Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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oaO abuso do deputado O caso chegou ao Superior Tribunal de Justia, em Braslia: um deputado estadual do Par, que tambm mdico, abusara sexualmente de uma criana durante quatro anos. Mesmo assim, fora absolvido pelo tribunal local. O relator do STJ restabeleceu a condenao, de oito anos atrs e ainda no cumprida. VIOLNCIA Em 2005, aos 47 anos de idade, Luiz Afonso de Proena Sefer era uma pessoa de destaque na sociedade paraense. Seu pai ocupara vrias funes pblicas, inclusive a de superintendente da Sudam. Luiz Afonso era mdico, deputado estadual, dono de clnicas, pai de trs lhos adolescentes (dois homens e uma mulher). Ganhava o suciente para ter uma vida confortvel. Era da classe mdia alta. Nesse ano, ele pediu aJoaquim Oliveira dos Santos, Estlio Maral Guimares e Joo Raimundo Amaral Pimentel que encomendassem juntoa famlia do interior uma criana do sexo feminino, com idade entre oito e dez anos (o ato denota premeditao criminosa, viria a registrar um magistrado, ao analisar a histria). O mdico, com especialidade em colocoproctologia, alegou que a criana iria ser dama de companhia para a sua lha, e que lhe daria condies de estudar e melhorar de vida. Joaquim trouxe a criana, com 9 anos de idade, de Mocajuba para Belm, dada pela av. Ela viveu anonimamente at os 13 anos, quando uma denncia levou o seu caso para a polcia e, dali, para a justia. O parlamentar foi acusado de ter estuprado a menina e abusado sexualmente dela, de forma sistemtica, pelos quatro anos seguintes. Seu lho adolescente tambm teria violentado a menor, que tambm foi espancada. Tudo isso no apartamento onde morava a famlia. Sefer negou tudo. Disse que as acusaes seriam uma atitude inconsequente da vtima e uma estratgia desta para no retornar ao municpio de Mocajuba (onde a garota vivia). Alegou que vinha

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2 planejando mandar de volta a menina porque ela tinha mau comportamento. O ento deputado pelo DEM se justicou dizendo que agiu por lantropia, sendo seu intento apenas fornecer educao e melhores condies de vida criana. No entanto, a delegada Christiane Ferreira,que presidiu o inqurito policial a partir da denncia, informou que quando foi ouvir o deputado e a mulher dele sobre o caso, Sefer lhe respondeu que no tinha nenhuma informao acerca da adolescente, nome de pai, ou me, ou onde residia. O deputado relatou que a adolescente era problemtica e apresentava comportamento diferenciado e perguntou a ele se ela j tinha sido assistida por algum psiclogo e ele respondeu que no, que em todo este tempo ela s teve um atendimento odontolgico; que os lhos do acusado estudavam no colgio Nazar, frequentavam clubes e academias enquanto que adolescente estudava no colgio do governo e nunca passou de ano Por isso, para o ministro Joel Ilan Paciornik, da 5 turma do Superior Tribunal de Justia, o que se evidenciou foi a existncia de um descompasso entre as mencionadas boas intenes armadas pelo acusado e o tratamento que efetivamente dispensou menor durante esses quatro anos. Nesse ponto, destaca a per cuciente percepo da juza de 1 grau, Maria das Graas Alfaia, que assevera: o acusado no conseguiu explicar plausivelmente o porqu de trazer a vtima do interior do Estado para morar em sua casa, haja vista que, por lei, ela no poderia exercer trabalho domstico e, pelo contexto dos autos, no estava recebendo a educao e cuidados que podia lhe proporcionar nem sendo tratada como uma pessoa de sua famlia. Ainda segundo a juza singular, a par disso, deve ser considerada a tardia providncia do acusado em legalizar a situao da menor. Somente quando quis lev-la a uma viagem ao Rio de Janeiro, arma o prprio ru, que ele procurou obter, judicialmente, a guarda provisria da criana. Os abusos teriam comeado dois dias depois que a menor chegou casa de Sefer, que tambm mdico e dono de hospitais. Ele tambm a agredia e a obrigava a ingerir bebida alcolica. Um ano depois, o o Tribunal de Justia do Par absolveu Sefer, j ento cassado pelos seus pares da Assembleia Legislativa, da acusao de abuso sexual e crcere privado. O relator da ao, Joo Maroja, e o tambm desembargador Raimundo Holanda Reis votaram pela sua absolvio. S o juiz convocado Altemar Silva votou a favor da condenao. Na defesa do deputado atuou Mrcio omaz Bastos, ex-ministro da Justia de Lula, junto com o advogado paraense Osvaldo Serro. A defesa conseguiu convencer a maioria da cmara penal que faltavam provas. O ministro do STJ entendeu que havia at de sobra. O ministro Paciornik revogou a deciso do TJE, acolhendo recur so do Ministrio Pblico Federal, e manteve a sentena da juza da vara penal de crimes contra crianas e adolescentes de Belm. Ela condenou o j ento ex-deputado a 21 anos de priso em regime fechado, mais o pagamento vtima de 120 mil reais por danos morais. Ao absolver Sefer, o tribunal incidiu em erro na apreciao da prova, em agrante divergncia com o paradigma e com o entendimento do Superior Tribunal de Justia sobre o assunto. Com fundamento no enunciado 568 da Smula do STJ, o relator ordenou o restabelecimento da sentena condenatria e o retor no dos autos ao TJ do Par para que prossiga no julgamento dos demais pedidos formulados em sede de apelao. O TJE incorreu em erro na valorao da prova, divergindo da jurisprudncia do STJ, ao negar o carter de prova indiciria palavra da vtima, que conrmou os abusos sofridos, em testemunho coerente com outras provas. A Corte local, nos termos do voto condutor, arma que essa robusta conjuntura ftico-probatria palavra da vtima corroborada por parecer psicolgico, laudos periciais, prova testemunhal e prova indiciria no se mostra suciente a ensejar um dito condenatrio, mas, contraditoriamente, entende ter restado inconteste, apenas e unicamente, o abuso que o pai das menores praticava contra as meninas fato que no constitui objeto do presente feito , com fundamento exclusivo no depoimento prestado pela irm da vtima, quem aduz acreditar que a irm tenha sido abusada pelo pai, observa o relator. Ele consigna tambm que no h que se falar em momento exato dos abusos sexuais, como se se tratasse de eventos espordicos. Pelo contrrio, o laudo pericial identificou vestgios de violncia sexual crnica e reiterada, no mesmo sentido do que relata a vtima, quando assevera que sofreu abusos por parte do acusado desde o segundo dia que com ele passou a residir e que tais abusos duraram quatro anos, lapso durante o qual a menor esteve sob custdia exclusiva de Sefer. A suposta impreciso temporal invocada pelo Tribunal de origem no tem o condo de suscitar dvida in favor do ru. Em suma, observase, no caso, que, ao contrrio do que arma o Tribunal a quo [de origem] as declaraes prestadas pela vtima, rmes e coerentes, est [esto ] em perfeita sintonia com as demais provas acostadas aos autos do processo e expressamente admitidas na sentena e no aresto vergastado, no havendo espao, portanto, para a aplicao do brocardo in dubio pro reo. Citando julgado da quinta tur ma do STJ, o ministro ressalta que o entendimento da corte no sentido de que nos crimes sexuais, a palavra da vtima, desde que coerente com as demais provas dos autos, tem grande validade como elemento de convico, sobretudo porque, em grande parte dos casos, tais delitos so per petrados s escondidas e podem no deixar vestgios. Considerando como insuciente a valorao da prova, o tribunal do Par utilizou-se de argumentos inidneos, que infringiram o princpio probatrio atinente a quaestio, qual seja, a relevncia da palavra das vtimas nos crimes sexuais.

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3 Ao contra Gueiros uma trama poltica?O prximo evento no processo em que o advogado Hlio Gueiros Neto acusado de assassinar a esposa, Renata Cardim, ser uma audincia de instruo, no dia 18 de abril, s 9 horas, na sala de audincias da 1 vara penal de Belm. Seu pai, que filho do ex-governador e ex-senador Hlio Gueiros, e que foi vice-governador do mdico Almir Gabriel, do PSDB, volta a denunciar a existncia de uma trama poltica para condenar o filho. Cita como evidncia a ligao que diz haver entre a me de Renata e o deputado federal Nilson Pinto de Oliveira, do mesmo PSDB, ex-reitor da Universidade Federal do Par. Segundo Gueiros, a ex-sogra do seu filho, Socorro Cardim, tem tido proteo poltica e policial para agir no processo e esconder seu passado. Repete acusao de que ela teria mandado matar seu companheiro para ficar com o negcio dele, alm de conseguir ser includa em um ato secreto do governo Jatene, para sua empresa ficar isenta dos pagamentos de impostos estaduais devidos. Hlio Gueiros, em texto que postou no Facebook da esposa, Mnica, garante que ele, o filho e toda sua famlia tm o maior interesse em tornar pblico tudo que acontece para evitar as manipulaes feitas por O Liberal, que, segundo ele, no faz cobertura isenta do fato. Reproduzo o que Hlio Gueiros escreveu, abrindo espao para a resposta que a famlia Cardim queira dar. O assunto, pelos aspectos apontados pelo ex-vice-governador, passou a ser de alto interesse pblico. O suficiente para que o governo do Estado responda acusao, de que concedeu benefcios Brasfarma, empresa da me de Renata, em mais um dos polmicos atos secretos. Segue-se o texto.SEM FILTRO P. S. Sbado retrasado, pela manh, um ocial de justia foi at minha residncia intimar meu lho, na ao motivada pela morte da Renata, em que acusado pelo nobre promotor Edson Augusto Cardoso de Souza, fundamentado em um parecer do mdico legista do caso Habibs, contratado e pago pela senhora Socorro Cardim, de que a audincia de instruo ocorrer no dia 18 de abril, s 9 horas da manh, na sala de audincias da 1 Vara Penal da Comarca de Belm. Meu lho encontrava-se em viagem de trabalho a So Paulo, mas to logo retornou cidade, apressouse em tomar cincia, a m de evitar interpretaes de que ele est se escondendo e obstruindo a Justia. Esse um processo peculiar. O estado, atravs de seus representantes, promotor e juiz, entendem que os atos processuais devem car escondidos do cidado comum, por isso decretaram segredo de justia. O ru, no caso, meu lho, quer que seja difundido tudo, se possvel com televisionamento, para que no parem dvidas sobre sua inocncia. uma questo de transparncia. A vida pregressa da senhora Socorro Cardim, acusada pela polcia e pela famlia de seu companheiro, Jos Maria de Lima, de ser mandante do seu assassinato, parece no ter inibido o nobre promotor Edson Cardoso a dar um peso maior a absurda verso do mdico do caso Habibs ao laudo do mdico legista, doutor Raniero Maroja, do Instituto Mdico Legal do Estado. Essa senhora, proprietria da rma Brasfarma, negcio herdado aps o assassinato de seu companheiro, processada pelo Ministrio Pblico Estadual e Federal por fraudes em licitaes, parece ter forte inuncia poltica, uma vez que contribuiu com R$ 100.000,00 para a campanha exitosa de reeleio um dos cardeais do PSDB, o deputado federal Nilson Pinto, alm de conseguir ser includa em um ato secreto do governo Jatene, para sua empresa car isenta dos pagamentos de impostos estaduais devidos. Eu preciso recordar tudo isso, porque, nos prximos dias ou semanas, o grupo O Liberal, que faz par te da estrutura de poder do PSDB, e seus congneres recomearo a difamar, novamente, meu lho. Da ltima vez, certo de que a trama adrede urdida pelos bandidos que querem ver meu lho na cadeia funcionaria, publicou uma manchete que garantia populao que o Hlio fora preso e continuaria preso durante o carnaval. Deixou para desmentir o fato em uma segunda-feira de carnaval, quando a tiragem do jornal praticamente zero. O Liberal no possui credibilidade. Portanto, quem atentos s prximas notcias que eles publicarem ou suas surucucus reprteres divulgarem sobre meu lho, provavelmente sero as mais grosseiras mentiras. Eu e minha mulher, a Monica, sabemos que essa uma luta de Davi contra Golias. A nossa funda o Facebook, as pedras, para derrotar o Golias, so vocs. Conante na innita bondade e misericrdia de Deus, contamos com vocs.

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4 Temer poder ter o mesmo fim que Nixon?A verso induzida pelo Palcio do Planalto tenta convencer a sociedade que Michel Temer detonou uma conspirao para derrub-lo quando assumiu a sua candidatura reeleio de olhos no futuro, querendo completar a recuperao da economia nacional, aprofundando e ampliando o que realizou em menos de dois anos, depois do devastador furaco Dilma. Objetivamente, porm, a situao do presidente s faz se agravar medida que a polcia vai eliminando as barreiras armadas em torno dele pelos seus amigos e assessores mais prximos, no papel de pontes e articulaes at pouco antes. Como no ttulo de um romance (depois lme) de alguns anos atrs, o passado o condena. S que o complemento no klute: kaput. O melhor que se pode dizer em favor de Temer que ele recebeu dinheiro ilcito para nanciar suas campanhas a deputado federal e vice -presidente, e as de correligionrios e companheiros de partido ou de viagem. O que complica essa inter pretao mais benevolente que o dinheiro era muito e boa parte dele cou retido pelo caminho entre o doador atravs de caixa 2 e o poltico que tentava se eleger. Em que pas um presidente continuaria a exercer o cargo, equilibrando-se sobre alguns bons resultados econmicos, porm magros, enquanto a poltica pega fogo e a sujeira sobre dos pores para a sala principal da chea da nao. Ao invs de ser eliminada, essa esquizofrenia incrementada. O efeito dessa dilacerao ser um custo muito maior at a ecloso nal da crise, sua derradeira exploso. O bom senso e a mais simples noo de moral pblica recomendam a Temer que se licencie do car go, se lhe impossvel simplesmente fazer o que deveria, que renunciar. Livre para ser o advogado que e o especialista em direito constitucional (mais uma ironia das elites brasileiras), autor de um livro clssico sobre a matria. Assim, ele poderia transformar em materialidade a inocncia que reivindica de todos que a presumam. Ou se afundar de vez se no desmentir e desfazer cada item da ampla denncia que lhe est sendo feita. O enredo desse drama, s vsperas de se converter em tragdia, me remete a um dos polticos pelos quais mais me interessei: Richard Milhous Nixon. Derrotado ou semi (quase) vencedor nas eleies de que par ticipara, atormentava-o a marca profunda da der rota por margem mnima para John Kennedy (o desajeitado contra o ca valheiro, o feio contra o lindo, o primrio contra o intelectual, o homem co mum contra o membro de famlia nobre, o homem de golpes sujos contra o heri nacional), Nixon nalmente conseguiu chegar Casa Branca, na contramo da mar revolucionria da metade dos anos 1960, culminando no libertrio 1968. Em 1972, ele imps aos democratas a maior das derrotas, se reelegendo. Teria vencido muito bem sem precisar recorrer a mfias para espionar os adversrios e reeditar os golpes baixos do passado. O escndalo de Watergate, que o levou derrocada, continua a ser um dos mais pungentes dramas polticos de todos os tempos, a desafiar o catecismo dos militantes dogmticos e a compreenso das mentes primitivas, que s conseguem ver o mundo a partir de um pndulo viciado. Um juiz srio, um promotor altivo, uma imprensa competente e os amigos de Nixon foram obrigando-o a recuar front atrs de front at a renncia, sem a qual teria sido o primeiro presidente dos Estados Unidos a sofrer um processo de impeachment (sem golpe parlamentar, viu?). Penetrei pelas biograas de todos os homens do presidente (ttulo do famoso livro de Woodward e Bernstein, do Washington Post os heris da mdia) at chegar a um quadro completo do time. Havia gente competente, como Erlichman, Dean e Colson, por exemplo, at brutamontes como Handelman e gente da sarjeta, como os arrombadores e os recolhedores de fundos de caixa 2 e propina. Nixon podia repetir com o povo: meu Deus, cuida dos meus amigos que dos meus inimigos cuido eu. Michel Temer pode se dar ao luxo de usar essa frase?

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5 No 1 de abril, a justia mostra que Brasil esteParecia mesmo brincadeira de 1 de abril para quem, acordando num domingo amolecido mais do que o normal pelo longo feriado da semana santa, buscou logo um meio de se informar sobre a agitada e imprevisvel crise nacional. Em qualquer mdia, exceo dos veculos de comunicao do senador Jader Barbalho e do seu lho, o ministro Helder Barbalho, convenientemente emudecidos, as manchetes trombeteavam: o Supremo Tribunal Federal mandara soltar, na noite da vspera, os 10 amigos ntimos ou ex-assessores do presidente Michel Temer, alm de empresrios suspeitos de participar de um esquema de corrupo no porto de Santos, presos no dia 29(outros trs estavam viajando pelo exterior; ainda no voltaram). O prazo de validade da priso temporria era de cinco dias. Bastaram trs dias, no entanto, para que os policiais e membros do Ministrio Pblico Federal se satiszessem com os interrogatrios. J tinham as informaes que buscavam? Aparentemente, sim. Num raro gesto de dalguia ou pragmatismo para os padres da caa aos corruptos, a procuradora geral da repblica Raquel Dodge pediu e o ministro Luiz Roberto Barroso, o justiceiro, a atendeu, de imediato, sem qualquer pitada de psicopatia. Deu ordem de soltura para que os at ento presos pudessem comemorar em suas luxuosas residncias seus sosticados ovos de pscoa. Um detalhe tisnou esse nobre enredo previamente concertado (ou seria consertado?): o coronel Lima (ser codinome?) sequer foi ouvido. O coronel, tido por scio infor mal do presidente numa camuada agncia de distribuio de dinheiro de origem incerta e no sabido para destinos conhecidos e esquecidos, sequer foi ouvido. Sua figura singular: ele o mais falado dos personagens criminais desta novela. Mas o nico que nunca falou. Por trs vezes no compareceu a audincias marcadas para interrog-lo na justia porque estaria doente e sem condies psicolgicas para falar (quem est em condies psicolgicas de ir justia como ru ou sofrer ameaa de ser preso?). Entrou em cadeira de rodas e saiu andando. Sob o choro copioso da esposa. O vulto bem posto de imagens anteriores veiculadas pela imprensa, que parecia seguro de si, foi substitudo, ao descer preso do seu luxuoso apartamento em So Paulo, por um ser abatido, quase moribundo, como um novo Duciomar Costa, que trafegou em cadeira de rodas da residncia para uma ambulncia e, nela, para um caro hospital particular. Cadeira de rodas parece ter se tornado o must da atual fase de caa aos cor ruptos, deixando em segundo plano as coqueluches de antes: as algemas e as tornozeleiras eletrnicas. Se a razo do pedido de soltura e da sua concesso de bate-pronto pelo ministro campeo da conscincia de justia no STF foi que os presos j haviam dito tudo que podiam dizer, como estender a ordem de libertao estendida ao coronel da reserva da Polcia Militar, que nada disse nem lhe pde ser perguntado? Ao que parece, o rolo do lme da Lava-Jato est sendo rebobinado para ser substitudo por uma nova ta (em seu signicado simblico popular, de fazer ta). Maluf, tambm em cadeira de rodas, j est em sua luxuosa manso no Jardim Amrica, em So Paulo. O deputado estadual Jorge Piciani, da ma carioca, que est destruindo a Cidade Maravilhosa, foi solto. Demstenes Torres vai poder se candidatar outra vez. Todas essas liberalidades foram praticadas, por mero humanitarismo, em canetadas seguidas, num intervalo de menos de 24 horas, pelo ministro Dias Tooli, que ser o prximo presidente da mais alta cote da justia brasileira, em substituio dubidativa Crmen Lcia, desde algum tempo bloqueada por uma pedra no caminho de Minas. Tooli, advogado particular de Lula antes de ser indicado pelo PT para o excelso pretrio, levou bomba em dois concursos para juiz de 1 grau. Mas ganhou na loteria o prmio mximo e dever dedicar o seu mandato a retribuir pela graa, se o que j fez amostra do que ainda far. Como diria o bardo prmio Nobel de literatura, o cantor e compositor americano Bob Dylan, the times, they are a changing. Melhor manter o ingls para no baixar ainda mais o astral. Anal, como logo veremos, as robustas provas produzidas nos trs dias de interrogatrio iro desmascarar a rede de corrupo no porto de Santos, faro todos os seus integrantes voltar priso, levaro terceira e denitiva denncia contra Temer no Congresso e descero mais alguns degraus no lodaal que cobre este gigante pela prpria natureza, impedindo-o de acreditar que o que brilha l em cima o sol, no a espada de Dmocles.

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6 Ex-reitor da UFPA a defende de ataquesVrias pessoas me criticaram por ter levado em considerao as agresses que sofri por no concordar com a criao de uma disciplina acadmica na Universidade Federal do Par sobre o dito golpe de 2016, que resultou no impeachment da presidente Dilma Rousseff. No entendimento dessas pessoas, eu faria melhor ignorando essa reao intolerante. Mesmo decidindo abord-la, eu teria exagerado no espao que a ela dei na edio passada, com 10 das 14 pginas dedicadas ao tema. Ouso dizer que agi corretamente ao transferir para o papel impresso o que foi dito, com descompromisso pelos fatos ou com total leviandade pelas redes sociais da internet. H a presuno de que a rede mundial dos computadores tudo aceita e logo remete o seu imenso contedo de todo dia para as nuvens (com perdo do entendimento da expresidente Dilma, atrs das nuvens tecnolgicas no cu). Fixando numa forma de arquivo mais perene, quis colocar as pessoas que se manifestaram diante de si e da histria no agora, de imediato, mas sempre. Mesmo que no queiram, elas sero lembradas do que disseram. S lamento s que a maioria dos debatedores tenha se mantido num subsolo da inteligncia. Manifestaes de maior profundidade foram poucas diante da avalanche de truculncia verbal e indigncia mental. Por isso, para criar contaste, transcrevo tambm para o papel impresso mensagem do ex-reitor da UFPA, Alex Fiza de Melo. Alex tem autoridade para defender a Universidade Federal do Par, que dirigiu com exao e competncia, em meio a crticas e polmicas. Alex sofreu uma campanha srdida de O Liberal pelo pecado capital de, indicado como minha testemunha em processos dos Maiorana contra mim, ter comparecido em juzo e dito o que dele esperava: a verdade que, por acaso, correspondia minha causa. Sei que, se no houvesse essa harmonia, Alex seria incapaz de dar testemunho falso, s por ser meu amigo. Do mesmo modo, sofreu a campanha dirigida sem voltar atrs, sem se submeter coao, mantendo-se coerente e digno. Continuando a dirigir a maior universidade do norte do pas conforme seus conhecimentos e conscincia. A mesma conscincia que o levou a escrever o que se segue, em meio a um silncio sepulcral de muitas cabeas coroadas e intelectuais notrios da UFPA, encastelados em seus bunkers omissos..Caro Lcio, tenho acompanhado o debate sobre a matria Mera Tribuna Poltica, publicada no n. 650 do Jornal Pessoal. E gostaria de me solidarizar com o seu posicionamento a respeito da questo. No tenho dvidas de que a ocorrncia do fato a proposta da criao da disciplina referida em cursos acadmicos Brasil afora no ao acaso, mas espelha a falncia e o desmoronamento do legtimo esprito acadmico, que deveria prevalecer num ambiente em que a tica e o rigor analtico e no a ideologia deveriam pautar e inspirar o exer ccio da ctedra. A Universidade, de razes milenares, no se rmou nos sculos seno em razo de sua capacidade de promover a pluralidade de ideias, a abertura de vises, mas, igualmente, o rigor das investigaes e das fundamentaes empricas e lgicas de suas matrias e disciplinas, nas vrias reas do conhecimento. O uso indevido da ctedra para proselitismos polticos, demagogia ou partidarizao de propsitos cuja farsa inviabiliza a correta educao das mentalidades to somente fere a essncia histrica da instituio. Por certo, a justa distino no meio acadmico no deve (nunca deveria) ser entre direita e esquerda que maquia a mediocridade e a incompetncia inaudita de seus arautos -, mas, to somente, entre INTELIGNCIA e a ausncia dela nico caminho para afirmar a Razo e a contnua busca pela correta e isenta (o que no significa neutralidade!) interpretao da realidade em suas mltiplas e inesgotveis dimenses. Muitos dos que lhe acusam e demonizam, pelos nomes revelados, no oferecem nenhuma obra intelectual relevante que lhes credencie ou conrme o mnimo de lastro de respeito perante a opinio pblica. So crticos de planto que inspiram, to somente, o amargor de sua insignicncia e a degenerao de sua capacidade de reetir com iseno.

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7 Energia amaznica falta e o pas para Jornal da politicagemO blecaute do dia 21 foi um dos mais graves na j longa histria de interrupo acidental no fornecimen-to de energia eltrica no Brasil. Um quarto de toda energia do pas saiu de operao, atingindo integralmente 14 Estados do Norte e Nordeste, e preju-dicando oito. O apago durou de uma a quase seis horas, conforme a distn-cia entre a unidade consumidora e o local de gerao da energia. A causa foi logo identicada. Por alguma falha no devidamente com-provada at hoje, o sistema de prote-o fez disparar o disjuntor quando a energia passava da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, para a es-tao da Belo Monte Transmissora, que a leva para o SIN, o Sistema Inte-grado N, um dos maiores do mundo em extenso e carga. A parte da gerao constitui siste-ma distinto da distribuio, operados por duas empresas diferentes. O pro-blema j fora detectado nas duas usi-nas do rio Madeira, em Rondnia, a Jirau e a Santo Antnio. A empresa chinesa State Grid e a Eletrobrs, ambas estatais, respon-sveis pela construo do linho de Belo Monte, que vai do Par a Minas Gerais, derivando para So Paulo (com mais de dois mil quilmetros, a mesma extenso das hidreltricas do Madeira, tambm finalizando em So Paulo), adotaram uma nova tecnologia, a ultra alta tenso, trazi-da pelos chineses e indita no Bra-sil. A inovao deve estar cobrando o seu peo. Mas h uma questo ainda mais preocupante. Cada vez mais o Brasil depende de enormes hidreltricas instaladas em rios amaznicos. Para chegar aos maiores consumidores nacionais, essa energia tem que se-guir por extensas linhas de transmis-so, das maiores do mundo. Elas so mesmo confiveis? O investimento feito nelas de qualidade? O moni-toramento eficaz? Se a Amaznia sofre com a im-plantao dessas usinas paquidrmi-cas em rinces do interior da regio, os consumidores, no sul do pas, de-vero experimentar os custos dessas imensas cargas de energia seguindo por grandes distncias. O Dirio do Par vetou das suas p-ginas qualquer informao sobre a resta-belecimento, pelo Superior Tribunal de Justia, da sentena de condenao do deputado estadual Luiz Afonso Sefer. uma informao que o jornal do senador Jader Barbalho e do ministro Helder Bar-balho poderia ignorar? Se melhor dei-xar de ser um jornal e assumir a condio de quitanda da misria humana e partido poltico faccioso. Embora negue o crime, Sefer teve que renunciar ao seu mandato anterior de de-putado estadual para no ser cassado. De-pois que o TJE o absolveu, incorporando os argumentos da sua defesa, reforada pela atuao do advogado Mrcio omaz Bastos, que foi ministro da Justia (po-deroso) de Lula, ele voltou Assembleia Legislativa, em 2014, com a 11 maior vo-tao dentre os 41 eleitos, com quase 34 mil votos. Em junho do ano passado, seu partido, o PP, o lanou como candidato a senador na eleio de outubro. O fato envolve tambm o filho mais velho, Gustavo Bemerguy Sefer, de 27 anos, o terceiro mais votado (com mais de 11 mil votos) para a Cmara Muni-cipal de Belm, em 2016. No processo, ele acusado de tambm ter abusado sexualmente da menor, que sofreu vio-lncia entre os 9 e os 13 anos, sistema-ticamente, dentro da casa dos Sefer. Na poca, Gustavo era menor. O Liberal,que a princpio tambm omitiu a matria, no dia seguinte divulgao do fato pelas redes sociais cedeu e publicou uma matria com destaque, ouvindo tambm o advoga-do de Sefer. Se o Dirio fez que no sabia do fato, s h uma explicao: tomou uma deciso poltica. Sefer no deve ter sido poupado toa ou gratui-tamente. Talvez tenha pesado nessa deciso a boa votao que ele conse-guiu para si e para o filho, provavel-mente com o uso de fundos suficientes para realizar essa faanha. Esse fator deve ter sido mais in-fluente do que o jornalismo, a moral pblica e a dignidade humana. Com essa deciso (ou antideciso), o Dirio do Par pode ter cavado mais um pouco a prpria sepultura. Sim, infelizmente, a Academia brasileira tem sido cmplice da farsa, do cinismo e da desfaatez de uma classe poltica (inclusive a dita de esquerda) que tem transformado a tenra democracia em terras verde-amarelas em uma cleptocracia de dimenses, historicamente, inditas. O verdadeiro compromisso da Universidade doa a quem doer deveria ser, sempre, com os fatos, nunca com a farsa por respeito prprio! Fora desse prisma, deixa de ser uma instituio cientca, muito menos educacional, transformandose num ente ideolgico (pelos fetiches que formula) e antipedaggico (pelo mau exemplo que pratica). No saber, um professor universitrio, distinguir e separar preferncias polticas (o que lhe legtimo) de iseno de ctedra (o que lhe obrigatrio) enlamear de vez uma prosso que, pela prpria natureza e funo, deveria ser o smbolo da esperana de qualquer civilizao e a sua possibilidade. Caro Lcio, mantenha-se na sua coerncia e no exerccio de seu trabalho crtico e atento aos acontecimentos, condio esta que j rendeu e rende, ao jornalismo deste estado, por tudo o que representa a sua biograa, respeito, referncia e premiaes tudo o que falta aos seus crticos e caluniadores.

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8 TEATRO O Par participou do I Festival de Teatro Amador, realizado em janeiro de 1957, no Rio de Janeiro, atravs do grupo Os Novos, que encenou a pea No poo do falco do autor irlands W. B. Yeats. O grupo tinha sete integrantes, cheados pelo ator (hoje padre) Cludio Barradas. A direo artstica era de Margarida Schivazappa. Os outros membros eram Bernadette Oliveira, Carlos Pereira, Loris Pereira, Assis Filho e S Leal (irmo do jornalista Cludio Augusto de S Leal). Os Novos foi formado atravs da reunio do Teatro do Estudante de Belm, comandado por Schivazappa, do Movimento Renovador do Teatro, dirigido por Barradas, e da Juventude Franciscana, presidida por Assis. CINEMA Em 1958, havia 13 cinemas em Belm: Olmpia, Iracema, Nazar, Moderno, Independncia, Guarani, Vitria, Cine Brazilndia, Paraso, Cine Prola, Aldeia do Rdio, Cine Art e Popular. A populao era de menos de um tero da atual. Hoje, a cidade tem apenas dois cinemas de rua: o Olmpia (bancado pela prefeitura) e o pera (particular, s de lmes porns). O resto est encapsulado nos shoppings. JARDIM Em outubro de 1962, Genciano Fernandes da Luz e o engenheiro Alcyr Meira assinaram a escritura de com um grande terreno com frentes para a avenida Gentil Bittencourt e a Independncia (atual Magalhes Barata), onde funcionara a Fbrica de Cerveja Paraense, mas que estava abandonado. Ali iria surgir o Jardim Independncia, com 200 lotes para construes residenciais de primeira classe, que sero vendidos em trinta prestaes mensais. Trs alamedas cortariam a rea, homenageando o jornalista e professor Paulo Maranho, o empresrio Jos Faciola e o engenheiro Lcio Amaral. Os compradores dos lotes que cariam responsveis pelos servios de urbanizao do loteamento, incluindo meios-os, pavimentao do leito das alamedas, abastecimento de gua, esgotos e postes de iluminao. BARRACA A comunidade japonesa do Par patrocinou uma das noites na Barraca da Santa, no arraial de Nazar, o ponto alto da festividade para os socialites (e candidatos a), em 1962. Foram distribudos cartes para o sorteio de prmios, o mais destacado sendo um autntico quimono. Alis, o que no faltou nessa noite foram trajes e comidas tpicas japoneses, a ponto de o cronista ter registrado esse aspecto bizarro, diferente das demais noites, graas ao colorido dos trajes tpicos da nao nipnica. Por bizarro devia ter querido dizer, talvez, original. JURUNAS Elementos representativos da nossa sociedade criaram, em abril de 1964, o Grupo de Ao Social do Bairro do Jurunas. A entidade iria funcionar em colaborao estreita com a parquia de Santa Terezinha. Seu objetivo era atender os 35 mil moradores dos bairros do Jurunas e da Estrada Nova, proporcionando-lhes escolas primrias e de alfabetizao de adultos, pequenos ambulatrios mdicos, bibliotecas particulares, exibies artsticas e diversos. Os membros fundadores eram Egdio Salles, Alberto Valente do Couto, Heber Mono, Alrio Csar de Oliveira, Gasto Santos, Orlando Pinto, Raimundo Cosme de Oliveira, Manoel Rolla, Oriente Vasconcelos, Orlando Vianna e Larcio Marques da Silva. O coordenador era o padre eodoro Jaspers, vigrio da parquia. Guaran puroEm janeiro de 1963 o guaran Soberano fez aniversrio e Barana deu de presente ao dono do fabricante, seu amigo Hilrio Ferreira, versos de elogio em um anncio de jornal. Proclamava a vitria do produto paraense sobre todos os demais. No rtulo eram apresentadas as razes: refrigerante fabricado com guaran puro, sendo nutritivo e excelente sade. Do guaran, que saiu de linha, voltou e foi embora de novo, resta a bela sede, na rua mais antiga de Belm, a Siqueira Mendes, na Cidade Velha, com algum sinal de abandono preocupante.

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9 TIO Em dezembro de 1964, Sebastio Tapajs retornou de um curso de aperfeioamento em Portugal e na Espanha, realizado graas a uma bolsa de estudo do governo portugus, e fez uma apresentao especial na sede do Grmio Literrio Portugus. O convite j o consagrava como um dos mais exmios e perfeitos executores do difcil instrumento musical, que o violo. A Estrada de Ferro de Bragana suspendeu o trfego dos seus trens de carga e passageiros em 1 de janeiro de 1965, cumprindo determinao imposta pela Rede Ferroviria Federal. A RFF considerou invivel manter a linha, criada para permitir a colonizao da regio bragantina, a mais densamente habitada da Amaznia. Na ocasio estava exercendo a superintendncia da ferrovia, como substituto, o engenheiro Loriwal Rei de Magalhes (que viria a ser prefeito de Belm, nomeado). CHURRASCARIA Quem frequentasse a Chur rascaria Jardineira do Grande Hotel, na avenida Presidente Vargas (substitudo pelo Hilton e, agora, o Princesa Lou), a partir de outubro de 1965, j podia entrar com seu carro pela rua Carlos Gomes, na lateral do prdio. No restaurante encontraria um ambiente diferente e acolhedor para saborear as especialidades da casa: galeto ao primo canto, churrasco misto ou gacho, let mignon assado na brasa, cerveja em canecas e vinhos selecionados. A chur rascaria, na calada frontal do hotel, abria das 19,30 s 23,30, exceto s segundas-feiras. O telefone (automtico) era 4593. CALOUROS O conselho paroquial da igreja da Trindade decidiu homenagear os neo-universitrios de 1966 com uma missa de ao de graas pela vitria alcanada, celebrada pelo padre Carlos Coimbra (hoje, ex). Aps a missa, na Casa Paroquial, seria servido um ligeiro caf de confraternizao, ouvindo-se a palavra do ilustre prof. Aldebaro Klautau. Os familiares tambm participariam da festa para os calouros. TROTE Nesse ano, alis, os calouros ainda podiam fazer livremente seu trote pelas ruas da cidade, deslando atrs de uma charanga. O trote dos futuros dentistas, por exemplo, saiu da sede da Faculdade de Odontologia, na praa Batista Campos, percorreu o comrcio e foi terminar em frente sede do governo, no Palcio Lauro Sodr, sem incidentes, parando diante do prdio do jornal Folha do Norte para as arengas costumeiras e o registro de direito. Srgio Haroldo Barros foi quem falou, reivindicando provas mensais para favorecer os estudantes que trabalhavam e no podem assimilar as diversas matrias, para realizar provas num perodo de 6 em 6 meses. Os cartazes, usados para transmitir a mensagem dos novos universitrios, traziam dizeres comopensar pode, mas se falar vai em cana, contrabandistas que a soluo, no vai preso porque est cheio de bilho, ou lotao a soluo: quem sobra vai a p. O trote comeou e terminou em ordem, atestou a imprensa.Foi o casamento do ano, de 1963, o de Lena Vnia Dantas Ribeiro, com o acrscimo ao seu sobrenome do Pinheiro, do marido. Sua irm, Maria da Graa, e Lilian Pessoa Pinheiro, foram as damas, com seus trajes de gala e rosas nas mos, na iconografia da poca para as jovens da sociedade. O glamour dos anos dourados. O casamentao Em julho de 1958, o prefeito Lopo de Castro mandou fazer uma grande limpeza na praia do Ver-o-Peso, como o lugar ainda era ento conhecido, onde a imundcie ali se misturava com os gneros alimentcios que so vendidos ao pblico.Depois da recuperao da praia, a prefeitura instalaria barracas standardizadas, a exemplo de outras capitais do pas. Uma melhora seguida de piora, na cclica histria das boas ou bem intencionadas intervenes do poder pblico no carto postal de Belm, no continuadas.

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10 Mrcio Souza: Amaznia: a partir do mirante no Rioidentidade, No difcil entender por qu o Inpa foi fundado em Manaus e no em Belm. Porque o Par tinha identidade poltica para manter os organismos econmicos l. Mas essa identidade poltica no era associada a uma percepo suciente para defender a criao de um instituto cientco no Par. At a oligarquia amazonense acabou indo para Manaus, justamente porque havia, digamos, terreno frtil, sentencia o mestre. Mrcio encadeou uma sucesso de barbaridades nessa orao descoordenada. No resiste menor vericao documental a armativa de que Belm no teve nenhum benefcio com a economia de guerra da borracha, trazida pelos americanos quando as fontes de suprimento no oriente foram fechadas aos aliados a partir da adeso do Japo ao eixo de Hitler. Mrcio podia dizer que os malefcios foram maiores do que os benefcios, mas no ignorar as obras no aeroporto a partir da base area incrementada pelos EUA, por exemplo. Ou a sede dos novos servios, que iriam se estender at os altos rios, com seus seringais reativados, atravs da Sava, do Semta ou da Fundao Sesp. At mesmo melhorias, como a avenida Bernardo Sayo, originada de um dique de proteo, que resiste sendo uma das mais slidas obras de engenharia da cidade. Os ares democrticos, que a der rota dos regimes totalitrios da poca fez soprar, chegaram aos enfumaados cafs, onde geraes de intelectuais e polticos conseguiram fermentar suas ideias, da resultando obras como o suplemento literrio da Folha do Norte um dos melhores no gnero no pas, catapulta para romances, contos, poesias ou ensaios de gente como Mrio Faustino, Max Martins, Paulo Plnio Abreu, Francisco Paulo Mendes. Benedito Nunes e Haroldo Maranho, sem contar com os anteriores e ainda em plena atividade, como Bruno de Menezes e Dalcdio Jurandir. Colocando-os na balana da qualidade (e tambm da quantidade), pesariam menos do que os integrantes doClube da Madrugada? A questo, evidentemente, no essa. Belm o que e continua sendo, apesar de tudo, por uma ra(Publicado em 2001 na Agenda Amaznica)O escritor amazonense Mr cio Souza parece empenhado nos ltimos anos em desfazer o que ajudou a realizar em fase mais remota: libertar Belm e Manaus, as maiores cidades amaznicas, capitais das metades oriental e ocidental da regio, da rivalidade provinciana que as tem impedido de procurar os pontos de unio, ao invs de estimular uma discrdia supercial e contraproducente. Numa entrevista concedida a Priscila Faulhaber, para ser incorporada ao livroConhecimento e fronteira: histria da cincia na Amaznia (edio do Museu Paraense Emlio Goeldi, 795 pginas), Mrcio incorpora ranos do passado, tomando seu partido na disputa entre o jaraqui amazonense e a piramutaba paraense, empobrecedor cabo-de-guerra em relao ao qual sua ironia e sua lucidez pareciam servir de imunizao. Consagrado e burocrata, acomodado e yuppie Mrcio se permite jogar no lixo as palavras de outrora, semelhana do chefe mximo, o socilogo Fernando Henrique Car doso, e desanda a apresentar ideias e informaes irreais, num modo de encarar a realidade e a histrica amaznica em contradio com a impor tante obra que produziu, aguada e empobrecida em anos mais recentes. Mrcio merece ser criticado no por dizer coisas que podem soar ofensivas aos brios paraenses, demasiadamente hipertroados para meras formalidades. Se suas palavras, apesar de duras ou mesmo sarcsticas, expressassem a verdade, nossa obrigao seria sufocar o orgulho ferido e nos submeter sua lucidez. Mas esse um material que no consegue mais sedimentar a atitude iconoclasta de um intelectual em busca de um patamar metropolitano, que no se lhe acomoda bem, e empenhado em se desfazer de uma base regional, que avalizava a sua atividade. O Mrcio Souza da entrevista um maneirista empolado e inconsistente, uivando para a lua, que julga seu lugar de direito e merecimento. Certamente utilitria a interpretao que faz dos caminhos trilhados por Belm e Manaus aps a Segunda Guerra Mundial, quando as duas capitais comearam a vencer a inrcia e o vcuo deixados pela decadncia da explorao da borracha, a partir da metade da segunda dcada do sculo XX, a tal idade mdia amaznica, to mal formulada quanto a poca original, que lhe serviu de modelo e inspirao.A implantao do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia) em Manaus pelo CNPq (o ento Conselho Nacional de Pesquisas) e a criao da Faculdade de Filosoa, nos anos1950, deram impulso intelectual capital amazonense por que existia um movimento literrio muito forte na cidade, o Clube da Madrugada, um movimento poltico, social e literrio. Isso, porm, assegura o autor de Galvez no houve em Belm : Belm foi sofrendo um processo de decadncia logo aps o m do ciclo econmico da borracha e l no houve nenhum benefcio do surto econmico do ltex no perodo da Segunda Guerra Mundial. O processo de decadncia acelerou-se logo depois dos anos 60. O Par foi perdendo sua identidade intelectual, a primazia do capital cultural e cientco da regio. Hoje, por exemplo, o Par no tem literatura, o Par no tem msica, o Par no tem nada. O Par no tem teatro, no tem dramaturgia. Tem artes plsticas, tem fotograa, tem algumas coisas, mas foi perdendo a sua

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11 zo simples de entender: foi para c, na segunda metade do sculo XVIII, que o ltimo dos grandes estadistas portugueses, o Marqus de Pombal, mandou o irmo, com um proje to na cabea e recursos disposio para coloc-las em prtica: fazer de Belm a capital do imprio remanescente portugus na Amrica, a ser mantido mesmo quando o Brasil se houvesse libertado da dominao colonial metropolitana. Depois que Landi construiu palcios e igrejas, sem a contrapresso dos jesutas, o que faltava era um projeto de civilizao para dar estofo a essa armadura. Era o segundo passo, que claudicou. E claudica at&eacu te; hoje.Um lugar para a cinciaMas inegvel que em Belm foi iniciada a montagem desse suporte. estultice de Mrcio armar que havia em Manaus, mas no em Belm, percepo suciente para a criao de um instituto cientco aqui. Ora, Ferreira Pena conseguiu fazer da sua Associao Filomtica, criada em 1866, o ncleo do que viria a ser o Museu Goeldi. Bem ou mal, com seus erros e distores, essa instituio, mantida com recursos estaduais, adquiriu status junto comunidade cientca e resistiu s intempries polticas at ser absorvida pelo governo federal, 80 anos depois, com uma mentalidade cientca ou prcientca estabelecida. A perda de identidade de Belm (e do Par), na qual o autor do Boto Tucuxitanto martela, sem muita preciso ou rigor conceitual, certamente est relacionada ao seu esvaziamento econmico. Mais at do que isso, pode decorrer da incapacidade que a cidade manifesta de reencontrar um papel econmico, de redenir uma vocao no novo espao estadual, regional, nacional e mundial. Essa crise econmica, facilmente visualizvel para quem caminha por suas ruas centrais, entupidas de camels, ou por sua periferia, assemelhada a Calcut, deve afetar a qumica da criao intelectual e ar tstica: enquanto a palavra se enfraquece, a msica e as artes plsticas sobem relativamente, e, acima delas, a fotograa, razo de um prmio especco no tal do Arte Liberal, que a nivelou pintura e escultura. Em parte, esse tambm um fenmeno nacional e mundial. Tudo bem: mas onde nasceram Dina Oliveira, Emanoel Nassar, Lus Braga, Nilson Chaves, Sebastio Tapajs, Faf de Belm, Leila Pinheiro e Jane Duboc, para car s nesses exemplos (quantos Mrcio pode contrapor depois do maravilhoso Milton Hatoum)? No quero, aceitando a armadilha de Mrcio, puxar o anacrnico cabo-de-guerra que nos fez virar a costa e o nariz no passado. Os ar gumentos so apresentados apenas para mostrar que as palavras do presidente da Funarte so incorretas e levians. No tm a menor coerncia. Nem tm parentesco com a verdade. Ele elogia a perspiccia do Inpa ao aproveitar em seus quadros o excelente Mrio Ypiranga Monteiro, um autodidata em antropologia, mas manifesta desdm pelo alemo Curt Nimuendaju, um operrio metalr gico que gostava de ndio, que era bem intencionado, mas era amador. No tinha formao. Como no tinha formao Mrio Ypiranga. O que avaliza o justo conceito de Nimuendaju, como um dos maiores antroplogos brasileiros, a sua produo, que tornou irrelevante a sua falta de formao acadmica pelos resultados alcanados. Ele no tem culpa de ter sido vinculado ao Goeldi e no ao Inpa. Mas morreu entre no Amazonas de Mrcio, entre os ndios que gostava e to bem descreveu,et pour cause Alis, mesmo to fcil de entender por qu o Inpafoi fundado em Manaus e no em Belm, que impossvel entender o que levou Mrcio Souza a explic-la como sendo uma percepo insuciente para defender a criao de um instituto cientco no Par. Esse instituto, como saberia qualquer colegial, j existia: era o Museu Goeldi. A instituio, ainda custeada pelo Estado, vivia na mais negra misria. Mas existia. O CNPq podia imediatamente encamp-la, como acabaria fazendo, trs anos depois. S no o fez logo porque seu impulso tinha uma motivao geopoltica: assustados com a proposta de criao do Instituto Internacional da Hilia Amaznica, os militares, que moviam o CNPq, queriam fechar o (imenso) flanco ocidental da Amaznia aos perigosos cientistas estrangeiros, normalmente associados (ento como ainda hoje) a interesses comerciais, ou polticos. Uma vez ncada a base federal na Amaznia, a partir do domnio sobre a sua metade mais isolada e vazia, com uma instncia cumpridora das determinaes do poder central, emanadas do Rio de Janeiro (e, em seguida, em Braslia), de Manaus a Unio se voltaria para tomar o Goeldi do Estado, mantendo-o sob a jurisdio do Inpa, numa subordinao que, com o tempo, se mostraria negativa, sob todos os pontos de vista, inclusive da doutrina de segurana nacional, tambm matriz intelectual do prprio Inpa.O exotismo e o exticoDesde que assumiu algum poder de mando no mundo da cultura nacional, Mrcio Souza parece comprometido em defender a primazia local sobre os destinos amaznicos, porm no mais com os ideais liber trios de ontem, que o mantinham atualizado com o mundo, mas num termo de compromisso que lhe possibilitou a reconciliao com representantes da oligarquia at ento postos ao alcance do seu ltego ver bal, como Gilberto Mestrinho, a fonte inspiradora do brilhante folhetim sobre o Boto Tucuxi. Os alvos, agora, so os estrangeiros e seus mimetismos amaznicos, um alvo fcil para uma crtica reducionista, que s consegue ver por trs desse discurso da conservao e do retorno ao extrativismo os interesses da indstria farmacutica, uma palhaada que concede ao nativo apenas o direito de guardar a riqueza orestal. Esse tipo de exotismo trazido pelo discurso ecolgico considerado por Mrcio pior do que o desmatamento. A defesa da oresta no passaria de recurso ttico para aumentar o lucro das grandes indstrias farmacuticas mundiais. triste constatar que um intelectual amaznico do porte de Mr cio Souza, para se contrapor a uma forma de pilhagem dos

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12 recursos e da cultura da regio, originria de outros pases, acabe se incorporando, por sua forma arbitrria de combater o interesse ecolgico para com esta parte mais complexamente cheia de vida do planeta, ao bando de pilhadores nacionais, no se podendo distinguir com preciso, ao menos por enquanto, qual deles mais devastador, ou mais rpido na destruio. Um ponto de equilbrio parece fora do alcance para um par venu deslumbrado com a possibilidade de ser a nica pessoa sobre a face da terra que chama a Adlia Engrcia de Oliveira de Adelinha. Adlia uma antroploga paulista que atuou por longos anos no Goeldi (do qual acabaria sendo diretora), principalmente ao tempo de Eduardo Galvo, que praticamente fundou a antropologia em bases cientficas no Museu, a quem Mrcio diz ter conhecido bastante (sem haver provas de que a recproca seja verdadeira). O que chamar Adlia de Adelinha tem de relevante em relao s opinies de Mrcio Souza quase to impondervel e impenetrvel quanto, hoje, suas opinies sobre o tudo o mais que v de sua torre de marm, no Rio de Janeiro.Ao contraditriaDo po(l)vo Um quarto dos 937 mil eleitores que estavam habilitados em Belm a realizar a biometria para estarem aptos a participar da eleio de outubro no se apresentaram. A justia eleitoral teve que cancelar quase 210 mil ttulos. Os portadores desses documentos ainda podero regularizar sua situao no novo prazo, que comeou neste dia 2 e ir at 9 de maio. Numa hiptese irreal, de que nenhum desses quase 210 mil eleitores se apresentasse, a eleio no Par estaria ameaada por uma absteno em torno ou superior a 50%, considerado-se que tradicionalmente ela sempre supera os 20%. Isso no acontecer, verdade, mas a suposio basta para revelar a gravidade do desinteresse de boa parte do maior colgio eleitoral do Estado, onde est domiciliada a parcela da sua populao geralmente considerada a mais esclarecida e politizada. A cidade heroica de 1950, que destronou a oligarquia baratista de trs dcadas (embora por curtos cinco anos). A gravidade se ressalta ainda mais porque a justia eleitoral do Par agiu com ecincia exemplar no planejamento, execuo e manuteno de nove postos de atendimento espalhados pela cidade. Ao me cadastrar, no incio da campanha, cheguei ao posto instalado no porto de Belm e fui passando para o atendimento. Menos de cinco minutos da entrada, sa. Os que deixaram para a ltima hora no tm o direito de reclamar das imensas las e lento atendimento. Mais uma vez provaram do efeito de um descaso que no consegue faz-los mudar hbitos e costumes. parte esse elemento constante, um outro tambm deve ter inudo, inclusive para essa m tradio do retardamento de compromissos cvicos (e outros mais) para a undcima hora: a falta de crena no voto e de alternativas de escolha atravs do seu exerccio. Est pronto o cenrio para mais um captulo de frustrao da novela da democracia no Brasil ou, pelo menos, em Belm.Os alunos do curso de histria da Universidade Federal do Oeste do Par, com sede em Santarm, que vo digitalizar e preparar para consulta 13 mil caixas de processos da prpria comarca, alm de 168 de Faro e 300 de Rurpolis. Eles integraro o recm-criado arquivo regional, com sede em Santarm, devidamente preparado para receber esse valioso acervo da justia estadual em todo Baixo Amazonas, at o final deste ano. As prximas comarcas a encaminharem processos sero Novo Progresso e Terra Santa. O curso da UFOPA j recebeu 400 caixas, com cerca de 8 mil processos do Tribunal de Justia do Estado, para catalogao, digitalizao e arquivo. Quando estiver sido concludo, esses processos antigos, alguns do sculo 19, faro parte de um banco de dados com ferramentas acessveis para consulta. Pois o TJE, que tomou essa providncia sensata em Santarm, na capital, ao invs de procurar os cursos de biblioteconomia e arquivologia da UFPA e o seu Centro de Memria, formado com arquivos da justia paraense, recorreu a recrutas do Exrcito. Por que a contradio? Por que o absurdo? Em qualquer lugar do mundo, mesmo nos pases mais ricos, 150 bilhes de dlares tamanho expressivo para investimentos. Convertido o valor para a moeda nacional, resultando em mais de 500 bilhes de reais, teria que ser de grande impacto, Foi quanto a Unio repassou ao BNDES nos anos em que o PT decidiu usar a instituio para criar as multinacionais brasileiras, com dinheiro pblico subsidiado e muito subsidiado. Como as notrias JBS e Odebrecht, alm de empresas para atuarem no Pr-Sal. Sem falar no impulso para que Eike Batista acumulasse a oitava maior fortuna individual do planeta (a propsito, ele e Andr Esteves, do BTG-Pactual, foram esquecidos pela Lava-Jato). No dia 29 o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social devolveu mais R$ 30 bilhes ao tesouro nacional, completando a amor tizao acumulada de R$ 210 bilhes, iniciada em 2015. A aplicao do tesouro foi atravs de trs enormes contratos. A quitao da dvida, da qual remanescem ainda quase R$ 300 bilhes, vai demorar mais tempo. Se que ser concluda algum dia. Mas ningum do topo do poder parece interessado em prestar contas dessa transao. A caixa preta per manece lacrada. Ainda dizem que o gover no do PT foi do povo. Residualmente, sem dvida.

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13 Delfim Netto, o queridinho da direita e da pseudoesquerda Para relembrar que Delm Netto est sendo investigado pela Operao Lava-Jato, reproduzo artigo do jornalista Milton Saldanha, j que a grande imprensa perdeu Delm de vista. Muita gente s conhece o Delm que foi deputado federal, apoiador e guru do Lula para assuntos de economia e planejamento. O que explica sua coluna emCarta Capital. E o foco dos governos Lula no consumismo popular, imediatista, em lugar de reformas estruturais com alguma densidade. Vamos ento falar do outro Delm, o da ditadura, que teve poderes de rei em suas mos. Os militares no tinham nenhum general ou coronel com capacidade de entender e gerenciar a economia. Precisavam de um nome convel e foram buscar Delm Netto na USP, alinhado com a ala conservadora da academia, bom que se diga, para quem pensa que l s existia esquerda. O gordinho, que mandou enquadrar e expe nas paredes do seu luxuoso escritrio, no nobre bairro do Pacaembu, em So Paulo, centenas de caricaturas de charges e piadas sobre ele, mesmo aquelas mais cidas, deixa transparecer nesse detalhe sua imensa vaidade. Ao mesmo tempo em que isso mostra seu lado bonacho e sedutor. Seu tom de voz de afago ao interlocutor. E as piadas nas paredes testemunham sua aparente tolerncia com a crtica. Entrevistei-o nesse escritrio, h vrios anos, para oJornal do Economista, onde era editor-chefe. Foi comigo Antonio Corra de Lacerda, professor de Economia na PUC-SP, que presidia o Conselho Regional de Economia. Resumo: Delm enveredou pelo economs mais prolixo, como era seu hbito, e essa ttica intimida o entrevistador, incapaz de acompanh -lo nos meandros mais ridos da teoria econmica. Nisso, Delm sempre foi o oposto de Celso Furtado, um dos grandes economistas da Histria brasileira, de esquerda, que falava e escrevia com uma clareza para qualquer dona de casa entender. O gordinho simptico foi muito peralta. Entre suas faanhas, caram clebres as manipulaes de ndices, para enganar todo mundo, exibindo resultados econmicos irreais. Quando foi embaixador do Brasil na Frana, com as mordomias de uma belssima manso em Paris, posto cobiado por qualquer mortal, cou famoso localmente como o embaixador 10%, numa aluso ao ndice que costumava acertar nas propinas. Por coincidncia, agora, na acusao na 49 fase da Lava Jato, operao Buona Fortuna, ele aparece como benecirio em 10%, embolsando R$ 15 milhes nos trambiques na construo da Hidroeltrica de Belo Monte, no Par. Sendo, segundo a acusao, 45% para o PT e 45% para o PMDB, agora sem o P inicial. Mas calma, gente, ele diz que foi tudo consultoria. Ah, bom Antes disso foi ministro da Fazenda de Costa e Silva e Mdici. Foi o poderoso homem da caneta e chave do cofre de 1967 a 1973. Nessa trajetria, em dezembro de 1968, assinou o ATO-5, que radicalizou a ditadura, a ponto de revogar o instituto do Habeas-Corpus e criar a pena de mor te. O instrumento era to arbitrrio, que Jarbas Passarinho, outro clebre homem do regime, que tambm assinou, largou a frase famosa: s favas com os escrpulos. De 1979 a 1984 Delm foi ministro da Agricultura. Com o folclore de que no entendia do assunto. Por brincadeira, jornalistas mostravam algo como uma cenoura, por exemplo, e perguntavam se ele sabia o que era aquilo. O ministro entrava na brincadeira e respondia: Est claro que um p de caf. Com essas e outras, na contramo do estilo militar, com generais carrancudos e de culos escuros, Delm Netto foi construindo sua imagem de gura acessvel e afvel. Que lhe deu trnsito em vrias cor rentes conitantes. Mas, nos bastidores, de humanista no tinha nada. Est denunciado em vrios livros e documentos como o homem, juntamente com o banqueiro Safra, que passou o chapu entre banqueiros e grandes empresrios, inclusive de multinacionais, para montar a Oban em So Paulo, o centro de torturas e assassinatos de presos polticos. Que depois virou Doi-Codi, sob o comando do ento major Brilhante Ustra. Para quem vive dizendo que no regime militar no havia corrupo, Delm Netto um bom desmentido. Como este cidado foi se tornar o guru de Lula tema complexo. Mas a aliana, de certo modo, como outras do mesmo naipe, avalizou o ex-lder sindical como pessoa convel ao sistema. Mas nem por isso a ponto de salvar seu pescoo na Lava Jato. No resumo geral, prova que Delm, mesmo com vrias acusaes de corrupo e sendo co-responsvel pelos crimes da ditadura, conseguiu, com sua habilidade de sedutor, a rara faanha de ser o queridinho da direita, da mdia, e da pseudo-esquerda.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Blog: Palestras: contato: 999777626 Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com Tempo de perseguies e altivez Ao morrer, em janeiro deste ano, s vsperas de completar 87 anos, Carlos Heitor Cony era um dos escritores brasileiros mais produtivos de todos os tempos. Sua obra inclui acima de duas centenas de ttulos. o que computa a sua bibliograa, preparada pela Academia Brasileira de Letras, qual pertencia. Ela impressiona pela fecundidade e pela qualidade mdia em toda ela e superior em matria de co e crnica. Talvez nenhum outro ccionista tenha retratado melhor a classe mdia brasileira, especialmente a da zona sul do Rio de Janeiro, projeo e prottipo da entidade nacional. Seu primeiro romance, O ventre, publicado pela Editora Civilizao Brasileira em 1958, completa agora, por acaso, 60 anos. Cony o deve ter escrito entre os 26 e 27 anos, quando era um jornalista com passado de seminarista, lho de jornalista (o pai foi personagem do deslumbranteQuase Memria). O Ventre chegou 12 edio meio sculo depois, em 2008. Em 2014, Quase Memriaatingiu a 29 edio. Outros livros tambm alcanaram grande sucesso de pblico e crtica. Para mim, sempre foi uma surpresa que Posto seis (numa referncia parte de Copacabana, na divisa com Ipanema, onde o escritor morava) no tenha ido alm de 1966, na sua primeira e nica edio. Nessa poca, Cony j escrevera nove livros, oito deles de co. O primeiro de crnicas, Da arte de falar mal (ttulo da sua coluna no Cor reio da Manh), tivera pouca reper cusso. O segundo, O ato e o fato, que lhe daria dimenso nacional. Foi a primeira reao de um intelectual (at ento um pequeno burgus pouco interessado em poltica) ao golpe militar, num jornal que apoiara a deposio de Joo Goulart para, logo em seguida, passar a criticar os militares que o derrubaram. O livro alcanou sua 9 edio em 2014. Meu primeiro contato com Cony foi em 1962, com Matria de Memria em edio de bolso da Civilizao. A partir da, li os volumes j lanados e passei a me atualizar a cada novo livro O Ato e o Fatofoi uma fonte de reconforto, em 1965. Mas Posto Seis foi um deslumbramento. Um dos melhores livros de crnicas (gnero genuinamente brasileiro) da literatura. Esperando que a obra seja nalmente reeditada, reproduzo duas das memorveis crnicas de Cony, num momento de integridade e dignidade que lhe iriam faltar no futuro, acrescida da nota que se seguiu ao ltimo dos seus textos publicados no Correio padro de um tipo de jornalismo que ele, com o tempo, se foi distanciando, at negar-se por completo. Mas j tinha plantado boas sementes nessa caminhada inversa de Damasco. Primeiro a crnica antolgica, apropriada aos tempos que vivemos a partir de uma poca tambm de violncias, intolerncias e obscurantismos, na qual Cony nos representava e elevava.A rima e a insistnciaOs cavacos do ofcio e da vida me haviam reservado um transe amargo e talvez desnecessrio: sou ru. Para um sujeito acomodado e triste, submetido aos mil acidentes da carne e do esprito, a condio de ru, embora no infamante, estava absolutamente fora das cogitaes. Mas eis: sou ru. Por obra e graa do ministro da Guerra enfrentei o meritssimo da 12 Vara Criminal. Aturei o libelo e outras formalidades da dura lei. E estou preparando o insubmisso esprito e a complacente carne para o que der e vier. Meu crime simples de ser exposto. Desde a quartelada e 1 de abril que venho cometendo este crime, em edies compactas de centenas de milhares de exemplares. Meus artigos foram lidos nas prises, nos navios-presdios, nos quartis, nos lares e nas escolas. Prossionalmente falando, podia encerrar minha modesta e curta carreira de jornalista. Alm da prosso, no plano estritamente humano, cumpri um dever para comigo mesmo. No tenho, pois, do que me arrepender. At aqui, os homens do governo pretendiam punir a corrupo e a subver so existente at o dia 31 de maro. Mas os ministros militares que me processam zeram-me a elementar justia: reconheceram que eu no sou corrupto nem subversivo. Sou, talvez, o primeiro adversrio deste governo que est pagando por um crime presente: o de no concordar com o atual estado de coisas. quase uma glria. Entreguei minha causa a um advogado dos mais ilustres: Nelson Hungria. Tratadista, ex-ministro do Supremo, professor de geraes, penalista de fama internacional, considero-me em boas e honradas mos. Desde j, independente de qualquer resultado de ordem prtica, quero ressaltar a honra que me coube: ser defendido por homem to ilustre e probo. A ele e aos seus auxiliares, meu agradecimento. As artimanhas de um processo so estranhas e inesperadas. De uma hora para outra, tive de arranjar testemunhas. O promotor trouxe um esquadro contra o insignicante escriba: os trs ministros militares e o secretrio de Segurana da Guanabara [atual Rio de Janeiro]. Para contrabalanar este esquadro, potente apenas em sua fora temporal, arranjei outro: Austregsilo de Athayde, Fernando Azevedo, Carlos Drummond de Andrade e Alceu de Amoroso Lima. Daqui a dez anos, ningum saber quem foi o sr. Ar thur da Costa e Silva ou o sr. Gustavo Borges. Mas daqui a cem anos, o Brasil, os nossos netos e bisnetos

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15 aprendero e respeitaro os nomes que deporo a meu favor. J&aacut e; uma vitria, alm da glria para rimar e insistir. Por sugesto de amigos, convidei o presidente da ABI [Associao Bra sileira de Imprensa] para testemunha. Mas o atual presidente, embora tenha aceitado em princpio a escolha, mais tarde meditou melhor e resolveu desistir. Compreendo a atitude do Sr. Celso Kelly. No o procurei na qualidade de Celso Kelly, mas na de presidente da ABI. E o presidente da ABI, alegando relaes cordiais entre a sua nobre pessoa e a nobre pessoa do ministro da Guerra, achou que um testemunho em favor do jor nalista poderia estremecer a cordialidade com o militar. No s compreendi a atitude do Sr. Celso Kelly, como alegremente me regozijei com ela. na realidade, motivo de justo jubilo, o fato de ter mos, ns jornalistas, um presidente que goze das boas e inefveis graas do honrado ministro da Guerra. Iremos para a cadeia, muitos j esto na cadeia, mas isso tambm motivo de jbilo e honra para todos ns. Nosso presidente cordialmente recebido pelo ministro da Guerra e aceita seus cordiais convites para jantar ou receber medalhas do mrito militar. Outra glria, para insistirmos na palavra glria e sermos coerentes com a histria o que outra rima. (25-VIII-1964)Poderia iniciar esta crnica dizendo que afrontei o general Costa e Silva na ltima tera-feira. Seria inverdade. Fui ao seu gabinete ns qualidade de acusado de um crime contra a segurana do Estado, Para isso, o general usou de todo o peso de seu atual cargo: fez a montanha ir a Maom, em vez de Maom ir montanha. H tempos, um antecessor do sr. Costa e Silva andou processando jornalistas. Mas fazia questo de ir montanha, ou seja, submetia-se aos cartrios, s salas de audincia, s instalaes quase srdidas da nossa Justia. Mas o sr. Costa e Silva um homem atribulado. Alm das naturais funes de seu cargo [de ministro da Guerra, hoje do Exrcito], um homem assoberbado com jantares e recepes. Usou, por conseguinte, de um privilgio legal. Juiz, escrivo, escrevente, advogados, todos tiveram de enfrentar o ptio ensolarado do Ministrio da Guerra e bater porta de seu venervel gabinete. O general um homem baixo, mais baixo do que parece nas fotograas, mas quando comea a falar adquire uma certa simpatia, um calor humano que o torna respeitvel e quase bonito. Cruzou seu gabinete para vir falar com este cronista. Estendeu-me a mo, apresentando-se: GeneralCosta e Silva! Respondi no mesmo tom: Jornalista Cony! O ministro recuou um pouco, fez um gesto com a mo em cima da prpria cabea, para exprimir altura. E disse: Imaginava-o mais alto! Gostei do pronome corretamente empregado e deixei que o ministro se servisse de minha insignicante altura. Mas o juiz tomou as providncias preliminares e convidou-nos, a gregos e troianos, a inocentes e culpados mesa ministerial. O general fez um gesto em direo a seu habitual assento, mas um assessor o advertiu: o lugar de honra seria do juiz. O general ento sentou-se ao meu lado, o meu advogado, ministro Nelson Hungria, de outro. Os demais, menos votados, espalharam-se pelo resto da mesa e do gabinete. O ocial de justia fez questo de abrir as portas da ministerial alcova. prtica salutar e indicativa de que a Justia no se faz a portas fechadas. O sr. Costa e Silva ajudou ocial de justia a abrir os seus batentes e o enorme ventre do saguo de mrmore, frio e vazio, foi testemunha da audincia. Lido o libelo pelo juiz, o general identicou-se como Arthur Costa e Silva, brasileiro, ministro da Guer ra, residente na rua General Canabarro, se no me engano, 471, ou nmero parecido. A uma pergunta do magistrado, declarou que no era meu amigo nem meu inimigo. Nada me foi perguntado, mas a reciproca seria verdadeira. Enm, a audincia prosseguiu como soem prosseguir as audincias deste tipo. Nada do que o general disse no processo causou-me estranheza. Exceto, talvez, o fato de que meus artigos so transcritos em diversos jornais do Pas. Vou pedir, mais tarde, quando passar esta onda, que o general ministro da Guerra me d o nome e o endereo desses jor nais. Vivo disso e tenho de receber a vil pecnia pelo meu trabalho. com esta vil pecnia que pago o leite e o colgio das minhas lhas. (10-IX-1964)Nota final de ConyNOTA: No dia em que saiu publicada esta crnica, enderecei ao jornalista Antnio Callado a seguinte carta: Ilmo. Sr. Dr. ANTNIO CALLADO DD. Redator-chefe do Correio da Manh Conhecedor de uma situao embaraosa para o meu chefe e amigo, venho, por meio desta, pedir demisso do cargo de redator que ocupo no Correio da Manh. Esta a quarta vez que peo demisso do jornal sou um reincidente incurvel. Das vezes anteriores o z por motivos pessoais. Desta vez, porm, o falo para facilitar a soluo de uma crise em que, honestamente, no me considero envolvido. A crnica de hoje (Ato Institu cional II, uma pardia com ao ato de exceo do governo militar), em meu entender, em nada poderia provocar ou inuir entre uma crise interna entre a administrao e a redao. Mas a crise houve e no quero que ela se prolongue custa de um malestar em que, involuntariamente, coloquei um amigo que admiro e respeito. O fato de, no momento, estar sendo processado por uma autoridade, com julgamento marcado para maro/abril, no motivo para poupar-me, sacricando um amigo. Sei me defender sozinho e o venho fazendo atpe aqui. Fique certo, Callado, de minha estima e receba o meu abrao. (a) CARLOS HEITOR CONY Entregando meu pedido de de misso gerncia do Correio da Manh, o jornalista Antnio Callado apresentou seu prprio pedido de demisso, deixando tambm de fazer parte daquele joenal.

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O que a Amaznia para a Noruega?No ano passado, o Ministrio de Sade destinou 17,2 bilhes de reais para o programa que nanciaprticas integrativas e complementares no Sistema nico de Sade, o SUS. Recentemente, foram includas 10 novas dessas prticas, como bioenergtica, constelao familiar, cromoterapia, imposio de mos, entre outras, que no foram validadas por testes baseados em evidncias cientcas, segundo dados doConselho Federal de Medicina. Esse valor quatro vezes mais do que o oramento de todo o Ministrio de Cincia, Tecnologia, Inovao e Comunicaes. O que sobra para aplicar em toda Amaznia no chega a meio bilho de reais. Considerando que a regio abriga a maior oresta tropical do planeta, sua maior bacia hidrogrca, a maior fonte de biodiversidade e 5% da superfcie da Terra, o bastante para concluir que a cincia nunca acompanhar a expanso das frentes econmicas. Sempre vir depois que os pioneiros se instalam em pontos avanados da fronteira. O maior programa cientco em curso resulta do Fundo Amaznia. Em agosto, ele completar 10 anos. At o nal de 2016 (conforme o ltimo relatrio divulgado, o que j o atraso j uma informao crtica), ao fundo foram destinados 2,9 bilhes de reais, dos quais 97,4% so doaes do governo da Noruega, a fundo perdido, sem retorno. No h nada parecido na Amaznia. Talvez nem no Brasil. At o final do ano passado, os 96 projetos aprovados representavam um comprometimento de R$ 1,6 bilho, mas apenas R$ 890 milhes foram liberados. O dinheiro est disponvel, mas a gesto do projeto, a cargo do BNDES, lenta e faltam mais iniciativas. A Noruega tomou a dianteira em favor de um fundo destinado a captar doaes para investimentos no reembolsveis em aes de preveno, monitoramento e combate ao desmatamento, e de promoo da conservao e do uso sustentvel da Amaznia Legal. Tambm apoia o desenvolvimento de sistemas de monitoramento e controle do desmatamento no restante do Brasil e em outros pases tropicais. Todos esses bons propsitos foram manchados pelo comportamento de uma das maiores empresas norueguesas e europeias. Fica no Par o maior investimento fora da Europa da Hydro, empresa na qual o governo da Noruega possui mais de um tero das aes. O investimento inclui uma mineradora de bauxita, uma renaria de alumina e uma metalurgia de alumnio. No dia 17 de fevereiro, num dos muitos dias de chuva forte desse perodo, as guas das drenagens do municpio de Barcarena tingiram de vermelho. Logo se constatou serem vazamentos de rejeitos da lavagem de bauxita. As investigaes levaram descoberta de pelo menos trs canais de drenagem clandestinos de resduos industriais contendo inclusive metais pesados, como o chumbo. A Hydro negou tudo a princpio, mas teve que ir admitindo progressivamente que, de fato, era a lama vermelha txica (principalmente pelo uso de soda custica), que houve contaminao, que havia outras formas de drenagem e que os canais de despejo eram realmente ilegais. S sustentou que a contaminao fora localizada e de baixo impacto. A empresa se comprometeu a adotar um sistema de monitoramento e controle novo e completo, com investimento equivalente verba federal anual de cincia e tecnologia na Amaznia e a mais da metade de tudo que o Projeto Amaznia j liberou para quase 100 projetos aprovados em 10 anos. Anal, s a Alunorte, a maior fbrica de alumina do mundo, onde aconteceu o acidente, faturou R$ 7,7 bilhes no ano passado. O valor equivale renncia scal aprovada pelo governo paraense para beneciar as atividades da empresa por uma dcada e meia. O apurar dos resultados dessa aritmtica leva a um novo questionamento sobre quem tira mais vantagens nessa histria toda.Comando Vermelho chegou ao Par?O Comando Vermelho, que tem a sua sede no Rio de Janeiro, estaria se expandindo para a regio metropolitana de Belm? J so visveis avisos, supostamente, provenientes de organizaes ligadas ao CV, atravs de pichaes espalhadas em diversos bairros perifricos da capital (pelo menos no Curi-Utinga, Pedreira, Marambaia e Bengui). Estas pichaes costumam conter palavras de ordem proibindo o roubo nas comunidades, sempre com a assinatura C. V.. Na parede da Arena Monte Sinai, por exemplo, o aviso : Proibido roubar na comunidade CV EL PA . No muro de uma casa de madeira, ao lado de uma parada de nibus, foi pichado: Proibido robar [sic ] na quebrada C. V.. Parece evidente a inteno da or ganizao criminosa de se apresentar como defensora da populao e justiceira, preenchendo o vazio deixado pela ausncia do poder pblico. Ou ainda pior: sua atuao contra os moradores da periferia de Belm. No por mera coincidncia, no dia 29, noite, cerca de 60 mototaxistas, com sua base em Ananindeua, foram conduzidos pela Polcia Militar para serem cadastrados, como suspeitos de integrar o Comando Vermelho na regio metropolitana de Belm. Um deles foi preso em agrante por receptao. A motocicleta que usava tinha a placa clonada. A suspeita sobre outro motoqueiro no pde ser comprovada e ele foi liberado. Mas est sendo investigado. A polcia recebeu denncia da reunio dos motoqueiros com o vereador Deivite Galvo, tambm conhecido por Gordo do Aur, que teria ligaes com o trco internacional de drogas, O vereador teria convocado a reunio, que estava sendo realizada na sede de um clube de sua propriedade no bairro do Aur, quando a PM chegou ao local. O encontro seria para integrar os mototaxistas ao Comando Vermelho, que Deivite estaria organizando na Grande Belm. O vereador negou a informao, publicada hoje em O Libe ral, tendo a polcia como fonte.