Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00011

Full Text









4 amaz onica"


ANO I No 11 BELEM, JULHO DE 2000 R$ 3,00


LZ cio FlI vio Pinto


~~1~~ -


0 dia da

descoberta


H 4 33 anos, o ge6logopaulista Breno Augusto dos San-
tos, entdo corn 27 anos, comepava a entrarpara a
histdria contempordnea da Amaz6nia: no dia 31 de
julbo de 1967, quandofazia o reconhecimento aereo
da drea escolhidapela maiorsiderargica do mundo, a americana
United States Steel, para aquele que viria a se tornar o mais impor-
tante.programa depesquisa mineral da regido, ele teve quefazer
umpouso de emerggncia, com seufrdgil helic6ptero, em uma das


clareiras daqueleplatM. Antes de retomaro v6o, Breno coletou amos-
tras da rocba.Jd entdo tinha esperanpa defazer uma boa presa.
Mas ndopoderia imaginar que, corn aquele gesto simples, estava
descobrindo a melhorjazida de min6rio deferro doplaneta, em
Carajds, no corado do Pard, 500 quil6metros a sudoeste de Bel6m.
Depois doferro, corn reservapara quatro sdculos de extraado
intensive em mina a ceu aberto, surgiram o manganes (que era o
grande objetivo da USS e de todas asgrandes siderurgicas dos Esta-
dos Unidos, carentes dessa matiria-prima), o niquel, o ouro e o
cobre. E ainda deverdo aparecer outras riquezas, jd que apesquisa
em detalbe mal comepou. Aquela da qual Breno participou pode
ser considerada uma das mais bem sucedidas de toda a hist6ria da
geologia international. Pois gerou seu maiorfruto jd noprimeiro
dia de campana.







H oje, sob opeso (meramentepsicol6gico) dos 60 anos, Bre-
no reflete criticamente, com alguma dose depessimismo
perpassadapor muita energia, sobre o ricoperiodo da
hist6ria recent do Brasil, num de seus eixos mais decisivos, afron-
teira amaz6nica, da qualse tornou um dos atores destacados. Pro-
cura absorver o impact da aposentadoria, devida e merecida,
masque o colbeu numafase extremamenteprodutiva, no contrapd
daprivatizagdo da Companbia Vale do Rio Doce, a qual serviu
durante 26anos, dirigindo em vdrios niveis a subsididria de
pesquisa geoldgica da empresa, a Doecegeo, e da qual, por isso
mesmo, era um dos simbolos, na linha defrente. Para que uma
nova bistdria se consolidasse, a anterior foi aterrada, nessa estra-
nha e desgastante mania brasileira de recomegar quase do zero
para ndo manteros compromissos dopassado, isolando a memdria
coletivapara a ela dar novo uso, ou desuso.
DeNiter6i, onde vive atualmente com afamilia, Breno con-
cordou em respondera um inquerito que the enviei. Demorou mui-
to a comepar o trabalho, mas, uma vez iniciado, dedicou-se a ele
corn o mesmo entusiasmo desempre, que o notabilizou no mundo (e
submundo, para serfiel ao m6vel da sua cidncia) da geologia e dos
mindrios. 0 resultado j um dos mais valiosos documents sobre a
bist6ria da mineragdo naAmaz6nia.
Com conbecimento defato e dominio da situagao, Breno
deverd obrigarseus leitores a retomar um tema que, nos dltimos
anos, tem sido deixado de lado. Talvezpor um modismo intelec-
tual que, ao ser importado de outros centros do saber, deixa de
levar na devida conta a realidade amaz6nica, especificamente
a do Pard. Para o bem oupara o mal (oupara ambos simultane-
amente), o subsoloparaense tem muito mindrio. Isso serd bom se
souber aproveitar inteligentemente esse recurso natural. Serd ruim
se, apartirda rentncia a razdo e a inteliggncia, transferirpara
terceiros opoder decis6rio sobre essepotencial. Breno repde a
questdo na agenda do dia. Quem o contornar, perderd um convi-
te unico de se incorporar a uma das linbas decisivas dofuturo
da regido e do Estado.
Paulista de Olfmpia, Breno se graduou em geologia pela
Universidade de Sdo Paulo, na turma de 1963. Em setembro do
ano seguintejd estava em Serra do Navio, no Amapd, participan-
do doprimeiro capitulo da mineraago organizada na Amaz6-
nia: a exploraVdo dasjazidas de mangans pela Icomi, empresa
formada apartir da associaado da multinational americana
Bethlehem Steel com ogrupoAntunes, deMinas Gerais. Em 1967
deixou a Icomi e assumiu o Projeto Sudeste do Pard da Compa-
nhia Meridional de Mineracdo,
a razdo social no Brasil da US
Steel. Nelapermaneceu atW 1971,
comandando as equipes que re-
velaram o minerio deferro e o
mangands deBuritirama, ain-
da naprovincia de Carajds.
Nos 26anosseguintes, Bre-
no esteve vinculado a Docegeo,
chegando ao cargo mdximo da
empress, napresidonciaporsuas e" -'.
vezes. Nenbuma outra apresenta a '" *.' ,


um cartel de sucessos equivalent, com uma relagdo invejdvel de
descobertas minerals: a bauxita metalargica deAlmeirim eParago-
minas, no Pard, e Tiracamba, noMaranhbo, bauxita do tipo refra-
tdrio deAlmeirim eParagominas, o cobre e o ouro do Salobo, o cobre
doIgarap Babia, todos emCarajds, oourodeAndorinhas, nosuldo
Pard, a cassiterita do Antonio Vicente, noXingu, e ofosfato doMai-
curu, em Monte Alegre. Tambm foram efetuados trabalhos depes-
quisa no mangans doAzul, no niquel do Vermnelbo, no ouro de Serra
Pelada, no cobre do Pojuca, tudo em Carajds, na cassiterita de Suru-
cucus, emRoraima, e no titdnio deMaicuru, noPard.
Fora da Docegeo, Breno foi ainda secretdrio de minas e
metalurgia do Ministrtio de Minas e Energia, entire 1994 e 1995,
e membro do Conselbo de Administragdo da CPRM (Companbia
de Pesquisa de Recursos Minerais), entire 1996 e abril deste ano.
Seu talent, como de outros integrantes de sua geragdo, se es-
praioupara a atividade acadgmica, tendo escrito vdrios livros,
o principal dos quais,Amaz6nia PotencialMineral e Pers-
pectivas de Desenvolvimento, de 1981, conquistou o Pre-
mioJabuti, da Cdmara Brasileira do Livro, na categoria de Ci-
6ncias Naturais, em 1982.
Quando conbeci Breno, 30 anos atrds, nos corredores da
Faculdade de CiWnciasAgrdrias do Pard, ondese realizava um
encontro international de geologia, do qual ele era um dos orga-
nizadores, o ge6logo ainda ndo era um atorptiblico, ao menos A
ndo o ge6logo de minas, primo entdopobre do ge6logo e do geofi-
sico envolvidos com aprospecgdo depetr6leo. A geragdo de Breno'
conseguiu encontrar opulso de sua dpoca e compreender o lugar
que lhe cabia, ndo apenas no escaninboprofissional. Alguns se '
tornaram politicos. Outros foram travarseu combat na trin-
cheira universitdria. E uma parcela transitoupor todos os cami-
nbos, em cada um delesfincando o seu marco. Como mais uma
vezficard evidence, agora nesta entrevista em srie, que comego a
publicar neste namero, o marco de Breno Augusto dos Santos e
s6lido, definitive. E ningudm tasca.
A entrevista:

Como foi aquele 31 de julho de 1967 para voce?
Faca uma descricio o mais detalhada possivel.
Era uma manhA radiosa, daquelas que ocorriam no inicio
do verao amaz6nico, quando as queimadas ainda nio enegreci-
am tudo corn a sua bruma seca. 0 temor, em voar pela primeira
vez de helic6ptero, era contrabalangado pelo entusiasmo de, fi-
nalmente, iniciarmos os nossos trabalhos de exploragao geol6gi-
ca. EstAvamos comepando a des-
vendar o desconhecido da re-
.g.. -giao, depois de mais de umrn mes
Sde mon6tonas atividades, restri-
tas construngo do acampamen-
to na ilha de Sao Francisco do
Xingu, ou relacionadas a logis-
tica de apoio.
-' 7/ / Tudo comepara quando,
em meados de julho, ao rece-
P'?- bermos as fotos areas do Pro-
V-IM, .. *. I jeto Araguaia, constatamos que,


2 JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA






apesar das facilidades da base de Sao Francisco, o local era
impr6prio para os objetivos do nosso program de exploraao.
A geomorfologia das redondezas, ao alcance do helic6ptero,
nao sugeria a possibilidade de dep6sitos de manganes. Para
leste havia serras bern orientadas, fantdsticas, corn grande po-
tencialidade, al6m de enormes clareiras, que despertavam a nossa
curiosidade geol6gica.
A pista do Castanhal do Cinzento, que acabara de ser aber-
ta pelo seu proprietario, transformara-se em excepcional ponte
para penetrar na regiao, pois estava no centro de toda a area de
interesse. Conseguida, com alguma dificuldade, a autorizacao de
seu proprietirio, tomava-se urgente a mudanca da base de apoio,
para que o program de explora.ao pudesse ser iniciado. Tudo
teria que ser levado para li: a equipe, suprimentos, equipamen-
tos e, tamb6m, os helic6pteros. Aproveitariamos o seu desloca-
mento para comegar a conhecer a geologia da region.
Nos dias anteriores tinhamos sofrido o primeiro grande susto.
Havia sido estabelecida uma ponte area, entire a base de Sao
Francisco e o Castanhal do Cinzento, utilizando o pequeno aviao
do Adao. Em cada viagem iam mercadorias e equipamentos, e
um ou dois empregados. Como havia necessidade de abasteci-
mento de combustivel, alguns v6os eram triangulares, com esca-
la at6 Altamira, para encher o tanque do aviao e transportar ga-
solina de reserve para Sao Francisco.
Numa dessas viagens triangulares, que havia transportado o
ge6logo Erasto, o pequeno monomotor do Adao nao retornou
at6 o final do dia. Nao tfinhamos divida de que algo grave acon-
tecera, mas onde? Em qual dos tries trechos? No dia seguinte
tamb6m nao houve retomo.
Nao havia outro aviao na base, e nem equipamento de
radio para solicitarmos informagAo e ajuda. Ficamos angusti-
ados e impotentes, sem nada poder fazer, e nada fazendo, s6
espreitando o horizonte, na expectativa de que algum milagre
ocorresse. Qualquer zumbido nos c6us ja nos alentava corn
uma esperanga.
Na tarde do terceiro dia, quando o desanimo da pequena
equipe era total, um bragal de Altamira, o Franciner, que possuia
uma escolaridade acima da m6dia e era dotado de uma audicao
fenomenal e que as vezes tinha at6 vis6es -, entra correndo no
acampamento, gritando que o Comandante Adao como era
conhecido pela populacao da regiao -, estava voltando. Como
nada ouviamos, julgamos que fosse uma de suas alucinag6es.
Mas aos poucos, cada um de n6s tamb6m comegou a ouvir o
suave ronco do motor, mais doce do que nunca.
Os ge6logos Ritter e Erasto, que ji se encontravam no Cin-
zento, sofreram a mesma anglistia, pois o Adao nao retomara no
dia seguinte, conforme combinado, corn o restante da mudanga.
O "Cessninha-170" (PT-AOV) realmente tivera uma pane
s6ria. 0 motor simplesmente havia parado, corn os cilindros
emperrados, mas quando Adao ja tocava a pista de Altamira.
Foram necessirios quase dois dias para que o mecanico re-
solvesse o problema. Apesar do susto, os deuses comecavam
a jogar do nosso lado. Mas, nesse clima de muita emocAo 6
que estAvamos dando inicio ao "BEP-Brazilian Exploration Pro-
gram" na Amaz6nia.


A reunilo da noite anterior havia sido um pouco tensa.
O piloto de helic6ptero, Aguiar, corn toda a sua experiencia,
argumentava que seria muito arriscado tentarmos atingir o
Castanhal do Cinzento, no rio Itacai6nas, voando em linha
reta, e sem possibilidade de reabastecimento. Estariamos no
limited da autonomia de duas horas do helic6ptero, corn o
agravante de que certamente pegariamos vento de frente. 0
piloto Adio, pioneiro no vale do Xingu, e que ja comegava
a integrar-se a nossa equipe, tudo ouvia e dava alguns pal-
pites, tentando contribuir corn o profundo conhecimento que
possufa da regiao.
Eu procurava disfargar a minha inseguranga, ante a mis-
sdo de ter que coordenar tal program de exploragdo geol6-
gica, sem nunca sequer ter voado de helic6ptero. Tolbert
quando partira para o Rio tinha procurado deixar-me tran-
qililo, ao afirmar que nao me preocupasse, que a compa-
nhia estava pagando para que aprendesse, pois ningu6m havia
feito isso na Amaz6nia. Mas, na hora de comecar, a tranqiii-
lidade desaparecera e muitos eram os fantasmas que me ator-
mentavam.
A lembranga do mapa da sala do Tolbert, no escrit6rio
da rua Anfil6fio de Carvalho, onde a Meridional tinha sua
sede no Rio de Janeiro, fez corn que eu arriscasse um palpi-
te. Na parede havia um grande painel corn antigos mapas do
IBGE, na escala de 1:1.000.000, corn destaque para a regiao
Tocantins-Xingu. Tres meses antes, por ocasiao da entrevis-
ta de admissio, ao ser informado sobre onde seria o proje-
to, bem como da utilizagAo do helic6ptero, fiquei assustado
com o vazio da regiao e a falta de apoio para os v6os, onde
os rios apareciam como 6nico guia para a orientagAo. Tam-
bem chamou minha atengAo o fato de que dois pequenos
afluentes, de rios secundirios das duas bacias o igarap6
Carapana, no Fresco, e o rio Catet6, no alto Itacaiuinas -,
quase tocassem as suas cabeceiras, indicando o tinico ca-
minho natural entire as duas bacias.
Assim, acabou sendo aceita, pelo piloto Aguiar, a rota:
Sao Francisco-rio Xingu-SAo Felix do Xingu-rio Fresco-igara-
p6 Carapand-rio Catet6-Aldeia Xicrins-rio Catet6-rio Itacaiiinas-
Castanhal do Cinzento. Toda a equipe sabia por onde voaria-
mos, o que poderia facilitar as buscas se o pior acontecesse.
A16m da seguranca, apresentava uma vantagem geol6gica, pois
na serra, que separava as cabeceiras do Carapana e Catet6,
havia uma pequena clareira, semelhante As maiores, e que
fora selecionada para pouso de reabastecimento. Poderiamos,
entAo, comeqar a desvendar os seus mist6rios.
Como o v6o total previsto era da ordem de quatro ho-
ras, quase o dobro da autonomia do helic6ptero, ficou de-
cidido que levariamos combustivel em bujoes plAsticos nos
bagageiros externos do helic6ptero. Adao nos aguardaria em
Sao Felix e na aldeia dos Caiap6s, corn combustivel adicio-
nal. Aguiar determinou que a partir de Sao F61ix, por medi-
da de seguranga, pousariamos sempre que possivel para re-
abastecer o helic6ptero, o que nos daria uma hora adicional
de autonomia, que jamais deveria ser ultrapassada, para ter-
mos chance de retorno.


JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA 3







EstAvamos sobre o Xingu, no rumo sul, e aos poucos o
apavoramento do primeiro v6o foi-se dissipando, e co-
mecei a apreciar a aventura. 0 velho helic6ptero Bell-G
(PT-CAX), possuia como cabina apenas uma bolha plistica, semrn
portas e, como cauda, uma estrutura metAlica tubular, para su-
porte do pequeno rotor, que compensava o torque do rotor prin-
cipal e garantia a diregao do v6o.
Aguiar, apesar do maior risco, gostava de voar baixo, ao
redor de 100 metros, e a experiencia era fantAstica. Corn muita
emocao observivamos a copa das arvores, os pedrais no rio e,
por vezes, bandos de araras que voavam abaixo de n6s. A au-
sencia das portas permitia que curtissemos a natureza amaz6ni-
ca na sua plenitude, inclusive sentindo os seus cheiros.
At6 SAo F61ix foi um passeio, sempre sobre o Xingu. Adao
nos esperava, conforme combinado, para o reabastecimento. Corn
o "Ate os Xicrins!..." nos despedimos, ante os olhares espanta-
dos de alguns moradores.
0 rio Fresco era repleto de pedrais, permitindo que Aguiar,
ap6s uns 15 minutes, escolhesse um bern favorAvel para o pou-
so teriamos mais 15 minutes de autonomia. Aproveitei para
coletar a minha primeira amostra no projeto, de uma rocha vul-
cAnica comum na region.
Nova decolagem e, ap6s alguns minutes, atingimos a boca
do Carapana. Agora o v6o tornava-se mais critic, pois o igarap6
era bastante estreito, muitas vezes desaparecendo sob a copa
das arvores, dificultando atW a pr6pria orientagAo.
Depois de algum tempo, Aguiar identificou um pequeno
pedral, e sob meus protests, corn um malabarismo aereo, con-
seguiu pousar o pequeno helic6ptero, corn o rotor principal cor-
tando as folhas de uma pequena embauba. Segunda amostra
coletada, de outra rocha vulcAnica.
Corn toda a sua pericia, Aguiar novamente nos colocou
no ar e, aos poucos, o Carapana tornou-se por demais estreito,
desaparecendo sob a vegetagao. A serra que correspondia ao
divisor de aguas jA era bem visivel no horizonte, e por ela nos
orientAvamos. Mas nao tinhamos a menor suspeita sobre o que
nos esperava.
Logo nos aproximamos da sua extremidade oeste e passa-
mos a sobrevoar o seu flanco norte, onde se localizava a clarei-
ra. De repente, lI estava ela, bastante ingreme nas proximidades
do topo da serra, mas aplainada mais abaixo, o suficiente para
permitir o pouso do helic6ptero.
Entretanto, quando nos prepardvamos para descer, Aguiar
chamou a atencAo para a cobertura vegetal, pois havia uma es-
p6cie parecida corn uma pequena palmeira, pouco maior que
um metro, que poderia dificultar o pouso. Anos depois, ficamos
sabendo que essa esp6cie recebe a denominagAo de "canela-de-
ema" na regiao Centro-Oeste.
Depois de escolher o melhor local, enquanto pousava o
helic6ptero, Aguiar pediu-me que olhasse para trds e contro-
lasse a cauda, avisando-o se houvesse risco de choque do
pequeno rotor corn a vegetaiao. Mas, meu olhar foi atraido
para a cobertura negra da clareira, distraf-me na inspecAo de
seguranca, e o Aguiar soltou um sonoro palavrao quando
houve o choque do rotor.


Tinha a esperanca de que poderia ser uma crosta de mi-
nerio de manganes. Enquanto Aguiar comegava o reabasteci-
mento, meu martelo quebrava os primeiros blocos. 0 p6 mar-
rom-avermelhado indicava que a crosta da clareira correspon-
dia a canga de mindrio de ferro.
Tirei as primeiras fotos do minerio de ferro de Carajas,
ficando como document hist6rico da descoberta o flagrante
do helic6ptero pousado na clareira, enquanto Aguiar ainda
cuidava do seu reabastecimento.
Foi um moment de grande emog~o, corn conflitos entire
o entusiasmo e a divida. Contemplando o horizonte comecei a
sonhar corn a possibilidade de que as grandes clareiras tam-
b6m fossem devidas a mesma causa. Mas essa idWia me assus-
tava pela sua grandiosidade.
Sempre que dou alguma entrevista ou fago alguma pales-
tra sobre Carajas, 6 comum a pergunta: "0 que de mais impor-
tante ganhei corn Carajis?" Mesmo reconhecendo que o estig-
ma de Carajis acabou contribuindo para a minha carreira pro-
fissional, nio tenho dtividas em afirmar que foi a chance de ter
vivido aquele moment, quando pude sonhar, antes que qual-
quer outro mortal, corn a possibilidade de que a natureza nos
tivesse sido tAo generosa.
Coletei minha terceira amostra. Era muita sorte para a Uni-
ted States Steel. 0 program praticamente ainda nem comegara
(as amostras da Meridional, quando do encerramento de suas
atividades, devem ter sido doadas ao Curso de Geologia da
Universidade Federal do Par-).
Aguiar acabara de reabastecer o helic6ptero, e, ao aproxi-
mar-me, falei corn entusiasmo: "t tudo ferro!" Aguiar nao estava
preocupado se havia muito ou pouco ferro, mas se chegariamos,
ou nao, corn seguranga A aldeia dos Xicrins.
Explicou-me que o choque poderia ter afetado corn gravi-
dade o sistema de direqio do helic6ptero (eixo e rotor de cau-
da), mas que preferia nao desligar o motor para a devida verifi-
caqio. Se o dano fosse grave, ficaria sem condig6es psicol6gicas
para prosseguir o v6o. Mesmo que nao houvesse nada, os mag-
netos eram sempre uma ameaga. Nao havia possibilidade de so-
corro de outro helic6ptero em prazo razodvel, nao tinhamos ali-
mentos, e desconheciamos os perigos que poderiam nos cercar.
Seus arguments pareceram bastante razoAveis, e concor-
dei corn o prosseguimento do v6o. Teriamos que voar mais que
uma hora nesse clima de ansiedade. 0 trecho mais critic seria
sobre a serra, pouco mais que 10 minutes, onde nao teriamos
locals para um pouso de emergencia.
Corn alegria e alivio atingimos o Catet6. Agora o helic6p-
tero serpenteava sobre os meandros do rio, pois queriamos
ter sempre um espago livre para qualquer emergencia. Para
nos distrairmos e espantarmos o medo, cantivamos a plenos
pulmoes: "Vamos passear na floresta enquanto o seu lobo
nao vem..." Quern diria!
Felizmente, e mais rapido do que pensdvamos, chega-
mos A aldeia, ap6s o total de tres horas e quarenta minutes de
v6o. Corn alegria fomos recebidos pelo Adao, pelo mecAnico
do helic6ptero e pelos poucos indios que estavam na aldeia -
era 6poca de caga.


4 JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA







0 motor pode ser desli-
gado. A verificagAo feita pelo
Aguiar e pelo mecanico cons-
tatou que, aparentemente, nao
havia nenhum dano s6rio. Ape-
nas um pequeno sinal da bati-
da no rotor de cauda.
Reabastecido o helic6p-
tero, tapeamos a fome corn
alguns biscoitos, pois ji pas- .rr,. ^r
sava do meio-dia, e prosse- "'' 3
guimos para o Castanhal do '-. -. *--
Cinzento. A aldeia nao ficava
muito long da desembocadura do Catet6, e estava ansioso
para conhecer a geologia que encontrarfamos nos pedrais
do Itacaiuinas.
Mas mal atingimos o Catet6, o motor comecou a ratear, 6
helic6ptero balangou, e perguntei ao Aguiar: "Vamos voltar?"
Tive a resposta imediata: "JA estamos voltando!"
Felizmente o motor ainda teve potIncia suficiente para
atingirmos a aldeia. Recebi o meu batismo com o pouso de
emergencia, o primeiro de uma serie bem maior do que pode-
ria suspeitar.
Prosseguimos a viagem com o aviao do Adao. Logo que
cheguei ao Cinzento, chamei Ritter e Erasto, para que vissem
as amostras coletadas. Ao comentar que as outras clareiras
poderiam ser iguais, logo elaboramos o raciocinio de que isso
seria praticamente impossivel, pois teriamos os maiores de-
p6sitos de min6rio de ferro do mundo. Mais impossivel seria
que dep6sitos tao grandiosos, aflorantes na superficie, ainda
nao tivessem sido descobertos, quando o home ja se prepa-
rava para pousar na Lua.
Apesar do absurdo, nosso raciocinio quanto A impossibili-
dade estava errado. De fato eram as maiores reserves de minerio
de ferro de alto teor encontradas na Terra.
No dia seguinte, Ritter e Aguiar foram apanhar o helic6pte-
ro, ji recuperado, na aldeia dos Xicrins, para executar o reco-
nhecimento do Itacaiuinas at6 o Cinzento. Adao ficou aguardan-
do at6 que decolassem, mas nao chegaram at6 o final da tarde,
conforme previsto.
No dia 2 de agosto, bem cedo, Adao partiu em busca do
helic6ptero. Logo retomou para nos tranqUilizar, informando que
avistara o helic6ptero sobre uma pedra no meio do rio, e que
parecia que os dois estavam bem. Providenciamos um saco em-
borrachado com alimentos e rem6dios, e parti corn Adao para
fazer o langamento no rio. Mais tarde, ficamos sabendo que o
eixo do rotor de cauda se rompera, deixando o helic6ptero sem
dirigibilidade, como conseqUencia do choque do rotor no pou-
so desastrado na clareira. Por que s6 agora acontecera?
Uma equipe foi organizada para o resgate fluvial, o que
acabou levando um dia e uma noite, mas corn todos bem.
No mesmo dia segui com Adao para Bel6m, para comuni-
car ao Tolbert o inicio dos trabalhos e a descoberta. Depois de
quase duas horas de espera no posto telefonico da antiga Radi-
onal, consegui informar o que acontecera. Para bem comuni-


car o local do pouso, levei uma
foto area da serra, e pedi que
Tolbert, observando o seu n6i-
mero, pegasse a duplicate no
Rio. EntAo, para simplificar a
comunicacAo, disse: "Esti ven-
do a clareira nessa serra arque-
yada?" E, a partir desse momen-
to, Arqueada passou a ser o
Sl. ,-,> nome da serra do descobrimen-
S-'. '- to, assim sendo conhecida em
-- *- '-..- todos os mapas da regiao.
Apesar de comentar a pos-
sibilidade de que as outras clareiras tamb6m pudessem ser de-
vidas A canga de min6rio de ferro, a reagAo de Tolbert foi bas-
tante fria, acabando corn o meu entusiasmo: "Tern muito ferro
no mundo. Continue procurando manganes."
Em agosto, participei corn Tolbert de v6os corn magnet6-
metro na regiao, a partir da serra do Sereno, bem como ao
redor de Serra do Navio, no AmapA, na tentative de se encon-
trar alguma camada-guia dos dep6sitos de manganes, com res-
posta magn6tica, que pudesse orientar as futuras buscas. Nada
foi conseguido, mas, quando o DC-3 da Lasa [empresa de aero-
fotogrametrial sobrevoava as clareiras, a agulha que fazia os
registros magn6ticos endoidava.
Na segunda quinzena de agosto, com os dois helic6p-
teros da Helitec em condi6oes de v6o, o tres ge6logos da
equipe fizeram o reconhecimento das grandes clareiras, logo
depois batizadas como N1, N2, N3, N4 e N5, na Serra Norte,
e S11, na Serra Sul, confirmando a hip6tese inicial.
No inicio de setembro, o engenheiro de minas Francis-
co Saydo Lobato, consultor da Meridional, visitou a Area e
ficou profundamente entusiasmado corn o que viu.
Em decorrencia da descoberta do manganes de Buriti-
rama, na mesma 6poca, Tolbert veio visitar a regiao, mas
deixando as clareiras para o segundo dia. Isso comprova
que a descoberta do ferro de Carajis nao foi um jogo de
cartas marcadas, como muita gente chegou a suspeitar.
Assim, somente na manh! de 17 de setembro, sob a
neblina, segui de helic6ptero corn Tolbert para a N3, uma
pequena clareira de Serra Norte. Logo ao descer, seu olhar
brilhava de felicidade, rindo feito crianca. Caminhava pela
clareira, quebrando corn o seu martelo os blocos de canga
que encontrava. Comparou o que via corn a jazida de ferro
de Aguas Claras, nas proximidades de Belo Horizonte, per-
tencente A MBR [Minera6Oes Brasileiras Reunidas, do gru-
po Antunes].
Entre outros comentirios, um marcou-me para sem-
pre: "Quantos ge6logos trabalham a vida toda sem ter a
alegria de participar de uma grande descoberta... Voce estA
comecando a sua vida professional e ja teve essa sorte."
Depois de deixi-lo curtir todo o seu entusiasmo com o
que via, por mais de uma hora, disse-lhe que para mim
aquilo nao representava nada. Ante seu espanto, pedi que
entrasse no helic6ptero.


JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA 5







Aneblina ja se dissipara e solicited ao piloto que su-
bisse bastante. 0 dia estava bem claro, e na nossa
Itura era possivel contemplar a regiao em sua ple-
nitude, a Serra Norte e a Serra Sul, com suas clareiras. Tol-
bert comecou a entender o que querfamos dizer quando afir-
mavamos que havia muito ferro. Que tudo nao era apenas
uma ilusdo, fruto do entusiasmo de tres jovens ge61logos
brasileiros.
Aos poucos, a alegria quase infantil, que Tolbert senti-
ra na primeira clareira, foi sendo substituida por uma ex-
pressAo compenetrada de preocupagAo. Comportou-se corn
seriedade professional quando visitamos as grandes clarei-
ras, sem as suas brincadeiras habituais, tornando-se mais
grave a cada pouso. No final da tarde, quando retornamos
ao Cinzento, ante o seu mau-humor, Erasto perguntou-me
se haviamos brigado. Respondi que nao, que estava nova-
mente de paquete como na 6poca nos referfamos a popu-
lar "TPM" [tensAo pr6-menstruall de hoje. Eram freqiuentes
as alternancias de humor de nosso chefe e amigo, e usava-
mos esse c6digo para alertar os companheiros.
Tolbert comentou comigo: "E tudo muito grande e mi-
nha companhia nao vai ter competencia political para ficar
com isso." E a hist6ria seguiu o seu curso.
O que tornou possivel a U. S. Steel chegar a mina
de ferro de CarajAs antes de qualquer outro concor-
rente? E por que ela se retirou da area? Foi uma de-
cislo acertada?
Apenas a ousadia da empresa, reforgada pela lideranga
de Gene Tolbert e a coragem de sua equipe, em utilizar pela
primeira vez o suporte do helic6ptero, em program siste-
mAtico de explorag~o geol6gica na Amaz6nia. As clareiras
gigantescas recobertas pelo mindrio de ferro estavam lI,
aguardando quem chegasse primeiro.
Fatalmente seriam descobertas poucos anos depois, pe-
los m6todos indiretos de pesquisa que passaram a cobrir
sistematicamente a regiao imagens de sensoriamento re-
moto por satelite e de radar.
O Projeto Araguaia (DNPM-Prospec), que cobriu toda a
regiao corn levantamento aerofotogram6trico alguns anos an-
tes, ou a equipe da Codim (Union Carbide), que pesquisara
os dep6sitos de manganes na Serra do Sereno, no ano anteri-
or a poucos quil6metros ao norte da jazida de ferro de Serra
Leste -, poderiam ter feito a descoberta, se tivesse havido mais
ousadia e o apoio do helic6p-
tero. Nao resta d6vida de que
o helic6ptero foi o grande he-
r6i dessa aventura.
Acredito que diversos fa-
tores contribuiram para a re-
tirada da United States Steel do
Projeto Carajas. Em primeiro
lugar, a empresa ja dava si-
nais de decadencia, com uma
estrutura administrative arcai- .,rMjr_
ca e prepotente, e sem a for- r- -,


ca do que fora o maior complex sidertirgico do mundo
ocidental, capaz de enfrentar decisoes da political economi-
ca do pr6prio president Kennedy, menos de duas d6cadas
antes. Era uma empresa muito conservadora para adaptar-se
com sucesso aos novos tempos que surgiam, com o desmo-
ronamento dos parametros da "velha economic".
Alem disso, a USS nao era uma empresa de mineragao
na sua essencia, mas sim uma indtstria siderdrgica que pos-
suia minas de ferro e de manganes, para garantia e control
de seus suprimentos. A mina de Cerro Bolivar, na Venezue-
la, ji lhe dava a tranqfiilidade necessdria em relagAo ao mi-
n6rio de ferro.
Por outro lado, as revolucOes africanas nao haviam ame-
agado o control das jazidas de manganes de Moanda, no
Gabao, que detinha em associacAo corn capitals franceses.
Justamente o cendrio ameacador, da d6cada de 60, 6 que
motivara seu program na Amaz6nia em busca de manga-
nes. Apesar do sucesso em Carajas, al6m do ferro, duas jazi-
das de manganes haviam sido descobertas (Azul e Buritira-
ma), o suprimento de manganes nao era mais critico para as
suas sideruirgicas.
Por nao ser uma empresa de mineragio, faltava-lhe a
visAo de long prazo, optando por nao investor na abertura
de novas minas, quando o abastecimento de seus principals
insumos ja estava garantido. Ainda mais numa epoca em
que os bens minerals comegavam a transformar-se em sim-
ples commodities, com pregos cada vez mais reduzidos.
Mesmo considerando-se as razoes acima, foi um p6ssi-
mo neg6cio, pois al6m das jazidas citadas, uma side-letter
firmada pela CVRD e pela USS, por ocasido da criagAo da
Amaz6nia Mineragao S.A. AMZA, garantia, aos dois s6cios,
participacAo igualitAria nas jazidas a serem descobertas, num
determinado retangulo de Carajas, pelas equipes de geolo-
gia das duas empresas. Neste caso estariam as jazidas de
cobre-ouro do Salobo, do Alemao e do Sossego e outras
que estdo sendo descobertas -, bem como as de ouro de
Serra Pelada, do Igarapd Bahia e de Aguas Claras.
A empresa americana comegou a apresentar uma serie
de exigencias para prosseguir na implantagAo do projeto,
como a de que o governor brasileiro assumisse as despesas
corn a construgAo da ferrovia e do porto.
Tudo foi desistido, em 1977, pelo total de 55 milhOes
de d61ares, como indenizacao dos seus gastos na pesquisa.
Cerca de 10 anos depois, a
CVRD recebeu da UniAo pou-
co mais que 60 milhoes de
d6lares, apenas como remune-
ragAo do ouro extraido da sua
jazida em Serra Pelada, aten-
dendo decisdo do Congresso
Nacional para que o garimpo
. tivesse uma sobrevida.
Faca um paralelo en-
"tre a exploraflo de Cara-
S* -' js em 1985 e agora.


6 JULHO/2000 AGENDA AMAZ6NICA







A comparaqAo entire as duas 6pocas vai ser influenciada
pelos seus cendrios politicos. Em 1985, estdvamos saindo de
uma ditadura military e havia a iluslo de que num regime de-
mocrdtico seriamos capazes de resolver os nossos principals
problems. Ja se falava na Assembl6ia Constituinte, que reco-
locaria o pais no estado de direito, e criaria os instruments
necessArios para nos tornarmos socialmente mais justos.
Nesse clima, estava comegando a producao do min6-
rio de ferro e de manganes de Carajds. Tinha-se a expecta-
tiva de que o inicio da exploraqdo das riquezas minerals,
corn a disponibilidade da energia de Tucurui, seria o pon-
to de partida para um consciente process de desenvolvi-
mento da regiao.
Hoje, se 6 verdade que avancamos na democracia e na
garantia dos direitos individuals pelo menos para os bemrn
nascidos -, estacionamos, ou at6 retrocedemos em alguns
casos, em relaqAo aos principals indicativos sociais do pais.
Mais do que isso, a populacAo brasileira esta comegando a
ficar cansada, depois ter conseguido o seu principal objeti-
vo politico a democracia -, e derrotado o, aparentemente,
pior inimigo economic, a inflacAo. 0 pouco que a econo-
mia avangou, nesses 15 anos, nada refletiu em melhoria so-
cial do pais, ou seja, o que se conseguiu continuou sendo
repartido entire os mais ricos daqui e de fora, principalmen-
te atrav6s do pagamento dos juros das dividas.
Foram queimados quase todos o cartuchos politicos: o
populista, o salvador da pAtria e o soci6logo. E tudo ficou
como antes, com o poder nas mAos dos que mandavam no
pais desde os tempos dos militares. 0 brasileiro esta come-
cando a deixar de sonhar e a resignar-se corn o seu triste
destino. At6 quando?
NAo resta d6vida de que a regiao sob influencia de Ca-
rajas passou por profundas transformagOes economicas, mas
ficamos distantes do tipo de desenvolvimento que poderia
ter sido conseguido, corn melhor gestAo das questOes soci-
ais e da ocupacao do espaco. Questiona-se se houve, ou
nao, um saldo positive do ponto de vista social e ambiental.
Houve cuidados ambientais rigidos dentro da area do proje-
to e liberalizaqAo total, por omissAo dos governor, na sua
area de influencia.
Na questAo da mineracAo em si, foram conseguidos sen-
siveis avanqos. A CVRD, ainda como estatal, consolidou os
mercados para o min6rio de ferro, gracas k sua excepcional
qualidade. Ja atingiu a producAo de 50 milhoes de tonela-
das por ano, corn um total acumulado da ordem de 600 mi-
lhOes de toneladas. Tamb6m conseguiu ampliar os consumi-
dores para o min6rio de manganes, inclusive corn produtos
melhor remunerados, para uso eletrolitico e quimico.
Foi descoberta a jazida de ouro do Igarap6 Bahia. A
producao acumulada de sua mina, que completou recente-
mente 10 anos de atividade, atingiu o total 75 toneladas,
superando o que foi retirado pelos garimpeiros em Serra
Pelada. A jazida de ouro de Aguas Claras, corn menor po-
tencial e sat6lite de Igarap6 Bahia, tamb6m foi colocada
em producao.


Houve uma revislo da geologia de Carajas. A introdu-
co de novas t6cnicas de pesquisa e de processamento das
informag6es, bem como o treinamento das equipes da Do-
cegeo, a partir de 1991, possibilitou o inicio do 3 ciclo de
descobertas em Carajas.
O primeiro ciclo, de 1966 a 1973, foi baseado quase
que exclusivamente na identificagAo dos indicios diretos no
campo. Assim foram descobertas as jazidas de manganes
(Sereno, Buritirama e Azul), de ferro (Serra Norte, Serra Sul,
Serra Leste e SAo FMlix) e de niquel (Vermelho, al6m dos
dep6sitos de Puma e Onga).
O segundo, de 1974 a 1995, j! contou corn a utilizagAo
de alguns m6todos indiretos de pesquisa, geoquimicos e ge-
offisicos, que possibilitaram a descoberta de dep6sitos sub-
aflorantes. Neste caso estdo as jazidas de ouro de Andori-
nhas, Igarap6 Bahia (oxidado) e Aguas Claras, e as de cobre
e ouro do Salobo e do Igarap6 Bahia (primdrio), al6m dos
dep6sitos do Pojuca.
O terceiro, a partir de 1996, foi baseado no novo mo-
delo para a geologia de Carajas, construido a partir da inte-
gragao dos dados da regiao, principalmente dos levantamen-
tos aeromagn6ticos e aerocintilom6tricos. Essa nova inter-
pretagdo permitiu a caracterizagao da Provincia Mineral de
Carajas como uma grande anomalia da crosta terrestre, de
origem vulcanica e idade arqueana, corn elevado potential
para dep6sitos de ferro e de cobre, corn ouro associado.
Foi possivel selecionar, corn a metodologia utilizada,
uma sdrie de alvos promissores para a descoberta de dep6-
sitos de cobre-ouro. Assim, surgiram as descobertas do Ale-
mao, do Sossego e do Cristalino, estando outros alvos ainda
em fase de avaliacao.
A revelacao desses novos dep6sitos confirm a preo-
cupacAo dos dirigentes e t6cnicos da CVRD e da Docegeo,
por ocasiAo da privatizagao, quando o BNDES havia estabe-
lecido, a partir de um process viciado de avaliacao, que o
valor present do potential ainda nao dimensionado de Ca-
rajas era "zero". Atrav6s de inconfidencias e habilidade po-
litica de alguns dirigentes, foi possivel o estabelecimento de
um contrato de risco entire a CVRD e o BNDES. Ficou acerta-
do que 50% de tudo que vier a ser descoberto, em Carajas,
teri o control do BNDES, em nome da Uniao. As novas
jazidas, incluidas nesse contrato, s6 poderAo vir a ser total-
mente privatizadas ap6s a sua valorizagAo. Foi a inica vit6-
ria, entire muitas derrotas, conseguida durante o process
de privatizagao da CVRD.
Em resume, a produgco do ferro e do manganes con-
solidou-se, e foi iniciada a mineragAo de ouro em Carajas.
0 conhecimento geol6gico tamb6m avanqou, criando novos
processes de prospeccgo e de pesquisa para acelerar a des-
coberta de novas jazidas, principalmente de cobre-ouro.
Entretanto, ainda nao se conseguiu utilizar o polo
mineiro de Carajas como um catalisador para o desenvol-
vimento socioecon6mico harmonico da regiao. Do ponto
de vista ambiental, a ocupagAo fora da area do projeto
foi um desastre. A


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LANDI



0 genial



desconhecido


Em setembro deste ano deverd aportar a Belim aprimeira
e sigdo individualizada sobre Antonio Giuseppe Lan-
di, o maior arquiteto da bist6ria colonial de Bel6m, um
eco retardado nas comemoradespelos 500 anos da "descoberta"do
Brasil. A exposigdo foi organizada em Bolonha, na Itdlia, a terra
native de Landi. Belem, ondeestjopraticamentetodasas obrasexecu-
tadasdo artist, 6 o ltimo dos quatro locaisescolhidospara recebC-la
(aos outrosforam Lisboa ePorto, em Portugal, ea pr6pria Bolonba).
Apesar de ser o arquiteto do sdculo 18 mais estudado, Landi
ainda e desconhecido para a maioria dapopulacdo da cidade
para a qualfoi deslocado, jd na maturidade, por um desejo refor-
mista do marques de Pombal. A exposipdo, tecnica, ndo deveser de
fdcil absorgdopara os que ndo dispdem de um conbecimento mais
profundo sobre a vida e a obra dessegrande criador de igrejas e
paldcios, numa Belem que apenas comegava a ter oporte de uma
cidade digna desse nome. Mas ojornalistaparaense Oswaldo Co-
imbra concluiu, no anopassado, um trabalho que estdprestes a se
transformar em livro (As tres d6cadas de Landi no Gram-Pard),
capaz depossibilitar melboracesso ao temapelopablico em geral.
Suapesquisafazparte de uma empreitada maior, sobre a hist6ria
da engenbaria no Pard, encomendadapelo Departamento de Cons-
truapo Civil da Universidade Federal do Pard, que inclui mais
dois volumes, tamb6m a espera depublicagdo. Sua divulgagdopode
motivar uma boa polgmica, capaz de desviar a atengdo da opi-
nido plblica de aspects menores de um tema tdo apaixonante quan-
to a bist6ria de Landi.
Abaixo, a entrevista de Coimbra:

Quais as fontes que voce utilizou no seu trabalho
sobre Landi?
0 meu livro sobre Landi 6 parte desta grande narrative, que
vem send montada, hi quase 400 anos, em meio As constru-
6oes da nossa cidade. Uma narrative, que, como jornalista, ve-
nho, desde 1992, tentando reconstituir atrav6s de pesquisa que
desenvolvo dentro do Departamento de Construoo Civil da UFPA
[Universidade Federal do Para]. A minha aproximacao de Landi,
portanto, 6 condicionada por esta preocupagao de enxerga-lo
como um dos personagens embora, sem duivida, muito impor-
tante do enredo que podemos encontrar nas edificag6es da
nossa capital. E tamb6m pelo fato de que eu sou jornalista, por-
tanto, em principio, uma pessoa preparada para reunir um grupo
tao grande de informag6es que corn ela possa montar uma nar-
rativa nro-ficcional mas que nao tenha necessariamente que usar
seus dados para demonstrar uma tese, como fazem, por exem-
plo, os arquitetos e historiadores acadcmicos.


A intengAo, portanto, 6 a de mostrar a cidade como um
process (um enredo narrative) continue, pois nossas edifica-
g6es vem sendo estudadas pontual e fragmentadamente. Temos
estudos sobre construc6es classificadas como barrocas, neo-clas-
sica, de ferro, modemista, mas nao sabemos como passamos de
uma para outra. Em Bel6m, sAo poucas as pessoas que diante
dos dois palicios, situados um lado do outro, na mesma praga
(o Ant6nio Lemos e o Lauro Sodrr), sabem que a construgAo de
um antecedeu a de outro em cerca de 100 anos.
Corn o objetivo que persigo, usei, no meu trabalho, cerca de
60 obras, que me permitiram: a) localizar a cidade dentro da hist6ria
do Brasil, como o de Roberto Southey, e, os construtores do Para,
dentro da hist6ria da engenharia do nosso pais, como o de Pedro
Carlos da Silva Telles; b) entender a fase em que Landi esteve no
Para, dentro da hist6ria da Amaz6nia, como o de Amaral Lapa; c)
avaliar o desempenho da Comissao de Demarcag6es de Limites, a
que Landi esteve integrado dentro do govemo do Gram-Para, na
6poca, como o de Carlos Moreira Neto; d) acompanhar a trajet6ria
pessoal de Landi pela Amaz6nia, como os de Augusto Meira Filho.
Faca uma avaliagio critical dessas fontes, tanto as
primirias (se existentes) quanto as secundarias.
A fonte corn que trabalha o jomalista (e tamb6m o histori-
ador) em geral, possui um "vi6s ideol6gico". Este vi6s, no caso
da bibliografia sobre a Amaz6nia, percorre uma variada gama de
posig6es, que vao desde o esquerdismo panfletdrio, como a do
livro de Jflio Jos6 Chiavenato, sobre a Cabanagem (que eu tive
de consultar porque trata do engenho de Murutucu, onde Landi
reformou uma capela), atW a de adesdo A 6tica do colonizador
portugues, como a das obras de Ernesto Cruz e Arthur Cezar Reis
(autores, a quem, de resto, devemos muito). Uma obra especial-
mente interessante, tanto por causa da importancia de seu autor,
o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, como pelo seu "vicio
ideol6gico", 6 "Viagem filos6fica pela capitanias do Grao Para,
Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabd", escrita no final do s6culo
XVIII. Nela, o naturalista, como um tipico representante da "vira-
deira", o movimento que derrubou Pombal, trata Landi de modo
ambiguo, procurando diminuf-lo, diante da corte portuguesa,
embora tenha recebido grande contribuicAo dele. Landi, como
sabemos, construiu o Palicio dos Governadores, em Bel6m, por
encomenda da administragAo pombalina no Gram-Pard, e tor-
nou-se amigo de Mendonqa Furtado, meio-irmAo de Pombal. E
isto o colocava no rol dos inimigos do novo regime portugues.
Rodrigues Ferreira chega a apontar defeitos no palicio. Diz que
ele 6 desproporcional a cidade, e, que por isto, ficou sendo "uma
cabega monstruosa". E mais: diz que, nele, nao hi correspon-
dencia entire a dimensao da fachada e a porta principal.
0 "vies ideol6gico" que mais tive gosto em encontrar (por-
que me identifico corn ele) 6 o das obras que procuram ser con-
sistentes, sem perder a indignagAo corn a maneira como nossa
regiAo foi historicamente tratada, como a de Carlos Moreira Neto.
Fontes primnrias sobre a Comissao de Demarcacbes de Limi-
tes, na qual Landi trabalhou, existem, em abundancia, no nosso
bem-aventurado Arquivo P6blico. LA encontrei, por exemplo, um
requerimento de 1756, escrito por Marianna Schwebel, parent de
Jodo Andre Schwebel, urn dos engenheiros alemres que vieram para


8 JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA





o Gram-Para corn Landi; uma carta da corte portuguesa, de 1786,
dirigida aJoao Pereira Caldas, o primeiro governador que ocupou o
palAcio levantado por Landi; al6m de uma relagio de todas as fami-
lias que moravam na Freguesia da S6, na capital, no ano de 1785.
Inclui estes documents na bibliografia do meu livro, ape-
sar de minha pesquisa ter sido centrada na area da chamada
intertextualidade e no defender exclusivamente de documents
originals. Ainda assim, gostaria de divulgar o nome da t6cnica do
arquivo mais familiarizada corn a documentagao in6dita sobre a
comisAo de Landi: Nazar6 Ferreira.
Qual a fonte mais important para voce?
A colegio de cartas trocadas entire Pombal e Mendonga
Furtado, a quem ele confiou, em primeiro lugar, a tarefa de go-
vernar o Gram-Para. Esta colecgo foi publicadas em tres volu-
mes, em 1963, por Marcos Cameiro Mendonca.
Voce consider Landi urn personagem suficlente-
mente (ou satisfatoriamente) estudado entire n6s?
Nao acho que Landi vem sendo estudado entire n6s de uma
forma satisfat6ria, pelo menos no que se refere A identificacAo
da originalidade do seu estilo arquitet6nico. Fico inquieto e per-
plexo, por exemplo, corn a falta de seguranga que sinto em afir-
mac6es como a de que a fachada do antigo pallcio do arcebis-
pado 6 obra dele. Gostaria de ver isto comprovado de modo
mais eloquente, mais convincente.
Tamb6m nao posso achar que ele ja foi suficientemente
* estudado, entire n6s, por tres motives: a) nao sabemos ainda,
final, quantas obras ele produziu no Gram-Pard. Por exemplo,
s6 agora, atrav6s da pesquisa feita em Portugal por Renata Mal-
cher de Araujo, nos chegou c6pia do projeto urbanistico que ele
fez para o municipio de Chaves; b) vArias obras sao atribuidas a
Landi, quando, na verdade, nelas ele teve apenas participa6oes,
como as dos conjuntos arquitet6nicos dos mercedArios e carme-
litas (Donato Melo uma vez escreveu que ja tinha visto Landi ser
citado como jesuita e como autor da Igreja de Santo Alexandre);
c) em contrapartida, hi obras atribuidas a Landi por especialis-
tas, como o pr6prio Donato Melo (a capela dos Pombos, na
Campos Sales, por exemplo), que estAo quase esquecidas.
De qualquer forma, Landi, sem ddvida, 6 o construtor de
Bel6m mais estudado. Em comparagAo corn o interesse desperta-
do pela obra de qualquer outro construtor important, de Bel6m,
(para citar apenas um exemplo: a de Victor Maria da Silva, que
fez, no governor Augusto Montenegro, a reform do Teatro da
Paz), a situagao dele 6 muito especial. Isto apenas revela o quanto
nossos construtores sao esquecidos. a
Alids, nao podemos perder de vista que a valorizacgo ?
do nosso patrim6nio hist6rico atrav6s dos veiculos de co-
municacgo de massa 6 algo que comegou muito recente-
mente entire n6s. Para nos convencermos disto, basta lem- '.
brarmos a passividade corn que nossa opiniAo pidblica
assistiu as demolig6es do Grande Hotel, do pr6dio
da Palmeira e do Reservat6rio de Aguas Paes de
Carvalho, projetado por Francisco Bolonha.
0 que mals o impressiona na obra de Landi, j
distinguindo-o como arquiteto, desenhista, natu- i.
ralista e membro de uma comissio demarcadora.


O que mais me impression nao s6 na obra, mas na vida de
Landi, 6 a afirmaoo do talent dele, em diversas areas, em plena
Amaz6nia do s6culo XVIII, depois de sua transferencia de Bolo-
nha, ji na condiglo de um home de meia idade.
O Gram-Par- imp6s a Landi alguns anos de extreme des-
conforto, tanto logo depois que ele chegou aqui, nos quais po-
deria at6 ter morrido, como, depois, quando ele ja tinha mais de
70 anos e foi forqado pelo govemo anti-pombalino a voltar para
Barcelos. Em compensacAo, o Gram-Pard ofereceu a ele o espa-
go natural e o social para que ele se firmasse como um grande
artist, capaz de usar, corn imenso talent, diversas linguagens,
como as do desenho e da arquitetura.
Landi nao transitou corn exito apenas entire diversas artes,
mas tamb6m entire diversas classes sociais. Trabalhou para os
governadores do Gram-Pard e para os escravos negros, para
quem projetou a Igreja do Rosirio.
Entrando na polemica sobre a casa rosa (ou rosada): voc8
a consider uma obra de Landi ou tern dividas a respeito?
Nao hi polemica. Ningu&fn (que eu conheca) sustenta a
tese de que a casa nao foi construida por ele. HA, apenas, ddvi-
das. Ningu6m diz, corn seguranca, que foi ele o seu construtor.
Como jomalista, apenas lamento a dificuldade dos nossos t6cni-
cos vislumbrarem ou nao, ali, elements que identifiquem a ori-
ginalidade do estilo arquitet6nico de Landi.
Landi deixou uma escola ou seguidores no
Grio-Pari?
Vou entender a palavra escola no seu sentido literal, isto
6, como um local de ensino e nao como um estilo. Nao, Landi
nao deixou uma escola, e isto atW certo ponto 6 surpreendente
porque outro membro da sua pequena ComissAo de Demarca-
goes de Limite (composta por menos de 10 t6cnicos), o enge-
nheiro-militar Ant6nio Galuzzi, construtor da imponente Forta-
leza de Sao Jos6, criou, em MacapA, no period em que Landi
esteve aqui, um nicleo de ensino, no qual se formaram dois
engenheiros que militaram na Amaz6nia. Entre Landi e Galluz-
zi havia nao s6 a coincidencia de serem ambos construtores e
italianos, como ainda a de terem paten-
tes militares. Como se sabe, Lan-
di, no Gram-
Park, tornou-
se capitdo. A 4- ,


JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA 9





MEMORIAL



0 maior japones


da Amazonia


A edigAo 149 da revista Dinheiro, do dia 5 deste mes,
& dedica duas piginas e meia ao seu personagem da se-
Smana, o ex-ministro de minas e energia Shigeaki Ueki,
que tamb6m ja foi president da Petrobras. 0 destaque do esfor-
go de reportagem 6 uma foto de pdgina inteira do cidadao, com-
plementado por um texto decorative, quase uma legend. Por
ela, pode-se ver que, aos 65 anos, com poucos cabelos brancos
e um riso jovial, Ueki passa muito bem, obrigado. Nao senate mais
saudades da administracao p6blica, agora que 6 um consultor
international bem-sucedido e um empresdrio que se reciclou aos
novos tempos, trocando uma empresa mastod6ntica, sem capa-
cidade competitive num mundo globalizado, por pequenos ne-
g6cios que se cristalizam na ponta do mercado ("Longe do po-
der, perto do dinheiro", proclama o titulo da mat6ria).
0 texto do perfil 6 um primor de desinformagdo: o leitor que
antes desconhecia o personagem ficard sem saber porque ele mere-
ceu tantos adjetivos (bem) qualificativos em texto tAo compact,
exceto se o panegirico obedeceu A l6gica do "toma li, da cd" (tudo
olimpicamente, 6 claro). Um leitor amaz6nico da revista semanal de
economic da Editora Tres (a mesma de Istoe), entao, esse nro disp6e
da minima pista na reportagem para saber da importAncia que o
nissei Shigeaki Ueki teve na hist6ria recent da regiao.
Antes de mais nada, ele teve muito poder entire 1974 e 1985.
No primeiro period, no govemo do general Emesto Geisel, como
ministry de minas e energia. No segundo, no do tamb6m general
JoAo Baptista Figueiredo, como president da Petrobras, mas ji
numa escala descendente. Ueki era considerado um dos tres filhos
que o tinico president brasileiro descendente direto de alemles
adotou informalmente, depois que seu filho natural morreu em
um acidente de trem (a outra filha era Amrlia Lucy, cuja discricAo
era proporcional ao seu tamanho, virtude nao seguida na corte
brasiliense e, por isso mesmo, a ser admirada). Os outros dois
eram Humberto Esmeraldo Barreto e Heitor Aquino Ferreira.
Barreto foi desenvolto em outros campos e regioes (e 6
precise colocar desenvoltura nisso). Heitor e Ueki lanqaram uma
de suas bases entire n6s. Primeiro, Heitor. Ele era um brilhante
capitio do exercito quando foi convidado para gerenciar um
grande projeto na selva amazonica que o milionirio americano
Daniel Ludwig estava implantando. Heitor nao duvidou: simples-
mente pediu demissAo do ex6rcito, o que significava perder o
titulo de official, sem direito inclusive a ir para a reserve (o que
criaria um problema de tratamento quando ele ja era inquilino
obliquo do Palacio do Planalto: corn que titulo deveria ser cha-
mado? Sem outra alternative, passou a ser conhecido como pro-
fessor. Professor de qua? Ora, de linguas mortas, reagiramrn os
aulicos A insistencia dos curiosos).


Heitor parece que morou num pr6dio modesto, de tres anda-
res, na esquina da Jos6 Pio corn a Senador Lemos, no Tel6grafo.
Rec6m-separado da mulher, a solidao pode ter servido de estimulo
para o trabalho de traducao de A Revolupdo dosBichos, (o estranho
aportuguesamento de Animal Farm a alegoria anti-totalitarista de
George Orwell, publicada pela Editora Globo, de Porto Alegre (nao
uma faganha, como se veria depois, em outro cometimento sobre as
mem6rias do ex-secretrio de estado dos EUA, Henry Kissinger).
Aquino frequientou poucas pessoas em Bel6m, onde estacionava no
intervalo de excursoes a Monte'Dourado, sede do complex agroin-
dustrial de Ludwig.
Quando o castelista general Emesto Geisel foi escolhido para
ser o successor do general Garrastazu M&lici (com a aprovagAo des-
te, convencido por seu auxiliar direto, o general JoAo Figueiredo,
chefe da Casa Militar, de uma inverdade: que Geisel nao tinha mais
relag6es com o execrado general Golberi do Couto e Silva), Aquino
trocou oJari pela secretaria particular do president. Trocou, em
terms: era quem arranjava encontros sigilosos de seu ex-patrio,
Ludwig, corn as maiores autoridades da Reptiblica, incluindo o prus-
siano president.
Deve-se imaginar que id6ia o Tio Patinhas de entio cultiva-
va de nossos maiores (embora indiretamente escolhidos). Todos
os pedidos (pedidos?) que fazia eram endossados, por mais ab-
surdos que fossem. 0 maior deles foi fabricar como se fossem
navios, no Japdo, a fAbrica de celulose e a usina de energia,
trazendo-as navegando para o Jari, quando a ind6stria national *
podia desincumbir-se tranqiiilamente da encomenda, embora sem
propiciar tao espetaculosos dividends a Ludwig, que tamb6m
era acionista do estaleito japones responsivel pela facanha, a,
Ishikawajima-Harima (que Ihe fora transferidopor seu amigo, o
general McArthur, durante a guerra).
A presteza de Aquino era tanta que Ludwig deve ter toma-
do o Palicio do Planalto como extensAo dos seus dominio, a
ponto de escrever cartas desaforadas ao president seguinte, o
general Figueiredo, atrav6s do chefe da sua Casa Civil, o general
Golbri (do Colt e Silva, como o tratava o jornalista H6lio Feman-
des, fazendo referencia a um rev61ver de ouro dessa marca, pre-
sente da multinational Dow Chemical quando o brilhante military
deixou de presidir a subsidiaria brasileira da empresa, muito fa-
vorecida no p6lo petroqufmico de Camacari, na Bahia).
Alarmado corn o pepino em germinagAo, Golberi tratou de
arrancd-lo, cortando o elo intimo de liga&o antes do naufrigio
do Jari. E assim preparando o campo para seu colega de gover-
no, Delfim Neto, plantar o abacaxi da "nacionalizacao" do proje-
to, em 1982, de mros dadas corn o advogado (eterno ocupante
de uma suite no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro) Bulhoes
Pedreira, num golpe que enrubesceria o nobre Ant6nio Gallotti,
o home que esteve por tris da estatizacAo da Light, o "polvo
canadense" da energia (recentemente privativado de novo, o que
jd 6 outra hist6ria, corn outro Gallotti).
Foi por causa de Ludwig que tive meu segundo contato corn
Ueki. Soube que ele faria uma visit ao projeto. Consegui falar com
a secretaria dele, em Brasilia. Reservei um lugar no avio que levaria
o ministry de Bel6m para Monte Dourado. Na hora acertada, eu
estava pronto, no aeroporto military. 0 jatinho HS da Fab chegou.


10 JULHO/2000 AGENDA AMAZ6NICA







Ueki desceu, sorridente, como sempre. Apresentei-me, sumarizei o dentro do helic6ptero de Ueki (ao veto ao ingresso, respond
compromisso que ele havia assumido comigo, atrav&s da secretaria. com uma pergunta sobre a piscina termica da resid6ncia brasili-
Mas ele apontou para Ludwig, que tamb6m descia do aviAo: ense do ministry das minas e energia, motivo de escandalo, em
Fale corn ele. 1 quem pode autorizar. Sou apenas um convi- 6poca de energia insuficiente, numa s6rie de reportagens de 0
dado. Se ele deixar, voc8 vai. Estado de S. Paulo sobre os "superfunciondrios", pr6-Marajis
Resisti: colloridos, encastelados na administragao ptblica; quando en-
Mas quemn e ministry e o senhor. Aqui e territ6rio brasileiro. trei, o ministry foi enfdiico: "nada de piscina termica, hein?": e
Sem perdero aplomb. leki repctiu, diplomzuco: tratamos de peiroleo, entremeado de piadas, que ninguem faz
NMas \i l, peca. uma carreira dessas sem simpatia)
Fui. Pcdi. Lud" ig mal me olhou, o corpo entortado pelo pro- Descemos juntos em Belem, para desespero da concorren-
blema da coluna, cada vez mais grave. Nso autorizou. Meu acesso cia. Acompanhei de camarote o ef)orco dos colegas na entrevista
ao (ari conunuava vetado. Nao era uma pessoa bem-vinda (o que coletiva, tentando arrancar o miximo de informacdes, convenci-
acabaria trrs anos depois, por pressio internal, de t6cnicos, como dos de que minhaconvivencia de algumas horas me colocava na
Zn, eede e Carmichael). frente. Tip de camarote que vi urn dos rep6nreres pegar o vidrinho
Vou precisar de passaporre? alfinetei. com a amostra de 6leo e, sorrateiramente, coloca-lo no bolso do
Ludwig ignorou a pro cocacdo e continuou caminhando para palet6. Fiquei na minha.
ci seu avijo particular, no qual sena feita a perna Bel6m-Monte Ueki e&in u como azougue no jatinho. Mal o a' iko come-
Dourado. Ueki, lepido. Como sempre. Vinguei-me logo depois, ou a taxiar,paou. Dele desce o ministry, ainda mais afoito, deses-
ainda em 19'9, quando a deputado federal Jorge Arbage me perad6 aodarpela falta do vidrinho. Chamei o )omalisi (hoje, um
convocou para depor na CPI do Sistema Fundiario, em Brasilia. promdrotr cultural),fz-lhe ver a inutilidade de ter aquele obieto e o
Relatei o episodio, a meu ver vergonhoso. Arbage partilhou a devolvi ao ministro, que se foi, aliviado, cumprir o deer de casa
opinion, fazendo eco. 0 Esadco de 5. Paulo deu corn destaque quelhepassara opresidente. Sem que tivesse sido. ainda dessa \ez,
material a rcspelto do meu depoimento. Mudos estavam, mudos que se detectaria um campopcomercial de petroleo no litoral nortne
(ser agora, corn a nova dd de contratos de ri-coW).
Meu contato mais importance corn o nissei paulista Shigeaki
Ueki, entretanto, nio seria pessoal. Vi o telegram que ele passou de
T6quio para o presidenreGeisel, anunciando a decision dos jipone-
ses de otirdades de Belm o que seria, a epoca, a
maior fLbrica dealum nio do'mundo, corn capacidade para 6-40 nul
toneladas anuals de metal (umas quatro vezes maii do que toda a
(on- prduo national deentio). O martelo sobre a Albras foi batido na
tinua- capital japonesa. 1De uii db da mesa de negociapo estavam os
in -,-' :,." u '..d.m esa -.
ranm Ueki ,nip6rucos Do outro lad, representando 6Brasil um 1se ..'.
e Ludwig. era "V' ". Pode tr ido is pa,'deMera'doaj
Era a lei ,.. .*. ,. ... pones, C cm a eie am d p ia sbem-suce-
a -. ." .*,D = S U C C
mais respeita- *.* ,.;;/ ; didopr Za drque te endustn-de
da te imposta) Io. .,...,M:. ,,. t, 1o. ara de auti oeab
daqueles tempos: a -, ram-nas ,-c4rlos o ses mabr
do silencio. d.de IL terri .ri..
0 primeitro encon- ,. ,-m ".te..?
tro foi no ano anterior, se .t em
ndo me engano. Finalmente .. u"i~
ha% ia jorrado petrdleo na foz do "cas a um ''IA
no Anazonas, uma das dreas poten- a el icde' resI
cialmente mais promissoras do pais, cujas complicacoes rais qu Ir
sobrerudo em funco das correntes manri dia am balre e$ ioae
tados da prospecq5o. 0 6leo brotar 200 L ess smomentos ,'eki
Amnapa. Mal soube da novidade ente pc4'ado, usando sua p:ps.
A misso do ministro: coletar 'ns a to bem arreniatada no mu
especialista na matnria, o pre ]i ente ra resentam como um dos homens.ma,
comrn os pr6prios olhos- clio upnis s30 itados nas listas dos"is
Enquanto os colegas BeleM dinpmico e espeno, como se.;
me na 'espera para Amap a qye ee, hpie peno dod6 iefiq'
Macapi, que se notabilizou ert nd prinj .' rase.,Errado,
te a segunda guerra mun /o.emasia.,


JULHO/2000 AGENDA AMAZONICA 11







- sEGIAI UILIUIlI


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SEMPRESA DE CONSTUcS6ES
ai GERAIS TDA.
l aaml a ii- U sin. 1Wa


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0 verio de 65
Em 1965, a corrida aos balneirios jai
estimulava empreendimentos imobiliirios
mais audaciosos, que se dividiam entire os
dois lideres dos veraneios para os enfuma-
dos belenenses: a buc61lica Mosqueiro, ain-
da muito freqtientada pelo beautifulpeople,
e a cada vez mais aristocritica Salinas, corn
praias de mar e ar cheio de iodo.
Em maio daquele ano, o langamen-
to de Mosqueiro ficava no entao badala-
do Farol: era o Netuno late Clube, cons-
truido pela Conama (Construg6es Amaz6-
nia), administrado pela Equipe, que tam-
bem fazia vendas, juntamente corn a Nor-
te-Sul Corretagens. Os empreendedores
prometiam todas as instalag6es necessdri-
as para o associado gosar "as delicias das
f6rias e fins de semana". Ja em Salin6po-
lis, a mesma Norte-Sul convidava o vera-
nista a visitar "as obras de terraplenagem

SU0SOO


da CIDADE JAR-
DIM ATALAIA


prestes a termi-
nar", corn lotes de I c
15 por 30 metros,
e ponte para a
praia do Atalaia. q aip
Em novem- su EMs
bro de 1965, o"pri- "- '"
meiro lancamento"
era o Edificio Pa-
quetd, corn "apenas" 21 apartamentos em tries
pavimentos, projeto e constru&o dos enge-
nheiros Carlos Freire e Arthur Mello na "Es-
trada do Chap6u Virado", pr6ximo ao Hotel
do Russo. Mas havia ainda o Edificio Tra-
lhoto, "todo estruturado em concrete anna-
do", na interseccao da Estrada Beira-Mar corn


PDlMfIIt O


IARCMENTO!


r


CONSTRUAO;
c1Ur I Agll

COINsiUcES IMAZONIA CI 1TITETES LITA.

a Estrada da Bateria. Nos seus "somente"
quatro andares, nada menos do que 64 apar-
tamentos, de quatro tipos (o mais caro, tres
vezes mais caro do que o mais barato).
Veraneio de 35 anos atris: praia, sol,
mar, c6u azul, temperature amena tudo
eram promessas.


dLf&L'Lclo
PAQUETA
Planeiado especialrente para voc&
passar suas f6rlas e fins do semana


D


( AP-NA3 21 AASTAM(RNTOr oiS TWOS, IM I IAvW41TOS
,%l:. 2 za=a; ca9ni*; 8t Sal. Iwa. $aa$% a. .1.1* |
VICtf .ct* 4.aa 4. nw a kaat.
a. a WC jt ai.l Ia


aipBnati.tIHHia-diii n aMgs r, uaMugur, s. a--,, a eua .
A"- fts= 0 a /ctguanabara
,,,,- ,,4aa.,, projeto a construedo:
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