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S-- rr. ,&m 'b4M,~
I I I a*, A . ... L I: Ano I No I Belem, setembro de 1999 R$ 3,00 Esta ea mina proposta de umna agenda amaz6nica. Ainda em cardterprospectivo, sondando o leito,; testando o "ponto" buscando umn enquadramnento. E ura especie de caderno /de anotagoes de estudante, rn dcos movimientos da buscapela bistoria e o sentido da Amaz6nia. Da mesnma maneira como ainda me empenho em compreender a regido, numa obra emn andamento e constrgdo, espero que o leitorpartilhe esse caminba;r coin idas e vindas no tempo, na tenmdtica, no espago. A ciencia estrangeira apenas serve como arma do capital? a quase 15 anos o poder, na Republic; voltou ao nal. O regime democritico prevalece em todo o pais. Exceto na Tudo issoprocurando conciliar o cotidiano corn a hist6ria, ativando a nmemnria coin o t6nus de un compromisso: ndo aceitarque a Amazdnia seja imolada napira do desenvolvimento, como umr animal do sacriffcio a ion deus ex- machina insonddcvel. Efpero que ambos, o que escreve e o que I, nos sintamos recompensados corn essa nova experiencia que se inicia e, espero, se renovard a cada 30 dias. 0 editor control dos civis. Quatro deles ji se suceclel aior de todas as suas regi6es, a Amaz6nk, que abrange dois no mais alto cargo da administracao pdblica bra- tercos do territ6rio national. sileira desde que o l6timo dos cinco generals ele Nessa que tamb6m 6 a maior fronteira de recursos naturais do I iL vados a presidencia no regime military p6s-1964, planet, cor 20% da agua doce drenada p, a os oceanos, corn o Joio Baptista Figueiredo, deixou o Palacio do Planalto pelas por- ais volumoso e extenso rio do mundo, no centro de uma bacia tas dos funds e pediu pi *a ser esquecido. Uma nova constitui- hidrogrifica sem igual, com a maior floresta tropical e um con- i" o, promulgada em 1988, completou a normalidade institucio- A 33 - I-f'"P! H CII A .I-:F D av i o Pi nto "% C }. ' -'--- Ao trabalho junto de milhares de esp6cies de series vivos ainda pendente de inventirio, continue a prevalecer a diretriz do regime military: a coutrina de seguranga national. Nas Oltimas cinco d6cadas os militares impeliram ou foram im- pelidos pelo Estado national para executar um projeto categ6rico para a Amaz6nia, na maioria das vezes em oposicao a alguma investida international sobre a regiao. O primeiro capitulo surgiu em decorrencia dos Acordos de Washington. Assinados para per- mitir que as nae6es aliadas pudessem reativar a proclugclo de bor- racha nos abandonados seringais interiores, esses acordos, fincla a 22 Guerra Mundial, em 1945, se desdobraram em atividades pros- pectivas atraves da Comissio Mista Militar Brasil-Estados Unidos. Essa comissio promoveu um amplo levantamento aerofoto- grametrico (fotografias tomadas de um aviao) na planicie sedi- mentar amaz6nica, fornecendo a primeira ferramenta operacio- nal para a defini So do aproveitamento econ6mico da regiao. O objetivo do trabalho era localizar dep6sitos de petr6leo na maior bacia sedimentar do globo (geologicamente, sua drea mais nova), por isso mesmo a mais indicada teoricamente para abrigar con- centrac6es de hidrocarboneto (a definicio de alvos comerciais, por6m, s6 ocorreria tres cdcadas depois). Ate que a evolugao dos trabalhos levasse a uma suspeigio quanto ao seu uso, houve coopera;iio entire os dois paises para "valorizaciao econ6mica ca Amaz6nia", cujo piano de desen- volvimento (a ser executaco pela SPVEA Superintendencia do Plano de ValorizagiCo Econ6mica da Amaz6nia, criada em 1953) foi decalcado no modelo rooseveltiano da TVA (Tenessee Valley Authority), a agencia federal que induziu investimentos no vale do Tenessee durante o governor de Franklin Delano Roosevelt nos Estados Uniclos (1932-1945). O segundo capitulo foi escrito em torno do Instituto da Hileia International. Embora a ideia fosse de dois brasileiros ilustres, o diplomat Paulo Berredo e pesquisadora, Heloisa Alberto Torres (filha de Alberto Torres, um dos personagens mais importantes ca Primeira Reptblica, e diretora do Museu Nacional), a Hileia foi interpretacda como uma tentative de internacionalizar a Ama- zonin gragas a campanha nacionalista de reac:io comandacla pelo ex-presidente Arthur Bernardes (durante o seu governor, de 1922 a 1926, o Brasil viveu em permanent estado de sitio). Como a suposta ameaca foi embuticla numa instituigbo de pes- quisa, o governor brasileiro deu sua resposta criando o Instituto 2 AGENDA AMAZONICA SETEMBRO/1999 Nacional de Pesquisas ca Amaz6nia, em Manaus. O Inpa, abran- gendo a Amaz6nia Ocidental, dividiria a jurisdicio da investiga- i'o cientifica cor o Museu Paraense Emilio Goeldi, criado 80 anos antes em Belem voltado para a poraio oriental da regilo.. Exatamente nessa epoca o "Goeldi" passava ca administragao estadual para o control federal. Logo, os brasileiros nao preci- sariam de uma "maozinha" dos cientistas estrangeiros para pro- duzir conhecimento sobre sua mais vasta region. O segundo capitulo, no final da decada de 60, decorreu do I projeto do Hudson Institute, de Nova York, celebrizado pelo ele- vado QI e pelo tamanho do seu gordissimo director, o futur6logo Herman Kahn. O Hudson queria construir ur sistema de gran- des lagos interiores para fazer a ligagao entire as bacias do norte e do sul do continent sul-americano. Com barragens de baix queda, tamb6m conseguiria gerar formidcveis quantidades de energia, represando o rio Amazonas em Obidos, no trecho em que ele 6 mais estreito (dois quil6metros de largura por quase 100 metros de profuncidade), onde a descarga liquid chega a ser de 200 milh6es de litros de igua por segundo, embora "t custa de submergir algumas das mais populosas cidades regio- nais, entire elas Manaus. O s militares reagiram corn o Piano de Integral.o Naci- onal, o PIN, e sua palavra de ordem: "integrar para nao entregar" Com o modelo do Hudson o acesso ias terras firmas e altas da Amaz6nia, as mais antigas, onde comegariam a ser descobertos grandes dep6sitos mi- nerais exatamente quando o institute propunha o sistema de gran- des lagos, seria feito por Agua. Corn os troncos rodovidrios aber- tos pelos militares a partir de 1970, celebrizacos pela Transama- z6nica, as frentes pioneiras nacionais avangariam por estradas de rodagem. Mantinha-se a opcao de transport feita nas areas mais antigas do pais, a partir de Washington Luis governorar 6 abrir estradas"), intensificado pelo Piano de Metas de Juscelino Kubitscheck (1956-61) e indiferentemente i vocagao natural de uma regiaio com mais de 20 mil quil6metros de vias fluviais ple- namente navegiveis o ano inteiro. A alternative national, nesses cois casos de resposta anti-in- ternacionalizacao, era melhor do que a alegada ameaga estran- geira? Havia mesmo uma efetiva intenciio de usurpalao territori- al? 0 resultado da acgao beneficiou a populagio regional, garan- tindo uma relaico equilibrada corn a comunidade national? O historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis escreveu um livro, A Amazdnia e a cobiga inlernacional (1 edigiio em 1960), que se tornou um clissico. Mas tambem uma das matrizes do pensamento geopolitico sobre a regiiio. Ele sugere, aos leito- res menos preparados para 1l-lo realisticamente, que se no pas- , ado houve sempre uma cobiga latente sobre uma firea to ape-" titos,, contemporaneamente esse cesejo de anexac ; o cla Amaz6- nia se manteve e se agugou entire as nacges mais poderosas. I necessario ocupar efetivamente a regiaio, alensando sua popula- calo e nela introduzinclo novas ativiclades economicas, pan gurar a soberania national num; 'a que s6 permaneceu brasi- leira por uma s6rie de circunstincias e acasos hist6ricos, segun- do a ligico de Ferreira Reis. Os efeitos danosos dessa tese sao visiveis. Basta apresentar uma evidcncia de interesse international para que ele se cons- titua numa ameaga real, independentemente do seu contecido. U Um dos exemplos tirados da obra de Reis e o piano que um sargento da Marinha dos Estados Unidos, Matthew Maury, apresen- tou na segunda metade do seculo XIX. Ele queria que dois milh6es de negros ameri- canos fossem transferidos para a Amaz6- nia, logo depois da Guerra Civil, "resol- vendo" dessa maneira para os EUA o gra- ve problema racial, ameaqador atW hoje. Mas ninguem, nem mesmo nos Estados Unidos, levou a s6- rio o projeto de Maury, que naio primava exatamente pela credibilidade. Por ter um fundamento geopolitico, essa postura nacionalista se voltou contra nagoes (comoJapao, China e india, cor pro- blemas de acomodaao de sua populagao no pr6prio territ6rio), mas era infensa as corporag es econ6micas. Exemplar foi a rea- gao ao projeto agropecuario apresentado em 1974 pela Volkswa- gen at Sudam (Superintend&ncia do Desenvolvimento da Amaz6- nia, que sucedeu a SPVEA). Como o control da Companhia Vale do Rio Cristalino (139 mil hectares em Redenlao, no sul do Pari) foi registrado como sendo da Volkswagen AG, um military que representava o Minist6rio dos Transportes se op6s a aprovawgo. Feita a nacionalizag~o formal comn a substituig5o da razao social (de AG, em alemrno, para SA, sociedade an6nima em portugues), o projeto foi tranqiiilamente aprovado. A fazenda, depois de um process de implantacgo conturbado, marcado por erros, aca- bou send um fracasso. A Volks teve que passfi-la em frente (ao grupo Matsubara, do Parani, que tambmr ja a vendeu). Assim, a "ocupaglao da Amaz6nia" comandada pelos militares a partir da clcada de 70, se efetivamente consumou a integragiio da regiao e manteve a distancia supostos apetites imperialistas, nao imunizou-a contra a apropriagto de alguns dos seus princi- pais recursos naturais por multinacionais, tudo dentro da lei. Na lei, n~io havia qualquer anteparo contra esse tipo de internacio- nalizaFio atrav6s do capital. Tanto que as seiss irmais" que mo- nopolizam o mercado de aluminio se instalaram todas na Ama- ,. z6nia, reforgando seu cartel, o mesmo acontecendo em relacio ao caulim e, na maioria dos casos realmente expressivos, substi- tuindo a participacgio nominal no capital (uma das bandeiras do nacionalismo) pelo control efetivo do mercado. STudo o que se faz na Amazonia ainda necessita do nada consta da cloutrina de seguranga national, -smo quando o edito 6 baixado por um civil. Nas duas Linicas convocac6e. feitas ate agor o Conselho ca Defesa Nacional substituteo do tristemente famoso Conselho de Seguranga Nacional do regime military) s6 apreciou questdes amaz6nicas. Sob a justi- ficativa da urgencia que ameaca a seguranga national reco- mencava, ele autorizou o governor federal a dispensar a licita- gfo public pi -a gastar o equivalent 1,4 bilhao de d6lares cor o Sivam (Sistema de Vigilancia da Amaz6nia), em apen; cinco anos. Em relaaio a nenhuma outra regiao brasileira as instituig6es e a opinido piblica aceitariam tao passivamente que essa iniciativa fosse adotada. Mas como a Amaz6nia estai sempre sob o olho gordo dos conspiradores internacionais, o que se promova para combater essa insinuante cobiga 6 rece- bido como iniciativa positive. Ainda e muito fdcil utilizar a teoria conspirativa da hist6rik para justificar uma empreitada desse tipo. Como a presuncgo 6 a da ameaga latente, qualquer ato praticado em sentido con- -ario tem a utilidade de meio de defesa, de instrument para assegurar o dominion que cada brasileira consider indispen- -avel ter para que o pais possa conciliar seu potential de grandeza corn a sua realidade. Como declarou no inicio da clcada de 70 o entto todo poderoso ministry Delfim Neto (hoje ceputado federal por Sao Paulo), a Amaz6nia compen- a o desfalque que o Brasil sofre de poupanga national para realizar seu destino manifesto de grandeza. FreqOentemente, entretanto, a ameaga nJo esta no ponto onde ela e apontada, nem no rumo que a indica. Mas qualquer que ela seja, dificilmente serA realmente combatida se nro for, antes, esclarecida. E por isso que a permanencia do manto da seguran- ca national sobre os temas amaz6nicos como urma espada pen- dente, sempre pocendo ser acionada sem maior questionamen- to, por motivag~o categ6rica e impulse instintivo, fez corn que os terms antiteticos (ou opostos) integragilo e "entregacao" acabassem convivendo, sem gerar uma sintese. Muito pelo con- trario: aior ocupaiao expondo ainda mais o dominion dos processes nacionais na regito. Amaz6nia faz parte do mundo. E ingenuidade ou m.- f6 pretender isoli-la novamente, ela que nunca che- gou a ficar realmente isolada (ate a constituiglo do imperio brasileiro, foi mais metropolitan do que o res- tante do pais). Seria como cancelar a lenda indigena sobre a origem da noite, que emergiu do interior de um carogo SETEMBRO/ A 3 de tucumi, mas para dentro dele ji nLo pode mais ser devolvida. A Amaz6nia precisa descobrir, urgentemente, de que ma- neira faz parte do mundo e como conseguir uma insergjio que Ihe seja mais favorLvel, que naio seja colonialista, na re- lacao cor o mundo e no relacionamento corn as regi6es lide- res do pr6prio pais. Se o fluxo do capital tem sido predador e desfavoravel a regiao (inclusive porque os meios geopoliticos de defesa sao inapropriados e ineficazes), um fluxo de co- nhecimento e informag6es talvez possa desfazer essa armadi- lha high-tech. A Amaz6nia precisa cialogar corn o mundo. O mundo tem que garantir uma condig~o de diAilogo mais favo- ravel a regilo, nao apenas em tese, mas na pritica, defato. Desse novo status talvez dependam algumas das melhores pos- sibilidades de impedir que a Amaz6nia seja mais uma region colonial do planet. Esse status especial, que reconheca a particularidade e especi- ficidade da regiao, 6 sua esperanca de novidade e de vit6rik Em alguma media a Amaz6nia precisa ser considerada na dimensio autarqui- ca, seja para estabelecer conv6nios, acor- dos e tratados internacionais, seja para definir relaq6es de troca intra-nacionais. Os juristas deveriam ser convocados para apresentar suges- ties a respeito de uma FederagLo capaz de garantir essa ciferenciaLa5o, num sistema que realmente incorporasse re- giao tito vasta sem desfigura-la, sem subrete-la a uma con- cli'io de subordinai0ao e dependencia. A Amaz6nii ainda 6 uma id6ia estranh a" identidade national. Neste aspect, a Amaz6nia nlo 6 exatamente Brasil. Cor a revelagio de novas fontes documentais, inclusive no exterior, a nocgo mais realista e atinente da inserflo az6nica ao Brasil estLi se formando. Documentos do Fo- reing Office descobertos por David Cleary (a espera de pu- blicagSo no pr6ximo nomero dos Anais do Arquivo Publico do Part) mostram que o regente paulista Diogo Ant6nio Fei- j6 props a Inglaterrt Franga e Portugal que invadissem o Parti e reprimissem a revolta dos cabanos, em 1835. O go- verno brasileiro fingiria ignorar o ato, at6 a provincit declarada "pacificada" pelos estrangeiros, que espontanea- mente se retirariam, devolvendo aquela possessio national. Feij6 fez a escandalosa proposta (s6 agora revelada pu- blicamente) porque considerava impossivel ao nascente irm- perio brasileiro reprimir duas revoltas que estouraram justa- mente em seus limits territoriais extremes: a Cabanagem no norte e a Farroupilha no sul do pais. Como a Amaz6nia era area desconhecida, que tivera pouca relafao cor as outras provincias sob o dominion metropolitan portugues, Feij6 achou melhof deslocar suas tropas para Sfo Pedro (Rio Grande do Sul), que Ihe interessava manter, do que para o Grafo Para, oferecendo-o aos estrangeiros (que tiveram o born 4 AGENDA AMAZNICA SETEMBRO/1999 senso de recusar a aventura), ainda que na presunn'ao de que essa interven' o autorizada seria de curta duraCgao. Mas seria um risco extremamente elevado se a Inglaterra, corn seu poderio military e econ6mico, estivesse realmente in- teressada em se apossar da Amaz6nia, como asseguram os livros escritos sobre a Cabanagem. Os ingleses, ao que pare- ce, ainda achavam suficiente desempenhar sua atividade co- mercial atraves de um governor national, ao inv6s de entrar numa operaciao military direta (tanto que a Inglaterra foi a grande financiadora da exploragao da borracha, a partir da segunda metade do seculo XIX). Ja tinham trabalho suficiente e gastos demais em col6nias de maior rentabilidade em outros pontos do mundo tropical para apostar capitals e esforco military onde ja obtinham o que julgavam entfo possivel. Mais de 25 anos atris formei o essencial desse raciocinio lendo a literature dos viajantes estrangeiros do s6culo XIX. Muitas das id6ias que former sobre a Amaz6nia t&m raizes fincadas nos relates desses homes, as minhas e de muita gente, mesmo entire os que nao ter consciencia de tal ori- gem. Na 6poca, escrevi um texto introdut6rio, esquemitico e simples, pensando em aprofundar depois o estudo. O jor- nalismo me desviou desse projeto, como de vairios outros. Felizmente, alguns autores o abordaram desde entL embo- ra, a meu juizo, nao corn a amplitude e profundidade ne- cessfirias para responder a uma pergunta cada vez mais an- gustiante entire n6s: a ciencia e apenas caudatiria do capital ou ter sua margem de autonomia, suficiente para fornecer armas contra o pr6prio capital que a financial e o pr6prio pais no qual tern sede? Tenho minhas esperangas a respeito. Nao e algo tio tran- qiilizador quanto a certeza, mas nem tfLo perigoso quanto falsa certeza. Par, stimular o interesse pelo tern; public o artigo de 25 anos atris. Ele apenas chama a atenfao para a questao, mas s6 uma pesquisa de f6lego, com acesso documentaiao de outros passes, poder dcizer se o conheci- mento gerado pelas expedig6es desses cientistas atendeu a um compromisso previamente firmado com seus financia- dore,, se fez parte de um esforco mi amplo relacionado a Amaz6nia e se alimentou realmente as poucas iniciativas que se materializaram n: strutura produtiva e de poder da re- giio nesse period. E claro que em alguma media (maior ou menor do que se presume, a ser definida cor maior clareza quando urn pesquisa ampla e sistemlitica for empreendida nos arquivos necessfirios) os atos praticados por esses personagens tive- am inspira 'ao ou fundamento no material recolhido pelos ajantes. E bom nao esquecer, contudo, que grande parte do acervo da mission Langsdorff finall exibido nos (iltimos . anos, nos causa admiragaio e entusi; permaneceu de- positada por quase um s6culo nos poroes de um palacio na Riussi Avangos nesse sentido responderio a essas e a muitas outras perguntas. Ternao ainda a funcao de, consolidando o conhecimento do passado, ajudar -sclarecer o present e a iluminar o future, -alizando a hist6ria. Os cientistas A 1 um seculo que passou ntes de chegarem a Amaz6nia, eles eram os autores de algumas ideias mirabolantes sobre a Amaz6nia. Mas depois de passarem boa parte do seculo XIX su bindo e descendo rios, enfrentando animals, doen gas, indios e o desconhecido, procurando insignifi- cantes insetos ou a cata de surpreendentes hist6rias, mudaram nao s6 a opiniAo pessoal sobre a Amaz6nia como a pr6pria hist6ria da region. Antes deles, a Amaz6nia ainda era uma lendAria terra de mulheres guerreiras, tesouros escondidos, o Eldorado mas incivilizivel. Depois, viria a tornar-se fonte de recursos para a cikncia e um dos locals mais atraentes do planet. Raros deles trabalharam juntos ou se encontraram em suas peregrinac6es pela jungle, nem ha provas de que tenham integrado um am- plo program comum de devassamento, cor objetivos politi- cos ou comerciais, ainda quando essa tenha sido uma das con- seqtiincias do seu trabalho. Acima de tudo, os viajantes es- trangeiros que estiveram na Amaz6nia no s6culo passado fo- ram apaixonados aventureiros, amantes das viagens. Eles receberam financiamentos dos gover- :'.. ~ nos dos seus paises ou de algum mecenas, mas o interesse de extrair mercadorias da .. Amaz6nia ainda estava subordinado A ne- cessidade de conhec&-la melhor do que per- ' mitia a literature acumulada at6 entjo. Por ' isso, varios desses cientistas trocaram seus c6modos laborat6rios de pesquisa num cen- .' tro civilizado da Europa ou dos Estados Uni- dos pelo agreste ambience de uma floresta . selvagem e desconhecida, transformada em . novo laborat6rio de estudo. "- . O naturalista suigo (naturalizado america- no) Louis Agassiz ia s6 mudar de clima por uns tempos para tratar da satde num pais tropical. Acabou send o mais fertil e fanta- sioso dentre os cientistas que circularam pela Amaz6nia. Os jovens professors Henry Ba- . tes e Alfred Wallace queriam colecionar in- setos em lugares mais distantes do que a pacata Leicester, em sua Inglaterra, para com- provar teorias evolucionistas e aplacar a sede de viagens. Uma das melhores e mais agra- diveis narrativas ate hoje escritas sobre o mundo tropical saiu da pena do amadureci- do Bates, depois de 4 anos de expedic6es . pelo interior amaz6nico, que ji conhecia . quase tdo bem quanto seus guias. Nem sempre dominavam a lingua local, pouco sabiam dos costumes, o clima lhes era estranho, as pessoas constituiam um ou- tro mundo. Mas empreenderam uma campanha que ficou para a hist6ria: o primeiro grande inventdrio da regiao dominada pela maior floresta tropical e a maior bacia hidrogrifica do globo terrestre. Carl Friederich vons Martius veio para o Brasil, junto cor seu amigo Johan Baptiste von Spix, para explorer o rio Amazonas, da foz ate alem das fronteiras brasileiras, na mais ampla e rica de todas as expedicges cientificas at6 entao planejada. Separando- se de Spix, Martius subiu de canoa o rio Jurud, acompanhado de virios indios ja "civilizados". Num trecho da viagem, foi alertado por um indio que levara de Belkm de que os demais pretendiam mati-lo e estavam desviando o rumo da embarcacgo. Martiu mandou amarrar o piloto a borda da canoa e ameacou corn um revolver a ele e aos outros, prometendo mati-los caso n~o reto- massem o caminho certo. O indio se amedrontou e obedeceu. "Foi uma das raras ocasi6es em que encontrei perversidade entire os indios", diria ele depois no seu livro. Martius teve ainda outro problema cor os indios Caxinaua. Chegando a aldeia deles, foi, cor seus acompanhantes, cum- primentar o cacique. Quando entraram na maloca a porta foi fechada. Mais de 30 indios li se encontravam, todos armados de flechas e sentados nas redes, silenciosos mas alertas, tensos, prontos a atacar a qualquer moment. "Um instant de desentendimento ou recuo nos teria sido, ali, provavelmente fatal", observaria. Os indios, vendo tantas canoas aportarem em seu lago, te- miam por um ataque dos brancos. Resolveram entao se anteci- par, atraindo os visitantes para a maloca, escura e sem espaco, onde eles nao poderiam usar suas terriveis armas e seriam mortos. Diante da situagao, Martius encontrou uma ripida sai- da: arremessou sua gravata em diregao ao tuxaua, em sinal de paz. Os outros brancos repetiram esse gesto. A desconfianga acabou: houve comemoragio cor cachaga. O tuxaua esfregou seu rosto melado de urucu no rosto de Martius: "nunca ainda eu havia visto indios a se beijarem", o naturalista anotaria. Os muitos problems encontrados nas expedicges nao impe- SI diram Martius de realizar um S. S -'. important levantamento et- S. nogrifico. Empreendeu o pri- S-: "- meiro estudo sistemditico das S. nag6es indigenas, que divi- S- ;' diu em oito grupos principals, / de acordo con suas afinida- des linguisticas. E foi ainda Squem sugeriu um dos nomes -r',, : com os quais a Amaz6nia fi- Scou conhecida: reino das Nii- -t Aqueles homes esquisi- .' o. tos e divertidos, sempre an- dando atris de bichos e plants, "ou de outras coi- sas estranhas", que os habi- tantes da regito nao conse- guiam descobrir exatamente o ; qu.: cram, se adaptavam ao meio i i-I.m Lina facilidade admir~vel, mes- mii- enfrentando hostilidades nor- maalmente desanimadoras e ad- versidades que nem sempre i correspondiam a tradigdo oral propagada no mundo "civilizado". S ,' Bates conta em suas nar- rativas que os ingleses cor os quais chegou a conviver na sel- SETEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 5 va achavam aquele clima melhor do que o da Inglaterra. A partir dessa observagio, acabou desfazendo um mito antigo e muito cultivado: o clima da Amazonia era insalubre. Mesmo integrando-se ao meio, entretanto, os viajantes es- trangeiros nunca perderam a visao critical da regiao, que seu distanciamento Ihes permitia ter. A senhora Elizabeth Agassiz, que diariamente registrava as atividades do marido, transfor- mou essas notas num diArio de surpreendente beleza e admi- rivel intuigio sobre as coisas da regiao. Sua descrico dos lugares por onde passava e tdo minuciosa e exaustiva que ate hoje e um roteiro que pode ser utilizado com proveito como obra de referencia. O livro (Viagem ao Brasil) ficou famoso, aumentando os creditos de Louis. Elizabeth preferiu manter- se a sombra do mari- do, como convinha aos . padres da epoca. Nao .. . aceitou, nem reivindi- ,'. cou uma autoria que ihe era devida. Agassiz era incans- vel. Saia todas as ma- nh~s para suas pesqui- *- . sas, que Ihe tomavam muitas horas seguidas. Resistia e se adaptava . como poucos. Seria a maneira de comprovar suas teorias racistas da superioridade do bran- co sobre os homes das demais ragas. Suas pre- tens6es quanto a esse aspect nao tiveram exito, mas corn a viagem ao Brasil ele tinha tries objetivos: "fazer grandes colleges de tudo aquilo que possa fazer parte de um museu de Hist6ria Natural; estudar os peixes, especialmente seus habitos, suas me- tamorfoses e sua anatomia; ir ver nos Andes se nao houve tam- bem grandes geleiras nessa cadeia de montanhas na epoca em que nos Alpes elas se estendiam ate oJura". Numa carta A mne, ele dizia: "imaginem-se, se possivel, gelos flutuando sob o Equador, como hoje nas costas da Groelandia, e se teri provavelmente uma ideia aproximada do aspect do Oceano Atlintico nessa epoca". A teoria da epoca glaciaria da Amaz6nia formulada por Agas- siz, entretanto, duraria apenas um ano: em 1867 o norte-ameri- cano James Orton descobria 17 conchas tercidrias marinhas num lugar poucos quil6metros acima do ponto ate onde Agassiz havia chegado na sua excursao. Apesar de nao haver comprovado nenhuma de suas teorias, Agassiz p6de fazer um important trabalho gragas aos recursos de que disp6s, "maiores do que tivera ate entao qualquer na- turalista e dificilmente algum voltard a ter", como diria Emilio Goeldi depois. Agassiz encontrou 1.800 especies novas de pei- xes amaz6nicos depois de ter reunido aproximadamente 80 mil exemplares, remetidos em dlcool para o museu que ele dirigia nos Estados Unidos. Levou ainda 1.100 desenhos colo- ridos de peixes da regiio. Antes da expedigAo de Agassiz, em 1865, o total de species ainda nao catalogadas de peixes ama- z6nicos nao passava de 100. Walter Henry Bates teve sorte diverse. Quase sem recursos, enfrentando muitas dificuldades para conseguir dinheiro de fi- nancistas ingleses (""eu-chegava a ficar dias sern nenhum di- nheiro", confessaria), ele conseguiu reunir uma boa coleilo e corn ela voltou a Inglaterra. Mas, ao contrario de quase todos os outros cientistas, foi entao que comegaram para ele as maiores dificuldades: sem dinheiro, precisou vender a cole5ao que reu- nira. Depois de ter permanecido 14 anos na Amaz6nia, susceti- vel a doengas que a excessive exposigao ao sol Ihe acarretariam 6 AGENDA AMAZONICA SETEMBRO/1999 para o resto da vida, desfazer-se da colegao foi um abalo muito forte. Nao s6 passa-la em frente, mas ve-la desintegrar-se, "pois alguns grupos [depegas] passaram para outras maos em diversas parties da Europa". t provdvel que essa tenha sido uma das razbes que leva- ram Bates a s6 publicar seu livro (O Naturalista no rio Ama- zonas) quatro anos depois de chegar a Inglaterra e mesmo assim porque Charles Darwin insistiu muito a respeito cor ele e os amigos lhe arranjaram um lugar de assistente-secre- tArio na Real Sociedade Geogrifica de Londres, emprego que solucionou seus problems financeiros ate a morte, em 1892. Mas para Bates houve o grande sucesso cientifico que fal- tou a Agassiz: todas as hip6teses cientificas que formulou foram confirmadas. i" O amigo de Bates, .. James Russel Wallace conseguiu viver sem as mesmas dificuldade ma- S -terial e muito bem co- .r .. ... . tado entire os cientistas .... da 6poca, mas foi al- cangado pela md sorte: ao voltar para a Ingla- terra depois de quatro anos na Amaz6nia, o ... navio em que viajava pegou fogo, passou al- .B guns dias no mar como nufrago e perdeu toda a colego que levava, j untamente com as ano- tag6es para o trabalho que ainda queria empreender em labo- rat6rio. Suas teorias evolucionistas, muito aceitas enquanto ele era vivo, estao hoje completamente esquecidas. Wallace e mais conhecido como "o amigo de Bates". nquanto uns subiam, outros desciam o rio Amazonas. Havia assim uma permanent oportunidade para as populag6es amaz6nicas se divertirem com as extrava- gancias daqueles homes. Agassiz, por exemplo, era conhecido como o estranho sujeito que comprava pei- xe morto, conservado em formol e quanto menor fosse o pei- xe, melhor. Os caboclos nao conseguiam entender porque ele queria peixe morto. Muitos anos depois, ja na segunda metade deste seculo, o misterio continuava a se apresentar, ji entao para os santa- renos, conforme o testemunho do historiador Paulo Rodri- gues dos Santos. Dessa vez, o personagem ex6tico era o antropdlogo alemao Curt Unkel Nimuendaju. Ele andava como louco atras de cacos de ceramica que surgiam, principal- mente depois das chuvas, no bairro da Aldeia (como o pr6- prio nome sugere, onde habitavam os Tapaj6 ate c. .n:v .t- rem a ser exterminados). Como o gringo caladao pagava bem, as criangas safam a cata das "caretas" de indios mal suspendia a chuva. Nimuendaju teve que parar a coleta porque a oferta se tornou incontrolAvel. Ele pr6prio passou a cavar nos lugares mais promissores. Um portu- gues, desconfiado de que aquele estrangeiro estava procurando mesmo era ouro, ia a noite continuar sorrateiramente o trabalho do antrop6logo. A custo foi convencido de que estava compro- metendo uma pesquisa cientifica. Objetivos indecifriveis e propostas polemicas acompanhavam esses estrangeiros. O mais celebre deles, Alexandre Humboldt, um dos "pais" cientificos da A mn.zin'i.I mesmo sem haver pisado na maior parte da floresta, em territ6rio brasileiro (ficou no Peru, impedido de penetrar no Brasil pela coroa portuguesa, que o considerou um espiao), props a construgao de um canal artifi- cial atravessando o istmo formado pela bifurcagao do rio Oreno- co, com o objetivo de dinamizar uma area de 190 mil 6lguas quadradas. m fins do s6culo dezoito Humboldt previa: "O grao da Nova Granada [ Venezuela/Colombial seri levado as margens do rio Negro, hao de descer barcos das nas- centes do Negro e do Ucayale, dos Andes de Quito e do Alto Peru, at6 a foz do Orenoco, cobrindo uma distancia equivalent a que separa Tombucutu de Marselha. Uma area 9 ou 10 vezes maior que a Espanha, e enriquecida dos mais variados produtos, e em todos os sentidos navegivel, gragas ao canal natural do Cassiquiare e a bifurcagao dos rios". Visionirio e confiante numa Amaz6nia que seria o ce- leiro do mundo, ele defendia tamb6m a uniao da bacia do Guapor6 e a do Paraguai com a do Prata. Seria a grande hi- drovia ligando o continent, do Pacifico setentrional ao Atlan- tico sul, ainda hoje um sonho por realizar. Propostas praticas desse tipo provocaram em alguns casos a desconfianga do governor e da populaiao sobre as reais inten- g6es desses viajantes, financiados por capitalistas europeus e prestigiados por seus governor. Nao faltava as vezes razao para achar que nao se tratava de id6ias desinteressadas, como as de Humboldt. Ao critical o exclusivismo de posse do rio Amazonas e defender a livre exploracao da regiao, Humboldt estava se an- tecipando as teses colonialistas do seculo seguinte (embora, diga- se a seu favor, que elas nao prosperaram). Francisco Castelnau, que esteve um pouco antes de Hum- boldt para verificar as possibilidades de circulagao entire as bacias do Amazonas e do Prata e de escoamento dos produ- tos amaz6nicos, props a "abertura de uma navegagao inin- terrupta desde a ilha de Trindade, a Antilha mais meridional, at6 Buenos Aires". A finalidade secret da missao de Castel- -nau era induzir o governor brasileiro a abrir a navegagao as nacoes estrangeiras. Charles Marie de La Condamine, um dos membros da Co- missao Astron6mica que mediu no Equador, de 1735 a 1739, o comprimento de grau do meridiano, alterou seus estudos de hidrografia da Guiana Francesa para transformar areas que faziam parte do territ6rio brasileiro em possesses francesas. 0 francs Henri Coudreau, que permaneceu de 1872 a 1899 no Amapi e no Tapaj6s (foi o Onico dos cientistas estrangei- ros do s6culo XIX a se fixar definitivamente na Amaz6nia, nela morrendo), foi acusado pelo governor paraense: em vez de cuidar de seus estudos, "s6 tratou de, por meio da propa- ganda, captar ainda mais a simpatia dos Cunainenses pela causa da Franca, excitou o povo a enviar petigoes ao governor frances, pedindo autoridades francesas para governa-lo". Mas ele se estabeleceu como comerciante e ficou 12 anos mais entire os hoje amapaenses. De uma maneira ou de outra, eles alteraram a paisagem da Amaz6nia. As teorias de Agassiz nao se confirmaram, mas a <. I.li. -, sobre peixes amaz6nicos que ele reuniu foi, durante mais de um seculo, a mais complete existente no mundo. Bates desmitificou os conceitos sobre a mi qualidade do clima da regiao. Humboldt mostrou suas possibilidades c... n.^.mi.. - Spix e Martius eram alemaes, Bates e Wallace ingleses, Cou- dreau frances, Agassiz duio naturalizado americano, Derby e Hartt americanos. S6 uma vez tres deles se encontraram. Era uma noite chuvosa de 1852. Bates subiria o Amazonas, Wallace descia o rio e Spruce passava por Santarem. Um velho escoces, Hislop, 15 anos como morador da cidade, os recebeu em sua casa. Beberam cachaga ate alta noite. No dia seguinte cada um seguiu seu rumo, que nao mais voltou a se cruzar. Exceto na bibliografia das viagens, rica e irregu- lar como a Amaz6nia. Francis em Bel6m Em janeiro de 1952 o Teatro do Estudante do Brasil, criado 13 anos antes pelo embaixador e escritor Paschoal Carlos Magno, como parte integrante da Casa do Estudante do Brasil, se apresentou pela primeira vez em Bel6m, a segunda parada na sua excursao inaugural pelo norte, iniciada em Manaus. A temporada foi de sete dias, com um cardipio selecionado, de Antigona, de S6focles, aos autos de Gil Vicente, e at6 um espetaculo infantil gratuito, em frente ao Teatro da Paz (local das apresenta6oes), A Revolta dos Brinquedos, de Pernambuco de Oliveira e Pedro Veiga. Uma das estrelas da temporada era ningu6m menos do que Paulo Francis, entao cor 20 anos, que se tornaria um dos mais polemicos jornalistas brasileiros at6 morrer, no inicio de 1997. Sobre ele, um registro do journal Folha do Norte, o mais important d.t 6poca. dizia: "Esse 'ovem de vinte anos ji evidenclou seu talent diante da plat6ia paraense, quer como 'Ulisses' em 'Hecuba', quer como 'Frei Lourenco' em 'Romeu eJulieta'. Deseja ingressar deinllll[i\ nit-nl- no teatro que 6 sua maior paixao e sobre o qual tem de fato uma belissima cultural. Cada papel que interpreta merece de si um cuidadoso trabalho de pesquisa, de pru. ur. em livros e na vidj clm volta, no sentido de se aproximar do seu personagem, dando-lhe o mJ111.1i i, dc realidade". SETEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 7 0 que ler para saber algo sobre a Amazonia S e eu fosse para uma ilha desert e s6 pudesse levar comigo um livro, escolheria Tesouro Descoberto do Rio Amazonas, escrito no seculo 18 pelo padre potuguesJoao Daniel. Diz a lenda que ele produziu essa obra na masmorra lisbonense, para onde foi manclado pelo marques de Pombal cor tolos os jesuitas expulsos ca Amaz6nia, sem consultar documents ou qual- quer outro registro impresso. Tuclo de mem6ria. Nao 6 prov'vel, m; nenhum outro escritor amou tanto em seu texto a Amaz6nia quanto ele. Nos moments de desinimo, convem reler o tesouro de coisas da geografia, da fauna, da flora, da hist6ria, do folclore e toda a cosmovi- sao proluzida por esse autor Onico. Infelizmente, a fnica edic o complete disponivel no Brasil ji e uma raridale. Foi publicada em 1975, em dois grossos volumes, no numero 95 dos Anais ca Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Estai mais do que na hora de alguma instituigdo providenciar uma reedi5io ii altura desse maravilhoso tesouro. Como muitos outros que podlem ser selecio- nados a partir do levantamento empreendido pelo IBBD (Instituto Brasi- leiro de Bibliografia e Documentacio) e o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia), Amaz6nia Bibliografia. A primeira edig~o foi publicada em 1963. Na 22, atualizada e ampliada em 1972, ji constavam 5.708 publicag6es. Quantas apareceriam numa nova e necessiria e edi- cao, que ji tarda? Desde entio, incrementou-se como nunca a procducko sobre a Amaz6nia. No texto abaixo, relaciono alguns livros (de nAo-ficgAo) de uma bi- bliografia basica sobre a regi~o, sem a preocupagjo de indicar os me- Ihores, nem de ser exaustivo. Sito citados aqueles livros que vieram na- turalmente a mem6ria, como obras que me ajudaram muito a lefinir intelectualmente o que 6 a Amaz6nia. Podem ter essa mesma serventia para os leitores desta Agenda. Na literature dos viajantes estrangeiros, 6 indispens'ivel comeear pela Viagem Filosofica, de Alexandre Rodrigues Ferreira, reeclitada (sem data inlicaca) pelo Minist6rio da Ciencia e da Tecnologia, atraves do Museu Paraense Emilio Goeldi. Mas antes dessa iniciativa, entire 1972 e 1974, o Conselho Federal de Cultura (sob a presid&ncia do amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis) editara cuas primorosas caixas corn as gravuras pro- duzidas pela expedicio do s6culo 18 desse notbivel baiano, alIm de dois volumes corn as mem6rias cientificas que ele escreveu. I urma etern; fonte de leslumbramento. Tamlbm fundamental e Un naturalista no rioAmazonas, de Henry Walter Bates (a mais recent ediCio que tenho e da Elitora Itatiaia comr a Universidlace de Sao Paulo, 1979, em formato grande), complement: ca pela FDpedifdo no rioAmazonas, de Alfred Russel Wallace. Deliciosl 6 a Viagem ao Brasil, de Louis Agassiz (mas na verdale escrita por su: mulher, Elizabeth), que faz parte da colegao Brasiliana, ca Companhia Elitora Nacional. No mesmo nivel e com o mesmo titulo, a viagem de Spix e Martius, republicaca em tres volumes pela Edii6es Melhoramen- tos, em 1976. Pode-se ler com enorme proveito todas as viagens de Hen- Ii Coudreau, boa parte delas reeditadas pela parceria Itatiaia/USP, sen- lo de vivo interesse a Viagerm altaboca eaoltacaiiinas, principalmente em fiungio da hidreletrica de Tucuruf. Das mais recentes, destacaria ape- nas Viagem ao Tocantins, lde Julio Patemostro, que a Editora Nacional publicou em 1945. Incrivel que um roteiro escrito por Lucio de Castro Soares para um congress do Conselho Nacional de Geografia, em 1963, A maz6nia, ji ais tenha merecidlo uma nova edicgo. E, talvez, o melhor guia geral jai 8 AGENDA AMAZONICA SETEMBRO/1999 escrito sobre a regiao, tendo sido confinado aos sebos. J~ Amaz6nia, a ilusao de umparaiso, o provocador trabalho da arque6loga Betty Me- ggers, mereceu duas edig6es, umna ca Civilizaglo Brasileira e outra, de 1978, novamente do coms6rcio Itatiaia/USP (cuja riqueza em temdtica amaz6nica deveria ser de fazer inveja as editors da pr6pria regiao). Tambem em uma Onica edigao (de 1975) ficou o no menos polemico livro escrito pelos americanos Howard Irvin e Robert Goodland, Selva amaz6nica: do inferno verde ao desert vennelbo. Quem quiser ler o capitulo sobre os indios, porem, tera que consular a edigao americana. I que o entao director da editor da USP, Benedito Guimaraes Ferri, sim- plesmente arrancou essa parte do livro, considerando-a incorreta (na verclade, ainda era uma chaga em aberto para os tutores do regime military, que Ferri n.o queria desagradar). Um livro sobre indios escrito por um antrop6logo, tamblm america- no, Shelton Davis, serve tambem como boa introcdugo as quest6es eco- 16gicas, Vitimasdo milagre, que a Editora Zahar publicou em 1978, sem mutilafao. Um dos principles cia melhor corrente antropol6gica, Charles Wagley (com quem jantei em 1984, em Gainesville, na Fl6rida), cunhou um clfssico cia regiao, Uma cormunidade amaz6nica(a primeira edigio brasileira 6 de 1957), um sofisticado inqudrito sobre Gurupni (transfor- mada em Iti), que pode ser lido simultaneamente a Santos e Visagens, do nosso equivalent national, Eduardo Galvao. Junto com Maybury- Lewis, o remanescente, uma geragao de pesquisadores que sabia ver, aprecisar e escrever cor maestria livros de profunda fruigio intellectual. Fazem falta. Como o maranhense Nunes Pereira de Moronguetd, um Decameron indigena (Editora Civilizagao Brasileira, 1967), uma polifo- nia intellectual. Nosso polivalente Roquette-Pinto nos deixou outra preciosidade, Ron- d6nia (uma enriquecida quarta edig'o 6 de 1938), corn o qual pode-se melhor apreciar os magnificos relat6rios de nosso saibio marechal Can- liclo Mariano Rondon sobre o roteiro das linhas telegrAficas que im- plantou entire Mato Grosso e Rond6nia. As Obras completasdo mineiro Domingos Soares Ferreira Pena, nome de rua de Bel6m e pai do Museu Goeldi, ainca devem ter exemplares 0 discurso politico dificil responder a per- gunta sobre o melhor prefeito cde Belem quan- do se exclui a unanimi- dade em torno do maranhense Ant6nio Lemos, o intendente do municipio durante o perio- do iureo da borracha, entire o final do seculo passaclo e o ini- cio do atual. A capital dos pi *aenses tern sido infeliz na es- colha (ou simples aceitagilo, nos periodos de preenchimen- to do cargo por indicagao do governador) do seu administra- lor. A maioria deles nao dei- xou mem6ria dos seus atos, tao inexpressivos ou mediocres eles foram. Mas um numero signifi- cativo de pessoas consultadas aponta o nome de Celso Mal- cher, eleito em 1953. Em setembro claquele ano, em plena campanha eleitoral, Celso Malcher distribuiu um panfleto muito interessante, que se perdeu no atropelo que a hist6ria de Belem tem sofiido. 2 sugestivo, a quase um ano da realizaci'o de uma nova eleigio para a escolha do ocupante do Palicio Ant6nio Lemos, relem- brar esse document. Atrai logo a atenito o titu- lo do panfleto: "Prop6sitos de governor" E que Celso estava atento ao "perigo da promes- 'a levian, agradcivel de ouvir e c6moda de fazer, por6m di- ficil, quando nio impossivel, se concretizar" Para ser since- ro corn o eleitor, ele preferia comprometer-se "sobre dire- trizes do que sobre realiza- 6es" E justificava: "quanto aquelas, posso realmente pro- meter; quanto a estas, apen: sugerir" A primeira diretriz er: a ho- nestidade administer. "Fa- rei declara'ao patrimonial an- tes de assumir e ap6s deixar a Prefeitura, conforme exige lei", prometia o candidate it perdidos em algum dep6sito p6blico, a espera de proveitosa leitura. A ecligio, de 1973, do Conselho Estadual de Cultura, 6 louv.ivel, mas graficamente tao acanhada que pode ter inibido a incursao sobre esse invejdvel conjunto de estudos de Ferreira Pena. Pior 6 a condig;o de O , Estado do Para, de Paul Le Cointe, cuja Onica edigao, da Companhia Editor Nacional, 6 de 1945. Foi deixado de lado pelo projeto "Lendo o Para", que relangou, por.m, o precioso RegioesAmaz6nicas, do Ba- rao de Maraj6. Prazer superior e o que tambem proporcion; a leitura das Obras reunidas deEidorfeMoreira, nosso maior ge6grafo. Em oito volumes, langados em 1989, fazem-nos lamentar que Eidorfe ndto tenha , tido tempo e condig6es para aprofundar suas anilises literrrias e este- ticas, alargando o horizonte de sua geografia mnigica. Agora 6 precise recolocar em circulacao EstudosAAma- z6nicos, deJos6 Verissimo, esgotado desde a edico da UFPA de 1970. Verissimo e nome de logradouro p6blico, mas deixou de ser lido corn a intensidade que sua condicio sem similar na regiao lhe confere. Hist6rias gerais da regiao sao dificeis, mas uma apli- cada foi escrita por Emani Silva Bruno (que nunca este- ve na Amaz6nia) e publicada pela Cultrix em 1966, abrindo a colegao sobre Histdria do Brasil. Mesmo parcial, acompanhan- do sobretudo o ciclo da borracha, a Historia Econ6mica da Amaz6nia (de 1800 a 1920), de Roberto Santos, jai fonte indispensivel de consul- ta. Como O Negro no Pard, de Vicente Sales (primeira edigio de 1971, pela Universidade Ferderal do Pari e Fundaiao Getilio Vargas). t da- queles trabalhos que serve de demarcagio entire periods de produqcio intellectual sobre um determinado tema. Cor Vicente, o povo ingressou cle vez na historiografia, ocupando seu verdadeiro lugar na hist6ria. Pelo seu pioneirismo e pela riqueza de ideias que trouxe, Estnrtura Sgeo-socialeecon6mica daAmaz6nia, em dois volumes, obra (de 1966, editada pelo Governo do Amazonas) do prolifico Samuel Benchimol, quase o nosso Gilberto Freyre, tern que ser lida. Como A 'balalha da borracha' na Sgunda Gterra Mundial e sas conseq'iinciaspara o rale amaz6nico, apesar do titulo quilomntrico, uma das mais brilhantes pes- quisas feitas nos filtimos anos sobre a hist6ria amaz6nica, de Pedro Mar- tinelli (edicao cte 1988 da Universidade Federal do Acre). Querm se dedica a 6pocas anteriores e ter veia autentica de pesqui- sador nao deve deixar de fora os tres volumes de documents coletados por Marcos Cameiro de Mendonca em A Amaz6nia na erapombalina (Instituto Hist6rico e Geogrifico Brasileiro, 1963). Essa materia prima tocda ajudaria a resolver alguns dos mist6rios do projeto do marquis de Pombal para a Amnaz6nia, na segunda metade do seculo 18, se essa vasta documenta(ao fosse lida, analisada e interpretada. Os leitores mais sintonizados cor a atualidade nfo podem passar por cima do monognifico e aplicado Problemas de colonizagdo e uso da terra na Regido Bragantina do Estado do Pard (2 volu- mes), como Belim: estudo de evolutdo urbana, cie Ant6nio da Rocha Penteado, editados pela UFPa em 1967 No mesmo nivel de qualidade 6 A rodovia Belen-Braslia, de Orlando Valverde e Catharina Ver- golino Dias (Funclago IBGE, 1967). Atualizando o tema, ji na era da Transamaz6nica, o correto Coloni- za~do dinigida no Brasil: siuaspossibilidacLs naAma- zdnia, a frente Vinia Porto Tavares (Ipea, 1972). Na mesma colegao, Desenmolvimento econdmico da Amaz6nia, cte Dennis Mahar (Ipea, 1978). Dentre varias abordagens sobre a questfo, clas me- Ihores e A hitapela terra, de Joe Foweraker (Zahar, 1982), e Contested frontiers in Amazonia, de Marianne Schmink e Charles Wood (Columbit University Press, 1992), infelizmente ainda hoje sem tradugao em portu- gues. A invenaio da Amaz6nia, de Armando Mendes (UFPA, 1974; hli uma nova edigao, do ano passado), tamb6m nao pode faltar: faz o contra- -anto nesse coral corn a voz amaz6nica, juntamente cor o delicioso A expressed amazonense, de Mircio Souza (Editora Alfa-Omega, 1977). E para quem quer um livro semi-didatico e generalista, hfi Estudo dePro- blemasAmazonicos, urn pioneiro projeto conjunto (de 1989) da Secreta- ria de Educagao do Estado e do assassinado Idesp, coordenado por Vio- leta Loureiro, que deveria ser revisto e relangaclo. E maos ao c6rebro. meio seculo depois PMB, mas tambem exigiria a mesma declaracito "aos auxili- ares de confianga e incluindo c6njuge e descendentes sob a minha dependencia, ainda quando a lei naio o exijp D; mesma manein nenhum for- necimento seria feito "sem to- mada de pregos ou concorren- cia pmblica e, [sob] nenhuma hip6tese, atrav6s de patrocinio sem forma legal" Tambem iria combater "a advocacia admi- nistrativa sob todos os disfar- ce. e reprimir "a obtengfo de qualquer vantagem ilicita em funito dos servigos munici- pais", impedindo qualquer p. gamento alem do devido e a concessaio de direito indevido. A segunda diretriz era a montagem de um governor de equipe, corn decisdes colegia- das. "A certeza de que todos os assuntos relevantes sera5o debatidos desanimarni quais- quer tentativas de especulagio, diminuindo o risco de errar e aumentando a confianga do povo", argumentava Malcher. Ele apresentava dois exemplos desse tipo de administra~io: o funcionamento dce um commit& politico, integrado por repre- sentantes de todas as forgas que o apoiavam (o que Ihe possibilitaria, nas decis6es de seu arbitrio, jamais premier "in- diferentes ou antagonistas, es- quecendo os companheiros das horas de luta", sem com- prometer seus atos administra- tivos, quando "n-ao distinguira entire amigos e adversfirios"), e um ou virios comit5s adminis- trativos, "onde as opini6es dos mais capazes em cada setor sejam auscultados nos proble- mas de relevancia" O candidate prometia tam- brn estabelecer um planeja- mento para nada fazer "dis- perso ou improvisado" Eleito, comegari "pelo balanao das realidades e perspectives", so- mente a partir dai executando "corn mntodo e prioridades, preferindo services de base aos de superficie, o pouco born ao muito initil" Contato "eficaz e perma- nente cor o povo" era a quar- ta diretriz, esperando ser fisca- lizado e cobrado. Para isso, o gabinete do prefeito est: aberto as consultas e atento as manifestag6es e a administra- lao prestaria contas periodica- mente pela imprensa. Subordinando-se a essas diretrizes, Celso Malcher for- mulava uma srie ide suges- t6es, sempre preocupado em ressaltar que elas naio consti- tuiam "urn program total" por estarem sujeitas a varias condicionantes. No piano ad- ministrativo, as principals su- gest6es eram: montagem de uma plant cadastral da cida- de, a descentralizagio do ex- pediente e dos servigos mu- nicipais, o estimulo ao abas- tecimento alimentar (e, como nao poderia deixar de ser, o "aperfeigoamento do Pronto Socorro"). Na ordem juridica, ele pro- metia uma nova estrutura le- gal, corn c6digo de obras, tri- butJirio ("estimulando o card- ter pessoal dos tributes, gradu- ados conforme a capacidade econ6mica do contribuinte"), de posturas e a organiza~i.o da previdencia social para os ser- vidores municipais. Entre as medidas de ordem tecnica estavam: piano geral de urbanizacio, "particular- mente para os bairros novos"; "encaminhamento do proble- ma de esgotos"; recuperaaao das areas centrais alagadigas, "tde prefer&ncia para logra- douros piblicos"; demarcagcio da segunda l6gua patrimoni- al; pavimentagio das arterias- tronco e das artdrias-ligag~o em cada bairro. Como reagiria o eleitor do ano 2000 ciante de um sin- gelo program de trabalho como esse, de 1953, quando Belem era tras vezes menor do que agora? SETEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 9 "0 Cacaulista": o que nem um seculo mudou n glIs de Sousa foi um injustigado. Numa 6poca em que o naturalism era a escola literarria cominante, Herculano Marcos Ingles cle Sousa (nascido em Obidos, em 1853, e falecido no Rio de Janeiro, em 1918) nao apenas aplicou corn extrema eficiencia as regras da descrigio seca e obje- tiva da realidade, como tambem foi mais long do que a maio- ria dos seus contemporaneos, inclusive os mais famosos do que ele. Nao tanto que permitisse aos seus poucos leitores lde hoje "reclescobrir" um genio incompreendido, como aconteceu cor o maranhense Sousmndrade (recolocado nas agendas de leitura pelos critics e irmnos paulistas Augusto e Haroldlo de Campos). P possivel, porem, deliciar-se cor a mais importance trilogi; literaria da Amaz6nia do s6culo XIX. Ela ficou r margem dos registros historiogrAficos e critics, mesmo tendo introduzido, um seculo atrAs, o cacau como motivagio literiria no Brasil. Mas 6 qualitativamente superior a quase tudo o que foi produzido nes- sa epoca nas letras nacionais. Ingles de Souza talvez tenha fica do esquecido por ter escrito sobre a Amaz6nia, numa 6poca em que a regiao estava long de interessar seriamente ao rest do pais, embora outras nag6es estivessem de olho nela. Praticamente esgotadas desde que foram publicadas, no final do seculo passado, as obras de Ingles de Souza s6 se tornaram acessiveis aos leitores modernos gragas a duas edig6es da Uni- versidade Federal do Parai (de O Cacaulisla e 0 Coronel Sangra- do, publicadas em 1968 e 1973) e uma das Edig6es de Ouro (O Missiondrio). Essas obras ainda nao esgotam a bibliografia do author ( faltam Contos Amazonicos e Histdria de um Pescador), nem foram suficientemente bem cuidadas (a edicio ca UFPA, por exemplo, tern muitos erros graficos). De qualquer maneira, a nao ser por um golpe ie sorte em "sebos", essas siao as inicas edig-es disponiveis. Marcos literdrios Entre os paraenses, a obra de Ingles de Souza s6 tern paralelo cor as cie Dalcidio urandir, Haroldo Maranh.o e Benedito Mon- teiro (a meu ver, restrita a Verdevagonmundo e Minossauro). Em certa media, cada um deles se especializou em uma determinada regiiao geocultural do Estado (Dalcidio no Maraj6, Haroldo em Belmr, Ingles de Souza em Obidos e Benedito em Alenquer, as duas (iltimas aireas compondo o Baixo-Amazonas). Todos, tam- b6m at6 um certo ponto, se preocuparam em encontrar, no meio da paisagem dominant, um lugar apropriado para o home (ao que se agrega o portugues Ferreira de Castro, corn sua A Selva, na tradicio humanista). Nao temos, entretanto, no seculo XIX, a exce- 10 AGENDA AMAZONICA SETEMBRO/1999 Cgo das narrativas dos viajantes estrangeiros, nenhum depoimento tato decisive sobre a vida na regito comrno os livros de Ingles de Souza. Alnm da qualidade literairia, eles sao preciosas fontes para ais ampla pesquisa scientific da hist6ri, a lingClistica. 0 Cacaulista, que inaugural a trilogik, tern un roteiro simple e ao mesmo tempo pouco conventional: o herdeiro de urma plan- ta(,lo de cac a~s proximidades de Obidos se apaixona pela filha cle um mulato que o suplantara na dominaEgto do lugar, apesar da cor e do passado humilde. Tenta conquistar a moCa e retomar a lideran.a. Nalo consegue. Mas a linearidade dessa his- toria traz consigo os elements culturais marcantes de uma re- gil-o e urma epoca: 1) 0 vivo preconceito racial que leva brancos, negros e mula- tos a se odiarem, sem que : aculturafio exerpa uma mediagio significativa. O romance mostra a raiz fundamental desse pre- conceito: o temor do branco da concorrencia do mulato (o ne- gro ainda estui escravizado). 2) Ingles de Souza mostra que a Cabanagem, jdi entiao com seus horrores e gl6rias mitificados pela lenda, continuava mar- cando a admira'iao, a repulsa e o medo das populacoes ribeiri- nhas, uma parte das quais procurava esquecer os "tempos da junta" (quando, vencidos os cabanos, o governor central do im- p6rio imp6s, a ferro e fogo, a "pacificalio"). 3) Os mocambos, nos quais os escravos fugidos se con- centrav ainda pareciam ser numerosos nessa 6poca, em- bora tivessem perdido parte de seu significado belico para participar do sistema de troca cor os brancos, dessa forma tentando sobreviver. 4) Estava chegando ao fim a era do recrutamento military cormd instrument politico para solucionar disputes no campo e en- trave ao desenvolvimento da agriculture. Por via do recruta: mento compuls6rio, os "corondis Cie barranco" (titulo honorffi- co concedido em retribuigao ao apoio que emprestavam, corn seu poder local, ao concedente) conseguiam que seus inimigos fossem passar um bom tempo incorporados a tropa, na capital e nas fortificag6es militares, e os agricultores ainda subordi- nados a uma estrutura familiar de prodlucto perdiam seus melhores bragos. 5) Persistia a preveng o contra o marinheiro, em part devido t natureza da sua funlio (inconstante e supostamente irrespon- sivel) e talvez devido ~ sua origem racial (portuguesa). 6) As festas constituiam o fato mais important na rotina das populac6es amaz6nicas. Desempenhavam v:irias fung6es, alem da social (de socializacgo): political (liberada pelo alto consume de cacha; a "igua ardente") e antropol6gica (nelas, o negro se livrava da miscara do sincretismo social que lhe era colocada pelo branco, sobretudo o missiona.rio religioso). Do ponto de vista do prestigio, era important para os ho- mens exibir barbas, que agradavam nis mulheres (seria um mo- clismo criado pilos europeus e seus descendentes, como forma die impor sua superioridade sobre o caboclo, reconhecidamente imberbe ou de barba rala? Uma questao ainca a comprov, 7) Nessa 6poca, a cultural, ainda engatinhante, nro en um bem gratuito, uma fonte cie benemerenci: um procuto c alcance ie todos. O povo parecia saber que cquando um intelec- tual aparecia, sempre o acompanhava uma nota ie faturamento. Tamb6m era admissivel supor que nem por isso o client se ne- gava a pagar o prego cobrado: era o preco da alfabetizac; ostentada por um nimero muito restrito de pessoas. Um dos personagens do romance, Capucho, pessoa alfabeti- zada, diz: "O mais 6 hist6ria de letrados que querem comer di- nheiro". Infelizmente, persiste sendo a regra na relagao entire os intelectuais e o povo. 8) A economic da regiao, apesar das grandes plantac6es de cacau, era praticamente a-monetdria, de escambo. Raros propri- etarios dispunham de dinheiro vivo: "A falta de dinheiro no Amazonas 6 grande. Um fazendeiro de tres mil cabegas de gado e de vinte escravos, anda muitas vezes a pedir vinte mil r6is emprestados. A vista disso imagine o leitor qual a importancia de um home que podia dispor de alguns contos de r6is em moe- da", registra o romance. Num certo moment, no sistema de trocas diretas, o pr6prio cacau assumiu a fungao de moeda. Mas nio 6 de admirar que os grandes cacauais tenham perdido toda a sustentagao economic e as enchentes (como a mais violent, de 1851) afogado boa parte do rebanho: os metodos eram rudimentares, empiricos e refratirios as inovacges. E assim permaneceu por muito tempo. Em alguns casos, at6 hoje. 9) O livro pode ser usado para interessantes pesquisas lingiiisticas e musicol6gicas. Alem de transcrever interessantes misicas de negros, In- gles de Sousa faz referencia a ritmos que muda- ram ou desaparecem por complete. Ele tamb6m l anota expresses que eram correntes na fala do caboclo (e ate do citadino), mas entraram em desuso ou foram abolidas pelo process de ur- banizagao e de integragio definitive da Amaz6- nia ao restante do pais ("pivulo", por exemplo, o mesmo que vaidoso, orgulhoso). E ha tam- -bem o valioso registro do dialeto negro na Ama- z6nia antes da "aculturagao" (eufemismo que costuma maquilar a destruicgo cultural do do- minado). 10) A maioria das observagdes de Ingl&s de Sousa 6 viva, inteligente, apropriada. Soube per- ceber a graca do porte da mulher paraense, pou- co imponente ou vistosa, mas bastante sensual: "Rita poderia ter, como ji dissemos, dezesseis anos; era baixa e robusta, dessa elegancia paraense que consiste principalmente numa desenvoltura de modos e num certo mene- ar de corpo", observa o romance. E le oferece tamb6m elements para a composicgo de uma geografia cultural, por meio do "excelen te tabaco do Tapaj6s" (que acabou), da "boa prata velha, que dantes era comum no Amazonas, e que hoje vai se tornando rara", das doengas do M6dio Amazonas (pneumonia, por exemplo). Para um romance que reflete com brilho e exatidio a sua 6poca (reafirmando o papel da melhor literature), faltou apenas ter avancado formalmente um pouco al6m da sua 6poca, virtude apenas ensaiada. Ingles de Sousa nao quis ou nao p6de avan- car. Num trecho, no qual descreve corn sutileza a masturbacao da filha do cacaulista, ele emprega um estilo ligeiro (D. H. La- wrence teria feito uma extensa e lirica elegia, mas o autor ingles escreveu quase 40 anos depois): "A rede da filha do tenente agitou-se desta vez mais violentamente do que das outras ve- zes, tanto que chamou a atengio de Benedita. Mas o que 6 que tu tens, rapariguinha? -. Nada. E para que estis assim sacudindo a rede? t... caimbra. Estou cor o p6 dormente. Pois se ficas todo o tempo corn a perna de fora... E para poder embalar-me". Nao se pense que O Cacaulista trate de um mundo remote, destruido pelas frentes de penetracgo que rasgam sem cessar o in- terior amaz6nico. Em 1876 a populagAo de Obidos teimava em chamar de Bacuri a rua I que a camara denominou de Sdo Francisco. Um s6culo depois, os habitantes de Obidos ficavam furiosos quando algum visitante di- zia que Bacuri era a inica rua existente na cidade. Com malicia, mas nao totalmente destituido de razao. SOUSANDRADE. Como fi- cou conhecido o poeta mara- nhense Joaquim de Souza An- drade, que nasceu em Alcan- tara, em 1833, e morreu em SAo Luis, em 1902. Numa epoca em que os intelectuais brasileiros eram franc6filos, recebeu uma marcante influencia da cultural sax6nica. Circulou entire a Eu- ropa e os Estados Unidos, onde morou e foram publica- dos alguns de seus poemas re- volucionarios, tanto na forma quanto no conteudo. Tinha 24 anos quando foi publicado o seu primeiro livro, Harpas Sel- vagens, dois anos antes das Primaveras, de Casimiro de Abreu, considerado geralmen- te marco do romantismo. O papel precursor de Sousandra- de s6 comegou a ser reconhe- cido mais de meio s6culo de- pois de sua morte. O Guesa, que final reuniu seus cantos longos, 6 um dos mais impor- tantes livros da literature bra- sileira do s6culo passado. NIo por acaso, foi publicado em Londres. Sousandrade morreu esquecido, solitdrio e pobre. Pagou o prego por estar adi- ante do seu tempo. NATURALISMO. De origem filos6fica, cor raizes nas id6i- as de Jean-Jacques Rousseau, interpretando os fen6menos como fatos decorrentes da na- tureza, o naturalismo em lite- ratura surgiu no seculo pas- sado na onda do realismo, principalmente de Gustave Flaubert, e do positivismo, do critic Hip6lito Taine. "O na- turalismo literirio caracteriza- se pelo estudo dos fatos soci- ais e pela observagao fria da realidade. A natureza deveria ser reproduzida em todos os seus aspects fisicos e morais, ainda que cru6is e desagradi- veis, pois a literature deve tra- tar cientificamente dos assun- tos que importem a socieda- de", sumariza Cesar Arruda Castanho. No BI.iij, o roman- ce O Mulato, de Aluisio de Azevedo, publicado em 1881, 6 considerado o marco da nova tendencia. No Par., sdo classificados como naturalis- tas Cenas da Vida Amaz6ni- ca, de Jos6 Verissimo, e Hor- tensia, de Marques Carvalho. Biblicgrafia * 0 Cacaulista, Universidade Federal do Para, BelIm, 1973, 146 piginas. 1 edigao, 1866. *0 CoronelSangrado (Cenas da Vida doAmazonas), Universida- de Federal do Pard, Beldm, 1968, 198 paginas. 1" edigo, 1877. * 0 Missionario, Edioges de Ouro, Rio de Janeiro, 1967 (3 edigao), 440 piginas. 1I edi- cao, 1891. SETEMBRO/1999 AGENDA AMAZONICA 11 f I 0 Palacio do Ridio S., odos os 108 cond6minos do Edificio Palacio do Ridio eram o que hoje se chamaria de colundveis, i a comegar pelo governador de entao, o general S Alexandre Zacarias de AssumpgAo, que impos, em Q 1950, uma hist6rica derrota ao caudilho do Para, o general Joaquimnfi Magalhaes Barata. Em fevereiro de 1952 o predioj( .ji 'l.l sj rtii em dezembro inteiramente co- mere i.li .:.l . ii i n i .i "t; eCti peas publicitirias, publicadas no grande journal da 6p'oca'a APolha do Norte. Cor 15 andares, levantado na "mais bela e central avenida de Belem" (a 15 de Agosto, hoje Presidente Vargas), o Palicio do RAdio surgiu no clima de euforia e confianca do p6s-guer- ra, assinalando os primeiros "arranha-ceus" da "cidade more- na". A incorporagAo e a propriedade do im6vel eram do Ra- dio Clube do Para S/A, a potencia das comunicacges (a tele- viso havia apenas ingressado, quase simbolicamente, em ter- rit6rio brasileiro, atrav6s de Sao Paulo, mas o radio imperava, soberano). O projeto e a administracgo eram do engenheiro Judah Levy, um visionario cri- ador de empreendimentos imobiliarios em Belem. O projeto tinha detalhes de sofisticac o e vanguardismo para o padrao daqueles anos: tres "grandes e luxuosos" ele- vadores; um hall de entrada em mArmore, "decorado lu- xuosamente"; um incinerador de lixo, "como higiene e con- forto"; restaurant, bar e bo- ate no tiltimo pavimento (onde seriam realizadas as festas do Autom6vel Clube, famosas a partir das oito da noite de todos os domingos, o Top-Set do conjunto de Al- berto Mota), "cuja renda per- tence ao condominio"; rAdio, teatro e cinema no andar t6r- reo, "cor ar refrigerado e poltronas"; no t6rreo haveria ainda terrago (que nao se con- sumou) e lojas "amplas e modernas, cor vAos livres", al6m, 6 claro, de apartamentos e escrit6rios tamb6m "amplos, higieni- cos, confortaveis e independentss. Muitos dos cond6minos fizeram do Palicio do Radio apenas um rent;vel neg6cio, mas varios deles ali passaram a residir ou neles instalaram escrit6rios, os Proenca (donos do Radio Clube) ~. ..- . 4* r Pr. I ,M. e os Levy A frente. Scilla Lage Filho, por exemplo, continue tra- balhando no mesmo consult6rio que foi do pai. Atd alguns anos atris tamb6m ld morava a doutora Clara Pandolfo, que foi dire- tora da Sudam. O m6dico pneumologista Mauricio Coelho de Sousa encerrou suas atividades profissionais no seu consult6rio do edificio. Se perdeu a majestade, o Palacio do Radio continue a ser um marco da hist6ria recent da capital dos paraenses. INCORPORACAO DO "PALACIO D RADIO" AVENIIA IS DF AGOTO IESUINA COM AL RU' M.aOFL MRlAl 1 0 DL .%L' ilDA t I 1 I t ::MA .1.. -r.a d.1.3 J.R. .e. I rt- ,PARTAMENTri. I *'ITORI. - P rntos Pn pas o Edificio Do "PEAL.C D( R. L Y : ilIUAD O -. x.. h.l .nlro l ..en J. Jd Ballm rACPlaCA p aI Soal. enL r r Ps i. t A DA l IPUl i CA N 27 O NI I nl11i MARlMOREi e., Indhih d il .rnll eli raJI edeF k ir" prn2ngll ,Lr ADO LrS .Iondci r IBu.OK. (+- naal( d 1. L, *JO I.l ocuan sa i gel lllm nle HALL DI [ HADA dn 1.1. I.= munme d ,do r ~l.l I.mlrn. IIRAlrNt^ lalll+h djlrl ,l +am.lat. Io .Ilr; MalllM* d ia , -S[RRLHRll nJ.dlm'i.i ass1 mZrlaln *i pia| ,l,' INCI ICADCA JI l ia, rnul l relr a reolellB pl.j a iel.l BlirU* k rT[ Br .. "-Olll" m 1 pi.l.n. lm ..l rlaao iil. >ADI, rEaTRO e Clri+s a pa..,..Imr.r s,,l al Ielch.lli.ed. r ilr,'sin, LOIJC imp' I c mIjn. al tlen t h,1.l;1 *@ rpj.lnl lal I. B.., PARIM[IJTCS E E ICEIOIIIO 5 olos sl.sio1m r ulo rl.l.l. i hlknp,.mflt., IlkiOj Di INtORPO[.ACO JItAND[ OPOITh r4|GADO ,ARA ADIrIII CASl ^oPRIA ll CO rIQUENO SIHAIL I amiii~on IACS upo& MAGWIFICi(I. Mr'*CIO pArl IrNDa IRtV DA DI OD Du [liTI TORIO |1H0l. incorpora3aoE Propriedade cRadioClubeD cPra,S.A. Projeto E Aldrinistracao Do Eng. J. E. LEVY MA1IO1I DETALrI1S Lac* D* IIPuLI Cc N 27 ON| 5111 S 1. ... i s. E DIFICIO PALACIO DO RADIO 10 RADIO CLUB DO i PARA, S. A. ! ," ." -. PA:ACIO 'O ,ADI o, m 'ooaut,;o-'Vj 3 Q Jja ae A:A vn 2V q. eS i'?,rn..oad "'F r.r iO -nMa ).''s dePme dJv.,ai a~rnd.-'er.a ' aarr m ,: r :.,:,-'. j .. S . . tL Agenda Amaz6nica Tnivessa Benjamin Constant845/203- Belem/PA-66.053-040 e--mai: jomal @amtn onicombr Telefones: 2237690/2417626 (fax) P: i.1, ..r if, li.,, rlj .ir.,, n...i. I r .in.' |
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