Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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o aECONOMIA Par, riqueza e pobreza O Par dever bater em 2017 seu recorde histrico de produo mineral. S no primeiro semestre deste ano, o valor da produo de minrios atingiu mais de 18 bilhes de reais, 41% superior ao de igual perodo de 2016. Em todo ano passado, que foi de crescimento em relao ao exerccio anterior, o total alcanou R$ 28 bilhes. A quase totalidade dos minrios extrados do Par exportada. Assim, enquanto a indstria mineral brasileira respondeu por 14,1 bilhes de dlares das exportaes no primeiro semestre de 2017, as mineradoras paraenses exportaram US$ 5,1 bilhes, mais de 36% do total nacional, segundo os dados do DNPM (Departamento Nacional da Produo Mineral). O Par, com a 9 maior populao e o 2 maior territrio, o quinto maior exportador em geral, o 2 que mais apresenta saldo de divisas, o 5 Por causa dos grandes projetos, que respondem por mais de um tero de toda riqueza estadual, o Par cresceu nos ltimos anos. Mas um crescimento anmalo porque a riqueza no se distribui entre a sua populao. O governo do PSDB, h 20 anos no poder, no consegue mudar essa histria.maior gerador de energia e o 3 maior exportador de energia bruta, mas o 16 em ndice de Desenvolvimento Humano (IDH), o 19 em PIB e o 21 em PIB per capita. Como importou nesse mesmo perodo apenas US$ 50,6 milhes, o saldo de divisas proporcionado ao pas pela economia mineral do Par foi de US$ 5 bilhes, depositados nos cofres do Banco Central, principalmente para pagar juros da dvida pblica. De todos os minrios vendidos ao exterior, 76,3% foram de ferro e 17,5% de cobre. Uma impressionante concentrao de 83% no ano passado, com tendncia a ser ainda maior neste ano do que produz o segundo Estado minerador do Brasil, abaixo apenas (e por enquanto) de

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2 Minas Gerais, em duas nicas substncias. As demais, que integram a pauta do comrcio exterior, tm pequena participao: bauxita, mangans, alumnio e caulim. Essa concentrao, nica no pas, impressiona ainda mais porque esses 90% so produzidos por uma nica empresa, a antiga Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997. Esse peso aumentar ainda mais, por inacreditvel que parea. O crescimento de mais de 40% na produo de minrio no primeiro semestre deveu-se entrada em operao do S11D, que elevar a produo de minrio de ferro de 130 milhes para 230 milhes de toneladas anuais. Tornar o Par a unidade federativa que mais produz e exporta minrio de fero no planeta, 60% dele para a China. Um incremento que se mantm, apesar de a tonelada do minrio estar em US$ 50/60, um tero do mximo que alcanou, alguns anos atrs. a lgica predatria de conseguir mais valor com menor preo produzindo mais, muito mais. E talvez, assim, deslocando concorrentes do mercado, embora custa de formar imensos estoques nos pases importadores, especialmente na China uma ameaa recuperao dos preos pelos produtores. O S11D estender a extrao da jazida, situada ao norte da provncia mineral de Carajs, para o sul, onde o teor ainda maior do que o da rea atual de lavra, o mais rico que existe no mundo. O investimento foi de US$ 15 bilhes, uma vez e meia a mais do que o custo da hidreltrica de Belo Monte, no Rio Xingu, projetada para ser a quarta maior do mundo. Uma tecnologia de vanguarda, pioneira na histria da explorao de ferro, que aboliu o uso de caminhes, substitudos por esteiras transportadoras, vai permitir uma atividade ainda mais veloz do que a de Serra Norte. Em 40 anos, ir exaurir a jazida S11D, sem igual em toda crosta ter restre. Quando a sociedade se aper ceber do fato, s lhe restar chorar pelo leite derramado e a morte de Ins. Minrio, como se sabe, no d duas safras. A compensao nanceira pela explorao mineral, a CFEM, rendeu ao Estado R$ 341 milhes no primeiro semestre, menos de 2% do total. A mineradora Vale, lder disparada na economia paraense, apenas a quarta em recolhimento de ICMS. No entanto, ela responde, sozinha, por uns 15/18% do PIB do Par, de pouco mais de R$ 130 bilhes. No h dependncia to grande de uma nica empresa em nenhum outro Estado brasileiro. A mineradora paga sete vezes menos do que o maior contribuinte por que o minrio que exporta foi isento pela lei Kandir. Por coincidncia, ela entrou em vigor exatamente no ano da privatizao da Vale, desonerando as commodities quando exportadas. A mdia de recolhimento de ICMS da Vale neste ano de R$ 11,5 milhes por ms. A da Celpa, a lder do ranking, de R$ 90 milhes. Mais uma vez, um Estado minerador ca com o buraco do minrio e o apito do trem. PARA BAIXOA manchete da primeira pgina da edio do dia 17 de O Liberal trombeteou que o PIB do Par o 11 do Brasil. Na chamada, enleirou dados positivos das estatsticas das contas regionais anunciadas na semana passada pelo IBGE. A soma da riqueza do Estado subiu dois patamares: em 2014 estava na 13 posio. Alm disso, o valor do PIB per capita (a parte de cada habitante na riqueza estadual) se multiplicou por quatro entre 2002 e 2015. Quem cou na manchete de capa e no texto que a acompanhou se tornou vtima da mensagem subliminar: o governo Simo Jatene est conduzindo o Par no caminho do desenvolvimento. Por isso, os tucanos devem continuar no poder, que ocupam h 20 anos. (E)leitor: vote no candidato que o governador tricoroado indicar. Para que os veculos da famlia Maiorana continuem a faturar muito em verbas publicitria ocial. Mas quem avanar no bom texto de iago Vilarins, da sucursal do jornal em Braslia, constatar que o tom da realidade paraense no to rosa assim. Em primeiro lugar, o Par o 9 Estado com a maior populao do Brasil. Com o PIB em 11 posio, no h uma exata correspondncia entre riqueza e grandeza demogrca. O PIB subiu de 15 lugar em 2002 (1,8% do total nacional) para 11 em 2015 (2,2%). O PIB per capita quadruplicou (de R$ 4 mil em 2003 para R$ 16 mil em 2015), mas apenas o 22% do pas, superando apenas os Estados nordestinos mais pobres (Maranho, Piau, Alagoas e Cear, este no to pobre, mas de uma desigualdade brutal e chocante diante de suas lideranas de importncia nacional, como Ciro Gomes e Tasso Jereissatti). O valor a que cada morador do Par teve acesso na riqueza estadual em 2015, de R$ 16 mil, era pouco mais da metade do PIB per capita mdio do pas, de R$ 29,3 mil. A parte dos salrios no PIB do Par foi de 45%, acima da mdia nacional e acima at da mdia da regio Norte, que foi de 44,9%. Ou seja: baixssima propenso a poupar e for mar capital local para realizar qualquer coisa de signicativo diante dos personagens decisivos da nossa histria, dela nos excluindo em funo das suas prprias caractersticas: os grandes projetos. O Par continua a ser um local de contrastes, que cresce base de poucos empreendimentos de grande porte, de baixa reprodutividade e reduzido efeito multiplicador. um modelo concentrador que gera grandeza material, mas segrega socialmente uma participao maior. Cresce criando tanta concentrao quanto o pas, cujo PIB em dois teros do seu valor, restrito ao Sul e ao Sudeste. uma tendncia histrica, mas o governo Dilma Rousse realizou uma faanha: no incio do segundo mandato da presidncia da repblica, no pas sob o seu comando ao longo de seis anos, em 2015, todas as 27 unidades federativas apresentaram crescimento negativo. Pela primeira vez na histria o tal crescimento de rabo de cavalo: quanto mais cresce, mais vai para baixo ou, pelo menos, continua indo para baixo. Foi este o pas que Dilma entregou a Michel Temer. Qual pas ele transmitir a quem vier depois dele?

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3 Violncia maior no Par no provoca o debateEm 2010, ano em que o PT elegeu o segundo presidente da repblica seguido, colocando Dilma Rousse no lugar ocupado at esse ano por Lula, depois de oito anos de mandato (e a reelegeria em 2014), Altamira voltou ao noticirio nacional e internacional. Depois de ser a capital da Transamaznica, a obra pblica de maior reper cusso na dcada de 1970, ela agora seria a sede da maior obra pblica do pas, a construo da hidreltrica de Belo Monte, no rio Xingu, projetada para ser a quarta maior do mundo, Sete anos depois, durante os quais o governo federal esteve sob o controle do Partido dos Trabalhadores, Altamira conquistou outro ttulo: tornou-se a a cidade mais violenta do Brasil. Foi a concluso dos pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada, rgo da administrao federal, para o Atlas da Violncia. Os dados mais recentes, de 2015, demonstraram que o municpio tem a maior taxa de homicdios e mortes violentas com causas indeterminadas dentre todas as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. O ndice foi de 107 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes (enquanto a mdia nacional foi de 26,9). O Ipea destacou tambm que Altamira, com uma rea de 160 mil quilmetros quadrados, de longe, o maior municpio do Brasil: sua extenso supera o tamanho de 37 das 53 naes europeias mas, ao contrrio dos pases desenvolvidos, a cidade paraense tem apenas 46% dos habitantes com ensino fundamental completo. S essas particularidades geogrcas e humanas j seriam sucientes para provocar um interesse especial dos gestores pblicos. A entrada de um empreendimento do tamanho de 36 bilhes de reais deveria provocar uma ao preventiva especial, diante do uxo migratrio atrado pelo canteiro de obras. Entre 2000 e 2016 entraram no municpio 30 mil novos habitantes, que zeram a populao crescer de 77 mil para 110 mil, sem contar com o uxo para a cidade vizinha, Vitria do Xingu, onde foi instalada a usina, j em funcionamento. Como era bvio, os pesquisadores do Ipea relacionaram o desordenado crescimento exploso da violncia. Altamira foi apenas o caso mais grave, mas o morticnio se reproduziu em outros municpios do Par. Das 30 cidades brasileiras mais violentas, outras trs so paraenses: Marab, em 11 lugar, com o ndice de 82,4 mortes por 100 mil habitantes. Depois, Marituba, em 16 (76,5), e Ananindeua, em 25 (69,8). J Belm a 6 capital mais violenta do pas, mesmo sendo a 10 em populao. Sua regio metropolitana ainda mais violenta, tendo Marituba e Ananindeua ndices to elevados de homicdios. Esses nmeros deveriam servir de estmulo e desao para os centros organizados do saber, como as universidades, e os ncleos de formao de opinio, como a imprensa, colocassem a violncia entre as suas prioridades de pesquisa e interveno no debate pbico, de forma sria e competente. O silncio, porm, acusador. Nem por isso as inteligncias se sentem acusadas. Tenho procurado provocar debates atravs do meu blog. O ltimo deles serviu para recolocar em questo o estatuto do desarmamento, tirando a sua condio de pressuposto necessrio e inevitvel. Consideramos o que aconteceu no Brasil no curso dos 14 anos seguintes. O massacre de vidas humanas nos impe enfrentar o monstro. No Par, as mortes violentas por armas de fogo aumentou 112,5% entre 2005 e 2015, passando de 1.195 para 2.539, que foi a quantidade recorde registrada ao longo de todo esse perodo. Uns acham que a culpa pelo incremento da violncia e da sua marca mais selvagem, os homicdios, do Estado. Mas para resolver o problema, preciso dar mais doses de Estado: mais pessoal, mais recursos, mais carros, mais estrutura. Outros concordam com o diagnstico, mas querem outra soluo. Por ser impossvel aceitar tantas mortes absurdas, querem o fim da proibio da venda de armas. No para um comrcio descontrolado, como nos Estados Unidos. Para um novo parmetro, que imponha ao Estado encarar a sua funo de gesto em seus amplos limites: impondo regras rigorosas para o licenciamento, exigindo renovao constante do porte, dando gratuitamente aulas de tiro e punindo os infratores. Iniciei o debate com um artigo a partir de uma situao cada vez mais frequente: car sabendo que um cidado foi assassinado mesmo tendo obedecido todas as ordens do agressor ou que a morte lhe veio, antecipada, por capricho ou qualquer outra motivao, insondvel e imprevisvel, do assassino. Milhares de pessoas morrem todos os anos no pas abatidas como animais, de forma torpe, com excesso de violncia, selvagemente, sem poder se defender. O debate travado no blog foi uma boa resposta. Pena que circunscrita aos que, felizmente, ainda se sentem motivados a falar. Os que calam sem jamais ter falado constituem a imensa maioria.

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4 Drogas, boates, gente rica: uma combinao perigosa No dia 24 de abril de 2015, a edio on-line do Dirio do Par publicou a seguinte matria, muito comum no noticirio cotidiano da imprensa paraense: A Polcia Civil prendeu, nesta sexta-feira, 24, por trco de drogas, o estudante de Direito Jeerson Michel Miranda Sampaio, 31 anos. Ele acusado de ser o maior fornecedor de drogas sintticas em boates da rea nobre de Belm. Com ele, foram apreendidas drogas, como LSD e ainda um tipo de entorpecente conhecido como doce1. Trata-se de um tipo de droga sinttica fabricada em laboratrio que se consti tui em folhas de papel comestveis que dissolvem na boca. O agrante foi realizado pela equipe de policiais civis da Seccional Urbana do Comrcio, sob comando da delegada Socorro Bezerra. O acusado foi abordado pelos policiais civis em sua casa, no residencial Jardim Verde, situado na Avenida Augusto Montenegro, bairro do Castanheira. De acordo com a delegada, o agrante foi resultado de investigaes que levaram os policiais civis at a casa do estudante. Ao todo, foram apreendidos com ele 10 comprimidos, 7 petecas de cocana e em torno de 200 papelotes de doce. Os entorpecentes foram apreendidos no carro do preso. O entorpecente foi encaminhado para percia, que constatou o LSD. Quanto ao doce s ser possvel constatar o entorpecente por meio de exame em laboratrio. As investigaes inicia ram aps a morte de um empresrio em uma boate de Belm, no ms de fevereiro deste ano, aps a vtima ingerir uma droga sinttica conhecida como gota. As investigaes prosseguem. As investigaes realmente prosseguiram, chegando a um resultado surpreendente, que a imprensa, sempre atrada pelo sensacionalismo, no acompanhou como devia. Indcio de que ela no iria dar a esse caso a ateno que reserva aos crimes dos psde-chinelo do dia a dia estava na omisso sobre o nome do empresrio morto. Era o lho de um dos donos do grupo Lder, Joo Rodrigues.MORTE Inesperadamente, o que era investigado como crime de trco de drogas passou a ser um caso de assassinato por encomenda. S que a arma do crime era a droga e no um revlver ou uma faca. Michel Sampaio teria fornecido dose letal a pedido de algum (at hoje no identicado), talvez interessado em atingir o poderoso conglomerado de supermercados, o maior do Par. Um homicdio indito na histria do mundo do crime. Quase dois anos depois da condenao em 1 grau de Michel por trfico de drogas, em setembro deste ano, a 3 promotora de justia do Tribunal do Jri de Belm, Rosana Cordovil, pediu novamente a priso preventiva dele, agora o acusando de ter vendido propositalmente uma droga adulterada ao jovem com o objetivo de mat-lo. Ao saber do pedido de priso preventiva e que estava sendo procurado, o tracante se apresentou polcia. Est preso at agora e deve ser levado ao jri popular, provavelmente no prximo ano, pelo crime de homicdio qualicado. Essa convico, partilhada pela polcia, pela representante do Ministrio Pblico do Estado e pelo juiz Moiss Flexa no foi perturbada nem quando o tio de Joo, Oscar Rodrigues, o principal executivo do grupo Lder, atribuiu a teoria da morte por encomenda ao prprio irmo, classicando-o de louco. Disse, por escrito, que ningum teria matado de overdose Joo de Deus, como sustentava o seu pai. O sobrinho morrera de overdose porque era viciado, e foi desde muito jovem, comeou com maconha, e terminou como terminou, no segundo ou terceiro ataque de Overdose, fato do conhecimento de toda a nossa famlia. Oscar Rodrigues acusou tambm o irmo de gastar milhes do caixa da empresa para pagar advogados e convencer a justia desta tua loucura. Segundo Oscar, o culpado pela morte de Joo seria o prprio pai, que no soube impor limites, deu dinheiro de mais, e dinheiro no resolve tudo, o que resolve disciplina e trabalho. O empresrio citou um caso que atestaria essa obsesso por uma tese sem fundamento sobre a morte de Joo de Deus: Nossa cunhada, mulher de nosso irmo, que faleceu h poucos meses, passou a noite passada toda no hospital, se recuperando dos ataques que voc lhe desferiu, porque uma de suas netas resolveu publicar, que seu filho morreu de overdose numa festa regada a drogas, e voc sabia de tudo e nada fez pra impedir. O poderoso dono do grupo Lder, com a responsabilidade de chefiar a empresa e o cl, terminou sua mensagem, dirigida ao irmo pelo Facebook, com uma pergunta que permanece sem resposta: como a justia pode acreditar numa asneira destas??? Por causa do silncio da justia (e tambm do Ministrio Pblico do Estado) diante desse grave questionamento, tenho mantido a cobertura do caso, para que ele no que sem o completo e absoluto esclarecimento. Ele representa uma ocasio preciosa para penetrar no perigoso e expansivo mundo das drogas em Belm. Pode desvendar as razes para que a atividade criminosa consiga se manter for te e lucrativa, alm de impune, exceto pelas ocorrncias dirias de agrante e priso de pequenos ou, quando muito, mdios tracantes. Sem que essa ao repressiva diminua a intensidade da circulao de drogas cada vez mais fortes e destruidoras, alm de caras. Esse circuito se sustenta e se expande graas, principalmente, ao consumo de pessoas das classes mdias e as de maior poder aquisitivo,

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5 sobretudo jovens, muitos deles do que se convencionou chamar de melhores famlias. Talvez os chefes dessas famlias desconheam a face oculta dos seus membros, mas, pelo menos neste caso, seus nomes j se tornaram conhecidos. Logo, suas responsabilidades por alimentar quadrilhas de tracantes podem ser cobradas, parte o crime que cometem contra si e suas famlias e onerarem as despesas pblicas com segurana e sade. A cobrana de Oscar Rodrigues no apenas cou no ar, sem a resposta do judicirio, sem a sua convocao para depor junto polcia ou ao MP. Dias depois, a promotora Rosana Cordovil voltou ao assunto. Aditou a sua denncia anterior para rearmar a tese da morte por encomenda por overdose, que o tio da vtima classicou de loucura, sustentada por muito dinheiro usado pelo irmo. Ignorando uma prova testemunhal de grande peso, os desembargadores da seo penal do Tribunal de Justia do Estado julgaram e negaram um pedido de habeas corpus da defesa de Michel, mantendo a priso preventiva. Antes mesmo dessa deciso, o ru j fora transferido da unidade prisional da Marambaia, em Belm, para o presdio de Santa Izabel Para que a verdade integral se apresente e seja punido aquele que dizem ter matado propositalmente Joo de Deus, se a tese da acusao for comprovvel, ou se evite a condenao de um inocente (ou, pelo menos, inocente do crime que lhe foi imputado pela reviso do processo), decidi reconstituir a sentena que o condenou originalmente pelo crime de trco de drogas. Ela ajudar o leitor a conhecer a intimidade da ao policial no combate ao trco, a penetrao da droga na alta sociedade local, o papel do judicirio e do Ministrio Pblico. Segui a narrativa e o estilo da sentena da juza Blenda Nery Rigon Car doso, da vara do crime organizado, ajustando-a a um texto de mais fcil compreenso. Meus questionamentos a certos trechos esto em negrito, entre colchetes. A palavra nal do leitor.A HISTRIANo dia 24 de abril de 2015, os policiais civis Raimundo Afonso Amaral Cavaleiro, Rosinaldo da Conceio Fontes de Figueiredo e Antnio Car los Ribeiro Maciel, caram sabendo que a autoridade policial da Seccional Urbana do Comrcio [no identica da pelos policiais no seu depoimento ] investigava a comercializao de drogas sintticas em boates de Belm. Tambm tomaram conhecimento de que um inqurito policial em andamento, para apurar a morte de um jovem [o empresrio Joo de Deus Pinto Rodrigues, um dos herdeiros do grupo Lder de supermercados], decorrente de uso excessivo de drogas. O tracante/fornecedor dos entorpecentes seria Michel Sampaio. A autoridade policial determinou que os policiais iden ticassem e localizassem o suposto tracante. Aps diversas investigaes os policiais descobriram que seu nome era Jeferson Michel Miranda Sampaio e que ele residia na rodovia Augusto Monte Negro, n. 777, Conjunto Jar dim Verde, casa 10-A, Bairro da Castanheira, repassando tais informaes para s mesma autoridade policial [ainda annima ]. Os policiais receberam ento denncia annima de que Michel fora visto na noite anterior portando drogas no seu carro, modelo Honda Civic, placa JUW 1769. R Os agentes policiais, recebendo ordens para averiguar a denncia annima, rumaram at a residncia do denunciado. Contudo, familiares do denunciado no franquearam a entrada no imvel para revista. Consta [ estranha essa expresso, que vaga, sem autoria, usada no relato dos policiais, que tomaram a iniciativa e a executaram ] que, diante da impossibilidade de realizar a diligncia, os policiais conduziram o denunciado at a delegacia, sendo que o seu veculo tambm foi levado, porm sob conduo da sua me, Sra. Elizabeth Maria Silva Miranda [ como os policiais prenderam o suposto tracante se foram impedidos de entrar na casa, onde ele estava?]. DAS DROGASNa delegacia o carro foi revistado na presena da me de Michel, tendo sido encontrado uma caixa contendo vrios culos de sol e, no meio deles, um saco plstico contendo 10 comprimidos de cor amarelada, que aparentavam ser droga, conhecida como ecstasy, encontrando, ainda, vrios papis em recorte quadrado, com diversas gravuras, que aparentavam ser a droga conhecida como LSD. Diante destes fatos, foi dada voz de priso a Michel e as substncias entorpecentes foram apreendidas, bem como o automvel dele. Como o carro no havia sido minuciosamente revistado, a autoridade policial determinou nova revista [os policiais no explicaram a razo para o pedido de nova revista], com auxlio da Polcia Militar, ocasio em que encontraram, embaixo de um tapete, que abrigava uma caixa de som, um saco plstico contendo seis petecas de cocana, informando a exordial acusatria que a diligncia foi acompanhada pela advogada Zillanda Katarinna Leite Pereira [defensora de Michel]. No dia seguinte, a priso em agrante foi convertida em preventiva. Uma semana depois, noticado, o advogado de Michel apresentou defesa preliminar, arrolando suas testemunhas. Aps anlise dos argumentos

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6 defensivos, em 8 de julho (pouco mais de dois meses depois), foi recebida a denncia e designada audincia de instruo e julgamento, realizada em 18 de setembro. A defesa de Michel reiterou o pedido de revogao da priso preventiva. Ancorado nos termos da denncia e na prova produzida, a representante do Ministrio Pblico requereu a condenao do acusado como incur so nas sanes punitivas previstas em lei para o trco de drogas. A advogada de Michel continuou a sustentar que a priso em agrante era ilcita, portanto a prova produzida em juzo restou contaminada, bem como insucincia de provas, e requereu a absolvio do cliente.No seu testemunho em juzo, o policial Raimundo Afonso Amaral Cavaleiro armou que chegaram ao acusado, por meio de denncia annima, que ocorreu uma morte de um jovem na boate Element, lho do proprietrio do Supermercado Lder, e como essa boate cava sob sua cir cunscrio iniciou-se a investigao sobre os fatos. O policial ouviu mais de 19 pessoas. Nos depoimentos, foi mencionado o nome de Michel como sendo o fornecedor da droga para vtima, mas, at ento, no sabiam o paradeiro dele. Muito tempo depois que os trs policiais foram casa do acusado, quando receberam informaes sobre o suspeito dos jovens frequentadores da boate, aos quais deram seus contatos. Um dia antes da priso, receberam uma denncia de um desses jovens, que os informou que o acusado foi at uma boate e estava vendendo drogas que estavam dentro do carro dele. Nessa ocasio que conseguiram o endereo de Michel. Por volta de seis e meia da manh foram ao condomnio. Identificaram-se ao porteiro como policiais civis, perguntaram se l morava o acusado, o identificando pelo nome de Michel Sampaio, falando, ainda, sobre caractersticas de seu carro. O porteiro confirmou que Michel morava ali, mas estava dormindo, e que a entrada deles s poderia ser autorizada pela sndica. A sndica autorizou a entrada. Na casa, encontraram o acusado acompanhado de uma moa dormindo. Pediram para fazer uma revista no imvel, mas Michel no autorizou. Ele ento comeou a gritar e chamar por sua me. Michel foi levado at a delegacia na viatura, para ser ouvido, mas como os policiais tinham a informao de que a droga possivelmente estava no interior do carro, no per mitiram que ele fosse automvel para que no se deszesse das drogas [por que, ento, no zeram a revista no veculo, quando ele estava estaciona do na casa de Michel? Seria mais fcil, mais expedido e mais convincente. No serviria de base para a famlia de Michel acusar os policiais de terem colocado a droga quando o carro estava sem ningum por perto, na porta da delegacia ]. A me de Michel foi quem levou o carro, acompanhada pelo policial. Na seccional do Comrcio pediram autorizao para ela e zeram a revista no veculo, encontrando no meio de uns culos a droga. A delegada questionou o policial se havia sido feita uma revista minuciosa no carro, tendo respondido que no. Chamou a Polcia Militar para desmontar par tes do veculo, j que tinha uma caixa de som grande no carro. O policial civil no acompanhou essa segunda diligncia, feita por um capito da PM, comandante da rea, estando presente a delegada e a advogada. Mais droga foi encontrada nessa segunda diligncia. O delegado Gilvandro Furtado teria pedido para Michel, que seu sobrinho, para se afastar da cidade. E ligou para a delegada que estava presidindo o inqurito para que ela no zesse nada contra Michel. O policial soube que a delegada falou que no iria atender o pedido. Negou que na operao para prender Michel houvesse policial encapuzado. Admitiu, porm, no possurem mandado de busca e apreenso, pois no zeram busca e apreenso no imvel [como a investigao fora iniciada duas semanas antes, fato admitido pelos policiais, no teriam tempo para se munir de mandado de um juiz, assegurando a eccia da diligncia?]. Tanto assim que no autorizaram a busca no imvel, retornando delegacia. Foram at a residncia por determinao da autoridade policial. No havia cadeados na porta da casa, que estava aberta quando chegaram. Michel no foi preso por ocasio da diligncia na casa, mas sim foi conduzido seccional. S foi dada voz de priso na delegacia, aps ser encontrada a droga no carro. No se recor da se foi ele que encontrou a primeira droga [esquecimento grave]. O chefe da operao, Rosinaldo da Conceio Fontes Figueiredo, em seu depoimento, admitiu que Michel se disps a ir at a delegacia, mas no se recordava qual era o carro em que ele foi transportado. Embora fosse o lder do grupo, que formou e reuniu, sua participao era apenas para efetuar o suporte operacional, cando na guar da da rea e dos colegas. Duas viaturas estavam na diligncia, uma caracterizada e outra descaracterizada. Allan Sulivan de Souza, o PM, comandante da rea, foi acionado pela delegada Socorro Bezerra para realizar uma busca minuciosa no veculo do acusado. Essa revista no carro foi acompanhada pela delegada, por uma advogada, por familiares. Um dos policiais encontrou a droga no porta-malas. Como sentiram diculdade para abrir o carro com a chave, o prprio Michel abriu o carro [se soubesse da droga, o acusado de ser tracante teria agido dessa maneira? Ajudaria os poli ciais a encontrarem a prova do crime?] e, assim, iniciaram a busca. O PM apenas abriu o carro, mas no acompanhou a busca.

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7 O policial Paulo Esteves armou que as investigaes tinham iniciado h cerca de duas semanas, que era o chefe de operaes da Seccional do Comrcio, e que nessa investigao atuou no apoio externo, no penetrando na diligncia na casa de Michel. Informou ainda que houve toda uma investigao preliminar, comandada pela delegada Socorro, e que se foi galgando at chegar ao nome do acusado como sendo o fornecedor da droga. DA DEFESABrenda Carla Chagas Santana, esposa do Michel, declarou que estava dormindo com ele quando os policiais chegaram residncia, empurram a porta do quarto, puxaram o lenol, j mandando Michel se levantar que estava preso e pedindo a chave do carro do acusado [contradio com a armativa de um dos policiais de que Michel no foi conduzido preso para a delegacia]. A me de Michel questionou os policias sobre um mandado, mas eles decidiram levar o seu lho, sem revistar o imvel. Ela arma que para entrar na casa preciso abrir o cadeado, que estava trancado. Por isso, tiveram que quebrar o cadeado e o levaram. Elizabeth Maria Silva Miranda, a me de Michel, declarou que, por volta de seis horas da manh, acor dou com gritos e o lho a lhe chamar, avisando que estava sendo preso. Colocou sua mo na porta e pediu a apresentao de um mandado. Os policiais nada responderam e ainda a empurraram. Quando seu lho saiu, vericou que o porto estava aberto e o cadeado no estava. Sustentou que um policial estava de capuz. Como os policiais declararam que levariam o carro de Michel, ela avisou que no permitiria que o carro fosse levado sem ela e seguiu no veculo, conduzido pelo policial encapuzado. Durante o percurso, ligou para o delegado Gilvandro, avisando o que estava acontecendo. Tambm ela ligou para sua advogada. Nesse momento o policial telefonou para algum e avisou sobre a ligao que ela tinha feito. Outro policial mandou mudar e ir para a delegacia do Comrcio. Quando estacionaram, em seguida parou outro carro do lado e a delegada saiu desse carro. Nesse momento passaram revistar o automvel do lho. Viu ento o policial colocando e tirando um saquinho de dentro da caixa de culos que seu lho vendia. Depois, o policial disse para delegada que tinha achado droga e era LSD, trancando o carro. Depois de algum tempo, a delegada mandou fazer outra revista no carro, mas nada foi encontrado. A delegada trancou o carro novamente. Era meio dia quando chegou a PM para nova revista, que ela acompanhou. Os policiais desmontaram o som do carro e um deles puxou um saquinho, que estava atrs do banco, dizendo que era cocana. Elizabeth imediatamente falou que aquele saquinho no estava naquele lugar, pois o carro j havia sido revistado anteriormente. Um policial aconselhou Elizabeth a mandar seu lho para longe, justicando que quando aconteceu a morte do Joo de Deus, algum queria fazer algo contra seu lho, pois seu lho estava na festa e deu alguma coisa para o rapaz. A advogada Zilandra Katarina Leite Pereira conrmou ter recebido telefonema de Elizabeth quando ela estava no carro, que estava sendo dirigido por um homem encapuzado. Na seccional do Comrcio, obser vou que na mesa da delegada havia uma caixa com culos e uns papis quadrados. A delegada lhe informou que seria feito o agrante e que iriam fazer a revista no carro. Executado o trabalho, nada foi encontrado, mas a delegada lhe disse que iriam fazer outra revista, retirando algumas par tes do carro. Foi quando chegou o capito da PM. Ele queria que o acusado colaborasse com informaes. Nesse momento a delegada foi para outro compartimento, conversou reservadamente com uns policiais. Michel comentou com a advogada que estava escutando barulhos. Parecia que seu carro estava sendo aberto. Na nova percia, um policial tirou um tapete e disse que achou uma droga. S comeou a lmar a revista depois desse fato. Mais nada foi encontrado. Constou do procedimento a apreenso de seis petecas de cocana. O policial Afonso disse ter falado para a delegada que essa droga no estava l. Quando questionada pelo representante do Ministrio Pblico, sobre a razo de ter assinado as peas infor mativas, a advogada no respondeu. Na segunda revista foram somente retiradas as caixas de som e na terceira abriram as caixas com auxlio de ferramentas. A droga estava no lado direito da caixa de som, debaixo de um tapete. Na primeira revista tambm zeram isso, mas no havia nada. Janaira Aline Sales de S, vizinha de Michel, ouviu barulho no porto, bem como os cachorros estavam latindo, quando saiu de casa para que os ces parassem de latir. Nesse momento viu um homem encapuzado e outro homem com um alicate na mo. Imediatamente fechou a porta, foi para outro quarto e viu, pelo buraco do ar condicionado, homens entrando na casa dos vizinhos. Michel negou os fatos narrados na denncia, sustentando que as suspeitas recaram sobre sua pessoa por estar na festa e no ter ido ao velrio de Joo de Deus, explicando que no gosta de velrios e preferiu preservar a imagem de quando Joo de Deus estava vivo. Sustentou que no forneceu nenhuma substncia entorpecente para ele.A DECISO DA JUZANa sua deciso, a juza no vislumbrou que a prova produzida esteja contaminada por ilegalidades. Formou o seu convencimento nos seguintes fatos. Ancorada na jurisprudncia majoritria, no considerou ilcitas as provas, porquanto dispensvel o mandado de busca e apreenso quando se trata de agrante de crime per manente, como o caso do trco ilcito de entorpecentes [mas Michel no foi agrado tracando drogas].

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8 Para ela, a entrada dos policiais no imvel sem mandado de busca e apreenso se deu em razo da fundada suspeita de mercancia de drogas, por parte do acusado, em estabelecimentos noturnos, somada denncia annima de que, um dia antes da priso, Michel estava vendendo drogas em uma boate e a substncia entorpecente estava guardada no interior de seu veculo [os policiais sou beram do fato por ouvir dizer, atravs de terceiros, no por comprovao direta, pessoal ]. O fato acabou por se conrmar com a apreenso das drogas, justamente no carro. Assim, considerou crvel que autoridade policial determinasse a realizao de diligncias para apurar a veracidade da denncia, bem como para captar elementos de informao. Ainda que tenha ocorrido eventual ilegalidade no agrante, essa irregularidade foi superada pela supervenincia de nova medida para embasar a custdia cautelar, que foi, o decreto de priso preventiva do acusado, fundamentado na garantia da ordem pblica. As provas dos autos, segundo a magistrada, a conduziram segura concluso de que, efetivamente, Michel estava tracando drogas [ele foi preso dormindo em sua cama, dentro da prpria casa, ao lado da esposa]. As circunstncias da natureza, da variedade e da quantidade de entorpecentes apreendidos (10 comprimidos de etilona [LSD ] e mais 496 papis, no formato quadrado, da mesma substncia, conhecida popularmente como NBOMe, alm de 6 petecas de cocana, pesando quase 15 gramas), pesaram contra Michel. A juza tambm se convenceu que Michel estava atuando no trco de drogas em um mercado restrito, tanto para aquisio como para venda. O pblico de consumo tambm era selecionado, da que no merece prosperar a alegao da defesa de que as drogas apreendidas no carro do acusado foram plantadas pelos policiais [mas a juza no mandou a polcia averiguar quem so esses consumidores, extraindo peas dos autos para instruir a investigao, embora tenha manifestado sua convico sobre a existncia desse mer cado selecionado ]. Sem contar que essa a alegao de enxerto, vem se tornando habitual e, as defesas no esto observando que o nus da prova compete a quem alega. A droga encontrada j estava fracionada, no caso da cocana, em petecas, e as sintticas, em forma de comprimidos e de papis. Pelas circunstncias do caso, no haveria como supor que Michel seria um mero frequentador de boates, mas sim algum envolvido com a tracncia [ele no tinha antecedente criminal algum, como atesta a prpria juza, ao fazer a dosimetria da pena que aplicou a ele ]. A juza no aceitou os testemunhos da me e da esposa de Michel, pelo envolvimento ntimo que tm com ele. Quanto ao depoimento da advogada Zilandra Katarina Leite Pereira, estranhou que ela no tenha explicado o motivo de que, sendo advogada, e constatando ilegalidade no procedimento de revista no automvel e que a droga no estava no carro, assinou a pea informativa, anuindo com os elementos de informao produzidos [a advogada atuava na rea cvel e no na criminal ]. A magistrada fez questo de ressaltar a alegao da defesa, que questionou a veracidade dos fatos baseada na alegao de que o pai da vtima do incidente na boate pessoa com alto poder econmico e inuente, sem trazer, porm, elementos capazes de desconstruir a tese acusatria. Tambm destacou que a defesa tentou colocar em xeque a sua impar cialidade dizendo, em suas alegaes nais, que no dia da audincia o Sr. Joo Rodrigues, pai de Joo de Deus, compareceu a sala, acompanhado do renomado jurista paraense, Edmundo Oliveira, para tentar impressionar o juzo. A juza negou que tivesse havido o encontro. interessante observar a avaliao que a juza fez de Michel Sampaio para dosar a pena da sentena com a qual o condenou. Culpabilidade: denoto que o ru agiu com culpabilidade normal espcie; Antecedentes: no registra; Conduta Social: normal; Personalidade: no h elementos slidos que informem a respeito dessa circunstncia; Motivos: o motivo do delito se constitui pelo desejo de obteno de lucro fcil, o qual j punido pelo prprio tipo penal, pelo que deixo de valorar essa circunstncia em seu desfavor, a m de no incorrer em bis in idem [repetio ]; Circunstncias do crime: no verico elementos extrapenais relatados nos autos; Consequncias do crime: so desconhecidas; Comportamento da vtima: no se pode cogitar acerca de comportamento de v ;tima para este tipo de delito. A juza considerou ento as cir cunstncias do crime: Natureza e quantidade da droga: as drogas apreendidas, 10 comprimidos de etilona e mais 496 papis, no formato quadrado, da mesma substncia, conhecida popularmente como NBOMe, alm de 6 petecas de cocana, pesando 14,916g representa significativa quantidade, alm da variedade e da natureza. Por isso, reconheceu essa circunstncia em desfavor do ru, mas tambm deixou de valor-la, para no incorrer em bis in idem. J analisadas as circunstncias personalidade e conduta social do agente, nada apurou a valorar em desfavor do ru. Fixou a pena base em 5 anos de recluso e 500 dias -multa (cada dia no valor equivalente a um trigsimo do salrio mnimo), em regime inicial semiaberto. Negou ao sentenciado o direito de recorrer em liberdade, por entender que remanesciam presentes os pressupostos e fundamentos da custdia cautelar, dada a quantidade e variedades da drogas apreendidas, especialmente a sinttica, sem prejuzo do conhecimento da apelao que vier a ser interposta. Assim entendeu, no como efeito automtico da sentena condenatria, e sim por absoluta necessidade de manter custodiado o sentenciado, a bem da ordem pblica e para garantir a futura aplicao da lei penal, manteve inclumes as razes que justicaram a priso preventiva e na cautelar que a precedeu. Declarou a perda do automvel Honda Civic de Michel em favor da Unio. Nesse dia, 18 de dezembro de 2015, Michel j estava preso provisoriamente por 7 meses e 24 dias, ainda no fazendo jus ao benefcio da progresso do regime. Continua preso at hoje.

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9 Frans Krajcberg: um gigante, como as rvores amaznicas O polons naturalizado brasileiro Frans Krajcberg, que morreu na semana passada, aos 96 anos de idade, foi o maior artista plstico (ou, especicamente, escultor) de temtica amaznica de todos os tempos, mas seu desaparecimento no mereceu um nico registro na imprensa paraense. No Brasil havia 60 anos e dedicado aos temas amaznicos h 40, ele iniciou e ponticou numa arte comprometida com uma causa sem renunciar aos rigores do procedimento criativo e conscincia crtica: a defesa da natureza, combinada com a denncia da sua destruio selvagem. Nada de panetarismo ou recursos fceis e demaggicos. Krajcberg montou seus painis enormes com restos de oresta sabregados pelo fogo das queimadas criminosas, irracionais. De uma tal maneira plstica e com uma profundidade humana inigualvel que o impacto ao espectador de primeira viagem era perturbador, denitivo. Com os elementos da circunstncia, que ele recolheu nas suas longas e constantes viagens pela regio, imortalizou um dos momentos mais tristes da relao do homem com a natureza na histria de todos os povos. Imortalizou a destruio da Amaznia, mesmo sem conseguir o milagre de evitar a sua progressiva extino, semelhante ao m da maravilhosa mata atlntica, em cuja possesso baiana fez sua moradia. D tristeza, mas no surpreende, a omisso da terra que se tornou dele ao penetrar no seu crebro e fecundar a sua criao artstica com uma luminosidade que s existe no crepsculo em fogo do dia a dia da oresta amaznica. Um pouco dela se foi com Krajcberg, Mas muito cou nesta entrevista que a sociloga Marly Silva, professora da Universidade Federal do Par, fez com ele. Ao anunciar a entrevista, em comentrio no meu blog, Marly observou: Krajcberg foi o mais completo artista do sculo XX que conheci Ele fez o que tinha de ser feito e na hora certa, com obstinao e talento comoventes e admirveis. Vi as suas melhores exposies, como a montagem extraordinria no Grande Halle de La Villette, em Paris, em 1996, como s os franceses sabem fazer. Terra, alis, que o acolheu e lhe deu um Museu. Vi tambm a sua ltima exposio no Parque Ibirapuera. Sua obra e sua vida sempre me emocionaram profundamente e creio que ele alcanou o que queria: sensibilizar os jovens pelo mundo afora, para o drama da destruio das orestas brasileiras e, em particular, da oresta amaznica. Apaixonada por ele, o tietei o que pude, lhe visitei no seu ateli, z fotos, vi alguns dos seus milhares de negativos, z tambm uma longa entrevista de sete pginas, indita, onde ele fala de suas andanas pela vida e do seu grande amor pela mata, pelas arvores, pela oresta, pelo homem Muito triste com sua partida, que os xams o guardem como um anjo, homem raro que foi, de estatura mida e obra gigante. Transcrevo a entrevista em duas etapas. A segunda sair na prxima edio.Depois de uma dolorosa experincia na segunda grande guerra, que marcou profundamente sua vida, Franz Krajcberg, pintor, escultor e fotgrafo, nascido na Polnia em 12/04/1921, redescobriu no Brasil o prazer de viver. A luminosidade das cores e a beleza das formas naturais descobertas no interior de Minas Gerais o seduziram para sempre. Vivendo h quase trinta anos entre Nova Viosa-BA e Paris, o artista se despede da cidade luz neste nal de milnio, mas seu pequeno atelier, situado a 21, Av. du Maine, ca e ser incorporado juntamente com suas obras ao Muse de lArt de Montparnasse. Em janeiro de 2000, Krajcberg lana dois livros no Brasil: A revolta e Natura. Em fevereiro, recebe em Braslia a medalha Grande Cruz do Brasil, e ainda no ano 2000 far uma grande exposio na Alemanha. Em que momento de sua vida voc se descobriu como escultor? Fale-nos um pouco de sua trajetria. J criana tinha um grande desejo de no futuro ser pintor. Eu pintava, mas tinha diculdade para comprar material, a pobreza... mas sempre tive a noo, o desejo de pintar, desenhar; mesmo na escola estava mais interessado no desenho do que em outras matrias. Quando a guerra comeou, eu me perdi completamente... Naquele tempo morava mais com o meu tio, quase na fronteira da Alemanha; quando che-

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10 guei fugindo do nazismo, encontrei o exrcito russo e fugi para a Romnia, e no meio do caminho eu recebi uma paralisia completa no lado esquerdo do corpo. Eu estava no trem, a me tiraram e me mandaram para um hospital em Minsk na Bielo-Rssia, a eu j perdi o caminho para a Romnia... Voc estava com quantos anos quando isso aconteceu? Quase 17. Eu me chateava muito no hospital, a eles perguntaram o que eu queria fazer, eu disse: quero pintar. Eu pintava quadros e trocava pelas coisas que as enfermeiras traziam. Quando eu melhorei, eles me perguntaram o que eu queria e onde queria ir. Eu disse que gostaria de estudar pintura, a me mandaram para Vitebsk, a cidade de Chagall. Mas l no encontrei lugar para estudar, estava tudo superlotado, a eu consegui ir para Leningrado; l tambm no tinha lugar, mas tinha na Engenharia, a eu estudava na Engenharia e noite ia para Belas-Artes. Quando acabou a guerra em 45 eu fui para Alemanha, ver se encontro a famlia, tudo isso, uma longa histria... eu no tive mais contato com a famlia, depois soube que no tinha mais famlia... Fiquei em Stuttgart e fui estudar com Bille Balmans (?), professor no Bauhaus pintor abstrato que sofreu muito no tempo do nazismo por que foi proibido de pintar. A, nas Belas-Artes fui o primeiro aluno de Bille Balmans, e assim comecei na pintura. Depois, ele mesmo me disse, no ca aqui, vai para Paris; ele me deu uma carta para Lger, historias longas... Lger me recebeu bem e como eu conhecia a famlia Chagall de Vitebsk fui visit-lo e quei morando trs meses na casa dele. E foi ele que me ar rumou em 1947 para ir para o Brasil. A comeou, pintava um pouquinho, fui para So Paulo, uma outra histria longa e muito sofrida tambm. Titino Matarazzo me deu trabalho. Cheguei no Brasil, eu s tinha uma pasta com desenhos e trabalhos que eu fazia e foi l que senti que nasci de novo, que encontrei lugar para car. Na vida, h uma coisa muito interessante quando a gente cria essas pequenas religies, esses pequenos nacionalismos, brasileiro, no brasileiro..., mas isso no me incomoda porque a gente nasce e tem direito de viver em qualquer lugar desse planeta, mas tudo dividido entre homem e homem contra homem. Eu co impressionado com essa violncia, que existiu sempre, mas no to forte como no sculo XX. Foi um sculo demasiado violento entre homem e homem, mas tambm foi um sculo muito feliz, evoluiu muito na tcnica, na cincia, como em nenhuma outra poca. Politicamente, sou homem internacional, e ecologicamente, sou planetrio. Eu acho que a gente tem que ver as coisas muito mais longe, seno voc v s o que est na sua casa, no seu bunker, como eu chamo, ou na sua rua, ou na sua cidade, mas o planeta geral, e ns sabemos que tudo nasce, tudo vive e tudo morre, natural. E a eu me adaptei... Ficou em So Paulo, na capital? Fiquei em So Paulo. Trabalhei no Museu. Depois trabalhei num estdio onde pintava azulejos com Volpi, Zanini, Cordelo. Pintava os azulejos para o Ministrio da Cultura do Rio, desenhos de Portinari, Burle Marx e outros; um dia no tinha mais trabalho e de novo entrei no Museu, pintava junto com Volpi, a gente trabalhava junto e um dia conheci Segall, e ele me disse porque voc deve sofrer aqui? vai para o Paran, onde tem a fbrica de papel Klabin Segall foi da famlia Klabin e a fui para o Paran, trabalhei como engenheiro e constru uma casa-estdio no mato perto da cidade, onde tinha a fbrica, e depois abandonei a engenharia e s fazia cermica e pintava. A um dia, como o Paran estava em fogo, o fogo queimou completamente o meu studio, a abandonei tudo e fui para o Rio. No aguentava essa fumaa dia e noite. O Paran estava em fogo h anos... Isso foi nos anos 50? Foi nos anos 50. No Rio encontrei Srgio Camargo e o irmo dele. Conheci o pai, que tinha uma casa abandonada em Laranjeiras, e o pai me deixou car l. A um dia, Franois Manet me pediu se tambm podia trabalhar l e ele cou tambm, mas eu trabalhava e morava. A na Bienal de 1957, eu mandei meus trabalhos, o jri aceitou cinco trabalhos meus e ganhei o Grande Prmio de Pintura. Foi o seu primeiro prmio? Primeiro prmio e primeira coisa para sair da misria, porque era a primeira vez que eu vendia um trabalho. A com o dinheiro eu z uma festa enorme no Rio, com todos os meus amigos, gastei todo o dinheiro com uma festa, comprei passagem e vim para Paris em 1958. Paris fervia nesses anos, eu tive muita sorte, entrei bem, comecei a trabalhar, a participar do movimento artstico. Eu trabalhava mais em Ibiza, no conseguia trabalhar na cidade. Em 1964, fui convidado para participar da Bienal de Veneza, ganhei o Prmio da Cidade de Veneza, depois voltei para Minas, e a vivi entre Minas e Paris. Por que Minas? Porque Minas impressionante! Eu tinha um amigo que me convidava para ir l, perto de Ouro Preto. E l descobri essa natureza maravilhosa, essas cores naturais. Eu, antes de vir a Paris, fui intoxicado com as tintas e fui proibido de pintar; j aqui em Paris no pintava mais, eu fazia os relevos, impresses de tela... A entrei numa outra fase. Em Minas, eu z as primeiras esculturas, a comeou a mudana radical. Primeiro as cores naturais, a natureza incrvel que me impressionou... porque eu fugia sempre da cidade, eu no me adaptei na cidade depois da guerra, eu fugia do homem, do mundo urbano... Ento, tudo que eu podia viver longe da cidade, eu vivia. Viver com a sociedade, com o homem, depois de quatro anos na guerra, ningum suportava... Mas foi a natureza em Minas que me abriu mesmo o caminho de ser, o caminho de desejar sobreviver, viver e trabalhar. Comeou isso em Ibiza e Minas e foi sempre com a natureza, todo o meu trabalho foi a natureza, eu estava muito ligado com a natureza, e mesmo aqui em Paris, quando nos anos 58, 59, 60, isso foi s tachismo aqui, grande movimento do tachismo, mas eu fazia tudo ao contrrio. Mesmo assim, eu fui muito bem recebido. Tinha uma Galeria Optimum, que s exps relevos e tudo isso. Mas at hoje eu no mudei essa posio de ser ligado natureza. Porque o artista, principalmente homem, tem mania de achar que ele superior de tudo, achar que ele est descobrindo formas, mas tudo isso existe na natureza, e como ele est negando que ele tambm natureza, ento ele est negando tudo que existe na natureza. E eu nunca neguei isso, eu vibrava sempre com a natureza.

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11 Helder vence batalha, guerra eleitoral comeaHelder Barbalho, que j est em cam-panha para o governo do Par, saindo na frente de quem queira disputar o mesmo cargo na eleio do prximo ano, pulou a primeira fogueira no seu caminho. Na se-mana passada, por cinco votos a um, o Tri-bunal Regional Eleitoral do Par considerou improcedentes as acusaes contra ele, mais Joaquim Lira Maia, Jader Barbalho Filho e Camilo Centeno, de abuso de poder econ-mico nas eleies de 2014, Com essa deciso, ele pode continuar a aproveitar que ocupa o ministrio da In-tegrao Nacional para circular por todo Par, levando algum dinheiro, prometendo muito mais e arranjando todos os pretextos possveis para marcar presena e arregimen-tar cabos eleitorais. Por isso, no momento, considerado o favorito, o nico dos nomes atualmente cogitados capaz de cortar as asas dos tucanos, que mandam no Par h duas dcadas, apenas com a interrupo por quatro anos do governo de Ana Jlia Care-pa, ento no PT, agora no PC do B. A prxima fogueira na rota de Helder Barbalho ser no Tribunal Superior, em Braslia, para onde o Ministrio Pblico Eleitoral pretende recorrer. Autor que de uma das duas aes propostas (a outra da coligao que apoiou Jatene). Apesar da longa acusao do MP Eleito-ral, o nico voto pela punio dos acusados foi o do relator do processo, desembargador Roberto Gonalves de Moura. Ele endossou a acusao, apenas dela excluindo Lira Maia, candidato a vice-governador na chapa de Helder EM 2014. Os demais integrantes do tribuna votaram integralmente a favor dos acusados. Os dois polticos foram denunciado por abuso do poder econmico e dos meios de comunicao. A procuradora regional elei-toral substituta, Maria Clara Barros Noleto, alegou que eles utilizaram os meios de co-municao do grupo RBA, de propriedade da famlia Barbalho, para a veiculao de propaganda poltico-eleitoral, disfarada de matria jornalstica, extrapolando o direi-to de informao sobre os fatos atinentes campanha, em ntido benefcio de ambos. A promotora contraditou os argumen-tos da defesa, dentre os quais de que even-tual abuso no interferiu no resultado da eleio, que acabou dando a vitria ao can-didato opositor, Simo Jatene. Ele se reele-geu governador usando os mesmos mto-dos atravs do grupo Liberal e da Marajoara. A procuradora disse que os dois candi-datos denunciados venceram o 1 turno gra-as inuncia do grupo de comunicao dos Barbalho e que, independentemente do resultado da votao, o abuso se caracteri-zou e constituiu crime, a ser punido. Em sua defesa, Helder Barbalho alegou que a sua participao societria no grupo de comunicao no lhe d poderes de in-terferir no contedo da programao vei-culada. Camilo Centeno e Jader Barbalho Filho alegaram que no houve qualquer mudana na rotina dos trabalhos das emis-soras de comunicao que dirigem. Mesmo a entrevista concedida pelo senador Jader Barbalho no dia das eleies no horrio ma-tinal da Rdio Clube, segundo os acusados, estaria revestida de legalidade. A defesa de Helder e Lira Maia, depois de arrolar seus argumentos, raciocinando em tese, pediu que a eventual pena fosse a de multa, pelo valor mnimo previsto, mas a promotora optou pela declarao de inelegi-bilidade, que acabou no obtendo. Um captulo parte nessa histria foi vivido pelo grupo Liberal. Pondo m a um armistcio de quase dois meses, durante os quais evitaram qualquer matria contra os Barbalho, aparentemente, os novos res-ponsveis pelo grupo Liberal decidiram ajustar cobertura dos fatos relacionados aos Barbalho aos critrios puramente jor-nalsticos. Anunciaram na capa e noticiaram com destaque em pgina interna na edio do seu jornal do dia do julgamento, a deci-so que o TRE iria tomar, ameaando por m s pretenses do ministro da Integrao Nacional para a eleio de 2018.. Dois fatos, porm, indicaram sutilmente que a correo da linha editorial adotada de-pois da queda de Romulo Maiorana Jnior, que fazia campanha sistemtica e agressiva contra o senador Jader Barbalho e seu grupo poltico e de comunicao, podia ter passa-do da linha de equilbrio desejada por todos que querem voltar a ser mais bem informa-dos pela grande imprensa local. O primeiro sinal estava na publicao da notcia de ltima hora. Pela importn-cia da questo, que pode resultar no afasta-mento da disputa pelo governo do Par do pr-candidato com maiores possibilidades de vitria, ela devia ter sido noticiada com antecedncia, se o critrio da edio fosse exclusivamente jornalstico. Parece ter havido resistncia interna a presso do principal aliado comercial e po-ltico do grupo Liberal na era de Rominho como presidente-executivo das empresas do grupo. Em 30 anos de comando com mo de ferro das empresas, ele esteve sempre ao lado dos tucanos, que se tornaram a fora hege-mnica nesse perodo, retribuindo ao apoio incondicional com farta publicidade ocial. O outro indcio foi a incluso de trecho que sugeria a parcialidade de trs dos sete in-tegrantes do TRE, que seriam vinculados ao PMDB de Jader Barbalho e a Lira Maia, do DEM. Talvez por iniciativa prpria, os irmos que destituram Romulo Jr. tivessem omitido esse detalhe ou o redigido de forma diferente, se houvesse continuidade no tratamento fa-vorecido (e, por vezes, antijornalstico) que vinham dando ao concorrente comercial e inimigo poltico desde 30 de setembro. Os veculos de comunicao do senador no alteraram a deferncia com seu silncio obsequioso aos Maiorana, ao menos por ora. Certamente, porque Helder foi absolvido pela justia eleitoral do Par. Mesmo poupando os Maiorana das suas catilinrias, porm, o Di-rio do Par e o grupo RBA mantiveram sua campanha contra os dois principais polticos tucanos, o governador Simo Jatene e o pre-feito Zenaldo Coutinho. Eles so os maiores anunciantes do grupo Liberal, como mostrou mais recentemente a campanha pela reinau-gurao da praa da Repblica, obra do alcai-de de Belm, realizada na semana passada. A questo : a parte comercial acaba-r inuindo sobre a deciso jornalstica? Afastar Helder Barbalho da corrida eleitoral signicar, para o PSDB, manter a sua hege-monia no Par e na regio metropolitana de Belm, se a poltica continuar a ser praticada como dantes como uma gangorra da qual s participam para valer dois contendores. Nos prximos dias ser possvel saber se o grupo Liberal dos Maiorana, mesmo sob nova orientao, ter que car ao lado do PSDB de Jatene, o que implicar em manter a guerra com o grupo RBA e a famlia Bar-balho, ou encontrar uma terceira via. A guerra eleitoral j comeou no Par, bem antes de ser aberta.

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12 GUERRA J s proximidades do m da Segunda Guerra Mundial, em julho de 1945, o coronel Ney Peixoto, chefe da seo de abastecimento, distribuio e controle de carnes verdes, pescados e mariscos do Estado comunicava ao pblico que a carne de mamote e suas vsceras seriam vendidas exclusivamente em quatro talhos: na avenida So Jernimo (atual Governador Jos Malcher), entre Rui Barbosa e Quintino; na Benjamin Constantcantocom de Almeida; na 14 de Maro canto com Boaventura da Silva, e na Manuel Barata canto com a Frei Gil de Vila Nova. Advertia que tais talhos iam vender livremente a carne e as vsceras de mamote, isto fora do racionamento, ao preo de Cr$ 8,00. Qualquer um podia comprar essa carne, independente da quota a que tenham direito pelos car tes de racionamento destinados aos mercados ou talhos de rua. Na mesma poca, Pickerell Representaes S/A ofereciam oramento a quem quisesse fazer importao direta das fbricas de artigos que representavam, como cimento cinzento americano Hercules, farinha de aveia Quaker, farinha de trigo Northern King e Granada, azeites nos para mesa (Bela Albion e A Andaluza), usque Balmoral, aguardentes John Bull e Juzo, ou linotipos da Mergenthaler, de Nova York. Tambm aceitavam assinaturas para as revistas Time, Life, Architetural Frum e Fortune. Uma pequena e vaga nota publicada na Folha do Norte de 5 de julho de 1945 informava que a circulao da revista A Semana que estava sendo editada por nova direo, fora suspensa por determinao do DEIP, a verso estadual do famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), criado por Lourival Fontes (o Golbery do Couto e Silva do Estado Novo) para censurar a imprensa, sob a ditadura (que j agonizava) de Getlio Vargas. Segundo a explicao do censor, a revista estava circulando fora da lei. Seus responsveis j estavam entrando em entendimento com as autoridades do sul da Repblica para tentar liberar o semanrio, que voltaria a circular, com uma edio especial, assim que que resolvido o impasse. MERCEARIA A partir do nal de julho de 1954 as mercearias de Belm teriam que funcionar em dois expedientes. O primeiro comeando s 5:30 da manh e indo at as 12 horas, e o segundo, entre 14 e 20 horas. Quem funcionasse fora do horrio, estabelecido em lei municipal, seria multado. Aos domingos, as mercearias poderiam car abertas entre 7 e 12 horas, pagando uma licena especial no primeiro ano de vigncia da nova lei, que revogava a anterior, de 1951, mas inteiramente de graa a par tir da. Os merceeiros, porm, teriam que cumprir as leis federais sobre os regimes de trabalho. DIREITO As maiores notas alcanadas pelos candidatos ao vestibular da Faculdade de Direito em 1954 foram de Jernimo de Noronha Serro (9,11), Carmen Lcia Paes (8,94), Maria Dulce de Paula (8,94), Raimundo Lobato Teixeira (8,72), Wilson de Jesus Marques da Silva (que viria a ser desembargador, com 7,77), Helmo Hass Gonalves (7,72), Otvio Sampaio Melo (7,63), Ieda Neri Ledo (7,55), Ivete Lcia Pinheiro (7,38), Antnio Pereira Mendes (7,36) e Francisco Cndido da Silva (7,36). Tambm foram aprovados nesse vestibular os futuros desembargadores Isabel Benone (nota 6,63), Felcio Pontes (6,36), Jos Alberto Soares Maia O Crio dos bomiosAnncio de 1962 retratava a dimenso secular ou mesmo pag do Crio. Bailarinas, sambista e vedete usavam como motivao o Show Nazareno para a apresentao no Palcio dos Bares, que tambm atendia pela designao de Boite Condor, o recanto encantado dos bomios [bohemios, no original] de Belm. Sob o comando de Joo de Barros, o rei da noite, mais um na extensa monarquia comercial da cidade. O Palcio dos Bares foi substitudo pelos filhos da Chiquita, mantendo a tradio.

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13 (6,30), Isabel Vidal de Negreiros (5,80) e Ossian Almeida (6,22). Amlcar Tupiassu tambm passou nesse ano (nota 5,88), mas trocou o direito pela sociologia, como vrios outros dos 68 candidatos aprovados, dos quais apenas 50 poderiam ser matriculados. Era o nmero exato das vagas disponveis. Os demais se transformariam em excedentes. Em 1954, o governador Zacharias de Assumpo recebeu pedidos de quatro mil crianas que queriam se matricular como internos na rede de ensino pblico estadual, mas s pde atender 51 dos pedidos, deixando de fora 3.949 crianas. O Estado contava com 11 vagas no colgio Antnio Lemos, 10 no Gentil Bittencourt e 30 no Instituto Lauro Sodr. O governador cou de mandar alguns dos meninos para o Educandrio Monteiro Lobato, na mau-afamada (para esses efeitos) ilha de Cotijuba. CEPC Em 1957, a diretoria do Centro Cvico Honorato Filgueiras, o grmio estudantil do CEPC (Colgio Estadual Paes de Carvalho), conseguiu nalmente preencher todos os cargos de administrao da entidade. No depar tamento de esportes, o vlei cou sob a responsabilidade de Emanuel Rodrigues, enquanto o basquete foi entregue a Antnio Brasil, o futebol a Manoel Medeiros, o atletismo a Raimundo Ewerton e a natao a Voltaire Hesketh. Integravam o departamento artstico Francisco de Assis Filho, Maria Car valho, Armando Rosa, Esther Serruya e Pedro Galvo. No departamento de imprensa atuavam Raimundo Maus, Felipe Soares e Isaac Serruya. No departamento social: Marrlene Viana, Celina Mendona, Agis Belchior, Clio Mrtires Coelho e Jos Ribeiro. No departamento cultural: Joaquim Bastos, Floriano Barbosa, Srgio Nascimento, Doralice Almeida e Fernando Pena. RDIO A Rdio Educadora dava destaque, em sua propaganda de 1964, ao docotidiano fato de ser a nica que com a PRC-5 [ Rdio Clube do Par] ouvida ecientemente em todo o Estado, graas sua frequncia tropical. Mas tambm erra a nica ouvida com exclusividade em mais de 500 povoaes paraenses, usando duas frequncias, em onda mdia e tropical. A prefeitura indicou, em 1966, apenas 11 praas nas quais poderiam ser afixados cartazes de propaganda eleitoral: Floriano Peixoto, do Operrio, Brasil, Magalhes, da Bandeira, Princesa Isabel, Olavo Bilac, Palcio, So Joo, do Carmo e Cruzeiro. A portaria foi assinada pelo ento prefeito, Stlio Maroja, no desempenho de uma faculdade que cabia ento ao municpio, delegada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Voc sabe localizar todas essas praas? CRIME A caixa dgua instalada no centro de Belm (ao lado do que hoje conhecido como o buraco da Palmeira), que podia fazer as vezes da nossa Torre Eiel, foi vendida como sucata, em outubro de 1966. As 600 toneladas de fer ro desmontadas foram compradas pela rma Alzinco Comrcio Exportao e Importao, do Rio de Janeiro (Guanabara na poca), e levadas pelo navio Areia Branca, dos Snapp (a empresa de navegao que antecedeu a Enasa) para a Siderrgica Alonete, em Recife, onde foram reprocessadas. Um crime contra o patrimnio ar quitetnico da cidade, praticado luz do dia, ou da inconscincia pblica. O curso de vestibular Hlio Dourado, que funcionava na antiga sede do Centro Cultural Brasil Estados Unidos, na avenida Nazar com a Benjamin Constant, comemorou, em anncio publicado na imprensa, o ndice mdio de aprovao de 79% no vestibular de 1969 da Universidade Federal do Par. Conseguiu o primeiro lugar em sete cursos, dentre os quais o de medicina (com Rui Dias Borborema), engenharia (com Renato Guerreiro, que dirigiu a Anatel, a agncia nacional de telecomunicaes) e arquitetura (com Ronaldo Marques de Carvalho). FOTOGRAFIAO footing da Joo Alfredo Um sbado de manh qualquer de 1974 em Belm do Par. Em frente s Lojas Brasileiras (mais conhecidas como 4 e 400), no incio da rua Joo Alfredo, jovens e outras pessoas no to jovens se concentram. o footing da semana. Momento para conversar com amigos, paquerar, tomar um sorvete e consumir o ltimo dia til num programa que deeve ter rendido amizades novas e casamentos. Os veculos ainda trafegavam pelo eixo central do antigo comrcio, mas no nesse momento, com dezenas ou centenas de pessoas ocupando a rua. Belm ainda era pequena e, convenhamos, boa para nela se viver.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Blog: http://lucioflaviopinto. wordpress.com Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com Teatro da PazAlgumas coisas deixam-me comovido neste mundo: a mulher amada, crianas, cachorros e o Teatro da Paz, o teatrinho de madeira chamado Providncia, no sculo XIX, depois Nossa Senhora da Paz e ento o nome que conhecemos hoje, cpia em menor tamanho do Teatro Scala, de Milo. dessa casa que desejo falar: vetusta, sim, pela vida centenria que a torna respeitvel, pela sua beleza arquitetnica e pelo que representa para a cultura belenense e, qui, brasileira. Dezenas e dezenas de vezes cruzei sua soleira e, nessas ocasies, sempre a transpus com emoo, comovido mesmo. Conheo outros teatros em algumas capitais e, com algum bairrismo, o reputo o mais bonito, mais artstico, mais acstico. Mais mais. Lembro que j so passados alguns anos da retirada de quatro estradas alegricas que encimavam o frontispcio do grandioso espao cultural. Ser que sofrem da Sndrome da Conceio, que ningum sabe por onde anda? Algumas condutas, porm, toldam-lhe a majestade. Uma delas a dos funcionrios que abrem as portas s nove horas da manh, quando os c @ rtas ...espetculos so gratuitos, indiferentes ao cansao que sofrem as pessoas, em boa parte idosos, na espera dos ingressos. A meu ver, os funcionrios excedem-se em grossura quando comeam a fechar as portas do teatro com os espectadores ainda descendo a bela escadaria aps o evento e aproveitam o momento para algumas fotos, cumprimentos e comentrios sobre o que assistiram. Realizam uma verdadeira expulsria. Outro dado negativo a direo do teatro no atender s reclamaes de que moradores de rua (ainda embalados pelo que cheiraram de noite), anelinhas, pipoqueiros, vendedores de cafezinho, postam-se na la para revender ingressos e revend-los, rasgando-os quando no encontram compradores, tirando a chance daqueles interessados em aproveitar as funes culturais. J nem falo dos pipoqueiros, bombonzeiros e aqueloutros que se postam frente ao teatro, sacolejando seus mentex na cara dos que chegam para os acontecimentos que aprimoram seus valores culturais. Os funcionrios do de ombros, respondendo que no podem fazer nada. Como ento, senhora direo, preguiosamente acomodada em suas caixas refrigeradas? Os entornos da casa no merecem ateno, principalmente a parte fronteira? Por serem deixadas de lado, tempos atrs as escadas laterais serviam de mictrio para os frequentadores do Bar do Parque. Os empregados do teatro devem imbuir-se da vontade de defender a nossa bela casa teatral, denunciando os mercadores que procuram ganhar a vida vendendo seus produtos. Digo, para os agitadores poltico-partidrios, pseudo defensores dos desvalidos sociais e que vivem a vociferar dios contra o que est bem estabelecido, que outras casas de eventos culturais que conheci, durante seus espetculos, no tm vendedores por fora. No questo pessoal, mas, sim, o pedido de melhoramento na ateno que os belenenses merecem por parte de todos os funcionrios que esto no que deve ser misso deles: preservar o Teatro da Paz. Com a palavra o Senhor Secretrio de Cultura, Paulo Chaves Fernandes, batalhador incansvel e linha de frente no engrandecimento da cultura regional, com vinte e cinco anos de profcuo labor, que, entre muitos projetos realizados, restaurou o teatro, preparando-o para peras e concertos, teatro e demais atividades artsticas. Reginaldo B. de ArajoExtrao de minrio em Carajs: Par sabe o que est acontecendo?O Par o segundo Estado minerador do Brasil, depois de Minas Gerais. Essa condio, no entanto, no se reete na presena desse tema na vida regular dos habitantes do Estado nem nos seus contatos diretos entre si, como m fruns de debates, nem atravs da imprensa. Na semana passada, o sindicato das empresas de mineral, o Simineral, fez festa para distribuir prmios entre jornalistas que tratam do tema. Na verdade, porm, que a grande maioria das matrias da imprensa deriva de informaes fornecidas pelas prprias empresas, direta ou indiretamente, no sendo mais do que eco das suas palavras. Na mesma semana, a partir de uma matria que publiquei no meu blog, travei com meus leitores um debate relevante sobre um tema can-

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15 dente: a explorao da mais rica das jazidas de minrio de ferro de Carajs, a S11D. O debate no se aprofundou o necessrio, mas deu uma medida da necessidade de buscar mais infor maes para, com elas, tomar atitudes em relao extrao das riquezas do subsolo paraense. Gabriel Medeiros J Silva H inmeras S11D naquela regio, fora o urnio, ouro, mangans, tungstnio, bauxita, nibio, cobre, cobalto e etc J li estudos que garantem 400 anos de abundncia mineral no Par. Lcio Flvio Pinto Nossos nmeros no esto conferindo. H outras jazidas na Serra Sul, mas, ao que eu saiba, nenhuma igual S11D. Os 400 anos eram previstos no incio da lavra, quando a meta era de 25 milhes de toneladas. Hoje, est em 130 milhes e vai para mais 90 milhes de S11D e mais a Serra Leste (acho que 10 milhes). O tempo se reduziu para 100 anos, proporcionalmente ao incremento da extrao. Isto um ver dadeiro crime de lesa-ptria. Bernard Torres O bloco 11 da Serra Sul foi dividido (como estratgia de licenciamento e explorao) em quatro partes (A,B,C e D). Por tanto, o S11D esta licenciado para explorar apenas a frao D deste bloco, onde se previa uma vida til prxima de 40 anos, caso se atinja o volume de 90 milhes de toneladas por ano, o que deve levar certo tempo para ocorrer. De qualquer forma, independentemente do tempo, trata-se de um minrio nobre sendo vendido por preo de segunda categoria, razo pela qual a Vale vem buscando mudar sua estratgia de vendas, usando-o para blend com minrios menos nobres. No h a inteno de vender este minrio puro no mercado. LFP o projeto de misturar, mas no sei porque no consegui essa informao qual mesmo essa blendagem. As primeiras exportaes foram assim? No Amap s se pensou nisso quando o teor j caa. O aproveitamento dos nos no deu certo. Por qualquer critrio, planejar a exausto de uma mina como S11D para 40 anos um crime de lesa ptria, no meu entendimento. Jose Silva Mas exaurir as riquezas naturais o mais rpido possvel para o benefcio de alguns pouco no a marca registrada da histria moderna da Amaznia? Apesar dos discursos, nada muda. Se no fosse as unidades de conservao e as terras indgenas criadas por demanda da sociedade civil, j seramos um deserto improdutivo. Bernard Lcio, ao que parece, a estratgia de blendar o minrio do S11D no s com o minrio da Serra Norte (que j comea a perder flego),mas principalmente com os minrios do Sistema Sul, estes sim com teores bem ruins. Isso vinha sendo comentado e foi, de certo modo, conrmado na matria deste link: http://www.valor.com. br/empresas/5056186/investimentono-s11d-em-carajas-terminara-em2018-arma-vale Nos ltimos pargrafos a Vale conrma o blend nos estoques que mantm fora do Brasil. Concordo plenamente com voc de que o ritmo e muito alto. Ao meu ver, a estratgia de blendagem no deixa de ser um novo posicionamento de mercado, um pouco mais inteligente. No entanto, poucos percebem que, nas entrelinhas, existe tambm uma outra realidade menos propagandeada: O S11D acabou sendo vital para uma sobrevida de diversas minas do Sistema Sul, que dicilmente se manteriam viveis sem esta suplementao. Minas estas que sem encontram em municpios que, como a maioria dos municpios mineradores, nunca pensaram ou se prepararam para fase ps minerao. Portanto, no m, o melhor minrio do mundo est sendo usado tambm para minimizar (ou melhor dizendo, postergar) um relevante impacto socioeconmico que se aproxima cada vez mais dos municpios de MG. O Par dever se tornar o maior expor tador de minrio em 2018, mas infelizmente, com MG grudado em suas costas. Agora, s nos resta saber o seguinte: Como no h nada igual ao S11D, quem acolher os municpios Paraenses quando chegarmos a este mesmo momento? MG com certeza em nada retribuir. Quando isso acontecer, todos os atuais atores deste drama j no estaro mais aqui. Mas exatamente por isso, devemos pensar e agir em relao a isso. Se nada zermos, essa ser a herana que deixaremos para as prximas geraes. LFP Felizmente temos algum como voc para enriquecer e ampliar este debate, que vital. O silncio geral num pas minerador (por imposio geolgica) como o Par alarmante. Voc tocou em dois pontos fundamentais. Um: quem possui informaes sobre o estado atual de todas as jazidas de minrio de ferro de Carajs, em termos de teores e quantidades? Quem conhece um plano diretor integrado das minas e jazidas (em uso e como reserva)? Quem participou de alguma forma na denio do plano de expanso de Serra Norte (que j foi expandida para Serra Leste)? 2) A conexo alm-mar (ou outland) de Carajs, que um ncleo colonial de explorao mineral em escala mundial. Qual a condio dos estoques ultramarinos, todos voltados para a China e o mercado asitico, tambm quanto a teores e quantidades? Como se processa o transporte e comercializao a partir do porto da Ponta da Madeira? Qual o papel do porto intermedirio? Qual o valor do frete e quem est transportando? So questes que s podem ser denidas com informaes seguras, que a Vale, evidentemente no fornece.Segundo informaes fornecidas ao Valor Econmico, de So Paulo, na matria citada por Bernard, os estoques de minrio de ferro da Vale na Malsia, na China e em outros pases asiticos, que encerrou o ano passado em 40 milhes de toneladas, devero chegar a 70 milhes no nal deste ano. O crescimento dos estoques seria uma evidncia da diretriz da empresa de dispor de minrios diferentes qualidade para misturar o mais pobre ao mais rico e ter um produto mestio com valor mdio. uma boa estratgia?

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Realidade rsea em plena Europa Meio sculo para trsA imprensa paraense ignorou o centenrio da revoluo russa. No cinquentenrio do nascimento do primeiro pas socialista (e bolchevique), editei oito pginas no caderno de cultura que criei em A Provncia do Par, inspirado no Caderno B do Jornal do Brasil, nossa grande fonte de referncia sobre jornalismo cultural e de entretenimento (o melhor do gnero at hoje). Sete pginas eram de matrias simpticas aos soviticos ou rigorosamente factuais. A nica matria de crtica mais extremada foi um artigo de Telo de Andrade, um pedido do diretor de redao, Cludio Augusto de S Leal, para agradar a casa, que era conservadora. Mas no houve problemas.Isto, em pleno ano de 1967, j no governo do segundo marechal, Costa e Silva, que sucedeu a Castelo Branco. Nesse mesmo ano, abri duas pginas para Joo Guimares Rosa, que morreria logo depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras, morrendo para se encantar, como dizia. Numa pgina, selecionando trechos autobiogrcos do autor de Grande Serto: Veredas, na seo que tinha justamente esse ttulo. Usando o mesmo mtodo, z as autobiograas de Freud, Carlos Drummond de Andrade e outros intelectuais. Lembrei essas aventuras numa conversa com estudantes de jornalismo, que pesquisavam sobre msica e cultura nos anos 1960/70/80. Arrolando o que z na poca, conclu com eles que zemos muita coisa em plena poca de censura e represso cultura. Jamais imaginaria que 50 anos depois, a revoluo russa chegaria ao centenrio sem um registro na imprensa local. D a sensao de andar para trs.IndstriasA Marmobraz tem justos motivos para comemorar seus 45 anos de atividades, atendendo nesse perodo um milho de clientes. Mas no verdade que o Par tem o maior par que industrial do Norte do pas. Esse ttulo pertence Zona Franca de Manaus. O que menos o Par possui indstrias. A maior delas nem indstria rigorosamente falando: a lavra de minrios. Mas constantemente ela considerada para no admitir que o Par um Estado colonial por excelncia. Especializado em exportar commodities. Em plena febre de tenso e interesse causada pelo terrorismo, a Amaznia voltou a ser includa na agenda da Europa, em encontros realizados em Bonn, na Alemanha, e Londres, na Inglaterra. Dos debates participou o mundo ocial, representado pelo ministro do Meio Ambiente do Brasil, Sarney Filho, os governadores dos Estados da Amaznia Legal e at tradicionais lideranas indgenas, com seu toque de exotismo que tanto mexe com a consciense mauvaise dos europeus. Os debates trataram dos temas ecolgicos de sempre, mas tambm se estenderam pela sua relao com a economia de baixo carbono na regio amaznica e crescimento com respeito s culturas regionais. Ambas as perspectivas se mostram atraentes o suciente para fazer o isolacionista Reino Unido aderir Alemanha e Noruega na luta pela preservao da Amaznia. O Brasil repetiu seu compromisso, rmado no acordo de Paris, de impor desmatamento zero na regio at 2030, recebendo o eco dos Estados. Com isso, os entendimentos visaram a cooperao internacional, o nanciamento da proteo orestal e a contribuio dos fundos internacionais e das entidades privadas para incrementar a conservao do bioma amaznico. Tudo isso sustentado pelo anncio de que o desmatamento diminuiu no ano passado. Como uma estatstica escolhida a dedo sempre ajuda a sustentar uma tese, por mais temerria que seja, o governador Simo Jatene comunicou aos mais de 100 especialistas que o ouviam na capital inglesa que a rea desmatada no Estado que comanda h mais de 11 anos caiu de 8,8 mil quilmetros quadrados em 2004 para 2,4 mil km em 2016. Assim, a mdia anual de desmatamento no estado caiu mais de 70% em 13 anos. verdade. Mas uma verdadeira compreenso da situao exigiria de Jatene que se referisse ao acumulado de desmatamento em 2004, s taxas anuais concretas at 2015 e expectativa de crescimento em 2017. Ziguezague de muitos anos que torna a meta de desmatamento zero inverossmil. Mas, como sempre, repetida a cada novo ano de frustrao.