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Ano I N0 2 Belem, outubro de 1999 R$ 3,00 L c i o F v i o Pi n t o Ha 20 anos os .... ",". grandes projetos " comegaram a funcionar. Eles mudaram a fisionomia da. Amazonia, Al -- incorporando-a ao mercado mundial. No balango dos pr6s e dos FE W',.I contras, seu saldo 6 mesmo favoravel? A data pode ser uma oportunidade para que os supostos beneficiarios fagam suas pr6prias contas. Sem isso, como os troianos da lenda, podem estar recebendo um verdadeiro presente de grego". GRANDES PROJETOS Cavalos de Troia na Amaz6nia inr, anos atr~s entravam em operagio os dois pri- mciros dos seis "grandes projetos" da Amaz6nia, I.l:.ilizados e implantados ao long da decada de "i de Porto Trombetas saia o primeiro navio carre- ,.I,'ido bauxita e em Munguba era feito o primeiro embarque de celulose. Naqueles dois portos, ambos na mar- gem esquerda do rio Amazonas e no Estado do Para, munici- pios de Oriximind e Almeirim, haviam sido instalados os pro- jetos Trombetas e Jari, o primeiro comandado pela Compa- nhia Vale do Rio Doce, o segundo pelo milionirio americano Daniel Ludwig. Por coincidencia, ambos se originaram no mesmo ano, 1967. Mas nao comegaram juntos. Um ano antes, em 1966, duas multi- nacionais dos Estados Unidos a poderosa United States Steel, nfmero um da siderurgia mundial, e a Union Carbide inicia- vam suas pesquisas geol6gicas do outro lado do Amazonas, mais de 500 quil6metros ao sul da sua margem direita. Tanto as gigantes do ago (US Steel, Bethlehem Steel e Union Carbide) quanto as "irmas" do cartel do aluminio (Alcan, Al- coa, Reynolds) decidiram se langar ao trabalho de campo na Amaz6nia por causa da descoberta feita num territ6rio que tam- b6m pertencera ao Pard ate ser transformado, em 1943, no Ter- rit6rio Federal do Amapi. A descoberta de uma pedra preta, recolhida num leito de rio pelo caboclo Mario Cruz, chegou aos ouvidos do jovem em- presario mineiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes, ge6lo- go por formacao. Ele repassou a noticia a empresa n 2 do ago nos EUA, a Bethlehem Steel. Logo estariam associados na In- dustria e Com6rcio de Minerios, a empresa que cubou as jazi- das de Serra do Navio. Em 1955, a Icomi comegou a mandar manganes para a Am6- rica, mantendo um fluxo annual em torno de um milhao de to- neladas durante tres decades. Garantiria, assim, uma estrat6gi- ca reserve de minerio para a siderurgia americana, dependent at6 entao das importag6es da Africa. Esgotou a jazida antes de vencer o prazo de concessao de 50 anos do governor federal. O Amapi ganhou pouco ou quase nada durante o tempo de vida iltil de sua rica jazida de manganas. Hoje Ihe restam os buracos das excavac6es e um acervo que reluta em assu- mir. E praticamente uma massa falida. N. A partir da descoberta do manganes, vital para \ a indistria pesada dos Estados Unidos, as hist6- rias sobre a abundancia de min6rios escondidos no subsolo amaz6nico deixaram a moldura das lendas para se tornarem alvos reais, sujeitos ao calculo econ6mico. Antes do manganis do Ama- pa, as corpora6ces que estavam mais avangadas no dominio de informag6es sobre a regiao havi- am dirigido suas antennas para o petr6leo. Afinal, estava na Amaz6nia a maior bacia sedimentar do planet, em cujas jovens entranhas o hidrocar- boneto se acumula. Quando, em 1953, jorrou 6leo em Nova Olinda, no Amazonas, o enredo parecia indicar para a descoberta de uma grande bacia petrolifera. Esse sonho de riqueza imediata, capaz de substituir a ainda ressonante era da borracha, logo se frustrou. Nao que inexistis- se petr6leo na regiato. Mas um litro de gasoline era mais barato do que um litro de aigua mineral. Nao compensava o capital exigido para alcangar as areas de potential, no meio da flores- ta (ou, em outros locais do mundo, em aguas profundas). Nem justificava a busca de uma nova tecnologia, o que so ocorreria duas decades depois, quando o prego do petr6leo disparou, as melhores perspectives se deslocaram do continent para o mar e uma nova ferramenta foi desenvolvida, o helic6ptero. Sem poder mirar economicamente o petr6leo nas areas mar- ginais da calha central do Amazonas, as empresas de linha de frente do mundo desviaram suas atengoes para locais que per- maneceram fora de alcance em trs seculos de colonizatao europ6ia na Amaz6nia: as "terras altas", no centro da floresta, distantes dos cursos navegiveis dos rios, que constituiam os limits da penetraclao colonizadora. De formacrao geol6gica mais antiga, eram mais favoraveis 's mineralizagoes. Os brasileiros ja sabiam que elas eram mais atraentes, como demonstra o Projeto Araguaia, iniciado na metade da decada de 50 como o maior levantamento geol6gico ate entao realiza- do, cobrindo -i;i I mil quil6metros quadrados no interfllvio Xin- gu/Araguaia, no sul do Para. Mas nao dispunham de recursos suficientes ou adequados de capital e tecnologia para vencer as dificuldades da regiao e suas caracteristicas especificas. O ri sultado e que as multinacionais americanas superaram o atraso de 10 anos na corrida a Carajas, encontrando dep6sitos de min6rio de ferro e manganes na frente de todos, apesar de os nacionais terem tido primeiro informag6es esparsas sobre essas jazidas, que naro souberam bem interpreter e operaciona- 2 CUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA lizar (as clareiras no alto das serras de Carajas foram conside- radas dep6sitos de calcario). Para esse feito, tanto a geoquimi- ca e a fotointerpretagio quanto o helic6ptero (para alcangar os in6spitos plates) foram elements fundamentals. Os estrangeiros, porem, sabiam exatamente do que necessi- tavam e como realizar seus interesses, mesmo tendo diante de si um conhecimento ainda precario sobre a Amaz6nia. E o que pode-se verificar, logo em seguida ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), pelas atividades da Comissao Mista Militar Brasil-Estados Unidos, que patrocinou um levantamento aero- fotogram6trico da bacia sedimentar. Depois, o Hudson Institute, de Nova York, props a cons- trugao de uma grande barrage no trecho onde o Amazonas 6 mais estreito, em Obidos, para former um grande lago inte- rior. Essa agua acumulada serviria a uma hidreletrica (de 100 mil megawatts, oito vezes Tucurui em sua etapa final), mas tamb6m daria acesso (por agua) as terras altas do "sertao" amazonico, onde estavam escondidos os minerios, os recur- sos naturais que mais imediatamente poderiam entrar no cir- cuito econ6mico international, na forma de "commodities" ou mat6rias primas. A bauxita era um deles, acumulado as mar- gens do rio Trombetas, a mil quilometros da foz do Amazonas. Em 1972, a multinational cana- dense Alcan (Aluminio do Canad'), uma das in- tegrantes do cartel das seiss irmas" que domina esse mercado, submeteu a Sudam (Superinten- S dncia do Desenvolvimento da Amaz6nia) o pri- meiro dos "grandes projetos" jp completamente definido, o da Mineracao Rio do Norte. Seis meses depois de aprova-lo, como o maior de todos os empreendimentos incentivados pelo governor federal ate entao, a MRN suspended a implantacao da mineracao de bauxita. Alegou que o mercado international sofrera uma brusca trans- formacnao, afetando a rentabilidade do empreendimento. Para salva-lo, a (aquela 6poca estatal, hoje privatizada) Companhia Vale do Rio Doce entrou na sociedade, assumindo o control do capital, que at6 aquele moment estivera inteiramente corn a Alcan. Outras multinacionais tamb6m foram atraidas. Formou-se uma sociedade inusitada: todos os s6cios eram produtores de aluminio. Logo, o que mais Ihes interessava era obter a mat6ria prima, a bauxita, em melhores condig6es de volume, qualidade e prego. Quanto menos ganhassem como mineradores de bauxita, mais ganhariam como trans- formadores de aluminio. Algo como uma sociedade de rapo- sas para administrar um galinheiro (o surpreendente 6 que a MRN faria o Projeto Trombetas se tornar o primeiro dos gran- des a se tornar lucrative). A transformaiao da Rio do Norte tambem assinalaria uma outra novidade: as multinacionais nao faziam mais questiao de exercer o control nominal do capital das empresas que forma- vam. Passavam-no sem resistencias ao capital national. Como nao havia poupangas privadas suficientes para a contrapartida, o Estado entrou na atividade produtiva, o que explica tantas empresas publicas em areas de ponta e em frentes pioneiras. Elas poupavam seus parceiros estrangeiros de entrar cor seu bem mais nobre: o capital de risco, dinheiro tirado do proprio bolso ( "a parte mais sensivel do corpo humano, como ensi- nava, cinicamente, o hoje deputado federal Delfim Neto, o bru- xo do "milagre econ6mico"). O Estado tamb6m nao era um mar de capital. Mas como se movia pelo impulse categ6rico geopolitico de grandeza, toma- va emprestimos internacionais a larga ou os avalizava, ofere- cendo os recursos do tesouro national como garantia para os banqueiros internacionais, repletos de petrodolares vadios na epoca, entregarem dinheiro as empresas privadas. O resultado e que os seis grandes projetos amaz6nicos, todos situados no Pari (Carajas, Tucurui, Albras, Alunorte, jari e Trombetas), res- pondiam por 15% da divida externa brasileira quando os milita- res devolveram o poder aos civis, em 1985. Um pouco antes da reorganizagiao emergencial da Minera- cao Rio do Norte, a mesma crise atingiu a Companhia Meridio- nal de Mineracgio, o nome atras do qual estava a United States Steel na Amaz6nia. A empresa era dona exclusive da melhor jazida de minerio de ferro do mundo, a de Carajais. Mas se recusou a iniciar a fase executive do projeto pretextando ex- cesso de oferta no mercado. Na verdade, queria continuar ope- rando cor sua mina na Venezuela. Carajas s6 entraria quando esse dep6sito se exaurisse. Mas Carajas, corn seu volume de minerio de ferro asseguran- do moeda forte para o detentor da maior divida externa do mundo, era vital para o projeto do Brasil Grande. A CVRD, dona do quadrilatero ferrifero de Minas Gerais, responsivel por 20% do minerio comercializado no mundo, foi convocada pelo governor military para integrara na sociedade. Entrou no neg6cio em 1969, mas sua convivencia corn a US Steel foi conflituosa ate 1977, quando a multinational americana saiu da Amaz6nia Mineracao, deixando a Vale sozinha. Dizem que a Steel resolve blefar. Estaria con- N vencida de que os 'i.i-ik: ll' 's, sozinhos, nao con- seguiriam abrir ainda mais mercados para o seu minerio de ferro num segment de oferta abun- . dante. Se realmente agiram assim, esqueceram dos japoneses. Eles fizeram de Carajds o principal cen- tro supridor de materia prima para os altos for- nos de suas siderurgias. i no Parai que essas si- _derurgicas vem buscar 15% do minerio de que necessitam para funcionar. O sol que nasceu ver- melho no horizonte de Carajis, bem antes do PT, _ era made in Japan. Implantar os gradess projetos", mesmo em cir- cunstancias desfavoraveis, era uma determinaglo do governor military. O projeto do "Brasil Grande", com taxas de desenvolvi- mento em torno de 10% ao ano, alcangadas no auge do "mila- gre econ6mico", gracas ao ingresso de uma enxurrada de dl6a- res agenciados pelos banqueiros europeus e americanos, so poderiam ser sustentadas se uma nova fronteira produtiva fos- se incorporada, compensando a insuficiente poupanya nacio- nal. Essa era a missAo da Amaz6nia: tornar-se uma "usina de d6lares". Crescer a taxas ainda mais elevadas do que as do restante do pais. Para isso, tinha que oferecer produtos desejados pelo mer- cado international. Precisava alcangar condic6es de compe- tir cor outros fornecedores. Necessitava de parceiros para sondar compradores e trazer tecnologia. E era carente de ca- pital, muito capital. Um regime forte, com control rigidos sobre toda a socie- dade, p6de providenciar todos os components para esse super-bolo, que cresceria sem parar ate, num future longin- quo, powder ser servido a todos os convivas, nao apenas aos convidados especiais, os "grandes projetos". Todos eles es- tao operando. Esse 6 o lado positive da engenharia montada pelos cinco governor que se sucederam entire 1964 e 1985, fazendo da "in- tegra;lo da Amaz6nia" umr mote constant de seus programs, inalterado esperar de todas as alterag6es de contelido que pro- moveram em relaIalo a outros itens programriticos. Mesmo em pontos distantes do sertao, entrando em mercado congestiona- dos, os "grandes projetos" entraram em operacao commercial entire 1979 e 1985 (apenas a Alunorte foi retardada em 10 anos, en- cerrando o ciclo). Mas a que custo? A apurafio esti para ser feita ate hoje. Em primeiro lugar, do custo final de cada um desses "grandes projetos". O caso mais dramatico certamente 6 o da hidreletrica de Tucurui. Quan- do comecou a ser construida, em 1975, a usina deveria sair por 2,1 bilh6es de d6lares. Quando foi inaugurada, em 1984, ja estava em US$ 5,4 bilhoes. O saldo atualizado nao deve estar em menos de US$ 9 bilh6es (o equivalent a 150 meses de receita pr6pria do Estado do Pard). Mas a hidreletrica ainda nao foi inteiramente quitada porque hi d6bitos de construcgto pendentes, como admitiu no mrs passado o ministry de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho. O Projeto Ferro Carajais foi o oposto: seu custo inicial, de US$ 3,5 bilh6es, foi reduzido para US$ 2,9 bilh6es. No entanto, ainda 6 dificil avalia-lo porque a CVRD acabou extinguindo a Ain.i,',ni.i Mineragao, a empresa especificamente vinculada a Carajais, juntando as contas do seu Sistema Sul a contabilidade global. Isso ocorreu exatamente no moment em que comegou a extra;ao de minerio. Desde entao, ficou impossivel para ana- listas externos desagregar a conta de Carajas do balango global da empresa. Tudo ficou homogeneizado num caixa 6nico. Mas um nmrnero impressionante ajuda a avaliar Carajis. Quando o Banco Mundial avalizou o projeto, concedendo-lhe US$ 300 milh6es (o dinheiro em si era menos important do que o endos- so do BIRD, senha para o sim de todo o sistema financeiro international e para os compradores de minerio), o ponto de equilibrio para o projeto se tornar auto-sustentavel era de US$ 35 por tonela- da. Hoje, a Vale vende seu minerio a US$ 15 a S tonelada. Por isso, fez o limited de produ;iao pular S de 20 milh6es de toneladas para 43 milh6es. Pro- curava compensar a baixa unitaria de preco corn ampliagio de volume de venda. Na maioria dos casos, o saldo devedor dos financiamentos contraidos para tornar possivel os grandes projetos e a espinha que permanece em suas gargantas contTbeis. Ate hoje oJari nao se tornou financeiramente saud(vel, o que o sujeita ao risco de um colapso subito. Tamb6m esses saio dois proble- mas consideriveis para as fibricas de aluminio e alumina da Albr s e da Alunorte. Ou seja: como o umbigo desses empre- endimentos esta fora da regiao, 6 para la que o cordao alimen- tador conduz as riquezas e para onde se transfer o efeito multiplicador desses mesmos investimentos. Corn isso, os gran- des projetos se tornaram models clissicos de "enclaves", es- truturas fechadas que concentram seus beneficios e excluem o mundo em torno de si, os que n~o estao diretamente envolvi- dos corn a atividade produtiva. Foi o que aconteceu em relagao a hidreletrica de Tucurui. A Franca, que financiou a obra, exi- giu que metade das turbines fossem construidas por industries frencesas (cada turbina e suficiente para abastecer de energia metade de uma cidadade como Belem). Das 12 turbines em opera'io, seis foram construidas na Franca. As outras ficaram corn empresas brasileiras, mas elas pagaram "royalties"as sedes francesas. Assim, alem de juros altissimos, os franceses ganha- ram renda e salaries. E o que aconteceri corn grande parte dos US$ 1,4 bilhaio que o governor pagari a multinational america- na Raytheon, ao long de cinco anos, pelo Sivam (sistema de Vigilincia da Amaz6nia). Em virios pontos espalhados pelo interior amaz6nico, aque- las "terras altas" valiosas que comegaram a ser divisadas no p6s-guerra, os "grandes projetos" s&o como multiplicados ca- valos de Tr6ia, trazidos do litoral para possibilitar a extragao de alguns dos bens mais nobres existentes no territ6rio amaz6- nico. Ao menos para fazer um balanco realista da relaito entire pr6s e contras, e precise levar em consideragio essa data, os 20 anos em que esses cavalos troianos higb-tech, surgidos do mar, brotaram no hinterland da Amaz6nia. E necessirio abrir seus est6magos e divisar claramente seu conteudo. Com eles, ficamos mais ricos ou ficamos mais pobres? OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 3 ENTREVISTA Clara Pandolfo: a dona da floresta (ou seria melhor dizer "a amiga"?) Clara Martins Panclolfo veio ao munclo em 1912, em Belem, no aipice da riqueza obtida pela Amaz6nia corn a explomraao monopolista dca bor- racha. Mas quando precisou arrematar sua for- mac'ao professional, em 1926, jai a crise da borra- cha espalhava um ar de d n..iL..IL i.i sobre a mai- or cicacie :.i ir. .o1 i, .1, embalacla ate entao pelo halo dourado de um mimetismo europeu. No 1 impulso do espirito cia Cpoca, seus pais haviam comprometido suas poupancas corn o curso de medicine do filho irnico e corn a manuteniao cdas duas filhas mais velhas em Lisboa. ' "Mais por contingnncia financeira do que pro- priamente por um apelo vocational", Clara, a ca- cula, foi rnatriculacda na Escola de Quimica, cria- ia apenas seis anos antes, numa iniciativa mo- dernizadora do governor federal, por urn detalhe decisivo: o curso era gratuito. Belem fora uma cdas seis capitals escolhicas, pela sua import'incia em 1920, para receber urna dessas escolas de quimica. E a unica clue nao a manteve: fechada em 1930, s6 voltaria a atividade 25 anos depois, permanecendo insepulta durante a "icdade media" .1111.1.'. r .i,.i que se seguiu a ceb-acle cia borracha. Clara, porem, nto foi atingida por essa fase de encolhimento. Sua mae, "uma mulher de ideias avancadas para a epoca", quis que todaas as sua trs filhas tivessem uma profissao tecnica. Nao serial apenas doonas de casa, domesticas por profissao, mas pes- soas autonomas (do que dai uma idia a assinatura rebuscada de Clara, numa epoca em que as mulheres desenhavam seus nomes). Clara queria mesmo era ser pilot de aviaLao, a semelhan a da pionei Ansia Pinheiro Machado, que fez o primeiro v6o Rio-Si o Paulo. Mas se satisfez em ser quimica: o curso, aldm de gratuito, tinha ainda como atra'aio de professors franceses da famosa Sor- bonne, de Paris. Varios deles vieram dar aulas (em frances, ji ciue naio dominavam a lingua local), mas nenhuma influencia foi maior do que a de Paul Le Cointe, que aqui acabaria se casando e vivendo atW o final dos seus lias. Dois de seus livros Amaz6nia L'a;,l,.' e Para- seriam decisivos na fonnam~iao de conhecimentos amaz6ni- cos para Clara e sua geraao, e mesmo dos intelectuais atuais, que conseguem ter acesso a esses dois esgotadissimos livros. 0 entusiasmo pela Amaz6nia tornou-se contagiante. Clara era uma ldas alunas fscinacas coi as aulas cde Le Cointe aos sabados pela manha. No mesmo hordrio (algo ins6lito para os padres do ensino e da burocracia brasileiras dos nossos dias), alguns anos depois, participava das reuni6es da SPVEA (Superintenclncia do 4 OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA Piano de Valorizagao Econ6rica da Amazinia), comandadas pelo historiador e politico amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, pri- meiro superintendent do 6rgao. Clara chegou a Comissflo de Pla- nejamento da SPVEA em 1954, poucos meses depois da criacLo da instituigao, que inauguraria a pratica do planejamento regional no pais. Durante quase meio seculo foi participate ativa da hist6- ria da regiio em urn dos seus mais f6rteis e critics periods, che- fiando o Departamento de Recursos Naturals da Sudam (sucessora da SPVEA a partir de 1966), durante 23 anos, at6 se aposentar, no cargo, em 1990. Aos 87 anos, Clara Martins Pandolfo mant6m-se ativa e atualiza- da, como mostra esta entrevista, tendo como base um questionario que a ela foi submetido. Ao mesmo tempo lucida e prospective, capaz de refletir sobre sua fertil e longa experiencia, mas atenta as novidades e aos avancos do conhecimento. Num moment em que o future da Sudam 6 posto sob uma interrogagao assemelhada a que envolveu sua antecessora, a SPVEA, e parece condenar a Amaz6nia a uma permanent an- siedade de definicgo, este depoimento de Clara Pandolfo 6 im- portante para a formac o de opini6es mais s6lidas. Mostra que, mesmo a margem da atividade cotidiana, ela nao pode ser es- quecida quando se pretend evitar erros ja cometidos e aproxi- mar-se ao mdximo das rnJidiJ.1., de future. E uma das fontes vivas do melhor conhecimento amaz6nico. Por isso, inaugura esta seiao, na qual as vozes que integram o coro amazonico se farao ouvir. Para que sejam ouvidas. Por que a senhora decidiu estudar quimica? Terminado o curso secundirio, minha mie - que era Luma mulher de idcias avanqaclas para a 6 epoca fazia questao de dar as :111 ., um prepa- S ro professional que Ihes assegurasse estabilidade. Por essa 6poca, Belem contava apenas cor algumas escolas superiores isoladas medicinea, '. fanmicia, odontologia), que funcionavam por ini- ciativa privada, ministrando ensino altamente re- munerado. Vivia-se, entao, na capital paraense, umra situagao de profunda decadencia econ6mi- ca, reflexo da debacle da borracha, e meu pai, comerciante da praga, ressentia-se financeiramente das repercussoes dessa situalao. Arcando ja cor elevadas despesas para man- ter os estudos do filho, que cursava medicine, na antiga Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pari, curso a 6poca bastante oneroso (coin custos agravados pela necessidade de aqui- sic-io de livros que, em sua maior parte, tinham de ser importados do estrangeiro), alem de manter tamb6m as duas filhas mais velhas estudando em Lisboa, tornava-se muito dificil, para ele, assumir novos encargos e, portanto, maiores despesas. Entretanto, a lei federal n 3.991, de 5 de janeiro de 1920, criara, no Brasil, as seis primeiras escolas de quimica, que deveriam fun- cionar nas cidades de Rio de Janeiro, Sio Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife e Belem. A rec6m-criada Escola de Quimica do Pard, dada a inexistencia de uma universidade em Belem, ficou sob a responsabilidade da Associagao Comercial do ParL, que jai mantinha, corn seus recur- sos pr6prios, um Museu Comercial, onde eram analisados, estucla- dos e catalogados os principals produtos naturais da regiao corn vistas a sua comercializaato, industrializacao e exportac;io. Esse museum era dirigido por Paul Le Cointe, renomado naturalista fran- ces, grande conhecedor da Amaz6nia, clue se fixara em Belem e que aceitou assumir o encargo de organizer e fazer funcionar a novel instituiio, anexando-a ao referido museum. Minha mae, tomando conhecimento da existencia da nova es- cola, cujo ensino aliava a alta eficiencia a atraente concdic'ao de ser ministrado gratuitamente, para la me encaminhou. Desse modo, minha formacao professional foi determinada mais por uma con- tingCncia financeira do que propriamente por um apelo vocacio- nal. Mas, ao final, tudo se encaminhou para uma feliz convergnn- cia, pois, venciclos os naturais percalos dos primeiros dias, ocl onados principalmente pelas dificuldades no manuseio da lingu: (as aulas eram, na sua maior parte, ministradas em francis, jai que os professors recem-contratados na Universidade de Sorbonne, na Francg, nio tinham ainda pleno dominio da lingua portugue- a), logo 'a bei ambientanclo-me e deixando-me seduzir pelo en- cantamento das sensnaoes ineditas experimentadas, a cada die clurante os trabalhos prfiticos realizados nos laboratories. Essa situacrio nova, cle emooes forte,, fez-me esquecer os ou- S adlos sonhos de adolescent, quando aspirav, ajar p: tros centros mais desenvolvidos, onde pudesse fazer carreira n: aviagf seguindo os passes de Anesia Pinheiro Machado, que pilotar sozinh: o 1" v6o entire Rio e Saio Paulo. O estuclo cia quimica foi sempre a grande paixao de minha vicda e, por isso, inesnmo, depois de encerracda s as tividades cia escola, nessa primeira fase, continue trabalhando nos laborat6rios, pres- tando minha modest colabolragfo aos estudos realizados por Paul Le Cointe. Qual a importincia de ter sido aluna de Paul Le Cointe? Paul Le Cointe teve urma influIncia decisive em minh: 'arreira professional. Ele lecionava uma discipline que se clenomin 'Tec- nologia Amaz6nic: Su: aulas, nas manhais de s:ibiado, reul'i'lmi o conjunto dos alunos das quatro series do curso. Sabia contar, corn graca e vivaciclade, cada epis6dio que vivera em seus 40 anos de vivencia por tocla a regiao, inclusive convivenclo nas diversas tri- bos indigen: Tinha um1a gargalhada peculii prolongada e gos- tosa, que contamini :a seus jovens ouvintes, aos quais entretanto, 'abia infundir profunclo respeito. Corn ele aprendi ,'aliar as dimens6es e a dar just valor ao imenso potential de recursos da Amaz6ni: Dele recebi o dignifi- 'ante exemplo do: ao estudo e da discipline no trabalho. Foi um estrangeiro que amou esta regifio e a a leddicou praticamente Stoda sua \'ida. Aqui constituiu familiar con pi -aense, oriunda de traclicional familiar de Obiclos D. NMaria Correa Pinto e ambos aqui morreranm, octogen: Como a senhora passou a se interessar pela Amaz6nia? Desde os tempos da Escola de Quimica, as riquezas da regifo, descritas por Le Cointe, sempre estiveram presents nos meus projetos de vida professional. Quando aqui se instalou a SPVIA [S/iiperinleIdncia d no la iM de Valorizacio Econ6Inica da Ama- zonial (em fins de 1953), senti que essa serk a oportunidade die pCr em prfitica todos os sonhos 'alentaclos de um dia powder servir ii minha ternr Ao entrar par: a SPVEA (em abril de 1954), eu vinha de trabalho rotineiro de anailises bromatol6gicas nos generos alimen- ticios clue chegavam it priaa de Belem, trazidos pelos navios de cabotagem do Lloyd Brasileiro, nomeacla que fora quimica dos laboratories de satcle ptblica do Estado, atividadces que divicli: corn o exercicio do magisterio, no Colegio Modcerno, na Escola lde Enfermagem, onde minister a discipline Quimica Inorgainica, Org:inica e Biol6gic e em varios cursos vestibulares. Ao entrar p: 'a a SPVEA e ter convi\io clireto corn Artur Cezar Ferreira Reis, primeiro superintendente cda novel instituicao, deixei- me fascinar pelas oportunicdades que se abriam para a regiio. Ern um deleite participar das reunites seman: nas manhas cde ,ibl do, presididas por Artur Reis, onde cada um de seus assess -xpunha seus roteiros de treabalho. Eni a delicia conhecer aspects novos, narralos, por exem- plo, nos campos cla saucde, por um Paulo Fender; nos aspects juridicos expostos por um Marcilio Viana, source a geologia cda Sregiafo, na palara Ide Iun Roberto Galvf ai esposa, geografa: do IBGE, Mainlia Galvalo, e i -'. .,i.' .. sempre brilh:nte e coloi- da, de um S6crates Bonfirm, corn quem passed a trabalhar n:' As- 'ssoria Tecnica da Subcomissao de Recursos Natun'is da Comn .'io de Planejamento. Pouco a pouco, fui materializandco os velhos sonhos e cqua:clo, em 1961, assumi a lPresicldncia da Subcomissfio de Recursos N:nlu- apresentei minha proposta concrete die um Progranma sollre Oleiferas Nativas e Exotic: proposii0o) que, ap6s e. austivos estu- clos, foi aceita e incorporada a programagla o do rg; A primeira fase desse program era exatamente um projeto experimental de cultural do clendl (palma africana). Mais tarde, quando houve a transformacnlo da SPVEA em Su- ldam [Sulperinlend~ncia do Desen'olvinmcno da A maz6nia], ess: political dce aqfio que regia os atos da SPVEA foi esquecida ou deixacla de lado e, a partir lai, a Sudam passou a ser acusada de desenvolver agces clue se situavam fora de sua 6rbita de atuagao (entendimento evidentemente muito primfirio). Quais os livros que contribuiram para a formaAo de seu conhecimento sobre a regiao? Sem dcivida nenhuma, o livro-chave corn que me deleitava er L 'AazonieBBresilienne, em clois volume<, que possuo ainda em seu original frances. Tambmn, do mesmo Paul Le Cointe: O Elado do Parac- A Terra, A Agua e o A Ar An'ores e Plantas Ueis da Amazdnia. Um livro ccue se tornlaria meu livro de cabeceira foi Amazdnia, de Lucio de Castro So: um excelente compendio dos recursos conhecidos i epoca e tamb6m os livros de Artur Reis, cor n nfase para Amaz6nia e a Cobi vam-se os relat6rios tecnicos das viirias misses estrangeiras que percorriam a Amaz6ni:, levantando aspects inclitos sobre pro- blemas da regiato. Quais as experiencias decisivas na sua vida professional? A grancle praitica que aclquiri no exercicio do magisterio, que me penmitiu encaminhar, positivamente, tantas intelig&ncias jovens. Tambem o long trato corn os problems regionais, que valeu por aprenclizado cle vida e de conhecimentos; as numnerosas vi: gens que empreendi a longinquos recantos do interior amazinico, que form, para mim, Luma verdadeira Universicdade da Naturez: Amaz6nica, quando pude apreciar naio s6 a exuberincia do meio fisico, as tambm a foria e a tenaciclade do home que o en- frenta, : 'ada cli, penetrando corajosamnente a gigantesca floresta sombriz "ando a imensiclao das aiguas na sua fragil igarite. Pude apreciar de perto as vicissitudes da regiaro ao constatar precarieldade dos meios usados no aproveitamento de seus recur- sos natun E, n: busca de solugoes para esses problems, pude consoliclar minha formnagao professional. Como foi a transic~o da SPVEA para a Sudam? Fava um paralelismo entire os dois 6rgAos. A crinaclo da SPVEA constituiu a primeira experiincia no pals - e umia as pouc: ate enttio existentes no mundo de institucio- na:lizagflo de um progir a governmental visanclo a valorizar um; regifto. Desse imodo, recebeu a SPVEA a dificil tarefa de tent; elabora:iclo de um Piano de Valorizaiio Econ6mica p; a Am; z6ni quando inexistiam trabalhos dess: atureza que puclessem ser usadlos como model. Dando inicio ais su; atividadces, a SPVEA, atraves de sua Co- 'ilo de Planejamento, teve, como tarefa primordial, o exame preparatorio da realidade amazonica p -a a determinacfio ide seus problems blisicos e o estabelecimento das prioridades relative: aos empreendimentos que deveriam surgir, em funio das neces- sidadces mais urgentes ca regiaro. Esses estudos serviiram de orientagcio para os trabalhos de pla- nejamento do 1" Piano Qiiinquenal de Valorizafao Econimic: da Amaz6nia (1955/59), condensado em dois volumes, que, em- bora encaminhados tempestivamente t alprovaaf'Io do Congresso National, naio logrou ser, por este, aprovaclo nem rejeitado, aca- bando por perder oportunidade, sem jaimais ser post oficial- mente em execuciao. A criacto da SPVEA possibilitou reunir, na Amaz6nia, sob o comando eficiente de Artur Cesar Ferreira Reis, um grupo de tecni- cos de gr:ncle valor, nacionais e estrangeiros, que se devotanr ao estiudo dos problems region: procurando equacion:-los. Ao pioneirismo cla tarefa de que estava encarregada a SPVEA aviam-se, conmo elements complicadore., a vastidlto cla fire OUTUBRO/ 1999 AGENDA AMAZONICA 5 sob sua jurisdicfio mais da metade do territ6rio naciona!; a mag- nitude dos objetivos a alcanCar desenvolver economicamente uma regiao at6 entao mantida em complete estagnagiao, voltada apenas para atividades primiarias de coleta florestal; a escassez de pessoal qualificado; a carencia cr6nica de capitals que pudessem servir ao desenvolvimento da economic, tudo isso agravado por injuncges politico-partidcrias, que levavam a pulverizagao das ver- bas, al6m de que os recursos orgamentarios pi-evistos jamais foram inteiramente liberados. Mesmo assim, uma analise isenta de paix6es sobre a atua~io desse 6rgao mostra que a SPVEA deixou um rastro de fecundas e proveitosas realizaoges se considerado o context e a conjuntura da 6poca em que atuou. Assim, no campo da pesquisa, form realizados os primeiros in- vendirios florestais, por peritos da FAO [a agencia da ONUpara agricuiltlra e alimentadao], conjuntamente cor t6cnicos locals, que, pela primeira vez, deram a conhecer algo sobre a composicgo fitos- sociol6gica da floresta amazinica e seu real conteudo Foi tambmr implantado o primeiro Centro de Pesquisas Florestais, em Santar6m, no Baixo-Amazonas, por especialistas da FAO, corn a introduhao dos primeiros ensaios sobre manejo florestal, e que e hoje detentor de um notavel acervo de dados sobre o potential existence (embora esteja o centro atualmente em lamentivel abandono. Virios levantamentos geol6gicos, estudos pe- dologicos e sobre recursos pesqueiros foram re- alizacos em varios locals, por equipes de peritos da FAO/UNESCO [agencia da ONUpara educa- cto e ctuliraz], que integravam misses t6cnicas com atua'ao na regiao. Foi tamb6m patrocinado financeiramente pela SPVEA o primeiro grande levantamento aerofo- togrametrico, numa 6poca em que essa tecnica ainda engatinhava no Basil, numa irea de 420.000 quil8metros quadrados, situada na atual Provin- cia de Carajais, em convenio corn o Departamen- ' to Nacional de Produgfo Mineral e execugiao a cargo da empresa especializada Prospec S.A.. Vale , aqui registrar que as imagens areas desse levan- tamento foram posteriormente utilizadas como subsidio nos estudos procedidos para :J.-inrllif.- 'ao dessa provincia mineral, embora tal fato nunca seja mencionado. Na fonnacao de recursos humans, a SPVEA forneceu bolsas de estudo a estudantes universitarios da regiao para especializanao no exterior, principalmente n afirea de geologia, e tamb6m, em conv&- nio corn a Universidade Federal do Paranmi, providenciou a forma- gco dos primeiros engenheiros florestais para a Amaz6nia. Quanto a implantagiao da necessfiria infra-estrutura basica, para servir de alicerce ao process de valorizagato economic, a SPVEA atuou na melhoria e ampliacqfo da capacidade de geracao e distri- buigio de energia das usinas termeletricas de Bel6m e Manaus; reaparelhou os portos e o sistema de navegagi~o cor a aquisigflo de modern frota fluvial e iniciou a implantagao de sistemas de abastecimento de igua potaivel em cidades do interior amaz6nico. Construiram-se escolas, hospitals e centros de pesquisa. E dessa epoca a criagaro da Universidade Federal do Par. e da antiga Esco- la de Agronomia, hoje Faculdade de Ciencias Agrfrias do Para. A SPVEA contribuiu tamb6m corn recursos financeiros para a cons- trug'ao da primeira sede fisica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia [INPA]. em Manaus. Registre-se ainda como important iniciativa da SPVEA, na area da Agriculture, o convenio firmado cor o Institute de Recherche pour les Huiles et OlGagineux (IRHO), da Franga, par; a implan- tagao de um projeto-piloto de cultural do dend& (palma africa- na), que serviu de base para essa cultural na Amaz6nia, hoje uma das mais pr6speras e promissoras. Ainda no campo das atividades agricolas, foram introduzidos, por colonos japoneses, cultivos racionais de juta e pimenta-do- reino, marcando uma primeira diversificagio nas atividades extra- tivistas da regiAo. 6 OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA Visando a dinamizagfio da economic regional, a Comiss'ao De- liberativa, que funcionava na SPVEA, cor a atribui~lio de decidir sobre projetos de pessoas juridicas a serem beneficiadas corn re- cursos de incentives fiscais (excluidos os empreendimentos pecu- irios), financiou various empreendimentos econ6micos pioneiros, todos ainda em regular funcionamento, entire eles a Refinaria de Manaus, a flibrica de cimento de Capanema, a Facepa, a Cerapsa e a Cata, entire outros. E, finalmente, coube a SPVEA coordenar os trabalhos de cons- trugao da primeira grande rodovia de integragSo terrestre da Ama- z6nia cor o resto do pais, a rodovia Belem-Brasilia, sem duvida a obra mais marcante e grandiosa de todo o period de atuacao da SPVEA. Fago minhas as palavras de Samuel Benchimol: "Nao se pode negar a SPVEA o merito de ter sido responsavel pelos primeiros passes no process de desenvolvimento da Ama- z6nia, passes muito dificeis porque realizados no emaranhado de problems extremamente complexes em uma area que, A 6poca, era quase desconhecida, em decorrencia dos tres s6culos e meio de esquecimento e abandon a que o governor central do pais a relegara". Em 1966, o govemo federal langou a OperagiAo Amaz6nia, inau- gurando uma nova political desenvolvimentista para a regiao, cor a reformula'ao das estrategias at6 entao adota- das e a reestruturag;,o dos 6rgaos encarregados de sua execugao. Para .il....i. esses objetivos foi mobilizado um vasto elenco de instruments legais e medidas administrativas, incluindo a lei 5.173, de 27 de outubro de 1966, que extinguiu a SPVEA e criou, para substitui-la, a Sudam.. SA mudanga institutional de SPVEA em Sudam objetivou consolidar o process de desenvolvi-- mento regional, procurando a melhoria de funci- .- onamento do 6rgao pela absorcio das experi&n- cias ja entao acumuladas. Enquanto a SPVEA foi criada para dar desem- penho a um Piano de Valorizag'ao Econ6mica, isto e, visava apenas ao fortalecimento do sistema pro- dutivo de bens e -.-,r. i. .' econ6micos, a Sudam surgia numa 6poca em que o govero brasileiro jai passava a dar &nfase a modernas tecnicas de pla- nejamento, corn vista ao desenvolvimento global da regi'ao e nao apenas a sua valorizacao econ6mica. Todavia, cor a mudanga institutional da SPVEA em Sudam, esta passou a ser vinculada a um ministerio, chamado Ministerio Extraordinmirio para Coordenagio dos Organismos Regionais (Me- cor). Corn isso, a Sudam perdeu a forga political de que gozava a SPVEA, que funcionava como um super-ministerio, ligada direta- mente A Presid&ncia da Republica. Criava-se agora um degrau en- tre o poder de decisao do 6rgao regional e o poder central, ou seja, havia agora um est'igio intermedifrio de negociag6es para que os pleitos amaz6nicos chegassem ao governor central. O Mecor foi posteriormente transformado em Ministerio do In- terior, que cuidava conjuntamente dos pleitos de interesse das demais regimes brasileiras atrav6s das virias superintendencias re- gionais entao existentes Sudam, Sudene, Sudeco, Sudesul e nio mais prioritariamente dos pleitos amaz6nicos, como acontecia nos tempos da SPVEA. Deste modo, a Sudam caracteriza-se no novo quadro institutional, criado a partir da Operago Amaz6nia, como uma instancia intermediiria de negociag6es. Embora aufe- rindo algumas vantagens novas, perdeu, paralelamente, hierarquia administrative dentro do sistema de govemo federal, passando ofi- cialmente a compor o terceiro escalao. A Sudam, por forca aa lei que a criou, tem, entire outros, dois objetivos fundamentals: a) planejar o desenvolvimento regional, e b) coordenar as ages do governor federal na drea sob sua jurisdicio. Todavia, na pratica, 6 inviaivel o desempenho dessas atribuices. Sua funlio de planejar o desenvolvimento regional enfrenta grandes limitacges pela dificuldade de colocar, em nivel national, objetivos e prioridades nitidamente regionais, uma vez que as di- retrizes e prioridades sao estabelecidas nos escal6es superiores do governor, atendendo a interesses nacionais/setoriais, nem sempre consentineos corn os objetivos do desenvolvimento regional e corn as aspirac6es da comunidade amaz6nica. Por suas peculiaridades, nao apenas ecol6gicas, mas tamb6m econ6micas, sociais e culturais, a Amaz6nia requer soluq6es pr6- prias, inovadoras, que se adaptem a sua realidade e que, em gran- de parte, nao coincide e as vezes at6 conflitam cor os interesses de outras regi6es brasileiras. Por outro lado, suas atribuig6es de coordenar as ages do go- verno federal na regiao sito inviabilizadas pela posigao hierirqui- ca inferior da instituiCio na escala governmental, situada que estd abaixo dos ministerios. Sua atuacao na formulacao dos diversos programs setoriais s6 pode fazer se por via indireta, para que nao se configure como uma ingerincia indevida nos ministerios aos quais cabe essa .nl'p..:-r,.. i.i, tornando-se assim um agent passi- vo no modelo de desenvolvimento regional. Em decorr-ncia dessa situag~o, os problems da regilo rece- bem, quase sempre, soluo6es de cunho casuistico, visando mais ao atendimento de aspects circunstanciais do que de obediencia a uma filosofia de agfo. Por isso mesmo, os varios pianos de desenvolvimento da Amaz6nia, elaborados pela Sudam, nao che- garam a exercer seu papel de instrumento orientador do process de desenvolvimento regional. Para concluir este item eu gostaria de assina- lar uma das virias diferencas entire o funciona- mento dos dois 6rgfios, SPVEA e Sudam. A SPVEA, atraves de sua Comissao de Planeja- mento, aprovara umna Politica Operacional, conti- da num document denominado "Linhas de ABao Para a Valorizacaio Econimica da Amaz6nia", do- cumento pelo qual se pautavam as agoes da co- missao (esse document, para mim, 6 o mais im- portante manual de procedimentos para o desen- volvimento da regiao, ate hoje nao igualado por , nenhum outro). I)e acordo com essas Linhas de Agaio, uma political de investimentos para a regiao deve conceder a~ autoridade valorizaclora uma su- ficiente autonomia de atuagaio. Constava desse do- cumento, no que diz respeito a implantagiao de empreendimentos: "Em certos casos, verificamos que dificilmen- te se conseguirn atrair o entusiasmo e a participagio financeira dos particulares, em virtue nfo apenas dos obst.culos aponta- dos, como tamb6m pelos prazos de geracao e gestagao dos em- preendimentos e pelas despesas, frequentemente vultosas, dessas fases iniciais. Assim, somos de parecer que, sempre que assim ocorrer, o organism de planejamento deve inclusive, se necessa- rio, passar a fase executive, de modo a oferecer, aos possiveis investidores privados, nao s6 uma idea ou um projeto no papel, mas uma estrutura fisica e juricica pronta para entrar em funciona- mento. Nesse caso, as fabricas erguer-se-fo sob a responsabilida- de direta do Piano, que s6 as proximidades do inicio de seu fun- cionamento promovert a constituigclo juridica da empresa que irA explora-las cor a participagio dos particulares observadas cer- tas normas de political social que apresentaremos mais adiante". Foi assim, perfeitamente enquadrado nas determinag6es da Po- litica de Valorizagcao Econ6mica da Amazonia, adotada pela SPVEA, que surgiu o posteriormente polemico Projeto Dend&. N.o fora essa atuacao direta do 6rgio de planejamento da SPVEA, e prova- velmente, at6 hoje, ainda figurariam nos orgamentos federais as dota(ges "para continuidade das pesquisas sobre dend&", espe- rando por investidores que jamais apareceriam... As duas instituig6es SPVEA e Sudam sao, frequentemente, alvo de critics injustas, acusadas de naio haverem cumprido, satis- fatoriamente, suas atribuicges na promocao do desenvolvimento regional, nao se querendo reconhecer quantas dificuldades, quanto de sacrificio e de renOncia tiveram de ser superados, por seus t6cni- cos e administradores, para cumprirem um minimo dessas atribui- q6es, nas condi(ges adversas em que sempre funcionaram. Entre- tanto, 6 inegAvel que, tanto a SPVEA como a Sudam, apresentam um conjunto valioso de fecundas e proveitosas ou.li;'.,, *c. Como a senhora avalia sua participacio como Direto- ra do Departamento de Recursos Naturais da Sudam? Sem falsa modcstia, devo declarar que tenho plena consciencia de haver cumprido, corn o maximo de meu empenho, as atribui- gIes impostas pelo cargo. Dentro dos parcos recursos humans e financeiros de que podia dispor, procurei deixar um lastro de realizaqoes importantes, nos diferentes ramos setoriais, atraves de .. ,ni. -i com diversas instituigoes, conm nfase especial as pes- quisas no campo florestal. Devo confessar, entretanto, que che- guei ao fim de minha trajet6ria funcional carregando comigo a frustraqto de ver impotente a maior parte desse esforco despendi- do, com o engavetamento, sem aplicacio pratica, de importantes resultados que precisavam ser testados em maior escala. Na luta do dia-a-dia corn os problems amaz6nicos, aprendi que 6 muito dificil sensibilizar o governor central quanto aos ape- los da regiio. Nem mesmo o 6rgao que ter, por dispositivo legal, essa atribuiiao consegue, muitas vezes, a .i.,:it.i, .., pelos altos escal6es da Repiblica, de seus projetos e suas propostas. E citarei um exemplo. Desde que iniciei minhas atividades na SPVEA/Su- dam, lutei pela institucionalizacgao de uma Politica Florestal Regio- nalizada para a Amaz6nia. E apesar de ter tido o pleno apoio e empenho dos superintendents do Srgao, nao foi possivel concretizar a proposta. Entretanto, se essa political (que incluia, entire outros itens, a proibiaio de implantagao de ativi- dades pecufrias em areas de floresta native) ti- vesse sido implantada a cpoca de sua apresenta- co na decacla de 70 nato teriamos tido, dez anos ap6s na decada de 80 a explosao do d, problema ecol6gico na Amaz6nia. A voz de po- S i clderosos pecuaristas foi mais potente do que a . dos t6cnicos da regiao, conseguindo convencer os escal6es do governor que s6 a pecuAria em grande escala representava a iedi.,. ni economi- r ca da Amaz6nia ... Houve decisbes da (e na) Sudam que contrariam seus conhecimentos e sua consciencia de professional comprome- tida com a Amaz6nia? Como espectadora impotente, assist, em virias reunites do C. .n.,,lli Deliberativo (Condel), a aprovag~o de projetos agrope- cuarios que descumpriam as determinacoes do Regulamento de Incentives Fiscais (Resolu(c o n0 2.525, de 26.04.76), introduzidas, a duras penas, pelo Departamento de Recursos Naturals e que proibiam a implantagao de projetos dessa natureza em ireas de floresta densa. Que avaliagao a senhora faz hoje da decisao de comecar a integra~'o da Amaz6nia dando prioridade i pecuaria? Essa decision nem sempre existiu, tanto que, ao tempo da SPVEA, a Comissito Deliberativa, criada pela Lei n 2.416/63, s6 concedia beneficios fiscais a novos empreendimentos industriais que mere- cessem a aprovagao da Comissao. Como ji referi anteriormente, virios empreendimentos impor- tantes, ainda hoje funcionando regularmente, v6m dessa 6poca. Foi a concorrencia com a Sudene, na capta(ao dos recursos da nova Politica de Incentivos do Imposto de Renda, que levou a Sudam a aprovar numerosos projetos pecuArios, que se instalavam preferencialmente em Areas florestais, jc que s6 a venda das ma- deiras de valor commercial e a aquisicgo de terras a baixo custo cobriam, quase inteiramente, os custos iniciais dos projetos, tudo isso numa 6poca em que as preocupag6es cor o meio ambiente tinham pouco ou nenhuma repercussao no pais. Jamais acreditei no sucesso da pecuaria amaz6nica em Areas florestais. Sempre mantive a opiniAo de que as atividades pecuari- as deveriam ser desviadas para outras areas ecologicamente mais OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 7 aptas para essas finalidades, preferencialmente para as areas de cerrados e campos naturais que, na Amaz6nia, se estendem por cerca de 90 milh6es de hectares, havendo ainda, atualmente, a possibilidade do reaproveitamento de extensas areas de pastos degradalos, usando-se, para isso, a tecnologia ja disponivel na Embrapa/Amaz6nia Oriental. Como o DRN conseguiu introduzir, no Regulamento, aprova- do em 1976 pelo Condel, restric6es ao uso dos solos florestados para aproveitamento pecuArio, passed a ser chamada ironicamente, por colegas que defendiam a implantag'ao ampla e irrestrita, de "Dona da Floresta"... A exploragAo dos recursos naturais, especialmente dos florestais da Amaz6nia, esta mais pr6xima do que a cian- cia recomenda e instrui? A ciencia florestal evoluiu plenamente e nao tenho dividas que, se fosse incluido no Programa de Florestas Tropicais, alimentado corn recursos financeiros dos paises ricos, um projeto experimen- tal, que ficasse sob responsabilidade conjunta dos diversos orga- nismos que, na Amaz6nia, tern se dedicado a estudos sobre mane- jo florestal, teriamos, sem duvida, dentro de breve tempo, uma mudanga de mentalidade na conducgo da exploragio madeireira, em perfeita conciliacao entire a economic e a ecologia. Outro projeto que deveria ser incluido no mes- mo Program de Florestas Tropicais, para que pu- desse apresentar resultados mais rapidos, ja em carter de projeto-piloto, 6 o que estuda o Manejo , da Vegetagao Secundaria para a Sustentabilidade da Agricultural Familiar, que vem sendo conduzido pela Embrapa/Amaz6nia Oriental, em conv&nio corn uma instituigilo alemr. Esse projeto visa ao desen- volvimento de uma tecnologia substitutiva da quei- ma de novas Areas nos plantios familiares. O projeto ainda esta em fase inicial, buscando . encontrar as diversas alternatives que poderao ser .. \ empregadas, mas, certamente, poderia apresen- tar resultados em tempo mais curto, se contasse corn maior sustentacgio financeira. Se os estudos forem coroados de sucesso, teremos encontrado a formula capaz de acabar com as medidas in6- cuas que pretendem impedir as queimadas para limpeza dos restos agricolas e pastos degradados. Pretender esta- belecer proibig6es atrav6s de portarias e um recurso que seria hilariante se nflo fosse dramatic. Repetindo Pitigrilli: "Nao h~ vir- tude que resista a realidade cruel de um est6mago vazio". O nosso pequeno produtor rural que o diga. A senhora esta mais confiante quanto ao future da Amaz6nia? Honestamente, ainda me mantenho muito reticente diante do tratamento dispensado a nossa regiio. Do alto de sua experiencia e conhecimento, o que re- comendaria hs pessoas que pretendam se engajar agora numa luta em favor da region? Dois objetivos me parecem fundamentals: 1) Institucionalizaglo de uma political permanent para desen- volvimento da Amaz6nia, que retire do process o carter aleat6- rio e circunstancial das iltimas d6cadas, acarretando descontinui- dade nas ac6es do governor. Cor as modificaoges introduzidas, pela Operagto Amaz6nia, nos mecanismos previstos para o desenvolvimento da regiao, subs- tituidos pela nova political de incentives fiscais e financeiros, oriundos do imposto de renda, foi suprimido, nas constituigaes brasileiras posteriores a de 1946, o dispositivo que se referia es- pecific imente a institucionalizacao do process desenvolvimen- tista regional e, cor isso, a Amaz6nia perdeu a garantia da con- tinuidade de agao do governor federal na condugao desse pro- cesso. Atualmente, os recursos destinados a Amaz6nia, nos or- camentos da Uniao, s5o apenas pontuais, insuficientes para ala- 8 OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA vancar o process de desenvolvimento regional, situadao consi- deravelmente agravada pela escassez de recursos tecnol6gicos e humans qualificados. Toma-se necessdrio adotar uma political permanent, baseada no planejamento e, para isso, 6 precise contar cor uma efetiva sustentarao basica. As ages do governor brasileiro vem sendo in- tensificadas no centro desenvolvido do pais, o que contribui para ampliar, cada vez mais, as desigualdades regionais. Ao que parece, o governor brasileiro ainda nao se deu conta da importTncia estrat6gica da Amaz6nia, no novo ciclo do desenvol- vimento econ6mico mundial, preferindo ignorar que a regia1o cres- ce, nas estrat6gias internacionais, cor vista ao assenhoreamento dos seus recursos naturais. 2) Elaborar um grande projeto global para o desenvolvimento da Amaz6nia. Em geral, na regiao fazem-se perp6tuos diagn6sticos dos proble- mas mas nao se efetivam soluoges. Os resultados das pesquisas vao- se acumulando sem utilizagao, a falta de decis6es political, de em- penho governmental e de disposiiflo dos investidores em modifi- car o atual estado de coisas. As reivindica6oes isoladas, casuisticamente defendidas junto aos poderes centrais, precisam ceder lugar ao grande Projeto Amaz6- nico. Ele condensaria as aspirag6es da comunidade, tendo a res- ponsabilidade coletiva dos diversos segments re- presentativos da sociedade regional, unidos con- juntamente num esforCo unificado de defesa em bloco, corn linhas de agao perfeitamente defini- das e metas estabelecidas para execucao em ho- rizontes de curto, medio e long prazos, visanclo "a implantacio da necessaria infra-estrutura bisi- ca e tecnol6gica, a organizafaio e modernizacao das atividades produtivas e, sobretudo e princi- palmente, a capacitacao dos seus recursos hu- manos. SA ascensao da Amaz6nia a melhores niveis econ6micos, sociais e tecnol6gicos para a pro- gressiva integracao da regiao ao process do de- .' senvolvimento mundial exige que os ;:I,.i/,'.ii..i se congreguem em torno de um Projeto Amaz6- nico de defesa da regiaio, buscando novas for- mas de organizagio das atividades produtivas. A materializagao da proposta de ascensao cientifico-tecnol6gi- ca exige aquisi.ao de conhecimentos e produgao de saber. O Sis- tema Nacional de Ciencias e Tecnologia, atualmente concentrado no centro mais desenvolvido do pais, precisa ser descentralizado e regionalizado, visando i .ip. .i...l na Amaz6nia, de equipes, qualitativa e quantitativamente habilitadas, para aprofundamento dos conhecimentos, em tempo haibil. A oportunidade criada pela Rio-92 assegura a cooperagCo fi- nanceira e tecnol6gica dos paises ricos para que a regiao se en- quadre no ritmo do desenvolvimento sustentavel. Todavia, 6 fundamental que essa cooperaglo nio se limited ape- nas a cloaafo de recursos financeiros as instituiOes regionais de pesquisa, que teriam de iniciar um long e penoso caminho em areas onde esses paises j possuem pleno dominio tecnol6gico. Nossa atenc-io tera de ser muito mais ousada, na busca de aproxi- macao com instituigoes nacionais e internacionais de alta capaci- tagio, visando a instituir modalidades de participagio conjunta, no gerenciamento adequado dos projetos para a geragfo de tec- nologias naio agressivas ao meio ambiente. Nfo sera dificil former associates cor os detentores do co- nhecimento e atrair capitals voluntirios interacionais para a cons- tituigao de empresas mistas e de joint-uentures, que representam excelentes veiculos de transmissao de tecnologia, para que se ins- talem na regiao, por exemplo, as indiistrias que manipulam nossos insumos bi6ticos como materia-prima. Fala-se muito no aproveitamento dos insumos bi6ticos ama- z6nicos, no uso de nossas essencias medicinais para a pro- duCio de farmacos, mas temos pouca ou nenhuma possibi- lidade de atuar sozinhos nesses campos, pela falta de recur- sos financeiros, materials e humans. Esse seria urn meio de deter a biopiratarit que lev a said clandestine de nossos -sos de biodiversidade, oferecendo condigoes propici- as para que os laborat6rios que usam esses recursos, aqui se instalassem. Por exemplo: por que nao trazer p; a a Ama- z6nia un laborat6rio da poderosa indcistri, alemri Merck, que industrializa e comercializa o nosso jaborancli? Corn isso, se abiriia um extenso campo experimental para os nossos jovens profissionais. O progress tecnol6gico naio se faz mais de passes isola- Sdos. A tendencit atual 6 para parcerias, a formaaio de conglomerados, integrados por diferentes fireas tecnol6gi- cas e englobando, num process inico, a pesquisa, a pro- cducto e a comercializagEao. Para ascender a esse estaigio, . Amaz6nia tera de investor, acinamente, na capacitagio de seus recursos humans e na infra-estrutura de pesquisa e experimentagao, o que vai exigir um grande esforco coleti- vo e, sobretudo, vontacle political para a efetivaifo de acOes inovadoras. S6 assim a Amaz6nia estarfi capacitada a dar o grande salto qualitative que Ihe permit ingressar em nova etapa de sua hist6ria, trilhando os caminhos de umn sadio process de desenvolvimento. Cartas c,.entemente, li sua Agenda Amaz6ni- ca, que considered de excelente qualidade. A sua pu- blicac'io vem preencher umi lacuna nos peri6dicos corn este perfil principalmente n; nossa regiao. Entire todos os bons artigos, uin em particular chamou-me atencgfo. Refiro- me "O Cacaulisla: o que nem um seculo nmudou" A obnl de Ingl&s de Sousa muito ime interest pois desde 1995 ve- nho desenvolvendo pesquis: pan' a rellizagflo cia minha dis- sertaqlto de mestrado no NAEA [N'icleo de Allos Istudos A na- I .z6nicos da Universidade Fede- ral do Par-d, a qual defend no ano p. 'ado sob o titulo: Sobre Agtuns Teias en Ing/les de Sousa: Un ensaio Caleidos- copico. Nessa pesquis eu estive na Biblioteca Nacional e na cida- de de Santos (infelizmente n'i pude ir ao Recife, onde ele ini- ciou seus estudos). Fiz algumas descobertas, entire elas que i primeira publicagao em volu- me de O Coronel Sangrado foi em 1882 (encontrei um exem- plar na biblioteca public de Santos), mesmo que tenha siclo noticiado que seria publicado em fasciculos na "Revista Na- cional de Cicnck Artes e Le- tr; (encontrei apeni numeros na BN, mas sem os fasciculos anunciados). A pu- . Iblicacio dos ConiosAniazOni- cos ocorre simultaneamente a puiblicagfo, em folhe- de O Cacaulisia no Di, rio de Santos, emn 1876. No * mesmo ano foi publicado Iis- loria de ni1n PescCador, em fo- lhetins, na Tribuna Liberal de Sao Paulo. Antes da dissertac:' 1996, pecquencio exercicio sobre Ingles de Sou- 'a p -a o "Encontro Amaz6- nico sobre Mulher" que v: ao encontro do que o sr diz sobre o prestigio dos homes em term barbas p:; a agradar as mulheres do Baixo Amazo- nas oitocentista. Eu tomei a li- berdade de alacbh-lo para possivel leitura (soube que em breve seri publicado pela organizagilo do Encon- tro). O outro trabalho foi minha monografia de especi- alizacalo: A clialtica da mn tutice e da civiliclade: Uma lei- tura critical dos romances de Inglis de Sousa" que defen- di no NAEA. Nela eu faco urma analise da relaaio entire cida- de do interior e a capital a p; tir de O Coronel Sangrado e de O Cacaulisla. Por fim, quero elogi: sua agaz percepgc analise ldo entrecho que o sr. interpret como a mastulrbaafI o cia "afi- lhada" do tenente Ribeiro. Que- ro, tambem, reforiar a neces- siclacle cda ecligio clas obras lde Ingl0s de Sousa (de fonma conm- petente e de boa qualiclade). Ap6s 145 anos de nascimento e 70 anos de sua more (acon- tecidos no ano p; ado) 6 tem- po de relermos ou melhor fazi-lo ser descoberto por no- 'as gerac~es. Marcus Vinicius P.S. Houve um erro de im- pressiao no ano da primneir publicaflo tie O Cacaulista, que ocorreu em 1876 e nlo em 1866. .iI.il..'i-, -, pelo lanCamen- ,u da Agenda Amaz6 nica. Sou leitor de tuclo que voce escreveu no Jornal Pessoal e agoir a Agenda. (Ali , depois de pagar trs reais, sen- ti-me obrigaclo a ler tudo.) O seu primeiro artigo na Agenda levou uma pergunta como titulo: "A ciencia estran- geira apenas serve como arma da capital?" Sua resposta (erm duas palavras, nao apenas) foi muito timicla p: a alguem como voce que conviveu corn cientistas do mundo toclo. Eu diria que os cientistas podem brincar de Deus, m: este e o unico jogo que vale a pena. Voce ja sabe quern e que banca do cliabo nesta hist6ria. Concorclo que a regiao aincda estai t espera dos bons resulta- dos clue a ciencia pomnete, mas nunca cliiia que a ci&ncia age contra o bem dca Amazoni: Em Macapf na reuniato de PROBIO-Amaz6nia, you apre- sentai-lo ao Joachim Adis, do Institute Max-Planck p: a Lim- nologia. Ele pode ser o origi- nal ca figure no seu artigo. Abnraos, William Leslie Overal, Departamento de Zoologia, Museum Paraense Emilio Goeldi l.ouivavel proposta, agenda amazinica. Felicito o editor pelo tema abordlaclo na edigio original. Para umra fu- tura "volta ao tern: incluinclo o seculo XX, pode, eventual- mente, contar corn o acervo de nosso Instituto. Em frente! Manoel Soares Pesquisador/Instituto Evan- dro Chagas MINHA RESPOSTA 1) IF muito bomn fic saben- do que alguem estfi estudancdo auto paraense da impor- t :ncia de Ingl0s de Sousa corn a aplicacio de Marcus Vinicius. Naio s6 se aprofundando no texto do author, mas penetran- do no mundo no qual ele vi- veu e em sua personalidadce. Pelas informag6es que anteci- pou na carta, Marcus tern tudlo para produzir uma boa te. 2) Naio estou certo de ter- me feito entender por Willi: Overal. Nao escrevi que os ci- entistas agemn "contra o bem da Amaz6nia" Pelo contrn re- gistrei o cdtbito que n6s todos temos para corn eles, na ori- gem de muitos los nossos co- nhecimentos e opinioes sobre a regifo, nmesmo que nem sem- pre identifiquemos a paterni- dacle. Ao abordar a quest tinha como certo apresentar aos meus leitores um sacldo francamente positive panr ci&ncia, clescontaclos todos os desacertos e anipulacies. Julguei, por fim, estar comba- tendo os efeitos nocivos de um preconceito nacionalista vizi- nho.da xenofobi afastando de n6s um instrument preci- oso pan: ajudar no piesente e no future cda Amazonia. Quanto aos tres re: -spe- ro que todos sigam o exemplo de Overall, comprando a Agenda e lendo-a integral- mente p:; a depois, se for o caso, cliscordcar cela, avangan- do e superando-a. O que, bem ntio e nada dificil. Mesmo porque sua melhor proposta 6 apen: abrir o debate e nlo encerri-lo. Mesmo a tris reais (serfi tao caro assim?) Quanto a Joachin, Overal, ficari p; outra vez: nfao fui chamaclo Macap(, s6 ado. 3) E precioso o oferecimen- to (e o estimnulo) de Manoel So: Numna pr6xima volta ao tema os arquivos do Instituto Evandro Chagas ser-o usaclos. OUTUBRO/ 1999 AGENDA AMAZONICA 9 BIBLIOGRAFIA AMAZONICA Regat o: o polemico mascate fluvial 1m. embarcacao de madeira de p",-queno calado, da metade ate I popa coberta por um toldo de palha ou de madeira, forrada - corn uma lona por fora. Por dentro, ao long das paredes, prateleiras repletas de .~. mercadorias: peas de chita vermelha, caixas de bot6es, agulhas e alfinetes es- petados em papel, carret6is de linha, an- z6is, pentes, j6ias de latao, 6leos, lenci- nhos baratos bordados, lampi6es a que- rosene, navalhas de barba, tergados, ole- ogravuras de santos, baralhos, figas, cheiro para cabelo, brilhantina, colares i de contas, chumbo grosso, pratos de , folhas de aluminio, tabaco migado, ca- I chaga, care em conserve, came seca salgada em mantas. No estrado do pouo da embarcacgo, arroz, aticar, sal e farinha. Desde 1668 esse barco padrao percorre os mais distantes rios do interior da Amaz6nia, preenchendo as necessidades de consume de uma populagao desassistida e contectando-a a Bel6m ou Manaus, as metr6poles das duas grandes metades amaz6nicas (a oriental e a ocidental), atrav6s de uma das criag6es mais tipicas da regiao: o "regatao", comerciantes das beiras de rios, paranis, "furos", igarap6s ou onde mais houver alguem disposto a trocas. Durante varios anos os citadinos belenenses, que freqiientavam um original restaurant no bairro da Sacramenta, justamente cor o nome de "Regatao", podiam ter uma id6ia aproximada de como eram esses barcos de mascates. O dono do restaurant fez uma recriagao estilizada, mas que permitia ao seu client desinformado sobre as coisas do "sertao" amaz6nico, sentir-se como se estivesse num regatao. Mas, seguindo o caminho de sua inspiraSgo, o restau- rante "Regatao" fechou as portas, escancaradas para McDonald's, China in Box, Pizza Mille e quetais. O escritor portugues Alexandre Herculano explicou que a expres- sao designava aqueles membros do povo portugues que realizavam o com6rcio a retalho, desprezado pelos nobres. Transposto para a Amaz6nia, o regatao foi, durante o seculo XVII, um vendedor am- bulante at6 se transformar em mascate fluvial. A principio, apenas o portugues. Depois vieram sirios, arminios, marroquinos e turcos. Ate que os natives tamb6m se incorporaram a essa atividade, con- fon-e atestam as biografias dos proprietarios de algumas das princi- pais rec es de supermercados de Belem, que comeearam cor o co- mercio nos rios a partir do Baixo Tocantins. Hoje, corn seus derra- deiros dias marcados pela expansiio da rede de comunicacoes e transport, apenas brasileiros restam no com6rcio de regatao. 10 O UTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA Mas ele ji desempenhou nao apenas um important papel eco- n6mico (como o element principal de trocas e o intermediario de uma voraz exploragao mercantil), mas tamb6m social, na condicgao de veiculo da modernizagao e mensageiro das noticias. Situdi-lo no tempo e no espago 6 a pretensao do livro do escritor amazonense Mario Ypiranga Monteiro (O Regatao, noticia historica, Eldiges Pla- nicie, Colegilo Muiraquita, Manaus, 1958, 148 paginas), langado ha 40 anos e necessitado de uma reedigco. Um dos poucos trabalhos sobre um tema tao rico quanto esque- cido, o livro, apesar dos seus erros, procura desvincular-se das vi- s6es tradicionais, superficiais e preconceituosas sobre esse mascate da selva. Freqiientemente elas resultaram em moralismos, como o de DomingosJaci Monteiro. Em 1872, ele condenava os regat6es por serem nocivos "a moral e as relao6es sobretudo dos tapuios com os brancos", arraigando "a desconfianga no animo daquela gene ignorance", persuadindo-a "de que a verdade 6 um vicio, a mentira uma virtue, o calote um santo conceito, a mi-fe um ever e o abuso um direito". M~rio Ypiranga reconhece que, pela sua fungao de penetragio e devassamento, o regatao foi um mal necessario. Justificava sua exis- tencia corn tr&s motives: 1) a indole contratual ou mercantil do _. portuguis, que inaugurou a atividade; 2) a inexistencia de meios de transport * 1 cobrindo a extensa area navegivel; 3) em conseqtincia, por desempenhar o papel de verdadeiras estradas aquaticas. .. Em principios do s6culo passado, havia mais de 100 embarcaoges praticando o re- gatao na Amaz6nia, segundo a visafo do c6- Snego Andr6 Fernandes de Souza, "varren- i do das vilas e lugares todos os indios, cu- jos bragos se deviam coadjuvar os Nacio- z, nais sem que as autoridades possam obstar. por nao haver Lei...". Trocando peles, drogas, especiarias ou bonacha por alinentos, quinquilharias e fer- ramentas que tinham seu valor multiplicado por uma balanga viciada, uma conversa insinuante ou abundantes doses de cachaga servidas a indios e caboclos no conves da embarca- cao, os regat6es eram mal vistos pelo que hoje se chamaria de "siste- ma", mas por outros motives, que soarao familiares mesmo nos nos- sos dias (e particularmente numa cidade inundada por camelss. O president da Capitania do Rio Negro (hoje, o Estado do Amazonas), Tenreiro Aranha, acusava em 1852 os regat6es de "iludir a singeleza dos indios, embrutec&-los e concentra-los ain- da mais; e, com toda a sorte de malversbes, fraudes e cizanias, afugenti-los dos povoados e exauri-los de tudo quanto p&los matos podiam apanhar para os trificos desses atravessadores, que muitas vezes eram vitimas, as mfros infensas desses mesmos selvagens que iam embrutecer, ao pass que o comercio mais licito e regular dos povoados de dia em dia ia desaparecendo, e sendo naturalmente prejudicado, por nao competir com o da- queles extraviadores". Alem do evidence problema econ6mico criado pela competition entire as duas formas de comercio, a informal e a formal (que seria resolvido a media que o comerciante regular das cidades financia- va e cada vez mais controlava os regatoes), havia uma conotagao political nessas preocupac6es. O regatao, cor seu comercio illegal, oferecia uma possibilidade (ao menos de fuga) ao indio e ao caboclo. Do ponto de vista do govemo, isso representava uma brecha no rigido e severe control policial. Corn as cacha:as fornecidas pelos regat6es, surgiam ou eram incrementadas as festas, que davam vazao a revoltas, algu- mas ensagOentadas cor as armas tambem vendidas pelos rega- t6es. Era compreensivel que o governor procurasse fechar os dois canais de suprimento. A aura demoniaca cor que o regatto era cercado naio o isentou de comegar a pagar impostos para o municipio em 1842. Onze anos depois, esse tipo de comercio ji estava legalizado. Era para "apa- nhar o regatao na rede de imposigoes drasticas e liberar o comer- cio", segundo a ;,.nfil...it .1 apresentada. Algumas autoridades como o ja entrlo deputado Tenreiro Ara- nha, que chegou a elaborar toda uma legisla~fo repressive conti- nuaram a guerra ao regatao, mas sua exist&ncia estava assegurada, como explica Mirio Ypiranga: N, mli.i 6poca em que os recursos financeiros eram minguados, a agricultural constituia manchas disseminadas aqui e ali, o sistema de transportes nulo, a industria raquitica (existiam olarias para a fabri- caiao de telhas e tijolos, fabricas de sabao e de chapeus do Chile, manufaturagio de ovos de tartaruga para a iluminagio pOblica e particular, indistria textil rudimentar corn teares manuais, pecuaria insignificant reduzida aos campos de Rio Branco), a indole contra- tual cevia manifestar-se em quase todos os habitantes na forma do pequeno com6rcio beira-rio ou de ambulante, explorado polos es- trangeiros, com especialidade pelo portugues". Os pontos mais procurados pelos regat6es relata Ypiranga, fa- zendo o sumario das principals atividades produtivas da 6poca - eram as feitorias da salga de pirarucu, da camagem do peixe-boi, os tabuleiros de viralao das tartarugas, cacauais, seringais, malocas de indios aculturados, pequenos agregados humans dentro dos lagos. Os mais ferozes inimigos do regatio "eram e continual sendo os seringalistas e os pequenos-comerciantes de beira-rio, visto como, aceitando borracha e outros produtos, leva os seringueiros ao des- vio das peles de borracha, etc., desviando o lucro certo do patrao". Apesar de toda a -i.. ,,- i.i..i. ei e do 6dio que provocava, o rega- tao teve uma presenga marcante e crescente a partir do s6culo XIX. Talvez porque, alcancando lugares inacessiveis a empresa comerci- al, estavel e legal, acabava fazendo chegar ate elas todos os produ- tos, nomnalmente inexploraveis, por um prego altamente compensa- dor. Afinal, o regatao era apenas um intermedirrio que adquiria as mercadorias para a troca nas casas de aviamento, em Bel6m e Ma- naus, pelas quais era financiado. O comercio formal quase se tornou indissociavel do comercio informal, enriquecendo pessoas e naturalmente fazendo amigos. Alexandre de Brito Amorim, que chegou a ser comendador, deputa- do provincial e nome de rua em Manaus (em 1887), enriqueceu no comercio, provavelmente ligado ao regatto, tomando-se em seguida concessionario de uma poderosa linha de navegac-;o. Um primo dele, regatao, foi preso por explorer um indio numa troca inescru- pulosa e levado a julgamento. Mas o tribunal "unanimemente o ab- solveu do crime ign6bil e provadissimo de que era acusado". Os impostos que os regatoes pagavam (chegando a patamares elevados) sofreram convenientes rebaixamentos e a justica fazia vista gross a crimes como o que Isidoro Jose Elias praticou em 1857: ele encurralou nove indios, obrigou-os a correr separada- mente e os fuzilou, "como por passatempo", esquartejando o que sobreviveu. Muitos indios ficaram definitivamente dependents do regatao, endividados por manobras habeis. Quando a exploragio da borra- cha comecou, na segunda metade do sdculo XIX, o regatfio serviu de intemrediairio ate o surgimento da empresa estavel. A partir dal entrou em decad&ncia. Hoje, quando o meio principal de transport se transferiu dos rios para as estradas de rodagem, 6 apenas um marco e uma lembranga acusadora. Alerta para a repeticao do fen6- meno, sob outras fonnas, ja naro mais apenas no rec6ndito hinter- land, mas nas grades e empobrecidas cidades amaz6nicas. DATA 0 come o da Mendes Trinta e oito anos atris Osv.... .. I -.:n. 1- I - blicou o primeiro anuncio d.,i -, "I '.I,: r..I i',- blicidade, que viria a se torn.. .i i I I iiir ., . premiada ag nncia de propa;.-.ii,.l I ..I \l, i. ..- nia, de padrafo international I.Ii l, .I...L i. I i- nalismo, praticado com brillb. n i- I. "'.- ' A Provilcia do lPard (untamcrn i'.. .. .'Iii .,ii nI ,. Armando, que se desviou p.,.i .i p..',r i.,i ensino e a pesquisa), Oswald.. \l.:n..i .... ni.- va corn 18 clients particular,.- 11. 111..' 1 : i- no em seu portfolio inaugu: 11 H .i- -. i-i n.- , depois, nenhum desses (li. r ii., pI ,'n i .. mant6m na relagio da ag&n.. I '. 1 PI .I .i: I - Ihe: nenhuma dessas 18 empi,.: .i i i .1I I I I - breviveu. E o tal do "custo a, ii. rn'. .1 .. n- sumir i. Il'.:.. ., e corporal oe -& :m -uii.ir. Ia. critical. Mas a de Mendes e dck u.i .1,I.n..1. p.'r- manecem na linha de vanguard, l. III pul, ii~d I- de no distant Norte. Corn r:imr. .. .. I-i. ', no seu acervo. -t r I. . "'1 P.*, 4 I , .0 ' .9' ,) ... r r r I. "'* :K;~Ba. *, 44 I / *1 ~ *, / 9." 24 I " I ^r ."'; *- "; I. ( -XA . ;t'. OUTUBRO/1999 AGENDAAMAZONICA- 11 - I" -----~ ~~ ' '"' ~m~ ':I T Arquivo vivo A forja da political estudantil S O estudante Irawaiclyr Rocha foi o orador official da sessao solene de encerramento do IV Conse- SIho Regional dos Secundaristas, realizada no dia ,.^ i 21 de setembro de 1953, no Teatro da Paz, em .lcA-tli Bel6m, corn a presence de muitas autoridades. Em "brilhante improvise" de mais de uma hora de dura 'o, Ira- waldyr "prendeu a aten io" dos presents. Reivindicou a cons- trugfo cda Casa do Estudante e uma sede para a Uniao dos Estudantes dos Cursos Secundaristas do Pari (UECSP). Elo- giou tambem o governador do Estado, o general (de Ex6rcito) Alexandre Zacharias de Assumpaiho, eleito pela oposi;,lo em 1950, quando derrotou o caudilho Magalhtes Barata. Disse que a administraafo estadual vinha ampliando a rede de ensi- no, principalmente no interior, "onde estto sendo criados, constantemente, novos 6rgflos escolares" Em setembro de 1953, o estudante Camillo Monte- negro Duarte, representando a Faculdade de Di- reito, foi eleito president da Unifio Academici I'.iijcnce (UIAP), que congregava os universitarios -.- .. do Estado. Liderando a chapa Movimento Deon- tologico Universitario, ele venceu, por 133 votos, a Roberto Onety Soares, da Escola de Agronomia, pertencente a Ala Democtritica Universitfiri A apuragfio foi presidida pelo uni- vcrsitariio Nelson Ribeiro. A nova diretori a UAP ficou assim depois da elegito: pre- sidente, Camillo Montenegro Duarte (Faculdade de Direito); 1" vice-presidente, Alexandre Miranda (Medicina); 2" vice-presi- dente, Nilo Leite Nassar (Engenharia); secretirio-geral, Walmir Hugo Santos (Agronomia); 1" secretirio-geral, Cavalcanti (Servi- go Social); 2" secretario, Isaac Benchimol (Farm'icia); 1" tesou- reiro, Gleidson Figueiredo (Economia); 2' tesoureiro, Edyr Brito (Odontologia); bibliotecirio, Jose Poungartten Lima (Economia), e orador, Osvaldo Nasser Tuma (Direito). A chapa dleTotada era formada por: president, Roberto Onety Soares; 1' vice-presidente, Almir Gabriel (Medicina); 2' vice-pre- sidente, JoseJ. H. de Sousa Moita (Engenharia); secretirio-geral, Cicero 3ordalo (Direito); 1" secretirio, Jose Maria de Sousa (Me- dicina); 2' secretuirio, Adalberto de Souza Ribeiro (Farmnicia); te- soureiro, Hl6io Smith da Silva (Economia); 2 tesoureiro, Arlete Uchoa (Enfemiagem); biblioteciirio, Dora de Melo Dias (Servigo Social), e orador, Ant6nio Gongalves (Odontologia). Logo depois de ser reconhecido como vitorioso, o novo president da UAP prometeu, como um dos maiores compro- missos de sua diretoria, construir a Casa do Estudante, "velha aspiral('o dos estudantes paraenses" A festa da vit6ria foi na Sorveteria Americana. 1) Camillo Montenegro Duarle, prosseguindo a mnililtncia politica, se tornaria clepuladlofederal. Mesmo perlencendo ao part ido goer iista, Joi cassado pelos militares. Oriundo ca es- querda democrdlica crisla, era considerado um dissident na Arena. Volon contra a cassacdo do ddeputado Mdcrcio Moreira Alwes, da oposigao, exigiia pelos mililares. A recusa cistolo o Ao falar logo em seguida, o governador empenhou sua palavra de honra de que ajudaria a construir a sede da UECSP, por ser uma causaa nobre", provocando aplausos do audit6- rio. Irawaldvr Waldner de Moraes Rochafoi, depois, vereador de Belem, cargo que ocupava, gragas a sua vibrant alividade estudantil, quando desagradou os militares estabelecidos nopo- der, em 1964, porcriticara Aerondulica. Encerrou aiuma carneirapolitica quepoderia tersido mais extensa. Inlegrou-se aogmp o o tenente-coronel Alacid Nnes, acompanhando-o nas cduas vezes em que foi governador do Estado. Ocupon vdcrias funoS6esptiblicas, como advogado, professor e burocrata, a ilti- ma delays le presidenle do Tribunal de Contas dos Municipios (pela segunda vez), que cdsempenbava quando morreit, emnju- nhode 1997, aos62anos. fichamenlo do Congresso Nacional e a edcliodo Alo Insliltci- onal n" 5, que encerrou um period de vida republican no Brasil ao suspender todas asgarantias e direilos individuals. Foi afoirnalizaci o do regime ditalorial, qualro mess depois do golpe de estladco que derrubou president Joao Goular Hoje, Camillo exercea advocacia em Belem. 2) Nelson Ribeiro tern no sen ciuiculo luna das, mais ex.tensas e bemn sucedidas carniras de tecnoburocrala no [Parc. Tambmn Jrnnado na nilittclia social crist, foi president do Bancodo Estadco (do Par'c, secreicdrio cde ktadco e miinis/ro ca refoinna agri- ria na administraidoaj]ose Sanrney, depois de iumapassagem ini- cialpela iniciativa privada, lendo sido uin dos diretores da Paraense Transportes Adreos. Doisfilhos, Paul'o ec Mrio, segui- ram a trilba aberta pelo pai no sernio piiblico. (Paulo agora no Minisldrio cdajuisli/a e cMrio no Banco do Estaco do /Parci. 3) Walmir Hugo dos Santos oi secretario de agricllltura do Eliado. 4) Gleidson Figteirecdofoi superintendent cla prevcid/ncia social no Pard. 5) Osivaldo Nasser Tirna, alem de empresdrio, participa ati- vamente nais ntic/acde classes. E director da Associacdo Co- mercial do Pard. 6) 0 atualgovernadorAlmir Gabrielpode tersofrido, como candidate a I" vice-presidente da UAP, nutma chapa comn no- mes que brilbaram menos do que a clos adversrios, saiiprimei- ra derrota electoral 43 anos ardis. Sua participagdopoli/ica como academico de medicine mostra, enlretanio, que ele ndo e nenbumi ne(filo no assiuno. 7) Dos 20 candidates inscritos nas duas chapas, apenas dois eram do sexo feminino, disputanco os cargos de 2' lesonreiro e biblioteccirio, mas na chapa derrotada. Os estclantes que dis- putaram a eleic/o eram provenientes de noveJfculdades. As maispresenlesforam Direilo, Medicina e Economia, corn IrWs represenlantes cada im a. 8) A Soweteria Americana, 1n dos points da cpoca, ficava na rna Qutinino Bocaitiva, em frente ao Coldgio Moderno (hoje, campus l da Unama). Agenda Amazonica Traiv, ';a Iknjamin Constlni 845/203 Ikcinl/PA 66.053-040 c-nuil: jornuml@aniuzon.cunl.br Tclcfonc.: 2237690/2417626 (faix) P'r(xluKio gnifica: luilzntoniolcfariapinto |
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