exclusdo. 0 desemprego aberto ja escalou os 20% no pais Sob esse ingulo social, o combat As plantacbes de coca (que s6 se transform em cocaine ap6s um long e caro pro- cesso de transformagao quimica) nao pode ter um tratamento cirurgico, s6bito. Precisa ser gradual, em process, inclusive junto aos dependents e mesmo ao narcotrifico (ofensivas como a que os EUA lanc.aram sobre o comercio do alcool, a partir da lei seca, na d6cada de 20, sao infrutiferas ou tem efeito contri- rio ao desejado). Mas tamb6m do ponto de vista ecol6gico: a guerra bacteri- ol6gica, que tantos danos causou ao sudeste asidtico, especial- mente ao Vietnam, 6 uma liqdo amarga e cara demais para ser deixada de lado. Mesmo paises distantes da Asia sofreram corn a invencao do terrivel agente laranja", desfolhante que chegou a ser trazido para o Brasil quando os americanos nao puderam mais dar uso b6lico aos seus estoques. Alguns desmatamentos na Amaz6nia foram feitos dessa maneira Uma vez reinventada, essa nova bomba seri letal se pene- trar na maior bacia hidrogrAfica do planet, patrim6nio de nove paises do continent. Embora os defensores do "Plano Col6m- bia" assegurem que o 6nico efeito negative ser; sobre as plants especificas, 6 evidence que o veneno escoard pelas drenagens comunicantes, chegando a comunidades distantes dos alvos e provavelmente desencadeando efeitos fora de control. Logo, se nao quiserem ter o destino da avestruz, s6 falsa- mente salva quando esconde a visAo no buraco mais pr6ximo do perigo, os paises latino-americanos tem que assumir a lide- ranca do problema, que os Estados Unidos estao arrancando para si, artificialmente, "latino-americanizando" definitivamente a Col6mbia antes que ela seja vietnamizada pela political do "big stick", corn resultados nefastos para todos. Se a inteligencia, o discernimento, o bom senso e a sensibi- lidade nao forem banidos durante os pr6ximos desdobramentos dessa hist6ria, 6 possivel que os paises latino-americanos, sobre- tudo os vizinhos da Col6mbia, encontrem, atrav6s do reforgo de relaq6es comerciais e do entendimento politico, um arco de pro- tegao contra os efeitos de uma desastrosa escalada americana no continent, com o efeito-domin6 teorizado pelos mais celebra- dos guerreiros frios, como os ex-secretirios de Estado Robert McNamara e Henry Kissinger. Papel fundamental ha de desempenhar o Brasil nesse qua- dro de entendimento, aumentando o com6rcio exterior tanto com a Col6mbia (principalmente atrav6s de projetos utilizando car- vao mineral) como corn a Venezuela (petr61leo e gas), alargando parcerias ja iniciadas, e estabelecendo political comuns para suas areas amaz6nicas sem que para sua garantia, em meio a histerias geopoliticas, seja preciso destruir mais florestas, abrir novas es- tradas, implantar nucleos coloniais, instalar unidades militares e os elements de um process destrutivo que ja pos embaixo 500 mil km2 de florestas, o equivalent a quase metade do territ6rio da Col6mbia. Nem fazer renascer na Am6rica do Sul uma hist6ria absurdamente trigica, como a do Sudeste da Asia. Se tal coisa for possivel, a id6ia da Pan-Amaz6nia talvez saia do papel e emerja da ret6rica para a realidade, buscando pontos de identidade, como a integragao de bacias (Orenoco- Negro, por exemplo) e de recursos naturais (o gis natural e de- mais energ6ticos), que se projetarao internacionalmente como contraposicgo a pianos idealizados em Washington, como se, abaixo do rio Grande, tudo fosse extensao ou quintal dos EUA. 0 que, decididamente, nao somos. A OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 3 "\ l(( \S. "" '\ - - --- "- I- - .-. \*~ -. 6 '- \**' f - N. ^ -- COLONIZAQAO 0 avan o sobre a terra indigena 1 uase sete mil indios do alto rio Xingu sao os legitimos proprietarios de 12,3 milhoes de hectares de terras con- inuas entire o sul do Para e o norte de Mato Grosso. O0 teerono pode aumentar ainda para quase 14 milhAes de hecta- res se a reserve indigena do Bafi, uma das seis que formam esse todo, for realmente demarcada corn 1,8 milhao de hectares (um milhao a mais do que pretendia o governor) e os Panara, os temi- 4 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA dos indios gigantes do passado (que nem eram gigantes, nem se chamavam Kreenakarore, designagao dada pelos inimigos tribais e incorporada pela imprensa), ganharem sua pr6pria area, de quase 500 mil hectares. Nesse caso, a soma das areas dos indios xinguanos seria equivalent, na Amaz6nia, ao Estado do Amapa, que tem 450 mil habitantes. A m6dia "per capital" seria de dois mil hectares por indio, ou 20 m6dulos rurais que cada familiar de lavrador recebia ao ser assentada pelo governor nos projetos oficiais de coloniza- qao da regiao (extintos ha mais de 20 anos) para se dedicar a produgAo agricola. S6 as reserves indigenas do Xingu represen- tam 8% do territ6rio paraense. At6 meados da d6cada de 80, os pioneiros que conviviam ou conflitavam corn os indios nessa re;iao, entire os rios Ara- guaia e Xingu, no centro geografico do Brasil, usaram de todos os recursos para impedir que as areas dispersas e isoladas em poder dos indios se aglutinassem, formando uma reserve 6ni- ca, a maior do pais, equivalent ao mais extenso de todos os municipios nacionais de entao, o de Itaituba (hoje desmembra- do em varios outros). Ao sul, no Mato Grosso, desde 1961 vi- nha sendo organizado o Parque Nacional do Xingu, um projeto dos irmaos Vilas Boas para reunir todas as tribes espalhadas pela area antes que ela fosse alcangada pelas rodovias de pe- netragao. Ao norte, os virios grupos Kayap6 tamb6m tentavam agrupar suas cinco areas. Enquanto constituiam os personagens locais mais ativos, corn capacidade de influir sobre o poder central, os fazendeiros impediram o reconhecimento legal das pretensoes indigenas. Cada palmo de terra conferida aos indios representava um palmo de terra a menos que eles podiam incorporar ao seu patrim6nio, numa 6poca em que a expansdo dos im6veis rurais era obtida principalmente atrav6s da "grilagem", a apropriacgo ilicita de ter- ras p6blicas e dos indios. Mas para os atores que foram evoluindo de pap6is secun- darios para os mais destacados, nem sempre a demarcagao de terras indigenas significava uma perda. Podia ate proporcionar ganhos maiores. Era a perspective de madeireiros, garimpeiros e pequenas empresas de mineragAo. Os madeireiros podiam entrar na mata pagando pregos irris6rios pela madeira em p6, mesmo as mais valiosas, como o mogno e o cedro, e nao ficavam sujei- tos a qualquer tipo de piano de manejo, exigido pelo 6rgao am- biental (primeiro o IBDF, depois o Ibama o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) dos donos de im6veis rurais regulars. Basta- va convencer os indios a autorizi-los a fazer a extracao. E deixar a area ser saqueada impunemente. Os garimpeiros tamb6m ficavam a margem das exigencias e sang6es legais quando acertavam com os indios lavrar minerios, em contratos que Ihes eram leoninos em fungao da inexperien- cia ou desajuste cultural dos indios. Assim, quanto mais eles tivessem terras, maior era o raio de abrangencia dessas rentAveis atividades clandestinas. Tal circunstancia ajuda a explicar o sucesso relativamente rdpido e significativo dos indios na ampliacao do reconheci- mento as suas pretens6es territorials, nao s6 as isoladas, como o conjunto das quatro reserves Kayap6 no extreme sul do Pard. A composigAo de interesses usualmente antag6nicos se deu numrn context especial: a antiga Area pioneira jd estava consolidada, principalmente do lado oriental do territ6rio Kayap6, com fazen- das que se estabilizaram atrav6s do hibil registro imobiliirio em cart6rio. Santana do Araguaia foi o primeiro municipio do sul do Para a eliminar as "sobras de terra", nas quais os posseiros con- seguiam se instalar para former suas propriedades. Toda a exten- sdo do municipio foi ocupada por grandes e m6dias fazendas. A conjuntura que prevaleceu do lado ocidental da reserve Kayap6, por6m nao 6 mais a mesma, hoje. Os indios da reserve Ba6 precisaram manter 16 pescadores (10 de Sao Paulo e seis do pr6prio municipio de Novo Progresso) como ref6ns por uma se- mana, em agosto, para o governor federal assumir formalmente o compromisso de respeitar a demarcacgo de 1,8 milhao de hecta- res de sua reserve. Pressionada, Brasilia estava retrocedendo da posigAo inicial para um ponto mais pr6ximo do interesse dos colonos do que dos indios, recuando os limits da reserve para o rio Curud e reduzindo-a em um milhao de hectares. Para libertar os ref6ns, foi precise o ministry da Justiga, Jos6 Gregori, mandar um fax para um procurador da Reptiblica, deslocado para a Area, assegurando a demarcaco integral. Mas os colonos de Novo Progresso reagiram prometendo combater judicialmente essa media e, se derrotados nos tribunais, resistir no local, corn armas, literalmente. Logo depois, um novo incident, no mes passado, desta vez envolvendo agents da Policia Federal e fiscais do Ibama, que foram A reserve Kayap6 verificar a extragao illegal de mog- no e, constatando-a, impedir que ela prosseguisse. Foram im- pedidos de cumprir essa missAo de uma tal maneira que ficou parecendo a opinido piblica terem sido mantidos como ref6m at6 suas chefias se comprometerem a nao interferir nas ques- t6es internal. Por trds dos indios foi identificada a mao invisi- vel de madeireiros. Essa area estd numa condicgo bern pr6xima daquela que havia no alto Xingu, entire as d6cadas de 60 e 70, quando o Parque Nacional idealizado pelos Vilas-Boas saiu do papel, e at6 a d6cada seguinte, quando os Kayap6 realizaram a conso- lidag~o do seu territ6rio. 0 vale do m6dio Xingu vemn sendo penetrado nos 6ltimos anos pelos tipicos colonos aventureiros, que se anteciparam as iniciativas oficiais e se aproveitaram do vdcuo dessa presenga, forte nos anos 70 e acanhada nestes tempos de Estado minimo, para former suas fazendas, estabelecer seus cultivos e abrir pica- das de acesso aos 61timos grandes mananciais de madeira do lado sul do rio Amazonas, dentro do Para. Mas tamb6m ha um novo tipo de empreitada, como a da C. R. Almeida, a construtora que mais lucrou no Brasil no primeiro semestre deste ano (600 milh6es de reais de lucro liquido, que tenta se apossar de 4,7 milh6es de hectares alegando que ird utilizA-la em projetos ecol6gicos e turisticos, no seqiiestro de carbon e em manejo ambiental. Todos esperam ganhos considerdveis dessa auddcia nos pr6ximos anos, quando for ativada realmente a hidrovia do Ta- paj6s, at6 o porto de Santar6m, e asfaltada a metade paraense da BR-163, de Cuiabd a Santar6m, corn 1.500 quil6metros de exten- sao. 0 valor da terra e a avaliagdo das benfeitorias existentes se multiplicarao virias vezes. 0 valor potential dos recursos co- nhecidos, sondados ou imaginados tamb6m, talvez numa esca- la ampliada. E um argument bastante forte para que os vizinhos dos indios nao concordem corn seus pianos territorials. Mesmo que Brasilia tenha dito sim, a voz do poder demora a chegar aos sert6es amaz6nicos bravios. Quando chega. Nao chegard a ser surpresa, pordm, se no period de aco- modagAo dos dois pianos, o central e o periferico, o de reconhe- cer os direitos imemoriais dos indios e o de tirar proveito de sua procrastinagAo, o de usar mais inteligentemente os recursos na- turais e o de chegar ao lucro fAcil o mais rapidamente possivel, a aproximacao se fizer A custa de tensao, choque e sangue. A quantidade desses ingredients, que pareciam reminis- cencias de um triste passado que o tempo se encarregou de ar- quivar, vai defender do grau de evolugdo da sociedade brasilei- ra, sendo, ao mesmo tempo, uma media desse tipo de civiliza- go, se civilizagdo 6, diante de desafios como o que a ocupagco indigena do coracgo geogrdfico do pais imp6em, exigindo mu- dangas profundas na postura da sociedade national. A Amaz6nia ainda nao deixou de ser selvagem, qualquer que seja a interpretagdo dada a essa expressao, carregada de sentidos (As vezes duplos e d6bios). A Amaz6nia ainda 6 um mundo distant do Brasil. A aproximagao implicard sempre a destruigao de um pelo outro? A OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZNICA 5 MEMORIAL Sob a fioresta que cai 0 que se segue e, em essencia, o text que escrevi, a pedido de Alberto Dines, para seu boletim eletronico Observat6rio da Imprensa. Reproduzo- o aqui, com ligeiras alteragdes para o pOblico paraense. Espero que seja uma maneira de a publicag9o-irma mais nova, esta Agenda, registrar, a sua maneira, o aniversario do irmbo mais velho, o Jornal Pessoal, na esperanga de contribuir para a germinagao de novas especies de uma matriz que, ao longo do tempo e em diferentes espagos, tem servido de renovagao para o jornalismo que interessa: o critico e independent. E m 1975 fiz um journal alternative em Bel6m, o Bandeira 3, toman- do por base minha experiancia de outsider num suplemento corn o mesmo nome feito em A Provfncia do Pard, journal da grande imprensa local, em 0 Pasquim e no Opinido, do qual participara intensa- mente como correspondent em Sdo Pau- *. l lo, entire 1972 e 1974. Nosso Bandeira 3, feito em equipe, que pode ser exibido sem 'e constrangimento ate hoje, em qualquer re- dacgo, durou sete n6meros (o restos a pa- gar sobrou para mim, exigindo sete meses de trabalho ate a complete quitagAo da divida). Para conseguir publicidade, era precise ir diretamente aos anunciantes, amigos ou simpatizantes, muito poucos. As agencies ndo nos programavam. Resistiam ao interesse manifestado pelos clients sobre a nova midia, mesmo corn sua cota de 20% garantida. A incompatibilidade era political, ideol6gica ou pessoal, tdo ou mais forte do que o retinir das 6 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA moedas sonantes no caixa. As agencies, que nada contribu- iram para o surgimento do nosso tabl6ide de 24 piginas, embelezado pelos recursos grificos entao de vanguard (corn a adog~o da impressao offset), devem ter mandado rezar o dobre de finados pelo fim da experiencia. Dediquei-me entao, integralmente, ao projeto que me fizera retornar de Sdo Paulo para Bel6m: implantar a primei- ra sucursal regional de O Estado de S. Paulo. 0 projeto, eu o apresentara pessoalmente ao doutorJiilio de Mesquita Neto, dono do journal. Ele gostara e aprovara. 0 Estado teria uma sucursal em Belem e correspon- dentes em todas as capitals da maior fronteira de recursos naturais do planet, corn dois tergos do territ6rio national, inclusive em algumas cidades menores, como Santar6m e Marabi. Os textos chegariam a capital paulista no tamanho certo, previamente acertado corn a sede e definido na pau- ta. Uma vez reconhecido o enquadramento t&cnico da ma- teria, ningu6m tocaria nela, que passaria diretamente para a oficina. Nada de cobra gigante no meio da rua ou onga engolindo caboclo. Em que consistia a inovacgo? Em expurgar do trata- mento jornalistico da Amaz6nia o tom de exotismo, de colo- nialismo, de superficialidade e de preconceito da grande imprensa national (e international), inclusive o preconceito que evoluiria, com todas as boas inteng6es que pavimentam o caminho do inferno, para um vies ecol6gico (criando na opinido p6blica sensibilidade para corn o destino da fauna e da flora, mas a anestesiando em relagao a maior fAbrica de aluminio do continent, a melhor mina de minerio de ferro do mundo, a maior mina de bauxita em operaqdo e outros artefatos economicos complexos, numa estrutura mi- nero-industrial de significado international, capaz de atirar o home de ontem no mundo de amanhd sem um finico esquadro ou compasso, 6r- f~io na hist6ria). SDurante os anos iniciais do avanqo das fronteiras econ6micas sobre o vasto territ6rio amaz6nico, 0 Estado de S. Paulo registrou em suas paginas a melhor cr6ni- ca desses dias incriveis. Tornou-se fonte _.__ de refer&ncia para tLdo o que se escreveu B sobre o period, inclusive em clhssicos dessa literature da colonizaqgo, como o li- vro escrito em 1977 pelo nosso president a 6poca, apenas soci6logo Fernando Henrique Cardoso, que usou na bibliografia, A larga, reportagens do traditional diArio da plutocracia paulistana. Eu tinha sonhos de que o Estaddo consolidaria esse papel, A sombra de um liberalism sem igual na imprensa brasileira. Mas aos poucos a linha editorial foi mudando: ao inv6s de abrigar tanto a voz dos colonizadores quanto a dos colonizados, foi-se deixando ficar apenas corn aqueles, quase todos em casa, eternos bandeirantes der- rubando matas e amansando brabos. A execucgo do projeto foi sendo adi- ada, mas nao cancelada: a cada viagem a Sdo Paulo, o doutorJtilio pedia paci&ncia. _--_ A empresa realmente vivia tempos dificeis. Mas a id6ia nao fora descartada. Seria rea- quecida quando vacas gordas mostrassem rn seu desejado focinho no departamento fi- nanceiro, posto em risco pela geraco de "engenheiros", os irmaos siameses, na em- presa privada, dos tecnoburocratas do apa- relho de Estado. EU ac1 Em 1981 transformei numa newsletter dois I quinzenal o InformeAmazonico, a coluna maIS 1 diAria que durante vdrios anos escrevi no Estado maior journal da Amaz6nia, 0 Liberal. Des- ta vez, a empreitada era do eu-sozinho. A mentidc circulagAo, entire assinantes. A distribuicao, depoin por mim mesmo. A duracao? 12 n6meros. dessa Quase nada diante da intencgo, mas um favor pouco al6m da investida anterior. acober Continue a girar por toda a Amaz6- dos nia, enviado especial do Estaddo, e a dre- nar minhas reflexes sobre essa itineran- inteleC cia numa coluna de acento pessoal em assassin 0 Liberal. Assuntos que eram tabus no ta mais influence peri6dico do pais podiam conhe ser tratados sem-cerim6nia na maior fo- lha informative da Amaz6nia e vice- versa. E assim o mundo girava, enquan- to a Lusitana rodava. Em junho de 1987 vi o corpo ensangfientado de um amigo, morto com tres tiros num posto de gasoline a said de Bel6m, cidade que chegou a ser a terceira mais impor- tante do Brasil no inicio do seculo, quando s6 a Amaz6nia fornecia borracha, mat6ria prima fundamental para o cres- cente parque industrial do mundo. 0 primeiro tiro, na tem- pora, foi fatal. Os outros dois foram apenas excess de zelo, ou de profissionalismo, do pistoleiro. Paulo Fonteles nem teve tempo de se espantar. Conti- nuou corn a perna cruzada, sentado do lado do carona do carro, no lugar em que o motorist o deixara para ir atris de agua para o carro, que nao precisava de agua para resfriar o motor. 0 cigarro nem caiu de entire os dedos dele. Do lado da entrada das balas, apenas pontos negros na cabega. Do outro lado, sangria desatada. Dias antes eu tivera uma longa e excepcionalmente in- tima conversa com Paulo, depois de terms participado jun- tos de um debate no Col6gio Lauro Sodr6 (exatamente onde houve o desabamento, pouco tempo atras). Uns meses antes ele deixara de ser deputado estadual, eleito pelo PMDB. isava os omens ricos do de terem em seus lentos e, maneira, ecido o tamento stores tuais do iato, que Ivez cessem seu Grande Sertdo: Veredas. Achei que a imprensa nao podia permitir essa barbdrie. Durante tres meses me apliquei integralmente a investigagao do crime, como uma questao pessoal, professional, political, de cidadania, de honra. Quando tinha uma hist6ria comple- ta, da reconstituicgo do atentado at6 os seus mandantes, tentei publicar a reportagem no journal no qual entao tambem tra- balhava, 0 Liberal. Mas "eles" tiveram medo. Eu acusava os dois homes mais ricos do Estado de terem mentido em seus depoimentos e, dessa maneira, favo- recido o acobertamento dos autores intelectuais do assassi- nato, que talvez conhecessem. Uma das proprietirias da em- presa jornalistica, depois de ler o long texto e lamentar nao poder publica-lo, se disp6s a me ajudar na solugao do impasse que sempre se cria quando um jornalista quer pu- blicar e o dono do journal nao quer: fiz o meu pr6prio jor- nal, mais uma vez sozinho, dispensando publicidade (80% do faturamento de uma empresa jornalistica conventional), vivendo exclusivamente da venda avulsa, indo para as ban- cas de rua e nao restrito a assinantes. Ela o imprimiria, e de graga, desde que eu nao citasse a grdfica, para nao transfe- OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 7 Tentara um v6o mais alto, para a CAmara Federal. Complicac6es e mudangas na sua base de atuagao, o violent sul do Para, recordista national em conflitos de terra, onde era advogado de posseiros, trunca- ram sua carreira. Voltou ao seu partido subterrfneo, o PC do B, e a atividade mili- tante. Fazendeiros juraram-no de morte, no ajuste de contas que a perda da imunida- de parlamentar estimulara. Um deles, sele- cionado pelas regras de uma confraria mis- teriosa, mandou matA-lo. Crimes de encomenda jd nao eram propriamente novidade na Amaz6nia, mas a morte de Paulo foi o primeiro crime po- litico cometido nos limits da capital, sede dos poderes constitucionais. Ate entao, a lei da selva, sancionada pela colonizacgo definitive da Amaz6nia (as anteriores ndo se haviam estabelecido de vez), vigorava apenas no sertao, no hinterland, a distAn- cia dos residuos de modernidade que che- gavam a jungle. Desde entao, o darwinismo social se generalizou. Os matadores estavam libera- dos. Ningu6m tinha mais nenhuma daque- las garantias que os advogados e os legis- ladores plantam na constituicgo e nas leis em geral, mas que nao medram no sertao. Deus, se quiser vir, que se arme, como diz o feiticeiro Guimardes Rosa na abertura do rir-lhe responsabilidade (detalhe da repressora Lei de Im- prensa, de 1967, para inibir grdficas de abrigar publicag6es independents e inc6modas, que a empresdria utilizaria seis anos depois, para tentar calar o mesmo journal que ajudara, quando jd estdvamos em lados opostos). Essa materia inaugural me deu um dos dois Premios Fenaj (da Federaqdo Nacional dos Jornalistas), que ganharia no ano seguinte, e provocou um impact local significativo. Mas para fazer a materia principal do segundo n6mero, per- di a grdfica e passed a perder a proximidade corn a poderosa meira quinzena de setembro, revela um fato inquietante: al- gumas das suas principals materias jamais apareceram, pou- co apareceram ou s6 emergiram nas paginas da grande im- prensa sob pesada maquilagem ou profunda distorcgo. Para saber o que de fato aconteceu na regiao que constitui a segunda preocupacgo mundial (conforme pesquisa da Unes- co, depois do efeito estufa), sera preciso recuperar dos ar- quivos essa publicacgo em pequeno format, oito paginas, sem an6ncio, sem fotografia, sem o bric-a-brac de pho- toshops e outros penduricalhos eletr6nicos de enfeite. familiar Maiorana, dona de 0 Liberal, ate me tornar um de seus mais perseguidos oponentes, processado cinco vezes para calar, sem que calado me tenha feito. Fui informado de que o president in- terino do Banco da Amaz6nia, Augusto Bar- reira Pereira, comandava uma quadrilha que agia dentro da instituicgo, a maior da rede financeira regional. Eles haviam pro- vocado um "rombo" equivalent a 30 mi- lhoes de d61lares, em valor da 6poca. Mas nem uma s6 linha a respeito saia nos tres jornais didrios de Belem. Barreira Pereira era procurador de 0 Liberal e tinha apoio politico do hoje senador Jader Barbalho, dono do Didrio do Pard. Um dos envolvi- dos no desfalque, o delicioso compositor paraense (radicado no Rio de Janeiro), Bi- lly Blanco, era irmao do superintendent de A Provincia do Pard, Milton Trindade, meu querido padrinho na imprensa. Poucos dias antes, o secretdrio de fi- nangas da Pensilvania, nos Estados Uni- dos, no curso de uma campanha de de- nuincias da imprensa local, se suicidara com um tiro de rev61lver na boca, diante Durante meses publiquei sozinho fatos que me impressionavam, atingindo pessoas que conhecia, contrariando interesses poderosos 'OL Dou um 6nico exemplo. Em dezem- bro de 1991 um rapaz elegant e simpiti- co, membro de uma das mais tradicionais families da sociedade, colundvel por ber- go, foi assassinado quando dirigia seu carro pela estrada de acesso a Belem. Uma ca- minhonete emparelhou corn o autom6vel dele, a 90 quil6metros por hora. Uma pes- soa fez um 6nico disparo, atingindo Bru- no Meira Mattos na cabeqa. Ele morreu na hora. Seu carro, desgovernado, foi parar no meio-fio. Ninguem viu os ocupantes do veiculo que serviu ao crime. Nem viu mat6rias a respeito na gran- de imprensa. A partir dessa situacgo estra- nha, investiguei. Na verdade, Bruno usava sua empresa de cAmbio e turismo como fa- chada para o seu principal neg6cio: a co- bertura do narcotrdfico international. Em 1991, ele pode ter intermediado a passa- gem de 100 milh6es de d61lares em cocai- na para a Europa e os Estados Unidos. Um mundo aparentemente limpo ocultava o submundo delinqilente, corn tenticulos su- bindo aos patamares do poder e da cha- mada alta sociedade. das cameras de televised e de rep6rteres chocados. Ele era acusado de desviar US$ 300 mil. Ou seja: 100 vezes menos do que o rombo no Basa, banco essencial de uma terra bem menos rica do que o traditional Estado americano. Mas agora, nao: 0 Liberal nao cederia suas maquinas, nem que eu pagasse. Fui para outra grafica, onde rodei o JP nQ 2, na segunda quinzena de setembro de 1987, o ano re- corde de queimadas e desmatamentos na Amaz6nia, uma destruigio de floresta native (80 mil quil6metros quadrados postos abaixo em seis meses) sem igual em toda a hist6ria humana. Mas o nfimero tres eu tive que passar para outra grifica. E assim migrei de grifica em grafica, conforme os problems e os temas inc6modos iam aparecendo. Hoje, co- memoro a 11a, sem me perguntar sobre o tempo da festa. Nem mesmo ha tempo para comemorar. Infelizmente, a trajet6ria do Jornal Pessoal, que chegou a 13 anos na pri- 8 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA Durante meses publiquei sozinho fatos que me impres- sipnavam, atingindo pessoas que conhecia, criando proble- mas, incomodando, contrariando interesses poderosos, dei- xando feridas A mostra, num total desconforto pessoal. Ten- tei passar informag6es para colegas, dividindo o alvo. Nada. Cada fechamento do JP era uma fonte de angtistia. Diante do volume e da qualidade do meu noticiArio, edicgo ap6s edigco, certo dia os tres jornais deram corn destaque mate- ria corn o mesmo texto: a viuiva, vasculhando roupas do marido, encontrara um bilhete perdido no qual Bruno anun- ciava que se suicidaria. Era isso: ele nao fora morto, se matara. Nao importa- vam as circunstAncias, que colocavam esse "suicidio" como Onico na cr6nica mundial em todos os tempos: tiro dispara- do da esquerda para a direita da vitima, de uma distAncia minima de tries metros, dado de cima para baixo, Bruno, que era destroy e nao era atirador, dirigindo seu carro a 90 quil6metros por hora, em plena rodovia federal, e fulmina- do cirurgicamente por uma inica bala. Assim ficaria at6 que a Policia Federal apreendeu, no Pard e no Amazonas, uma tonelada de cocaine, a maior feita no Brasil at6 entao, de uma quadrilha international que usava a Amaz6nia como caminho de passage da dro- ga. A imprensa, entao, regurgitou. A televisao toda foi para cima do delegado Jos6 Sales, numa concorrida entrevista coletiva. Eu estava li. Ouvi tudo em sil&ncio. Apagados os de entes queridos. 0 que nao pode haver 6 esse sil&ncio conivente e oportunista da imprensa. 0 moment professional mais feliz desse period, eu o vivi em Roma, numa iluminada noite de verao de junho de 1997, quando recebi o Colombe d'oro per la Pace, uma escultura moldada em ouro puro, com sua base em pedra lazfili, para o reconhecimento, pelo Archivio Disarmo, ONG chefiada pelo senador socialist Anderlini, a quatro perso- nalidades destacadas do ano. Fui indicado para o comite de selegqo por Maurizio Chierici, um dos principals envia- refletores, desmobilizadas as equipes, con- tinuei sentado e calado. Um colega per- guntou o que eu ia fazer. Disse que ia trocar figurinhas com o delegado, hi anos no setor. 0 colega voltou a se sentar: "Bom, agora 6 que vai ser bom", anun- ciou para os outros. Ponderei que nio ha off coletivo. A conversa reservada s6 existe por uma rela- 0go de confianga a dois. Mas eu aceitaria a presenga de todos, desde que se obri- gassem a publicar as informac6es que sur- giriam nesse papo informal. Automatica- mente, todos se levantaram e sumiram. 0 delegado, boquiaberto, se virou para mim: "Sdo teus amigos, hein?". Foi um dos moments mais tristes da minha carreira. Meus colegas, em 6poca de democracia plena, rara no nosso pais, fa- ziam (e parecem fazer cada vez mais) a auto-censura, tentando advinhar o que delas espera o patrao, livrando-os do peso do conflito que purga consci6ncias e rela- tiviza o control particular da informaqgo, impedindo a total manipulaqdo da opinion pviblica, a sociedade unidimensional que Nao hi off coletivo; a conversa reservada so existe por uma relacRo de confianqa. Foi um dos moments mais tristes da minha carreira ee* nos ameaga, o pensamento finico que nos inquieta. Com isso, os mandantes da morte de Paulo Fonteles permanecem impunes at6 hoje, todos os envolvidos no es- candalo do Basa estdo soltos (depois de terem sofrido a primeira pristo no Brasil por crime do colarinho branco, determinada por uma juiza federal do Rio de Janeiro), o assassinate de Bruno permanece um absolute mist6rio e os motivos que levaram ao seu fim foram devidamente sepulta- dos, mesmo que desde entao o narcotrAfico tenha se torna- do uma das maiores preocupagoes mundiais (e uma bomba- rel6gio desastradamente acionada em nosso continente. Cada um dos personagens tem o direito de fazer valer a sua voz e apresentar a sua versio da verdade. E possivel que eu haja publicado alguma informacao sujeita a questio- namentos, ou haja pisado em calo sensivel, contrariando pessoas amigas, melindradas ao verem expostas as chagas m6veis e utensilios, pedi demissao de 0 Estado de S. Paulo. 0 projeto da sucursal regional, contracanto ao unissono so- lil6quio do poder, evolara. Com o cosmopolita FHC, nossos barges da informagio viriam a sentir-se um pouco no poder tamb6m. A Amaz6nia era a selva selvaggia aspra e forte, re- duto menor, apesar de geograficamente maior, miticamente imensa, utilitariamente vital. Dei adeus a grande imprensa. Tornei-me ousiderat6 a medula. E quem vai para a chuva tem mesmo 6 que se mo- lhar, como muito sabemos, n6s, habitantes deste outro pais nomeadamente brasileiro, no qual as chuvas sdo constantes e abundantes. Ou ao menos o serio enquanto permitir o grande bwana, em sua face crua no QG ou atrav6s das mis- caras do fantasma-que-anda e que depreda, que explore, que mata e que faz esquecer com sua hist6ria official. Ou, o que 6 ainda pior: o seu silencio official A OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 9 dos especiais do Corriere de la Sera, o maior journal italiano. Segundo ele, meu jornalzinho contribui para combater as injustigas sociais e a violacao dos direi- tos humans. Recebi o premio ao lado do deputado irlandes John Hume, no ano se- guinte novamente premiado, dessa vez com o Premio Nobel da Paz. Na belissima solenidade estavam os embaixadores da Irlanda do Norte e da Inglaterra, lado a lado, fato lembrado pelo apresentador e aplaudido intensa- mente pela plat6ia. Tamb6m li estava o embaixador da Albania, junto ao jorna- lista Fatos Lubonja, mantido no circere de Enver Hoxha durante 19 anos, por causa das poesias her6ticas que escre- via. 0 embaixador do Brasil mandou um obscuro representante. Tinha coisas mais importantes a fazer. De Brasilia, A qual recorreu para saber quem eu era, disse- ram que eu era um jornalista irritante- mente chato, critico demais. Nao mere- cia a palma verde-amarela. Talvez nao merega mesmo. Em 1998, depois de 17 anos na casa, da qual ji era Broadway aqui Em outubro de 1953 Belem passou a ter mais um "elegan- te clube", o Broadway Club, formado "por senhorinhas e rapazes da nossa melhor sociedade" que nascia "sob o signo da elegincia e do bom gosto" para promover "gran- des realiza6oes sociais"- festas dan'antes, sobretudo. Os presidents de honra da diretoria eram Ivan Maranhdo, Jos6 Bastos, Alberto Carlos Chady e Acicio Humberto. 0 president executive era Isaac Soares, tendo como vice Salim Carlos Chady. Uma mulher na 1a secretaria: Terezi- nha Miranda. Jos6 Luiz Alves ocupava a 2a secretaria. Cui- dando das finanqas, Raimundo Fidalgo. Maria Odete Bra- sil era a diretora social, Maria Jos6 Viana a diretora de esportes e Djalma Moller, directorr public" (o que seria?). A reunido de fundaqdo tinha sido na residencia de Maria Odete Brasil. "A ideia [do clube] ndo podia ser de outra maneira - partiu dos cerebros das garotas, e, como elas possuem ma- neiras para conseguir o que desejam, tudo foi arranjado corn perfeiqdo, registrava a nota da imprensa. No balnedrio Com apresentagAo da "famosa orquestra Maqaneta", o Praia Bar foi reinaugurado em novembro de 1953", no "maior acon- tecimento social do pitoresco balneario" de Mosqueiro. A casa prometia "'shows' maravilhosos, iluminacgo deslum- brante, rigorosamente familiar, conforte, higiene, cardipios deliciosos" Quem se lembra do Praia Bar? Forqa salesiana Em novembro de 1955, os Cooperadores Salesianos do Para realizaram sua segunda conferencia annual, no salao de fes- tas do Col6gio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, na Ci- dade Velha. Duas missas sucessivas, a primeira no altar- m6r da igreja do Carmo e a segunda no altar de Nossa Senhora Auxiliadora, em mem6ria dos pais falecidos dos padres e dos cooperadores salesianos que ja haviam mor- rido, abriram o dia. No encerramento, conferencia do advogado Orlando Costa, entdo dirigente da Aqao Cat61lica (viria a ser presiden- te do Tribunal Regional do Trabalho e ministry do Tribunal Superior do Trabalho), sobre o div6rcio, sob os olhares do president de honra da conferencia, o arcebispo D. Mario de Miranda Vilas Boas antecessorr de D. Alberto Ramos), e do president dos cooperadores salesianos, o desembarga- dor Augusto Rangel de Borborema. A ordem de Dom Bosco ji foi mais ativa em Belem. 10 OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA Pio fresco No mesmo novembro de 1955 a Fdbrica Palmeira (aquela pode- rosa organizagao que ocupava toda uma quadra no centro co- mercial, reduzida a um buraco constrangedor nos nossos dias) assumia a lideranga do "movimento que vai dar, novamente, a popula'ao o pao fresco para o caf6 matinal" A empresa anunciava estar esperando a chegada de "um dos maiores tecnicos em biscoitaria, panificacao e outras especi- alidades do seu comercio", para giudio da imprensa, certamente sedenta do bom caf6 da manhd complete: "Volta, assim, a 'Pal- meira', aos seus tempos aureos, sob o impulso do sangue novo que lhe estd correndo nas arterias" Para no Rio Em janeiro de 1957 o grupo teatral paraense "Os Novos" apre- sentou a peqa "No Polo do Falcdo', do ingles W B. Yeats, no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, como parte do festival do teatro amador no Brasil. 0 texto da pega foi traduzido por Ange- lita Silva, ji falecida, irma de Maria Sylvia Nunes, a esposa do professor Benedito Nunes. A direg o era de Margarida Schivazzappa (que empresta seu nome ao teatro do Centur) e Peter Paul Hilbert (cientista do Museu Emilio Goeldi). Coreografia de Felicitas e da sra. Francis Beery. Figurinos de Jos6 Luiz. CenArio de Jodo Pinto, executado por Nestorino. No elenco: Claudio Barradas (no papel do velho); Carlos Pereira (o jovem), Bernadete Oliveira (a guardian do pogo), Loris Pereira, Luis Fernando Sa Leal (irmao do jornalista Claudio Augusto de Sa Leal) e Assis Filho (coro). A apresentagdo carioca compareceram paraenses ilustres, como a escritora Eneida, o poeta Mirio Faustino e a artist Mara Rtbia, todos ji radicados na entdo capital federal. Vanguarda retardada Inadvertidamente, como s6i acontecer, os "intelectuais de van- guarda" de Belmr marcaram para 23 de julho de 1960 o lanca- mento official do grupo Gestalt, que, entire outras atividades, planejava realizar a primeira exposicgo de pintura abstrata no Pari, mais de meio s6culo depois do seu surgimento. Mas a festa teve que ser adiada porque virios dos integrantes do movimento estavam de ferias: o poeta Jodo de Jesus Paes Lou- reiro, por exemplo, divertia-se em Abaetetuba, enquanto o cri- tico (e depois advogado) L6cio Vespasiano do Amaral verane- ava na ilha de Mosqueiro. Constatando as lacunas, o lider do Gestalt, o santareno Eliston Altmann, filho de alemdes (morreu no inicio da d&cada de 70 no Rio de Janeiro), deixou BelIm ao amanhecer do dia marcado para o ato solene. Tudo ficou adiado. Nada estranho: em julho, ningu6m 6 de ferro em Bel6m. sd :1, D JT M'E Bife de ouro A partir do dia 3 de outubro de 1959 "ja se come bem" em Be- 1em, proclamava o an6ncio da inauguracgo do restaurant "Bife de Ouro", no terreo do edificio Piedade, na Praga da Repuiblica. 0 restaurant ia oferecer pratos regionais e internacionais, "num ambiente agradavel, de higiene absolute, a preqos acessiveis" Diariamente, "um amplo sortimento de verduras frescas, prove- nientes de plantac6es pr6prias" Tudo isso para criar "um esta- belecimento A altura do progress do Pard" Embora, em certos restaurants, o ponto em comum entire o bife e o outro que ser- viu-lhe de inspiracAo era a dureza de ambos. Som da boate Em setembro de 1962 a "boite Studium", do Grande Hotel (demolido; em seu lugar, na Praga da Rep6blica, foi cons- truido o Hilton Belem) inaugurava "a mais perfeita instala- gAo em Hi-Fi", prometendo "as melhores m6sicas, os melho- res drinks, as melhores comidas" Nao era exigida consuma- go, mas pagava-se entao 100 cruzeiros de consumacgo. 0 hotel, no estilo europeu, era da rede Intercontinental. Ja estava na vazante de prestigio. Era do jato Ainda em setembro de 1962 a Panair fazia pousar em Belem, pela primeira vez, o seu Caravelle 6R, o 6ltimo dos jatos aerodi- nimicos e talvez o mais belo de todos, inaugurando a linha Rio- Brasilia-Belem-Manaus, com uma frequiencia semanal. 0 aviAo mais sofisticado a freqtientar o aeroporto de Val-de-Cans ate entao era o Constellation, corn motor a explosdo. A Panair, A 6poca a mais important das companhias areas (iria perder a posigao com o regime military havia comprado cin- co jatos do tipo Caravelle, para 68 passageiros e seis tripulantes, capazes de cobrir o percurso direto do Rio a Belem (o que inicia- ria em 6 de outubro) em 2 horas e 45 minutes. 0 primeiro desses avi6es a fazer a linha foi o batizado de Bandeirante Antdo Leme da Silva. Ele pousou As 20,35 do dia 27 de setembro. Lotado. Taximetros na praga Em novembro de 1962 comegaram a circular os primeiros ti- xis corn taximetros em Belem, da marca Capelinha. Enquanto alguns motorists resistiam a utilizar os aparelhos, preferindo definir o prego das corridas pelos m6todos tradicionais, atra- v6s de acerto corn o client antes da partida, espontaneamen- te seis "profissionais do volante" colocaram o medidor e co- megaram a circular corn a novidade. Eram dos pontos da "Avei- rense", do Ponto Popular e de Sao Brns, todos ja corn veicu- los nacionais. Os do piano Nesse mesmo mes e ano, a Lojas Salevy (no terreo do edificio Palacio do Radio, na avenida Presidente Vargas) anunciava ji ter vendido 39 pianos "mundialmente famosos" Behar, os preferidos "por professors de piano e pela alta sociedade". Entre os com- pradores relacionados: Maria Leonora Menezes, Maria Helena Co- elho, Alberto Bendahan, Pedro Moura Palha, Oscar Castro, Jean Bitar, Gervdsio de Brito Melo, Mario Sampaio, Dilermando Menes- cal, Jorge Malcher, Raul Boulhosa, Augusto Ara6jo, Ulysses Vieira, Miguel de Luca, Samuel Levy, Hilirio Ferreira Filho, Armenio Bar- bosa, Te6filo Conduru, Ossian Brito, Jose Maria Pinheiro de Sou- za, Ana Maria Nobre Rio, Helena Miranda. Detalhe: quem compra- va era a mulher. Mas o nome registrado era o do marido. Twist again Enquanto uns iam de clissico, outros pulavam para o mo- demo. 0 Autom6vel Clube, aquele instalado nos altos do mesmo Palicio do Radio (e que jamais promoveu uma dispute automo- bilistica), realizava em novembro de 1962 o 2Q concurso de twist, a danca da moda entire os jovens da 6poca. Responsivel pela animacgo, a orquestra de Orlando Pereira, "corn seu vibrafone e guitarra havaiana", que eram novidade entire n6s. As "localida- des" podiam ser reservadas pelo telefone 2071. Baixada Um No dia 6 de maio de 1964 a prefeitura retirou da Marechal Hermes (hoje mais conhecida como Doca Souza Franco, a avenida vizinha) 50 casebres de madeira e remanejou os seus habitantes para "uma area desocupada" no entao distance bairro da Marambaia. Comegava assim a intervencgo ptblica nas baixadas de Belem. Prefeitura e SNAPP (Servicos de Navegagao e Adminis- tragdo dos Portos do Park, hoje Enasa e CDP) fizeram um con- venio para a remocgo dos moradores, "onde se constituiam, a par de um conglomerado de families pobres e honradas, um foco de malfeitores e desajustados", dizia o noticiArio da im- prensa. Ele garantia que a Policia Federal e a prefeitura de hf muito pretendiam acabar com essa favela, "antro de vagabun- dos e maconheiros, embora morassem tamb6m ali pessoas hu- mildes e honestas", em funcgo dos crimes que eram cometi- dos, "inclusive de morte" Mesmo desalojadas, as families "mostravam-se compreen- sivas corn a operagao, por saberem, sobretudo, que nao Jam ficar desamparadas" Nao houve qualquer incident durante a realizacgo dos trabalhos de desmontagem dos casebres da Mare- chal Hermes e sua remontagem na Marambaia, mas tres fuzilei- ros navais "vigiavam para qualquer emergencia" Urn dos objeti- vos era justamente a "desobstrugao da orla maritima", alem de acabar corn essa favela. OUTUBRO/2000 AGENDA AMAZONICA- 11 PROPAGANDA Arraial do Cirio Mal a image de Nossa Senhora de Na- zar6 entrava na basilica que a homena- geia, para a missa de encerramento da procissdo (hoje, fica no desajeitado con- junto arquitet6nico, ao ar livre), no segun- do domingo de outubro, comegava a par- te profana do Cirio no arraial montado na praga agora gradeada (oficialmente bati- zada dejusto Chermont). Fieis e romeiros, corn sua troupe familiar e amigos, ja se encarapitavam nos brinquedos e zanza- vam pelas barracas de madeira antes mes- mo do moment religioso derradeiro. A "quadra nazarena" duraria 15 dias noi- tes, para ser mais fiel aos fatos. Animados por um alto consume de be- bida alco61lica, mas forrados de comida regional, os festeiros usufruiriam ao mdxi- mo dessa quinzena no "arraial". Durante muitos anos, as grandes atragoes eram tra- zidas pelo empresario Fdlix Rocque (pai do jomalista Carlos Rocque, recentemente falecido) para se apresentar nos teatros Moderno e Coliseu. Eram espetkculos de variedades, como os da Companhia de Revistas Eva Stachino, vinda de fora, ou TEATRO (OLISEU LARGO DE NAZARE' Sesational Temproda do Empnesa Dr.KardoAliKhan Hoije Domingo, Vesperal s 16 horses PrI, *.ou C 5001 S...s.,.- -. N,.[ ....A. A.".",. CARMEM COSTA Estrela do Raddi, Televisa e Cinema .GENESIO ARRUDA JATOA' -. O .-. Sw.. ' :IOEMA NOe *BIklye*e C.nai*. IAZABITRM APARECIDA Oeo. qa cu 0 . NOEMI 'A C.-ri Podigio'. CEXMOJUpOB-"OM-"e0spr: K . GERALDO ABRUDA V0 Giguoe d, 0l 0 W 0. .ATARAXI .u.Ooin &. W. pr.pe". Codchti La, alsaut. A UMIST0DOA OW!. SDLNA -A" Or-& SQ-& -S~n , CONCHrITA LtiNA klria. S.tuj corp. d0 .1tw" 0 MAGO Do GPwsO'. HODDVAR SOUZA P,..1,o A.. d. U.9. pW. R.I*B 0 hoe d. ma d/( lDp.a. SpUodl D.O.. l ,m -*m- C-oom.d.i UAS NOD= Afmr. 23 Mil. E^toda oafmWHl* -. a".: W f4 IL I534) ; 1J(0o Teatro Variedades HOJE Grande Estreia do "IGa. Vena RFilho" APO E IWTAVA PO R LJMCIO URO I+,jd "vl .+ llu" \ RVVl.S ash miWsAVA-Lo C I "* "0 BURACO DE OTILIA" / RTa- -A 15Md 11. ..o. 'M/ IR ao arraial 6 assumir obriga&Ao de chegar aos U. = Teatros da Empresa Felix Rocque - MODERNO co"ax 1wE| r Jajie-.l-. o aBo"fiauw--Iolet, Hoje A's 20 horas Hoje Novo Combiao Em Estriio Pelo companion De revistas Permanece no carlaz a hilarlante i E A S A CHINi com6dla que obteve estrondoso EVA STACHINO exio pOSSp. ^ 0 Intitulada i- onem < S ComoP articipasaodeHAYMOND, a artist que con- mrniga da tristeza-Rei do riso-E mais quistoA o plottia poacense Eladir Porto, a morona 100 por cento brasilaira, T RA RGIA, .v. que ,dos pludem ..z que todos aplaudemn. Roberto SantO. SOSSOF, a core6graofo international o a - MANUEL VIEIRA, o portuguis que troboaho come nm- Ivo Lloyd, Carmen Pinto, Francisco Mar- a gum, no ginero auesounto vocalijta "Amantes do Ludr", i E MAIS-JACQUELINE ROLAND, NAIR FARIAS, RO- H qa Cu B$i la "A a e Dotu S MANITA, FELICITAS, BROADWAY, CARDONA, Zl i Otacillo e sua Bailarina a De -- C016,MALAGUETAeo"Ballet" inimitove de 10 eyos I ENTRADA: CrS 10,00 e CrS 5,00 "girls"' |I ATENCAO: AMANHA A empriso recebeu milhores PIARTIR DAS 19, 30 HORAS | de pedidos paro o MODERNO Doar Vesperois Amonhii, IA PRECOS: Entroda, CR512,00 e CR$6,00 a primeira vesperal aguardem o progroma L a eatoo r-ABIEDoA-DEa g i Cantua&iag Chefiando A Troupe .antuariaDe Artistas Regions Sim, Pode Ser,... Q A'w s oya, sB IV w w A o cr- 0 e C ,0 [ mobilizando artists locais. Cornm tanto su- apresentava a Cia. Valenga Filho, cornm sua cesso que Rocque ampliava a agenda, revista carnavalesca abrilhantada pela ve- dando espetAculos vesperais, por haver dete Lolita Batista, a "vedetinha"Creuza recebido "milhares de pedidos". Silva e outras "girls", num total de 25 ar- "Ir ao arraial 6 assumir a obrigacgo de tistas. Nesse mesmo ano, a cantora Car- chegar aos teatros da empresa F6lix Roc- mem Costa, "estrela da radio, televisio e que", proclama um anincio de 1945, pu- cinema", era a principal atragAo da "sen- blicada na Folha do Notre, o grande jomal sacional temporada" da empresa do Dr. da 6poca. Eva Stachino exibia a com6dia Kardo Ali Khan. Ela trazia Mata Hari, "Bomba at6mica", que estreara mortifera- "rumbeira de estilo pr6prio", a bailarina mente no ano anterior, langada pelos EUA Comnchita Luna, "satands em corpo de sobre o Japdo, no epilogo da Segunda mulher", e o pr6prio Kardo, "o maior hip- Guerra Mundial. Entre os participants, notizador dos 61timos tempos", um ho- estava Manuel Vieira, "o portugues que mem "de mem6ria sobrenatural", tudo trabalha como ningu6m, no genero". compondo "um espeticulo de familiar para Treze anos depois, LOcio Mauro, "pre- as families de Bel6m". miado o melhor ator do ano" de 1958, Ha 40 anos. Agenda Amnazonica Travessa Benjamin Constant 845/203- Beleni/PA- 66.053-040 e-mail: joal@amazon.como r Telefones: 2237690/2417626 (fax) Produio grAfica: luizantoniodefariapinto |
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