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amIazo nica Ano I N 8 Belem, abril de 2000 R$ 3,00 c i 0 F d v i Pi n t o 0 impenrio na selva custou um real Pela segunda vez o governor federal armou um esquema de salvamento do imp6rio formado quatro d6cadas atrds pelo miliondrio americano Daniel Ludwig. Em plena democracia, a operaqgo 6 mais nebulosa do que a primeira, de 1982, dos militares. 0 novo dono tirou apenas um real do bolso para ficar cor o Jari. Uma proposta melhor, apresentada por uma empresa canadense, chegou tarde, quando o martelo do BNDES ja havia sido batido. Foi, ao menos, a desculpa. Mas quem passou batida nessa hist6ria foi a opinion pdblica mais uma vez. Mais uma vez. cano Daniel Ludwig no vale do Jari, entire o Par! e o AmapA, ji era impressionante: dominava 1,6 mi- lhao de hectares, tinha 100 mil hectares plantados cor pinho e eucalipto(no lugar da antiga floresta native, posta abaixo), uma fibrica de celulose, uma usina de be- neficiamento de caulim, uma termel6trica, um arrozal de quatro mil hectares, criacio de b6falo e uma cidade de 20 mil habitantes, entire outros itens de um ativo no valor de 800 milh6es de d6lares. Nesse mesmo ano de 1981, S6rgio Ant6nio Garcia Amoro- so, cor apenas 24 anos, criava, no interior de SAo Paulo, a pri- meira fabrica de papelAo do que viria a ser o Grupo Orsa, hoje o quarto maior do setor de papel, celulose e embalagens entire os grupos nacionais no Brasil (abaixo de Klabin, Rigesa e Igaras), cor faturamento annual de 300 milhoes de reais. Jari e Orsa uniram suas trajet6rias no final do ano passado, numa operagio relAmpago que transferiu o con- trole do primeiro para o segundo personagem. (, , Seria algo como uma capivara engolir um ele- ' fante. Nao exatamente se forem comparados os faturamentos liquidos das duas empresas, mas o tamanho de seu patrim6nio e mais do que isso a dimensAo dos seus encargos. A divida da Jari, que ja passou de 400 - milhOes de d6lares (o equivalent a mais de ,, um semestre de arrecadagio de ICMS do Pari), ', i 6 a causa de, ano ap6s ano, a empresa apre- *' - sentar pesado prejuizo operacional. O de 1998 (iltimo balango divulgado) foi de 122 milhoes <' de reais para uma receita liquid de R$ 103 / / milhoes. Mesmo se todo o seu patrim6nio fos- se vendido, a empresa nao daria conta dos seus encargos. O pr6prio Ludwig teve consci&ncia de que o desafio nao podia ser vencido quando suas fibricas entraram em opera, em 1979. Em 1967, ao comprar de antigos comerciantes por- / tugueses estabelecidos no Pard a Jari Com6r- / / '- - cio, Indistria e Navegacgo (que fora original- / mente do legendirio "coronel" Jose Jilio de Andrade), ele pretendia saciar as crescentes fomes planetArias por fibras e grios formando os maiores de todos os plantios do mundo de arroz e de floresta para celulose na foz do rio Amazonas, corn said franca para a Europa e os Estados Unidos. Mas nto estudou suficientemente a terra de que se tornaria dono (a titulo precario, alias, porque a documentagao dominial sobre a area era duvidosa). Pior do que isso: nao previra a sibita elevagio dos custos do petr6leo e dos juros internacionais a partir da primeira metade dos anos 70. Os empreendimentos con- cebidos por Ludwig se baseavam em alto consume de energ6ti- cos e de dinheiro emprestado. Dos 800 milhoes que tinha aplica- do quando as fibricas de caulim e celulose comegaram a funci- onar, apenas US$ 150 milhoes safram do pr6prio bolso dele. Os outros US$ 650 milh6es foram emprestados junto a agents fi- nanceiros, fabricantes e fornecedores. Q uando venceu a primeira par- cela do principal dos financiamentos, feito pelo estaleiro japones Ishkawaji- ma (que construiu a fabrica de celulo- se e a usina de energia sobre platafor- mas flutuantes, fazendo-as navegar do Japdo ao Jari, num inedito feito muito festejado na ocasido), Ludwig se recu- sou a pagar a fatura. ///// credor foi entAo ao tesouro national, que dera aval A transagio. Se quitasse a divida, o govemo federal teria que tomar posse do Jari, o que significava estatizi-lo, algo que ji era considerado demoniaco. Rapidamente o ministry Delfim Neto (hoje, deputado federal por Sao Paulo) cha- r mou um grupo de empresarios, principalmen- S te empreiteiros (sempre necessitados do go- verno e vice-versa), e mandou-os assumir o control do Jari no lugar de Ludwig. Foi uma nacionalizagAo manu military, como a defi- niu ironicamente um general: "Os empresari- os assumiram o Jari como voluntArios. Cor a baioneta as costas, 6 verdade". Mas tamb6m com dinheiro pliblico nos S' bolsos. Cada um dos 23 empresArios nacionais -' ', nao entrou com mais de 300 mil d61ares por ca- / / beca e parceladamente. Os encargos financei- ) -' ros foram transferidos para as costas do BNDES '/ (Banco Nacional do Desenvolvimento Econ6mi- S, co e Social) e para o Banco do Brasil. Calcula-se que os dois bancos estatais tenham torrado no Jari entire 400 milhoes e 500 milh6es, pagando os credores extemos de Ludwig (a atual divida 6 in- tema). Em troca desse dinheiro, receberam ages preferenciais especiais, que Ihes davam direito a quatro cadeiras no conselho de administragfo da Jari e a preferencia no recebimento de divi- dendos, quando houvesse lucro (o que nunca houve e nao se vislumbra que ocorra nas pr6ximas duas d6cadas). Foram tantas ac6es preferenciais em troca de dinheiro sem retorno que os dois bancos ja possuem 32% do capital total da Jari (soma das ac6es ordinArias e preferenciais). Mas os irrmos Guilherme e MArio Frering, netos e sucesso- res de Augusto Trajano de Azevedo Antunes no control de 96% das ac6es ordinarias e de 38% do capital total da empresa, con- tinuavam a mandar no Jari. Agravaram os erros e os vicios da 2 ABRIL/2000 -AGENDA AMAZONICA gestAo do av6. Antunes nunca teve um real empenho pelo Jari: quando liderou o pool de empresas na nacionalizagSo do proje- to, em 1982, estava interessado na fbbrica de caulim, que ficou inteiramente em suas maos (e ja dava lucro, com boa aceitacAo no mercado de revestimento de pap6is nobres), e no forneci- mento de cavacos de madeira que produzia na vizinha Amcel (AmapG Celulose), no antigo territ6rio federal em que atuava desde a d6cada de 50, extraindo manganes da jazida de Serra do Navio em parceria com a americana Bethlehem Steel na Icomi(Indistria e Com6rcio de Min6rios). Provavelmente dinheiro injetado no Jari pelos bancos ofici- ais foi aplicado tamb6m nos outros neg6cios do grupo Caemi fora da Amaz6nia, especialmente em Minas Gerais, e usado como moeda de troca nas operag6es de mineragAo e siderurgia. Mas quando as dificuldades da corporagAo se generalizaram, obri- gando a Caemi a aceitar a parceria dos s6cios japoneses da Mit- sui, e Antunes morreu, o que era descaso virou incdria. Sem nunca pisar no Jari, os dois irmAos comandavam - de Paris e do Rio de Janeiro dando ordens desencontra- das, ou nem dando ordens, mas exigindo retornos. A espiral de di- vidas engoliu a Amcel (vendida A multinational americana Champi- on para gerar caixa) e esteve pr6- xima de abocanhar de vez o que deveria ser o maior imperio indus- trial na selva, quando os credores perderam a paciencia com as pro- telag6es do grupo Caemi. Como ningu6m queria a Jari e seu ingl6rio destiny parecia inevitAvel, nio surpreendeu de todo quando, em - dezembro do ano passado, o BNDES anunciou que o grupo Orsa (atrav6s de sua holding, Saga Investi- mentos e Participac6es) estava arrematando o que fora o iltimo grande sonho de Ludwig (desencadeado quando ele ja estava corn 70 anos) por um valor simb6lico: um 6nico real (para que nao' fosse, pura e simplesmente, uma doagAo). Chegava ao-fim a era de Antunes e seus netos, comecando a de Ant6nio Amoroso. O dono do grupo Orsa assinou uma esp6cie de contrato de risco cor os credores, com validade pelos pr6ximos 11 anos. Sempre que a celulose da Jari for vendida acima de 420 d6lares a tonelada (agora estA em torno de US$ 600), 80% do valor adici- onal ir para os credores e 20% para os novos proprietarios atW a quitacAo da divida. Se no period o preco estiver abaixo desse parAmetro, a Orsa'garante pagar US$ 196 milhoes, considerado o valor minimo, no 11 ano, como saldo remanescente. Talvez nao seja um esquema tAo favornvel quanto o que o ministry Delfim Neto ofereceu aos 23 parceiros da nacionaliza- cgo, em 1982, que nem precisaram ir ver o que estavam "com- prando" (o finico pretendente que foi ao Jari, o banqueiro Olavo Setubal, do Itai, ficou fora da operaCgo). Mas deve ter sido atra- ente e, de certa forma, tio inesperado o bastante para provo- car a apresentag~o urgente de outras propostas ao BNDES, ten- tando evitar a consumagio da operacgo. A Tembec, maior produtora de papel e celulose do Canada e terceira em escala mundial, mandou em maos (no caso, de ningu6m menos do que o embaixador do seu pais, Richard Koh- ler), proposta aparentemente muito mais vantajosa do que a da Orsa. Ao inv6s de R$ 1,00, a Tembec estava disposta a pagar 150 milhOes de d6lares, a vista, pelas ages dos irmAos Frering, a investor de imediato US$ 270 milhoes para dobrar a capacidade de produ go, das atuais 350 mil toneladas para 700 mil toneladas de celulose, e iniciar a construg~o da hidrel6trica de Santo Ant6- nio, desfazendo o n6 que tem atado a expansAo produtiva. Alem disso, os canadenses nem queriam ser donos dos 1,6 milhAo de hectares que a Jari consider seus: a Tembec arrendaria a area florestada de que necessitasse por 35 anos, renovdveis por mais 35, "a prego de mercado". Quanto a divida, faria uma nova negociag o, em bons terms, pagando-a num prazo estabelecido. O BNDES nao aceitou. Alegou que a proposta chegou atra- sada, quando ja havia fechado o neg6cio cor a Orsa e os de- mais credores. Alguns jornais publicaram nota duvidando da seriedade das inteng6es dos canadenses. Mas outros tambem co- chicharam que informaoges privilegiadas haviam sido passadas para o empresdrio Sergio Amoroso e ele usou-as para encalninhar e fe- Schar o neg6cio na hora certa. Diziam que o esquema fora Sconduzido em familiar: Ana Maria Sardinha 6 gerente de marketing e -" '- assistente pessoal de Amoroso des- de 1996, justamente quando a Orsa c comegou a estudar a compra da Jari; ja seu marido, Jos6 Claudio Sardinha, coordenava o grupo de S, credores da Jari em nome do Ban- ,- (-_'- co Bozano Simonsen. Houve um moment em que marido e mulher estiveram em posic6es importantes no teatro das negociag6es sobre a venda da Jari. Apenas fofoca? Nao se sabe. A segunda operacgo de salva- mento do famoso e polemico projeto foi mais r.pida e nebulosa do que a primeira, realizada 18 anos antes, embora agora se viva em uma plena democracia, ainda inexistente em 1982, quando o general Joao Figueiredo, de plantao na presidencia da Reptibli- ca, entendia como abertura democritica prender e explodir quem divergisse dos seus m6todos. Nem mesmo os grupos de pressao ou de opiniAo que cos- tumam utilizar o projeto concebido por Ludwig como exemplo ou eixo dos seus discursos nao parecem haver se interessado por essa nova transferencia de control acionario, apesar de muito dinheiro do erario federal continuar em jogo e o future ainda envolver riscos e incertezas em margem mais do que duvidosa. Justamente quando a vidva paga a conta, o Jari perdeu o fascinio que exercia, talvez porque do outro lado nao estd mais uma figure que caiba tao bem na caricature de.inimigo mortal como Daniel Keith Ludwig (que morreu oito anos atras). Os eter- nos gatos pardos das transacOes escuras ou escusas (agora cor nomes nacionais) passam e os caes da vigilAncia ji nao ladram no front amaz6nico do Jari. Domina um silencio de conivencia, omissao, desconhecimento ou ignorAncia. A ABRIL/2000 AGENDA AMAZNICA 3 PERSONAGEM 0 grande jornalista do seculo XIX (Quem conhece Bento Tenreiro Aranha?) Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha II escreveu seus primeiros artigos na imprensa em favor da Republica em 1865, um quarto de s6culo antes da proclamaqao do novo sistema politico, quando tinha apenas 24 anos de idade e quatro de jomalismo. O jomalismo, Tenreiro Aranha ainda exerceu por mais 30 anos, mas quando a propaganda re- publicana finalmente resultou na derrubada da monarquia, em 1889, o neto do primeiro Bento Tenreiro Aranha (1769-1811), que foi poeta e teatr6logo, ja estava do outro lado, criticando os novos poderosos. Era, entdo, o mais antigo dos propagandistas republicans. Tornou-se, por6m, o critic mais feroz dos repu- blicanos no poder, que j! negavam, no exercicio do governor, as id6ias que defendiam quando ainda o buscavam. Desde que morreu, em Bel6m, em 1919, corn 79 anos de idade, o nome de Tenreiro Aranha II foi sendo coberto pela fuligem do desinteresse, quase da sabotagem. S6 nao se tornou um absolute desconhecido gragas a paciencia e aplicaiAo das pesquisas do historiador Vicente Salles. No Memorial da Caba- nagem (Bel6m, Cejup, 1991), e na "micro-edicio do autor" Bento Aranha (Hist6ria de um jornalista revoluciondrio), de 1994, Vi- cente fez uma apaixonada defesa da mem6ria de um dos mais importantes jomalistas da Amaz6nia ao long do Segundo Imp6- rio e na transioo da monarquia a repiblica, o maior de todos os panfletarios do period. O titulo contrast corn a ausencia quase absolute de refe- rnncia nos manuais ou ensaios hist6ricos ao personagem ou ao principal dentre os muitos jorais que editou, tanto em Bel6m como em Manaus, entire 1876 e 1894, al6m da participago desta- cada que teve em muitos outros, de propriedade de terceiros. O Correio Paraense, que conseguiu chegar a 619 nfmeros entire maio de 1892 e junho de 1894, garante Vicente Salles, que leu grande parte das ediOges, "conta certamente uma das hist6rias mais brilhantes do periodismo paraense". O fato de os historiadores praticamente o ignorarem nao surpreende: a historiografia pouca atenglo dai imprensa "que nao se enquadra na classificacao de 'boa' ou 'grande'. Fica a impressAo de uma folha menor, que nlo pode ser comparada aos paradigmas da 'boa' imprensa native, como a veteran A Provincia do Pard, voz das classes conservadoras, ou a Folha do Norte, que restaurou a bipolaridade convenient entire liberals e conservadores foras do bem, da boa imprensa que se alter- nam no poder. As forcas do mal nao podem ser lembradas. Esse maniquefsmo result na destruigAo sistemrtica de grande parte da nossa mem6ria, o que faz berm manutenlAo do status quo. A destruigo da mem6ria exorcisma a hist6ria e possibility o con- trole social", observa Vicente. No entanto, a rica biografia de Bento seria motivo sufici- ente para os seus sucessores enfrentarem essa conspiragAo do silencio. Ele era neto do amazonense Tenreiro Aranha, "primeiro destaque da literature po6tica e dramitica entire os natives da Amaz6nia", na classificagAo de Vicente Salles. Seu pal, JoAo Baptista, jornalista, politico e administrator (1798/ 1861), foi quem props e instalou a provincia do Rio Negro (hoje, o Estado do Amazonas), em 1851, desmembrando-a do GrAo-Parl, e a administrou durante seus dois anos iniciais de existencia. Influente e bem sucedido, p6de oferecer uma edu- cacqo refinada ao filho, incluindo a m6sica, na capital do pals e na Italia, formarao interrompida quando o pai se suici- dou, ja enlouquecido, em 1859. Ao ser obrigado a trocar o Rio de Janeiro por Belem, Bento ja tinha experiencia jornalistica, que combinaria a partir de entio cor sua face political (foi por tries vezes deputado provincial no Rio Negro) e pedag6gica. Elas emergiam a cada vez que o tom de libelo dos seus escritos na imprensa local provocava reag6es dos poderosos personagens atingidos. Em 1865 ele engrossava, como colaborador, a campanha desencadeada pelo Didrio do Pard contra o recrutamento de "voluntarios" para a guerra do Paraguai e a administraSio de Couto de Magalhies na presiden- cia da provincia, al6m de pregar a repiblica, quando foi depor- tado para o Rio Negro, com passage de "colono" (isto 6, sem direito a retomo), "por pregar doutrinas subversivas contra as instituig6es monArquicas do pals". Mais duas vezes Bento Aranha sofreria deportac6es, vol- tando para Belem A forga, em 1870 (novamente por critical o recrutamento military compuls6rio) e, da mesma maneira, sendo daqui recambiado outra vez para a nova provincia, tres anos depois. Nas idas e vindas, passou 30 dos seus 79 anos em terras amazonenses, onde, nas horas vagas do panfletarismo, organi- zou uma alfandega e fundou a primeira escola dirigida aos ope- rarios (tratados entdo como artistsas". Podia ter seguido a carrei- ra de sucesso do pai, mas preferiu manter suas id6ias "subversi- vas" pelo socialismo e a repdblica. Em 1880 foi eleito deputado pela primeira vez apresentando um program republican, fato in6dito, segundo Vicente Salles, que o tornou "provavelmente o primeiro republican a se eleger a uma Assembl6ia Provincial no Imp6rio brasileiro". Mesmo anatematizado pela elite dirigente e os membros do partido conservador, e apesar de defender cor ardor id6ias re- primidas como radicals, Bento conseguiu mais dois mandates parlamentares pelo Amazonas, o que da uma id6ia mais correta da fermentaoo political e ideol6gica da 6poca. Se ele podia ser classificado como o mais radical dos oposicionistas, nao era o inico a defender id6ias avancadas, como o socialismo, pouco mais de uma d6cada ap6s as revoltas europ6ias de 1848 e antes mesmo da Comuna de Paris, de 1871. 4 -ABRIL/2000 -AGENDA AMAZ6NICA Na imprensa havia jomalistas como Juvenal Tavares e Jolo Parsondas de Carvalho, virulentos na apresentacAo das iddias e muito mais profundos do que parecia capaz de aceitar uma clas- se dirigente superficial, refrataria a mudangas. Nessa epoca, uma "sociedade menos densa e certamente mais carente de escolas, permitia a circulacao entire n6s de cerca de uma dezena de fo- lhas dikrias, aldm de peri6dicos classistas, politico-partidirios ou independents. Havia portanto amplo debate das ideias", assina- la Vicente Salles. D ivididos entire a militancia par- tidaria e a agitacao social, atrav6s da qual davam voz aos primeiros repre- sentantes de um primitive proletariado urban, esses intelectuais nao se limita- vam a um parasiano ouvir estrelas. Vicente lembra que um dos muitos jornais que surgiram e desa- pareceram durante o Segundo Impdrio, A Tribuna, foi criada em 1870 "para propagar ideias republicans e nacionalizar o com6r- cio a retalho", ainda dominado pelos portugueses, quase meio s6culo depois da independencia brasileira e 30 anos ap6s o fim da Cabanagem. Para ser conseqiente, era impossivel nao enfrentar as ba- ses da afluencia e de um estreito mecenato das elites: a promis- cuidade na destinagco das concessOes pfblicas e na partiAio dos favors oficiais. Uma das fontes de enriquecimento de poli- ticos e empresirios eram os pontos de talho da came nos merca- dos pfiblicos, element de parceria entire Francisco Bolonha e o future intendente Ant6nio Lemos, por exemplo, da qual resultou embelezamento urban e enriquecimento pessoal. Outra negociata se fazia em torno da contrato do fomeci- mento de Agua, cujo servigo foi financiado pelos cofres pidbli- cos e a exploragao transferida ao americano Edmund Comp- ton, gragas a um acerto "tracado entire quatro paredes entire o president da provincia [que era Gama eAbreu, o bardo deMa- rajol e o interessado", conforme denidncia feita por Bento. O barao processou o jornalista pelo crime de "injdria impressa", desencadeando violent campanha para silencil-lo. "Lamenta- velmente, a question desvia o jomal do interesse coletivo, em- penhando-se ele na defesa da pr6pria pele", observa Vicente Sales sobre um fen6meno ciclico na relagio entire a imprensa independent e o poder. Jornalistas como Bento travaram ao mesmo tempo uma batalha pelo acesso A informagio (e sua posterior divulgagio) e pelo confront de ideias. Compulsando a imprensa da 6poca, Vicente assinala que o material "mostra que esses jornalistas e escritores, tratando de tAo graves assuntos, cor seguranca e cer- to vigor, nao foram expressao do mero jacobinismo. Havia bas- tante conteido politico e ideol6gico nesses escritos". Em funlo desse embasamento, seria inevitivel a colisAo com os novos se- nhores locais, que substituiram os monarquistas na conducao do govemo, mas mantiveram seus mrtodos autoritarios, nao acei- tando a fiscalizagAo e a critical. Por ironia, o mais antigo dos publicistas republicknos teve seu journal seguidamente agredido e empastelado pelos politicos e que a Reptiblica entronizou no poder. As primeiras ameagas feitas ao CorreioParaense, Bento Aranha, ja um cinqieritio, mas ainda disposto a tudo, reagiu com uma nota no seu jomal: "iLTIMA HORA Aviso ao Dr. Lauro Sodr6 - Se d'algum atentado a liberdade de imprensa formos n6s vitima, a contar de hoje, responsabilizamos como inico autor o coman- do da infantaria da policia do nosso particular amigo Sr. Dr. Lauro Sodr6, govemador do Estado. Para defesa de nossa propriedade, honra e vida, estamos postos, alerta e competentemente armados. Achamo-nos ameaados. Bento Aranha". 0 Correio foi avangando, mas a cada pass os desafios aumentavam. Nos 6ltimos tempos, Bento "acabou fazendo qua- se sozinho o seu jomal". Mesmo assoberbado, enfrentou todos os temas que entAo se apresentavam, como a emancipacAo do Par! "no sentido de uma Federaao de Estados brasileiros, mais ou menos o que defendiam os gadchos", proposta que o poder central interpretava como tentative de quebrar a unidade nacio- nal, reprimindo-a cor violencia. E continuou a denunciar os privil6gios das concess6es pdblicas, principalmente as que re- sultaram no monop61io da came verde, contrariando a mais po- derosa elite da 6poca, a dos fazendeiros da ilha do Maraj6, a do gas e a da agua. Tanta ousadia resultou em sucessivos empastelamentos, que acabaram levando ao fechamento do jomal, dois anos depois de ele haver surgido. Antes do fim, escrevendo do esconderijo, que buscara para evitar a prislo, decorrente da sentenca dada pelo Superior Tribunal de Justiga em favor do barao de Maraj6, Bento formulou seu ideirio, reproduzido no pequeno e precioso livro de Vicente Salles, distribuido entire 30 destinatarios da limitada riragem. Bento dedicou as expresses mais virulentas aos tribu- nais de justiga, acusando-os de serem constituidos "por vendi- lh6es, que mediante a qualquer prego e a quem mais vantagem lhes ofereca, vendem a consciencia, deturpam a justica, violam o direito e manifestam ostensivo desprezo a lei". A partir dai, ji sexagengrio, Bento inicia a iltima fase da sua vida: organize e divulga os documents geogrIficos e his- t6ricos do Amazonas, nos iltimos oito anos de permanencia no Estado vizinho, e, em seguida, participa do renascimento do Institute Hist6rico e Geogrifico do Para, em cuja revista public uma mem6ria com suas impresses de viagem entire os sucessivas deportaS6es de Bel6m e de Manaus, A terra. As cof- sas e o home da Amazdnia. Quando morreu, em 1919, tudo era decadencia: a replblica, pela qual sonhara, e a borracha, que enriquecera seus adversaries, a elite que tudo fez para apagar seu nome de um dos capitulos mais brilhantes da hist6- ria paraense. Cor seus nocivos efeitos ate hoje contribuindo para a desmem6ria do povo. A ABIL/2000- AGENDA AMAZ6NICA- 5 CARTAS A fbrica da natureza no circuit amazonico Na Agenda n" 7, de marco/2000, na pig. 08, coluna 2, segundo parigrafo, consta a seguinte citagAo: "... cresce, de fato, sobre o solo e nio do solo, utilizando-se deste apenas para sua fixaco mecdnica e nao como fonte de nutrients; em vez disso, ela vive numa circulacio fechada de nutrientss. Embora nao sendo especialista "de vero", de "v6spera" ou de "gabinete", em fisiologia vegetal, nao posso concordar que a floresta use o solo somente para assegurar a sua verticalidade. No minimo, uma afir- mativa dessa monta, poderd comprometer a aprendizagem de noviciadb. A certo que algumas esp6cies, por excego, escapam a regra geral de capturarem do solo a materia prima que sera transformada em substincia orgAnica, necessAria a sustentagio do seu ciclo de vida. Por6m, salvo novidade cientifica, as fun- c6es bdsicas da raiz slo: absorlAo e fixagao. Deve ficar claro que o meu comentario se restringe A frase transcrita, pois nao conhego o livro. Pode ser que no context ele justifique essa coloca.io. Respeito o estilo, mas defendo a coerencia didttica. Um abrago do Rodolfo Lisboa Cerveira **************** Minha resposta: O texto referido de Harald Sioli procura explicar o fato "aparentemente paradoxal" de a "eXuberante floresta alta ama- z6nica erguendo-se sobre um dos solos mais pobres e lixi- viados [lavados] da Terra". Diz el provocando a contrarie- dade do leitor: "Uma conclusAo que se imp6e 6 que a floresta cresce, de fato, apenas sobre o solo e ndo do solo, utilizando-se deste apenas para sua fixaiAo mecinica e nao como fonte de nu- trientes; em vez disso, ela vive numa circulacao fechada de nutrients. A floresta se protege das perdas de nutrients por meio de verdadeiros estratagemas, que possibilitam ao seu ecossistema, extremamente diversificado em esp6cies e, por isso, multiestratificado, uma utilizacAo 6tima e maxima das quantidades limitadas de nutrients em circulagio atra- v6s da cadeia de organismos que, compoe este ecossistema florestal. Estas quantidades de nutrients nao tem possibili- dade de ser renovadas ou complementadas por eventuais reserves no solo". Prossegue Sioli: "A circulacao fechada de nutrients se deriva do fato de possuir a floresta um sistema radicular superficial, se bem que extraordinariamente denso, tres vezes mais basto que o das flo- restas das zonas temperadas. E esta trama radicular fina e densa, agindo como um filtro perfeito, imediatamente reabsorve e re- conduz a substincia viva da floresta todos os nutrients que vAo sendo liberados na decomposiilo da serapilheira cor os excre- mentos dos animals silvestres etc. Sao, pois, sempre os mesmos nutrients que reiteradamente circulam atrav6s das gerag6es dos organismos florestais; perdas eventuais situam-se na ordem de grandeza dos teores das substancias contidas na chuva, de tal sorte que slo por esta compensadas". Transcrevo os dois parigrafos seguintes (excluindo do tex- to as notas bibliogrAficas) para completar a descri&o do funcio- namento dessa notAvel fabrica de reciclagem natural de nutrien- tes em circuit fechado, mobilizando quase todos os integrantes do ecossistema, nao apenas alguns deles: "A remineralizaio da serapilheira e a recondugco, em par- te direta, dos nutrients ai contidos para as raizes das arvores 6 providenciada sobretudo pelos funds edaficos, por micorrizas. O efeito generalizado de filtragem pelo sistema radicular p6de ser verificado tamb6m quantitativamente por W. Franjen (comu- nic. Verbal): Em oposigio a igua da chuva quimicamente pobre, a Agua que goteja do dossel das copas e a agua que escorre pelos troncos abaixo revelaram-se quimicamente muito ricas; ja a agua que se encontra abaixo da trama radicular mostrou-se tao pobre quanto a agua da chuva. A riqueza da Agua que goteja ou escorre nAo deve decorrer apenas da lavagem de substincias contidas nas folhas e de pro- cessos similares, mas sobretudo da funoo de "descarga" da chu- va, lavando para baixo os excrementos dos animals, a maioria dos quais sao de especies maiores, como aves, macacos, coatis, preguigas, etc., mas tamb6m insetos que vivem no estrato superi- or da floresta, na copa das irvores. Alias, a riqueza da agua gotejante e da que escorre pelos troncos explica a exuberincia da flora epitifica, incluindo ai as plants que vivem sobre as folhas de outras. Estas epifitas criam, por sua vez, novos nichos para mais formas de vida. Tal circunstincia seja tamb6m menci- onada como exemplo da utilizaoo 6tima dos nutrients por par- te do ecossistema altamente diversificado, nas diferentes seg6es de seu ciclo. Este ecossistema, por ser a manifestagAo vital mais variegada que conhecemos sobre a Terra, mant6m-se mediante numerosos circulos homeostAticos, em que as esp6cies regular- mente se concatenam, numa espdcie de equilibrio estavel de seus components, perdurando enquanto nao for perturbado o men- cionado ciclo". Nao s6 6 dificil compreender esse ciclo, como ate mesmo 6 impossivel visualizi-lo para quem encara a Amazonia cor os olhos do colonizador, que chega a nova terra para reduzir o que 'encontra ao seu pr6prio universe, do geogrifico ao mental. Na mesma 6poca em que Sioli fazia sua palestra na Alema- nha (depois transformada no livro resenhado na edicio anteri- or), eu visitava as obras da hidrel6trica de Balbina, no Estado do Amazonas. Sobrevoando a area que ficaria submersa quando o 6 -ABRIL/2000 -AGENDAAMAZ6NICA rio Uatumr fosse represado, um t6cnico da Eletronorte me inter- pelou. Como eu combatia a formaoio do reservat6rio, do qual resultaria energia a ser fornecida ao povo, para manter um solo tao pobre como aquele? Solo pobre, sim, cara-pilida. Mas sobre ele erguia-se aque- la exuberante floresta que estivamos contemplando cor admi- raqio. Este 6 o segredo e a chave do enigma amaz6nico. S6 que, ao contrArio da santissima trindade do catolicismo, ele pode ser captado pela razao, sem ser apenas um dogma de f6. Entendido, pordm, por uma razao te6rica e aplicada capaz de perceber o que esta por tris de um adjetivo que 6 usado quase tao em vlo e irrefletidamente quanto o nome do Senhor: Amazonia. Ela 6 Agua, sol e floresta. Sem um desses tres elements, deixa de ser Amaz6nia. Podemos rebatizi-la com outro nome qualquer, cer- tos de uma coisa: teremos uma regiAo muito mais pobre, pobre de marr6, marr6, marr6. Polemica em torno da usina de ,.Tucurui 0 engenheiro Trajano Oliveira, queparticipou da constru- gdo da hidreltrica de Tucuruipelo cons6rco Engevix-Themag, escreveu de Palmas, capital do Tocantins, onde atualmente resi- de, uma carta com observaVdes a propsito da materia de capa da edifao anterior desta Agenda. As observagaes que elefaz sdo pertinentes eguardam diferenga em relavdo t interpretaao que defend sobre os mesmosfatos. Ganhariamos todos, entretanto, se outros tncnicos tdo credenciados quanto Trajano tambdm se ma- nifestassem, enriquecendo um debate que estd long dep6rflm as dhvidas e divergncias. Nao nego as vantagens e conquistas da hidreltrica de Tu- curui o que, de resto, seria estulticefazer. Question seus meto- dos e seu custo, ndo s6 para tentar escrever uma bist6ria verda- deira da obra, comopara aperfeigoaras bidreletricas que ain- da vierem a ser construidas na Amazonia. Recebo a carta de Trajano como elementopreciosopara um debate queprecisa- mos continuar a travar. Infelizmente, a iniciativa dele e uma exceodo. Poucos dos que estdo em condigces de se manifestar trn a mesma consciOncia cfvica do engenheiroparaense. E menos civica ainda 6 aposicao da responsdvelpela obra, a Eletronorte, quefoge do didlogo e desrespeita o compromisso de prestar informages a opinidoplblica. Continue a ser a mais autoritdria e colonialista das empresas federais. A carta de Trajano: "Li este seu bem escrito artigo apresentado na Agenda Amaz6nica de fevereiro/2000, cujo assunto aborda a Usina Hidreltrica de Tucurui. Parabenizo-o pelo seu conhecimento a respeito. Gostaria, no entanto de esclarecer melhor alguns as- suntos que foram mencionados e que eu nao concordo de todo e que servirdo para aumentar-lhe o conhecimento a respeito. Corn relaoo ao assoreamento (acumulaco de material sedi- mentado a frente da barrage) das obras de barramento, inform que este calculo ji 6 previsto durante o decorrer do projeto. Os estudos de assoreamento desenvolvidos objetivaram o cAlculo da vida dtil do reservat6rio, representado pelo nimero de anos necessriios para que o seu assoreamento atingisse uma cota pr6-estabelecida, fixada em funilo da soleira da tomada d'agua. Adotou-se para esta cota o valor de 23,00m, considerado seguro para evitar o carreamento de sedimentos atrav6s das to- madas d'agua e conseqOentemente efeitos abrasivos nas pas das turbines Este volume morto serve para acumular os sedimentos que sio trazidos pelo rio e esta altura 6 calculada tomando por base uma medico do volume de s61ido em suspensao ao long. de seq6es transversais do rio. No o caso de Tucuruf, o tempo calculado para que a barrage fique totalmente assoreada (isto 6, atingir a cota 23,00m) 6 de mais de 400 anos de operamAo da usina. No entanto, este tempo poderi ser reduzido devido ao desmatamento das margens, o que acarreta um maior transport de s61idos, mas mesmo assim e bem maior do que os 50 anos, considerado como a vida itil da obra. Durante os estudos de viabilidade foram previstos oito vertedouros de fundo com comportas de 5,90mx7,50m, que garantiriam o control do nivel d'agua do reservat6rio duran- te a fase final de construcao da barrage e conseqtentemen- te a manutenglo do nivel d'Agua minimo a jusante, exigido pela navegacio. Durante o desenvolvimento do Projeto BAsico decidiu-se pela eliminagio do vertedouro de fundo e respectivas compor- tas, atendendo As seguintes justificativas: As condig6es de operaq o destas comportas, sob uma car- ga de agua de mais de 70 m, eram dificeis e nio se conhecia, no mundo obra de tal porte. Foi constatado, ap6s estudos hidrol6gicos, de que o tempo de enchimento do reservat6rio era bastante reduzido, como pode ser observado na 6poca. Neste caso a navegagio seria muito pouco prejudicada, Existia uma considerivel economic com a substituico des- tas comportas pela de superficie e, conseqientemente, dos tra- balhos de construoo e montagem envolvidos. Nio question, de maneira nenhuma, a falta de estudos ambientais durante o projeto da obra e a political adotada pelo govemo, mas acredito que, se a construgao fosse tender, na epoca, todos os condicionantes ambientais necessArios, como esti sendo obrigado hoje, a obra nao teria sido executada e atW hoje Bel6m estaria as escuras, dependendo de energia gerada por uma termel6trica que ji era obsoleta na 6poca da constru- Sao de Tucuruf. Hoje achamos e comentamos os virios erros que foram cometidos na obra, mas sera que da para enumerar os beneficios? 'HA males que vem para bem'". ABRIL/2000 AGENDA AMAZ6NICA- 7 I I BIBLIOGRAFIA AMAZONICA As vitimas do milagre e o valor da utopia Em 1977, a prestigiosa editor da Universidade de Cambridge langou, nos Estados Unidos, Victims of the miracle- Development and the indi- ans ofBrazil. 0 livro fora escrito por Shelton Davis, director do Anthopolo- gy Resource Center, tamb6m sediado em Cambridge, no Estado de Massa- chusets, a mais influence ONG (expres- s eo ainda pouco usada na 6poca) da militincia antropol6gica fora da academia. No ano seguinte, a Zahar Edi;~res publicou a tradu oo brasileira do livro, Vtimas do milagre- 0 desenvolvi- mento e os indios do Brasil (208 p qginas). Foi a primeira e tnica edinio. Falou-se pouco no livro e ele saiu de circulagio, um destino imerecido para seus m6ritos. Talvez esses moritos inegaveis tenham sido aterrados sob o terreno grido e compact da questao indigena, um nervo ex- posto que o "sistema" ou a "comunidade de informagaes", dois dos mais citados algozes de entlo, preferiam manter oculto, como se nAo latejasse e sangrasse. Shelton Davis nlo se limitou a fazer um trabalho acad8mico, mesmo send urn tipico scho- Ilaramericano, mais a esquerda do model made in USA. JA no preficio ele dizia daramente o que pretendia: "A these central deste livro 6 que as doengas, a more e o sofrimento human, que se desencadeiam macigamente sobre os indios bra- sileiros nos tiltimos anos, slo o resultado direto da political de desenvolvimento econ6mico dos Govemos militares do Brasil". Segundo o antrop6logo americano, o Brasil estava forne- cendo "um dos mais claros exemplos modernos de um pais onde os direitos das comunidades indigenas foram sacrifica- dos em nome dos interesses maiores do desenvolvimento naci- onal". Esse, por6m, nio era um resultado inevitivel: "A Amaz6- nia brasileira 6 uma grea geogrifica de tamanha vastidlo que parques e reserves indigenas poderiam ter sido protegidos sem estorvar o desenvolvimento national do Brasil", argumentava. Seu livro 6 a demonstraoo dessa tese, confrontando os prop6sitos do Estado corn seu resultado efetivo e sua pr6pria participaglo, freqtentemente em contradivgo corn os enuncia- dos humanitArios. Criado sob a inspirag o altruista do mare- chal Rondon, 60 anos depois o SPI (Servico de ProteiAo ao Indio, traduzido erroneamente como SIP) afundou num mar encapelado de corrupao, ilegalidades e violencia. Segundo o relat6rio de uma comissio de sindicancia, instaurada a mando do ministry do Interior, general Albuquerque Lima, em 1968, dos 700 empregados que o SPI tinha, 300 eram acusados de crimes, 200 haviam sido demitidos, e 38, fraudulentamente con- tratados, haviam sido afastados". Num pol8mico relat6rio divulgado 10 anos antes dessa der- rocada (que dera margem ao surgimento de uma nova sigla, a da Funai, FundagAo Nacional do fndio), o antrop6logo Darcy Ribeiro mostrou que mais de 80 tribes indigenas haviam entra- do em contato corn a sociedade national e desculturadas ou destruidas pela doenca e a contariinagAo entire 1900 e 1957, quando o SPI estava em plena atividade. Se esse era o balango altamente negative de um 6rgao que procurava se colocar como anteparo na defesa dos in- dios, o que esperar do seu successor, criado corn a finalida- de de evitar que os indios se tomassem um problema para a expansao das frentes de expansao da economic brasileira na Amaz6nia? Em apenas 10 anos, os casos (Waimiri-Atroa- ri, Cinta-Larga, ParakanA, Kreen-Akarore, etc.) analisados por Davis sio de arrepiar e indignar. t certo que ao sistematizar tantas e tao dispares fontes de informacoes, o antrop6logo compete erros, alguns deles primarios (como medir em 300 quil6metros a distancia entire Porto Velho e Cuiabl), outros de apuragio (como ignorar que por tris de uma mineradora cor nome bem brasileiro, a Rio Xingu, estava a multinational Shell, que a fazenda da Volkswagen tinha 139 mil hectares e nao 22 mil, ou imaginar como sendo de vArzea a area da fazenda do King Ranch na terra-firme de Paragominas). Os brazilianists nos prestaram um relevant servigo cor sua disciplinada aplicagao na varredura de todas as fontes de informaages disponiveis, onde estivessem (graMas a seus fun- dos de financiamento), descortinando arquivos e documents que os pesquisadores brasileiros ou nao conseguiam localizar ou aos quais nao tinham acesso. Na Ansia de serem abrangen- tes e sistematicos, por6m, os brazilianists americanos costuma- ram pecar pela falta de criterios na ponderacio das fontes e por uma incapacidade raramente bem superada de ter uma com- preens~o mais intima do pais que estavam esquadrinhando. Bons resultados se podia obter reprocessando a montanha de infor- mac6es que acumulavam ao fun de suas pesquisas, nem sem- pre com inteligibilidade. NAo 6 esse ou, ao menos, nio 6 de todo esse o caso de Shelton Davis. Ele diz que sua experiencia de trabalho cor Ralph Nader e Ruth Nort, dois pioneiros defensores dos direitos civis nos EUA, ensinou-lhe "que a informag o por si s6 6 de pouca importancia. Em qualquer sociedade que alegue estar baseada na participago democratic de seus cididlos, a infor- 8 ABRIL/2000- AGENDA AMAZ6NICA magio deve ser traduzida em estrat6gias para a acao pidblica, a responsabilidade e a mudanca". Sua esperanpa, ao escrever o livro, era de que ele servisse "como um simbolo modesto da slidariedade intermaonal paa comr todos aqueles brasileiros corajosos que continuam lutando, em face de circunstancias nacionaismuito mais dificeis do que aquelas corn que pessoalmente deparo, ao lado dos povos indigenas do Brasil". Mas acreditava na possibilidade de conquistas concretas se fosse possivel influir sobre a political extema do pais que estava agindo mais poderosamente, abaixo apenas do Estado national, sobre a fronteira amaz6nica brasileira: os Estados Unidos. Para tanto, Shelton Davis sugeria um conceito mais abrangente de "direitos humanss, para que eles nio se res- tringissem as violaq6es mais acintosas, as inicas que conse- guiam sensibilizar o congres- so americano e repercutir so- bre o executive. Uma definicio mais just deveria incluir, por exemplo, "alguma definilo minima dos direitos das comunidades 6tni- cas, e fomecer algum mecanis- mo para garantir que a ajuda americana nio ameace esses direitos". Do ponto de vista da justiga econ6mica, seria preci- so "estabelecer diretrizes para garantir que os programs de ajuda americanos atinjam as pessoas que sio realmente po- bres, famintas e necessitadas de ajuda". Uma nova political ex- terna tamb6m deveria "fixar padres especificos para as pri- ticas das companhias multina- - cionais no exterior", atrav6s de mecanismos legais para asse- gurar "que essas companhias multinacionais nio desenvol- vam em outros paises ativida- des que seriam consideradas - ilegais nos Estados Unidos". Finalmente, Davis propunha uma "contra-ofensiva de sen- timento piblico, que question as prioridades da political de desenvolvimento intemacional, e que tome os autores da poli- tica extema, as instituiSes intemacionais de cr6dito e as com- panhias multinacionais responsIveis por suas atividades nessas areas pioneiras". Seria a maneira de tenninar "com essa e ou- tras guerras" do grandefront criado pela implantaiao de um "modelo de desenvolvimento" muito especifico, e destruidor, nas diversas areas de expansio econ6mica do mundo. Avaliada a partir da perspective de 20 anos depois, essa plataforma surge como uma iniciativa mais simb6lica do que real. A situacio mudou e em alguns aspects nio apenas mudou quantitativamente muito, como qualitativamente ate. Nem todas as tribes indigenas violentadas pelo avanco das frentes pioneiras sucumbiram. Algumas delas, que estiveram a beira do desaparecimento, renascem, como os Parakani. Conseguem atW mesmo se fazer entender, como os Panarl, que recupera- ram sua identidade e obrigaram os brancos a deixar de trata-los como Kreen-Akarore, a designaglo depreciativa que seus ini- migos ancestrais Ihes davam. O Estado brasileiro se democra- tizou, a political ofi- cial ji nda o 6 mais de exterminio e as ONGs se expandi- ram, exercendo 0 pressa.o sobre os governor centrais em suas sedes, incluindo nesse Salvo as empress 1 transnacionais. A quesroficou menos dualisa ou maniqueista do que duas d&cadas atras. Isto nio significa, entretan- to, que as providncias corretivas ou inovadoras estejam sendo ado- tadas com a amplitude e o dina- mismo da progressio dos proble- mas, que continuam se avolumando. 0 generoso oferecimento de Davis ainda estf mais desloca- do para a seara da utopia do que a da realidade. No entanto, o caminho por ele vislumbrado continue a ser uma das melhores (quando ido, muitas vezes, a inica) altemativas para evitar a des- truitio 6tnica, ecol6gica, social e econ6mica inventariada em seu livro. Vale a pena voltar a le-lo, com todas as suas deficiencias, contrabalanpadas por muitas virtudes (especialmente no tema late- ral do livio, a ecologia). Quando nada, para reforar o compromis- so com a utopia. E acreditar que a Amaz6nia tern solu~go. 1 ABRIL/2000 AGENDA AMAZ6NICA- 9 PERGUNTA/RESPOSTA Nesta segao, respond a perguntas feitas em palestras e que nao pude tender por falta de tempo. Embora o debate costume ser o melhor moment desse tipo de acontecimento, quando deixado para o final fica inconcluso e insatisfat6rio. Nas respostas, procuro manter o tom coloquial das conversas. A Amazonia e o future do Brasil? Se o Brasil soubesse aproveitar e explorer os recur- sos da Amazonia, teria possibilidade de se tornar um pais de 1 mundo? (De um aluno do CoWgio Vera Cruz) No inicio da d6cada de 70, o ministry vpones Saburo Okita foi a Brasilia visitar seu colega Delfim Neto, o home forte da administragao Garrastazu M6dici. Brasil eJapAo eram, entao, os dois milagreiros da economic intemacional. A taxa brasileira de crescimento estava acima de 10% ao ano. 0 Japio queria incrementar sua presence, mas temia a inconstancia do maior pais sul-americano. Com aquele seu estilo texano-paulista, Del- fim disse a Okita que o aval do future national estava na Ama- z6nia, cujo coracgo estava sendo rasgado por grandes rodovias, que dariam acesso as terras-firmes e suas riquezas de exploragao imediata, no solo e no subsolo. A expansao da fronteira amaz6- nica suplementaria a poupanca brasileira, insuficiente, em sua tendencia de expansao, para assegurar as taxas exponenciais de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) naqueles anos 70. Desempenharia o mesmo papel que o oeste dos Estados Unidos teve para a sua costa leste no seculo passado. At6 certo limited, tecnocratas como Delfim conseguiram o que pretendiam, sob a proteg o da espada dos gendarmes militares. Fizeram realmente a economic crescer. Mas o produto dessa alqui- mia econ6mica foi um monstro, a Belindia, o pais neol6gico (me- tade B61gica e metade india, inventado por um colega dissonante do atual deputado federal paulista, o carioca Edmar Bacha uma das mais negras taxas de concentrag~o de renda do planeta. O bolo cresceu, mas apenas uns poucos privilegiados foram convi-. dados para o banquet. Uma massa crescente da populacgo ficou do lado de fora da casa de recepg o, serenando uma festa conce- bida para exclui-la, chupando os ossos do banquet. Sob outra 6tica, a Amaz6nia continue valendo como um aval para o future do pals, nao como um titulo a ser criado, mas como um papel ji em circulag~o. Alids, ja em assustadora destruicao. Por enquanto, tem havido saque a descoberto, dilapidagao. Nada, pelo menos em dimensao que conte, de desenvolvimento auto- sustentado. O crescimento economic 6 um process autofigico: serve-se no almooo o que estava reservado para o jantar. Sacia-se a fome imediata com a ameaga da indigencia future. O primeiro desafio da "aventura amaz6nica" 6 civilizat6rio. t precise perceber, identificar e assegurar a diversidade da Ama- zonica na federacio brasileira. E uma diversidade geogrifica, baseada na combinacao heterodoxa de agua, sol e floresta, que torna secundirio um quarto fator, o solo (justamente o que rece- beu prioridade, junto com o subsolo). E tamb6m uma diversida- de hist6rica: 6 a regiAo homogenea menos relacionada com o restante desse Brasil e, cor exceg~o da capital do pais, a que mais experiencia teve cor capitals metropolitanas, da colonial soi-disant, Lisboa, a capital nao-declarada (mas de fato), Lon- dres. A Amaz6nia 6 a mais aut6ctone das regi6es brasileiras em fungAo dessas duas ordens de varidveis, ao mesmo tempo geo- grificas e hist6ricas. O tema international Ihe 6 familiar e essa dimensao 6 vital para o seu future. Ao mesmo tempo, o peso das populacoes primitivas nao ter similar national, mesmo que sir- va, sobretudo, para testar o carter democrdtico e civilizado da nossa sociedade, a capacidade de tolerar o diferente. Respeitar essa identidade relative exige paciencia, acuidade e disposicao para conviver cor o divers. A Amaz6nia precisa ter um tempo pr6prio, um modo especifico, ajustado as suas peculiaridades fisicas e humans. Isto nao quer dizer lassidao, conformismo, conservadorismo, indolencia ou o que l1 seja as- sociado a uma provincia isolada no tempo e no espago, que evita o contemporaneo apenas para impedir o auto-conhecimen- to, a revelag~o dos anacronismos. Muito pelo contrario: a Amaz6nia precisa de tecnologias sofis- ticadas, tanto para a utiliza&o economic dos seus recursos natu- rais, como tamb6m, pari-passu, simultaneamente ou mesmo num tempo de antecipagao, para conhecer-se satisfatoriamente. A melhor abordagem do saber 6 indispensdvel para que esse tempo amaz6ni- co seja, tamb6m, um tempo universal, que lhe garantir a contempo- raneidade hist6rica. E a inica maneira de livrA-la de um destino colonial, cuja caracteristica marcante 6 a impossibilidade de usar suas riquezas em beneficio pr6prio, antes e acima de tudo. A r6gua e o compasso para a utilizag o do almoxarifado amaz6nico como fator multiplicador do desenvolvimento brasi- leiro tmrn que escapar da bitola colonial. O que Brasilia e a sede dos grandes investimentos produtivos tern feito 6 comprimir seus pianos amaz6nicos dentro de suas estrat6gias nacionais e inter- nacionais. Disso resultam desastres gerados endogenamente, como o Projeto Jari, do miliondrio americano Daniel Ludwig, ou que apenas camuflam sua velha caracteristica de enclave, como a exploragto do manganes do Amapd pela Icomi. A equaCgo s6 dart certo se sua formulagco incluir a aceita- cgo da especificidade regional, um grau de autonomia que che- gard ao limited de risco da federa& o, o Brasil disposto a aceitar dentro de si a Amaz6nia como um organismo diferente, manten- do essa diferenciacgo, entendendo-a como a maior experiencia em toda a hist6ria national e tamb6m seu maior desafio. Nao como a terra brava a ser amansada pelo bandido, o pioneiro capaz de suportar a selvageria da fronteira. A 10 ABRIL/2000 -AGENDA AMAZONICA MEMORIAL Quando o centro commercial Na President Vargas Cams cassiica s e iupef Ft E rems Fbd i is e rh dos Frins E~lejc import~ds laticnk Ie aWlds BeBias Irdnais C eIs draON s Oft alips I *Ecearia ludo isto V. encontra agora diiriamente no antonil Aberto..toot as doe 6 As 12 h4., e d.. 15 21 h.. Ao domin-gm ar, 6cidia-jly( v IL1= Eantoni| j .NOVAORANIZA J SPi. VirJ.) 153 (PaUl i 8o RIJw) -= Tel.; 4022 ' IrROMOCAI INAUGURAL Dirant ise is as A c1 Ra suieriors a i$ W 1t0o, li lieilo I ma sicili pa ss iahns CeaHI.. (E. 0577 E m abril de 1960, em torno do edificio Palicio do Radio, construqAo pioneira de Judah Levy na avenida Presidente Var- gas (ver Agenda nQ 1), e sua esquina corn a rua 6 de Almei- da, duas festas de inauguragao foram realizadas. Na Galeria do Cine Palacio, outra obra de audicia de Levy, as Lojas Mundial, que haviam montado "a melhor loja da cidade" no terreo do pr6dio, instalaram logo ao lado mais tres lojas para servir "ao laborioso povo paraense": a primei- ra, para "utilidades dom6sticas e artigo do momento; a se- gunda, com presentss de bor gosto"; e a terceira, para re- venda de refrigeradores, fogoes e lavadoras Brastemp. Todas, dando continuidade a uma tradigAo de "cordialidade" e "pre- cos acessiveis". A galeria do Cine Palacio (hoje ocupado pela Igreja do Reino de Deus) era um ponto nobre de venda: por ela passa- vam diariamente os frequentadores das sessoes de cinema. Al1m das tres lojas Mundial, havia ainda outras oito lojas. Depois surgiram boates. E, muito depois, a decadencia, mar- cante at6 hoje num dos locais mais charmosos de Bel6m entire as d6cadas de 50 e 60.. Tamb6m no t6rreo do Palicio do Radio surgiu, nesse mesmo mes, a nova loja de um dos primeiros supermercados da cidade, o Santoni, "aberto todos os dias, das 6 as 12 hs., e das 15 as 21 hs. Aos domingos: at6 meio-dia". O supermerca- do oferecia, entire outros produtos, "carnes classificadas e po- pular" e "frios especiais importados". Em abril, na promogao inaugural, quem fizesse compras superiores a Cr$ 1.000,00 (padrAo da 6poca) teria direito "a uma sacola para suas futu- ras compras". ABRIL/2000 AGENDA AMAZONICA 11 (ContinuacAo da pagina 11) Quando era vivo... Na Joao Alfredo Em dezembro de 1969 o Banco Co- mercio e Ind6stria da America do Sul dei- xou o cafezinho de lado e serviu champa: nha aos convidados da inauguracgo de suas novas instalag6es, na rua Jodo Alfre- do esquina cor a Padre Eutiquio, no que ainda era o centro commercial de Belem. Instalag6es "confortaveis" e "refrigeradas" para "dar maior amplitude ao nosso servi- co", que prometia ser "rapido", "eficien- te", "pontual". Passados 30 anos, o ponto esta saindo de um sombrio period de inatividade para abrigar, atris de cores berrantes, mais uma "loja popular". O pr6- dio ainda esta razoavelmente bem conser- vado, por circunst~ncias que independe- ram da determinagAo dos seus ocupantes, mas ja sem a pompa de tres d6cadas an- tes, quando recebia um banco, para ca atraido pelas poupangas existentes e pe- las promespas de future que o future rea- lizado desautorizou. Quarenta anos depois A prefeitura vai inaugurar agora um novo "camel6dromo" no centro de Belem. Funcionard em area nobre, num terreno de esquina (Presidente Vargas cor Aristides Lobo) que o Ban- co da Amaz6nia manteve sem uso durante mais de 40 anos. Ali surgiria a sede da instituigdo. Mas o Basa acabou levantando seu pr6dio mais adiante (Presidente Vargas com Carlos Gomes) e deixou o outro terreno apenas murado, servindo de lixeira e ref6gio de menores viciados e delinqientes. Que essa situucao se tenha mantido por tanto tempo em um ponto tao valorizado 6 algo que ajuda a explicar a decadencia da cidade. Mas que a prefeitura, ap6s gastar 40 mil reais na limpeza do local e na sua precaria urbanizacAo, decide transforma-lo num mercado a c6u aberto para ambu- lantes, e outro "retrato de 6poca", uma epoca de peniria. Nao s6 material: tamb6m -- .-~- -n''" ha- vendo se imitido na posse da ',, a PMB abriu o flanco para o ban :\ ao indireta do im6vel, ja que nao ;,, ) ar- tes sobre o projeto de constrt a- mente apresentado pelo Basa c i u- pacao da sua area num fim-de-; r a durar muitos anos, mas ao fim < as- tar muito dinheiro aos cofres do erario municipal, sem com- pensar o investimento. Ou Bel6m 6 exatamerite isso ou e isso porque o poder pfiblico, renunciando aos seus poderes, inclusive o da in- ven~go, aceita que seja assim. E prega mais um dos cravos na cruz da cidade. Hoje nao havera cafezinho. HOJE /SERVIREMOS CHAMPANHA. Estamos inaugurando nossas novas instalafoes. Amplas. Conortaiveis. Refrigeradas. Para dat maior amplitude ao nosso service. Rapido. Eficiente. Pontual,. Venha ver a nossa nova casa. Venha ver a sue nova case. Vamos brindar junlos o acontecimento. BANCO COMERCIO E INDUSTRIAL DA AMERICA DO SUL S. A. SAIRua Joao Alfredo c/Pe. Eutiquo Fonres: 1764 4681 5106 Belem, Para Interliqado A '_Produco S.A Credito, Fianlciarentos e Investimentos (PRODUSA) o a Cia. Seguradora Intercontental,. (3. Pit. E. 15 U Agenda Amazonica Travessa Benjamin Constant 845/203 Belm/PA- 66.053-040 e-mail: jmal*amazon.mm.hr Telefones: 2237690/2417626 (fax) Produo grxfica: luizantoniodefariapinto |
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