Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o aPOLTICA Sem alternativa Se dependesse s da sua vontade, o governador Simo Jatene deixaria o cargo em abril e se candidataria ao Senado, colocando uma pessoa de inteira conana como seu substituto a partir da. O sucessor garantiria o apoio da mquina ocial para Jatene e sua lha, Izabela, que vai disputar uma vaga na Cmara Federal pelo PSDB, um salto expressivo na carreira poltica, possvel apenas pelo respaldo do governo do pai. Essa hiptese no factvel. Jatene no cona no seu vice, Zequinha Marinho, que do PSC. Marinho, que tem sua prpria mquina, graas ao rebanho evanglico, manifestou vrias vezes o desejo de ser o sucessor de Jatene, caminho que considera natural a partir do momento em que se tornar o titular de um mandato tampo de governador. Seria preciso convenc-lo do contrrio, tarefa que no se tem revelado O PSDB controla o poder poltico no Par h duas dcadas. Mas no tem um candidato prprio para enfrentar o seu maior adversrio: o PMDB de Jader Barbalho. Tem que recorrer a aliados, nos quais no confia. A definio, como sempre, depender da mquina pblica.fcil, nem mesmo para Jatene, com a chave do tesouro estadual em seu poder. Marinho tem planos prprios para o futuro. Por isso, elegeu a mulher, Jlia, deputada federal. Pela mesma razo, resistiu a todos os cantos de cisne para renunciar junto com o governador. Irritado, Jatene decidiu, por impulso prprio, sem consultar outros tucanos, lanar, para suced-lo, o presidente da Assembleia Legislativa, Mrcio Miranda, que de outro partido, o DEM. Mrcio vem preparando, j h bastante tempo, o seu caminho para o Senado. Sem expresso eleitoral no Estado, ele s poderia vir a se interessar pelo governo se Jatene permanecesse no cargo at o m. Ou, atropelando o governador, se estabelecesse uma negociao direta com Zequinha

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2 Marinho, compondo com ele um acordo, em torno da candidatura do vice titularidade. Nesse caso, Jatene seria rifado. Se o atual governador considera imprescindvel no car sem um mandato eletivo (e seu respectivo foro privilegiado, anteparo para darlhe mais proteo contra processos judiciais) a partir de 2019, ento vai precisar escolher a alternativa menos desfavorvel. Isto signica sujeitar-se a uma eventual traio de Zequinha Marinho, em mais um captulo da maldio dos vices, uma tradio na poltica brasileira (e mundial). Do contrrio, ter que abdicar do projeto de continuar agregado a uma instncia do poder poltico. Quando a sucesso no Estado comeou a ser objeto de especulao, dizia-se que a opo preferida de Jatene era o seu secretrio Adnan Demachki. Ele tem um perl mais tcnico, com pouca penetrao mesmo na sua base poltica, onde quem mais manda seu aliado (ou ex) Shidney Rosa. Adnan tinha um perl parecido ao do prprio Jatene, que s chegou poltica (dando um salto fenomenal) graas ao apoio incondicional e abusivo do governador Almir Gabriel. De poste eleitoral, Jatene se tornou o recordista em eleies para o governo pelo voto direto, com trs mandatos (dois deles sucessivos). Adnan, porm, perdeu peso poltico at em Paragominas e se desentendeu com Izabela Jatene, por motivos ainda no claramente denidos. Sua viabilidade eventual depende completamente da permanncia de Jatene no governo, no qual ele desempenha o papel de principal ponte com o mundo empresarial e os projetos prioritrios, fora os da sade, sempre os preferidos dos tucanos. A corte de Jatene gostaria que ele no se afastasse do cargo. Apesar de controlar o poder poltico no Par h duas dcadas, o PSDB no tem um nome capaz de enfrentar Helder Barbalho, tutelado pelo pai, o senador Jader Barbalho, e com apoio preferencial do governo federal, em particular do presidente Michel Temer. Se a eleio fosse hoje, o ministro da Integrao Nacional seria o novo governador. Ele ainda tem pela frente uma corrida com obstculos, sobretudo dois: a Lava-Jato e a permanncia de Temer na presidncia da repblica. O ministro um dos investigados, juntamente com o pai, pelo grupo tarefa da Lava-Jato. Temer continua sujeito a chuvas e trovoadas. E mesmo cumprindo seu mandato at o m, poder se ver em tal diculdade que deixar de dar apoio ao correligionrio. Ainda assim, Helder um espantalho para o PSDB. O ministro venceu Jatene no primeiro turno da ltima eleio. Talvez tenha cantado vitria antes do tempo e diminudo a intensidade da campanha para o segundo turno, quando a mquina estadual foi mais eciente. Agora, porm, se no houver um acidente de percurso, entrar na reta nal com muito mais vantagem do que quatro anos atrs, graas ao posto e aos recursos dele derivados que lhe permitiram iniciar sua campanha eleitoral antes do tempo. Se conseguir sucesso, mais uma vez o futuro do Par voltar ao seu passado. Parece no lhe restar alter nativa melhor. falta de um nome verdadeiramente novo, a dos tucanos continuar o marcar de passo que tem distanciado o Estado dos demais da linha de frente da federao. Par isso: sempre dependendo da mquina pblica, usada por quem a controla para no dar oportunidade aos adversrios. Um eterno plebiscito pelo atraso. O combate de Jatene no setor mineralA agncia oficial de notcias do Estado, registrou o desagrado do governador Simo Jatene em relao ao texto da Medida Provisria, aprovado na semana passada pelo Senado, que aumentou as alquotas da Compensao Financeira pela Explorao de Recursos Minerais, a Cfem. Economista por formao, Jatene disse que a MP contm dois graves equvocos: um em relao ao preo das commodities no mercado internacionale outro sobre a concentrao do royalty no local onde est inserida a rea de explorao. O primeiro erro: eu sempre defendi que tivessem alquotas variveis que pudessem ser ajustadas dependendo do preo do minrio no mercado internacional. medida que voc tem uma elevao do preo do ferro, voc poderia ajustar essa alquota e teria condies de cobrar mais. Nesse caso teramos uma poltica de ganha-ganha, ou seja, os Estados e municpios teriam uma participao mais efetiva quando os preos internacionais fossem mais favorveis, quando voc tem preos mais deprimidos, voc teria condies de reduzir a alquota, para no pressionar e as empresas percam sua competitividade, avaliou o gover nador, segundo a Agncia Par. Jatene defendeu a desconcentrao do royalty em escala regional e no apenas na rea onde se situam os projetos de explorao mineral. O segundo equvoco: se continuaconcentrando a distribuio do royalty nos municpios onde se situa a mina. claro que onde voc tem a mina h um grande impacto, mas no d pra esquecer que esses grandes projetos tm impacto regional. Os municpios do entorno so profundamente impactados, tambm. Era uma oportunidade que se tinha pela elevao da alquota e elevao da base de clculo, que

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3 passou do lquido para bruto, em se distribuir por todos os municpios. Isso seria mais justo e isso teria uma outra consequncia, evitar que voc tivesse migrao dos municpios do entorno, mais pobres, na busca por servios no municpio onde voc tem implantada a mina, que tem maior volume de royaltys, ressaltou o governador. Como se viu na tramitao da MP, a influncia do governador paraense foi mnima, mas ele e o seu antecessor, Almir Gabriel, podiam ter feito muito mais h mais tempo. Por oito anos, o presidente da repblica foi seu correligionrio de PSDB. Justamente na gesto de Fer nando Henrique Cardoso, o Par sofreu dois golpes sucessivos: a lei Kandir e a privatizao da Vale. Nessa poca, Almir era o gover nador e Jatene uma espcie de primeiro ministro, o super-secretrio. O mximo que se ouviu de ambos foram sussurros claudicantes. No foram apresentadas as ideias que apregoa o agora governador (por trs mandatos, que, somados aos de Almir Gabriel, deram aos tucanos quase 20 anos de hegemonia no Par). Quando apresentadas pelos crticos, desde bastante tempo atrs, as teses nem foram consideradas. Passaram a ser incorporadas quando o poder federal j estava com o PT e caiu no colo do PMDB com o desastre Dilma Rousseff. Passaram a integrar o receiturio do PSDB paraense. S que ao invs de defender a alquota progressiva conforme a flutuao dos preos dos minrios no mercado internacional, o que dependeria de mais leis a cada ano, a sugesto original era a de participao do Estado nos lucros das mineradoras a partir de certo valor do lucro lquido que elas alcanassem, na forma de aes ou de contribuio para um fundo. Esse fundo atenderia ao apelo dos crticos, antes de se tornar bandeira de Jatene, para a extenso dos recursos da minerao s reas sob sua influncia indireta, evitando a aplicao concentrada nos municpios onde se localizam as minas. Simo Jatene, como quase sempre, demorou demais.Ferrovia paraense, negcio ser chinsO governo do Par assinou, na semana passada, um memorando de entendimento com um grupo empresarial do setor ferrovirio e um fundo nanceiro, ambos da China, que estariam interessados na obra da Ferrovia Paraense. Sintomaticamente, a solenidade foi realizada na sede da embaixada chinesa, em Braslia. Na ocasio, o governador Simo Jatene desdenhou seus adversrios polticos, os crticos e os pessimistas em geral. Mesmo a pouco mais de um ano do nal do seu mandato, ele est acreditando numa empreitada de mais longa maturao, como dessa ferrovia, com 1,3 mil quilmetros de extenso e custo de 14 bilhes de reais, que se prolongar pelo mandato do seu sucessor, mas que iria transfor mar a rea pela qual vai passar. Pode vir a transportar mais de 100 milhes de toneladas anuais, quase do tamanho da ferrovia de Carajs, operada pela Vale h mais de 30 anos. Os estudos que o governo realizou, liderados pelo secretrio Adnan Demachki (que chegou a ser apontado como candidato sucesso de Jatene) e pelo senador Flexa Ribeiro, garantiria a plena viabilidade do projeto. Mas como a licitao ainda no foi aberta, o que no entendi a natureza do memorando de entendimento com um grupo que pretende entrar no negcio. No signica conceder-lhe vantagem sobre os demais ou eventuais interessados, quase uma pr-licitao? O memorando, lavrado em ter ritrio simbolicamente chins, pode ser interpretado at mesmo como um basto de revezamento: o governo j fez a sua parte e agora delegaria poderes a uma empresa do ramo, com seu suporte nanceiro, e mais a premissa de incluso da Fepasa (que j foi nome de ferrovia paulista) no programa de nanciamento do governo chins, no valor de 20 bilhes de dlares. Ou seja: todos os lados do bloco atados. Um jogo de cartas marcadas? bom no esquecer que a China tem a segunda maior rede ferroviria do mundo, depois dos Estados Unidos, com 140 mil quilmetros de extenso. Mas em se tratando de trens de alta velocidade, a sua a maior rede do mundo, permitindo aos seus usurios rpida capacidade de deslocamento mesmo num pas imenso, incomparavelmente mais rpidos do que no Brasil. A China j foi muito alm do seu territrio. No ano passado, sua indstria ferroviria faturou 90 bilhes de dlares no mercado inter nacional. Vages de carga foram exportados para a Frana e a Inglaterra, e sucursais foram abertas na ustria e na Inglaterra. Com essa voracidade, o que se pode prever que acontecer na Amaznia, ainda mais com as vantagens dadas pelos governos? Alm de construir e ser dona das ferrovias, a China devolver ao nosso pas o minrio de ferro ,de Carajs que compra na forma de trilhos, trens e vages. Vamos logo tratar de aprender chins. O governador Jatene deve ter sado na frente.

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4 O rombo de Duciomar: 400 milhes de reaisDentre as principais obras que realizou durante os oito anos (entre 2005 e 2012) em que foi prefeito de Belm, Duciomar Costa, do PTB, transferiu ao seu sucessor (e aliado poltico) o BRT, de linhas de nibus especiais, que trafegam em corredores exclusivos, a macrodrenagem da Estrada Nova, o Portal da Amaznia, de revitalizao da orla da capital paraense, e a explorao de gs metano no aterro sanitrio do Aur. Zenaldo Coutinho, do PSDB, recebeu esses projetos e lhes deu andamento, sem question-los. No entanto, esses projetos levaram quatro entidades federais o Ministrio Pblico Federal, a Receita Federal, a Controladoria Geral da Repblica e a Polcia Federal a pedir justia federal a priso de Duciomar, consumada no dia 1 e transformada em priso domiciliar no dia seguinte). Graas a fraudes praticadas nessas obras e em outras, o ento prefeito teria conseguido desviar 400 milhes de reais de recursos pblicos, atravs de licitaes fraudadas, para empresas criadas por seus ex-assessores e at por sua mulher e sua cunhada. A companheira de Duciomar, Elaine Pereira, teria multiplicado seu patrimnio 200 vezes em pouco mais de 10 anos. A pergunta automtica que se faz : as obras que tiveram continuidade na gesto de Zenaldo foram expurgadas dessa corrupo, que levou a PF a executar a Operao Forte do Castelo, para prender os integrantes da organizao criminosa comandada por Duciomar? O universo de falcatruas, algumas escandalosas ou descaradamente explcitas, no se manteve na gesto do seu sucessor? O PSDB, que deu apoio a Duciomar e dele recebeu de volta esse apoio, est isento dessas mculas? Provavelmente essas ndoas continuariam expostas decorativamente no tecido municipal se as acusaes tivessem sido contidas nos mbitos estadual e municipal. Apenas as investigaes por rgos federais prosseguiram. Segundo o MPF, o total j chega a 15 inquritos ou aes judiciais. Um dia, eles teriam efeito concreto. O primeiro j ocorreu: o ex-senador perdeu seus direitos polticos por oito anos. Agora, ele inicialmente foi colocado em priso temporria, por cinco dias, enquanto os investigadores colhiam provas. Mas solto para car em casa apenas 24 horas depois, monitorado por tornozereira eletrnica. Duas delas, de alto valor simblico, estavam na residncia de Duciomar. Em plena poca de caa aos piratas do tesouro pblico pela Operao Lava-Jato, ele mantinha em sua casa, no luxuoso condomnio GreenVille, uma mquina de contar dinheiro e 210 mil reais em dinheiro vivo. Um cidado comum precisa de uma mquina para contar o dinheiro que guarda dentro da sua casa? Quem, em s conscincia, estocaria R$ 210 mil no lugar em que vive com a sua famlia, expondo todos a um assalto e atos seguintes de violncia? Ou entregaria aos agentes da lei as provas do crime? Gedel Vieira Lima guardou R$ 51 milhes, recorde nacional em todos os tempos. Duciomar, meio por cento desse valor. Mas, em termos absolutos, dinheiro demais para colocar na residncia, em todos os sentidos. No tinha aonde esconder? No acreditava que os representantes da lei chegariam a ele? No punha f na punio? Ou, anal, suas principais obras no esto em pleno andamento pelo seu sucessor e elogiadas pelo primeiro mundo e Belm, assim como o Portal da Amaznia ou a passarela do shopping Castanheira? O ex-prefeito alvo do Ministrio Pblico Federal h muito tempo. J foi condenado pela justia federal por falsicar seu diploma de mdico oalmologista. A sentena s no foi executada porque a ao prescreveu, to demorada foi a sua tramitao (e na justia federal!). Na justia estadual, parecia inatingvel. Agora que sua condio de um dos piores gestores da histria da cidade que a 10 mais populosa do pas, conrmada pela priso, a investigao seguir o rastro de atos suspeitos que os prefeitos de Belm tm deixado ao longo do tempo? o que a opinio pblica quer saber. A rede comandada por Duciomar se estendia, a partir de Belm, por Ananindeua, So Paulo, Braslia e Belo Horizonte, por onde a PF cumpriu cinco mandados de priso temporria, 14 de busca e apreenso e trs de conduo coercitiva.O grupo acusado de for mar um esquema baseado na criao de empresas em nome de ex-assessores do ento prefeito, que recebiam recur sos pblicos por meio de fraudes. At agora foram identicados prejuzos de pelo menos R$ 400 milhes. Segundo o MPF, as empresas eram contratadas diretamente pelo poder pblico ou eram subcontratadas por construtoras vencedoras de licitaes, como a Andrade Gutierrez, que r na Lava-Jato. Segundo os procuradores da repblica Alan Mansur e Ubiratan Cazetta, que enviaram justia os pedidos que deram origem Operao Forte do Castelo, a investigao do MPF, CGU e Receita Federal foi aberta a partir da identicao de conexes entre diversas outras investigaes, e buscou apurar a existncia de uma atuao conjunta entre pessoas que se vincularam, em praticamente toda a sua vida prossional, a Duciomar Costa, tendo como base car gos pblicos e empresas privadas que dependiam diretamente do ex-prefeito. Esses investigados tambm tm em comum o fato de nunca terem demonstrado capacidade nanceira para serem responsveis por empresas que, repentinamente, passaram a receber um volume signicativo de recursos pblicos, em contratos diretos com a prefeitura de Belm ou em subcontrataes por empresas que venceram ou tiveram dispensadas licitaes abertas pelo municpio. Foi identicado que as empresas B.A. Meio Ambiente, Metrpole Construo e Servios de Limpeza, SBC Sistema Brasileiro de Construo

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5 (antiga Varanda) e I9 Mais Servios de Comunicao conseguiram vencer ou serem subcontratadas em contratos pblicos de altos valores. Os donos das empresas terceirizadas eram subordinados ao ex-prefeito, a ento namorada e at a cunhada. Por meio dessas empresas terceirizadas os recursos eram distribudos ao grupo criminoso do qual Duciomar Costa era lder. Lembra a nota do MPF que, alm de ter sido impedido de concorrer nas eleies de 2014 e 2016, por ter sido condenado por abuso de poder poltico nas eleies de 2008, Duciomar est inelegvel pelos prximos oito anos com base na lei da Ficha Limpa, por ter sido condenado pela justia federal em outro processo. No total, o ex-prefeito responde a 15 processos na Justia Federal e 13 processos na Justia Estadual, a maioria por improbidade administrativa. A teia das empresas e das pessoas deve ser mostrada para que a sociedade acompanhe os desdobramentos da ao, conforme a listagem da PF: 1) Duciomar Gomes da Costa (priso preventiva e busca e apreenso de documentos e dados): ex-senador pelo Par (2002-2004) e ex-prefeito de Belm (2005-2012); 2) Elaine Baia Pereira (priso preventiva, busca e apreenso de documentos e dados): em parceria com sua irm, Ilza Baia Pereira, scia das empresas SBC Sistema Brasileiro de Construo Ltda. e Metrpole Construo e Servios de Limpeza Ltda.; 3) Ilza Baia Pereira (priso preventiva,busca e apreenso de documentos e dados): em parceria com sua irm, Elaine Baia Pereira, scia das empresas SBC Sistema Brasileiro de Construo Ltda. e Metrpole Construo e Servios de Limpeza Ltda. 4) Mrcio Barros Rocha (conduo coercitiva e busca e apreenso de documentos e dados): ex-assessor da gesto Duciomar Costa. Candidato a suplente ao senado de Duciomar Costa (eleies 2014). Proprietrio de agncia de publicidade; No foi encontrado 5) Delcio Donato Pantoja Oliveira(priso preventiva, busca e apreenso de documentos e dados): dono da empresa ST Sistemas e Transporte Ltda.; 6) Clio Arajo de Souza (priso preventiva e busca e apreenso de documentos e dados): j gurou nos quadros das empresas Metrpo-O mestre Danielle Construo e Servios de Limpeza Ltda., SBC Sistema Brasileiro de Construo Ltda. e ST Sistema de Transporte Ltda. Hoje scio da empresa Prestibel Construes Ltda, todas investigadas nesse caso; 7) Jean de Jesus Nunes (conduo coercitiva e busca e apreenso de documentos e dados): ex-assessor de Duciomar Costa em diversos dos cargos ocupados pelo ex-senador e ex-prefeito. Scio-administrador da B.A. Meio Ambiente Ltda.; 8) Yuse Leo Leito Siqueira(conduo coercitiva e busca e apreenso de documentos e dados): pro prietrio da empresa I9 Mais Servios de Comunicao Ltda., com contratos suspeitos sendo investigados; 9) Edson Evangelista Marinho Filho(conduo coercitiva e busca e apreenso de documentos e dados): foi gerente da empresa Andrade Gutierrez e responsvel por participar das licitaes durante a contratao, pela prefeitura de Belm, das obras Portal da Amaznia e BRT-Belm, durante a gesto de Duciomar Costa. 10) SBC Sistema Brasileiro de Construo (busca e apreenso de documentos e dados): empresa investigada. Daniel Coelho de Souza se formou em direito, pela ento faculdade isolada do Par, aos 21 anos. Foi em 1937, mais um dos anos que no terminou na repblica brasileira: Getlio o interrompeu com um golpe de Estado, iniciando a ditadura do Estado Novo. O jovem Daniel comeou imediatamente a advogar. Mas no ano seguinte publicou o primeiro dos sete livros que iria escrever ao longo dos seus 81 anos de vida: Os novos ideais junto com dois grandes intelectuais paraenses, tambm comeando a advogar e a enveredar por todo conhecimento humano. Eram Ccil Meira, mestre em literatura e linguagem, e Raymundo de Souza Moura (que chegaria ao Tribunal Superior do Trabalho). O livro era a defesa das luzes da inteligncia, um brado de humanismo, atado melhor tradio ocidental, contra a intolerncia, o autoritarismo e a barbrie que tomariam conta do Brasil at 1945. Um verdadeiro livro de poca, mas de densidade bastante para suportar o desgaste do tempo. S teve uma edio. Deveria ser reeditado. Quase meio sculo depois, Daniel Coelho de Souza se tornou o 6 reitor da Universidade Federal do Par. O ano era de 1981 e ele iria acompanhar, nesse posto, o m de mais uma ditadura (a mais longa e mais sanguinria de todas), com o ltimo general no alto do poder nacional, o medocre Joo Batista Figueiredo (apesar disso, tricoroado, como o melhor nas trs escolas de formao dos ociais brasileiros). Daniel levou para a reitoria pessoas que o regime impugnava, mas que ele avalizou e manteve at o m do seu mandato, em 1985 (alis, todos os seus mandatos foram nicos, fugindo da seduo da reeleio). A despeito de tudo, continuou a ser o humanista do incio da sua vida pblica. E mor reu assim. Rara gura nobre no horizonte estadual. O escritrio que fundou completou, no dia 4, 80 anos, sob o comando dos netos, lhos do seu autntico sucessor, Frederico Coelho de Souza. Podiam aproveitar a data para instituir um concurso anual de monograas sobre o grande Daniel e sua obra. Festa coerente com a trajetria do homenageado, discreto e eciente, calado e sbio.

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6 A invaso do campus: ameaa intelignciaA morte do ex-deputado Paulo Fonteles, em junho de 1987, teve um signicado histrico: o crime de encomenda de motivao poltica voltou rea de inuncia direta da capital do Par. No ano seguinte, outro parlamentar, o deputado estadual Joo Batista, foi assassinato, em pleno exerccio do mandato e em um bairro central de Belm, quando chegava sua casa. A extremada violncia rural se urbanizava. O fato devia ter servido de advertncia. Mas no serviu. O processo de ida e vinda da violncia, do campo para a cidade, foi incrementado pelo agravamento do uxo de violncia entre a periferia e o centro urbano. Deixou de haver distino entre os pontos de origem e consumao da violncia. O efeito foi tornar o Par um Estado de dramtica violncia, por qualquer critrio, em qualquer circunstncia. Na semana passada, porm, esse monstro, que ceifa vidas, abala estruturas e causa danos sociais e econmicos, assumiu uma nova face. Um grupo de 30 pessoas, lideradas pelo prefeito de Senador Jos Porfrio Dirceu Biancardi, pelo deputado estadual Fernando Coimbra, ambos do PSDB, do PSDB, e por trs vereadores, invadiu e tumultuou um encontro acadmico, convocado para discutir o projeto de extrao de ouro da Belo Sun, mantendo seus participantes em crcere privado, em pleno campus da Universidade Federal do Par. Ao invs de apresentar seus ar gumentos e se submeter ao debate, ogrupo coagiu os demais, com o evidente propsito de impedir a continuidade da programao, que tratava da implantao do projeto de extrao de ouro da empresa canadense no rio Xingu, abaixo da hidreltrica de Belo Monte, no municpio de Senador Jos Porfrio. O Ministrio Pblico Federal j se posicionou contra o empreendimento. H restrio em outros nveis. No matria pacfica, porm. Formaram-se dois lados, pr e contra o empreendimento. Assim, a instncia adequada para um debate na extenso e na profundidade adequadas a universidade, centro de cumulao de conhecimento especializado e saber geral. Essa condio foi afrontada e violada pelos defensores da Belo Sun, que agiram com espantosa desenvoltura. Puderam manter seus desafetos merc dos seus atos por um tempo inacreditavelmente longo, sem qualquer interveno da segurana do campus. Esse ato de violncia, que indito, no pode mais se repetir. Quem deve garantir a liberdade de expresso e a segurana de quem participar de eventos desse tipo a direo da UFPA, seja por seus prprios meios ou acionando o aparato estatal em seu auxlio. As pessoas atacadas registraram um boletim de ocorrncia. Espera-se que as autoridades apurem com o rigor devido esses atos, que denigrem os agressores, seus partidos e as causas que pretendem defender atravs da intimidao dos que se opem aos seus propsitos, conforme garantiu o reitor da UFPA, Emmanuel Zagury Tourinho, em nota ocial divulgada logo em seguida aos incidentes. Informou que solicitou a apurao detalhada dos fatos, assim como a devida responsabilizao dos autores da agresso. O pecado imperdovel que a universidade poderia praticar seria o de se deixar intimidar, abrir mo do seu dever e se afastar ainda mais da catica realidade nas frentes de expanso s fronteiras amaznicas. A violao da autonomia universitria pelos vndalos, defensores de um projeto polmico, que precisa ser submetido a uma avaliao crtica, no pode ser vir de exemplo a atentados futuros. A reao, agora, tem que ser sucientemente dura para impedir que a inteligncia, aplicada no meio rural e na cidade, seja mais uma vez punida.A nota do reitor repudiou a ao do grupo, que impediu a realizao da atividade acadmica programada e impossibilitou que os responsveis pelo debate ou quaisquer pessoas afetas UFPA sassem do auditrio para entrar em contato com o servio de segurana institucional ou com a Administrao Superior da UFPA. A coordenadora do encontro, Rosa Acevedo Marin, foi agredida verbalmente e impedida deexercer a liberdade de expresso e enfrentar os grandes debates nacionais com os instrumentos da cincia e do pensamento crtico, que so aspectos essenciais do trabalho das Universidades, no ensino, na pesquisa e na extenso, da o princpio constitucional que estabelece a sua autonomia. Obstar, nesse ambiente, a manifestao de ideias e posies sobre fatos de qualquer natureza impeditivo da prpria existncia da instituio universitria e merece ser intensamente repelido por toda a sociedade, disse o reitor, que considerou essa agresso tambm uma agresso ao Estado Democrtico de Direito e mais uma expresso do obscurantismo que anda a ameaar as mais importantes instituies do pas. Reiterou ainda que no ser tolerante com qualquer tentativa de intimidao de membros da comunidade universitria e tomar as providncias necessrias para resguardar o seu direito livre manifestao e difuso do conhecimento aqui produzido.Selecionei alguns comentrios sobre a questo como incentivo continuidade do interesse da opinio pbli ca, que deve acompanhar e cobrar as providncias prometidas. Jose Silva Ser que a UFPA sair da zona de conforto e passar a ser

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7 uma importantepromotora de debates e aes para a construo de uma nova Amaznia? Se sim, isso uma boa notcia. Evandro Oliveira J vi aluno invadir evento e querer calar professor, mas um prefeito, confesso que indito pra mim. LFP Cad os professores da UFPA, que no se indignam, que no falam, que no proclamam o valor da liberdade e repudiam a intolerncia? Bernard Creio que boa parte deles estejam amordaados por bolsas e convnios da iniciativa privada, sem os quaispouco poderiam pesquisar, dada a falta de recursos oferecidos pelo governo federal. Os que se manifestam so vistos como problema e dificilmente so agraciados com incentivos, por melhor que seja sua linha de pesquisa. Infelizmente, a maior parte das empresas celebram convnios onde muito se pesquisa, mas quase nada se divulga. O caso mais recente o convnio da Hydro, que se apropria de vrios laboratrios da federal.Curiosamente, o interesse na UFPA se tornou maior aps seus laboratrios e pesquisadores terem prestado relevante papel em ACP [Ao Civil Pblica ] movida pelo MPF e MP-PA pelos passivos ambientais de Vila do Conde. Graas a UFPA o passivo foi comprovado, caracterizado e dimensionado. Bernard Situao lamentvel essa. Atitude como esta, por si s j deveria bastar para um processo de falta de decoro parlamentar, no caso do nobre deputado, no?Medidas semelhantes deveriam ser tomadas contra o prefeito e vereadora. Agora, algumas curiosidades: 1) qual a razo de nenhum representante da mineradora ter aparecido justamente nesta reunio? Sendo que no dia anterior, estavam? 2) nesta mesma semana, o presidente do Simineral soltou uma nota de repdio aos manifestantes que paralisaram as atividades de sua empregadora, acusando-os de desrespeitosos aos direitos coletivos, inclusive o de ir e vir. No entanto, neste caso, que envolve um dos projetos que ele defende veemente, e os desrespeitosos foram do lado oposto, no coube qualquer meno.O maltratado corao do jornal: a reportagemReproduzo um artigo que inclu no meu blog, sobre o aniversrio de O Liberal, na edio comemorativa de todos os anos, por um motivo: depois que o texto saiu, lamentando a ausncia d reprteres no jornal e a sua atividade sedentria na capital, sem incurses ao interior do Par, a direo prolongou a srie por mais alguns dias da semana, fato indito, talvez, quem sabe, para negar a veracidade do que afirmei sem conseguir, ao meu ver,Na sua edio de aniversrio, O Liberal abriu uma janelinha para apresentar 34 dos seus prossionais, com suas fotos e um telegrco depoimento sobre suas atividades e os momentos mais importantes que vivenciaram. Foram ouvidos nove reprteres, seis editores, seis diagramadores (mais um designer), quatro fotgrafos, trs estagirios, um colunista, um redator, um ilustradore duas funcionrias administrativas. Se a notcia a matria prima mais importante de toda engrenagem jor nalstica, como proclama (com razo) uma das matrias da edio de ontem, a representatividade do reprter deveria ser maior. Quem vai s ruas para apurar informaes ou criar imagens que as ilustram so as peas-chave dessa estrutura. Os demais atuam na retaguarda. Este fato j um sintoma de certo desligamento da reportagem do dia a dia vivo das ruas e paragens remotas sob a sua jurisdio. Ainda mais porque o Par tem frentes de expanso em muitos pontos do seu vasto territrio. Mas ha outro fator agravante: os reprteres vo cada vez menos s ruas e s raramente saem como enviados especiais para cobrir acontecimentos fora da sede. Este o maior teste e a mais importante fonte de qualidade de um jornalista. Os reprteres que depuseram na edio se referem a rotinas do dia a dia em Belm (um s foi alm da rea metropolitana, segundo o seu depoimento), o que empobrece o exerccio de uma pross-o essencial para manter a sociedade bem informada. O que no acontece no Par.No comandoMenos de uma semana depois de ter sido preso, o ex-prefeito de Igarap-Miri, Ailson Santa Maria do Amaral, mais conhecido por P de Boto, personagem das redes sociais. Ele aparece em um vdeo em plena atividade, na cozinha da penitenciria Anastcio das Neves, distribuindo quentinhas aos detentos, entre palavres, piadas e comentrios, como se fosse o chefe do setor, totalmente desembaraado e com domnio geral da situao. O ex-prefeito foi para a cadeia acusado de ter cometido 15 homicdios em atividade de extermnio, de ter tentado mais oito homicdios, de participar de organizao criminosa, de obstruir ou embaraar, por trs vezes, o processo judicial instaurado contra ele, e de denunciao caluniosa. Com todos esses antecedentes, ele circulava livremente pelo municpio, apesar de estar sendo processado pelo Ministrio Pblico do Estado desde 2015. Seu advogado pediu e conseguiu que ele passasse da condio de foragido da justia para priso domiciliar, alegando que se fosse para uma penitenciria seria preso, em razo de sua fama. A previso, conforme demonstra o vdeo, de longa durao, deixou de se concretizar. Ou se concretizou de forma completamente oposta. P de Boto parece estar em casa ou quase, mais uma vez.

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8 Krajcberg: um artista no mundoSegue a segunda e ltima parte da entrevista que a professora e sociloga Marly Silva fez com o artista plstico Frans Krajcberg, que morreu no incio do ms. um documento de grande valor para a histria.Esse interesse pela natureza tem alguma inuncia da sua formao? No, foi a vida mesmo, no foi a escola, era tudo contrrio, a minha formao foi mais no abstrato, depois eu estava muito ligado com o expressionismo alemo... Se voc um homem sensvel, voc sofre muito na vida, por isso difcil viver com a sensibilidade que voc tem. Quando eu trazia madeira, pigmentos de Minas para trabalhar em Paris, eu me sentia muito isolado, eu sentia que estava comeando a car urbano, mas cada vez que eu fazia um trabalho sempre me faltava alguma coisa para completar esse trabalho. A eu pensava, puxa, se eu estivesse na montanha, eu achava logo, a fazer essa viagem para procurar... A um dia eu resolvi voltar denitivamente para o Brasil, a pensava ir para So Lus. Isso quando? Em 67, anos 70... Voc volta na poca negra, militares, ditadura... Eu estava na lista negra, eu tive muita diculdade no Brasil porque politicamente participava muito. Voc chegou a ser liado ao par tido comunista? Eu continuo a ser, mas eu no gosto de partidos, da religio dos partidos, mas sou marxista at hoje, no nego isso, nunca neguei, apesar de achar que o marxismo hoje seria um pouco diferente. Eu acho que a revoluo tecnolgico-cientca mudou tanto o mundo que eu acho que o marxismo tambm deve ser mudado; no poca de trabalho escravo, da primeira revoluo industrial, por isso eu acho, falando da arte, que ns somos completamente fora da realidade no movimento ar tstico. Porque a arte participao, acompanhar a evoluo do homem. Fazer arte por arte ou por mercado, a palavra arte no tem mais sentido, no tem mais lgica, por isso essa crise hoje uma crise real, porque a arte no est mais acompanhando a terceira revoluo industrial que ns vivemos, a informtica. Ns estamos num vazio completo, politicamente falando... e onde est a arte, fazendo o qu? Formas geomtricas que se fazia em Bauhaus, que foi a necessidade da segunda revoluo industrial, no tem sentido mais... Ns j estamos na terceira revoluo industrial, impressionante. Ento a arte entrou numa crise enorme, porque o mercado no deixa evoluir no sentido de acompanhar, porque hoje considerado um grande artista quando tem preo alto; esse o sistema americano, s vezes eles colocam para um artista que no tem sentido nenhum mas tem muito apoio, um preo muito alto, um absurdo... os ar tistas no esto mais acompanhando a evoluo, esto completamente fora. A que voc atribui esse fenmeno? grande fora do mercado. Quando houve, h trs anos, um debate sobre a crise aqui em Paris, eles caram muito assustados as galerias vo fechar, era o que se dizia, at o governo francs comeou galerias para no fechar, e isso, bem, pena que no querem dialogar, comeou o dilogo e foi abafado, e a crise se aprofunda, cada vez mais forte, e no querem ver, como no querem ver todos os problemas que existem politicamente... todo mundo foge da realidade e da ver dade, ningum suporta isso... no se fala mais da arte, se fala quanto custa, como vende, em que galeria est, tudo virou mercado, impressionante isso, no h mais participao; em todas as pocas a arte participou em tudo. Do seu ponto de vista, houve um momento em que a arte melhor cumpriu a sua funo na sociedade? A arte sempre acompanhou, mas eu acho que a ruptura com o academismo pelo impressionismo foi uma ruptura real, foi a necessidade de mudar, porque a sociedade mudava. Quando a gente v hoje em dia, a gente mudou tanto e nem se apercebe disso, eu no consigo mais acompanhar, impossvel acompanhar o impressionante avano cientco-tecnolgico. Destruio e preservao da natureza remetem ao movimento ecologista, busca de uma conscincia coletiva em nvel planetrio. O que voc acha do ecologismo, seria a expresso contempornea do humanismo? Eu no gosto muito dessa palavra ecologismo, ns temos um problema planetrio, mudanas radicais se processando, se a gente no para com isso... Precisamos participar para salvar esse planeta, porque o planeta seria muito mais feliz sem a gente, mas a gente precisa do planeta para sobreviver... Mas o homem s se lembra que existe a natureza quando h catstrofes, a ele se lembra que a natureza est se vingando... Esto machucando demais esse planeta, cienticamente a situao muito grave... Ao mesmo tempo, nunca o homem esteve to perto, em termos de conhecimento, da natureza. Precisamos participar, dar mais conscincia sociedade atravs do cinema, das artes plsticas, tudo que existe na vida cultural. Politicamente eu no sei aonde vamos chegar, o que vai ser o sculo XXI, ningum se prepara para supor tar o crescimento da humanidade. Eu vi aqui no Museu do Homem, ano passado, a exposio sobre o crescimento das cidades: So Paulo, 11 milhes de habitantes, vai chegar em 2020 a 17 milhes! Eu me pergunto: quem consegue viver hoje com 11 milhes, um inferno! Mxico, Tquio... A ONU prev chegarmos a 6 bilhes e, no nal do sculo XXI, a 14 bilhes. A terra no d para comer. Precisamos pensar sobre esses assuntos. Artista? Tem que participar desses assuntos. Artista tem meios, artista sempre foi vanguarda, porque agora ca se repetindo, copiando, continuar fazendo as mesmas formas da segunda revoluo industrial. Esse um assunto que se deve discutir cada vez mais e participar. A gente faz o que

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9 pode, no fcil a mudana, porque a penetrao do capitalismo selvagem to grande que difcil quebrar essa estrutura, e at agora eles esto fazendo tudo o que querem. E a Amaznia, tocou seu corao, a sua alma... Tinha muitos momentos que eu me perguntava se valia a pena continuar vivendo... foi a natureza que me deu alegria, ela me deu uma viso que a sociedade urbana no me d. Ento foi a natureza que me deu toda a possibilidade de sobreviver e criar, mostrar formas que o homem quer ignorar. Eu no quero copiar a natureza, para copiar tem a mquina fotogrca, mas criar com ela, porque mesmo a natureza precisa do artista, necessita da arte, do olhar, do sorrir, de abra-la... Ela cresce melhor, ela te responde quando a gente gosta dela. Isso me impressionou muito, e eu senti que a minha cultura a natureza. Mas em 1975 eu j estava no sul da Bahia, eu realizei uma grande exposio aqui em Paris, a primeira exposio com o nome de Georges Pompidou, e tive, duas ou trs vezes por semana, dilogo com o pblico; mostrava os meus slides e dialogava. E nesse dilogo eu senti que estava mudando, que no s eu deveria trabalhar com a natureza, mas defender com o meu trabalho essa natureza. Mudou completamente, comeou as grandes viagens para captar essa natureza. Quando eu vi todo esse massacre na Amaznia, o que z? Como meio para me expressar, eu pegava essa coisa morta para mostrar como foi violentada, destruda, e continuou cada vez mais forte, mostrando no mundo inteiro a violncia do homem contra a natureza, porque homem contra homem a poltica falhou, continuam se matando e a gente nem compreende porqu... a humanidade se destruindo, Agora mesmo a gente v os russos massacrando um povo e ningum abre a boca... a Iugoslvia foi dividida em cinco pases, por que? Viviam tantos anos juntos, no poderiam continuar vivendo? Tinham que se matar? pra outros entrar e dividir esse pas? So assuntos incrveis e isso sem dvida est me marcando cada vez mais... Voc chegou Amaznia no auge da implantao das fazendas, dos projetos agropecurios, minerais... Acompanhei muito, muito mesmo, mas pena que os anos esto passando e a gente est envelhecendo, mas a minha viso sobre o Brasil mais ampla, um pas muito rico e por outro lado muito miservel... pobreza que me machuca... Me pergunto sempre como possvel tanta riqueza que sai desse pas como contrabando, enquanto esse povo no aproveita nada dessa riqueza. Essa pergunta, no posso mudar nada, sou nada para mudar. Com meu trabalho, meus lmes, minhas fotos, levo uma conscincia mas quase nada, se tivessem muitos outros, sem dvida a conscincia crescia mais rpido, mas tenho conana que vai crescer. Voc j teve vontade de morar l? Eu quis morar no Mato Grosso de cima, mas a eu vi que ia car muito isolado, e j no queriam, eu tive muitos casos quando fotografava, de fuzis em cima de mim para no fotografar fogo. Fazem tudo para no falar desse assunto, e so sempre os mesmos que destroem, no o povo. um pas de cercas, isso lamentvel... h tantos casos para contar sobre a Amaznia e a riqueza dela. Porque a gente no deve esquecer que antes de industrializar a Amaznia, ela vivia de plantas, de coisas naturais... porque precisava entrar com uma indstria que todo mundo sabe que uma indstria de contrabando? Todo mundo sabe que as grandes indstrias no precisavam ir para a Amaznia, para viver com a maior diculdade do mundo; quem viaja sabe o que eu estou falando... cada ano tem mais fogo. Eu no sou contra que se aproveite a riqueza desse pas, pelo contrrio, tem que aproveitar para melhorar a vida do povo, mas o povo est cada dia mais miservel, a violncia no vem sozinha... Houve, anos atrs, uma publicidade na Alemanha, ns civilizados cortamos uma rvore e deixamos a oresta... na Amaznia, l no civilizado, se corta e bota fogo e destri toda a vida. Quando voc v as riquezas que essas orestas tm, a possibilidade de sobrevivncia dessas orestas, voc diz: como possvel botar fogo, se o povo da Amaznia pode sobreviver dessa riqueza? como possvel? Voc v no Acre milhares de castanheiras, tem uma lei: proibido cor tar castanheira, mas queimar pode [risos]... isso um absurdo, eu dei risada, no possvel... essa a estrutura que existe. Voc abre uma estrada na Amaznia, dois anos depois, 200 km margem da estrada no existe mais uma rvore, atrs do trator vem todo um exrcito de destruio, vem faz a cerca dele, depois vende e vai noutro lugar, e assim vai... Ento so estruturas que voc se pergunta: possvel isso mudar de imediato? no. E apesar de tudo, a conscincia cresceu muito, mas uma conscincia muito passiva, voc v, a televiso, mostra tudo isso, e ningum reage. Antigamente se dizia ah, o que isso, tem muita rvore, se tirar mais um pouco... agora, quando se per cebe que no tem mais uma rvore, que virou deserto, que a terra no ser ve para nada, tambm nem liga, vai mais longe. Ento tudo isso muito complexo no Brasil, e eu espero que um dia vai ter algum com mais coragem para parar tudo isso. Voc falou de suas descobertas em Minas, as cores, o talento para a escultura... E a Bahia? Como est sendo a sua experincia nesses quase trinta anos? Eu fui daqui para Bahia, na verdade eu ia para So Lus, mas no meio do caminho me convenceram que era um lugar maravilhoso, Nova Viosa, fui e gostei muito, tinha um pouquinho de pescadores, muito humano... depois mudou completamente, virou uma cidade grande, mais de dez hotis, os pescadores no tm mais dilogo, a pesca diminuiu muito, foi arrasada junto com as orestas. A oresta dessa regio sul da Bahia e Esprito Santo foi a mais rica do planeta. Em quarenta anos conseguiram destruir toda a oresta. Agora a mesma coisa est acontecendo com a pesca. Voltando um pouco sua obra. Esse ano voc ganhou o prmio Quem mais participa na cultura do Brasil, um reconhecimento tar dio mas um estmulo, sem dvida... No geral, como tem sido a recepo do pblico e da crtica de arte ao seu trabalho? Pblico, crtica, isso tudo relativo. Como disse, o meu trabalho est muito ligado com a natureza, muito ligado em defender a vida, gritar cada vez mais... mas se eu gri-

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10 tava na rua iam me botar num hospcio. O nico meio de gritar contra a violncia natureza o meu trabalho. Eu amo essa natureza, a minha vida, ela me d tudo. Veja bem, eu estou fazendo um trabalho, uma arte que no para mercado, que no para galeria... botar preo, publicidade, pagar um crtico que escreve bem... Agora, desde que cheguei aqui em Paris em 1958 at hoje, nunca tive uma crtica negativa ao meu trabalho... foi pacco, sempre me deixaram trabalhar... porque eu mostrava algo que, apesar de no ser para o mercado, apresentava uma revolta, uma ideia querendo defender a vida. Honestamente, eu dava do meu passado para defender essa vida, o meu trabalho gritar e gritar com voz alta. Mas fazer um trabalho para gritar no fcil! Ento, eu aproveitava a morte da oresta para mostrar no posso pegar as cinzas dos meus pais e centenas de pessoas dos fornos dos campos de concentrao... ento, esse passado sem dvida me marcou muito e me levou a mostrar e defender a vida. Se eu no tenho tanta fora para defender mesmo, politicamente, mas ultimamente estou vendo que foi bastante positivo todos esses anos da minha luta, o meu grito pela vida. Isso para mim foi bastante positivo, se no foi mundialmente, bem, no depende de mim, porque eu podia mais participar. Artisticamente, como eu disse, a predominncia o mercado, e como eu no fazia trabalho para isso, eu ocupava um lugar mais politicamente... isso o meu trabalho. Que perspectivas voc v para o prximo milnio e que mensagem voc deixaria queles que esto dando os primeiros passos no trabalho de criao artstica? -Eu vou ser bem curto. Eu par ticipo do Movimento Frum Global, mundialmente eu viajo muito e participo muito. Ns criamos muitos organismos em defesa do planeta, ns organizamos em 1991 uma das maiores manifestaes ecolgicas do planeta, tinha gente de todas as religies, polticos de todas as tendncias, todas as artes. Eu acho que a mensagem do Frum foi bem clara: que precisamos dialogar, nos preparar para o sculo XXI que vai ser um sculo urbano, que precisamos defender esse planeta cada vez mais para no destruir a gente mesmo e garantir o futuro da humanidade; precisamos ter mais conscincia e A Amaznia no mundoparticipar, principalmente os jovens para defender o trabalho deles e a vida... Artisticamente, o que posso dizer? Se voc quer fazer uma arte e pensa que logo vai ter mercado, galerias, museus, tudo isso, voc est fugindo do trabalho de arte. Voc tem que lutar pelo seu trabalho, pelo seu pensamento, e acompanhar a evoluo. Nada cai do cu, preciso lutar dia e noite para acompanhar a evoluo do homem, seno para que serve a arte? Agora, se voc est pensando em fazer uma coisa para mercado, outro assunto. Se voc produz para o mercado, vira uma indstria de objetos, se ele deseja isso deve continuar, mas quem quer participar mesmo, a luta tremenda. No a palavra engajado, ele faz o que acredita. Eu at hoje estou lutando de forma incrvel pelo meu trabalho. Quantas vezes me perguntaram: voc faz arte? isso arte? No, no pretendo fazer arte. Mas voc artista? no, tambm no. Mas o que voc est fazendo? Quero gritar pela vida, quero lutar pela vida, porque sofri demais. Se isso vlido ou no, outro assunto, no meu assunto. O meu assunto lutar pela vida, pois acredito na vida.(Texto publicado no n 21 da Agenda Amaznica, de novembro de 2001)Pensei que fosse autoexplicativo o texto que escrevi para o livro Conhecimento e fronteira: histria da cincia na Amaznia, organizado por Priscila Faulharb e Peter Mann de Toledo para comemorar os 135 anos do Museu Goeldi e os 50 anos do CNPq, reproduzido na edio anterior desta Agenda. A pergunta que o prefeito de Tucuru, Parsifal Pontes, me fez logo em seguida, atravs de sua coluna semanal no Dirio do Par ,indagando se eu era a favor da internacionalizao da Amaznia,contraditava essa minha convico, serena at ento. De pronto enviei uma carta a Par sifal para dizer-lhe que sou contra a internacionalizao da Amaznia, se era uma frase curta e grossa o que ele queria. No entanto, se escondia nesse formato categrico, frequente em palanques, mas no muito recomendvel a certo tipo de exerccio intelectual, a complexidade de uma questo que no interessa aos brasileiros formular e os amaznicos receiam enfrentar. H muito tempo venho tentandodesenvolv-la contra o dominante maniquesmo, pobre e falso, que justape soberania nacional a interesse mundial pela Amaznia. Temos desse captulo crucial da nossa histria uma viso caolha. O Brasil continua a exer cer total soberania sobre o vasto ter ritrio amaznico. Essa condio no perturba, porm, a espoliao dos recursos da regio, dos tangveis aos invisveis (ao menos aos olhos de hoje). A porta nacional ao capital inter nacional foi aberta desbragadamente e nossas leis, mais do que permissivas. Elas coonestam o estupro, a razo dessa esquizofrenia que nos assola: crescemos para sermos cada vez mais pobres, em funo de relaes de troca desiguais contra ns, claro, que no dominamos processos produtivos nem temos qualquer ingerncia sobre os circuitos do mercado mundial. Algo que Euclides da Cunha per cebeu na atividade do seringueiro, o trabalhador que, quanto mais trabalha, mais se escraviza, por ser explorado pelo dono do barraco, ao mesmo tempo comprador exclusivo do pro-

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11 duto da sua monocultura, com preo vilmente rebaixado, e supridor dos seus bens de consumo e produo, vendidos a preos escorchantes. Hoje, os produtos mudaram: ao invs de virem das rvores, que os despejavam do alto at o solo ou os ofertavam aos que fossem colet-los em seus galhos ou sangr-los em seu lenho, agora saem do tero frtil do subsolo, levemente melhorados (ferro, mangans, bauxita) ou ligeiramente beneciados (alumina, lingote de alumnio, celulose, ferro gusa, silcio metlico). O circuito de comercializao, contudo, basicamente o mesmo: vende-se por baixo e compra-se por cima. A relao de compra se estabelece com poucos, que nos impem preos e quantidades. O que proponho rever radicalmente (de radicare : ir raiz) as relaes entre nao e regio. E, ao mesmo tempo, estabelecer um novo status nas nossas relaes internacionais, de tal maneira que possamos controlar essa relao com o instrumento da soberania, do qual no renunciamos, e a fora da inteligncia. Sem os dois componentes vamos estar formalmente controlando tudo e, na verdade, servindo de instrumento para os interesses metropolitanos, seja os de Braslia (insensvel a ns) ou So Paulo (que nos saqueia selvagemente, como sempre fez com o ser to brasileiro), seja os de Nova York, Tquio ou Londres, que agora douram a plula para consumo externo. Para fazer a pergunta provocativa (estaria a uma defesa da internacionalizao da Amaznia?), Parsifal pinou do meu artigo este trecho: Uma avaliao rigorosa do balano entre construo e destruio, aferindo o grau de sustentabilidade (ou renovao em face das matrias primas) das atividades econmicas, dever resultar num balano negativo, numa relao de troca desfavorvel. Para a inverso desse resultado, a cooperao internacional se apresenta quase inevitvel. O preo a pagar seria o da internacionalizao do nosso maior recurso de futuro? Num raciocnio simplista e esquemtico, sim. Numa considerao mais rica, uma hiptese. E, como qualquer hiptese cientca, precisa ser testada, tendose o maior grau de controle possvel sobre as variveis envolvidas. A frase, evidentemente, se encaixava num conjunto. Parsifal extraiu-a do seu contexto e interrompeu o uxo do raciocnio do artigo. Ainda assim, a frase no amparava sua dvida a respeito da minha posio. Nela, digo que devemos intensicar a cooperao internacional (em padro e linha distintos do movimento do capital, com possibilidade de se antepor a essa lgica, que nos impor o destino de colnia, como aconteceu na frica e na sia), acompanhando-a como se faz numa hiptese cientca, tendo-se o maior grau de controle possvel sobre as variveis envolvidas. Isso signica dizer que precisamos dispor de um programa cientco e tecnolgico muito maior, mais profundo e mais atualizado do que o que o Brasil nos lega, como resduo da C&T nacional, que nos reserva 2% da verba brasileira, s abrindo exceo quando se trata de um desvio geopoltico, de uma sosticao parvenu como o Sivam (Sistema de Vigilncia da Amaznia). E uma autonomia que o atual sistema federativo, clusula ptrea imposta Constituinte de 1988 pelo (ironia) maranhense Jos Sarney, no nos possibilita. Muitos dos companheiros nessa viagem sem m visvel (ou previsvel) no horizonte, ou, dizendo melhor, sem o destino a que imaginvamos chegar, desistiram pelo meio do caminho, entraram num niilismo imobilizador ou ainda se restringem a criticar apenas, sem que a negao do que rejeitam ilumine o campo para a formulao de propostas prticas sobre o que consideram melhor para a Amaznia. claro que esse exerccio de construo limitado pelo pouco ou nenhum acesso aos instrumentos de poder, com os quais se pode pr em prtica o que se pensa. O trgico, nos casos to restritos de conquista do poder poltico, o abandono das teses em proveito do exerccio do mando, numa subverso tica de valores. Coloca-se o meio acima do m e chegando-se a esquecer dos ns, como se pode constatar na gesto petista de Belm. Intelectuais que somos (condio a que as trs refeies dirias e o uso prossional da cabea, mais do que as demais partes do corpo, nos impe), devemos continuar a sonhar uma combinao do possvel com o necessrio, descartando as frmulas prontas e as alternativas estabelecidas quando elas forem insatisfatrias, arriscando ir mais fundo e radicalmente ( raiz) para mudar um destino que nossos bwanas insinuam quando no proclamam a plenos pulmes ser manifesto. Sonhar, por exemplo, em criar uma Secretaria de Recursos Naturais do Par, com quatro institutos subor dinados: Instituto de gua, Instituto de Floresta, Instituto de Minerao, Siderurgia e Metalurgia e Instituto de Energia, que podem ter organogramas subdivididos para abrigar uma Escola de Minas, um Ncleo de Estudos de Mercado ou um Centro de Formao de Mo de Obra Superior, que pudesse criar uma elite pensante para esses vrios escaninhos operacionais, fer tilizando a formao de massa crtica e consolidao de uma cultura nesses quatro setores estratgicos do Estado. Os mensageiros dessa nova frente iriam apregoar nos lugares do mundo, onde est acumulado o conhecimento de ponta nessas reas. No s o conhecimento acastelado nas academias, mas aquele que surge na atividade produtiva, particularmente naquele escaninho do mercado que sobrevive como a ostra no mar, em choque com estruturas de poder e os circuitos monopolistas, aproveitando o fair trade que usa mecanismos menos agressivos e abre uma porta para o entendimento mais amplo. Em suma: se o mundo todo vem Amaznia realizar seus prprios interesses, que nem sempre coincidem com os da regio, a Amaznia ir ao mundo atrs do que lhe interessa, do que pode vir a livr-la da bitola colonial e da subordinao endgena num pas que no s no a compreende, mas, no ora veja, a ignora. Claro que essa relao s nos ser positiva se soubermos o que realmente queremos e se o que queremos o melhor para ns de verdade. Esse esforo de entendimento e de aplicao do saber tem sido mnimo, desprezvel diante do tamanho do desao que se lhe impe a busca do mundo. Mas o desao mais importante dos nossos dias. Ou no, caro amigo Parsifal? Tucuru bem que merece ser mais do que um enclave, que deixa um bom trocado, mas no a rgua e o compasso para us-lo a m de se livrar do destino ingrato que lhe aguarda no futuro, impedindo-a de prepar-lo.

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12 Lee Dickens, conhecida e afamada atriz da televiso nos Estados Unidos, com participao em um popular programa, foi trazida a Belm em setembro de 1952 pela Aerovias Brasil, interessada em divulgar a capital dos paraenses na terra do Tio Sam. Na cidade, Dickens lmou e fotografou as grandezas e misrias de Belm, com seus edifcios suntuosos na avenida 15 de Agosto (atual Presidente Vargas), e a vida agreste na periferia, com canoas, orestas, etc.. No ltimo dia da excurso, foi homenageada com um coquetel no Amazon Bar, do Grande Hotel. O que mostrou nos EUA, ningum cou sabendo.Em outubro de 1952, comeou a circular o Flash semanrio de Ivan Maranho, irmo do escritor Haroldo Maranho, ambos netos de Paulo Maranho, o dono da Folha do Norte o principal jornal do Par durante pelo menos cinco dcadas. O Flash tinha poucos pontos de venda no centro de Belm, mas estratgicos: Caf Albano, Livraria Vitria, Livraria Contempornea, Livraria da Moda, Agncia Martins, Agncia Cultura, Salo Chic, Domenico e Caf Santos, que formavam o roteiro da elite da cidade. Jor naleiros levavam o jornal apenas ao bairro do Reduto.Em 1952, os prmios de literatura da Academia Paraense de Letras foram concedidos a Mecenas Rocha, pelo romance Pax ; a Max Martins, pelo livro de poesia O Estranho ; e a Mrio Couto, pela pea teatral Bem longe de Deus.... Cauby Cruz recebeu meno especial por sua coletnea de poemas A pala vra esquecida A entrega dos prmios, incluindo quatro mil cruzeiros em dinheiro, foi no ano seguinte, quando a APL completou 53 anos de fundao, em solenidade no Teatro da Paz.Foi muito concorrido o Baile das Flores da Assembleia Paraense de 1954. Pela primeira vez, houve la para a compra das mesas para a festa. Mal abriu a tesouraria e comeou a disputa pelos melhores lugares, mas de uma forma adequada: os associados do aristocrtico clube ocuparam as cadeiras de vime do salo para esperar sua vez, sem atropelos. O salo principal da AP estava sendo alargado para abrigar mais gente. Naquele ano, o tradicional baile contaria com a participao de destacados elementos artsticos da Rdio Nacional, do Rio de Janeiro.Uma rede de trs farmcias (na Joo Alfredo, 28 de Setembro e Senador Lemos) destacava em anncio de 1955 seus produtos, provavelmente os de maior venda: Capivarol, Dinidro Estreptomicina, Vinho Reconstituinte, gua Inglesa, Xarope de Uru do Cear, Sade da Mulher, Pondicilina (o mais caro) e Plula de Matos.Em agosto de 1957 a Rdio Clube do Par, a PRC-5. estreou em seu auditrio um novo programa na sequncia Grandes Espetculos SM. Era o Cntico dos Trovadores, tendo frente Os Trovadores, um grupo de Patrulheiros ToddyEm 1961 estreou, na recminaugurada TV Marajoara, um dos programas de maior audincia da poca: Patrulheiros Toddy. Seus apresentadores, vestidos a carter, eram Miguel Cohen e Ivo Amaral, que continua em plena e fecunda atividade frente (e atrs) das cmeras.

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13 declamao de poesia orientado por Cludio Barradas, tambm um dos seus integrantes, juntamente com Miguel Cohen, Lindolfo Pastana e Adilson Santos. Inovando na arte da declamao, eles zeram uma dramatizao a quatro vozes, maneira dos Jograis, o primeiro conjunto do gnero no pas, que comeara em So Paulo e nessa poca excursionava pela Europa. Os Trovadores eram patrocinados pela Amaznia Turismo, a pioneira do turismo na regio. O pblico aprovou o desempenho do quarteto.No dia 2 de fevereiro de 1959, o governador Magalhes Barata (que viria a morrer trs meses depois, de cncer) encontrou o prefeito de Belm, Lopo de Castro, durante o lanamento da pedra fundamental do Hotel Gro Par. Inimigos radicais, os dois polticos haviam tido o primeiro contato cordial em vrios anos na vspera, quando foram ao aeroporto de Val-deCans recepcionar o presidente Juscelino Kubitscheck, em visita ao Par. A possibilidade de Barata e Lopo se cumprimentarem era completamente descartada at que o prefeito, um dos mais ativos antibaratistas, num perodo de paixes polticas, acompanhou os funerais do senador lvaro Adolfo da Silveira, correligionrio de Barata e um dos seus maiores amigos. Gesto de cortesia de um lado, reciprocidade do outro. Aparadas as arestas, os dois conversaram na solenidade que marcou o incio da construo do hotel, na avenida Presidente Vargas, sob o olhar atento do ento comandante militar da Amaznia, general Humberto de Alencar Castelo Branco, que, como sabido, cinco anos depois assumiria a presidncia da Repblica com a deposio do titular, Joo Goulart, atravs de um golpe de estado.Em 1961, o telhado do Teatro da Paz foi completamente reformado, exata-docotidiano mente 40 anos antes da ampla reforma que est sendo realizada no momento. Para dar a aprovao ocial obra, o governador em exerccio do Estado, o advogado Newton Miranda, subiu ao telhado, levando consigo os deputados Abel Figueiredo (pai de Marilda Nunes, viva do ex-governador Alacid Nunes), Milton Dantas e Ataualpa Fernandes, ciceroneados pelo engenheiro Waldir son Pena, executor das obras. O gover nador efetivo, Aurlio do Carmo, viajava. Como de regra.PROFESSOREm junho de 1961, os terceiranistas do curso clssico do Colgio Estadual Paes de Carvalho homenagearam o professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, que estava deixando de lecionar no CEPC. A solenidade foi realizada na sede do Instituto de Educao do Par, na sala onde funcionava o Grupo de Estudos Paladino, curso de vestibular organizado exatamente pelos terceiranistas. Falaram na ocasio os alunos Roberto Cortez, Zuleide Silva, Tarcsio Pereira e Luiz Euclides Farias. O curso clssico preparava os alunos para humanidades. O cientco, para exatas e naturais. Francisco Mendes foi um dos mais importantes professores que o Par j teve.Nesse mesmo ms e ano o Cine Palcio apresentou a avant-premire do colossal lme Ben-Hur, o campeo de Oscars de Cecil B. de Mille, patrocinada pelo Lions Clube de Belm. Graas s perfeitas instalaes do cinema criado por Judah Levy, a Metro Goldwyn Mayer permitira que fosse exibida em Belm a cpia magntica da pelcula, maravilha de som que havia sido apresentada at ento apenas no Rio de Janeiro e So Paulo. A direo da casa de espetculos avisava aos portadores de permanentes e cartes de acesso que deviam contatar antecipadamente com a gerncia, j que as lotaes sero numeradas e no ser permitida a permanncia em p, no salo de projeo. Ben-Hur rendeu enormes bilheterias por semanas.Adalcinda e Paulo MaranhoEm 1964, visitando os seus parentes em Belm, a escritora Adalcinda Camaro subiu as escadarias da Folha do Norte para cumprimentar seu primeiro mestre, o jornalista Paulo Maranho, que lhe ensinou literatura na Escola Normal. Autora de uma obra variada e vasta, com destaque para a poesia, Adalcinda trabalhava na embaixada brasileira em Washington e dava aulas de portugus na Universidade Georgetown. Ao fundo da fotografia, as estantes repletas de livros de Paulo Maranho, que morreria dois anos depois, aos 94 anos, em plena atividade.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Blog: wordpress.com Palestras: contato: 999777626 Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com Utopia Esperei o JP 643 com muita expectativa; queria ver a repercusso da tua proposta (reelaborada e reeditada) para a Amaznia. Fiquei decepcionada. Silncio completo (alis, como na primeira vez). Esperava que os entendidos em Amaznia viessem a pblico para comentar, acrescentar, debater, elogiar ou criticar. No entanto, nada. Certamente que o teu trabalho demandou pesquisa, reexo, tempo e muito mais. Acredito que o jornalista LFP pediu ajuda ao socilogo LFP para a (re) elaborao desta ltima Utopia. O silncio dos leitores deve ser frustrante. Quem sabe no temos a Amaznia que a nossa inrcia merece? Lembro-me de teres mencionado, cer ta vez, que foste convidado para morar no exterior. Preferiste o teu torro, onde plantas, mas no colhes. No terias ajudado mais a Amaznia se tivesses ido? Ser que, hoje, a tua Utopia j no seria realidade? Maria Helena M. dos Reis MINHA RESPOSTA Desde meados dos anos 1960, minha vida foi vivida entre idas e vindas, ora ao Rio, ora a So Paulo. Em 1974, comecei o meu mestrado na USP, sob a orientao de Oliveiros S. Ferreira, que tambm era meu colega (e superior) em O Estado de S. Paulo. No nal desse ano desisti do curso e voltei novamente a Belm, desta vez para car denitivamente. Achava que s assim eu podia realmente acompanhar, literalmente passo a passo, a histria da Amaznia no momento mesmo em que ela acontecia, ao invs de olh-la de luneta a partir de um promontrio metropolitano. Na tempora da nos Estados Unidos, entre 1983 e 1984, realmente fui tentado a me transferir para l, por um convite de Ray Kennedy, do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade John Hopkins. O compromisso maior com a Amaznia falou mais alto, alm de algumas circunstncias pessoais. Em termos pessoais, tanto a desistncia da USP quanto a dos EUA foram er ros que cometi. Na defesa da Amaznia, continuar por aqui foi deciso acertada. c @ rtas ...Sem ela, eu no teria montado um front e hasteado em seu topo uma bandeira. Mesmo para conrmar o dito popular de que santo de casa no faz milagre e ningum profeta na prpria terra. O silncio incomoda e, s vezes, di, mas no gratuito. Porque o efeito do incmodo dos que gostariam que estas pginas no estivessem impressas e as palavras se tornassem inaudveis. Apesar de tudo, insistimos. J tive oportunidade de fazer muitos comentrios sobre o tema, pois eles oferecem uma gama de procedimentos comprometedores que do respaldo pra gente aplaudir e aprovar o ttulo e a matria constante da pag. 04, do Jornal Pessoal n. 642, de out/17. Claro, os de Contas (sem excluir o de Justia) so os mais contumazes, volta e meia a imprensa est divulgando promiscuas trocas de generosidades entre o Tribunal (antigo Conselho, de acordo com a matria) e membros do executivo e legislativo, quando no so perquiridos pelos jornais dirios e nas redes sociais (Blogs), por atitudes administrativas incompatveis com a tica funcional ou resolues que infringem as leis vigentes. Os jornais de novembro/17 noticiam que o Tribunal de Contas do Estado TCE resiste em fornecer o quadro de produtividade de seus funcionrios comissionados e temporrios, em nmero de 220. De igual modo nega-se a convocar os candidatos aprovados em concurso pblico efetuado no ano 2016, que esto reclamando os seus direitos e no so ouvidos pela instituio, mesmo que o protesto seja feito pelo MPT e MPE, e ignora at Ordem Judicial, conclu a notcia. O seu homnimo dos Municpios tem o mesmo padro de comportamento, e s vezes at o ultrapassa, basta ver a sua origem avessa mostrada sem retoques no artigo desse editor, escrito no ano de 1986. Lembro, nesta oportunidade, que ele foi criado no nal da administrao do coronel Alacid Nunes e incio do gover no Jader Barbalho, sendo o seu quadro de serventurios constitudo de parentes, aderentes e colaboradores dessas duas imponentes guras representativas da politicalha paraense. O principal articulador desse monstrengo foi o cidado chamado Irawaldir Rocha, vindo do meio universitrio e uma estrela ascendente da poltica da poca, que acabou sendo presenteado, salvo engano, com a prebenda de Conselheiro. Diga-se a bem da verdade que esse editor, em minha viso, era um entusiasta admirador do Sr. Rocha. Uma instituio que nasceu com todos os defeitos arrolados no artigo a que estou me referindo no poderia ter melhor referncia nos nossos dias. Piorou, e muito! Sobre o TCE, recordo que o Jornal Pessoal n. 432, no ano de 2009, sob o ttulo Tribunal de Parentes, emitiu, entre outros, o seguinte comentrio sobre o seu ento Presidente, Fernando Coutinho Jorge (Prof. Universitrio, Prefeito de Belm, Secretrio de Planejamento, Senador e Ministro da Repblica, etc.) : Comportou-se como um dspota, um maraj indiferente letra da lei e s normas de conduta, bastio de uma prtica de nepotismo antiga e indecorosa no TCE. Para complementar o conceito deslustrante desses Tribunais de Contas, eis o que disse deles, jocosamente, o ex-ministro Joaquim Barbosa, aposentado do STF: Playground de polticos fracassados que querem uma boquinha. No se trata de denegrir o funcionamento das instituies e o comportamento de seus membros, por mera satisfao injuriosa, cuida-se de descobrir a forma de essas corporaes possam estar ajustadas s normas de conduta prescritas para todos os membros da sociedade e s leis em vigor. Lembramos que os Tribunais de Contas dos Municpios vicejam no s nas capitais dos Estados, eles j esto instalados em vrias municipalidades dos Estados de So Paulo e do Rio de Janeiro. uma erva daninha que deve ser extirpado o quanto antes. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA Fui amigo de Irawaldir Rocha e o admirava. O que no me impediu de critic-lo muito, sem que ele tivesse se considerado ofendido. Na poca da criao do TCM (ento Conselho de Contas dos Municpios), denunciei, na minha coluna diria em O Liberal, o nepotismo de Alacid Nunes, Jader Barbalho e Laercio Franco. Tambm em relao a Coutinho, minhas crticas no puseram m nossa amizade. Quem meu amiogo, sabe que coloco o interesse pblico muito acima da relao pessoal. Quem admite esse princpio, continua meu amigo. Quem no aceita, se afasta de mim.

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15 Frei Henri sobrevive ao serto e morre em casa, na FranaO sul do Par uma vasta regio no intervio de dois dos maiores rios do Brasil (e do mundo), o Araguaia e o Tocantins, que demarcam a passagem do serto para a Amaznia, ocupando 15% do territrio nacional. A violncia, com seu caudal de efeitos negativos sobre o homem e a natureza, transps a divisa e se espraiou pela nova fronteira econmica. O que devia ser o den fundirio, com espao suciente para todos dos milhares de posseiros e colonos migrantes se tornarem proprietrios rurais, se tornou o cenrio de graves e numerosos conitos sangrentos pela posse e o domnio de terras. Para o governo, essa reserva deveria ser usada para induzir a penetrao do capitalismo rural na hileia amaznica, no inferno verde, no vazio demogrco, na insignicncia econmica, no nada (o nonada de Guimares Rosa, o profeta do serto) de histria e inteligncia operativa, num universo em que o ator principal era a natureza, no o capital, o usufruto do espao, no a produo de mercadorias um Brasil que ainda no era Brasil. Se foi sangrenta no combate aos crticos ou inimigos nas grandes cidades, a ditadura foi massivamente cruel ao comandar, como capito do mato, a expanso do capitalismo sobre a oresta. Seu objetivo era estimular a produo de bens com aceitao no mercado internacional, capazes de gerar receita em dlar, e no habitantes nativos ou imigrantes pobres, que no constavam da aliana de poder. Da as histrias sem m de expulso dos ocupantes de ter ras sem ttulo considerado vlido, as execues sumrias, os pistoleiros de aluguel, a lei do mais forte. Foi esse o cenrio com que se deparou, no nal de 1978, o missionrio dominicano francs Henri desRoziers, aos 41 anos, 15 deles como religioso, em sua terra natal. Foi um desses momentos de difcil e sofrida transio. At pouco antes, posseiros e colonos se viam obrigados a deixar as pequenas fraes de terra nas quais se instalavam com suas famlias, quando aparecia um dono do lugar. Na maioria das vezes sem um ttulo de propriedade, ou com ttulo falso, seu argumento maior no era a lei, que ainda admitia a transformao de posseiro em proprietrio atravs do seu trabalho (pelo velho usucapio pro labore). Seu instrumento de convencimento era um revlver, o tristemente famosotrezoito o revlver calibre 38, o mais usado ento. Legalistas, os agricultores procuravam os rgos ociais, principalmente o Incra, cuja ecincia no trato com as questes agrrias e fundirias o fez ser rebatizado de incravado Lavradores se acumulavam porta da burocracia federal, sem serem recebidos ou sem terem seus problemas resolvidos. Acabaram se desviando para a porta da Igreja catlica. No da maior parte dela, mas daquela extrema minoria que seguia a teologia da libertao, dando ouvidos aos abandonados, desassistidos, excludos do modelo ocial de desenvolvimento. A Comisso Pastoral da Terra era a nica via acessvel s legies de injustiados e massacrados. Apenas na metade dos anos 1970 que por essas entreabertas portas comearam a circular os cidados de segunda categoria, atrados para a fronteira amaznica por uma propaganda massiva, embora no dirigida a eles. Alguns religiosos foram a semente desse novo front, mas eles contavam com pouco auxlio e rara competncia tcnica. Em poca de ditadura, os prossionais temiam o m de suas carreiras mal as iniciavam. Bem for mado na Frana e especializado na Inglaterra, frei Henri foi dessas guras solitrias nesse momento de transio do arbtrio total contra os pobres para a defesa deles com base no melhor conhecimento das leis, na coragem para aplic-las e na dedicao sua causa. De baixa estatura e aparncia tmida, frei Henri s impressionava quando xava seu olhar no interlocutor e o cumprimentava com sua mo forte. Em momentos de tenso e conito, ele sabia ser discreto, atuando nos bastidores, no elevando a voz, cuidadoso nos gestes. Mas de uma fora interior impressionante. Era ousado at o limite da loucura, mas hbil o suciente para que sua ao fosse objetiva e resultasse em ganhos concretos para a clientela e a causa. Graas ao apoio internacional, sobretudo a Legio de Honra que o governo francs lhe concedeu, ele sobreviveu fria dos inimigos que conquistou com sua atuao. Outros companheiros acabaram mortos, como o advogado e poltico Paulo Fonteles, trs integrantes da famlia Canuto, o lderes sindicais Gringo e Expedito, ou acabaram sendo obrigados a buscar nova morada, como o padre Ricardo Rezende e muitos mais. Depois de 14 anos vivendo cercado por seguranas, para continuar a viver, frei Henri voltou Frana em 2013 e l morreu, de causa natural, aos 87 anos. Sua biograa, mesmo quando denegrida, impe a todos uma verdade acima de qualquer contestao: foi um heri da sofrida Amaznia dos nossos dias.

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Municpios pobres, gastos exageradosRevelei no meu blog que as prefeituras do interior do Par, embora falidas, tomam iniciativas como se estivessem com suas nanas em dia. Por exemplo: 14 delas gastaram bons milhares de reais (algo bem acima de R$ 300 mil) em anncios na edio de aniversrio de 71 anos de O Liberal. A veiculao poderia se justicar pela necessidade de prestar contas aos muncipes ou fazer algum anncio de realizao. Na verdade, mais uma relao do toma-l-d-c que estabelece certo grau de compromisso entre o anunciante e o jornal. Edies especiais so usadas para ir mais fundo na cata de publicidade. Tudo bem: seria o exerccio do poder pelo prefeito e de marketing pela empresa. Mas no o exime da obrigatoriedade de prestar contas, j que lana mo de dinheiro pblico. Houve contrato? Por qual instrumento legal ele foi autorizado? Qual o valor da transao? As respostas devem ser cobradas dos prefeitos de Santa Maria, Vigia, Moju, Igarap-Miri, Santarm, So Miguel do Guam, Ananindeua, Ourm, Tucuru, Castanhal, Capanema e Barcarena. Mais o prefeito de Belm, o mais generoso de todos, que autorizou duas pginas sobe a praa da Repblica reinaugurada. O maior anunciante, porm, foi o governador Simo Jatene, que mandou pagar por cinco anncios da sua administrao, com um total de duas pginas e meia. Outros ordenadores de despesas pblicas foram os dirigentes da Cmara Municipal de Belm, Estao das Docas, TJE, Sebrae, TCE. TCM e Banco da Amaznia.Os salrios dos servidores municipais de Igarap Miri esto atrasados, mas a prefeitura pode ter gastado (na melhor das hipteses para o errio) de 20 a 30 mil reais com seu anncio paraO Liberal. Numa nota de esclarecimento, a prefeitura admite que a veiculao supostamente teria sido feita atravs desta gesto, do prefeito RonlioAntonio Rodrigues Quaresma, do PMDB. Deixa-se claro que nenhum membro integrante do atual mandato possui participao neste feito, pois tem-se a conscincia dos gastos e investimentos, assim como das prioridades do municpio, e por mais que se reconhea o papel do jornal O Liberal como difusor de informaes, na sociedade paraense, rearma-se que a Prefeitura no possui a autoria deste anncio e que nenhum recurso pblicos foi destinado para estes ns, completa a nota. Como o anncio levou a assinatura da prefeitura, ca o mistrio: ou algum fraudou a autorizao de veiculao, ou O Liberal publicou graciosamente a pgina assinada pela prefeitura ou h um fantasma no meio dessa histria. Convm que os canais competentes esclaream o que realmente aconteceu.A nota provocou a manifestao do jornalista Jota Brgida sobre a situao em Bragana, onde mora e edita um jornal local. Se mais cidados se interessarem pela gesto pblica, talvez se condiga melhor-las. Como fez Joo, no relato que transcrevo a seguir. Contnuas retenes do FPM [Fundo de Participao dos Munic pios, sua principal fonte de renda], prefeitos e presidncias de cmaras, calotearam encargos sociais, pagamento de precatrios, contratao ilegal e politiqueira de temporrios (parentes e cabos eleitorais de vereadores), 17 vereadores, repasse de R$ 268 mil mensais cmara, DAS e temporrios, alguns sem conhecimento de gesto, improvisados por prmio poltico de campanha ou amizades, em postos chaves de mando, sobre os efetivos e concursados, burocracia desorganizada, pagamentos ilegais, conforme auditoria do TCM. Nosso patrimnio imobilirio, identidade de uma poca urea, o palacete Augusto Corra, a casa da cultura, outros prdios em runas, em um municpio de 403 anos, 125 mil habitantes, o prdio da prefeitura locado, que vergonha. Se deres um passeio no que chamam de feira da cidade, sairs impressionado com o aspecto sanitrio negativo, mal organizada, E o rio Caet, que inspirou o poeta no hino de Bragana, virou lixeiro improvisado, amigo. E tome politicalha, no temos deputado na Alepa, na cmara a Simone Morgado, que esperamos traga emendas para nossa city, j estando no final do mandato de deputada [federal ]. Eu gosto daqui, desde que estou na inatividade da MB, fiz daqui minha morada, malhando com meu peridico Tribuna do Caet. Venha conhecer a festa da Marujada de S. Ben, agora em dezembro e ver nosso Tubaro do Caet, o Bragantino, brilhando no campeonato paraenses, muita torcida e auto estima local, em dia, ainda bem. Espero, que o atual prefeito Raimundo Oliveira, empresrio estreando na poltica, faa algo para mudar essa triste histria, est objetivando resultados, parece ter vontade de fazer! Venho sugerindo h tempos, a criao de uma ONG de Controle Social, tipo a Transparncia Brasil, somando s entidades da sociedade organizada, Lions, Rotary, maonaria, seccional da OAB, Sintepp, outras, igrejas, catlica e evanglica, para procedermos o controle social, auditagem de contas, verbas, acompanhamento de parlamentares, deputados que nos representam, vereadores, outros interesses comuns. Contudo, como em todo o pas, h desinteresse e alienao desses rgos. At, porque deixar a critrio dos polticos, no caso vereadores, que tem seus interesses pessoais, par tidrios, malhar em ferro frio. Eu aqui, fao imprensa independente, tenho proventos, prprios, famlia, concursados, no gosto de aludir a pobres presos na polcia. Costumo pesquisar contas de polticos nos tribunais de contas, subsidiado por meu conhecimento contbil nas lides da MB, at NF fria j constatei em prestaes de contas de recursos desembolsados pela Asipag, sindicato fantasma, outras rapinagens. O pior disso que sou vtima de preconceito, como se o que fao, sabes n, o bandido e o vilo. O segundo, por alguns setores, acabo sendo eu. Mas no me deprimo, sigo adiante!