Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00013

Full Text



Ix


amazO


ANO II No 13 BELEM, SETEMBRO DE 2000 R$ 3,00


TESTEMUNHO

0 future 6


um desafio
Esta e a terceira e 6/tima parte da entrevista do
ge6logo Breno Augusto dos Santos, o
responsavel pela descoberta da jazida de ferro
de Carajis, cuja publicagao foi iniciada na
Agenda nO 11. Certamente os nossos leitores
nao acharao que o espago foi demasiado.
Muito pelo contr6rio: foi valorizado por um
testemunho vivido, inteligente, bem
fundamentado, emocionado e indignado de
um dos personagens da historia recent da
Amaz6nia, um guia para ajudar a iluminar a
interpretagao destes tempos dificeis.
Definitivamente instalado em Niterdi, Breno
reflete sobre duas d6cadas de atuagao na
frente mineral como algu6m que tem a exata
nogao de cada tempo e sua respective era.
Agua passada nao move moinho, e verdade.
Mas uma Amazonia e especificamente um
Para carente de saber nao ha de aceitar que
Breno se desligue desta terra que ele fertilizou
cor seu trabalho e valorizou com sua paixao.
Mesmo com legftimo direito ao farniente
atribulado da aposentadoria, e um patrim6nio
de todos nos, do que nao deixa d6vida o
long e ainda pequeno depoimento por ele
prestado a esta Agenda. 0-


Lf cio Fldvio Pinto







batalha do ahluminio no ParA e uma guerra perdida?
SNo diria que 6 uma guerra perdida, pois batalhas
perdidas dessa guerra puderam ser revertidas, mas
Sio tenho dfivida de que 6 uma guerra complicada.
Para comecar, entramos mal na guerra. O esforgo que foi
feito na d&cada de 70, para incrementar e verticalizar a producao
das jazidas de bauxita, entdo descobertas na Amaz6nia, foi ba-
seado em premissas e models equivocados.
O complex Albris-Alunorte foi implantado a partir de um
modelo concebido no exterior, voltado para substituir a produ-
ao japonesa de aluminio, que tomara-se invilvel pelo custo da
energia ap6s o primeiro choque do petr61eo, de 1973. Na produ-
ao do aluminio, cerca de 50% correspondem A energia, e assim,
mais uma vez, a Amaz6nia estava sendo usada para resolver
problems alheios as suas fronteiras.
Como se isso nAo bastasse, o governor brasileiro compro-
meteu-se a construir a hidrel6trica de Tucurui, e corn a garantia
do fornecimento de energia com preco subsidiado por 20 anos.
Na 6poca, o discurso era de que o grande consumidor viabiliza-
ria a implantacio da hidrel6trica, o que possibilitaria resolver o
critic abastecimento de Bel6m e motivar a industrializagco da
regiAo. Embora em parte isso tenha sido verdadeiro, o custo fi-
nanceiro e os desvios administrativos ocorridos durante as obras
praticamente inviabilizaram a Eletronorte, que ainda acabou fi-
cando reffm do fornecimento subsidiado i Albris.
Teria sido mais just para a sociedade brasileira que os
s6cios japoneses tivessem participado com investimentos diretos
na hidrel6trica. O pretense nacionalismo da 6poca julgou-se vi-
torioso com o modelo adotado, que s6 alegrou de fato os s6cios
japoneses e os banqueiros intemacionais que financiaram o pro-
jeto. E para completar essa triste hist6ria, para que se viabilize a
privatizaco de Tucuruf, desmembrada da Eletronorte, seu preco
teri que ser bem inferior ao do custo total da hidrel6trica. Mais
uma vez repete-se a triste hist6ria da Uniio assumir os prejuizos
financeiros, em nome da sociedade brasileira, para viabilizar a
participacgo do investidor privado.
Para agravar os equivocos iniciais, surgem dois projetos
paralelos: a Valesul, no Rio de Janeiro, e a Alumar, em SAo Luis.
O primeiro surgiu como criacAo da dirego da CVRD na 6poca
composta essencialmente de indicac6es political -, para, de um
lado, tender promessa do governor federal de implantar um pro-
jeto de impact no rec6m criado Estado do Rio de Janeiro, e, de
outro, pressionar os investidores japoneses que estavam colo-
cando muitas exigencias em relaAo I Albris.
A Alcoa, percebendo a ameaga que poderia ser na 6poca a
entrada de um novo produtor no exclusive clube das "Sete Ir-
mis", lidera a implanta&o, em tempo record, do complex Alu-
mar (alumina e aluminio), na tentative de inviabilizar, ou pelo
menos retardar, a entrada em operaoo das plants da Albris e
da Alunorte. Alm disso, aproveitou para pegar meia carona no
subsidio da energia. Essa manobra foi acompanhada de um
movimento de dumping no mercado de alumina, que, reforcado
por ages political, convenceu o governor a paralisar as obras da
Alunorte, que foram retardadas por mais de uma d6cada. Para o
governor, isso significou um alivio no crescimento da divida ex-
terna, em plena crise financeira da primeira metade da d6cada

2 SETEMBRO/200&- AGENDA AMAZ6NICA


de 80. Para os japoneses, foi um 6timo neg6cio, pois nunca tive-
ram grande interesse pela produgco de alumina, desde que fosse
atingido o objetivo inicial de importar energia a baixo custo,
embutida no lingote de aluminio.
Tudo isso acabou ampliando o custo financeiro do com-
plexo Albris-Alunorte. Em meados da d6cada de 90, a Alunorte
s6 foi efetivada porque, considerando-se o conceito de robustez
do projeto, os custos seriam maiores para a CVRD corn o seu
fechamento do que cor a sua conclusao. A parceria fiscal do
governor do Estado do Pard tamb6m colaborou para a implanta-
gao da plant de alumina.
Merece ser registrado que os tres complexes foram conce-
bidos como empresas operadoras, ou seja, ha uma remuneraCio
pela producao, mas a venda da parcela que Ihe cabe 6 feita
diretamente por cada um dos s6cios. Isso impede uma maior
mobilidade empresarial de cada complex.
Apesar de todos os equivocos politicos e financeiros, os
tres complexos de aluminio, gracas I boa administraio, sao hoje
empreendimentos economicamente rentAveis. A Valesul buscou
a auto-suficiencia em energia cerca de 30% no horario normal,
atingindo at6 100% no period de pico, quando o valor da ener-
gia chega a quadruplicar -, copiando o modelo assumido pela
Companhia Brasileira de Aluminio (CBA), do grupo Votorantim,
para n~o ficar totalmente dependent do preco das empresas de
eletricidade.
A Albras, embora tenha equacionado bern o pagamento de
suas dividas, que devem estar ao redor de 600 milh6es de d6la-
res, tern a ameaa do ano de 2004, quando terminal o contrato da
energia fornecida por Tucurui corn prego atrelado ao do lingote
de aluminio. N~o sabemos qual sera a political da empresa, mas
tudo indica que deveri participar da ampliago de Tucuruf, para
tomar-se tamb6m auto-geradora. Caso fique dependent de ener-
gia a prego de mercado, o custo da tonelada de aluminio teri um
acr6scimo da ordem de 200 a 300 d6lares, corn redugao conside-
ravel na sua margem de lucro.
Quase que a totalidade das plants de aluminio mundiais
sio auto-geradoras de energia, ou tnm contratos especiais de
fornecimento, cor precos abaixo do mercado.
A tao sonhada verticalizagco da induistria de aluminio no
Pard 6 de fato uma guerra perdida para os tempos atuais. Isso
porque o modo mais barato de transportar aluminio 6 sob a for-
ma de lingotes, e, por enquanto, nao hi um mercado regional
suficiente para justificar os investimentos necessirios.
Entretanto, se estamos distantes dos produtos totalmente
elaborados, destinados a construoo civil, bern como as induistri-
as de transportes e de embalagens, podemos pensar na produ-
g5o de semi-elaborados. A extrusio de tarugos pode chegar a
agregar 20% em relaoo ao valor do lingote de aluminio. Se isso
for efetivado, poderi haver motivacAo para o surgimento de in-
dustrias para a fabricaCo de perfis, a serem utilizados regional-
mente na construoo civil.
A instalacao de uma laminado, para a produco de semi-
elaborados, que seriam utilizados preferencialmente nas indfis-
trias de embalagem e de transport, exige grandes investimentos,
que nao se justificam em funqAo do mercado regional.
Voce acredita no future do Estado do Par. Por qua?








ante a nossa realidade, nao tenho dividas em afir-
mar que o Pard e um dos poucos Estados brasi-
leiros com grande potencialidade para o
desenvolvimento.
Sua situacgo geogrAfica 6 privilegiada. No passado, isso ja
valeu a designaogo de "porta da Amaz6nia" para a sua capital.
Hoje, com a ampliacgo dos caminhos e a melhoria dos meios de
transport fluvial, terrestre e a&reo -, seus produtos poderao atin-
gir, com vantagens, os mercados da Amaz6nia, do Centro-Oeste e
do Nordeste e, no exterior, o Caribe, America do Norte e Europa.
Possui um amplo territ6rio, boa parte dele cortado por im-
portantes vias de transport rios, rodovias e ferrovia. Ha varias
regi6es cor rochas bAsicas, que ddo origem a um solo seme-
lhante a terra-roxa do Sul e Sudeste do pais. Muitas dessas zonas
estdo em areas onde a floresta ja foi devastada, como CarajAs e
as proximidades de Altamira. Um program consciente de recu-
peragao dessas areas, cor adaptacgo de uma produgao agricola
competitive, poderia motivar p6los de desenvolvimento econ8-
mico, com razoavel geragdo de empregos.
Ha outras areas com solos mais pobres, e degradadas, como
a zona bragantina, Paragominas e as proximidades de virias ci-
dades do baixo e m6dio Amazonas Almeirim, Santarem, Monte
Alegre e Alenquer -, que ja possuem uma tradigao de agriculture
de subsistencia. Um program que contemplasse a recuperacgo
dos solos, a educagdo e o treinamento dos agricultores, e a atra-
cao de investidores, poderia incentivar a produgco de frutas tro-
picais, corn qualidade para a exportacao.
O Equador, que esti situado em latitudes semelhantes as
do Para, obt6m parte de suas receitas em d6lar com a exportagco
de produtos tropicais. Outra opgPo seria uma political responsd-
vel de reflorestamento, com esp&cies destinadas a producao de
celulose, ou mesmo de madeira com qualidade de exportagco,
que teria a vantage do "selo verde", por nao estar contribuindo
para a destruicgo da floresta.
A verticalizaco da produco da madeira ter sido sistematica-
mente desprezada pelo Para. NMo se entende porque atW hoje ainda
nao se desenvolveu uma indiistria moveleira significativa no Estado,
que atendesse nao s6 o mercado brasileiro, como tamb6m o exteri-
or. A madeira paraense viaja de caminhdo atW o sul do pais, retor-
nando sob a forma de m6veis corn tecnologia e valor agregados.
Para possui um tesouro incalculvvel, ainda bastante desconheci-
do, contido na biodiversidade da floresta, dos campos e dos cerrados
situados em seu territ6rio. Muito pouco foi estudado, ainda mais se
compararmos corn o muito que foi destruido. Se houver tempo, talvez
uma nova era de extrativismo, com o convenient manejo e maior
suporte tecnol6gico e cientifico, e com melhores resultados sociais,
venha a fazer parte da hist6ria econ6mica do Estado.
Nos Ciltimos anos houve alguma organizacao da indistria
de pesca e tentativas para a produgco de peixe e camar6es em
viveiros. Ainda ha muito espaco para crescimento, particular-
mente em relagdo a piscicultura artificial, que constitui fonte de
emprego e de renda em muitos paises tropicais. Uma political que
estimule essa atividade econ6mica deve contemplar os controls
necessarios para que se evite a pesca predat6ria.
S6 quem ji viajou pelo territ6rio paraense 6 capaz de ava-


liar a riqueza de suas paisagens. Ha uma grande diversidade de
ambientes, com varios atrativos da Amaz6nia, que poderiam muito
bem ser alvo do ecoturismo, que desenvolve-se em grande velo-
cidade por todo o mundo. Um program estadual poderia seleci-
onar as principals areas e, em colaboragdo corn investidores pri-
vados, criar as condidges necessArias para o apoio local. Muitas
das areas com atragdo turistica ja possuem algumas facilidades
de acesso e hospedagem, como Maraj6, Santar6m, Monte Alegre,
Monte Dourado, Carajas e Serra das Andorinhas.
Certamente os ambientalistas radicals serdo frontalmente
contrarios a essa proposta. Entretanto, deve ser lembrado que
nos Estados Unidos, no Canada e na Europa, o ecoturismo trans-
forma-se num important aliado para a preservagco, alem de
contribuir com recursos e gerar empregos.
Quem visit os parques brasileiros, mesmo nas regioes mais
desenvolvidas do pais, como, por exemplo, o "Parque Nacional
de Itatiaia", fica decepcionado cor o abandon e cor a nossa
incompetencia no desenvolvimento do turismo. Em muitos pai-
ses, o turismo 6 a atividade econ6mica que mais cresce, posicio-
nando-se muitas vezes nos primeiros lugares entire as geradoras
de emprego e de renda. Alem dos stores diretamente relaciona-
dos com o turismo, como agnncias de viagem, hot6is e restau-
rantes, contribui para o crescimento de atividades paralelas, como
o artesanato e as artes em geral.
Ha algumas d6cadas, o Par-a reconhecido como o de maior
potential mineral entire os Estados brasileiros. Hoje, ja 6 o principal
produtor de minerio de ferro de alto teor, de aluminio, de manganes,
e important produtor de ouro e caulim. Tudo indica que possa vir a
ser um produtor de cobre cor importincia mundial. Suas reserves de
niquel estao sendo objeto de estudos de viabilidade econ6mica, e
seus dep6sitos de potissio e fosfato poderao ser importantes para o
desenvolvimento de sua agriculture. Alem disso, possui em seu territ6-
rio expressivas reserves de minerio de titmnio mas sob a forma mine-
ral6gica de anatisio, para a qual a tecnologia de aproveitamento co-
nhecida ainda nao 6 econ6mica. O seu produto mineral bruto, hoje
pouco superior a um bilhao de d6lares sem considerar a verticaliza-
Oo na metalurgia -, deverA ser ampliado corn o melhor conhecimen-
to de sua geologia, que motivara abertura de novas minas.
O Pard possui uma metalurgia de aluminio bem desenvolvi-
da e ter grande potential para ingressar cor sucesso na meta-
lurgia do cobre. A siderurgia e a indistria do papel tamb6m po-
deriam ser desenvolvidas em seu territ6rio.
O seu potential hidriulico 6 invejdvel, devendo cada vez
mais transformar-se em exportador de energia para outras regi-
6es do pais. Ha boa possibilidade de descoberta de reserves de
gas natural, particularmente na regiAo do m6dio Amazonas.
Muitos estudiosos ja tnm afirmado que o seculo XXI sera o
"seculo da agua", ou melhor, da falta d'dgua. O home, pela
primeira vez na sua hist6ria, vai ter que limitar o desenvolvimen-
to de regi6es pr6speras pela falta de Agua ate certo ponto isso
ja esta acontecendo na Calif6rnia, onde ha um rigido program
governmental de economic de Agua. Assim, a agua doce vai
transformar-se num dos bens da humanidade mais cobigados, e
seu control terA crescente importancia political. Certamente aca-
bario surgindo grandes empresas transnacionais, para controlar
os mananciais e a producgo de agua no mundo.

SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 3







T udo isso parece utopia num territ6rio rodeado de agua
doce por todos os lados. Por isso mesmo 6 que tor-
na-se necessAria a conscientizacio da sociedade pa-
raense para essa grande vantage competitive de seu
Estado. Atualmente discute-se em Brasilia a nova legislagco do
uso da Agua no Brasil e esti sendo criada a Agnncia Nacional
das Aguas ANA. t important que o Pard esteja present e corn
uma representacgo que tenha forca political para defender os
interesses do Estado.
Portanto, o Estado do Park tem atributos e recursos para
promover o seu desenvolvimento econ6mico. Entretanto, se in-
vestimentos continues nao forem feitos em educaao e satde,
para que sua populagio possa promover e usufruir esse desen-
volvimento econ6mico, e adquirindo competencia political para
o seu control, no future, apesar do crescimento econ6mico do
Estado, vamos ter o agravamento da mis&ria e do caos social.
Deve ser lembrado, que apesar de toda pressio migrat6ria das
uiltimas d6cadas, o Para ainda possui uma populacao relativa-
mente pequena, diante da grandeza de seu territ6rio e do poten-
cial de seus recursos.
Esse 6 o grande desafio do povo paraense. O que fazer
ou o que deixar de fazer. Como tornar-se capaz para promo-
ver o desenvolvimento das potencialidades e das vantagens
competitivas de seu Estado, tendo que atrair poupanCa exter-
na para os investimentos necessarios e sem ficar dependent
em todo o process? Ainda mais sendo parte de uma regiao
perif6rica de um pais periferico da economic mundial, e nes-
tes tempos de cinismo da globalizagao da economic, onde o
mercado financeiro chega a comemorar e crescer, quando
aumenta a taxa de desemprego. Tudo vai ser muito dificil se
o Brasil nio mudar e se nao houver transformaq6es estrutu-
rais na economic mundial...
Mesmo assim, minha visdo 6 de que o desenvolvimento
sera inevitivel. Se a sociedade paraense nao former e escolher
bem as suas liderangas, se as classes dominantes contentarem-se
com um papel secundario, muitas vezes corn servilismo ou at6
mesmo gigolotagem, o seu process de desenvolvimento socioe-
con6mico continuar! cumprindo o seu determinismo hist6rico,
de ser sempre conduzido de fora para dentro, para tender os
interesses de outras regi6es ou paises.
Alem disso, 6 necessirio que o paraense de Bel6m, onde
esta concentrado o poder politico e econ6mico, volte-se para o
interior do Estado, e adquira consciencia da realidade de seu
potential, para promover e ter o control sobre o seu desen-
volvimento. O surgimento de liderangas regionais, abandona-
das por Bel6m, vai criar outro grande desafio: a manutencao
da unidade territorial.
Mas, apesar de todas as dificuldades, continue confiando
no destino do povo paraense.
Valeu a pena ter sido ge6logo (e cidadao) na
Amaz6nia nesse period?
Valeu e valeu muito! A Amaz6nia, e em particular o Pari,
foi a grande ventura de minha vida. Foi onde former minha fami-
lia, e iniciei e consolidei minha carreira professional. Minhas tres
filhas e meu filho sao da Amaz6nia uma de Serra do Navio,
uma acidentafinente de Sio Paulo, mas com cultural paraense, e

4 SETEMRO/2000 AGENDA AMAZONICA


o casal de gemeos de Bel6m. Tamb6m sao belenenses minhas
tres netas. Parte de mim ficou em Belem, al6m das lembrancas e
saudades dos bons tempos: minha filha mais velha e duas netas.
Na Amaz6nia, mas principalmente em Bel6m, 6 que fiz mi-
nhas principals amizades da vida adulta. Muito dos amigos agora
estio distantes e sem contato, mas sao sempre lembrados pelos
moments que juntos vivemos.
Os meus melhores anos, os mais produtivos, foram dedica-
dos diretamente a regiao pouco mais que 20 anos. Tive a sorte
de trabalhar na Amaz6nia nas d6cadas de ouro da geologia do
Brasil. Tudo o que era important estava acontecendo na regiao.
Havia recursos suficientes para os projetos, tornando possivel a
utilizaoo da melhor tecnologia disponivel na 6poca.
O aviao e o helic6ptero permitiam o acesso a areas jamais
visitadas e pesquisadas. Al6m da geologia em si, tinha-se a opor-
tunidade de se deslumbrar corn a beleza de sua geografia, bem
como conviver cor sua interessante diversidade cultural, em tem-
pos ainda nao contaminados pelos modismos globais. O traba-
lho, mesmo cor as dificuldades fisicas encontradas, correspon-
dia sempre a moments de descoberta, no seu sentido mais am-
plo, vividos cor alegria e prazer.
O titulo de cidadlo paraense foi recebido cor honra e
emoro. E muito bom sentir-se aceito e querido pela terra
escolhida e amada para passar os melhores anos da vida. Tem-
pos depois, em 1995, quando ocupava o cargo de secretirio
de minas e metalurgia, tamb6m tive a honra de ser agraciado
cor o titulo de cidadio de Itaituba. Por coincidencia, o pri-
meiro titulo teve como patrono o ge6logo e deputado Gabriel
Guerreiro e, o segundo, a associaCdo de garimpeiros do Ta-
paj6s ambos representantes das duas categories profissio-
nais cor quem convivi
Quals foram as grandes influencias que recebeu
na formaaio professional?
A formaaio professional nao 6 dissociada da modelagem
do cidadao. Embora, ao long de nossas vidas, pessoas e pro-
fissionais tenham-se transformado em nossos mestres e idolos,
somos, antes de tudo, fruto da 6poca em que consolidamos a
nossa formagao.
A d(cada de 50 e a primeira metade da d6cada de 60 cor-
responderam a periods muitos f6rteis e dinamicos. Aconteci-
mentos desses tempos, na ciencia e tecnologia, na cultural, na
economic e na political, foram muito marcantes, com transforma-
c6es profundas, que continuam a nos afetar atW hoje.
Num cenlrio de efervescencia intelectual e grandes trans-
formag6es, corn explosOes de novas descobertas e agitacgo poli-
tica, 6 que se deu a passage de minha infincia para a vida
adulta e professional. E l6gico que todos os muiltiplos fatos desse
rico period marcaram a minha formagdo como cidadio e pro-
fissional. O ambiente era propicio para que tiv6ssemos a ilusdo
de que seriamos capazes de promover grandes mudancas na
estrutura social e econ6mica do pals.
O curso primirio, feito na escola marista Externato Nossa
Senhora da Gl6ria, no bairro do Cambuci, foi fundamental para
a criagdo de uma consciencia 6tica que era reforada no ambi-
ente familiar -, bem como para aprender a importincia da auto-
disciplina nas realizaoes da vida.








instituicqes estaduais, num tempo em que o ensino
ptblico era coisa seria. O Ginisio e Escola Normal
Alexandre de Gusmto, uma simples escola do bair-
ro do Ipiranga, possufa um padrao de ensino compativel cor o
dos melhores estabelecimentos particulares de hoje. Havia at6
um "mini-vestibular" para admissAo.
O cientifico foi realizado no Colegio Roosevelt da rua Sao
Joaquim, no bairro da Liberdade, que era considerado padrdo
de excelencia entire as escolas de Sao Paulo.
Em 1955, a cegueira premature de meu pai, entao corn 49
anos, mudou bastante o rumo de minha adolescencia. No ano
seguinte, cor 15 anos, passed a cursar o primeiro ano colegial
no period notumo, para que pudesse trabalhar durante o dia.
As "peladas" de rua, nos fins de tarde, tiveram que ser abando-
nadas para sempre.
Al6m disso, tive que desistir da proposta da infancia, fruto
dos dias felizes das poucas f6rias passadas nas fazendas dos
tios, de ser engenheiro-agronomo. A situaco financeira da fami-
lia nao iria mais possibilitar o pagamento das despesas de minha
permanencia em Piracicaba, para que pudesse cursar a Escola
de Agronomia Luis de Queiroz.
No curso cientifico, recebi as primeiras informar6es sobre
geologia e mineraqo, bem como sobre a political de estimulo do
Govemo federal para a criaCo de cursos de geologia. Essa poli-
tica fazia parte dos objetivos de Juscelino em promover o co-
nhecimento e a interiorizagAo do pais. O governor federal criou a
CAGE Campanha para Formacio de Ge61ogos, para dar contri-
buiqdo financeira As universidades responsiveis pelos quatro
primeiros cursos de geologia.
A escolha da geologia foi uma opco natural. Ja que nao
poderia trabalhar corn o solo, ficaria corn o subsolo. As duas
profissOes tinham relagco corn o desenvolvimentismo e corn a
expectativa de poder contribuir para a nossa redenlo socioe-
con6mica, mas tamb6m propiciar uma atividade em contato
constant corn a natureza. Al6m disso, os alunos com as me-
lhores classificaq6es no vestibular teriam direito a bolsas de
estudo da CAGE ou da Petrobris o principal empregador de
ge61ogos na 6poca.
Portanto, a expectativa da bolsa tamb6m resolveria o pro-
blema de suporte financeiro dos quatro anos do curso, que, por
ser de tempo integral, impedia que se tivesse um emprego nor-
mal. Nos dois 6ltimos anos de faculdade, quando o valor conge-
lado das bolsas comeeou a ser corroido pela inflacAo crescente,
dar aulas notumas eln cursinho pr&-vestibular e em ginasio foi a
soluqAo encontrada para complementary as despesas pessoais e
corn o estudo.
Sabendo que nio bastava passar no vestibular, mas sim
conseguir as melhores colocac6es para ter direito a bolsa, nao
tentei o ingresso na faculdade ap6s o termino do col6gio. Ape-
sar da qualidade da escola, a falta de tempo para estudar impe-
diu-me que fizesse um bom curso. Optei pela recuperagdo do
aprendizado num cursinho pr-vestibular.
O Centro de Aperfeicoamento e PreparaQAo Intelectual -
CAPI era um cursinho com caracteristicas bem especificas. Na
sua origem, nao mais que 20 alunos distribuiam-se pelas suas


aulas matinais e noturnas, voltadas unicamente para os cursos
de geologia e hist6ria natural. Tinha como diretores um profes-
sor de fisica e um tenente do ex6rcito, que cuidava da prepara-
cAo aos cursos militares, como o CPOR
Al6m das caracteristicas das aulas, que eram quase parti-
culares, a dinAmica do ambiente era muito estimulante para o
estudo. Fisicamente, suas instalac6es ficavam no saldo de fes-
tas, no iltimo andar pr6dio do IAPC, no viaduto Santa Ifigenia,
e sobre o Anhangaba6 nunca soubemos em que condiqces
isso foi conseguido. Todos os professors eram estudantes uni-
versitrios, propiciando o desenvolvimento de um clima de com-
panheirismo, muito favorivel ao aprendizado. O indice de apro-
vacao desse grupo foi superior a 50%. Foi o meu period de
amadurecimento intellectual.
Os primeiros cursos de geologia foram instalados junto
As faculdades de engenharia. Em Sao Paulo, por j! haver um
n6cleo de geologia junto ao curso de hist6ria natural, a Uni-
versidade de Sao Paulo optou por inclui-lo na Faculdade de
Filosofia Ciencias e Letras.
O campus da Cidade Universitaria estava ainda no inicio
da implantaqAo e a sede do curso de geologia ficava num
palacete, na saudosa Alameda Glete, vizinho do antigo pall-
cio do governor, nos Campos Elisios. Algumas aulas de mat6-
rias basicas, no primeiro ano do curso, eram assistidas na
Maria Antonia e na Cidade Universitiria.
Como nao havia professors brasileiros para algumas
materias especificas da geologia, muitos eram estrangei-
ros, com predominio dos americanos. Alguns foram con-
tratados atrav6s do Ponto IV, um program que havia na
6poca, de cooperacgo com os Estados Unidos. Assim, ape-
sar de novo, era muito bom o nivel de ensino do curso de
geologia, pois a maioria dos professors estrangeiros era
de ge6logos cor vasta experinncia de campo, nos lugares
mais diversos do mundo.
Entre esses professors estava Gene E. Tolbert, que se
destacava pelo interesse de sua mat&ria Geologia Econ6mi-
ca -, mas tamb6m pela simplicidade e pela informalidade de
suas aulas. Tolbert viera inicialmente para trabalhar em pro-
gramas de mapeamento, na Bahia e em Minas Gerais, patroci-
nados pelo Ponto IV.
A monotonia da geologia de poco, sentida durante um
estigio na Petrobris, em Mato Grosso do Sul, fez com que
esse tipo de emprego nao fosse incluido nos meus plans
futures. Minha opco foi pela Comissao Nacional de Energia
Nuclear ainda nao existia a Nuclebris -, numa 6poca em
que se acreditava que o conhecimento e o control das reser-
vas de minerals radioativos eram essenciais para acelerar o
desenvolvimento dos paises do Terceiro Mundo. Entretantb, a
falta de vagas na 6poca de minha formatura, assim como'a
amizade de colegas que haviam optado pela Icomi, fizeram
cor que eu mudasse de rumo.
Assim, em janeiro de 1964 comecei meu caso de amor
corn a Amaz6nia. De Bel6m e Macapi, na primeira passage
s6 conheci o aeroporto. Depois de 5 horas de trem, no segun-
do dia de viagem desde Sao Paulo, estava em Serra do Navio,
para iniciar minha vida professional.

SETEMBRO/2000 A AMAZ CA- b








servadora, e ate reacioniria em alguns aspects, foi
uma excelente escola. La aprendi nao s6 as t6cnicas
e geologia de mina e de mineragco pois as artes
do destiny me conduziram A chefia do Departamento de Mi-
neraqao -, mas tamb6m os principios de administracgo e de
lideranCa.
Tive a sorte de ser comandado por um professional excep-
cional, com grandes virtudes humans. Manoel Rico Campos,
engenheiro de minas espanhol, tinha em seu curriculo o feito de
ter combatido o Generalissimo Franco. Depois de trabalhar em
minas de chumbo no vale do Ribeira, na fronteira entire Sao Pau-
lo e Parand, acabara na Serra do Navio, onde era responsdvel
por todas as atividades ligadas a pesquisa e a producgo do mi-
n&rio de mangan&s.
Como bom espanhol, era um ferrenho defensor de suas
id6ias, mas seu temperament alegre a todos cativava, sendo
admirado pelos empregados, inclusive de outros stores da em-
presa. Era o grande lider de Serra do Navio.
Com muito bom senso e humor, questionava e ridicula-
rizava as esquisitices administrativas da sisuda Icomi. A em-
presa, como toda organizaCgo conservadora, tinha um com-
portamento contradit6rio. Muito do que defendia e pregava
nao era praticado.
Certa ocasiao, desabafando com ele sobre os conflitos,
que essa contradigao causava na lideranca da equipe da mina,
comentei que "muitas vezes, o que a empresa exigia, que fos-
se praticado, entrava em choque com o que acreditava como
homem. A resposta de Rico foi imediata e definitive: "Breno,
nunca tenha d6vida, haja sempre de acordo cor aquilo que
acredita como home. Nao importa o que aconteca." Desde
entdo, essa orientacQo esteve sempte present na minha vida
professional, muitas vezes exigindo que desse murros em ponta
de faca. Mas nao me arrependo. Manoel Rico foi o meu para-
digma professional.
Infelizmente, a dependencia irrestrita ao fumo o reti-
rou prematuramente desta vida, em meados da d6cada de
70, quando ji trabalhava MBR, em Belo Horizonte. Quando
de uma de suas viagens para o sul, em 1968, estivemos jun-
tos pela iltima vez. O encontro foi no escrit6rio da Meridi-
onal e no hangar da FAB em Val de Cans, onde fui mostrar-
Ihe os helic6pteros Jet-Ranger, que haviam chegado dos Es-
tados Unidos. Seu olhar brilhava de entusiasmo cor o nos-
so program, e comentou: "Muitas vezes ji propus um pro-
grama de geologia mais arrojado para a Icomi, mas a direto-
ria nunca aprovou." t por isso que algumas empresas acham
jazidas minerals e outras nAo.
No inicio de 1967, depois de passar quase um ano questi-
onando algumas attitudes e decis6es da Icomi, agindo de acor-
do corn o que acreditava, fui demitido cor todas as honras -
jantares de despedida, pontape inicial na partida de futebol em
minha homenagem, etc. A contradigao da empresa esteve pre-
sente at6 na minhfa demissio.
Passei tres meses dificeis em Sdo Paulo, ji cor uma fi-
lha nas costas, e sem ter onde morar. A familiar se dividia
entire a casa de meus pais, de minha sogra e de meus cunha-

6 SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


dos. Pela primeira vez, desde a criacgo dos cursos de geolo-
gia, havia falta de oferta de emprego para ge6logo. Quando
ja pensava em arrumar um emprego alternative, como vender
enciclop6dia, soube do program da Meridional.
Tolbert que ja me conhecia como seu ex-aluno, ficou
entusiasmado com a minha experiencia em manganes, que
caia com uma luva para gerenciar o program no sul do
Para. A vivencia em isolamento total na Serra do Navio nao
estimulava a volta para a Amaz6nia, mas nao havia outra
opPo. Acertei com Yolanda, minha esposa, que nao ficari-
amos mais que um ano, at6 que surgisse outra oportunidade
fora da Amaz6nia, onde pudesse trabalhar sem a necessida-
de de ter que voar.
Mas aconteceu Carajis, consolidando o amor definitive pela
Amaz6nia. Passamos tamb6m a gostar da vida na deliciosa Be-
16m da 6poca, a curtir seus sabores e seus costumes. O ano de
experiencia transformou-se em 18 anos.
Tolbert foi outra personalidade marcante na minha vida
professional, como professor, como chefe e amigo. Apesar de
ter um comportamento complex, com alternAncias de humor
e muitos conflitos existenciais, possuia um enorme coragao e
grande lideranca. Era capaz de enfrentar os poderosos para
defender suas id6ias. Foi um professional de grande sucesso,
mas seu comportamento sempre transformou suas vit6rias em
moments de fracasso pessoal.
O trabalho na Terraservice-Docegeo-CVRD, a partir de 1971,
ja ocorreu num period de maior amadurecimento professional.
Contudo, continuamos sempre passivos a influencias, e em pro-
cesso de continue aprendizado por toda a vida.
Outras pessoas e profissionais, inclusive muitos companhei-
ros, foram importantes na minha formaCgo. Mas you ficar restrito
aos dois amigos que ja nos deixaram...
Quais s~o os seus pianos? Eles ainda incluem a
Amazonia? De que maneira?
Pianos? Quais pianos? Quando se consegue chegar a uma
certa etapa da vida, e em condig6es razolveis de saide, s6
hu um piano: viver bem, com tudo que a vida puder nos dar,
e enquanto der tempo. Durante muitos anos vivi planejando a
minha vida e nao me arrependo, pois acabou valendo a
pena -, mas agora s6 planejo viver, deixando que o destino
mostre o que ter ainda para me oferecer ou desafiar.
Depois de ter trabalhado por pouco mais que 40 anos,
consegui a sonhada, e virias vezes adiada, aposentadoria.
Permitiu-me a sorte que pudesse usu-ruir os anos que me
restam vivendo com dignidade, o que, infelizmente, noo 6
permitido A maior parte dos brasileiros.
Desde que sai da Vale, ha quase tres anos, tenho-me
dedicado a tudo o que gostaria de ja ter feito, mas que a
falta de tempo, ao long da vida, sempre me impediu. Es-
tou reorganizando meus arquivos pessoais, escrevendo um
pouco, lendo mais mas ainda menos do gostaria -, assis-
tindo mais filmes, principalmente em videos. Talvez faca
um.curso de video e fotografia, para dedicar-me cor mais
tecnica a esse hobby. A famosa maquete de ferreomodelis-
mo, ha tanto tempo sonhada e planejada, tem chance de
sair do papel.








do jardim, bem como dos pdssaros que ele freqiien-
tam, sem esquecer das carpas que vivem num pe-
queno tanque. Em contrapartida, ganho moments
de paz e relaxamento, e, as vezes, de reflexdo. Participo cor a
familiar dos cuidados com os quatro cachorros da casa. Procuro
nao me descuidar do control fisico sendo a barriga cresce
muito -, cor caminhadas no calgadao das praias de Sao Fran-
cisco e Charitas, bem como cor sess6es de hidrogindstica, sob
orientacgo de minha filha TAnia.
Apesar das noticias nada estimulantes da realidade bra-
sileira, e do pr6prio mundo, procuro manter-me razoavelmente
informado pela televised, revistas e jornais. Com bastante fi-
delidade, leio as cr6nicas de Cl6vis Rossi, Carlos Heitor Cony
e Jose Simdo, reforgando a minha indignacAo ante os fatos
que nos cercam.
Alem das idas rotineiras a Sao Paulo para visitar os pa-
rentes, quero viajar mais pelo sudeste e sul do pais por
razoes profissionais acabei conhecendo melhor a regido nor-
te -, e tenho pianos para conhecer tamb6m alguns paises do
exterior. Em resume, a vida de aposentado 6 muito ocupada e
nao sobra tempo para nada.


Recebi convites de amigos da Unicamp e da USP, para fa-
zer um curso de mestrado e doutorado, enquanto desse aulas.
Nio aceitei, pois acredito que ja passed do tempo. Minha ativida-
de academica tem-se limitado a raras palestras para os alunos ou
a participacio em debates.
NMo pretend mais trabalhar cor emprego fixo, a nao ser
que grave acidente de percurso assim me obrigue para o susten-
to da familiar. Entretanto, nao descarto a possibilidade de ter al-
guma atividade tempordria, desde que motivadora. Algumas opor-
tunidades ji surgiram, mas todas relacionadas com a atuacio da
Vale em Carajds. Por raz6es 6ticas, bem como para evitar possi-
veis conflitos com os amigos, e alguns inimigos, que li deixei,
optei por n~o aceitA-las.
Para mim 6 muito claro que se novas oportunidades
surgirem, certamente serAo relacionadas com a Amaz6nia e,
em particular, cor o Pari. Se isso de fato acontecer, ficarei
muito feliz em novamente dedicar-me A regido, pois 6 onde
me sinto em casa.
Entretanto, creio que a vida deve seguir o seu curso na-
tural e nao pretend voltar a residir em Bel6m, da mesma
forma que nao haveri retorno para Sdo Paulo. Niter6i ji foi
escolhida para a iltima morada. A


PERSONAGEM


Um mestre


multifacetado



E m 1990, Roberto Ara6jo de Oliveira Santos se aposen-
tou voluntariamente como juiz togado do Tribunal Re-
gional do Trabalho da 82 Regido, depois de 22 anos de
services prestados a magistratura
trabalhista. Chegou a fazer parte de uma lista
triplice para ser promovido a ministry do
Tribunal Superior do Trabalho. Era um ca-
minho natural e premiacao merecida para
um dos maiores dentre os raros juristas sur-
gidos no Pari, mas Brasilia, que ji recebe-
ra anteriormente dois paraenses de meno-
res atributos, foi infeliz.
JA nao restava mais o que provar, tes-
tar e fazer nessa seara. Roberto pediu o
bone, se reinscreveu na OAB/Para e retor-
nou a advocacia militant. Dez anos ap6s
deixar a magistratura, ele recebe uma ho-
menagem A altura de todos os seus m6ri-
tos, que, para nao variar, vem de fora: a '
Editora LTR, de SHo Paulo, uma das mais ,
credenciadas das letras juridicas, lancou
uma coletanea de estudos em sua home-


nagem (Presente efuturo das rela6des de trabalbo, 440 pigi-
nas, sob coordenacgo de Georgenor Franco Filho), reunin-
do 26 autores, seis deles do Pard, os demais de outros Esta-
dos (e um da Alemanha).
Quase aos 67 anos, Roberto Santos esta refazendo o ca-
minho da advocacia, que o desviou da atividade privada para
o servico piblico, com derivag6es para o ensino, a justiga e a
academia. Foi brilhante em todos os ramos do saber que ado-
tou: o direito, a economic, a sociologia e a hist6ria, sem falar
na political e na filosofia,.linhas auxiliares na formanao do
seu pensamento. Nunca foi apenas um academic, um buro-
crata ou um magistrado, embora encarnando essas func6es
at6 o limited de suas possibilidades. Deixou
a militincia partidaria ou political da juven-
S \, tude e da primeira maturidade, mas sempre
S colocou sua vasta capacidade de pensar
-- ) e de produzir a servico de uma causa,
associada ao interesse p6blico.
Conheci Roberto nos idos da decada
de 60, entire o primeiro golpe, em 1964, e o
seu arremate, o AI-5, de 1968. Foi-me indi-
cado como algu6m que poderia enxertar
economic nos esquemas filos6ficos pelos
quais deambulava o meu raciocinio ado-
lescente. Ele me deu para ler a maaaroca
Yi ,escrita pelo padre Jean-Yves Calvez, La pen-
." see deKarlMarx, um aplicado esforco des-
se jesuita para mostrar que mesmo os ad-
versarios do "pai do socialismo cientifico"
berto Santos
tinham qbe reconhecer-lhe os meritos e


SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 7


I II M







estudc-lo cor afinco se quisessem realmente entend8-lo e,
em seguida, nega-lo. Foi uma revelacao e um suadouro para
mim, mas teve o mrrito desses processes: passei a me aproxi-
mar da economic. Era o impulse para, finalmente, abrir as
paginas de O Capital e perceber que o diabo era menos feio
do que o pintavam. Foi uma das mais poderosas inteligencias
de todos os tempos.
Para todos os que tiveram o privil6gio de entestar-se corn
ele, Roberto Santos teve esse papel missiongrio: unir os nove-
los da hist6ria, da economic, da filosofia, do direito e da po-
litica, num todo que desnudava os mist6rios. Seu cartesianis-
mo e sua aplicacio met6dica (e metodologicamente s6lida)
nao desdenhavam desafios. Se nao tivesse redigido milhares
de sentengas, pareceres, papers ou artigos, bastaria ter produ-
zido Hist6ria Econ6mica da Amaz6nia (1800-1920), T. A.
Queiroz, Sdo Paulo, 1980, 358pdginas, para haver prestado
um servigo de primeira grandeza As ci6ncias humans da re-
giao e do pais. Talvez ainda incomplete: bem que ele poderia
prosseguir at6 mais pr6ximo dos dias atuais.
Esse 6 um dos livros essenciais da bibliografia amaz6nica.
Nao 6 muito ficil de ler porque 6 uma condensacAo inusitada de
informagdes, sobretudo de series estatisticas criteriosamente (e
arduamente) reconstruidas por Roberto. E um trabalho pioneiro









esta 96





50 anos de atividade commercial continue em Bel6m,
quatro gerag6es derivadas de um imigrante japo-
nes, que se estabeleceu no Para ha quase 70 anos,
vem se sucedendo no control da empresa e mantendo-a em
ascensdo continue. Corn uma receita liquid superior a 300 mi-
lhOes de reais, a Y. Yamada esti entire os 10 mais do setor de
lojas de departamento e venda de eletrodom6sticos do Brasil.
Em apenas oito anos, partiu do nada para o segundo lugar entire
os supermercados do Para, perdendo apenas para o Lfder, de
propriedade de outra familiar de imigrantes, os Rodrigues, que
vieram de bem mais perto, de Igarap6-Miri.
Tanto os regatoes do baixo Tocantins (alguns primos en-
tre si, como os Rodrigues e os Correa) quanto os mercadores
do Japao enfrentaram resistencias nao apenas econ8micas
quando comecaram sua carreira de sucesso empresarial. Ha-
via predisposigAo social e preconceito cultural contra eles,
mais acentuadamente contra os japoneses, originArios de uma
cultural tdo diferente, diferenca estigmatizada pela propagan-
da americana durante a segunda guerra mundial. O patriarca
Yoshio Yamada foi mantido num campo de confinaamento,


8 SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


(e ainda o melhor) em hist6ria quantitativa, procurando eliminar
da reconstrugo do passado da regiao (infelizmente, estancando
em 1920) de parasitas te6ricos ou empiricistas, que distorcem os
fatos e tolhem a compreensio da realidade.
Algumas dessas construg6es num6ricas sHo questiondveis,
mas um dos grandes m6ritos desse livro (e da obra de Roberto
Santos) 6 justamente abrir novas sendas para que terceiros utili-
zem-nas em sua pr6pria produgio, concordando ou discordan-
do daquele que serviu-lhe de ponto de origem. E um trabalho de
inquietacgo e fertilizacgo que dignifica qualquer intellectual.
E uma honra e uma alegria para o Para receber esse livro
da LTR. 0 nome de Roberto Santos estimulou 26 pessoas, 20
delas que nao sao do Estado natal do homenageado, a escre-
ver artigos sobre temas relacionados ao mundo do trabalho,
varios dos quais estdo entire as maiores autoridades nesse se-
tor, abordando quest6es que se encontram na vanguard de
preocupaqoes mundiais. Pena 6 que, mais uma vez, o melhor
testemunho sobre o valor de um paraense venha de fora do
Estado. Tal paradoxo nao chega a ser uma novidade na vida de
Roberto Santos. No fundo, por6m, ele deve ter consciencia de
toda a importincia que represent para a regiao na qual nas-
ceu e pela qual aplicou e ainda esti a aplicar sua excepcio-
nal inteligencia.



em Tom&-Acu, e sua familiar toda sofreu as marcas desse pe-
riodo dificil da hist6ria recent da humanidade.
Mas, como no samba, os Yamada sacudiram a poeira e
deram a volta por cima. Nao lhes faltavam motives para orga-
nizar uma festa inesquecivel para assinalar o meio s6culo de
funcionamento do grupo Y. Yamada. Seis anos depois de se
estabelecer numa ca6tica e acanhada loja na esquina da Ma-
nuel Barata cor a Campos Sales, no velho centro commercial
da cidade, a Yamada j! usava uma das chaves do seu suces-
so: o crediario. Tudo comegou corn um caderinho, controla-
do cor aplicacgo oriental pelo lider da segunda geragCo e
ainda o v6rtice da engrenagem, Junichiro. O caderninho e
Junichiro nao precisaram mudar para que a corporagCo se-
guisse um surto de modernizagco e avangos.
A terceira geraiao saiu na frente da concorrencia quando
informatizou o crediario e um element chave da equacao: o
control de estoque. Ao inv6s de prosseguir na constrangedora
operagao de reaver os bens nao quitados pelos devedores, os
Yamada passaram a refinancil-los, criando sua pr6pria financei-
ra, um efeito cascata sobre o faturamento. Tudo ficou mais ficil,
para quem vende e para quem compra, cor o langamento, hi
quase 20 anos, do cartdo Yamada, que ja responded por 60% das
vendas na rede de supermercados (que se tornaram, por sua
vez, responsdveis por um terco do faturamento do grupo e ja Ihe
proporcionam o 22 lugar no ranking national). Hoje, mais de
600 mil pessoas integram essa rede eficiente. Tudo "gente boa",
como assegura a propaganda.
Pelo principal ponto de venda do grupo, uma cornuc6pia
que evoluiu desconjuntadamente a partir da loja pioneira, pas-
sam 10 mil pessoas todos os dias. Se apenas mil fizer~m compras






e se cada compra for de R$ 100, serdo R$ 100 mil ao dia, tres
milh6es ao mes, R$ 36 milh6es anuais numa finica loja. O cdlcu-
lo 6 rfstico e provavelmente subestimado, por bem baixo. Mas
di uma id6ia do que 6 essa miquina, hoje.
Os paraenses tem motives para se orgulhar de um grupo
empresarial tao s6lido, de propor6oes realmente nacionais, e
os Yamada mais raz6es ainda para a comemoraqco faustosa
do mis passado, na Estacao das Docas (fala-se num orCa-
mento de R$ 1,5 milhao), que s6 se tornou possivel pela par-
ticipagAo dos muitos fornecedores na conta de chegada. In-
felizmente, nao se concretizou a promessa de lancar um livro
sobre a saga desses imigrantes japoneses no Para, desde o
ponto de partida de Yoshio ate o florescimento da semente
commercial por ele plantada, sem descurar uma andlise objeti-
va do process de formacao de capital da empresa, certa-
mente um engenhoso esquema de en-
genharia financeira cor mfltipla alimen-
tacao. Tao f6rtil e poderoso que man-
ter a concorrencia national a distancia .
e se destaca numa economic frigil.
Os Yamada constituem um fasci-
nante tema de pesquisa, nao s6 pela his-
t6ria em si da familiar, como pelo con-
texto que a explica e para o qual ela "
tem contribuido como nenhuma outra,
ja que o Pard abriga a segunda maior
col6nia japonesa no Brasil, com um
acervo de realizagoes, problems e /
circunstAncias ja considerdvel.
Exatamente tres anos atrds critiquei '
a empresa por reinvestir pouco no Esta-
do que se Ihe tornara terreno extrema-
mente f&rtil, censurando a ma aparen-
cia da loja principal, o tratamento infe- YO
liz dado ao Palacete Pinho (transferido
em boa hora para a administracgo municipal, por ato bem
oportuno ou oportunista do entao prefeito Augusto Re-
zende) e a incorporagdo daquele estigma de que paraense
nao aprecia as boas coisas.
Hiroshi Yamada, vice-presidente commercial, reagiu com
uma carta indignada. Publiquei-a na integra e a contestei. Ele
se calou e, a partir dal, cortou-me da relagao cordial que at6
entao mantinhamos. Um direito dele. Como direito ter a em-
presa de suprimir meu nome do seu correio. Mas tanto eu tinha
razdo que uma mudanca s6bita e visivel na political de investi-
mentos da Y. Yamada a partir de entao (mera coincidencia?)
nao me permit repetir agora as saudaveis e construtivas criti-
cas que fiz no Jornal Pessoal de setembro de 1997. Repetidas
agora, elas seriam injustas e descabidas. A Yamada mudou para
melhor, exceto diante da critical.
A critical nao faz mal quando nao 6 desonesta. E ajuda
aquele que aprende a fazer da tolerancia e da humildade ferra-
mentas corretivas. A familiar que deu um exemplo de fibra e de
solidez internal nos traumaticos dias de perseguigdo, derivada da
guerra dos Aliados contra o Eixo Alemanha-Itdlia-Japdo, parece


is1


ter perdido um pouco dessas qualidades nos tiltimos tempos.
Teria o sucesso subido A cabeqa, nio de todos, mas de alguns
dos Yamada? Eles tem o direito de nao concordar. Mas nio o de
suprimir a critical ou considerA-la ato de lesa-majestade.
Podia-se ate apontar resquicios do despotismo oriental
nessa intolerincia, como a que o mesmo Hiroshi adotou em
relacao a uma attitude infeliz da cantora Leila Pinheiro. Convi-
dada para fazer parte de um CD de mrsica paraense patroji-
nado pela empresa, Leila, por um lapso de remessa, acabou
mandando para os Yamada um e-mail displicentemente mal-
educado que pensava remeter para sua empresAria, no Rio de
Janeiro, onde mora. O que irritou Hiroshi foi a referencia a
"japa" na mensagem. Ele tinha razao em se sentir ofendido,
nao propriamente porque ofend6-lo tivesse sido a intengco
da cantora paraense, mas por causa do passado que marcou
a familiar.
3-- Ainda com razao, Hiroshi decidiu
responder ao que considerou ofensa.
-Mas o tom da sua carta e a perda da
Smedida na represdlia acabou por reti-
.,rar-lhe a justeza da indignaqdo, princi-
palmente porque a autora da ofensa
pedira desculpas e at6 se humilhara na
tentative de reparar o erro. Que Leila
errou, nao hi dfvida. Mas que seu mea-
culpa a credenciava ao perdao, tamb6m
i verdade.
....d. _AlAm do mais, coloque-se um CD
*' : da cantora para tocar e teremos para cor
ela a bonomia com a qual Karl Marx en-
carava as traquinagens de Heinrich Hei-
ne. Um bom artist (e ainda mais um ex-
cepcional artist, como o poeta alem.o)
ho 6 feito de um barro diferente do comum
dos mortais, como eu ou Hiroshi. Um
artist, que nao nos conhece, nao produziu sua obra com a in-
tengao de nos alcancar, que estA distance de n6s, nos alegra,
emociona, revigora, faz rir ou chorar pelo simples contato com o
que produz. Esti perdoado preventivamente. S6 quem nao sabe
ouvir estrelas nao entende isso.
Hiroshi perdeu a oportunidade de, como o velho Yoshio,
dar, muito zen, a volta por cima, como deixou de fazer isso na
nossa polkmica, eu que tive em Francisco de Assis Ishihara um
dos meus melhores e mais constantes amigos na passage da
infancia para a puberdade (a terrivel dupla Chico-L6cio do Col6-
gio do Carmo). E se algum dia chamar um japones de japa, sera
com o mesmo carinho do tratamento pela minha nega.
Se alguma vez tal tipo de tratamento maquilar precon-
ceito, mesmo assim nao deve ser motive para censurar algo
que o acompanha, as vezes, mas o transcende no final das
contas: a nossa tendencia A cordialidade, a amizade, ao com-
padrio e a festa. Uma identidade capaz de nos fazer come-
morar o meio s6culo de Y. Yamada a maneira dos nossos
ancestrais, que se tocam nas origens e voltaram a se encon-
trar milhares de anos depois. A


SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 9











Modernidade
"O acontecimento de maior significaAo nos iltimos
anos" foi a inauguraqao, em 12 de outubro de 1945, das
"luxuosas e modernas instalac6es" do armaz6m "Rio Mar",
de Ferreira Gomes Ferragista S/A, na rua Joho Alfredo 73. A
loja tinha "o que hi de mais complete no genero de ferra-
gens em geral, desde o simples prego at6 o mais important
material para construoges". O "Rio Mar" estava "introduzido
em nosso meio seu novo sistema de vendas, que 6 o ameri-
cano". Todos os seus produtos seriam vendidos "pelos me-
nores precos, todos fixos, nao temendo competitor". Ao
entrar na loja, o client "encontrarl a sua disposiqCo um
corpo de prestimosas auxiliares, um total de vinte e cinco
senhorinhas". O armaz6m teria comunicacao direta com uma
nova se'ao, instalada onde funcionara a Casa RelAmpago,
na travessa Campos Sales.

Cosmopolita
Em dezembro de 1952 o Tenis Clube do Pari, "uma agre-
miacAo diferente", conforme o registro jornalfstico da 6poca,
monopolizado pelo futebol, inaugurou sua quadra em Bel6m
corn um movimentado tomeio. Na categoria simples masculine,
Jaet Klapish venceu Robert Dean por 6 a 5 eJos6 Moutinho por
6 a 1. Em duplas masculinas, Fulton de Paula e Dilermando
Queiroz ganharam de Jos6 Moutinho e Joao Fecury por 6 a 4,
enquanto Paulo Castro e Chalu Pacheco levaram de vencida
Joao Fecury e Eimar Duarte por 6 a 5. Em duplas femininas,
Scyla Fecury e Betty Parry derrotaram Doris Dean e Eliana por
6 a 5. As partidas foram realizadas em Bel6m, mas bem que
podiam ter Nova York como palco.

Faganha
Se o navio Titanic foi construido para jamais naufragar, o
autom6vel Citroen foi concebido para nunca capotar. Ao langa-
rem no mercado, os fabricantes franceses anunciaram que pre-
miariam quem virasse o carro. O filho do comerciante paraense
Domingos Bastos podia reivindicar a gl6ria: no final de novem-
bro de 1952 ele fez o autom6vel do pai capotar no quil6metro 27
da estrada B-22 (a sigla de entao da Pard-MaranhAo), depois de
ter sido advertido pela policia rodovifria do DER (Departamento
de Estradas de Rodagem). Ningu6m saiu ferido. Mas, a julgar
pela noticia de journal, o desastrado motorist nao foi atrAs das
gl6rias. Sequer foi identificado. Seria "de menor"?

Atraqao
Em novembro de 1955 o famoso bal6 do Metropolitan
Opera House de Nova York esteve em Bel6m. Mas por alguns
minutes, o suficiente para a escala do Constellation (o mais
luxuoso aviAo da 6poca, com quatro motors a explosAo) da
Varig no aeroporto de Val-de-Cans. Os bailarinos americanos
vinham de uma in6dita e exclusive temporada de tres sema-
nas em Sao Paulo. A companhia era entao formada por 24
bailarinas e 22 bailarinos. Todos desceram em solo paraense
antes de continuar a viagem para NY. Quem madrugou em
Val-de-Cans p6de, mais uma vez, ver celebridades que transi-
tavam dos Estados Unidos para o sul do Brasil e vice-versa,
sempre fazendo uma parada em Bel6m. Atragco expurgada
do roteiro atual da capital paraense, que s6 figure como atra-
gAo turistica na propaganda official.

10 SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA


Descoberta
A Confederacgo Brasileira de Basquetebol (na 6poca,
Basketball) se comprometeu a realizar o campeonato national
de 1955 em Bel6m. Mas nao p6de realizar o compromisso, por
uma singela e definitive razio: a capital paraense nao contava,
A epoca, com um ginasio coberto. Sem ele, seria temerArio ex-
por as competig6es as tradicionais chuvaradas da "cidade mo-
rena". Quadra coberta, a rigor, Bel6m at6 possuia: era o ginasio
Tenente Porto, na Base AMrea de Val-de-Cans. Mas estando numa
instalacio military, nao podia abrigar ajuntamento pfblico. As
atividades rotineiras da base tamb6m nao podiam ser suspen-
sas durante os jogos. E a Aeroniutica nao podia cobrar ingres-
sos. Como os paraenses nao conseguiram construir a tempo
um ginasio coberto, regular, o campeonato brasileiro de bas-
quete de 1955 acabou sendo transferido para Recife.

Espetaculos
A diretoria da sucursal do Para do Autom6vel Clube do
Brasil ofereceu aos seus associados um programa que a todos
agradar!", em outubro de 1955, na elegante sede" do clube,
entao no edificio Dias Paes (logo depois transferida para o im-
ponente Palacio do Radio), na avenida Presidente Vargas (hoje
ocupado pelo Banco do Estado do Para). No domingo a noite,
apresentagao da Orquestra de Ritmos de "Boite" de Ribamar e
seu Conjunto, "agora integrado pelo grande artist do vibrafo-
ne, Scaramboni". Para "conforto dos senhores associados", a
apresentacgo foi dividida em dois shows, o primeiro comeqan-
do As 20 horas e o segundo a partir de 22 horas.
No dia seguinte, plena segunda-feira, uma nova progra-
magr o na boate, tamb&m em duas etapas. Na primeira, "as gen-
tis senhoritas Ren6, Maria Oneide Fidalgo e Maria Laurentina
Santiago" se apresentariam cor seu conjunto de acordeons,
"seguindo-se em variag6es de ritmos, o aplaudido pianist Al-
varo Ribeiro". Em seguida, a Grande Orquestra de EspetAculo
Casino de Sevilla, complete, faria o espeticulo de despedida
de Bel6m. No convite, a diretoria encarecia "a todos os cons6-
cios a observag~o integral do Regimento Intemo". Sabiamente.

Alienigena
Registro policial da Folha do Norte de 29 de outubro
de 1955:
"Jacob Beissenaun, alienigena, aqui chegou ha pouco
menos de um ano, quase nada entende a respeito de nossa
political. Mesmo assim, ontem, no interior de um botequim
que fica localizado na esquina da Braz de Aguiar com a Dr.
Morais, mencionado individuo, em alto e bom som, detratava
soezmente [sic]da pessoa do sr. Governador do Estado, in-
sultando-o mesmo por diversas vezes e fazendo reparos in-
devidos a sua administracgo. Algu6m, enojado de proceder
do mencionado sujeito, imediatamente comunicou-se com a
Permanencia da Central, tendo o delegado Adriano GonCal-
ves, que se encontrava de plantao, se dirigido ao local, onde
ainda encontrou Jacob a insultar e detratar o General Alexan-
dre Zacarias de Assumpcgo.
Jacob foi levado para a Central de Policia e recolhido ao
Pitio da Central, ficando de mistura cor ladr6es e outros crimi-
nosos comuns. Posteriormente, diversas pessoas estiveram na
Central, pugnando por sua liberdade, que somente se verificarl
hoje, ap6s completar as 24 horas regulamentares de prison.


I I&KIjIII










HillRI DEO411J0 COIDI]EOU


Agora, uma vez que ji foi preso, Jacob aprenderl a nao
mais detratar sem conhecer as pessoas, principalmente, princi-
palmente em se tratando do Govemador do Estado".
O jomal apoiava o govemador. O alienigena ficou saben-
do que o Pard 6 isso.

Soberba
A aristocr~tica Assembleia Paraense inaugurou sua nova
"boite" em 24 de novembro de 1956, com a apresentagio da
"soberba atracio intemacional" Claudette Leroy, cantora fran-
cesa "contratada diretamente pelo clube para essa noite". 0
protocolo exigia "traje de rigor (excluido o branco)". A mu-
sica seria de Guiaes de Barros, com Gerusa Sousa. Haveria
"servigo de restaurante.

Burros
Moradores do "populoso bairro da Cremag o" se acha-
vam "sobressaltados", em julho de 1960, "com o aparecimento
de grande n6mero de burros que, na sua andanga sem rumo e
sem direio, atropelam pessoas, sendo ja elevado o nimero de
vitimas", relatava a Folha do Norte. Na v6spera da publicacio
da noticia, "nada menos de 5 ou 6 transeuntes foram apanha-
dos pelos mencionados animals". O journal fora informado de
que os burros eram de propriedade da prefeitura municipal "e
durante o dia sao liberados para o past em capinzais".

Contra-mao
Eram 13,30 horas do dia 7 de julho de 1960. O prefeito
Lopo de Castro encerrou o primeiro expediente no Pallcio
Azul, como era entlo conhecido o "Ant6nio Lemos" corrente
dos nossos dias. Embarcou no carro official da prefeitura, que
contornou a praca D. Pedro II para seguir pela rua 16 de
novembro. No moment em que manobrava para deixar a
praga, o carro foi abalroado de frente por um 6nibus da Via-
do Ditador, que, talvez contaminado pelo nome da empresa,
trafegava na contra-mao, na direcgo do Ver-o-Peso.
Assustado com o impact da colisio, o prefeito desceu
irado do autom6vel, ja cor um rev61ver na mAo. Quis atirar no
motorist infrator, Jos6 Gomes dos Santos, mas "foi contido
por pessoas que se aproximaram do local", segundo o noticid-
rio jornalistico. Nao houve vitimas. O autom6vel do prefeito
"foi recolhido a garage para receber os reparos exigidos". JA
o motorist do 6nibus, depois do susto, ainda maior, foi "autu-
ado em flagrante" e perdeu a carteira de habilitacio.


Juridico
Com passagens de aviAo fornecidas, em parties iguais,
pela Universidade Federal do Pard e a SPVEA (Superinten-
dencia do Piano de Valorizacio Econ6mica da Amaz6nia),
seguiram para participar das XII Semana de Estudos Juridi-
cos, no Rio de Janeiro, os estudantes de direito Joao de Je-
sus Paes Loureiro, Leonildes Silva, Ronaldo Barata, Jos6 Se-
rafico de Carvalho, JoIo Martins e Felix Oliveira. Todos iri-
am apresentar teses ao encontro.

Agua
Greg6rio Lino, portugues, 37 anos, descobriu que Da-
vid, seu empregado, roubara um macaco mecAnico que es-
tava guardado em seu quarto. Pegou o laripio pelo colari-
nho e o levou ao posto policial do Jurunas. LA chegando,
David resolve soltar o verbo: Greg6rio e seu s6cio Jos6
Mendes Gouveia, tamb6m portugues, 29 anos, adulteravam
leite. Os dois tinham uma vacaria na Tamoios. Mas com-
pravam leite "in natural" de um fornecedor da Estrada Nova.
Adicionavam leite em p6 e Agua ao leite natural, venden-
do-o a clientele. Os s6cios no "batismo" foram fichados,
planilhados e remetidos para o Presidio Slo Jose, cor o
respective auto de prisAo em flagrante. Isso, em setembro
de 1962.

Excursio
Em maio de 1966, a Citreq (Companhia Importadora
de Tratores e Equipamentos) patrocinou uma excursao de
engenheiros de 6rgios ptblicos as instalac6es das fbbri-
cas da Caterpillar, John Deere e Pioneer, nos Estados Uni-
do. A viagem daria aos escolhidos "a oportunidade de ob-
servar de perto como se produz a maquinaria para uso em
terraplenagem, construVAo e pavimentaiAo de rodovias, bem
como ver 'in loco' as obras no genero que sao realizadas
em outros centros".
Corn todas as despesas pagas pela empresa de Herm6ge-
nes Condurd, Elias Psaros e Carlos Ribeiro, participaram da
excursao Elmir Saady Nobre, chefe da coordenacio t6cnico-
administrativa da Rodobris (6rgAo federal responsivel pela
Bel6m-Brasilia); Domingos Acatauass6 Nunes, da Secretaria
Municipal de Obras; Evandro Bonna, assistente t6cnico do
DMER (Departamento Municipal de Estradas de Rodagem); Hen-
rique Montenegro Duarte e Joio Caetano, ambos do DER (De-
partamento de Estradas de Rodagem).


SETEMBRO/2000 AGENDA AMAZONICA 11


11 3'1 1 II -1 IIT II






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Os primeiros passos

O primeiro dos anincios de Y. Yamada desta pigina 6 de
1956, seis anos depois da fundagio da empresa. Os demais sAo
dos anos sucessivos: 1957 e 1958. Testemunhos de um desenho
publicitrio ristico, refletem tamb6m o espfrito dos empreendedo-
res de origem japonessa e a que clientele eles entdo se dirigiam.
Nessa 6poca, o varejo tinha outras estrelas, mas os Yamada jd tra-
balhavam a sombra, no claro-escuro expresso pelos anfincios. As
Mesbla e Brasileiras passaram, mas os Yamada ndo s6 continuam,
como prosperam. Uma criagAo nipo-brasileira.













28/09/58


















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11/11/56 16/01/57
Agenda Amnaz6nica
TravessaBenjaminConsant845/203-BdMei/PA-66.053-040 e-mafl: maliBzmmn Telefones: 2237690/2417626 (fax) Poduio gffca:luanoniodefariapinto
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