Citation
Jornal pessoal

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Place of Publication:
Belém, Pará, Brazil
Publisher:
Lúcio Flávio Pinto and Luiz Pinto
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular
Language:
Portuguese
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002 ( lcsh )
Genre:
serial ( sobekcm )
periodical ( marcgt )
Spatial Coverage:
South America -- Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
Copyright. Permission granted to University of Florida to digitize and display this item for non-profit research and educational purposes. Any reuse of this item in excess of fair use or other copyright exemptions requires permission of the copyright holder.
Resource Identifier:
23824980 ( OCLC )
91030131 ( lccn- sn )
Classification:
F2538.3 .J677 ( lcc )

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Full Text

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o a AMAZNIA Fronteira colonial Lder em trabalho escravo, em violncia no meio rural, em pistoleiros de aluguel, em destruio da natureza, em educao ruim, em precariedade de servios e saneamento bsico nas cidades, em sade pblica a lista de fatos desabonadores em uma agenda cotidiana na Amaznia extensa e assustadora. Em algumas situaes e em alguns lugares, parece que a defasagem entre a Amaznia e a rea mais desenvolvida do Brasil (e mesmo em suas reas imediatamente perifricas) mais do que de dezenas de anos, de sculo ou de sculos. Cumprir as leis parece ser um exagero, um excesso de suscetibilidades, iniciativa incabvel, aspirao ilegtima. Garimpeiros que extraem ilegalmente ouro do fundo do rio Madeira, valendo-se de balsas velhas, se apropriando de um bem que s pode ser explorado com autorizao estatal, Apesar de todos os avanos cientficos e legais, a Amaznia ainda uma regio atrasada. Sua condio resulta da vocao que lhe foi imposta: ser uma fronteira colonial. Em meio sculo, foi o que se consolidou. um destino inevitvel? Talvez no. Salv-la exige muito. Exige uma utopia.poluindo as guas e contaminando os peixes, quando punidos por sua agrante ilegalidade reagem com fria, sentindo-se no direito de destruir bens do patrimnio pblico e ameaar os servidores que cumprem a lei. Madeireiros apanhados no interior de unidades de conservao da natureza ou em reservas indgenas a abater e arrastar rvores que levaram dcadas para atingir a maturidade e se integrar num conjunto harmnico que precisa ser mantido na sua integridade, partem para atos de vandalismo e mobilizam a populao da rea para proteg-los, embora estejam se apropriando de um bem nobre em benefcio exclusivamente deles. Apesar da evoluo nas leis e na scalizao para o seu cumprimento, alm dos nmeros da

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2 grandeza crescente da atividade produtiva, quem anda pela regio tem uma sensao de insegurana e de precariedade. Um clima de tenso e agressividade que distancia a Amaznia da posio das regies mais desenvolvidas dentro e fora do Brasil. Com olhos para ver, constatase que os sinais de enriquecimento e progresso so precrios, transitrios. Como se o incremento econmico entrasse por uma porta e sasse por outra, sem se enraizar de forma perene na condio de verdadeiro progresso. Esse mecanismo se alimenta da condio de fronteira imposta Amaznia e dos mecanismos colonial de explorao das suas riquezas, que s geram efeito multiplicador fora dela. A fronteira deve ser amansada pelo bandido antes que chegue o mocinho, disse o economista Delm Netto, no auge do seu poder, sob o regime militar, na dcada de 1970. A colnia deve, sobretudo, gerar dlar, determinou o II Plano de Desenvolvimento da Amaznia (1975-1979). Essas regras prevalecem at hoje. A ditadura acabou e seis presidentes se sucederam em 32 anos de democracia, eleitos por quatro partidos diferentes, de um extremo a outro do espectro poltico e ideolgico. Mas a Amaznia continua a ser uma fronteira de natureza colonial, com vocao imposta: produzir bens de aceitao no mercado internacional, intensivos em energia. Fora desse circuito favorecido, que o caos siga seu curso no restante das relaes econmicas, sociais, polticas e culturais. No importa quem esteja na ponta dessas frentes de penetrao aos extremos dessa vasta fronteira, que, s no Brasil, constituiria o segundo maior pas do continente: posseiro, colono, madeireiro, garimpeiro, minerador, Joo da Silva ou sociedade annima, todos agridem a natureza, modicam radicalmente a paisagem, investem furiosamente contra o ambiente, passam por cima dos nativos, ignoram que h histria realizada por eles e seguem para objetivos previamente denidos, independentemente do conhecimento (precrio ou falso, quando existente) sobre cada uma das partes dessa vasta Amaznia. A fronteira amaznica definida por uma vertente ancorada na doutrina de segurana nacional. o lema dos militares abrindo estradas de penetrao pelo centro desconhecido da regio: integrar para no entregar. Haveria uma permanente e perigosa ameaa de internacionalizao a exigir do governo central a expanso da populao para reas ditas vazias e faz-las desenvolver uma atividade qualquer de fixao nesses locais, j que a terra nua no tem valor ( o conceito do VTN). S assim os ameaadores vizinhos estrangeiros ou os distantes povos imperialistas deixariam de se aproveitar desses espaos vazios para usurpar os brasileiros e anexar sua reserva de futuro. A histria real j se encarregou de desmentir essa geopoltica. O exemplo mximo foi a possibilidade que o governo imperial brasileiro abriu para a Inglaterra, maior potncia no sculo XIX, para estabelecer um governo metropolitano na Amaznia, a partir da represso aos cabanos. Ao invs disso, os ingleses mandaram seu banco para nanciar a extrao da borracha e garantir sua supremacia nesse comrcio. Essa teoria geopoltica tem valor utilitrio. Esgrimindo a cobia internacional como ameaa iminente e constante, a ao nacional integradora a qualquer preo se legitima. Ela faz a remisso dos males a cada dia em que se derrubam centenas ou milhares de rvores em oresta nativa. Tudo bem: para proteger a Amaznia, mantendo-a nacional. E cada vez menos Amaznia. Os atos violentos dos ltimos dias mostram que, em cada um dos locais de conito, a situao real difere muito dos relatos que dela so feitos e do diagnstico produzido distncia. Os grileiros de terras, os madeireiros clandestinos, os garimpeiros ilegais e vrios dos personagens de destaque e poder j no agem isoladamente, Passam a formar organizaes criminosas, para usar a expresso corrente, manipulando inocentes teis ou insuando revoltas procedentes, em grande medida produzidas pela insensibilidade do poder central. Mais e mais me conveno de que a nica sada com efeito prtico, embora de mais longa maturao, com a fora e as limitaes de uma utopia, substituir os agentes que se encontram na linha de frente desse avano sobre as reas pioneiras por pessoas qualicadas a entender a regio e utiliz-la da melhor maneira possvel. Seriam os assentamentos cientcos, a que dei o nome de kibutz, inspirado no esprito e na mstica do exemplo de Israel em outra fronteira, a do deserto. Ao invs de seguir pelo rastro da destruio praticada por todas as frentes de ocupao, eles provocariam uma onda de saber em sentido inverso: do ponto mais avanado da penetrao para trs, numa mar de saber a arrastar e lanar a irracionalidade para fora da Amaznia. mera utopia? Gostaria de discutir a ideia, que reapresento, ampliada, a seguir.O governo federal, como o principal agente no processo de ocupao da Amaznia, criou mecanismos de apoio a diversos atores no cenrio dessa fronteira. Financiou grandes empreendimentos de minerao, metalurgia e siderurgia, obras de infraestrutura, assentamentos de colonos, abertura de fazendas de gado, garimpos, cultivos agrcolas ou seja, atividades produtivas convencionais e seu suporte logstico. Alm do incremento de indicadores quantitativos, o principal efeito dessa ofensiva, que j dura mais de meio sculo, foi a destruio dos recur sos naturais da regio, traduzido, principalmente, pela derrubada de oresta numa escala jamais experimentada at agora em qualquer outro pas, em qualquer poca. Alm da desestruturao social, represso cultura nativa e consolidao de um modelo colonial de explorao econmica. Feito um balano de todas as par cerias at agora experimentadas, resta uma, que no indita apenas em relao expanso da fronteira nacional na Amaznia, mas em todo mundo: o assentamento de um novo personagem, esquecido ou maltratado pela ao ocial: a cincia e os cientistas. O governo colocaria, nos pontos de vanguarda do espao amaznico, ncleos de formao de mo de obra cientca e de experimentao da cincia, os kibutzim cientcos. A

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3 denio dos locais obedeceria a diretrizes extradas do zoneamento ecolgico-econmico federal, em combinao com os zoneamentos estaduais e se existentes municipais. As atividades a serem desenvolvidas se compatibilizariam com as principais demandas de conhecimento nos diversos locais nos quais a frente econmica toca nas reas ainda no ocupadas, ou onde os conitos, produzidos tanto pela tenso entre os grupos sociais como pela incapacidade de utilizar os recursos adequados para a penetrao nessas reas, exigem a presena do poder pblico, como agente arbitrador e normatizador. Vejamos um exemplo. A Terra do Meio, no vale do Xingu, no Par, hoje, a principal zona de tenso entre a frente desmatadora oriunda do sul do pas e a populao nativa ainda em equilbrio (mesmo que imperfeito) com a natureza. Seriam criados campi para abrigar um instituto de oresta, um centro de estudos agrrios, um instituto de guas (tendo como referncia a polmica em tor no da hidreltrica de Belo Monte), um instituto de agricultura da terra rme, um ncleo de antropologia e entidades ainda a examinar. Esses campi dariam cursos de graduao e ps-graduao, recrutando tanto os candidatos iniciao no ensino superior quanto os que j esto em condies de se dedicar a pesquisas. As vagas seriam limitadas, para possibilitar o melhor rendimento possvel. Os alunos teriam aulas convencionais, mas, j na graduao, teriam que desenvolver projetos de pesquisa que se desdobrariam para a ps-graduao. No apenas enquanto trabalhos acadmicos. Um estudante de engenharia florestal receberia, a par tir do momento da aceitao da sua candidatura, por comodato, um talho de mata nativa (500 hectares, por exemplo) para nele realizar suas ideias. Alm de uma bolsa de valor signicativo, ele teria acesso a um emprstimo para desenvolver operacionalmente seu lote, emprstimo que se tornaria a fundo perdido com a aprovao da tese de doutorado, no nal do curso integrado (no caso de no aprovao, o pagamento seria feito em forma de prestao de servios na rede pblica de ensino, computando-se o valor subsidiado do emprstimo).Esse aluno/pesquisador receberia permanente assistncia e superviso de tcnicos de notria qualificao, nacionais e estrangeiros, submetendo-se ainda a auditagens contbeis e financeiras.Os campi, instalados nos pontos de tenso e transio da presena humana, seriam bases para a circulao e atuao prtica dos graduandos, ps-graduando e cientistas, tanto pelos ambientes acadmicos como na interao com a populao local. O objetivo seria fazer a demonstrao da cincia para os habitantes nativos, ao mesmo tempo em que absorver seu conhecimento. Da mesma maneira como os alunos e seus orientadores realizariam atividades junto populao local, os moradores seriam incentivados a frequentar cur sos especcos nos campi, de acordo com a natureza da s suas atividades. Uma boa realizao dessa diretriz acabaria com o velho e cruel ditado brasileiro, segundo o qual quem sabe, faz; quem no sabe, ensina. Tambm e principalmente faria a cincia ter participao direta e imediata no drama amaznico, ao invs de ser ferramenta de retaguar da ou fonte de referncia remissiva, sobretudo sobre os erros cometidos. Ela passaria linha de frente dos acontecimentos, tornando-se protagonista da histria. No uma cincia qualquer, mas a melhor que seria possvel constituir com base nas qualificaes nacionais e no intercmbio internacional. Os kibutzim cumpririam um plano de desenvolvimento cientfico da Amaznia, com horizonte de 20 anos, tendo como principal suporte os zoneamentos e recursos suficientes para enfrentar um desafio que poucos empreendimentos cientficos representam hoje no mundo. Evidentemente, os recursos nacionais no sero suficientes. Acredito que todo um plano, como o que agora se quer iniciar, caso a proposta venha a ser considerada pelo menos como merecedora de apreciao, teria que ser dedicado integralmente a essa iniciativa, pelo menos para poder atrair outras fontes de financiamento. O oramento dos kibutzim cientficos ser pesado. Ter que possibilitar construir campi confortveis em locais distantes e isolados, darlhes o melhor que a cincia e a tecnologia pode oferecer em cada um dos ramos do saber utilizado, oferecer aos alunos e pesquisadores remunerao capaz de mant-los nesses locais por pelo menos oito anos e verba de investimento para seus projetos executivos ou produtivos. Tudo isso para colocar a cincia e os cientistas onde esto as frentes pioneiras ou alm delas, antecipando-as, no esforo para impedir que cheguem at esses locais, se tal necessrio ou faam melhor do que j vinham fazendo. Conciliando a inteligncia com a natureza, enquanto h Amaznia para permitir essa utopia. O Amap tem o pior ensino fundamental do Brasil, segundo a pesquisa que foi agora divulgada. O Maranho, o segundo pior. Jos Sarney, cujo nome verdadeiro Jos Ribamar Ferreira de Arajo Costa, foi governador e senador tanto pelo Maranho quanto pelo Amap. E ainda escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Pelo jeito, no transmitiu o que sabe aos dois Estados, no soube transmitir ou no sabe. De qualquer maneira, no uma boa associao. Ah, sim: o Par est entre os cinco piores. O professor Simo Robison Jatene o governador por mais vezes (trs) e que por mais tempo foi eleito para o governo do Estado e permaneceu no cargo. Tem sido equitativo com alunos e professores da rede estadual de ensino: contra ambos.

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4 Vamos extinguir o TCM? Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal reconheceu ser possvel a extino de Tribunal de Contas dos Municpios atravs de emenda constitucional estadual. Por maioria, a corte julgou improcedente a Ao Direta de Inconstitucionalidade da Associao dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil. A entidade questionava emenda feita constituio do Cear, aprovada em agosto, que extinguiu o TCM do Estado. Com essa deciso, restam apenas os TCM de Gois, Bahia e Par. O ministro Alexandre de Moraes divergiu do relator. Para ele, a extino desses tribunais reduziu o poder de scalizao de forma deliberada. Entendeu que o ato dos deputados caracterizou um desvio de nalidade, principalmente quando, s vsperas da eleio, 29 deputados estaduais que votaram pela extino do tribunal tiveram suas contas rejeitadas exatamente por este rgo. A emenda, para o ministro, fere o artigo 34, inciso VII, alnea d, da Constituio, ao permitir a interveno do estado-membro na prestao de contas da administrao pblica direta e indireta. O ministro Gilmar Mendes acompanhou a divergncia. Os dois foram vencidos pelos votos de Marco Aurlio de Mello, Edson Fachin, Lus Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Crmen Lcia. O relator, Marco Aurlio de Mello, contestou a alegao. Disse que sem elementos probatrios sucientes no possvel reconhecer se houve desvio de poder de legislar da Assembleia Legislativa do cearense. A fraude na edio de lei com o objetivo de alcanar nalidade diversa do interesse pblico deve ser explicitada e comprovada, disse ele. O ministro sustentou a possibilidade de extino de tribunal de contas responsvel pela scalizao dos municpios mediante a promulgao de emenda constituio estadual. J a constituio federal no proibiu a supresso desses r gos. A assembleia de 1988 limitou-se a reconhecer a existncia de estrutura dplice de controle em determinados estados sem torn-la obrigatria. A instituio de tribunal de contas especcos no foi tida como essencial, armou no seu voto. Aquesto que vem depois de mais essa iniciativa : por que no por m de vez aos trs tribunais que sobrevivem? Espero ajudar a responder questo reproduzindo artigo que escrevi na minha coluna diria em O Liberal de janeiro de 1986.ARTIGOO Conselho [ atual Tribunal ] de Contas dos Municpios do Par comeou tor-no, os nobres propsitos de sua criao usados como instrumento para a realizao de objetivos polticos pessoais. A tortuosidade, ao invs de ser corrigida, est sendo acentua-da pelas ltimas modicaes introduzidas na sua estrutura, graas a um acerto que envolveu o Conselho, o Executivo e o Legislativo, custa do dinheiro do contribuinte, A tortuosidade recente comeou pela aprovao da lei 5.292, de 17 de dezembro do ano passado, cujo texto original a As-sembleia Legislativa, no tradicionalmente desatento perodo de sesses extraordi-nrias, refez. Embora ordinria (formal e moralmente), a nova lei modicou uma lei orgnica anterior, que criava o Conselho. J a estava consumado o delito de subverso hierrquica: os deputados a aprovaram em votao singular, sem quorum qualicado e sem reapresentao. E assim uma lei me-nor passou a modicar uma lei maior, que j entrara em contradio com norma legal superior (a lei complementar, federal, do Ministrio Pblico). A nova lei aumentou exageradamente o quadro tcnico do Conselho. Para auxiliar sete conselheiros, o CCM dispunha ori-ginalmente de trs procuradores e quatro auditores. Agora, ter oito procuradores e oito auditores. Todos os procuradores in-gressaro na carreira pblica sem concurso, sem se submeter a vericao de ttulos e no topo da carreira. Cada um ganhar, se no houver outras vantagens pessoais (certamente conferidas ao procurador-geral), 10,8 milhes de cru-zeiros por ms, includos os adicionais de representao. Trs dos procuradores e qua-tro dos auditores foram nomeados em 1982, em carter de emergncia, porque o rgo era recm-criado. O normal seria que a precariedade do provimento fosse sanada com a regulariza-o da situao. O contrrio que ocorreu: por um ato discricionrio, o governador no s efetivou os primeiros tcnicos como nomeou os demais, metade dos quaisseus parentes, parentes de outros membros do governo e do partido poltico que o apoia. Pelas normas estaduais e federais, em vigor desde 1982, o cidado que quiser ser membro do Ministrio Pblico precisar se submeter a um concurso pblico de provas e ttulos e ainda fazer uma prova de tribuna. Nos dois ltimos concursos realizados, 400 advogados se submeteram a provas e apenas 130 passaram. Admitidos, os vencedores comearam a subir os degraus da carreira, como promo-tores de terceira entrncia, no interior do Estado. O topo, a procuradoria, na capital, s alcanado aps vrios anos, especial-mente porque os concursos tm que obede-cer ao espaamento mnimo de dois anos. Os novos procuradores do CCM, po-rm, so privilegiados: no precisaro fazer carreira, enfrentando distantes e inspitas comarcas interioranas, vo ganhar salrio de m de carreira, no se submeteram a concurso algum e podero at desempe-nhar tranquilamente outras funes, graas reduzida carga de trabalho. No entanto, so to procuradores quanto qualquer ou-tro colega de trabalho que tiver alcanado a posio depois de peregrinar pelos vrios nveis de promotoria pblica. O absurdo pode parecer apenas um caso de favorecimento pessoal, mas vai muito alm disso, embora bastasse esta dimenso para forar os legisladores, a autoridade ad-ministrativa e os conselheiros do CCM, in-dividualmente ou em conjunto, a propor a imediata reviso da situao irregular criada. Mais grave ainda do que a prtica do nepotismo o quinto constitucional que se criou. Os procuradores no so procurado-res do Conselho (ou do Tribunal de Contas do Estado). Eles so procuradores do Mi-nistrio Pblico junto ao Conselho (ou ao Tribunal). A confuso entre as duas condi-es esteve presente na lei de dezembro e nos primeiros decretos de janeiro, corrigidos em seguida por outros decretos de nomeao. Foi um corretivo puramente formal, no entanto: os procuradores do Conselho, como os do Tribunal, so corpos estranhos ao Mi-nistrio Pblico do Estado. A ele esto vincu-lados apenas na letra morta da lei ordinria. Na prtica, no tm qualquer vinculao ao MP, no integram o colgio dos procurado-res, no recebem seus salrios pelo MP, no fazem parte do seu quadro de pessoal e no se subordinam nem mesmo s leis comple-mentares (federal e estadual), que deniram e regulamentaram a ao do rgo. Como, nessa condio, podem os pro-curadores agir com independncia, como promotores do interesse pblico junto s instituies de auditagem das contas p-blicas? Na verdade, esto atados funcional-mente a um rgo dentro do qual precisa-riam atuar com autonomia, como scais da lei, condio ainda mais complicada pelo imbrglio familiar que a prerrogativa da nomeao proporcionou. Como acreditar que os ditames da lei e os compromissos da instiuio esto sendo cumpridos se h sempre uma mo lavando a outra nesta sucesso de elos originrios de uma mesma matriz? Quem no respeita a si prprio no respeita as instituies. E viceversa. O exemplo citado mais uma com-provao desta verdade.

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5 A guerra dos MaioranaOs irmos Maiorana travam uma guerra em vrios fronts pelo controle do imprio de comunicao herdado do pai. Na justia, a vantagem at agora dos cinco irmos dissidentes, liderados por Ronaldo e Rosngela, apoiados por Rose, ngela e Roberta (Rosana, a mais velha, vendeu sua parte e est neutra). A deciso dos novos dirigentes de Delta Publicidade e TV Liberal de afastar Romulo Maiorana Jnior do controle da corporao foi mantida, contra dois recursos apresentados pelo ex-presidente executivo do grupo Liberal. Foi uma disputa emocionante e cheia de imprevistos. Na vspera das assembleias gerais que puseram m a um mando de 30 anos de Rominho, ele conseguiu liminar, no dia 29 de setembro, para suspender a reunio. Seus irmos aguardaram at o ltimo momento para obter a suspenso da deciso, atravs de nova liminar, certicada oito minutos depois da segunda chamada para a primeira assembleia, mas que vigorou. Um novo recurso foi apresentado contra a deciso tomada nas assembleias, por no terem sido convocadas pelo conselho scal das empresas, conforme manda a legislao. Esse recurso ainda no foi julgado. Na frente interna, Romulo Jnior conseguiu o apoio da me, Lucida Maiorana, viva do fundador do imprio de comunicaes. Mas a procurao que ela assinou, transferindo seus poderes para o lho, no chegou a ser registrada, apesar de trs tentativas feitas em diferentes cartrios, por interferncia dos outros irmos. Quando S Pereira, ligado a Rominho, saa do apartamento de Da, na praa da Repblica, Ronaldo Maiorana o interceptou e se apossou do documento e da pasta que o ex-diretor do jornal levava. S Pereira registrou boletim de ocorrncia na polcia. Esse foi tambm o recurso do advogado Carlos Tostes, que defende Rominho. Ele apresentou polcia um e-mail de Ronaldo ameaando-o e at lhe sugerindo que procurasse mesmo proteo para a eventualidade de se encontrarem. O ambiente na famlia se tornou perigosamente belicoso.Demisso de jornalista: o perigo do precedente Depois do golpe de 1964, os militares pediram as cabeas de dois comunistas que escreviam editoriais em dois dos maiores jor nais do pas. Ambos O Estado de S. Paulo e O Globo apoiaram a deposio pela fora das armas do presidente constitucional do pas, Joo Goulart. Mas nem Jlio de Mesquita entregou o por tugus Miguel Urbano Rodrigues nem Roberto Marinho descartou o maranhense Franklin de Oliveira. Eles so comunistas? Mas so meus comunistas, teriam respondido Julinho e Marinho. Vivi, em escala microscpica, situao semelhante. Certo poltico poderoso tambm sugeriu minha demisso do Estado por ser comunista (o que nunca fui). Instigado a colocar o pedido no papel, com todos os seus argumentos, caiu na armadilha: documentou a iniciativa. O destinatrio me entregou de presente a carta, que mantenho no meu arquivo. Com o compromisso de jamais dar nomes aos personagens. S depois da mor te da fonte. Alis, ao pedir demisso do jornal, do qual era ento correspondente em Belm, o prprio dono, Jlio Mesquita Neto, filho do Julinho, me telefonou. Eu tinha 18 anos contnuos na empresa e nela, disse o patro, havia uma regra no escrita: jornalista com mais de 15 anos, sem qualquer seno na sua ficha e com servios prestados, virava mveis e utenslios da casa. S sairia por uma falta grave ou se quisesse. Agradeci a iniciativa do chefe de me demover da demisso e sa para me dedicar definitivamente ao Jornal Pessoal. S assim ele conseguiria chegar aonde chegou: aos 30 anos. Lembro desses fatos a propsito da demisso de um jovem jornalista da Folha de S. Paulo, Diego Bargas, de 29 anos, oito meses na empresa. O incidente comeou por uma entrevista que ele fez com o humorista Danilo Gentili, a propsito do lme realizado pelo humorista. Gentili no gostou do texto, provou que o jornalista no fora inteiramente el entrevista e o acusou de m vontade por ser um simpatizante do PT de Lula, Dilma e Haddad. O jornalista foi infeliz por duas vezes. Ao fazer a matria e ao deixar um o encapado usado por seu desafeto para dar-lhe um choque, queimando-o como tendencioso, militante petista e de m f. De fato, Bargas se manifestava partidariamente (ou ideologicamente) nas redes sociais. A pena, no entanto, foi excessiva e um precedente perigoso. Os erros podiam ser punidos com advertncia, suspenso e pedido pblico de desculpas pelo reprter se ele concordasse. E ainda com o exerccio do direito de resposta pelo humorista. Eu, pessoalmente, jamais o condenaria por se manifestar politicamente como cidado, mas se h uma norma na empresa em que trabalha vetando essa dupla atividade, ento devia segui -la. Ou se demitir em protesto. Mas dever tico do jornal no deixar que a reao do atingido leve a uma punio dessa dramaticidade. No devia entregar a cabea do seu prossional dessa maneira. Signica colocar o bode na sala. Tir-lo acaba se tornando um problema maior, alm de romper com uma das melhores tradies na imprensa: no se submeter a uma atitude inquisitorial. As boas tradies tm sido sufocadas pelas ms inovaes na imprensa brasileira.

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6 Paz entre Maiorana e Barbalho: o jornalismo ganha ou perde?O depoimento do ex-deputado Pedro Corra em delao premiada, divulgado no ms passado, mais um que deixa o senador Jader Barbalho em situao difcil junto aos investigadores da Operao Lava Jato.O poltico pernambucano do PP conrmou ter participado, na residncia do senador Renan Calheiros, com o antrio, mais Jader, Eduardo Cunha e Henrique Alves, todos do PMDB, de uma reunio para decidir o esquema de propina com diretores da Petrobrs Paulo Roberto Costa e Nestor Cerver.Seria a recompensa por indic-los e mant-los nos cargos de responsveis pelas reas de abastecimento e internacional da perolfera estatal, respectivamente. O outro integrante da reunio era o lobista Jorge Luz, tambm preso e j condenado pela justia, junto com o lho, Bruno. Na sua delao premiada, Jorge contou a mesma histria, com os mesmos detalhes. O primeiro pagamento teria sido feito para a eleio de 2006. Luz, que atuava como lobista, nesse mesmo ano foi convidado para o casamento de Helder Barbalho. S como convidado ou como padrinho no ficou esclarecido. Depois de armar que s se encontrou com Jorge Luz uma vez, quando foi governador, no primeiro mandato (entre 1983 e 1987), e negado que o lobista tivesse participado do casamento do lho, o senador paraense acabou voltando atrs. Um ms antes, o fato seria manchete em O Liberal e assunto para ocupar uma pgina interna. Surpreendentemente, porm, o jornal excluiu Jader do seu noticirio, mantendo apenas a citao de Renan Calheiros. Henrique Alves e Eduardo Cunha, do bloco do PMDB corrupto, segundo Corra. A nova direo do grupo Liberal, comandada por Ronaldo e Rosngela Maiorana, decidiu por um m na diretriz obsessiva do irmo, Romulo Maiorana Jnior, desde que o destituram, no dia 30 de setembro, do principal cargo da empresa, o de presidente executivo. De fato, o empenho de Rominho beirava as raias da paranoia. No s num acerto de contas pessoal como para agradar seu principal aliado, o governador Simo Jatene, do PSDB, e como meta comercial. Ele achava que, atravs desse procedimento, podia destruir o concorrente, que superou O Li beral em vendagem. A posio dos novos dirigentes parecia seguir a linha de equilbrio. Logo, porm, foi para o extremo oposto, to nocivo formao da opinio pblica quanto a anterior. Sem sensacionalismo ou excesso, o jornal podia fazer o que lhe compete: jornalismo, o que impe no brigar com os fatos. Se eles existem e so relevantes, tm que ser publicados. Do contrrio, ao invs de um acordo de cavalheiros, em respeito iseno e objetividade para praticar jornalismo, vai parecer um acerto de ma. No entanto, duas notas que abriram o Reprter 70, a principal coluna de O Liberal na edio do dia 21, mostravam que a opo era pela segunda hiptese. A primeira nota, sob o ttulo Notcia/Fidelidade: A matria sobre a condenao do lobista Jorge Luz e do seu lho Bruno Luz, acusados de serem operadores de propinas do PMDB, publicada nesta edio, na pgina 3, do Caderno Poder, foi transmitida pela Agncia Estado, sem que fosse citado o nome de qualquer membro do PMDB, em nvel nacional ou local, nem tampouco do senador Jader Barbalho, que foi citado por agncias de notcias com as quais este jornal no tem contrato, mas no na Agncia Estado. A segunda nota, intitulada Defesa, justicava: A exemplo de outras matrias aqui reproduzidas e at por questes autorais o texto da reportagem mantmse el ao que foi enviado pela agncia de notcias, cando o jornal impedido de acrescentar ou suprimir o nome de quem quer que seja. Como mandam as regras do bom jornalismo, obrigao do jornal cobrir a atuao dos trs senadores do Par, no Congresso Nacional, sempre dando a cada um o direito de defesa, caso sejam citados nas matrias veiculadas. Segundo o manual de jornalismo que li e pratico h mais de meio sculo, ao receber o despacho da Agncia Estado sem a citao do nome do senador Jader Barbalho e de outros parlamentares do PMDB, um jornal que diz acompanhar as atividades dos representantes do Par no Congresso Nacional, como dever prossional de bem informai os seus leitores, teria feito a pergunta elementar: por que a omisso? Sim, omisso, j que o prprio O Liberal (e, com ele, toda imprensa nacional) noticiou diversas vezes, com destaque e at exagero, as acusaes que o lobista Jorge Luz fez contra Barbalho, para car s no poltico paraense. A resposta to bvia quanto a per gunta: a sentena do juiz Srgio Moro no incluiu o ex-governador porque ele tem foro privilegiado. S pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal, por prerrogativa da funo senatorial. No est sob a jurisdio de um magistrado de primeiro grau, mesmo sendo federal, como o juiz de Curitiba. Bastava a direo do jornal dos Maiorana ir aos arquivos de O Liberal e fazer um box para esclarecer o leitor sobre esse detalhe fundamental. Ou acionar o reprter da sucursal de Braslia para reavivar o caso e vericar o andamento do processo especco contra Jader Barbalho no STF. Se assim procedesse, abriria automaticamente espao para o direito de resposta do senador. Esse direito, contudo, no pode ser exercido porque Jader Barbalho no tem motivo algum para se defender. A nota do Reprter 70 se limitou a dizer que, praticando o bom jornalismo, no acrescentou o nome do dono do grupo de comunicao concorrente matria enviada pela agncia de notcias de O Estado de S. Paulo para no violar a integridade do texto e o direito autoral do contratado. Para nada dizer que pudesse desabonar o ex-inimigo mortal, transformado em quase parceiro com a destituio de Romulo Maiorana Jnior do coman-

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7 Temer se salva sem ser inocentedo do grupo Liberal, monopolista da guerra aos Barbalho, O Liberal diz que no disse e oferece ao citado o direito de no dizer o que poderia dizer se fosse o caso de dizer. Isso no bom jornalismo: sur realismo. A necessidade de inventar regras e ir alm da razo surge justamente quando praticar o jornalismo substitudo por composio de interesses privados sobrepuja o que interessa ao bom jornalismo: manter a sociedade bem informada. Paz, decncia, respeito e cordialidade so bem vindos como novidade na relao entre os veculos de comunicao do Par. Para enganar a opinio pblica, no. a questo que se coloca agora: at onde ir a poltica de reaproximao dos Maiorana com os Barbalho no uso da informao pelos seus veculos de comunicao? Haver um renascimento do jornalismo no Par ou ele continuar a se degradar, na forma de um ajuste de interesses e compromissos polticos, comerciais e pessoais dos seus donos?A desateno de Edmilson As comisses de tica dos trs poderes da repblica deveriam ter por norma obrigar todos os servidores, de car reira, admitidos pelo voto popular ou por nomeao para cargos de conana, a obrigatoriamente se manifestarem quando acusados publicamente de praticar algum crime, principalmente pelos meios de comunicao de massa. O silncio imporia penas de natureza moral, administrativa e funcional, sempre com anotao e registro. Bimensalmente essas comisses divulgariam listas de servidores pblicos que no se pronunciaram quando citados por suspeita de cometer algum delito, e as punies que sofreram. O procedimento pouparia a sociedade de assistir, quase todos os dias, a um espetculo mambembe. Uma emissora de televiso, por exemplo, noticia uma acusao contra determinado homem pblico do executivo, do legislativo, do judicirio ou do Ministrio Pblico. Em seguida, d a verso dos citados, que s variam no uso de adjetivos qualicativos e defensivos numa resposta meramente retrica. O acusado promete que ir provar a sua inocncia e qualica de infamante a denncia. Menos por ter condies de apresentar provas do que por apostar na desmemria nacional. Joga com o tempo a seu favor. O exemplo devia comear pelo presidente da repblica, a maior autoridade do pas. As notas e manifestaes de Michel Temer se sucedem a cada novo fato gravoso a ele imputado, os dois maiores resultantes das denncias do ex-procurador geral Rodrigo Janot. Temer, porm, se reduz ao palavrrio gongrico (ou barroco) de causdico na tribuna de jri popular ou a comprar adeses com dinheiro pblico, numa escancarada e escrachada negociao (ou negociata). At hoje, a presidncia da repblica no se dignou divulgar um dossi com informaes e documentos que provassem a inocncia do presidente. A cada novo fato, um dossi. claro que ele ir usar essa prerrogativa em juzo, quando as denncias l chegarem (e que no chegaro, ao que parece, enquanto ele usar sua inegvel competncia para tratativas de gabinete combinada com verbas pblicas). Por isso mesmo, as comisses de ticas deviam, independentemente do devido processo legal (hoje um jargo pela repetio mecnica), impor-lhe a resposta sociedade, que o colocou aonde est. Anal, raramente o povo tem acesso a autos judiciais para ter cincia dos fatos na sua origem, na fonte das informaes, e no preparadas ou manipuladas pelos intrpretes ou personagens. Assim, Michel Temer conseguiu se livrar da segunda denncia sem precisar provar que inocente. A tarefa dever car para alguma data depois de 1 de janeiro de 2019, quando os processos sero retomados pela justia, se ele voltar a ser um cidado comum, sem foro privilegiado e sem ttica oportunista de sobrevivncia custa da nao. Da bancada de 17 deputados federais paraenses, o nico ausente para surpresa geral na votao da segunda denncia contra o presidente Michel Temer, na semana passada, foi Edmilson Rodrigues, do PSOL. Seu nome foi chamado duas vezes e ele continuou fora do plenrio. Apareceu quando a votao j passara para outro Estado. Ao seu estilo, pegou o microfone e proclamou que a repblica est podre, o chefe do governo do Estado brasileiro, o Brasil no aguenta o fedor. no para que investiguemos e rompamos com esse ciclo vicioso de destruio de direitos e de corrupo. Seu discurso pelo prosseguimento da denncia no teve qualquer efeito prtico: ele j fora declarado formalmente como ausente pela mesa que dirigia a sesso. No momento da chamada, o ex-prefeito de Belm dava entrevista TV Cmara na porta do plenrio. Disse que, de l, no ouviu a chamada. Por desateno, segundo a sua prpria verso, se tornou um dos 25 ausentes sesso, o nico que estava presente, a apenas alguns metros do microfone. Como o prosseguimento da denncia dependia dos votos de dois teros do plenrio (ou 342 deputados), as ausncias contaram a favorde Temer. O oposicionista loquaz, violentamente contrrio ao presidente, acabou o favorecendo. Quando largava o microfone para o discurso intil, ainda teve que ouvir o obrigado irnico de um colega no identicado, mas certamente pr-Temer. Sua distrao, motivo de muita especulao nas redes sociais, poder lhe custar ainda muito caro junto ao eleitor. Ou lhe render dividendos polticos, quem sabe.

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8 Um poeta paraense no meio do mundoA poltica da ambiguidadeDois anos depois de estrear com Cinzas, Fernando Maroja Silveira consolida seu espao de poeta original com O escravo do vazio (Editora Penalux, So Paulo, 80 pginas). Uma vez denidaa as suas origens em Belm do Gro Par, ele circula pelo mundo da geograa e da histria, guiado por leituras intensas e o olhar agudo de um homem das letras, o poeta, e das imagens, o fotgrafo, numa dialtica harmoniosa e perscrutadora, que por vezes lembra Elizabeth Bishop, em outras Mrio Faustino, indo alm em busca do meio da ponte, que o meio do vazio. A escravizao ao vazio o ponto de partida e, aps volutas sensoriais e intelectuais, o local de chegada, num vazio que novo, pronto para ser reiniciado. Fernando o vai preenchendo com citaes que no se reduzem a citaes. Elas se atam ao ir e vir de Homero a Rimbaud, de Viena a Veneza, das guerras dos nossos dias s conagraes de ontem, na busca por um rumo, um sentido, uma luz. Em poemas curtos, soma e sntese de palavras lavradas com esmero e competncia at se tornarem ossurios simblicos, ele esgrime sua percepo, s vezes arrematando-a com uma frase seca e bela, sntese do que o captador de imagens viu e o poeta, sobrevivendo jornada, registrou. Em Viena: A neve touro, outro vocbulo no h/ para nomear o animal que salta do pedestal/ e corre mais que o mar,/ a perfurar a humanidade e espionar/ seus pores. Em Veneza, voz de Vnus e vento de Orfeu, Deus lanou echas nas tuas veias,/ vidas de sangue e sereias./ Cantas/ e as cidades gritam/ contra o pus e a imagem da cruz/ na tua morte. No Rio de Janeiro: O sol a sirene da polcia/ rompendo o horizonte,/ e ns voltaremos para trs das grades. Unindo as metforas mitolgicas dos antigos s bar bries extremas dos moder nos (ou ps), e chamando a intervir no discurso vozes autorizadas a aprofundar a percepo da continuidade histrica (o que faz dos 34 poemas autnomos captulos de um romance completo), Fernando atesta a singularidade da presena dos poetas nesse trgico drama da nossa vida, cujo pulso temos diculdades cada vez maiores para tomar. Anal, a estrela a impureza do cu e sabemos que o cu no o lar da estrela,/ e sim o deserto de espertos como Rimbaud. E, agora, domnio do mais cosmopolita dos poetas nascidos no Par, lcido o bastante para ter uma certeza: A obra se levantar, o poeta jamais. Com este segundo livro, Fernando Maroja Silveira j construiu uma obra. Na capa da sua edio do dia 27, o Dirio do Par escondeu, numa manchetinha secundria, a principal notcia do dia: a rejeio da denncia contra Michel Temer e seus ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco. Magra e cara, ainda assim foi uma vitria pessoal do presidente da repblica, que do PMDB e em cujo ministrio gura um dos donos do jornal, Helder Barbalho, ministro da Integrao Nacional. Se foi uma vitria de Temer, que tem dado suporte nanceiro campanha eleitoral antecipada do lho do senador Jader Barbalho ao governo do Par, por que o tratamento editorial do assunto pelo Dirio foi to discreto, para no dizer em expresso mais adequada furtivo? Seria uma autocrtica no assumida sobre o custo para a nao, no comprometimento de 31 bilhes de reais com emendas de parlamentares que se comprometeram em no deixar passar a denncia do ex-procurador geral da repblica, Rodrigo Janot (e oito viraram a casaca na hora da votao)? Seria um ato de indelidade para poupar Helder, o pr-candidato com mais possibilidades para a disputa eleitoral do prximo ano, enquanto seu pai, sua me e seu primo, os dois ltimos atravs do voto, e o chefe do cl por meio de posies no plenrio do Senado, faziam a defesa irrestrita do presidente e correligionrio, na ambiguidade caracterstica do modo de fazer poltica no pas? Outras especulaes podem ser feitas sobre a motivao do jornal para se colocar mais uma vez na contramo de toda imprensa nacional, que deu manchete principal votao na Cmara dos Deputados, mas s h uma concluso sobre o signicado da deciso do Dirio: foi antijornalismo. Subordinado aos interesses polticos da famlia.Menos barulho em Belm? Felizmente, Belm no ter que passar pelo constrangimento e o sofrimento de comemorar o 7 de agosto de cada ano como o dia do som e estilizao automotiva. A lei que a Cmara Municipal aprovara, por iniciativa do seu presidente, Mauro Freitas (carimbem esse nome com o xis do veto), do PSDC, foi brecada na sexta-feira, 6, por um veto higienizador do prefeito Zenaldo Coutinho, do PSDB (ah, essa sopa de letrinhas partidrias sem limites!). O indigitado edil queria que o som automotivo fosse considerado patrimnio automotivo da capital paraense, numa iniciativa irracional e demaggica, para atrair a simpatia dos fabricantes de barulho da maltratada Santa Maria de Belm do Gro Par. Era o endosso da casa das leis municipais transgresso de todas as leis e aos hbitos incivilizados de uma cidade que no precisa de mais essa contribuio para se manter como uma das cidades mais barulhentas e selvagens do mundo.

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9 A corda e o crimeVai crescer o perigo sobre duas rodasQuem ganha com recorde de minrio?O Crio de 2017 j histria, mas uma das suas novidades per manece uma incgnita. O poder pblico se manteve omisso sobre a ao, cada vez mais ampla e audaciosa, de pessoas que cortam a cor da dos romeiros para vend-la em pedaos no que j pode ser caracterizado como mercado negro. A indiferena das autoridades tem servido de estmulo para a ousadia desses piratas, outrora meros fanticos ou religiosos radicais. Eles j se agrupam em quadrilhas ou bandos, agindo com precocidade crescente em relao ao ponto tradicional de desatracao da corda, que acontecia s proximidades do final do percurso de seis quilmetros, na praa de Nazar, em Belm. Esto se valendo da surpresa com que agem e at mesmo da perplexidade geral. A questo de ordem pblica por vrios fatores. Os piratas precisam recorrer a facas ou outros objetos de grande poder de corte para poder romper a corda de sisal, que grossa e resistente. Vo para a procisso armados e com arma branca. Como reagiro se alguma pessoa tentar impedi-los de atacar a corda? Qual ser a reao se algum,despreparado para tomar essa atitude, tentar impedi-los de sair da procisso com o produto do roubo? A questo nova e, talvez, indita nos anais do crime na capital paraense. Tem relao com o valor simblico da corda, agora transfor mada num souvenir, de valor em alta para atravessadores e receptadores, se que se pode usar esses conceitos em relao a um objeto religioso. preciso pensar sobre essa situao original pelo ngulo do direito e da segurana pblica, alm da sua dimenso religiosa, claro. Mas os responsveis pela segurana pblica tm que adotar, desde j, medidas de inibio, preveno e represso a esse ato, que tambm precisa ser enquadrado como crime, antes que se consolide como tal. A frota de mototxis vai mais do que dobrar na cidade. A Superintendncia Executiva de Mobilidade Ur bana de Belm j iniciou o processo para a liberao de 2,8 mil novas vagas para mototxis. Talvez o nmero dessa conduo de duas rodas venha a superar o de txis de quatro rodas e car certamente maior do que a quantidade dos uber. Melhor para o usurio? No. Esse transporte foi legalizado pelo governo federal em 2009 e passou a ser adotado em vrias cidades. Mas no em So Paulo. A prefeitura e o setor competente do Estado tm se recusado a regulamentar esse tipo de transpor te, por consider-lo inseguro. E So Paulo tem, de longe, a maior frota de motocicletas do pas e, quem sabe, do mundo. Somam quase metade de todos os demais veculos. H mototxis em atividade na capital paulista, mas so ilegais. Certa vez li que haveria trs milhes de motos em SP, mas para realizar o servio de entregas ou como transporte individual. Polticos j tentaram abrir uma brecha na prudncia, no bom senso e na racionalidade, que funcionam como barreiras liberao, mas encontraram a resistncia ocial. A opo alternativa pela bicicleta. Por aqui, pelo contrrio, proteo e favorecimento. A despeito de ser um transporte que expe a vida do usurio mais do que em qualquer outra modalidade, o sujeita irresponsabilidade dos condutores e falta de higiene dos capacetes, e custa proporcional mente mais caro do que txis convencionais e o uber. Pra que ento tanta solicitude? Mais uma vez, a Semob escolheu como sede da reunio a loja de uma empresa privada diretamente interessada na iniciativa, a Mnaco Motocenter, que revendedor da Honda. Sem sutileza nem pudor. A produo de minrio de ferro em Carajs bateu o recorde no terceiro trimestre deste ano. De Serra Nor te, Serra Leste e S11D, a Vale extraiu 45 milhes de toneladas, 8,5% a mais do que no segundo trimestre de 2017 e 16,4% alm do mesmo perodo no ano passado. No relatrio divulgado hoje, a Vale atribuiu o bom desempenho do Sistema Norte principalmente acelerao de ritmo de produo da mais nova das trs minas, o S11D, ao melhor desempenho operacional no conjunto e sazonalidade climtica, que foi favorvel produo. Mas os volumes de venda no ter ceiro trimestre foram menores do que os volumes de produo, implicando em um leve aumento dos estoques como resultado de necessidades operacionais e estratgias de mer cado. Mas que o desempenho neste ltimo perodo foi melhor do que no trimestre anterior. A Vale informou que a produo de minrio neste ano car no limite inferior da faixa entre 360 milhes de toneladas e 380 milhes de toneladas, o que indica que a companhia no ir formar mais estoques, apostando, talvez, na melhoria dos preos do minrio.

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10 Layse Salles: testemunho sobre uma poca esquecidaO ano de 1968 comeou como libertrio no Brasil, na onda de revolta que irrompeu em maio pelas ruas de Paris, sob o comando de uma nova classe, no prevista nos dicionrios da revoluo: os estudantes. De Gaulle reagiu com dura ironia, classicando aquela juventude irada e agressiva como a chienlit. Em traduo literal, uma criana que ainda no aprendeu a utilizar o mictrio. E j queria fazer histria, passando por cima do heri nacional, entronizado na presidncia da repblica. Estimulada pelo sucesso da irrupo francesa, a crianada brasileira foi luta contra a ditadura. Em maio, o clima parecia propcio derrubada do regime militar, A passeata dos 100 mil manifestantes pelas ruas do Rio de Janeiro insuava o fogo da insurreio. A ao de maior expresso dos estudantes foi a ocupao das faculdades em todo pas. O detonador era o acordo MEC-Usaid (do Ministrio da Educao e Cultura com a agncia de cooperao do estigmatizado imperialismo americano), que punha m tradio humanista das universidades nacionais e institucionalizava o tacape contra a liberdade acadmica, atravs do decreto 477 (estudante com ativismo poltico era colocado na rua). Em Belm, a primeira faculdade a ser ocupada foi a de losoa, na avenida Generalssimo Deodoro (seguiram-se as de engenharia, medicina; a de odontologia cou de fora: era de direita). Quem liderou a iniciativa foi a presidente do centro acadmico, Layse Salles, pequena no fsico, gigante no entusiasmo, lder inconteste. Estava sempre presente, atravessando a noite na sede da faculdade e animando as reunies sucessivas. A ocupao chegou ao m, os resultados foram nulos ou magros e o eclipse, com a edio do Ato Institucional n 5, em 13 de dezembro, foi tenebroso. Tanto que virou marca registrada o ttulo do livro de Zuenir Ventura sobre esses tempos: 1968, o ano que no terminou. Meio sculo depois, Layse Verberg de Salles relembra o passado em memrias gravadas e editadas por Jos Carneiro em livro (Memrias polticas Luta contra a ditadura no Par, edio do NAEA/UFPA, 210 pginas). Embora s vezes repetitivo e contraditrio, trao inevitvel em testemunhos orais gravados e em depoimentos sem suporte documental, o livro passa a ser uma referncia necessria na reconstituio da histria recente. Deve ser lido, uma leitura proveitosa. Convivi com Layse durante a ocupao. Dessa experincia dei meu testemunho no livro (que reproduzo em seguida). O que quero destacar nesta breve resenha um trao peculiar da experincia de Layse. Obrigada a fugir de Belm para no ser presa, ela retomou a militncia em Belo Horizonte. Em 1971 foi para a Holanda, destino raro dos exilados brasileiros, onde viveu pelos 31 anos seguintes. Resolveu deixar para trs o seu passado. No falou mais portugus e no deixou que seus trs lhos falassem. Praticamente se tornou holandesa, mesmo falando o idioma com diculdade o que natural diante de uma lngua to difcil e diferente da nossa. Achei que minha me se integrou demais na cultura holandesa, lamentou sua lha do meio, a nica mulher, Liana Claudomira Carolina Verberg, nome de batismo que contradita em seus termos a idiossincrasia me. Ela queria tanto se integrar que quase esqueceu de ser brasileira, complementa a lha. Ao visitar o Brasil, Liana gostou do pas mais do que da sua ptria holandesa: Achei as pessoas mais carinhosas, O lho mais velho, Marc Dario JacobusVerbe, identica o desajuste da me: ela saiu de casa no tempo da ditadura e, ao chegar Holanda, teve que enfrentar um clima frio, comportamentos culturais diferentes dos seus, fatores que contriburam para que ela no sasse sem ferimentos, exigindo tanto de si prpria que chegou a passar de seus prprios limites. Ao entrar na menopausa, aos 55 anos, j sem a companhia dos lhos, que foram estudar e trabalhar em outras cidades da Holanda, Layse relata que comeou a ter pesadelos todas as noites sobre a perseguio da Ditadura Militar que eu havia sentido de perto e acabei entrando (n)uma depresso ps-traumtica. Admite que foi um perodo muito pesado, mas com remdios e terapias comportamentais, consegui relativamente resgatar meu equilbrio emocional. O trabalho que passara a fazer na Holanda, militando no Partido Socialista, pelo qual chegou a ser suplente de vereadora (recusando-se a substituir o titular, quando ele saiu, para no prejudicar sua vida pessoal), foi comprometido por traumas daquele tempo de luta no Brasil, deixando-a muito estressada, e cava sempre querendo comparar demais com a situao do Brasil, observa Liana. Mas se orgulha de como ela lutou por seu Ideal, considerando uma pena que no comeo na Holanda ela s vivia para a famlia dela. Num prximo testemunho, talvez Layse pudesse partilhar com seus amigos e leitores essa rica, difcil e singular experincia de dupla nacionalidade entre dois pases to distintos, diferentes e opostos, em muitos aspectos, e assemelhveis, em outras perspectivas, quanto o Brasil e a Holanda.Quando comeou a ocupao das faculdades em Belm, em 1968, eu j erareprter de A Provncia do Par no qual ingressei dois anos antes, aos 16 anos, quando estava no curso clssico do Colgio Estadual Paes de Carvalho, que ainda era um centro de formao da elite local e uma escola aberta ao povo, num modelo que j no existe mais ou raro no Brasil. Eu trabalhava pesado de

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11 dia na redao, cumprindo uma pauta enorme e diversicada, que inclua inclusive a ocupao. De dia eu ia s faculdades ocupadas na condio de jornalista. S noite e em alguns momentos especiais eu tambm aparecia de dia como militante. Num desses casos, foi porque camos por quase trs di as e trs noites preparando um documento sobre a reforma universitria a ser apresentado ao marechal Costa e Silva, que passaria por Belm como candidato presidncia da Repblica (no havia votao direta, restrita ao Congresso Nacional, mas o candidato circulava em campanha pelo pas como se buscasse o voto popular coisas da UDN castrense). O documento cou pronto pouco antes de irmos ao aeroporto para a entrega. O marechal recebeu, repassou a papelada a um assessor e seguiu. Depois fomos encontrar o nosso documento na lata de lixo do aeroporto. Mas no desanimvamos. Tnhamos a sensao de que amos mudar o mundo com aquela ocupao. Ainda mais ns, da Filosoa, comandados por uma lder na qual os atributos eram inversamente proporcionais. Ao menos a valentia e a capacidade de comando distribudos por metro e meio de altura. Diz o povo que os melhores perfumes esto nos menores frascos. E que a pessoa, quanto menor, mais braba (ou brava). Layse conrma a voxpopuli. Comandava mesmo. E tinha empatia com os seus liderados, como eu, que no sabia a que partido ela pertencia ou que ideologia professava. No importava mesmo. Fosse qual fosse o seu currculo, ela seria mesmo a nossa lder, por conquista natural. Eu recebia minhas tarefas e as cumpria, exceto nas madrugadas insones, que atravessvamos contando piadas, rindo, nos divertindo. Ainda no sabamos da frase de Guevara, mas no tnhamos dvida que no se podia perder a ternura jamais. A revoluo era utpica. Depois que o chumbo derretido se derramaria sobre todos ns. Nessa dispora manu militari, fui embora para So Paulo logo depois do AI-5 e perdi Layse de vista. Mas ela continuou na minha memria e no meu corao, como alvo de ternura e objeto de admirao. At hoje.Paulo Fonteles: de pai para filho O pai, Paulo Csar Fonteles de Lima, morreu assassinado, em junho de 1987. O lho, que levou o seu nome, quase 30 anos depois, morreu de causa natural no ltimo dia 26. A vida de Paulo, o pai, foi silenciada por trs balas, disparadas queima-roupa, quando ele tinha 39 anos, por um pistoleiro prossional,na sada de Belm. A de Paulinho foi abreviada por um infarto fulminante, aos 45 anos. O pai perdeu o mandato ao tentar passar de deputado estadual a federal. Com a derrota, tornou-se mais vulnervel.Seus poderosos inimigos se aproveitaram para se livrar de um advogado combativo e de um par lamentar atuante. Paulinho exerceu mandato de vereador de Belm e seguiu a trilha do pai, empunhando as mesmas bandeiras e causas, como militante do Partido Comunista do Brasil. Nascido na poca mais sombria da ditadura militar e sobrevivendo s torturas da me Hecilda, que o car regava no ventre e enfrentou todas as adversidades com bravura, Paulinho era um resistente. Tinha direito a mais tempo de vida e ao. Lamentavelmente, no teve esse direito de conquista. Paulinho deu continuidade trajetria do pai, pelo mesmo par tido, o PC do B, e pelas mesmas causas: a defesa dos direitos de minorias. A coerncia e a delidade aos mesmos princpios faziam do lho uma reproduo perfeita do pai, unio reforada pela dedicao de Paulinho ao cultivo da memria do pai e busca de informaes sobre o seu assassinato. Este jornal surgiu, trs meses depois do crime, para que essa histria casse registrada na for ma mais duradoura de arquivo: o da letra impressa em papel. A primeira edio do JP foi quase toda ocupada pelo relato da trama e da execuo do diligente advogado de posseiros, odiado por muitos fazendeiros do sul do Par. Foi preciso criar uma publicao nova para impedir que tantas informaes preciosas se perdessem no vcuo da omisso deliberada das autoridades pblicas e na desmemoria social. Este jornal foi o nico que identificou o verdadeiro mandante, um mineiro, Fabio Vieira Lopes, com fazenda em Xinguara e criao de cavalos na baixada fluminense, sor teado por seus pares do primeiro consrcio do crime organizado no meio rural paraense para cumprir a tarefa de eliminar um inimigo. Os pistoleiros usados no assassinato foram presos, depois liberados e mortos em queima de arquivo. O organizador do atentado, James Vita Lopes, foi condenado a 21 anos de priso e solto, depois de cumprir um tero da pena. Hoje, vive no interior de So Paulo. O mandante foi localizado, prestou depoimento Polcia Federal no Rio de Janeiro, saiu dizendo que iria buscar o documento que provaria sua inocncia diante da acusao de ser o dono do fusca usado pelos pistoleiros e nunca mais voltou nem foi procurado. O Jor nal Pessoal continuou a insistir na priso, inutilmente. A histria de Paulo Csar Fonteles de Lima, com essa lacuna essencial, continua em aberto. A do lho se encerrou, mas persistir na memria dos que o acompanharam pelo que fez e o que ainda faria.

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12 A diretoria da Assembleia Paraense caprichou para que o Baile das ores, de maio de 1953, fosse o mais brilhante dos que at ento foram realizados. Ao invs de ser realizado na sede do clube, na avenida Presidente Vargas, foi transferido para o Place Teatro, mais adiante, onde hoje est o hotel Princesa Lou (antigo Hilton). Alm de esperar maior presena de associados, o clube iria trazer, do Rio de Janeiro, famosos artistas e msicos exclusivos da Rdio Nacional, na poca uma emissora poderosa. Os profissionais iriam precisar de mais espao, insuficiente para tanta gente. O ponto alto do baile, que iria durar seis horas, das 10 da noite s quatro da madrugada, aconteceria s duas horas, com a escolha da Miss Primavera por um jri de doze senhoras escolhidas e noticadas durante a festa, para isoladamente e nos prprios lugares votarem uma hora depois. O neto, o advogado, escritor e jornalista Haroldo Maranho viria a lamentar a pena em forma de ltego do av, Paulo Maranho, que s vezes vergastava sem d nem piedade os inimigos, com propsito destrutivo. O lamento tinha razo de ser, em momentos em que o objetivo do grande jornalista, dono e alma da Folha do Norte era ofender. Como neste texto, de 1955 (sem assinatura, como quase sempre, mas com seu corrosivo estilo inspirado nos clssicos portugueses), contra seu maior adver srio, o caudilho Magalhes Barata (as fceis suscetibilidades de hoje se assustaro com o tom do libelo): Chegou e acha-se entre ns [Valdir] Bouhid, cujo nome um toque de clarim chamando os paraenses vigilncia [ele era acusado de corrupto]. Vem comer, desta vez, na gamela da Valorizao [a Superintendncia do Plano de Valorizao Econmica da Amaz nia a SPVEA, antecessora da Sudam ], onde a poltica lhe acomodou o focinho. Bouhid, quando c descarregou os ps a primeira vez, vinha em funo de um cargo federal. Barata chamou-os aos peitos: ou eele ou barata. E daqui a pouco era troo no Estado. At governador. De Bouhid, ao menos, j se conhecia a cara dura. Mas chegamos a ter representantes do nosso povo na Cmara Federal que nem sabia onde ca esta zona ubrrima de explorao e ali levados pela mo criminosa do Cucaracha [Barata ]. Bouhid, ao menos, d prazer Liga Faz menino. um pedao d1homem. Chegou tambm o Sr. Lameira Bittencourt. Veio, tangido pela saudade, rever o adorado chefe e dar cachimbadas pelos comcios. Em 1958, os belenses j conviviam com um fato novo em expanso pela cidade: os arranha-cus. Era uma moradia valorizada, mas incorporava alguns maus hbitos e costumes, como o de jogar objetos do alto dos apartamentos, registrava um cronista annimo do jor nal O Estado do Par: De um apartamento qualquer do Palcio do Rdio algum acabou por bem despejar na rua uma forma de geladeira. A chuva de cubas de gelo caiu daquelas alturas com o peso de mataces e um deles foi atingir, na esquina onde esperava um nibus, a uma senhora moradora das vizinhanas. A senhora sofreu um ferimento no crnio, mas no sabemos que providncias foram tomadas depois do fato. Regina Pesce anotou na sua coluna Sociedade, na Folha do Norte em 1960, uma nota que lhe deve ter sido sugerida por Haroldo Maranho, o dono da livraria, por ele instalada na galeria do Cinema de palet e gravata A chanchada, em 1960, atraa pblico suficiente para quatro sesses na estreia de filme do comediante Z Trindade (o inimigo da tristeza) no Cine Teatro Palcio, o mximo de luxo e conforto, a recomendar o traje passeio (palet e gravata), mas permitindo a roupa esporte. A era do cinema de rua acabou e agora as instalaes se transformaram em templo da Igreja Universal.

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13 Cine Palcio, com sada para a rua de Almeida: O Cnego pio Campos o melhor fregus da Livraria D. Quixote! Todos os dias o vemos naquela livraria, de onde sempre sai com um embrulhinho de livros. Alis, h quem pense que na D. Quixote existem venda somente obras de grande envergadura literria... Tolice: os romances mais populares podem ser ali adquiridos, assim como qualquer obra de co. S no se encontram, mesmo, romances de fancaria.... Em 1961 Alacid Nunes era major do Exrcito e diretor do Departamento de Segurana e Guarda do ento Territrio Federal do Amap, quando pediu polcia do Par que localizasse e prendesse um cidado que estava sendo procurado na sua rea de jurisdio. Trs anos depois, Alacid seria prefeito de Belm, nomeado, e, dois anos em seguida, governador do Par, pelo voto direto. Uma parte da histria recente da Amaznia, em especial do Par, deve estar arquivada no Japo, que acompanhou intensamente a regio e o Estado desde o incio do sculo passado, intensicando essa ateno no ps-guerra. Em 1965, por exemplo, uma equipe de sete tcnicos descendentes de japoneses passou por Belm depois de realizar uma viagem de observaes pela Belm-Braslia e fazer estudos sobre as possibilidades agropastoris da zona de conuncia dos rios Araguaia e Tocantins. Da turma que se formou em 1966 pela Escola de Teatro da Universidade Federal do Par faziam parte Nilza Feitosa, Lourdes negro, Rosa Martins Veloso, Elsie Soares e Walter Bandeira, que se tornaria mais famoso como cantor. docotidiano Em 1968, Pierre Beltrand (ou Ubiratan de Aguiar) trouxe Roberto Car los para se apresentar em Belm, no estdio do Clube do Remo, com o patrocnio de Cerpa Chopp, da recm-inaugurada Cerpasa. Em 1970, a Turma de Censura e Diverses Pblicas da Polcia Federal no Par scalizou, vistoriou ou liberou 939 videotapes. 19 novelas radiofnicas, 59 documentos, 1.416 programaes de emissoras de rdio, 708 de televiso, 3.222 festas e espetculos. Fez ainda scalizaes em 139 casas de diverses, aplicou 125 multas, preparou 1.976 chas, registrou 165 artistas, revalidou 85 cartes de registros de artistas, avaliou 29 documentrios realizados pela televiso, aprovou 51 letras de musica, 1.158 lmes exibidos em cinema e 2.935 lmes em TV. Fechou uma boate. A censura trabalhava ontra a liber dade de expresso. Ningum como Gilda No havia, em 1955, nenhuma mulher mais charmosa e bonita em Belm quanto a jovem Gilda Medeiros. Com sua classe, ela assinou autgrafos em plena madrugada, no aeroporto de Valde-Cans, para muita gente que foi receb-la. Ela acabara de chegar de um voo do Rio de Janeiro (na linha internacional da Real Aerovias). Foi capital da repblica representar o Par no concurso de Miss Brasil, ficando entre as cinco finalistas.

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14 Jornal Pessoal Editor: Lcio Flvio Pinto Contato: Rua Aristides Lobo, 871 Belm/PA CEP: 66.053-030 Fone: (091) 3241-7626 E-mail: lfpjor@uol.com.br Blog: http://lucioflaviopinto. wordpress.com Diagramao e ilustraes: Luiz Antonio de Faria Pinto E-mail luizpe54@hotmail.com JornalDesculpe o atraso, mas parabns pelos 30 anos de JP!! Todo numero importantssimo para seus leitores!! Sei que voc ca cansado s vezes, mas sem voc ser mais difcil entender o que acontece na Amaznia! Clarles R. Clement Manaus/AM c @ rtas ... A histria do Par no trao de LuizpLuiz Pinto, meu irmo e editor grfico deste jornal, relata neste texto a guerra que trava para fazer quadrinhos com temtica local em Belm. A primeira batalha, ele conseguiu vencer, produzindo uma verso original do Crio, j em quinta edio. A segunda, sobre a cabanagem, ele programa para concluir em 2018. Ganharemos muito se isso acontecer.Quando eu e Socorro, a mulher que me acompanha (e atura) h quase 30 anos, pensamos a histria em quadrinhos do Crio, seria para distribuio nas escolas do Estado. Inicialmente, a Secretaria de Cultura disponibilizou uma cota mensal, quando j estvamos no 4 ms, dos nove que durou o trabalho. Porm, essa verba no passou da segunda cota. Continuei desenhando assim mesmo e, quando as pginas j estavam quase nalizadas, a editora Ver (do Walbert Monteiro) topou encartar os quadrinhos na revista sobre o Crio 200 que ela lanaria naquele ano de 1993. As comemoraes do bicentenrio do Crio de Nazar foi o mote que nos levou a realizar a histria em quadrinhos. Eu nunca imaginaria fazer isso. Todo o meu esforo era pra fazer a histria em quadrinhos da Cabanagem. Pra isso havia lido quase tudo sobre o tema (inclusive, e principalmente, os Motins Polticos do Baro de Guajar). Muita iconograa da poca e da evoluo de Belm faziaM parte do meu arquivo. Fazer os quadrinhos da Cabanagem foi consequncia natural de dois momentos da minha vida que levaram ao largo das Mercs. Explico. Um primo mais velho, o Paulo Ivan, disse que quando eu tinha quatro anos fazia umas historinhas em quadrinhos. Dessa idade no lembro, mas l pelos meus 8/10 anos era eu que fazia as capas dos meus trabalhos de histria do primrio, usando as gravuras de Debret e Rugendas que copiava com lpis de cor. Disso eu lembro bem, mas no cou nenhuma pra comprovar o que penso da qualidade do trabalho. No ginsio j usava essa facilidade de desenhar pra faturar com os colegas. Foi o incio da prossionalizao. Histria sempre foi minha matria preferida. Foi nesse perodo da minha vida que comecei a tomar cincia que eu podia desenhar. O segundo momento foi em 1965, quando foi desmontado o reservatrio de gua Paes de Carvalho, ao lado da fbrica Palmeira (que tambm s sobrou o buraco) todo em ferro, que por mais de 50 anos foi um marco da cidade. Logo depois foi a demolio do Grande Hotel e as mudanas nos casares do Comrcio, que perdiam suas portas de madeira trabalhada por vos maiores com portas de enrolar de ferro. Essas coisas despertaram aminha ateno pra cidade, mudando a minha relao com ela. Isso foi pela adolescncia, sempre morando no entorno da Praa da Repblica. Meus desenhos dessa poca eram meio abstratos e de humor. At que, em uma madrugada do incio dos anos 1970, andando pelo bairro do Comrcio com uma trupe num tour histrico-arquitetnico (justamente discutindo essas mudanas que o bairro vinha sofrendo) chegamos ao largo das Mercs. A o Serginho Galvo, que infelizmente j se foi num salto para o cu h um tempo, disse que ali naquele cenrio, por trs dias, morreram umas 3 mil pessoas em combates de cabanos contra as tropas do Imprio. Foi um choque que me sacudiu. A partir da comecei a ler o que encontrava sobre o assunto. A biblioteca do Lcio foi a fonte principal dessa busca de tentar entender essa pororoca humana que devastou a Amaznia e deixou perplexo o Brasil da poca. Ento, dessa trade desenho, cidade e cabanagem, naturalmente veio a ideia de quadrinhar isso tudo. Mas s aconteceu no nal dos anos 1980, quando fazia charges e design grco. Desenhar uma histria em quadrinhos pra mim era coisa de louco. Eu tinha (e tenho) pavor de fazer! E foi o que aconteceu. Fiquei doidinho, pelo perodo de uma gestao, pra concluir o quadrinho do Crio. E fazer o Crio em quadrinhos foi a opo natural. As comemoraes pelos 200 anos, pensvamos, proporcionariam os aportes para a empreitada. Essa falta de experincia na captao de patrocnio acabou gerando um corre-corre que atrasou o trabalho. Na reta nal, com os prazos apertados, foi preciso redobrar os trabalhos. Passava dois, trs dias sem sair do escritrio em casa, desenhando. No nal os pulsos estavam inchados. Mas os quadrinhos saram encartados na revista. Isso era 1993. No ano seguinte ganhou revista prpria, com capa colorida.

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15 Em 2005 consegui uma bolsa para pesquisa no ento Instituto de Artes do Par para fazer os quadrinhos sobre a Cabanagem. Foram desenhadas a nanquim 20 pginas. Uma srie de problemas, inclusive de sade, me obrigaram a parar o trabalho. Hoje estou fazendo a histria em tempo real vou fazendo os dilogos e os desenhos sem um pr-roteiro, mais centrado na vida de Eduardo Angelim, como se fosse uma reportagem. S sei como comea e como termina, o resto vai no curso do rio. Aproveito pra falar um pouco sobre histria em quadrinhos. Contempornea do cinema, com linguagens que se entrelaam, hoje os quadrinhos sustentam a indstria do cinema e incorporam novo visual s pelculas. Assim como o cinema, os quadrinhos tm vrias categorias e produes, mas sem um bom roteiro nada se sustenta. No caso dos quadrinhos que me proponho a fazer, que o histrico, o trabalho mais rduo. Se virmos as sries que a Globo produz, como a recente Independncia ou Morte ou a novela Novo Mundo, de altssima qualidade, os crditos so parecidos com os do cinema. A vem roteiro, direo, produo, elenco, pesquisa, iluminao, gurino, cenrio, montagem etc. Pois bem, nos quadrinhos tem tudo isso, s que feito por uma s pessoa (o quadrinho de autor, o meu caso). A que est a maravilha da HQ: poder recriar o que passou, e criar um universo fantstico, extraordinrio (e muitas vezes inverossvel), contando apenas com um bom roteiro e desenhos em arte sequencial. Temos autores como Moebius, Robert Crumb, Hal Foster, Manara, Alex Raymond, Will Eisner e uma imensido de nomes entre os meus favoritos. As HQs esto na minha formao de cartunista, mas nunca fui de curtir super-heri. Na infncia gostava das edies especiais da Disney que contavam as viagens e aventuras do Tio Patinhas com os sobrinhos do Donald. Eram desenhos magistrais, cartoon da melhor qualidade. Havia tambm Os Sobrinhos do Capito, As Aventuras de TinTin. Na adolescncia vieram os heris vulnerveis: Prncipe Valente, Tarzan, Fantasma, Batman e outros. Esse negcio de voar e aparar balas no me atraia, preferia o crvel, o mais prximo do real. O meu preferido viria depois: Conan, o Brbaro, desenhado pelo Buscema. Em 2011 surgiu a oportunidade de, atravs da rea de turismo do governo do Estado, lanar a histria do Crio em quadrinhos em cores e com mais qualidade. Usei o computador e, com o mouse no Photoshop, colori tudinho. Hoje, j trabalhando num tablet e usando caneta ptica, at eu duvido que tenha feito essa loucura. Foi a terceira edio. A quarta veio em 2014, e a quinta este ano, ambas editadas pelo Estado. Este ano, tambm, foi lanada uma edio especial com a chancela da Arquidiocese de H, no Museu do Vaticano, uma sala ocupada por grandes telas de Rubens. Foram pintadas sob o olhar rigoroso de um papa. Rubens se sujeitou superviso inquisitorial da autoridade eclesistica. Mas no reprimiu de todo o seu esprito rebelde. Olhando com mais ateno cada uma das obras, julguei ter percebido a insubmisso do grande artista amengo nos animais que aparecem nas telas, mais humanos na sua expresso singela do que os propriamente humanos. Elementos usados para a fuga de uma rigidez esttica, moral e mesmo poltica. Os animais tm essa forma de presena nas fotograas de Elza Lima, reunidas na Coleo Ipisis de Fotograa Brasileira, publicada em 2016, em formato menor de lbum. S que na composio de Elza animais e pessoas esto em harmonia, se complementam, compem o quadro das regies interioranas que ela fotografou. Suas fotos tm a plasticidade de pinturas, mas sugerem um movimento onrico, como se captassem um momento de um lme. A maioria das fotos de poses. Mesmo quando ela registra movimentos, eles parecem sincronizados, como se as pessoas agradas tivessem combinado a posio individual que ocuparam e a interligao com as outras pessoas na cena. O resultado uma sensao difana e intensa ao mesmo tempo, a expresso dos que posam e a presena da artista que os transportar para uma obra de arte. O lbum de Elza Lima uma preciosa obra de arte. Belm, dos Padres Barnabitas e daDiretoria da Festa, graas ao empenho do Marco Barros, que fez a edio. Para isso foi preciso retirar as polmicas que envolvem a histria do Crio. Foi necessria outra diagramao e incluso de novos quadrinhos. Ficou uma edio com mais nfase no aspecto religioso, mas sem prejuzo do roteiro original. Com esta edio, nalmente chegamos s escolas. O Marco Barros organizou o lanamento com palestras e venda autografada. Tive contato com os alunos, que se mostraram bem curiosos com o trabalho e zeram vrias perguntas sobre o tema. So mais interessados que os adultos, o que bem natural. Isso s vem comprovar o quanto as HQs so um instrumento que muito pode contribuir para a educao (principalmente no entendimento da nossa Histria). Aps o lanamento dos quadrinhos sobre a Cabanagem (at meados de 2018), gostaria muito de fazer uma HQ contando a evoluo de Belm, desde a fundao at aos dias atuais, ou como livro ilustrado. Vou sempre achar que no estou pronto pra desenhar quadrinhos, mas continuo fazendo o possvel pra tentar acertar.

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O mistrio do assalto ao genro do governadorO Mirai Oce um sosticado edifcio de escritrios no Umarizal, um dos bairros nobres de Belm, prximo Doca de Souza Franco. Na madrugada da procisso do Crio de Nazar, no dia 8, sete homens o invadiram para praticar um dos mais audaciosos assaltos j registrados na capital paraense. Depois de render os dois vigilantes do prdio e mais um que chegou depois, com o acionamento do sistema de segurana, eles tiveram sua disposio as 378 salas existentes na construo. Escolheram apenas 17 delas para assaltar, numa meticulosa operao, que durou sete horas, sem qualquer contratempo. Poderiam ter sado sem maior alarde se no tivessem arrombado uma sala, ocupada por Ricardo Souza, marido de Izabela Jatene, lha do governador Simo Jatene. Na verso ociosa da polcia, o bando visava as quatro salas da Oi, onde havia dois cofres. Mas s a do genro do governador tinha porta blindada. Como os assaltantes carregavam instrumentos prprios para cortar o ao da blindagem (muito mais adequados para esse m do que para arrombar cofre), logo circulou a informao de que eles teriam retirado seis milhes, na primeira verso, ou trs milhes de reais, na nova infor mao divulgada com exclusividade pelo Dirio do Par supostamente com base em informaes condenciais da prpria polcia. Oficialmente, o escritrio seria de uma firma de representao comercial de Ricardo Souza, que tambm funcionrio (no concursado) do Tribunal de Contas dos Municpios. O jornal do senador Jader Barbalho, adversrio de Jatene, sugeriu que poderia ser um local de negociao poltica. Uma fonte ligada ao governo do Estado tratou de tentar esclarecer os fatos. Os assaltantes no teriam visado inicialmente o escritrio do genro do governador. Seu objetivo seriam as quatro salas da Oi. Um operrio de obra que ali estava em curso informou os assaltantes que o escritrio tinha dois cofres, sinal de guardar coisas de valor, inclusive dinheiro. Ao vericar que o butim era magro (sairam apenas com 87 mil reais e alguns objetos de valor), os assaltantes questionaram o informante, que lhes apontou o escritrio de Ricardo. Como estavam com equipamentos para cor tar os cofres, eles os usaram contra a porta blindada do escritrio. O prprio Ricardo relatou o que foi obtido pelos ladres em sua sala. Atribuiu o valor de seis ou trs milhes de reais a uma inveno do grupo de comunicao dos Barbalho para atingir seu sogro. O poder de convencimento dessa explicao foi afetado pelo compor tamento do jornal que d apoio irrestrito ao governo. No primeiro dia da cobertura do assalto, tanto O Liberal quanto o Dirio do Par deram a notcia na sua primeira pgina. O jornal dos Barbalho acompanhou o assunto, mas ele desapareceu do jornal da famlia Maiorana. Menos de um dia aps o assalto, a polcia prendeu o primeiro dos integrantes da quadrilha e garantiu que a priso dos demais seria questo de horas. O preso, s 18h30 do dia 9, foi Welson Irlon Gurjo da Silva, morador do conjunto do Paar, em Ananindeua. Estranhamente, O Liberal se manteve em silncio. Sua primeira e at ento, nica matria a respeito saiu com destaque na pgina de polcia, com chamada na capa. Chegou a se referir a algo em torno de R$ 6 milhes como o valor arrecadado pelo bando. Atribuiu a informao ao delegado Ricardo do Rosrio, da Diviso de Represso ao Crime Organizado, que cou encarregado da investigao. O delegado no pde mais falar porque o caso se tornou de sigilo absoluto. Sob a justicativa de no atrapalhar as investigaes, embora a polcia tenha deixado claro que j identicou todos os assaltantes. O Liberal se referiu inicialmente ao mesmo valor noticiado pelo Di rio do Par sem, no entanto, relacionar o dinheiro ao genro do gover nador Simo Jatene, Ricardo Souza, Ele imediatamente anunciou que iria processar o jornal da famlia Barbalho, atacando-o com violncia atravs do seu facebook. No dia seguinte, o Dirio j sem identicar a fonte da sua informao, passou a se referir a R$ 3 milhes, j no mais relacionando o dinheiro apenas ao esposo de Izabela Jatene, que secretria extraordinria de municpios sustentveis no governo do pai, cargo que Jatene criou para ser ocupado pela lha. O valor teria sido recolhido dos 17 escritrios que foram arrombados pela quadrilha. O jornal, que teve acesso ao boletim de ocorrncia do assalto, lavrado na noite do dia 9, descreveu os equipamentos usados pelos sete homens, alm de pistolas, para os arrombamentos: uma cortadeiragrande, 30 discos de corte, duas furadeiras, 17 varas de solda, uma marreta, alicates, um cilindro de oxignio, 20 discos de maquita e outras ferramentas. arsenal muito maior do que se eles visassem apenas os dois cofres nas quatro salas da Oi. O Liberal interrompeu o seu jejum e s voltou a publicar matria sobre o assalto pra anunciar os resultados da ao da polcia civil do Estado, comunicados em entrevista coletiva imprensa. Com a apresentao de resultados concretos, as autoridades da segurana pblica conrmaram a ver so apresentada por Ricardo Souza. o m da histria? Pelo menos a imprensa no voltou mais ao assunto.