Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

Downloads

This item is only available as the following downloads:


Full Text

PAGE 1

o aO fedor do lixo O odor que exala do aterro sanitrio de Marituba, que todo dia recebe 1,8 mil toneladas de rejeitos da regio metropolitana de Belm, perpassa toda cidade e vai muito alm. Chega ao centro de Ananindeua, a cidade vizinha, sede do segundo mais populoso municpio do Par (com quase 500 mil habitantes). Em dias de chuva, avana at os limites de Belm. Mais de 700 mil pessoas sofrem com os efeitos do fedor. Quando chove, o povo no consegue dormir. Crianas chorando e lotando os hospitais e UPAS, madrugada adentro. Tem vez que no se consegue tomar o caf da manh, testemunha o escritor Andr Nunes, dono de um restaurante, Terra do Meio, que era muito procurado por famlias com crianas, no m de semana, em busca de contato com a natureza, entre um igarap vistoso e rvores frondosas.Pelo menos 700 mil pessoas na regio metropolitana de Belm esto sofrendo pelo mau cheiro produzido pelo aterro sanitrio de Marituba, que se tornou um grave problema ambiental e de sade em apenas dois anos de funcionamento. O silncio do governo diante de um projeto, que aprovou, alm de preocupar, prova de acusao.Andr no fala apenas como um empresrio cujo negcio foi atingido diretamente pela decomposio do lixo em volume que fez surgir, em apenas dois anos, um morro com 20 metros de altura e despeja chorume em 17 lagoas articiais. Fala tambm como um dos mais ativos opositores do aterro sanitrio de Marituba, O restaurante Terra do Meio ca distante mais de um quilometro do lixo, mas o mau cheiro est como sempre, insuportvel, segundo Andr. No consigo me acostumar com essas mscaras baratas que as cozinheiras usam. So muito incmodas e quase no fazem efeito. H duas crianas dormindo aqui. So lhos do caseiro. Eles e a me reclamam. Reclamao contida de gente humilde. Ela ralha baixinho com as crianas e liga o ventilador. Recusam as mscaras que lhes ofereo at que hoje no est to forte diz resignada, relata o escritor. MARITUBA

PAGE 2

2 Como muitas outras pessoas, Andr no entende como a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado aprovou tal excrescncia colada ao Refgio de Vida Silvestre Metrpole da Amaznia (Revis), causando impactos ambientais de prejuzo incalculvel, como morte de animais, contaminao da mata e dos rios por despejo criminoso de chorume. Pela legislao ambiental, sustenta Andr, o aterro deveria estar a pelo menos trs quilmetros de distncia de qualquer mancha urbana (cidades, povoados, bairros ou conjuntos residenciais), e a 500 metros de residncias isoladas. No entanto, o lixo est colado nos jardins e quintais das casas de Marituba, que, com 138 mil habitantes, o menor municpio do Estado, todo ele urbanizado, sem zona rural. Alm disso, o aterro est a 15 quilmetros do aeroporto de Val-deCans, que opera por instrumento, quando o mnimo seriam 20 quilmetros. Tambm no respeita a distncia de, no mnimo, trs quilmetros da rea de amortecimento da Revis. Diz-se no mnimo, pois que a realidade pode determinar, a critrio do poder concedente, que seja uma distncia maior. Nunca menor. O caso de Marituba h que ser emblemtico e servir de paradigma para uma nova legislao menos leniente que a atual, acrescenta Andr. Por tudo isso, e muito mais que no me ocorre no momento, um empreendimento irresponsvel, que nasceu para fazer o mal. O Ministrio Pblico Estadual, com competncia, no incio, identicou tais inconformidades, mas depois, incompreensivelmente, voltou atrs, observa ainda. Enquanto isso, o povo de Marituba segue sem dormir e j sem pacincia, assistindo a uma verdadeira ode ao capitalismo selvagem que no mede consequncias em busca do lucro. O povo s um detalhe. enfatiza. Andr garante que a scalizao da Secretaria do Meio Ambiente agrou pelo menos uma mega bacia sem a manta impermeabilizadora, deixando o chorume diretamente em contato com o lenol fretico, cuja contaminao levou o ministro Helder Barbalho distribuio semanal de milhares de garrafes de gua mineral e cestas bsicas populao. No entanto, a Guam Tratamento de Resduos, el aos seus princpios de transparncia e integridade, declara enfaticamente que no reconhece a existncia de passivo ambiental na sua unidade. A empresa diz que mantm em operao sistemas de tratamento de chorume, com conhecimento e autorizao do rgo ambiental e o seu tratamento faz parte da operao normal do aterro. Alm disso, em abril, a empresa duplicou a capacidade de tratamento com a instalao de uma segunda unidade da tecnologia chamada osmose reversa, uma das melhores e mais modernas do mundo. Ainda no ano passado, com autorizao da Semas, a Guam instalou um modulo de tratamento piloto, de sistema complementar ao existenteque, quando instalado em denitivo, vai ampliar a capacidade diria de tratamento de chorume para cerca de 600 mil litros por dia. A empresa garante que todas as lagoas de conteno so duplamente impermeabilizadas e que no h, em nenhuma hiptese, descarte de chorume em qualquer dos igaraps da regio. As armativas categricas da empresa levam a uma concluso: se a Guam cometeu crimes ambientais, a Semas cmplice, j que a empresa, do grupo italiano Solvi, diz que tudo que fez foi com autorizao do rgo governamental competente. E que o que fez seria o melhor em tratamento de resduos slidos. Assim, questiona as razes que levaram o Ministrio Pblico a acus-la de praticar crimes e pedir a priso de trs dos seus diretores. Se sua verso verdadeira, os responsveis no governo pela scalizao e controle do empreendimento deveriam tambm ser denunciados e, se fosse o caso, presos. Em nota distribuda imprensa, a Guam garantiu que apresentou aos tcnicos da secretaria, dentro do prazo legal, o plano para tratamento emergencial do chorume atualmente estocado nas lagoas do aterro sanitrio de Marituba. O plano prev estratgias dotadas de toda a segurana necessria e que garantem a preservao do meio ambiente. A empresa apresentou trs alter nativas para remoo e tratamento do volume de chorume que se encontrar estocado nas lagoas. Todas as alternativas inclem tratamento interno e externo (dentro e fora do aterro), em diferentes medidas. Enquanto a Semas analisa o plano apresentado, a empresa continua tratando o chorume com as duas plantas de osmose reversa existentes e j iniciou, com a devida aprovao da Secretaria, a retirada do chorume via carretas para tratamento externo, informa a Guam, empresa da Revita. Ela rearma seu compromisso com o meio ambiente, nega que tenha cometido crime ambiental e reitera a seriedade com que encara esse assunto, deixando claro que se encontra disposio das autoridades para eventuais detalhamentos das referidas operaes. Essas garantias contrastam com o fato de que trs diretores da Guam foram presos sob a acusao de agirem criminosamente na conduo do tratamento do lixo e no fornecimento de informaes aos rgos de controle e scalizao. Eles foram presos em So Paulo, Salvador e Feira de Santana e levados diretamente para dois presdios da grande Belm, um dos quais, por ioronia, em Marituba. Andr contrape nmeros e raciocnios s alegaes da empresa. Diz que o lixo produz, no vero 300 toneladas de chorume por dia. No perodo das chuvas, como agora, o volume cresce para700 toneladas. A capacidade plena de tratamento da osmose reversa da estao atualmente de 200 toneladas/dia. Assim, no vero, a empresa deixa de tratar 100 toneladas dirias, que vo somar-se ao passivo existente de aproximadamente 200 mil toneladas. Isto a carga de um superpetroleiro, dos grandes. Ou 10 mil carretas-tanque, calcula Andr. Em uma audincia no palcio do governo, ainda no comeo do ano passado, o governador Simo Jatene disse que, segundo a Semas, havia um passivo de chorume de 83 mil toneladas. Apenas a Jari Celulose, instalada em Almeirim, a mais de 450 quilmetros de Belm, teria tal capacidade de tratamente.

PAGE 3

3 O governador mandara calcular os custos e somente o transporte ficaria em 20 milhes de reais. A empresa andou cogitando a Cosanpa e, at mesmo, mandar para Pernambuco. E construir um emissrio submarino (?), no rio Guam na altura da ponte da Ala Viria, cortando a reserva com um enorme chorumeduto, ironiza o escritor. Diante da gravidade da situao e da polarizao das informaes, seria de elementar bom senso que a Semas prestasse esclarecimentos opinio pblica. Afinal, o procedimento da empresa no aterro legal e correto, ou no? O crime apontado est tendo continuidade ou foi interrompido? O silncio da Semas um libelo de acusao sua omisso ou conivncia e responsabilidade (ou irresponsabilidade) do governo do Estado como um todo.Lixo: a soluo virou problemaCom o artigo a seguir publicado, que enviou para o meu blog, o professor Aurlio Picano* avana consideravelmente na adio de informaes e anlises tcnicas sobre o grave problema do aterro sanitrio de Marituba, tratado popularmente por lixo. Todos ganhariam se as autoridades respondessem aos questionamentos do autor.Aps a leitura de todo material divulgado no seu blog sobre o problema no Aterro Sanitrio da Regio Metropolitana de Belm gostaria de apresentar alguns argumentos para ampliar o debate sobre o problema. O que estamos vivendo o produto de um grande problema que nenhuma autoridade poltica do Estado e de Belm quis resolver durante anos, que era o lixo do Aur. Por anos, foi muito mais cmodo ter um lixo (imagino que todo esse chorume que hoje se acumula no AS de Marituba sempre foi para os igaraps prximos ao Aur). Pior: ter um lixo deixou Belm acfala do ponto de vista tcnico e operacional quando o assunto operao de um aterro sanitrio de grande porte. No h em Belm a expertise tcnica para operar um aterro sanitrio, pior nas nossas caractersticas climticas amaznicas, que j explico. Para iniciar, que que claro que lixo e aterro sanitrio so estruturas distintas. Aterro sanitrio uma obra e um servio. Uma obra de engenharia que deve ser operada corretamente (e monitorada) at o dia de seu encerramento. Local em que todos os cuidados com a sade da populao e meio ambiente devem, ser priorizados, desde a sua concepo at a sua nalizao. Para um aterro sanitrio receber o primeiro caminho de lixo muitos passos devem ser vencidos, como estudo de seleo de reas, estudo de impacto de vizinhana, projeto bsico, estudos de impactos ambientais e o projeto executivo do aterro. Cada projeto e estudo desses h uma gura importante, que so os engenheiros e tcnicos responsveis. Muito me assusta em todo esse impasse no se questionar um posicionamento dos projetistas. Um dos produtos do projeto de um aterro sanitrio (existe uma norma exclusiva da ABNT que dene o contedo de projetos de aterros sanitrios para resduos slidos urbanos) o manual de operao do aterro sanitrio. Lamentavelmente, muito comum o famoso copia e cola desse manual de outros projetos j executados. Nitidamente, ocorreu um grande problema operacional e, talvez, de projeto (s teria certeza se avaliasse o projeto) nesse aterro sanitrio. Vou abordar alguns deles: 1) Nitidamente, h um erro de concepo na escolha da tecnologia de tratamento do chorume. No que o sistema de osmose reversa no consiga tratar chorume, mas que ele sozinho no o faz do ponto de vista tcnico. um sistema considerado polidor, ou ps tratamento. Antes dele so necessrias vrias outras tecnologias para melhorar a qualidade do chorume e para defender o meu sistema de osmose reversa, que gera um subproduto, que o concentrado. 2) Claramente, houve erro no clculo da produo de chorume no aterro. Posso falar que esse tema complexo, pois a maioria dos mtodos de clculo do chorume so empricos e baseados nos dados climatolgicos. Aqui retorno a esse tema, pois operar um aterro sanitrio de grande porte em uma regio de elevados ndices pluviomtricos no simples. A acredito que foi o maior erro operacional e, talvez, de projeto. Para simplicar e esclarecer: na operao de um aterro tenta-se ao mximo evitar que a gua da chuva entre em contato com o lixo exposto, pois a consequncia ser o aumento da produo de chorume. O que se faz para evitar esse contato? Deve-se cobrir o lixo com material impermevel (normalmente argila). Aqui, uma dvida que tenho. Se perguntar para qualquer criana em Belm que horas chove mais, a resposta ser imediata: tarde. Ou seja, a rotina operacional deve cobrir o lixo sempre no incio da tarde e voltar a operar no nal da tarde e noite. A rotina operacional de um aterro sanitrio modica por completo os horrios da coleta de lixo na cidade. 3) Para mitigar a grande gerao de chorume foram construdas lagoas de acumulao. Uma soluo que remedia, mas no soluciona o problema. No existe no mundo algo semelhante a isso. Uma aberrao! Um aterro com 17 lagoas. Milhes de metros cbicos de chorume. Um absurdo! Me pergunto: j li vrias matrias nos ltimos dias que a empresa j tem uma forma de tratar e remover esse chorume, inclusive fora do aterro. Onde? Se no h em Belm uma estao de tratamento de esgoto, quanto mais de chorume. A empresa j deveria ter adquirido uma nova estao de tratamento de chorume. J existem at esta-

PAGE 4

4 es compactas, que atendem a vazo produzida real, que agora conhecida. Indico uma estao que mescle unidades de tratamento qumicos com biolgicos com seu euente sendo direcionadas para as unidades de osmose reversa, que deve ser ampliada. 4) Muito me espanta que problemas operacionais existam em um aterro privado, onde os municpios pagam caro para dispor seus resduos. Aterros que devem ser constantemente scalizados pelos rgos ambientais do municpio e estadual. So erros bsicos para uma empresa que opera mais de 20 aterros no Brasil. Por m, sinceramente, acredito que urgentemente os municpios da RMB devem buscar uma nova rea para construo de uma aterro sanitrio. Claramente, a construo das lagoas no aterro de Marituba ocupou a rea em que seriam depositados os resduos no futuro. No se sabe a amplitude do problema, se essas lagoas foram protegidas por mantas, se tiveram a sua base compactadas para evitar inltrao do chorume no solo. O tempo est passando e a soluo denitiva no est prxima. Um diagnstico do problema se faz necessrio e com urgncia. Soube que um grande profissional est ajudando a Universidade e a prefeitura de Marituba, que o professor Mario Russo, um dos maiores especialista em aterros sanitrios do mundo. O que era uma esperana para um dos maiores desastres ambientais de Belm, que era o lixo do Aur, tornou-se outro grande problema, cujo final no est ntido no horizonte. Que todos aprendam com os erros e que eles no se repitam. _____________*Aurlio Picano engenheiro sanitarista (UFPA). Mestre e doutor em saneamento com nfase em resduos slidos (EESC-USP). Professor da graduao e mestrado em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Autor de livros na rea de resduos slidos e de mais de 50 artigos tcnicos sobre resduos slidos em revistas e congressos.Passarela da BR-316: um retrato do ParAparentemente, uma passarela de pedestres numa rodovia no tem maior importncia. Num local civilizado, h muitas passarelas para atender ao uxo de pessoas, milhares por dia, que no podem se arriscar a atravessar uma via com intenso trfego de veculos, como a BR-316. O problema que, nos seus primeiros 16 quilmetros, de chegada e sada de Belm, s h oito passarelas. J este fato um absurdo. A estrada com maior circulao de veculos do Par, apesar de ligar as duas mais populosas cidades do Estado (Belm, com 1,5 milho de habitantes, e Ananindeua, com quase 500 mil) uma das mais caticas e selvagens. Um ms atrs, uma das passarelas, a do quilmetro 3, localizada em frente ao campus da Universidade da Amaznia (Unama), passou a ser um retrato em 3 por 4 do que o Par. Os bombeiros a condenaram em 2016, mas ningum fez nada ao longo de mais de um ano. A jurisdio da estrada, por ser federal, era do DNIT, rgo do Ministrio dos Transportes. Mas a estrada est inteiramente urbanizada no trecho em que a passarela se localiza. Formalidades parte, a prefeitura de Ananindeua deveria ter se interessado pelas condies de uso da via por seus muncipes. A BR era e continua a ser um caos. Em novembro de 2016, a jurisdio sobre 16 quilmetros da BR, de Belm at Benevides, passou para a administrao do Estado. Ao assinar o convnio com o governo federal, o governador Simo Jatene anunciou uma srie de atividades para melhorar o uxo de veculos e pessoas por toda a rea, tendo como ponto alto o BRT Metropolitano, que ir at Marituba. As oito passarelas de todo esse trecho (apenas duas das quais em boas condies), nmero agrantemente diminuto, teriam cado para depois se a do km 3 no estivesse ameaada de desabar. Como a responsabilidade pela estrada passou para o Estado logo depois do parecer dos bombeiros, teria sido possvel planejar com mais vagar e ecincia a interveno. O descaso imps uma ao emergencial. O secretrio dos Transportes, Kleber Menezes, anunciou que a passarela seria interditada imediatamente por causa da ameaa de colapso. Em 24 horas a Setran instalaria no local semforos, que a prefeitura de Belm cederia. Em 60 dias uma nova passarela estaria pronta para ser instalada. Sua construo seria feita em carter de emergncia, sem licitao pblica. No entanto, o realizado foi completamente diferente. A passarela no foi interditada. O secretrio informou no haver semforo disponvel. Um guindaste foi contratado para segurar a estrutura. O prazo para a normalizao passou a ser de 45 dias. O que mudou para que tudo mudasse? Para ajudar a resposta, reproduzo, na ntegra, uma matria que a assessoria de comunicao da secretaria divulgou no dia 15 de dezembro, com toda nfase que uma deciso j adotada possibilita. Diz a matria: Em entrevista coletiva concedida h pouco, no auditrio da Setran, o Secretrio de Estado de Transportes, Kleber Menezes, informou que a passarela localizada em frente Unama, na BR316, ser imediatamente interditada ao trfego de pedestres. No local, provisoriamente, sero instalados semforos (uma parceria com a Prefeitura de Belm, que ceder os equipamentos) e realizada a sinalizao vertical e horizontal para pedestres e motoristas, at que seja instalada nova passarela, em um prazo estimado de 60 dias. O local tambm contar com a scalizao do Detran e da Polcia Rodoviria Federal enquanto no for instalado o novo equipamento. A ao, considerada emergencial, de acordo com os laudos entregues Setran pela Defesa Civil e pelo Instituto Renato Chaves, por solicitao

PAGE 5

5 do Ministrio Pblico de Ananindeua, dispensar licitao, em virtude do risco de colapso estrutural que pode ria prejudicar os cidados e ocasionar acidentes. Alm desta h, na BR-316, outras 7 passarelas, das quais 2 encontramse em perfeito estado Prtico Metrpole e em Marituba e 5 necessitam de cuidado e interveno imediata, mas no colocam em risco pedestres ou veculos. Portanto, tcnicos da Setran vericaro se os reparos podem aguardar os prazos de licitao. Caso contrrio, tambm sofrero os reparos em carter emergencial. De acordo com Kleber Menezes, aps o recebimento dos semforos conseguiremos fazer a instalao em at 24 horas, ou seja, at a prxima segunda-feira a passarela j no estar em atividade, evitando-se qualquer risco para a nossa populao. Menezes lembrou, ainda, que todas as passarelas sero substitudas por modernas instalaes, como parte do Projeto Ao Metrpole. Nossa ideia era substituir os equipamentos a partir do incio deste ano. Infelizmente o atraso na licitao do BRT Metropolitano fez com que tentssemos evitar gastos pblicos, mas chegamos a um limite, e o governador Simo Jatene determinou que de imediato esta interveno radical seja procedida, nalizou. A passarela, porm, no foi inter ditada e o esquema de circulao por terra dos pedestres no foi adotado. A Secretaria de Transportes surpreendeu com uma opo inusitada. Um guindaste de 100 toneladas, com capacidade para suportar carga de at 20 toneladas (a rea protegida pesa 16 toneladas), desde o dia 18 de dezembro faz s vezes do pilar de uma das extremidades da passarela, ameaada de ruir. A secretaria sustentou que a melhor soluo para manter de p a passarela de pedestres foi mesmo a de instalar o poderoso guindaste. Para dar ainda mais conana ao pblico, a secretaria disse que a deciso foi partilhada pela defesa civil estadual. Ambas garantem no existir risco de acidente para os que continuam a usar essa via, agrantemente deteriorada.O guindaste foi alugado, em carter emergencial e urgente, empresa Movimento, de Barcarena, a mil reais a diria. O contrato, de 45 dias, resultar em despesa de 45 mil reais. L pelo dia 23 de fevereiro, uma nova passarela, j em construo, ser instalada no local. Os pedestres podero voltar a andar tranquilamente por sobre a estrada e, l embaixo, os condutores de veculos deixaro de se preocupar com a possibilidade de desabamento da estrutura. At hoje, porm, a secretaria no explicou o que a impediu de colocar em prtica a primeira soluo que anunciou: a colocao de faixa de pedestres e de semforos na prpria estrada. Algum tempo atrs, foi essa exatamente a opo adotada quando os carros no puderam mais usar o elevado do Coqueiro de acesso Cidade Nova, que estava em obras. Um semforo impediu o avano dos veculos que trafegavam pela BR na direo de Belm, permitindo o retorno dos que precisavam de uma nova via de acesso Cidade Nova. A justificativa dada pela Setran, de que no h semforos disponveis na praa, no convence. No que se duvide da informao. Mesmo que seja verdadeira, a secretaria poderia comprar o equipamento em outra praa, se no quisesse deslocar semforos de uso menos intenso na regio metropolitana da capital paraense. Afinal, esse trecho da BR316 tem o maior fluxo de trfego do Par e, j em permetro urbano, um dos mais perigosos. Algum pode alegar que, mesmo que essa iniciativa fosse adotada, o uso do guindaste seria inevitvel. Sem essa sustentao, a estrutura iria abaixo. No entanto, a Setran no deu essa informao, ao menos quando cogitou da faixa de pedestres e do semforo. Parecia que a simples interdio da passarela afastaria a ameaa da sua queda. Uma vez que o guindaste no seria necessrio, o trnsito de veculos no ficaria atravancado como agora, com duas das quatro pistas bloqueadas pelo equipamento. Sua presena causa inquietao, inclusive por no ser essa uma cena normal. Ainda que tudo que a secretaria informou seja correto, j que vai gastar R$ 45 mil com o guindaste, poderia adicionar mais uns poucos mil reais para reforar a proteo do que mais interessa: a integridade das pessoas. assim a administrao pblica no Par.Em vdeo Sem compromisso rgido com a periodicidade, espero voltar a postar comentrios em vdeo sobre a Amaznia no Youtube, pelo link https://youtu.be/X1OJAiPHbkc, sob o ttulo A Amaznia segundo Lcio Flvio Pinto: introduo. O primeiro comentrio foi bem recebido por alguns leitores. Alvssaras! Lucio Flavio Pinto: tens, alm de todo teu capital de conhecimentos vastos sobre tema Amaznia, a potncia de honradez e dignidades que so essncias do teu brilhantismo intelectual e pessoal, e a generosidade mpar de defender um patrimnio da Humanidade criminosamente dilapidado por grilagem e desmatamento, sob vistas tcitas das autoridades. Resistir preciso! Obrigada. Sempre. Muito boa a ideia. Complementa muito bem a leitura dos seus textos de forma amena, rpida e personalizada. Parabns. Excelente a iniciativa, Lcio Flvio Pinto. Agora teus leitores podero acompanhar tuas preciosas anlises pela dinmica do discurso ao vivo.

PAGE 6

6 A ltima utopia na fronteira colonialH vrios anos apresento minha ltima utopia para buscar uma sada para a Amaznia que no seja a bitola que lhe foi imposta h muitos anos: a expanso da fronteira pelo desmatamento, aps o qual se estabelecem atividades produtivas destinadas exportao de matrias primas. Ou seja: uma fronteira colonial. A resposta tem sido o silncio absoluto. De Manaus, Charles R. Clement, bilogo, um dos mais antigos pesquisadores da regio, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia), aceitou o convite para refletir sobre a proposta. Seu texto, na forma de uma carta, a seguir, confirma as qualidades do seu autor: penetrante, profundo e provocador. Talvez consiga, com a crtica que fez, atrair mais pessoas interessadas nesse debate.Caro Lcio, Quando voc estava detalhando sua ltima utopia como contraponto sua anlise certeira da fronteira colonial (JP642, outubro), eu estava terminando um ensaio que mostra o contraste entre o passado indgena e o subdesenvolvimento atual, intitulado Da domesticao da oresta ao subdesenvolvimento da Amaznia. Sua ltima utopia tem muito a ver com a oresta domesticada pelos povos nativos da Amaznia ao longo dos ltimos 10 mil anos, pois voc sonha que a sociedade moderna pode desenvolver a Amaznia com a oresta em p, com respeito natureza, aos povos indgenas e tradicionais etc. Eu tambm gosto deste sonho. No entanto, sua anlise da fronteira colonial e minha do subdesenvolvimento sugerem que vai ser difcil chegar l desde aqui. Os povos nativos domesticaram tanto plantas como orestas, s vezes de forma concomitante. Pense nos castanhais, nos aaizais (especialmente os aas branco e chumbinho do esturio), nos bacabais, nos cacauais, nos tucumazais etc. Eles tambm domesticaram mandioca, batata doce, car, taioba, abacaxi, abiu, birib, pupunha etc., que plantavam em roas e quintais. Na poca da conquista europeia, a Amaznia tinha mais oresta do que roa, a populao era bem alimentada e saudvel, e, sobretudo, era muito abundante. No sabemos quantas pessoas viviam na Amaznia naquela poca, mas o padre Joo Daniel fala que foram descidos (escravizados) pelo menos 3 milhes de pessoas somente da bacia do rio Negro, frequentemente chamado do rio da fome porque suas guas so pobres em nutrientes. Se os portugueses podiam escravizar 3 milhes de pessoas de um rio de gua preta, imagina quantas pessoas deveriam ter vividas ao longo dos rios de gua branca! Evidentemente, a Amaznia no era uma utopia, pois os povos nativos so gente como a gente, bons de briga e intriga, cavam doentes de vez enquanto, e certamente tiveram chefes chatos. Esta Amaznia foi transformada na fronteira colonial que voc to bem retratou e, inspirado em sua anlise ao longo de 40 anos, que eu chamei de subdesenvolvido, que nada mais do que o termo politicamente correto para a colnia. Os brasileiros, aqueles que vivem na parte geogrca do pas que declarou independncia de Portugal, e especialmente aqueles que vivem em Braslia, acreditam piamente na velha propaganda da poca militar: integrar para no entregar. No existe integrao coisa alguma! A Amaznia passou de colnia de Portugal para colnia de Brasil em 1823, e nunca houve integrao poltica, econmica ou social de verdade nos 200 anos de l pra c. Por que essa integrao importante? Porque para chegar sua ltima utopia precisamos da ao do governo central, mesmo que este governo no possa pagar toda a conta, como voc obser vou. Por que os governos estaduais no podem substituir o governo central? Porque nossas lideranas polticas so colonizadas tambm, anestesiadas pelos ltimos 50 anos de propaganda do governo central sobre a integrao imaginria de Brasil. Sempre que querem fazer algo em prol de seus Estados, a primeira ao ir a Braslia de pires na mo em lugar de se organizar aqui. Quando no recebem o que pedem, voltam para casa e pronto. Com o atual governo central pior ainda, porque este governo aprovou a emenda constitucional que limita a expanso do oramento central, deixando menos para ideias inovadoras de desenvolvimento, como sua ltima utopia, e menos para os Estados e municpios. Mas, no sonho tudo possvel, ento vamos sonhar que o governo seja federal em lugar de central e v contribuir, e mais ainda, vai ajudar a encontrar recursos internacionais. A prxima pergunta se a comunidade de cincia e tecnologia (C&T) tem o que necessrio para viabilizar sua ltima utopia? Em termos numricos, acho que tem, pois nas ltimas duas dcadas o nmero de pesquisadores com qualicao aumentou muito na regio e o nmero de universitrios tambm, com a expanso do nmero de universidades federais, estaduais e privadas. O problema ideias viveis que possam gerar resultados a curto e mdio prazo, os primeiros 20 anos que voc corretamente identicou com sendo crticos. O que uma ideia vivel? uma ideia que pode ser implantada rapidamente, gerar benefcios locais e ser replicvel em muitas partes da Amaznia. O nmero de ideias que podem ser implantadas rapidamente grande. O problema que a maioria no replicvel mesmo se geram benefcios locais. A razo que cada ideia depende no apenas no grupo de C&T que vai colaborar com comunidades locais para implant-la, mas de infraestrutura de escoamento, estocagem, beneciamento adicional, comercializao e exportao. Todos os seus leitores sabem que so os custos do Brasil, que nada mais so do que os custos de subdesenvolvimento, e tratam exatamente dessa infraestrutura. Na Amaznia, estes custos so maiores ainda, pois a regio mais subdesenvolvida do que outras partes do pas, como voc comentou na Fronteira colonial. Se implantar uma rede de kibutzim cientcos ser caro, resolver a infraestrutura de apoio para que essas ideias geram benefcios locais e nacionais ser mais ainda. Mas, j que estamos sonhando, fcil resolver. De a vem outra pergunta: que tipos de ideias a comunidade de C&T pode oferecer? No seu ensaio sobre a ltima utopia, voc lembrou dos zoneamentos ecolgicos e econmicos (ZEE) do governo central e dos estados. Os ZEEs

PAGE 7

7 foram criados com os conhecimentos e as perspectivas da poca em que foram desenhados. Por isto, eles esto focados em amenizar os impactos socioambientais das atividades econmicas convencionais pecuria, soja, fruticultura, aquicultura, extrao pesqueira, madeireira e mineral etc. De onde vm os conhecimentos e as perspectivas usados nos ZEEs? Da comunidade de C&T. Ou seja, essa comunidade boa em apoiar as atividades econmicas atuais, o que no surpreende, porque o governo central planeja e investe para que seja assim. Pense na Embrapa, que eu diria nossa instituio de C&T mais importante e bem-sucedida. Mas, a maioria de suas pesquisas para apoiar o agronegcio e pouco vai para ideias alternativas. a lgica do sistema. Isto azeda o sonho, pois vai exigir novos investimentos em criar uma gerao dentro da comunidade de C&T que possa orientar todos os novos mestrandos e doutorandos da ltima utopia em ideias alternativas. Ai, 20 anos no mais vivel, pois precisamos de pelo menos 10 anos para formar esta turma, assumindo, logicamente, que a comunidade de C&T tem a capacidade de fazer isto. Dada a composio atual da comunidade, acho que 10 anos um novo sonho. Num livro de 2015, Sapiens uma histria curta da humanidade Yu val Harari comenta que Homo sa piensdomina o mundo porque o nico animal que pode acreditar em coisas que existem apenas em sua prpria imaginao, tais como deuses, estados, dinheiro e direitos humanos. E utopias. Os direitos humanos so uma utopia que comeou a ser construdo no sculo passado. Ainda tem muito para fazer, mas mostra que uma ideia pode estimular as pessoas. Sua ltima utopia como a ideia dos diretos humanos 100 anos atrs. Foi proposta, mas ainda no encontrou adeptos. Mesmo que eu tenha identificado buracos no tecido de sua ltima utopia, a ideia vale tanto por si s, como porque a alternativa mais desmatamento, menos diretos humanos para amaznidas, e mais subdesenvolvimento para todos. A questo como chegar l desde aqui? Infelizmente, no tenho uma resposta.A tragdia da guaManaus tem a segunda tarifa mais cara de gua do Brasil e o quinto pior municpio em rede de esgoto do pas: apenas 10,4% dos seus habitantes tm acesso ao servio de esgotamento sanitrio. A situao era ruim quando a gesto era estatal. Continuou ruim depois da privatizao, embora a cidade tenha acesso a abundante fonte de gua. este o relato de Gina Moraes, em artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo. Tem interesse para os moradores de Belm, que h vrios anos travam um debate inconcluso sobre a privatizao da Cosanpa. Por isso, o reproduzo.piores municpios em coleta de esgoto, com apenas 10,4% dos moradores com acesso a essa rede. Para onde est indo o dinheiro que deveria ser usado para dar vida digna ao cidado, s famlias, s crianas? Somos ricos em recursos hdricos e tratados como miserveis, j que mendigamos um bem natural que temos em abundncia. O direito gua est ligado ao direito vida. direito universal! Ficar sem gua num clima como o nosso um insulto, um ultraje, uma vergonha. No Brasil, a lei n 9.433/97, que instituiu a Poltica Nacional de Recursos Hdricos e o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hdricos, ratica o direito gua das geraes presentes e futuras e a utilizao racional e integrada dos recursos hdricos, de forma que no podemos jogar para os escaninhos do descaso um tema to complexo e que tem transformado a vida de quem aqui vive num sofrimento dirio. As queixas no Procon, relativas questo da gua, tiveram um aumento de 40,2% somente no primeiro semestre de 2017. O pedido de socorro constante e a inrcia de quem tem o poder de resolver ou amenizar o problema vexatria e explcita. A caixa preta que existe em torno dos recursos recebidos pela prestao do servio de gua assombra a todos ns pela falta de transparncia na metodologia a m de determinar o valor da tarifa e os reajustes e, assim, cumprir a legislao. Essa tarifa deve ser denida pela Agncia Reguladora, confor me determina a Lei 11.445/2007 no art. 21, IV. Uma das questes saber para onde vai o valor arrecadado com a taxa de esgoto Segundo a Defensoria Pblica do Amazonas, os servios de tratamento e distribuio de gua, coleta e tratamento de esgoto no so realizados de forma satisfatria. Vamos seguir a trilha legal. O saneamento bsico um direito assegurado pela Constituio e denido pela Lei n 11.445/2007 e cujo objetivo propiciar a melhoria da qualidade de vida da populao, prevenir doenas, reduzir o impacto ambiental, alm de ser responsabilidade dos Governos Municipal, Estadual e Federal, cada qual com suas responsabilidades preestabelecidas. Observa-se, porm, um jogo de empurra, que somente prejudica a quem mais precisa: as vtimas empobrecidas por conta da incompetncia, da inoperncia e da negligncia. Ter acesso rede de esgoto e agua tratada, alm de ser um direito fundamental do cidado, questo de sade pblica e, onde no h acesso ao servio bsico, a populao ca exposta a inmeras doenas, como leptospirose, verminoses, entre tantas outras. At quando iremos tolerar tamanho descaso, falta de respeito s leis, aos cidados? At quando seremos excludos do banquete patrocinado pelo contribuinte e servido a alguns poucos? As molstias desse descaso adoecem a todos ns na medida em que adiamos a tomada de conscincia e do exerccio do direito inalienvel da cobrana e da cidadania.Na Amaznia, est um quinto de toda a reserva de gua potvel do planeta, sendo que 45% de toda a gua subterrnea do Brasil esto nesta regio, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geograa e Estatstica IBGE. O rio Amazonas o maior rio do mundo, tanto em volume dgua quanto em extenso. A Amaznia possui uma reserva de gua subterrnea com volume estimado em mais de 160 trilhes de metros cbicos, 3,5 vezes maior que o do Aqufero Guarani. Apesar disso, o cidado padece com a falta do precioso lquido e Manaus, a capital, tem a segunda mais cara tarifa de gua do Pas. Como justicar essa situao? No h explicao plausvel ou aceitvel para esse fato. Se a privatizao da explorao dos nossos recursos hdricos tinha como meta a ecincia e a eccia na prestao do servio, o objetivo no foi atingindo integralmente, j que a populao, apesar de ter sido beneciada pela natureza com abundncia de gua doce, sofre diariamente, no somente com a escassez da gua nas torneiras, mas, sobretudo, com o servio cobrado e no fornecido de esgotamento sanitrio, a par de uma tarifa abusiva, imoral, indecente e perversa. Pesquisa recente do Instituto Trata Brasil coloca Manaus no quinto lugar entre os

PAGE 8

8 vergncia era a vila Letcia, tendo o solar dos Doria de Vasconcelos (Valdemar, Palmerinho, Betina, Palmrio pai e Nazar) como epicentro. L, ouvia-se msica e jogava-se futebol de boto e gol a gol de cabea (em cuja competio eu era imbatvel, dado meu cabeo). Esse tem todo o nosso respeito. Patrimnio do Par. Tito Barata, meus parabns! Que entrevista. Excelente! Excelente. Lucio Flavio Pinto, preciso como um matemtico. Parabns aos dois muito boa entrevista. Esse cara bom. Achei fantstico! Exce lente entrevista. Lcio Flvio Pinto, histria viva do jornalismo paraense. Meu colega no Colgio Salesiano do Car mo,,brilhante, honesto, um jornalista com talento LFP Muito obrigado, Pedro. Aprontamos muito no Carmo. Eu Com meus caros amigos em 2018Uma entrevista que Tito Barata fez comigo no final do ano passado me deu grande alegria. No s pelo contedo da nossa conversa, mais uma da srie Papo no Tucupi, que ele divulga atravs do seu Facebook e pelo Youtube, mas pela possibilidade de dialogar com amigos, conhecidos e pessoas com as quais tive contato pela primeira vez. Decidi reproduzir parte das mensagens, com algumas das minhas respostas, como uma espcie de happening de incio de ano, a festa impressa que realmente gostaria de ter com aqueles que me acompanham. Em geral, so pessoas comuns, dedicadas aos seus ofcios e artes, dotadas de juzo crtico e bem intencionadas, com disposio para o dilogo e a comunho de vontades. Lamento que poucos ou mesmo raros dos mais antigos amigos e companheiros de viagem continuem omissos do debate pblico, para o qual muito poderiam contribuir. Seu silncio assinala o desaparecimento do intelectual pblico. uma perda, compensada, porm, por novos personagens e atores, que despontam ou debutam na paisagem social. Sou-lhes imensamente grato por sua presena e generosidade. Sem eles, eu j teria desistido da difcil misso que me impus atravs do jornalismo que faa. Desejo a todos um 2018 de possibilidades, promessas, desafios e realizaes. conversa.J Sensacional. O Lcio fez da prosso um sacerdcio. Mostra que no deve ser armazm de secos e molhados. O Tito se superou, sabendo que o mais importante a pergunta, tal como o Lcio respondeu quando a pergunta sobre a pergunta lhe foi feita. at agora, a melhor das entrevistas. Digo isso apesar do Lcio me ter ofendido, quando armou que o Dave Brubeck, era o Ray Coni do jazz. LFP Tempos de infantil radicalismo, caro JoF. O tempo tornou mais sereno o meu juzo. Uma compensao: o tema de abertura do programa Gente Jovem, de 1965, que criei na Rdio Guajar, era do Ray Coni. Podia ter sido tambm do Dave Brubeck. Na poca eu era fantico pelo Ray Conni e estava iniciando meu fanatismo pelo Brubeck. Hoje, te dou uma certa razo. O Brubeck, foi apenas o incio de novos fanatismos, que mudam a cada semana. LFP Para quem no sabe, JoF um profundo conhecedor de msica, especialmente jazz, e integrava a tur ma da de Almeida. O ponto de confrequentava a livraria do pai, representante da Companhia Editora Nacional, uma pessoa maravilhosa. Comprei ali as obras completas do Bertrand Russel, incluindo os trs maravilhosos volumes da Histria da Filosoa Ocidental. Li tudo. E grande parte do estoque disponvel. LFP Ah, sim: o Pedro foi um colega muito querido, sempre ponderado, amigo de todas as horas. Jornalista independente, corajoso e competente. Parabns ao Lucio Flvio!! A-do-rei! Memria gigante! Ol, Lcio Flvio Pinto que honra a delcia desse lme. Sou lho do saudoso jornalista da Provncia e da Imprensa Ocial Jos de Ribamar Castro. Seu f de carteirinha e atravs dele que conheci seu trabalho e o Jornal Pessoal. Ele escreveu a histria de todos os governadores do Par, um grande historiador, jornalista e grande pessoa. Faleceu h 3 anos. Iria adorar essa entrevista, vou salvar e guardar para entregar-lhe numa outra vida de to boa que cou. Ele tambm gostava muito do Tito Barata. Morvamos na Domingos Marreiros com a 14 de Maro e o Tito ali na Domingos com a Generalssimo e ele sempre me dizia: esse o Tito Barata um grande jornalista. Abrao a vocs. Adorei a entrevista. Esse filme foi o meu melhor presente de Natal. Acreditem. LFP Obrigado pela generosidade, Roberto. Fui grande amigo do seu pai. Eu o estimulei a escrever os livros e apresentei pelo menos dois dos trs que foram lanados. Infelizmente, o Ribamar (que conheci dcadas atrs, em A Provncia do Par) se foi antes de completar a obra. Tenha orgulho do seu pai. Ele fez por merecer. Lcio Flvio Pinto me permita ter uma opinio diferente. Eu acho que voc est certssimo quando coloca o nome do Adnan como o grande nome hoje do PSDB? Ser um erro colocar o Pioneiro. Acho sim que vai ser o Adnan o can-

PAGE 9

9 didato, mas acho tambm que ele vo entrar para ganhar. Ele vem trabalhando calado h anos para isso. Tem um trabalho feito j no Par que quando apresentado vai surpreender a todos. fogo, mas se ele no for o candidato quem perde o Par. Se for o Pioneiro ou qualquer outro o governador vai ser o Helder. Quanto a Paragominas, morei l 6 anos. Hoje o Adnan se elege prefeito l sem fazer campanha. a maior liderana poltica daquela regio sem sombra de dvidas. LFP O Adnan tem mesmo se preparado para ser o candidato do Jatene. Mas ainda h fogueiras pelo caminho at uma deciso ocial. Com certeza. Feliz Natal, Lcio, sou seu f de carteirinha. sempre um enorme prazer falar com voc. Quem sabe a maior liderana poltica hoje do Estado. Com o peso necessrio para derrotar os Barbalhos. Vamos aguardar. L cio Flvio Pinto, voc o cara. Para bns amigo. Lucio Flvio Pinto denitivamente um expoente do Jornalismo Internacional e tupiniquim, um profundo conhecedor dos assuntos amaznidas!!! Lcio Flvio Pinto, um nome neste Estado de quem podemos nos orgulhar. Amaznida nato!! LFP Muitos anos atrs, escrevi um texto: O que ser amaznida. Vou atrs dele para republic-lo. o que devemos ser: conscientes do que viver na Amaznia, sob condies amaznicas. Aprendi esse ter mo em uma recente palestra com o senhor! Me senti orgulhoso da ddiva que nascer neste lugar! Obrigado, professor! Lcio sempre muito sincero e inteligente em sua vida. Tem minha admirao sempre, por sua integridade. Coisa praticamente em extino. Gente. Lcio Flvio Pinto patrimnio raro da nossa terra. Nossa, o Lcio quando comea a contar os bastidores da poltica e da histria paraense de car parado, s escutando. Imagina o que ele no tem pra contar sobre os bastidores da elite hipcrita paraense. Parabns, Lcio Flvio Pinto. Uma honra para todos os paraenses. O ano era 2007, Belm foi a cidade escolhida para uma das edies da ento SBPC, sociedade que rene em um evento todas as cincias. Na abertura da mesma o brilhante jornalista Lcio Flvio Pinto foi homenageado e fez um breve discurso, breve, pormincisivo e direto na problemtica de nossa regio amaznica. Porm, oe algo que me marcou em seu discurso foi uma clebre frase de Fernando Pessoa, s que com retoque clebre de nosso jornalista: tudo vale a pena quando a alma no pequena... e a inteligncia grande. Tenho hoje 33 anos e trago comigo essa frase retocada cm maestria at hoje. Conheci o trabalho de Lcio Flavio Pinto na escola, seus textos at ento eram muito utilizados nas aulas de geopoltica da Amaznia, bem como tambm na extinta disciplina, que nem sei se hoje existe, Estudos Paraenses. Desde adolescente eu fazia a inteligncia ser grande sem saber, obrigado Lcio LFP uma graa poder exer cer alguma inuncia na formao de uma pessoa como voc. Obrigado pelo seu testemunho. Grande jor nalista e comentarista poltico. Inteligentssimo, e acima de tudo ntegro e de uma educao nota 10. Aquele abrao Lcio. Do Arlindo Vidonho Dr. Lcio Flvio, que nossa gerao e futuras possam honr-lo como um dos poucos brasileiros que merecem o respeito por sua luta na prosso que abraou, em favor da verdade, com patriotismo, que deve ser apangio das pessoas que lutam pelo bem comum. Parabns e que sua luta continue por bastante tempo para gudio dos que o leem. Conheci seu trabalho ainda no ensino mdio e sempre leio suas publicaes sobre nossa regio, com bastante criticidade e atualidade. Parabns. Uma das maiores recompensas da minha vida merecer o testemunho de pessoas que me acompanham ao longo do tempo com a mesma conana que voc demonstra. J houve casos de adolescente que assistiu a palestra minha e cresceu lendo meus textos, como voc. Obrigado por essa ventura. De uma inteligncia mpar! Que memria fresca! Muito boa entrevista. Parabns, Lcio Flvio, voc merece todas as homenagens Conheci o pai do Lucio aqui em Santarm. De vez em quando leio o jornal dele e gosto muito. Parabns, Sr Lucio. Lhe admiro. Meu amigo Tito, parabns por essa entrevista, nos brindastes com o melhor jornalista do Para. O Lcio Flvio Pinto. Maravilhosa entrevista. Uma pena ter sido to rpida [durou quase uma hora ], pois ficou com gosto de quero mais. Parabns, querido Lcio Flvio Pinto voc tem e competente no que faz e merece todo respeito. Obrigada. Parabns, meu amigo, orgulho do Par! feliz Natal. Grande jornalista, pena que a cada dia cole mais na direita.........e essa direita j foi combatida e denunciada por ele outrora. LFP Qual a direita na qual voc acha que estou colando? A anti-petista s uma delas.....hehehe gua da entrevista! Uma verdadeira aula de histria! Amei! muito maravilhoso poder aprender contigo! Eu gostaria que as escolas da Amaznia inteira se dedicassem a ensinar sobre a regio para as crianas e adolescentes. Como podemos proteger algo que no conhecemos? exatamente isso, Cntia. S podemos valorizar, amar e defender o que conhecemos. Deviase tornar as disciplinas geografia e histria da Amaznia obrigatria em pelo menos um ano do ensino fundamental e em todo ensino mdio.

PAGE 10

10 Muito bom assistir uma entrevista com tanto contedo e com tanta histria. Obrigado. GUA MEU! SUPER LEGAL! BRA VSSIMO PELA COERNCIA! Lcio Flvio Pinto, um jornalista, escritor, intelectual que orgulha a sociedade paraense. Aprendi admirar o Lcio atravs do meu saudoso companheiro Joo Roberto Cavalleiro de Macdo que era um grande admirador desse grande jornalista. At hoje, tanto eu como a minha lha no perdemos um exemplar do Jornal Pessoal. Parabns pela inteligncia, imparcialidade e competncia. muito bom ler voc. LFP Muito obrigado, Hilda. Pelo apoio ao JP. E por me trazer a pessoa maravilhosa do Cavaleiro de Macedo, gura rara e exemplar. Grande abrao a voc e sua lha. Espero merecer sempre sua leitura. Imparcialidade no que se resume esse grande jornalista Entrevista brilhante! Parabns ao entrevistador e entrevistado vocs percebem do que falam. Um grande jor nalista em cuja matria que publica traz informaes relevantes pra sociedade. Vida longa a voc, Lucio. Parabns, Lcio! A grande referncia de jornalista srio e competente para mim durante todos esses anos! Um grande abrao! Tito foi brilhante e o Lcio, revelando um pouco dos bastidores da poltica paraense, e concordo com o fecho da entrevista, Pas rico povoado por polticos pobres de esprito, mentalidade... infelizmente Participei como ouvinte em vrias palestras e debates de Lcio Flvio Pinto. Tenho profunda admirao por sua pessoa e seu trabalho desde quando utilizei uma matria de seu jornal, durante um debate em sala de aula na oitava srie. Desejo a ele, um excelente ano de 2018. Agradeo a ele pela oportunidade de ler trabalhos grandiosos! Grande, consciente e comprometido com a defesa dos interesses da sociedade. quase impossvel acreditar que tenha recusado tantos cargos pblicos, pois sabemos da mquina manipuladora. Lamentvel o silncio das universidades quanto s suas ideias serem levadas ao coletivo. LFP verdade, Mabel. O silncio da academia frustrante. Mas tambm sintomtico da recusa dos intelectuais das universidades pblicas de sair da redoma e entrar na luta do dia a dia. Entrevista re veladora. Um dos fatos que me chamou a ateno foi o jornalista armar que a falta de privacidade da poltica o afasta de cargos pblicos eletivos. No meu entendimento, Lcio seria um perl diferente a ser eleito, que estaria mais distante desse assistencialismo necessrio para alguns, no para ele. Seria o representante da sociedade que vota consciente. Parabns aos dois jornalistas pelo Papo no Tucup. Eternamente grato por ter sido aluno de Lcio Flvio Pinto. LFP Obrigado, Rogrio, que foi excelente aluno, alm de ser lho de um grande amigo de Tucuru, o Jos Ado. Agora companheiro de prosso da mesma qualidade. a esse amaznida srio e competente. Que continue a nos brindar com suas investigaes e textos isentos, sobre as coisas nossas, da Amaznia. Sucesso e sade Feliz ano novo. Obrigado, Lucio, pela sua contundente narrativa. Que Jesus Cristo lhe abenoe e o ano Novo seja repleto de realizaes e muitas bnos para voc e toda sua famlia. Ainda bem que temos um patrimnio assim, que se mantm ntegro.Parabns. Lcio Flvio Pinto. Sou f da sua produo, embora discorde de algumas posies polticas. Voc sem dvidas, o maior patrimnio intelectual que temos. LFP Muito do que aprendi, eu aprendi com quem discorda de mim. Quem me critica com fundamento e honestidade de propsito me obriga a estudar mais e admitir a minha ignorncia. Esse merece respeito. Parabns, Lucio. Brilhante e coerente como sempre Feliz 2018 Somos gratos ao LFP pela estima com nosso av Stlio. Sempre muito lcido e coerente. Quando prefeito de Belm, em 1967, Stlio Mendona Maroja me entregou o prmio internacional conferido pelo Lions ao auto do melhor ensaio sobre o tema A paz possvel?. Segundo Floriano Jayme, assessor de imprensa do Lions em Belm, foram editados quatro milhes de exemplares do opsculo, espalhados pelo mundo. Depois desse dia, as portas do palcio Antonio Lemos sempre estiveram abertas para mim, abertas pelo elegante Augusto. O prefeito conversava com o adolescente como iguais. Stlio j trazia uma das mais brilhantes biograas de poltico da repblica. Mito!!!!!! LFP Obrigado, Cristina. Saiba que nunca deixei de acompanhar o seu trabalhoi, de aprender com o que faz e de admir-la. Grande abrao. Voc inspirao. Sempre foi! Bjo. LFP Quanta honra e quanta responsabilidade, Cristina. Obrigado por ser to generosa comigo. Eu sou sua admiradora. Voc nosso orgulho. LFP Conheci a Marta mais de 40 anos atrs, quando ela era pretora em So Domingos do Capim e mandou libertar os posseiros do conito da fazenda Capaz, a terra dos americanos, entre a Belm-Braslia e a ento PA-70. Eles foram presos ilegalmente por for as federais e mantidos em cativeiro, sob a suspeita de, ao matar trs integrantes da famlia, estarem praticando terrorismo contra os Estados Unidos. S porque o choque, resultando nas mortes, foi no dia 4 de julho de 1976, data do bicentenrio da independncia americana. Foi a primeira de uma srie de atitudes corajosas e lcidas que ela tomou na sua exemplar carreira jurdica. Marta conquistou seu lugar na histria recente da expanso da fronteira na Amaznia. Parabns, Tito Barata, pela entrevista, sou admirador da inteligncia, conduta tica do Lcio Flvio Pinto.

PAGE 11

11 Cony: entre a graa e o tormento interiorDois gneros de intelectuais sempre atraram meu interesse, curiosidade e, eventualmente, respeito: os convertidos, se desviando da vida secular na direo da religio e os renegados, na direo oposta. Foi essa condio, de pessoas com uma marca profunda, da superfcie do corpo alma, que me fez ler tudo que o ex-padre Antonio Torres escreveu, no incio do sculo XX. Como tambm acompanhar a carreira de Carlos Heitor Cony. Numa de suas ironias bem ambguas, ele disse que seu nico desejo profundo era o de ser padre. Todo resto veio das cir cunstncias da vida. Era uma maneira de creditar o que a passagem pelo seminrio lhe forneceu, do grego ao latim, da teologia losoa. Mas tambm ser original, nico, diferente. Meu primeiro contato com Cony, que morreu no Rio de Janeiro, no no dia 5, a trs meses de completar 92 anos, foi em 1962. Eu fazia a minha costumeira ronda pela livraria Martins, a melhor de Belm, ancorado numa conta corrente que meu pai abrira para mim, sem limites, exceto o do bom senso. Fui atrado pelo ttulo do livro, Informao ao cruci cado (dar bons ttulos s suas obras foi uma das qualidades que Cony cultivou no jornalismo). Comecei a ler ali mesmo e terminei antes do dia acabar, em casa. Foi paixo primeira leitura. O seu Gama, o principal funcionrio da Martins, mandou buscar para mim tudo que Cony escrevera at ento, de co e crnica. Quando ele estourou na praa com seu primeiro trabalho poltico, O ato e o fato, eu j o apreciava como um cronista dos costumes, satrico, sarcstico e independente de dogmas, uma fbula para quem tentara ser padre. Sem levar a vocao ao m, sara do seminrio com o valioso patrimnio da cultura humanista, herana dos bons seminaristas. Como foram os casos, dentre tantos, como o de Antonio Torres, um ferrabraz levado a renunciar batina (que merecia ser reeditado por inteiro). A primeira stira ao golpe militar de 1964, Cony a escreveu no dia 1 de abril mesmo, na sua coluna no Correio da Manh, at ento dedicada aos temas existenciais e loscos, mas com pitadas industriais de ceticismo e iconoclastia. Era dever e prazer de quem no se incorporara ao batalho dos vencedores ler Cony. Quando o vi pessoalmente, eu prprio estava no jornal de dona Niomar Moniz Sodr Bittencourt. E no gostei do que vi: um homem extremamente vaidoso, numa admirao com tamanho inversamente proporcional ao do seu corpo de baixinho. Essa impresso no interferiu na minha admirao pelo escritor. Prossegui a leitura el at Pilatos de 1974. Mas a dedicao e servilismo de Cony a Adolpho Bloch me desviou do que ele escreveu nesse perodo, assinando embaixo, quando no deveria (pois eram trabalhos geralmente de encomenda), ou como ghost-writer do patro amigo. Cony deixou de ser uma referncia para mim. Seu primeiro romance em 20 anos me imps retomar o fascnio, graas a Quase memria, do mesmo nvel da co anterior, ou superior. O apreo, porm, voltou a declinar com as obras seguintes, as de maior vendagem, e pela sujeio de Cony ao fascnio da prosperidade e da fama, culminando com o episdio da indenizao milionria que recebeu pela anistia poltica, um comrcio da conscincia a preo de mercado. No entanto, continuei a admirar seu flego pela autopromoo e sua dedicao ao trabalho, em vrias direes, das tradues s adaptaes de textos alheios, em obras coletivas e no que me parece a condio na qual se tornou realmente imortal: a de cronista. Se a crnica uma criao brasileira, Carlos Heitor Cony est entre os cinco maiores dentre os seus cultivadores. Ao longo da sua surpreendentemente longa vida, ele me causou vrias decepes. Mas o prazer, a alegria e o conhecimento que me proporcionou ao escrever superam em muito essas contingncias da vida. Foi um dos mais prolcos escritores brasileiros, um dos melhores do nosso tempo. Um autntico companheiro de viagem por um pas ao qual nos dedicamos, mesmo quando j no acreditamos nele, como o prprio Cony. Novo golpe chileno?O pior escndalo da histria do Banco Mundial estourou no dia 13. Foi quando o economista-chefe da instituio, Paul Romer, revelou que o Bird teria alterado dados sobre a competitividade chilena por motivaes polticas. Ele disse ao Wall Street Journal que alteraes foram feitas em um ranking sobre competitividade no ambiente de negcios, para provocarum desempenho inferior do Chile durante o segundo mandato da presidente socialista Michelle Bachelet, iniciado em 2014. O economista-chefe do banco explicou que a metodologia usada na elaborao do ranking foi alterada em diversas ocasies para que a competitividade do Chile tivesse resultados negativosnos ltimos quatro anos. Estas revises podem ser particular mente relevantes para o Chile, cuja posio no ranking tem sido especialmente voltil nos ltimos anos e foi potencialmente afetada por motivos polticos da equipe do Banco Mundial, disse Romer reportagem do jornal americano de economia. De acordo com Romer, durante o governo de Bachelet, a competitividade caiu do 33 lugar em 2015 para 120 um ano depois, pelas mudanas constantes na for ma de medir o ndice, e no pelas medidas econmicas adotadas pelo governo chileno. Elas foram muito combatidas pelo empresariado, que apoiou a candidatura do milionrio SebastinPiera, vencedor das eleies presidenciais do ano passado para suceder Bachelet. Com este cenrio, o investimento estrangeiro no Chile caiu cerca de 40% em 2017, o pior nvel desde 2006. Romer pediu desculpas por ter manipulado de forma injusta e enganosa a lista, mas garantiu que os nmeros sero corrigidos. Como ele chileno, falta denir se agiu por conta prpria, enganando os seus superiores em Washington, ou se houve conivncia com a fraude. Na segunda hiptese, a manipulao caracterizaria um novo golpe, de tipo bem diferente, contra um governo de esquerda no Chile. O primeiro, muito sangrento, foi contra Salvador Allende, em 1973. O governo americano e os empresrios conservadores ou de direita se uniram para derrubar o governo e varrer a esquerda do poder. A revelao tambm abalou a credibilidade dos organismos internacionais multilaterais, estatais e privados que lidam com os nmeros da economia internacional. Como as agncias de crdito. O escndalo acontece exatamente quando uma delas, a Stadard&Poors,rebaixa a nota de crdito do Brasil, com implicaes polticas, nanceiras e econmicas de grande amplitude. a motivao que faltava para fazer uma devassa nessas instituies e conferir sua seriedade.

PAGE 12

12 SOLTEIRO No incio de 1947, Elmir Machado Guimares, brasileiro, funcionrio pblico, residente avenida Tito Franco (hoje, Almirante Barroso), 727, a m de evitar exploraes com nome idntico ao seu, sentiuse obrigado a divulgar pela imprensa um anncio, no qual declarava que solteiro, nunca tendo contrado matrimnio nem neste pas nem no estrangeiro POETANingum menos do que o poeta Mrio Faustino estava entre os trs primeiros funcionrios que a direo da SPVEA (Superintendncia do Plano de Valorizao da Amaznia) indicou para bolsistas da Escola Brasileira de Administrao Pblica da Fundao Getlio Vargas, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1955. As bolsas faziam parte de um acordo com a FGV, objetivando proporcionar treinamento, nas atualizadas tcnicas administrativas, de uma aprecivel percentagem de jovens da regio, de reconhecido talento e preparo cultural, assim atraindo-os para os servios pblicos. Mas tambm atender as necessidades presentes e futuras de pessoal competente para os quadros da superintendncia da Amaznia. Alm de Mrio Faustino dos Santos, que trabalhava no Setor de Divulgao, foram selecionados Rubilar de Barana e Raimundo Monteiro Malato. Na ento capital da repblica, o paraense adotivo (piauiense de nascimento) se rmaria como um dos mais brilhantes intelectuais de sua poca, como poeta, crtico literrio e ensasta, alm de tradutor. FERROVIA Em julho de 1961, a Estrada de Ferro de Bragana comunicava aos seus clientes que estava colocandomquinas diesel-eltricas na linha Belm-Icoaraci, que encurtaro para 30 minutos o tempo da viagem. Nos dias teis as sadas de Icoaraci seriam s 6 e 13,30 horas, enquanto os trens partiriam de Belm s 12 e 17,30hs. Nos domingos e feriados, as sadas de Belm seriam s 8 e 14hs e as de Icoaraci, 12 e 17,30hs. Os trens paravam no Entroncamento, Uma, Beng, Tapan, Tenon e Agulha. Se a populao de Icoaraci prestigiasse a iniciativa, a administrao da estrada de ferro poderia colocar em circulao mais trs trens dirios, s 9, 15 e 21 horas. Quatro anos depois, o gato federal comeu a Estrada de Ferro de Bragana. CLNICA Quem frequentasse a Clnica do Dr. Luiz Barbosa, na Padre Eutquio, vizinha do atual Shopping Ptio Belm, em 1961, tinha direito a ducha eltrica, massagens eltricas, faixa eletro-vibratrias, forno triplex, focos redutores, bicicleta mecnica, rema-rema, rotociclo eltrico, leito mgico relax, leito vibratrio eltrico, rolo moldador eltrico e outras maravilhas do tratamento do corpo, alm de um tratamento para emagrecer completo, ao custo de trs mil cruzeiros (de ento) por ms e acesso a toda a parafernlia instalada na clnica, pioneira em Belm. CASAMENTO Anncio publicado como se fosse notcia na Folha do Norte em 1961, sob o ttulo Casou a filha e no vendeu tal como foi escrito: Sobre a notcia publicada no Flash de ontem com o ttulo Vendeu a filha por cinco milhes, estiveram em nossa redao os pais da jovem dr. Frederico Pinto e esposa, para desmentir a denncia. Na verdade a moa casou, por livre e espontnea vontade, aps dez meses de namoro e noivado, tendo seus pais viajado para Goinia a fim de conhecerem a situao do pretendente. Este desquitado e sua ex-esposa tem trs lhos e ele prprio no lho nico, pois tem mais quatro ir mos. Tambm, possui fortuna prpria no dependendo de ningum. PROPAGANDAO filme da liberdadeA trs meses do fim da Segunda Guerra Mundial, em maro de 1945, o Olmpia exibia Paris nas trevas, um culto norteamericano mais vigorosa afirmao de f no destino da nao que foi o bero da liberdade, a Frana. Os Estados Unidos simbolizavam ento essa liberdade. O filme era exibido em trs sesses: a matinal a trs cruzeiros, a vesperal a Cr$ 5 e a noturna a Cr$ 7. Simultaneamente com o Iracema, o cinema que ficava no largo de Nazar (onde est hoje a Lojas Americanas).

PAGE 13

13 O casamento realizado na Baslica de Nazar foi devidamente autorizado pelo Arcebispo Metropolitano de Belm. Quanto aos bens, passou-os exclusivamente em nome dela a m de dar alguma garantia futura. A transmisso dos bens foi efetuada no Cartrio Diniz em presena de testemunhas. O casamento foi presenciado pela famlia da noiva e pela me do rapaz e muitos amigos de ambos. CRIO Durante a quadra nazarena de 1964, 13 pessoas (do Par e do Maranho)venderam bales no Largo de Nazar, utilizando 28 cilindros de gs. Gastaram 228 latas de soda custica e 342 quilos de alumnio, enchendo 54.864 bales, comercializados entre os freqentadores do animado arraial do Crio. Nenhum acidente foi registrado, segundo o relatrio do responsvel pela scalizao da atividade, Amlcar Cabral, perito toxicologista da polcia. Em 10 anos nessa misso, ele registrava taxa zero de acidente. PROMOO Jair Rodrigues e Dalva de Oliveira animaram a festa organizada pelo colunista social Pierre Beltrand (Ubiratan de Aguiar) para proclamar Iza Neyde Moreira como a Miss Belm 1964 e apresentar as new faces daquele ano. Na Assembleia Paraense, com traje passeio completo. SENADO A terrasse do Grande Hotel abrigou um dos maiores e mais antigos senadinhos de Belm, que l se reunia para jantares de confraternizao. O de comeo de ano, em janeiro de 1966, porm, foi no restaurante do aeroporto de Val-de-Cans, numa longa mesa decorada com ores em castiais. No cardpio, o previsvel l de peixe ao molho de camaro e l de carne com batatas francesas, tendo o pudim como sobremesa, tudo acompanhado de vinho e champanhe. O docotidiano brinde foi puxado pelo advogado Joo Baptista Klautau de Arajo, seguindo-se uma homenagem ao presidente, Adriano Guimares, e breves palavras como seria de desejar do ento universitrio e corretor Eliezer Athias. Tambm estiveram nesse banquete os comerciantes Oswaldo Gur jo de Carvalho, Alrio Serruya e Ar mando Favacho Pereira, o industrial Ronaldo Romariz, o fazendeiro Oscar Bentes, o vereador Aldocir Cor deiro, os advogados Almrio Serruya e Geraldo Dantas, os universitrios Srgio Mattos e Srgio Couto, os secundaristas Jos Abrao Benchimol, Jos Alberto Ohana e Carlos Alberto Ohana, mais os funcionrios Francisco de Assis Farias e Rubens Oliveira. Todos democraticamente unidos pela amizade e o gosto pela palestra inteligente. Como tem que ser com senadores honorrios. GUARANS Alguma cidade do mesmo por te no Brasil teve mais marcas de refrigerantes do que Belm? Como a pergunta nunca foi feita, a resposta jamais foi dada. Mas essa uma questo na qual vale a pena pensar. De algumas quase no h mais registro, como os trs produtos (guaran, kola e, naturalmente, a rainha das aguardentes de cana, preferida do Oiapoque ao Chu) da Fbrica Igarap-Mir, de Pereira & Arajo, que funcionava na Travessa So Francisco, bem no centro de Belm. To antigo o Guaran Soberano. Mereceu verso, como este, meio de p quebrado: Tua frmula o mgico segredo,/ que refrigera, d sade, anima,/ e quem te bebe vive forte e ledo. J o sucesso de pblico fez o Guarasuco deixar de ser estritamente refrigerante para ser uma expresso de gria. Algum era chamado de Guarasuco porque estava em todas. Para reforar a imagem, o refrigerante patrocinava um campeonato colegial atravs da rdio e televiso (a Marajoara ainda era a nica). E tinha tambm o Sacy, que, talvez por se apresentar como guaran, se julgava do outro mundo. Um brinde aos nossos muitos guarans, neste clima que clama por um, desde imemoriais eras indgenas.FOTOGRAFIAO antigo aeroportoSozinho na imensido do antigo aeroporto Internacional de Belm, aparece um Clipper Boeing 307 da Pan American Airways, que em 1940 foi a primeira aeronave a possuir cabines pressurizadas. O aeroporto era tambm, ento, uma base militar de apoio s operaes dos Estados Unidos, que o construram.

PAGE 14

14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Blog: wordpress.com Palestras: contato: 999777626 Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com ANTOLOGIAO Par segundo os japonesesO primeiro choque do petrleo, em 1973, fez o Japo dirigir um dos seus principais eixos estratgicos para a Amaznia, em particular o Par. A regio e o Estado no eram novidade para o governo e os cidados japoneses. Mas sua experincia em ambos estava ligada ao campo, nas culturas de juta, pimenta do reino, hortifrutigranjeiros. A sbita e drstica elevao do preo do petrleo pelo cartel dos produtores selou a morte da manuteno de uma indstria eletrointensiva em territrio japons, pas de pouca e cara base energtica. Era preciso fechar as fbricas de metal na ilha e reabri-las onde fosse vivel. A maior delas seria instalada a 20 mil quilmetros, na rea de Vila do Conde, em Barcarena, a 50 quilmetros de Belm, Ele viria a atender 15% das necessidades de alumnio do Japo. A montagem desse projeto se tornou uma verdadeira saga, na qual os japoneses se aplicaram desde 1973. No ano seguinte, eles convidaram, para visitar o pas, o engenheiro Fernando Guilhon, que a Assembleia Legislativa elegera como governador (a eleio direta fora abolida), para iniciar seu mandato no ano seguinte. Guilhon foi, gostou muito e trouxe de presente uma magnfica espada de samurai para decorar seu gabinete, no palcio Lauro Sodr. Trouxe tambm a ideia de pedir aos prprios japoneses que elaborassem um verdadeiro plano de desenvolvimento do Estado. Uma instituio japonesa atendeu rapidamente o pedido. O documento permanecera sigiloso at eu divulga-lo, em maro de 1975, em O Liberal. Relendo agora a matria, me pergunto: as proposies de maior amplitude, para fomentar a industrializao do Par, eram a cereja do bolo, para dar-lhe melhor aparncia, quando o que interessava era instalar um centro produtor de alumnio primrio destinado ao Japo? Na poca, havia essa dvida. O empreendimento era grandioso demais para as acanhadas dimenses que tinha a economia paraense. S os japoneses, criadores do projeto, tinham diante de si uma perspectiva mais larga. Ainda assim, tratando de um tema de vanguarda na poca, o jornalismo cumpria a sua misso, de inserir na agenda diria dos cidados uma questo da qual ele ainda no s apercebera. Assim, lhe oferecia a possibilidade de intervir nos acontecimentos, o que, infelizmente, no aconteceu nem ento nem hoje. O Par o cenrio de uma histria da qual no se d conta. Por isso, no rompe sua condio colonial.Na prxima edio concluirei essa reconstituio com a reproduo da anlise que fiz do documento japons. Os tcnicos e empresrios japone ses, autores do documento, consideram que o planejamento da rea metropo litana da Nova Belm deve ser capaz de acolher naturalmente os projetos in dustriais de grande porte devidamente avaliados e conscientes de que tais pro jetos constituem em fatores relevantes no desenvolvimento global do Estado do Par. Analisando as caractersticas regio nais, os japoneses concluem aglomeradas, num sentido litorneo ou interiorano, constituem o modelo ideal para o Estado: O desenvolvimento industrial do Estado, indubitavelmente, ser dividido em doa grupos, devendo constituir-se, funda mentalmente, de um grupo que aproveite os recursos naturais do tipo e outro que aglomere na cidade o tipo . INFRAESTRUTURA: EXIGNCIAS? As indstrias primrias, utilizando as matrias primas bsicas, continua riam a se localizar, como tradicional mente ocorre no Brasil com indstrias pesadas, na orla martima ou nas mar gens dos rios, exigindo, porm, uma ampla infraestrutura1. Esse suporte abrange um sistema porturio, rede de circulao capaz de assegurar o abastecimento e suprimen to estvel e constante de matria prima, ampla rea industrial e de solo resistente e aproveitvel, alm de abundante ener gia eltrica e outras energias. As indstrias urbanas, aquelas que dependem das concentraes e con dies de circulao urbanas, tm um carter interiorano, prestando-se pro duo de produtos beneciados. Assim, enquanto a indstria pesada seria litor nea, as urbanas se localizariam nas cida des existentes e adjacncias, aglomeran do-se num centro industrial. A regio metropolitana da Nova Be lm, que os japoneses situam na bacia do rio Tocantins, e a regio de Santarm, na Empresrios japoneses esto interessados em participar no apenas da montagem de uma usina de alumnio em Vila do Conde. Ele tambm querem instalar um complexo industrial em rea que no que distante mais do que 100 quilmetros de Belm. Para isso, o Japan Industrial Land Center elaborou, a pedido do governo do Estado, um planejamento do desenvolvimento regional do Norte do Brasil, que quase um plano regional de desenvolvimento, segundo a tica japonesa.

PAGE 15

15 bacia do Tapajs, seriam as reas adequa das para a instalao de um complexo industrial de produo primria e de in dstrias de ipo urbanas. As regies de So Flix do Xingu, na bacia do rio Xingu, e Alenquer, Monte Alegre e Almeirim, na rea do rio Amazonas, seriam as ideais para o desenvolvimento da minerao e indstrias independentes. As regies de Belm, Altamira, Itaituba e Soure, na ilha de Maraj, seriam as adequadas para a instalao de produtos primrios. Atravs dessa seleo, os japoneses denem Belm e Santarm reas ur banas capazes de se tornarem suporte. Belm, Santarm, Altamira e Itaituba seriam reas urbanas vantajosas ela in terconexo com a rede rodoviria prin cipal (Belm-Braslia, Transamaznica e Santarm-Cuiab). So Flix do Xingu (nquel e cobre), Alenquer, Monte Ale gre e Almeirim (calcrio) seriam reas urbanas privilegiadas pela existncia de recursos minerais); e Soure(papel e re cursos orestais) e Altamira (pecuria) como reas urbanas privilegiadas para indstrias primrias. A NOVA BELM Mas em uma regio classicada como Nova Belm que se concentram os interesses dos japoneses. Essa regio abrange toda a Zona Bragantina, os mu nicpios litorneos e cidades estratgicas na baa de Maraj e boca do rio Tocantins, numa faixa perifrica que atinge at 100 quilmetros de extenso, onde se concen tra metade da populao paraense (1,4 mi lho de habitantes), e que em 1985 dever chegar a 2,5 milhes de habitantes. Os japoneses acreditam que nessa rea, com pouco mais de 400 mil qui lmetros quadrados, podero ser im plantados cinco centros industriais, com funes diversas, mas integradas ao cen tro polarizador, Belm, que possuiria, em seus prprios limites, trs diferentes distritos industriais. No esquema mon tado, com informaes erradas e uma viso geralmente distorcida, os japoneses acreditam ser possvel uma comunicao rodouvial entre os diferentes centros e distritos, alm de uma especializao de funes perfeitamente racional. Na seleo do tipo de indstria para a regio de Belm, os japoneses aconse lha aquelas que atendam aos reclamos nacionais, mencionados no Plano Na cional de Desenvolvimento, e que aten dam, simultaneamente, os reclamos do Estado do Par, conjugados, ao mesmo tempo, no enquadramento das condi es de localizao e adequaes regio nais e Belm. Sugerem projetos para borracha, acar, cacau, frutas, pimenta, arroz, sistematizao do reorestamento, cria o de gado, explorao dos recursos minerais existentes e construo de hi dreltricas de grande capacidade. Considerando as condies infra estruturais, os japoneses preveem que justamente aquelas industrias que visam aproveitar os recursos oferecidos pela in fraestrutura devem se localizar na regio de Belm, enquanto as indstrias que de pendem de mo de obra devero se espa lhar procura de trabalho barato. AS INDSTRIAS DE VILA DO CONDE Vila do Conde dever ser no s a sede de uma usina de alumnio, mas um importante centro industrial na regio de Belm. o que pretendem tcnicos e empresrios japoneses, mas preocupa dos com a atual inexistncia de infraes trutura, indispensvel para o funciona mento das indstrias nessa rea. Eles consideram indispensvel que, antes mesmo da instalao da fbrica, seja construda uma ligao rodovi ria entre Belm e Vila do Conde, numa distncia mnima de 150 quilmetros. O sucesso ou insucesso da localizao do centro industrial na rea de Vila do Conde se acha diretamente dependente da concluso dessa via de acesso dentro do panejado, diz o documento elabora do pelo Japan Industrial Land Center. Alm disso, se as materiais necessrios implantao desse centro industrial no puderem ser transportados por via terres tre, devido no concluso da rodovia, ser necessrio contar com o transporte uvial. Nesse caso ser indispensvel a construo de um cais com cerca de 200 metros de comprimento para que sirva de base receptora de materiais de constru o, observa o documento. REAJUSTAR TUCURU Argumentam ainda que o prazo de construo da hidreltrica de Tucuru, que fornecer energia a Vila do Conde, ter que se ajustar necessidade do centro industrial, mas no a explicam. Quanto ao fornecimento de gua indus trial, os japoneses acham possvel obt -la na baa do Maraj e nos rios Acar e Moju, alm de poos artesianos, cujo custo consideram elevado. Os japoneses no parecem mais pensar nas reservas de bauxita de Pa ragominas, muito mais prximas de Belm, como fornecedoras de matria prima para a fabricao de alumnio, e sim nas reservas do Trombetas, a 900 quilmetros da capital paraense. Sem explicar as razes da mudana, eles de niram trs alternativas possveis para o transporte de bauxita, por via uvial, at Vila do Conde, mas no sabem se esse transporte ser feito em navios ex clusivamente para minrios ou em bar caas rebocadas. Dizem tambm que possvel construir residncias e organizar Vila do Conde como uma cidade exclusiva para aqueles que iro morar no centro industrial. Os projetos em curso le vam necessidade de grandes somas na construo de infraestrutura capaz de suportar esse impacto desenvolvimen tista. Constatam que esse fato mais importante do que a construo do pr prio centro industrial. Por isso, no se pode dizer que Vila do Conde possua excelentes condies de localizao. UMA INDSTRIA POUCO Por outro lado continua o docu mento investindo grandes somas na for mao de infraestrutura para estabelecer um centro industrial exclusivo da fbri ca de alumnio, torna-se difcil absorver o custo do investimento. Propem, por isso, a montagem de um complexo indus trial, composto no por um tipo, mas por vrias atividades industriais. As possibilidades econmicas da rea no se limitam ao transporte de bauxita do Trombetas at Vila do Conde e ex portao do lingote de alumnio que ser produzido, mas, aproveitando esse en sejo, poder ser cogitada a formao de centro industrial na orla da baia do Ma raj, com o aproveitamento de abundan tes recursos naturais para ali trazidos. Para o funcionamento desse centro industrial, os japoneses pensam na re alizao de trs obras fundamentais: a rodovia Belm-Marab, j em constru o, com nanciamento japons; a pon te da ilha do Combu, que completar a ligao por terra entre Belm e Vila do Conde, e, e um porto na orla da baa do Maraj, com capacidade de atracao para navios de 20 mil toneladas. Embora escolham Vila do Conde ara sediar esse porto, os japoneses acham que o seu tamanho e as suas instalaes devero ser decididos com base na pos sibilidade de desenvolvimento do porto exportador de Oriximin e as condies de navegabilidade do rio Amazonas.

PAGE 16

Os ardis da imprensa e a defesa do pblicoA imprensa precisa ser acompanhada com muita ateno pela sociedade. Lidando com a informao, deve adotar uma rigorosa linha editorial para no enganar ou manipular o pblico, colocando seus prprios interesses acima das necessidades coletivas. A esquerda costuma defender uma forma estatal de controle (e coero) como a nica vlida ou ecaz. Mesmo que revestida pelas melhores intenes, esta uma frmula que resultou em perdas e prejuzos maiores, o remdio superando em efeitos colaterais negativos os eventuais benefcios. Para mim, o controle tem que ser difuso, democrtico e baseado na lio histrica de que o Estado, ao se imiscuir no exerccio da liberdade de pensamento e de expresso, um macaco em loja de louas. Como no famoso poema de Eduardo Alves da Costa, depois de arrancar a primeira or da liberdade, ele arrasa o jardim inteiro, sob a acomodao e o medo de todos. O problema de singrar pelo caminho saudvel a desateno ou o despreparo da sociedade para travar um dilogo amadurecido e produtivo com a mdia. Algumas entidades e os inter nautas, atravs do seu principal instrumento, o uso arbitrrio e sem fundamento da desconana, repulsa ou dio grande imprensa, disseminaram a noo de que os veculos de comunicao mentem sempre e so, por natureza, malignos. preciso acabar com eles. A TV Globo o principal alvo. A emissora brasileira tem vrios dos defeitos da mdia mundial, que, porm, nos pases mais ricos, no enfrenta tamanha hostilidade. Mas possui tambm algumas virtudes especcas, como a cultura novelstica, sem paralelo no mercado internacional. Ela faz falcatruas, usa o seu poder nos bastidores e comete outros tipos de irregularidades. Ainda assim, o seu saldo positivo, como positivo o balano dos grandes jornais e revistas impressos. H muitos anos defendo teses, que acredito originais e ecientes, sem merecer um nico comentrio da prpria sociedade. Como em outras situaes semelhantes, co a me perguntar se serei estpido ou louco. Talvez as duas coisas, j que insisto em oferecer minhas propostas. Uma delas consiste em se impor s empresas de comunicao, a par tir de certo ndice de audincia (para emissoras de rdio e televiso) ou de tiragem (para os impressos e assemelhados), obrigatoriamente organizadas sob a forma de sociedades annimas, o oferecimento de aes ao pblico em cada aumento de capital. Nenhum subscritor de aes poderia ter mais do que 1% do capita votante, oferecido por edital, diretamente ou atravs de qualquer tipo de ligao, familiar, de amizade ntima ou de negcios. Por sua vez, os controladores principais (ou familiares) no poderiam ter mais do que 50,1% das aes ordinrias, isoladamente ou em conjunto. Com as garantias que o acionista minoritrio passou a ter, o mais credenciado crtico da mdia poderia interferir nas suas deliberaes, mas com um p dentro da organizao, com seu dinheiro nela aplicado, ainda que em pequenas propores. Outra sugesto a criao de um conselho de administrao, a ser for mado por representantes (sem remunerao) de acionistas majoritrios e minoritrios, e de assinantes. A misso do colegiado seria cuidar da linha editorial da publicao (ou emissora) e eleger um ombudsman, ou ouvidor dos leitores, remunerado, com mandato anual, direito a uma reconduo, no demissvel, e com espao para a divulgao da sua avaliao semanal. O ombudsman tambm seria o responsvel pela seo de cartas e mensagens. Mais uma sugesto: a criminalizao da recusa ao direito de resposta. A empresa jornalstica que retiver carta ou mensagem, a si enviada, sobre tema de que haja tratado, por mais de 48 horas, ter cometido crime de recusa ao direito de resposta. Bastar ao missivista, uma vez comprovada a entrega da sua correspondncia empresa (atravs de cartrio ou pelos correios, por aviso de recebimento), apresentar uma interpelao judicial, juntando as provas do que alega. A empresa pagar uma multa pesada por cada dia de recusa publicao. Na reincidncia, sofrer ao penal, atravs de denncia do Ministrio Pblico, por violar a garantia constitucional da liberdade de expresso. Volto a estas questes ao constatar que mais uma fraude ao leitor, na sua condio de consumidor, est sendo praticada pela imprensa paraense. H bastante tempo, a edio de domingo dos jornais sai no incio da tarde de sbado. No fenmeno mundial ou nacional. Os principais jornais brasileiros fecham suas edies dominicais no nal da noite de sbado. Assim, esto em condies de dar notcia do que aconteceu ao longo desse dia, como um ver dadeiro jornal domingueiro. At publicam, na capa da edio, o horrio em que o jornal cou pronto. Seus leitores no compraro gato por lebre, na for ma de uma edio falsamente dominical, gelada como um cadver. A burla avanou nos ltimos meses. A pretexto de reunir numa s edio a cobertura jornalstica em datas festivas, como natal, o m de ano ou o Crio, os jornais de sbado e domingo (ou de feriado) saem numa s edio e por preo maior, embora circulem mesmo em dia comum da semana. O Liberal foi alm disso no ltimo domingo. Alegando que preferia deixar a edio especial pelos 402 anos de Belm para domingo, economizou papel da edio da data do aniversrio da cidade e fundiu as edies de sbado e domingo, no maior de todos os pacotes impressos da histria da imprensa paraense. S que, ao invs dos dois reais da edio de dia de semana, cobrou R$ 5 pela verso dominical. Vamos dizer que a circulao paga tenha sido de 20 mil exemplares. A empresa faturou R$ 60 mil a mais em funo desse ardil. J 0 Dirio do Par mesmo tendo publicado sua edio de aniversrio no dia 12 mesmo, acompanhou o antigo inimigo, juntando as duas edies em uma s. Ningum protesta? Ningum toma providncias? Ningum vai ao Procon? O SCUL O XX DIRIO Em 10 anos, a srie Memria do Cotidiano proporcionou aos seus leitores uma viso ntima e ampla do dia a dia de Belm e do Par ao longo do sculo XX. uma histria mida, mas cheia de vida, de grandes personagens e de heris annimos. NAS BANCAS E LIVRARIAS