|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
. 2. - Ano I N0 4* Belem, dezembro de 1999 R$ 3,00 L c i o Fldvio Pinto GRILAGEM Para pode perder 20% p ,C 1 fv7,.,^ ..,.:. . das suas St' &S Esta 6a transcrig-o, resumida e em alguns pontos ajustada, da palestra que fiz e do debate que travel, em agosto passado, com os deputados que integraramrn a Comissao Parlamrnentar de Inqu6rito instalada na Assemrnbl6ia Legislativa do Parj. A CPt foi constituida para apurar a grilagem de terras no Estado, especialmente a atribuida ao empresrio Cecilio do Rego Almeida, com pretens'o de ser dono de at6 sete milhdes de hectares no vale do Xingu, uma das Oltimas reserves (e talvez a mais important) de recursos naturals do Estado. Conforme concluiram os parlamentares, essa 6 uma grave ameaga que paira sobre o valioso patrim6nio fundiArio dos paraenses. Espero que esta versao sint6tica da exposigao alerte para o problema. A apresentagio estd intercalada poralgumas perguntas de deputados integrantes da CPI, cuja identificagio no julguei necess6rio fazer, a fim de manter o tom do debate. Que deve continual, se aprofundando. E :udo do Pard 6 o segundo maior em extensao da kldcragio. Tem o tamanho de um pais, cor 1,2 mi- Ih.i de quil6metros quadrados. Mas faz uma admi- ni tragao irresponsavel e, as vezes, leviana desse pa- tnm6nio p6blico, que 6 um aval para o seu future. Neste moment, as grilagens identificadas e de certa forma com- batidas, atrav6s de agces judiciais ou de procedimentos adminis- W'ativos, englobam 20% do territ6rio do Para. Somam 240 mil qui- 18metros quadrados de terras griladas. A pr6pria dimensao dessa Area jAi um esc^ndalo. E a forma primiria utilizada por alguns grupos para se apropriar de terras no Para e um escArnio. De certa forma, atesta a incapacidade de administraSio do Estado para bern gerir o valioso patrim8nio de recursos naturais posto sob sua tute- la em proveito da populagio paraense. ),I, E por isso que o Estado do Para, sendo o nono em populagao do Brasil, o segundo em extensao, e exibindo alguns indicadores quan- titativos muito impressionantes, como, por exemplo, ser o terceiro maior produtor mundial de bauxita, o terceiro maior produtor mun- dial de caulim, de ser um dos oito produtores mundiais de ouro, sexto maior produtor individual de minerio de ferro, setimo maior exportador brasileiro, segundo em saldo de divisas, terceiro maior exportador intranacionalde energia, apesar de tudo isso, foi classi- ficado pela ONU como o 17 Estado brasileiro em desenvolvimento human, fazendo parte do terceiro Brasil, o Brasil miseravel. Porque a ONU, aplicando o IDH (indice de Desenvolvimento Humano), a partir de 1991, dividiu o Brasil em tries Areas. O Para ficou no Brasil mais pobre, integrado apenas pelos Estados nordestinos mais mise- raveis, e por dois Estados da Amaz6nia: o Acre e o Para. W.- Em parte, esse paradox 6 um procluto ca ineficaicia administrati- va. Que se manifesta, entire outras formas, pela facilidade existente para a apropriaciio ilicita de terras piblicas. Hoje, 20% do territ6rio paraense estli grilado por grupos ji identificados e, de certa form;, jfi combaticlos. Mas que nao recuam. Principalmente por nifo serem eficientemente combaticlos. Por que 6 tao ficil gilarterras no Paril? Em primeiro lugar, pelo valor da pr6pria terra. Um hectare de terra, no Parai, pode valer oito, doze, ou quinze vezes menos do que em Siao Paulo. O simples valor cla terra jai permit a grupos especulativos integralizar o im6vel ao capital por um valor que, na mera capitalizagcio, jai aumenta de tres, quatro, cinco vezes. A mera inscricio contaibil jai dai ganhos incriveis a grupos que se apropriam de terras. Muitas vezes, esses grupos se credenciam ao cr6dito official corn sua contrapartida de capital artificialmente inchada. Ganho que foi muito pr6digo na 6poca em que a Sudam (Superintend&ncia do Desenvolvimento cda Amaz6nia) privilegiava a aprovagi o de proje- tos agropecufirios, principalmente de 1969 a 1982. Foi a 6poca de ouro, na qual se grilava terra corn titulos falsos, titulos nulos, titulos irregulares e, a despeito disso, se conseguia contrapartida de linheiro official. O governor se comprometia ate, no caso dos projetos cla faixa A de prioridade da Sudam, a entrar cor 75% do valor do empreendimento, dinheiro que provinha dos incentives fiscais (rentincia da Uniaio i cobranca de imposto) ou de linhas de credito subsicliadas jurorss bem abaixo dos valores de mercadol. O segundo grande fator da grilagem 6 a migracio. Com essa taxa migrat6ria, que jai foi extremamente alta no passado, mas continue acima do desejpivel ate hoje, 6 impossivel planejar a ocupagIio da terra na Amaz6nia. Durante um certo tempo, o govemo federal achou que a forma de evitar essas altissimas taxas de crescimento demogri- fico via mign ;Fro en ar porteimrs na Amaz6nia, controlando o fluxo human. Cada porteira criaca na Amazonia, entretanto, gerou uLma cidale, -i s vezes uma cidade cor grande contingent populacional. Hi vairios exemplos, como Parauapebas e TucumIt, no sul do CParai. Situada no p cda Serra de Carajpis, a 30 quil6metros ca mais im- portante mina de minerio de ferro do planet, Parauapebas era urma porteira e virou urma cidade. A Companhia Vale do Rio Doce, don: ca mina, quando percebeu a invaslo de moradores, tentou planejar a cidade e fez um projeto urbanistico. S6 que o projeto desconheciL as condigies sociais do morador e o projeto se tornou inviivel. Em 1984, quando os garimpeiros de Serra Pelada se rebelaram (porque o governor queria fechar o garimpo), cestruiram a estagao de tratamento de agua (uma das poucas no interior do Pard), e todas as instalag6es de energia. Os lotes urbanos nito estavam ao alcance do powder aquisitivo cia populacrio. Hoje, um dos maiores inlice de hanseniase lepra) ca Amaz6nia, dos maiores do munco, estai beira ca maior mina de ferro do planet. Essa taxa migrat6ria complica qualquer piano de ocupag'io da tern Ela nato serfi controlada enquanto as mais antigas reas do Brasil nao deixarem de fornecer migrants para a Amaz6nia. Os problems que causam a expulsiao do lavrador t6rn que ser resolvi- dos no ponto de origem e naio no ponto de chegada do home do "ampo. A clientele dos investimentos sociais est~ sempre em expan- siio, exigindo do Estado mais do que ele poce oferecer e impedin- do-o de estabelecer um planejamento mais rigoroso. Quando muito, ele 6 um bombeiro social, tentando apagar conflitos na terra da tensiao social. Um terceiro fator de incluglo da grilagem decorre de o pr6prio Estaclo do Para nito valorizar as suas terras. A administracaio piblica parece consiclerar que o Estado, por ser extenso, tern um patrim6nio fndiciirio quase inesgotivel. Em 1975, na primeira e na mais conse- qiiente tentative que o Estado fez de exercer um control adminis- tr. tivo sobre o seu territ6rio, foi criado o Iterpa (Instituto de Terras do Parti). Seria o fim daquela tradicito terrivelmente nociva ca Se- cretaria de Terras, que seiviu de biombo para a apropriaiao por particulares de terras p6blici., moralizando esse sector. 2 DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA Mas quem for ler corn atencio a lei que criou o Iterpa verificar, que ela esta cheia de algap6es e armadilhas, esquinas e travessas. Uns poucos e privilegiados escrit6rios de advocacia utilizariam aquela estrutura para beneficiary os seus parceiros e client. O Iterpa, por isso, acabou se transformando numa instfincia governmental par: a resolugio de problems de grances grupos intere, ados em terrs no Pari. O institute nfio conseguiu cumprir a funcgo p *a a qual, teoricamente, havia sido criado. SQuais as medidas preventivas que o senhor acha que as autoridades Esta- do e Uniao poderio fazer para repri- mir essas grilagens? Acho que, em geral, a attitude do Estado foi primeiro mercantil. Durante muito tempo a grande preocupacIo do Estado corn relaciio ~s terras era vender, fazer renda. At6 hoje essa clistorgto continue ben forte. Continue; mais interessado em alienar terras do que em dar-lhes uma utilize: gio realmente proclutiva. E precise mocificar toda a estrutura agrari; e fundifiria do Par'i. E necessfirio reformular urgentemente o Iterpa. Mas, 6 claro, num process sintonizado corn a administracgio fe- deral, ji que, de 1971 at6 1986, o grande gestor de terras no Parai foi a Uniao, atrav6s claquele terrivel cecreto-lei 1.164, de 1971. Calcula- se que 65% do patrim6nio fundiiirio do Pari era administrado pela Uniao, que nunca teve sensibiliclace e continue naio tendo p; os problems amaz6nicos. E necessfrio haver um entendimento entire a Unito e o Estado realmente eficaz, nao s6 de fachada. Sem modi- ficar isso, e sem que o Pard possa se ajustar na Federaglio de forma mais saucdfvel, acho que vamos instalar "enes" CPIs sem resolver os problems. G Qual o interesse da C. R. Almeida ia Area? A primeira indagagfo de toclos os grades, agents da colonizagAo ao chegi I Amazi- nia 6 sobre a localizagio de umra grande firea de terras. As pessoas fisicas ou jurilicas que vem para a Amaz6nia como agent colonizador partern do pressu- posto de c que qualquer projeto econ6mico na regiaio s6 pode dar certo numa firea enorme. Jamais pensaram na area diretamente ne- cessairi; execu~ifo do empreendimento produtivo. Sempre procu- raram uma reserve de frea para fins especulativos. Exemplo. O milionfirio americano Daniel Ludwig veio par a Ama- z6nia e fez essa pergunta: once eu posso ter urma enorme area de terra? Disseram-lhe que era na foz do rio Amazonas, entire o Pari e o Amapai, onde haveria 3,6 milhoes de hectares cisponiveis. Qual era a base anterior cessa imensa propriedade? Era a antiga Compa- nhia do ari, que foi transferida pelo coronelJose Jilio de Andrade, coronel da Guarda Nacional, coronel de barranco, para os Martins, os portugueses que faziam a exploracito commercial. No entanto, Lu- dwig nunca se perguntou, a s6rio, se essa irea enonne de pretensa propriedade era efetivamente propriedade. Por que? Porque se con- sidera que na Amaz6nia nao tern autoridade piblica capaz de regu- lamentar o uso da terra. Se Ludwig estivesse colonizando o oeste dos Estados Unidos, n. segunda metade do seculo XIX, ele jamais ocuparia essa frea por- que jai entao o seivigo de tenras americano estava muito bem organi-. zado. Mas aqui nao, estfivamos tecnicamente no passado e a noss: mentalidace continuava sendo extrativa. Na nossa mentalidade, ach; vamos que a terra deveria ser usada por seu valor de uso e nto como valor de troca, porque o nosso sistema de produgao era extra- tivo: n6s coletivamos fiutos ou, no mriximo, faziamos alguma alte-* "a o cortando a firvore para tirar o litex. Mas nao nos preocup( mos corn o dominio legal, O que interessava era usar a terra, o que interessava era a cobertura do solo e naio exatamente o pr6prio solo. Viviamos do extrativismo vegetal. Al6m disso, a legitimidacde do dominio era estabelecida quase manu military. O coronel Jos6 JOlio, por exemplo, era dono de todo o rio Jari. Era ele que fazia todos os casamentos, era padrinho de todas as criangas, era ele que elegia os politicos. Naio interessava se o eleitor morria. Morria porque queria, mas no registro eleitoral ia continue; votando. Ao menos enquanto o coronel pudesse manter os registros fantasmas. Ele era o dono da vida e da more. Quem ia contestar o coronelJose J6lio de Andrade, dizer-lhe que a propriedadce dele nio era daquele tamanho? Urn titulo famoso do coronel era a Fazenda Saracura, que tinha uma 16gua de frente por um milhao e quinhentos mil metros lineares de fundo. Ou seja, ela comegava no rio Araiolos, afluente cloJari, e ia terminar no oceano. Tendo 1.500 quil6metros de fundo, ela atravessaria a Guiana e iri; p; ar no mar. Mas nunca ninguem contestou. Por que? Porque ele era o dono do lugar, um senhor de powder quase oriental. Os empresirios da Amaz6nia nao mudaram a sua mentalidade, continuaram corn a mentalidalde extrativista e nunca se preocupa- *am em estabelecer uma ordem funldidria. Continuamos no caos. O colonizador, n io; ele jai sabia, ele queria terra porque ela function; ria como uma reserve de valor e meio de troca, como instrument de procldugo. Veja-se o caso da Jari. Ela chegou aqui achando que tinha 3,6 milh6es de hectares. Hoje, ela diz que tern 1,6 milhio de ha, ou seja, "ablicou" a dois milh6es de hectares. Mas o Iterpa, consultado pela Jari, em 1976, disse que a empresa s6 tinha direito a 300 mil ha no maximo. AJari nunca mais voltou para pedir ao Iterpa a legitimagio dos seus 32 titulos de posse. O que fez a Jari? Gragas ao powder que na 6poca tinha na rep6bli- ca, passou a questao diretamente para o Conselho de Segurangc National, tentando fazer por li a legitimagio das terras. S6 que o Regime military caiu, o conselho percleu a juriscdi~io e o process sumiu, foi para Brasilia e nunca mais voltou. AJari agora nalo tern interesse em legitimar porque sabe que nio vai ter 1,6 milhto e sim 300 mil hectares. , No caso da C. R. Almeida, a pergunta foi a mesma: ter uma irea grande? Niio interessa que o ilnico document legal dess;: area seja um contrato de aforamento, que nao 6 titulo de propriecdade. O contrato que se tern para coletar castanha ou tirar seringa nao pode ser registrado no livro 3, tern de ser registrado no livro 2, de posse. Mas foi registrado no livro 3. Por que? Na 6poca, ainda estava em vigor o powder do coronel, por conces- salo do Estaclo. Quern explorava a -a do Xingu era o coronel, important no vale do Xingu, once era o pocer estabelecido. De- pois, na sucessio, surgiu uma empresa. Ela tentou sair do extrativis- mo, que jai nao era mais rentivel: a borracha do Xingu nao tinha prego commercial. A empresa usou essa terra como garantia para ob- ter empr6stimo. Temos a operacio no Banco do Estado do Par;' que e exemplar da mentalidade public naquela epoca. O agent financeiro official n-to foi fazer indagac;lo nem ao 6rglo p6blico para saber se a terra existia. Ele pegou um simples papel de cart6rio, que tern f p6blica, mas estd sujeito a correi io, e deu o empr6sti- mo. Por que? Naquela 6poca, o powder p6blico dava qualquer dinheiro a qual- quer pessoa que pedisse para fazer pecuiria de corte em grande area, qualquer operac io corn base no registro imobiliario, por mais esp6rio que fosse. O que fez o sr. Cecilio do Rego Almeida? Ele sabia que aquilo era .indevido, por6m ele queria uma area enorme. Entao ele comecou corn 4,7 milh6es de hectares. E o niumero falado nesta CPI. Para se ter uma idcia do desprop6sito, quando Ludwig chegou a Amaz6nia, em 1967, querendo 3,6 milh6es de ha, foi uma como ao mundial. Vem agora um cidadcto e diz que srao 4,7 milhdes de ha e as pesso- *as, as vezes, nem se clao conta do tamanho da area e da gravidade do problems Mais recentemente, nas ac6es judiciais que ele esti intentancdo em Sao Paulo contra as pessoas que o perturbaram, como eu, jai esta falando em 7 milh6es de ha. Aumentou a pretenslio em 50%, preten- sao que ja era um absurdo. Esses 7 milh6es de hectares representam quase cluas vezes e meia o tamanho da B6lgica, pais no qual vivem 10 milh6es de pesso; cor uma renda "per capital" cinco vezes aior do que a brasileira. E n6s estamos aqui nos perguntando: sera que ele tern direito ou nio a ess; drea? A parte o aspect juridico, hl um outro aspect, que a igreja, o governor brasileiro e ate mesmo o sistema juridico brasileiro, que 6 violentamente privativista, porque ainda esta baseado num c6cigo velho de 80 anos, admitem: "pesa sobre a propriedade privada uma hipoteca social" Por isso, qual a pessoa no mundo que tern o direito de dizer que 6 dona de 4,7 milh6es ou 7 milh6es de hectares, sendo que nao existe um titulo, tudo se baseia num registro espurio feito num cart6- rio do interior, que ji nao deveria mais estar funcionando se a cor- regedoria de justiga agisse para valer no Estado do Para? E precise acabar corn essa pirataria funcdiaria que vein pilhando o grande patrim6nio de future do P'ar, os seus recursos naturais. GO sr. ji ouviu falar em Carlos Medeiros, voce acha que ele existe, ou 6 mais um fantasma cor CPF "laranja"? Vendo os dois casos, verificamos que temos, de um laclo, uma grilagem sem titulo e, do ou- tro, umra grilagem sem proprietirio. A C.R. Al- meida nunca e jamais apresentou um titulo concrete, especifico. Sempre se refere a um "titulo habil", sem apresentai-lo. Porque ine- xiste. Durante um tempo eles tentaram dois mecanismos para "es- quentar" esse suposto titulo. Um: manclaram uma pessoa investigar os talontrios do Iterpa. Esperavam encontrar um talonario disponi- vel p; a nele enxertar o seu "titulo" Mas nmto encontraram. Dois: foram nos registros de Cartas e Datas de Sesmarias, as velhas sesma- rias coloniais, para tentar encontrar uma que pudesse ser plantada" no Xingu. Isso nrlo 6 nenhuma novicdade: num dos grandes conflitos de terras do Para, o da Gleba Cidapar, em Vizeu, na regilio nordeste do Estado, uma das sesmarias, que 6 a Sesmaria Macaco, pulou do galho'do Maranhlio para o galho do Para. O titulo se localiza no Maranhao, mas ela "pulou" e ficou plantada no Estado do Parti por conveniencia do detentor do papel. O mesmo foi tentado no Xingu. No caso do Xingu, nio hi titulo de propriedade, nio tern nenhu- a forma de provar a origem do desmembramento das terras do patrim6nio public para o privado. Ja no caso do Carlos Medeiros o proprietario nio existed. O caso Carlos Medeiros 6 ainda mais grave porque a pretensito sobre 10 milh6es de hectares, espalhados por oito municipios. Isso nao pocle continue; Muitas vezes a gente ri diante de tanta desfaga- tez, mas a grilagem continue. Nao hi uma attitude conseqiente, dras- tica, proporcional a gravicdade da ousadia dos pirates fundiarios. SQuantos hectares o ITERPA, em 25 anos de vida ji legitimou, demarcou, arreca- dou para o Governo do Estado? Acho que niao 6 muito. Mas o pouco que o Iterpa fez 6 grave, porque, como disse, a men- talidade 6 de se desvincular do patrimonio fundiairio, de alienar patrim6nio fundiario p6blico. A nossa 6 uma mentalidacle mercantile, 6 a velha mentalidade portuguesa que rece- bemos como heranga. Somos bons mercadores e negociantes, mas nio sdmos empreendedores. Acho at6 que se acontecesse o contra- rio, se o Iterpa estivesse legitimando e titulando expressivamente, isso tamb6m seria grave, porque o institute nao esta fazendo esse ato com a seguranga tecnica que se deveria exigir. O sr. tem uma preocupacAo com o grupo da Inddistria Comrrcio, Exportagio e Navegagio Xingu Limitada, a In- cenxil. Ja fez algum trabalho para cobrar do Departamen- to Juridico do Iterpa a demarcacAo, a arrecadacAo dessas terras publicas supostamente devolvidas pelo governor fe- deral ao Estado do Pard? DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 3 Essa era iuma reivindicagiio antiga que o Estado do Pari tinha, de voltar a ter o dominion do seu territ6rio. Esse dominion foi usurpado, ate de uma maneira vergonhosa, porque esse decreto-lei 1.164, que foi assinado numa data cabalistica, no dia 1i de abril, diz o seguin- te: que estfio fedenalizadas todas as areas situadas numa faixa de 100 km de cada margem das escadas federais construidas, em constru- Cao ou simplesmente projetadas na Amaz6nia Legal. Isso 6 uma anomalia juridica Mesmo apenas projetada, uma estrada que naio existe de fato, s6 existe no mapa, passa a federalizar as terras que corta. Isso 6 uma anomalia que agride o mundo juridi- co, a norma do mundo jurclico. No entanto, o governador do Pard na 6poca assinou, junto corn outros governadores, numa solenida- de realizada aqui em Belem, um term de anuencia. Anuiu a esse absurd, a essa violincia. No caso da C. R. Almeida, acho que a primeira providlncia seri cancelar o registro imobiliairio. O registro existe, embora haja urma averbagio feita it margem, desde que a justica concede a tutela antecipada ao Estado, que promoveu uma aFio de anulagao e can- celamento contra a empresa. No entanto, sabemos que essa averba- fio tern uma eficicia relative. Por que? Porque grande part das pessoas nao vai consultar o cart6rio. Prefere se basear na certidfo, que esti girando pelo mundo. A primeira providlncia 6 essa mesmo, indo i raiz do problema, anulando o registry. A fomna, o Iterpa ji empregou: entrou corn umn agio de cancelamento de registro. No entanto, vai esbarrar no pro- blema da lentidaio cor que os processes tramitam na justiga. Mas a justice tem um mecanismo cirdrgico, que 6 a corregedoria. A corre- gecloria pode, a partir de uma correiiao, ela pr6pria promover a suspensao do registry. O desembargador Nelson Amorim, recentemente falecido, foi Cor- regedor Geral cdeJustiga em 1977. Na 6poca, ele baixou uma norma draconiana, violent, sobre os cart6rios, exigindo que cada anotatao fosse prececida de uma consult a corregedoria, e s6 efetivada cor a aprovac;ao dela. Esse provimento, ao que sei, continue em vigor, nao foi anulado. Esti teoricamente em vigor, mas na pritica nao existe. Se os senhores fossem se dar o trabalho de fazer um levantamen- to nos cart6rios para ver se as normas legais de registros piblicos estto sendo seguidas, constatariam as irregularidades. Gostaria de saber quais as deficienci- as detectadas pelo sr. no Iterpa e que modiflcac6es o sr. faria para implan- tar aquele 6rgio. A pr6pria president do Iterpa esteve aqui e disse clara- mente que o 6rgao esti engessada. Gostariamos de ter um relato sobre isso. Desde que o Iterpa foi criado, em 1975, eu o acompanho. Hou- ve uma 6poca em que, de seis colunas que escrevia semanalmente para o journal "0 Liberal", quatro eram sobre problems de terra. Acabei quase me especializando nessa question, nao teoricamente, as vendo o problema na prritica. Quando o doutor Almir Gabriel assumiu o governor, fui procurado por amigos que iriam participar dessa administraiaio e pediram-me sugest6es para um piano de agao fundiairia, porque o governador Almir Gabriel vinha para fa- zer uma revolugao no campo. Dei gratuitamente o meu tempo pi a a realizacgto dessa proposta de uma agio fundifiria no Esta- do. AliMis, foi aprovada e incorporada, mas nio aplicada. Diria que o Iterpa tem que desaparecer na forma como foi organizado, pi -a favorecer alguns poucos escrit6rios de advoca- cia no Parl, que tinht a chave dos c6digos. A lei que criou o Iterpa 6 parecida corn a Emenda Constitucional n 1, de 1969. Acho que todos os estudantes de direito cleveriam ler essa emen- da. Ela 6 o primeiro catalogo telef6nico da hist6ria constitucio- nal do munclo, justamente porque tem uma infinidade de nime- ros, revogando-se um tal dispositivo legal para vigorar outro, numa s6rie de remiss6es labirinticas, tudo para esconder, corn uma moldura constitutional, uma ordem anti-constitucional. 4 DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA Assinm tamb6m a lei do Iterpa. Acho que o Iterpa nm pode ser apenas um escrit6rio de comercializac o de teras, nem pode ser um 6rgi-o expedidor de titulos fundifrios pan gerar votos. Lembro-me que em 1976, na primeira titulagrio do Iterpa no sul do Parai, foranm expeldidos 530 titulos de terra, que acabaram nas minos de oito detentores finals. Os lavradores desciam do palanque e ja passavam em frente os titulos de terra que acabavam de receber. Corn a justificativ, de beneficiary pequenos produtores rurais, essa political 6 no- civa. Acaba funcionando como bumerangue, fazendo os titu- los ficar maos de uns poucos. Primeiro, o Iterpa tem que sair da 6rbita exclusive do pocler executive. Deveria ter um conselho curador s6rio, designado nao s6 por sua excelencii, o governador, no exercicio de um powder imperial. Esse conselho curator teria que representar sociedacle. Seus integrantes teriam que ter seus nomes subme- tidos a Assembleia Legislativa para aprova io, ja que iria esta- belecer as diretrizes do 6rgio. O Iterpa s6 pode funcionar satisfatoriamente se tiver um piano, quadrienal, ji que o mandate parlamentar 6 de quatro anos. Na minha id6i; esse conselho curator teria um manda- to bienal, com direito a uma recondugao, para que niao se tornasse cimplice do 6rgao executor, para que tivesse a fun- gio de supervisor critical que precisa ter. O Iterpa teria que submeter ao powder legislative esse piano quadrienal. Um pia- no s6rio permitiria ao Iterpa estabelecer quantos titulos expe- diria, mas sem titular apenas para que o governaclor tenha votos. Titularia conform um piano de uso da terra. O grande problema e que a titulacao esti totalmente divorciada de um piano de uso. Ha algum tempo ainda se tinha at6 a veleicdade de orientar a titulacao, porque o governor expedia titulos pro- vis6rios, sujeitos ao cumprimento de determinadas normas, mas hoje isso naio mais existe. O Iterpa teria que star tecnicamente habilitado, o que nio esta. As vezes, algumas pessoas do Iterpa tem boa vontade, sio pessoas bem intencionadas, as vezes at6 competentes, mas na~o t.m os meios, os recursos. Estao mesmo engessadas. Naio estariam, por exemplo, se parte (da receita obticla nos registros imobiliarios rurais fosse vinculadas ao piano de uso da terra, que o institute cleveria submeter ai Assembl6ia Legis- lativa e ela o aprovaria. Mas nato como acontece corn os fun- dos, que o Estado administra. O Diario Oficial de ontem publicou convenio da Secretaria de Planejamento, no qual recursos do Fundo de Desenvolvi- mento do Estado s0o usados para fazer meio-fio ou para o caixa do clube de mries. Slio aces meramente eleitoreiras. A vinculaiio deveria ser ao Iterpa, mas o institute nm-o teria livre arbitrio. Ele executaria aquilo que foi aprovado. Esse piano quadrienal, chancelado pelo conselho curaclor, aprovado pela Assembleia Legislativa, teria que voltar anualmen- te para analise da sua execuLIao. Por que especialmente o Iterpa? Porque o Estado do Pari 6 o segundo mais extenso do Brasil. Logo, nao pode tratar levianamente esse patrimnnio, como estc fazendo. E nao 6 s6 o problema da terra, mas 6 o solo e subsolo. Somos o segundo maior produtor mineral do pais. Em mais cin- co anos, vamos passar Minas Gerais, vamos destroni a velhi posi ao que Minas Gerais sempre ocupou no Brasil. Espero que a CPI seja um instrument naio s6 para a dencn- "a, que 6 important, mas tamb6m para as providencias. Sugi- ro que a CPI proponha ao powder executive urnm nova lei de terras, um; alei que tenha a parte cloutrinari deontologica, e a parte executive, corn o piano de acio. Evidentemente que o responsavel 6 o chefe do poder executive, mas o powder legisla- tivo 6 co-responsaivel. Se conseguirmos estabelecer desta m: neira, talvez se possa dar um ordenamento local e interno, mesmo que sujeito a esses fatores externos de migraciio, que tem uma marca muito forte no Estaclo do Par' (Segue-se uma longa pergunta sobre qual a maneira de ocupar ordenada- mente e com racionalidade as novas dreas do Para. Indaga-se tambem so- bre as aq6es ajuizadas pelo empresai- rio Cecilio do Rego Almeida contra o jornalista por causa de suas materias sobre grilagem de terras no Xingu, publicadas noJornalPessoal.) Quero dizer o seguinte: s6 se vai resolver o problema quando o Estaclo considerar que 6 prioridale a ocupag'ao e o uso cla terra. O governor do Estado, hoje, estai gastando mais no seu gabinete, no gabinete do governador, do que na Secretaria de Agricultura. Basta ver o JornalPessoal que saiu hoje [a epoca]. Fago uma mat6ria mostrando isso, que gasta-se quase um milhao de reais por mrs no gabinete do govemador e gasta-se um tergo menos na Secretaria de Agriculture Entao, como levar a s6rio a prioridade na agriculture com esse pariametro? Por causa do epis6clio de Eldorado de Carajis, que praticamen- te o imobilizou, na parte agricola o governor se resume a essa aventura do p6lo de grifo, ca expansao ca soja. Tenho arrepio quanlo vejo a expansion cla soja em leterminadas aireas do Pard. E enquanto essa situal;io persistir S6 para complementary: dizem jA ou- vimos nesta CPI que atualmente os maiores grileiros estAo vindo exatamen- te do Mato Grosso do Sul, por conta dessa concepcao de desenvolvimento 4 do governor do Estado. Veja-se o caso da soji Hoje, a expansato da airea de produg.o de .soja 6 feita sem antes um estudo de viabilidade do aproveitamento industrial, descle o esmagamento do grfo at6 o farelo, a inclcstria do alimento. Sem isso, 6 querer criar uma situa.'ao terrivelmente dano- -sa, tanto na ceprelaiio do rcecurso do solo, quanto na expulsao das areas onde hi ocupagalo humana, listoraio na estrutura fundikiria. Ent.io, sem uma muclanga clrastica da political official de terras, nao vamos conseguir nacla na pritica; e essa mudanga exige at6 mentalicdale. Todos n6s lembramos que, em 1987, a Assembleia Nacional Constituinte travou uma discussalo violent sobre a desa- propriagio de areas produtivas para reforma agriria. Por conta des- sa cliscussio, em 1987, na Amaz6nia, se destruiu floresta como nun- 'a na hist6ria da humanilade. Descle que o home envergou o pri- meiro arco, j. ais se destruiu tanta floresta. Para que? Nesse ano de 1987, em que se destruiu 200 mil kmn de todos os tipos de vegetago e 80 mil knm de floresta virgem, a produc'o de madeira foi de 300 milh6es de d6lares. A producgto agricola nao teve qualquer alteragao. Na verdade, se queimou floresta para criar "benfeitoria", o que, na Amaz6nia, pot absurd que parega, s6 6 possivel destruindo a flores- ta, porque o conceito de avaliagio de benfeitoria chama-se VTN, Va- lor da Terra Nua. Terra corn floresta n.o 6 nua, entao nao tern valor. Por c; -a desse tipo de mentalidade, n6s nao nos escandaliza- mos cor um cdaco de uma lei, que 6 uma lei especial, em vigor, e foi baixada pelos militares em novembro de 1964, que 6 o Estatuto cla Terra. Ele ainda 6 o que nio se choca corn a Constituigao de 1988 o C6digo Agrlrio do Brasil. Esta lei, que 6 uma lei especial, ou seja, tern uma forqa maior do que uma lei ordinaria, diz que nenhum Sin6vel pode exceder 600 vezes o m6lulo rural definido. Todo in6vel que exceder 600 vezes o m6dulo rural 6 illegal, porque o conceito nao 6 mais do C6digo Civil, em que a legitimidade da propriedade e quase divina, o conceito 6 cda propriedade sujeito a hipoteca social. S Qual o maior m6dulo rural? De 72 mil hectares, ou seja, 600 vezes o m6dulo de 120 hectares, o maior m6dulo rural, que 6 para reflorestamento. Nenhuma propriedade no Brasil podia ter mais do que 72 mil hectares. Acima desse tamanho passa a ser illegal. Esse cidadao quer ter 4,7 milh6es ou 7 milh6es de hectares; o Carlos Medeiros, 10 milhoes. Onde estA o powder p6blico, como executor (o executive), elaborador (o legislative) ou fiscal da lei (o Minist6rio Piblico)? E falo pooler piublico como um todo. Niao 6 s6 o executive, que tem essa hipertrofia de poder nas mos. E tam- b6m o judicifrio, que pode ser mais lesivo (porque aparece menos sob o holofote da television) do que o executive, por ser a instan- cia final de apelaciio do cidadLo. Muitas dessas grilagenss6 se tornaram possiveis por conivincia ou omissio criminosa do powder juciciirio. Isso tern que ser dito e cobrado. As terras sato, em ultima instancia, ou foram, do powder piblico. Ninguem chegou ao Brasil dono ia terra, exceto os inlios, que foram usurpados em seu direito original. A primeira concessao foram as capitanias heredittrias, depois as sesmarias. Entao, pode-se fazer a arrecadac;io sumfiria em vairios pontos da Amaz6nia. Ou, once nao for possivel, nem convenient, fazer uma discriminat6ria judicial. Acho que falta 6 vontade de fazer. Hi muita ret6rica, h i muito bli-bla-bl,, hi. muito desconhecimento. Os problems saio com- plexos, ndo basta voc6 ter um conhecimento te6rico. Mas falta sobretudo a vontade e a coragem de muclar. Em uma epoca recent, as terras paraenses se desvalorizaram. Ninguem se interessava por elas. Nao havia motivag~o para uma CPI como a atual. Por que o tema se reaqueceu? Porque voltam as tentativas de se apropriar de terras do Para, em escalada, em grandes quantidades. Um dos detonadores foram as madeireiras asifticas O que elas fizeram? Compraram fireas novas? Se submeteram aos EIAS-RI- MAS (estudos e relat6rios de impact ambiental, exigidos pela le- gislagol antes cla implantagiao da atividale produtiva)? Nao, com- praram empresas falidas, corn terras de duviclosa dominialidade para nao se ajustar as normas ecol6gicas de hoje, enquadrando-se nas situacges preexistentes. Isso nio 6 boa f6. O que essas empresas querem? Tirar a madeira e ir embora, o que 6 a mentaliclade de boa parte dos colonizadores que v&m at6 aqui. Eles nao se estabelecem aqui, eles estato em transit, e isso 6 muito important. Pode-se ver que as principals empresas estran- geiras de madeira, sobretudo cia Malsia, compraram razoes soci- ais e nao compraram fireas nobres. Compraram raz6es sociais de empresas falidas, para nrio ter que se submeter legisla o ecol6- gica, surgicla a partir de 1981. As mineradoras sao outro problema. As mineradoras t&m clireito ao subsolo quando a detentora do dominio, que 6 a Uniao, Ihes concede permissao, e isso basta para explorer o subsolo. Mas elas tambem querem ter a superficie do solo, mesmo que, do estrito ponto de vista minerador, naio precise. Para que elas querem? Para nao cumprir a nomna do artigo 28 do C6digo de Minerag~o, que 6 o acerto corn o superficiario da terra; elas querem o dominio absolute. E tamb6m porque, na apropriaqio do capital, valorizanco as terras, compradas por prego baixo, cre- denciam-se a receber um volume de dinheiro bem maior do que aquilo que teriam se nao houvesse toda a manipulagao contabil. Acho que a CPI ocorre num fluxo de novos interesse, talvez com uma outra aparencia, mas corn m6todos bem antigos de apropriacgo do patrim6nio natural do Para, destacando a terra. Algumas vezes as medilas precisam ser drasticas para combater essa pirataria. Compro- vada a mnt f6 do official de registros imobiliario, 6 possivel uma media imediata: tomar p6blico o cart6rio. A lei exige que os cart6rios sejam pdblicos na media em que o titular for morrendo, porrem o powder piblico pode intervir diretamente e lanqar um edital de concorrencia para tornar o cart6rio p6blico, acabando cor a figure do cart6rio extrajudicial. O sujeito que nao ter vinculagio funcional, tern f6 pi- blica. Isso naio poce haver. Tern que ser cobrado clele a responsabili- dade civil como servidor piblico, como serventuario. A primeira meta da CPI poderia ser de nao se aceitar mais cart6rio extrajudicial de registros de im6veis. Estabelecer-se-a um prazo: tres, quatro anos para os ajustes das situag6es. I uma media drastica? Nio. Em Sao Paulo isso nao existe mais, no Estado moclerno brasi- leiro isso nao existe mais. Por que n6s nao podemos ser modernos tamb6m? Vamos ter de ficar sempre atrasados? Sempre considerado como primos pobres, primitivos? DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 5 AGENDA COTIDIANA Jarbas Passarinho em 31 de marqo Esta e uma segao nova. Pretende registrar depoimento de personalidades da vida paraense e national sobre moments importantes da histdria recent da regido e do pais, durante os quais desempenharam pap6is relevantes. Nao se quer, aqui, andlises e interpretagdes, mas o testemunho sobre os aspects mais pessoais dessa participagio, o cotidiano as vezes trivial e roteiro - dessas figures humans, de came e osso, em conjunturas que assinalaram mudangas ou impacts no process histdrico. 0 ex-governador ex-senador e ex-ministro Jarbas Passarinho inaugura a segao. De Brasilia, ele mandou um rico depoimento sobre suas 24 horas em 31 de margo de 1964, quando um golpe military dep6s o president Joao Goulart. Observa Passarinho: "Nada obstante terem-se passado 35 anos, nao se trata de um dia comum, do qual se possa haver esquecido, mas de um data histdrica, n5o um simples coup d'Etat, mas de uma sublevagio apoiada macigamente pelo povo. Eu era um tenente-coronel chefiando a 3" Segco do Estado Maior do Comando Militar da Amaz6nia, responsive pelos pianos de operago ". Ao levantar, tomava caf6 corn leite e pao com manteiga (sempre foi frugal meu desjejum). Fardado, esperava as 6 e meia, na porta de casa (na avenida Nazar6, entire Benjamin Constant e Rui Barbosa, onde funcionou a Funai e hoje e a delegacia geral depolicia), o 6nibus que levava os oficiais para o Quartel General. Seguia pela Nazard-Praga da Repbbli- ca-IEP-Largo da Trindade-Padre Eutiquio-Prapa da Bandeira. Quase sempre cumprimentava, a essa hora em que eu espera- va o onibus, o dr. Aloysio Chaves, que ia a p6 para a Faculda- de de Direito [a essa 6poca, no Largo da Trindade, a uns 400 metros de distdncial. 0 expediente comegava as 7 horas, se- guindo-se, duas vezes por semana, educagao fisica na qua- dra de esporte do pr6prio QG [na Praga da Bandeira, ao lado do Tribunal Regional Eleitoral e do Col6gio Paes de Carvalho, onde Passarinho estudou]. No QG, minha funqgo era chefe da 3a. Secqo (operag6es), 6 DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA encarregada do program de adestramento da tropa, dos pia- nos de operac6es segundo hip6teses de guerra ou de subver- sao, program de inspegro das unidades subordinadas, ins- trugio de oficiais, despacho didrio com o chefe do Estado Maior, e, eventualmente com o general comandante. Como auxiliares eu tinha tres sargentos e normalmente um official estagidrio, classificado no CMA [Comando Militar da Amaz6- nia], ap6s o t6rmino do curso da Escola de Estado Maior. No dia 31 a rotina foi prejudicada em parte. Na v6spera, fui chamado ao telefone, noite alta, por um coronel amigo, liga- do ao governador Carlos Lacerda [do entao Estado da Guana- bara, ex-Distrito Federal]. Dizia ele, do Rio de Janeiro, que a situacao se agravara cor o "comicio" de Jango no Autom6vel Clube naquela noite, e que dentro em poucos dias haveria a sublevaoio contra Jango. Acrescentava que at6 o general Eu- rico Dutra [ex-presidente da Repziblica e ex-ministro da Guerra] havia aderido. Natural que a tensio que eu vinha vivendo aumentasse. Ainda assim, nao fiquei insone, pois nada me cabia fazer senio aguardar. A esse aviso somara-se um tele- grama do Rio, via Western, do major Carmo Ramos no mesmo sentido. O dia 31 de margo no QG do CMA comegara, como sem- pre, as 7 horas da manha. Ap6s os cumprimentos ao general Orlando Ramagem, nosso comandante, iniciaram-se os traba- Ihos dos despachos de cada chefe de secao cor o coronel Souza Carvalho, chefe do Estado Maior. O clima era tenso. Na v6spera, o general Ramagem fizera aniversario natalicio. O chefe do Estado Maior, traduzindo o pensamento dos ofici- ais, leu uma saudacgo na qual se dizia da nossa confianga de que o major que levara seus comandados a vit6ria contra o nazifascismo se- ria o general que se oporia a um totalitarismo de es- querda no Brasil. A respos- ta do general assegurava e isso e nos recomendava S . confiar na sua estrela. Em- Sbora estivesse no commando hi pouco mais de um mrs, ji estava ciente da insatis- fac io de seus oficiais com o que vinha ocorrendo no Rio de Janeiro, especialmente com relagi~o ao motim dos ma- rinheiros e fuzileiros navais . Na manha do dia 31, a preocupaSgo se agravara, com o no- ticia sobre a presenga do Presidente da Repdblica no Autom6- vel Clube, no Rio, para uma cerim6nia corn os sargentos. Do Rio de Janeiro, o major Ramos, que fora, cor o conhecimento do general Ramagem, mas sem autorizac.o express, fazer con- tato com os nossos camaradas do l.Ex6rcito, enviou o l6timo telegrama via Western, da s6rie codificada que expedira desde o dia 28 Cerca de meio dia, recebemos o telegrama cuja tra- duco informava haver o general [Olympio] Mourao [Filho] co- mandante da 4'. Regiao Militar (Minas Gerais), se precipitado e desencadeado a revolugoo. E possivel que o general Ramagem tenha recebido informagao pelos canais normais hierarquicos. Determinou que entrissemos em regime de prontidio, sem ne- nhuma ordem especial a respeito. A noticia da iniciativa do general MourAo provocou eu- foria no Quartel General, em Belem, mas nao em Manaus, onde o general comandante era um dos generalss do povo", promovidos pelo president Jango, sob criterio politico, de identidade com o governor. Des- conhe0o o teor da comunica- .o, via rede r'.dio do Ex&ci- to, trocada entire o general Ra- magem e seu subordinado, o general Nairo, em Manaus. Ja me coubera, como tarefa normal de planejamento, pre- parar pianos de operag6es, levando em consideragio varias hip6teses possiveis. Em todos esses pianos, aprovados ainda pelo coronel Jos6 Lopes de Oliveira, quando chefe interino do Estado Maior do CMA, figurava a neutralizagio imediata dos agitadores lideres sindicais, especialmente os do Sindica- to de Petroleiros. Sabiamos de piano deles de dominar o cen- tro de estoque de combustiveis em Miramar, important para n6s em caso de luta armada. A 2". Secao houvera identificado a todos eles, seus hlbitos, seus locais de reuniao, de sorte que pudessem ser rapidamente aprisionados. Independente- mente de ordem do nosso comandante, reunimo-nos na 2". 4 Seg(o e revimos os pianos. Haviamos guardado separados os calcos' e as ordens de operalAo, em cofre, por seguranga. assamos a tarde tentando sin- tonizar esta 6es de radio, mas as comunicaoges eram precarias. Ou- viamos, ainda assim muito mal, a Ra- dio Nacional, que, evidentemente, transmitia noticias a favor do governor. De onde em onde, captavamos sinal da Radio Mayrink Veiga, tambmn transmitindo noticias de que a governor federal man- tinha o control de todo o pais. Anunciava, uma das duas estag6es citadas, pris6es de "conspiradores" no Rio, entire eles o chefe do Estado Maior do Exercito, general Castello Branco [que viria a ser o primeiropresidente sob o regime militad, mas um novo telegrama Western decodificado nos informava que ] Carta Em meu nome pessoal e no dos demais components do Conselho Director da Associaiao Commercial do Pard, cumprimento vossa senhoria pelo belo e excelente trabalho que tem sido desenvolvido no journal Agenda Amaz8nica. JOSE DE LUCA FILHO President da Associagdo Comercial do Pard. o general deixara seu posto no edificio do Ministerio da Guer- ra, mas estava em seguranga. Assim passamos na incerteza do que acontecia no pais, at6 que s 20 horas o general Rama- gem fez saber que estava convidando, como general mais antigo entire seus pares da Aeronautica e Marinha, para uma reuniao no QG do CMA as 21 horas. Nessa hora, recebi a missaio dada pelo general Ramagem de expor, como chefe da Secao de Operag6es do Estado Maior, no sallo nobre do commando, o que chamamos mili- tarmente de "estudo de situagao". Estavam presents o bri- gadeiro Armando Serra de Menezes, comandante da 1I. Zona Area, e o capitao de mar e guerra B6ris Markenson, Capi- tao dos Portos, na ausencia de Belem do almirante coman- dante do Distrito Naval, o Comandante da Policia Militar, capitao do Exercito comissionado coronel da PM, Ira Lou- reiro, e muitos oficiais superiores das tris Forgas Armadas sediadas em Belem. Dispondo de um cavalete, sobre o qual fixara uma carta de Bel6m, referi-me ao fato conhecido, a sublevagao das tropas de Minas Gerais, e revelei o nosso piano de opera- g6es para a eventualidade. Fiz enfase a ameaga dos sindica- listas esquerdistas de se anteciparem a n6s na tentative de dominar Bel6m e conclui, como 6 norma, por proper aos comandantes a ocupacgo military imediata de Belem. O bri- gadeiro Serra de Menezes discordou dizendo que era cedo para uma providencia daquela natureza. Tentei, respeitosa- mente, argumentar, mas o general Ramagem, que estava ao lado do brigadeiro, fez-me sinal, com a mao, para silenciar. Em seguida, agradeceu aos presents e deu a reuniao por encerrada. Antes de se retirarem do QG, o comandante B6ris e o capi- tao Loureiro, insatisfeitos corn a intervenglo do brigadeiro Menezes, propuseram-me uma ag~o sem a participacio da Aeroniutica, o que nao tinha sentido, pois confidvamos no general Ramagem, que preferira nao entrar em colisAo cor o seu colega aviador. Permanecemos, n6s, do Exercito, em prontidao rigorosa, passando a noite nas instalac6es militares e tentando, sem resultado, ouvir transmissoes radiof6nicas que nao a Radio Nacional de Brasilia. E assim chegamos a madrugada de 1" de abril de 1964. Calco epalavra castrense. opapel transparent, ou outro material igualmente transparent, que se usa sobre a carta, ou mapa, para nao estragd-la. Todos os dadosficam disponiveis para a ordem de opera fes. Ndo estd dicionarizada no Aurelio, que contempla, porem, os verbetes decalcar e decalque. Correio Por falha de edigAo, a Agenda anterior saiu como se fosse a n" 2. Era a n 3, evidentemente. A leitura das pAginas 10 e 11 foi prejudicada pela confusa distribuigco das mat&rias. Espero que tenha sido possivel distinguir as perguntas/ respostas das notas da secao de hist6ria. Perd~o, leitores. DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZ6NICA 7 . .... ....... _. -Clll"l ~ C~ BIBLIOGRAFIA AMAZONICA Cem anos depois, a mesma Amazonia artificializada "(..) a camada social superior da casta que manobra o regime politico, que em geral tem pendores superficiais e esta interessada numa vida boa e c6moda" m6dico sui o Hans Bluntschli escreveu estas pa- lavras em 1914, quando esteve na Amaz6nia. Seu livro (A Amaz6nia como organism harmnzico), publicado em Frankfurt, na Alemanha, 14 anos depois, s6 em 1964 foi parcialmente traduzido para o portuguls e publicado em Manaus pelo Inpa (Instituto Nacio- nal de Pesquisas da Amaz6nia). Mas continue a ser uma precio- sidacle, pouco liclo, raramente citado. Nao merecia esse destino. Percorrendo a Amaz6nia na vin gem do apogeu p; a decaclncia da explorao da borracha, fez observag6es de agucla compreensio ecol6gica e penetrante analise dos costumes locais. Mesmo 85 anos depois que por aqui passou, as enormes disparilales humans ciante de um meio natural a~ epoca tao homogeneo s6 fizeram se acentuar, dando um tom prof6tico ao seu livro. No aspect ecol6gico, a tese central do trabalho 6 de que ha uma ligagio muito intima entri a natureza pura (vento, planicie, figua e floresta) e o mundo dos organismos, desde o menor inseto ate o modo de viver dos homes. H' a de- pendcncia em cadeia entire todos os elements da natureza, que se influenciam reciprocamente, cor isso formando um conjunto organico perfeitamente harm6nico. O pr6prio home compoe-se dentro desse quadro se res- peita a natureza: "Resulta, pois, um perigo de tamanho impre- visivel o querer se exportar uma forma de vicda a outras regi- 6es do globo e a outros povos, sem tomar em consiceragao as ccnclic6es do ambiente e as inerentes ao mesmo, ambas daclas pela natureza e pela historia daquelas regi6es", adverte o limnologista alemao Harald Sioli na apresentago do livro. Bluntschli reforcg advertencia, observando que tuclo na Amaz6nia se acha vivamente ligado. HC "um certo equilibrio das f rcas, que a terra, as ~iguas e o ar, de um lado, e a vida das p.antas e dos animals, doutro lado, se condicionam intima- mente e dependem mutuamente um do outro no mais alto grau" Mesmo nas form: ais aparentemente distantes desse todo organico ha sua determinaaflo: "Estudando mais minuciosa- 8 DEZEMBRO/1999 -AGENDA AMAZONICA mente a fauna de mamfferos diz ele reconhece-se rapida- mente a influincia decisive das condic6es naturais por sobre a sua composigio. Verdadeiros animals terrestres sao not; velmente raros e consisted ou de formas puras cia terra firee, como os tatus da vida noturnI ou sao mais ou menos adap- talos ~i vida dos pmintanos (anta, 'aititu, -ados pequenos). A grande maioria dos mamiferos, porem, 6 a dos habitantes das 'arvores, as vezes corredores (mucura, tamanduai), ais vezes trepadores e puladores (macacos) ou balangadores (macacos grades) ou pendentes como as preguici E esta adaptacJao a * vida arb6rea 6 acompanhada por outras transformac6es, de- pendentes, por sua vez e na maioria dos casos, da alimenta- gao" diz Bluntschli. Ao lado desta Amaz6nia, onde a natureza vive em harmo- nia cor seu habitante, o indio, hi uma outra, que 6 a da civilizagaio importada, artificial e predadora. A penetracio pela regifo em busca de riquezas esta dcestruindo a primeira e im- pondo a segunda e esse devassamento se imp6e sobre o meio ambiente e os indios: se ele sio conhecidos como pessoas de fi indole ou ate mesmo como canibais, diz Bluntschli que muitas vezes dificil constatar quem seja mais cruel, o inclige- na que ganha arcluamente a sua vida na selva solit( se alimenta dos animals da igua e das matas e faz somente um. cultural muito reduzida, ou o chL ado home de culture que penetra em toda parte once as selvas possuem seringuei- ras e, por sua ca1a ao ouro negro das florestu nrio di valor a vida dos indios bravios" Mas ao menos at 6poca foi nas cidades e na administra- pio dos homes, "arte" vulgarmente conhecida como politi- ca, que os brancos mas especificamente a elite dirigente - foram mais artificiais. O clero secular e "camada superior da casta" estav ais interessados em melhorar o conforto pessoal do que instituir o bem coletivo: "0 clero local e o, comnrcio que ecluca o povo para necessidades desacostumu das, dificultam-lhes a tarefa talvez mais do que faz a indolen- cia dos indios em geral, talvez precoces mas, a juventude, sem dclvida dispostos a aprencer e inteligentes" Incapaz de encontrar solucges inteligentes para superar cer- tas barreiras naturais, enfrentanco a "epidemia ca borracha" (lesestimulou qualquer outra atividacle proclutiva e inflacio- nou incrivelmente todos os pregos) e submetendo o trabalha- lor a um regime ainda escravista, o branco nao conseguiu substituir o trabalho dos missionairios religiosos que expulsa- ra 200 anos antes, como constata Bluntschli: "Esti inciscuti- velmente comprovado que, naquele tempo, era ensinaca uma atividade agricola mais intense a muitas tribes de inlios, as quais, hoje, naio mais clio a conhecer muito dess& atividace. Em vez disso, apagaram-se principios sadios cor palavras demag6gicas, e quando hoje a camada superior se orgulha de sua 'liberdade' esta especie de libercacle nao prestou, na re- alidade, um bom servigo ao pais" Bluntschli admite boa parte da culpa por essa situaglio is sociedades inglesas importadoras de borracha, mas acusa as elites locals de terem criado uma Amaz6nia artificial, "cor os seus palicios modernos nas cidades grandes, as suas mercadorias vistosas mas sem valor e de mau gosto e as suas forms de governor importadas da Europa e que naio evolui- nas suas significagoes, correspondents as condig6es regionais mas baseiam-se em efeitos de pura vangl6ri es- tranha a sua pr6pria condicio. Esta Amaz6nia fulmina o mdlico suico "quer ser uma a filial da cultural da Europa mas parece mais ou menos uma caricature" Se numa 6poca de fausto essa observaato j( amarga, 85 anos depois, mesmo travado por um certo cesvio colonialista bem europeu, ela tem o significado daquela tragi- comcdia procuzida pelos povos que repetem enfadonhamen- te sua hist6ria por nao terem aprendido a escrev&-la. PERGUNTA/RESPOSTA Como fazer a historic na Amazonia de hoje Nesta segio, respond a perguntas feitas em palestras e que nao pude tender por falta de tempo. Embora o debate costume ser o moment melhor desse tipo de acontecimento, ao ser deixado para o final, fica inconcluso e insatisfatorio. Nesta edigao, as perguntas sao dos alunos do * Colgio Vera Cruz, que deram uma demonstragao de boa educagao, civilidade e interesse em nosso encontro, no m6s passado, que muito me impressionou. Um grande problema que interfere no desenvolvimento da Amaz6nia 6 a cor- Srupco e a corruppco na political. O que se poderia fazer para superar esse pro- blema? Seria possivel o desenvolvimen- to sem acabar com a corrupqao? A corrupc'io como um todo e naio apenas a que corr6i a political 6 um problema grave nao s6 para o desenvolvimen- to da Amaz6nia, as de qualquer regiio. Alguns economist ao hesitariam em clizer que nao hil desenvolvimento sem inflacto e sem corrupt; Exemplos comprobat6rios hr' tos e expressivos. Basta pensar na corrupgao que acompa- nhou "corrida p: *a o oeste" nos Estaclos Uniclos, a das ais importantes expanses de fronteiras de que se ter noti- particularmente a construgflo de ferrovias (cletalhe: ferro- vi; um instrument de muito melhor efeito do que as roco- vias construidas na fronteira amaz6nica, um seculo depois). No entanto, mesmo admitindo-se ess; *azaio economic ci- nica, ela s6 uma ponte para o future corn duas normas acompanhantes: a margem de corrupclo suportivel (o que pressupoe combat eficaz, muito mais do que tolerancia, para que essa margem seja residual e n~;o uma concli~io prelimi- nar, um dado previo, a regra do jogo) e uma legislagao inflexivel para punir os corruptos que sao flagrados. Essa ci- retriz 6 moral (uma sociedade dificilmente consegue se estru- turar sem uma diretriz moral), as ( tambem economic; sando resultados materi; Uma corrupgrao como regra e uma impunidade como seu combustivel custam clemasiadamente areas Nao permitem o desenvolvimento de um povo. Um negociador norte-americano da divida externa brasi- leirt renomado banqueiro de uma das mais importantes ins- tituicges financeir:; dos Estaclos Unidos, foi para a cacleia e pagou dezenas de milhoes de d6lares de multa por ter cometido fraude. No Brasil, pessoas responsiveis por con- tratos internacionais ruinosos ao nosso pais circular corn total desenvolturL geralmente ricos e admirados, socialites em colunas de journal. Quando os brasileiros examinarem corn vagar e atencao contratos como o de fornecimento de energia p -a a Albris (e o de financiamento da primeira etapa da fibrica de alu- minio pelos japoneses), de constituigio da Minern ;to Rio do Norte, de financiamento da hidrel6trica de Tucurui (corn a clausula de compra das turbines), de venda da jazida de bauxita do milionario americano Daniel Ludwig no Trombe- tas para a Alcoa, -io verificar que deveriam cobrar a res- ponsabilidade dos autores de tais documents. Foi ai que o figado da nagato foi entregue aos abutres. E o abutre posa de pavio. 0 contrato de fornecimento de energia de Tucurui para a Albras, a maior f ibrica de aluminio do continent (fruto de uma sociedace Brasil-Japao), instalada em Barcarena, repre- senta subsidio pelo pocler piblico equivalentes ao valor de a fibrica novc devolvila de graga ao beneficiario, no espago de 20 anos (1984-2004). O engenheiro Eliezer Bap- tista, que jzi foi ministry das Minas e Energia e president da Companhia Vale do Rio Doce, um dos homes mais influen- tes ca Repiblica, disse que esse subsidio (200 milh6es de d6lares ao ano) nio teria sido necessario se nao tivesse ha- vido corrupnio na construc'o da hidrel6trica de Tucurui. A construgIo clessa usina, i aior inteiramente national, foi iniciada em 1975, corn um orCamento de US$ 2,1 bilh6es. Ao ser inaugurada, em 1984, o custo havia saltado para US$ 5,4 bilh6es. Corn os jurors pagos at6 hoje aos bancos lidera- dos por um cons6rcio frances, o prego final da hidrel6tric. pode estar chegando a um valor estratosf6rico, entire um mi- nimo de US$ 7 bilh6es e um maximno de US$ 9 ou mesmo 10 bilh6es (ningumr, na opiniao publica, -abe ao certo). Corn um letalhe mais do que relevant: o Brasil ainca nao termi- nou de pagar o financiamento. E mais um detalhe: o dinhei- ro foi emprestado pl a compra de 12 gigante. 'as turbines. S6 que metacle cessas mrquinas foi fabricada na Frang; A outra metacle ficou par; a indclstria brasileirn Mas paganclo royalties aos fabricantes franceses. Nao s6 o queijo era fran- ces. A faca tambem. Essa corrupcrlo, denunciada por um dos personagens ais importantes da hist6ria contemporinea da Amaz6nii e um dos homes mais respeitados por quem "sabe das coisas" envolve cano ao Brasil de bilh6es de d6lares. Li a declaralo do cldoutor Eliezer num pedago de papel que me foi entregue por fonte confiavel. Era a sintese ca entre- vista que ele dera, sem que, aparentemente, o entrevista- dor avaliasse a explosivildade da afirmativa, ou sua imedi- ata relevrincia para a opini-lo piblica. A fonte disse que declara(fio era absolutamente verdadeira. Mas nao poderi; clizer mais naca. Divulguei o teor da transcrigio no meu Jornal Pessoal. A autora da entrevista, do Rio de Janeiro, identificou-se, in- dignada. Acusou-me de apropriacao de material que iria ser usado em sua tese "adamrica. Nao sei se a tese saiu. Mas repeti tres veze, a gravissima 'agio do coutor Eliezer. Aparentemente, ningu(m se interessou por ela, que talvez foi obtida para ser embutida em tese universitairia. Mumifi- cou-se, congelou0se, deixando de ser unm dado espantoso da realidade. E at6 hoje fico me perguntando se essa gio 6 esquecida, mesmo corn os bilh6es de d6lares que ar- rasta consigo, porque a Amaz6nia 6 no firn do mundo. Ou porque o valor do roubo, envolvendo bilh6es de cllares, torna seus autores inimputaveis, corn seus colarinhos imr culadamente brancos. DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 9 Sabemos que a Albris 6 um enclave. Mas fora isso, eu gostaria que voce comentasse sobre alguma nocividade da Albris para o Pari, de qualquer tipo, s6cio-econ6mico, etc. (Alberlo) Uma vez me fizeram uma pergunta mais direta: foi melhor para o Estado ter a Albrris ou teria sido melhor que a f'brica nao existisse? Uma resposta estritamente econ6mica, baseada a relacio custo/beneficio, em c~lculo sofisticado, talvez re- sultasse em resultado negative. Para a Albrais existir, foi precise construir Tucurui (uns US$ 8/9 bilh6es) e sua linha le trans- missaio (cte 350 quil6metros), o nucleo habitacional de Vila dos Cabanos, o porto de Ponta Grossa e toda a infra-estrutura cle apoio, sem falar na onerosa Codebar (a companhia federal ide cesenvolvimento urbano, o que talvez some algo pr6ximo de US$ 500 milhOe. Para a Albri's funcionar, foi precise oferecer-lhe a menor tarifa de energia do pais, um subsidio que, at6 2004, vai custar entire US$ 1,5 bilhaio e US$ 2 bilh6es. Tambem foi necessfirio emprestar dinheiro no Japlio para construir a flibrica. O saldlo deveclor desse emprestimo, depois de 10 anos de amortiza lo, ainda gira em torno de um bilhio de d6lares (outros US$ 700 milh6es para a vizinha Alunorte, que fabric alumina). A rela- aio de troca, pensando-se em terms estritamente paraenses, e deficit, exportamos lingote de aluminio (o primeiro estagio no process de transformaqlo industrial) e importamos artefa- tos de aluminio (algumas vezes mais carss. Qual o deficit final nessa contabilidade fina? Vfirios bilh6es dce dolares em investimento plblico, 'angria financeira e rela- c)io commercial desfavornivel ao long de quase 15 anos (e isso sem contar os US$ 2 bilh6es de livisas em 10 anos com a im- portagfio de alumina p: -a ser transformada em metal pela Al- bras porque a implantac:io da Alunorte foi retardada). Mas est: 'a escrito que teria de ser exatamente assim? Naio. Est, \scrito que o Pari se tornaria, a partir Cde 1973, corn ' crise mundial da energiL um dos melhores lugares do planet: para procluzir aluminio, o produto industrial que mais absorve energia (a Albris, sozinha, -sponde por 1,5% do consume de enrgia do Brasil inteiro). A combinagfo da terceira maior re. va lde bauxita existence na face da tern juntamente com uma das maiores reserves de energia de fonte hidraiulica, cava ao Parai condi'6es excepcionais para surgir como produtor de alu- minio de importincia international. Sem falar em capacidade de absorver poluigio e oferecer ma-o-de-obra barata. Logo que os Jirabes elevaram os pregos do barril do petr6- leo, os japoneses concluiram que uma das saidas para a faln- cia cesde entao anunciada das suas metalurgias ie aluminio era o Par" Tanto tinham razao que a Albrais lhes garante 15% do aluminio de que necessitam, mesmo estando a 20 mil quil6- metros do territ6rio japones. Mas n6s demos ao apiio muito mais do que o Japio esperava receber. Eles chegaram aqui lispostos a responder por um tergo do custo de Tucurui (por- que consumiriam um tergo da energia fire cla usina) e parte da infra-estrutur: O governor, por6m, foi assumindo todas essas cespesas, trans- formando-as em gastos publicos, a fundo perdido. Por que isso? A resposta ter a ver corn a pergunt; anterior: corrupflo, impa- triotismo, ma-f6, venalidade. Nossa associacLo corn os japone- ses poderia ter sido mais just para as duas parties, ao inv6s de ser leonina em favor deles. Nossos representantes aceitaram (ou chegaram mesmo a sugerir) que fosse assim. Essa conta ficarLi em aberto para sempre? Apesar de tudo, como naio se pole fazer voltar o file da hist 'a e reeditai-lo, acho que a exist&ncia ca Albris 6 positi- va nessas circunstancias, de algo que podiamos feito de ma- neira muito ciferente, as que se faria de qualquer maneira. Foi mais ou menos o que aconteceu corn a borrach: A Ama- 10 DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA z6nia perderia o monop6lio die produg; mais cedo ou mais tarde, corn ou sem contrabando e pirataria (que, nos estritos terms legais, nao existiu, ao contrario ca mitologia naciona- lista). Mas teria que perder tao rapidamente? Nto poderia ter arrecadado mais do que faturou? Poderia ter conseguido ren- tabilidade, produtividade e qualiclace superiores aos indices que obteve? Poderia ter aplicado melhor e reinvestido proclu- tivamente o que arrecadou? E possivel responder a maioria dessas questOe. E possivel responde-las positivamente. Naquela 6poc, corn a borrach: Como hoje, corn o aluminio. Algumas pessoas, criando lem6- nios para powder se apresentar como dleuses (ou pelo menos anjos), contra-atacam corn inflexiveis teorias conspirativas so- bre a malignidade dos estrangeiros, a voracidade dos imperia- listas, a onisci&ncia dos capitalistas, o ceterminismo da hist6ria (tito axiomitico que prescinde da pr6pria hist6ri: real e viva, coticlianamente criada). Mesmo corn tudo isso, que torna muito mais cificil a rela ao entire um pais pobre e um rico, um pi dependente e outro central, uma nagilo frn a e outra forte, nfio estLi escrito nas estrelas (menos ainda nos manuais) que tinha que ser exatamente assim. O que a Albras produz hoje e tres vezes e meia mais do que o Brasil inteiro produzia de alumi- nio quando a crise da energia (uma, verdadeira crise de civiliza iao) obrigou o setor a se reorganizar,, geranclo como dizem os acacldmicos uma nova civisfio international do trabalho. Os brasileiros (e, especificamente, os p; *aenses) nto estavam preparados e nem se prepararam a seguir p: abrig: a corrida de alguns dos antigos procluto- res de aluminio, que iriam transformar-se entflo em meros con- sumiclores do metal. O ceslocamento dos japoneses, o m: bem sucedido projeto cle transferencia industrial que conhe- co, iria abrir uma cunha no cartel, formado pelas seiss ir- mas", a frente a Alcoa, a multinational american: Se tivesse capacidacle de antevisfio e antecipagao (procuto de comida, raciocinio, liberdade, dinheiro, cincia e tecnolo- gi: elements costuracdos cor identidade national), o Brasil usaria o movimento japonis, envolvendo 1,2 milhfo de tone- ladas de metal bruto saindo da auto-suficiencia para ; pra no mercado international, como ariete para entrar no mercado mundial, arrombando o cartel. Mas acabou se enre- dando entire os sat6lites asiiticos que oJapao criou par: ceber de fora o aluminio que at6 entfio produzia internamen- te e por um preco altamente recompensador. Tal faganhl teria sido realizada sem que o Brasil deixasse de ser um p: capitalist, mas um capitalist corn capital significativo, nalo tasca de aluminio em que acabou se transformando. Uma outra cunh menor do que a japonesa, as expressi-, va, foi oferecida por Daniel Ludwig. Ele queria instalar unm fabrica die aluminio em sua propriedade, no Jari, utilizando sua mina die bauxita no Trombetas e produzindo energia hi- dreletrica na cachoeira de Santo Ant6nio. Seus s6cios eram compradores inclustriais de aluminio dos Estados Unidos. Eramm pequenas empresas (precisariam em conjunto de 300 mil to- neladas de metal), massacradas pelas "irmris" americanas do 'artel, que formam seu prego a sombra de Washington e naio s6 pela lei da oferta e da procure Como se trata de oligop6- lio, quem naio aceita os pregos vai ficar sem mercadoria. Es- ses pequenos transformadores esperavam fazer o que a gran- de multinacional noruegues; a Norsk Hydro, estl tentando fazer agora: libertar-se dos grandes fornecedore verticali- zando a procducao, indo da mina a metalurgia. Ludwig errou grosseiramente em material de celulose e roz (comn macio subsidio e apoio do governor mas seu pro- jeto do aluminio (rechagado) era interessante. Devia ser esti- mulado. 0 Gebam, apOndice do Conselho de Seguranga National criado parn acompanhar os passes do "tio Patinhas" deu um embargo de gaveta, impedindo que o projeto ',an- casse. Niio ia deixar que um dos simbolos do capitalism im- perialista tomasse conta da foz do Amazonas. Ludwig acabou desistindo. Foi quando o ministry Shigeaki Ueki (um dos "fi- Ihos adotivos" do president de entfio, o general Ernesto Gei- sel) patrocinou a transferencia das jazidas de bauxita do grin- go no Trombetas, que poderiam ter revertido gratuitamente ao patrim6nio da Uniao, para (advinhem!) a Alco , das seiss irmfs" que, assim, se tornou a unica completamen- te integrada no Brasil. A esquerda, a 6poca, teceu lo; military. acionalistas do Gebam e do CSN. Estupidez corn papel de present ideol6gico. Hoje, os preocupantes problems de poluiaio que o p6lo de aluminio poderia acarretar foram minimizados numa esca- la de primeiro mundo. Os primeiros fornos da Albr tecnologi; atri; ada, deix: :am escapar flior. Mas foram ajus- tados pelos fornos da segunda etap qcue ji eram fechados. O monitoramento do ar nflo tem registrado problems expre. sivos, exceto por uma pendcncia de chuva acida sobre pupu- nheir: Tamb(m os lenq6is frefiticos parecem protegidos da 'contaminacao no lago de lama vermelha da Alunorte, onde acumula o rejeito da lavagem da bauxita para i ansfor- apto em alumina. Se novos problems surgirem, cabe t sociedade detect.i- ilos e corrigi-los. Meios para isso h( Mas os prejuizos ambi- entais, superestimados na origem, tim sido incomparavelmente menores do que os econ6micos, mesmo com a conta positive cda renda, dos salirios, dos impostos, da tecnologia, da de, centralizacao industrial e de outros itens positives da Albr; Se su; -xist(nci: ainda 6 deficit; abe aos p -aense, verter a situt Um novo e important moment est: apresentando, ago- ra que cheg: ao fim o leonino contrato de energia. F umn desafio p; -a todos estabelecer uma relac~ ais just e eqiii- tativa. A boa resposta s6 seri possivel, entretanto, se desde j( ela pass; a ser buscada. Corn aplicaFio, competencia e seri- edade, sem antolhos ideol6gicos nem formulas prontas, rigor. Do contririo, o Pardi continue; a ser um Estado surpre- endido por uma hist6ria que o tem corno scenario, as nao cono autor. E mais uma vez serf atropelado por ela. Numa sociedade onde a popu- laVio, em sua maioria, 6 igno- Sf ? rante, onde a midia manipula, Scomo mudar a hist6ria? O que voce chama de identi- N -.J dade, quando ha o multicultu- S-/ ralismo em nossa regiAo? Os indicadores sociais da Amaz6nia sfo trigicos, a partir da renda "per capit' abaixo um tergo da media national e s6 superior, por regi6eC, a do Nordeste, que 6 a nossa Africa. O ensino amaz6nico e dos piores do pais. Sua verba de cien- cia e tecnologi; clescontado o Sivam (Sistema de Vigilincia da Amaz6nia, tema de um p6rximo nimero), fica corn 5% dos recursos nacionais para o sector. As informac6es sobre mais importantes quest6es circulam em circuit mais do que privilegiado, sem se difundir. Por tudo isso, o papel das elites numa regiao de fronteira 6 ainda mais decisive (ou negative) do que nas fireas traclicio- n; ji integradas completamente a sociedade national. Uma elite conscience e ativa tern um efeito multiplicador muito maior. Um exemplo nesse sentido, mesmo sem vincula'ao mais pro- funda comn a Amaz6ni: foi dado pelos bolcheviques na atra- 'ada Rcssia dos cz" usando a massa como instrument de a revolucito e se instalando no powder como donos do se- gredo da "ditadura do proletariado" rumor a uma sociedade de classes que nunca passou de utopia (ou propaganda). Ou- tro exemplo pode ser tornado no Canacdf e na Austrfilia, pro- 'ssos historicos certamente mm afins conosco, particular- mente n6s, os brasileiros da Amaz6ni; O que fazer? Transform: abega num radar de conheci- mento e informac6e. indo captar dados onde eles se encon- trem, nos seus melhores nichos, em nivel de igualdade corn eles (a cabega de Benedito Nunes nao se sintoniza pelo alto corn a dos melhores intdrpretes de Heidegger, sua Sylvia nato 6 ouvinte de 6pera tfio rigorosa quanto qualquer freqiien- tador assicduo do Scala?). Os pes cevem estar bern fincados no chfio, captando a informagtfo da terrl sentindo suas vi- branoes, descobrindoo que caracteriza a Amaz6ni: confe- rindo-lhe especificidadce sobre a superficie do planet, um element natural scido de historic humana, sem que umr dimensao mobilize ou anule a outr, A Amaz6nia e produto de figu: sol e flore. Esta ( identidade de todos os amaz6nidas, daqueles que nfio estaio apenas casualmente, inadvertidamente nesta regiao, tenh: ele. "aracteristicas pr6prias, suas diferencas. Sem esse imenso e complex organismo harm6nico (ver resenha do livro de Bluntschli nesta edicio), podemos ser umn 'ana, aado, a floresta secuncdlri: Mas n)io teremos mais nossa concdi~io 6nica de Amaz6ni: E isso que temos de defender. Que temos de conhecer bem p: -a powder utilizar adequadamente, 'a li de que forma for (energia eletrica, agriculture extrativismo, mineragfLo, anejo florestal, -ssin- cias, corante, pigmentos, etc.). Essa identidade estai diante dos nossos olhos. E evidence, 6bvia e ululante, comno diria Nelson Rodrigues. Mas se j( quistamos um lugar na hist6ria da humanidade, "sse lugar 6 o ie os maiores destruiclores de florestas de todos os tempos. Em um quarto de s culo, colocamos abaixo 500 mil quil6me- tros quadrados. Naio hfi nada equiparivel, em tais proporc6e,, na evoluc;ao do homo sapiens. E uma '; a quase do tamanho da Franca, onde vivem 60 milh6es de pesso; com um pa- drfto de vida imensamente superior, embora sem a quantica- de de recursos naturais originalmente existentes nesse peda- .co de terr amaz6nica profundamente alterado (e tamb6m destruido) pelo home. Pondo abaixo a floresta native e de. a maneira interrom- pendo o ciclo sol-Jigua-floresta, estamos causando um dano que nao pode ser traduzido apenas por quil6metros quadri dos, metros cibicos ou re: Estamos inviabilizando conhe- cimentos, bens, produtos e mercadorias que ainda nem po- clem ser plenamente identificados. Logo, nosso esforgo de participar da hist6rit az6nica tem duplo vertice: empenha- do em impedir as p:riticas destrutivas em curso e, ao mesmo tempo, criar priticas nov: verdadeiramente criativas, per- anentes, favor-veis. Esse estado de consciencia e de powder nro serfi possivel com igic; truques, fantasias, mas corn empenho sistematico em conhecer, interpreter e recriar nossa Amaz6nia, aplicando ness: tarefa todas as armas da nossa inteligencia, as que ja temos e as que incorporaremos com o tempo dedicado a regito. Inteir: mente convencidos, por6m, de que muitas das chaves para ter acesso ao conhecimento amaz6nico estao fora da regiao. Devem ser buscadas em ultramar, trazidas para c; aplicadas na cons- trugiho de um mundo novo verdadeiramente ;amanz6nico. DEZEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 11 REEDICAO A gloriosa Revista Amazonica onforme havia prometido em ediato anterior, Vicen- te Sales remeteu, de Brasilia, o indice geral da Revis- ta Amaz6nica, uma das mais importantes public: oecs da hist6ria do Par apesar de ter tido apenas nove edigoe,, ao long de pouco mais de um ano. Seu primeiro n Cimero circulou em Belem a 1' de margo de 1883. O editor era o p; aense Jos6 Verissimo, auxiliado por pequeno grupo de intelectuais, entire os quais o maranhense Clementino Jose Lisboa, azonense Joaquim Inacio Amazonas d'Almeicda e os tambem p; -aenses Jos6 Cardoso Coimbra e Jose Paes de Carvalho. A revista tinha o format de um livro, tamanho 17 por 24 centimetros, e 40 piginas dedicadas a cicnci:, arte, literatun , viagens, filosofit, economic, politic indcstria etc. Era, portanto, bastante abrangente e na verdade seu program prometit a diretriz que permanece atual ate hoje: "Abrir um campo em que venham lavrar quantos se intere. am pelo desenvolvimento moral da esplendida regiaio amaz6ni- 'a; tornf-la conhecida dentro e fora do pais, pelo estudo dos mtiltiplos aspects porque pode ser encarada, aos sabios, letr" dos, economists e financeiros empreendedores; \streitar nut. comunidade de desejos e, at6 certo ponto, de idci: as relacqe. entire as duas provincias que formam a Amaz6nit propagar o espirito novo que atualmente agita o mundo intellectual; oferecer aos estudiosos de ambas essas provincial um meio menos efe- mero do que o journal, de dar publicidade ao resultado da su; lucubraIao tal e o fim dlesta publica'aio" O ano de 1883, segundo Vicente Salle fora bastante propicio ao lancamento de novas publicacoe. Entre a meia dczia de jor- ais diirios, que entao circulavam corn regularidade em Belem, outras publicao6es surgiram nesse ano, como a Revista Famili- ar, peri6lico dedicado as family corn primeiro ni0mero circu- lando em 4 de fevereiro eo i ltimo (o 17) em 1'' de junho; A Vida Paraense, de critica, literature cienci arte,, contend desenhos caricatos de Joaio Affonso do Nascimento, litografados pelo artist alemco Joio Carlos Wiegandt, fonrato de journal de 8 pagin: trimestral, primeiro numero publicado em 8 de maio e o ultimo (o 33) em 10 de abril de 1884, e outros menore de mais curta duragalo, como 0 Abolicionista Paraense (3/06/1883), Correio das Verdades, Diirio da Tarde e O Sorriso. Espe- ro que esta nota estimule instituicges oficiais ou privadas a ree- ditar a colegio complete da revista de Jose Verfssimo. Indice Geral da Revista Amaz6nica Tomo I, ano I, margo de 1883 Nota dos Editores, pp 4-5 1 Comunicagdes antigas entire Mato- Grosso e Para, por Domingos Soares Ferreira Pena, pp-7-15. 2. A Viuva (Scenas provincianas), por J. Affonso, pp. 16-26. 3. Jurisprudencia e Foro, por Tito Franco de Almeida, pp. 27-31 4. Os IdolosAmazonicos (Um novo documento, por Jos6 Verissimo, corn 1 ilustragco. Tomo I, ano 1, nO 2, Abril de 1883 1 0 Elemento servile sua extincgco, Dr. Joaquim Ignacio Amazonas d'Almeida, pp. 41-47 2. A Linguagem PopularAmazonica, por Jose Verissimo, pp. 48-57 3. A Viuva (Scenas provincianas), por J. Affonso, pp. 58-69. 4. Exploragoes noAmazonas. 0 Rio Branco. Domingos Soares Ferreira Pena, pp. 70-75. 5. A dotagio da magistratura. Tito Franco de Almeida, pp. 76-79. Tomo I, ano I, no 3, maio de 1883 1. A Viuva (Scenas provincianas)(conclusco), Joao Affonso, pp. 81-85. 2. A Linguagem PopularAmazonica, por Jose Verissimo, pp. 86-93. 3. Sociedade Paraense Promotora da Instrucgdo. Tito Franco de Almeida, pp. 94-97 4. Contra os Jauaperys. Augusto Constancio Rockling, pp. 98-107 5. Educagao da Infancia. Domingos J. B. d'Almeida, pp. 108-111 Tomo I, ano I, no 4, junho de 1883 1 Scenas da Cabanagem no Tocantins. Domingos Soares Ferreira Pena, pp. 113-119. 2. Sobre algumas palavras francesas, inglesas e alemaes de origem brasileira. Emilio Allain, pp. 120-123. 3. Contra os Jauaperys. Augusto Constancio Rockling, pp. 124-128. 4. Jurisprudencia e foro. A publicidade. Tito Franco de Almeida, pp. 129-119 1 A Linguagem PopularAmazonica, por Jose Verissimo, pp. 135-142.. Tomo I, Ano I, no 5, julho de 1883 1 Scenas da vida amazonica- 0 Boto. JoseVerissimo, pp. 145-156. 2. Scenas da Cabanagem no Tocantins. Domingos Soares Ferreira Pena, p. 157-166. 3.0 movimento intellectual brazileiro nos ultimos dez annos. Jos6 Verissimo, pp.167-177 Tomo I, ano I, no 6, agosto de 1883 1.0 desenvolvimento economic da Amazonia. J. Gualdino, pp. 179-184 2. Scenas da vida amazonica 0 Boto. Jos6 Verissimo, pp. 185-195. 3. A Divida Publica do Brazil. Tito Franco deAlmeida, pp. 196-204. 4. Tradigdes, crengas e superstigdes amazonicas. Jos6 Verissimo, pp. 205-214. Tomo II, ano I, no 7 setembro de 1883. 1 Tradigces, crengas e superstigdes amazonicas. Jose Verissimo, pp.5-11 2. A Divida Publica do Brazil. Tito Franco de Almeida, pp.12-20. 3. Scenas da vida amazonica 0 Boto. Jose Verissimo, pp. 21-35. Tomo II, no 8-9, janeiro/fevereiro de 1884 1 0 Muirakitan ou aliby, J. Barbosa Rodrigues, pp. 37-53. 2. A Indiferenga Scientifica, por *** Pp. 54-58 3. As Populacges Mestigas da Amazonia, Jos6 Verissimo, pp. 69-75. 4. Jurisprudencia e foro. 0 Jury. Tito Franco de Almeida, pp. 69-75. 5. Sobre algumas palafras francesas, inglesas e allemaes de origem brazileira. Vicente Chermont de Miranda, pp. 76-78. 6. A borracha. Luiz Autran, pp. 79-85. 7 A Amazonia. Jose Gualdino, pp. 86-95. Tomo II, ns. 10 e-11, margo e abril de 1884 1 Limites do Brazil com a Goyana Franceza. Tito Franco de Almeida, pp. 101-168. Localizagco: Instituto Hist6rico e Geografico Brasileiro. Rio de Janeiro. Colegeo Manuel Barata Agenda Amaz6nica Trive, a; IBenjamnin Constant 845/20.5- Ik'llem/A -66.053-040 c-m;il: jo1mal@m.uizoon.cn.br Telfones.: 2237690/2417626 (fax) lProdluco g ilica: luizantIonim klc iadpinto |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 25 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |