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Agenda amazônica
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 Material Information
Title: Agenda amazônica
Physical Description: v. : ill. ; 33 cm.
Language: Portuguese
Publisher: Agenda Amazônica
Place of Publication: Belém, PA
Publication Date: 1999-
Frequency: monthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note: Title from caption.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification: lcc - F2546 .A26
System ID: AA00005009:00007

Full Text



*1A^


I[amazonlca
Ano I N 7 Bel6m, maro de 2000 R$ 3,00 L c i o Fl vio Pinto


INDIOS


A more do



sertanista

Por tras da demissao de Orlando Vilas Boas, considerado
o maior sertanista do Brasil, ha uma moral:
o Brasil ja njo precisa de intermediaries para
ocupar a sua maior fronteira. Sem fndios
isolados na mata, e sem floresta que resista a
sat6lite, esses descendentes dos bandeirantes
vao para a geladeira. Uma hist6ria em extingao
contada em tr6s capitulos nesta edigao.


No dia 7 de setembro do ano passado, o sertanista Orlando
Vilas Boas foi condecorado em Brasilia pelo president da Repd-
blica. Cinco meses depois foi sumariamente demitido do cargo
de assessor especial da Funai (Fundagio Nacional do fndio).
Orlando ficou sabendo da sua exoneragAo atrav6s de um prosai-
co fax que o president da fundagAo, Frederico Mar6s, Ihe pas-
sou, de Brasilia para Slo Paulo.
A imprensa national, que quase unanimemente reconhece
os irmAos Vilas Boas (Leonardo e Cliudio, al6m de Orlando)
como os maiores nomes do sertanismo brasileiro, reagiu ao ato
de ofensa e desconsideracgo. O pr6prio president Fernando
SHenrique Cardoso tratou de telefonar para Orlando, tentando
desfazer o "mal-entendido" e oferecendo-lhe tres altemativas de
volta ao servico piblico, a escolha dele. Notas oficiais foram
emitidas corn a intencao de colocar panos quentes na trombada.
4Finda a lufada de reag~o, tudo voltou ao que era antes. Ou seja:
F
A-33


o sertanista em march batida para a aposentadoria e os arqui-
vos da hist6ria.
No epis6dio, a iniciativa da Funai fora irrepreensivel do
ponto de vista estritamente burocrAtico. Orlando, de 86 anos,
acumulava uma pensAo vitalicia benemerita cor uma fungto na
ativa, de assessor da Funai, o que a lei nAo permit. Tinha que






perder a assessoria para manter a pensao. Estava em causa um
cargo cor salario de 1.300 reais, do qual o president da Funai
alegou precisar. Tudo bem. Mas por que Mar6s nao foi a Sao
Paulo levar, junto cor a carta de demissao, mais uma medalha
(ou pelo menos um afago) para o velho sertanista, o inico dos
lendarios irmros paulistas ainda vivo?
O epis6dio, de um amadorismo inaceitdvel, seria completa-
mente secundario se nao deixasse a mostra uma constatacgo re-
levante: a a dos sertanistas chegou ao fun. Nem o Estado brasi-
leiro, nem os agents das frentes pioneiras nacionais, necessitam
mais desse digamos assim professional, que teve papel im-
portante ao long de seis ou sete d6cadas, desde que o marechal
Candido Mariano Rondon, ao criar o SPI (Servico de Protegco ao
Indio, que antecedeu a Funai), em 1910, colocou um intermedi-
ario entire as frentes econ8micas e indios isolados da fronteira
brasileira em expansao.
De certa maneira, os sertanistas eram uma continuag~o
dos bandeirantes, que desbravaram novas terras ("amansando-
as", neologismo para a matanga de indios, ou "bugres"). Mas a
filosofia positivista de Rondon, ele pr6prio um descendente
direto de indios, inverteu os pap6is: em vez de eliminar
as populacges indias que fossem sendo encontradas
nos novos caminhos, estorvando a instalagco do co-
lono, o sertanista deveria prepara-las para o contato
com o pioneiro, que vinha logo atras, inseguro e
receoso, mas impaciente, disposto a recorrer a sua
tecnologia de guerra para resolver e abreviar -
impasses eventuais.
Muitos criticaram o resultado dessa atuagSo, sus-
tentando que continuava a haver o "amansamento"
do selvagem para faze-lo aceitar a cultural do branco.
E, logo a seguir, a perda de suas terras, a descaracteriza-
&o de sua cultural e mesmo a morte, menos cruenta do
que na era dos bandeirantes violentos, que colecionavam ore-
lhas secas de indios, mas, ainda assim, morte via doencas
contagiosas, principalmente.
A filosofia dos Vilas Boas era de que o avango da socieda-
de national envolvente era irreversivel. O indio nao conseguiria
mais deter as crescentes legibes de fazendeiros, garimpeiros,
colonos, madeireiros, gateiros e outros "atores sociais", que pas-
saram a se embrenhar pelo "sertao ignoto" do Planalto Central e
da Amaz6nia. O melhor era reunir os grupos dispersos de indios
numa reserve, demarcar a area e ali protege-los do contato indis-
criminado dos brancos.
Cor todas as suas falhas e vicios, o Parque Nacional do
Xingu, cor seus 2,6 milhoes de hectares numa regiao central do
Brasil, 6 o atestado de que o ponto de vista militant dos Vilas
Boas deu resultado, ainda que um resultado condicionado pela
aceitac o das regras do jogo, estabelecidas pelo dominador. Isto
6: de que a sociedade brasileira prevalecera sobre as assim cha-
madas sociedades primitivas. S6 que, ao inv6s de essa predomi-
nancia se fundar na destruiqao do derrotado, ela possibilitara
um entendimento entire desiguais. O mais forte reconhecera que
o mais fraco tern direito a uma existencia pr6pria, assegurando-
Ihe essa diferenca, em espaco restrito, sob control.
Agrupando compulsoriamente tribes hostis, perdendo par-


te das suas melhores terras, isolado como uma ilha entire grandes
fazendas, nicleos de colonizacAo e cidades, o parque do Xingu
continue vivo e sua populagao cresce, al6m de manter sua iden-
tidade 6tnica. Assistir A festa annual dos indios xinguanos, o qua-
rup, 6 um espeticulo marcante. Tao profundo que constituiu
capitulo de destaque no maior de todos os romances que o jor-
nalista Antonio Callado escreveu, exatamente cor esse titulo.
Refletindo sobre o que viu no Xingu quase meio s6culo
atris, Callado apresentou cor cristalino didatismo o eixo das
divergencias em torno da atuag~o dos sertanistas e interna-
mente entire eles, confrontando Orlando Vilas Boas e Francisco
Meireles, duas figures que seriam tratadas como her6is se o Bra-
sil nao fosse tao alheio a sua hist6ria.
Orlando, a figure dominadora entire os tres irmaos, 6 um
personagem extremamente pol8mico. E um grande home. Mas
todo home s6 6 grande porque ter virtudes e defeitos de
igual tamanho. Isto 6: superou a linearidade do home co-
mum, sua mediocridade retilinea, a coerencia sustentada em
temor e rotina. Orlando tinha 29 anos (ClAudio, 27 e Leonardo,
25) quando comandou, em 1943, a expedicgo Ronca-
dor-Xingu, idealizada pela Fundaq.o Brasil Cen-
tral, com a tarefa de imprimir marca humana (eu-
ropeu, naturalmente) nas areas geograficamente em
branco que havia no centro dos mapas brasileiros,
o coraqao desconhecido do pals.
Orlando escreveu, juntamente com Claudio (que.
morreria pouco depois) um livro deslumbrante (A
Marchapara o Oeste, Editora Globo, 1994, 615 pagi- ,
nas), reconstituindo a saga dessa peregrinacao por
1.500 quil8metros, abrindo mil quil6metros de picada,
chegando aos indios que habitavam a regiao dos for-
madores de alguns dos principals rios da bacia ama-
z6nica. Ter deixado testemunho de tal qualidade, hu-
mana e intellectual, jd seria o bastante para consagrar qualquer
pessoa em qualquer parte do mundo. Por pouco Orlando nao
recebeu um Nobel da Paz.
Talvez tenha faltado mais empenho aos seus conterrane-
os para a academia sueca conferir-lhe uma honraria que esta-
ria cor maior coerencia nas maos dele do que na de outros
questionaveis premiados. Varios brasileiros nao perdoam aos
Vilas Boas terem sido, em varios moments, mais oficiais do
que deveriam, atrelados ao Estado (no caso, representado pela
Funai), quando deveriam ser o veiculo da sociedade. Esse esta-
do de espirito esta registrado no Quarup de Callado, quando
um personagem cobra de Orlando (na figure de Rolando Vilar)
fazer uma nova Coluna Prestes pelo interior do Brasil, atigando
o fogo da revolucAo pelo sertao em vez de usar panos quentes
(ou agua fria, em outras circunstancias)..
A vaidade, a necessidade de reconhecimento, a carencia
afetiva e mesmo as convicq6es pessoais fizeram Orlando sem-
pre pender para o lado do governor (personificado na FAB, na
Funai e em outras instituigSes oficiais) nos moments de cri-
se, nas ocasioes de rompimento. Esse traqo conservador, po-
r6m, nao diminui sua obra, nem o desqualifica. Mas para per-
sonagens um pouco mais extremados, apressados ou finalis-
tas (como o Chico Fontoura da ficg.o, Francisco Meireles na


2 MAR(O/2000 AGENDA AMAZONICA






realidade), 6 um pecado pendente de penitencia. Quem sabe
foi por isso que Mar6s, um advogado cor longos anos de
dedicaq~o a causa indigena, mandou a demissAo para Orlan-
do Vilas Boas por fax? A mao que acariciava dava um cascu-
do, ou um puxAo de orelhas.
Se foi isso, acima de uma intencAo de justiqamento, moral
ou simb6lico, pode estar a hist6ria escrita por linhas tortas. Se ji
nao ha indios isolados (ou eles sao tao poucos) e se os espagos
em branco da Amaz6nia sao preenchidos indiretamente a partir
de informag6es de sat6lite (exigindo as vezes um novo tipo de
intermediario, o ec6logo e suas ONGs), nao se precisa mais des-
ses her6is de barro, sempre dispostos a meter a mao na lama,
mas sempre igualmente cheios de uma energia criadora, desafia-
dora, ao mesmo tempo mensageiros do mundo dominant que
se expand e porta-vozes do mundo dominado que se encolhe -
ou atrofia. Divididos entire essas func6es, freq0entemente confli-
tantes, representaram um dos components dessa forma go dila-
cerada e dilacerante do Brasil, um pais que se acomoda em ca-
madas para que elas, estratificadas, perdurem numa ordem de
dominagAo tida como "natural".
A galeria dos sertanistas exibe uma variedade incrivel de
perfis, capaz de englobar todo o universe de classificag6es. Mas
ha um trago unificador em todos eles: sao os brasileiros mais
c pr6ximos dos mais antigos brasileiros, dos primeiros ocupantes
da terra (nao nessa remissao de cinco s6culos que se comemora
Setnocentricamente agora, mas por muitos mais seculos aprofun-
dados e difusos na mem6ria obnubilada). Nao foi a capacidade
* intellectual, o discernimento ou o conhecimento t6cnico que
melhor preparou esses profissionais. Foi o grau maximo de iden-
tificaCAo cor os alvos de sua acgo. Mesmo que, a partir dessa
consciencia, tenham agido contrariamente ao que dela seria de-
sejivel esperar.
Foram e ainda sao esses os brasileiros mais indios que tive-
mos e temos, os mais capacitados a testemunhar sobre o contato
entire esses dois mundos distintos, estranhos entire si, conflitan-
tes, mas destinados a se tocar. Infelizmente, poucos deixaram
testemunhos escritos. Jornalistas, antrop6logos e umas outras
poucas categories recolheram elements dessa hist6ria, mas tem
sido avaros ou displicentes em repassi-la ao puiblico (por sua
vez, menos interessado em ouvir, viciado pela modulagao do
enredo hollywoodiano sobre o Oeste made in USA).
Um home fantastico como Rondon, que fez na parte oci-
dental da Amaz6nia e na borda do Planalto Central o que ne-
nhum outro her6i realizou na "corrida" americana, virou estAtua,
impenetravel, distant. Apoena Meireles, o mais intellectual dos
sertanistas, evaporou. Sydney Possuelo, o primeiro e Onico serta-
s nista que chegou A presidencia da Funai, ficou pouco tempo no
cargo e nAo deve ter boas recordacges desse period. E o iltimo
dos moicanos, ainda trabalhando com indios isolados. Joao Car-
valho, vArias vezes flechado, mas sempre aplicando a utopia de
r Rondon ("morrer se precise for, matar nunca"), o branco que
mais linguas indigenas conhece, 6 um complete desconhecido
em Bel6m do Para.
Se quiserem dar um nome mais vulgar ao capitulo que se
encerra com o lance de humilhagAo de Orlando Vilas Boas, pode-
se intitula-lo de queima de arquivo.


A iltima


barreira


Este artigo foi publicado em A Provincia do Pard de
25 de fevereiro de 1973, numa pdgina (j( entio
Journal Pessoal) que eu mandava de Sao Paulo,
onde entao morava, para Belfm. Republico-o
porque assinala o moment em que comega a linha
descendente que levou ao melanc6lico
desencontro do mes passado com Orlando Vilas
Boas. Poderia fazer algumas revises. Mas a unica
indispens6vel 6 a denominaago dos (6quela 6poca
famosissimos) "fndios gigantes" do rio Peixoto de
Azevedo, em Mato Grosso, rec6m-contatados pelos
dois irmaos (Orlando e Claudio). Fizeram-nos
chama-los de Kreenakarore, designagio pejorativa
dada pelos inimigos imemoriais do Xingu. Na
verdade, sao os Panar6, como mostra um belo livro
produzido em Sao Paulo pelo ISA (Instituto
Sdcioambiental), que tamb6m merece estar numa
bibliografia b6sica sobre o tema (Panara, a volta dos
indios gigantes. Sao Paulo, 1998, 166 p6ginas).

s dois Vilas Boas riam e dancavam diante do indio, cin-
zento pela tinta que cobria sua pele. Claudio uivava.
Orlando mexia nervosamente os bracos. Apoiado a uma
arvore, o indio parecia olhar soberano o espetAculo dos dois ho-
mens brancos. Era o segundo contato em menos de cinco dias entire
a frente de aproximacao "civilizada" e a tribo dos kreenakarore, que
durante cinco dias recusara aquela alegria fe6rica aos dois irmAos
sertanistas. Era, enfim, o encontro que levar a "aculturacAo" dos
indios e provavelmente k aposentadoria dos Vilas Boas.
Quando o primeiro contato foi estabelecido, o jornalista
Jos6 Marqueis, de O Estado deS. Paulo, julgou-se autorizado a
anunciar um projeto que os dois irmaos Ihe haviam transmitido
antes da iltima expedigao: abandonar a Funai ou o sertanismo,
ainda nAo ficou muito bem esclarecido -, atividade que os tor-
nara famosos mundialmente como os "dois grandes amigos dos
indios" tris, at6 a morte de Leonardo.
Foi uma semana movimentada. Ao mesmo tempo, era anun-
ciada oficialmente a indicacao dos Vilas Boas para o Premio No-
bel da Paz; os Waimiri-Atroari haviam ampliado o n6mero de bran-
cos que matam em represilia violentacgo de sua cultural, direitos
e honra; um novo grupo indigena Karara6 ou Arara era visto a
uma distincia espantosamente curta de Altamira, de 70 quil6me-
tros; e a Funai anunciava a interdigao de todas as reserves indige-
nas a "estranhos", especialmente jomalistas, para evitar a transmis-
sao de uma gripe at6 agora mais jornalistica do que factual, a "fog"
londrina. Consumatum est, como diria Santo Agostinho.


MAR9O/2000 AGENDA AMAZ6NICA 3







O problema indigena, com tantos fatos tumultuosos, tinha
que voltar a tona como um sobrevivente definitivamente teimo-
so. E quais os dados novos dessa questao, que de tio repetida
tem gasto seus melhores trunfos? A said dessas figures pol8-
micas, mas importantes, como os dois irmdos, era um dos mais
decisivos. Ningu6m 6 insubstituivel desde que haja pessoas
para fazer a substituicgo.
No caso da political indigenista, ai habitat o xisda questao.
Saindo os Vilas, quem fica? Cotrin Neto, ap6s um ato ousado
de autocritica e denincia, abandonou a Funai. Apoena Meire-
les foi chutado para um escanteio em Mato Grosso, onde ocu-
pa funcAo burocrdtica. Chico Meireles esta no fim da carreira.
Todos os outros grandes sertanistas desapareceram. Restam al-
guns esforcados. Mas sem a personalidade dos antigos: Gilber-
to Pinto [que logo depois seria morto pelos Waimiri] e Francisco
Bezerra, eficientes, mas fazem aquilo em que nao acreditam e
se submetem ao que discordam e 6 contra suas verdades pes-
soais. Isso, numa profissAo que exige humanismo e coragem,
nao 6 muito bom. Nao 6 nada bom.
A figure do sertanista, indissoluvelmente ligada,
neste s6culo, A existencia do indio, esta ameacada.
Como me disse uma vez o antrop6logo Eduardo
Galvao ("quando acabarem os indios o que eu
you fazer, s6 sei fazer antropologia"), o con-
tato com as iltimas tribes isoladas, que se re-
fugiaram na Amaz6nia, mas estao sendo atin-
gidas pelas estradas ou pelas frentes minera-
doras, agricolas ou extrativistas, tornara pres-
cindivel estas apaixonantes figures.
Nimuendaju, o grande pacificador dos Apina-
g6s, certamente foi o ponto alto da sintese entire a
coragem e o desprendimento do sertanista com o co-
nhecimento te6rico do antrop61ogo. t um home 6ni-
co nessa hist6ria de homes 6nicos, mas nao tanto. Ron-
don foi a culminAncia de uma filosofia positivista que hoje nos
enternece ("morrer se precise, matar nunca", dizia ele referin-
do-se ao tenso moment do primeiro contato corn os indios),
mas esta fora da nossa realidade (perdao, mestre Ivan Lins;
mas me d8 passagem. De qualquer maneira, criou um m6todo
de aproximag o que 6 seguido com inegAvel respeito por prati-
camente todos os sertanistas de hoje.
E os Vilas? Nao me parece que sejam melhores que o
jovem Apoena ou o impetuoso Cotrin. Mas certamente sao mais
importantes: criaram a tinica experiencia indigenista que teve
continuidade em toda a nossa hist6ria. Antes deles foram feitas
muitas outras experiencias, gracas aos militares e ao positivis-
mo do SPI, mas nenhuma durou o minimo para garantir a vida
de seus beneficiados, os indios.
O Parque do Xingu, no entanto, manteve-se e inte-
gralmente atW que uma estrada cortou seu lado norte.
Norte? Nele, estao reunidos dois mil indios de virias tribes
xinguanas, algumas mortalmente inimigas entire si atW o sur-
gimento do "grande pai branco" pacificador: Juruna, Txu-
karramAe, Kayap6 e etc., convivem num laborat6rio que
nos daria um resultado extremamente proveitoso se fosse
possivel controlar a experiencia. Seria possivel? As pala-


vras de Orlando, Claudio, Galvao e Baldus sempre me dei-
xaram na d6vida.
O que acontecerd se Claudio e Orlando deixarem o Par-
que? Sem seu pacificador, os indios podem voltar a tornar-se
inimigos e o parque fracassard, alertou Eduardo Galvao em
Belem. Mas me pergunto: at6 quando os dois poderAo ficar
ali? Aquelas terras sao muito ricas e, por isso, muito cobiCa-
das. Quantos fazendeiros e empresdrios nao estao dispostos
a apagar aquela grande mancha ao norte de Mato Grosso?
Vejam o mapa e pensem um pouco. Orlando e Claudio ja
devem ter pensado muito. O Premio Nobel nao viria em hora
mais oportuna.
Quantos indios ainda ha a espera da "pacificacgo"? (Pa-
rentesis: uso as aspas porque meu cinismo nao chega a tanto;
o pr6prio Cotrin Neto, um dos mais experiences sertanistas
que a Funai jd teve, reconheceu que os contatos que fez cor
os indios levou-os a morte e n.o a pacificaqCo; por que en-
tao o neologismo?).
Diz a Funai que na rota da Perimetral Norte
hd 25 ou 30 mil. Tanto assim? S6 vendo, como
diria Sao Tome. Fiz um esforqo incrivel para
encontrar 50 mil indios e cheguei apenas a 2/3.
SNo consigo pensar em tribo indigena al6m de
1.500 membros. Para mim parece-se logo a uma
megalopolis primitive. Mesmo um quarup no Xin-
gu ja nio reune um nimero assim.
Falava-se na tribo dos Parakanan e l1 havia ,
uns 200 e mirrados. Desconfio inclusive que a tal
tribo escondida a 70 quil8metros de Altamira seja
um desses Parakanan gozadores, assustando algum
colono mais fantasista. E meio irreal pensar em gran-
des tribes isoladas em uma area que jd ter um gran-
de movimento. Arara ou Kararara6? S6 vendo, como
diria o fundador do Omo Total.
Voc8s entAo, mesmo sem querer, sao as testemunhas in-
diretas das iltimas "incorporac6es" de povos primitives bra-
sileiros A sociedade national. Nossos netos perguntarAo se
eles eram deuses ou astronauts, entire um e outro fumo. Co-
garemos nossos piolhos e nao saberemos responder. Algu6m
lembrarn a extinta revista Manchete e responderd: Ah, sao fo-
li6es do Municipal. A insensibilidade, meninos, 6 a mAe do
humor, mas s6 os temeririos podem beber desse calice.
Desaparecendo o indio, ou pelo menos aquele indio que
tanto empolgou os antrop6logos alemaes e ingleses que impor-
tamos, antes, e que haviam dado muito prazer lhdico ao mestre
Arist6teles e ao seu discipulo distant, o cavalheiro Rousseau,
o que resta fazer? Os antrop6logos se esquivam, como sempre,
alegando "falta de elements para uma resposta cientifica".
Enterrem-na onde quiserem, senhores.
Um reporter de Brasilia foi procurar uma das equipes
mais qualificadas a oferecer pistas sobre o assunto aos avi-
dos leitores. O que recebeu? Leiam o telegrama do reporter:
"Enquanto aguardam dados etnogrAficos sobre os indios Kre-
enakarore, os antrop6logos do Departamento de Ciencias So-
ciais do Instituto de Ciencias Humanas da Universidade de
Brasilia preferem nao emitir qualquer opiniAo sobre a (ltima


4 MAR4SO/2000 AGENDA AMAZONICA





conquista dos irmaos Vilas Boas". Para tais antrop6logos, ao
que parece, o bom 6 colocar os bugres numa redoma corn
alcool e esperar pacientemente pela revelag o.
Dizem que tenho press. Concordo. Mas isso nao me
torna insensivel A vida das outras pessoas, mesmo que eu
nao tenha muito cor que ajud--las. Tenho a minha voz,
entretanto, e canto, sempre que posso, um sambinha que
fale em opinion.
E os sertanistas? Eles, mais recentemente, amargurados e
desiludidos (a pratica pela pratica nao abre luzes A frente, sim,
mas ilumina o rastro atras), tnm feito uma autocritica amarga e
inveridica, em parte. O depoimento de Apoena Meireles, pat6ti-
co e comovente, 6 mais uma constatag o das dificuldades que
essas pessoas tmer enfrentado para afirmar sua personalidade
em relagCo a um 6rgao burocratico que os dirige do que uma
definicAo das possibilidades da missdo de sertanista. Mas a
amargura dele 6 plenamente justificavel.
Disse Apoena: "O sertanista nao precisa ser um antrop6-
logo ou lingUista, como pretendem alguns. Nosso trabalho 6
bastante especifico: coordenar as atividades de elements que
estejam participando, direta ou indiretamente, da expediCgo,
evitando o surgimento de conflitos".
Justamente por nao aceitar essa norma 6 que Apoena se
tornou um grande sertanista (antes de iniciar uma expediCgo,
ele sempre procurava se informar sobre a bibliografia a respei-
to da tribo e da regiao, consultava mapas e dados geograficos,
ouvindo outros sertanistas. A aproximagAo que fez com os Cin-
.. ta-Larga foi uma das mais humans de que eu me lembre: fren-
te a frente, Apoena e o Cinta-Larga tremiam de medo um do
outro, at6 que comecaram a rir do ridicule pessoal e se abraga-
ram. Apoena tinha 20 para 22 anos).
Prevendo isso nos dois sentidos a Funai criou um
curso de indigenismo para ter um corpo burocritico que subs-
tituisse a figure traditional do sertanista, captada com grande
felicidade por Antonio Callado no personagem Fontoura, de
Quarup [o tfltimo cursofoi dado em 1985, ao queparecepor ndo
haver mais candidates; digo boje].
Os indios recuam quando percebem o home branco,
mas jA nao tnm muito para onde recuar. E, depois, continu-
am sendo criangas, para n6s, filhos da tecnologia refinada.
Como pode-se notar por todas as expedi6Oes de contato, 6
o indio, ansioso por novidade, que procura o branco e
nao o contrrrio.
O sertanista com o qual entra em contato 6 o seu grande
pai e amigo. Confia nele, recebe-o com toda a sua aberta ino-
cencia. Mas ha o mateiro, o grileiro, o fazendeiro e o pr6prio
sertanista sem peso. A morte do home branco que acaba corn
a caga, mexe com suas mulheres, expulsa-o de suas terras e
mata seus irmaos 6, para o indio, uma vinganca just a traicAo.
O mais fraco continuard em baixo. Sempre?
r Esta pigina vira-se e nela temos alguns de nossos me-
Ihores sonhos, nossos mais nobres prop6sitos, nosso mais puro
irmao e o mais repulsive crime. Mas ningu6m dird que algum
de n6s ajudou a folheA-la? A danca dos irmaos Vilas Boas di-
ante do indio era uma danga de alegria, mas tamb6m podia ser
um ritual do fim e da morte. A


Os sertanistas


em conflito


(nas paginas


de Quarup)


Em 1967 o jornalista Antonio Callado escreveu
Quarup, um romance de 601 paginas (na 14a
ediqgo, da Editora Nova Fronteira, de 1984), que
pode ser lido com prazer tanto por ser uma boa
obra de ficgao quanto uma profunda introdugdo ao
Brasil. Neste ano dos 500 anos da "descoberta"
portuguesa, os professors agiriam com lucidez
recomendando o livro aos seus alunos, que nele
aprenderiam mais sobre a historia brasileira do que
em qualquer manual acad6mico.
0 livro e dividido em sete capitulos, cada um deles
demarcando uma fase da histdria do pals. Um dos
capitulos, A maga, Calado construio a partir de uma
experiencia pessoal (que constitui, alias, sua fonte
principal de inspiragao, torando Quarup aquilo que
os franceses classificam de "roman a clef", isto 6,
fatos e pessoas reals recobertos por reconstrugoes
ficcionais, que uma chave decodificadora pode
decifrar). Ele esteve no Parque Nacional do Xingu
em 1954 para participar da festa maior dos indios
xinguanos. A festa deveria ser abrilhantada pela
presenga do entao president da Rep6blica, Get6lio
Vargas. Mas a crise political se agravou e Get/io
acabou se suicidando.

Tesse capitulo, de 110 paginas, Callado fala dos indios e
do conflito entire dois dos maiores sertanistas brasileiros
em torno da melhor attitude (e political) em relag~o as
populacges originals do pais. Chico Fontoura 6 o nome literdrio
que o autor deu a Francisco Meireles. Rolando Vilar 6 Orlando
Vilas Boas. Algumas das situacges criadas espelham com fideli-
dade as posicges antag6nicas de preservadores da cultural indi-
gena (representados por Meireles) e integracionistas (como Or-
lando). Uns queriam isolar os indios na floresta. Outros, atraf-los
cor suavidade para a cultural national envolvente. O debate
continue a ser travado, nao s6 como tema intellectual, mas como
razAo de vida (ou morte) para os indios.
Selecionei trechos desse capitulo que registram muito do
que se deve saber sobre os sertanistas.


MARQO/2000 AGENDA AMAZ6NICA 5







Fontoura disse Nando antes de escrever daqui ao meu
Superior, queria trocar umas id6ias cor voc&. Ningu6m conhece
melhor do que voce os problems dos indios.
Hum disse Fontoura pitando o cigarrinho tem muito
etn6logo sabido, muita gente boa do Museu Nacional que co-
nhece os indios como a palma da mao.
Eu sei disse Nando mas voc8 conhece os indios corn
o coragao.
Olavo ter uma estrepitosa palmada na coxa e levantou o
cachimbo no alto corn a mao esquerda.
O Padre 6 fogo, Fontoura!
Nando sorriu.
Estou apenas repetindo o que todos me dizem. Quem vive
entire os indios e se sacrifice por eles 6 o Fontoura. Isto 6 muito
mais important do que conhecer a grram~tica das linguas indige-
nas ou teorias sobre a origem deles. Os indios estao ai, vivos.
Os indios estao quase mortos disse Fontoura O impor-
tante 6 que nao morram todos. A inica coisa que importa 6 dar
a eles os meios para sobreviver.
Exatamente disse Nando. Eu tenho a impressed de
que o que desagrada voce 6 a id6ia de integrar o indio nas po-
pula6oes do interior, nao 6? Eles se despersonalizariam, desapa-
receriam como indios.
Fontoura assentiu com a cabeca.
Portanto continuou Nando se estusiasmando o que se
pode fazer 6 educd-los de modo a que contribuam para o seu
sustento cor a pesca, a caca, a lavoura, as artes plumirias, con-
tinuando a se desenvolver como indios. Poderiamos montaraqui
peixarias, serrarias...
Fontoura fez que nao cor a cabega.
Nao? disse Nando.
Nao, nunca.
Fontoura se levantou da rede, foi at6 o escrit6rio e de 1d
voltou com um sovado mapa de Mato Grosso onde se delimitara,
a lIpis de cor vermelha, o Parque Nacional do Xingu, entire 10 e 12
graus de latitude Sul e 53 e 54 graus de longitude Oeste de Gre-
enwich. A forma inclinada acompanhava o curso do Xingu, das.
cabeceiras dos seus tris formadores at6 a Cachoeira de Pedras.
Este disse o Fontoura batendo corn o dedo em cima daa
area do Parque 6 o Estado dos indios.
Montoya, Cataldino, Rodrigues, pensou Nando, o coragAo a
bater apressado. Ave,. Repfiblica dos Guaranis.
Magnifico disse ele o Estado Indigena.
Sim, magnifico disse o Fontoura se fosse realizavel. E
se fosse possivel, de acordo cor meus sonhos, estender aqui -
e seu dedo passou como se abrisse uma vala pelo contorno do
Parque uma cerca de arame farpado.
Arame farpado? disse Nando.
Sim disse Fontoura Eletrificado. Contra o Brasil.
E educar os indios de que maneira? Que fazer deles? Que
esp6cie de gente?
O Estado seria de indios, de bugres, do que eles sao disse
Fontoura martelando as sflabas. Eu nao quero transformer indios
em nada. Parques imensos, cuidadosamente vigiados, fizeram os
ingleses para girafas ou zebras. Para preservA-las vivas.


Mas os indios tim como n6s uma alma imortal disse
Nando.
Os indios nao sei se tnm. Ou se ainda tim. N6s eu sei que
nao temos. No mundo inteiro as reserves indigenas sao simples
arapucas para exterminio de indios.

2
Depois de outro silencio Olavo falou:
S6 mesmo uma revolu&uo.
-Ja tivemos quantas>
Ou a Revolupdo, como diz o OtAvio.
A palavra subiu nas trevas oca e sem peso como uma bolha.
0 que 6 que a Revolucgo adiantaria aos indios? disse
Nando.
Ah, aos indios nada neste mundo adiantaria disse Ola-
vo. 0 Fontoura nesse ponto.estA com a razzo.
No entanto ele dedicou sua vida aos indios.
Aderiu ao suicidio deles. Quando more uma manada de
indios de um sarampo qualquer o Fontoura toma porres intermi-
ndveis e ter uma loucura recorrente. PropOe a mim, propOe a
todo o mundo sempre a mesma coisa, sabe o que? A invasAo do
Rio pilos indios.
Como assim?
De raiva, de 6dio. Aterrissar no Rio cor vinte avi6es de
transport carregados de indios nus e passed-los pela Avenida Rio
Branco, pelas praias. Armg-los de arcos, de sarabatanas, bordu-
nas, trucidar o maior nimero possivel de funciontrios piblicos,
que Fontoura odeia, apesar de ser funciondrio ele pr6prio. Criar 4
um caso, uma guerrinha. Obrigar o Brasil a matar indio na Capital
e cor bala, em lugar de dizimi-lo as escondidas, pela fome.

3
Mas sao uns mandrioes, esses teus indios disse Vilar. -
Nem para dar de comer aos convidados conseguem trabalhar
feito gente.
Fontoura emburrou.
Quando eles tinham as terras f6rteis de outrora davam seus
quarups corn facilidade. Depois de s6culos de explorago e de roubo
dos civilizados precisam da nossa ajuda para recuperarem os hIbitos
e a alegria de outrora. Nem tudo 6 fazer cidade e abrir estrada.
Eu nao veria mal nenhum em botar latag6es como Canato
e Sariru~ inclusive no trabalho de estradas disse Vilar. Eles
tamb6m sao brasileiros e devem ajudar o Brasil a crescer.
Nao sao merda nenhuma de brasileiro disse Fontoura -
e nao tnm de ajudar merda nenhuma o Brasil a crescer. N6s 6
que devemos a eles e nao o contrtrio. Vejo cor a maior cons-
ternago que voce ainda nao entendeu nada do Parque.
-Ja, ji disse Vilar j. entendi mas vivo lutando com falta
de gente para fazer a Transbrasiliana e me da pena ver tanto
indio dobrado sem poder pegar numa picareta.
Para trabalho escravo nao tenho indio nao disse Fon-
toura. Ber, vou trabalhar.
Fontoura foi andando em dirego a porta, estranho e magro.
Fontoura disse Vilar voce sabe que essa nossa briga 6
velha e que voce ganhou ha muito tempo. Estou s6 implicando
corn voc.


6 MARQO/2000 AGENDA AMAZ6NICA





BIBLIOGRAFIA AMAZONICA


0 desafio da


verdade no






deste alem o


apaixonado


pela selva


e fosse possivel colocar uma lupa gigante sobre um tre-
aS cho da floresta amaz6nica, ficaria muito ficil provar o
que, de outra maneira, costuma ser considerado fantasia
de poetas e ecologistas. A agua que desce em abundancia do c6u,
Sgquase pura, a partir do primeiro contato cor as altas copas das
arvores vai carregando e espalhando um mundo de mat6ria orga-
nica na sua lenta e acidentada descida, at6 atingir o solo, onde
passa por uma nova filtragem e penetra no lencol fredtico e nos
mananciais, novamente quase limpa, para chegar as drenagens e
retomar, em metade do volume original, ao c6u por evaporagAo,
na forma de chuva, a outra metade seguindo para os oceanos, ali
depositando 20% de toda a Agua doce contida nos rios do planet
grande parte dela ainda plenamente potAvel.
A agua 6 o mais important dos elements vitais da vida
na Amaz6nia. Mesmo em v6o a jato, um viajante tem essa
consciencia olhando para baixo,
sem precisar de checagem em
campo. Afinal, o rio Amazonas
drena mais de sete milhoes de
quil6metros quadrados de terras.
Essa teia de aranha aquAtica
mant6m sua descarga m6dia em
200 mil metros cuibicos de Agua
(ou 200 milh6es de litros) por
segundo, 10 vezes o volume
arrastado pelo Mississipi/Missou-
ri, nos Estados Unidos.
SMas poucos sAo capazes de
derivar de tais grandiosidades
observa~go como a que o m6di-
co suifo Hans Bluntschli fez no
inicio do s6culo passado, prati-
camente inaugurando um tipo


de visAo integradora e unicista sobre a Amaz6nia (o que hoje
chamariamos de "visao holistica"): "A circulagco da agua do
mar pelos ares, por cima da terra coberta de floresta, e desta
atrav6s da planicie fluvial novamente para:o eterno mar 6 o
grande quadro da Amaz6nia, o fator que control sua vida e
sua essencia. Nada ha na Amaz6nia, seja inerte ou vivo, que
noo d6 testemunho deste fato".
Sugestivamente, Bluntschli definiu a Ariaz6nia como um
"organismo harm6nico", titulo da conferencia que fez em
Frankfurt, em 1918. Ele daria o primeiro pass para levar ao
entendimento de que na Amaz6nia os elementos.naturais,
mesmo os mais isolados, estAo em interacao e sua unidade,
reciprocamente sustentada pelos virios components do ecos-
sistema, sugere a existencia de uma unidade funcional.
O pass mais largo comecou a ser dado, tres d6cadas
depois, por outro alemao, Harald Sioli. Mas, ao.contririo de
outros cientistas ou estudiosos rapidamente apontados como
especialistas em questoes amaz6nicas, Sioli. nao construiu o
seu conhecimento em uma finica expedicb:A regiao, em con-
tatos intermitentes ou atrav6s da leitura de uma bibliografia.
Ele fez viagens de pesquisa pela Amaz6nia ao long de 40
anos, em quase metade desse period vivendo em Bel6m.
Durante tres penosos anos foi mantido num campo de inter-
nagHo em Tom&-Acu, em virtude de sua nacionalidade (foi a
reaqao aos afundamentos de navios brasileiros pela marinha
nazista por ocasiAo da Segunda Guerra Mundial). De volta A
Alemanha, onde dirigiu o Instituto Max Planck de Limnologia,
o mais important do mundo, continuou inteiramente ligado
A Amaz6nia. Sua paixAo pela regiao em nada foi afetada pelo
incident dos tempos de conflagragao.
Em 1983 ele decidiu transformar em livro uma conferen-
cia que fez durante as festividades em homenagem a Spix,
outro alemao important na hist6ria amaz6nica, que visitou
no s6culo 19. Dois anos depois a editor Vozes publicou esse
"pequeno livro", como Sioli o apresentou ('Amaz6nia- Fun-
damentos da ecologia da maior regido de lorestas tropicais,
Rio de Janeiro, 1985). De fato, ele 6 pequeno, com apenas 72
pdginas, em format de bolso. Mas difere de outras publica-
c6es semelhantes, voltadas para
a iniciaqo e a divulgag o cienti-
ficas, por ser profundo, obra de
sdbio, que ndo se "especializou"
de v6spera ou, em gabinete.
Roswitha Schmid, no "pro-
emio" do livro, apresenta Harald
Sioli como "o"inelhor conhece-
dor da reg.ito eo advogado mais
empenhado na defesa da salva-
o da Amaz6riia". Prev8 que "al-
guns se deixargo inspirar e esti-
mular (talvez jiustamente por cau-
sa das sugestivas ilustralges)
para conheceresta paisagem de
selvagem beleza, tao sofrida pela
ganAncia e mi6pia humans, le-


MARQO/2000 AGENDA AMAZONICA 7






vando no bolso nao Quatro Rodas ou Baedecker, mas Sioli".
A verdade 6 vdlida tanto para europeus sequiosos de novida-
des e da mae-natureza, como para brasileiros (e at6 mesmo
amaz6nidas) tao desorientados sobre sua maior regiao.
Sioli escreveu seu "livrinho" para "despertar a atengao e res-
peito pela unicidade e pela distingao de uma regiao vinte vezes
maior que a Repiblica Federal da Alemanha (falava antes da uni-
ficagdo das duasAlemanhas] e para evitar a destruigAo miope e
irresponsAvel da paisagem mais rica em vida".
A Amaz6nia, lembra ele, representa um climax no de-
senvolvimento dos series vivos sobre a Terra". Na 6poca do
livro, admitia-se a existencia de 1,5 a 2 milhoes de esp6cies
vegetais e animals na regiao, "das quais at6 agora foram des-
critas e classificadas no miximo 500.000, representando o
ecossistema mais diversificado e mais complex que se co-
nhece sobre a Terra".
Apesar desse valor precioso, de dimensdo planetaria, "6
at6 previsivel que a maior floresta primitive ainda existente
sobre a terra sera irremediavelmente imolada, inteiramente des-
truida em poucas d6cadas pela modern civilizagAo t6cnico-
mercantil em seu avanco; a nao ser que as metas destas 61ti-
mas sejam antes alteradas ou que se desmoronem por causes
externas ou internal".

Para mostrar esse perigo, Sioli
usa seus profundos conhecimen-
tos do ciclo da agua como prova
de que o ciclo fechado da natu-
reza 6 como uma caixa de Pan-
dora, capaz de revelar surpresas
desagradiveis para quem nio estd
habilitado a manejd-la. E para in-
tervir nela, 6 necessArio conhec8-la em profundidade, toman-
do como guia o circuit da igua dentro da paisagem original.
Essa diretriz revela um conjunto natural em equilibrio delica-
do, complex, que se esconde atrds de aparencias de uma
enganosa obviedade.
O moment mais fecundo da natureza no universe ama-
z6nico 6 o contato da Agua com a floresta. Os moments
anterior e posterior sao secunddrios. "Em oposicgo a agua
da chuva quimicamente pobre, a agua que goteja do dossel
das copas e a agua que escorre pelos troncos abaixo revela-
ram-se quimicamente muito ricas; jd a agua que se encontra
abaixo da trama radicular mostrou-se tao pobre quanto a
Agua da chuva", diz Sioli.
E por esse prisma que a Amaz6nia deve ser encarada. Os
solos mais f6rteis da regiao sao os das vArzeas, cerca de 50 mil
quil6metros quadrados nos quais se depositam os sendimentos
ricos em nutrients arrastados pelo Amazonas a partir dos An-
des, tio pouco estudados e conhecidos at6 hoje. E onde se
devem localizar as cultures alimentares. E para onde o coloni-
zador nao se tem dirigido. Nas outras parties da regiao, justa-
mente aquelas areas cortadas pelas estradas e de mais intense
ocupag~o humana, a caracteristica maior 6 a pobreza quimica
dos solos, lavados pela Agua das chuvas e transportados ate os
lenc6is freiticos e as cabeceiras dos cursos de agua.


A composicAo quimica da Agua desses c6rregos 6 a mes-
ma da agua das chuvas. Esse fato impoe a conclusao de que,
"em vegetagao climax, como 6 a floresta amaz6nica, de bio-
massa constant, e que portanto nao acumula quantidades
adicionais de substancias, nao ha liberacAo, por intemperis-
mo no solo, de materials que possam ser dissolvidos. A estes
materials pertenceriam tamb6m nutrients necessarios para o
crescimento das plants. Nos solos, pois, nao ha, ou apenas
ha em quantidades infimas, reserves de nutrients que, libe-
radas, pudessem ser recicladas pela vegetacgo. Essas reserves
foram, pela acao do clima imido e quente, no decorrer de
centenas de milhares ou de milhoes de anos, de ha muito
extraidas e lixiviadas".
Tal circunstancia coloca o home diante de um fen6-
meno desconcertante, dificil de aceitar: a exuberante floresta
amaz6nica, com copas que atingem at6 50 metros de altura,
ergue-se "sobre um dos solos mais pobres e lixiviados da
Terra". Isso 6 possivel porque a floresta "cresce, de fato, ape-
nas sobre o solo e ndo do solo, utilizando-se deste apenas para
sua fixac;o mecanica e nao como fonte de nutrients; em vez
disso, ela vive numa circulagao fechada de nutrientss.
Em future que cada vez mais se anuncia breve, restardo
da antiga floresta monumental apenas algumas ilhas de paisa-
gem original. Os sacerdotes do desenvolvimento a qualquer
prego garantem que essa mudanca nao sera tao nefasta por-
que tais ilhas funcionardo como reftigios florestais, assegu*
rando a perpetuag~o das esp6cies, que nesses locais se for-
maram em 6pocas remotas, como procura demonstrar uma 4
certa teoria cientifica.
Teoria perigosa porque os fanAticos do desenvolvimento
acelerado utilizam-na como alibi "para dar uma aparencia in6-
cua e popular a projetos que implicam em vastas derrubadas
na Amaz6nia, reduzindo a mata continue a umas poucas re-
servas ilhas de florestas. Nada mais se estaria fazendo, entio,
senAo restabelecer as condioges reinantes ha algum tempo!".
A perspective de Sioli para esse future 6 diametral-
mente oposta: "Quando em areas imensas, continues, de
estepe artificial somente esqueletos de irvores da floresta
primitive derem ainda por mais alguns anos testemunho
do que foi a grande floresta amaz6nica, entao nao estara
distant o estagio final".
Feito o desmatamento, sua consequencia sera inevitivel:
"Perdido estara entao irreparavelmente o maior patrim6nio de
esp6cie e de gens que se conhece sobre a terra, pois extincti-
on isforever [a extin lo 6 para sempre; Sioli escreveu em
ingls para se referir a um livro de Ghillean Prance cor esse
titulo, infelizmente nunca traduzidopara oportugues] ; nao se
deixara como heranga para as gerac6es vindouras um novo,
um rec6m-criado 'celeiro do mundo', mas uma estepe arbus-
tiva sem viqo, depauperada".
Os que nao querem esse desfecho tragico devem ler esse i
pequeno-grande livro e se deixar inundar tanto pela sabedoria
quanto pela paixdo desse alemao pela Amaz6nia. Talvez as amar-
gas profecias de entardecer que ele fez, mesmo sendo corretas,
nao venham a ser inevitdveis. Ou nao tenham a dimensao de o
maior ecocidio da hist6ria da humanidade. A


8 MARQO/2000 AGENDA AMAZONICA






PERGUNTA/RESPOSTA


Conquistar


sem destruir:


o desafio


amazonico


Nesta segao, respond a perguntas feitas em
palestras e que ndo pude tender por falta de
tempo. Embora o debate costume ser o melhor
moment desse tipo de acontecimento, quando
deixado para o final fica inconcluso e insatisfat6rio.
Nas respostas, procuro manter o tom coloquial das
conversas.


0 narcotrifico, o fato de a Amaz6nia ser uma im-
portantissima reserve mineral e de blodiversidade, assim
Scomo de uma grande fonte de agua doce, nAo seria
suflciente para justificar uma intervencao na Amazonia
pela ONU, talvez? A Amazonia nao 6 fundamental para o
future de todo o mundo?
t, pelo menos, o que o mundo diz. E nao estA dizendo urna
inverdade. Digamos que ainda nao seja uma verdade cientifica-
mente estabelecida. Mas 6 uma hip6tese que jA teve algumas alter-
nativas comprovadas. Outras estAo em fase de teste. Quando todas
as variantes tiverem sido suficientemente verificadas, entao deixa-
ri de haver qualquer divida sobre o valor que a Amaz6nia tern
para o equilibrio planetArio, para a manutencgo de uma feigAo
desejdvel ou suportAvel do nosso mundo, nas condic6es que de-
finem nossa vida sobre ele.
Se isso ocorrer, nao sera ruim, Muito pelo contririo: seri
maravilhoso. Uma intervengo extera na Amazonia seria compli-
cada, delicada, explosive. Formamos uma naoo com 160 milhoes
de habitantes e territ6rio equiparivel ao dos Estados Unidos, corn
o qual guardamos vizinhanga nio s6 geogrAfica, mas hist6rica.
Nao somos uma Albania, um Kosovo ou um Kuwait. As es-
peculag6es em torno da necessidade de intervencio na Amaz6nia
se fazem a partir de razoes humanitArias, reais ou imaginArias.
Essas razees desaparecem quando deixamos de dar causa as pre-
ocupag6es. O mundo nio aceitard uma ocupacAo military estran-
geira na Amaz6nia se nio for convencido de que 6 a 6nica manei-
ra de manter a habilitabilidade no planet. Nio para tender inte-
.resses de americanos ou ingleses, mas de todos os series vivos.
Por uma questAo de principio e de soberania national, nao
podemos condicionar o que fazemos na Amazonia a essa preocu-
paoo international, ainda que ela venha a assumir as caracteristi-
cas de um clamor. Mas continuaremos obtusos e estdpidos se achar-
mos que preservar a floresta na Amaz6nia serve apenas para man-


ter a temperature m6dia do globo estlvel no nivel em que se en-
contra ou para servir a caprichos de individuos, corporagoes ou
Estados.
Muito do que se diz sobre a regiao 1a fora 6 mr-f6, fantasia
ou hip6tese. Mas muito 6 pura verdade cientifica. Verdade que
nao s6 admite conciliagao cor a atividade econ6mica, como 6
capaz de tornm-la mais rentAvel. Um dos nossos maiores desafios
e, separando o joio do trigo, incorporar o conhecimento amaz6ni-
co gerado em outros pauses, nao s6 porque foi produzido corn
mais qualidade, como porque nao dispomos dele.
Sem essa absorgo, dificilmente faremos a ocupaoo da Ama-
z6nia caminharparipassu com a inteligencia. Mataremos a galinha
dos ovos de ouro antes que ela tenha sido fecundada. Temos que
exigir a contrapartida intemacional para nosso esforco, em doses
superiores. Nao 6 esmola. E investimento mesmo. Nossa autorida-
de nessa relaoo multilateral (como no program piloto das flores-
tas, o PPG-7) derivard da nossa competencia. S6 comandaremos
esses projetos se eles deixarem de ser caixas pretas para n6s.
Uma Amaz6nia dilapidada, despojada dos seus elements
definidores, n.o faz mal apenas a humanidade, em abstrato e con-
cretamente. Faz mal, antes de tudo, a n6s. Nao 6 por acaso que
algumas vozes dissonantes intemamente receberam a adesAo de
outras vozes dissonantes em outras parties do mundo. Esse estado
de consciencia sobre o valor da Amazonia 6 partilhado em todos
os continents, embora nao seja ainda dominant.
O modelo distorcido que o Estado brasileiro e os agents
produtivos end6genos tem imposto acaba favorecendo entidades
que sao apontadas na ret6rica do discurso (nem sempre afinado
com a realidade) como ameacas. E a contrafagAo dessa visAo po-
licialesca e geopolitica que anima os animos belicistas de alguns
govemos e corporac6es, dispostas a atropelar o govemo e a gente
brasileira para tomar conta da Amazonia, seja como o jardim do
Eden, seja como o almoxarifado de recursos naturais de uso ime-
diato, tao espoliadoras quanto nossos bandeirantes paulistas.
Essa hip6tese se tomarn inviavel publicamente, mesmo quando
pensavel intramuros, se os agents hegem6nicos da expansao da
fronteira corrigirem os erros, que se vem repetindo ha d6cadas, e
induzirem a expansao dos instruments corretivos, al6m de uma
inventive realmente fecunda. Sem formulas falsas ou inviveis (como
fechar a fronteira amaz6nica com cancela para impedir o ingresso
das massas de migrants despossuidos), a inica maneira de fazer
essa mudanga 6 cor muito maior investimento em ciencia, tecno-
logia, difusao de conhecimentos, educato, bem-estar.
Ou seja: prioridade para uma Amaz6nia harmonizada consi-
go mesmo, mantendo seu ciclo de vida (conforme apontam cien-
tistas como Harald Sioli), e nao para a destruigao de uma fronteira
que passou a despertar paixao e cobica planetdrias por seu tama-
nho e por ser a iltima em tal dimensao.
Uma aventura militarista intemacional se tomara insusten-
tavel se provarmos ao mundo que ningu6m sabe mais e melhor
do que n6s sobre nossa Amaz6nia. E que manter sua fisiono-
mia basica 6 a diretriz da incorporacgo dessa regiao especial
ao pais que cor ela ainda ter, de fato, tao poucas afinidades,
como o Brasil. Portanto, long das teorias conspirativas, sem se
deixar seduzir pela passividade comodista, e alertas ao estado
do mundo, continuaremos a ter pleno dominion sobre a Amaz6-
nia. Nao mais apenas um dominio formal. Nao mais simples-
mente para pilhar a regiao. Mas para mostrar ao mundo como
fazemos por merecer a graca de terms dentro de nossos limi-
tes essa area portentosa. A


MAR(O/2000 AGENDA AMAZONICA 9






ENTREVISTA



Para se salvar,


a Amazonia


precisa da


solidariedade


external


A entrevista abaixo foi concedida a Amaz6nia
Ipar, revista teol6gico-pastoral do Instituto de
Pastoral Regional, cujo primeiro nOmero,
dedicado ao tema 'Amaz6nia em questao",
circulou no final do ano passado.

Quais sao os fatores mais importantes da Amaz6-
nia que determinam a atual conjuntura amaz6nica?
Os mais determinantes sao os fatores externos. A Amaz6-
nia foi "vocacionada" a gerar d6lares. Para ter acesso a moeda
forte, teve que encontrar nichos de mercado para produtos que
fossem aceitiveis. Sao, principalmente, produtos eletrointensi-
vos, como aluminio, quartz, madeira., etc. Em rela~go a alguns
desses bens, sua producgo 6 significativa. E no Pard que o
JapAo vem buscar 15% do aluminio primirio e do minerio de
ferro consumido em seu parque industrial. Logo, esses fluxos
tem que ser constantes.
Os "grandes projetos" funcionam como esses centros de
sucgio e drenagem. Sao enclaves, normalmente fechados. Mas
ocasionalmente esses circuitos fechados sofrem crises. t quan-
do posseiros invadem terras, manifestantes bloqueiam vias de
transport, conflitos sangrentos explodem.
Essas pontes avangadas do sistema econ6mico global en-
tram em choque com essa imensa ameba social, que 6 produto
delas mesmo, mas que sao por elas negadas. Sao os p6los extre-
mos de um sistema que, para funcionar, funciona sob tensAo
social, no limited. Quando hi uma combinacdo de curto-circuitos
nos eixos externos e internos, a Amaz6nia entra em colapso.

Qual 6 a sua relevancia a nivel international?
A Amaz6nia tem uma longa tradigo de relagAo metropoli-
tana. Nunca 6 demais lembrar que Bel6m funcionava, para a
administragAo ultramarina portuguesa, como se fora a capital de
um outro pais, tao estreitamente vinculada a Lisboa quanto a
capital formal do pais, Salvador e, depois, o Rio de Janeiro. A
rigor, os moments de predominio da dimensao internal foram


exceq6es, intervalos na relacao com um p6lo extemo.
Essa evolucao ocorreu em ciclos, do pau-brasil a borra-
cha. S6 que agora a integrag~o international da Amaz6nia 6
definitive, nos seus aspects ruins (predominantes) e bons (ainda
atrofiados). Como disse na outra resposta, o Japao nao pode
mais prescindir da Amaz6nia, que supre-o com 15% do que
precisa em mat6ria de aluminio metdlico e min6rio de ferro.
Nem os consumidores de estanho, de caulim, de madeira, de
pescado, de bauxita.
S6 que eles pagam precos declinantes por esses produtos,
que carregam consigo formidaveis quantidades de energia, na
forma conventional, hidrel6trica, ou em formas nao-contabiliza-
das (como o nutriente contido no carvAo vegetal usado como
redutor do ferro-gusa).

Quais valores poderiam ser resgatados a partir da
realidade cultural, social e ecol6gica da Amaz8nia e
que sao derrubados pelo neoliberalismo?
A globalizacgo da economic (at6 algum tempo atrAs inter-
pretada como imperialismo) imp6s o calculo em escala. Essa
busca do custo mfnimo e do maximo rendimento estd engen-
drando um paroxismo ao mesmo tempo concentracionista e ex-
pansionista. A cada dia que passa agigantam-se as fuses de
empresas e as teias de relag6es produtivas. E como, caricata-
mente, faz um tipo popular de Santar6m, onde nasci: mesmo
para aquele visitante que acabara de chegar, o Jos6 Fernandes.
sempre achava uma relagao de parentesco com algu6m da terra.
Havert um dia em que tudo sob este planet estar- imbri-, #
cado, como os parents forgados do Jos6 Fernandes. Mas se
esse dia chegar, a crise assumira uma gravidade jamais experi-
mentada pelo home, talvez uma grande guerra como nem a
segunda foi capaz de ser depois da "grande guerra" (1914-18)
que seria a l6tima de todas as guerras. O especificamente ama-
z6nico sera sacrificado no altar dessa homogeneizag~o plane-
taria, nessa submissao ao calculo em escala mundial definitive.
O quadro seria tao dantesco que 6, na verdade, inverossimil.
A "identidade amaz6nica" 6 o produto da natureza, en-
quanto informagCo em estado bruto, e a construgao da consci-
encia, num ponto de equilibrio que reconhega (preservando) o
que 6 amaz6nico porque s6 aqui ocorre, ou s6 aqui nas condi-
goes em que se manifesta no meio ambiente, e o ajuste e adap-
tag5o engendrados pelo home para encontrar seu lugar nisso
que 6 locus, mais do que cendrio ou paisagem. A agenda para
essa producgo cultural (em seu amplo significado antropol6gi-
co) 6 tao ampla que nos faz acreditar que, um dia, serA vidvel,
com ou sem o tal do neoliberalismo.

Sera que a Amaz6nia e somente o pulmao do mun-
do? Quais sao as outras caracteristicas que identifcam
a Amaz6nia, al6m da questio ecol6gica?
A Amaz6nia nunca foi pulmao do mundo. Nao foi porque
nao desempenha essa fungao. Tudo nao passou de um mal-enten-
dido, no inicio da d6cada de 70, a partir de pesquisas de vanguar-
da que o Instituto Max Planck, da Alemanha, desenvolvia.
E evidence que. um espaco florestado como o da Amaz6-
nia, com pelo menos tres milh6es e meio de hectares de flo-


10 MAR90/2000 AGENDA AMAZONICA






resta tropical densa, tem importancia planetaria. Tanto pela
sua condigio natural, como absorvedor das impurezas da at-
mosfera, como pela condigao transformada, a partir da quei-
ma dessa massa vegetal e todos os efeitos que a partir dal (e
ai) se desencadeiam.
Do ponto de vista da produgao, da criagao de mercadoria,
a Amaz6nia 6 um formidAvel reposit6rio e almoxarifado de ener-
gia. Na forma inerte, bruta ou natural, e na forma de mercadoria.
Por isso, para ela foram atraidas as usinas de aluminio, quartz,
ferro-gusa e as minerag6es. E jA vem as plants de cobre. Num
mundo de energia escassa e cara, a Amaz6nia 6 o sitio da eletro-
intensividade. Este 6 o seu grande significado atual.

Qual e a importancia dos povos indigenas para a sal-
vaguarda do planet da biodiversidade que 6 a Amaz6nia?
I uma importancia que ningu6m mais desconhece, mas que
tende a ser superdimensionada, transformada em mito. A etnobi-
ologia 6 um ramo cientifico valiosissimo. O control natural de
pragas e o manejo de plants ter se servido cada vez nais dos
conhecimentos empiricos dos indios, que, nessa condigao, nin-
gu6m mais pode rivalizar. Seria um crime de lesa-humanidade
ignorar a sabedoria gerada por s6culos de convivencia dos indi-
os com a natureza.
Um bi6logo como o dr. Varwick Kerr (de volta a presidencia
do Inpa, em Manaus) declarou de p6blico sua divida para corn os
conhecimentos indigenas em mat6ria de abelhas, sendo ele um res-
peitado especialista no assunto. Por isso, o saber das populag6es
originals das Am6ricas deve ser incorporado A produg.o acadmnica,
tecnol6gica e popular do conhecimento, sem etnocentrismos, mas
sem idealismo romantico. E trabalho para muitas d6cadas. Mas e
trabalho fecundo, se encarado corn inteligencia e realismo.

Qual serd o future da Amazonia se continuar o
process de destruigAo, e quais sAo as medidas urgen-
tes para parar a destruiVAo e fazer uma inversAo rumo
a salvaguarda da Amaz6nia?
Por seus pr6prios meios, a Amaz6nia nao conseguirA resol-
ver seus pr6prios problems, salvar a si mesma. Precisa da soli-
dariedade externa., national e international, da political e da ci-
encia acima de tudo, para se contrapor e balancear as determi-
nacges do capital, national e international.
Essa dependencia result desde a vinculagLo demogrffica
at6 a visao cultural do element dominant no process, o mi-
grante, seja ele na forma de capital como de pessoa fisica. A
Amaz6nia nao pode ser considerada solucgo para problems
irresolvidos do velho Brasil, como a reparticgo da terra. Tambem
nao pode ser transformada numa extensao literal de um Brasil
que se expandiu destruindo florestas.
Da mesma forma, nao pode ser um produto de equacao geo-
politica, do determinismo demografico como condicgo para afirmar
a soberania. Euclides da Cunha disse, no inicio do s6culo, que esta
6 a pigina do genesis ainda em branco, que ao home caberA
escrever. Essa 6 uma ideia que continue forte para o pr6ximo s6cu-
lo. E precise entender essa pagina em branco como um desafio a
inteligincia, ao discemimento, a criatividade e ao compromisso corn
um mundo melhor. Sem isso, nao haveri future no future. A


MEMORIAL



Belem corn



postura


A Prefeitura de Belem, atrav6s da Secretaria de Obras, de-
terminou a retirada de todos os vendedores de pipocas, tacacd,
cachorro quente, frutas, etc., dos passeios da Praga da Rep6bli-
ca, agora recuperada. O prefeito n.o admite que o principal lo-
gradouro da cidade seja transformado em feira. Os vendedores
foram cientificados da decis~o. Isto ha cerca de um mes.
Agora, chegada a quadra carnavalesca, os vendedores vol-
taram, alegando o movimento de pessoas ali. Mas n~o deram
satisfag6es a Secretaria de Obras, que, na 6poca oportuna, du-
rante o triduo carnavalesco, vai localizi-los, nao pelo passeio,
prejudicando a limpeza e o transito de pedestres, mas em local
afastado das calcadas. Ontem a tarde, alguns vendedores tei-
mavam em fazer "ponto" defronte ao Grande Hotel e adjacen-
cias. O dr. Artur Carepa, Secretario de Obras, compareceu ao
local e os avisou da impossibilidade deles l1 permanecerem,
pois desrespeitavam as ordens do prefeito. E determinou que
os carros que n.o saissem do local imediatamente, fossem re-
colhidos ao dep6sito municipal. Dois sairam rodando, obede-
cendo As ordens. Os demais, como nao quisessem se sujeitar,
foram colocados em caminh6es da Prefeitura, e levados para o
Dep6sito Municipal.
A ocorrencia provocou aglomeracgo de populares. Mas nio
houve incidents.
(Noticia publicada na Folha do Norte de 16 de feve-
reiro de 1962, quando ainda havia posturas muni-
cipais em vigor em Belem.) A



CorreS&o


Para manter a periodicidade em dia, fechei a edigio anteri-
or desta Agenda a toque de caixa. A revisao foi prejudicada.
Prejudicou um trecho da materia de capa, no qual fazia referen-
cia ao papel de Eliezer Baptista no deslocamento da hegemonia
americana (e nao amaz6nica, evidentemente, como saiu) na fron-
teira amaz6nica. Eliezer, pai de Eike, marido de Luma de Olivei-
ra, 6 um dos ocidentais que mais conhece o Japao. Fala fluente-
mente o japones. Ja esteve naquele pais mais de 100 vezes. Fez
empresas japonesas se tornarem os maiores compradores do
min6rio de ferro de Carajas. E trouxe-as para a parceria cor a
CVRD no p6lo de alumina e aluminio de Barcarena (e nao, 6
claro, de Belem este, mais um cochilo).
Outro, foi a concordancia de p6 quebrado no iltimo perio-
do do derradeiro parAgrafo da mat6ria sobre a Cabanagem, feita
pelo plural e nao pelo singular, como deveria ter sido. A


MARCO/2000 AGENDA AMAZONICA 11







Costumes

No carnaval de 2000 em Salvador, na
Bahia, a moda eram os beijos, para valer
mesmo. Uma moga se vangloriava para a
camera de televisao de ter dado 11 ou 12
beijos em desconhecidos, apimentados.
No carnaval de 2000 no Rio de Janeiro, a
onda era ver quem estava con peitos na-
turais e quem a eles adicionara silicone.
No carnaval de 1962 em Bel6m do
Pard a loja Odalisca (na rua 13 de maio, j.
fechada, como a maioria da 6poca) anun-


pados doe 5in.'-ir'ul,
Grande varjieduti
CrS 1.000,
PARA A
MENINA-MOCA
Conjunto "Sairt-Tropez"
1.' lna-arntno rn Belem
SCaMlas compridas,
shorts, Cvoniunto-shorts
Se blusdes

ci alis c
ryva-.j-L,: M.IA] 4313-TM1 20&8
S." "


ciava o "1 langamento" do conjunto
"Saint-Tropez". O traje permitia as usuari-
as a ousadia de exibir a cintura, particu-
larmente o umbigo, objeto dos mais cobi-
gosos desejos masculinos. Isso, como diz
o soturno locutor do "Video-Show", hi
menos de 40 anos.
Baco, hoje, embasbacaria.



Evoluimos?

Como ir de aviao, hoje, de Bel6m a
Los Angeles, a maior cidade da costa oes-
te americana (e uma das mais belas do
pals)? Qualquer que seja o roteiro, certa-
mente ele incluiri mudanga de aviLo, reti-
rada de bagagem (com o risco de extra-
vio) e espera, talvez longa, em pelo me-
nos um aeroporto intermediario (Miami,
sobretudo).



AGORA

0 MAIS RAPIDO SI

SEM MUDANCA DE

PARA

Los Angel






semanolmenfe de
via Caracas, ParnamB Guat

Nec novo servigo rurfico em Clippe*,
(0 Arco-ri), vOac pode I=ar todo a pro
de I nio. Uma mnica pamsgem. Um (nico
de bgagesn. Simpifaiimo, com se v,
Baixa tarifa o mdxlmoi de
No popular srvi4o PAA "Te Rainbow
gianacs Clippcn' Supar-6 as mali rd
parelhot, que serven a Amtnca Lntia.-
dia2Lmenm fkrm w sdr prtunizado. i pro
ir cor.diciJaao, a fim de propokrcour-lIt
em coni&nO Aiea,
Consulr swo Agincia de Viogen
ou as oesririoris d4 Pona



A I*HA AEtA DI MAJOR EXful
*MWm an.K""&


Em 1955 (como mostra o antncio
publicado na Folha do Norte de maio da-
quele ano) era possivel ir uma vez por
semana de Bel6m a LA (eli di, como pro-
nunciam os americanos), no "gigantesco"
clipper Super-6 "Rainbow" (arco-iris) da
Pan American Airways, um quadrimotor da
era anterior ao jato. As passagens da Pa-
nam americana eram vendidas no pr6dio
do Grande Hotel (sofisticada construgao
do inicio do s6culo passado, derrubada
parra ser levantado o Hilton Bel6m) pela
Panair do Brasil, uma franqueada nacio-
nal (como se diria agora) da famosa em-
presa area americana, a maior do mundo
de entao.
O passageiro faria todo o percurso
at6 Los Angeles, via Caracas, Panami e
Guatemala, "sem mudar de aviio. Uma
Onica passage. Um Onico jogo de etique-
tas de bagagem. Simplissimo, como se v&",
garantia a publi-
cidade, descre-
vendo as vanta-
gens do aparelho i
E R VI O utilizado na lon-
AVIA tO ga viagem: "Es-
ses aviOes mun-
dialmente famo-
sos sao pressuri-
e s zados, a prova de
A- A som e tdm ar con-
xnr dicionado, a fim
de proporcionar-
Ihe a ultima pa-
BELiM lavra em confor-
to a6reo".
D u r a v a
Durava
"Thl Rainbovw mais e era mais
curMs, tem Mudn
jto de ttiqua cansativo do
que hoje, com
confrtoi I avi6es duas ve-
SVe wn a"g zes mais velo-
pWdoE a modenear
,a av6=w mu-. zes, mas a cos-
1 deWm eCo m ta dourada dos
a Gnimu pai
EUA parecia
* mais perto. Esta-
it do Brsil va, na verdade.
O Para era mais

fICZN do que uma re-
LIMA DO mWuH t6rica na propa-
ganda do parai-
so artificial.


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