Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00012

Full Text











arnaz nica


ANO I No 12 BELEM, AGOSTO DE 2000 R$ 3,00 L U CiO Fldvio Pinto


INDEPENDENCIA



0 dia



da farsa


At6 hoje os paraenses comemoram o 15 de
Sagosto como a data da adesao do Estado a
independ6ncia do Brasil. Guardar esse dia
significa aceitar a fraude montada pelos
que, na vespera, prendiam, matavam ou
deportavam os aut6nticos defensores da
autonomia political national. JA nao e hora
de acabar com isso?

Acada 15 de agosto os paraenses comemoram ofi-
cialmente a adesao do seu Estado a independen-
cia brasileira. "Comemoram" 6 uma expressed for-
gada: simplesmente a data 6 lembrada e langada
o livro de ocorrIncias, sem maior indaga~go, nem
interesse. A rigor, pouco paraense sabe o que significou esse mo-
mento da sua hist6ria. A data perdeu de hi muito um significado
mais vivo: quando o president Getilio Vargas se suicidou, em
agosto de 1954, a principal avenida de Bel6m teve o seu nome
logo trocado. Deixou de ser 15 de agosto para que fosse homena-
geado o home que por mais tempo deteve o poder no Brasil
republican. A data da adesao que procurasse outro abrigo.
Se essa troca tivesse sido feita conscientemente, 6timo: o
15 de agosto foi mesmo uma farsa. Montada tdo subitamente que
criou situag6es c6micas, como esta: 11 dias depois da cerim6nia
pomposa, no palcio do governor, o 2 sargento Anasticio Jos6
d'Assumpglo chegou a Bel6m conduzindo o 2 sargento Jodo


Maria de Moraes, preso em Chaves, no Maraj6, "por dissidente e
suspeito" de querer a independencia, conforme a acusacgo do
comandante das Armas, Jos6 Maria de Moura.
Apresentado, o preso foi imediatamente solto e elogiado.
Seu condutor regressou a Chaves com o topo da independencia,
amarelo e verde, na barrentina (uma esp6cie de gorro), al6m de
uma divisa no braco esquerdo corn os dizeres "independencia
ou morte". E foi ent.o que toda Chaves aclamou o imperador,
comemorando sem distincgo a independencia. Tudo mudando
para nada mudar.
Caso individual e aleat6rio? As revoltas de Bel6m, em 14 de
abril, e de Muand, em 28 de maio de 1823, mostram que nao.
Dezenas de pessoas foram press e degredadas. Mas o didrio do
terrivel ouvidor-geral, Vieira de Melo, no mes da adesao, desnu-
da a farsa. No dia 8 ele se refere ao processamento de cinco
pessoas que cometeram o crime de "dar vivas A independencia".
Ja no dia 12, autoriza a algumas pessoas "o deitarem foguetes"
oft-







em comemorag~o A data. No dia 18, comunica que mandou re-
c6lher a sua casa um home que viera preso da Vigia "em um
dia de tanto regozijo". Mas em 11 de dezembro o ouvidor jt se
permitia determinar a soltura de um cidadao preso por injuriar
os brasileiros e nao aceitar D. Pedro como imperador. Argumen-
tou que tal attitude devia ter sido tomada antes da independ8n-
cia, nao sendo presumivel que, depois, "houvesse um home
tao louco que dissesse semelhantes expresses depois de adota-
do este sistema". Loucura bastante utilitrria, embora unilateral.
A troca de homenagem na mais nobre (ainda 6 ?) via p6bli-
ca de Bel6m, entretanto, nada teve a ver com a revisdo da hist6-
ria que a cr6nica official, a dominant, estabeleceu para a adesao
do Par, A independencia national. Na verdade, quando a elite -
ainda profundamente vinculada A antiga metr6pole colonial -
realizou as pressas o ato solene de juramento, no atual paldcio
Lauro Sodr6, os verdadeiros adeptos da ruptura cor Portugal
estavam mortos, degredados ou press, depois de sucessivamente
reprimidos nas tentativas que fizeram para que a derrubada de
um poder metropolitan nao fosse seguido pelo estabelecimento
de outro poder metropolitan, ainda que formalmente sediado
no mesmo territ6rio national.
Mas foi isso o que acabou acontecendo. O nascente imp6rio
brasileiro aceitou o formalismo da incorporagdo da filtima posses-
sdo lusitana na antiga col6nia ao territ6rio da nova nagdo, sem
negar o status quo existente, enquanto os rein6is submeteram-se
ao juramento de fidelidade, acatando governor brasileiro como a
instincia juridica superior. NMo destruiram, por6m, os fortes lagos,
inclusive econ6micos, que os prendiam a Portugal- e, jd nao mais
apenas a Portugal, mas, por extensao, A Inglaterra, o grande poder
da 6poca. A manutencgo das mesmas condic6es bisicas da fase
colonial era tao opressiva que se quiser ter uma data verdadeira
para marcar um rompimento efetivo certamente sera precise trans-
feri-la por mais 12 anos, chegando A Cabanagem, em 1835. Portu-
gal 6 deixada para trds. A Inglaterra assume o lugar.
A compreensdo desse traumttico period da hist6ria do
Para transcende a datas, her6is, ast6cias individuals e formalida-
des juridicas. O que o principal historiador dessa 6poca, Domin-
gos Ant6nio Rayol, o bardo de Guajard, chama de "motins poli-
ticos" (de 1821 a 1835), desde os movimentos mais objetivos de
emancipacgo political ate a eclosAo da revolta cabana, tern duas
caracteristicas fortes.
Uma delas decorre dos atritos entire uma elite que inicialmen-
te tentou manter a dominacgo ultramarina e, constatando a sua
inviabilidade absolute, procurou uma forma de acomoda~go o mais
proveitosa possivel contra os interesses em ascensdo de uma outra
elite que, por principio ou interesse especifico, lutava pela instau-
ra~go de uma nova ordem. Uma conciliag~o ou ate uma reform
foi o que buscaram personagens destacados da cr6nica da 6poca,
com o bispo Romualdo Coelho. Ele defendia a consolidagCo do
novo poder "rebatendo cor uma mdo os rebeldes e com outra
removendo as causes da murmurabao e queixumes dos povos".
Firmado o govemo national, o mesmo bispo saudaria, em 1824, a
"pronta e sdbia substituicgo do sistema govemativo delegado ao
povo", sob a forma de juntas administrativas, pela figure dos pre-
sidentes, nomeados diretamente pelo imperador.
O confront entire essas duas elites chegou a um determi-


nado ponto de enfraquecimento de ambas que uma outra ordem
social chegou a ameagar a barreira de contengio que a manti-
nha sob control: era a massa de escravos, indios destribaliza-
dos e lavradores em fuga do recrutamento military, submetidos a
uma tal explorag~o que a explosdo era uma questao de tempo.
Vista sob essa 6tica, a hist6ria desses 15 anos, corn suas
raizes mergulhando mais profundamente d6cadas antes, emerge
como um turbilhao de violencia e sangue, num massacre muito
mais chocante do que os movimentos pendulares de motins e
rebeli6es comandados por uma elite citadina, em testes de forga
que iam e vinham conforme o control da desproporcional (mas
desorganizada) forga military acantonada em Bel6m. As elites urba-
nizadas sempre mantiveram o olho aberto sobre a "soldadesca",
nos estratos inferiores dos corpos regulars, os "amocambados",
os "negros fugidos", os indios vadios", que poderiam acabar se
estimulando a entrar naquele jogo de golpes e contragolpes que
eram dados a partir de quarteis, casas de comercio e paldcios.
Essa marginalia humana havia aprendido, depois de ter ser-
vido de bucha de canhao nas sucessivas revoltas que irrompe-
ram e foram sufocadas, que seus lideres (alguns dos quais con-
tinuavam a ser senhores de escravos e de terras, ou mesmo co-
merciantes) as abandonavam, recuavam ou ficavam indecisos
nos moments decisivos dos embates. Uma das maiores lic6es
foi a de outubro de 1823, quando o movimento armado esteve
pr6ximo de eliminar a estrutura de poder remanescente do do-
minio portugues, mas recuou.
Nesse epis6dio, a atuacao do maior de todos os personagens
desse ciclo, o c6nego Batista Campos, foi ambigua. Ele confiou de-
mais na junta governativa, dominada pelos rein6is, entregando-lhe
um memorial de reivindicac6es. As assinaturas no memorial servi-
ram de guia para o remanejamento dos militares rebeldes. Durante
os sangrentos events de 16 de outubro, Batista Campos nro saiu da
sua casa (o que nao o impediu de ser preso e deportado).
O c6nego, sentindo-se sem condij6es de center os mais
exaltados, foi um dos que pediu a intervencgo do mercendrio
ingles John Grenfell, mandado do Rio de Janeiro (cor um fnico
navio, que manobrou para criar a ilusdo de que atris vinha uma
esquadra) cor a missdo de conseguir a declaragdo de adesdo,
para salvar os ameacados comerciantes portugueses. Grenfell
levaria a repressdo ao apice do barbarismo ao prender e levar a
morte, por sufocamento, 252 dos 256 dos rebeldes jogados no
pordo do brigue Palhago, depois de ter executado sumariamente
cinco soldados e s6 nao matando Batista Campos, amarrado A
boca de um canhao, pela iriterferencia de terceiros e pelo receio
de que esse ato reacendesse a revolta.
F1lix Clemente Malcher, que viria a ser o primeiro presiden-
te cabano, na condijdo de membro da junta governativa, endos-
sou a versdo official de que o massacre do brigue Palhago fora
provocada pelos pr6prios press, ao se atacar mutuamente.
Se Batista Campos mudou sua estrategia a partir dai (ate
morrer, num prosaico acidente, as vesperas da Cabanagem), 6
uma questao. Mas os que queriam se libertar do jugo feroz tira-
ram suas conclus6es. Quando isso aconteceu, o sangue que es-
correu guardou proporcgo com o volume das drenagens de agua
tipicos da regiao amaz6nica, na aberta luta "dos que ndo tnm
contra os que tnm", conforme o historiador Heinrich Handel-


2 AGOSTO/2000 AGENDA AMAZNICA






mann percebeu a Cabanagem do seu gabinete de estudos na
Alemanha. As 20 mil mortes ocorridas nos cinco anos da revolta,
entire 1835 e 1840 (numa populagCo de 150 mil habitantes) equi-
valeriam a 2 milh6es de baixas na Amaz6nia de hoje. A maior
parte dessasmortes ocorridas jA durante a "pacificacdo" (na ver-
dade, repressao), promovida pelo govemo do Rio de Janeiro, e
sobretudo entire negros, indios, cafuzos e caboclos.
Ap6s a sublevacgo de outubro de 1823, a maior e mais
important at6 entao ocorrida, a junta tratou de reorganizar
a tropa, para manter sob control a "soldadesca" e reter o
comando. Os tres regimentos de infantaria, que tiveram par-
ticipacio ativa nos acontecimentos, foram dissolvidos. Sur-
giu no lugar deles um Regimento Imperial, cujas praCas re-
ceberiam armas "apenas por ocasido do servico da guarni-
co da capital". Os claros na tropa, em conseqiiUncia das
baixas, foram preenchidos atrav6s de voluntarios, os inicos
a receber armas pr6prias. As rondas noturnas da policia se-
riam feitas "por cidadcos armados, isto 6, por aqueles mes-
mos que t8m interesse na seguranqa p6blica". Uma forma
disfargada de se referir aos comerciantes portugueses. A "sol-
dadesca", recrutada compulsoriamente, como castigo, arran-
cada de suas atividades regulars, especialmente na roga,
ficaria sob o taco desse comando.
A adesao palaciana, nesse context, foi uma encenag~o.
t Se quiserem estabelecer uma data representative, os paraen-

ses podem escolher 14 de abril, 28 de maio ou 17 de outubro,
o macabro dia da trag6dia do brigue Palhaco. Ndo seri sem
tempo para expurgar da nossa hist6ria real essa ustirpacao.

0 discurso ofilal

A morte, por asfixia, esmagamento ou colapso fisico total
de 252 pessoas atiradas umas sobre as outras no porTo do brigue
imperial brasileiro Palhaco 6 o epis6dio de maior impact da
cr6nica da independencia no Para. Apenas quatro dos press
escaparam, milagrosamente. Para contrabalancar o abalo que a
revelaVAo do crime provocou, a junta de governor emitiu uma
proclamaCao que express a posicAo official nesse moment de
traumitica transicao, mas 6 o discurso recorrente em situac6es
anAlogas, antes e depois.
Diz a junta que a repressao devia-se a "anarquia" produzi-
da por "este horrivel monstro vomitado pelas flrias do negro
averno" que havia dominado a "soldadesca", deixando a "segu-
ranga individual e de propriedade sem apoio". Exaltava a partici-
pacio da "valorosa tropa de milicias", A qual se teriam juntado
"alguns cidadios estrangeiros" (na verdade, foram os criadores e
controladores dessas milicias).
Conclama a conciliacao, para que fossem eliminadas
de vez "essas disting6es, vingancas e ambic6es, procurando
no seio da uniao o restabelecimento da ordem social", por-
que o Brasil "6 hoje a pitria comum de todos que adotaram
sua independencia". Suas palavras de ordem eram: "Confra-
ternidade, uniao e ordem ptblica". Mas para atingir uma
vocaago preestabelecida para Beldm, que, por sua "nature-
za", estava destinada a ser "o emp6rio das riquezas de um e
outro hemisf6rio".


A cronologia

10/12/1820 Chega a Belem a noticia da conVocaCgo das cor-
tes portuguesas, com a adooo da monarquia constitutional.
1/1/1821- Adesio do Pari a revoluoo constitucionalista do
Porto. Uma junta constitutional de nove membros 6 eleita. Filipe
Patroni 6 indicado para fazer a comunicaoo a corte.
11/1821 Patroni manda de Lisboa uma circular fazendo a
propaganda da independencia. Os irmAos Vasconcelos, portadores
da mensagem, sao press, processados e deportados para Portugal.
12/1821 Chegam a Belem a primeira tipografia e o primeiro
tip6grafo, que irio publicar um jomal a favor da independencia.
1/1822 Patroni volta ao Para.
Eleico de uma nova junta constitutional, cor seis
membros.
4/1822- O brigadeiroJos6 Maria de Moura, que se notabilizou
pela repressao aos rebeldes de Pernambuco, assume o Comando
das Armas do Parn.
Comega a circular o jomal OParaense, editado por Patro-
ni, corn critics A junta e propaganda da independenca.
5/1822 Preso, Patroni deixa a direCgo de OParaense.A
substituido por Batista Campos. A circulagco do journal nao 6
interrompida.
9/1822 Batista Campos e outras cinco pessoas, adeptas da
independencia, sao press por ordem da junta.
10/1822 Todos sao soltos: o conselho de justiga criminal
os absolve.
Atentado contra Batista Campos, que 6 ferido.
1/1823 Mesmo demitido, o governador das armas perma-
nece no cargo.
2/1823 Nenhum portugues 6 eleito para a Cmara de Belem.
Os portugueses tentam impugnar a eleico. A junta nro concorda.
1/3/1823- Golpe dos comerciantes portugueses, com o apoio
dos chefes militares. A junta e a cAmara sao dissolvidos e seus
membros press. Antigos vereadores sao restabelecidos nos seus
cargos. Nova junta 6 formada. 16 pessoas sao deportadas.
Comerciantes portugueses formam duas milicias, uma
de artilharia e outra de cavalaria.
14/4/1823 SublevaCao military pr6-independencia 6 sufo-
cada devido a hesitacgo de seus lideres.
5-6/1823 Rebeldes sao condenados a morte. 0 bispo d.
Romualdo Coelho consegue sustar a aplicacdo da sentence. O
comandante das armas insisted em executf-la, mas a maioria dos
oficiais 6 contra. Os 271 press seguem para Lisboa, mas a mai-
oria more na viagem. Os sobreviventes sao soltos na capital por-
tuguesas depois de seis dias de prisio.
28/5/1823 Adesio do Para a independndca 6 proclamada
em MuanA, na ilha de Maraj6. O movimento 6 sufocado violenta-
mente. Novas pris6es e degredos.
10/8/1823 -John Grenfell fundeia em frente a Belem no
comando de um brigue imperial, cor ordem de obter a adesdo,
aprovada no dia seguinte pelas autoridades locais.
15/8/1823 -Juramento formal da adesao.
17/8/1823 Eleig~o da nova junta governativa, composta
por quatro militares e um religioso, tres deles favoriveis a Portu-
gal e dois a independencia. A


AGOSTO/2000 AGENDA AMAZ6NICA 3







MINERIOS


Os descaminhos


da hist6ria


E stadasegundapartedodepoimentodo
ge6logoBrenoAugusto dosSantos, ini-
ciado na ediado anterior daAgenda.
A importancia e a riqueza desse teste
munho exigem que sua conclusdofi-
quepara a edigaoseguinte. Breno irdfalar, entdo,
sobre os aspects maispessoas de sua atuafo de -,
quase quatro dcadas num dos moments decisi- "* -:
vos da hist6ria da Amaz6nia. Neste ntmero, ele
faz uma ampla eesclarcedora andlise daprivatizal da Companbia
Vale do RioDoce, em 1997, dapouco conhecida hist6ria de conflitos que
seseguiu e dasperspectivas que se abrem agorapara essa "Nova Vale".
0 leitor ndo encontrard nada tdo amplo sobre esse tema nagrande
imprensa brasileira. A maioria dosfatos eatd de dominion piblico. Mas
ndoa6ticadeencard-lose, porfora dessedevendamento, dar-4hesum
novosignifcado, o real. E uma longa experincia de campo, de vivenci-
amento dosfatos, iluminadapor uma exceptional argcia, que ddo a
Breno a autoridade que ele xercita neste depoimento.
Sum document de valor ecepcional, mesmo que ndose concor-
de eventualmente com um ou outroponto da visdo do autor. Gostaria,
porexemplo, de aprofundar com ele e com os demais leitores, numa
prfxima ocasido, a avaliafdo que elefazda bist6ria da exploragdo da
jazida de mangangs de Serra do Navio, no Amapd. Concordo com a
maioria daspremissas deBrenosobre a imaturidade dopais na decada
de50 e oprejufzo de uma visdo esquemdtica demais, enquadrando
mecanicamente o conflito entire xplorados e explorados. Mas continue
achando, com todas as ressalvas contextuais, que o Brasilpoderia ter
conseguido melhorremuneraq4opara a utilizago de mineral tdo estra-
tigico na dpoca, aldm de umgrau de beneficiamentoprodutivo maior.
Mas essa e uma questdopara outro moment. 0 que interessa,
agora, e aproveitar essapreciosa reflexdo que Breno Augusto dos
Santos nos oferece sobre uma hist6ria que desconbecemos ou donhe-
cemos tco pouco, embora seja a nossa hist6ria, aquela hist6ria de
queparticipamos, sim, como figurantes, decoraado ou instruments
manejados por uma mdo maior, nem sempre visivel. Mas que este
texto ajuda a iluminar.

Que anflise voce faz de quase tries anos de privatizacao
da Companhia Vale do Rio Doce e sua repercussio sobre a
economic mineral?
A discussAo da CVRD, nos filtimos tres anos, exige uma breve
revisio do process de privatizaiao em si, do qual 6 fruto a "Nova
Vale", corn suas qualidades e defeitos.
Em primeiro lugar, deve ser lembrado que houve um grande
lobbyna midia, que impediu uma discussio aprofundada do process,
impossibilitando que o mesmo fosse sensivelmente melhorado. A opo-
siio feita adotou uma estrattgia equivocada, pois gastou sua munigao
para questioner apenas a privatizagFo, que era uma decision political
irrevogivel do Govemo, e deixando de lado as falhas existentes no
process.
Quando passei por Brasilia, pude constatar que a said do Estado
brasileiro da area produtiva era uma decision aceita por diversas corren-
tes partidirias e do pensamento politico. As grandes estatais brasileiras
tomaram-se muito mais dinimicas, e com uma administragio bern mais


modema, do que as emperradas e burocriticas estruturas govemamentais
de Brasilia. Como a legislaao brasileira impede que a Unido atue apenas
como simples acionista, dando liberdade administrative e operational a
essas empress, cria-se uma srie de mecanismos fantasiosos, muitas ve-
zes policialescos e com conotac6es political, para que se tente o exerci-
do do control. Na pritica, por falta de visao empresarial dos agents, o
control deixa de ser exercido, e as exigencias burocrnticas acabam
onerando e dificultando a administramo das estatais.
Assim, espera-se que o Estado brasileiro, ao sair da drea produti-
va, por incompetencia, al6m de dedicar-se mais
as quest6es sociais, tome-se capaz para estabele-
cer as grandes diretrizes nacionais dos stores
produtivos, e exerca, corn responsabilidade, a fis-
Scalizaco das empresas que atuam sob regime de
concessAo como 6 o caso da drea mineral -,
para defender os interesses da sociedade brasi-
leira.
-" : -- Por tudo isso, discutir somente a privatiza-
Cgo foi uma batalha perdida, que nao chegou a
sensibilizar a populaao brasileira. Mas, no desenlace do process, muitas
quest6es ficaram sem resposta Por exemplo: em 1994, havia consenso
em Brasilia de que a CVRD seria privatizada, mas com a devida cautela,
nao sendo prioritiria no program. Essa posiio era defendida pelo
pr6prio Femando Henrique, mesmo depois de eleito, quando desauto-
rizou declaracgo de Elena Landau na ocasiao Diretora do BNDES
[BancoNacional doDesenvolvimentoEcon6mico eSociaA -, propondo
acelerar a privatizaco da CVRD, nos primeiros dias de seu govemo.
Por que houve mudanga, poucos meses depois, e a privatizagio
tomou-se prioritaria? Algumas fontes de Brasilia tentaram explicar que
foi devido a crise do Mexico. Para que o Brasil nao se tomasse a bolaa
da vez", seria privatizada a "j6ia da coroa", corn o objetivo de conven-
cer o setor financeiro international, de que o process de abertura
econ6mica brasileira era para valer. Se foi realmente s6 por isso, foi
um grande eno politico, pois a nossa vez chegou e com um prego bem
maior, pago aos investimentos especulativos intemacionais.
Tamb6m era deferdida, pela maioria political de Brasilia, que a
privatizacao deveria ser feita com a pulverizagSo das acOes. Assim
acontecera corn as principals privatizag6es da Inglaterra e do Canadi.
Logo que deixei o cargo em Brasilia [de secretdrio national de minas
e metalurgia], ja na presidencia da Docegeo [a subsididria da CVRD
parapesquisa geoldgica], tive a honra de receber a visit de uma
missdo canadense, chefiada por Michael. Wilson, ex-ministro das Fi-
nancas e do Comercio Intemacional, e que fora responsivel pelo
process de privatizago.
Durante duas horas, discutimos o setor mineral brasileiro e, em
particular, a privatizagao da Vale. Ao responder minha pergunta de
como deveria ser a privatizagio da Vale, pulverizada ou corn bloco de
control, nao teve dfividas em afirmar que uma empresa, que era tio
estrat6gica.para o pais, s6 poderia deixar de ser estatal corn a pulveri-
zagdo das ages do govero, cor concentrag es no miximo ate 5%.
Informou ainda que assim fora feito no Canada, corn todas as empresas
do govemo, corn excego de uma companhia de aviaglo, que pela sua
situaio financeira exigiu uma privatizaio dirigida.
Por que houve mudanca de attitude do govemo, contrariando
tudo que o bom senso recomendava, adotando a proposta do BNDES
de fazer a privatizalio em bloco? Sern que temos maior visio empresa-
rial que a Inglaterra ou o Canada? O argument do BNDES 6 de que
assim se conseguiria melhor prego. Algu6m em s! consciencia ser~
capaz de afirmar que cerca de 3,1 bilh6es de d6lares na 6poca, 3,3
bilhoes de reais -, ja incluido o agio de 20%, foi realmente um bom
preco-para se transferir o control da CVRD? A16m disso, fazendo com
que o govemo e os demais acionistas "micassem" com as ac6es que nio
foram incluidas no bloco... Devemos lembrar que o prego das ages do
bloco de control nada tern a ver com o das ages de bolsa com


4 AGOSTO/2000 AGENDA AMAZONICA







menos da maioria absolute das aces cor direito a voto, foi possivel
assumir o control da empresa.
Por que foi criada uma clusula, na privatizaio da CVRD, impe-
dindo a particpa0o das empresas estrangeiras, que ji produzissem e
comercializassem minrio ferro? A justificativa dada 6 simpl6ria e inge-
nua demais. Teria sido pam impedir que fosse reduzida a participaco
da CVRD no mercado interoceinico, e, conseqiientemente, a sua pro-
duoo, em funoo de possivel conflito de interesse cor a empresa que
adquirisse as suas ac6es.
Todos sabem que o mindrio brasileiro s6 atinge o mercado do
Oriente em fungo de sua qualidade, para ser misturado cor o austra-
liano. Nao havia ameapa, pois as siderirgicas japonesas, coreanas e
chinesas sempre vAo querer cotas do minrio brasileiro. Ora, cor essa
simples cldusula, foram eliminadas quase todas as grandes empresas de
mineramo do mundo, que poderiam contribuir para aprimorar a capa-
cidade produtiva da CVRD, e esquentar o process de privatizacio,
melhorando o prego de venda.
O caminho ficou livre pam apenas uma grande empresa, a maior
do mundo e a tnica que nao ter o minerio de ferro no seu portfolio -
a Anglo American. Por uma mera coinciddncia, o chefe do govemo
brasileiro foi recebido, na ocasiao, com todas as honras na Inglaterra e
na Africa do Sul.
Era voz corrente no setor mineral brasileiro, mesmo entire os
executives e t&cnicos das empresas estrangeiras, que a privatizaco da
Vale estava sendo dirigida para tender os interesses da Anglo Ameri-
can. Para essa empresa, que, cor o correr dos anos, vai enfrentar uma
situaio dificil na Africa do Sul, a transferncia de seus interesses para
o Brasil, atrav6s da Vale, era mais do que oportuna, ainda mais consi-
derando-se o potential de CarajAs, que permitiria a sua crescente ex-
pansAo na produoo mineral. Algumas importantes empresas, canaden-
ses e americanas, chegaram a comentar que nio participariam do pro-
cesso de privatizaco porque ele era dirigido para a empresa sul-afri-
cana. E nao tentariam associar-se a ela por diferengas de estilo, por
considerA-la muito conservadora.
No meio do process, surge um concorrente national. 0 Grupo
Votorantim, da familiar Ermirio de Moraes, tenta entrar no jogo, em
assocaco cor o Bradesco, visto que jA mantmn neg6cios conjuntos na
Area de energia. Entretanto, num cuidado extreme do BNDES, a asso-
cdaoo 6 impedida, pelo fato do Brdesco ter atuado, junto com o banco
do governor, na avaliacao e na arquitetura da privatizagao da Vale. O
grupo Votorantim tentou compor-se cor os funds de pensdo, no que
foi dificultado pelo govemo. Por que o Govemo adotou essas attitudes?
Quando o grupo Votorantim tentava organizar-se, para con-
correr com a Anglo American, houve a divulgagio pelo jomal O
Estado de S. Paulo e pelo ornal da Tarde, ja no inicio de 1997, do
novo modelo geol6gico de Carajas, cor ampliacio de seu potential
para a descoberta de jazidas de cobre-ouro. Ant6nio Ermirio de
Moraes, que 6 engenheiro de minas, percebendo o significado eco-
n6mico e estrat6gico dessa revelago, considerou que seria um gran-
de risco para o pais se tudo ficasse sob o control de uma empresa
cor o porte e as caracteristicas da Anglo American. Tentou con-
vencer o governor a adiar o process de privatizaio da CVRD por
dois anos, para que ele fosse aprimorado, bem como para que ti-
vesse tempo para melhor se organizer.
Por que o governor nao aceitou tAo racional proposta? Havia
inclusive justificativa tdcnica e econ6mica as novas descobertas
de CarajAs -, para determinar a decisdo political do adiamento. Atu-
almente, por outras raz6es, a privatizaqao do Banespa ter sofrido
constantes adiamentos.
Por que, em contrapartida, o president Femando Henrique con-
venceu Ant6nio Ermirio de Moraes a associar-se corn a Anglo Ameri-
can? Por que isso foi aceito sem objego pelas duas empresas? A associ-
aco foi imediatamente formalizada, ap6s uma viagem do empresario
brasileiro a Londres.


Assim, pelo lado empresarial foi conseguida a harmonia e, pelo
lado da political mineral, as critics foram reduzidas ap6s a assinatura do
contrato de risco, entire a CVRD e o BNDES, que garante a UniAo 50%
do que vier a ser descoberto em Carajas. Aos poucos, novas empresas
vieram a fazer parte do Cons6rcio Valecom, liderado pela Anglo Ame-
rican e pelo Grupo Votorantim, como a brasileira Caemi e as japonesas
Mistsui e Nippon Steel (representando siderirgicas e tradings.
Mas surgiram critics contra a privatizaio cor um inico concor-
rente. JA na reta final, o BNDES inicia uma "her6ica cruzada" para
motivar o surgimento de um novo participate, que legitimasse o pro-
cesso. A Companhia Siderfirgica Nacional, a CSN, sob a lideranga de
Benjamin Steinbruch, do Grupo Vicunha, organize o Cons6rdo Brasil,
com a participaoo de funds de pens~o, liderados pelo do Banco do
Brasil, atraves da Previ [ofundo deprevidgncia da instituipoo]. Esse
cons6rcio conseguiu financiamentos do Nations Bank (cerca de 50%6 do
total), Citibank (400 milh6es de reais), George Soros e Bradesco (500
milh6es de reais), que foram somados aos 700 milhoes de reais injeta-
dos pelos funds.
Na ocasiao da privatizacio, jA comentava-se que o finandamento
do Bradesco era de fato uma partidpagio camuflada no bloco de con-
trole. Por que foi permitido agora o que fora negado ao Grupo Voto-
rantim? Por que a Previ e o Bradesco puderam participar? Na ocasido,
foram levantadas algumas suspeitas sobre qual teria sido a participaio
do "Primeiro Filho do Presidente" no process, o mesmo de Hannover.
Mas nada foi provado, ficando-se apenas nas especulaV6es.
Tudo parecia indicar que o segundo concorrente iria participar
apenas para legitimar o process, e por isso, o govemo fora liberal
com a associaoo da Previ e do Bradesco. Confesso que cheguei mes-
mo a acreditar, tal a desenvoltura com que se comportavam os repre-
sentantes da Anglo American, em suas visits t(cnicas de avaliag~o.
Ge6logos dessa empresa chegaram a proper que, antecipadamente, ja
comegassem a trabalhar cor a equipe da Docegeo, para facilitar a fase
de transioo. Alguns t6cnicos da CVRD e da Docegeo receberam pro-
postas antecipadas, para que continuassem na empresa ap6s a privatiza-
co, tanto da Anglo American, como da Votorantim.
Vendia-se a image de que o grupo liderado por Benjamin
Steinbruch estava participando mais para fazer o papel de "coelho",
como nas corridas de fundo, do que de "zebra". Sera que todo o
govemo acreditava nessa image? Deve ser lembrado que Benjamin
Steinbruch contou cor a colaboracao de um director da CSN, ex-
dirigente da CVRD [e Wilson Brummer], e que, portanto, conhecia
muito bem o potential de crescimento e a previsao dos lucros da
empresa nos anos que viriam.
Vencidas varias liminares, a privatizaco foi concretizada na tarde
de 6 de maio de 1997. Por coincidencia, no mesmo dia que o Ibram
[Instituto Brasilefro deMinerapMd faria a abertura solene de mais um
congress de mineraio, em Belo Horizonte. Durante a viagem para
partidpar do congress, fui abordado por ex-colega da Icomi, entdo na
Caemi, que em tom jocoso, mas amistoso, perguntou-me sobre o que
achava de voltar a trabalhar para o grupo Antunes.
Assisti o leilAo pela TV, no quarto do hotel em Belo Horizonte. A
sensago inicial, pelo resultado, foi de surpresa e de alivio, pois apa-
rentemente os homes do govemo haviam sido derrotados. No audit6-
rio do congress o ambiente era de vel6rio, pois havia varios repre-
sentantes das empresas de mineracao que haviam perdido, al6m de
muitos simpatizantes, que custavam a aceitar o desenlace do leilAo.
Hoje, depois de tudo que ocorreu, ficam as dtividas: sera que tamb6m
foi surpresa para os homes do govemo? Sera que eles realmente
foram derrotados pela esperteza de Benjamin Steinbruch?
Assim, de acordo com o que determinava o process de priva-
tizacao da CVRD, a partir de maio de 1997, o Cons6rcio Brasil,
liderado pelo empresario Benjamin Steinbruch, assumiu o comando
da Vale. Esse empresirio apresenta muitas semelhancas cor Feran-
do Collor. Ambos bem nascidos, playboys durante boa parte da vida,


AGOSTO/2000 AGENDA AMAZNICA 5







vaidosos e cor ura ambico imensurivel pelo
poder. Ambos tiveram carreiras mete6ricas, um
na area empresarial, outro na political, e sempre
tentaram centralizar, corn prepotencia, todo po-
der que conseguiram.
Para administrar a Vale foi criada a hol-
ding Valepar, representando o bloco de contro- -..
le, inicialmente com a lideranga da Companhia "'
Siderirgica Nacional, a CSN (34%), e dos fun-
dos de pensio Previ, Petros, Funcef e Funcesp, corn 39% (a partir
da incorporaoo de 10,03% de a6es ordinarias que detinham antes
da privatizagio), e com a participagio do Banco Opportunity (17%)
e do NationsBank (10%).
Logo no infcio da administration da Vale, houve modificaoo da
participaoo no grupo de control, para a entrada do Investvale (em-
pregados da Vale) e do BNDESPar. Nos iltimos tempos, a Valepar tinha
a lideranga da CSN (31%) e da Previ (25%), ambos corn direito a veto,
e a partidpaio do Bradespar (grupo Bradesco), do Sweet River (Ban-
co Liberal, representante do Nations Bank/Bank of America/George
Soros), do Banco Opportunity, do Investvale e do BNDESPar.
A partir de um acordo entire os participants da Valepar, Benja-
min Steinbruch, representando o grupo Vicunha, que detem 16,3% do
capital da CSN e portanto apenas 5% do grupo de control -, foi
eleito president do Conselho de Administraco da CVRD. O empresg-
rio teve apoio expressive dos bancos, particularmente do Bradesco,
assim reduzindo a forga political dos funds. Pouco tempo depois, atra-
v6s de manobras no Conselho de Administrago, conseguiu tambmn
ser eleito president da CVRD, concentrando poder jamais tido por um
dirigente da empresa. A privatizacio atrav6s do bloco de control per-
mitiu que o representante de um grupo, cor apenas 2,1% das aq6es
ordinarias, teoricamente cor direito a voto, e 1,2% do capital total da
CVRD, assumisse o control absolute da empresa.
Assim, a "Nova Vale", inseminada nesse context, passou a ter o
perfil de seus novos controladores, acostumados a jogar e a ter seus
ganhos no mercado financeiro, e a ser administrada no estilo Benjamin
Steinbruch. Embora houvesse o interesse pelo pr6prio poder na Vale,
suas ambig6es eram maiores, pois a partir das paiticipaoes da empresa
em diversas siderdrgicas, pretendia controlar a produgao do aco brasi-
leiro. Logo recebeu o titulo de "Bardo do Ago".
Se nio houve grandes mudancas de curso das suas principals
diretrizes, a CVRD modificou sua politca extema e internal. Embora
continue sendo a maior empresa de mineramo brasileira, e a que de-
senvolve o mais ambidoso program de pesquisa geol6gica, ao deixar
de ser estatal abdicou a lideranga que exercia no setor mineral. Como
estatal, cumpria o duplo papel de ser agent produtivo e agent das
political goveramentais, para a mineraoo e a geologia do pals. Sua
attitude servia de refernncia, e muitas vezes de estimulo, para a atuaao
das outras empresas de mineramo. Criou-se um vazio no setor mineral
brasileiro, agravado pela recessdo da mineramo mundial.
Internamente, suas political foram balizadas pela necessidade
de reduzir custos, pois vultosas dividas foram contraidas por seus
novos controladores, para que pudessem vencer o leilio. Assim, foi
estimulada a redugAo do quadro de pessoal, e os salaries, de um
modo geral, permaneceram congelados desde 1997. Tamb6m foram
reduzidos alguns beneficios sociais dos empregados. Entretanto, se-
guindo a filosofia das grandes empresas, assim como de Brasilia, se-
gundo a qual 6 mais facil aumentar muito a remuneraio dos poucos
que comandam e ganham muito, do que aumentar pouco os muitos
que ganham pouco e que slo comandados, os salrios dos dirigentes
foram triplicados ou at6 quintuplicados.
Nos dois primeiros anos da administrator, essa polftica restritiva
chegou a afetar a pr6pria manutengo dos equipamentos da empresa,
com ligeiras ameaMas de "sucateamento".
Provavelmente, se nao fosse o potential de Carajis, bem


como a necessidade de cumprir o contrato de
risco assinado com o BNDES, a Docegeo tam-
b6m teria encerrado as suas atividades para
reduzir os custos.
k Mas a political de austeridade seria insu-
ficiente para justificar os lucros obtidos ap6s
... a privatizaiao, que foram devidos, antes de
'...*. .-. '. -"-"' tudo, a polftica de investimentos das admi-
nistraSes anteriores.
Corn o passar do tempo, o estilo Benjamin Streinbruch nao
conseguiu sobreviver sem gerar conflitos. Benjamin exercia o po-
der como se estivesse entire os teares da Vicunha, atuando como
dono e nao como representante de um dos acionistas. A primeira
derrota surgiu no ano passado, quando os outros participants for-
garam sua said da presidencia da CVRD, e colocaram um profissio-
nal no cargo. Desde entAo, j! eram feitas apostas sobre o tempo
que conseguiria permanecer na CVRD.
Nos iltimos meses, o relacionamento piorou. Os participants
do Valepar nio aceitaram reconduzi-lo & presidnncia do Conselho
de Administragao. O Bradesco e a Previ detem, respectivamente,
17,9% e 13,8% da CSN, onde o grupo Vicunha, corn apenas 16,3%,
exerce o control. Para que Benjamin fosse dobrado, houve amea-
cas de venda das participag6es do Bradesco e da Previ para side-
rdrgicas estrangeiras, que nao iriam aceitar uma participa~io secun-
daria na administragao da CSN.
Alem disso, a Uniao, que ainda possui 31% das ages ordina-
rias da Vale sendo o maior acionista individual com direito a
voto, mas sem assento no bloco de control (Valepar) -, passou a
exercer os seus direitos, indicando dois representantes da pr6pria
Uniao e do BNDES para o Conselho de Administrago, na iltima
Assembl6ia Geral, em abril. Como o govemo nio aceitava mais as
attitudes do president do conselho, seus representantes tamb6m
passaram a fazer oposioo. E aqui fica mais uma dilvida: por que s6
agora a Uniao passou a exercer esse direito? Por que foi omissa em
nome da sociedade brasileira?
Assim, Benjamin Steinbruch foi colocado numa "sinuca de bico" e
nio teve outra said senAo ceder. Novamente, como Collor, nio acei-
tou a tutela daqueles que tinham-lhe dado o poder, fantasiou uma forca
que nio tinha, e por seus tutores foi ejetado do cargo. A resistincia foi
grande. S6 faltaram os "cara-pintadas".
0 Bradesco saiu das sombras e finalmente assumiu o poder na
Vale, sendo eleito o president do Bradespar, Roger Agnelli, para assu-
mir o Conselho de Administrago. E um pouco estranho que comande
a Valeo grupo que estava impedido, por imposig6es do governor, de
participar do leilAo. Deve ser lembrado que, desde a 6poca de implan-
tago do Projeto Ferro Carajis, adquirir o control da empresa ja fazia
parte da visio estrat6gica do Bradesco. Houve tentativas de uma priva-
tizaco sutil da Vale, via bolsa, e o Bradesco chegou a adquirir mais
que 10% de suas ages ordinarias.
EstA sendo arquitetada uma operaco cruzada de troca de ages,
onde a CSN abriria rmo dos 31% da Valepar e, a Vale, dos pouco
mais que 100/ da CSN. Como o Bradesco e a Previ possuem juntos
31,7% da siderirgica, vai restar um saldo devedor, na operamo total,
para o grupo Vicunha, pois a troca das ag6es devern ser efetivada
entire os tres grupos. Com isso, vai aumentar o poder do Bradesco e
da Previ no control da CVRD.
O grupo Vicunha vai assumir de fato o control da CSN, mas que
corresponde a um poder bern menor do que foi um dia sonhado pelo
mais agressivo representante da familiar Steinbruch.. Como sempre acon-
tece, Benjamin Steinbruch esti exigindo financiamento do BNDES para
fechar a transago. A socedade brasileia pagou para que pudesse con-
tar cor o talent desse empresirio na administraao da Vale e, agora,
vai ter que pagar novamente para que ele saia.
Apesar da Vale continuar sendo controlada por s6cios sem tradi-


6- AGOSTO/2000 -AGNDA AMAZ61ICA







qgo no setor mineral, espera-se que eles passem a atuar no conselho
como verdadeiros acionistas, determinando as linhas bisicas da empre-
sa e permitindo que uma diretoria professional administre os seus neg6-
cios, cor a visdo e a estrat6gia de uma empresa de mineragdo e de
logistica, corn participag6es acionirias na metalurgia, na siderurgia e na
ind6stria de papel e celulose.
A CVRD, gragas ao seu potential e a compet&ncia de sua equi-
pe, conseguiu resistir, sem graves desvios no seu percurso, a tres
anos de intrigas e disputes pelo poder entire seus controladores. Pa-
rece que o pior ji passou, mas nAo tenho a ousadia de afirmar que ja
foi escrito o 61timo capitulo da hist6ria da privatizacgo da Vale. Te-
nho a esperanga, por6m, de que a hist6ria, por trds das verses ofici-
ais do seu process de privatizagao algum dia venha a ser totalmente
esclarecida. Quem viver vera.

Voce participou de dois capitulos importantes da hist6-
ria contemporanea da Amaz6nia: a exploraqio da jazida de
manganes de Serra do Navio, no Amapi, e a descoberta dos
dep6sitos de minerio de ferro em CarajAs, no Para. Voc& acha
que houve evoluSco no nivel da conscikncia sobre essas ri-
quezas minerals entire esses dois moments e nos resultados
da utilizaqio econ6mica para o beneficio da sociedade?
Se voltarmos no tempo, vamos constatar que a implantacgo da
mina de manganes em Serra do Navio, na d6cada de 50, e a descoberta
do mindrio de ferro em Carajis, em 1967, na realidade ocorreram em
moments nao muito distantes. Havia, contudo, algumas diferengas su-
tis nos cendrios.
Na d6cada de 50, a Amaz6nia ainda era desconhecida pela maio-
ria dos brasileiros de fora, que a consideravam apenas uma terra ex6-
tica, coberta pela floresta impenetrivel e cortada por enormes rios,
onde seus habitantes viviam em duas grandes cidades, dependents de
uma atividade economic voltada para o extrativismo. Os lagos cultu-
rais estavam restritos as misicas de Waldemar Henrique.
Vivia-se a alianga incondicional do p6s-guerra, onde o que fosse
bom para os Estados Unidos tamb6m seria bom para o Brasil. As ques-
toes sobre a utilizacgo social dos bens do subsolo, pioneiramente le-
vantadas por Monteiro Lobato, estavam apenas comegando a sensibili-
zar os trabalhadores e os estudantes, como conseqiiencia das acaloradas
discusses relatives a criag~o da Petrobris. A pr6pria CVRD, como esta-
tal, surgira uma d6cada antes, mais para tender ao esforgo de guerra
junto aos aliados leia-se EUA -, do que como resultado de uma
political national de mineragmo e de industrializag o.
Os capitals nacionais e internacionais ainda nao vislumbravam a
Amaz6nia como oportunidade para os seus neg6cios. A implantagio
da mina no Amapi correspondeu A primeira investida do capital ame-
ricano na Amaz6nia, ap6s o fracasso de FordlAndia na d6cada de 30
[Henry Ford criou e manteve, entire 1927-45, umgrandeplantio de
seringueira no Tapaj6s, cor o objetivo de suprir de borracha sua
industrial automobilistical.
Em 1967, ji havia uma political do governor military voltada para a
"redescoberta" da Amaz6nia, corn incentives da Sudam e do Basa para
atrair capitals e promover a sua ocupagao ampliando as propostas
political da d6cada anterior, que motivaram a criagao da SPVEA. As
principals ages dessa political seriam efetivadas com os projetos fara6-
nicos da d6cada seguinte, como a Transamaz6nica e Tucurui.
Tem inicio o interesse do capital estran-
geiro pela exploragio de suas riquezas mine-
rais e florestais Trombetas, Jari, Carajis e -
Paragominas.
O governor military, apesar do seu total
alinhamento com os Estados Unidos, possuia
nuangas nacionalistas, at6 certo ponto contra-
dit6rias, das quais o melhor exemplo foi a -- .. .
pressAo imposta A United States Steel para for- : .


car a associag~o com a CVRD, em condic6es acionirias igualitAri-
as. Mesmo cor toda a repressao existence, isso abriu espaco para
uma maior discussion sobre as quest6es relatives ao aproveitamen-
to dos bens minerals.
Apenas no final da d6cada de 70, entretanto, quando da implan-
tagio dos grandes projetos Trombetas, Jari, Tucurui, Carajis e Albris-
Alunorte -, 6 que houve um grau maior de conscientizagio, com dis-
cuss6es mais aprofundadas, que conquistaram espago na imprensa e
junto aos editors.
Entretanto, o confront cor os dias de hoje nos leva a triste
conclusio de que, ate certo ponto, houve um retrocesso no nivel de
conscientizaio. Sdo various os fatores que contribuiram para isso, tanto
externos como intemos.
Se compararmos os cendrios das d6cadas de 50 e 60 6poca de
implantag~o do primeiro projeto e das primeiras descobertas em Cara-
jis cor os tempos atuais, vamos verificar que foram profundas as
transformag6es sofridas pela humanidade, e em particular pelo Brasil,
quer para o bem, quer para o mal.
Infelizmente, cor a nova ordem mundial, o fato de um pais
possuir recursos naturais deixou de ser um fator fundamental para o
seu desenvolvimento socioecon6mico, a partir do moment em que
sua populagio nio ter acesso ao control do process.
A descoberta de uma jazida mineral era uma das formas mais
ripidas de capitalizagao de uma empresa e de um pais. Muitas nag6es
construiram o seu poder econ6mico cor a exploracgo de jazidas, situ-
adas em seus territ6rios ou em suas col6nias. Isso ainda 6 em parte
verdadeiro para os grandes campos de petr6leo que ainda mantem a
sua importancia estrat6gica -, mas cuja descoberta e desenvolvimento
exigem investimentos vultosos
Hoje, hi formas mais ripidas de enriquecimento, e at6 certo pon-
to com menor risco, como as transag6es financeiras no mercado inter-
nacional ou a criagao de um bom "software".
Todo home sonhava com o seu "Eldorado", e havia no in-
consciente coletivo das nag6es a sensibilidade de que o progress
poderia vir com a exploragio de suas riquezas. Como conseqtin-
cia, o setor mineral, assim como as political para o seu desenvolvi-
mento, fazia parte do universe das pessoas, principalmente nos pa-
ises cor tradigio na minerag~o.
Mesmo no Brasil, onde os debates sobre o setor mineral sempre
ficaram restritos a nichos setoriais, havia um certo interesse da popula-
gao em geral, o que motivava cor freqiiencia a abertura de espago na
midia. Como comentavamos, na saudosa Docegeo, "de medico, de ge-
6logo e de louco, tudo mundo tem um pouco", ou melhor seria dizer,
para acompanhar o nosso subdesenvolvimento: "todo mundo tem um
pouco de garimpeiro".
Os recursos minerals, corn as mudangas ocorridas nas filtimas
tres d6cadas, perderam o seu component estrat6gico, transfor-
mando-se em simples commodities [mercadorias], com pregos im-
postos pelo mercado, com mio de ferro e nio de ouro. As ind6s-
trias, apesar de todo o desenvolvimento tecnol6gico, reciclagem,
etc., permanecem dependents dos insumos minerals assim como
o home continuard sempre dependent da producgo agricola
para a sua sobrevivencia. Mas, mesmo com essa dependencia, os
produtos de origem mineral tnm sido submetidos a um consideri-
vel aviltamento de seus pregos.
Tudo isso fez corn o setor perdesse o pouco espago que possuia
na consciencia national, deixando de ser uma das
prioridades political dos governor, praticamente
desaparecendo das agendas da imprensa.
Mesmo entire os profissionais de geologia,
pouco discute-se sobre a importancia do setor
para o desenvolvimento da sociedade. Entre os
mais velhos ha um certo desalento pelos so-
nhos nio concretizados, bem como pela politi-


AGOSTO/2000 AGENDA AMAZONICA 7







ca imediatista, com objetivos essencialmente
financeiros, dos tempos atuais. Com os mais <
novos, esse tipo de discussao ja esteve dis-
tante desde os bancos escolares. Ha uma ou-
tra realidade professional, com uma filosofia
mais globalizada, voltada essencialmente para
a pr6pria sobrevivencia e o sucesso pessoal. .,,-r-.
Estamos muito distantes dos tempos de -
implantacgo do Projeto Ferro Carajas, quan-
do boa parte da sociedade brasileira, com participagio marcante
dos profissionais da imprensa, mobilizou-se para a sua discussao.
Embora em plena ditadura military, com resquicios do terrorism
dos pores da caserna, houve um debate bem mais amplo do que
o havido por ocasiao da privatizagAo da CVRD, assim como das
companhias telef6nicas, na plena democracia em que vivemos.
Quanto aos resultados, sua andlise 6 prejudicada em fungAo
da situagio geogrifica e do moment hist6rico de implantagco de
cada projeto.
A regiao entire Serra do Navio e Macapi, na d6cada de 50,
correspondia a um vazio demografico, sem presses sociais, cor a
pequena populagao distribuida em pequenas propriedades pecuari-
as. Assim, toda a infra-estrutura construida destinou-se apenas ao
atendimento da produgAo do min6rio de manganes, do seu trans-
porte e embarque nos navios, sem nenhum impact direto sobre a
populagco. Apenas, eventualmente, utilizavam-se os trens da Estra-
da de Ferro do Amapa para ir at6 Porto Grande, ou visitar algum
parent que trabalhava em Serra do Navio.
A geragio de algumas centenas de empregos, o pagamento de
impostos e programs de desenvolvimento da Caemi contribuiram para
pequeno progress do antigo territ6rio. Mas o projeto constituiu-se
num verdadeiro enclave, cor certas semelhancas com o da minerag~o
de bauxita no Trombetas.
A regiio de CarajAs, por ocasiao da abertura da mina de
ferro, ja estava sofrendo importantes transformagOes sociais, eco-
n6micas e ambientais. MarabA e Conceigao do Araguaia, pequenas
e sonolentas cidades da 6poca da descoberta das jazidas de ferro,
comegavam a sofrer um vertiginoso e desorganizado process de
crescimento principalmente a primeira. O surgimento de novos
nicleos populacionais RedengAo, Rio Maria, Xinguara, Curion6-
polis, Parauapepas, etc. motivaram o desmembramento dos anti-
gos municipios.
Tradicionalmente receptora de maranhenses, a partir de Impe-
ratriz, pelas facilidades de navegagAo do rio Tocantins, passa a sofrer
uma enorme pressAo social, recebendo migrants tambem de outros
Estados. O atrativo do emprego nos grandes projetos Tucurui e
Carajas -, mas principalmente a posse da terra e o ouro dos garimpos,
promoveram uma fantdstica corrente migrat6ria, que foi facilitada pela
malha rodoviAria aberta na d6cada de 70 Transamaz6nica, PA-150,
PA-257 e PA-279.
Tudo isso faz com que a andlise dos resultados sociais do Projeto
Ferro Carajas seja bem mais complex. NAo resta dxvida que ele afetou
um n6mero bem maior de pessoas, seja pela infra-estrutura criada na
region basicamente transport e energia -, bem como pela injegao
de recursos financeiros, que possibilitaram a criagao de atividades eco-
n6micas de apoio, com conseqiuente geragco de empregos indiretos.
Alem disso, os empregos gerados e os impostos pagos foram bem mais
expressivos do que no caso do Amapa.
Por outro lado, como a implantacgo desse projeto, com tal mag-
nitude relative, ndo foi acompanhada por political complementares,
que balizassem o desenvolvimento harm6nico da regiao, ele acaba
sendo julgado tambem como um dos agents motivadores do caos
social implantado.
Entretanto, uma analise isenta certamente vai nos levar A
conclusao de que, mesmo sem atingir os resultados sociais deseja-


dos, o projeto Carajis foi o que motivou mai-
ores ag6es de desenvolvimento, entire os gran-
de projetos da Amaz6nia.
Nao ha duvida de que, no process de j
ocupacgo da region, a posse da terra foi a maior
geradora de conflitos, que ate hoje esperam
S por uma solugAo.

A Icomi encerrou o contrato do
manganes antes mesmo do prazo final porque a jazida se
exauriu. Teria sido possivel escrever a hist6ria desse pri-
meiro grande projeto mineral da Amaz6nia diferentemen-
te do que aconteceu nesse meio s6culo? De que maneira?
Qual o saldo final da hist6ria?
A arte de rescrever a hist6ria 6 tarefa muito dificil, porque sem-
pre irao faltar alguns elements do cendrio do passado, impossibilitan-
do o entendimento de todo o process.
Para que a hist6ria fosse bem diferente, teriamos que partir da
premissa de que o Brasil, na 6poca, ji fosse um pais com poderoso
parque industrial, com capacidade financeira e cor competencia poli-
tica para construir o seu pr6prio desenvolvimento socioecon6mico.
Sempre estivemos muito long de tudo isso, embora sonhissemos que
seria possivel chegar li.
As ocorrndcas de manganes foram descobertas na d6cada de 40, por
M :o Cruz, um explorador da regiao, numa Amaz6nia totalmente desco-
nhecida, isolada, e at6 certo ponto desprezada pelo restante do pais -
talvez fosse at6 melhor que assim continuasse, diante dos crimes sociais e
ecol6gicos, que foram cometidos em nome de seu desbravamento. Por r
caminhos nio totalmente conhecidos, os dep6sitos de manganes acabaram
sob o control de um pequeno empresdrio de Minas Gerais, Augusto Antu-
nes, que nio tinha recursos financeiros suficientes para a sua explotago.
Vivia-se o period mais quente da guerra fria do p6s-guerra. A ,
importancia do manganes para a produgao do ago, com a tecnologia
da 6poca, era bem maior que a de hoje. Havia poucas jazidas de
mangan&s no mundo ocidental, nao estando nenhuma delas em terri-
t6rio dos EUA, enquanto que a antiga URSS detinha reserves conside-
rdveis. Portanto, o minerio de manganes possuia um considerdvel
component estrat6gico, particularmente para os americanos, cujo
governor definira political especificas, para o control de sua produ-
gAo no ocidente e a manutengdo de estoques reguladores em seu
territ6rio. Em decorr&ncia, o minerio de manganes, na 6poca, era
bem melhor remunerado do que hoje.
Duas das maiores sider6rgicas americanas, com o apoio politi-
co de seu governor, interessaram-se para dar o suporte financeiro e
tecnico e associar-se ao empresario mineiro: a poderosa United
States Steel e a Bethlehem Steel. A primeira, cuja esclerose admi-
nistrativa ji comegava a se manifestar, acabou sendo derrotada, pelo
excess de exigencias.
Assim surgiu a Ind6stria e Comercio de Minerios S.A. Icomi,
uma associagao entire a Bethlehem Steel e a Companhia Auxiliar de
Mineracao Caemi, do empresrio Azevedo Antunes, que deu inicio a
mineragao em Serra do Navio, na segunda metade da d6cada de 50.
Aos poucos, a empresa americana afastou-se da gestao adminis-
trativa e operacional do projeto. Alguns anos mais tarde, quando novas
importantes jazidas de manganes foram descobertas no ocidente e o
min6rio de manganes comegava a perder prego e sua importancia es-
trat6gica -, vendeu para a Caemi a sua participacgo acionAria.
Tentar rescrever a hist6ria corn outro enredo, dadas as premissas
da 6poca, s6 se a jazida tivesse permanecido intocada. E ai cairiamos
numa outra realidade de mercado, que dificultaria bastante a implanta-
cgo do projeto, pelo menos com as caracteristicas da concepg~o origi-
nal: mina, ferrovia, porto e vilas de apoio. Certamente, o valor presen-
te da jazida seria insuficiente para justificar sequer a construgao dos
quase 200 quil6metros de ferrovia.


8 AGOSTO/2000 -AGENDA AMAZ6NICA






Assim, embora critics da nossa realidade, nao podemos ser sec-
trios quanto ao destino da produoo do manganes do Amapd. A jazida,
hoje, teria um menor valor real, e a geragAo de resultados seria menor.
Tudo, corn o agravante de que ainda nao aprendemos a criar e geren-
ciar political que possibilitem o aproveitamento das riquezas do subso-
lo, como um dos agents motivadores de um desenvolvimento socioe-
con6mico sustent~vel.
Restaria, entio, deixar a jazida adormecida em bergo esplendido,
at6 que tiv6ssemos uma realidade corn maior competencia political, mas
sempre correndo o risco do mindrio de manganes perder importAncia
na produgFo industrial.
Como console, ou advertencia, conv6m lembrar que nos terri-
t6rios de muitos pauses, inclusive nos bem desenvolvidos e mesmo
nos antigos paises socialists -, ha crateras e galerias de jazidas exau-
ridas, abandonadas em locais ermos, que nada contribuiram para o
desenvolvimento local. HA necessidade de que, ao lado de political
adequadas, a regiao tamb6m possua outras potencialidades e aptid6es
que possibilitem um desenvolvimento integrado, tendo a mineramdo
como agent motivador.
Mas nao devemos esquecer que o aproveitamento dos recursos
minerals sempre gerou riqueza para os paises corn uma political consis-
tente de desenvolvimento industrial, quer as jazidas estivessem, ou
nao, em seus territ6rios.

Fa4a um paralelo entire a exploraVto de Carajis em 1985
e agora.
A comparacgo entire as duas 6pocas vai ser influenciada pelos
seus cendrios politicos. Em 1985, estAvamos saindo de uma ditadura
military. Havia a ilusao de que num regime democritico senramos capa-
zes de resolver os nossos principals problems. Ja se falava na Assem-
bl6ia Constituinte, que recolocaria o pais no estado de direito, e criaria
os instruments necessrios para nos tomarmos socialmente mais justos.
Nesse clima, estava comegando a produco do min&rio de ferro e
de manganes de Carajis. Tinha-se a expectativa de que o inicio da
exploramo das riquezas minerals, com a disponibilidade da energia de
Tucurui, seria o ponto de partida para um consciente process de de-
senvolvimento da regiao.
Hoje, se 6 verdade que avangamos na democracia e na garan-
tia dos direitos individuals pelo menos para os bem nascidos -,
estacionamos ou at6 retrocedemos, em alguns casos, em relagdo aos
principals indicativos sociais do pais. Mais do que isso: a populagao
brasileira estA comegando a ficar cansada, depois ter conseguido o
seu principal objetivo politico a democracia -, e derrotado o -
aparentemente pior inimigo econ6mico, a inflagao. O pouco que
a economic avangou, nesses 15 anos, nada refletiu em melhoria
social do pais, ou seja, o que se conseguiu continuou sendo repar-
tido entire os mais ricos daqui e de fora, principalmente atrav6s do
pagamento dos juros das dfvidas.
Foram queimados quase todos o cartuchos politcos: o populista,
o salvador da pdtria e o soci6logo. E tudo ficou como antes, cor o
poder nas mros dos que mandavam no pais desde os tempos dos mili-
tares. O brasileiro esta comegando a deixar de sonhar e a resignar-se
com o seu triste destino. At6 quando?
Nao resta dcivida de que a regiao sob influnncia de Carajas passou
por profundas transformaa6es econ6micas, mas ficamos distantes do tipo
de desenvolvimento que poderia ter sido conse-
guido, cor melhor gestdo das questoes sociais e
da ocupacgo do espaco. Questiona-se se houve,
ou nao, um saldo positive do ponto de vista soci-
al e ambiental. Houve cuidados ambientais rigi-
dos dentro da drea do projeto e liberalizaco to-
tal, por omissdo dos governor, na sua drea de
influencia. ...
Na questdo da minerago em si, foram --


conseguidos sensiveis avangos. A CVRD, ainda como estatal, conso-
lidou os mercados para o min6rio de ferro, gragas a sua excepcio-
nal qualidade. Jd atingiu a produgco de 50 milh6es de toneladas
por ano, com um total acumulado da ordem de 600 milh6es de
toneladas. Tamb6m conseguiu ampliar os consumidores para o mi-
n6rio de manganes, inclusive com produtos melhor remunerados,
para uso eletrolitico e quimico.
Foi descoberta a jazida de ouro do Igarap6 Bahia. A producgo
acumulada de sua mina, que completou recentemente 10 anos de
atividade, atingiu o total 75 toneladas, superando o que foi retirado
pelos garimpeiros em Serra Pelada. A jazida de ouro de Aguas Cla-
ras, cor menor potential e sat6lite de Igarap6 Bahia, tamb6m foi
colocada em produgao.
Houve uma revisdo da geologia de Carajas. A introdugo de no-
vas tecnicas de pesquisa e de processamento das informag6es, bem
como o treinamento das equipes da Docegeo, a partir de 1991, possi-
bilitou o inicio do 30 ciclo de descobertas em Carajas.
O primeiro ciclo, de 1966 a 1973, foi baseado quase que exclu-
sivamente na identificacgo dos indicios diretos no campo. Assim foram
descobertas as jazidas de manganes Sereno, Buritirama e Azul -, de
ferro Serra Norte, Serra Sul, Serra Leste e Sdo F6lix e de niquel -
Vermelho, al6m dos dep6sitos de Puma e Onga.
O segundo, de 1974 a 1995, ji contou com a utilizagao de alguns
m6todos indiretos de pesquisa, geoquimicos e geofisicos, que possibi-
litaram a descoberta de dep6sitos sub-aflorantes. Neste caso estAo as
jazidas de ouro de Andorinhas, Igaramp Bahia (oxidado) e Aguas Claras,
e as de cobre e ouro do Salobo e do Igarap6 Bahia (primdrio), alem
dos dep6sitos do Pojuca.
O terceiro, a partir de 1996, foi baseado no novo modelo para a
geologia de Carajas, construido a partir da integramPo dos dados da
regiao, principalmente dos levantamentos aeromagn6ticos e aerocinti-
lom6tricos. Essa nova interpretacgo permitiu a caracterizagdo da Pro-
vincia Mineral de Carajms como uma grande anomalia da crosta terres-
tre, de origem vulcinica e idade arqueana, cor elevado potential para
dep6sitos de ferro e de cobre, corn ouro associado.
Foi possivel selecionar, cor a metodologia utilizada, uma serie
de alvos promissores para a descoberta de dep6sitos de cobre-ouro.
Assim, surgiram as descobertas do Alemno, do Sossego e do Cristalino,
estando outros alvos ainda em fase de avaliagco.
A revelacgo desses novos dep6sitos confirm a preocupacgo
dos dirigentes e tecnicos da CVRD e da Docegeo, por ocasido da
privatizagdo, quando o BNDES havia estabelecido, a partir de um
process viciado de avaliagco, que o valor present do potential
ainda nao dimensionado de Carajas era "zero". Atrav6s de incon-
fidencias e habilidade political de alguns dirigentes, foi possivel o
estabelecimento de um contrato de risco entire a CVRD e o BN-
DES. Ficou acertado que 50% de tudo que vier a ser descoberto,
em Carajis, tera o control do BNDES, em nome da Uniio. As
novas jazidas incluidas nesse contrato s6 poderdo vir a ser total-
mente privatizadas ap6s a sua valorizagco. Foi a Oinica vit6ria,
entire muitas derrotas, conseguida durante o process de privati-
zagco da CVRD.
Em resume, a produgco do ferro e do manganes consolidou-
se, e foi iniciada a mineracgo de ouro em Carajas. O conhecimen-
to geol6gico tambem avangou, criando novos processes de pros-
pecgco e de pesquisa para acelerar a desco-
berta de novas jazidas, principalmente de
cobre-ouro.
Entretanto, ainda nao se conseguiu uti-
lizar o polo mineiro de Carajas como um ca-
talisador para o desenvolvimento socioeco-
n6mico harm6nico da regiao. Do ponto de
-' --- vista ambiental, a ocupagao fora da drea do
projeto foi um desastre. A


AGOSTO/2000 AGENDA AMAZONICA 9







MEMORIAL DO COTIDIANO


Direito
O ponto alto da comemoragAo, em 11 de agosto de 1960,
da instituicao (133 anos antes) dos cursos juridicos no Brasil,
no pr6dio da Faculdade de Direito do Pard (no largo da Trinda-
de), foi a passage da chave por um bacharelando prestes a se
former a um aluno de serie anterior. Por isso mesmo, a come-
moracao se chamava de "festa da chave", simbolizando a trans-
ferencia do patrim6nio da instituicgo e das normas de conduta
estabelecidas nas relag6es entire os alunos e a diregao da facul-
dade entire alunos que saiam ou continuavam. Em 1960 o ba-
charelando Ant6nio Candido Monteiro de Brito entregou a cha-
ve, em tamanho ampliado, io acad8mico da 41 serie Margal
Marcelino da Silva Filho (depois director do Banco da Amaz6-
nia). Alem dos dois estudantes, falou na ocasido o represen-
tante da congregacgo, Edgar Viana (ja falecido). O director da
Faculdade era Aloysio Chaves, que viria a ser governador do
Estado, entire outras fung6es p6blicas.


Vanguarda
Benedito Nunes, ainda academico de direito (hoje, 6 o mais
important intellectual em atividade no Para), aos 22 anos, foi a
principal atracao das comemoragOes em torno de SHo Tomas de
Aquino, o padroeiro dos estudantes, em Belem, em 7 de marco
de 1952. Pela primeira vez as homenagens nao seriam realizadas
sob a responsabilidade do semindrio arquidiocesano (onde estd
agora o museu de arte sacra, ao lado da igreja de Santo Alexan-
dre), como nos anos anteriores. AJUC (Juventude Universitaria
Cat6lica) e a JEC (Juventude Estudantil Cat6lica) assumiram o
comando, ampliando a programa~go para o lado mais secular e
nao apenas religioso.
Ela comecaria com a traditional missa solene, celebrada
pelo arcebispo, dom Mdrio de Miranda Vilas Boas, de manhd
bem cedo. No final da tarde, Benedito Nunes faria sua palestra,
sob o tema "A atualidade de Sao Tomas de Aquino", na sede da
Agco Cat6lica (o predio que abriga a Radio Nazare, na avenida
governador Jos6 Malcher). A noite, haveria sessdo solene no Se-
minario de Bel6m, corn nimeros de m6sica e discursos do padre
Apio Campos (depois c6nego e hoje professor aposentado), de
Rui Coutinho, em nome dos seminaristas, e do entao academic
de direito (hoje juiz aposentado) Roberto Santos, pela JUC.
A igreja estava, entao, na linha de frente. Ou, como se dizia
mais prosaicamente, na crista da onda. A onda arrebentou.


Radical
Para protege os lagos artificiais existentes nas pracas Ba-
tista Campos e do Palicio (este, ja completamente seco) da
agio dos vAndalos, o prefeito Lopo de Castro (que morreu pou-
cos dias atris) decidiu recorrer, em 1958, a uma providencia
radical: mandou buscar 150 poraques. A missio dos peixes ele-
tricos era impedir que qualquer pessoa viesse a se banhar nos
lagos, "construidos unicamente cor o objetivo de embelezar
os nossos logradouros p6blicos" e nao para servir de piscina

10 AGOSTO/2000 AGENDA AMAZ6NICA


"a marmanjos". O choque de um poraqu6, se nao mata, seria
suficiente para desestimular qualquer banho nao sancionado
pela autoridade municipal.
Dois anos depois, a agdo do prefeito era contra os "donos
de capinzais e vacarias", que se utilizavam de carrogas com ro-
das de ferro. Trafegando pela cidade, elas causavam "serios es-
tragos em virias art6rias" da cidade, principalmente naquelas que
estavam sendo asfaltadas. A ordem era apreend&-las. Assim, seus
proprietirios se veriam obrigados a modernizar suas carrogas,
substituindo as antigas rodas de ferro por "pneumiticos".


Coretos
Os moradores mais antigos de Bel6m nao se cansam de
lamentar o desaparecimento, ate hoje nao bem explicado, dos
coretos da Praga Justo Chermont, o popular largo de Nazare. Um
dos prefeitos que baixou sobre a cidade, trazido pelos ventos
intervencionistas dos tecnocratas e burocratas de Brasilia, teria
levado consigo pelo menos um desses coretos e o instalado nos
jardins de sua residencia, em Petr6polis. Ao lembrar essa hist6-
ria, todos suspiram pela perda.
Mas nao era bem assim em 1958, quando se desencadeou
uma polemica em torno dos coretos, se deviam ser restaurados e
mantidos na praga ou demolidos. Rodrigues de Sousa estava no
segundo grupo. Numa carta a Folha doNorte, ele investiu sobre os
coretos e o Pavilhao de Vesta, acusando a este ("de grandes pro-
porg6es, nas parties baixas e nas linhas superiores parecia uma
agigantada 'marquise' sobre um redondel") de roubar "a perspec-
tiva do majestoso temple", a basilica de Nossa Senhora de Nazare.
A praga precisaria "adquirir novo aspect com a retirada dos mons-
trengos que tanto a desmerecem: os coretos inexpressivos e ini-
teis, o bojudo cliper e, finalmente, o Pavilhao de Vesta!".
Por linhas tortas, essa estetica torta acabou por ser aten-
dida, tortuosamente.


Universidade
Exatamente 40 anos atrds os estudantes paraenses organi-
zaram um ato pidblico (na 6poca chamado sempre de comicio),
no Largo do Rel6gio, bem em frente as sedes dos governor esta-
dual e municipal, para explicar a greve que estavam realizando e
a crise da Universidade do Para, sua motivacao. Na concentra-
cao do dia 17 de agosto de 1960, os oradores foram, pela ordem:
Manoel Cameiro, president do Diret6rio Academico de Filoso-
fia; Itair Silva, estudante de direito (depois secretario de Estado e
juiz do trabalho); Francisco Costa, estudante de medicine e se-
cretirio-geral da Unido Academica Paraense; Olegirio Reis, pre-
sidente do Diret6rio Academico de Economia (foi superinten-
dente adjunto da Sudam) e Ramiro Bentes, president da UAP
(secretirio de Estado e candidate A prefeitura de Belem em 1996).
Como dirigente da UAP, responsivel pela organizaqgo do protes-
to, Ramiro apontou o grupo liderado pelo entao director da Facul-
dade de Medicina (e, em seguida, reitor), o m6dico Jos6 da Sil-
veira Neto, como o responsavel pela crise que a Universidade
estava vivendo. E continue a viver ate hoje.







Gatunagem
Corn o titulo "Sr..gatuno", a Folba doNorte de 30 de janeiro
de 1952 publicou o seguinte anincio:
"Pedimos ao gatuno que roubou um palet6 de tropical cin-
za, de cima do balcao da Alfaiataria Pinto, o obs6quio de man-
dar entrega-lo nas Lojas Salevy, que seri gratificado. Garantimos
que nao seri denunciado. Trata-se de uma fazenda que nao hi
mais na praca. Dai a questdo que fazemos de reav6-lo. Se V. S,
sr. gatuno, tem que vend-lo a alguem, venda-o ao pr6prio dono,
nas Lojas Salevy. Caso nao Ihe seja possivel tender ao nosso
apelo, queira fazer a gentileza de roubar a calga tambrm. Na sua
visit as Lojas Salevy, como qualquer outra pessoa, V. S. recebe-
ri um taldo numerado, absolutamente gratis, para concorrer ao
sorteio de um poderoso radio 'Telefunken', a correr pela primei-
ra extragdo de fevereiro da Loteria do Estado."
Merece premio de propaganda, nao merece?


Boate
No final de 1952, Bel6m ganhou, finalmente, a "boite ele-
gante que tanto vinha reclamando": "Um grupo de figures pres-
tigiosas nos circulos sociais e industrials de nossa terra, com-
preendendo a necessidade de um ponto de reunido noturna
para o nosso grand mond [sic], idealizou a criacgo da boite,
e Nagib Homci, de pronto, cedeu o palacete de sua residencia,
para ser instalado o novo centro de divers6es", anunciava o
noticidrio da imprensa.
Assim nascia a boate Oasis, na avenida Nazar6, "sem
exagero a mais linda do Brasil", segundo o an6ncio da inau-
guragio, que prometia: "Artistas dos mais renomados do ri-
dio e do teatro, nao somente nacionais mas centro-america-
nos, ji estdo contratados e uma [sic] 'jazz' das mais brilhantes
da metr6pole, a que atuava na boite 'Nightand day' [sic], do
Rio, aqui estari". A


HISTORIC

0 grande


predio


sem


festa
No dia 1' de marco de 1952, os
pri\ ilegiados proprietarios de apar-
iamenios no edificio Renascenca, o
mais sofisticado de Belem na epo-
ca, cor 1I0 andares, em plena a\e-
nida Presidence \'argas (ainda 15 de
Agosio), na esquina da Praca da Re-
publica, no cenrro da cidade, rece-
biam scus imov6eis. Par registrar a
data, um discreto anuncio na Folha
doNofe insinuala razoes para nao
haver festas, mas flca a nurn conti-
do protest:
"Foi ontem entregue aos seus pro-
prietirios, o Edificio 'RenascenCa',
construido pelo Engenheiro I. E.
LE\'Y [Itilah Elezer Leil' e de in-
corporacao da Imobilliria Sul Ame-
ricana Ltda. O ato foi intimo, nao
tendo havido festa, visto a Imobili-
aria nao mais querer construir em
Bel6m, por motives alheios a sua
vontade. t just salientar que o Edi-
ficio 'Renascenca' 6 um predio que
honra os seus idealizadores e a nos-
sa capital".


AGOSTO/2000 AGENDA AMAZ6NICA 11


- LIICI~ ~r~p[f~ ~I -~ ~e~Ll --rrlp~rr.


r i I I --- 1- --3 -T-~ 11 III~I1I~IIIIII~' 1I~CI~IIIIBI







HISTORIC



Quando o


doutor


Gabriel


era apenas


medico



Seis meses depois que a primeira equi-
pe de cirurgia cardio-vascular comecou a
trabalhar no Para, no Hospital dos Servido-
res do Estado, a Folba do Norte de 6 de
marco de 1967 abriu para ela uma pagina
inteira. Nesse period, nove cirurgias ja
haviam sido realizados, preparando os
medicos para um novo tipo de operaco,
que executariam em seguida: a substitui-
gdo de vilvulas mistral e a6rtica. Valerio
Valente, o autor do texto, saudava a equipe
chefiada por Almir Gabriel e integrada por
Elias Kalume, Jorge Loureiro, Jonas Moreira,
Jose Virgolino e as enfermeiras Socorro (hoje
primeira-dama paraense) e Aurenice.
Em meio a explicac6es tecnicas e rela-
tos sobre os dramas humans vividos, o
reporter ja notava que uma bagana de ci-
garro abandonada, mas ainda fumegante,
era "sempre convite irresistivel para que o
Dr. Almir Gabriel acenda, no antigo, um
novo cigarro. E enquanto o s6lido nariz
libanes do simpAtico tabagista se encarre-
ga de expelir a poderosa tragada, a boca,
onde facilmente se identifica a presenca
iberica, vai-nos revelando alguns fatos
desconhecidos do grande p6blico".
0 future governador reconstitui, entdo, seu
grande sonho ap6s a formatura, "especi-
alizar-se em cirurgia tonrcica. Pleiteou virias
bolsas de estudo para o sul do pais. E todas
Ihe foram negadas, sistematicamente".
Prossegue o texto, que serve de tes-
temunho de uma epoca, que ji parece
remota:
"As raz6es dessas negatives tinham uma
s6 motivago: ainda que nenhuma rela-
co de parentesco houvesse, seu nome
parecia vinculd-lo a conhecido politico
oposicionista, coisa que ndo era perdoa-
da pelo situacionismo entdo reinante no


EM CADA CORAAO 0 UM PECADO
'i..bA.ValltetoMtal ?FmipAth A. PA53U.W


AcWAIO, 0 r ORT DMA
-M 0 M- ,iJ5 6aa. ail .,iiiilr **
t. M~- m =* i1 -
.aIa.0Onat talt~a.
UN. UM ** uwW M I **oV* ** *
* .ad s..sa-i a- ise

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- .t .ta Hl aai! .. a- ,*.. AikM- fM*




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mad ,nat. a.t"* a-. sa* a. at a. *C


D. Rilt, a quo dkscabhit Mu novo mundo


- a -M i~>Wf^i<> 2at5 B" y~ C ^u. daa nmaad'inii
.aea oauaaararaininflaaa a...,a;mmana..a..a..aa
^"^-irr CSW A .. --a-a 4. -aU-. -a a mW*0a .ml a.a
a... ....a. aqa-& a.a a.aa a aSi* vaa d
S~~-nUkrDr a. ~ l
ad.- a...aOa..,....,' a 53S"2sa < a
qAPfn-.tae* aaa. daam5
r n.*W.nt. a. aaa-a..,c~aa. -r
an ....Sra~~n1 a.ma, ,.a& .aa4;.a .4... ...a.aa td..
as lI da.nt -m a ada.. at. ~a-a.. a- sa...m.
..aa'.a,5.aa5 ~ ~*4atlda,.a..4aA-
a- ~ ~ ~ II haaa ,dm U -m,.. m.aata A
at..nL*r=; U~a mI*


a,. -. .as... lll*a ats,. aaa.

.aaaamdId,-.Mdd ,aan. .aaa. ..U-.dl
..a.a. t.,-d..a -- aaaa.aaa a...aataa.
a.... ...~- a.at daU aa- S--an.-.n


Para [referencia ao deputado federal e de-
pois senador Gabriel Hermes, jdfalecido.1.
Para apanh4r a grana entrei para a
PetrobrAs. Estive 4 meses na Ilha da Trin-
dade, na foz do rio Madeira. Um dia vi
que ja tinha alguns trocados no bolso e
me mandei para o Rio de Janeiro. Cheguei
ao Conjunto Sanatorial de Curicica (Hos-
pital-Escola do Servico Nacional de Tu-
berculose, da Guanabara) cor a cara, a
coragem e a maleta. La, por generosidade
de seu director, fiquei encostado at6 que -
3 meses depois um fato veio modificar
minha vida. Interna no hospital estava uma
gestante. Um dia, vitimada por hemoptise
fulminante, more esta senhora. Cor um
velho bisturi, que usivamos apenas para


is d..a u~feruirat *I hun. en uletrdaku
a...- -- -.a -..a-a a a... ..
~:~="C""""~" ~ a mnVaata_..aa...s
aa~~naa-,=aua.a aain..N..
anna, daa..a.. aa ,..t.a-aaUaa..aa


CrS.,~,. .m*u~aa~
aI~mIDa.., I 1a1aa a*a f.*. .ad .. .t -- .
- am. .a.aaa alaal ... a. l-- ,..aa adm~
aIa~aaaa..am..aa a... maaa.al~CI
a a~IG-at..m-a.. aCI. -- .~..a


-,arnurC~aa..maaLm a-=ITaaaa...a.*
.dtf. aa.aa....a.Ca. ..,.a ana -I
Aim a- a .... --.a4. ..att aaaa
a ... aa~~ ..a --a -c~u-" a-aa,a5.*,aaar


A equipd cirurgi cardi.viculwr


apontar lIpis, fiz o corte e retire a crianga.
Empregando a massage artificial con-
seguimos salvar a crianga. E foi assim que
nasceu a pobre Gabriela, sem cravo e sem
canela. O caso teve repercussdo jornalisti-
ca, sendo amplamente noticiado pelos
principals didrios do Rio de Janeiro. No
dia seguinte o Diretor do Servigo Nacional
de Tuberculose me concedia a sonhada
bolsa. Em Curicica fiquei 7 anos. La co-
nheci a Socorro, que era enfermeira e com
quem me case.
E como aconteceu este amor?
Eu conhecia o seu modo de traba-
lhar. Ela conhecia o meu. Acho que o
nosso amor nasceu de nosso comum amor
pelo trabalho".


Agenda AmnazOnica
Travessa Benjamin Constant 845/203- Belnm/PA 66.053-040 e-mail: jomal@amanon.nm.br Telefones: 2237690/2417626 (fax) Produ4o gifica: luizantoniodefariapinto
G6lFe/8/02 7 li
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