Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o aSangue e poltica Nos ltimos dois anos, O Liberal faz uma campanha para conseguir a priso do neto do ex-governador Hlio Gueiros, acusado na justia de ter matado a esposa, em maro de 2015. O jornal no d cobertura ao assunto em defesa da verdade, mas movido por interesse pessoal dos seus donos. Tambm pago pelo governador Simo Jatene para atingir a memria de Hlio Gueiros e, talvez, por extenso, chegar ao MDB de Jader Bar balho, que ameaa derrotar o PSDB na eleio deste ano para o governo do Estado. Imprensa e governo empenhados ainda em um ajuste de contas com os Gueiros pelo passado de conflitos e tenses entre eles. Uma conspirao capaz at de chegar ao Ministrio Pblico do Estado, atravs do novo procurador geral de justia. Gilberto Martins obrigou um promotor a fazer a denncia contra Gueiros, depois que outros promotores se recusaram a Velhas contas entre dois grupos polticos esto por trs dos desdobramentos da morte da esposa de Hlio Gueiros Neto. Seus parentes dizem que ele vtima de uma conspirao. Isso obscurece a principal questo: a moa morreu de morte natural ou foi assassinada?assumir a tarefa, por considera-la incabvel. A hiptese suscitada por Hlio Gueiros Jnior, pai de Gueiros Neto, com a responsabilidade de ter sido vice-governador e governador interino do Par na segunda metade dos anos 1990. Helinho foi indicado pelo pai ao mdico Almir Gabriel para ser seu companheiro de chapa e se eleger vice-governador do Estado, em 1994, numa poca em que ainda era considervel a inuncia poltica do chefe do cl, formado na escola do caudilho Magalhes Barata. Mais tarde, quando Almir foi s pressas para So Paulo tratar da sade (por ironia, tambm com um aneurisma), Helinho assumiu a titularidade do cargo. Uma das suas marcas foi investir contra Almir, demitindo seus auxiliares de conana, desfazendo os seus atos e comprando uma briga estrondosa com a mineradora Vale. Foi considerado pelos tucanos como traidor e inimigo. POLTICA

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2 Segundo Jnior, foi justamente a partir da que o grupo Liberal se tornou praticamente uma extenso do PSDB, favorecido por abundantes verbas oficiais e retribuindo com apoio total aos gover nos tucanos. O episdio da morte de Renata Cardim teria sido o pretexto para o grupo de comunicao da famlia Maiorana fazer o seu ajuste de contas com os Gueiros. Os veculos da empresa passaram a destacar a tese de que Hlio Neto teria matado sua esposa por asxia, na cama do casal, e depois simulado sua morte natural. A hiptese se baseia num laudo cadavrico realizado, trs meses depois da morte de Renata, por Lev Inim de Miranda, perito-legista par ticular, aposentado da polcia civil do Rio de Janeiro, tenente-coronel mdico reformado do exrcito, e pelo mdico Abrao Lincoln de Oliveira, contratado pela famlia Cardim. O laudo da percia, autorizada pelo delegado responsvel pelo inqurito policial, contrariou a concluso de dois laudos produzidos pelo IML do Par, de que a morte foi por causa natural, provocada por um aneurisma no abdmen. O delegado que investigou o caso, com base na percia encomendada pela famlia da vtima, indiciou o seu marido, o Ministrio Pblico do Estado o denunciou por feminicdio e a justia estadual acolheu a denncia. Atravs de um habeas corpus, a defesa de Hlio Neto tentou caracterizar a percia particular como prova ilcita, que deveria ser desentranhada do processo, nele permanecendo apenas os pareceres ociais. O recurso foi rejeitado por unanimidade pelo tribunal do Par e novamente, na semana retrasada, tambm por unanimidade, pela 5 turma do Superior Tribunal de Justia. AS ACUSAES DE HLIO JR. As acusaes de Hlio Gueiros Jnior so graves, mas ainda no apresentam provas e nem sempre so embasadas em fatos. Elas apontam indcios fortes em defesa do que arma e aponta fatos, como a manchete de O Liberal, anunciando que seu lho permaneceria preso, quando responde ao processo em liberdade. O jornal reticou a informao, admitindo seu erro, sem se livrar da suspeio. Os antagonismos, cada vez mais extremados, entre as duas famlias, com seus desdobramentos polticos, exigem uma mediao objetiva, isenta, imparcial, honesta e competente. No apenas para esclarecer o que aconteceu se uma morte natural ou um homicdio como tambm as suas ilaes, que dizem respeito ao interesse pblico No seu texto, Hlio Jnior diz que no pode aceitar que um representante do Ministrio Pblico, como o doutor Edson Cardoso, ou alguns Juzes da Capital, pessoas calejadas e acostumadas baixeza dos seres humanos, deixarem-se pautar pelos pedidos da senhora Socorro Cardim. O ex-vice-governador est acusando o MP e a justia de no serem independentes, de agirem em favor de uma das partes ou por mera adeso aos pedidos da me de Renata, ou por um vnculo muito menos nobre. Mas no apresenta provas nem fatos concretos. A acusao cai no vazio, ao menos por enquanto. Na sequncia, Helinho ataca pessoalmente a sogra do lho. Sustenta que a polcia e o tio da Renata acusam a mede ser a mandante do assassinato do sr. Jos Maria de Lima, pai da Renata, de quem herdou os negcios. Justamente por repudiar acusaes desse tipo ao lho que Gueiros resolveu partir para um ataque direto queles que considera algozes. Prossegue na mesma generalidade ao procurar culpabilidade no comportamento de Socorro Cardim, que no teria chorado no dia do falecimento de sua lha: Pensei que estivesse em choque, mas, estranhamente, no dia seguinte, enquanto meu lho, minha mulher e minha sogra, velavam e pranteavam a Renata junto ao caixo, foi dormir tranquilamente em um aposento nos fundos do salo. Na missa de Stimo Dia, estava de escova e bem arrumada, nem parecia que a lha havia morrido. Faltou apenas sorrir enquanto recebia psames. Adotando o estilo do pai, ex-gover nador e ex-senador, d como provado o que alega sem agregar provas concretas: Essa senhora, durante dias, cou oferecendo a meu lho que casse morando no apartamento do casal, que foi presente seu. Em seguida, ofertou a meu lho o dinheiro do seguro do car to de crdito da falecida, tudo rejeitado pelo Hlio. Mais tarde seriam esses bens, segundo o delegado e o promotor, os motivos do assassinato da Renata. Simplesmente ridculo. Prosseguindo da mesma maneira, desmerece o trabalho do legista particular, sem citar seu nome, atravs de uma referncia depreciativa: [A me de Renata] contratou, em seguida, o advogado Amrico Leal e o mdico legista do caso Habibs para conseguir, junto ao delegado Rolo, que indiciasse meu lho por assassinato, desprezando o laudo feito no dia da morte e o da exumao, ocorrida sem a intimao do Hlio, mas com a presena do legista do caso Habibs. Apesar de tanto esforo, nenhum promotor aceitou fazer a denncia, at assumir como Procurador de Justia, o doutor Gilberto Martins, poca, recentemente nomeado pelo governador Simo Jatene. Foi pura coincidncia mudar o comando do Ministrio Pblico e aparecer o promotor Edson Cardoso para fazer a denncia, garante Helinho. Novamente, mera ilao, sem comprovao. CRIME E POLTICA JUNTOS Hlio Jr aprofunda ento a sua acusao, ampliando a conspirao que v orquestrada. Segue-se a parte mais longa do seu texto, que v nexo entre o grupo Liberal e o PSDB por trs de uma histria familiar: Eu, sinceramente, tenho pena da senhora Socorro Cardim, no queria ter chegado nesse ponto, anal ela a me da Renata. Se tenho pena da me, no posso aceitar a canalhice e a vilania de O Liberal que, de maneira acintosa e premeditada, trabalha h dois anos colocar meu lho na cadeia, que sabe ser inocente, para satisfazer quem lhe paga. As surucucus reprteres voltaram a atacar, como sempre de maneira inescrupulosa. Mentem descaradamente para a populao, tentando lev-la a acreditar que o Hlio matou a prpria mulher. Mas, na nsia de condenar, o jornal O Liberal cometeu um erro indescul-

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3 pvel. De conluio com que tem poder para pagar suas manchetes, que no evidentemente, a senhora Socorro, precipitou-se e no esperou se conrmar os fatos que estavam previstos pelos bandidos que querem ver o meu lho atrs das grades. O carnaval atrapalhou. A televiso, que ao vivo, pode consertar, mas jornal impresso foi feito antes dos atos se conrmarem. Os personagens envolvidos promotor e juza no tomaram as decises passadas para O Liberal, por quem acreditava os ter sob o seu poder. O grupo de comunicao foi pago para criar uma confuso, como eu j havia previsto, de que o Habeas Cor pus, denegado 7 meses depois pelo STJ, referia-se liberdade do meu lho, e no sobre a questo processual de re tirar o parecer do legista do Habibs do inqurito. Simplesmente m f. Por isso a publicao da manchete que o meu lho foi preso, houve recurso e denegado o pedido de soltura. O Liberal garantiu a todos os seus leitores que o Hlio Gueiros Neto passaria o carnaval preso. Pura armao. Que tipo de jornalismo esse que faz da mentira, da empulhao, do engodo, um modo de ganhar a vida? E pior, no possuem qualquer resqucio de moralidade que os impea de que rer destruir a vida de um bem sucedido jovem advogado. O Liberal, desde sua fundao, foi um jornal poltico. Foi criado por Magalhes Barata, que conou ao av do Neto, o ex-governador Hlio Mota Gueiros, sua direo. Quando o Rmulo Maiorana, casado com a Dona Da, parente do Barata, adquiriu o jornal, contratou novamente o Hlio Gueiros e tambm o Newton Miranda. Esses dois senhores dariam ao Jornal, atravs da coluna Reprter 70, o status e prestgio que at hoje possui, mas parece que isso no deixou nenhum laivo de gratido aos filhos do Maiorana. O grupo O Liberal, a partir do governo Almir Gabriel, passou a se constituir num porta-voz do PSDB, praticamente um brao poltico. Suas relaes com o estado vo de propaganda a aluguel de avies. Fazem parte da estrutura de poder montada pelo PSDB. Os ganhos financeiros, durante os governos de Almir Gabriel e Jatene, foram nababescos. Eles podem ser medidos pelo suntuoso prdio cons trudo na Avenida Romulo Maiora na, antiga 25 de Setembro. No existe nada igual em Belm. Mas acusam a outros de se locupletarem do estado. Uma vergonha. Diante da derrota iminente nas eleies que se realizaro, querem se descolar da imagem de apoio ao Jatene, e inventaram uma briga entre familiares para dizer que esto sob nova gesto e no mais apoiam o atual governo. Pura balela. O Liberal no faz jornalismo. No possui tica, nem decncia. simplesmente um instrumento torpe de se ganhar fortunas, e, como dizia meu pai, sempre por debaixo dos panos. O CONFLITO DOS LAUDOS O habeas corpus que a famlia de Hlio Gueiros Neto apresentou, para que fosse expurgado dos autos do processo o laudo dos peritos contratados pela famlia de Renata, sustenta que essa uma prova ilcita, j que havia dois laudos do IML, atestando a morte por causa natural. No entanto, o exame de corpo de delito e outras percias podem ser realizados por perito ocial, portador de diploma de curso superior, desde que no haja perito ocial. nesse caso que o exame ser realizado por duas pessoas idneas, portadoras de diploma de curso superior, preferencialmente na rea especca, dentre as que tiverem habilitao tcnica relacionada com a natureza do exame. O perito particular, na qualidade de assistente tcnico, poder atuar a partir de sua admisso pelo juiz e aps a concluso dos exames e elaborao do laudo pelos peritos ociais, sendo as partes intimadas desta deciso. O Cdigo de Processo Penal prev que, havendo requerimento das par tes, o material probatrio que serviu de base percia ser disponibilizado no ambiente do rgo ocial, que manter sempre sua guarda, e na presena de perito ocial, para exame pelos assistentes, salvo se for impossvel a sua conservao. No laudo anatomopatolgico, o perito concluiu que Renata sofreu uma ruptura da artria aorta abdominal, na emergncia da artria renal direita, sofreu ruptura de um aneurisma sacular, com presena de grande quantidade de material hemorrgico intra-abdominal. Na exumao, os peritos particulares informaram que encontraram o cadver realmente conservado por mumificao. Lamentaram, porm, que o antomo-patologista e perito-legista que realizou o exame de verificao de bito, estranhamente furtou-se de comparecer quela exumao. Ao examinarem o cadver, conservado por mumicao, junto de dois peritos-legistas belenenses, constatamos que a artria aorta abdominal tinha calibre normal e nela inexistia qualquer aneurisma sacular roto, junto emergncia da artria renal direita, como falsamente atestou aquele perito-legista que procedeu Vericao de bito. Paralelamente, encontramos sinais gerais de asxia, como petquiassubpleurais diversas e farta quantidade de secreo aerada (espumosa) saindo pela traqueia. Dois peritos-legistas belenenses, tambm contratados, concluram que o exame necroscpico inicial e o presente exame so divergentes quanto a leso vascular no sendo conrmado o aneurisma de aorta. Os dois peritos concordaram que a morte se deu por sufocao direta,que ocorrequando o agressor impede a entrada de ar pelas narinas e pela boca, tapando-as, como por exemplo, com um travesseiro, e sem deixar leses externas. COMO RENATA MORREU? Esses fatos talvez tenham pesado na recusa dos tribunais em aceitar o pedido de desentranhamento do documento. Mas tambm as prprias circunstncias do caso. Segundo a verso do marido, sua esposa comeou a se sentir mal de madrugada. Ele imediatamente pediu socorro sogra, que mora num prdio vizinho. Mas quando Socorro chegou, acompanhada por um lho, no foi autorizada a subir. O prprio marido trouxe a mulher e os dois seguiram para o hospital. Com a morte de Renata, Hlio Neto decidiu fazer um boletim de ocorrncia na polcia para que o corpo da sua mulher fosse periciado no Instituto M-

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4 dico Legal. O laudo deu a morte pelo aneurisma. Ponto nal. A famlia de Renata diz que ela j saiu morta do apartamento, contestando a verso de Gueiros de que o bito aconteceu no hospital. Se fosse assim, o mdico que a atendeu teria atestado a sua morte. Seria o bastante para que o corpo no fosse submetido a uma necropsia, algo que os parentes sempre procuram evitar, quando possvel obter um laudo mdico. Para que essa verso tenha solidez, Hlio Neto teria que ser capaz de obter um laudo fraudulento no IML. No por uma, mas por duas vezes. O rgo agiria dessa maneira sem sofrer uma punio do governador, que estaria envolvido na conspirao para culpar o neto do ex-governador? Mas por que o instituto se mantm em silncio diante de to grave questionamento sua credibilidade como o rgo ocial de medicina legal? Tambm no parece que o conito entre as duas famlias tenha surgido em funo da discrdia em torno da morte de Renata. Se no buscou o BO por falta de um laudo mdico, Hlio Neto procedeu dessa maneira para se prevenir contra eventual acusao que pudesse sofrer pela famlia da sua mulher. Os Cardim sustentam que o marido era grosseiro e violento com sua mulher, que teria reclamado dele para os seus parentes. UM ACERTO DE CONTAS Questes como estas continuam controversas, embora a instruo do processo j esteja prxima de uma denio. Os defensores de Gueiros anunciaram que agora iro recorrer ao Supremo Tribunal Federal, mas talvez apenas para esgotar a instncia, sem muita possibilidade de vitria. Se a tese do homicdio for acatada, Hlio Gueiros Neto ser julgado pelo Tribunal do Jri. Mais um item agravante a esse enredo novelesco. Ao dar dimenso poltica a um caso familiar, os Gueiros voltam a se inserir no cenrio local, talvez nalizando um longo e acidentado captulo da histria poltica do Par. Hlio Gueiros pai integrou, desde muito cedo, a segunda gerao do baratismo. Seu pai, Antonio Teixeira Gueiros, era contemporneo de Magalhaes Barata, atraindo o lho para o agrupamento partidria que por mais tempo ocupou o poder a partir da revoluo dos tenentes, em 1930. Hlio dirigiu O Liberal, quando o jornal era porta-voz do PSD (Partido Social Democrtico) e propriedade de Barata. Quando ele morreu, em 1959, dessa segunda gerao tambm fazia parte Laercio Barbalho, pai do futuro governador. Jader Barbalho era de um baratismo com tinturas esquerdistas. Embora mais novo, assumiu a liderana da corrente, consolidada pela sua eleio como governador, em 1982. Sua vitria s foi possvel porque contou com o apoio do governador. O tenente-coronel Alacid Nunes rompeu com seus colegas de farda para assumir abertamente a hostilidade latente com seu ex-aliado, o coronel Jar bas Passarinho, e apoiou como candidato at ento adversrio. Achava que assim liquidaria com Passarinho. A aliana fez renascer das cinzas o baratismo. Jader praticamente elegeu Hlio Gueiros senador, impedindo Passarinho de voltar ao Senado, e derrotou o candidato dele ao gover no, o empresrio Oziel Carneiro. Aos velhos e novos baratistas, se juntou Romulo Maiorana, casado com uma sobrinha do caudilho e j liberto das amarras ao regime militar. Romulo perdoou as ofensas pessoais que sofreu, junto com sua esposa e toda famlia, em artigos escritos pelo amigo. Hlio saiu das alcovas de O Liberal com uma srie de ataques pessoais, semelhana dos que escrevia quando o jornal era partidrio, lanando insinuaes maldosas ao passado de Da Maiorana. A impresso de que o rompimento entre os dois era denitivo, em funo da virulncia dos textos, se desfez quando a amizade foi restabelecida e O Liberal assumiu a causa dos baratistas. E cou ao lado de Gueiros quando ele rompeu com Jader, por discordar da volta dele ao governo. No cargo, Hlio queria que seu sucessor fosse Henry Kayath, outro baratista da primeira gerao. Na eleio de 1990, Hlio Gueiros desviou para Jader os violentos adjetivos que antes dirigira a Romulo, com a cumplicidade do jornal, que manteve a aliana herdada do pai, falecido em 1986 mas a contragosto. Se Romulo esquecera as agresses, os lhos no engoliram o acordo. Alguns anos depois, Gueiros retomou a aliana com Jader, quando ele j era o grande inimigo do grupo Liberal, deixando para trs os Maiorana. Para eles, os desdobramentos dos fatos em torno da morte da esposa de Hlio Gueiros Neto seriam o ajuste de contas nal, agora com a participao de outro ncleo poltico, o dos tucanos. E assim a poltica paraense muda para continuar a mesma. A balela Ao contrrio do que Hlio Gueiros Jnior arma, no balela a ciso dos irmos Maiorana na disputa pelo controle da Delta Publicidade, empresa responsvel pelo jornal O Liberal, parte do imprio de comunicao montado e deixado pelo pai, Romulo Maiorana. pouco provvel que Romulo Maiorana Jnior retome o controle do negcio, de cujo comando foi destitudo pelos irmos em setembro do ano passado, embora ainda haja disputa judicial. O que parece haver agora um momento de trgua para negociaes entre as partes em torno do controle da sociedade. Um acerto particular entre Ronaldo e Giovani, lho de Romulo Jr., permitiu uma grande cobertura do grupo Liberal s lutas do UFC por ele promovidas atravs de um dos dois braos da Roma, empresa exclusivamente do pai. Sem a mesma pompa e circunstncia de outros tempos, o aniversrio de Rominho foi registrado com destaque nas colunas sociais do jornal, incluindo duas fotos. Pode ser sintoma de que o clima pesado de confronto est sendo substitudo por um ambiente propcio negociao. Mas ela no fcil. Uma observao parte: parece que o tempo passou inclemente por Romulo Maiorana Jnior entre as duas fotos dele publicadas na coluna de Bernardino Santos e na MaisLiberal.

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5 Falta de comunicaoO destino do chorumeEm seis dias, entre 29 de janeiro e 3 de fevereiro, nove mil toneladas de lixo chegaram ao aterro sanitrio de Marituba, provenientes dos municpios da regio metropolitana de Belm. Dos 1.013 metros cbicos de chorume resultantes do tratamento do lixo, metade dessa massa lquida (526 m3) foi processada no prprio local. A outra metade foi levada de caminho para a estao de tratamento de esgoto da Biotech, uma empresa privada, em Pernambuco, a dois mil quilmetros de distncia. o que consta da ltima inspeo tcnica realizada pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado no aterro, operado pela Guam Tratamento de Resduos. Parecia que o chorume seria enviado para um local muito mais prximo, em Almeirim, para ser tratado pela Jari, a empresa fundada pelo americano Daniel Ludwig e controlada pelo paulista Srgio Amoroso.A capacidade de absoro na rea do aterro est afastada: o despejo ja atinge a 14 lagoa. Mas qual custo do transporte do chorume? E quem pagar a conta? De absurdo em absurdo, o aterro sanitrio de Marituba, que comeou mal, vai acabar muito pior ainda. Quando estava no planto judicirio, no dia 17 de setembro do ano passado, o desembargador Mairton Mar ques Carneiro, do Tribunal de Justia do Estado, concedeu uma liminar em favor do empresrio Charles Sarmento de Lira, acusado de ser o mandante da morte de uma servidora municipal de Paragominas, assassinada dois meses antes. Cinco dias depois, o magistrado revogou a medida. No por iniciativa prpria. Pouco antes o promotor de justia de Paragominas, Reginaldo Cesar Lima Tavares, representou ao Conselho Nacional de Justia a abertura de um procedimento disciplinar contra o magistrado. que o mesmo habeas corpus por ele concedido j fora distribudo para o desembargador Rmulo Nunes, que negou a concesso de liminar. Ao voltar atrs, Mairton Carneiro alegou que foi induzido a erro pelo advogado de Charles Sarmento.S soube da existncia de habeas corpus anterior um dia antes de revogar sua deciso, e apenas porque o promotor Reginaldo Tavares se manifestou nos autos. O desembargador argumentou no ter tomado conhecimento da existncia do processo anterior por falta de comunicao entre os dois sistemas que fazem a tramitao dos processos. Eles teriam deixado de informar sobre ocorrncia de preveno do HC para outro desembargador. Disse ainda que o advogado Marco Antnio Pina de Arajo omitiu deliberadamente a informao, de modo a induzi-lo a erro. Depois de revogar a liminar, o desembargador mandou comunicar a deciso, com urgncia, ao juzo da comarca de Paragominas, concedendo salvo-conduto a Charles Lira. Ele prestou depoimento e em seguida sumiu. O desembargador continua trabalhando normalmente. APOSENTADORIA COMPULSRIA Notcia publicada no site do TJE por sua assessoria de imprensa registrou a deciso do Pleno do Tribunal de Justia do Par de declarar a vacncia de dois cargos de desembargador, em razo da aposentadoria das desembargadoras Mar neide Trindade Pereira Merabet e Vera Arajo de Souza. Mas no esclareceu que se tratava de aposentadoria compulsria, a punio extrema no mbito do judicirio, por falta grave, como o que as duas magistradas cometeram. Elas ordenaram ao Banco do Brasil que garantisse o depsito em trs contas correntes de um cidado que se dizia dono de 2,3 bilhes de reais (R$ 3,3 bilhes em valor atual), mantidos sem qualquer movimentao em nome dele por alguns anos. Tratava-se de um golpe, que os falsrios tentaram aplicar em vrias capitais brasileiras, mas que s teve xito em Belm. O Conselho Nacional de Justia instaurou inqurito contra as duas magistradas e as puniu com a aposentadoria. Mesmo sendo compulsria, o tempo de servio garantiu `a ambas uma penso em torno de R$ 30 mil. O Ministrio Pblico do Estado examina a possibilidade de pedir o cancelamento das aposentadorias, atravs de ao civil pblica.Tomara que se decida logo.

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6 A promessa da siderrgica e o jogo da poltica no ParPara Cludio Humberto (que foi assessor de imprensa de Collor na presidncia da repblica e hoje escreve coluna diria, reproduzida em vrios jornais), est com toda pinta de manobra a demora para a Vale anunciar a siderrgica em Marab, no Par. Duas semanas atrs, ele lembrou que o projeto foi aprovado em novembro do ano passado, mas seguram o anncio para no favorecer o governo estadual, em prejuzo das pretenses eleitorais do ministro Helder Barbalho (Integrao). Um bom jornalista sempre procura alguma forma de identicao da sua fonte, mesmo sem precisar quem ou exatamente a sua funo, caso ela tenha pedido sigilo. Com esse procedimento, diculta a sua utilizao como instrumento de manobra ou soltar de balo de ensaio. No foi o caso de Cludio Humberto nessa especulao. Parece haver mesmo sobre o presidente Michel Temer presso do ministro Helder Barbalho e do seu pai, o senador Jader Barbalho, que no querem ver o governador Simo Jatene associado a um eventual anncio de empreendimento to ansiado pelos paraenses, que se limitam a exportar o minrio de ferro in natura. Mas se houvesse verdadeiro compromisso da Vale com o projeto, os Barbalho teriam que se acomodar a essa situao. De fato, Helder tem ido a todos os atos do governo federal, do qual ministro da Integrao Nacional, de aliados ou associados no Par, mesmo quando tem que dividir o palco com adversrios polticos. Antes, a nica sano que sofria era no sair em O Liberal. Agora, sua foto como a do pai est liberada no jornal dos Maiorana. Ele teria o maior prazer em ir ao lanamento da siderrgica da Vale ao lado de Jatene, como j esteve em Mosqueiro e Belm junto de Zenaldo Coutinho. Mesmo que todos saibam que a fanfarra mais uma pantomima siderrgica da Vale, reincidente nas promessas e na manobra. E na frustrao da esperana de industrializar o minrio e no mais export-lo na forma de commodity. Provncia energticaEm maio do ano passado, a GN Genival Nunes iniciou pesquisas em Barcarena, a 40 quilmetros de Belm, no Par. Seu objetivo era denir a via-bilidade ambiental de uma termeltrica base de gs natural. Sete meses depois, em 27 de dezembro, a consultora apre-sentou o Relatrio de Impacto Ambien-tal do Empreendimento. No incio de janeiro deste ano, a Se-cretaria de Meio Ambiente e Sustentabi-lidade do Par abriu o prazo de 45 dias para a convocao de audincia pblica para debater o RIMA, o ltimo passo para licenciar a obra. O prazo terminar no prximo dia 19. Qualquer observador mais atento dessa tramitao se surpreender pela ve-locidade que ele teve. Nem se trata de um empreendimento simples, que poderia justicar essa rapidez. Est em causa uma das maiores termeltricas do Brasil, com potncia prevista de 1.607 megawatts. o equivalente a 20% da capacidade de gerao de energia da hidreltrica de Tucuru, localizada 350 quilmetros ao sul, no rio Tocantins, tambm no Par. Tucuru ainda a quarta maior hidrel-trica do mundo. Ser superada quando a hidreltrica de Belo Monte, a oeste no rio Xingu, igualmente no Par, for concluda. Embora com capacidade instalada menor, a termeltrica Novo Tempo, da Celba (Centrais Eltricas de Barcarena), empresa com sede no Rio de Janeiro, tem uma gerao constante proporcionalmen-te maior. Ela de 60%, em mdia, no ano inteiro, um pouco superior de Tucuru, e bem acima de Belo Monte, cujo fator de carga ca em torno de apenas 40%. Isso porque, com menos gua re-presada no seu reservatrio, no vero no tem volume suciente para acionar suas imensas turbinas, que precisam de 750 milmetros de agua por segundo. A maioria delas para de funcionar. A futura trmica ser vizinha da fbrica de alumnio da Albrs, de pro-priedade da multinacional norueguesa NorskHydro, que a adquiriu (com todo ciclo do alumnio) da Vale, em 2010. A Albrs a maior consumidora indivi-dual de energia do Brasil, com 1,5% da demanda total. Outros nove empreen-dimentos privados, que exportam alu-mina, ao, caulim, gros e fertilizantes, tambm so clientes potenciais. Barca-rena um dos maiores portos de expor-tao do pas. O Par o quinto maior exportador e o terceiro em saldo de divisas (diferena entre o dinheiro que entra e o que sai, em dlar). Em 2006, descrente de poder rece-ber de Tucuru a mesma quantidade de energia rme (uma vez e meia mais do que o consumo de Belm, com 1,5 mi-lho de habitantes), a Vale apresentou o primeiro projeto de usina trmica de grande porte para Barcarena. A licena provisria de instalao foi concedida pela secretaria estadual em 2006, apesar de utilizar o mais poluente dos combus-tveis, o carvo (oriundo da Colmbia e de Moambique). O investimento seria de 900 milhes de dlares. A transferncia de todas as suas em-presas do ciclo de alumnio para a Nor-skHydro paralisou essa iniciativa. Mas o mercado continua a crescer e a se tornar incerto com o uso da maior parte da energia de Tucuru, atravs do Sistema Integrado Nacional, para outros Estados. Em 2015 foi a vez da Genpower Par-ticipaes apresentar a sua proposta, ainda em fase preliminar. Comprome-teu-se a iniciar as obras no ano passado e a colocar a usina em funcionamento em 2021. Parece ter sido atropelada pela Celba, com a boa vontade da secretaria estadual. Se o rito continuar to acele-rado como at agora, a opinio pblica tambm ser atropelada. Nem mesmo os especialistas pode-ro avaliar adequadamente do que se trata e suas mais profundas implicaes. O documento de maior profundidade, o EIA (Estudos de Impacto Ambiental), no foi colocado disposio do pblico, s o seu resumo, o Rima. Em ambos, as informaes econmicas so sumrias. Se as coisas seguirem o ritmo atual, quando o Par acordar, descobrir que seus rios e seu solo abrigaro as maiores unidades de gerao de energia do Bra-sil. Acordar como provncia energtica nacional.

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7 Visibilidade eleitoreiraManobra poltica favorece candidatoO Dirio do Par praticamente antecipou em um ano a corrida pela procuradoria geral de justia do Estado. Em notas na coluna Reprter Dirio do incio do ms, o jornal da famlia Barbalho diz que o atual chefe do Ministrio Pblico, Gilber to Martins, tentou se favorecer para a disputa atravs de uma manobra: um projeto de lei que muda a data da eleio, de maro de 2019 para dezembro de 2018. Assim, poderia ser escolhido novamente pelo governador Simo Jatene, que o nomeou para o cargo em 2017, apesar de ele ter sido o segundo mais votado pelos seus pares. O primeiro foi Cezar Mattar, que era o nome da situao para a sucesso de Marcos Antonio das Neves. Marcos era apoiado por Jatene, mas no conseguiu convenc-lo a referendar o resultado da eleio. Contrariado, rompeu com Jatene e passou a atac-lo. Na reunio do colgio de procuradores, que tem 31 integrantes, Gilber to Martins lembrou que, por tradio, dezembro sempre foi a data,a cada binio, para a escolha do procuradorgeral, regra incorporada lei orgnica do MP do Par, de 2004. A data deixou de ser obedecida por iniciativa de Marcos Antonio, para favorecer o seu candidato, que ficaria com tempo menor de desincompatibilizao e se beneficiaria da companhia do chefe do MP na sua campanha. Alvo de polmica na sesso de ontem, o projeto foi enviado a uma comisso tcnica para anlise e voltar ao plenrio do colgio antes de ser remetido Assembleia, embora o procurador-geral tenha a faculdade de remeter diretamente o documento, ouvindo os integrantes do colegiado apenas em carter consultivo. Com a mudana feita pela gesto anterior, o adversrio, da oposio, disporia de tempo curto, no s para se apresentar ao leitorado do MP como para, depois da vitria, dispor dos quatro meses da regra anterior para a transio, que, no caso dele, no houve. Ele assumiu 15 dias depois da sano do seu nome por Jatene. Martins tambm ressaltou que a escolha do m do ano permite ao governador que deixa o cargo nomear pelo menos uma vez o chefe do MP, enquanto o governador que assume tem essa opo por duas vezes, num mesmo mandato. Sustenta o chefe do MP (que o primeiro promotor a ocupar o cargo, antes reservado aos procuradores) que essa diretriz d mais margem de independncia para Ministrio Pblico. Sua meta, porm, retirar a competncia do chefe do poder executivo na escolha dos integrantes da lista trplice formada a partir de eleio geral, qual os promotores passaram a ter acesso tambm como candidatos, condio antes s acessvel aos procuradores. Alm da disputa interna, provavelmente entre Gilberto Martins, que j anunciou a inteno de ser reconduzido, e Mar cos Antonio, que pode querer reconquistar o cargo, h um componente poltico mais amplo. Em 7 de abril, se quiser ser mesmo candidato ao gover no do Estado, Helder Barbalho ter que se desincompatibilizar do cargo de ministro da Integrao Nacional. Ele perder o comando dessa mquina pblica federal, mas se recompor se for eleito governador. Como s tomar posse em 1 de janeiro, a antecipao para dezembro deste ano da escolha do novo chefe do MP estadual vai dar essa possibilidade ao governador que vier a suceder Jatene ou a ele prprio, se decidir permanecer no cargo. Como o MP depende do chefe do poder executivo, a batalha em torno da data esquentar ainda mais. O deputado estadual Mrcio Miranda, presidente da Assembleia Legislativa, e Izabela Jatene apareceram ao lado do gover nador Simo Jatene em sete das 16 fotos postadas pela Agncia Par no seu site. O material era relativo assinatura de convnios entre o governo do Estado e os prefeitos de 21 municpios, no valor de mais de 52 milhes de reais em recursos para obras e servios. A distribuio do dinheiro marcou o encerramento dater ceira reunio do Frum Permanente de Prefeitas e Prefeitos dos Municpios Sustentveis, no Hangar, em Belm. A presena ostensiva dos dois se justicava. Mesmo sendo do DEM, Mrcio tido como o candidato de Jatene sua sucesso. Sua lha, Izabela, fez as honras da casa, por ser a secretria extraordinria de Municpios Sustentveis, cargo criado pelo pai especialmente para ela, sua primeira ocupante (e, talvez, nica). Izabela apontada geralmente como candidata a deputada federal na eleio de outubro. Mas fontes do palcio garantem que o candidato ser o marido dela, Roberto Souza, cujo escritrio de representao, num prdio luxuoso perto da Doca de Souza Franco, apesar de sua porta blindada, foi invadido e assaltado em outubro do ano passado (o resultado da investigao policial ainda no foi anunciado, apesar de verses no conrmadas de que o butim teria sido de trs milhes de reais). Pode ser que as duas verses estejam certas. O genro de Jatene ser candidato a deputado federal. E Izabela seria a vice de Mr cio Miranda? Quem souber do que acontece pelos bastidores do poder estadual, que esclarea a verdade.

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8 IPTU ilegal prova da pobreza municipalna variao dos preos no mbito local, talvez inexistissem razes para perplexidade. Entretanto, salvo a supervenincia de um juzo mais acurado, a ser construdo no decur so do processo, o juiz concluiu que o reajuste do valor unitrio, efetuado de forma genrica e indistinta (pois, vale repisar, afetou aos contribuintes de modo universal) e sendo desprovido de bases objetivas (visto que no foram mencionados os estudos prvios realizados pela Municipalidade), configura vero [verda deiro ] aumento do imposto, embora travestido de simples atualizao por razes tcnicas. Decidiu ento o magistrado mandar suspender a cobrana do IPTU deste ano em percentual que seja superior quele estabelecido no IPCA/ IBGE. que, conforme declinado, licita a aplicao do reajuste simples, para ns de recomposio do valor monetrio do tributo. Independentemente dessa deciso, advogados e tcnicos da rea scal, tributria e econmica no tm dvida: o aumento do IPTU deste ano inconstitucional. To evidente a inconstitucionalidade que eles s tm uma explicao para esse reajuste: o desespero da prefeitura de Belm pelo aumento da sua pa arrecadao e ainda mais nula realizao em obras e servios durante os seis anos de mandato de Zenaldo Coutinho, do PSDB. O aodamento se manifestou num detalhe inacreditvel: mesmo sendo abusivos, os novos valores teriam alguma aparncia formal de legalidade se adotados por decreto do prefeito e no por portaria do secretrio de nanas, como foi praticado. O decreto, porm, poderia ser derrubado, j que o ato s se consolida por lei, aprovada pela Cmara Municipal que no a aprovaria, ainda mais em ano eleitoral. A OAB/Par ajuizou uma ao de inconstitucionalidade. Outras iniciativas devero se seguir. Prev-se o deferimento dos pedidoscom o que ser anulado o lanamento do imposto. Ao invs de ter mais dinheiro e imediato Zenaldo ter mais problemas e menos recursos. O bumerangue eleitoral se voltar contra quem o lanou. A apenas trs dias do nal do prazo para o pagamento integral do IPTU em cota nica, com desconto (que baixou de 15% para 10%), a prefeiturade Belm foi impedida de continuar a efetuar a cobrana do imposto e obrigada a emitir novos carns. A deciso, em liminar, foi dada no dia 6 pelo juiz Raimundo Rodrigues Santana, da 5 vara da fazenda estadual de Belm. Ele acolheu ao popular proposta pelos vereadores Marinor Jorge Brito, Fernando Antonio Mar tins Carneiro e Francisco Antonio Guimares de Almeida. Na sua sentena, o juiz alertou que no dado a nenhum gestor ou agente pblico ignorar a conjuntura econmica na qual que se encontra o Brasil, porquanto seja uma conjuntura de retrao. Salientou que, a queda da arrecadao no mbito da Municipalidade, justamente um dos fatores que estimulou a adoo da medida administrativa ora combatida. Acrescentou que as agruras econmicas experimentadas pela Administrao Pblica so sentidas, com muito mais intensidade, pela maior parte da populao. A possibilidade do aumento do valor do IPTU pretendido pela prefeitura (seja tal aumento legal ou no) remete, tambm, perspectiva do incremento da inadimplncia. Por isso, de todo relevante para o Poder Pblico agir motivado pela prudncia, a m de no solapar, ainda mais, as economias de uma populao que mesmo que contra a sua mais intima vontade poder reagir ao aumento real do valor do imposto com o no pagamento do tributo, seja por considera-lo injusto, seja por incapacidade econmica ou, ainda, pela reduzida capacidade de adimplemento. O juiz concluiu da anlise da matria que a prefeitura promoveu um sutil (talvez nem tanto) aumento do valor do IPTU, valendo-se de uma tecnicalidade jurdica. Ele admitiu que seria razovel aderir aos argumentos da prefeitura de que houve apenas uma atualizao do valor unitrio dos tipos e padres aos coecientes se esta fosse efetuada somente com base na correo monetria. Entretanto, uma vez que a correo do valor unitrio teve como a sua motivao mais expressiva a adequao realidade econmica do mercado imobilirio vlido questionar como zeram os autores [da ao] , quais critrios foram adotados pela Municipalidade para aferir os novos padres segundo a realidade do mercado. Se tivesse havido a simples cor reo do valor unitrio com base nos ndices oficiais de inflao ou

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9 A obra favorecida Com quem anda o presidenteEm 2011, no nal dos seus oito anos de mandato como prefeito de Belm, Duciomar Costa inaugurou com festa aquela que considerou como uma das suas maiores obras: o Prtico Metrpole. Na poca, a um custo de sete milhes de reais (hoje, 10 milhes), tinha como maior beneciado o shopping Castanheira, do grupo Lder, em Ananindeua. O prtico era, na verdade, uma passarela ligando o estabelecimento comercial a um dos pontos de mais intensa circulao diria de milhares de pessoas na BR-316, parada de todas as linhas de nibus que por ali passam. O poder pblico municipal facilitando a vida de uma empresa privada. A dois meses de completar sete anos de inaugurado, o prtico um retrato pattico do que foi, Diferentemente de outras passarelas, construes rsticas, expondo os seus usurios ao sol e chuva, o prtico era fechado, dispunha de elevadores e escadas rolantes. Essas comodidades desapareceram, deterioradas pelo tempo e o descaso da prefeitura. Oscar Rodrigues, um dos donos do grupo Lder, ocupou uma pgina do Di rio do Par para denunciar a situao de abandono das instalaes, que j ser viram de cena at para um homicdio e fonte de incmodos para quem precisa passar por ali, Oscar, que assumiu diretamente a administrao do Castanheira, no nal do ano passado, substituindo a lha, diz ter procurado o prefeito Zenaldo Coutinho para lhe expor o problema e lhe apresentar uma soluo: o Lder assumiria a operao da passarela, ao custo de R$ 150 mil ao ms, desde que a prefeitura zesse a recuperao da construo e garantisse a sua segurana, alm dedar desconto de IPTU sobre o terreno, que foi desapropriado por Duciomar, mas no pago. Oscar se queixa de jamais ter tido uma resposta do prefeito ou dos seus auxiliares, indiferentes ao oferecimento da empresa, que tem, a seu crdito, haver concordado com a desapropriao de seu terreno para a instalao de uma das extremidades do prtico. A iniciativa saudvel, mas est atrasada quase sete anos. O Lder devia ter tomado conscincia do benefcio que o poder pblico lhe estava trazendo, com a melhor das seis passarelas de ento ao longo da BR-316, j na inaugurao. Seu preo 20 vezes superior ao da nova passarela que o Estado instalou, no dia 5, no quilmetro 3 da BR-316, em Ananindeua. Ao invs de partilhar essa conquista, agregando a sua parte para a consolidao do investimento, preferiu se omitir e poupar seu capital. S reage porque o acesso ao seu shopping foi sendo dicultado para quem no mora s proximidades, o faturamento caiu e h agora a concorrncia de outro shopping na estrada, por ironia chamado Metrpole. Ao invs de car esperando pelo prefeito, toda populao de Belm, carente de obras, Oscar Rodrigues deveria fazer o que pede de Zenaldo para o bem de todos e no s do Lder. O voto do deputado federal Wladimir Costa no faria falta nas duas votaes atravs das quais a Cmara dos Deputados se negou a autorizar a instaurao de processo criminal contra o presidente Michel Temer, em aes da Operao Lava-Jato. A mar gem de vantagem do governo poderia prescindir desse voto solitrio, j que o parlamentar lder apenas dele mesmo. tambm smbolo, por suas palavras destemperadas e seus gestos indecorosos, do que h de pior no parlamento. O que destaca as manifestaes eleitorais de Wlad a sua falta do mais elementar pudor e senso de civilidade. Ela no se pejou de tatuar-se a favor do presidente, nem mesmo de mentir ao declarar que se tratava de tatuagem permanente e no de pintura. Mas Temer apareceu abraado ao deputado, em atitude de intimidade entre os dois. Comportou-se ainda pior ao retribuir ao voto de Wlad. O pagamento veio na forma de uma piada de muito mau gosto, onerosa para o errio e desonrosa para o servio pblico: a nomeao do lho do Wladimir Costa para o cargo de delegado federal no Par da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrrio. Yorran Costa tem apenas 22 anos. Ainda estudante de direito e gesto pblica em uma instituio particular de ensino superior em Belm. Jamais teve qualquer relao com, as questes que passaro ou passariam para a sua jurisdio. Sua biograa paupr rima de realizaes. Vive sombra do pai, presidindo no Estado o partido ao qual Wlad liado. Essas secretarias so cabides de emprego e moeda de troca em transaes de interesse privado ou grupal. assim j h algum tempo. Mas Michel Temer tem caprichado em escolher ou admitir gente ruim, como Yorran. Mas abusiva a interferncia da justia na competncia exclusiva do presidente da repblica, que a de nomear quem quiser para cargos de conana. Ao serem escolhidas pelo chefe do poder executivo, no exerccio de competncia absolutamente legal, os nomeados provam que so de sua conana pessoal. Mas podem ser de desconana coletiva. Na administrao Temer, tem sido uma relao de causa e efeito. ento que um cidado pode e deve recorrer justia para despejar o intruso, despreparado e desqualicado para a funo. Ao meu ver, no caberia juza substituta da 5 vara federal do Par, Mariana Garcia Cunha, determinar que Yorran apresente, no prazo de cinco dias, informaes comprovando estar qualicado para o cargo. A vericao prvia de quem o indicou para o cargo. A contestao sobre a qualicao tem que ser ps-fato. No s porque manda a lei como para que o cidado conhea melhor quem o responsvel por esse desatino ou todos os responsveis. A o povo aplicar sua regra: diz-me com quem andas e te direi quem s. As companhias de Temer so das piores.

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10 Maior lder poltico do pas pode no chegar eleiodesastre total, de a pior presidente da histria nacional. O resultado foi um rombo desmesurado, que inclui a gura de Michel Temer. Se for candidato e se for eleito, Lula voltar ao poder na hora errada, para uma misso para a qual no tem competncia, no ana com o seu modo de agir. O Brasil de agora precisa realmente de um estadista. Lula pareceu ser numa conjuntura favorvel. Na de agora, sua face verdadeira aparecer. Mas talvez os brasileiros venham a pagar um preo ainda mais caro do que o da reforma liberal de FHC. Exceto se o esquema de dar um troco aos pobres e uma grana preta aos ricos for reeditado. E os canais de vazamento da corrupo forem reabertos, numa volta inversa do parafuso Depois de quase quatro anos de Lava-Jato e do que aconteceu em sua rbita, no tenho mais dvidas de que Lula foi o eixo da maior e mais organizada corrupo sistmica que j houve no Brasil. E que essa corrupo contaminou a essncia do governo do PT, descaracterizando-o, viciando-o. O melhor que a justia pode fazer, como fez a oitava turma do TRF4 no primeiro julgamento, dar um tratamento profundamente tcnico aos processos, seguindo com rigor e honestidade a norma legal para a apreciao e denio dos atos de Lula, afastando a mcula que lhe tentam impor, de uma ao poltica, de uma vingana, de uma conspirao. Se, ainda assim, o povo eleger Lula, que arque com as consequncias. Tambm se erra na democracia. Na democracia brasileira, muito, exageradamente. Mas ela ainda melhor do que o seu oposto, a ditadura. Ditadura? Nunca mais. Podia ser assim com Lula tambm. A conrmao da condenao na justia federal de 2 grau no afetou o prestgio popular de Lula. Ele ainda o maior lder poltico do pas e o mais forte candidato presidncia da repblica em outubro. o que diz a ltima pesquisa do DataFolha. Lula j est eleito? Essa demonstrao de fora far recuar os seus perseguidores, assumidos ou disfarados? A manifestao do povo obrigar a justia a voltar atrs na deciso que tomou at agora e ter que inocent-lo? No haver mais o risco de priso? Fato real e concreto a fora de Luiz Incio Lula da Silva. Seu carisma e a legenda em torno dele lhe possibilitam contornar a verdade, quando ela lhe desfavorvel, e dar credibilidade ao seu discurso, mesmo quando falso. Parecer inocente mesmo quando culpado. Confir mar o que j proclamou: o maior presidente da histria do Brasil. E por isso voltar ao cargo. Lula continua a ter pouco mais de um tero dos votos. um patrimnio valioso. No momento, nico. Podem dizer tudo que quiserem dele, esse bloco de eleitores no mudar o seu voto. Ele vinculado ao distributivismo da gesto Lula. Mesmo primrio, mesmo sustentado num aumento de consumo sem equivalente poupana, substituda pelo endividamento, uma conquista real para esses milhes de brasileiros antes marginalizados pela ferooz elite nacional. Mesmo um projeto verdadeiramente reformista, como o que comandou a antroploga Ruth Car doso, a mulher do ento presidente Fernando Cardoso, embrio dos programas sociais do PT, foi tmido, vacilante, ambguo, medroso. No colheu os frutos das sementes que plantou. A maior parte delas foi espalhada ao vento. Jader Barbalho tem quase o mesmo tero do eleitorado no Par. Antnio Carlos Magalhes tinha at mais na Bahia. Ademar de Barros, tambm excedia em So Paulo, de onde Jnio Quadros saiu para impor a maior vitria de um candidato presidncia da repblica at ento, 1960. Getlio Vargas lembrado at hoje, em grande medida porque descendentes dos marginalizados da poca dele ainda acolhem o legado que seus antecessores lhes passaram. Lderes populares, de prestgio e aclamados pelo que zeram podem se tornar negativos. Lula seria negativo se tivesse vencido Collor em 1989 ou FHC nas duas eleies seguintes. Ele no conseguiria arrumar e ordenar o Brasil, mesmo que a conta dessas mudanas por dentro (principalmente no captulo escandaloso das privatizaes) fosse cara, como foi. Lula jamais criaria uma moeda, como a que resiste at hoje, impvida, o real. Tocado por sua brilhantssima estrela, Lula assumiu o topo do poder no pas quando j era possvel gastar e errar. Gastou e errou larga. Cometeu o desatino de colocar Dilma Rousse para suced-lo, na esperana de ser sua eminncia parda como acabou sendo, para tentar salv-la do Obras precoces A Roma Eventos foi coprodutora do UFC-Belm no dia 2, no ginsio do Mangueirinho, uma das mais caras obras no esporte no Par em todos os tempos, do governo Simo Jatene. Agora, a Roma Incorporadora vai realizar obras de adaptao do ginsio Mangueirinho com propsito de dar o mximo de conforto aos atletas e ao pblico em geral, conforme anncio da prpria empresa em O Liberal. O ginsio Guilherme Paraense (o seu nome oficial), construdo durante trs anos, foi inaugurado em outubro de 2016. Custou 94 milhes de reais. Em um ano e meio de funcionamento (pouco, em funo do caro aluguel cobrado), j precisa dessas obras? Houve licitao para a execuo das obras de adaptao, que, evidentemente, escaparam previso dos construtores? Qual o seu oramento? Por fim: quanto custou a cesso do Mangueirinho para as lutas do UFC?

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11 BRT: o inferno expresso A defesa de Lula muda: a justia que decidenao sofrida por Lula. Os militantes embarcaram na tese de que tudo no passa de uma conspirao para impedir que Lula se candidate novamente presidncia da repblica e se eleja pela terceira vez. Mas os julgadores no se deixaram perturbar. Da sucesso de suas decises, um destino estava comeando a ser traado: a priso de Lula depois que ele perdesse o ltimo recurso no mbito da justia ordinria, em Porto Alegre. Haver comoo, verdade, mas o pas continuar a trilhar seu tumultuado caminho. A busca de um verdadeiro jurista, com o status que tem, devolve a dinmica do processo esfera tcnica da justia. Mesmo que Lula continue a ser derrotado, haver uma instncia superior que ganhar com essa correo de rumos: o Brasil. Antes que Cristiano Zanin Mar tins o levasse priso perptua com suas arengas, o ex-presidente Lula mudou de advogado. Sua defesa agora comandada pelo jurista Seplveda Pertence, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. O primeiro ato do novo defensor foi ir ao relator dos processos da Operao Lava-Jato no STF, Edson Fachin, para uma conversa em alto nvel. Ao plenrio da corte caber encerrar a peregrinao sofrida do esforo de Lula de evitar a sua priso, atravs de um habeas corpus, j rejeitado trs vezes, a ltima delas pelo prprio Fachin. O ministro desviou a instruo, que ia para a Segunda Tur ma, com maioria contrria execuo da pena no esgotamento dos recursos no primeiro colegiado que os sentenciar, para o plenrio, majoritrio em entendimento oposto. A mudana atesta o reconhecimento tcito do fracasso do mote poltico, usado intensivamente tanto por lulistas quanto por seus advogados, para tirar a legitimidade da conde-O BRT de Belm comeou a ser cons-trudo em janeiro de 2012, a partir de um projeto elaborado por japoneses duas d-cadas antes. Era simples: uma via expres-sa de 20 quilmetros entre o largo de So Braz, em Belm, e o distrito de Icoaraci, Iria beneciar mais de 600 mil pessoas, espalhadas ao longo do percurso, com a reduo em 70% no tempo de viagem entre os dois extremos das linhas. Elas seriam servidas por nibus de luxo, com ar condicionado, e a tarifa dos veculos comuns. A obra deveria estar concluda em um ano e meio, ao custo de 430 mi-lhes de reais, que nem espanto provo-cou. Tudo era divino e maravilhoso. Seis anos depois, comeam a se abrir na pista expressa do BRT, no meio do trajeto pela avenida Almirante Barroso, onde nela se nda a avenida Jlio Csar. Descobre-se que o buraco resultou do desgaste precoce do piso. A pista podia ser a mesma das demais vias (asfaltadas) de circulao na mais importante aveni-da da cidade, como em outros BRTs. Mas a administrao de Duciomar Costa queira um servio de mais qualida-de (e mais caro): mandou construir uma plataforma de concreto mais elevada e protegida por blocos de concreto (sobre a qual trafega no uma grande frota de ni-bus especiais, mas quatro ou dois? ve-culos, na companhia dos velhos e sofridos nibus da capital paraense, aos quais foi acrescentada a placa de expressos, que os libera de controle e lhes autoriza a funo de matadores de pedestres). O problema que a plataforma co-meou a se deteriorar rapidamente, talvez porque a concretagem, que nem precisaria existir, onerando o oramento da obra (que, j agora, ningum sabe e ningum viu), no foi boa. J vai pro bre-jo antes mesmo que as sete estaes da Almirante Barroso (do total, exagerado, de 23), exceo de duas, tenham come-ado a funcionar, embora prontas (e, ali-s, tambm precocemente envelhecidas, exatamente pela falta de uso). Um obra que deveria durar 18 me-ses j se prolonga por 72 meses, sem uma concluso. Um incmodo brutal, introduzido na vida de 600 mil pessoas, pelo menos, embromadas pela promessa de serem recompensadas com o servio concludo, inferniza quase um tero da populao da regio metropolitana por desdia, incria, incompetncia, m f ou, talvez, corrupo nos executores da obra, um trambolho surreal a desaar a compreenso e a tolerncia humanas. O transeunte v o tempo passar sem o m do drama, s vezes tragdia, e o di-nheiro pblico se esvair, como a turbu-lenta corrente das chuvas a alagar uma cidade que teima em ignor-la.E se cala. E nada faz. E se acomoda. E parece que-rer a punio que lhe aplicam, entre uma e outra vil eleio. cidade masoquista sta Santa Maria de Belm do Gro Par, outrora conhecida como a heroica, por sua resistncia aos desmandos dos seus representantes e dspotas, como o cau-dilho Magalhes Barata, que inspirou a evocao, agora feita em torno de medio-cridades por outras tantas mediocridades. OBRA ABSURDA No ms pas-sado, uma carreta quase cou entalada ao passar sob o viaduto do BRT no cruza-mento de trs avenidas de intenso trfego (Augusto Montenegro, Independncia e Centenrio), entre Belm e Ananindeua. Foi necessrio muita manobra para evitar a coliso. S ento se vericou que o espao entre a pista de rolamento e a base do ele-vado no obedecia ao padro d 5,5 metros. Para evitar um acidente, foi impedido o trfego de veculos pesados pelo local. Eles tero que continuar a seguir por um desvio at que seja escavado um buraco (que logo poder ser batizado de tnel) para a passagem de veculos mais altos. At que isso ocorra, o remendo ir onerar ainda mais a obra de santa En-grcia (mais uma nesse inferno urba-no perifrico), cuja lentido atormenta centenas de milhares de moradores que tiveram a infelicidade de estar na rbita de duas administraes pblicas muni-cipais de incompetncia que desaa a credulidade humana.

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12 FAMLIA Anncio de saudao do incio de 1945 destacava as excelncias da Penso Universal, situada na rua Santo Antnio (continuao da Joo Alfredo), 143, prxima do porto de desembarque e do centro do comrcio, servida por onze linhas de bondes e auto-nibus. Prevenindo-se de eventuais interpretaes ambguas, a propaganda tratava de advertir que o estabelecimento era essencialmente familiar, pautando-se pelo respeito, ordem e moralidade. Tanto que recebia famlias de tratamento, certamente atradas por sua cozinha de primeira. A penso atendia servios de frios e bebidas geladas at s 24 horas, a todos os seus hspedes e fregueses. Quanto aos preos, ah, sim, eles estavam ao alcance de todos os viajantes. CACHAA Os bons amigos e fregueses da Aguardente Igarap-Miri foram brindados, nesse mesmo alvorecer de 1945, com uma poesia de responsabilidade da casa, que assegurava: Na travessa So Francisco,/ cento e nove, faz-se f,/ na aguardente, que vem pura,/ do Retiro Nazar! So dos melhores engenhos,/ com todo asseio e sabor,/ a aguardente desta casa,/ por isso mesmo um primor!. Depois da terceira dose, os versos deviam cair bem. ESTUDANTES Um anncio da Unio Acadmica Paraense (a extinta UAP, de gloriosa histria) convocava, no idntico janeiro de 1945, para uma reunio em sua sede social, travessa Padre Eutquio, 206, um grupo de universitrios, dente os quais estavam Pedro Pedroso, Carlos Lima, Paulo Coelho, Felipe Condur, Armando Mendes, Angelita Silva, Rainero Maroja, Wilibaldo Bibas, Jos Ribamar Soares, Adriano Menezes, Jean Bitar, Chalu Pacheco, Acilino Leite, Raimundo Vianna, Higidio (na verdade, Egydio) Sales, Jos Ferranti, Jos Fernandes e Maria Assis. Pelos nomes e pelas carreiras que zeram esses personagens, muitas vezes divergentes ou conitantes, temse uma medida do mal que cometem todos os que reprimem a atividade poltica estudantil, a grande forja de lideranas de uma nao. CARNAVAL Certamente convencida de que quem no gosta de samba ruim da cabea, a saudosa Unio dos Estudantes dos Cursos Secundrios do Par (a Uecsp leia-se: uesp), convocava todos os seus associados para a noitada carnavalesca de fevereiro de 1954, na sede do Jockey Clube do Par (aquele que jamais promoveu um derby, mas abrigava todas, e agora est se transformando em escola de lnguas). O traje podia ser passeio ou fantasia, mas o ento presidente, Irawaldyr Rocha (j falecido, aps intensa vida pblica), advertia: ser expressamente proibido o uso de lana-per fumes, aquele satnico rodo metlico de vapores sensuais. Ao que os denodados associados devem ter pontuado (como agora se diz larga): pois sim. IGNORNCIA Em setembro de 1957, os trabalhadores que faziam a recuperao da doca de Souza Franco e a reticao do Igarap das Armas (ou das Almas, na polmica que nunca chega ao m), tiveram que suspender os servios. Simplesmente por terem dado com uma tubulao de esgotos atravessando o igarap do bairro do Reduto para o Umarizal, tubulao essa que no constava dos arquivos da prefeitura. E por no ser conhecida, de sua existncia no foram informados o Departamento Nacional de Endemias Rurais e a Superintendncia do Plano de Valorizao Econmica da Amaznia (a SPVEA, antecessora da Sudam, criada nove anos depois desse episdio), rgos executor e nanciador da obra. Os trabalhadores foram ento deslocados do trecho em que estavam, j prximo da avenida So Jernimo (atual Governador Jos Malcher), para o outro lado, na direo do cais do porto. ANNCIOA chegada da PepsiA ento poderosa Portuense de Ferragens sada, em setembro de 1958, a chegada de Pepsi-Cola a Belm. A responsvel foi uma empresa local, a Produtos Vitria, que obteve extraordinria aceitaoem Belm por esse famoso refrigerante. Nem tanto: a Pepsi nunca chegou a ser concorrente para valer da Coca-Cola.

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13 A desinformao uma das regras de ouro da administrao pblica na capital dos paraenses. CINEMA Em setembro de 1958, Judah Eliezer Levy, Wady om Chami e Eriberto Pio dos Santos, diretores da rma Cinemas e Teatros Palcio S/A, comunicavam que as aes do Cine-Teatro Palcio, a ser inaugurado brevemente em Belm, j podiam ser encontradas com o corretor Alberto Bendahan. Foi um sucesso de venda. O Cine Palcio, que raramente foi teatro, agora templo da igreja do bispo Edyr Macedo. SEMINRIO Em fevereiro de 1961, o arcebispo metropolitano de Belm, dom Alber to Ramos, nomeou reitor do Seminrio Arquidiocesano Nossa Senhora da Conceio (depois Arcebispado e hoje Museu de Arte Sacra, ao lado da igreja de Santo Alexandre) o padre Carlos Cardoso da Cunha Coimbra. Para as vice-reitorias do seminrio foram designados os padres Artmio Trindade Fer reira e Luiz Silvrio de Oliveira Maia. Em seu currculo, Carlos Coimbra tinha graduao em direito pela UFPA, bacharelado em teologia pela Faculdade de Nossa Senhora da Assuno, em So Paulo, e doutorado em teologia dogmtica pela Pontifcia Universidade Gregoriana de Roma. Todos os trs dirigentes indicados por D. Alberto para o seminrio acabaram largando a batina. AEROPORTO A 18 de fevereiro de 1963, entrou em funcionamento experimental a nova pista construda no aeroporto internacional de Val-de-Cans, para a ater rissagem de avies a jato. Era a principal das melhorias ali introduzidas pelo Departamento de Aviao Civil. O teto da estao de passageiros recebeu nova pintura e o bar foi re-docotidiano cuperado. Tambm foram colocados vidros nos postes voltados para a pista de rolagem, que se encontravam em pssimo estado. As obras, acreditava o cronista da Folha do Norte fariam com que o aeroporto de Belm no car a dever a nenhum do Brasil. PIANISTAS Foi um sucesso o concerto infantil de piano promovido pelo Conservatrio Carlos Gomes na vspera do natal de 1964, com os alunos da professora Maria de Nazar Pinto Marques. As peas musicais foramapresentadas por Slvia Maria de Souza, os irmos Manoel Ayres Jr. e Helena Maria Ayres, Lilian Contente, Raquel Maranho (lha do gerente da Folha do Norte Joo Maranho, e irm do escritor Haroldo Maranho), Marlene Duarte Rodrigues, Rosalva Muller de Figueiredo, Maria Cristina Csar de Oliveira (depois Cascaes Dourado), Adurilson Montes Ferreira e Cylene Greidinger. DEFUNTO Denitivamente, no foi feliz aquele dia de janeiro de 1966 para o escrivo de polcia Edson Pimentel de Sena. Em servio na famosa (nem sempre por bons motivos) Permanncia da Central, na rua Santo Antnio, ele ociou aos seus superiores pedindo a remoo do cadver que falecera. No foi um feito, nem ajudou na progresso do servidor, que, antes de chegar polcia, havia sido agente de penso. FOTOGRAFIAO fim da rivalidade Em abril de 1960, pouco menos de um ano depois da morte de Magalhes Barata, j se desfazia a inimizade entre o seu principal crtico, aFolha do Norte, e o baratismo. O sucessor do caudilho, Moura Carvalho (que o jornal, respeitosamente, d o ttulo de general, contestado pelo Exrcito), subiu as escadas daquele que era o maior jornal do Par e do norte do pas. Levando consigo seu chefe de gabinete, o cineasta Lbero Luxardo, e seu ajudante de ordens, capito Osmar Amorim, Moura foi dar os parabns at ento besta-fera do baratismo, o jornalista Paulo Maranho, pelo aniversrio daFolha. A legenda da foto informa que o governador demorou-se em cordial palestra com o diretor de nossos jornais, que o recebeu na sua biblioteca pessoa, dependncia cada vez mais rara numa sede de jornal, e mais rara ainda porque o dono do peridico lia os livros. Cinco anos depois, aFolhaapoiava a candidatura do homem que derrotara Barata na eleio para o governo do Estado, em 1950, o marechal Zacarias de Assuno, aliado ao PSD baratista contra o candidato dos militares ps-1964, o major Alacid Nunes, patrocinado pelo governador-coronel Jarbas Passarinho. Em 1966, Paulo Maranho morreu. A poltica no Par surrealista.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Blog: wordpress.com Palestras: contato: 999777626 Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com ANTOLOGIAPrimeira crtica a JesusCom o poeta Joo de Jesus Paes Loureiro acontece algo muito interessante: sua preocupao pelos problemas do homem, em participar com sua arte desses problemas, muito grande, marcante mesmo. Esta parece ser a preocupao maior em sua poesia, que pretende ser essencialmente par ticipante, na mesma proporo de um Maiakovski ou de um Joo Cabral de Melo Neto, por exemplo. Entretanto, a melhor poesia de Jesus no aquela de temtica social, engajada, como se costuma chamar: a lrica, esta a melhor poesia de Jesus. Mais ainda: a poesia de circunstncia, aquela feita de encomenda para algum acontecimento, tem sido o que de melhor ele j publicou. Tal fato tem provocado um certo constrangimento do poeta, principalmente quando indaga algum sobre sua produo. O terceiro livro de Jesus Epstolas e Baladas, lanado ontem pela Livraria Globo no melhor nem pior do que os dois anteriores, Tarefa e Cantigas de Amar, de Amor e de Paz. A parte essencialmente lrica do livro a melhor, embora tambm se deva fazer certa crtica a esse lirismo.Praticada assim h tanto tempo, a poesia lrica exige, hoje, de seus cultores, novas imagens e novas formas, e probe a repetio daquilo que j se tornou clich. O lirismo exige criatividade e no repetio das imagens, belas, porm gastas, porque demasiadamente usadas. No repetir com Garcia Lorca A guarda civil se afasta sob um tnel de silncio porm aproveitar o que existe de herana e criar novas imagens e novas formas poticas. Este o grande desao para o lirismo do sculo XX e esta a causa da decadncia da poesia lrica em nossos dias pouco lricos. A grande virtude de Jesus reside no emprego de certas construes erigidas atravs de uma livre manobra da palavra. Dominando-a, o poeta cria certas imagens, como: Oh! Sculo ferido faze com a faixa de gaza uma atadura. Ou: Todos os termos usai de vossa paz menos o termo nuclear. Ao procurar a participao social atravs da poesia, Jesus parece indeciso em que posio assumir. Essa indeciso se expressa atravs da contradio entre o que o poeta pensa e a linguagem com a qual expressa o seu pensamento. Profundamente marcado pela educao catlica, o poeta no consegue se libertar dela por inteiro e sua linguagem, dentro de uma poesia participante, aquela do humanismo cristo, cheio de palavras bonitas, porm quase sempre vazias e que provocam certo embotamento, com prejuzo compreenso do leitor. De Epstolas e baladas, as duas melhores poesias so A Balada de Veraneio e a Epstola da Montanha. E de Joo de Jesus Paes Loureiro deve-se proclamar uma grande virtude: a seriedade com que encara o seu trabalho e a continuidade que imprime a ele. Se no bastassem as qualidades que tem, esta virtude o autorizaria poeta. Conheci Joo de Jesus Paes Loureiro (e sua mulher, Violeta) em 1966. Eu tinha apenas quatro meses em A Provncia do Par quando publiquei um artigo sobre ele na minha primeira coluna de jornal, em setembro, dedicada a questes culturais. O poeta, que fora preso e tivera apreendida a edio do seu primeiro livro, Tarefa, considerado subversivo pelos novos donos do poder, sofria certo isolamento. O artigo quebrou o gelo. A partir da, abri pginas limpas para publicar poesias dele, com boa ilustrao. Em outubro de 1968, Jesus lanou seu terceiro livro (aps Cantigas de amar, de amor e de paz), Epstolas e baladas, publicado pela Grafisa e vendido na Livraria Globo, dos irmos Altino e Alfredo Pinheiro. O lanamento foi concorrido, com a presena de Aloysio da Costa Chaves, Francisco Paulo Mendes, Maria Brgido, Helena Cardoso, Carlos Coimbra, Isidoro Alves, irm Ferrer, Nilo Franco, Floriano Jayme, Aldo Almeida, Edwaldo Martins, Nazareno Tourinho, Maurcio Coelho de Souza e muita gente. Fiz a cobertura do lanamento e publiquei, no mesmo dia, uma primeira crtica sobre o livro e a obra de Jesus, com a ousadia dos meus 19 anos. Boa poca em que um jornal publicava crtica imediata ao livro cujo lanamento noticiava. o que se segue.

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15 FHC: bom na anlise, ruim na ao polticaNa poca em que ainda era apenas professor universitrio e socilogo, Fernando Henrique Cardoso impressionava por sua cultura uncia e charme. E pela vaidade, to grande quanto a soma das suas qualidades. Essa vaidade deve ter inudo bastante na sua manifestao favorvel a uma eventual candidatura de Luciano Huck a presidente da repblica. O apresentador de televiso seria, de fato, um elemento novo no quadro viciado de velhos polticos com seus antigos vcios. Mas o novo pelo novo to inconsistente quanto o antigo pelo antigo. Mera forma sem essncia. Conversa para telespectador dormir. Nada indica que Huck poderia vir a ser uma terceira via, um arejador da poltica, como especulou o ex-presidente trs dias atrs. No por ser apenas apresentador de TV. porque seus eventuais vnculos com uma funo poltica de representao popular ou com a causa pblica se do pelo velho assistencialismo, por uma viso muito limitada do social, por um esquema de superdimensionamento de aes isoladas e parciais, caractersticas da sua ao alm dos limites do palco e da encenao, que constituem sua especialidade restrita. Fora do poder, que hipertroa a sua vaidade e atroa a sua inteligncia, FHC um analista sagaz e positivo dos fatos, contribuindo para o entendimento das conjunturas. Aprende-se bastante ao l-lo. Se comete erros to primrios na avaliao do que um nome como o de Luciano Huck pode representar para a poltica brasileira, porque, movido pela vaidade, est de olho em um retorno ao centro do poder. Renuncia ao que o seu currculo, o seu patrimnio intelectual e a sua idade lhe conferiram, dando-lhe a condio de obser vador da realidade a partir de uma posio de sabedoria, para se tornar uma gura anacrnica, um bobo da corte. Depois de ter acrescentado aos miasmas nacionais o diablico instituto da reeleio, mantido at ento margem da repblica por uma sabedoria instintiva de defesa, FHC est novamente desservindo a ptria. Parafraseando o rei da Espanha, melhor que se cale. Os pequenos Em 2015, as micro e pequenas empresas representavam 96% do total de empreendimentos existentes no Par. Geravam 31% dos empregos e participavam com quase 21% dos salrios pagos. Sua maior par ticipao regional era no Araguaia, Xingu, Tapajs e Lago de Tucuru, onde representavam 98% ou mais do universo empresarial, seguindo-se Baixo Amazonas, Guam, Carajs, Rio Caets e Rio Capim (em torno de 97%), e Tocantins (96,5%), conforme a diviso do Estado em regies de integrao. So dados do Ministrio do Trabalho e Emprego, apresentados pelo Sebrae, que mostram a impor tncia desse segmento vital da economia, muito citado e pouco apoiado de fato. Os Sertes A edio mais valiosa de Os ser tes o volumoso e fabuloso livro de Euclides da Cunha, no a 1, lanada (com 632 pginas) pela editora Laemmert, do Rio de Janeiro, em 1902, mas a 3, de 1905, pela mesma Laemmert, que Euclides revisou, em 1903, seis anos antes de morrer, aos 43 anos. Aproveitou para responder aos crticos Eu tenho essa edio, em capa dura, bem trabalhada, as letras em dourado sobre fundo vermelho, com 618 pginas. Comprei-a em um sebo. O livro pertenceu a uma grande personalidade do Par na metade do sculo passado. Mas isso no nada, comparado edio que pertence a Antnio Carlos Secchin. A dele era de Dilermando de Assis, o ento jovem ocial do exr cito (chegou a general) que matou Euclides e o lho dele, no terremoto passional que criou essa imensa tragdia. Dilermando, autor de um livro no qual se defende, fez anotaes margem do livro da sua vtima. Ruy Castro deu notcia da existncia dessa preciosidade no seu artigo na Folha de S. Paulo, reproduzido pelo Dirio do Par Tomara que o livro saia logo.Caixa preta Raul Schmidt, preso no ms passado em Portugal, tem um currculo (ou folha corrida) especial no conjunto dos personagens da Operao Lava-Jato. Por duas vezes, uma na Inglaterra e outra, agora, em Portugal, ele se tornou foragido da justia, com dinheiro suciente para se esconder e tentar escapar perseguio de vrias polcias. Ousadia, portanto, no lhe falta e o distingue dos demais perseguidos, presos, indiciados, denunciados e sentenciados. Mas no s por isso que ele tem importncia. Ele parece ser o elo mais forte entre as propinas pagas pelo cartel das empreiteiras e um alvo que ainda no foi adequadamente visado: os contratos para a construo das sondas para as pesquisas de petrleo no pr-sal. Os valores correntes nessas transaes so medidos em bilhes de reais. Talvez se essa caixa preta for ar rombada, se chegue a outra, igual ou maior: o BNDES.

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A carta de Hlio Gueiros Elias Ribeiro Pinto, meu irmo, relembrou, numa de suas ltimas pginas dominicais no Dirio do Par de ontem, o tristemente famoso episdio da carta que Hlio Gueiros escreveu, em 18 de abril de 1991, repleta de palavres e ofensas contra mim. Toda fria a pretexto de um artigo meu em A Provncia do Par, re produzindo as declaraes de Jader Barbalho em uma entrevista exclusiva que me concedeu. Jader criticou a administrao anterior, que Hlio (seu ex-amigo e ento inimigo mortal, antes de voltar a ser amigo de infncia) deixara havia apenas um ms. O principal ponto era o gasto de boa parte do oramento para o ano inteiro, que Jader atribua a Hlio. Durante um bom tempo depois de me mandar a carta, Hlio Gueiros evitou coment-la. At que Elias incluiu a pergunta num questionrio encaminhado ao ex-governador, admitindo que o entrevistado pudesse omitir o que lhe pedia: uma anlise do acontecimento da perspectiva posterior. Gueiros respondeu: Embora voc me desse a liberdade de no responder pergunta, respondo. Poderia escrever um tratado de mil pginas tentando explicar a minha reao, mas no adianta nada. No se pode nem se deve justicar o injusticvel. Com essa inesperada autocrtica do caluniador, considerei encer rado um dos episdios mais tristes da minha vida, no s por tentar me ofender, mas, em especial, por ofender a minha me, embora indiretamente, por me desferir uma das mais torpes agresses em forma de palavro (ainda somos de geraes que colocavam a me no seu devido lugar, num reconhecimento ao que significava para ns). Foi importante para mim essa declarao. Por quatro vezes eu tentei encontrar Hlio pessoalmente para defender a minha honra e a da minha famlia. Felizmente para todos, o confronto no aconteceu. Na primeira, foi quando ele compareceu Cmara Municipal de Belm e fui impedido de abord-lo por Luiz Otvio Campos, que fora secretrio estadual e integrava o grupo de Gueiros (agora aliado de Jader Barbalho). A segunda tentativa foi no auditrio da Fiepa, mas ele no apareceu. Em seguida, no velrio do advogado Daniel Coelho de Souza, no hall da Assembleia Legislativa. Desta vez foi por interferncia de Frederico, filho do ilustre morto (e tambm precocemente falecido). J que no podia evitar a aproximao de Hlio e sua esposa, Terezinha, que se dirigiam para o caixo, onde estvamos, me pediu: Lcio, meu irmo, o doutor Hlio vem a. Trata-o bem, pelo papai, foram as palavras do Fred. Virei-me e quando Hlio me estendeu a mo, respondi ao cumprimento. E me afastei do local. O ltimo encontro foi na missa do stimo dia de morte do jornalista Euclides Bandeira, na capela de Santo Antonio de Lisboa, em Batista Campos. Eu fiz todas as leituras da cerimnia, a pedido de Regina, a esposa, e de Walter, o irmo, que estavam tensos e nervosos. Ao me cumprimentar, Hlio comentou, bem ao seu estilo: Lcio, quase tu substituis o padre. Ao que no consegui deixar de responder: Menos na hora do vinho, doutor Hlio. A seria a sua vez. Depois de muitos anos de relacionamento com Hlio, foi a primeira vez que o vi desnorteado, sem conseguir encontrar a trplica. Calou-se e seguiu. Acho que, el aos seus anos de jornalismo irnico e sarcstico, admitiu, no ntimo, que fora derrotado. Como fez, olimpicamente, devo reconhecer, na resposta ao questionrio do Elias, pondo m a um captulo negro da sua biograa. Cidade que rui Quantas construes antigas desabaro durante o rigoroso inverno deste ano em Belm? Tomara que nenhuma, mas algumas esto sob a lmina da guilhotina dos maus tratos da sociedade e da incria do poder pblico. O principal alvo das atenes o palacete Faciola, uma linda construo neoclssica que tenta sobreviver na esquina da avenida Nazar com a Doutor Morais. Sua restaurao deveria ter sido concluda em 2016, ao custo de 8,8 milhes de reais. Mas a construo foi apenas escorada e as fendas na sua parede grampeadas. A obra que comeou pelos fundos do casaro parou. O projeto no foi includa no programa das cidades histricas do governo federal, que previa a aplicao de R$ 47 milhes em Belm. Por excesso de burocracia, incompetncia ou mais bofes de quem podia ter acionado os processos, o dinheiro pode passar ao largo. O Ministrio Pblico do Estado se mexe na tentativa de forar a Secretaria de Cultura do Estado, cheada desde a origem do mundo por Paulo Chaves Fernandes, a cumprir o compromisso assumido. Mas se der boa safra, o trabalho s recomear em 2019. O prazo j foi combinado com os russos, que mandaram chover tanto neste ano? De tanto circular em torno de outro palacete am, o do largo de Nazar, cujo ltimo dono declarado foi o mdico Dioclcio Correa, algumas vezes encontrei com sua herdeira, da mesma famlia, a de Antonio Faciola, dona do palacete prximo. Disse-lhe que vinha fazendo campanha pela compra, pelo poder pblico, do magnco casaro, ainda bem conservado. Ela me pediu para no fazer isso. J basta o que esto nos fazendo no outro imvel, disse ela, reclamando pelo pagamento da indenizao. Portanto, arquitetos, engenheiros e demais amigos de Belm: organizem uma expedio para identicar os prdios de valor histrico e arquitetnico que podem ir abaixo com as chuvas desta temporada. Vamos fazer uma campanha pela sobrevivncia desse patrimnio.