Agenda amazônica

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Material Information

Title:
Agenda amazônica
Physical Description:
v. : ill. ; 33 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Agenda Amazônica
Place of Publication:
Belém, PA
Publication Date:
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Amazon River Valley -- History -- Periodicals   ( lcsh )
Periodicals -- Amazon River Valley   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Ano 1, no. 1 (set. de 1999)-
General Note:
Title from caption.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 43187939
lccn - 00229002
ocm43187939
Classification:
lcc - F2546 .A26
System ID:
AA00005009:00002

Full Text











Ano I N0 2 Belem, outubro de 1999 R$ 3,00 L c i o F v i o Pi n t o

Ha 20 anos os .... ",".
grandes
projetos "
comegaram a
funcionar. Eles
mudaram a
fisionomia da.
Amazonia, Al --
incorporando-a
ao mercado
mundial. No
balango dos
pr6s e dos FE W',.I
contras, seu
saldo 6 mesmo favoravel? A data pode ser uma oportunidade
para que os supostos beneficiarios fagam suas pr6prias contas.
Sem isso, como os troianos da lenda, podem estar recebendo
um verdadeiro presente de grego".


GRANDES PROJETOS


Cavalos de Troia na Amaz6nia


inr, anos atr~s entravam em operagio os dois pri-
mciros dos seis "grandes projetos" da Amaz6nia,
I.l:.ilizados e implantados ao long da decada de
"i de Porto Trombetas saia o primeiro navio carre-
,.I,'ido bauxita e em Munguba era feito o primeiro
embarque de celulose. Naqueles dois portos, ambos na mar-
gem esquerda do rio Amazonas e no Estado do Para, munici-
pios de Oriximind e Almeirim, haviam sido instalados os pro-
jetos Trombetas e Jari, o primeiro comandado pela Compa-


nhia Vale do Rio Doce, o segundo pelo milionirio americano
Daniel Ludwig.
Por coincidencia, ambos se originaram no mesmo ano, 1967.
Mas nao comegaram juntos. Um ano antes, em 1966, duas multi-
nacionais dos Estados Unidos a poderosa United States Steel,
nfmero um da siderurgia mundial, e a Union Carbide inicia-
vam suas pesquisas geol6gicas do outro lado do Amazonas, mais
de 500 quil6metros ao sul da sua margem direita.






Tanto as gigantes do ago (US Steel, Bethlehem Steel e Union
Carbide) quanto as "irmas" do cartel do aluminio (Alcan, Al-
coa, Reynolds) decidiram se langar ao trabalho de campo na
Amaz6nia por causa da descoberta feita num territ6rio que tam-
b6m pertencera ao Pard ate ser transformado, em 1943, no Ter-
rit6rio Federal do Amapi.
A descoberta de uma pedra preta, recolhida num leito de rio
pelo caboclo Mario Cruz, chegou aos ouvidos do jovem em-
presario mineiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes, ge6lo-
go por formacao. Ele repassou a noticia a empresa n 2 do ago
nos EUA, a Bethlehem Steel. Logo estariam associados na In-
dustria e Com6rcio de Minerios, a empresa que cubou as jazi-
das de Serra do Navio.
Em 1955, a Icomi comegou a mandar manganes para a Am6-
rica, mantendo um fluxo annual em torno de um milhao de to-
neladas durante tres decades. Garantiria, assim, uma estrat6gi-
ca reserve de minerio para a siderurgia americana, dependent
at6 entao das importag6es da Africa. Esgotou a jazida antes de
vencer o prazo de concessao de 50 anos do governor federal. O
Amapi ganhou pouco ou quase nada durante o tempo de vida
iltil de sua rica jazida de manganas. Hoje Ihe restam os buracos
das excavac6es e um acervo que reluta em assu-
mir. E praticamente uma massa falida. N.
A partir da descoberta do manganes, vital para \
a indistria pesada dos Estados Unidos, as hist6-
rias sobre a abundancia de min6rios escondidos
no subsolo amaz6nico deixaram a moldura das
lendas para se tornarem alvos reais, sujeitos ao
calculo econ6mico. Antes do manganis do Ama-
pa, as corpora6ces que estavam mais avangadas
no dominio de informag6es sobre a regiao havi-
am dirigido suas antennas para o petr6leo. Afinal,
estava na Amaz6nia a maior bacia sedimentar do
planet, em cujas jovens entranhas o hidrocar-
boneto se acumula. Quando, em 1953, jorrou 6leo
em Nova Olinda, no Amazonas, o enredo parecia indicar para
a descoberta de uma grande bacia petrolifera.
Esse sonho de riqueza imediata, capaz de substituir a ainda
ressonante era da borracha, logo se frustrou. Nao que inexistis-
se petr6leo na regiato. Mas um litro de gasoline era mais barato
do que um litro de aigua mineral. Nao compensava o capital
exigido para alcangar as areas de potential, no meio da flores-
ta (ou, em outros locais do mundo, em aguas profundas). Nem
justificava a busca de uma nova tecnologia, o que so ocorreria
duas decades depois, quando o prego do petr6leo disparou, as
melhores perspectives se deslocaram do continent para o mar
e uma nova ferramenta foi desenvolvida, o helic6ptero.
Sem poder mirar economicamente o petr6leo nas areas mar-
ginais da calha central do Amazonas, as empresas de linha de
frente do mundo desviaram suas atengoes para locais que per-
maneceram fora de alcance em trs seculos de colonizatao
europ6ia na Amaz6nia: as "terras altas", no centro da floresta,
distantes dos cursos navegiveis dos rios, que constituiam os
limits da penetraclao colonizadora. De formacrao geol6gica mais
antiga, eram mais favoraveis 's mineralizagoes.
Os brasileiros ja sabiam que elas eram mais atraentes, como
demonstra o Projeto Araguaia, iniciado na metade da decada
de 50 como o maior levantamento geol6gico ate entao realiza-
do, cobrindo -i;i I mil quil6metros quadrados no interfllvio Xin-
gu/Araguaia, no sul do Para. Mas nao dispunham de recursos
suficientes ou adequados de capital e tecnologia para vencer
as dificuldades da regiao e suas caracteristicas especificas.
O ri sultado e que as multinacionais americanas superaram o
atraso de 10 anos na corrida a Carajas, encontrando dep6sitos
de min6rio de ferro e manganes na frente de todos, apesar de
os nacionais terem tido primeiro informag6es esparsas sobre
essas jazidas, que naro souberam bem interpreter e operaciona-

2 CUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA


lizar (as clareiras no alto das serras de Carajas foram conside-
radas dep6sitos de calcario). Para esse feito, tanto a geoquimi-
ca e a fotointerpretagio quanto o helic6ptero (para alcangar os
in6spitos plates) foram elements fundamentals.
Os estrangeiros, porem, sabiam exatamente do que necessi-
tavam e como realizar seus interesses, mesmo tendo diante de
si um conhecimento ainda precario sobre a Amaz6nia. E o que
pode-se verificar, logo em seguida ao fim da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), pelas atividades da Comissao Mista Militar
Brasil-Estados Unidos, que patrocinou um levantamento aero-
fotogram6trico da bacia sedimentar.
Depois, o Hudson Institute, de Nova York, props a cons-
trugao de uma grande barrage no trecho onde o Amazonas
6 mais estreito, em Obidos, para former um grande lago inte-
rior. Essa agua acumulada serviria a uma hidreletrica (de 100
mil megawatts, oito vezes Tucurui em sua etapa final), mas
tamb6m daria acesso (por agua) as terras altas do "sertao"
amazonico, onde estavam escondidos os minerios, os recur-
sos naturais que mais imediatamente poderiam entrar no cir-
cuito econ6mico international, na forma de "commodities"
ou mat6rias primas.
A bauxita era um deles, acumulado as mar-
gens do rio Trombetas, a mil quilometros da foz
do Amazonas. Em 1972, a multinational cana-
dense Alcan (Aluminio do Canad'), uma das in-
tegrantes do cartel das seiss irmas" que domina
esse mercado, submeteu a Sudam (Superinten-
S dncia do Desenvolvimento da Amaz6nia) o pri-
meiro dos "grandes projetos" jp completamente
definido, o da Mineracao Rio do Norte.
Seis meses depois de aprova-lo, como o maior
de todos os empreendimentos incentivados pelo
governor federal ate entao, a MRN suspended a
implantacao da mineracao de bauxita. Alegou que
o mercado international sofrera uma brusca trans-
formacnao, afetando a rentabilidade do empreendimento. Para
salva-lo, a (aquela 6poca estatal, hoje privatizada) Companhia
Vale do Rio Doce entrou na sociedade, assumindo o control
do capital, que at6 aquele moment estivera inteiramente corn
a Alcan. Outras multinacionais tamb6m foram atraidas.
Formou-se uma sociedade inusitada: todos os s6cios eram
produtores de aluminio. Logo, o que mais Ihes interessava
era obter a mat6ria prima, a bauxita, em melhores condig6es
de volume, qualidade e prego. Quanto menos ganhassem
como mineradores de bauxita, mais ganhariam como trans-
formadores de aluminio. Algo como uma sociedade de rapo-
sas para administrar um galinheiro (o surpreendente 6 que a
MRN faria o Projeto Trombetas se tornar o primeiro dos gran-
des a se tornar lucrative).
A transformaiao da Rio do Norte tambem assinalaria uma
outra novidade: as multinacionais nao faziam mais questiao de
exercer o control nominal do capital das empresas que forma-
vam. Passavam-no sem resistencias ao capital national. Como
nao havia poupangas privadas suficientes para a contrapartida,
o Estado entrou na atividade produtiva, o que explica tantas
empresas publicas em areas de ponta e em frentes pioneiras.
Elas poupavam seus parceiros estrangeiros de entrar cor seu
bem mais nobre: o capital de risco, dinheiro tirado do proprio
bolso ( "a parte mais sensivel do corpo humano, como ensi-
nava, cinicamente, o hoje deputado federal Delfim Neto, o bru-
xo do "milagre econ6mico").
O Estado tamb6m nao era um mar de capital. Mas como se
movia pelo impulse categ6rico geopolitico de grandeza, toma-
va emprestimos internacionais a larga ou os avalizava, ofere-
cendo os recursos do tesouro national como garantia para os
banqueiros internacionais, repletos de petrodolares vadios na
epoca, entregarem dinheiro as empresas privadas. O resultado






e que os seis grandes projetos amaz6nicos, todos situados no
Pari (Carajas, Tucurui, Albras, Alunorte, jari e Trombetas), res-
pondiam por 15% da divida externa brasileira quando os milita-
res devolveram o poder aos civis, em 1985.
Um pouco antes da reorganizagiao emergencial da Minera-
cao Rio do Norte, a mesma crise atingiu a Companhia Meridio-
nal de Mineracgio, o nome atras do qual estava a United States
Steel na Amaz6nia. A empresa era dona exclusive da melhor
jazida de minerio de ferro do mundo, a de Carajais. Mas se
recusou a iniciar a fase executive do projeto pretextando ex-
cesso de oferta no mercado. Na verdade, queria continuar ope-
rando cor sua mina na Venezuela. Carajas s6 entraria quando
esse dep6sito se exaurisse.
Mas Carajas, corn seu volume de minerio de ferro asseguran-
do moeda forte para o detentor da maior divida externa do
mundo, era vital para o projeto do Brasil Grande. A CVRD,
dona do quadrilatero ferrifero de Minas Gerais, responsivel por
20% do minerio comercializado no mundo, foi convocada pelo
governor military para integrara na sociedade. Entrou no neg6cio
em 1969, mas sua convivencia corn a US Steel foi conflituosa
ate 1977, quando a multinational americana saiu da Amaz6nia
Mineracao, deixando a Vale sozinha.
Dizem que a Steel resolve blefar. Estaria con- N
vencida de que os 'i.i-ik: ll' 's, sozinhos, nao con-
seguiriam abrir ainda mais mercados para o seu
minerio de ferro num segment de oferta abun- .
dante. Se realmente agiram assim, esqueceram dos
japoneses. Eles fizeram de Carajds o principal cen-
tro supridor de materia prima para os altos for-
nos de suas siderurgias. i no Parai que essas si-
_derurgicas vem buscar 15% do minerio de que
necessitam para funcionar. O sol que nasceu ver-
melho no horizonte de Carajis, bem antes do PT, _
era made in Japan.
Implantar os gradess projetos", mesmo em cir-
cunstancias desfavoraveis, era uma determinaglo do governor
military. O projeto do "Brasil Grande", com taxas de desenvolvi-
mento em torno de 10% ao ano, alcangadas no auge do "mila-
gre econ6mico", gracas ao ingresso de uma enxurrada de dl6a-
res agenciados pelos banqueiros europeus e americanos, so
poderiam ser sustentadas se uma nova fronteira produtiva fos-
se incorporada, compensando a insuficiente poupanya nacio-
nal. Essa era a missAo da Amaz6nia: tornar-se uma "usina de
d6lares". Crescer a taxas ainda mais elevadas do que as do
restante do pais.
Para isso, tinha que oferecer produtos desejados pelo mer-
cado international. Precisava alcangar condic6es de compe-
tir cor outros fornecedores. Necessitava de parceiros para
sondar compradores e trazer tecnologia. E era carente de ca-
pital, muito capital.
Um regime forte, com control rigidos sobre toda a socie-
dade, p6de providenciar todos os components para esse
super-bolo, que cresceria sem parar ate, num future longin-
quo, powder ser servido a todos os convivas, nao apenas aos
convidados especiais, os "grandes projetos". Todos eles es-
tao operando.
Esse 6 o lado positive da engenharia montada pelos cinco
governor que se sucederam entire 1964 e 1985, fazendo da "in-
tegra;lo da Amaz6nia" umr mote constant de seus programs,
inalterado esperar de todas as alterag6es de contelido que pro-
moveram em relaIalo a outros itens programriticos. Mesmo em
pontos distantes do sertao, entrando em mercado congestiona-
dos, os "grandes projetos" entraram em operacao commercial entire
1979 e 1985 (apenas a Alunorte foi retardada em 10 anos, en-
cerrando o ciclo). Mas a que custo?
A apurafio esti para ser feita ate hoje. Em primeiro lugar,
do custo final de cada um desses "grandes projetos". O caso


mais dramatico certamente 6 o da hidreletrica de Tucurui. Quan-
do comecou a ser construida, em 1975, a usina deveria sair por
2,1 bilh6es de d6lares. Quando foi inaugurada, em 1984, ja
estava em US$ 5,4 bilhoes. O saldo atualizado nao deve estar
em menos de US$ 9 bilh6es (o equivalent a 150 meses de
receita pr6pria do Estado do Pard). Mas a hidreletrica ainda
nao foi inteiramente quitada porque hi d6bitos de construcgto
pendentes, como admitiu no mrs passado o ministry de Minas
e Energia, Rodolpho Tourinho.
O Projeto Ferro Carajais foi o oposto: seu custo inicial, de
US$ 3,5 bilh6es, foi reduzido para US$ 2,9 bilh6es. No entanto,
ainda 6 dificil avalia-lo porque a CVRD acabou extinguindo a
Ain.i,',ni.i Mineragao, a empresa especificamente vinculada a
Carajais, juntando as contas do seu Sistema Sul a contabilidade
global. Isso ocorreu exatamente no moment em que comegou
a extra;ao de minerio. Desde entao, ficou impossivel para ana-
listas externos desagregar a conta de Carajas do balango global
da empresa. Tudo ficou homogeneizado num caixa 6nico.
Mas um nmrnero impressionante ajuda a avaliar Carajis. Quando
o Banco Mundial avalizou o projeto, concedendo-lhe US$ 300
milh6es (o dinheiro em si era menos important do que o endos-
so do BIRD, senha para o sim de todo o sistema
financeiro international e para os compradores de
minerio), o ponto de equilibrio para o projeto se
tornar auto-sustentavel era de US$ 35 por tonela-
da. Hoje, a Vale vende seu minerio a US$ 15 a
S tonelada. Por isso, fez o limited de produ;iao pular
S de 20 milh6es de toneladas para 43 milh6es. Pro-
curava compensar a baixa unitaria de preco corn
ampliagio de volume de venda.
Na maioria dos casos, o saldo devedor dos
financiamentos contraidos para tornar possivel os
grandes projetos e a espinha que permanece em
suas gargantas contTbeis. Ate hoje oJari nao se
tornou financeiramente saud(vel, o que o sujeita
ao risco de um colapso subito. Tamb6m esses saio dois proble-
mas consideriveis para as fibricas de aluminio e alumina da
Albr s e da Alunorte. Ou seja: como o umbigo desses empre-
endimentos esta fora da regiao, 6 para la que o cordao alimen-
tador conduz as riquezas e para onde se transfer o efeito
multiplicador desses mesmos investimentos. Corn isso, os gran-
des projetos se tornaram models clissicos de "enclaves", es-
truturas fechadas que concentram seus beneficios e excluem o
mundo em torno de si, os que n~o estao diretamente envolvi-
dos corn a atividade produtiva. Foi o que aconteceu em relagao
a hidreletrica de Tucurui. A Franca, que financiou a obra, exi-
giu que metade das turbines fossem construidas por industries
frencesas (cada turbina e suficiente para abastecer de energia
metade de uma cidadade como Belem). Das 12 turbines em
opera'io, seis foram construidas na Franca. As outras ficaram
corn empresas brasileiras, mas elas pagaram "royalties"as sedes
francesas. Assim, alem de juros altissimos, os franceses ganha-
ram renda e salaries. E o que aconteceri corn grande parte dos
US$ 1,4 bilhaio que o governor pagari a multinational america-
na Raytheon, ao long de cinco anos, pelo Sivam (sistema de
Vigilincia da Amaz6nia).
Em virios pontos espalhados pelo interior amaz6nico, aque-
las "terras altas" valiosas que comegaram a ser divisadas no
p6s-guerra, os "grandes projetos" s&o como multiplicados ca-
valos de Tr6ia, trazidos do litoral para possibilitar a extragao
de alguns dos bens mais nobres existentes no territ6rio amaz6-
nico. Ao menos para fazer um balanco realista da relaito entire
pr6s e contras, e precise levar em consideragio essa data, os
20 anos em que esses cavalos troianos higb-tech, surgidos do
mar, brotaram no hinterland da Amaz6nia. E necessirio abrir
seus est6magos e divisar claramente seu conteudo.
Com eles, ficamos mais ricos ou ficamos mais pobres?

OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 3






ENTREVISTA



Clara



Pandolfo:



a dona



da floresta


(ou seria melhor dizer "a

amiga"?)
Clara Martins Panclolfo veio ao munclo em
1912, em Belem, no aipice da riqueza obtida pela
Amaz6nia corn a explomraao monopolista dca bor-
racha. Mas quando precisou arrematar sua for-
mac'ao professional, em 1926, jai a crise da borra-
cha espalhava um ar de d n..iL..IL i.i sobre a mai-
or cicacie :.i ir. .o1 i, .1, embalacla ate entao pelo
halo dourado de um mimetismo europeu. No 1
impulso do espirito cia Cpoca, seus pais haviam
comprometido suas poupancas corn o curso de
medicine do filho irnico e corn a manuteniao
cdas duas filhas mais velhas em Lisboa. '
"Mais por contingnncia financeira do que pro-
priamente por um apelo vocational", Clara, a ca-
cula, foi rnatriculacda na Escola de Quimica, cria-
ia apenas seis anos antes, numa iniciativa mo-
dernizadora do governor federal, por urn detalhe
decisivo: o curso era gratuito. Belem fora uma
cdas seis capitals escolhicas, pela sua import'incia
em 1920, para receber urna dessas escolas de quimica. E a unica
clue nao a manteve: fechada em 1930, s6 voltaria a atividade 25
anos depois, permanecendo insepulta durante a "icdade media"
.1111.1.'. r .i,.i que se seguiu a ceb-acle cia borracha.
Clara, porem, nto foi atingida por essa fase de encolhimento.
Sua mae, "uma mulher de ideias avancadas para a epoca", quis
que todaas as sua trs filhas tivessem uma profissao tecnica. Nao
serial apenas doonas de casa, domesticas por profissao, mas pes-
soas autonomas (do que dai uma idia a assinatura rebuscada de
Clara, numa epoca em que as mulheres desenhavam seus nomes).
Clara queria mesmo era ser pilot de aviaLao, a semelhan a da
pionei Ansia Pinheiro Machado, que fez o primeiro v6o Rio-Si o
Paulo. Mas se satisfez em ser quimica: o curso, aldm de gratuito,
tinha ainda como atra'aio de professors franceses da famosa Sor-
bonne, de Paris. Varios deles vieram dar aulas (em frances, ji ciue
naio dominavam a lingua local), mas nenhuma influencia foi maior
do que a de Paul Le Cointe, que aqui acabaria se casando e vivendo
atW o final dos seus lias. Dois de seus livros Amaz6nia L'a;,l,.'
e Para- seriam decisivos na fonnam~iao de conhecimentos amaz6ni-
cos para Clara e sua geraao, e mesmo dos intelectuais atuais, que
conseguem ter acesso a esses dois esgotadissimos livros.
0 entusiasmo pela Amaz6nia tornou-se contagiante. Clara era
uma ldas alunas fscinacas coi as aulas cde Le Cointe aos sabados
pela manha. No mesmo hordrio (algo ins6lito para os padres do
ensino e da burocracia brasileiras dos nossos dias), alguns anos
depois, participava das reuni6es da SPVEA (Superintenclncia do
4 OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA


Piano de Valorizagao Econ6rica da Amazinia), comandadas pelo
historiador e politico amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, pri-
meiro superintendent do 6rgao. Clara chegou a Comissflo de Pla-
nejamento da SPVEA em 1954, poucos meses depois da criacLo
da instituigao, que inauguraria a pratica do planejamento regional
no pais. Durante quase meio seculo foi participate ativa da hist6-
ria da regiio em urn dos seus mais f6rteis e critics periods, che-
fiando o Departamento de Recursos Naturals da Sudam (sucessora
da SPVEA a partir de 1966), durante 23 anos, at6 se aposentar, no
cargo, em 1990.
Aos 87 anos, Clara Martins Pandolfo mant6m-se ativa e atualiza-
da, como mostra esta entrevista, tendo como base um questionario
que a ela foi submetido. Ao mesmo tempo lucida e prospective,
capaz de refletir sobre sua fertil e longa experiencia, mas atenta as
novidades e aos avancos do conhecimento.
Num moment em que o future da Sudam 6 posto sob uma
interrogagao assemelhada a que envolveu sua antecessora, a
SPVEA, e parece condenar a Amaz6nia a uma permanent an-
siedade de definicgo, este depoimento de Clara Pandolfo 6 im-
portante para a formac o de opini6es mais s6lidas. Mostra que,
mesmo a margem da atividade cotidiana, ela nao pode ser es-
quecida quando se pretend evitar erros ja cometidos e aproxi-
mar-se ao mdximo das rnJidiJ.1., de future. E uma das fontes
vivas do melhor conhecimento amaz6nico. Por isso, inaugura
esta seiao, na qual as vozes que integram o coro amazonico se
farao ouvir. Para que sejam ouvidas.

Por que a senhora decidiu estudar
quimica?
Terminado o curso secundirio, minha mie -
que era Luma mulher de idcias avanqaclas para a
6 epoca fazia questao de dar as :111 ., um prepa-
S ro professional que Ihes assegurasse estabilidade.
Por essa 6poca, Belem contava apenas cor
algumas escolas superiores isoladas medicinea,
'. fanmicia, odontologia), que funcionavam por ini-
ciativa privada, ministrando ensino altamente re-
munerado. Vivia-se, entao, na capital paraense,
umra situagao de profunda decadencia econ6mi-
ca, reflexo da debacle da borracha, e meu pai,
comerciante da praga, ressentia-se financeiramente
das repercussoes dessa situalao.
Arcando ja cor elevadas despesas para man-
ter os estudos do filho, que cursava medicine, na
antiga Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pari, curso a 6poca
bastante oneroso (coin custos agravados pela necessidade de aqui-
sic-io de livros que, em sua maior parte, tinham de ser importados
do estrangeiro), alem de manter tamb6m as duas filhas mais velhas
estudando em Lisboa, tornava-se muito dificil, para ele, assumir
novos encargos e, portanto, maiores despesas.
Entretanto, a lei federal n 3.991, de 5 de janeiro de 1920, criara,
no Brasil, as seis primeiras escolas de quimica, que deveriam fun-
cionar nas cidades de Rio de Janeiro, Sio Paulo, Porto Alegre,
Salvador, Recife e Belem.
A rec6m-criada Escola de Quimica do Pard, dada a inexistencia
de uma universidade em Belem, ficou sob a responsabilidade da
Associagao Comercial do ParL, que jai mantinha, corn seus recur-
sos pr6prios, um Museu Comercial, onde eram analisados, estucla-
dos e catalogados os principals produtos naturais da regiao corn
vistas a sua comercializaato, industrializacao e exportac;io. Esse
museum era dirigido por Paul Le Cointe, renomado naturalista fran-
ces, grande conhecedor da Amaz6nia, clue se fixara em Belem e
que aceitou assumir o encargo de organizer e fazer funcionar a
novel instituiio, anexando-a ao referido museum.
Minha mae, tomando conhecimento da existencia da nova es-
cola, cujo ensino aliava a alta eficiencia a atraente concdic'ao de ser
ministrado gratuitamente, para la me encaminhou. Desse modo,
minha formacao professional foi determinada mais por uma con-
tingCncia financeira do que propriamente por um apelo vocacio-
nal. Mas, ao final, tudo se encaminhou para uma feliz convergnn-






cia, pois, venciclos os naturais percalos dos primeiros dias, ocl
onados principalmente pelas dificuldades no manuseio da lingu:
(as aulas eram, na sua maior parte, ministradas em francis, jai que
os professors recem-contratados na Universidade de Sorbonne,
na Francg, nio tinham ainda pleno dominio da lingua portugue-
a), logo 'a bei ambientanclo-me e deixando-me seduzir pelo en-
cantamento das sensnaoes ineditas experimentadas, a cada die
clurante os trabalhos prfiticos realizados nos laboratories.
Essa situacrio nova, cle emooes forte,, fez-me esquecer os ou-
S adlos sonhos de adolescent, quando aspirav, ajar p:
tros centros mais desenvolvidos, onde pudesse fazer carreira n:
aviagf seguindo os passes de Anesia Pinheiro Machado, que
pilotar sozinh: o 1" v6o entire Rio e Saio Paulo.
O estuclo cia quimica foi sempre a grande paixao de minha vicda
e, por isso, inesnmo, depois de encerracda s as tividades cia escola,
nessa primeira fase, continue trabalhando nos laborat6rios, pres-
tando minha modest colabolragfo aos estudos realizados por Paul
Le Cointe.

Qual a importincia de ter sido aluna de Paul Le Cointe?
Paul Le Cointe teve urma influIncia decisive em minh: 'arreira
professional. Ele lecionava uma discipline que se clenomin 'Tec-
nologia Amaz6nic: Su: aulas, nas manhais de s:ibiado, reul'i'lmi o
conjunto dos alunos das quatro series do curso. Sabia contar, corn
graca e vivaciclade, cada epis6dio que vivera em seus 40 anos de
vivencia por tocla a regiao, inclusive convivenclo nas diversas tri-
bos indigen: Tinha um1a gargalhada peculii prolongada e gos-
tosa, que contamini :a seus jovens ouvintes, aos quais entretanto,
'abia infundir profunclo respeito.
Corn ele aprendi ,'aliar as dimens6es e a dar just valor ao
imenso potential de recursos da Amaz6ni: Dele recebi o dignifi-
'ante exemplo do: ao estudo e da discipline no trabalho. Foi
um estrangeiro que amou esta regifio e a a leddicou praticamente
Stoda sua \'ida. Aqui constituiu familiar con pi -aense, oriunda de
traclicional familiar de Obiclos D. NMaria Correa Pinto e ambos
aqui morreranm, octogen:

Como a senhora passou a se interessar pela Amaz6nia?
Desde os tempos da Escola de Quimica, as riquezas da regifo,
descritas por Le Cointe, sempre estiveram presents nos meus
projetos de vida professional. Quando aqui se instalou a SPVIA
[S/iiperinleIdncia d no la iM de Valorizacio Econ6Inica da Ama-
zonial (em fins de 1953), senti que essa serk a oportunidade die
pCr em prfitica todos os sonhos 'alentaclos de um dia powder
servir ii minha ternr
Ao entrar par: a SPVEA (em abril de 1954), eu vinha de
trabalho rotineiro de anailises bromatol6gicas nos generos alimen-
ticios clue chegavam it priaa de Belem, trazidos pelos navios de
cabotagem do Lloyd Brasileiro, nomeacla que fora quimica dos
laboratories de satcle ptblica do Estado, atividadces que divicli:
corn o exercicio do magisterio, no Colegio Modcerno, na Escola lde
Enfermagem, onde minister a discipline Quimica Inorgainica,
Org:inica e Biol6gic e em varios cursos vestibulares.
Ao entrar p: 'a a SPVEA e ter convi\io clireto corn Artur Cezar
Ferreira Reis, primeiro superintendente cda novel instituicao, deixei-
me fascinar pelas oportunicdades que se abriam para a regiio. Ern
um deleite participar das reunites seman: nas manhas cde ,ibl
do, presididas por Artur Reis, onde cada um de seus assess
-xpunha seus roteiros de treabalho.
Eni a delicia conhecer aspects novos, narralos, por exem-
plo, nos campos cla saucde, por um Paulo Fender; nos aspects
juridicos expostos por um Marcilio Viana, source a geologia cda
Sregiafo, na palara Ide Iun Roberto Galvf ai esposa, geografa:
do IBGE, Mainlia Galvalo, e i -'. .,i.' .. sempre brilh:nte e coloi-
da, de um S6crates Bonfirm, corn quem passed a trabalhar n:' As-
'ssoria Tecnica da Subcomissao de Recursos Natun'is da Comn
.'io de Planejamento.
Pouco a pouco, fui materializandco os velhos sonhos e cqua:clo,
em 1961, assumi a lPresicldncia da Subcomissfio de Recursos N:nlu-
apresentei minha proposta concrete die um Progranma sollre


Oleiferas Nativas e Exotic: proposii0o) que, ap6s e. austivos estu-
clos, foi aceita e incorporada a programagla o do rg; A primeira
fase desse program era exatamente um projeto experimental de
cultural do clendl (palma africana).
Mais tarde, quando houve a transformacnlo da SPVEA em Su-
ldam [Sulperinlend~ncia do Desen'olvinmcno da A maz6nia], ess:
political dce aqfio que regia os atos da SPVEA foi esquecida ou
deixacla de lado e, a partir lai, a Sudam passou a ser acusada de
desenvolver agces clue se situavam fora de sua 6rbita de atuagao
(entendimento evidentemente muito primfirio).

Quais os livros que contribuiram para a formaAo de
seu conhecimento sobre a regiao?
Sem dcivida nenhuma, o livro-chave corn que me deleitava er
L 'AazonieBBresilienne, em clois volume<, que possuo ainda em seu
original frances. Tambmn, do mesmo Paul Le Cointe: O Elado do
Parac- A Terra, A Agua e o A Ar An'ores e Plantas Ueis da Amazdnia.
Um livro ccue se tornlaria meu livro de cabeceira foi Amazdnia,
de Lucio de Castro So: um excelente compendio dos recursos
conhecidos i epoca e tamb6m os livros de Artur Reis, cor n nfase
para Amaz6nia e a Cobi vam-se os relat6rios tecnicos das viirias misses estrangeiras que
percorriam a Amaz6ni:, levantando aspects inclitos sobre pro-
blemas da regiato.

Quais as experiencias decisivas na sua vida professional?
A grancle praitica que aclquiri no exercicio do magisterio, que
me penmitiu encaminhar, positivamente, tantas intelig&ncias jovens.
Tambem o long trato corn os problems regionais, que valeu por
aprenclizado cle vida e de conhecimentos; as numnerosas vi:
gens que empreendi a longinquos recantos do interior amazinico,
que form, para mim, Luma verdadeira Universicdade da Naturez:
Amaz6nica, quando pude apreciar naio s6 a exuberincia do meio
fisico, as tambm a foria e a tenaciclade do home que o en-
frenta, : 'ada cli, penetrando corajosamnente a gigantesca floresta
sombriz "ando a imensiclao das aiguas na sua fragil igarite.
Pude apreciar de perto as vicissitudes da regiaro ao constatar
precarieldade dos meios usados no aproveitamento de seus recur-
sos natun E, n: busca de solugoes para esses problems, pude
consoliclar minha formnagao professional.

Como foi a transic~o da SPVEA para a Sudam? Fava um
paralelismo entire os dois 6rgAos.
A crinaclo da SPVEA constituiu a primeira experiincia no pals -
e umia as pouc: ate enttio existentes no mundo de institucio-
na:lizagflo de um progir a governmental visanclo a valorizar um;
regifto. Desse imodo, recebeu a SPVEA a dificil tarefa de tent;
elabora:iclo de um Piano de Valorizaiio Econ6mica p; a Am;
z6ni quando inexistiam trabalhos dess: atureza que puclessem
ser usadlos como model.
Dando inicio ais su; atividadces, a SPVEA, atraves de sua Co-
'ilo de Planejamento, teve, como tarefa primordial, o exame
preparatorio da realidade amazonica p -a a determinacfio ide seus
problems blisicos e o estabelecimento das prioridades relative:
aos empreendimentos que deveriam surgir, em funio das neces-
sidadces mais urgentes ca regiaro.
Esses estudos serviiram de orientagcio para os trabalhos de pla-
nejamento do 1" Piano Qiiinquenal de Valorizafao Econimic:
da Amaz6nia (1955/59), condensado em dois volumes, que, em-
bora encaminhados tempestivamente t alprovaaf'Io do Congresso
National, naio logrou ser, por este, aprovaclo nem rejeitado, aca-
bando por perder oportunidade, sem jaimais ser post oficial-
mente em execuciao.
A criacto da SPVEA possibilitou reunir, na Amaz6nia, sob o
comando eficiente de Artur Cesar Ferreira Reis, um grupo de tecni-
cos de gr:ncle valor, nacionais e estrangeiros, que se devotanr
ao estiudo dos problems region: procurando equacion:-los.
Ao pioneirismo cla tarefa de que estava encarregada a SPVEA
aviam-se, conmo elements complicadore., a vastidlto cla fire


OUTUBRO/ 1999 AGENDA AMAZONICA 5






sob sua jurisdicfio mais da metade do territ6rio naciona!; a mag-
nitude dos objetivos a alcanCar desenvolver economicamente
uma regiao at6 entao mantida em complete estagnagiao, voltada
apenas para atividades primiarias de coleta florestal; a escassez de
pessoal qualificado; a carencia cr6nica de capitals que pudessem
servir ao desenvolvimento da economic, tudo isso agravado por
injuncges politico-partidcrias, que levavam a pulverizagao das ver-
bas, al6m de que os recursos orgamentarios pi-evistos jamais foram
inteiramente liberados.
Mesmo assim, uma analise isenta de paix6es sobre a atua~io
desse 6rgao mostra que a SPVEA deixou um rastro de fecundas e
proveitosas realizaoges se considerado o context e a conjuntura
da 6poca em que atuou.
Assim, no campo da pesquisa, form realizados os primeiros in-
vendirios florestais, por peritos da FAO [a agencia da ONUpara
agricuiltlra e alimentadao], conjuntamente cor t6cnicos locals, que,
pela primeira vez, deram a conhecer algo sobre a composicgo fitos-
sociol6gica da floresta amazinica e seu real conteudo Foi tambmr
implantado o primeiro Centro de Pesquisas Florestais, em Santar6m,
no Baixo-Amazonas, por especialistas da FAO, corn a introduhao
dos primeiros ensaios sobre manejo florestal, e que e hoje detentor
de um notavel acervo de dados sobre o potential existence (embora
esteja o centro atualmente em lamentivel abandono.
Virios levantamentos geol6gicos, estudos pe-
dologicos e sobre recursos pesqueiros foram re-
alizacos em varios locals, por equipes de peritos
da FAO/UNESCO [agencia da ONUpara educa-
cto e ctuliraz], que integravam misses t6cnicas
com atua'ao na regiao.
Foi tamb6m patrocinado financeiramente pela
SPVEA o primeiro grande levantamento aerofo-
togrametrico, numa 6poca em que essa tecnica
ainda engatinhava no Basil, numa irea de 420.000
quil8metros quadrados, situada na atual Provin-
cia de Carajais, em convenio corn o Departamen- '
to Nacional de Produgfo Mineral e execugiao a
cargo da empresa especializada Prospec S.A.. Vale ,
aqui registrar que as imagens areas desse levan-
tamento foram posteriormente utilizadas como
subsidio nos estudos procedidos para :J.-inrllif.-
'ao dessa provincia mineral, embora tal fato nunca
seja mencionado.
Na fonnacao de recursos humans, a SPVEA forneceu bolsas de
estudo a estudantes universitarios da regiao para especializanao no
exterior, principalmente n afirea de geologia, e tamb6m, em conv&-
nio corn a Universidade Federal do Paranmi, providenciou a forma-
gco dos primeiros engenheiros florestais para a Amaz6nia.
Quanto a implantagiao da necessfiria infra-estrutura basica, para
servir de alicerce ao process de valorizagato economic, a SPVEA
atuou na melhoria e ampliacqfo da capacidade de geracao e distri-
buigio de energia das usinas termeletricas de Bel6m e Manaus;
reaparelhou os portos e o sistema de navegagi~o cor a aquisigflo
de modern frota fluvial e iniciou a implantagao de sistemas de
abastecimento de igua potaivel em cidades do interior amaz6nico.
Construiram-se escolas, hospitals e centros de pesquisa. E dessa
epoca a criagaro da Universidade Federal do Par. e da antiga Esco-
la de Agronomia, hoje Faculdade de Ciencias Agrfrias do Para. A
SPVEA contribuiu tamb6m corn recursos financeiros para a cons-
trug'ao da primeira sede fisica do Instituto Nacional de Pesquisas
da Amaz6nia [INPA]. em Manaus.
Registre-se ainda como important iniciativa da SPVEA, na area
da Agriculture, o convenio firmado cor o Institute de Recherche
pour les Huiles et OlGagineux (IRHO), da Franga, par; a implan-
tagao de um projeto-piloto de cultural do dend& (palma africa-
na), que serviu de base para essa cultural na Amaz6nia, hoje uma
das mais pr6speras e promissoras.
Ainda no campo das atividades agricolas, foram introduzidos,
por colonos japoneses, cultivos racionais de juta e pimenta-do-
reino, marcando uma primeira diversificagio nas atividades extra-
tivistas da regiAo.

6 OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA


Visando a dinamizagfio da economic regional, a Comiss'ao De-
liberativa, que funcionava na SPVEA, cor a atribui~lio de decidir
sobre projetos de pessoas juridicas a serem beneficiadas corn re-
cursos de incentives fiscais (excluidos os empreendimentos pecu-
irios), financiou various empreendimentos econ6micos pioneiros,
todos ainda em regular funcionamento, entire eles a Refinaria de
Manaus, a flibrica de cimento de Capanema, a Facepa, a Cerapsa e
a Cata, entire outros.
E, finalmente, coube a SPVEA coordenar os trabalhos de cons-
trugao da primeira grande rodovia de integragSo terrestre da Ama-
z6nia cor o resto do pais, a rodovia Belem-Brasilia, sem duvida a
obra mais marcante e grandiosa de todo o period de atuacao da
SPVEA.
Fago minhas as palavras de Samuel Benchimol:
"Nao se pode negar a SPVEA o merito de ter sido responsavel
pelos primeiros passes no process de desenvolvimento da Ama-
z6nia, passes muito dificeis porque realizados no emaranhado de
problems extremamente complexes em uma area que, A 6poca,
era quase desconhecida, em decorrencia dos tres s6culos e meio
de esquecimento e abandon a que o governor central do pais a
relegara".
Em 1966, o govemo federal langou a OperagiAo Amaz6nia, inau-
gurando uma nova political desenvolvimentista para a regiao, cor
a reformula'ao das estrategias at6 entao adota-
das e a reestruturag;,o dos 6rgaos encarregados
de sua execugao. Para .il....i. esses objetivos
foi mobilizado um vasto elenco de instruments
legais e medidas administrativas, incluindo a lei
5.173, de 27 de outubro de 1966, que extinguiu a
SPVEA e criou, para substitui-la, a Sudam..
SA mudanga institutional de SPVEA em Sudam
objetivou consolidar o process de desenvolvi--
mento regional, procurando a melhoria de funci-
.- onamento do 6rgao pela absorcio das experi&n-
cias ja entao acumuladas.
Enquanto a SPVEA foi criada para dar desem-
penho a um Piano de Valorizag'ao Econ6mica, isto
e, visava apenas ao fortalecimento do sistema pro-
dutivo de bens e -.-,r. i. .' econ6micos, a Sudam
surgia numa 6poca em que o govero brasileiro jai
passava a dar &nfase a modernas tecnicas de pla-
nejamento, corn vista ao desenvolvimento global
da regi'ao e nao apenas a sua valorizacao econ6mica.
Todavia, cor a mudanga institutional da SPVEA em Sudam,
esta passou a ser vinculada a um ministerio, chamado Ministerio
Extraordinmirio para Coordenagio dos Organismos Regionais (Me-
cor). Corn isso, a Sudam perdeu a forga political de que gozava a
SPVEA, que funcionava como um super-ministerio, ligada direta-
mente A Presid&ncia da Republica. Criava-se agora um degrau en-
tre o poder de decisao do 6rgao regional e o poder central, ou
seja, havia agora um est'igio intermedifrio de negociag6es para
que os pleitos amaz6nicos chegassem ao governor central.
O Mecor foi posteriormente transformado em Ministerio do In-
terior, que cuidava conjuntamente dos pleitos de interesse das
demais regimes brasileiras atrav6s das virias superintendencias re-
gionais entao existentes Sudam, Sudene, Sudeco, Sudesul e
nio mais prioritariamente dos pleitos amaz6nicos, como acontecia
nos tempos da SPVEA. Deste modo, a Sudam caracteriza-se no
novo quadro institutional, criado a partir da Operago Amaz6nia,
como uma instancia intermediiria de negociag6es. Embora aufe-
rindo algumas vantagens novas, perdeu, paralelamente, hierarquia
administrative dentro do sistema de govemo federal, passando ofi-
cialmente a compor o terceiro escalao.
A Sudam, por forca aa lei que a criou, tem, entire outros, dois
objetivos fundamentals: a) planejar o desenvolvimento regional, e b)
coordenar as ages do governor federal na drea sob sua jurisdicio.
Todavia, na pratica, 6 inviaivel o desempenho dessas atribuices.
Sua funlio de planejar o desenvolvimento regional enfrenta
grandes limitacges pela dificuldade de colocar, em nivel national,
objetivos e prioridades nitidamente regionais, uma vez que as di-






retrizes e prioridades sao estabelecidas nos escal6es superiores do
governor, atendendo a interesses nacionais/setoriais, nem sempre
consentineos corn os objetivos do desenvolvimento regional e corn
as aspirac6es da comunidade amaz6nica.
Por suas peculiaridades, nao apenas ecol6gicas, mas tamb6m
econ6micas, sociais e culturais, a Amaz6nia requer soluq6es pr6-
prias, inovadoras, que se adaptem a sua realidade e que, em gran-
de parte, nao coincide e as vezes at6 conflitam cor os interesses
de outras regi6es brasileiras.
Por outro lado, suas atribuig6es de coordenar as ages do go-
verno federal na regiao sito inviabilizadas pela posigao hierirqui-
ca inferior da instituiCio na escala governmental, situada que estd
abaixo dos ministerios. Sua atuacao na formulacao dos diversos
programs setoriais s6 pode fazer se por via indireta, para que nao
se configure como uma ingerincia indevida nos ministerios aos
quais cabe essa .nl'p..:-r,.. i.i, tornando-se assim um agent passi-
vo no modelo de desenvolvimento regional.
Em decorr-ncia dessa situag~o, os problems da regilo rece-
bem, quase sempre, soluo6es de cunho casuistico, visando mais
ao atendimento de aspects circunstanciais do que de obediencia
a uma filosofia de agfo. Por isso mesmo, os varios pianos de
desenvolvimento da Amaz6nia, elaborados pela Sudam, nao che-
garam a exercer seu papel de instrumento orientador do process
de desenvolvimento regional.
Para concluir este item eu gostaria de assina-
lar uma das virias diferencas entire o funciona-
mento dos dois 6rgfios, SPVEA e Sudam.
A SPVEA, atraves de sua Comissao de Planeja-
mento, aprovara umna Politica Operacional, conti-
da num document denominado "Linhas de ABao
Para a Valorizacaio Econimica da Amaz6nia", do-
cumento pelo qual se pautavam as agoes da co-
missao (esse document, para mim, 6 o mais im-
portante manual de procedimentos para o desen-
volvimento da regiao, ate hoje nao igualado por ,
nenhum outro). I)e acordo com essas Linhas de
Agaio, uma political de investimentos para a regiao
deve conceder a~ autoridade valorizaclora uma su-
ficiente autonomia de atuagaio. Constava desse do-
cumento, no que diz respeito a implantagiao de
empreendimentos:
"Em certos casos, verificamos que dificilmen-
te se conseguirn atrair o entusiasmo e a participagio financeira
dos particulares, em virtue nfo apenas dos obst.culos aponta-
dos, como tamb6m pelos prazos de geracao e gestagao dos em-
preendimentos e pelas despesas, frequentemente vultosas, dessas
fases iniciais. Assim, somos de parecer que, sempre que assim
ocorrer, o organism de planejamento deve inclusive, se necessa-
rio, passar a fase executive, de modo a oferecer, aos possiveis
investidores privados, nao s6 uma idea ou um projeto no papel,
mas uma estrutura fisica e juricica pronta para entrar em funciona-
mento. Nesse caso, as fabricas erguer-se-fo sob a responsabilida-
de direta do Piano, que s6 as proximidades do inicio de seu fun-
cionamento promovert a constituigclo juridica da empresa que irA
explora-las cor a participagio dos particulares observadas cer-
tas normas de political social que apresentaremos mais adiante".
Foi assim, perfeitamente enquadrado nas determinag6es da Po-
litica de Valorizagcao Econ6mica da Amazonia, adotada pela SPVEA,
que surgiu o posteriormente polemico Projeto Dend&. N.o fora
essa atuacao direta do 6rgio de planejamento da SPVEA, e prova-
velmente, at6 hoje, ainda figurariam nos orgamentos federais as
dota(ges "para continuidade das pesquisas sobre dend&", espe-
rando por investidores que jamais apareceriam...
As duas instituig6es SPVEA e Sudam sao, frequentemente,
alvo de critics injustas, acusadas de naio haverem cumprido, satis-
fatoriamente, suas atribuicges na promocao do desenvolvimento
regional, nao se querendo reconhecer quantas dificuldades, quanto
de sacrificio e de renOncia tiveram de ser superados, por seus t6cni-
cos e administradores, para cumprirem um minimo dessas atribui-
q6es, nas condi(ges adversas em que sempre funcionaram. Entre-


tanto, 6 inegAvel que, tanto a SPVEA como a Sudam, apresentam um
conjunto valioso de fecundas e proveitosas ou.li;'.,, *c.

Como a senhora avalia sua participacio como Direto-
ra do Departamento de Recursos Naturais da Sudam?
Sem falsa modcstia, devo declarar que tenho plena consciencia
de haver cumprido, corn o maximo de meu empenho, as atribui-
gIes impostas pelo cargo. Dentro dos parcos recursos humans
e financeiros de que podia dispor, procurei deixar um lastro de
realizaqoes importantes, nos diferentes ramos setoriais, atraves de
.. ,ni. -i com diversas instituigoes, conm nfase especial as pes-
quisas no campo florestal. Devo confessar, entretanto, que che-
guei ao fim de minha trajet6ria funcional carregando comigo a
frustraqto de ver impotente a maior parte desse esforco despendi-
do, com o engavetamento, sem aplicacio pratica, de importantes
resultados que precisavam ser testados em maior escala.
Na luta do dia-a-dia corn os problems amaz6nicos, aprendi
que 6 muito dificil sensibilizar o governor central quanto aos ape-
los da regiio. Nem mesmo o 6rgao que ter, por dispositivo legal,
essa atribuiiao consegue, muitas vezes, a .i.,:it.i, .., pelos altos
escal6es da Repiblica, de seus projetos e suas propostas. E citarei
um exemplo. Desde que iniciei minhas atividades na SPVEA/Su-
dam, lutei pela institucionalizacgao de uma Politica Florestal Regio-
nalizada para a Amaz6nia. E apesar de ter tido o
pleno apoio e empenho dos superintendents do
Srgao, nao foi possivel concretizar a proposta.
Entretanto, se essa political (que incluia, entire
outros itens, a proibiaio de implantagao de ativi-
dades pecufrias em areas de floresta native) ti-
vesse sido implantada a cpoca de sua apresenta-
co na decacla de 70 nato teriamos tido, dez
anos ap6s na decada de 80 a explosao do
d, problema ecol6gico na Amaz6nia. A voz de po-
S i clderosos pecuaristas foi mais potente do que a
. dos t6cnicos da regiao, conseguindo convencer
os escal6es do governor que s6 a pecuAria em
grande escala representava a iedi.,. ni economi-
r ca da Amaz6nia ...

Houve decisbes da (e na) Sudam que
contrariam seus conhecimentos e sua
consciencia de professional comprome-
tida com a Amaz6nia?
Como espectadora impotente, assist, em virias reunites do
C. .n.,,lli Deliberativo (Condel), a aprovag~o de projetos agrope-
cuarios que descumpriam as determinacoes do Regulamento de
Incentives Fiscais (Resolu(c o n0 2.525, de 26.04.76), introduzidas,
a duras penas, pelo Departamento de Recursos Naturals e que
proibiam a implantagao de projetos dessa natureza em ireas de
floresta densa.
Que avaliagao a senhora faz hoje da decisao de comecar a
integra~'o da Amaz6nia dando prioridade i pecuaria?
Essa decision nem sempre existiu, tanto que, ao tempo da SPVEA,
a Comissito Deliberativa, criada pela Lei n 2.416/63, s6 concedia
beneficios fiscais a novos empreendimentos industriais que mere-
cessem a aprovagao da Comissao.
Como ji referi anteriormente, virios empreendimentos impor-
tantes, ainda hoje funcionando regularmente, v6m dessa 6poca.
Foi a concorrencia com a Sudene, na capta(ao dos recursos da
nova Politica de Incentivos do Imposto de Renda, que levou a
Sudam a aprovar numerosos projetos pecuArios, que se instalavam
preferencialmente em Areas florestais, jc que s6 a venda das ma-
deiras de valor commercial e a aquisicgo de terras a baixo custo
cobriam, quase inteiramente, os custos iniciais dos projetos, tudo
isso numa 6poca em que as preocupag6es cor o meio ambiente
tinham pouco ou nenhuma repercussao no pais.
Jamais acreditei no sucesso da pecuaria amaz6nica em Areas
florestais. Sempre mantive a opiniAo de que as atividades pecuari-
as deveriam ser desviadas para outras areas ecologicamente mais


OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 7






aptas para essas finalidades, preferencialmente para as areas de
cerrados e campos naturais que, na Amaz6nia, se estendem por
cerca de 90 milh6es de hectares, havendo ainda, atualmente, a
possibilidade do reaproveitamento de extensas areas de pastos
degradalos, usando-se, para isso, a tecnologia ja disponivel na
Embrapa/Amaz6nia Oriental.
Como o DRN conseguiu introduzir, no Regulamento, aprova-
do em 1976 pelo Condel, restric6es ao uso dos solos florestados
para aproveitamento pecuArio, passed a ser chamada ironicamente,
por colegas que defendiam a implantag'ao ampla e irrestrita, de
"Dona da Floresta"...

A exploragAo dos recursos naturais, especialmente dos
florestais da Amaz6nia, esta mais pr6xima do que a cian-
cia recomenda e instrui?
A ciencia florestal evoluiu plenamente e nao tenho dividas que,
se fosse incluido no Programa de Florestas Tropicais, alimentado
corn recursos financeiros dos paises ricos, um projeto experimen-
tal, que ficasse sob responsabilidade conjunta dos diversos orga-
nismos que, na Amaz6nia, tern se dedicado a estudos sobre mane-
jo florestal, teriamos, sem duvida, dentro de breve tempo, uma
mudanga de mentalidade na conducgo da exploragio madeireira,
em perfeita conciliacao entire a economic e a ecologia.
Outro projeto que deveria ser incluido no mes-
mo Program de Florestas Tropicais, para que pu-
desse apresentar resultados mais rapidos, ja em
carter de projeto-piloto, 6 o que estuda o Manejo ,
da Vegetagao Secundaria para a Sustentabilidade
da Agricultural Familiar, que vem sendo conduzido
pela Embrapa/Amaz6nia Oriental, em conv&nio corn
uma instituigilo alemr. Esse projeto visa ao desen-
volvimento de uma tecnologia substitutiva da quei-
ma de novas Areas nos plantios familiares.
O projeto ainda esta em fase inicial, buscando .
encontrar as diversas alternatives que poderao ser .. \
empregadas, mas, certamente, poderia apresen-
tar resultados em tempo mais curto, se contasse
corn maior sustentacgio financeira. Se os estudos
forem coroados de sucesso, teremos encontrado
a formula capaz de acabar com as medidas in6-
cuas que pretendem impedir as queimadas para
limpeza dos restos agricolas e pastos degradados. Pretender esta-
belecer proibig6es atrav6s de portarias e um recurso que seria
hilariante se nflo fosse dramatic. Repetindo Pitigrilli: "Nao h~ vir-
tude que resista a realidade cruel de um est6mago vazio". O nosso
pequeno produtor rural que o diga.

A senhora esta mais confiante quanto ao future da
Amaz6nia?
Honestamente, ainda me mantenho muito reticente diante do
tratamento dispensado a nossa regiio.

Do alto de sua experiencia e conhecimento, o que re-
comendaria hs pessoas que pretendam se engajar agora
numa luta em favor da region?
Dois objetivos me parecem fundamentals:
1) Institucionalizaglo de uma political permanent para desen-
volvimento da Amaz6nia, que retire do process o carter aleat6-
rio e circunstancial das iltimas d6cadas, acarretando descontinui-
dade nas ac6es do governor.
Cor as modificaoges introduzidas, pela Operagto Amaz6nia,
nos mecanismos previstos para o desenvolvimento da regiao, subs-
tituidos pela nova political de incentives fiscais e financeiros,
oriundos do imposto de renda, foi suprimido, nas constituigaes
brasileiras posteriores a de 1946, o dispositivo que se referia es-
pecific imente a institucionalizacao do process desenvolvimen-
tista regional e, cor isso, a Amaz6nia perdeu a garantia da con-
tinuidade de agao do governor federal na condugao desse pro-
cesso. Atualmente, os recursos destinados a Amaz6nia, nos or-
camentos da Uniao, s5o apenas pontuais, insuficientes para ala-

8 OUTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA


vancar o process de desenvolvimento regional, situadao consi-
deravelmente agravada pela escassez de recursos tecnol6gicos e
humans qualificados.
Toma-se necessdrio adotar uma political permanent, baseada
no planejamento e, para isso, 6 precise contar cor uma efetiva
sustentarao basica. As ages do governor brasileiro vem sendo in-
tensificadas no centro desenvolvido do pais, o que contribui para
ampliar, cada vez mais, as desigualdades regionais.
Ao que parece, o governor brasileiro ainda nao se deu conta da
importTncia estrat6gica da Amaz6nia, no novo ciclo do desenvol-
vimento econ6mico mundial, preferindo ignorar que a regia1o cres-
ce, nas estrat6gias internacionais, cor vista ao assenhoreamento
dos seus recursos naturais.
2) Elaborar um grande projeto global para o desenvolvimento
da Amaz6nia.
Em geral, na regiao fazem-se perp6tuos diagn6sticos dos proble-
mas mas nao se efetivam soluoges. Os resultados das pesquisas vao-
se acumulando sem utilizagao, a falta de decis6es political, de em-
penho governmental e de disposiiflo dos investidores em modifi-
car o atual estado de coisas.
As reivindica6oes isoladas, casuisticamente defendidas junto aos
poderes centrais, precisam ceder lugar ao grande Projeto Amaz6-
nico. Ele condensaria as aspirag6es da comunidade, tendo a res-
ponsabilidade coletiva dos diversos segments re-
presentativos da sociedade regional, unidos con-
juntamente num esforCo unificado de defesa em
bloco, corn linhas de agao perfeitamente defini-
das e metas estabelecidas para execucao em ho-
rizontes de curto, medio e long prazos, visanclo
"a implantacio da necessaria infra-estrutura bisi-
ca e tecnol6gica, a organizafaio e modernizacao
das atividades produtivas e, sobretudo e princi-
palmente, a capacitacao dos seus recursos hu-
manos.
SA ascensao da Amaz6nia a melhores niveis
econ6micos, sociais e tecnol6gicos para a pro-
gressiva integracao da regiao ao process do de-
.' senvolvimento mundial exige que os ;:I,.i/,'.ii..i
se congreguem em torno de um Projeto Amaz6-
nico de defesa da regiaio, buscando novas for-
mas de organizagio das atividades produtivas.
A materializagao da proposta de ascensao cientifico-tecnol6gi-
ca exige aquisi.ao de conhecimentos e produgao de saber. O Sis-
tema Nacional de Ciencias e Tecnologia, atualmente concentrado
no centro mais desenvolvido do pais, precisa ser descentralizado
e regionalizado, visando i .ip. .i...l na Amaz6nia, de equipes,
qualitativa e quantitativamente habilitadas, para aprofundamento
dos conhecimentos, em tempo haibil.
A oportunidade criada pela Rio-92 assegura a cooperagCo fi-
nanceira e tecnol6gica dos paises ricos para que a regiao se en-
quadre no ritmo do desenvolvimento sustentavel.
Todavia, 6 fundamental que essa cooperaglo nio se limited ape-
nas a cloaafo de recursos financeiros as instituiOes regionais de
pesquisa, que teriam de iniciar um long e penoso caminho em
areas onde esses paises j possuem pleno dominio tecnol6gico.
Nossa atenc-io tera de ser muito mais ousada, na busca de aproxi-
macao com instituigoes nacionais e internacionais de alta capaci-
tagio, visando a instituir modalidades de participagio conjunta,
no gerenciamento adequado dos projetos para a geragfo de tec-
nologias naio agressivas ao meio ambiente.
Nfo sera dificil former associates cor os detentores do co-
nhecimento e atrair capitals voluntirios interacionais para a cons-
tituigao de empresas mistas e de joint-uentures, que representam
excelentes veiculos de transmissao de tecnologia, para que se ins-
talem na regiao, por exemplo, as indiistrias que manipulam nossos
insumos bi6ticos como materia-prima.
Fala-se muito no aproveitamento dos insumos bi6ticos ama-
z6nicos, no uso de nossas essencias medicinais para a pro-
duCio de farmacos, mas temos pouca ou nenhuma possibi-
lidade de atuar sozinhos nesses campos, pela falta de recur-






sos financeiros, materials e humans. Esse seria urn meio de
deter a biopiratarit que lev a said clandestine de nossos
-sos de biodiversidade, oferecendo condigoes propici-
as para que os laborat6rios que usam esses recursos, aqui
se instalassem. Por exemplo: por que nao trazer p; a a Ama-
z6nia un laborat6rio da poderosa indcistri, alemri Merck,
que industrializa e comercializa o nosso jaborancli? Corn isso,
se abiriia um extenso campo experimental para os nossos
jovens profissionais.
O progress tecnol6gico naio se faz mais de passes isola-
Sdos. A tendencit atual 6 para parcerias, a formaaio de


conglomerados, integrados por diferentes fireas tecnol6gi-
cas e englobando, num process inico, a pesquisa, a pro-
cducto e a comercializagEao. Para ascender a esse estaigio, .
Amaz6nia tera de investor, acinamente, na capacitagio de
seus recursos humans e na infra-estrutura de pesquisa e
experimentagao, o que vai exigir um grande esforco coleti-
vo e, sobretudo, vontacle political para a efetivaifo de acOes
inovadoras. S6 assim a Amaz6nia estarfi capacitada a dar o
grande salto qualitative que Ihe permit ingressar em nova
etapa de sua hist6ria, trilhando os caminhos de umn sadio
process de desenvolvimento.


Cartas


c,.entemente, li sua
Agenda Amaz6ni-
ca, que considered de
excelente qualidade. A sua pu-
blicac'io vem preencher umi
lacuna nos peri6dicos corn este
perfil principalmente n;
nossa regiao. Entire todos os
bons artigos, uin em particular
chamou-me atencgfo. Refiro-
me "O Cacaulisla: o que
nem um seculo nmudou" A obnl
de Ingl&s de Sousa muito ime
interest pois desde 1995 ve-
nho desenvolvendo pesquis:
pan' a rellizagflo cia minha dis-
sertaqlto de mestrado no NAEA
[N'icleo de Allos Istudos A na-
I .z6nicos da Universidade Fede-
ral do Par-d, a qual defend
no ano p. 'ado sob o titulo:
Sobre Agtuns Teias en Ing/les
de Sousa: Un ensaio Caleidos-
copico.
Nessa pesquis eu estive na
Biblioteca Nacional e na cida-
de de Santos (infelizmente n'i
pude ir ao Recife, onde ele ini-
ciou seus estudos). Fiz algumas
descobertas, entire elas que i
primeira publicagao em volu-
me de O Coronel Sangrado foi
em 1882 (encontrei um exem-
plar na biblioteca public de
Santos), mesmo que tenha siclo
noticiado que seria publicado
em fasciculos na "Revista Na-
cional de Cicnck Artes e Le-
tr; (encontrei apeni
numeros na BN, mas sem os
fasciculos anunciados). A pu-
. Iblicacio dos ConiosAniazOni-
cos ocorre simultaneamente
a puiblicagfo, em folhe-
de O Cacaulisia no Di,
rio de Santos, emn 1876. No
* mesmo ano foi publicado Iis-
loria de ni1n PescCador, em fo-
lhetins, na Tribuna Liberal de
Sao Paulo.
Antes da dissertac:'


1996,


pecquencio


exercicio sobre Ingles de Sou-
'a p -a o "Encontro Amaz6-
nico sobre Mulher" que v:
ao encontro do que o sr diz
sobre o prestigio dos homes
em term barbas p:; a agradar
as mulheres do Baixo Amazo-
nas oitocentista. Eu tomei a li-
berdade de alacbh-lo para
possivel leitura (soube
que em breve seri publicado
pela organizagilo do Encon-
tro). O outro trabalho foi
minha monografia de especi-
alizacalo: A clialtica da mn
tutice e da civiliclade: Uma lei-
tura critical dos romances de
Inglis de Sousa" que defen-
di no NAEA. Nela eu faco urma
analise da relaaio entire cida-
de do interior e a capital a p;
tir de O Coronel Sangrado e
de O Cacaulisla.
Por fim, quero elogi: sua
agaz percepgc analise ldo
entrecho que o sr. interpret
como a mastulrbaafI o cia "afi-
lhada" do tenente Ribeiro. Que-
ro, tambem, reforiar a neces-
siclacle cda ecligio clas obras lde
Ingl0s de Sousa (de fonma conm-
petente e de boa qualiclade).
Ap6s 145 anos de nascimento
e 70 anos de sua more (acon-
tecidos no ano p; ado) 6 tem-
po de relermos ou melhor
fazi-lo ser descoberto por no-
'as gerac~es.
Marcus Vinicius
P.S. Houve um erro de im-
pressiao no ano da primneir
publicaflo tie O Cacaulista,
que ocorreu em 1876 e nlo
em 1866.


.iI.il..'i-, -, pelo lanCamen-
,u da Agenda Amaz6
nica.
Sou leitor de tuclo que voce
escreveu no Jornal Pessoal
e agoir a Agenda. (Ali ,


depois de pagar trs reais, sen-
ti-me obrigaclo a ler tudo.)
O seu primeiro artigo na
Agenda levou uma pergunta
como titulo: "A ciencia estran-
geira apenas serve como arma
da capital?" Sua resposta (erm
duas palavras, nao apenas) foi
muito timicla p: a alguem
como voce que conviveu corn
cientistas do mundo toclo.
Eu diria que os cientistas
podem brincar de Deus, m:
este e o unico jogo que vale a
pena. Voce ja sabe quern e que
banca do cliabo nesta hist6ria.
Concorclo que a regiao aincda
estai t espera dos bons resulta-
dos clue a ciencia pomnete, mas
nunca cliiia que a ci&ncia age
contra o bem dca Amazoni:
Em Macapf na reuniato de
PROBIO-Amaz6nia, you apre-
sentai-lo ao Joachim Adis, do
Institute Max-Planck p: a Lim-
nologia. Ele pode ser o origi-
nal ca figure no seu artigo.
Abnraos,
William Leslie Overal,
Departamento de Zoologia,
Museum Paraense Emilio Goeldi


l.ouivavel proposta,
agenda amazinica. Felicito o
editor pelo tema abordlaclo na
edigio original. Para umra fu-
tura "volta ao tern: incluinclo
o seculo XX, pode, eventual-
mente, contar corn o acervo de
nosso Instituto.
Em frente!
Manoel Soares
Pesquisador/Instituto Evan-
dro Chagas


MINHA RESPOSTA
1) IF muito bomn fic saben-
do que alguem estfi estudancdo
auto paraense da impor-
t :ncia de Ingl0s de Sousa corn


a aplicacio de Marcus Vinicius.
Naio s6 se aprofundando no
texto do author, mas penetran-
do no mundo no qual ele vi-
veu e em sua personalidadce.
Pelas informag6es que anteci-
pou na carta, Marcus tern tudlo
para produzir uma boa te.
2) Naio estou certo de ter-
me feito entender por Willi:
Overal. Nao escrevi que os ci-
entistas agemn "contra o bem da
Amaz6nia" Pelo contrn re-
gistrei o cdtbito que n6s todos
temos para corn eles, na ori-
gem de muitos los nossos co-
nhecimentos e opinioes sobre
a regifo, nmesmo que nem sem-
pre identifiquemos a paterni-
dacle. Ao abordar a quest
tinha como certo apresentar
aos meus leitores um sacldo
francamente positive panr
ci&ncia, clescontaclos todos os
desacertos e anipulacies.
Julguei, por fim, estar comba-
tendo os efeitos nocivos de um
preconceito nacionalista vizi-
nho.da xenofobi afastando
de n6s um instrument preci-
oso pan: ajudar no piesente e
no future cda Amazonia.
Quanto aos tres re: -spe-
ro que todos sigam o exemplo
de Overall, comprando a
Agenda e lendo-a integral-
mente p:; a depois, se for o
caso, cliscordcar cela, avangan-
do e superando-a. O que, bem
ntio e nada dificil. Mesmo
porque sua melhor proposta 6
apen: abrir o debate e nlo
encerri-lo. Mesmo a tris reais
(serfi tao caro assim?) Quanto
a Joachin, Overal, ficari p;
outra vez: nfao fui chamaclo
Macap(, s6 ado.
3) E precioso o oferecimen-
to (e o estimnulo) de Manoel
So: Numna pr6xima volta ao
tema os arquivos do Instituto
Evandro Chagas ser-o usaclos.


OUTUBRO/ 1999 AGENDA AMAZONICA 9






BIBLIOGRAFIA AMAZONICA



Regat o:



o polemico



mascate



fluvial


1m. embarcacao de madeira de
p",-queno calado, da metade ate
I popa coberta por um toldo de
palha ou de madeira, forrada -
corn uma lona por fora. Por dentro, ao
long das paredes, prateleiras repletas de .~.
mercadorias: peas de chita vermelha,
caixas de bot6es, agulhas e alfinetes es-
petados em papel, carret6is de linha, an-
z6is, pentes, j6ias de latao, 6leos, lenci-
nhos baratos bordados, lampi6es a que-
rosene, navalhas de barba, tergados, ole-
ogravuras de santos, baralhos, figas,
cheiro para cabelo, brilhantina, colares i
de contas, chumbo grosso, pratos de ,
folhas de aluminio, tabaco migado, ca- I
chaga, care em conserve, came seca
salgada em mantas. No estrado do pouo
da embarcacgo, arroz, aticar, sal e farinha.
Desde 1668 esse barco padrao percorre os mais distantes rios do
interior da Amaz6nia, preenchendo as necessidades de consume de
uma populagao desassistida e contectando-a a Bel6m ou Manaus,
as metr6poles das duas grandes metades amaz6nicas (a oriental e a
ocidental), atrav6s de uma das criag6es mais tipicas da regiao: o
"regatao", comerciantes das beiras de rios, paranis, "furos", igarap6s
ou onde mais houver alguem disposto a trocas.
Durante varios anos os citadinos belenenses, que freqiientavam
um original restaurant no bairro da Sacramenta, justamente cor o
nome de "Regatao", podiam ter uma id6ia aproximada de como
eram esses barcos de mascates. O dono do restaurant fez uma
recriagao estilizada, mas que permitia ao seu client desinformado
sobre as coisas do "sertao" amaz6nico, sentir-se como se estivesse
num regatao. Mas, seguindo o caminho de sua inspiraSgo, o restau-
rante "Regatao" fechou as portas, escancaradas para McDonald's,
China in Box, Pizza Mille e quetais.
O escritor portugues Alexandre Herculano explicou que a expres-
sao designava aqueles membros do povo portugues que realizavam
o com6rcio a retalho, desprezado pelos nobres. Transposto para a
Amaz6nia, o regatao foi, durante o seculo XVII, um vendedor am-
bulante at6 se transformar em mascate fluvial. A principio, apenas o
portugues. Depois vieram sirios, arminios, marroquinos e turcos.
Ate que os natives tamb6m se incorporaram a essa atividade, con-
fon-e atestam as biografias dos proprietarios de algumas das princi-
pais rec es de supermercados de Belem, que comeearam cor o co-
mercio nos rios a partir do Baixo Tocantins. Hoje, corn seus derra-
deiros dias marcados pela expansiio da rede de comunicacoes e
transport, apenas brasileiros restam no com6rcio de regatao.

10 O UTUBRO/1999 AGENDA AMAZONICA


Mas ele ji desempenhou nao apenas um important papel eco-
n6mico (como o element principal de trocas e o intermediario de
uma voraz exploragao mercantil), mas tamb6m social, na condicgao
de veiculo da modernizagao e mensageiro das noticias. Situdi-lo no
tempo e no espago 6 a pretensao do livro do escritor amazonense
Mario Ypiranga Monteiro (O Regatao, noticia historica, Eldiges Pla-
nicie, Colegilo Muiraquita, Manaus, 1958, 148 paginas), langado ha
40 anos e necessitado de uma reedigco.
Um dos poucos trabalhos sobre um tema tao rico quanto esque-
cido, o livro, apesar dos seus erros, procura desvincular-se das vi-
s6es tradicionais, superficiais e preconceituosas sobre esse mascate
da selva. Freqiientemente elas resultaram em moralismos, como o
de DomingosJaci Monteiro. Em 1872, ele condenava os regat6es
por serem nocivos "a moral e as relao6es sobretudo dos tapuios
com os brancos", arraigando "a desconfianga no animo daquela
gene ignorance", persuadindo-a "de que a verdade 6 um vicio, a
mentira uma virtue, o calote um santo conceito, a mi-fe um ever
e o abuso um direito".
M~rio Ypiranga reconhece que, pela sua fungao de penetragio e
devassamento, o regatao foi um mal necessario. Justificava sua exis-
tencia corn tr&s motives:
1) a indole contratual ou mercantil do
_. portuguis, que inaugurou a atividade;
2) a inexistencia de meios de transport
* 1 cobrindo a extensa area navegivel;
3) em conseqtincia, por desempenhar
o papel de verdadeiras estradas aquaticas.
.. Em principios do s6culo passado, havia
mais de 100 embarcaoges praticando o re-
gatao na Amaz6nia, segundo a visafo do c6-
Snego Andr6 Fernandes de Souza, "varren-
i do das vilas e lugares todos os indios, cu-
jos bragos se deviam coadjuvar os Nacio-
z, nais sem que as autoridades possam obstar.
por nao haver Lei...".
Trocando peles, drogas, especiarias ou
bonacha por alinentos, quinquilharias e fer-
ramentas que tinham seu valor multiplicado
por uma balanga viciada, uma conversa insinuante ou abundantes
doses de cachaga servidas a indios e caboclos no conves da embarca-
cao, os regat6es eram mal vistos pelo que hoje se chamaria de "siste-
ma", mas por outros motives, que soarao familiares mesmo nos nos-
sos dias (e particularmente numa cidade inundada por camelss.
O president da Capitania do Rio Negro (hoje, o Estado do
Amazonas), Tenreiro Aranha, acusava em 1852 os regat6es de
"iludir a singeleza dos indios, embrutec&-los e concentra-los ain-
da mais; e, com toda a sorte de malversbes, fraudes e cizanias,
afugenti-los dos povoados e exauri-los de tudo quanto p&los
matos podiam apanhar para os trificos desses atravessadores,
que muitas vezes eram vitimas, as mfros infensas desses mesmos
selvagens que iam embrutecer, ao pass que o comercio mais
licito e regular dos povoados de dia em dia ia desaparecendo, e
sendo naturalmente prejudicado, por nao competir com o da-
queles extraviadores".
Alem do evidence problema econ6mico criado pela competition
entire as duas formas de comercio, a informal e a formal (que seria
resolvido a media que o comerciante regular das cidades financia-
va e cada vez mais controlava os regatoes), havia uma conotagao
political nessas preocupac6es.
O regatao, cor seu comercio illegal, oferecia uma possibilidade
(ao menos de fuga) ao indio e ao caboclo. Do ponto de vista do
govemo, isso representava uma brecha no rigido e severe control
policial. Corn as cacha:as fornecidas pelos regat6es, surgiam ou
eram incrementadas as festas, que davam vazao a revoltas, algu-
mas ensagOentadas cor as armas tambem vendidas pelos rega-
t6es. Era compreensivel que o governor procurasse fechar os dois
canais de suprimento.






A aura demoniaca cor que o regatto era cercado naio o isentou
de comegar a pagar impostos para o municipio em 1842. Onze anos
depois, esse tipo de comercio ji estava legalizado. Era para "apa-
nhar o regatao na rede de imposigoes drasticas e liberar o comer-
cio", segundo a ;,.nfil...it .1 apresentada.
Algumas autoridades como o ja entrlo deputado Tenreiro Ara-
nha, que chegou a elaborar toda uma legisla~fo repressive conti-
nuaram a guerra ao regatao, mas sua exist&ncia estava assegurada,
como explica Mirio Ypiranga:
N, mli.i 6poca em que os recursos financeiros eram minguados, a
agricultural constituia manchas disseminadas aqui e ali, o sistema de
transportes nulo, a industria raquitica (existiam olarias para a fabri-
caiao de telhas e tijolos, fabricas de sabao e de chapeus do Chile,
manufaturagio de ovos de tartaruga para a iluminagio pOblica e
particular, indistria textil rudimentar corn teares manuais, pecuaria
insignificant reduzida aos campos de Rio Branco), a indole contra-
tual cevia manifestar-se em quase todos os habitantes na forma do
pequeno com6rcio beira-rio ou de ambulante, explorado polos es-
trangeiros, com especialidade pelo portugues".
Os pontos mais procurados pelos regat6es relata Ypiranga, fa-
zendo o sumario das principals atividades produtivas da 6poca -
eram as feitorias da salga de pirarucu, da camagem do peixe-boi, os
tabuleiros de viralao das tartarugas, cacauais, seringais, malocas de
indios aculturados, pequenos agregados humans dentro dos lagos.
Os mais ferozes inimigos do regatio "eram e continual sendo os
seringalistas e os pequenos-comerciantes de beira-rio, visto como,
aceitando borracha e outros produtos, leva os seringueiros ao des-
vio das peles de borracha, etc., desviando o lucro certo do patrao".
Apesar de toda a -i.. ,,- i.i..i. ei e do 6dio que provocava, o rega-
tao teve uma presenga marcante e crescente a partir do s6culo XIX.


Talvez porque, alcancando lugares inacessiveis a empresa comerci-
al, estavel e legal, acabava fazendo chegar ate elas todos os produ-
tos, nomnalmente inexploraveis, por um prego altamente compensa-
dor. Afinal, o regatao era apenas um intermedirrio que adquiria as
mercadorias para a troca nas casas de aviamento, em Bel6m e Ma-
naus, pelas quais era financiado.
O comercio formal quase se tornou indissociavel do comercio
informal, enriquecendo pessoas e naturalmente fazendo amigos.
Alexandre de Brito Amorim, que chegou a ser comendador, deputa-
do provincial e nome de rua em Manaus (em 1887), enriqueceu no
comercio, provavelmente ligado ao regatto, tomando-se em seguida
concessionario de uma poderosa linha de navegac-;o. Um primo
dele, regatao, foi preso por explorer um indio numa troca inescru-
pulosa e levado a julgamento. Mas o tribunal "unanimemente o ab-
solveu do crime ign6bil e provadissimo de que era acusado".
Os impostos que os regatoes pagavam (chegando a patamares
elevados) sofreram convenientes rebaixamentos e a justica fazia
vista gross a crimes como o que Isidoro Jose Elias praticou em
1857: ele encurralou nove indios, obrigou-os a correr separada-
mente e os fuzilou, "como por passatempo", esquartejando o
que sobreviveu.
Muitos indios ficaram definitivamente dependents do regatao,
endividados por manobras habeis. Quando a exploragio da borra-
cha comecou, na segunda metade do sdculo XIX, o regatfio serviu
de intemrediairio ate o surgimento da empresa estavel. A partir dal
entrou em decad&ncia. Hoje, quando o meio principal de transport
se transferiu dos rios para as estradas de rodagem, 6 apenas um
marco e uma lembranga acusadora. Alerta para a repeticao do fen6-
meno, sob outras fonnas, ja naro mais apenas no rec6ndito hinter-
land, mas nas grades e empobrecidas cidades amaz6nicas.


DATA



0 come o



da Mendes


Trinta e oito anos atris Osv.... .. I -.:n. 1- I -
blicou o primeiro anuncio d.,i -, "I '.I,: r..I i',-
blicidade, que viria a se torn.. .i i I I iiir ., .
premiada ag nncia de propa;.-.ii,.l I ..I \l, i. ..-
nia, de padrafo international I.Ii l, .I...L i. I i-
nalismo, praticado com brillb. n i- I. "'.- '
A Provilcia do lPard (untamcrn i'.. .. .'Iii .,ii nI ,.
Armando, que se desviou p.,.i .i p..',r i.,i
ensino e a pesquisa), Oswald.. \l.:n..i .... ni.-
va corn 18 clients particular,.- 11. 111..' 1 : i-
no em seu portfolio inaugu: 11 H .i- -. i-i n.- ,
depois, nenhum desses (li. r ii., pI ,'n i ..
mant6m na relagio da ag&n.. I '. 1 PI .I .i: I -
Ihe: nenhuma dessas 18 empi,.: .i i i .1I I I I -
breviveu. E o tal do "custo a, ii. rn'. .1 .. n-
sumir i. Il'.:.. ., e corporal oe -& :m -uii.ir. Ia.
critical. Mas a de Mendes e dck u.i .1,I.n..1. p.'r-
manecem na linha de vanguard, l. III pul, ii~d I-
de no distant Norte. Corn r:imr. .. .. I-i. ',
no seu acervo.


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OUTUBRO/1999 AGENDAAMAZONICA- 11


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A forja da political estudantil


S O estudante Irawaiclyr Rocha foi o orador official
da sessao solene de encerramento do IV Conse-
SIho Regional dos Secundaristas, realizada no dia
,.^ i 21 de setembro de 1953, no Teatro da Paz, em
.lcA-tli Bel6m, corn a presence de muitas autoridades. Em
"brilhante improvise" de mais de uma hora de dura 'o, Ira-
waldyr "prendeu a aten io" dos presents. Reivindicou a cons-
trugfo cda Casa do Estudante e uma sede para a Uniao dos
Estudantes dos Cursos Secundaristas do Pari (UECSP). Elo-
giou tambem o governador do Estado, o general (de Ex6rcito)
Alexandre Zacharias de Assumpaiho, eleito pela oposi;,lo em
1950, quando derrotou o caudilho Magalhtes Barata. Disse
que a administraafo estadual vinha ampliando a rede de ensi-
no, principalmente no interior, "onde estto sendo criados,
constantemente, novos 6rgflos escolares"


Em setembro de 1953, o estudante Camillo Monte-
negro Duarte, representando a Faculdade de Di-
reito, foi eleito president da Unifio Academici
I'.iijcnce (UIAP), que congregava os universitarios
-.- .. do Estado. Liderando a chapa Movimento Deon-
tologico Universitario, ele venceu, por 133 votos, a Roberto
Onety Soares, da Escola de Agronomia, pertencente a Ala
Democtritica Universitfiri A apuragfio foi presidida pelo uni-
vcrsitariio Nelson Ribeiro.
A nova diretori a UAP ficou assim depois da elegito: pre-
sidente, Camillo Montenegro Duarte (Faculdade de Direito); 1"
vice-presidente, Alexandre Miranda (Medicina); 2" vice-presi-
dente, Nilo Leite Nassar (Engenharia); secretirio-geral, Walmir
Hugo Santos (Agronomia); 1" secretirio-geral, Cavalcanti (Servi-
go Social); 2" secretario, Isaac Benchimol (Farm'icia); 1" tesou-
reiro, Gleidson Figueiredo (Economia); 2' tesoureiro, Edyr Brito
(Odontologia); bibliotecirio, Jose Poungartten Lima (Economia),
e orador, Osvaldo Nasser Tuma (Direito).
A chapa dleTotada era formada por: president, Roberto Onety
Soares; 1' vice-presidente, Almir Gabriel (Medicina); 2' vice-pre-
sidente, JoseJ. H. de Sousa Moita (Engenharia); secretirio-geral,
Cicero 3ordalo (Direito); 1" secretirio, Jose Maria de Sousa (Me-
dicina); 2' secretuirio, Adalberto de Souza Ribeiro (Farmnicia); te-
soureiro, Hl6io Smith da Silva (Economia); 2 tesoureiro, Arlete
Uchoa (Enfemiagem); biblioteciirio, Dora de Melo Dias (Servigo
Social), e orador, Ant6nio Gongalves (Odontologia).
Logo depois de ser reconhecido como vitorioso, o novo
president da UAP prometeu, como um dos maiores compro-
missos de sua diretoria, construir a Casa do Estudante, "velha
aspiral('o dos estudantes paraenses"
A festa da vit6ria foi na Sorveteria Americana.
1) Camillo Montenegro Duarle, prosseguindo a mnililtncia
politica, se tornaria clepuladlofederal. Mesmo perlencendo ao
part ido goer iista, Joi cassado pelos militares. Oriundo ca es-
querda democrdlica crisla, era considerado um dissident na
Arena. Volon contra a cassacdo do ddeputado Mdcrcio Moreira
Alwes, da oposigao, exigiia pelos mililares. A recusa cistolo o


Ao falar logo em seguida, o governador empenhou sua
palavra de honra de que ajudaria a construir a sede da UECSP,
por ser uma causaa nobre", provocando aplausos do audit6-
rio.
Irawaldvr Waldner de Moraes Rochafoi, depois, vereador de
Belem, cargo que ocupava, gragas a sua vibrant alividade
estudantil, quando desagradou os militares estabelecidos nopo-
der, em 1964, porcriticara Aerondulica. Encerrou aiuma
carneirapolitica quepoderia tersido mais extensa. Inlegrou-se
aogmp o o tenente-coronel Alacid Nnes, acompanhando-o
nas cduas vezes em que foi governador do Estado. Ocupon vdcrias
funoS6esptiblicas, como advogado, professor e burocrata, a ilti-
ma delays le presidenle do Tribunal de Contas dos Municipios
(pela segunda vez), que cdsempenbava quando morreit, emnju-
nhode 1997, aos62anos.


fichamenlo do Congresso Nacional e a edcliodo Alo Insliltci-
onal n" 5, que encerrou um period de vida republican no
Brasil ao suspender todas asgarantias e direilos individuals.
Foi afoirnalizaci o do regime ditalorial, qualro mess depois do
golpe de estladco que derrubou president Joao Goular Hoje,
Camillo exercea advocacia em Belem.
2) Nelson Ribeiro tern no sen ciuiculo luna das, mais ex.tensas
e bemn sucedidas carniras de tecnoburocrala no [Parc. Tambmn
Jrnnado na nilittclia social crist, foi president do Bancodo
Estadco (do Par'c, secreicdrio cde ktadco e miinis/ro ca refoinna agri-
ria na administraidoaj]ose Sanrney, depois de iumapassagem ini-
cialpela iniciativa privada, lendo sido uin dos diretores da
Paraense Transportes Adreos. Doisfilhos, Paul'o ec Mrio, segui-
ram a trilba aberta pelo pai no sernio piiblico. (Paulo agora no
Minisldrio cdajuisli/a e cMrio no Banco do Estaco do /Parci.
3) Walmir Hugo dos Santos oi secretario de agricllltura do
Eliado.
4) Gleidson Figteirecdofoi superintendent cla prevcid/ncia
social no Pard.
5) Osivaldo Nasser Tirna, alem de empresdrio, participa ati-
vamente nais ntic/acde classes. E director da Associacdo Co-
mercial do Pard.
6) 0 atualgovernadorAlmir Gabrielpode tersofrido, como
candidate a I" vice-presidente da UAP, nutma chapa comn no-
mes que brilbaram menos do que a clos adversrios, saiiprimei-
ra derrota electoral 43 anos ardis. Sua participagdopoli/ica
como academico de medicine mostra, enlretanio, que ele ndo e
nenbumi ne(filo no assiuno.
7) Dos 20 candidates inscritos nas duas chapas, apenas dois
eram do sexo feminino, disputanco os cargos de 2' lesonreiro e
biblioteccirio, mas na chapa derrotada. Os estclantes que dis-
putaram a eleic/o eram provenientes de noveJfculdades. As
maispresenlesforam Direilo, Medicina e Economia, corn IrWs
represenlantes cada im a.
8) A Soweteria Americana, 1n dos points da cpoca, ficava
na rna Qutinino Bocaitiva, em frente ao Coldgio Moderno (hoje,
campus l da Unama).


Agenda Amazonica
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